IDADE MÍDIA

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IDADE MÍDIA


OUTROS TÍTULOS DE COMUNICAÇÃO ENOVAS MÍDIAS PUBLICADOS PELA ALEPH:H JCultura da ConvergênciaJ B J GYouTube e a Revolução DigitalG MCChief Culture Oficer


Alexandre Le Voci SayadIDADE MÍDIAA comunicação reinventada na escolaPrefácio de Gilberto DimensteinCOLABORAÇÃODaniela MoreiraFernando RossettiIsmar de Oliveira SoaresMarina ConsolmagnoSérgio RizzoSylvio Ayala


Copyright © Alexandre Le Voci Sayad, 2011Copyright © Editora Aleph, 2011LivroCAPA Oliver QuintoFOTO DA CAPA Eddu Ferraccioli/REPENSEPESQUISA E ENTREVISTAS Caio Dib de SeixasCOPIDESQUE Débora Dutra VieiraREVISÃO Hebe Ester LucasPROJETO GRÁFICO Neide SiqueiraEDITORAÇÃO Join BureauCOORDENAÇÃO EDITORIAL Débora Dutra VieiraMarcos Fernando de Barros LimaDIREÇÃO EDITORIAL Adriano Fromer PiazziBlog(http://livroidademidia.colband.blog.br)DIREÇÃO Alexandre Le Voci SayadEDIÇÃO Caio Dib de SeixasREPORTAGENS Caio Dib de SeixasJulia GriebelTECNOLOGIA Fabio GondoTodos os direitos reservados.Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios.EDITORA ALEPH LTDA.Rua João Moura, 39705412-001 – São Paulo – SP – BrasilTel: [55 11] 3743-3202Fax: [55 11] 3743-3263www.editoraaleph.com.brDados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)Sayad, Alexandre Le VociIdade mídia : a comunicação reinventada na escola / Alexandre Le VociSayad ; prefácio de Gilberto Dimenstein. – São Paulo : Aleph, 2011.Vários colaboradores.ISBN 978-85-7657-119-31. Comunicação na educação 2. Reforma de ensino – Brasil I. Dimenstein,Gilberto. II. Título.11-13310 CDD-371.1022Índices para catálogo sistemático:1. Comunicação na educação 371.10222. Educomunicação 371.1022


Este livro é fruto de um trabalho de dez anos, que se passaram comodez minutos. Dizem que isso acontece quando as coisas andam bem.Ou quando você envelhece. No caso, os dois.Esta conquista educativa, que impactou a vida de tantos estudantes,se deve muito à ousadia de Gilberto Dimenstein e Mauro Aguiar, inspiraçõesno campo da amizade e referências no trabalho.Deve-se também ao esforço diário e à generosidade de MarinaConsolmagno, Pedro Fregoneze, Emerson Bento Pereira, Ricardo Aguirre,Ricardo Birrer e Vanessa Crepaldi, a quem agradeço profundamente e dedicoeste trabalho.Num tempo passado, semente das raízes do que faço hoje, impossívelme esquecer de Aléssio Toni e Laura Góes, que me izeram acreditar quetinha algum talento, publicaram meus primeiros textos e me apresentaramo “encanto da possibilidade”. Inesquecíveis são também Percy da Silva eMichel Metzger, que me ensinaram a gostar mais de literatura, de escrevere a aproveitar melhor a tecnologia.Pelo tempo existencial (kairós) e paciência pedagógica, a VanessaBrandão. Por ter “segurado a onda” quando foi preciso, a Cassiano Pimentel.E, especialmente, ofereço cada palavra deste livro a todos os estudantesdo Idade Mídia, que são os donos da bola e do projeto e que, sobretudo,ousaram ser tolos junto comigo.


SUMÁRIOParte 1 APRESENTAÇÃO ....................................................... 13Prefácio: A comunicação como inovação na escolaGilberto Dimenstein . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15Por que fazer comunicação na escola? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19Parte 2 CENÁRIOS ................................................................. 27Para além da leitura crítica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29O permanente im do mundo como o conhecemos . . . . . . . . . . . . . . . . . 37O Idade Mídia por Fernando Rossetti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69Parte 3 METODOLOGIA .......................................................... 71O DNA do Idade Mídia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73Comunicação e educação: namoro centenário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87O Idade Mídia por Ismar de Oliveira Soares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93Desmitiicando o processo educativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99Modelos de não aulas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117O Idade Mídia por Sérgio Rizzo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120O Idade Mídia por Sylvio Ayala . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132Dez anos em revistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137


10IDADE MÍDIAParte 4 PERSONAGENS ......................................................... 179O Idade Mídia por Marina Consolmagno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 181Uma rede de pessoas e ações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189Comunico, logo existo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195Parte 5 POLÍTICAS PÚBLICAS ............................................... 247Por uma educação pública que entenda o jovem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249O Idade Mídia por Daniela Moreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255APÊNDICES .............................................................................. 259Comunicação e educação em todo o mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261Bibliograia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269


IDADE MÍDIA


PARTE 1APRESENTAÇÃOTyler Cowen, um renomado economista e professor da George Mason University,blogueiro, autor do Marginal Revolution e articulista do The New YorkTimes, certa vez disse que ficava desapontado se os alunos não utilizassem oTwitter durante suas aulas:“Isso quer dizer que não falei nadaque merecesse registro”.


PREFÁCIOA COMUNICAÇÃO COMOINOVAÇÃO NA ESCOLAPor Gilberto DimensteinIdade Mídia é resultado de um laboratório desenvolvido durante anos noColégio Bandeirantes, mostrando como as linguagens da comunicação eda educação impactam a aprendizagem. Este é daqueles livros que vãoservir como referência na produção da inovação da comunicação dentro efora da escola.Em todo esse período, duzentos alunos participaram desse projeto,produzindo, por meio das mais diferentes experiências, comunicação voltadaao seu cotidiano, mas dentro do contexto escolar. É tempo suicientepara avaliar não só o efeito no curto prazo, reletido na relação do alunocom a escola, mas, especialmente (o que é mais relevante), a geração dehabilidades que servem para o resto da vida.Responsável pelo condução do Idade Mídia, Alexandre Sayad é o quese chama de “educomunicador”, uma proissão quase desconhecida, mascom um futuro garantido. É alguém que usa os recursos da comunicaçãopara educar. Ou que usa os recursos da educação para comunicar. No Brasil,contam-se nos dedos os proissionais com essa vocação, uma aptidão desenvolvidapor Alexandre desde os tempos em que participou como um dosfundadores da Cidade Escola Aprendiz, uma organização nascida em 1997,em São Paulo, inspirada em uma experiência digital do uso da internet paraa cidadania.Quando o Idade Mídia surgiu, assumido pela direção da escola – nocaso, com entusiasmo pessoal de seu principal executivo, Mauro Aguiar –,a internet ainda engatinhava em nosso país. Pouco se falava de banda larga,que, se já não é acessível hoje, imagine há dez anos. Não existia nem sombra


16IDADE MÍDIAde redes sociais como Facebook, YouTube, Twitter ou Linkedin. Blogs estavamcomeçando a virar moda, transformando em comunicador o mais simplescidadão.Mas já se falava (e muito) da necessidade de reciclar o currículo escolartradicional, desligado do cotidiano, sem apelo, apresentado muitasvezes apenas como um instrumento para fazer as provas e, depois, passarno vestibular. Também já se falava que o papel da escola era preparar nãoapenas para o trabalho, mas para uma vida de aprendizagem permanente.O mercado de trabalho é, ainal, um constante vestibular.Os educadores mais antenados sabiam que o currículo deveria maisser focado no cotidiano para que as disciplinas izessem sentido, abrindoespaço para eixos multi e interdisciplinares. Várias matérias cruzadas ajudariama despertar mais curiosidade e, no inal, mais funcionalidade.Sabíamos que aquele ensino baseado na “decoreba”, dividido emcompartimentos, estava com os dias contados, só faltava o funeral. A era daaprendizagem permanente implica a geração de uma série de habilidadesque não se casa com aquele tipo convencional de escola, ainal exige-seinovação contínua, rapidez na associação de informação, capacidade desíntese, autonomia para aprender.O que não se sabia era como as novas tecnologias iriam produzirplataformas interativas e colaborativas desconhecidas na história da produçãodo conhecimento. Desmontaram-se hierarquias e processos secularesde intermediação de informação. Os jornais viram seus leitoresdesaparecerem ou obterem notícias das mais diversas fontes. Nunca seproduziu tanta informação ao mesmo tempo e, por consequência, tantadesorientação. Assim como os meios de comunicação, as escolas viram-seno meio desse bombardeio.Com a interatividade, surgiu um novo protagonismo: o indivíduo nãoquer apenas receber, quer compartilhar. Quer comunicar.É nesse ambiente que o Idade Mídia apresenta uma série de respostas,trabalhando com o cotidiano e usando a comunicação para retratá--lo; fazendo dessa busca um meio de estabelecer relações com o que seaprende em sala de aula. E mais. Fazendo do estudante um produtor deconhecimento, um coautor; afinal, cada projeto equivale à produção deuma revista.


A COMUNICAÇÃO COMO INOVAÇÃO NA ESCOLA 17O que está escrito aqui não é apenas uma teoria, mas o relato de umaexperiência, com nome e cara, assentada numa visão de aprendizagem.Mistura-se o vivo tom da reportagem com o olhar pedagógico.O resultado certamente mostrará aos educadores como o uso da comunicaçãona escola garante ao estudante o bem mais precioso da aprendizagem:a autonomia de aprender e a crença na capacidade de realizar.Gilberto Dimenstein é jornalista, membro do conselho editorial da Folha deS. Paulo e comentarista da rádio CBN . É fundador da ONG Cidade Escola Aprendiz(www.cidadeescolaaprendiz.org.br) e da plataforma on-line Catraca Livre(www.catracalivre.com.br).


POR QUE FAZERCOMUNICAÇÃO NA ESCOLA?Dez anos são uma vida de relexões, experimentações e, sobretudo,histórias. Este livro se propõe a, ou pelo menos se esforça para, contarcomo um curso que mistura comunicação e educação tornou-separte importante da existência dos quase duzentos jovens que o vivenciaram,e também como ele se recriou constantemente, tentando acompanhartodas as novidades que a educação e a cultura impuseram em uma década.De certa forma, revela como o Idade Mídia assimilou o eterno desaio decolocar a educação no ritmo das transformações da sociedade.O entusiasmo juvenil com que eu e a professora Marina Consolmagno– e, no primeiro momento, também as professoras Clarice Kelbert (in memoriam)e Cândida Gancho – nos debruçamos sobre a possibilidade demontar um curso que preparasse os jovens não só para o consumo da mídiade massa, mas que também potencializasse sua capacidade de criação decanais alternativos, foi determinante para que o Idade Mídia completassedez anos vivo, bem e atuante.Num esforço de memória, percebo que tudo poderia se resumir auma labuta diária, e a uma constante ousadia, para revirar os paradigmasda educação tradicional de ponta-cabeça. Para alguns, esse processo é compreendidocomo experimentação. Para outros, mais identiicados com planose estratégias bem deinidas, é risco. E para aqueles que reverenciam opassado, trata-se de pura maluquice.Mas foi justamente experimentando sempre que conseguimos sacudiro aprendizado e torná-lo cada vez mais importante e signiicativo paraaqueles a quem ele se destina: os jovens. Estes, sim, são os responsáveis


20IDADE MÍDIApor fazer o Idade Mídia durar e consolidar-se como pioneiro em sua áreaentre os colégios de São Paulo; por mantê-lo vivo. E manter-se vivo signiica,para o projeto, manter-se sempre desejado nos corações e mentes dos estudantes(daí a inspiração para a epígrafe desta primeira parte do livro).Essa história desenhou-se permanentemente interpelada por barreirase desaios. O primeiro, dos grandes, que encarei quando assumi oIdade Mídia, foi minha própria idade. Então com 25 anos, me vi frente auma turma de estudantes, na mais soisticada escola de São Paulo, ávidapor algo que nem eu mesmo sabia o quê.Trabalhar com comunicação junto a jovens era um tema familiar, masnão no ensino formal. Eu já havia dado o pontapé inicial e ajudava a pensaruma organização importante na educação não formal, a Cidade EscolaAprendiz. Ou seja, tinha alguma vivência na área; lia muito sobre o tema,era curioso e destemidamente ousado – características da minha própriajuventude à época.Poderia começar aqui um belo romance épico sobre o nascimento doIdade Mídia no Colégio Bandeirantes. Mas, revirando minhas recordações,a história verdadeira mais se parece com um ilme roteirizado por WoodyAllen e dirigido por Win Wenders. Cômica, com grandes lacunas de silêncio,e sempre em busca de signiicado.Foi numa segunda-feira, após um feriado de Páscoa, em 2002, que ojornalista e amigo Gilberto Dimenstein, sem mesmo me dizer “alô”, pontuouao telefone: “É hoje, hein!”. A frase navegou a esmo na minha mente procurandosigniicado ou outra sentença que pudesses completá-la, mas foi em vão.Segundo me relatou, anos depois, ele teria previamente me avisadoda possibilidade de implementação de um curso de comunicação no ColégioBandeirantes. Não que eu me lembre. Nas camadas da cebola que descascoem minha memória, fui chamado uma hora antes a assumir uma aula sobrea qual fazia pouca ideia do que tratar. Posteriormente, soube que o cursohavia sido demandado por um grupo de estudantes, entre eles a hoje jornalistaAna Luisa Westphalen, que participou da turma inaugural.Pode parecer errado admitir que o imprevisto deva fazer parte douniverso da escola, mas o fato é que faz – e pretendo mostrar que isso podeajudar a educação.A indelével linha tênue entre o destino que construímos e o acasoque nos é oferecido fez parte do meu percurso até chegar ao Bandeirantes:fui um estudante de jornalismo mais propenso a largar tudo pela psicologia


POR QUE FAZER COMUNICAÇÃO NA ESCOLA? 21e um apaixonado pela educação. Proissionalmente, comecei a “cobrir” aárea de educação (pouco desenvolvida no Brasil) para grandes veículos deimprensa e alguns especializados, além de trabalhar para escolas particularesna área de relações públicas.Após ter dado um ano sabático a mim mesmo, morando em Londrese Roma, e ter conhecido a rede mais a fundo, é que voltei com a impressãode que a comunicação e a educação tinham uma natureza comum, emborapouco se misturassem no cotidiano. Foi quando conheci Dimenstein,em meu retorno ao Brasil.Ele, recém-cegado de Nova York, experimentava o que de mais avançadohavia na educação comunitária, iniciando os trabalhos na Cidade EscolaAprendiz. E me chamou para fazer parte desse grupo desbravador. Foiquando percebi que não precisava abandonar o jornalismo para ser atuantena educação. O marasmo das redações não era a única possibilidade detrabalho.A partir de então, conheci pessoas que me guiaram ora para um trabalhojornalístico qualiicado em educação, ora para um trabalho educativocom base na comunicação.É preciso coragem para admitir que o Idade Mídia nasceu dessesusto, e de uma folha quase em branco. Mas desenvolveu-se graças ao empenhode proissionais que pesquisavam, estudavam e, sobretudo, estavamantenados com o que de mais contemporâneo havia no mundo na área daeducação para a mídia.O telefonema caótico de Dimenstein ganhou sentido para mim e parao Idade Mídia com o passar dos anos, quando pude perceber duas questõescruciais: a importância de o projeto ter nascido no Colégio Bandeirantes– e entender por que ele é, de fato, a instituição mais soisticada do Brasil – ea diferença que o curso pode fazer na vida de muitas pessoas.Uma dessas percepções ocorreu-me num sábado ensolarado de maiode 2008, quando começava a folhear a revista Época, aproveitando a luzlímpida do outono.A reportagem de capa, que apresentava os oitenta melhores blogs detodos os tempos, de imediato me chamou a atenção. Os blogs eram entãoas vedetes do momento – e nas páginas do semanário desilavam os diáriosvirtuais de proissionais tarimbados como Marcelo Tas e Ricardo Noblat,cheios de ironias sobre a vida provinciana de Brasília e de bom humorsobre as mazelas da tecnologia.


22IDADE MÍDIAMas um nome em particular destacou-se quase que automaticamentedaquele ranking: Stefano Azevedo. Sim, o ex-aluno do Idade Mídia, Stefano,então com 20 anos, tinha um blog entre os oitenta melhores do mundosegundo a revista Época.Nesse momento, e acredito que somente nele, tudo em que eu apostavae cria sobre o Idade Mídia pareceu se cristalizar: um aluno medianoO garoto e os hipopótamos“Você pode desenhar para mim um hipopótamo?”.Pode soar estranho, mas com essa pergunta o estudante de jornalismo Stefano Azevedoconseguiu desenhos de Win Wenders, Paulo Maluf, Alice Braga e David Lynch, entremuitos outros. Criou um blog, o Hipopótamo Zine, com um vasto acervo. E o principal:com apenas 20 anos, entrou para a lista dos oitenta blogs imperdíveis da internet, elaboradapela revista Época – atrás dele, ficaram jornalistas e blogs consagrados, como ode Ricardo Noblat.Mais que rabiscos, Stefano conseguiu com seu trabalho uma diversidade de olharessobre o mundo – de expressões. “Não há desenhos belos ou feios; os traços passamingenuidade muitas vezes, realismo em outras”, contou. A história de vida do estudanteprovoca reflexões importantes acerca do ensino formal, da relação entre a educaçãoe as mídias e dos valores de uma juventude que acha o mundo careta demais.A relação de Stefano com a mídia começou pela curiosidade em fuçar os recursos dainternet e ganhou força ao participar de um projeto em educomunicação, entre outroscursos considerados extracurriculares pelo ensino formal. “Comunicar é difícil. Quempensa que é fácil, que é como respirar, está enganado”, provoca.Para ele, a comunicação passa hoje pela reinvenção da linguagem e do conteúdo.“Fazer comunicação não é repetir o que está aí; é recriar a linguagem, é fazer arte mesmo.Vejo experiências interessantes no YouTube quando se tenta reinventar a televisão,e não reproduzi-la. Para mim, o Hipopótamo Zine não deixa de ser um site de fotojornalismo”,completa, para espanto até mesmo deste colunista, que foi seu professor.Por trás de uma mente criativa, empreendedora e, principalmente, repensadora comoa de Stefano, há um estudante mediano de escola básica. Ele passou pelas melhoresinstituições privadas de São Paulo, mas nunca adaptou-se bem à grade formal, à corre-


POR QUE FAZER COMUNICAÇÃO NA ESCOLA? 23do colégio, provocador, às vezes agressivo, ocupava a capa de uma revistasemanal importante. E para complicar: mantendo um blog que reunia desenhosde hipopótamos feitos por celebridades.Duas questões importantes pairavam sobre a minha cabeça comodois urubus. Primeira: será que, de alguma maneira, o garoto achara sentidonaquilo que ele desprezava: a escola? Segundo: por que esse blog foi consideradoum dos melhores do mundo?ria do vestibular e mesmo à disciplina. “Gostava muito das escolas. Adoro o conhecimento.Amo ciências e coleciono livros de biologia até hoje. Mas sempre me mantivealheio às questões do vestibular, a contragosto de pais e professores, e no ensino fundamentalera um solitário”, contou, meio sem jeito.Foi em uma dessas escolas que Stefano iniciou sua obsessão por desenhos de animais.No jornal do grêmio (outro importante espaço de criação para ele), mantinha umacoluna que incentivava professores e estudantes a desenharem um porquinho – umsucesso quando o jornal começava a circular. Em outra, o Horóscopo do Macarrão, oirônico estudante relacionava características dos signos do zodíaco aos diferentes tiposde massa – fusili, spaguetti, penne etc.Com uma trajetória inusitada e irregular na sua formação, Stefano estuda hoje naUSP. E tem todas as qualidades para circular por qualquer área profissional e artísticaque desejar – entrar e sair livremente –, porque, o que de fato foi construído no seuprocesso educativo, foi uma identidade própria e uma maneira peculiar e muito profundade ver o mundo.Eu pensava que não me surpreenderia mais durante o bate-papo informal que deuorigem a esta coluna, até Stefano mencionar seus planos. Um documentário sobre avida de Mendel, pai da genética, está entre eles. “Gregor Mendel era um plantador deervilhas e, por isso, descobriu o código genético. Tem história mais interessante queessa?”, indagou.“Para mim, só mesmo a sua”, respondi.(Publicado no portal Aprendiz)– PS: Do Hipopótamo Zine (http://hipopotamozine.blogspot.com), Stefano evoluiu para o Vidrinho(http://www.vidrinho.com.br)


24IDADE MÍDIANão tardou para eu pedir a Stefano uma entrevista e escrever umacoluna que gerou polêmica na mesma medida em que foi bem recebida. Otexto resume bem o que o curso signiicou para a vida de um outsider comoele – que hoje trabalha com sucesso em muitas frentes, sendo a televisãouma delas.A última do garoto blogueiro já não me surpreendeu tanto: ele apareceuem cena do premiado documentário José e Pilar (de Miguel GonçalvesMendes) interpelando ninguém menos que o prêmio Nobel deLiteratura José Saramago, em busca de mais um desenho para sua coleçãode hipopótamos.O sucesso de Stefano está ligado a uma cadeia incontrolável de fatosque começa anos atrás, impulsionada pela tecnologia e pela luidez comque as informações trafegam hoje no mundo e impactam a vida nas sociedades;uma mudança que desaia a educação, e as pessoas que dela fazemparte, a ser suicientemente corajosa para lidar com esse cenário.Outro elo dessa sucessão de eventos que justiica simbolicamente aexistência do Idade Mídia, este de caráter global, foi a catarse coletiva resultanteda queda das torres gêmeas, na tragédia do World Trade Center. Ofato de assistirmos àquilo em tempo real, via ou mesmo internet, e deacompanharmos seus desdobramentos na velocidade em que aconteciam,fez-me sentir na pele o que Marshall MacLuhan deiniu em palavras: a aldeiaglobal. O atentado fez da mídia uma arma capaz de nos ferir mais queos próprios aviões; e a Al Qaeda sabia disso. Por outro lado, a exposiçãomidiática serviu de alerta para o mundo repensar a economia, a política etambém a educação.E é esse cenário globalizado, luido e conectado que contextualizaeste livro, e é por meio dele que procurei explicar como uma ideia bemdesenvolvida tornou-se um curso desejado, muito imitado e inspirador deexperiências na educação pública e privada.O nome do projeto nasceu de uma brincadeira inspirada nos estudosdo escritor italiano Umberto Eco, em seus textos que unem o conhecimentoeclesiástico – e de certa maneira sombrio – da Idade Média à sua antítese,a época atual, em que a informação virou commodity, em que o excesso deluz (e não a falta dela) é que atrapalha a construção de conhecimento. Vivemosnuma “Las Vegas” da informação. Vivemos a Idade Mídia.Mas as páginas que se seguem vão além da etimologia e da conceituaçãode termos; o livro desenvolve e apresenta a metodologia aplicada e o


POR QUE FAZER COMUNICAÇÃO NA ESCOLA? 25dia a dia do curso, seus valores, objetivos, desdobramentos, diiculdadese vitórias.Não foram esquecidos aqueles que compuseram o que chamo de“Rede Idade Mídia”: uma estrutura não hierárquica e não linear de pessoasdas mais diversas origens e formações que ajudaram a enriquecer o aspectomais importante do projeto: a diversidade de olhares e participações. Meupapel de educador nesses anos todos pode ser resumido em moderar oacesso dos estudantes ao mundo por intermédio desses proissionais, quehoje somam mais de cinquenta.Alguns deles participam do livro escrevendo sobre a importânciado curso e contribuem com seu olhar particular sobre o mesmo. Essestextos pessoais, além de enriquecer, ajudam a dar um caráter mais livreao trabalho.Quando imaginei sistematizar a experiência do Idade Mídia, de imediatopensei num livro sobre educação de que todos gostassem, não somenteos educadores. Este é o desaio: abrir a experiência de forma rica,fundamentada, mas também divertida e prazerosa. Uma obra acadêmicaque acabou por render-se à vontade de ser compreendida de maneira maisampla, um ímpeto jornalístico. Um livro que segue o ritmo de um ensaio--crônica, recurso muito comum em publicações norte-americanas e raropor aqui.Não obstante as inúmeras pessoas citadas nesta apresentação, e asoutras tantas que virão a seguir, não foi esquecido quem realmente direcionou,qualiicou, atuou e foi a verdadeira razão de ser do projeto (e esteé, de fato, um diferencial): o estudante. Dentre os mais de duzentos alunosque passaram pelo curso (compondo também a “Rede Idade Mídia”), vi-meobrigado a selecionar alguns nomes para compor o livro e outros para contarsuas maravilhosas histórias no blog que o complementa, estabelecendouma verdadeira experiência transmídia. Mas todos eles são, literalmente,os donos da bola.No grupo Idade Mídia, que mantemos na rede social Facebook, osjovens ajudaram também a direcionar os caminhos deste trabalho conformeele foi sendo produzido.Uma importante questão semântica: quando me refiro a jovem oua adolescente, não adoto a convenção do – Estatuto da Criança e Adolescente,que considera adolescência e juventude períodos etários distintos.Neste livro, os dois termos identificam os estudantes que cursam o


26IDADE MÍDIAensino médio, foco do Idade Mídia, e aqueles que adentraram à universidade,indistintamente.Por im, me esforcei também para reunir um vasto acervo acadêmicoe de material de qualidade na internet sobre experiências que aproximamo universo da educação e o da comunicação, sempre com um olhar cidadãoe social. Práticas que inspiram e embasam o trabalho do Idade Mídia. Epodem assim inspirar outras.Em suma, o livro não foi feito para manter-se fechado, causandoainda mais confusão nas prateleiras. Nasceu para ser lido e aproveitado.Por isso, e também para provocar, evitei responder agora a pergunta-títulodesta apresentação. Espero, sim, conseguir fazê-lo até o im da leitura: ummergulho no universo da comunicação e da educação e na importância dese garantir ao estudante o direito de se expressar.


PARTE 2CENÁRIOSAntes mesmo da internet, o arquiteto norte-americano Richard Wurman jáhavia criado o conceito de hipertexto, em que informações saltavam aos olhosde quem observava uma imagem. Em seus guias Access – mapas que mais separecem com infográficos –, janelas se abriam em 3D contendo mais informaçõessobre determinado local da cidade ma peada – isso tudo ainda em papel.Logo Wurman se descobriu mais comunicador do que arquiteto. PublicouAnsiedade de informação, que se tornou um clássico sobre as demandas que asociedade da in formação impõe ao ser humano, inclusive no campo da educação.No livro, contou:“Quando eu era criança, na Filadélfia, meu pai falou que eu nãoprecisava decorar a Enciclopédia Britânica; só precisava sabercomo encontrar o que ela continha”.


PARA ALÉM DALEITURA CRÍTICAQuando a internet virar mais um capítulo na história da comunicação,seu apogeu poderá ser identiicado no que aconteceu com asaudita Raniya Almahozi, de 24 anos. Reprimida pelo regime ultraconservadorde seu país, que proíbe as mulheres de dirigir um automóvel,ela conseguiu o que parecia impossível: estimulou, por meio da comunicação,suas compatriotas a lutarem pelo direito de levar seus ilhos à escolade carro.Raniya tirou sua habilitação no Bahrein e, por meio do canal de distribuiçãode vídeos YouTube, apareceu guiando seu carro na cidade deQatif, Arábia Saudita. A ação estimulou outras mulheres a fazer o mesmo.O vídeo, que teve mais de cem mil acessos em poucos dias, gerou repercussãomundial e fez de Raniya uma ativista social que encontrou na comunicaçãoseu principal instrumento de expressão e aliada.Em 2002, quando o Idade Mídia começou a se desenvolver, a internetera pré-adolescente em nosso país, onde começou a funcionar comercialmentepor volta de 1996; ninguém sabia ainda para onde iria aquela novamídia, que parecia apenas convergir todas as outras sem propor nada diferente.Mas, de alguma maneira, casos como o de Raniya pareciam inevitáveisde acontecer num futuro próximo.A proposta de levar a comunicação à sala de aula não poderia ignorar,já naquela época, o fato de que produzir conteúdo era muito mais fácilentão do que alguns anos atrás; a rede abria espaços para todos nos tornarmosemissores de informação, e não meros receptores. Os blogs começavama virar febre, e os e-mails muitas vezes ganhavam contornos de


30IDADE MÍDIApequenas newsletters – no entanto, o ápice da implicação social dessa mudançaainda estava longe de se revelar.Em outras palavras, não era mais possível culpar somente a televisãopelo lixo cultural que adentrava aos lares. Começávamos a compartilhar osbônus e os ônus dos conteúdos produzidos em volume cada vez maior, eque até hoje mostram sua força com o conceito de crowdsourcing, nascidona Universidade de Harvard.A pergunta que norteou as primeiras relexões junto à turma doIdade Mídia, e que até hoje perdura, é: Como a educação pode lidar comessa realidade? E indo mais fundo: De que maneira essas transformaçõesdiárias nas formas como os seres humanos organizam, produzem e com-A crise de identidade da TVO fechamento da RCTV em Caracas (Venezuela) fez lembrar a velha América Latinados “anos de chumbo”. Embora seja possível entender alguns motivos apresentadospara a não renovação da concessão da TV por parte do governo venezuelano, utilizar oexército e eliminar sumariamente um canal de comunicação aproxima qualquer país, pormais petróleo que tenha, da atmosfera política que o destroçado Zimbábue usufruía atéalguns anos atrás.Não há lado positivo nessa história, definitivamente. O episódio nos fez regredirquarenta anos de conquistas políticas democráticas ao sul do Equador. Mas, felizmente,há elementos hoje que distanciam o episódio da RCTV venezuelana do Brasil pós-1964.O fato é que não somos mais, e seremos cada vez menos, dependentes da televisãoaberta e comercial para nos informarmos e nos exprimirmos. A TV é uma mídia comcrise de identidade. Prova cabal é a Free RCTV (www.freerctv.com), um movimento coletivoque continua transmitindo a programação da expurgada emissora venezuelana nainternet. E ainda permite que o internauta se expresse a respeito da situação.Curiosamente, os blogs e vlogs estão para os dias atuais como os jornais e fanzinesde resistência (O Bondinho, Versus, Pasquim etc.) estiveram para os “anos de chumbo”,quando o governo tentou controlar a informação. E há aspectos melhores namídia alternativa contemporânea: o poder de alcance imensurável e a interatividadesempre possível.


PARA ALÉM DA LEITURA CRÍTICA 31partilham informações – e, por consequência, estruturam seu pensamento– entram no currículo engessado do ensino formal?Na contramão do que buscávamos em nossa recém-criada experiência,a educação formal exercia, no início dos anos 1980, um papel extremamentecrítico, e até de repúdio, em relação à mídia centralizada da época;a imagem da televisão como inimiga da criança e do jovem foi muito difundida– um ícone presente até os tempos atuais, diícil de se desvencilhar.Era importante mantê-la porta afora da escola.A sociedade que começava então a se conectar a uma rede global decomputadores naquele 2002, ano inicial de curso, ainda estava fortementearraigada a esses velhos modelos de comunicação. Por conta disso, a leiturada mídia de massa – e também da alternativa– por meio de novos iltros eDentro dos caminhos que a TV traça, entre o formato digital e a internet, o YouTube,acaba de abrir um espaço exclusivo para o debate político: o CitizenTube (http://www.youtube.com/profile?user=citizentube). No começo, a política americana dominou ocanal, mas hoje já é possível assistir a vídeos sobre diversas questões da política mundial,inclusive a latino-americana. Isso sem contar os movimentos que se proliferammisturando educação e comunicação.Enquanto soldados ocupavam os estúdios da RCTV, a educadora Milena Szafir circulavacom seu projeto “Manifeste-se” pelas ruas da Vila Brasilândia, zona sul de SãoPaulo. Trata-se de um carrinho, tipo de pipoqueiro, que é na verdade uma estação móvelde transmissão para a internet. Por meio de câmeras e microfones, é possível gravar etransmitir ao vivo pela web depoimentos e reportagens.Nos Estados Unidos, analistas de mídia já estão criando suas costumeiras estratégiaspara articular lobbies com as grandes e tradicionais Fox News, CNN e Bloomberg, emvirtude das eleições presidenciais de 2008. Entretanto, muitos deles já manifestaram suapreocupação com a nova TV e com portais do tipo YouTube.Como controlá-los? Intimidando os milhões de usuários-cidadãos-repórteres quepostam conteúdos? No caso, a única inspiração possível (e terrível) vem da China, quecensura a internet há anos. Mas as leis de mercado, liberais e sedentas por consumidores,já estão forçando os líderes chineses a repensar seus conceitos democráticos.(Publicado no portal Aprendiz)


32IDADE MÍDIAentendimentos, tornou-se um dos papéis do Idade Mídia em seu trabalhocom os jovens, mas jamais o central.Conhecer a fundo o processo de como um jornal, uma rádio, um programade televisão ou um site de internet são produzidos e veiculados,tornando-se íntimo de seus jargões e procedimentos, é, sem dúvida, umaeicaz maneira de compreender o viés político do olhar das reportagenslidas, assistidas e escutadas nos meios de comunicação.No entanto, já naquela época essa prática não parecia suiciente, deforma isolada, para dar conta da complexidade com que a comunicação seapresentava. Se o conteúdo do curso se resumisse a esse tema, cairia facilmentena armadilha de tornar-se uma repetição das experiências de “medialiteracy” tão amplamente experimentadas nos Estados Unidos e na Europaa partir dos anos 1960, com o avanço da televisão. A “alfabetização para amídia”, como icou conhecida por aqui, consiste em ver, reletir e criticar asmensagens e os meios de comunicação existentes, num exercício comparado.Na América Latina, a ideia de valorizar a inter-relação entre as áreasda educação e da comunicação também não era novidade. Apareceu comforça nos estudos dos “Códigos da Modernidade” propostos pelo educadorvenezuelano Bernardo Toro, em que uma “educação visual e midiática”surge como uma das novas formas de alfabetização do século 21 (ainda sobforte inluência da televisão).Voltando às origens do termo “Idade Mídia”, ligadas ainda à ideia deindústria cultural, reporto-me novamente a Umberto Eco em sua obra Viagemna irrealidade cotidiana (1983), na qual ele ressalta uma crítica àsvelhas teorias da comunicação nas décadas de 1960 e 1970:Naquela época, éramos todos vítimas (quem sabe até justamente) deum modelo dos mass-media que era uma cópia daquele das relaçõesde poder: um emissor centralizado, com planos políticos e pedagógicosprecisos, controlado pelo Poder (econômico ou político).Considerando essa análise, percebemos que o Idade Mídia já nascenum século em que a comunicação torna-se não só uma ferramenta de informação,mas uma lente sob a qual a realidade é enxergada. Ela está para asociedade hoje assim como a religião esteve para a Idade Média, e a razãopara o Iluminismo; a comunicação dá o recorte e pauta os limites do quepodemos enxergar – é parte indissociável da construção de parâmetros éticos.


PARA ALÉM DA LEITURA CRÍTICA 33Por conta desse contexto, o Idade Mídia precisava ter um papel eobjetivos mais ambiciosos com relação a seus estudantes. Não podia serestringir a fornecer mera instrumentalização para se ler a mídia, e simpossibilitar que seus alunos aprimorassem sua visão de mundo, interferissemnele e também expressassem seus anseios.A pesquisa abaixo ajuda a compreender o mundo que os jovens encaramno dia a dia, uma realidade na qual já nasceram imersos, segundo othink tank Social Revolution.• Mais de 50% da população mundial tem menos de 30 anos.• Um em cada cinco casais se conheceram pela internet.• Três em cada cinco casais gays se conheceram pela internet.• Se o Facebook fosse um país, seria o terceiro maior do planeta.• Lady Gaga, Britney Spears e Justin Bieber têm mais seguidoresno Twitter do que a população inteira de Suécia, Israel, Grécia,Chile, Coreia do Norte e Austrália juntos.• Noventa e três por cento dos proissionais de marketing usammídias sociais para os negócios.• Cinquenta por cento do tráfego de internet do Reino Unido passapelo Facebook.• O YouTube é a segunda maior ferramenta de busca no mundo.• Se a Wikipédia fosse um livro, teria 2,25 milhões de páginas.• Noventa por cento dos consumidores acreditam nas recomendaçõescolaborativas; apenas 14% acreditam em anúncios.Fica mais do que claro, então, porque o legado do Idade Mídia na vidade seus alunos se ampliaria muito se, além dessa já conhecida análise ecrítica da comunicação, o jovem pudesse de fato interferir no sistema decomunicação. Nesse panorama, o exercício da cidadania passa pela expressão,pelo direito do jovem de se comunicar e intervir nos canais de podercom sua própria voz. E foi justamente por esse viés que o curso encontrouseu alicerce e o diferencial em relação a outras experiências: a produção decomunicação autêntica, feita integralmente pelos jovens. Uma propostapara além da leitura crítica da mídia.Mas a educação estava pronta para isso em 2002?A resposta é simples: não. Para seguir em frente, o Idade Mídia tevede desaiar mitos que a educação, seus estudiosos e, sobretudo, as institui-


34IDADE MÍDIAções tendem a perpetuar, sem discussão. Muitas vezes, essas questões parecemestagnadas no ambiente educacional enquanto a sociedade setransforma velozmente – como no caso da saudita Ranyia. Seu manifestofoi bem-sucedido graças a seu domínio da comunicação e à consciência emrelação a seus direitos, garantidos nas convenções internacionais – a quemdeveria caber essa formação senão à escola? Esses fatos, somados à extrematradição religiosa muçulmana impregnada nas questões de um Estado nãolaico, engrandecem ainda mais a conquista da ativista.Quando falamos em uma experiência de comunicação dessa natureza,é muito importante não nos apressarmos em rotulá-la, por mais óbvio quepossa soar. O universo educativo utiliza-se de tecnologia de forma burocrática,ou mesmo funcionalista; quando uma nova experiência desponta, écomum que seja categorizada como outras surgidas anteriormente – e que,neste caso, não lhe dizem respeito.O Idade Mídia, por exemplo, não é:• curso proissionalizante de comunicação: o uso da comunicaçãono programa é um instrumento para o exercício do direito àexpressão – é estratégico para uma leitura mais ampla de mundo.Para os estudantes mais inclinados à comunicação é um grandeganho, mas não o principal objetivo da experiência;• curso sobre uso das tecnologias na educação: a tecnologia ésituada como meio, não como im. Portanto, não se trata de umcurso instrumental ou técnico de uso de internet ou de qualqueroutra ferramenta;• curso sobre leitura crítica da mídia: como mencionado, a leituracrítica do mundo é objetivo geral da escola. A crítica é desenvolvidadurante os anos que o estudante passa pelo ensinoformal – um processo longo e cheio de nuances ligado à própriaconstrução da identidade. A leitura de mídia de massa ou alternativaé apenas um dos aspectos abordados no Idade Mídia, masnão seu foco;• curso de ensino a distancia: a educação a distância tem se confundidomuitas vezes com o ensino da comunicação. Na verdade,o termo “a distância” diz respeito a uma modalidade de ensinocontraposta ao ensino “presencial”. Neste tempo em que vive-


PARA ALÉM DA LEITURA CRÍTICA 35mos, esse modelo está ligado aos computadores e à internet –embora tenha nascido com a expansão do correio nos EstadosUnidos. No caso do Idade Mídia, o modelo prevalecente é o presencial.Em alguns momentos, as redes sociais entram em cenapara fazer um papel catalisador, mas não como uma modalidadede ensino a distância.O Idade Mídia pode ser deinido, por im, como uma metodologia emcomunicação e educação, com foco na expressão do estudante. A vivênciade um ano inclui a ampliação de seu repertório cultural e de sua rede decontatos sociais, a apropriação dos veículos de comunicação e a produçãooriginal de mídia. Trata-se de um espaço transdisciplinar de cidadania, criatividadee expressão; um laboratório de comunicação à disposição dos estudantespara que eles, sobretudo, criem.A cada ano, um grupo de vinte jovens ajuda a construir as bases parao programa, de acordo com seus interesses e com as novidades no campoda comunicação. Isso fez com que o curso pouco se repetisse em aulas etemas, e mantivesse sua metodologia aberta à velocidade das transformaçõesna sociedade.Exemplo dessa transformação anual aconteceu em 2008, quando aseleições municipais pautaram a mídia e a agenda política das cidades, assuntoque não poderia ser ignorado. Assim, o Idade Mídia aproveitou ogancho para relacionar toda experiência do ano à discussão da formação edesenvolvimento da cidade de São Paulo, que foi esmiuçada pelos alunos.Eles tiveram, por exemplo, a chance de conversar com todos os candidatosgraças aos debates realizados em parceria com o colégio. Por im,publicaram a revista Maquete, cujas pautas abordavam uma “nova cidadee seus desaios”, como a recente imigração de bolivianos e croatas e os maisinovadores estilos arquitetônicos presentes na plástica urbana.Ao longo do programa, ao mesmo tempo em que conversam comproissionais das mais diversas áreas, os alunos conhecem espaços de comunicação,aprofundam-se em conteúdos especíicos e tratam de projetar,produzir e lançar um produto de comunicação (seja uma revista, um programade rádio, um programa de televisão, um documentário, um fanzineou um projeto on-line). Também mantêm um blog ativo com desenvolvimentosemanal de artigos, além de outros produtos que são construídosdurante esse período.


36IDADE MÍDIAReinvenção é a palavra de ordem do Idade Mídia. Talvez seja esse oprincipal elemento que explique a continuidade do projeto – importantepara mantê-lo em compasso com o mundo e com os jovens estudantes.O conceito preserva uma ambição ativa: a de revirar permanentemente osparadigmas tradicionais da educação. Em outras palavras, o desejo permanentede manter a educação pronta para lidar com todos os desaios, cadavez mais velozes, impostos a uma sociedade.Tais desaios não são poucos nem simples, muito menos duradouros.Ficamos muitas vezes cegos em relação a seu impacto, pois estamos nelessubmersos e acostumados a não reagir à velocidade com que se impõem.A indiferença da educação a essas mudanças constantes pode ser o determinadorentre uma educação inovadora e de boa qualidade e uma escolarepetidora de modelos.Conhecer essas transformações com mais profundidade é o primeiropasso para entendermos que tipo de escola queremos hoje e para o futuro– é o novelo que tentarei desembaraçar a seguir.


O PERMANENTE FIMDO MUNDO COMO O CONHECEMOSNão é diícil imaginar que se o historiador inglês Eric Hobsbawmtranspusesse a obra fundamental A era dos extremos – sobre as profundastransformações político-sociais no século 20 – para os temposatuais, ela poderia facilmente se chamar “O mês dos extremos”, ou até“A semana dos extremos”.Se a rapidez com que as transformações têm ocorrido no campo datecnologia é pauta de muita discussão, sempre oscilando sobre o que é fatoe o que é fútil, o impacto que elas causam na sociedade pode ser sentidopor todos. O desenvolvimento político e econômico, o modelo de relaçõesentre as pessoas, a produção e o consumo de informação, o entretenimento,a relação com o meio ambiente e a produção de inovação se modiicamdiariamente. A tecnologia acaba por impactar inclusive a maneira com quepensamos e processamos informação, nossos modelos cerebrais.Em que outra época, por exemplo, uma menina de 11 anos poderialevantar US$ 200 mil para a recuperação do Golfo do México?Pois logo após o grande vazamento de petróleo ocorrido por lá em2010, Olivia Bouler, do Estado de Nova York, escreveu para a de preservaçãoambiental Audubon Society perguntando como podia ajudar. “Souboa desenhista e estava pensando se conseguiria vender algumas pinturasde pássaros e doar o lucro para a sua organização”, contou ela ao jornalFolha de S. Paulo.Como resultado, mais de trinta mil pessoas “curtiram” a página deOlivia na rede social Facebook. No total, ela conseguiu arrecadar US$ 200mil com a venda dos desenhos em prol da Audubon Society, e ainda cele-


38IDADE MÍDIAbrou a façanha publicando um livro sobre pássaros, ilustrado com seusdesenhos, intitulado Olivia’s bird: saving the Gulf.Essa história reúne elementos importantes da era de inovações emque vivemos, e nos ajuda a entender como e por que o mundo se desfaz erenasce a cada minuto.O aspecto mais evidente é o fato de o Facebook – uma ferramentarelativamente nova – já ser facilmente dominado por uma garota de apenas11 anos, nascida numa era digital e conectada em rede. A noção de responsabilidadeem relação à catástrofe e a agilidade em executar um projeto sedevem muito ao fato de que informações hoje são muito mais facilmenterecebidas e produzidas por nós.O que se omitiu da pequena história em quase todos os jornais nosquais foi publicada é o contexto educativo de Olivia Bouler. As experiênciasda educação formal e informal, além da participação familiar, foram decisivaspara que a garota desenvolvesse um senso de bom uso da comunicação,conscientização socioambiental, autonomia e um protagonismo nabusca por soluções. Esses elementos foram a chave para o sucesso de seuprojeto, que talvez não fosse tão exitoso se acontecesse dois anos atrás, commenos recursos e ferramentas disponíveis.Esse “permanente im do mundo como o conhecemos” foi o desaioideal e motivador para a recente importância adquirida pela comunicaçãojunto à educação (fato ainda mais potencial do que real); e para que o IdadeMídia encontrasse seu papel no Bandeirantes desde 2002. Ainal, é sobreesse cenário mutante, e muito real, que o curso é reconstruído a cada ano,sempre acompanhando as permanentes transformações nas áreas da comunicaçãoe da educação e, sobretudo, na maneira como cada geração deestudantes enxerga os desaios da vida e procura se expressar sobre eles.Em outras palavras, como os jovens projetam e buscam seus sonhos.Os elementos que compõem esse pano de fundo serão desenhados aseguir, mas alerto: podem já ter-se modiicado no momento em que você lêeste livro.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 391. COMUNICAÇÃOA era da criatividadeCaminhar do estacionamento até a porta do Colégio Bandeirantes nahora do intervalo ou do almoço dos estudantes é a forma mais eicaz de semanter atualizado sobre as novidades culturais da cidade. Você esbarracom jovens conversando avidamente sobre as últimas melhores bandas,músicas, peças e ilmes em cartaz. E mesmo que, por alguma razão, nãoqueria conversar naquele dia, há uma inevitável interação entre gerações.Com muita sorte, consigo manter no rosto uma expressão de quem estáentendendo tudo o que aquele jovem está explicando sobre a última novidadeque acaba de substituir o que, até então, eu pensava ser deinitivo.Mas devo confessar que nem sempre essa cara funciona. Certa vez,uma aluna do Idade Mídia me interpelou colocando fones de ouvido em minhasorelhas. Tocava um som macio, harmônico, em seu iPad. Na tela, umplano-sequência mostrava jovens descolados cantando e tocando os maisdiferentes instrumentos em cômodos de uma casa. “Você conhece a BandaMais Bonita da Cidade?”, perguntou ela. Sem mesmo conseguir escutar a canção,disparei: “Sim, conheço algumas, mas não essa”, tirando risos da garota.“A Banda Mais Bonita da Cidade” é o nome de um grupo musical,exemplo de um fenômeno típico de nossos tempos. Até o dia anterior a esseepisódio, a banda simplesmente não existia para o público em geral. Passoua frequentar as rodas de discussão não ao aparecer na Globo, o que seriajustiicado, mas quando um de seus integrantes postou um vídeo caseirono canal YouTube e atingiu, com seus amigos, o chamado fenômeno da viralização.Ou seja, o vídeo se espalhou pela internet como um vírus e alcançouseu público, os jovens, antes mesmo de a banda ter um único showagendado, um disco gravado ou uma música executada na rádio; sem empresárioou gravadora para apoiá-la.Milhões de acessos ao vídeo na internet levaram a banda, então, aoprograma Fantástico, fechando e consolidando assim um ciclo virtuoso.Algo semelhante já havia ocorrido com a compositora paulistana Mallu Magalhãesem 2007, e com o conjunto britânico Artic Monkeys em 2002.A velocidade com que as plataformas (vinil, , 3) e a indústriafonográica se transformaram nos últimos anos é o emblema mais cabal de


40IDADE MÍDIAcomo a informação e a cultura são agora produzidas e consumidas, e decomo a economia corre atrás desse moto-contínuo.Diante do jogo incerto que envolve o acesso do consumidor aos produtosculturais, a gravadora do conjunto inglês Radiohead, por exemplo,disponibilizou músicas inéditas na internet para serem “baixadas” medianteum pagamento livre, a critério do internauta. Só assim escapou dainevitável falência resultante da venda diminuta de CDs.Para entender todo esse processo, os historiadores criaram novosjargões como contraponto à chamada “era industrial”: “era da informação”e “era do conhecimento” são alguns deles.Além do sim ou nãoFidel Castro resmungou, desde Cuba, sobre a canção “Base de Guantánamo”, deCaetano Veloso, parte do show “Obra em Progresso”. O músico, por sua vez, tentouexplicar que uma defesa dos Estados Unidos, principal tópico da crítica de Fidel, vaimuito além da simplicidade do sim ou não – ou do bom ou mau.Afinal, o país responsável pelas atrocidades de Guantánamo é a mesma nação dasuniversidades, dos grandes jornais, do respeito aos direitos individuais – de PanterasNegras a Ku Klux Klan. Como explicar isso?Para tentar elucidar as sutilezas ausentes nas notícias dos jornais, mas presentes nosfatos que circundam a vida de todos nós, a elegante, irônica e erudita metralhadoraopinativa de Caetano ganhou a parceria do democrático antropólogo Hermano Viannaem “Obra em Progresso”.Nasceu junto com o show um delicioso blog recheado de vídeos. Nele, Caetanopreaquece os temas das apresentações, mostra por que escolheu determinadas cançõese instiga o debate e a curiosidade de quem o acessa. Neste caso, não há disco; os processosde criação se valorizam tanto quanto o produto final.Mas é justamente o mundo do sim ou não o mais conhecido da escola apolínea elinear de hoje. Que tipo de sofisticação de pensamento acreditamos ser importantepara a formação de um estudante?A incompetência da educação mal dá conta de abordar discussões sobre atualidadesou notícias de jornal, quanto mais de elucidar o complexo fato de que uma coisa pode


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 41Não há dúvida de que informação precisa e útil é hoje sinônimo depoder. No entanto, numa análise mais detalhada, veremos que o computador,e mesmo a internet, já são revoluções pertencentes a um passado recente;são ferramentas e estruturas que abriram caminho para que a informaçãocirculasse de uma outra maneira, fazendo com que a comunicação, assim,se ampliasse. Computadores já são quase peças de museu, e a informaçãobanal está cada vez mais acessível a todas as camadas da sociedade.De fato, o que mais causa impacto hoje na sociedade é menos a tecnologiae mais a comunicação: como os seres humanos lidam e criam “com”essas tecnologias e “para” elas.ser boa e ruim ao mesmo tempo. Aliás, essa colocação, a princípio, é considerada um“erro” sob a ótica da educação formal.Perceber que somos todos “obras em progresso”, e que opiniões podem ser construídase destruídas quantas vezes forem necessárias, demanda, primeiramente, abrir aescuta para a voz dos próprios estudantes. Daí a constatação de que os trabalhos queenvolvem produção de mídia em escola costumam dar mais vazão a essas questões.Exemplo interessante é o blog Opinião, um instrumento que nasceu da vontade einiciativa dos alunos da área de Biológicas do Colégio Bandeirantes, em São Paulo (SP),e foi apoiado pela instituição. Por meio dele, qualquer tema pode ser abordado, discutidoe reconstruído. Tudo num tempo e espaço que não são os escolares.Voltando a Hermano Vianna, o coautor do “Obra em Progresso” coloca as novastecnologias como condição fundamental da educação, da cultura e da participação social;por esse e por outros projetos, ele vem sendo reconhecido como um antropólogo/educador.Na grande mídia, basta lembrar o programa Central da Periferia, da Rede Globo, etodas as produções do gênero que o antecederam – e que têm a mão de Hermano emsua concepção.Na internet, o portal colaborativo de artes e comunicação Overmundo, também idealizadopor ele, é uma das formas mais interessantes de uso descentralizador da rede, emque todos são colaboradores, educadores e educandos. São todos sim e não simultaneamente,como na vida real.(Publicado no portal Aprendiz)


42IDADE MÍDIANuma visita à Universidade de Harvard escutei algumas vezes otermo “era da criatividade”, conceito pouco difundido e com pouca literaturaa respeito. Mas parece-me ser este conceito o mais adequado, poisdeposita sobre o ser humano o bônus e o ônus de uma sociedade informatizadae em rede. Ainal, nunca é tarde para lembrarmos que a internet é,antes de tudo, uma rede de pessoas, não de máquinas que agem sozinhas.O computador e a internet jamais ajudaram, por exemplo, o compositorCaetano Veloso a criar uma bela canção; mas permitiram que ele expusessea todos seu processo de trabalho, uma interessante experiênciaque seria inimaginável há dez anos.No que diz respeito à sociedade, à economia, à política e à cultura, a“era da criatividade” causa diariamente um impacto gigantesco, inluenciandoa forma como os seres humanos vivem, se relacionam e trabalham.Essas mudanças são tão rápidas e constantes que, muitas vezes, não nosdamos conta de que estamos reestruturando nossa maneira de pensar.Olhemos com atenção algumas consequências de se viver imerso na“era da criatividade”, e as perguntas sem respostas que ela nos apresenta.A não linearidadeLembro-me de assistir à palestra de um proissional de de umagrande empresa, e ele levantava possibilidades de como lidar com a seguintesituação que se impunha: todos os funcionários, da recepcionistaaos diretores, agora tinham o mesmo acesso ao pronunciamento semanaldo presidente da companhia. O que antes era visto como sinal de poderpara alguns (“o presidente disse para mim em uma reunião...”) deixou deser privilégio. Todos passaram a receber um pequeno vídeo com a mensagemdo presidente, e ainda podiam enviar e-mails diretamente para ele comperguntas, sugestões e dúvidas.O barateamento das tecnologias facilitou o caminho, junto com a internet,para que nos tornássemos produtores de comunicação, e não sóreceptores. O que era uma via de mão única transformou-se num desenhomais complexo.A essa teia viva e tridimensional dá-se o nome de rede. Uma sociedadeem rede acaba por democratizar e pulverizar o acesso à informação e à suaprodução – por consequência, há uma reestruturação de poder, como no casodo presidente da empresa que ica mais próximo de todos os funcionários.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 43Não por acaso, as primeiras teorias e percepções mais agudas de quea sociedade começava a se organizar em redes nascem dos estudos do sociólogoManuel Castells em seu livro A sociedade em rede, prefaciado peloex-presidente Fernando Henrique Cardoso – e que gerou grande repercussãono meio político quando publicado.Para se ter uma ideia do impacto dessa transformação, um programade televisão produzido nos anos 1980, por exemplo, demandava muito investimentopara sua realização, além da complexidade para viabilizar suatransmissão. Hoje, podemos assistir a pequenos programas feitos por algumcolega em seu quarto, sob demanda, no YouTube. Somos todos pequenosmagnatas da comunicação. Nos idos dos anos 2000, os blogs jácomeçaram a ocupar o papel dos fanzines marginais da década de 1970,acelerando o processo de aproveitamento da internet como “megafone” dosgrupos sociais.A não linearidade dessa produção e do consumo de informação acabapor tecer as tramas dessa rede e desconstruir o esquema unilateral, oumesmo piramidal, de comunicação e poder ao qual o mundo estava presoaté pouco tempo atrás. Esse é, sem dúvida, o principal legado da internetpara a “era da criatividade”.EmissorMensagemReceptorFigura 1aFigura 1b


44IDADE MÍDIAA não informaçãoEfeito colateral da profusão de informação que corre pelos veios virtuaisda sociedade é a explosão de conteúdo que, a princípio, mais atrapalhado que ajuda na construção de conhecimento: a chamada não informação.A imagem romântica do jornalista que corre atrás da informação, porexemplo, faz parte do passado – seu trabalho hoje é semelhante ao de umgarimpeiro numa montanha de lixo: achar e dar sentido ao que realmentevale a pena. É o que defendem Bill Kovach e Tom Rosenstiel no livro Blur:how to know what’s true in the age of information overload.O arquiteto e estudioso da comunicação Richard Wurman – citadona epígrafe que abre a Parte 2 deste livro – chegou a pesar a edição dominicalimpressa do jornal The New York Times, que chegava a mais de cincoquilos. Isso numa era pré-internet. Quem conseguiria lê-la na íntegra? Umaedição desse tamanho (e peso) contém tanta não informação quanto a própriainternet, e acaba mantendo em latência conteúdos que podem interessara inúmeras pessoas.O termo “virtualidade” ganha signiicado quando imaginamos, porexemplo, o conhecimento potencial armazenado por entre as estantes dabiblioteca do Congresso Americano. “Muito”, neste caso, pode facilmentesigniicar “pouco” se não houver conexões para capturar interesses especíicose torná-los inteligíveis.A criação de iltros próprios passa a ser, assim, uma demanda efetivade setores da sociedade. A vítima da epidemia da “ansiedade de informação”,detectada por Wurman no início da internet, só pode ser curada com tais iltros.Não por acaso o Google é hoje uma das mais valiosas empresas do mundo.Seu trabalho é, basicamente, guiar o internauta até o conteúdo que seja deseu interesse, descartando a “não informação”. Ou seja, recortar e iltrar.Complexidade da autoriaNo mundo em rede e com profusão de criação e consumo de informaçãoe cultura, “quem” inventou “o que” tornou-se uma das questões maiscomplexas a ser enfrentada por empresários, inventores, advogados, pesquisadorese artistas.O cineasta e escritor Arnaldo Jabor já desistiu de contar quantas vezesnegou a autoria de textos a ele atribuídos em e-mails que circularamlivremente. Mas a questão vai muito além da troca de autores.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 45A possibilidade potencial da criação coletiva tornou-se real quandoa internet passou a conectar os criadores. Quando essa coautoria é consciente,o problema se torna menor. Por exemplo, ao enfrentarmos um bugem nosso navegador de internet, a empresa desenvolvedora costuma nospedir autorização para enviar o erro ao seu servidor central. Quando autorizamos,admitimos o fato de estarmos ajudando a desenvolver uma novaversão do mesmo navegador sem receber royalties por isso. Há um pacto,mesmo que tácito, entre as partes.Mas no mundo artístico e acadêmico da propriedade intelectual, ascertezas estão de “pernas para o ar”. Diícil assegurar os direitos autoraisquando as obras circulam e são baixadas livremente – sem contar as vezesem que são compostas por fragmentos e citações de outras obras, ou queconstituam homenagens a determinados autores.A “era do Control+/Control+” – como foi depreciadamente chamadapor alguns jornalistas – não é tão simples de ser compreendida. Écomposta de muitas nuances que acabaram por colocar em xeque o antigocopyright e estimular outras licenças de direitos.É exatamente isso que explica o desenvolvimento do Creative Commons– uma licença que possibilita condições especiais para determinadotipo de uso. O conteúdo sob a responsabilidade do Creative Commons, porexemplo, pode ser parcialmente liberado para reprodução, ou liberado parains especíicos e proibido para outros. Há categorias de restrição.Empresas e governos, no entanto, estão perdidos em relação à maneiracomo conduzem seu conteúdo, pois insistem em não lexibilizar o velhocopyright. No Brasil, artistas passaram a tomar partido de forma explícitajunto ao Ministério da Cultura quanto ao caminho que os direitos autoraisdevem seguir – de um lado, percebe-se que o autor é hoje lesado por contada reprodução ilegal de sua obra; de outro, defende-se um redesenho domodelo de royalties no qual a remuneração por obra passe a ser obtida deoutra maneira que não a tradicional arrecadação de direitos autorais.Já é tempo de perguntarmos se o termo “propriedade intelectual” éainda válido.Redes sociais, mídia mainstream e transmídiaA “era da criatividade” tem encontrado seu terreno mais fértil naschamadas redes sociais, cujo conteúdo é produzido de forma descentrali-


46IDADE MÍDIAzada e direta por seus usuários, num fenômeno chamado crowdsourcing.Uma de suas consequências pode ser constatada no fato de que, nos últimosanos, a internet vem sendo pautada pelo relacionamento entre pessoase pelos focos de interesse das mesmas. Os sites passaram a ser criadosa partir de grupos ou pequenas redes, característica que deine a chamadainternet 2.0.O lado menos alternativo dessa história é que, com os modelos comerciaismais diversos esquentando economicamente a rede, os grandesgrupos de mídia tradicional (como a Time Warner), e mesmo as empresas“.com” (como o Google), começam a abocanhar fatias grandes do tráfegoon-line, formando uma espécie de cartel da mídia digital. Ou seja, para deixaro cenário das mídias ainda mais confuso, até o caráter independenteque a internet carregava desde seu nascimento é hoje relativo – ela estámais para um lobo em pele de cordeiro. Assim, muitas vezes os usuáriosnão estão cientes de que, ao produzir conteúdo na forma de postagens emredes sociais ou repositórios de vídeos e outros arquivos, seguem trabalhandogratuitamente para um grande grupo de mídia, reinventando, assim,o mundo digital.Olhando sob outro ângulo as antes chamadas mídias tradicionais, oumainstream, notamos que elas também vêm se macaqueando como mídiasinterativas e participativas. Um de seus expedientes é a divulgação do númerode telefone que você pode usar para eliminar personagens de umreality show ou para escolher o ilme da próxima semana. No fundo, é amesma televisão de sempre travestida de “moderninha”.O resultado é uma grande miscelânea midiática. Diícil hoje separarmídia alternativa de mídia de massa, conceitos válidos por décadas e quedesmoronaram em alguns anos. De concreto, a lógica “sob demanda”, interativae participativa, legado da internet, parece mesmo o ponto focal parao qual todas as mídias estão convergindo. O modelo de televisão digital éum exemplo disso: já coloca agências de propaganda e anunciantes numaencruzilhada, o dilema de “onde anunciar”, já que a programação será baixadapor demanda – o im do intervalo comercial.Nessa mesma crise, os jornais e revistas em papel perdem leitores ecomeçam a barganhar seu conteúdo on-line, além de formatá-lo para tabletse smartphones – a mobilidade ganha espaço. O New York Times, por exemplo,fechou suas reportagens na internet – antes disponíveis a todos – apenaspara assinantes, alegando perda de leitores de sua edição ísica.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 47Para além desse pastiche de correntes e deinições, o notável professordo (Massachusetts Institute of Technology) Henry Jenkins, em seu livroCultura da convergência, frisa que o modelo transmídia é a perfeita interseçãodo cruzamento da criatividade com o potencial on-line. Segundo ele, umamídia serve de continuidade para outra, muitas vezes sendo alimentada pelospróprios usuários. Além do bruxinho Harry Potter e da ilosoia contemporâneade Matrix, exemplos mais óbvios de como as “sagas” se perpetuamna internet, Jenkins cita a mitologia de Star Wars como referência transmídia:“Filmando em estúdios de garagem, reproduzindo efeitos especiais em computadorese com trilhas sonoras de 3 ou s, os fãs criaram novas versõesda mitologia de Star Wars (1977)”, escreveu. Para um desses cineastas perdidosno ciberespaço, Jason Wishnow, esse é o “futuro do cinema”.Este Idade Mídia: a comunicação reinventada na escola tambémarriscou um olhar transmídia disponibilizando conteúdo exclusivo, multimídia,para o blog http://livroidademidia.colband.blog.br.Novo consumoEm 2011, uma conhecida fabricante de sapatos passou por uma situaçãodelicada. Depois de lançar uma coleção que utilizava peles exóticasde animais em vários itens, a empresa recebeu uma enxurrada de críticasna internet por meio das redes sociais. Com a repercussão negativa, retirouos produtos das vitrines e simplesmente deixou de fabricá-los.A “era da criatividade” tem forçado as empresas a se conectaremmais intimamente com seus clientes, uma vez que conceitos como responsabilidadesocial e sustentabilidade estão cada vez mais difundidos. Issotem exigido um esforço hercúleo do mundo corporativo no sentido de responderrapidamente a essas demandas.Como consequência, há uma nova geração de empresas mais atentaa princípios que podem elevar o valor de suas marcas ou até depreciá-las.Toda informação chega mais rápido; as respostas, por sua vez, tambémdevem ser muito ágeis. Nasce um policiamento em tempo real cobrandoum comportamento responsável.A propaganda e o marketing, por outro lado, têm-se diluído em nossodia a dia sem que percebamos; consumimos anúncios acreditando piamenteestarmos lendo uma reportagem. A dicotomia entre conteúdo e propagandafoi muito clara durante anos, seja nos intervalos comerciais que separam


48IDADE MÍDIAos blocos das novelas, seja nas páginas de uma revista. A prática do merchandisingchegava a ser tosca: a protagonista elogiando, num monólogo,determinada marca de sabão em pó.Hoje o cidadão encontra-se mais vulnerável. A rede social Facebook,por exemplo, é a mais nova “América” para as agências de publicidade: umachance de ouro para transformar usuários em garotos-propaganda de serviçose marcas – sem que eles sequer percebam.Faça uma postagem elogiando o restaurante onde jantou no inal desemana e você acaba por desencadear ativamente uma cadeia de marketingviral. Anunciar sem ser percebido e camular marcas em conteúdo editorialsão a nova ordem do marketing.A essa mistura conceitual somam-se novos hábitos de consumo quenos tomam de surpresa a cada dia. Além de lojas de departamento e supermercadosísicos começarem a dar espaço para lojas virtuais, outras modalidadesde consumo testam os limites de liberdade e coniança dointernauta-consumidor, como as compras coletivas. Realidade nos EstadosUnidos, esta variante estabelece novos vínculos entre cidadão e empresa/prestador de serviço – ainda não bem deinidos. O Brasil, com uma classemédia em ascensão, ávida por gastar, tende a se tornar o próximo laboratóriode novas modalidades de compras e consumo.Nova ferramenta de cidadaniaDe todas as possibilidades abertas e ainda não exploradas na “era dacriatividade,” as mais interessantes, e com grande poder de inluência, sãoaquelas ligadas à cidadania e aos direitos humanos.Os grupos e movimentos sociais sempre tiveram a necessidade deunir-se para fortalecer determinada causa ou ação junto ao poder públicoou à própria sociedade. Para o estudioso de redes e militante político FranciscoWhitaker, os eventos de 1968 foram, de certa forma, os pioneiros daação “em rede”, ou seja, as primeiras manifestações da humanidade em quea juventude de todo o mundo ocidental lutava por um mesmo ideal – numaépoca em que o correio e o telefone eram a mais avançada tecnologia. Imaginea mesma movimentação na era da criatividade! Algo próximo foi o queaconteceu na “primavera árabe”.Não conheci uma pessoa sequer, jornalista ou não, que não tenhaicado emocionada com o poder das mídias sociais durante os eventos que


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 49principiaram a ruína das centenárias ditaduras de alguns países árabes.Muito provavelmente, foi a primeira vez na história que o poder esteve literalmentenas mãos da população por meio da livre expressão. Graças aoscanais de internet e à criatividade do povo, o uso irrestrito da mídia – tradicionalmenteuma prerrogativa dos governos, com via de mão única – sediluiu criando novos termômetros de satisfação social.Segundo airmou o editor da rede árabe Al Jazeera, Mohamed Nanabhay,em palestra sobre o tema no (Massachusetts Institute of Technology):As mídias sociais foram importantes porque serviram como ferramentaideal para juntar grupos e indivíduos, antes dispersos, para umacausa comum. E isso não respeitou fronteiras. O que aconteceu no Marrocosserviu de motivação e empoderamento para os protestos posterioresna Líbia, na Síria e no Iêmen.O relatório anual da Dubai School of Government, uma das mais respeitadasdo mundo árabe, aponta que o Oriente Médio tem sido um dosmaiores públicos, alavancando, assim, a expansão da rede social. O númerode usuários dobrou em um ano – só os egípcios correspondem a 30% dosusuários de todo o mundo árabe.O relatório diz ainda que quando a internet foi derrubada pelos governosem crise como forma de conter grupos rebeldes, o ato acabou porestimular ainda mais os insurgentes a procurar alternativas de conexãopara registrar sua indignação on-line.Para aprofundar-se nesse estudo de caso, acesse o blog do livro econsulte o relatório completo da Dubai School of Government, que detalhacomo as mídias sociais tiveram papel ativo nos eventos do mundo árabe.2. JUVENTUDENem X, nem Y, nem Z. Uma geraçãoconectada, tolerante e com sonhosQuando entrei pela primeira vez na sala de aula do Idade Mídia, deparei-mecom somente nove estudantes dispostos a enfrentar um ano de


50IDADE MÍDIAcurso, que já se apresentava como experimental, em meio à demanda doensino puxado do Bandeirantes. Talvez pela coragem, eram inevitavelmentenove garotas. Essa foi a cena inicial do projeto.Começamos a conversar, numa roda, sobre como cada uma consumiacomunicação e via seu futuro. De imediato, tive de segurar meu ímpeto decompartilhar as expectativas delas como se fossem as minhas ainda – estavacom 25 anos. Esforcei-me também para dar um passo para trás e voltar aser “educador” – embora ainda estivesse experimentando essa posição.O que mais me chamou a atenção naquele instante inaugural – e quedepois marcaria meus mais de doze anos trabalhando com jovens –, eramos sonhos daquelas meninas, que não se limitavam a enriquecer ou comprarum carro, mas colaborar com a redução das desigualdades sociais. A queparecia ser mais jovem (mantinha ainda feições infantis), Ana Luisa Westphalen,bolsista, disse que queria ser repórter desde criança – frequentar osbastidores de Brasília e denunciar a letargia em torno da corrupção que láimperava. Quando criança, com um gravador de itas cassete em mãos, nãoperdia tempo para sair entrevistando a todos, sobre tudo – contava ela. Hoje,ico satisfeito e orgulhoso em acompanhar sua brilhante carreira nos jornaisO Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Ela desvelou uma determinação quese tornaria característica daquela geração, e de outras posteriores.O sonho, ao contrário do que declararam alguns poetas, e do que sabotaramalguns pessimistas, não acabou. Pelo menos para a juventude – esseperíodo da vida que mistura experimentação, frustração, descoberta e muitaspitadas de coragem . O sonho, tenho percebido ano após ano, se reinventa, epermanece vivo. Se há uma palavra-conceito que deine o “estar adolescendo”é o verbo sonhar. Que implica diretamente o substantivo “possibilidade”.“Entrar num projeto como esse é entrar na dimensão da imaginaçãoe da curiosidade humana. É isso o que eu mais gosto: descobrir”, escreveuo estudante Fernando Len, do Idade Mídia de 2008, numa “declaração deintenções” sobre por que deveria ser escolhido para o curso.Pude perceber o mesmo sonho, com a mesma doçura nas palavras,de jovens que têm uma vida mais apertada inanceiramente, como osda comunidade de Heliópolis, onde lecionei por um ano. Por lá, almejava--se a fotograia com o mesmo empenho que Ana Luisa mirava o jornalismo;muitos deles chegarão aonde desejam, estou certo. A possibilidade desonhar, felizmente, não escolhe classe social – bem como as angústiasda adolescência.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 51O ensaísta, professor de literatura da Universidade de São Paulo(USP), José Miguel Wisnik, levantou as raízes da palavra adolescente, dentreas muitas possibilidade etimológicas que se apresentam. Segundo ele, oradical vem do verbo latino oleo (es, ere, olui), que quer dizer “exalar umperfume”. A capacidade de sonhar dos meninos de Heliópolis, dos usuáriosdos telecentros (com quem também estive em projetos de comunicação) edos alunos do Colégio Bandeirantes é o que os faz jovens, independentementede suas origens. O adulto, segundo a mesma deinição de Wisnik, éuma palavra cognata: já exalou (exalado, no particípio passado). Representa,no caso, aqueles que, muitas vezes, não sustentam o encanto pela vida.Parece-me quase impossível deinir uma geração de jovens. Mesmoporque no “permanente im do mundo como o conhecemos”, são eles osque mais carregam as marcas das rápidas transições. Mas procuro aquitraçar algumas nuances importantes.Se o sonho é o que deine a juventude de forma atemporal, há característicasmuito particulares que indicam determinados grupos como únicos.A velocidade das mudanças sociais que tratamos aqui me izeramdesistir de entender as “gerações” – que mudam a cada cinco ou dez anosde intervalo entre si – tal como as entendem os psicólogos. Atualmente,percebo mudanças profundas de ano para ano. Ou seja, em cinco anos épossível lidar com cinco turmas de características muito diferentes.Não me agrada a deinição de geração que muitos gurus do marketinge do universo corporativo criam diariamente, apenas para caracterizar melhoro público-alvo de seu novo sabor de refrigerante. Desses pesquisadores,há poucos que tratam a questão com mais profundidade, mesmo porqueela não se restringe ao jovem como consumidor.Um desses bons profissionais é o canadense Don Tappscot, autorde Growing up digital e Grown up digital, clássicos sobre o tema. Ele serefere à geração atual de jovens, que já nasce digital e em rede, com muitobom humor:Eles prezam a liberdade e a liberdade de escolha. Eles querem customizaras coisas, fazer do jeito deles. Eles são colaboradores naturalmente,que gostam de diálogo, não de discurso. Eles vão humilhar vocêe sua organização. Eles insistem na integridade. Eles querem diversão,tanto faz se no trabalho ou na escola. Velocidade é normal. Inovação éparte da vida.


52IDADE MÍDIAPara a geração que nasceu analógica, longe dos computadores e pertodas máquinas Remington, chamada por Tappscot de “migrantes digitais”, édiícil perceber que, para a juventude conectada da “era da criatividade”,habilidades como velocidade e capacidade de realizar tarefas simultâneassem perder o foco são características inatas.Hoje as crianças veem o mundo digital como um espaço tão naturalquanto o ambiente ísico. Basta perceber a coniança que têm ao usar ummouse ou mesmo arrastar seus pequenos dedos na tela touchscreen de umiPod – antes mesmo de começarem a andar com irmeza. Estudos recentesapontaram o desenvolvimento de uma cadeia de neurônios 25% mais com-A morte dos nerdsPareceu-me um tiro que acertou o vaso quando se mirava o abajur, o livro The ageof American unreason, escrito pela norte-americana Susan Jacoby. Nele, a autora defendehaver, hoje, um desinteresse juvenil pelo conhecimento, a apatia de uma geração emrelação ao intelectualismo. Para Jacoby, os nerds ainda são hostilizados por representaruma reserva cultural acima do cidadão médio.O que a intelectual desconsidera é a forma como o conhecimento circula ou é organizado,que mudou muito da década de 1980 para cá. Quando pensamos num conhecimentoestritamente acadêmico, cristalizado nos livros, a tese de Jacoby talvez faça umpouco mais de sentido. Porém, outro tipo de conhecimento, menos robusto, mas tãoestimulador e relevante, passou a circular livremente entre jovens, crianças e adultos, enunca foi tão difundido e aproveitado quanto agora, na sociedade em rede. Misturadocom muita bobagem, admito. (Eis aqui um papel fundamental para a escola: ajudar aseparar as essencialidades.)Isso não impede que, em outra embalagem, com outra velocidade e com a possibilidadeinfinita de criação e interação, o conhecimento seja, sim, muito mais valorizadoque há dez anos. Por conta da internet, hoje é mais popular quem obtém primeiro ainformação, ou quem tem mais informação, seja sobre determinada música, um fatopolítico que acaba de acontecer ou até mesmo sobre as novidades do último gamelançado. Principalmente num grupo de amigos, o jovem que sabe mais é geralmente omais admirado.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 53plexa nas crianças de hoje em relação aos adultos. Para Tappscot, esta étambém uma geração mais esperta e rápida do que as anteriores.Especialistas na área de recursos humanos têm quebrado a cabeçapara fazer com que os baby boomers (de 47 a 65 anos) e a chamada deGeração (entre 31 e 46 anos) entendam a natural tendência de quebra dehierarquia que os jovens atuais (conhecidos como Geração e Geração )tendem a promover em um escritório, estimulando um trabalho mais colaborativoe desaiando tabus com mais rapidez e tranquilidade.Como consequência, as empresas que têm foco na criação estão sereorganizando organizacionalmente, pois perceberam que um ambienteQuem passou a infância nos anos 1980 sabe o que os nerds significavam e comoviviam. Eram pouquíssimos, juntavam-se em grupinhos, eram virgens – na época, muitosfilmes americanos narravam a aventura da perda da virgindade de um nerd – e discriminados.Nerds era um termo pejorativo, para definir uma minoria.Recentemente, estive presente em inúmeras feiras de ciência estudantis, nos EstadosUnidos – como a ISEF, que reúne mais de mil experimentos de todo o mundo – e naAmérica Latina, e fiquei impressionado em ver como os jovens cientistas namoram,gostam de música, são integrados e valorizados por seus colegas mesmo que, eventualmente,tenham outras paixões.Não é preciso ir tão longe. O Campus Party é um Woodstock do conhecimento. Oevento reuniu quatro mil jovens aficionados em tecnologia e cultura no Parque do Ibirapuera,em São Paulo (SP). Passaram dias entre competições de robôs, de games, música,paquera e troca de conhecimento.O fato é que quem olhar para a juventude atual com as mesmas lentes que olhavaa juventude de outras épocas vai, a qualquer momento, acabar soltando a velha máximarabugenta “no meu tempo que era bom!”, e vai cometer um tremendo erro.Os nerds foram minoria; agora, quem não tem assunto para uma conversa fica paratrás. Enfim, os nerds estão mortos. Vivam os nerds!(Publicado no portal Aprendiz)


54IDADE MÍDIAmais colaborativo gera mais produtividade no tocante a seus mais jovenstrabalhadores. O Google, por exemplo, marcou essa mudança instalandoredes de descanso, mesas de sinuca, videogames e esteiras ergométricaspor entre as baias de trabalho.Maior acesso à informação e à conectividade – exercendo meu inerenteotimismo – também resultou em jovens mais tolerantes às diferenças,e isso Tapscott também sublinha em seus estudos. Talvez até mais que osbaby boomers, que pregavam a tolerância como valor mas não a viviam napele com tanta intensidade. Ainal, hoje o jovem está exposto a uma amplagama de interesses pessoais, orientações sexuais e preferências políticasgraças a uma diversidade não censurada que se relete intensamente tambémno campo digital.Isso pode não reverberar com o que lemos nos jornais diários. Infelizmente,nesse campo, há um olhar míope: o do jovem intolerante, desinteressadoe desinteressante. Esse relexo disforme é alimentado por umafatia da imprensa sem preparação ou vontade para entender outras gerações,mais ávida por vender jornais ou conseguir audiência do que porentender a complexidade dos fatos relatados neste capítulo – faz-se umrecorte que toma uma ínima parte como o todo.Na minha vivência como educador, em ambientes dos mais diversos,poucas vezes percebi, por exemplo, intolerância por parte dos colegas a umestudante que demonstrasse seus primeiros sinais de orientação homossexual.O mesmo para um aluno que poderia ter sido facilmente taxadocomo nerd na minha juventude nos anos 1990, quem, por estudar determinadoassunto em profundidade, acabava discriminado pelo grupo. Ao contrário,a maior possibilidade do acesso à informação parece aguçar umaexperiência mais tolerante e curiosa de adolescência.Outra característica da juventude raramente encontrada em quemse dedica a estudá-la hoje, e que é facilmente confundida pelos adultos comescárnio ou deboche, é o particular senso de humor, um comportamentomuitas vezes escrachado e politicamente incorreto, fruto de uma experimentaçãode liberdade.Lembro-me de ter demorado a achar graça quando vi, pela primeiravez na , a cena de um rapaz, travestido de mulher, que atirava umagranada (nitidamente feita de isopor) num caixa eletrônico que engoliraseu cartão. Tudo era tão grosseiramente encenado que a fumaça da explo-


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 55são tinha sido produzida por um extintor de incêndio que aparecia numcanto da tela, na mão de um contrarregra.Os rapazes responsáveis pelo esquete chamavam-se Hermes e Renato,e durante dez anos foram os líderes de audiência na . A históriade ascensão dos humoristas é simbólica com relação à Geração ; começaramgravando cenas em roteirizadas e atuadas por eles mesmos, emPetrópolis, Rio de Janeiro. Enviaram as itas para a e, em pouco tempo,além de contratados, sustentavam as maiores audiências do YouTube e tinhamas mais lotadas comunidades de fãs na rede social Orkut. A média deidade dos integrantes do grupo era de 20 anos.Entre 2003 e 2010 não se falava em outra coisas a não ser os episódiosde Hermes e Renato entre os estudantes do Idade Mídia. Aos poucos,dado o contato diário com os alunos, comecei a perceber que palavrões egrosserias característicos da série eram parte da sátira: os roteiros mimetizavamas chanchadas do cinema “boca do lixo” produzido no Brasil nosanos 1980, e a estética parodiava a própria cultura trash da programaçãotelevisiva. Tratava-se de uma profunda crítica em forma de comédia.Em pouco tempo, Hermes e Renato tornou-se também um programaimperdível para mim e me ajudou – e muito – a entender as turmas com queiria trabalhar nas escolas. Chegamos a trocar episódios raros por e-mail.Para essa geração, o “fora de moda” tem a velocidade da luz. A nostalgiado passado, às vezes em forma de louvação (como às bandas dos anos1980), ou como deboche e escatologia (como o Hermes e Renato), é umamaneira de escancarar e brincar com essa absurda rapidez da obsolescência.Não por acaso, acompanhamos a explosão do chamado stand-up comedyno Brasil, em sua maioria feito por jovens.Separei alguns episódios antigos de Hermes e Renato no blog do livro,que ajudam a ilustrar este capítulo e a entender melhor esse contexto(http://livroidademidia.colband.blog.br).3. EDUCAÇÃOUm lagarto preguiçoso ao solAs carteiras dos estudantes na posição de ouvintes em contraponto aopequeno palco onde reina o professor, detentor do saber, é um arranjo que


56IDADE MÍDIApouco choca, embora tenha alguns séculos de existência. Apesar do incômodoque isso pode causar em plena “era da criatividade”, há, de certa maneira, umolhar predominantemente conservador da sociedade sobre a educação, umconformismo com a ideia de que ela deve manter-se da maneira como semprefoi. Por isso, as boas escolas do passado costumam ser tratadas como templosreligiosos, quase intocáveis, apesar de o mundo ter se transformado tanto.Ao contrário dessa imagem, basta adentramos a uma empresa, hospitalou outro ambiente moderno para percebemos nítidas mudanças ísicas,relexo das profundas transformações sociais que aconteceramultimamente. Ainal, icaríamos provavelmente inconformados em presenciaruma cirurgia realizada com instrumentos obsoletos, numa maca antigae conduzida por médicos de formação antiquada. Convenhamos que observaruma sala de aula disposta nos moldes das do século passado é umaimagem menos chocante.Contudo, no mundo do pensamento e nas práticas pontuais fora daescola (as chamadas educação não formal e informal), houve mais evolução.O universo de quem pensa e coloca a mão na massa da educação complementarjamais esteve tão fértil, geralmente irrigado por educadores de forada cátedra, inconformados com tal descompasso, como o empresário RicardoSemler ou o engenheiro Paulo Blikstein. Ambos são responsáveis porprojetos-modelo alinhados com nosso tempo – em pensamento e prática –,mas ainda não conseguiram esmiuçar ou interferir no “vespeiro” que é ocurrículo do ensino médio.Essa inadequação educacional é bem antiga e pode ser encontrada, soba forma de menções e críticas, em diversos livros e estudos. A incompetênciado modelo escolar iluminista já vem sendo refutada desde os anos 1930, como baiano Anísio Teixeira, por exemplo, que propunha expandir o aprendizadopara fora dos muros da escola; e seguiu irme com o incansável Paulo Freire,que encarou a educação como uma conquista social, e outros tantos teóricosque até hoje propõem modelos para dar conta dessas transformações. Issopara não mencionar o campo biológico, em que neurocientistas escancaramdiariamente pesquisas sobre as novas formações da rede neuronal. Maspouco disso se relete em sala de aula – seja ela privada ou pública.O fato é que, atualmente, a educação formal, salvo raríssimas exceções,é composta por mitos desconectados da realidade, que são alimentadospor um conformismo, e até um conservadorismo, que vêm de fora daescola. Ideias preguiçosas, desconectadas do mundo real.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 57Até os governos e a administração pública, campos reconhecidos pelalentidão em assimilar novidades, têm sido mais ágeis nas transformaçõesde modelos com o objetivo de facilitar a vida do cidadão e disponibilizarinformação de maneira mais fácil.A escola, em crise internacional (é bom frisar que essa não é umaquestão somente brasileira), ainda é calcada num modelo baseado na memorizaçãode conteúdos estanques e desconexos da vida. Aliás, essa belapalavra, “vida”, é a menos encontrada na maioria das instituições atuais,que são mais vistas como carma por quem as frequenta do que como locaisde descoberta e encantamento – como de fato deveriam ser reconhecidas.Na década de 1960, Paulo Freire já chamava essa forma aprendizado de“educação bancária”, em que a informação era depositada no aluno como“cofre” e retirada dele nas provas.Não estranharia se o leitor que acaba de matricular um ilho em algumaconhecida boa escola refutasse um recorte tão mórbido. Isso se explicapelo fato de as instituições venderem-se bem, seja como templos do“construtivismo”, da “formação humanística para a vida” e ou do “ensinotecnológico”. Eis o perigo dos mitos: se proliferam nas parábolas, mas nãono que são de fato.Comprovar a eicácia de um ensino “construtivista” ou de “formaçãopara a vida” pode demorar tanto tempo quanto a própria infância ou adolescênciade um aluno – a educação é medida em anos, gerações. Paraanunciarem-se competentes, bastam às escolas alguns segundos e um criativoslogan publicitário. E nessa euforia comercial em parear-se à rapidezdas transformações na sociedade, as instituições de ensino realimentammitos sobre os quais vale a pena um olhar mais profundo.TransdisciplinaridadeO modelo francês, de herança fordista, que separa disciplinas em“gavetas”, ainda impera hoje na coluna vertebral escolar: o currículo. Otermo, cujo signiicado em latim é caminho ou percurso, tem servido hojemais como um cabresto na integração das disciplinas e áreas do conhecimentodo que como uma trilha a ser seguida. No entanto, muitos não enxergamproblema algum em sua existência centenária e na forte inluênciaque exerce ainda hoje.


58IDADE MÍDIANão há absolutamente nenhuma ação ou projeto que façamos, ou, indomais fundo, algum acontecimento que permeie a vida no planeta, que envolvauma única área de conhecimento, ou áreas do conhecimento de formaisolada. Essa separação é uma invenção técnica, convencionada pelo homem.Assim, assimilar o simples fato de que Maquiavel foi contemporâneode Leonardo da Vinci (e que eles se conheceram em vida) custará caro aoestudante, no futuro, se não nos esforçarmos para integrar os conhecimentos.A questão é antiga no campo do debate acadêmico, mas pouco foifeito para integrar conhecimentos dentro da escola. Esse modelo tende ase replicar posteriormente na universidade (que luta para integrar seuscursos), em empresas (o mesmo para seus departamentos) e nos governos(na fusão inter-setorial das áreas de interesse público).Ironicamente, as mais recentes versões dos parâmetros curricularesnacionais e outras legislações modernas que conquistamos nos últimosanos propõem temas e modelos interessantes de projetos inter e transdisciplinares.Mas, como não carregam caráter normativo, o que acontece nasinstituições, sobretudo no currículo, ainda é a aula de Matemática seguidada de Biologia e assim por diante. Pílulas de cinquenta minutos de conhecimento,fragmentado e estanque, separadas pelo soar do sinal.O conceito de “transdisciplinar”, ainda hoje, não passa de uma ideia.De forma geral, o mérito de quem consegue colocá-lo em prática é maisindividual, do esforço de alguns professores diferenciados, do que de umaorientação institucional ou política.Conexão com o estudanteNão descobri em doze anos de proissão, por mais que tentasse, algumapesquisa na qual o jovem colocasse a escola entre os locais maisacolhedores de seus anseios, ou entre os mais importantes para ele.Se o “adolescer” é mesmo o “exalar”, como dito anteriormente, a vidado jovem é composta por uma explosão se sentimentos, sensações e aprendizados.Cada segundo é vivido com intensidade única e levado para o travesseiroà noite como um aprendizado, uma surpresa ou uma decepção.Mas quais os espaços que efetivamente ecoam os anseios e as inquietaçõesdesse estudante? Ou mesmo suas opiniões?O descompasso das preocupações e rotinas escolares com a intensidadedas mudanças na adolescência tem feito com que a escola perca uma


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 59chance de ouro de trabalhar “com o jovem” em sincronia com sua cultura,em vez de atuar “contra ele”. Os valores muitas vezes não são compreendidospelas partes, e, portanto, não podem ser compartilhados.Se a educação infantil e parte do ensino fundamental são uma continuidadeda descoberta lúdica do mundo pela criança, o ensino médio marcageralmente o im da “brincadeira”. De repente, o “viver” o conhecimento dálugar ao “memorizar” conteúdos, e a educação formal ainda insiste em pararpor aí.A sexualidade, as drogas, a descoberta do amor e tantas outras experiênciastêm pouca reverberação na escola, sobretudo porque a voz do estudantenão é ouvida; geralmente, não há canal de expressão para ele. Masé na escola que o jovem vai passar grande parte de sua vida.Tradicionalmente, a via de comunicação lui da escola para o estudantee para os pais, e quase nunca no sentido contrário. Destaco aqui oe-mail, o telefonema, a circular impressa, o mural interno. Mas responderaos anseios do aluno signiica primeiramente escutá-lo, abrir canais de mãodupla para que ele possa se expressar.Esse simulacro que a educação formal cria hoje em relação à vida queacontece fora da escola é o cenário ideal para a criação do sentimento de nãopertencimento, de repulsa, e da mera obrigação por parte dos estudantes.Até mesmo sem perceber, a escola hoje está fora das redes de conhecimentoque o jovem mais valoriza e nas quais aprende de fato: a roda deconversa com amigos, os meios de comunicação de massa, a família e ainternet. Esses canais ganham cada vez mais relevância na descoberta e naconstrução do aprendizado que icará para o resto da vida.O que está em questão aqui não é a idealização tola de um ensinototalmente prazeroso e alegre, mesmo porque a vida trata de demonstrarque nada funciona dessa maneira; mas um modelo de educação que gereinteresse e curiosidade, que dê vazão à expressão e à criatividade e que,portanto, aproxime naturalmente seus educandos, recolocando a escola,assim, num patamar importante da vida do jovem estudante.InformatizaçãoQuando a escola pública recebeu seus primeiros computadores emrede, em 1996, eu era um jovem repórter da revista Educação. Fiquei pasmoao cobrir uma aula de informática numa escola estadual, na qual o profes-


60IDADE MÍDIAsor ligava e desligava o computador na frente dos jovens, um por um, nointuito de “ensiná-los”. Era uma aula de apertar botões. Os tempos eramoutros, muita coisa evoluiu, mas a criatividade e a tecnologia continuamlonge de se misturar em favor da educação. Computador ainda é sinônimode Word ou PowerPoint.A imagem da sala de aula tão antiquada que mencionei no início destecapítulo diz pouco a respeito do material que ela abriga, e muito do modelocomo ela funciona. Os microcomputadores, lousas digitais, tablets e outrosgadgets podem ser tão inúteis quanto um giz e um quadro-negro convencional– o que não diminui o fato de que é importante tê-los disponíveis(ainal, são eles que aceleram, como enzimas, “o permanente im do mundocomo o conhecemos”).Porém, a revolução no processo educacional reside mais na maneiracomo utilizar esse material tecnológico, em termos de modelo criativoe recursos humanos (ou seja, professores), do que em tê-los de fato. O iPadnão signiica uma revolução educacional por si só, mas a potencializae estimula. A lousa digital pode ser tão inanimada quanto um livro fechadoou um lápis sem ponta. Contudo, usada com criatividade, ela pode invertero modelo de sala de aula, empoderando os estudantes nos processosde aprendizagem.As escolas têm tomado dois caminhos para se gabar de sua infraestrutura:o encantamento por meio de hardwares e dispositivos dos maisdiversos tipos, tomando-os como panaceia para um ensino moderno, ou osensinamentos técnicos oferecidos a seus alunos.Todavia, o que há na verdade é uma crise de escassez de conteúdoe forma para lidar com toda essa tecnologia, uma deiciência que começana formação universitária que não estimula seu uso na docência. Tecnologiasozinha não faz boa educação, mas é indispensável a ela, num projetomais amplo.ConstrutivismoO educador suiço Jean Piaget deve estar se revirando no túmulo aoperceber o esvaziamento que afeta sua teoria quando o assunto é educação.A carga de transformação do movimento reformista da Escola Nova– que Lev Vygotsky e outros tantos educadores deixaram de legado à nossasociedade – é notável e fundamental para um ensino de qualidade. Entre-


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 61tanto, o construtivismo passou a ser usado como selo de qualidade de ummodelo de educação “progressista” sem que a instituição educacional verdadeiramentese esforce em adotá-lo.Certa vez fui interpelado por uma jovem mãe que, entusiasmada, veiome contar ter matriculado seu caçula numa escola construtivista. Minhareação imediata foi perguntar: Mas qual delas não o é?De fato, os princípios que regem a interação do sujeito com o meio,que moldam sua inteligência como algo “a ser construído”, nos moldes doproposto por Piaget, já foram tão assimilados nos cursos superiores deeducação que não consistem, atualmente, num diferencial entre as escolas.E é bom que não sejam. Muito aconteceu desde o desenvolvimentoda teoria, no século passado; basta uma rápida olhada no conceito de múltiplasinteligências de Howard Gardner – isso sem contar os inúmeros avançosda neurociência, que trazem novidades diárias.Ou seja, gabar-se de ser “construtivista” signiica, por exemplo, omesmo que se vangloriar em defender a “liberdade” como valor da democracia– muito diícil de discordar. Trata-se de um princípio elementar parase educar hoje.É muito positivo que os planos pedagógicos das escolas mesclem ese alimentem das mais diversas correntes educativas e que, principalmente,façam esses princípios chegarem à sala de aula e às atitudes dos educadores– uma maneira de encarar a complexidade da sociedade. São poucasque o fazem.Professores preparadosA estudante Samantha Natacci, que cursou o Idade Mídia em 2005,colocou em debate, durante uma reunião de pauta, o tema cosplay 1 , quecomeçara a surgir na mídia fortemente àquela época. Fiz o papel de mediadordo debate, admitindo que não sabia do que se tratava. Corri para casaa im de pesquisar. Usei da experiência para criar meu próprio lema deeducador, um tanto bem-humorado: “O dia em que eu não tiver curiosidadesobre o que é cosplay ou qualquer outra novidade, desisto de dar aula”.1 Atividade lúdica em que jovens se fantasiam de personagens reais ou ictícios com oobjetivo de realizar um jogo de interpretações.


62IDADE MÍDIANão nego ser uma tarefa árdua atualizar-se ao ritmo do “permanenteim do mundo como o conhecemos”. Mas acredito que acompanhar a culturado jovem deva fazer parte da preparação do professor; ainal, o estudantedeve ser visto hoje como uma ponta do diálogo na construção do conhecimento,não um repositório de informações. Esta, porém, não é uma práticaestimulada na maioria das escolas que airmam preparar seus professores.A formação continuada, ou o aprendizado permanente – o termo originalé lifelong learning –, ganhou importância na “era da criatividade”, masda forma como tem sido encarada pela maioria das instituições se referemais a uma renovação de conteúdos do que ao aprimoramento nas formasde educar e relacionar-se com os estudantes.O gap geracional entre educador e educando é algo que sempre existiue sempre existirá, mas se intensiica conforme as mudanças sociais seaceleram. Os professores envelhecem ano a ano, mas assumem turmas quemantêm sempre a mesma faixa etária. Este é um tema perene para as escolas,que ainda não sabem como lidar, ou mesmo desprezam, uma maiorinteração entre as partes. Usando a máxima da comunicação “um bom jornalistaconhece profundamente seu público-alvo e escreve para ele”, umprofessor bem preparado deve falar a língua de seus estudantes, e, paraisso, precisa conhecê-los muito bem.Formação para a vidaA carga de obviedade e generalismo do “educar para a vida” é tamanhaque me estranharia estudar numa escola que não o izesse. Se assimnão fosse, o aluno estaria sendo preparado para o quê? A própria ideia decurrículo nasce com o propósito de formar cidadãos aptos a lidar com asociedade vigente.Este é, sem dúvida, o slogan preferido das escolas e dos publicitários– também o mais desprovido de signiicado. A priori, uma escola que não seatualiza frente às transformações sociais já não tem como realizar essa proposta,uma vez que a vida, de fato, acaba se revelando muito distante daquiloque acontece no interior de seus muros. Mas o apelo no qual a educaçãoinveste para se vender comercialmente diz respeito à cidadania, termo que,por sua vez, também foi esvaziado pela mídia e pela sociedade civil.A leitura de mundo sob a ótica dos direitos humanos, bem como oacompanhamento das notícias da atualidade – a história que acontece en-


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 63quanto você lê este livro – é uma das problemáticas menos resolvidas nouniverso da educação formal. Talvez seja calcado nesses dois aspectos queo termo “formação para a vida” seja tão repetido. A carga de conteúdoscurriculares abre pouca brecha para se tratar das questões cotidianas. Porisso, o autocentrismo escolar tem sido um dos principais inimigos da educaçãode qualidade.A desmitiicação do conceito de “formação para a vida” passa necessariamentepelo fato de que a escola é somente um dos pontos da rederesponsável por tal objetivo – impossível realizar sozinha algo tão amplo ecomplexo. Ela tampouco dará conta do trabalho se não interagir com outrosaspectos da vida do estudante, como seus interesses pessoais, sua famíliae sua relação com a sociedade.Surpreendentemente, a maioria das experiências que tentam resolveressa questão acaba por “engessar” os direitos humanos no currículo,assim como se fez com a química, a ísica ou a biologia. Nem a experiênciatransdisciplinar proposta nos Parâmetros Curriculares Nacionais é postaem prática.Assim, a leitura de jornais e o estudo da sociedade têm se resumidonovamente às aulas expositivas de cinquenta minutos. São raras as instituiçõesque transformam o “formar para a vida” em uma ação efetiva emprol do estudante – sem relegar o projeto ao umbigo do currículo escolar.Por exemplo, as realidades diversas da vida de jovens de periferia e dasregiões mais nobres das grandes cidades são pouco compartilhadas numambiente de ensino; apenas muito verbalizada. Estudantes das melhoresescolas não conhecem a rotina de um garoto de Heliópolis, nunca estiveramlá. Em Heliópolis, por sua vez, há uma glamourização excessiva do “boyzinho”da zona sul. Duas realidades tão distantes, sem pontos de contato, quepouco trabalham por uma “educação para a vida”, ou por “um mundo melhor”,aproveitando outro jargão muito utilizado.Formação para a o mercado de trabalhoOs purismos ligados à meta de seguir “uma carreira proissional”estão em xeque. Diícil para os mais velhos assimilarem essa informação,já que a segurança de um emprego parece ser um dos sonhos mais desejadosdos pais para os ilhos – situação simples de ser compreendida. Dizerque as carreiras estão se lexibilizando e se fundindo, num movimento de


64IDADE MÍDIAintegração de conhecimentos, pode soar “arriscado” para o futuro de umjovem, mas trata-se apenas da realidade.Quando ouço a máxima da escola que “forma para a carreira proissional”,sempre me pergunto se estamos tratando de um ensino médio pro-issionalizante ou técnico. Se não for este o caso, caberia à escola elucidarseus estudantes sobre como o emprego está em constante mutação. O quemais percebo, no entanto, é a insistência em tratar a carreira como umatradicional e imutável opção de vida. Hoje, isso não é verdade nem para asproissões mais tradicionais. Vejamos alguns exemplos.• A medicina já começa a lertar com a engenharia e com a tecnologia,e a abrir um lanco enorme de trabalho na implantação de próteses– sem falar do campo da saúde pública, que mesmo ignorado estáem franca expansão; já os médicos não são tão bem remunerados.• O direito encontra a comunicação na medida em que se especializana questão da propriedade intelectual.• A comunicação se une à educação na elaboração de conteúdosdidáticos.• O mercado está saturado de dentistas.• O jornalismo começa a pagar melhor seus proissionais.• A economia criativa, atividade mais ainada com o momento emque vivemos, exige formação ampla em artes. E no tocante à criatividade,o Brasil tem-se revelado um exportador de know-how,basta lembrarmos exemplos como o do cineasta Carlos Saldanha(da animação Rio, da Pixar).• Criar games para celular virou coisa séria, uma das proissõesmais rentáveis da atualidade que, muitas vezes, não exige diplomauniversitário.• O funcionalismo público tem remunerado muito bem e atraídoexcelentes proissionais.Nesse mundo de cabeça para baixo, a escola tradicional, autocentrada,mal consegue acompanhar a expansão do ensino superior, tampouco estáatenta às sutilezas dessas transformações no emprego. O “formar para o mercadode trabalho” parece-me uma realidade muito distante daquela escolaque não percebeu que o próprio termo “mercado de trabalho” está em desuso.…


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 65As razões que sustentam a qualidade da educação estão menos atreladasao maniqueísmo do “bem ou mal” do que se imagina. A escola, quehoje se esforça para se mimetizar na sociedade, encontra-se nesse estadoletárgico por uma questão muito conveniente: como a sociedade tem diiculdadesde acompanhar suas próprias mudanças, pouco exige das instituiçõesde ensino para que se modernizem. Há uma impressão generalizadade que “tudo vai bem”.O papel construtivo da crítica, aqui, também ressoa sobre nós mesmos:Que escola queremos para nossos jovens? Ou melhor: Que escola elesdesejam para si próprios? A quem interessa mantermos os modelos curriculares?Por qual educação pagaríamos?A instituição conteudista de hoje tem como inalidade quase únicaencaixar no seu currículo todo o conteúdo exigido nos vestibulares, ouem outros exames de admissão no ensino superior, com o intuito de ingressarseus estudantes nas melhores universidades. E acredite, esse jáé um grande trabalho. No fundo, são esses modelos de exame que acabamtendo papel central na formatação curricular como a conhecemos. E quemexige isso dela é a própria sociedade, ou melhor, os pais de alunos,que mantêm o foco da educação média dos ilhos somente no acesso imediatoà faculdade.São essas exigências e pressões feitas pelos clientes da educação – ospais (evidentes para a escola) e os ilhos (ainda com pouco poder de decisão)– que acabam por instaurar uma crise permanente de identidade noensino médio, objeto de muito debate social. Deveria ele ser propedêutico?Proissionalizante? Humanista? As frequentes reformas na educação públicatêm um quê de novidade desde 1940, mas carregam o mesmo lemainatingível: aproximar o currículo escolar da vida cotidiana.Essa falta de direção não é uma exclusividade da educação pública.Desde que comecei meu trabalho com escolas, procuro tratar as questõesestruturais da educação como problemas sistêmicos únicos e universais,e o que percebo é que eles se repetem nos modelos públicos nacionaise internacionais.Como jornalista, conheci escolas geridas das mais diferentes maneirasem todos os cantos do mundo. As que se diferenciavam pela qualidadedo ensino e pela sintonia com a “era da criatividade” traziam em si modelosde inteligência únicos e, obviamente, pulsavam de acordo com as expectativasde pais e alunos.


66IDADE MÍDIALembro-me, por exemplo, de passar um dia em uma escola episcopalcaríssima nos arredores de Portland, no Oregon (), a , cujo currículoé formado por projetos desenvolvidos pelos alunos. O estudante escolheum projeto cientíico em qualquer área (um robô ou um jornal digital, porexemplo) e tem aulas focadas nos conteúdos, habilidades e competênciaspertinentes à sua opção. O ambiente escolar, que não tinha salas de aula,mas amplos espaços equipados que mais pareciam “garagens criativas”,transpirava vida e curiosidade, e os alunos, por consequência, acabavamadmitidos em ótimas universidades. Mas vale sublinhar que a não é umexemplo padrão de toda a vasta rede educacional norte-americana – sobretudoa pública.No Brasil, projetos multidisciplinares que promovem a efetiva integraçãodas disciplinas são fundamentos comuns de todas as mais brilhantesexperiências que conheci, e realmente abrem caminho para a interaçãoescola/comunidade. Por exemplo, uma instituição pública cravada no interiorde Mato Grosso (Novo Mundo), em território amazônico, adota a questãoda sustentabilidade como eixo de todas as disciplinas; talvez seja oúnico lugar do mundo em que meninos, tratadores de gado durante o dia,discutem à noite o papel da pecuária na devastação ambiental – e planejamum futuro melhor.Certa vez, entrevistando o educador Rubem Alves para a revista Trip,pude compartilhar essas impressões com ele e perceber que não eram sóminhas. A escola mais interessante que ele conhecera lhe foi apresentadapelo velejador Amyr Klink: na Dinamarca, há uma escola em que os alunostêm como objetivo construir uma casa. Do projeto, que deve ter preocupaçõesecológicas, à construção, que exige pesquisas de materiais, tudo é alvode estudo e orientação. A Trip acabou usando o apelo do banheiro e do vasosanitário para vender mais revistas, ainal era lá, investigando para ondeiria o xixi dos moradores da casa, que os estudantes mais aprendiam sobreo ciclo dos elementos orgânicos na natureza.A proximidade da comunidade, da família e do próprio jovem em relaçãoà escola também tem sido um caminho interessante para o desenvolvimentode um espaço educacional relevante para os tempos atuais. Ascharters schools norte-americanas têm revigorado comunidades cuja redeeducativa era anteriormente pouco eiciente; são escolas privadas que funcionamnum regime de concessão do poder público e têm uma gestão prioritariamentefeita por ex-alunos fundadores e por integrantes da comunidade.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 67Eles partem de uma simples pergunta para elaborar o plano político-pedagógico:Educamos para quê?Escutar o anseio do estudante e direcionar, por meio de práticas inteligentes,suas aptidões, parece ser a única maneira de reposicionar a escolacomo player na teia de aprendizado da qual o jovem faz parte hoje – emoutras palavras, ganhar relevância nesse ambiente. É preciso ser corajosopara admitir que a centralização da educação, muito defendida pelo sociólogofrancês Émile Durkheim, faz pouco sentido atualmente na sociedade em rede.Eu mesmo sou fruto de experiências educacionais diversas, que variaramdas mais alternativas até as mais convencionais em São Paulo. Hoje,tenho ciência de que o meu interesse por artes e literatura e a experiênciaadquirida com os inúmeros cursos e projetos em que sempre me metia(fotograia e navegação à vela), foram grandes responsáveis por minha formação.Esse traquejo em adaptar-me a diferentes ambientes desenvolveuo que mais prezo hoje como conquista: a autonomia. Por conta disso, soubeexplorar os melhores professores das escolas por onde passei, eles forammuito mais marcantes do que as instituições em si.Faço essa digressão porque confesso que conhecia pouco o ColégioBandeirantes – não estudei lá. Sabia que era considerado “puxado”, e nadamais. A imagem de rigidez se perpetuou por muito tempo, nutrindo certaantipatia por alguns amigos que se autointitulavam “modernos”.Fiquei surpreso e encantado com a instituição que conheci, pouco apouco, nesses dez anos de projeto, descobertas que me izeram entenderpor que, em 2002, o Idade Mídia só poderia ter sido abraçado por um colégiocomo aquele.São dois conceitos muito presentes no dia a dia que regem os princípiosdo Bandeirantes: autonomia do estudante e valorização do conhecimento.Nenhuma outra escola em que estive ou pesquisei no Brasil investetão intensamente na formação (inclusive internacional) de seus professores,na estrutura de trabalho e na elaboração de propostas educativas originais.O resultado é uma comunidade de proissionais engajados e bempreparados e de alunos que realmente adoram estar lá, vivenciando umensino academicamente puxado. Os educadores se veem aliados dos alunos,e estes retribuem com afetividade e esforço.Para que tudo funcione tão bem, em primeiro lugar deve haver umacordo tácito fundamental de que o jovem que lá quer entrar – tarefa nadafácil, pois as vagas são muito disputadas – deseja mesmo se aprofundar nos


68IDADE MÍDIAestudos e esforçar-se. Para quem não gosta de estudar (e acredito ser estauma vocação da qual nem todos compartilham), o Bandeirantes é uma péssimaopção. Os alunos do ensino médio, por exemplo, não são obrigados aassistir às aulas, mas o fazem porque desenvolvem responsabilidade eautonomia; sabem que, se desistirem, não vão chegar aonde desejam.Toda a estrutura ísica acadêmica (rede de internet aberta a todos,tablets e laptops livres para uso diário e bibliotecas com publicações detodo o mundo) está disponível em tempo integral para os mais criativosprojetos de alunos e professores.Foram tais condições que tornaram possível também a realização deprojetos do corpo docente, como o que mescla história da arte e ilosoia– experiência desenvolvida pelo professor Régis Lima; ou como a propostaestruturada pela professora Clarice Kelbert, que trabalha um amplo lequede vivências em cidadania, e com a qual o Idade Mídia se identiicou inicialmente.O “Cidadão na Linha”, como foi chamado no princípio, foi um projetopioneiro em abrir as portas dessa importante discussão acerca da cidadaniae da educação, e acabou por inspirar uma série de outras experiências.Mas devo admitir que o que mais me preocupava no início do IdadeMídia era a autonomia em trabalhar editorialmente com os alunos temasimportantes, mas polêmicos – como drogas e sexualidade –, sem a interferênciados adultos.Quando fechamos a primeira edição de nossa revista, As Fanzonas,iquei em dúvida se submetia o material ao diretor Mauro Aguiar antes deenviar os originais à gráica. Na minha proposta de curso, a decisão depublicar determinado conteúdo era integralmente dos estudantes.“Claro que não devo ler antes!”, disse Mauro, meio inconformado coma indagação. Naquele momento, percebi deinitivamente que estava no lugarcerto, com as pessoas certas, para desenvolver um excelente projeto.


O PERMANENTE FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS 69O Idade Mídia por Fernando RossettiA cobertura jornalística da área de educação no Brasil teve uma expressivamelhora qualitativa no fim dos anos 1990 graças ao sociólogo FernandoRossetti. Sempre com um olhar sistêmico, atento aos processos de transformação,durante muito tempo foi responsável pela área na Folha de S. Paulo.Compartilhamos o mesmo desejo de “pular o muro” do jornalismo em educaçãopara o trabalho educativo de fato, quando nos encontramos em 1999,no início da Cidade Escola Aprendiz – e assim dividimos, junto com GilbertoDimenstein, as preocupações e ideias que dariam origem ao Idade Mídia ea outras experiências na área.Pequena história paraficar na HistóriaPor Fernando RossettiO Brasil tem sido um importante laboratório de experiências de aplicaçãodas novas tecnologias de informação e comunicação em espaços educativos,como escolas e ONGs. Em poucos anos, demonstrou que o bom uso pedagógicodos computadores e da internet é central para formar os cidadãos deuma sociedade impactada por rápidas transformações tecnológicas.Projetos como o Idade Mídia mostram que um estudante que produzum jornal passa a ter uma relação diferenciada – e mais sofisticada – coma cacofonia comunicativa a que estamos submetidos hoje.Essas experiências também revelam que as implicações da revoluçãonas tecnologias de informação e comunicação vão muito além da formaçãode cidadãos. Hoje, o comportamento do consumidor é determinado por suaatitude diante da publicidade. Ensinar a selecionar mensagens publicitáriastornou-se central para a construção de uma economia mais sustentável.O que as experiências pedagógicas mostram é que quando um estudanteproduz um vídeo ele nunca mais assiste a outro passivamente; se eleproduz publicidade, ele adquire os anticorpos para esse tipo de mensagem.Outra conclusão é que não basta mais formar as pessoas para seremreceptoras de comunicação. Na era das redes sociais, todos precisam setornar comunicadores.


70IDADE MÍDIABons projetos de educomunicacão ainda são muito restritos. A maioriadas escolas com laboratório de informática – o que já é um privilégio – usa oscomputadores como máquina de escrever, e a internet como uma enciclopédia.Por tudo isso, inserir a comunicação na educação, por intermédio dainternet e dos laboratórios de informática, tornou-se prioridade.Meu primeiro contato com educomunicação foi com Gilberto Dimenstein,em 1997. Ele escrevia o livro Aprendiz do futuro e eu fazia um cursosobre direitos humanos na Columbia University. Éramos ambos correspondentesda Folha nos Estados Unidos.No curso que eu fazia então, montei o projeto de um jornal, voltadoa educadores e estudantes, que resumiria semanalmente as principais notíciasda área. A internet acabara de chegar ao Brasil; não havia praticamentenada publicado nela, muito menos conteúdo educativo, em português.Voltando ao País, em meados de 1997, eu e Dimenstein implementamoso resumo semanal das notícias de educação no site que foi lançadojunto com o livro Aprendiz do futuro. A redação era formada pelos estudantesde seu projeto no Colégio Bandeirantes.Toda uma geração de educomunicadores se formou nessas experimentaçõespedagógicas do Colégio Bandeirantes e do Projeto Aprendiz, apreendendona prática conceitos que estavam nascendo com a chegada dainternet – inclusive o autor deste livro, Alexandre Le Voci Sayad.Foi nessa época, em 2001, que eu e ele deixamos a função de gestoresno Aprendiz um pouco de lado e nos aventuramos a montar um projetoexperimental ao qual demos o nome “Redação Escola”. Literalmente nosdebruçamos sobre uma nova forma de educar usando a comunicação. Umapequena turma mista de estudantes de escolas públicas e particulares produziuinteressantes fanzines. O embrião do Idade Mídia nascia ali.Os resultados alcançados pelo Idade Mídia ao longo de seus dez anosinspiram os que lutam para que todos os cidadãos adquiram, na escola eem sua comunidade, as habilidades e competências comunicativas necessáriaspara lidar com o tsunami de informações e imagens a que estamossubmetidos neste complexo século 21.Fernando Rossetti é sociólogo e jornalista, atualmente diretor executivo do GIFE – Grupode Institutos, Fundações e Empresas (www.gife.org.br).

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