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percy-jackson-e-os-olimpianos_-o-ladrao-de-raios-vol-1-rick-riordan

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Marcador 1E se <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses do Olimpo estivessem viv<strong>os</strong> em pleno século XXI? E se eles ainda seapaixonassem por mortais e tivessem filh<strong>os</strong> que pu<strong>de</strong>ssem se tornar heróis? Segundo a lenda daAntigüida<strong>de</strong>, a maior parte <strong>de</strong>les, marcad<strong>os</strong> pelo <strong>de</strong>stino, dificilmente passa da adolescência.Pouc<strong>os</strong> conseguem <strong>de</strong>scobrir sua i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>.Percy Jackson está para ser expulso do colégio interno... <strong>de</strong> novo. É a sexta vez que issoacontece. A<strong>os</strong> 12 an<strong>os</strong>, está é apenas uma das ameaças que pairam sobre esse garoto, além d<strong>os</strong>efeit<strong>os</strong> da síndrome do déficit <strong>de</strong> atenção, da dislexia... e das criaturas fantásticas e <strong>de</strong>uses doMonte Olimpo, que, últimamente, parecem estar saindo d<strong>os</strong> livr<strong>os</strong> <strong>de</strong> mitologia grega do colégiopara a realida<strong>de</strong>. E, ao que tudo indica, estão aborrecid<strong>os</strong> com ele.Vári<strong>os</strong> aci<strong>de</strong>ntes e revelações inexplicáveis afastam Percy Jackson <strong>de</strong> Nova York, sua cida<strong>de</strong>, eo lançam em um campo <strong>de</strong> treinamento muito especial, on<strong>de</strong> é orientado para enfrentar umamissão que en<strong>vol</strong>ve human<strong>os</strong> diferentes – meta<strong>de</strong> <strong>de</strong>uses, meta<strong>de</strong> homens -, além <strong>de</strong> seresmitológic<strong>os</strong>. O raio-mestre <strong>de</strong> Zeus fora roubado, e é Percy quem <strong>de</strong>ve resgatá-lo.Com a ajuda <strong>de</strong> nov<strong>os</strong> amig<strong>os</strong> – um sátiro e a filha <strong>de</strong> uma <strong>de</strong>usa – Percy tem <strong>de</strong>z dias parareaver o instrumento <strong>de</strong> Zeus, que representa a <strong>de</strong>struição original, e restabelecer a paz no Olimpo.Para conseguir isso, precisará fazer mais do que capturar um ladrão. Terá <strong>de</strong> encarar o pai que oabandonou resolver um enigma prop<strong>os</strong>to pelo oráculo e <strong>de</strong>svendar uma traição mais ameaçadoraque a fúria d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.Marcador 2Rick Riordan nasceu em 1964, em San Antonio, Texas, Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>, on<strong>de</strong> mora com amulher e dois filh<strong>os</strong>. Durante quinze an<strong>os</strong> ensinou inglês e história em escolas públicas eparticulares do São Francisco.Além da série Percy Jackson e <strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong>, publicou a premiada série <strong>de</strong> mistério paraadult<strong>os</strong> Tres Navarre.Para Haley, que ouviu a história primeiro.SUMÁRIO:UM – sem querer, transformo em pó minha professora <strong>de</strong> iniciação à Álgebra.DOIS – três velhas senhoras tricotam as meias da morte.TRÊS – Grover <strong>de</strong> repente per<strong>de</strong> as calças.QUATRO – minha mãe me ensina a tourear.CINCO – eu jogo pinochle com um cavalo.SEIS – minha transformação em senhor supremo do banheiro.SETE – meu jantar se esvai em fumaça.OITO – nós capturam<strong>os</strong> uma ban<strong>de</strong>ira.NOVE – oferecem-me uma missão.DEZ – eu <strong>de</strong>struo um ônibus.ONZE – n<strong>os</strong>sa visita ao empório <strong>de</strong> anões <strong>de</strong> jardim.DOZE – um poodle é o n<strong>os</strong>so conselheiro.TREZE – meu mergulho para a morte.QUATORZE – eu me torno um fugitivo conhecido.QUINZE – um <strong>de</strong>us compra cheesburgers para nós.


DEZESSEIS – a ida <strong>de</strong> uma zebra para Las Vegas.DEZESSETE – vam<strong>os</strong> comprar camas d’água.DEZOITO – Annabeth usa a aula <strong>de</strong> a<strong>de</strong>stramento.DEZENOVE – <strong>de</strong> certa forma, <strong>de</strong>scobrim<strong>os</strong> a verda<strong>de</strong>.VINTE – a luta contra meu parente imbecil.VINTE E UM – meu acerto <strong>de</strong> contas.VINTE E DOIS – a profecia se cumpre.UM – Sem querer, transformo em pó minha professora <strong>de</strong> iniciação à Álgebra.Olhe, eu não queria ser um meio-sangue.Se você está lendo isto porque acha que po<strong>de</strong> ser um, meu conselho é o seguinte: feche estelivro agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe contou sobre seunascimento, e tente levar uma vida normal.Ser meio-sangue é perig<strong>os</strong>o. É assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente <strong>de</strong> um jeitopen<strong>os</strong>o e <strong>de</strong>testável.Se você é uma criança normal, que está lendo isto porque acha que é ficção, ótimo. Continuelendo. Eu o invejo por ser capaz <strong>de</strong> acreditar que nada disso aconteceu.Mas, se você se reconhecer nestas páginas – se sentir alguma coisa emocionante lá <strong>de</strong>ntro -,pare <strong>de</strong> ler imediatamente. Você po<strong>de</strong> ser um <strong>de</strong> nós. E, uma vez que fica sabendo disso, é apenasuma questão <strong>de</strong> tempo antes que eles também sintam isso, e venham atrás <strong>de</strong> você.Não diga que eu não avisei.Meu nome é Percy Jackson.Tenho doze an<strong>os</strong> <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>. Até alguns meses atrás, era aluno <strong>de</strong> um internato, na Aca<strong>de</strong>miaYancy, uma escola particular para crianças problemáticas no norte do estado <strong>de</strong> Nova York.Se eu sou uma criança problemática?Sim. Po<strong>de</strong>-se dizer isso.Eu po<strong>de</strong>ria partir <strong>de</strong> qualquer ponto da minha vida curta e infeliz para prová-lo, mas as coisascomeçaram a ir realmente mal no último mês <strong>de</strong> maio, quando n<strong>os</strong>sa turma do sexto ano fez umaexcursão a Manhattan – vinte e oito crianças alucinadas e dois professores em um ônibus escolaramarelo indo para o Metropolitan Museum of Art, a fim <strong>de</strong> observar velharias gregas e romanas.Eu sei, parece tortura. A maior parte das excursões da Yancy era mesmo.Mas o sr. Brunner, n<strong>os</strong>so professor <strong>de</strong> latim, estava guiando essa excursão, assim eu tinhaesperanças.O sr. Brunner era um sujeito <strong>de</strong> meia-ida<strong>de</strong> em uma ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas motorizada. Tinha ocabelo ralo, uma barba <strong>de</strong>salinhada e usava um casaco surrado <strong>de</strong> tweed que sempre cheirava acafé. Talvez você não o achasse legal, mas ele contava histórias e piadas e n<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixava fazerbrinca<strong>de</strong>iras em sala.Também tinha uma impressionante coleção <strong>de</strong> armaduras e armas romanas, portanto era o únicoprofessor cuja aula não me fazia dormir.Eu esperava que <strong>de</strong>sse tudo certo na excursão. Pelo men<strong>os</strong> tinha esperança <strong>de</strong> não me meter emencrenca <strong>de</strong>ssa vez.Cara, como eu estava errado.Entenda: coisas ruins me acontecem em excursões escolares. Como na minha escola da quintasérie, quando fom<strong>os</strong> para o campo <strong>de</strong> batalha <strong>de</strong> Saratoga, e eu tive aquele aci<strong>de</strong>nte com umcanhão da Re<strong>vol</strong>ução Americana. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro


que fui expulso do mesmo jeito.E antes disso, na escola da quarta série, quando fizem<strong>os</strong> um passeio pel<strong>os</strong> bastidores do tanqued<strong>os</strong> tubarões do Mundo Marinho, e eu <strong>de</strong>, alguma forma, acionei a alavanca errada no passadiço en<strong>os</strong>sa turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, já dá para você ter uma idéia.Nessa viagem, eu estava <strong>de</strong>terminado a ser bonzinho.Ao longo <strong>de</strong> todo o caminho para a cida<strong>de</strong> agüentei Nancy Bobofit, aquela cleptomaníaca ruivae sar<strong>de</strong>nta, acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> sanduíche <strong>de</strong>manteiga <strong>de</strong> amendoim com ketchup.Grover era um alvo fácil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido<strong>de</strong> ano muitas vezes, porque era o único na sexta série que tinha espinhas e uma barba ralacomeçando a nascer no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha um atestado que odispensava da Educação Física pelo resto da vida, porque tinha algum tipo <strong>de</strong> doença muscular naspernas. Andava <strong>de</strong> um jeito engraçado, como se cada passo doesse, mas não se <strong>de</strong>ixe enganar porisso. Você precisa vê-lo correr quando era dia <strong>de</strong> enchilada na cantina.De qualquer modo, Nancy Bobofit estava jogando bolinhas <strong>de</strong> sanduíche que grudavam nocabelo castanho cacheado <strong>de</strong>le, e ela sabia que eu não podia revidar, porque já estava sendoobservado, sob o risco <strong>de</strong> ser expulso. O diretor me ameaçara <strong>de</strong> morte com uma suspensão ―naescolaǁ (ou seja, sem po<strong>de</strong>r assistir às aulas, mas tendo <strong>de</strong> comparecer à escola e ficar trancadonuma sala fazendo tarefas <strong>de</strong> casa) caso alguma coisa ruim, embaraç<strong>os</strong>a ou até mo<strong>de</strong>radamentedivertida acontecesse durante a excursão.- Eu vou matá-la – murmurei.Grover tentou me acalmar.- Está tudo bem. G<strong>os</strong>to <strong>de</strong> manteiga <strong>de</strong> amendoim.Ele se esquivou <strong>de</strong> outro pedaço do lanche <strong>de</strong> Nancy.- Agora chega. - Comecei a levantar, mas Grover me puxou <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para o assento.- Você já está sendo observado - ele me lembrou. - Sabe que será culpado se acontecer algumacoisa.Quando me lembro daquilo, preferia ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspensão na escolanão teria sido nada em comparação com a encrenca que eu estava prestes a me meter.O sr. Brunner guiou o passeio pelo museu.Ele foi na frente em sua ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas, conduzindo-n<strong>os</strong> pelas gran<strong>de</strong>s galerias cheias <strong>de</strong> ec<strong>os</strong>,passando por estátuas <strong>de</strong> mármore e caixas <strong>de</strong> vidro repletas <strong>de</strong> cerâmica preta e laranja muitovelha.Eu ficava alucinado só <strong>de</strong> pensar que aquelas coisas tinham sobrevivid<strong>os</strong> por dois mil, três milan<strong>os</strong>.Ele n<strong>os</strong> reuniu em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> uma coluna <strong>de</strong> pedra com quatro metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> altura e uma gran<strong>de</strong>esfinge no topo, e começou a explicar que aquilo era um marco tumular, uma estela, feita parauma menina mais ou men<strong>os</strong> da n<strong>os</strong>sa ida<strong>de</strong>. Contou-n<strong>os</strong> sobre as inscrições laterais. Estavatentando ouvir o que ele tinha a dizer, porque era um pouco interessante, mas tod<strong>os</strong> ao meu redorestavam falando, e cada vez que eu dizia para calarem a boca, a outra professora que n<strong>os</strong>acompanhava, a sra. Dodds, me olhava <strong>de</strong> cara feia.A sra. Dudds era aquela professorinha <strong>de</strong> matemática da Geórgia que sempre usava um casaco<strong>de</strong> couro preto, apesar <strong>de</strong> ter cinqüenta an<strong>os</strong> <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>. Parecia má o bastante para entrar com umamoto Harley bem <strong>de</strong>ntro do seu armário. Tinha chegado em Yancy no meio do ano, quando n<strong>os</strong>saúltima professora <strong>de</strong> matemática teve um colapso nerv<strong>os</strong>o.


Des<strong>de</strong> o primeiro dia, a sra. Dodds adorou Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido geradopelo diabo.Ela me apontava o <strong>de</strong>do torto e dizia: ―Agora, meu bemǁ, com a maior doçura, e eu sabia queia ficar <strong>de</strong>tido <strong>de</strong>pois da aula por um mês.Certa vez, <strong>de</strong>pois que ela me fez apagar as resp<strong>os</strong>tas em antig<strong>os</strong> livr<strong>os</strong> <strong>de</strong> exercíci<strong>os</strong> <strong>de</strong>matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhoupara mim, muito sério, e disse: - Você está certíssimo.O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado na estela, e eu mevirei e disse: - Quer calar a boca?Saiu mais alto do que eu pretendia.O grupo inteiro <strong>de</strong>u risada. O Sr. Brunner interrompeu seu história.- Sr. Jackson - disse ele -, fez algum comentário?Meu r<strong>os</strong>to estava completamente vermelho. Eu disse: - Não, senhor.O sr. Brunner apontou para uma das figuras na estela.- Talvez p<strong>os</strong>sa n<strong>os</strong> dizer o que esta figura representa.Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda <strong>de</strong> alívio, porque <strong>de</strong> fato a reconhecera.- É Cron<strong>os</strong> comendo <strong>os</strong> filh<strong>os</strong>, certo?- Sim – disse o sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. – E ele fez isso porque...- Bem... - eu quebrei a cabeça para me lembrar. - Cron<strong>os</strong> era o <strong>de</strong>us-rei e...- Rei? - perguntou o sr. Brunner.- Titã - eu me corrigi. - E... ele não confiava n<strong>os</strong> filh<strong>os</strong>, que eram <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Então, hum, Cron<strong>os</strong><strong>os</strong> comeu, certo? Mas sua esp<strong>os</strong>a escon<strong>de</strong>u o bebê Zeus e <strong>de</strong>u a Cron<strong>os</strong> uma pedra para comer nolugar <strong>de</strong>le. E <strong>de</strong>pois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cron<strong>os</strong>, e o fez vomitar seus irmã<strong>os</strong>e irmãs.- Eca! - disse uma das meninas atrás <strong>de</strong> mim.- ...e então houve aquela gran<strong>de</strong> briga entre <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses e <strong>os</strong> titãs - continuei -, e <strong>os</strong> <strong>de</strong>usesvenceram.Algumas risadinhas do grupo.Atrás <strong>de</strong> mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga: - Como se fôssem<strong>os</strong> usar isso na vidareal. Como se f<strong>os</strong>sem falar nas n<strong>os</strong>sas entrevistas <strong>de</strong> emprego: ―Por favor explique por queCron<strong>os</strong> comeu seus filh<strong>os</strong>.ǁ- E por que, Sr. Jackson - disse o sr. Brunner -, parafraseando a excelente pergunta da Srta.Bobofit, isso importa na vida real?- Se ferrou – murmurou Grover.- Cala a boca - chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.Pelo men<strong>os</strong> Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algoerrado.Tinha ouvid<strong>os</strong> <strong>de</strong> radar.Pensei na pergunta <strong>de</strong>le, e encolhi <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.- Não sei, senhor.- Entendo. - O sr. Brunner pareceu <strong>de</strong>sapontado. - Bem, meio ponto, Sr. Jackson. Zeus, naverda<strong>de</strong>, <strong>de</strong>u a Cron<strong>os</strong> uma mistura <strong>de</strong> m<strong>os</strong>tarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cincocrianças, que, é claro, sendo <strong>de</strong>uses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas


no estômago do titã. Os <strong>de</strong>uses <strong>de</strong>rrotaram o pai <strong>de</strong>les, cortando-no em pedaç<strong>os</strong> com sua própriafoice e espalharam <strong>os</strong> rest<strong>os</strong> no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegrecomentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer n<strong>os</strong> levar <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para fora?A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, <strong>os</strong> garot<strong>os</strong> empurrando uns a<strong>os</strong> outr<strong>os</strong> eagindo como bobões.Grover e eu estávam<strong>os</strong> prestes a segui-l<strong>os</strong> quando o sr. Brunner disse: - Sr. Jackson.Eu sabia o que vinha a seguir.Disse a Grover para ir andando. Então me <strong>vol</strong>tei para o professor.- Senhor?O sr. Brunner tinha aquele olhar que não <strong>de</strong>ixa a gente ir embora - olh<strong>os</strong> castanh<strong>os</strong> intens<strong>os</strong> quepo<strong>de</strong>riam ter mil an<strong>os</strong> <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> e já ter visto <strong>de</strong> tudo.- Você precisa apren<strong>de</strong>r a respon<strong>de</strong>r à minha pergunta - disse ele.- Sobre <strong>os</strong> titãs?- Sobre a vida real. E como seus estud<strong>os</strong> se aplicam a ela.- Ah.- O que você apren<strong>de</strong> comigo - disse ele - é <strong>de</strong> uma importância vital. Espero que trate o assuntocomo tal.De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava <strong>de</strong>mais.Quer dizer, claro, era legal em dias <strong>de</strong> torneio, quando ele vestia uma armadura romana,bradava ―Olé!ǁ e n<strong>os</strong> <strong>de</strong>safiava, ponta <strong>de</strong> espada contra o giz a correr para o quadro-negro e citarpelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome <strong>de</strong> sua mãe e que <strong>de</strong>uses cultuavam.Mas o sr. Brunner esperava que eu f<strong>os</strong>se tão bom quanto tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> a <strong>de</strong>speito do fato <strong>de</strong> quetenho dislexia e transtorno do déficit <strong>de</strong> atenção, e <strong>de</strong> que nunca na vida tirei uma nota acima <strong>de</strong>C-. Não - ele não esperava que eu f<strong>os</strong>se tão bom quanto; ele esperava que eu f<strong>os</strong>se melhor. E eusimplesmente não podia apren<strong>de</strong>r tod<strong>os</strong> aqueles nomes e fat<strong>os</strong>, e muito men<strong>os</strong> escrevê-l<strong>os</strong> direito.Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longoe triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.Ele me disse para sair e comer meu lanche.A turma se reuniu n<strong>os</strong> <strong>de</strong>graus da frente do museu, <strong>de</strong> on<strong>de</strong> podíam<strong>os</strong> assistir ao trânsito <strong>de</strong>pe<strong>de</strong>stres pela Quinta Avenida.Acima <strong>de</strong> nós, uma imensa tempesta<strong>de</strong> estava se formando, com as nuvens mais escuras que eujá tinha visto sobre a cida<strong>de</strong>. Imaginei que talvez f<strong>os</strong>se o aquecimento global ou qualquer coisaassim, porque o tempo em todo o estado <strong>de</strong> Nova York estava esquisito <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o Natal. Tivem<strong>os</strong>nevascas pesadas, inundações, incêndi<strong>os</strong> nas florestas causad<strong>os</strong> por rai<strong>os</strong>. Eu não teria ficad<strong>os</strong>urpreso se f<strong>os</strong>se um furacão chegando.Ninguém mais pareceu notar. Alguns d<strong>os</strong> garot<strong>os</strong> estavam jogando biscoit<strong>os</strong> para <strong>os</strong> pomb<strong>os</strong>.Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa <strong>de</strong> uma senhora e, é claro, a sra. Dodds nãovia nada.Grover e eu n<strong>os</strong> sentam<strong>os</strong> na beirada do chafariz, longe d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong>. Pensam<strong>os</strong> que, sefizéssem<strong>os</strong> isso, talvez ninguém <strong>de</strong>scobrisse que éram<strong>os</strong> daquela escola - a escola para esquisitõeslesad<strong>os</strong> que não davam certo em nenhum outro lugar.- Detenção? - perguntou Grover.- Não - disse eu. - Não do Brunner. Eu só g<strong>os</strong>taria que ele às vezes me <strong>de</strong>sse um tempo. Quer


dizer, não sou um gênio.Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algumcomentário fil<strong>os</strong>ófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse: - P<strong>os</strong>so comer sua maçã?Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.Observei <strong>os</strong> táxis que passavam <strong>de</strong>scendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento <strong>de</strong> minhamãe, na área resi<strong>de</strong>ncial próxima ao lugar on<strong>de</strong> estávam<strong>os</strong> sentad<strong>os</strong>. Eu não a via <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o Natal.Tive muita vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente <strong>de</strong> mever, mas também ficaria <strong>de</strong>sapontada. Imediatamente me mandaria <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para Yancy e melembraria que preciso me esforçar mais, ainda que aquela f<strong>os</strong>se minha sexta escola em seis an<strong>os</strong> eque, provavelmente, eu seria chutado para fora <strong>de</strong> novo. Não conseguiria suportar o olhar tristeque ela me lançaria.O sr. Brunner estacionou a ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas na base da rampa para <strong>de</strong>ficientes. Comia aipoenquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas c<strong>os</strong>tas da ca<strong>de</strong>ira,fazendo-a parecer uma mesa <strong>de</strong> café motorizada.Eu estava prestes a <strong>de</strong>sembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante <strong>de</strong> mimcom as amigas fei<strong>os</strong>as - imagino que tivesse se cansado <strong>de</strong> roubar d<strong>os</strong> turistas - e <strong>de</strong>ixou seulanche, já comido pela meta<strong>de</strong>, cair no colo <strong>de</strong> Grover.- Oops. - Ela arreganhou um sorriso para mim, com <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes tort<strong>os</strong>. As sardas eramalaranjadas, como se alguém tivesse pintado o r<strong>os</strong>to <strong>de</strong>la com um spray <strong>de</strong> Cheet<strong>os</strong> líquido.Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão <strong>de</strong> vezes: "Conte até <strong>de</strong>z,controle seu gênio." Mas estava tão furi<strong>os</strong>o que me <strong>de</strong>u um branco. Uma onda rugia n<strong>os</strong> meusouvid<strong>os</strong>.Não me lembro <strong>de</strong> ter tocado nela, mas quando <strong>de</strong>i por mim Nancy estava sentada com otraseiro no chafariz, berrando: - Percy me empurrou! A sra. Dodds se materializou ao n<strong>os</strong>so lado.Algumas das crianças estavam sussurrando: - Você viu...- ...a água...- ...parece que a agarrou...Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outravez.Assim que se certificou <strong>de</strong> que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa novana loja <strong>de</strong> presentes do museu etc. e tal, a sra. Dodds se <strong>vol</strong>tou para mim. Havia um fogotriunfante em seus olh<strong>os</strong>, como se eu tivesse feito algo pelo que ela esperara o semestre inteiro: -Agora, meu bem...- Eu sei - resmunguei. - Um mês apagando livr<strong>os</strong> <strong>de</strong> exercíci<strong>os</strong>.Não foi a coisa certa para dizer.- Venha comigo - disse a sra. Dodds.- Espere! - guinchou Grover. - Fui eu. Eu a empurrei.Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria <strong>de</strong>medo da sra. Dodds.Ela lançou um olhar tão furi<strong>os</strong>o que fez o queixo penugento <strong>de</strong>le tremer.- Acho que não, sr. Un<strong>de</strong>rwood - disse ela.- Mas...- Você... vai... ficar... aqui.Grover me olhou <strong>de</strong>sesperadamente, - Tudo bem, cara - disse a ele. - Obrigado por tentar.


- Meu bem - latiu a sra. Dodds para mim. - Agora.Nancy Bobofit <strong>de</strong>u um sorriso falso.Lancei-lhe meu melhor olhar <strong>de</strong> "vou acabar com a sua raça". Então me virei para enfrentar asra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava p<strong>os</strong>tada à entrada do museu, lá no alto d<strong>os</strong> <strong>de</strong>graus,gesticulando impaciente para mim.Como ela chegou lá tão <strong>de</strong>pressa?Tenho milhares <strong>de</strong> moment<strong>os</strong> <strong>de</strong>sse tipo - meu cérebro adormece ou algo assim e, quando medou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça <strong>de</strong>saparecesse e me<strong>de</strong>ixasse olhando para o espaço vazio atrás <strong>de</strong>la. O orientador da escola me disse que isso era partedo transtorno do déficit <strong>de</strong> atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.Eu não tinha tanta certeza.Fui atrás da sra. Dodds.No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> entremim e o sr.Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas oprofessor estava absorto em seu romance.Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds <strong>de</strong>saparecera <strong>de</strong> novo. Estava agora <strong>de</strong>ntro do edifício,no fim do hall <strong>de</strong> entrada.Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja <strong>de</strong> presentes.Mas aparentemente não era esse o plano.Eu a segui museu a<strong>de</strong>ntro. Quando finalmente a alcancei, estávam<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta à seção grecoromana.A não ser por nós, a galeria estava vazia.A sra. Dodds estava p<strong>os</strong>tada <strong>de</strong> braç<strong>os</strong> cruzad<strong>os</strong> na frente <strong>de</strong> um gran<strong>de</strong> friso <strong>de</strong> mármore com<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses greg<strong>os</strong>. Ela fazia um mulo estranho com a garganta, como um r<strong>os</strong>nado.Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nerv<strong>os</strong>o. É esquisito estar sozinho com uma professora,especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisessepulverizá-lo...- Você está n<strong>os</strong> criando problemas, meu bem - disse ela.Fiz o que era seguro. Disse:- Sim, senhora.Ela ajeitou <strong>os</strong> punh<strong>os</strong> <strong>de</strong> seu casaco <strong>de</strong> couro.- Você achou mesmo que ia se safar <strong>de</strong>sta? A expressão em seus olh<strong>os</strong> era mais que furi<strong>os</strong>a. Eraperversa. Ela é uma professora, pensei, nerv<strong>os</strong>o. Não é provável que vá me machucar. Eu disse: -Eu... eu vou me esforçar mais, senhora. Um trovão sacudiu o edifício.- Nós não som<strong>os</strong> bob<strong>os</strong>, Percy Jackson - disse a sra. Dodds. - Seria apenas uma questão <strong>de</strong>tempo até que o <strong>de</strong>scobríssem<strong>os</strong> Confesse, e você sentirá men<strong>os</strong> dor.Eu não sabia do que ela estava falando.Tudo o que pu<strong>de</strong> pensar foi que <strong>os</strong> professores haviam <strong>de</strong>scoberto o estoque ilegal <strong>de</strong> doces queeu estava ven<strong>de</strong>ndo no meu dormitório. Ou talvez tivessem <strong>de</strong>scoberto que eu pegara meu trabalh<strong>os</strong>obre Tom Sawyer na Internet sem ter nem lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior,iam me obrigar a ler o livro.- E então? - exigiu.- Senhora, eu não...


- O seu tempo se esgotou - sibilou ela.Então algo muito estranho aconteceu. Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la começaram a brilhar como carvão <strong>de</strong>churrasco. Os <strong>de</strong>d<strong>os</strong> se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em gran<strong>de</strong>sasas <strong>de</strong> couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras <strong>de</strong> morcego ecom uma boca repleta <strong>de</strong> presas amareladas - e estava prestes a me fazer em pedaç<strong>os</strong>.Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas até ovão da porta da galeria, segurando uma caneta.- Olá, Percy! - gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.A sra. Dodds <strong>de</strong>u um bote para cima <strong>de</strong> mim.Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido.Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais umacaneta. Era uma espada - a espada <strong>de</strong> bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias <strong>de</strong>torneio.A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina n<strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.Meus joelh<strong>os</strong> ficaram bamb<strong>os</strong>. As mã<strong>os</strong> tremiam tanto que quase <strong>de</strong>ixei a espada cair.Ela r<strong>os</strong>nou:- Morra, meu bem!E voou para cima <strong>de</strong> mim.Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente:<strong>de</strong>sferi um golpe com a espada.A lâmina <strong>de</strong> metal atingiu o ombro <strong>de</strong>la e passou direto por seu corpo, como se ela f<strong>os</strong>se feita<strong>de</strong> água: Zaz!A sra. Dodds era um castelo <strong>de</strong> areia <strong>de</strong>baixo <strong>de</strong> um ventilador. Ela explodiu em areia amarela,reduziu-se a pó, sem <strong>de</strong>ixar nada do cheiro <strong>de</strong> enxofre, um grito estri<strong>de</strong>nte que foi sumindo e umcalafrio <strong>de</strong> malda<strong>de</strong> no ar, como se aqueles olh<strong>os</strong> vermelh<strong>os</strong> incan<strong>de</strong>scentes ainda estivessem meolhando.Eu estava sozinho.Havia uma caneta esferográfica na minha mão.O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além <strong>de</strong> mim.Minhas mã<strong>os</strong> ainda estavam tremendo. Meu lanche <strong>de</strong>via estar contaminado com cogumel<strong>os</strong>mágic<strong>os</strong> ou coisa assim.Será que eu havia imaginado tudo aquilo?Voltei para o lado <strong>de</strong> fora.Tinha começado a chover.Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima<strong>de</strong> sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando paraas amigas fei<strong>os</strong>as. Quando me viu, disse: - Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.- Quem? - respondi.- N<strong>os</strong>sa professora. Dãã!Eu pisquei. Não tínham<strong>os</strong> nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy <strong>de</strong> quemela estava falando.Ela simplesmente revirou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e me <strong>de</strong>u as c<strong>os</strong>tas.Perguntei a Grover on<strong>de</strong> estava a sra. Dodds.


- Quem? - respon<strong>de</strong>u ele.Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse megozando.- Não tem graça, cara - disse a ele. - Isso é sério. Um trovão estourou no alto.Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nuncativesse se mexido. Fui até ele. Ele ergueu <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, um pouco distraído.- Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento <strong>de</strong> escrita no futuro, sr.Jackson.Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.- Senhor - disse eu -, on<strong>de</strong> está a sra. Dodds? Ele olhou para mim com a expressão vazia.- Quem?- A outra professora que n<strong>os</strong> acompanhava. A sra. Dodds. Professora <strong>de</strong> iniciação à álgebra.Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.- Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até on<strong>de</strong> sei, nunca houve uma sra. Doddsna Aca<strong>de</strong>mia Yancy. Está se sentindo bem?DOIS – Três velhas senhoras tricotam as meias da morte.Eu estava ac<strong>os</strong>tumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas passavam<strong>de</strong>pressa.Aquela alucinação 24 horas por dia e sete dias por semana era mais do que podia encarar.Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia me pregando algum tipo <strong>de</strong> peça. Osalun<strong>os</strong> agiam como se estivessem completa e totalmente convencid<strong>os</strong> <strong>de</strong> que a sra. Kerr - umaloira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no n<strong>os</strong>so ônibus nofim da excursão - era n<strong>os</strong>sa professora <strong>de</strong> iniciação à álgebra <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o Natal.De vez em quando eu soltava uma referência à sra. Dodds para cima <strong>de</strong> alguém, só para ver seconseguia fazê-l<strong>os</strong> titubear, mas eles me olhavam como se eu f<strong>os</strong>se louco.Acabei quase acreditando neles: a sra. Dodds nunca tinha existido.Quase.Mas Grover não conseguiu me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava,<strong>de</strong>pois alegava que ela não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.Eu não tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, à noite, visões da sra.Dodds com garras e asas <strong>de</strong> couro me faziam acordar suando frio.O tempo maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempesta<strong>de</strong> <strong>de</strong>rai<strong>os</strong> arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias <strong>de</strong>pois, o maior tornado jamais visto novale do Hudson tocou o chão a apenas trinta quilômetr<strong>os</strong> da Aca<strong>de</strong>mia Yancy. Um d<strong>os</strong> event<strong>os</strong>correntes que apren<strong>de</strong>m<strong>os</strong> na aula <strong>de</strong> estud<strong>os</strong> sociais era o número inusitado <strong>de</strong> pequen<strong>os</strong> aviõesque caíram em súbit<strong>os</strong> vendavais no Atlântico naquele ano.Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram <strong>de</strong>D para F.Entrei em mais atrit<strong>os</strong> com Nancy Bobofit e suas amigas. Era p<strong>os</strong>to para fora da sala e tinha <strong>de</strong>ficar no corredor em quase todas as aulas.Finalmente, quando n<strong>os</strong>so professor <strong>de</strong> inglês, o sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima vezpor que eu tinha tanta preguiça <strong>de</strong> estudar para as provas <strong>de</strong> ortografia, eu explodi. Chamei-o <strong>de</strong>velho dipsomaníaco.


Não sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem.O diretor mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não seriaconvidado a <strong>vol</strong>tar para a Aca<strong>de</strong>mia Yancy no ano seguinte.Ótimo, disse a mim mesmo. Simplesmente ótimo.Eu estava com sauda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> casa.Queria ficar com minha mãe no n<strong>os</strong>so pequeno apartamento no Upper East Si<strong>de</strong>, mesmo quetivesse <strong>de</strong> freqüentar uma escola pública e aturar meu padrasto <strong>de</strong>testável e seus jog<strong>os</strong> <strong>de</strong> pôquerestúpid<strong>os</strong>.E no entanto... havia coisas em Yancy <strong>de</strong> que eu sentiria falta. A vista da minha janela para <strong>os</strong>b<strong>os</strong>ques, o rio Hudson a distância, o cheiro d<strong>os</strong> pinheir<strong>os</strong>. Sentiria falta <strong>de</strong> Grover, que tinha sidobom amigo, mesmo com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver aopróximo ano sem mim.Também sentiria falta da aula <strong>de</strong> latim - <strong>os</strong> dias maluc<strong>os</strong> <strong>de</strong> torneio do sr. Brunner e suaconfiança em que eu po<strong>de</strong>ria me sair bem.Quando a semana <strong>de</strong> exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual euestudava. Não tinha me esquecido que o sr. Brunner falara, sobre essa matéria ser questão <strong>de</strong> vidaou morte para mim.Não sabia muito bem por quê, mas acreditar nele.Na noite anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge <strong>de</strong>mitologia grega do outro lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora dapágina, dando <strong>vol</strong>tas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessemandando <strong>de</strong> skate. Não havia jeito <strong>de</strong> eu me lembrar da diferença entre Quíron e Caronte, ouPoli<strong>de</strong>ctes e Poli<strong>de</strong>uces. E conjugar aqueles verb<strong>os</strong> latin<strong>os</strong>? Nem pensar.Fiquei indo <strong>de</strong> um lado para outro no quarto, com a sensação <strong>de</strong> que havia formigas andandopor <strong>de</strong>ntro da minha camisa.Lembrei a expressão séria do sr. Brunner, <strong>de</strong> seus olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> mil an<strong>os</strong>. De você, aceitarei apenaso melhor, Percy Jackson.Respirei fundo. Peguei o livro <strong>de</strong> mitologia.Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o sr. Brunner, quem sabe eleme daria algumas dicas. Po<strong>de</strong>ria, pelo men<strong>os</strong>, pedir <strong>de</strong>sculpas pelo gran<strong>de</strong> F que ia tirar na prova.Não queria sair da Aca<strong>de</strong>mia Yancy <strong>de</strong>ixando-o pensar que eu não tinha me esforçado.Desci a escada para <strong>os</strong> gabinetes d<strong>os</strong> professores. A maioria estava vazia e escura, mas a portado sr.Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso docorredor.Eu estava a três pass<strong>os</strong> da maçaneta da porta quando ouvi vozes <strong>de</strong>ntro da sala.. O sr. Brunnertinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra <strong>de</strong> dúvida, era a <strong>de</strong> Grover disse:"...preocupado, senhor."Eu gelei.Normalmente não sou bisbilhoteiro, mas <strong>de</strong>safio alguém a não tentar ouvir quando seu melhoramigo está falando sobre você com um adulto.Cheguei um pouquinho mais perto.- ...sozinho nesse verão - Grover estava dizendo. - Quer dizer, uma bene<strong>vol</strong>ente na escola!Agora que sabem<strong>os</strong> com certeza, e eles também sabem...


- Só vam<strong>os</strong> piorar as coisas se o apressarm<strong>os</strong> - disse o sr. Brunner. - Precisam<strong>os</strong> que o meninoamadureça mais.- Mas ele po<strong>de</strong> não ter tempo. O prazo final do solstício <strong>de</strong> verão...- Terá <strong>de</strong> ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o <strong>de</strong>sfrutar sua ignorância enquanto ainda po<strong>de</strong>.- Senhor, ele a viu...- Imaginação <strong>de</strong>le - insistiu o sr. Brunner. - A Névoa sobre <strong>os</strong> alun<strong>os</strong> e a equipe será suficientepara convencê-lo disso.- Senhor, eu... eu não p<strong>os</strong>so fracassar nas minhas tarefas <strong>de</strong> novo. - A voz <strong>de</strong> Grover estavaembargada <strong>de</strong> emoção. – Sabe o que isso significaria.- Você não fracassou, Grover - disse o sr. Brunner gentilmente. - Eu <strong>de</strong>veria tê-la visto como elaera.Agora vam<strong>os</strong> apenas n<strong>os</strong> preocupar em manter Percy vivo até o próximo outono...O livro <strong>de</strong> mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.O sr. Brunner silenciou.Com o coração disparado, peguei o livro e <strong>vol</strong>tei pelo corredor.Uma sombra <strong>de</strong>slizou pelo vidro iluminado da porta da porta <strong>de</strong> Brunner, a sombra <strong>de</strong> algomuito mais alto do que meu professor <strong>de</strong> ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas, segurando alguma coisa suspeitamenteparecida com o arco <strong>de</strong> um arqueiro.Abri a porta mais próxima e me esgueirei para <strong>de</strong>ntro.Alguns segund<strong>os</strong> <strong>de</strong>pois ouvi um lento clop-clop-clop, como, bloc<strong>os</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira abafad<strong>os</strong>,<strong>de</strong>pois um som como o <strong>de</strong> um animal farejando bem na frente da minha porta. Um gran<strong>de</strong> vultoescuro parou diante do vidro e <strong>de</strong>pois seguiu adiante.Uma gota <strong>de</strong> suor escorreu por meu pescoço.Em algum lugar no corredor, o sr. Brunner falou.- Nada - murmurou ele. - Meus nerv<strong>os</strong> não andam to bons <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o solstício <strong>de</strong> inverno.- Nem <strong>os</strong> meus - disse Grover. - Mas eu podia ter jurado...-Volte para o dormitório - disselhe o sr. Brunner. - tem um longo dia <strong>de</strong> provas amanhã.- Nem me lembre.As luzes se apagaram na sala do sr. Brunner.Aguar<strong>de</strong>i no escuro pelo que pareceu uma eternida<strong>de</strong>.Por fim, me esgueirei para o corredor e subi <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para o dormitório.Grover estava <strong>de</strong>itado na cama, estudando as anotações para a prova <strong>de</strong> latim como se tivesseestado lá a noite inteira.- Ei! - disse ele, com olhar <strong>de</strong> sono. - Vai estar preparado para a prova?Não respondi.- Está com uma cara horrível. - Ele franziu a testa. -Tudo bem?- Só estou cansado.Virei-me para que ele não pu<strong>de</strong>sse perceber minha expressão e comecei a me preparar paradormir.Não entendi o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo.Mas uma coisa estava clara: Grover e o sr. Brunner estavam falando <strong>de</strong> mim pelas c<strong>os</strong>tas.Achavam que eu corria algum tipo <strong>de</strong> perigo.Na tar<strong>de</strong> seguinte, quando estava saindo da prova <strong>de</strong> latim <strong>de</strong> três horas, atordoado com tod<strong>os</strong> <strong>os</strong>nomes greg<strong>os</strong> e roman<strong>os</strong> que tinha escrito errado, o sr. Brunner me chamou <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.


Por um momento, fiquei preocupado achando que ele <strong>de</strong>scobrira minha bisbilhotice na noiteanterior, mas não parecia ser esse o problema.- Percy - disse ele. - Não fique <strong>de</strong>sanimado por <strong>de</strong>ixar Yancy. É... é para o seu bem.Seu tom era gentil, mas ainda assim as palavras me <strong>de</strong>ixaram sem graça. Embora ele estivessefalando baixo, <strong>os</strong> que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou um sorrisofalso e, fez pequen<strong>os</strong> moviment<strong>os</strong> <strong>de</strong> beijo com <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>.Eu murmurei:- Está bem, senhor.- Quer dizer... - O sr. Brunner andou com a ca<strong>de</strong>ira para trás e para frente, como se não tivessecerteza do que falar. - Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão <strong>de</strong> tempo.Meus olh<strong>os</strong> ardiam.Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz. Depois<strong>de</strong> falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava <strong>de</strong>stinado a ser expulso.- Certo - disse eu, tremendo.- Não, não - disse o sr. Brunner. - Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer... é que vocênão é normal, Percy. Não é nada ser...- Obrigado - soltei. - Muito obrigado, senhor, por me lembrar.- Percy...Mas eu já tinha ido.No último dia <strong>de</strong> aulas, enfiei minhas roupas na mala.Os outr<strong>os</strong> garot<strong>os</strong> estavam fazendo piadas, falando sobre <strong>os</strong> plan<strong>os</strong> para as férias. Um <strong>de</strong>les iafazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro <strong>de</strong> um mês pelo Caribe. Eram <strong>de</strong>linqüentes juveniscomo eu, mas <strong>de</strong>linqüentes juvenis ric<strong>os</strong>. Os papais eram executiv<strong>os</strong>, embaixadores oucelebrida<strong>de</strong>s. Eu era um joão-ninguém, <strong>de</strong> uma família <strong>de</strong> joões-ninguém.Eles me perguntaram o que ia fazer no verão, e eu disse que <strong>vol</strong>taria para a cida<strong>de</strong>.O que não lhes contei foi que ia arranjar um trabalho <strong>de</strong> verão passeando com cachorr<strong>os</strong> ouven<strong>de</strong>ndo assinaturas <strong>de</strong> revistas, e passar o tempo livre pensando em on<strong>de</strong> iria estudar no outono.- Ah - disse um d<strong>os</strong> garot<strong>os</strong>. - Legal.Eles <strong>vol</strong>taram à conversa como se eu não existisse.A única pessoa <strong>de</strong> quem tinha medo <strong>de</strong> me <strong>de</strong>spedir era Grover, mas do jeito como as coisasaconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhattan no mesmoonibus Greyhound que eu, então lá estávam<strong>os</strong> nós, junt<strong>os</strong> outra vez, indo para a cida<strong>de</strong>.Durante toda a viagem <strong>de</strong> ônibus, Grover olhava nerv<strong>os</strong>o para o corredor, observando <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>passageir<strong>os</strong>. Ocorreu-me que ele sempre agia <strong>de</strong> modo nerv<strong>os</strong>o e inquieto quando saíam<strong>os</strong> <strong>de</strong>Yancy, como se esperasse que algo ruim f<strong>os</strong>se acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo <strong>de</strong>que o provocassem. Mas não havia ninguém para fazer isso no Greyhound.Finalmente, não pu<strong>de</strong> mais agüentar.- Procurando Bene<strong>vol</strong>entes?Grover quase pulou do assento.- O que... o que você quer dizer?Confessei ter ouvido a conversa <strong>de</strong>le com o sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.O olho <strong>de</strong> Grover estremeceu.- Quanto você ouviu?


- Ah... não muito. O que é o prazo final do solstício <strong>de</strong> verão?Ele se esquivou.- Olhe Percy... Eu só estava preocupado com você, enten<strong>de</strong>? Quer dizer, tendo alucinações comprofessoras <strong>de</strong> matemática <strong>de</strong>moníacas...- Grover...- E eu estava dizendo ao sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou coisa assim,porque não havia uma pessoa chamada sra. Dodds e...- Grover, você mente muito mal mesmo.As orelhas <strong>de</strong>le ficaram cor-<strong>de</strong>-r<strong>os</strong>a.Do bolso da camisa, ele pescou um cartão <strong>de</strong> visitas encardido.- Pegue isto, certo? Para o caso <strong>de</strong> você precisar <strong>de</strong> mim este verão.O cartão tinha uma escrita floreada, que era um terror para <strong>os</strong> meus olh<strong>os</strong> disléxic<strong>os</strong>, mas porfim consegui i<strong>de</strong>ntificar coisa como: Grover Un<strong>de</strong>rwood GuardiãoColina meio Sangue Long Island, Nova York (800) 009 -0009- O que é Colina Meio...- Não fale alto! — ganiu. — É meu, ah... en<strong>de</strong>reço <strong>de</strong> verão.Meu coração <strong>de</strong>sabou. Grover tinha uma casa <strong>de</strong> veraneio. Eu nunca imaginara que a família<strong>de</strong>le po<strong>de</strong>ria ser tão rica quanto as d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong> em Yancy.- Certo - falei, mal-humorado. - Tá, se eu quiser uma visita à sua mansão.Ele assentiu.- Ou... ou se você precisar <strong>de</strong> mim.- Por que iria precisar <strong>de</strong> você?Saiu mais ru<strong>de</strong> do que eu pretendia.Grover ficou com a cara toda vermelha.- Olhe, Percy, a verda<strong>de</strong> é que eu... eu tenho, <strong>de</strong> certo modo, que proteger você.Olhei fixamente para ele.Durante o ano inteiro me meti em brigas para manter <strong>os</strong> valentões longe <strong>de</strong>le. Perdi o sonotemendo que, sem mim, ele f<strong>os</strong>se apanhar no ano que vem. E ali estava Grover agindo como sef<strong>os</strong>se ele a me <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r.- Grover – disse eu -, do que exatamente você está me protegendo?Houve um tremendo barulho <strong>de</strong> algo sendo triturado embaixo d<strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> pés. Uma fumaçapreta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro <strong>de</strong> ovo podre. O motoristapraguejou e levou o Greyhound com dificulda<strong>de</strong> até o ac<strong>os</strong>tamento.Depois <strong>de</strong> alguns minut<strong>os</strong> fazendo alguns sons metálic<strong>os</strong> no compartimento do motor, omotorista anunciou que teríam<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>scer. Grover e eu saím<strong>os</strong> em fila com tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>.Estávam<strong>os</strong> em um trecho <strong>de</strong> estrada rural - um lugar que a gente nem notaria se não tivesseenguiçado lá.Do n<strong>os</strong>so lado da estrada não havia nada além <strong>de</strong> bord<strong>os</strong> e lixo jogado pel<strong>os</strong> carr<strong>os</strong> quepassavam. Do outro lado, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> atravessar quatro pistas <strong>de</strong> asfalto que refletiam uma clarida<strong>de</strong>trêmula com o calor da tar<strong>de</strong>, havia uma banca <strong>de</strong> frutas como as <strong>de</strong> antigamente.As coisas à venda pareciam realmente boas: caixas transbordando <strong>de</strong> cerejas e maçãs vermelhascomo sangue, nozes e damasc<strong>os</strong>, jarr<strong>os</strong> <strong>de</strong> sidra <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> uma tina com pés em forma <strong>de</strong> patas,cheias <strong>de</strong> gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em ca<strong>de</strong>iras <strong>de</strong> balanço à


sombra <strong>de</strong> um bordo, tricotando o maior par <strong>de</strong> meias que eu já tinha visto.Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho <strong>de</strong> suéteres, mas eram obviamente meias. Asenhora da direita tricotava uma <strong>de</strong>las. A da esquerda a outra. A do meio segurava uma enormecesta <strong>de</strong> lã azul brilhante.As três mulheres pareciam muito velhas, com o r<strong>os</strong>to pálido e enrugado como fruta seca, cabeloprateado preso atrás com lenço branco, braç<strong>os</strong> <strong>os</strong>sud<strong>os</strong> espetad<strong>os</strong> para fora <strong>de</strong> vestid<strong>os</strong> <strong>de</strong> algodãopálido.A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim.Encarei Grover para comentar isso e vi que seu r<strong>os</strong>to tinha ficado branco. O nariz tremia.- Grover? - disse eu. - Ei, cara...- Diga que elas não estão olhando para você. Estão, não é?- Estão. Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?- Não tem graça, Percy. Não tem graça nenhuma.A velha do meio pegou uma tesoura imensa - dourada e prateada, <strong>de</strong> lâminas longas, como umat<strong>os</strong>quia<strong>de</strong>ira. Ouvi Grover tomar fôlego.- Vam<strong>os</strong> entrar no ônibus - ele me disse. - Venha.- O quê? - disse eu. - Lá <strong>de</strong>ntro está fazendo quinhent<strong>os</strong> graus.- Venha! - Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim. A do meio cortou o fio <strong>de</strong> lã, ep<strong>os</strong>so jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas <strong>de</strong> trânsito. As duas amigas <strong>de</strong>laenrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria aquilo - o Pé Gran<strong>de</strong> ou oGodzilla.Na traseira do ônibus, o motorista arrancou um gran<strong>de</strong> pedaço <strong>de</strong> metal fumegante docompartimento do motor. O ônibus estremeceu e o motor <strong>vol</strong>tou à vida, roncando.Os passageir<strong>os</strong> aplaudiram.- Tudo em or<strong>de</strong>m! - gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com o chapéu. - Todo mundo para<strong>de</strong>ntro!Quando já estávam<strong>os</strong> a caminho, comecei a me sentir como se tivesse pego uma gripe.Grover não parecia muito melhor. Estava tremendo e batendo <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes.- Grover?- Sim?- O que me diz?Ele enxugou a manga da camisa.- Percy, o que você viu lá atrás, na banca <strong>de</strong> frutas?- Você quer dizer, aquelas velhas? O que há com elas, cara? Elas não são com... a sra. Dodds,são?A expressão <strong>de</strong>le era difícil <strong>de</strong> interpretar, mas tive a sensação <strong>de</strong> que as velhas da banca <strong>de</strong>frutas eram algo muito, muito pior do que a sra. Dodds. Grover disse: -Só me diga o que você viu.- A do meio pegou uma tesoura e cortou o fio.Ele fechou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e fez um gesto com <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong> parecido com o sinal-da-cruz, mas não eraisso. Era outra coisa, algo um tanto... mais antigo.Ele disse:- Você a viu cortar o fio?-Sim. E daí? - Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.


- Isso não está acontecendo - murmurou Grover. Ele começou a mor<strong>de</strong>r o <strong>de</strong>dão. - Não queroque seja como na última vez.- Que última vez?- Sempre na sexta série. Eles nunca passam da sexta.- Grover - disse eu, porque ele estava realmente começando a me assustar -, do que você estáfalando?- Deixe que eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.Aquele me pareceu um pedido estranho, mas prometi.- É uma superstição ou coisa assim? – perguntei.Nenhuma resp<strong>os</strong>ta.- Grover... aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?Ele olhou para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo <strong>de</strong> flores que eug<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> ter em meu caixão.TRÊS – Grover <strong>de</strong> repente per<strong>de</strong> as calças.Hora da confissão: <strong>de</strong>scartei Grover assim que chegam<strong>os</strong> ao terminal rodoviário.Eu sei, eu sei. Foi ru<strong>de</strong>. Mas Grover estava me <strong>de</strong>ixando fora <strong>de</strong> mim, me olhando como se euf<strong>os</strong>se um homem morto, murmurando: ―por que sempre tem <strong>de</strong> ser na sexta série?ǁSempre que Grover ficava nerv<strong>os</strong>o, sua bexiga entrava em ação, portanto não fiquei surpresoquando, assim que <strong>de</strong>scem<strong>os</strong> do ônibus, ele me fez prometer que o esperaria e foi direto para obanheiro. Em vez <strong>de</strong> esperar, peguei minha mala, saí discretamente e tomei o primeiro taxi saindodo Centro.- Cento e quatro Leste com a Primeira Avenida – disse ao motorista.*****Uma palavra sobre a minha mãe, antes que você a conheça.Seu nome é Sally Jackson e ela é a melhor pessoa do mundo, o que apenas prova minha teoria<strong>de</strong> que as melhores pessoas são as mais azaradas. Os pais <strong>de</strong>la morreram em um <strong>de</strong>sastre <strong>de</strong> aviãoquando estava com cinco an<strong>os</strong>, e ela foi criada por um tio que não lhe dava muita bola. Queria serescritora, assim passou o curso <strong>de</strong> ensino médio trabalhando e economizando dinheiro para pagaruma faculda<strong>de</strong> com um bom programa <strong>de</strong> oficinas literárias. Então o tio teve câncer e ela precisouabandonar a escola no último ano para cuidar <strong>de</strong>le. Depois que ele morreu, ela ficou sem dinheironenhum, sem família e sem diploma.A única coisa boa que lhe aconteceu foi conhecer meu pai.Não tenho nenhuma lembrança <strong>de</strong>le, apenas essa espécie <strong>de</strong> sensação calor<strong>os</strong>a, talvez o maisleve resquício <strong>de</strong> seu sorriso. Minha mãe não g<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> falar sobre ele porque isso a <strong>de</strong>ixa triste.Ela não tem fotografias.Veja bem, eles não eram casad<strong>os</strong>. Ela me contou que ele era rico e influente, e o relacionamento<strong>de</strong>les era um segredo. Então um dia ele zarpou pelo Atlântico em alguma jornada e nunca mais<strong>vol</strong>tou.Perdido no mar, minha mãe me contou. Não morto. Perdido no mar.Ela vivia <strong>de</strong> trabalh<strong>os</strong> esporádic<strong>os</strong>, estudava à noite para tirar o diploma <strong>de</strong> ensino médio e mecriou sozinha. Nunca se queixava ou ficava zangada. Nem uma só vez. Mas eu sabia que não erauma criança fácil.Acabou se casando com Gabe Ugliano, que foi simpático n<strong>os</strong> primeir<strong>os</strong> trinta segund<strong>os</strong> em que


o conhecem<strong>os</strong> e <strong>de</strong>pois m<strong>os</strong>trou quem realmente era, um imbecil <strong>de</strong> marca maior. Quando eu erapequeno apeli<strong>de</strong>i-o <strong>de</strong> Gabe Cheir<strong>os</strong>o. Sinto muito, mas é a verda<strong>de</strong>. O cara fedia a pizza <strong>de</strong> alhoembolorada enrolada num calção <strong>de</strong> ginástica.Em n<strong>os</strong>so fogo cruzado, tornávam<strong>os</strong> a vida da minha mãe bem difícil. O modo como GabeCheir<strong>os</strong>o a tratava, o jeito como ele e eu n<strong>os</strong> relacionávam<strong>os</strong>... bem, um bom exemplo é minhachegada em casa.Entrei em n<strong>os</strong>so pequeno apartamento, esperando que minha mãe já tivesse <strong>vol</strong>tado do trabalho.Em vez disso, Gabe Cheir<strong>os</strong>o estava na sala <strong>de</strong> estar, jogando pôquer com seus cupinchas. Natelevisão, o canal <strong>de</strong> esportes estava no <strong>vol</strong>uma máximo. Havia batatinhas e latas <strong>de</strong> cervejaespalhadas pelo tapete.Mal erguendo <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, ele disse com o cigarro na boca: - Então você está em casa.- On<strong>de</strong> está a minha mãe?- Trabalhando – disse ele. – Você tem alguma grana?E foi isso. Nada <strong>de</strong> Bem-vindo ao lar. Bom ver você. O que fez n<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> seis meses?Gabe tinha engordado. Parecia uma morsa sem tromba com roupas <strong>de</strong> brechó. Tinha uns trêsfi<strong>os</strong> <strong>de</strong> cabelo na cabeça, tod<strong>os</strong> pentead<strong>os</strong> por cima da careca, como se isso o <strong>de</strong>ixasse bonito oucoisa assim.Era gerente do Hipermercado <strong>de</strong> Eletrônica, no Queens, mas passava a maior parte do tempo emcasa.Não sei por que ainda não tinha sido <strong>de</strong>mitido. Ele só fica recebendo o pagamento, gastando odinheiro em charut<strong>os</strong> que me dão náuseas e em cervejas, é claro. Sempre cerveja. Toda vez que euestava em casa ele esperava que eu lhe fornecesse fund<strong>os</strong> para jogar. Chamava isso <strong>de</strong> n<strong>os</strong>so―Segredo <strong>de</strong> Homemǁ. Isto é, se eu contasse para minha mãe, ele me quebrava a cara.- Não tenho grana nenhuma – falei.Ele ergue uma sobrancelha ole<strong>os</strong>a.Gabe era capaz <strong>de</strong> farejar dinheiro como um cão <strong>de</strong> caça, o que era surpreen<strong>de</strong>nte, já que seuprórpio cheiro <strong>de</strong>veria encobrir qualquer outro.- Você pegou um taxi no terminal <strong>de</strong> ônibus – disse ele. – Provavelmente pagou com uma nota<strong>de</strong> vinte.Recebeu seis ou sete dólares <strong>de</strong> troco. Alguém que espera viver embaixo <strong>de</strong>ste teto <strong>de</strong>veria sercapaz <strong>de</strong> se sustentar. Estou certo, Eddie?Eddie, o síndico do prédio, olhou para mim com uma ponta <strong>de</strong> solidarieda<strong>de</strong>.- Vam<strong>os</strong>, Gabe – disse ele. – O garoto acabou <strong>de</strong> chegar.- Estou certo? – repetiu Gabe.Eddie fez uma careta para sua tigela <strong>de</strong> pretzels. Os outr<strong>os</strong> dois caras soltaram junt<strong>os</strong> seusgases.- Tudo bem – disse eu. – Tirei um maço <strong>de</strong> dólares do bolso e joguei o dinheiro em cima damesa. – Tomara que você perca.- Seu boletim chegou, Geninho! – gritou ele às minhas c<strong>os</strong>tas. – Eu não ficaria tão metido!Bati a porta do meu quarto, que na verda<strong>de</strong> não era meu. Durante <strong>os</strong> meses <strong>de</strong> aulas era a ―sala<strong>de</strong> estud<strong>os</strong>ǁ <strong>de</strong> Gabe. Ele não ―estudavaǁ coisa nenhuma lá, exceto revistas <strong>de</strong> automóveis, masadorava socar as minhas coisas no armário, largar as botas enlameadas no peitoril da janela e fazero p<strong>os</strong>sível para <strong>de</strong>ixar o lugar com cheiro <strong>de</strong> sua colônia <strong>de</strong>testável, charut<strong>os</strong> e cerveja choca.Larguei a mala em cima da cama. Lar doce lar.


O cheiro <strong>de</strong> Gabe era quase pior que <strong>os</strong> pesa<strong>de</strong>l<strong>os</strong> com a sra. Dodds ou o som da tesoura daquelavelha enrugada cortando o fio <strong>de</strong> lã.Mas assim que pensei naquilo, minhas pernas bambearam. Lembrei-me da expressão <strong>de</strong> pânico<strong>de</strong> Grover – como ele me fez prometer que não iria para casa sem ele. Um calafrio repentino mepercorreu.Era como se alguém – alguma coisa – estivesse procurando por mim naquele momento, talvezsubindo pesadamente a escada, com garras compridas e horrendas crescendo.Então ouvi a voz da minha mãe.- Percy?Ela abriu a porta do quarto e meus med<strong>os</strong> se foram.A simples entrada <strong>de</strong> minha mãe no quarto já consegue me fazer sentir bem. Seus olh<strong>os</strong> brilhame mudam <strong>de</strong> cor com luz. O sorriso é quente como uma manta. Ela tem alguns pouc<strong>os</strong> fi<strong>os</strong>grisalh<strong>os</strong> misturad<strong>os</strong> com <strong>os</strong> long<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> castanh<strong>os</strong>, mas nunca penso nela como uma pessoavelha. Quando me olha, é como se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma dasruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou dizer uma palavra in<strong>de</strong>licada para ninguém, nem mesmopara mim ou Gabe.- Ah, Percy. - Ela me abraçou apertado. - Eu não acredito. Você cresceu <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o Natal!O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce América, tinha cheiro das melhores coisas domundo: chocolate, alcaçuz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Gran<strong>de</strong> Estação Central.Tinha levado para mim um belo saco <strong>de</strong> ―am<strong>os</strong>tras grátisǁ, como sempre fazia quando eu ia paracasa.Sentam<strong>os</strong> junt<strong>os</strong> na beirada da cama. Enquanto eu atacava <strong>os</strong> doces <strong>de</strong> mirtilo, ela passava amão no meu cabelo e queria saber tudo o que eu não havia escrito nas cartas. Nada mencionousobre o fato <strong>de</strong> eu ter sido expulso. Não parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seumenininho estava bem?Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que <strong>de</strong>sse um tempo e tal, mas, secretamente,estava feliz <strong>de</strong>mais em vê-la.Do outro cômodo, Gabe berrou:- Ei, Sally! Que tal um pouco <strong>de</strong> pasta <strong>de</strong> feijão, hein?Eu rangi <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes.Minha mãe é a mulher mais gentil do mundo. Deveria ter se casado com um milionário, nãocom um imbecil como Gabe.Por ela, tentei parecer otimista em relação a<strong>os</strong> meus últim<strong>os</strong> dias na Aca<strong>de</strong>mia Yancy. Disselheque não estava muito chateado com a expulsão. Dessa vez, conseguira durar quase o ano inteiro.Eu havia feito nov<strong>os</strong> amig<strong>os</strong>. Tinha me saído muito bem em latim. E, honestamente, as brigasnão tinham sido tão ruins com disera o diretor. Eu tinha g<strong>os</strong>tado da Aca<strong>de</strong>mia Yancy. De verda<strong>de</strong>.Enfeitei tanto <strong>os</strong> aconteciment<strong>os</strong> do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com avoz embargada só <strong>de</strong> pensar em Grover e no sr. Brunner. Até Nancy Bobofit <strong>de</strong> repente nãopareceu assim tão má.Até aquela excursão ao museu...- O quê? - perguntou minha mãe. Seus olh<strong>os</strong> puxaram pela minha consciência, tentando arrancar<strong>os</strong> segred<strong>os</strong>. - Alguma coisa assustou você?- Não, mamãe.Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a sra. Dodds e as três velhas com o fio <strong>de</strong>lã, mas achei que aqui ia parecer bobagem.


Ela apertou <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>. Sabia que eu estava escon<strong>de</strong>ndo alguma coisa, mas não quis mepressionar.- Tenho uma surpresa para você - disse ela. - Nós vam<strong>os</strong> à praia.Meus olh<strong>os</strong> se arregalaram.- Montauk?- Três noites... no mesmo chalé.- Quando? Ela sorriu.- Assim que eu me trocar.Mal pu<strong>de</strong> acreditar. Minha mãe e eu não tínham<strong>os</strong> ido a Montauk n<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> dois verõesporque Gabe dissera que não h a v i a dinheiro suficiente.Gabe apareceu no vão da porta e r<strong>os</strong>nou.- Pasta <strong>de</strong> feijão, Sally. Você não ouviu?Tive vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> dar-lhe um soco, mas meus olh<strong>os</strong> encontraram <strong>os</strong> <strong>de</strong> minha mãe e entendi queela estava me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe só um pouquinho. Só até ela estarpronta para ir para Montauk. Então sairíam<strong>os</strong> dali.- Eu já estava a caminho, meu bem – disse ela a Gabe. – Estávam<strong>os</strong> só conversando sobre aviagem.Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Gabe se apertaram.- A viagem? Você quer dizer que estava falando disso a sério?- Eu sabia - murmurei. - Ele não vai n<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixar ir.- É claro que vai - disse minha mãe calmamente. - Seu padrasto só está preocupado com odinheiro. Étudo. Além disso - acrescentou -, Gabriel não terá <strong>de</strong> se contentar com pasta <strong>de</strong> feijão. Voufazer para ele uma pasta <strong>de</strong> sete camadas suficiente para todo o fim <strong>de</strong> semana. Guacamole.Creme azedo. Serviço completo.Gabe amanciou um pouco.- Então esse dinheiro para viagem... vai sair do seu orçamento para roupas, certo?- Sim, meu bem - disse minha mão.- E você não vai com meu carro para nenhum lugar, só vai usar na ida e na <strong>vol</strong>ta.- Serem<strong>os</strong> muito cuidad<strong>os</strong><strong>os</strong>.Gabe coçou seu queixo duplo.- Talvez se você andar logo com essa pasta <strong>de</strong> sete camadas... E talvez se o garoto pedir<strong>de</strong>sculpas por interromper meu jogo <strong>de</strong> pôquer...Talvez se eu chutar você no seu ponto sensível, pensei. E fizer você cantar com voz <strong>de</strong> sopranopor uma semana.Mas <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> da minha mãe me advertiram para não <strong>de</strong>ixá-lo zangado.Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que elepensava?- Desculpe - murmurei. - Sinto muito ter interrompido seu importantíssimo jogo <strong>de</strong> pôquer. Porfavor, <strong>vol</strong>te a ele agora mesmo.Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Gabe se estreitaram. O cérebro minúsculo provavelmente estava tentando <strong>de</strong>tectar <strong>os</strong>arcasmo na minha frase.- Está bem, seja lá o que for - convenceu-se.E <strong>vol</strong>tou para o jogo.


- Obrigada, Percy - disse minha mãe. - Depois que chegarm<strong>os</strong> a Montauk, vam<strong>os</strong> conversarsobre.. o que quer que você tenha se esquecido <strong>de</strong> me contar, certo?Por um momento, pensei ter visto ansieda<strong>de</strong> n<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la - o mesmo medo que vira emGrover na viagem <strong>de</strong> ônibus -, como se minha mãe também tivesse sentindo um estranho calafriono ar.Mas então o sorriso <strong>de</strong>la <strong>vol</strong>tou e concluí que <strong>de</strong>via estar enganado. Ela <strong>de</strong>spenteou meu cabeloe foi fazer a pasta <strong>de</strong> sete camadas para Gabe.*****Uma hora <strong>de</strong>pois estávam<strong>os</strong> pront<strong>os</strong> para partir.Gabe interrompeu o jogo <strong>de</strong> pôquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malasda minha mãe para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida <strong>de</strong>la - emais importante, sem seu Camaro 78 - durante todo o fim <strong>de</strong> semana.- Nem um arranhão nesse carro, Geninho - advertiu-me quando eu estava carregando a últimamala. -nem um arranhãozinho.Como se eu f<strong>os</strong>se dirigir a<strong>os</strong> doze an<strong>os</strong>. Mas isso não importa para Gabe. Se alguma gaivotafizesse cocô na pintura, ele arranjaria um jeito <strong>de</strong> me culpar.Observando-o <strong>vol</strong>tar em seu passo <strong>de</strong>sajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz umacoisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou à porta <strong>de</strong> entrada, fiz um gesto com a mãoque tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie <strong>de</strong> gesto para afastar o mal, a mão em garrasobre o coração e <strong>de</strong>pois um movimento <strong>de</strong> empurrar na direção <strong>de</strong> Gabe. A porta <strong>de</strong> tela bateu tãoforte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado porum canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum aci<strong>de</strong>nte maluco com as dobradiças, masnão fiquei lá tempo suficiente para <strong>de</strong>scobrir.Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.*****N<strong>os</strong>so chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta <strong>de</strong> Long Island. Era uma pequena cabana<strong>de</strong> cor clara com cortinas <strong>de</strong>sbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia n<strong>os</strong> lençóis earanhas n<strong>os</strong> armári<strong>os</strong>, e na maior parte do tempo o mar estava gelado <strong>de</strong>mais para nadar.Eu adorava o lugar.Íam<strong>os</strong> lá <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disseexatamente, mas eu sabia por que a praia era especial. Era o lugar on<strong>de</strong> conhecera meu pai.À medida que n<strong>os</strong> aproximávam<strong>os</strong> <strong>de</strong> Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, <strong>os</strong> an<strong>os</strong> <strong>de</strong>preocupação e trabalho <strong>de</strong>saparecendo do r<strong>os</strong>to. Os olh<strong>os</strong> ficavam da cor do mar.Chegam<strong>os</strong> lá ao pôr-do-sol, abrim<strong>os</strong> todas as janelas do chalé e passam<strong>os</strong> por n<strong>os</strong>sa rotina <strong>de</strong>limpeza.Caminham<strong>os</strong> pela praia, <strong>de</strong>m<strong>os</strong> salgadinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> milho às gaivotas e mascam<strong>os</strong> jujubas azuis,caramel<strong>os</strong> azuis e todas as outras am<strong>os</strong>tras grátis que minha mãe levara do trabalho.Acho que eu <strong>de</strong>veria explicar a comida azul.Veja bem, Gabe uma vez disse à minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão,que pareceu uma coisinha <strong>de</strong> nada na época. Mas, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> então, minha mãe fez tudo o que erap<strong>os</strong>sível comer em azul. Ela assava bol<strong>os</strong> <strong>de</strong> aniversári<strong>os</strong> azuis. Batia vitaminas com mirtil<strong>os</strong>azuis. Comprava tortilhas <strong>de</strong> milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso - junto com ofato <strong>de</strong> conservar o nome <strong>de</strong> solteira, Jackson, em vez <strong>de</strong> se chamar sra. Ugliano - era prova <strong>de</strong> queela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para rebeldia, como eu.


Quando escureceu, acen<strong>de</strong>m<strong>os</strong> uma fogueira. Assam<strong>os</strong> o cachorro-quente e marshmallows.Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes <strong>de</strong> <strong>os</strong> pais morrerem no aci<strong>de</strong>nte<strong>de</strong> avião. Contou-me sobre <strong>os</strong> livr<strong>os</strong> que queria escrever um dia, quando tivesse dinheir<strong>os</strong>uficiente para largar a doceria.Finalmente, reuni coragem para perguntar sobre o que sempre me vinha à cabeça quando íam<strong>os</strong>a Montauk – meu pai. Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la ficaram chei<strong>os</strong> d’água. Imaginei que iria me contar asmesmas coisas <strong>de</strong> sempre, mas nunca me cansava <strong>de</strong> ouvi-las.- Ele era gentil, Percy – disse ela. – Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo<strong>de</strong>le, você sabe, e <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> ver<strong>de</strong>s.Mamãe pegou uma jujuba azul do saco <strong>de</strong> doces.- G<strong>os</strong>taria que ele pu<strong>de</strong>sse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulh<strong>os</strong>o.Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia <strong>de</strong> tão bom a meu respeito? Ummenino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis an<strong>os</strong>.- Que ida<strong>de</strong> eu tinha? - perguntei. - Quer dizer... quando ele se foi?Ela olhou para as chamas.- Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.- Mas... ele me conheceu quando eu era bebê.- Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve <strong>de</strong> partirantes <strong>de</strong> você nascer.Tentei conciliar o fato <strong>de</strong> que eu parecia me lembrar <strong>de</strong>... alguma coisa sobre meu pai. Umasensação calor<strong>os</strong>a. Um sorriso.Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamenteisso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...Fiquei com raiva do meu pai. Talvez f<strong>os</strong>se uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partidonaquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ela n<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixarae agora estávam<strong>os</strong> pres<strong>os</strong> ao gabe Cheir<strong>os</strong>o.- Você vai me mandar embora <strong>de</strong> novo? - perguntei a ela. - para outro internato?Ela puxou um marshmallow do fogo.- Eu não sei, meu bem. - Sua voz soou muito séria. - Acho... acho que terem<strong>os</strong> <strong>de</strong> fazer algumacoisa.- Por quê você não me quer me ver por perto? - Eu me arrependi das palavras assim que elassaíram.Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> minha mãe ficaram marejad<strong>os</strong>. Ela pegou minha mão e apertou com força.- Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho <strong>de</strong> mandar vocêpara longe.Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito - que era melhor para mim <strong>de</strong>ixarYancy.- Porque eu não sou normal? - disse eu.- Você diz isso como se f<strong>os</strong>se uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você éimportante.Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.- Em segurança por quê?Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la encontraram <strong>os</strong> meus, e me veio uma enxurrada <strong>de</strong> lembranças - todas esquisitas,assustadoras que sempre aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.


Na terceira série, um homem <strong>de</strong> capa <strong>de</strong> chuva preta me seguiu no recreio. Quando <strong>os</strong>professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou emmim quando contei que, embaixo do chapéu <strong>de</strong> aba larga, o homem tinha um olho só, bem nomeio da testa.Antes disso - uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professoraaci<strong>de</strong>ntalmente me pôs para dormir em um berço para <strong>de</strong>ntro do qual uma cobra se arrastara.Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia<strong>de</strong> escamas, que eu <strong>de</strong> algum modo conseguira estrangular até a morte com as minhas mã<strong>os</strong>gordinhas <strong>de</strong> bebê.Em cada uma das escolas, algo <strong>de</strong> horripilante acontecera, algo perig<strong>os</strong>o, e fui forçado a sair.Eu sabia que <strong>de</strong>via contar à minha mãe sobre as velhas na banca <strong>de</strong> frutas e a sra. Dodds nomuseu <strong>de</strong> arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora <strong>de</strong>matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensaçãoesquisita <strong>de</strong> que a notícia iria acabar com n<strong>os</strong>sa viagem a Montauk, e isso eu não queria.- Tentei manter você tão perto <strong>de</strong> mim quanto pu<strong>de</strong> - falou minha mãe. - Eles me disseram queisso era um erro. Mas só havia uma outra opção, Percy... o lugar para on<strong>de</strong> seu pai queria mandálo.E eu simplesmente... simplesmente não po<strong>de</strong>ria agüentar ter <strong>de</strong> fazer isso.- Meu pai queria que eu f<strong>os</strong>se para uma escola especial?- Não uma escola - disse ela suavemente. - Um acampamento <strong>de</strong> verão.Minha cabeça estava girando. Por que meu pai - que nem sequer ficara por perto temp<strong>os</strong>uficiente para me ver nascer - teria falado com minha mãe sobre um acampamento <strong>de</strong> verão? E,se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?- Desculpe, Percy - continuou ela ao ver a expressão em meus olh<strong>os</strong>. - mas não p<strong>os</strong>so falar sobreisso.Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer a<strong>de</strong>us a você para sempre.- Para sempre? Mas se é apenas um acampamento <strong>de</strong> verão...Ela se <strong>vol</strong>tou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, elacomeçaria a chorar.*****Naquela noite eu tive um sonho muito real.Havia uma tempesta<strong>de</strong> na praia, e dois bel<strong>os</strong> animais, um cavalo branco e uma águia dourada,estavam tentando matar uma ao outro à beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinhodo cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eleslutavam, o chão retumbou e uma voz monstru<strong>os</strong>a riu em algum lugar embaixo da terra, incitando<strong>os</strong> animais a lutarem arduamente.Corri até eles, sabendo que tinha <strong>de</strong> impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta.Sabia que iria chegar tar<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para <strong>os</strong> gran<strong>de</strong>s olh<strong>os</strong>do cavalo, e gritei: Não!Acor<strong>de</strong>i assustado.Do lado <strong>de</strong> fora, havia realmente uma tempesta<strong>de</strong>, o tipo <strong>de</strong> tempesta<strong>de</strong> que racha árvores e<strong>de</strong>rruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpag<strong>os</strong> que criavamuma falsa luz do dia e ondas <strong>de</strong> seis metr<strong>os</strong> golpeando as dunas como artilharia.Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> arregalad<strong>os</strong>, e disse: -Furacão.


Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Maso oceano parecia ter esquecido isso. Por cima d<strong>os</strong> rugid<strong>os</strong> do vento, ouvi um bramido distante, umsom furi<strong>os</strong>o, torturado, que fez meus cabel<strong>os</strong> se arrepiarem.Depois um ruído muito mais próximo, como <strong>de</strong> malh<strong>os</strong> na areia. Uma voz <strong>de</strong>sesperada - alguémgritando, esmurrando a porta do n<strong>os</strong>so chalé.Minha mãe pulou da cama <strong>de</strong> camisola e abriu a porta <strong>de</strong> um safanão.Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo <strong>de</strong> chuva torrencial. Mas ele nãoera... ele não era exatamente o Grover.- Procurei a noite toda - arquejou ele. - O que você estava pensando?Minha mãe olhou para mim aterrorizada - não com medo <strong>de</strong> Grover, mas da razão <strong>de</strong> suachegada.- Percy - disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. - O que aconteceu naescola? Oque você não me contou?Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia enten<strong>de</strong>r o que estava vendo.- O Zeu kai alloi theoi! - gritou ele. - Está bem atrás <strong>de</strong> mim! Você não contou a ela?Eu estava chocado <strong>de</strong>mais para registrar que ele acabara <strong>de</strong> praguejar em grego antigo, e eutinha entendido perfeitamente. Estava chocado <strong>de</strong>mais para me perguntar como Grover chegara alisozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças - e on<strong>de</strong> <strong>de</strong>veriam estar aspernas <strong>de</strong>le... On<strong>de</strong> <strong>de</strong>veriam estar as pernas <strong>de</strong>le...Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes: -Percy. Conte-me agora!Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca <strong>de</strong> frutas e a sra. Dodds, e minha mãe ficouolhando para mim, o r<strong>os</strong>to mortalmente pálido a<strong>os</strong> clarões d<strong>os</strong> relâmpag<strong>os</strong>.- Vão para o carro. Vocês dois. Vão!Grover correu para o Camaro - mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando,sacudindo seu traseiro peludo, e <strong>de</strong> repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernasfez sentido para mim.Entendi como ele podia correr tão <strong>de</strong>pressa e ainda assim mancar quando andava.Porque on<strong>de</strong> <strong>de</strong>veriam estar seus pés não havia pés. Havia casc<strong>os</strong> fendid<strong>os</strong>.QUATRO – Minha mãe me ensina a tourear.Arrancam<strong>os</strong> noite a<strong>de</strong>ntro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuvaaçoitava o pêra-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas elamantinha o pé no acelerador.Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado nobanco <strong>de</strong> trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo <strong>de</strong> calçafelpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava das excursões do jardim-<strong>de</strong>-infânciapara o zoológico infantil –lanolina, como o <strong>de</strong> lã. O cheiro <strong>de</strong> um animal molhado <strong>de</strong> estábulo.Tudo o que pu<strong>de</strong> dizer foi:- Então, você e minha mãe... se conhecem?Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvessecarro nenhum atrás <strong>de</strong> nós.- Não exatamente – disse El. – Quer dizer, nunca n<strong>os</strong> encontram<strong>os</strong> pessoalmente. Mas ela sabia


que eu estava observando você.- Observando, a mim?- Estava <strong>de</strong> olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seuamigo –acrescentou apressadamente. – Eu sou seu amigo.- Ahn... o que é você, exatamente?- Isso não importa neste momento.- Não importa? Da cintura para baixo, o meu melhor amigo é um burro...Grover soltou um agudo e gutural: - Bééééé!Eu já o tinha ouvido fazer aquele som antes, mas sempre achei que era um riso nerv<strong>os</strong>o. Agorame dava conta <strong>de</strong> que era mais um berro irritado.- Bo<strong>de</strong>! - exclamou.- O quê?- Eu sou um bo<strong>de</strong> da cintura para baixo.- Você acaba <strong>de</strong> dizer que isso não importa.- Béééé! Alguns sátir<strong>os</strong> po<strong>de</strong>riam pisoteá-lo por causa <strong>de</strong> tamanho insulto!- Opa. Espere. Sátir<strong>os</strong>. Você quer dizer como... <strong>os</strong> mit<strong>os</strong> do sr. Brunner?- Aquelas velhas na banca <strong>de</strong> frutas eram um mito, Percy? A sra. Dodds era um mito?- Então você admite que havia uma sra. Dodds!- É claro.- Então por que...- Quanto men<strong>os</strong> você soubesse, men<strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> atrairia - disse Grover, como se aquilo f<strong>os</strong>seperfeitamente óbvio. - Nós pusem<strong>os</strong> a Névoa diante d<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> human<strong>os</strong>. Tínham<strong>os</strong> esperanças <strong>de</strong>que você achasse que a Bene<strong>vol</strong>ente era uma alucinação. Mas não adiantou. Você começou aperceber quem você é.- Quem eu... espere um minuto, o que você quer dizer?O estranho rugido ergueu-se novamente em algum lugar atrás <strong>de</strong> nós, mais perto do que antes.O que quer que estivesse n<strong>os</strong> perseguindo ainda estava na n<strong>os</strong>sa cola.- Percy - disse minha mãe -, há muito a explicar e não tem<strong>os</strong> tempo suficiente. Precisam<strong>os</strong> pôrvocê em segurança.- Em segurança como? Quem está atrás <strong>de</strong> mim?- Ah, nada <strong>de</strong>mais - disse Grover, obviamente ainda ofendido com o comentário sobre o burro. -Apenas o Senhor d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong> e alguns d<strong>os</strong> seus asseclas mais se<strong>de</strong>nt<strong>os</strong> <strong>de</strong> sangue.- Grover!- Desculpe sra. Jackson. Po<strong>de</strong>ria dirigir mais <strong>de</strong>pressa, por favor?Tentei en<strong>vol</strong>ver minha mente no que estava acontecendo, mas não consegui. Sabia que aquilonão era um sonho. Eu não tinha imaginação. Jamais po<strong>de</strong>ria sonhar algo tão estranho.Minha mãe fez uma curva fechada para a esquerda. Desviam<strong>os</strong> para uma estrada mais estreita,passando com velocida<strong>de</strong> por casas <strong>de</strong> fazendas às escuras, colinas cobertas <strong>de</strong> árvores e placasque diziam ―COLHA SEUS PRÓPRIOS MORANGOSǁ sobre cercas brancas.- Aon<strong>de</strong> estam<strong>os</strong> indo? - perguntei.- Para o acampamento <strong>de</strong> verão <strong>de</strong> que falei. - A voz <strong>de</strong> minha mãe estava tensa; por mim, elaestava tentando não parecer assustada. - O lugar para on<strong>de</strong> seu pai queria mandá-lo.- O lugar para on<strong>de</strong> você não queria que eu f<strong>os</strong>se.- Por favor, querido - implorou ela. - Isso já é bem difícil. Tente enten<strong>de</strong>r. Você está em perigo.


- Porque umas velhas senhoras cortaram um fio <strong>de</strong> lã.- Aquilo não eram velhas senhoras - disse Grover. - Eram as Parcas. Você sabe o que significa...o fato <strong>de</strong> elas aparecerem na sua frente? Elas só fazem isso quando você está prestes a... quandoalguém está prestes a morrer.- Epa! Você disse ―vocêǁ.- Não, eu não disse. Eu disse, ―alguémǁ.- Você quis dizer ―vocêǁ. Ou seja, eu.- Eu quis dizer você como quem diz ―alguémǁ. Não você, Percy, mas você, qualquer um.- Menin<strong>os</strong>! - disse minha mãe.Ela puxou o <strong>vol</strong>ante com força para a direita e eu tive um vislumbre <strong>de</strong> um vulto do qual ela se<strong>de</strong>sviara -uma forma escura e ondulada, agora perdida na tempesta<strong>de</strong> atrás <strong>de</strong> nós.- O que foi aquilo? - perguntei.- Estam<strong>os</strong> quase lá - disse minha mãe ignorando a pergunta. - Mais um quilômetro e meio. Porfavor. Por favor. Por favor.Eu não sabia on<strong>de</strong> era lá, porém me vi inclinando-me para a frente na expectativa, querendo quechegássem<strong>os</strong> logo.Do lado <strong>de</strong> fora, nada além <strong>de</strong> chuva e escuridão - o tipo <strong>de</strong> camp<strong>os</strong> vazi<strong>os</strong> que a gente vêquando vai para o extremo <strong>de</strong> Long Island. Pensei na sra. Dodds e no momento em que ela setransformou naquela coisa com <strong>de</strong>ntes pontiagud<strong>os</strong> e asas <strong>de</strong> couro. Meus membr<strong>os</strong> ficaramamortecid<strong>os</strong> <strong>de</strong> choque retardado.Ela realmente não era humana. E pretendia me matar.Então pensei no sr. Brunner... e na espada que ele jogara para mim. Antes que eu pu<strong>de</strong>sseperguntar a Grover sobre aquilo, <strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> <strong>de</strong> minha nunca se arrepiaram. Houve um clarãoofuscante, um Bum! De fazer bater o queixo, e o carro explodiu.Lembro-me <strong>de</strong> ter me sentido sem peso, como se estivesse sendo esmagado, frito e lavado comuma mangueira, tudo ao mesmo tempo.Descolei minha testa do enc<strong>os</strong>to do assento do motorista e disse: - Ai.- Percy! - gritou minha mãe.- Estou bem...Tentei sair do estupor. Eu não estava morto,o carro não explodira <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>. Tínham<strong>os</strong> caídoem uma vala. As portas do lado do motorista estavam enfiadas na lama. O teto se abrira como umacasca <strong>de</strong> ovo e a chuva se <strong>de</strong>rramava para <strong>de</strong>ntro.Relâmpago. Era a única explicação. Tínham<strong>os</strong> voado pel<strong>os</strong> ares, para fora da estrada. Ao meulado no assento traseiro havia uma gran<strong>de</strong> massa informe e imóvel.- Grover!Ele estava caído <strong>de</strong> lado, com sangue escorrendo do canto da boca. Sacudi seu quadril peludo,pensando: Não! Mesmo que você seja meta<strong>de</strong> animal <strong>de</strong> quintal, ainda é meu melhor amigo, e nãoquero que morra!Então ele gemeu:- Comida - e eu soube que havia esperança.- Percy - disse minha mãe -, tem<strong>os</strong> <strong>de</strong>... - Ela titubeou.Olhei para trás. Num clarão <strong>de</strong> relâmpago, através do pára-brisa traseiro salpicado <strong>de</strong> lama, vium vulto andando pesadamente na n<strong>os</strong>sa direção no ac<strong>os</strong>tamento da estrada. Aquela visão fez


minha pele formigar. Era a silhueta <strong>de</strong> um sujeito enorme, como um jogador <strong>de</strong> futebolamericano. Parecia estar segurando uma manta por cima da cabeça. A meta<strong>de</strong> superior <strong>de</strong>le era<strong>vol</strong>um<strong>os</strong>a e indistinta. As mã<strong>os</strong> erguidas davam a impressão <strong>de</strong> que ele tinha chifres.Engoli em seco.- Quem é...- Percy - disse minha mãe, extremamente séria. - saia do carro.Ela se jogou contra a porta do lado do motorista. Estava emperrada na lama. Tentei a minha.Emperrada também. Desesperadamente, ergui <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para o buraco no teto. Po<strong>de</strong>ria ser umasaída, mas as bordas estavam chiando e fumegando.- Saia pelo lado do passageiro! - disse minha mãe. - Percy, você tem <strong>de</strong> correr. Está vendoaquela árvore gran<strong>de</strong>?- O quê?Outro clarão <strong>de</strong> relâmpago e pelo buraco fumegante no teto eu vi a arvore a que ela se referia:um enorme pinheiro, do tamanho <strong>de</strong> uma arvore <strong>de</strong> Natal da Casa Branca, no topo da colina maispróxima.- Aquele é o limite da proprieda<strong>de</strong> - disse minha mãe. - Passe daquela colina verá uma gran<strong>de</strong>casa <strong>de</strong> fazenda no fundo do vale. Corra e não olhe para trás. Grite por ajuda. Não pare enquantonão chegar à porta.- Mamãe, você também vem.O r<strong>os</strong>to <strong>de</strong>la estava pálido, <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> tristes como quando ela olhava para o oceano.- Não! - gritei. - Você vem comigo. Aju<strong>de</strong>-me a carregar o Grover.- Comida! - gemeu Grover, um pouco mais alto.O homem com a manta na cabeça continuou indo em n<strong>os</strong>sa direção, grunhindo e bufando.Quando ele chegou mais perto, percebi que não podia estar segurando uma manta acima da cabeçaporque as mã<strong>os</strong> -enormes e carnudas - balançavam ao seu lado. Não havia manta nenhuma. O que queria dizerque a massa <strong>vol</strong>um<strong>os</strong>a e indistinta que era gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais para ser sua cabeça... era a sua cabeça. Eas pontas que pareciam chifres...- Ele não n<strong>os</strong> quer - disse minha mãe. - Ele quer você. Além disso, não p<strong>os</strong>so ultrapassar olimite da proprieda<strong>de</strong>.- Mas...- Não tem<strong>os</strong> tempo, Percy. Vá. Por favor.Então fiquei zangado - zangado com a minha mãe, com Grover, o bo<strong>de</strong>, com a coisa chifrudaque se movia pesadamente em n<strong>os</strong>sa direção, <strong>de</strong> modo lento e calculado como... como um touro.Passei por cima <strong>de</strong> Grover e empurrei a porta, que se abriu para chuva.- Nós vam<strong>os</strong> junt<strong>os</strong>. Venha, mãe.- Eu já disse que...- Mamãe! Eu não vou abandonar você. Ajuda aqui com Grover.Não esperei pela resp<strong>os</strong>ta <strong>de</strong>la. Eu me arrastei para fora do carro, puxando Grover comigo. Eleera surpreen<strong>de</strong>ntemente leve, mas eu não po<strong>de</strong>ria tê-lo carregado para muito longe se minha mãenão tivesse ido me ajudar.Junt<strong>os</strong>, pusem<strong>os</strong> <strong>os</strong> braç<strong>os</strong> <strong>de</strong> Grover em n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong> e começam<strong>os</strong> a subir a colina a<strong>os</strong>tropeções, com o capim molhado na altura <strong>de</strong> cintura.Ao olhar relance para trás, tive minha primeira visão clara do monstro. Tinha, fácil, mais <strong>de</strong>


dois metr<strong>os</strong>, e <strong>os</strong> braç<strong>os</strong> e pernas pareciam algo saído da capa da revista Múscul<strong>os</strong> - bíceps etríceps saltad<strong>os</strong> e mais um monte <strong>de</strong> outr<strong>os</strong> ceps, tod<strong>os</strong> estufad<strong>os</strong> como bolas <strong>de</strong> beisebol embaixo<strong>de</strong> uma pele cheia <strong>de</strong> veias.Ele usava roupas, a não ser cuecas - branquíssimas, da marca Fruit of the Loom -, o que teriasido engraçado não f<strong>os</strong>se o fato <strong>de</strong> a parte superior <strong>de</strong> seu corpo ser tão assustadora. Pêl<strong>os</strong> marronse gr<strong>os</strong>s<strong>os</strong> começaram na altura do umbigo e iam ficando mais espess<strong>os</strong> à medida que chegavama<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.Seu pescoço era uma massa <strong>de</strong> múscul<strong>os</strong> e pêl<strong>os</strong> que levavam à enorme cabeça, que tinha umfocinho tão comprido quanto meu braço, narinas ranhentas com um reluzente anel <strong>de</strong> bronze,olh<strong>os</strong> pret<strong>os</strong> cruéis e chifres - enormes chifres preto-e-branco com pontas que você nãoconseguiria fazer nem num apontador elétrico.Reconheci o monstro muito bem. Tinha sido uma das primeiras historias que o sr. Brunner n<strong>os</strong>contara.Mas ele não podia ser real.Pisquei <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para <strong>de</strong>sviar a chuva.- Aquele é...- O filho <strong>de</strong> Pasífae - disse minha mãe. - G<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> ter sabido antes o quanto <strong>de</strong>sejaram matarvocê.- Mas ele é o Mino...- Não pronuncie o nome - advertiu ela. - Os nomes têm po<strong>de</strong>r.O pinheiro ainda estava longe <strong>de</strong>mais - pelo men<strong>os</strong> cem metr<strong>os</strong> colina acima.Dei outra olhada para trás.O homem-touro se curvou por cima <strong>de</strong> n<strong>os</strong>so carro, olhando pelas janelas - ou não exatamenteolhando.Era mais como farejar, fuçar. Eu não sabia muito bem por que ele se dava a esse trabalho, já queestávam<strong>os</strong> a apenas quinze metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> distancia.- Comida? - gemeu Grover.- Shhh - fiz eu. - Mamãe, o que ele está fazendo? Não está n<strong>os</strong> vendo?- Sua visão e sua audição são péssimas - disse ela. - Ele se orienta pelo cheiro. Mas vai perceberon<strong>de</strong> estam<strong>os</strong> logo, logo.Como que na <strong>de</strong>ixa, o homem-touro bramiu <strong>de</strong> raiva. Ele agarrou o Camaro <strong>de</strong> Gabe pela capotarasgada, o chassi rangia e gemia. Ergueu o carro acima da cabeça e atirou-o na estrada. Aquilo sechocou contra o asfalto molhado e <strong>de</strong>slizou em meio a um chuveiro <strong>de</strong> fagulhas por cerca <strong>de</strong>quinhent<strong>os</strong> metr<strong>os</strong> antes <strong>de</strong> parar. O tanque <strong>de</strong> gasolina explodiu.Nem um arranhão, lembrei-me <strong>de</strong> Gabe dizendo.Oops.- Percy - disse minha mãe. - Quando ele n<strong>os</strong> vir, vai atacar. Espere até o último segundo, <strong>de</strong>poissaia do caminho. Ele não consegue mudar <strong>de</strong> direção muito bem quando já está atacando. Vocêenten<strong>de</strong>u?- Como você sabe tudo isso?- Estou preocupada com um ataque há muito tempo. Devia ter esperado por isso. Fui egoísta,mantendo você perto <strong>de</strong> mim.- Mantendo-me perto <strong>de</strong> você? Mas...Outro bramido <strong>de</strong> raiva e o homem-touro começou a subir pesadamente a colina.Tinha n<strong>os</strong> farejado.


O pinheiro estava a apenas mais alguns metr<strong>os</strong>, mas a colina era cada vez mais íngreme eescorregadia, e Grover ficava mais pesado.O homem-touro se aproximava. Mas alguns segund<strong>os</strong> e estaria em cima <strong>de</strong> nós.Minha mãe <strong>de</strong>via estar exausta, mas carregou Grover.- Vá, Percy! Vá sozinho! Lembre-se do que eu disse.Eu não queria me separar, mas tive a sensação <strong>de</strong> que ela estava certa - era n<strong>os</strong>sa única chance.Pulei para esquerda, virei-me e vi a criatura avançando em minha direção. Os olh<strong>os</strong> pret<strong>os</strong>brilhavam <strong>de</strong> ódio.Fedia a carne podre.Ele inclinou a cabeça e atacou, aqueles chifres afiad<strong>os</strong> como navalhas apontad<strong>os</strong> diretamentepara o meu peito.O medo no meu estômago me <strong>de</strong>u vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> disparar, mas isso não daria certo. Eu jamaispo<strong>de</strong>ria correr mais que aquela coisa. Então fiquei parado e, no último momento, saltei para olado.O homem-touro passou por mim a toda como um trem <strong>de</strong> carga, <strong>de</strong>pois bramiu <strong>de</strong> frustração ese virou, mas <strong>de</strong>ssa vez não contra mim, mas contra minha mãe, que estava acomodando Groversobre a grama.Tínham<strong>os</strong> chegado ao topo da colina. Embaixo, do outro lado, pu<strong>de</strong> ver um vale, bem comominha mãe dissera, e as luzes <strong>de</strong> uma casa <strong>de</strong> fazenda tremeluzindo amarelas através da chuva.Mas estava a oitocent<strong>os</strong> metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> distancia. Nunca conseguiríam<strong>os</strong> chegar lá.O homem-touro roncou, escarvando o chão. Ficou olhando para minha mãe, que recuavalentamente colina abaixo, <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para estrada, tentando afastar o monstro <strong>de</strong> Grover.- Corra, Percy! - disse ela. - Não p<strong>os</strong>so passar daqui. Corra!Mas fiquei lá parado, paralisado <strong>de</strong> medo, enquanto o monstro a atacava. Ela tentou sair <strong>de</strong>lado, como me dissera para fazer, mas o monstro tinha aprendido a lição. Jogou a mão para frentee agarrou-lhe o pescoço quanto ela tentou escapar. Ele a ergueu enquanto ela lutava, chutando edando murr<strong>os</strong> no ar.- Mamãe!Então, com um rugido furi<strong>os</strong>o, o monstro fechou <strong>os</strong> punh<strong>os</strong> em <strong>vol</strong>ta do pescoço da minha mãee ela se dissolveu diante d<strong>os</strong> meus olh<strong>os</strong>, fundindo-se em luz, uma forma dourada tremeluzente,como uma projeção holográfica. Um clarão ofuscante, e ela simplesmente... se foi.- Não!A raiva substituiu o medo. Uma nova força ar<strong>de</strong>u em meus membr<strong>os</strong> - a mesma onda <strong>de</strong> energiaque me veio quando a sra. Dodds m<strong>os</strong>trou as garras.O homem-touro foi na direção <strong>de</strong> Grover, que estava <strong>de</strong>itado na grama, in<strong>de</strong>feso. O monstro securvou, fungando meu melhor amigo como se estivesse prestes a erguê-lo dali e fazê-lo sedissolver também.Eu não podia permitir aquilo.Tirei minha capa <strong>de</strong> chuva vermelha.- Ei! - gritei, agitando a capa e correndo para um lado do monstro. - Ei, estúpido! Monte <strong>de</strong>carne moída!- Raaaarrrrr ! - O monstro virou-se para mim sacudindo seus punh<strong>os</strong> carnud<strong>os</strong>.Eu tive uma idéia - uma idéia boba, porém melhor do que não pensar em nada. Enc<strong>os</strong>tei asc<strong>os</strong>tas no gran<strong>de</strong> pinheiro e agitei a capa vermelha na frente do homem-touro, pensando em pular


fora do caminho no último momento.Mas não foi assim que aconteceu.O homem-touro atacou <strong>de</strong>pressa <strong>de</strong>mais, <strong>os</strong> braç<strong>os</strong> estendid<strong>os</strong> para me agarrar qualquer quef<strong>os</strong>se o lado para on<strong>de</strong> eu tentasse me esquivar.O tempo começou a passar mais <strong>de</strong>vagar.Minhas pernas travaram. Eu não podia pular para o lado, assim saltei direto para cima, usando acabeça da criatura como trampolim, girei o corpo no ar e caí sobre seu pescoço.Como eu fiz aquilo? Não tive tempo para <strong>de</strong>scobrir. Um milissegundo <strong>de</strong>pois a cabeça domonstro chocou-se contra a árvore e o impacto quase fez meus <strong>de</strong>ntes saltarem da boca.O homem-touro cambaleou <strong>de</strong> um lado para outro tentando se livrar <strong>de</strong> mim. Segurei com forçaem seus chifres para não ser arremessado. Os trovões e <strong>os</strong> relâmpag<strong>os</strong> ficavam mais fortes. Achuva caia em meus olh<strong>os</strong>. O cheiro <strong>de</strong> carne podre queimava minhas narinas.O monstro se sacudia e corcoveava como um touro <strong>de</strong> ro<strong>de</strong>io. Po<strong>de</strong>ria simplesmente terchegado para trás e me esmagado completamente na árvore, mas eu começava a perceber queaquela coisa só tinha uma direção: para frente.Enquanto isso, Grover começou a gemer na grama. Quis gritar para ele ficar calado, mas dojeito que estava sendo jogado <strong>de</strong> um lado para o outro, se abrisse a boca <strong>de</strong>ceparia minha próprialíngua com uma mordida.- Comida! - gemeu Grover.O homem-touro virou-se para ele, escarvou o chão novamente e se preparou para atacar. Penseiem como ele havia espremido a vida para fora <strong>de</strong> minha mãe, como a fizera <strong>de</strong>saparecer numclarão <strong>de</strong> luz, e a raiva me abasteceu como um combustível <strong>de</strong> alta potência. Agarrei um d<strong>os</strong>chifres com ambas as mã<strong>os</strong> e puxei para trás com toda a minha força. O monstro se retesou, soltouum grunhido <strong>de</strong> surpresa, e então... pléc!O homem-touro berrou e me atirou pel<strong>os</strong> ares. Aterrissei <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas na grama. Minha cabeçabateu contra uma pedra. Quando me sentei, minha visão estava embaçada, mas eu tinha um chifrenas mã<strong>os</strong>, um <strong>os</strong>so partido do tamanho <strong>de</strong> uma faca.O monstro atacou.Sem pensar, rolei para o lado e me levantei <strong>de</strong> joelh<strong>os</strong>. Quando ele passou a toda velocida<strong>de</strong>,enterrei o chifre quebrado bem na lateral <strong>de</strong> seu corpo, logo abaixo da caixa torácica peluda.O homem-touro urrou em agonia. Debateu-se, rasgando o peito com suas garras, e <strong>de</strong>poiscomeçou a se <strong>de</strong>sintegrar – não como minha mãe, em um clarão dourado, mas como areia seesfarelando, carregada pelo vento a<strong>os</strong> pedaç<strong>os</strong> para longe, do mesmo modo como a sra. Dodds se<strong>de</strong>sintegrara.O monstro se fora.A chuva tinha parado. A tempesta<strong>de</strong> ainda rugia, mas somente a distancia. Eu cheirava a gado emeus joelh<strong>os</strong> tremiam. Minha cabeça parecia que ia se partir ao meio. Estava fraco, assustado etremia <strong>de</strong> tristeza. Acabara <strong>de</strong> ver minha mãe se <strong>de</strong>svanecer. Queria me <strong>de</strong>itar e chorar, mas haviaGrover, precisando <strong>de</strong> minha ajuda, portando consegui erguê-lo e <strong>de</strong>scer cambaleando para o valeem direção às luzes da casa. Eu estava chorando, chamando minha mãe, mas me agarrei a Grover– eu não ia <strong>de</strong>ixá-lo partir.Minha última lembrança é ter <strong>de</strong>smaiado numa varanda <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, olhando para um ventilador<strong>de</strong> teto que girava acima <strong>de</strong> mim, marip<strong>os</strong>as voando em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> uma luz amarela, e as expressõesausteras e familiares <strong>de</strong> um homem barbudo e uma menina bonita, com cabel<strong>os</strong> loir<strong>os</strong>


encaracolad<strong>os</strong> como <strong>os</strong> <strong>de</strong> uma princesa. Os dois olharam para mim e a menina disse: - É ele. Tem<strong>de</strong> ser.- Silêncio, Annabeth - disse o homem. - Ele ainda está consciente. Traga-o para <strong>de</strong>ntro.CINCO – Eu jogo pinoche com um cavalo.Tive sonh<strong>os</strong> estranh<strong>os</strong>, chei<strong>os</strong> <strong>de</strong> animais <strong>de</strong> estábul<strong>os</strong>. A maioria queria me matar. O restantequeria comida.Devo ter acordado várias vezes, mas o que ouvi e vi não fazia sentido, então adormecia <strong>de</strong> novo.Lembro-me <strong>de</strong> estar <strong>de</strong>itado em uma cama macia, sendo alimentado com colheradas <strong>de</strong> algumacoisa que tinha g<strong>os</strong>to <strong>de</strong> pipoca com manteiga, só que era pudim. A menina com o cabelo loiroencaracolado pairava acima <strong>de</strong> mim com um sorriso afetado enquanto limpava as gotas <strong>de</strong> meuqueixo com a colher.Quando ela viu meus olh<strong>os</strong> abert<strong>os</strong>, perguntou: - O que vai acontecer no solstício <strong>de</strong> verão?Eu consegui resmungar:- O quê?Ela olhou em <strong>vol</strong>ta, como se estivesse com medo <strong>de</strong> que alguém ouvisse.- O que está acontecendo? O que foi roubado? Nós só tem<strong>os</strong> algumas semanas!- Desculpe - murmurei. - Eu não...Alguém bateu à porta, e a menina rapidamente encheu minha boca <strong>de</strong> pudim.Quando acor<strong>de</strong>i novamente, a menina tinha ido embora.Um sujeito loiro e forte, como um surfista, estava no canto do quarto me vigiando. Tinha olh<strong>os</strong>azuis - pelo men<strong>os</strong> uma dúzia <strong>de</strong>les - nas bochechas, nas testas, nas c<strong>os</strong>tas das mã<strong>os</strong>.*****Quando finalmente <strong>vol</strong>tei a mim <strong>de</strong> vez, não havia nada <strong>de</strong> estranho com o lugar ao meu redor,a não ser que era mais agradável do que eu estava ac<strong>os</strong>tumado. Estava sentado numaespreguiça<strong>de</strong>ira em uma enorme varanda, olhando ao longo <strong>de</strong> uma campina para colinasver<strong>de</strong>jantes à distância. A brisa tinha cheiro <strong>de</strong> morang<strong>os</strong>. Havia uma manta sobre as minhaspernas, um travesseiro atrás do pescoço. Tudo isso era ótimo, mas minha boca me dava a sensação<strong>de</strong> ter sido usada como ninho por um escorpião. A língua estava seca e pegaj<strong>os</strong>a, e tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntesdoíam. Sobre a mesa ao lado havia bebida num copo alto. Parecia suco <strong>de</strong> maçã gelado, com umcanudinho ver<strong>de</strong> e um guarda-chuva <strong>de</strong> papel enfiado em uma cereja.Minha mão estava tão fraca que quase <strong>de</strong>rrubei o copo quando passei <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong> em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong>le.- Cuidado - disse uma voz familiar.Grover estava apoiado no gradil da varanda, e parecia não dormir havia uma semana. Embaixo<strong>de</strong> um braço, segurava uma caixa <strong>de</strong> sapat<strong>os</strong>. Estava usando jeans, tênis <strong>de</strong> cano alto Converse euma camiseta laranja-claro com <strong>os</strong> dizeres ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Apenas o velhoGrover. Não menino-bo<strong>de</strong>.Quem sabe não tive um pesa<strong>de</strong>lo? Talvez minha mãe estivesse bem. Ainda estávam<strong>os</strong> <strong>de</strong> fériase tínham<strong>os</strong> parado ali naquela gran<strong>de</strong> casa por alguma razão. E...- Você salvou minha vida - disse Grover. - Eu... bem, o mínimo que eu podia fazer... <strong>vol</strong>tei nacolina. Achei que você po<strong>de</strong>ria querer isso.Reverentemente, ele colocou a caixa <strong>de</strong> sapat<strong>os</strong> em meu colo.Dentro havia um chifre <strong>de</strong> touro branco-e-preto, a base irregular por ter sido quebrada, a pontasalpicada <strong>de</strong> sangue seco. Não tinha sido um pesa<strong>de</strong>lo.


- O Minotauro - disse eu.- Ahn, Percy, não é uma boa idéia...- É assim que o chamam n<strong>os</strong> mit<strong>os</strong> greg<strong>os</strong>, não é? - perguntei. - O Minotauro. Meio homem,meio touro.Grover mudou <strong>de</strong> p<strong>os</strong>ição, pouco à vonta<strong>de</strong>.- Você ficou <strong>de</strong>sacordado por dois dias. Do que se lembra?- Minha mãe. Ela está mesmo...Ele abaixou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.Olhei ao longo da campina. Havia pequen<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques, um riacho sinu<strong>os</strong>o, camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong>espalhad<strong>os</strong> embaixo do céu azul. O vale era cercado por colinas ondulantes, e a mais alta, bem nan<strong>os</strong>sa frente, era a que tinha o gran<strong>de</strong> pinheiro no topo. Mesmo isso parecia bonito à luz do sol.Minha mãe se fora. O mundo inteiro <strong>de</strong>veria estar escuro e frio. Nada <strong>de</strong>via parecer bonito.- Desculpe - fungou Grover. - Eu sou um fracasso. Eu... sou o pior sátiro do mundo.Ele gemeu, batendo o pé com tanta força que ele saiu, quer dizer, o tênis Converse saiu. Dentro,estava recheado <strong>de</strong> isopor, a não ser por um buraco em forma <strong>de</strong> casco.- Oh, Styx! - murmurou ele.Um trovão ecoou no céu claro.Enquanto ele lutava para pôr o casco <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta no falso pé, pensei: Bem, isso resolve as coisas.Grover era um sátiro. Podia ap<strong>os</strong>tar que, se raspasse o cabelo castanho cacheado, encontrariapequen<strong>os</strong> chifres em sua cabeça.Mas eu me sentia infeliz <strong>de</strong>mais para me importar com a existência <strong>de</strong> sátir<strong>os</strong> ou mesmominotaur<strong>os</strong>. Oimportante era que minha mãe realmente tinha sido espremida para o nada, dissolvida em luzamarela.Eu estava sozinho. Um órfão. E teria <strong>de</strong> viver com... Gabe Cheir<strong>os</strong>o? Não. Isso jamais iriaacontecer.Preferia viver nas ruas. Fingiria ter <strong>de</strong>zessete an<strong>os</strong> e me alistaria no exercito. Faria algumacoisa.Grover ainda estava fungando. O pobre garoto - pobre bo<strong>de</strong>, ou sátiro, ou o que for - pareciaestar esperando levar um murro.- Não foi sua culpa - disse eu.- Foi, sim. Eu <strong>de</strong>via protegê-lo.- Minha mãe pediu para você me proteger?- Não. Mas é isso que faço. Sou um guardião. Pelo men<strong>os</strong>... eu era.- Mas por que...De repente senti uma vertigem, minha visão rodando.- Não se esforce <strong>de</strong>mais - disse Gover. - Aqui.Ele me ajudou a segurar o copo e eu levei o canudinho a<strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>.Recuei com o g<strong>os</strong>to, porque estava esperando suco <strong>de</strong> maçã. Não tinha nada a ver com isso. Erag<strong>os</strong>to <strong>de</strong> biscoito com pedacinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> chocolate. Biscoito líquido. E não qualquer biscoito - <strong>os</strong>biscoit<strong>os</strong> azuis da minha mãe com pedacinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> chocolate, amanteigad<strong>os</strong> e quentes, o chocolateainda <strong>de</strong>rretendo. Ao beber aquilo, meu corpo inteiro se sentiu bem, aquecido e cheio <strong>de</strong> energia.Minha tristeza não foi embora, mas era como se minha mãe tivesse acabado <strong>de</strong> acariciar minhabochecha e me dar um biscoito, como c<strong>os</strong>tumava fazer quando eu era pequeno, e tivesse dito que


tudo ia ficar bem.Antes <strong>de</strong> me dar conta, já tinha esvaziado o copo inteiro. Olhei para <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>le e, com certeza,não era uma bebida quente, pois <strong>os</strong> cub<strong>os</strong> <strong>de</strong> gelo não tinham nem <strong>de</strong>rretido.- Estava bom? - perguntou Grover.Fiz que sim com a cabeça.- Que g<strong>os</strong>to tinha?Ele pareceu tão suplicante que me senti culpado.- Desculpe. Devia ter <strong>de</strong>ixado você provar.Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>les se arregalaram.- Não! Não foi isso que eu quis dizer. Eu só... fiquei curi<strong>os</strong>o.- Biscoit<strong>os</strong> com pedacinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> chocolate - disse eu. - Os da minha mãe. Feit<strong>os</strong> em casa.Ele suspirou.- E como se sente?- Como se f<strong>os</strong>se capaz <strong>de</strong> jogar Nancy Bobofit a cem metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> distancia.- Isso é bom - disse ele. - Isso é bom. Não acho que você <strong>de</strong>va se arriscar a tomar mais disso aí.- O que quer dizer?Ele pegou meu copo com cautela, como se f<strong>os</strong>se dinamite, e o colocou <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta na mesa.- Vam<strong>os</strong>. Quíron e o sr. D estão esperando.*****A varanda circundava toda a casa da fazenda.Senti as pernas tremulas tentando andar toda aquela distancia. Grover se ofereceu para carregaro chifre do Minotauro, mas eu me agarrei a ele. Tinha pago um preço alto por aquele suvenir. Nãoiria largá-lo.Quando <strong>de</strong>m<strong>os</strong> a <strong>vol</strong>ta até o lado op<strong>os</strong>to da casa, parei para recuperar o fôlego.Devíam<strong>os</strong> estar na c<strong>os</strong>ta norte <strong>de</strong> Long Island, porque daquele lado da casa o vale seguia até aágua, que cintilava a cerca <strong>de</strong> um quilômetro <strong>de</strong> distancia. Entre a casa e lá, eu simplesmente nãoconsegui processar tudo o que estava vendo. A paisagem era pontilhada <strong>de</strong> construções quelembravam a arquitetura grega antiga - um pavilhão a céu aberto, um anfiteatro, uma arenacircular - só que pareciam nov<strong>os</strong> em folha, as colunas <strong>de</strong> mármore branco reluzindo ao sol. Emuma quadra <strong>de</strong> areia próxima, uma dúzia <strong>de</strong> crianças e sátir<strong>os</strong> jogavam <strong>vol</strong>eibol. Canoas<strong>de</strong>slizavam por um pequeno lago. Crianças <strong>de</strong> camiseta laranja-clara como a <strong>de</strong> Grover acorriamumas atrás das outras em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> um grupamento <strong>de</strong> chalés no meio do b<strong>os</strong>que. Algumaspraticavam arco-e-flecha em alv<strong>os</strong>. Outras montavam caval<strong>os</strong> em uma trilha arborizada e, a nã<strong>os</strong>er que eu estivesse tendo alucinações, alguns caval<strong>os</strong> tinham asas.Na extremida<strong>de</strong> da varanda, dois homens estavam sentad<strong>os</strong> frente a frente em uma mesa <strong>de</strong>carteado. A menina <strong>de</strong> cabel<strong>os</strong> loir<strong>os</strong> que me alimentara com colheradas <strong>de</strong> pudim com sabor <strong>de</strong>pipoca estava apoiada no gradil da varanda, ao lado <strong>de</strong>les.O homem <strong>de</strong> frente para mim era pequeno, mas gorducho. Tinha nariz vermelho, gran<strong>de</strong>s olh<strong>os</strong>chor<strong>os</strong><strong>os</strong> e cabelo cacheado tão preto que era quase roxo. Parecia uma daquelas pinturas <strong>de</strong> anj<strong>os</strong>bebês,como se chamam mesmo... surubins? Não, querubins. É isso. Ele parecia um querubim quechegou a meia ida<strong>de</strong> em um acampamento <strong>de</strong> trailers. Usava uma camisa havaiana com estampa<strong>de</strong> tigres e teria se encaixado perfeitamente em uma das rodas <strong>de</strong> pôquer <strong>de</strong> Gabe, só que eu tive asensação <strong>de</strong> que esse cara po<strong>de</strong>ria ter ganhado até do meu padrasto.Aquele é o sr. D - murmurou Grover para mim. - Ele é o diretor do acampamento. Seja educado.


A menina é Annabeth Chase. Ela é só uma campista, mas está aqui há mais tempo que quase todomundo. E você já conhece Quíron...Ele apontou para o cara que estava <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas para mim.Primeiro, percebi que ele estava sentado em uma ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas. Depois reconheci o casaco<strong>de</strong> tweed, o cabelo castanho ralo, a barba <strong>de</strong>salinhada.- Sr. Brunner! - exclamei.O professor <strong>de</strong> latim <strong>vol</strong>tou-se e sorriu para mim. Os olh<strong>os</strong> estavam com aquele brilho travesso<strong>de</strong> quando ele fazia uma prova-surpresa e todas as resp<strong>os</strong>tas da múltipla escolha eram B.- Ah, bom, Percy - disse ele. - Agora já tem<strong>os</strong> quatro para o pinoche.Ele me ofereceu uma ca<strong>de</strong>ira à direita do sr. D, que olhou para mim com olh<strong>os</strong> injetad<strong>os</strong> esoltou um gran<strong>de</strong> suspiro.- Ah, suponho que <strong>de</strong>vo dizer isto. Bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue. Pronto. Agora,não espere que eu esteja contente em vê-lo.- Ahn, obrigado. - Logo me afastei um pouco <strong>de</strong>le, porque, se havia uma coisa que eu tinhaaprendido com Gabe era reconhecer quando um adulto andou tomando umas e outras. Se o sr. Dera abstêmio, eu era um sátiro.- Annabeth? - o sr. Brunner chamou a menina loira.Ela avançou e o sr. Brunner n<strong>os</strong> apresentou.- Esta mocinha cuidou <strong>de</strong> você até que ficasse bom, Percy. Annabeth, minha querida, por quenão vai verificar o beliche <strong>de</strong> Percy? Vam<strong>os</strong> instalá-lo no chalé 11 por enquanto.Annabeth disse:- Claro, Quíron.Ela provavelmente tinha a minha ida<strong>de</strong>, talvez f<strong>os</strong>se uns cinco centímetr<strong>os</strong> mais alta, e tinha aaparência muitíssimo mais atlética.Com seu bronzeado intenso e o cabelo loiro cacheado, era quase exatamente como eu imaginavauma típica menina da Califórnia, a não ser pel<strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, que arruinavam essa imagem. Erasurpreen<strong>de</strong>ntemente cinzent<strong>os</strong>, como nuvens <strong>de</strong> tempesta<strong>de</strong>; bonito, mas também intimidadores,como se ela estivesse analisando o melhor modo <strong>de</strong> me <strong>de</strong>rrubar em uma luta.Ela <strong>de</strong>u uma olhada no chifre <strong>de</strong> minotauro em minhas mã<strong>os</strong>, então <strong>de</strong> novo para mim. Imagineique f<strong>os</strong>se dizer: Você matou um minotauro! Ou Uau, você é tão assustador! Ou algo do tipo. Emvez disso, ela disse: - Você baba quando está dormindo!Depois saiu correndo pelo gramado, <strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> loir<strong>os</strong> esvoaçando atrás <strong>de</strong>la.- Então - disse, ansi<strong>os</strong>o por mudar <strong>de</strong> assunto -, o senhor, ahn, trabalha aqui, sr. Brunner?- Sr. Brunner não - disse o ex-sr. Brunner. - Lamento, era pseudônimo. Você po<strong>de</strong> me chamar <strong>de</strong>Quíron.- Combinado. - Totalmente confuso, olhei para o diretor. - E sr. D... significa alguma coisa?O sr. D parou <strong>de</strong> embaralhar as cartas. Olhou para mim como se eu tivesse acabado <strong>de</strong> arrotaralto.- Rapazinho <strong>os</strong> nomes são coisas po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>as. Você simplesmente não sai por aí <strong>os</strong> usando semmotivo.- Ah. Certo. Desculpe.- Devo dizer, Percy - interrompeu o Quíron-Brunner -, que estou contente em vê-lo com vida. Jáfaz um bom tempo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que fiz um atendimento domiciliar a um campista em potencial.Detestaria pensar que tinha perdido meu tempo.- Atendimento domiciliar?


- O ano que passei na Aca<strong>de</strong>mia Yancy para instruí-lo. Tem<strong>os</strong> sátir<strong>os</strong> <strong>de</strong> prontidão na maioriadas escolas, é claro. Mas Grover me alertou assim que o conheceu. Ele sentiu que você eraespecial, então <strong>de</strong>cidi ir lá.Convenci o outro professor <strong>de</strong> latim a... ah, tirar uma licença.Tentei me lembrar do começo do ano escolar. Parecia tanto tempo atrás, mas eu tinha uma vagalembrança <strong>de</strong> outro professor <strong>de</strong> latim na minha primeira semana em Yancy. Então, semexplicação, ele <strong>de</strong>sapareceu e o sr. Brunner assumiu a turma.- Você foi a Yancy só para me ensinar? - perguntei.Quíron assentiu.- Honestamente, <strong>de</strong> inicio eu não tinha muita certeza a seu respeito. Contatam<strong>os</strong> a sua mãe,informam<strong>os</strong> que estávam<strong>os</strong> <strong>de</strong> olho em você, para o caso <strong>de</strong> estar pronto para o AcampamentoMeio-Sangue. Mas você ainda tinha muito a apren<strong>de</strong>r. Não obstante, chegou aqui vivo, e esse ésempre o primeiro teste.- Grover - disse o sr. D com impaciência -, vai jogar ou não?- Sim, senhor! - Grover tremeu quando se sentou na quarta ca<strong>de</strong>ira, embora eu não soubesse porque ele <strong>de</strong>veria ter tanto medo <strong>de</strong> um homenzinho gorducho <strong>de</strong> camisa havaiana com estampa <strong>de</strong>tigre.- Você sabe jogar pinoche? - indagou o sr. D olhando para mim com <strong>de</strong>sconfiança.- Infelizmente não - disse eu.- Infelizmente não, senhor - disse ele.- Senhor - repeti. Estava g<strong>os</strong>tando cada vez men<strong>os</strong> do diretor do acampamento.- Bem - ele me disse -, este é, juntamente com as lutas <strong>de</strong> gladiadores e o Pac-Man, um d<strong>os</strong>melhores jog<strong>os</strong> já inventad<strong>os</strong> pel<strong>os</strong> seres human<strong>os</strong>. Imaginava que tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> jovens civilizad<strong>os</strong>conhecessem as regras.- Estou certo <strong>de</strong> que o menino po<strong>de</strong> apren<strong>de</strong>r - disse Quíron.- Por favor - disse eu. -, o que é este lugar? O que estou fazendo aqui? Sr. Brun... Quíron, porque iria à Aca<strong>de</strong>mia Yancy só para me ensinar?O sr. D bufou.- Fiz a mesma pergunta.O diretor do acampamento <strong>de</strong>u as cartas. Grover se encolhia a cada vez que uma caía na suapilha.Quíron sorriu para mim <strong>de</strong> um modo compreensivo, como c<strong>os</strong>tumava fazer na aula <strong>de</strong> latim,como para me dizer que qualquer que f<strong>os</strong>se minha nota, eu era seu aluno mais importante. Eleesperava que eu tivesse a resp<strong>os</strong>ta certa.- Percy - disse ele -, sua mãe não lhe contou nada?- Ela disse... - Lembrei-me d<strong>os</strong> seus olh<strong>os</strong> tristes, olhando para o mar. - Ela me contou que tinhamedo <strong>de</strong> me mandar para cá, embora meu pai quisesse que ela fizesse isso. Disse que, uma vezaqui, provavelmente não po<strong>de</strong>ria sair. Queria me manter perto <strong>de</strong>la.- Típico - disse o sr. D - É assim que eles normalmente são mort<strong>os</strong>. Rapazinho, você vai fazerum lance ou não vai?- O quê? - perguntei.Ele explicou, impacientemente, como se faz um lance em pinoche, e eu fiz.- Lamento, mas há coisas <strong>de</strong>mais a contar - disse Quíron. - Receio que n<strong>os</strong>so filme <strong>de</strong>orientação não seja suficiente.


- Filme <strong>de</strong> orientação? - perguntei.- Não - concluiu Quíron. - Bem, Percy. Você sabe que seu amigo Grover é um sátiro. Você sabe- ele apontou para o chifre na caixa <strong>de</strong> sapat<strong>os</strong> - que você matou o Minotauro. E não é um pequenofeito, rapaz.O que você po<strong>de</strong> não saber é que gran<strong>de</strong>s forças estão em ação na sua vida. Os <strong>de</strong>uses - as forçasque você chama <strong>de</strong> <strong>de</strong>uses greg<strong>os</strong> - estão muito viv<strong>os</strong>.Olhei para <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> em <strong>vol</strong>ta da mesa.Aguar<strong>de</strong>i que alguém gritasse, Não! Mas tudo o que ouvi foi o sr. D gritando: - Oh, umcasamento real. Truco! Truco! - Ele gargalhou enquanto contava <strong>os</strong> pont<strong>os</strong>.- Sr. D - perguntou Grover timidamente -, se não for comê-la, p<strong>os</strong>so ficar com sua lata <strong>de</strong> DietCoke?- Hein? Ah, está bem.Grover mor<strong>de</strong>u um gran<strong>de</strong> pedaço da lata <strong>de</strong> alumínio vazia e mastigou tristemente.- Espere - eu disse a Quíron -, está me dizendo que existe algo como Deus.- Bem, vam<strong>os</strong> lá - disse Quíron. - Deus - com D maiúsculo, Deus. Isso é outro assunto. Nãovam<strong>os</strong> lidar com o metafísico.- Metafísico? Mas você estava falando sobre...- Ah, <strong>de</strong>uses, no plural, gran<strong>de</strong>s seres que controlam as forças da natureza e <strong>os</strong>empreendiment<strong>os</strong> human<strong>os</strong>; <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses imortais do Olimpo. Essa é uma questão menor.- Menor?- Sim, muito. Os <strong>de</strong>uses que discutim<strong>os</strong> na aula <strong>de</strong> latim.- Zeus - disse eu. - Hera. Apolo. Você quer dizer , esses. E, <strong>de</strong> novo, uma trovoada distante emum dia sem nuvens.- Rapazinho - disse o sr. D -, se eu f<strong>os</strong>se você, seria men<strong>os</strong> negligente quanto a ficar soltandoesses nomes por aí.- Mas são historias - disse eu. –- São... mit<strong>os</strong>, para explicar <strong>os</strong> relâmpag<strong>os</strong>, as estações e tudomais. Era nisso que as pessoas acreditavam antes <strong>de</strong> surgir a ciência.- Ciência! - zombou o sr. D. - E diga-me, Perseu Jackson - eu me encolhi quando ele disse meunome verda<strong>de</strong>iro, que nunca contara a ninguém -, o que as pessoas pensarão da sua ―ciênciaǁdaqui a milhares <strong>de</strong> an<strong>os</strong>? Humm? Irão chamá-la <strong>de</strong> bab<strong>os</strong>eiras primitivas. É isso o que irãopensar. Ah, eu adoro <strong>os</strong> mortais... ele não têm a menor noção <strong>de</strong> perspectiva. Acham que jáchegaram tãããão longe. E chegaram, Quíron? Olhe para esse menino e diga-me.- Percy - disse Quíron -, você po<strong>de</strong> escolher entre acreditar ou não, mas o fato é que imortalsignifica imortal. Po<strong>de</strong> imaginar isso por um momento, não morrer nunca? Existir, assim comovocê é, para toda a eternida<strong>de</strong>?Eu estava prestes a respon<strong>de</strong>r, assim sem pensar, que parecia um negocio muito bom, mas otom <strong>de</strong> voz <strong>de</strong> Quíron me fez hesitar.- Você quer dizer, quer as pessoas acreditem em você ou não – disse eu.- Exatamente - concordou Quíron. - Se você f<strong>os</strong>se um <strong>de</strong>us, g<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> ser chamado <strong>de</strong> mito, <strong>de</strong>uma velha historia para explicar <strong>os</strong> relâmpag<strong>os</strong>? E se eu contasse a você, Perseu Jackson que umdia as pessoas vão chamar você <strong>de</strong> mito, criado apenas para explicar como menininh<strong>os</strong> po<strong>de</strong>msobreviver à perda <strong>de</strong> suas mães?Meu coração disparou. Ele estava tentando me <strong>de</strong>ixar zangado por alguma razão, mas eu não iapermitir que o fizesse. Eu disse: - Eu não g<strong>os</strong>taria disso. Mas não acredito em <strong>de</strong>uses.


- Oh, é melhor mesmo - murmurou o sr. D. - Antes que um <strong>de</strong>les o incinere.Grover disse:- P-por favor, senhor. Ele acaba <strong>de</strong> per<strong>de</strong>r a mãe. Está em estado <strong>de</strong> choque.- Uma sorte, também - resmungou o sr. D, jogando uma carta. - Ruim mesmo é estar confinadoa esse trabalho <strong>de</strong>primente, com menin<strong>os</strong> que nem mesmo têm fé!Ele acenou e uma taça apareceu sobre a mesa, como se a luz do sol tivesse momentaneamentese encurvado e transformado o ar em vidro. A taça se encheu <strong>de</strong> vinho tinto.Meu queixo caiu, mas Quíron mal ergueu <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Senhor D - advertiu -, as suas restrições.O sr. D olhou para o vinho e fingiu surpresa.- Ora vejam. - Ele olhou para o céu e gritou: - Velh<strong>os</strong> hábit<strong>os</strong>! Desculpe!Mais trovoes.O sr. D acenou outra vez e a taça <strong>de</strong> vinho se transformou em uma nova lata <strong>de</strong> Diet Coke. Elesuspirou, infeliz, abriu a lata e <strong>vol</strong>tou ao seu jogo <strong>de</strong> cartas.Quíron piscou para mim.- O sr. D irritou o pai <strong>de</strong>le temp<strong>os</strong> atrás, sentiu-se atraído por uma ninfa d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques que tinhasido <strong>de</strong>clarada inacessível.- Uma ninfa d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques - repeti, ainda olhando para a Diet Coke como se tivesse vindo doc<strong>os</strong>m<strong>os</strong>.- Sim - confessou o sr. D. - O pai adora me castigar. Na primeira vez, Proibição. Horrível! Dezan<strong>os</strong> abasolutamente terríveis! Na segunda vez... bem, ela era mesmo linda, não consegui ficarlonge... na segunda vez, ele me mandou para cá. Colina Meio-Sangue. Acampamento <strong>de</strong> verãopara moleques como você. ―Seja uma influencia melhorǁ, ele me disse. ―Trabalhe com <strong>os</strong>jovens em vez <strong>de</strong> arrasar com eles.ǁAh! Que injustiça.O sr. D parecia ter seis an<strong>os</strong> <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, como uma criancinha fazendo pirraça.- E... - gaguejei - o seu pai é...- Di immotales, Quíron - disse o sr. D. - Pensei que você tinha ensinado o básico a este menino.Meu pai é Zeus, é claro.Repassei <strong>os</strong> nomes começad<strong>os</strong> em D da mitologia grega. Vinho. A pele <strong>de</strong> um tigre. Os sátir<strong>os</strong>que pareciam estar tod<strong>os</strong> trabalhando aqui. O modo como Grover se encolhia <strong>de</strong> medo, como se <strong>os</strong>r. D f<strong>os</strong>se seu senhor.- Você é Dionisio - disse eu. - O <strong>de</strong>us do vinho.O sr. D revirou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Como eles dizem hoje em dia, Grover? As crianças dizem, ―fala sérioǁ?- S-sim, sr. D.- Então, fala sério, Percy Jackson. Achou o quê; que eu f<strong>os</strong>se Afrodite?- Você é um <strong>de</strong>us.- Sim, criança.- Um <strong>de</strong>us. Você.Ele se virou para olhar diretamente para mim, e vi uma espécie <strong>de</strong> fogo arroxeado n<strong>os</strong> seusolh<strong>os</strong>, um indício <strong>de</strong> que aquele homenzinho reclamão e gorducho só estava me m<strong>os</strong>trando umaminúscula parte <strong>de</strong> sua verda<strong>de</strong>ira natureza. Tive visões <strong>de</strong> vinhas estrangulando <strong>de</strong>screntes até amorte, guerreir<strong>os</strong> bêbad<strong>os</strong> insan<strong>os</strong> com o entusiasmo da batalha, marinheir<strong>os</strong> gritando enquanto


suas mã<strong>os</strong> se transformavam em nada<strong>de</strong>iras, <strong>os</strong> r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> se alongando em focinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> golfinho. Eusabia que, se o pressionasse, o sr. D iria me m<strong>os</strong>trar coisas piores. Iria plantar uma doença no meucérebro que me levaria a usar camisa-<strong>de</strong>-força pelo resto da vida.- G<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> me testar, criança? - disse em voz baixa.- Não. Não, senhor.O fogo diminuiu um pouco. Ele <strong>vol</strong>tou ao jogo <strong>de</strong> cartas.- Acho que ganhei.- Não exatamente sr. D - disse Quíron. Ele baixou uma seqüência, contou <strong>os</strong> pont<strong>os</strong> e disse: - Ojogo é meu.Achei que o sr. D f<strong>os</strong>se transformar Quíron em pó em sua ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas, mas ele apenassuspirou pelo nariz, como se estivesse ac<strong>os</strong>tumado a ser batido pelo professor <strong>de</strong> latim. Pôs-se <strong>de</strong>pé, e Grover levantou-se também.- Estou cansado - disse o sr. D. - Acho que vou tirar uma soneca antes da cantoria <strong>de</strong>sta noite.Mas primeiro, Grover, precisam<strong>os</strong> conversar <strong>de</strong> novo sobre seu <strong>de</strong>sempenho para lá <strong>de</strong> imperfeitonessa missão.O r<strong>os</strong>to <strong>de</strong> Grover cobriu-se <strong>de</strong> gotículas <strong>de</strong> suor.- S-sim, senhor.O sr. D <strong>vol</strong>tou-se para mim.- Chalé 11, Percy Jackson. E cuidado com seus mod<strong>os</strong>.Ele se afastou para <strong>de</strong>ntro da casa, com Grover o seguindo arrasado.- Grover vai ficar bem? - perguntei a Quíron.Quíron assentiu, embora parecesse um pouco perturbado.- O velho Dionisio não está realmente zangado. Ele apenas <strong>de</strong>testa seu trabalho. Ele foi... ahn,confinado à Terra, po<strong>de</strong>-se dizer, e não po<strong>de</strong> agüentar ter <strong>de</strong> esperar mais um século antes <strong>de</strong> serautorizado a <strong>vol</strong>tar ao Olimpo.- O Monte Olimpo - disse eu. - Você está me dizendo que realmente existe um palácio ali?- Bem, agora há o Monte Olimpo na Grécia. E há o lar d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, o ponto <strong>de</strong> convergência d<strong>os</strong>seus po<strong>de</strong>res, que <strong>de</strong> fato c<strong>os</strong>tumava ser no Monte Olimpo. Ainda é chamado <strong>de</strong> Monte Olimpo,por respeito às tradições, mas o palácio muda <strong>de</strong> lugar, Percy, assim como <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.- Você quer dizer que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses greg<strong>os</strong> estão aqui? Tipo... n<strong>os</strong> Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>?- Bem, certamente. Os <strong>de</strong>uses mudam com o coração do Oci<strong>de</strong>nte.- O quê?- Vam<strong>os</strong>, Percy. O que vocês chamam <strong>de</strong> ―civilização oci<strong>de</strong>ntalǁ. Você acha que é apenas umconceito abstrato? Não, é uma força viva. Uma consciência coletiva que ar<strong>de</strong>u brilhantemente pormilhares <strong>de</strong> an<strong>os</strong>. Os <strong>de</strong>uses são parte <strong>de</strong>la. Você po<strong>de</strong> até dizer que eles são sua fonte ou, pelomen<strong>os</strong>, que estão ligad<strong>os</strong> tão intimamente a ela que p<strong>os</strong>sivelmente não vão <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> existir, a nã<strong>os</strong>er que toda a civilização oci<strong>de</strong>ntal seja <strong>de</strong>struída. A chama começou na Grécia. Então, como vocêbem sabe... ou espero que saiba, já que foi aprovado no meu curso... o coração da chama se mudoupara Roma, e assim fizeram <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Ah, com nomes diferentes, talvez: Júpiter em vez <strong>de</strong> Zeus,Vênus em vez <strong>de</strong> Afrodite, e assim por diante; mas as mesmas forças, <strong>os</strong> mesm<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.- E então eles morreram.- Morreram? Não. O Oci<strong>de</strong>nte morreu? Os <strong>de</strong>uses simplesmente se mudaram, para a Alemanha,para a França, para a Espanha, por algum tempo. Aon<strong>de</strong> quer que a chama brilhasse mais, láestavam <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Eles passaram vári<strong>os</strong> sécul<strong>os</strong> na Inglaterra. Tudo o que você precisa é olhar


para a arquitetura.As pessoas não esquecem <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Em tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> lugares on<strong>de</strong> reinaram, n<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> três milan<strong>os</strong>, você po<strong>de</strong> vê-l<strong>os</strong> em pinturas, em estátuas, n<strong>os</strong> prédi<strong>os</strong> mais importantes. E sim, Percy, éclaro que agora eles estão n<strong>os</strong> Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>. Olhe para o símbolo do país, a águia <strong>de</strong> Zeus. Olhepara a estátua <strong>de</strong> Prometeu no Rockfeller Center, para as fachadas d<strong>os</strong> edifíci<strong>os</strong> governamentaisem Washington. Eu o <strong>de</strong>safio a encontrar qualquer cida<strong>de</strong> americana on<strong>de</strong> <strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong> nãoestejam proeminentes exp<strong>os</strong>t<strong>os</strong> em vári<strong>os</strong> locais. G<strong>os</strong>te ou não – e acredite, uma porção <strong>de</strong> gentenão g<strong>os</strong>tava muito <strong>de</strong> Roma também -, <strong>os</strong> Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong> são agora o coração da chama. São agran<strong>de</strong> potencia do Oci<strong>de</strong>nte. E, portanto, o Olimpo é aqui. E nós estam<strong>os</strong> aqui.Aquilo tudo foi <strong>de</strong>mais para mim, especialmente o fato <strong>de</strong> que eu parecia estar incluído no nós<strong>de</strong> Quíron, como se fizesse parte do mesmo clube.- Quem é você, Quíron? Quem... quem eu sou?Quíron sorriu. Ele mudou <strong>de</strong> p<strong>os</strong>ição, como se f<strong>os</strong>se levantar da ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas, mas eu sabiaque era imp<strong>os</strong>sível. Era paralítico da cintura para baixo.- Quem é você? - ele ficou pensativo. - Bem, essa é a pergunte que tod<strong>os</strong> querem<strong>os</strong> verrespondida, não é? Mas, por enquanto, tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> lhe arranjar um beliche no chalé 11. Ali haveránov<strong>os</strong> amig<strong>os</strong> para conhecer. E tempo à vonta<strong>de</strong> para as aulas amanhã. Alem disso, haverágul<strong>os</strong>eimas em <strong>vol</strong>ta da fogueira esta noite, e eu simplesmente adoro chocolate.E então ele se levantou da ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas. Mas havia algo <strong>de</strong> estranho no modo como ele fezisso. A manta caiu <strong>de</strong> cima das pernas, mas elas não se moveram. A cintura foi ficando maislonga, erguendo-se acima do cinto. De início, pensei que estivesse usando roupas <strong>de</strong> baixo muitocompridas <strong>de</strong> veludo branco, mas à medida que ele foi ser erguendo da ca<strong>de</strong>ira, mais alto quequalquer homem, percebi que a roupa <strong>de</strong> baixo <strong>de</strong> veludo não era roupa <strong>de</strong> baixo; era a parte dafrente <strong>de</strong> um animal, múscul<strong>os</strong> e tendões sob um pêlo branco e áspero. E a ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas nãoera uma ca<strong>de</strong>ira. Era algum tipo <strong>de</strong> recipiente, uma enorme caixa sobre rodas, e <strong>de</strong>via ser mágica,porque não havia como ela contê-lo inteiro. Uma perna saiu, comprida e com joelho saliente, comum gran<strong>de</strong> casco polido. Depois outra perna dianteira, <strong>de</strong>pois a parte traseira, e <strong>de</strong>pois a caixaficou vazia, nada além <strong>de</strong> uma casca <strong>de</strong> metal com um par <strong>de</strong> pernas humanas acoplado.Olhei para o cavalo que acabara <strong>de</strong> pular da ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas: um enorme corcel branco. Mas,on<strong>de</strong> <strong>de</strong>via estar o seu pescoço, estava a parte <strong>de</strong> cima do corpo do meu professor <strong>de</strong> latim,suavemente enxertada no tronco do cavalo.- Que alívio - disse o centauro. - Fiquei tanto tempo confinado lá <strong>de</strong>ntro que minhas juntasadormeceram.Agora venha, Percy Jackson. Vam<strong>os</strong> conhecer <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> campistas.SEIS – Minha transformação em senhor do banheiro.Depois que assimilei o fato <strong>de</strong> meu professor <strong>de</strong> latim ser um cavalo, fizem<strong>os</strong> um passeioagradável, embora tivesse o cuidado <strong>de</strong> não andar atrás <strong>de</strong>le. Havia participado algumas vezes dasrondas com pazinhas para recolher cocô <strong>de</strong> cachorro na Parada do Dia <strong>de</strong> Ação <strong>de</strong> Graças da lojaMacy’s e, lamento dizer, não confiava na parte <strong>de</strong> trás <strong>de</strong> Quíron tanto quanto confiava na dafrente.Passam<strong>os</strong> pela quadra <strong>de</strong> vôlei. Divers<strong>os</strong> campistas se cutucavam. Um <strong>de</strong>les apontou para ochifre <strong>de</strong> minotauro que eu carregava. Um outro disse: - É ele.


A maioria d<strong>os</strong> campistas era mais velha que eu. Seus amig<strong>os</strong> sátir<strong>os</strong> eram maiores que Grover,tod<strong>os</strong> trotando <strong>de</strong> um lado para outro <strong>de</strong> camisetas cor <strong>de</strong> laranja do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE, sem nada para cobrir <strong>os</strong> traseir<strong>os</strong> pelud<strong>os</strong> à m<strong>os</strong>tra. Eu normalmente não era tímido,mas o modo como olhavam para mim me <strong>de</strong>ixou pouco à vonta<strong>de</strong>. Era como se esperassem que eu<strong>de</strong>sse um salto mortal ou coisa assim.Olhei para a casa <strong>de</strong> fazenda trás <strong>de</strong> mim. Era muito maior do que eu pensara - quatro andares,azul-céu com acabamento em branco, como um hotel <strong>de</strong> veraneio <strong>de</strong> primeira classe à beira-mar.Eu estava conferindo o cata-vento <strong>de</strong> latão em forma <strong>de</strong> águia no topo quando algo me chamoua atenção, uma sombra na janela mais alta do sótão. Alguma coisa havia mexido na cortina, só porum segundo, e tive a nítida impressão <strong>de</strong> que estava sendo observado.- O que há lá em cima? - perguntei a Quíron. Ele olhou para on<strong>de</strong> eu estava apontando e seusorriso <strong>de</strong>sapareceu: - Apenas o sótão.- Mora alguém lá?- Não - disse em tom <strong>de</strong>finitivo. - Nem uma única coisa viva.Tive a sensação <strong>de</strong> que ele falava a verda<strong>de</strong>. Mas também tinha certeza <strong>de</strong> que algo haviamexido naquela cortina.- Venha, Percy - disse Quíron, o tom <strong>de</strong>spreocupado agora um pouco forçado. - Há muito paraver.Caminham<strong>os</strong> pel<strong>os</strong> camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong>, on<strong>de</strong> campistas colhiam alqueires <strong>de</strong> morang<strong>os</strong>enquanto um sátiro tocava uma melo dia numa flauta <strong>de</strong> bambu.Quíron me contou que o acampamento cultivava uma bela safra para exportar para <strong>os</strong>restaurantes <strong>de</strong> Nova York e para o Monte Olimpo.- Paga as n<strong>os</strong>sas <strong>de</strong>spesas - explicou. - E <strong>os</strong> morang<strong>os</strong> não exigem esforço quase nenhum.Ele disse que o sr. D produzia esse efeito sobre plantas frutíferas: elas simplesmenteenlouqueciam quando ele estava por perto. Funcionava melhor com as vinhas, mas o sr. D estavaproibido <strong>de</strong> cultivá-las, portanto, em vez <strong>de</strong>las eles plantavam morang<strong>os</strong>.Observei o sátiro tocando a flauta. A música fazia com que filas <strong>de</strong> inset<strong>os</strong> saíssem d<strong>os</strong>canteir<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong> em todas as direções, como se fugissem <strong>de</strong> um incêndio. Imaginei seGrover p o d i a f a ze r e s s e t ip o mágica com música. Imaginei se ainda estava <strong>de</strong>ntro da casa,levando broncas do sr. D.- Grover não vai ter muit<strong>os</strong> problemas, vai? - perguntei a Quíron. - Quer dizer... ele foi um bomprotetor. Sem dúvida.Q u ír o n s u s p ir o u . T ir o u o c a s a c o <strong>de</strong> tweed e jogou-o por cima do seu lombo <strong>de</strong>cavalo, como uma sela.- Grover sonha alto , Percy. Talvez mais alto do que seria razoável. Para atingir seu objetivo, eleprecisa primeiro <strong>de</strong>monstrar uma gran<strong>de</strong> coragem tendo sucesso como guardião, encontrando umnovo campista e trazendo-o em segurança à Colina Meio-Sangue.- Mas ele fez isso!- Eu po<strong>de</strong>ria concordar com você - disse Quíron. - Mas não cabe a mim julgar. Dioniso e oConselho d<strong>os</strong> Anciã<strong>os</strong> <strong>de</strong> Casco Fendido <strong>de</strong>vem <strong>de</strong>cidir. Receio que p<strong>os</strong>sam não ver essa missãocomo um sucesso. Afinal, Grover per<strong>de</strong>u você em Nova York, há o <strong>de</strong>sventurado... ahn... <strong>de</strong>stinoda sua mãe. E o fato <strong>de</strong> que Grover estava inconsciente quando você o arrastou a t é o s l i m i t e sda proprieda<strong>de</strong>. Oconselho po<strong>de</strong> questionar se isso <strong>de</strong>monstra alguma coragem da parte <strong>de</strong> Grover.


Eu quis protestar. Nada do que acontecera havia sido por culpa <strong>de</strong> Grover. Também me sentiamuito, muito culpado. Se não tivesse escapado <strong>de</strong> Grover na estação <strong>de</strong> ônibus, ele po<strong>de</strong>ria não terse en<strong>vol</strong>vido em encrenca.- Ele vai ter uma segunda chance, não vai?Quíron retraiu-se.Infelizmente aquela era a segunda chance <strong>de</strong> Grover, Percy. Além disso, o conselho não estavamuito ansi<strong>os</strong>o em lhe dar outra oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong>pois do que aconteceu na primeira vez, cinco an<strong>os</strong>atrás.- O Olimpo sabe, eu o aconselhei a esperar mais tempo antes <strong>de</strong> tentar <strong>de</strong> novo. Ele ainda émuito pequeno para a sua ida<strong>de</strong>.- Que ida<strong>de</strong> ele tem?- Ah, vinte e oito.- O quê! E ainda está na sexta série?- Os sátir<strong>os</strong> amadurecem no dobro do tempo d<strong>os</strong> seres human<strong>os</strong>, Percy. Grover teve ida<strong>de</strong>equivalente à <strong>de</strong> um aluno <strong>de</strong> escola secundária n<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> seis an<strong>os</strong>.- Que coisa horrível.- De fato - concordou Quíron. - De qualquer modo, Grover está atrasado, mesmo pel<strong>os</strong> padrões<strong>de</strong> sátiro, e ainda não avançou muito em magia d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques. O pobre estava ansi<strong>os</strong>o por perseguiro seu sonho.Talvez agora encontre alguma outra carreira...- Isso não é justo! - disse eu. - O que aconteceu na primeira vez? Foi mesmo assim tão ruim?Quíron <strong>de</strong>sviou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>pressa.- Vam<strong>os</strong> andando?Mas eu ainda não estava pronto para mudar <strong>de</strong> assunto. Uma coisa me ocorrera quando Quíronfalou sobre o <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> m i n h a mãe, como se estivesse intencionalmente evitando a palavramorte. O princípio <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ia - uma pequenina e esperanç<strong>os</strong>a chama - começou a se formar emminha cabeça.- Quíron - disse eu. - Se <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, o Olimpo e tudo isso são reais...- Sim, criança?- Isso significa que o Mundo Inferior também é real? A expressão <strong>de</strong> Quíron se fechou.- Sim, criança. - Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras cuidad<strong>os</strong>amente. -Há um lugar para on<strong>de</strong> vão <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> após a morte. Mas por ora... até que saibam<strong>os</strong> mais...eurecomendaria que tirasse isso <strong>de</strong> sua cabeça.- O que q u e r dizer com "até que saibam<strong>os</strong> mais"?- Venha, Percy. Vam<strong>os</strong> ver <strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques.Quando n<strong>os</strong> aproximam<strong>os</strong>, me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> como a floresta era enorme. Tomava pelo men<strong>os</strong> umquarto do vale, com árvores tão altas e largas que a impressão era <strong>de</strong> que ninguém entrara lá <strong>de</strong>s<strong>de</strong><strong>os</strong> nativ<strong>os</strong> american<strong>os</strong>.Q u ír o n d i s s e :- Os b<strong>os</strong>ques têm provisões, se você quiser tentar a sorte, - Provisões <strong>de</strong> quê? – perguntei. -Armado com o quê?- Você verá. O jogo Capture a Ban<strong>de</strong>ira é na sexta-feira à noite. Você tem a sua própria espada eescudo?- Minha própria...?- Não - disse Quíron. - Não creio que tenha. Acho que o tamanho cinco vai servir. Mais tar<strong>de</strong>


vou visitar o arsenal.Quis perguntar que tipo <strong>de</strong> acampamento <strong>de</strong> verão tem um arsenal, mas havia muito mais apensar, portanto o passeio continuou. Vim<strong>os</strong> a linha <strong>de</strong> tiro com arco-e-flecha, o lago <strong>de</strong>canoagem, o s estábul<strong>os</strong> (d<strong>os</strong> quais Quíron parecia não g<strong>os</strong>tar muito), a linha <strong>de</strong> lançamento <strong>de</strong>dardo, o anfiteatro para cantoria e a arena on<strong>de</strong> Quíron disse que eles realizavam lutas <strong>de</strong> espadase lanças.- Lutas <strong>de</strong> espadas e lanças? - perguntei.- Desafi<strong>os</strong> entre chalés e coisas assim - explicou ele. - Não são letais. Normalmente. Ah, sim, ehá também o refeitório. Quíron apontou para um pavilhão ao ar livre emoldurado por c o lu na sgregas brancas sobre uma colina que dava para o mar. Havia uma dúzia <strong>de</strong> mesas <strong>de</strong> piquenique <strong>de</strong>pedra. Sem telhado. Sem pare<strong>de</strong>s.- O que vocês fazem quando chove? - perguntei.Quíron me olhou como se eu tivesse ficado meio maluco.- Ainda assim tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> comer, não tem<strong>os</strong>?Resolvi <strong>de</strong>ixar para lá.Finalmente, ele me m<strong>os</strong>trou <strong>os</strong> chalés. Havia doze d e le s a n i nhad<strong>os</strong> no b<strong>os</strong>que junto ao lago.Estavam disp<strong>os</strong>t<strong>os</strong> em U, dois na frente e cinco enfileirad<strong>os</strong> <strong>de</strong> cada lado. E eram, sem d ú v i d a ,o mais estranho conjunto <strong>de</strong> construções que já vi.A não ser pelo fato <strong>de</strong> cada um ter um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> latão acima da porta (ímpares do ladoesquerdo, pares do direito), eram totalmente diferentes um do outro. O número 9 tinha chaminéscomo uma minúscula fábrica. O número 4 tinha tomateir<strong>os</strong> nas pare<strong>de</strong>s e uma cobertura feita <strong>de</strong>grama <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>.O 7 parecia feito <strong>de</strong> um ouro sólido que reluzia tanto à luz do sol q u e er a quase imp<strong>os</strong>sível <strong>de</strong>se olhar.Tod<strong>os</strong> davam para uma área comum mais ou men<strong>os</strong> do tamanho <strong>de</strong> um campo <strong>de</strong> futebol, p o n ti l h a d a <strong>de</strong> estátuas gregas, fontes, canteir<strong>os</strong> <strong>de</strong> flores e um par <strong>de</strong> cest<strong>os</strong> <strong>de</strong> basquete (o que eramais a minha praia).No centro do campo havia uma enorme área <strong>de</strong> pedras com uma fogueira. Muito embora f<strong>os</strong>seuma tar<strong>de</strong> quente, o fogo ardia <strong>de</strong> modo lento. Uma menina com cerca <strong>de</strong> nove an<strong>os</strong> estavacuidando das chamas, cutucando <strong>os</strong> carvões com uma vara.O par <strong>de</strong> chalés à cabeceira do campo, númer<strong>os</strong> 1 e 2, pareciam mausoléus casadinh<strong>os</strong>, gran<strong>de</strong>scaixas <strong>de</strong> mármore branco com colunas pesadas na frente. O chalé 1 era o maior e mais magníficod<strong>os</strong> doze.As portas <strong>de</strong> bronze polido cintilavam como um holograma, <strong>de</strong> tal modo que, vistas <strong>de</strong> ângul<strong>os</strong>diferentes, rai<strong>os</strong> pareciam atravessá-las. O chalé 2 era <strong>de</strong> certo modo mais graci<strong>os</strong>o, com colunasmais finas encimadas com romãs e flores. As pare<strong>de</strong>s eram entalhadas com imagens <strong>de</strong> pavões.- Zeus e Hera? - adivinhei.- Correto - disse Quíron.- Os chalés parecem vazi<strong>os</strong>.- Divers<strong>os</strong> chalés estão vazi<strong>os</strong>. è verda<strong>de</strong>. Ninguém jamais fica no 1 ou 2.Certo. Então cada chalé tinha um <strong>de</strong>us diferente como mascote e chalés para <strong>os</strong> dozeolimpian<strong>os</strong>. Mas por que alguns estariam vazi<strong>os</strong>?Parei na frente do primeiro chalé da esquerda, o número 3.Nã o e r a alto e imponente como o chalé 1, mas comprido, baixo e sólido. As pare<strong>de</strong>s externas


eram <strong>de</strong> pedras cinzentas rústicas salpicadas <strong>de</strong> pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> conchas e coral, como se as pedrastivessem sido cortadas diretamente do fundo do oceano. Espiei para <strong>de</strong>ntro da porta aberta eQuíron disse: - Ih, eu não faria isso!Antes que ele pu<strong>de</strong>sse me puxar <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta, senti o odor salgado do interior, como o vento napraia <strong>de</strong> Montauk. As pare<strong>de</strong>s internas brilhavam como madrepérola. Havia seis beliches vazi<strong>os</strong>com lençóis <strong>de</strong> seda virad<strong>os</strong> para baixo. Mas não havia indício <strong>de</strong> que alguém já tivesse dormidolá. O lugar parecia tão triste e solitário q u e f i q u e i contente quando Quíron pôs a mão no meuombro.- Vam<strong>os</strong>, Percy.A maioria d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong> chalés estava abarrotada <strong>de</strong> campistas.O numero 5 era vermelho vivo - uma pintura muito malfeita, como se a cor tivesse sido jogadaa esmo com bal<strong>de</strong>s e mã<strong>os</strong>. O telhado era forrado <strong>de</strong> arame farpado. Uma cabeça <strong>de</strong> javaliempalhada estava pendurada acima da porta e seus olh<strong>os</strong> pareciam me seguir. Dentro pu<strong>de</strong> ver umbando <strong>de</strong> menin<strong>os</strong> e meninas mal-e n c a r a d <strong>os</strong> , disputando queda-<strong>de</strong>-braço e discutindoenquanto o rock tocava às alturas. A mais barulhenta era uma menina <strong>de</strong> talvez treze ou quatorezean<strong>os</strong>. Usava uma camiseta do ACAMAPMENTO MEIO-SANGUE tamanho GGG embaixo <strong>de</strong> umcasaco camuflado. Ela mirou em mim e lançou um mald<strong>os</strong>o olhar <strong>de</strong> <strong>de</strong>sprezo. Fez lembrar NancyBobofit, só que a menina do acampamento era muito maior e <strong>de</strong> aparência mais cruel, seu cabeloera comprido, esticado e castanho, em vez <strong>de</strong> vermelho.Continuei andando, tentando ficar longe d<strong>os</strong> casc<strong>os</strong> <strong>de</strong> Quíron.- Ainda não vim<strong>os</strong> <strong>os</strong> centaur<strong>os</strong> – observei.- Não - disse Quíron chateado. - Infelizmente, meus parentes são uma gente selvagem e bárbara.Você po<strong>de</strong> encontrá-l<strong>os</strong> no mato ou em event<strong>os</strong> <strong>de</strong>sportiv<strong>os</strong> importantes. Mas não verá nenhumaqui.- Você disse que seu nome é Quíron. Você é mesmo...Ele sorriu para mim.- O Quíron das histórias? Instrutor <strong>de</strong> Hércules e tudo aquilo? Sim, Percy, eu sou.- Mas você não <strong>de</strong>via estar morto?Quíron fez uma pausa, como se a pergunta o intrigasse.- Honestamente, não sei nada sobre <strong>de</strong>via. A verda<strong>de</strong> é que eu não p<strong>os</strong>so estar morto. Entenda,há muitas eras <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses conce<strong>de</strong>ram meu <strong>de</strong>sejo. Pu<strong>de</strong> continuar o trabalho que adorava. Pu<strong>de</strong> serum mestre <strong>de</strong> heróis enquanto a humanida<strong>de</strong> precisasse <strong>de</strong> mim. Ganhei muito com aquele<strong>de</strong>sejo... e renunciei a muito.Mais ainda estou aqui, portanto só p<strong>os</strong>so presumir que ainda sou necessário.Pensei sobre ser um professor <strong>de</strong> três mil an<strong>os</strong>. Isso não estaria na minha lista das Dez CoisasMais Desejadas.- Isso nunca fica chato?- Não, não - disse ele. - Horrivelmente <strong>de</strong>primente às vezes, mas nunca chato.- Por que <strong>de</strong>primente?Quíron pareceu ficar com alguma <strong>de</strong>ficiência auditiva <strong>de</strong> novo.- Ah, olhe - disse ele. - Annabeth está esperando por nós.*****A menina loira que eu conhecera na Casa Gran<strong>de</strong> estava lendo um livro na frente do últimochalé da esquerda, o número 11.


Quando n<strong>os</strong> aproximam<strong>os</strong>, ela olhou para mim com um ar crítico, como se ainda estivessepensando em como eu babava.Tentei ver o que ela estava lendo, mas não consegui distinguir o título. Achei que f<strong>os</strong>se minhadislexia em ação. Então me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> que o título não era sequer em inglês. As letras pareciamgrego para mim.Quer dizer, literalmente grego. Havia figuras <strong>de</strong> templ<strong>os</strong> e estátuas e diferentes tip<strong>os</strong> <strong>de</strong>colunas, como em um livro <strong>de</strong> arquitetura.- Annabeth - disse Quíron - eu tenho aula <strong>de</strong> arco-e-flecha para mestres ao meio-dia. Vocêcuidaria <strong>de</strong> Percy a partir daqui?- Sim, senhor.- Chalé 11 - disse Quíron para mim, fazendo um gesto em direção à porta. - Sinta-se em casa.Entre tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> chalés, o 11 era o que mais parecia um velho chalé comum <strong>de</strong> acampamento <strong>de</strong>verão, com ênfase no velho. A soleira estava <strong>de</strong>sgastada, a pintura marrom, <strong>de</strong>scascando. Acimado vão da porta havia um daqueles símbol<strong>os</strong> <strong>de</strong> médico, um bastão alado com duas serpentesenr<strong>os</strong>cadas nele. Como é mesmo que chamavam aquilo...? Um caduceu.Dentro, estava abarrotado <strong>de</strong> gente, menin<strong>os</strong> e meninas, em muito maior número que <strong>os</strong>beliches. Sac<strong>os</strong> <strong>de</strong> dormir estavam espalhad<strong>os</strong> por todo piso. Parecia um ginásio on<strong>de</strong> a CruzVermelha estabelecera um centro <strong>de</strong> refugiad<strong>os</strong>.Quíron não entrou. A porta era muito baixa para ele. Mas quando <strong>os</strong> campistas o viram, tod<strong>os</strong> sepuseram em pé e fizeram uma reverência respeit<strong>os</strong>a.- Então tudo bem - disse Quíron. - Boa sorte, Percy. Vejo você no jantar.Ele partiu a galope ruma à linha <strong>de</strong> arco-e-flecha.Fiquei em pé no vão da porta, olhando para a garotada. Não estavam mais se curvando.Olhavam para mim, medindo-me com <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>. Conheço essa rotina. Havia passado por ela emmuitas escolas.- Tudo bem? - instigou Annabeth. - Vá em frente.Então, naturalmente, tropecei ao passar pela porta e fiz um completo papel <strong>de</strong> bobo. Houvealgumas risadinhas d<strong>os</strong> campistas, mas nenhum <strong>de</strong>les disse nada.Annabeth anunciou:- Percy Jackson, apresento-lhe o chalé 11.- Normal ou in<strong>de</strong>terminado? - perguntou alguém.Eu não sabia o que dizer, mas Annabeth disse: - In<strong>de</strong>terminado.Tod<strong>os</strong> gemeram.Um cara que era um pouco mais velho que o restante chegou para frente.- Vam<strong>os</strong>, vam<strong>os</strong>, campistas. É para isso que estam<strong>os</strong> aqui. Bem-vindo, Percy. Você po<strong>de</strong> ficarcom aquele ponto no chão logo ali.O cara tinha cerca <strong>de</strong> <strong>de</strong>zenove an<strong>os</strong> e parecia muito legal. Era alto e muscul<strong>os</strong>o, com cabelocom cor <strong>de</strong> areia aparado curto e um sorriso amigável. Usava uma camiseta regata laranja, calçascortadas, sandálias e um colar <strong>de</strong> couro com cinco contas <strong>de</strong> argila em cores diferentes. A únicacoisa perturbadora na sua aparência era uma gr<strong>os</strong>sa cicatriz branca que corria <strong>de</strong>s<strong>de</strong> logo abaixodo olho direito até o queixo, como um antigo corte <strong>de</strong> faca.- Este é Luke - disse Annabeth, e sua voz pareceu mudar um pouco. Dei uma olhada nela epo<strong>de</strong>ria ter jurado que estava ficando vermelha. Ela me viu olhando e sua expressão endureceu <strong>de</strong>novo. - Ele é seu conselheiro por enquanto.- Por enquanto? - perguntei.


- Você é in<strong>de</strong>terminado - explicou Luke pacientemente. - Eles não sabem em que chaléacomodá-lo, então você está aqui. O chalé 11 recebe tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> recém-chegad<strong>os</strong>, tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> visitantes.Naturalmente Hermes, n<strong>os</strong>so patrono, é o <strong>de</strong>us d<strong>os</strong> viajantes.Olhei para o minúsculo espaço <strong>de</strong> chão que eles me <strong>de</strong>ram. Eu não tinha nada para pôr ali emarcá-lo como meu, nenhuma bagagem, nenhuma roupa, nenhum saco <strong>de</strong> dormir. Apenas o chifredo Minotauro.Pensei em colocá-lo ali, mas então lembrei que Hermes era também o <strong>de</strong>us d<strong>os</strong> ladrões.Corri <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> pel<strong>os</strong> r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> d<strong>os</strong> campistas, alguns mal-humorad<strong>os</strong> e <strong>de</strong>sconfiad<strong>os</strong>, outr<strong>os</strong> comum sorriso idiota, alguns me olhando como se esperassem uma oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> limpar <strong>os</strong> meusbols<strong>os</strong>.- Quanto tempo vou ficar aqui? - perguntei.- Boa pergunta - disse Luke. - Até você ser <strong>de</strong>terminado.- Quanto tempo isso vai levar?Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> campistas riram.- Venha - disse Annabeth. - Vou lhe m<strong>os</strong>trar o pátio <strong>de</strong> vôlei.- Eu já vi.- Venha.Ela agarrou meu pulso e me arrastou para fora. Pu<strong>de</strong> ouvir o pessoal do chalé dando risadasatrás <strong>de</strong> mim.*****Quando estávam<strong>os</strong> a pouc<strong>os</strong> metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> distancia, Annabeth disse: - Jackson, voce precisa fazermelhor do que isso.- O quê?Ela revirou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e murmurou baixinho: - Não p<strong>os</strong>so acreditar que achei que voce f<strong>os</strong>se ocara.- Qual é o seu problema? - Eu agora estava ficando zangado. - Tudo o que sei é que matei umsujeito-touro...- Não fale assim! - disse Annabeth. - Você sabe quant<strong>os</strong> neste acampamento g<strong>os</strong>tariam <strong>de</strong> tertido a sua chance?- De ser mort<strong>os</strong>?- De enfrentar o Minotauro! Para que voce acha que nós som<strong>os</strong> treinad<strong>os</strong>?Eu sacudi a cabeça.- Olhe, se a coisa contra a qual eu lutei era realmente o Minotauro, o mesmo das histórias...- Sim.- Então só existe um.- Sim.- E ele morreu, tipo um zilhão <strong>de</strong> an<strong>os</strong> atrás, certo? Teseu o matou no labirinto. Portanto...- Monstr<strong>os</strong> não morrem, Percy. Eles po<strong>de</strong>m ser mort<strong>os</strong>. Mas eles não morrem.- Ah, obrigado. Agora entendi tudo.- Eles não têm alma, como voce e eu. Você po<strong>de</strong> bani-l<strong>os</strong> por algum tempo, talvez até por todouma vida, se tiver sorte. Mas eles são forças primitivas. Quíron <strong>os</strong> chama <strong>de</strong> arquétip<strong>os</strong>. No fim,eles se reconstituem.Pensei na sra. Dodds.- Você quer dizer que se eu matei um, aci<strong>de</strong>ntalmente, com uma espada....- A Fúr... Quer dizer, a sua professora <strong>de</strong> matemática. Está certo. Ela ainda está lá fora. Você


apenas a <strong>de</strong>ixou muito, muito zangada.- Como você sabe da sra. Dodds?- Você fala dormindo.- Você quase a chamou <strong>de</strong> alguma coisa. Uma Fúria? Elas são torturadoras <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s, certo?Annabeth olhou nerv<strong>os</strong>amente para o chão, como se esperasse que ele se abrisse e a engolisse.- Você não <strong>de</strong>ve chamá-las pelo nome, mesmo aqui. Se acabam<strong>os</strong> tendo <strong>de</strong> falar nelas, nós asacham<strong>os</strong> <strong>de</strong> as Bene<strong>vol</strong>entes.- Puxa, existe alguma coisa que se p<strong>os</strong>sa dizer sem que haja trovões? - Eu soie reclamão, atépara mim mesmo, mas naquele momento não me importei. - Por que tenho <strong>de</strong> ficar no chalé 11,afinal? Por que fica todo mundo amontoado? Há uma porção <strong>de</strong> beliches vazi<strong>os</strong> logo ali.Apontei para <strong>os</strong> primeir<strong>os</strong> chalés e Annabeth empali<strong>de</strong>ceu.- A gente não escolhe simplesmente um chalé, Percy. Depen<strong>de</strong> <strong>de</strong> quem são seus progenitores.Ou... o seu progenitor.Ela olhou fixamente para mim, esperando que eu enten<strong>de</strong>sse.- Minha mãe é Sally Jackson - disse eu. - Trabalha na doceria da Gran<strong>de</strong> Estação Central. Pelomen<strong>os</strong> trabalhava.- Sinto muito pela sua mãe, Percy. Mas não é isso que eu quis dizer. Estou falando sobre seuoutro progenitor. Seu pai.- Ele está morto. Não cheguei a conhecê-lo.Annabeth suspirou. Era claro que já tivera aquela conversa com outras crianças: - Seu pai nãoestá morto, Percy.- Como po<strong>de</strong> dizer isso? Você o conhece?- Não, é claro que não.- Então como você po<strong>de</strong> dizer...- Porque eu conheço você. Você não estaria aqui se não f<strong>os</strong>se um <strong>de</strong> nós.- Você não sabe nada a meu respeito.- Não? - Ela ergueu uma sombrancelha. - Ap<strong>os</strong>to que você ficou passando <strong>de</strong> escola em escola.Ap<strong>os</strong>to que foi expulso <strong>de</strong> uma porção <strong>de</strong>las.- Como...- Teve diagnóstico <strong>de</strong> dislexia. Provavelmente transtorno do déficit <strong>de</strong> atenção também.Tentei engolir meu constragimento.- O que isso tem a ver?- Tudo junto, é quase um sinal certo. As letras flutuam para fora da página quando você lê,certo? Isso é porque a sua mente está fisicamente programada para o grego antigo. E o transtornodo déficit <strong>de</strong> atenção... você é impulsivo, não consegue ficar quieto na classe. Isso são <strong>os</strong> seusreflex<strong>os</strong> <strong>de</strong> campo <strong>de</strong> batalha. Numa luta real, eles o manterão vivo. Quanto a<strong>os</strong> problemas <strong>de</strong>atenção, isso é porque enxerga <strong>de</strong>mais, Percy, e não <strong>de</strong> men<strong>os</strong>. Seus sentid<strong>os</strong> são maisaprimorad<strong>os</strong> que <strong>os</strong> <strong>de</strong> um mortal comum. Éclaro que <strong>os</strong> professores querem que você seja medicado. Eles são em maioria monstr<strong>os</strong>. Nãoquerem que você <strong>os</strong> veja como são.- Você parece... você passou pelas mesmas coisas?- A maioria das crianças daqui passou. Se você não f<strong>os</strong>se um <strong>de</strong> nós, não po<strong>de</strong>ria ter sobrevividoao Minotauro, e muito men<strong>os</strong> à ambr<strong>os</strong>ia e ao néctar.- Ambr<strong>os</strong>ia e néctar.- A comida e a bebida que estávam<strong>os</strong> dando a você para curá-lo. Aquilo teria matado um garoto


normal.Teria transformado seu sangue em fogo e seus <strong>os</strong>s<strong>os</strong> em areia e você estaria morto. Encare <strong>os</strong>fat<strong>os</strong>.Você é um meio-sangue.Um meio-sangue.Minha cabeça estava girando com tantas perguntas que eu não sabia por on<strong>de</strong> começar.- Ora, ora! Um novato!Eu <strong>de</strong>i uma olhada. A menina grandalhona do chlá feio e vermelho vinha andando lentamenteem n<strong>os</strong>sa direção. Havia três outras meninas atrás <strong>de</strong>la, todas gran<strong>de</strong>s, feias e <strong>de</strong> aparenciamalvada como ela, todas usando casac<strong>os</strong> camuflad<strong>os</strong>.- Clarisse - suspirou Annabeth -, por que você não vai polir sua lança ou coisa assim?- Claro, srta. Princesa - disse a grandalhona. - Para po<strong>de</strong>r atravessar você com ela na sexta-feiraà noite.- Erre es korakas! - disse Annabeth, o que eu <strong>de</strong> algum modo entendi que era ―Vá para <strong>os</strong>corv<strong>os</strong>!ǁ em grego, embora tivesse a sensação <strong>de</strong> que <strong>de</strong>via ser uma praga pior do que parecia. -Você não tem chance.- Vam<strong>os</strong> transformá-la em pó - disse Clarisse, mas seu olho se crispou. Talvez ela não tivessecerteza <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r cumprir a ameaça. Voltou-se para mim. - Quem é esse nanico?- Percy Jackson - disse Annabeth -, esta é Clarisse, filha <strong>de</strong> Ares.Eu pisquei.- Tipo... o <strong>de</strong>us da guerra?Clarisse sorriu <strong>de</strong>s<strong>de</strong>nh<strong>os</strong>a.- Você tem algum problema com isso?- Não - disse eu, recobrando minha presença <strong>de</strong> espírito. - Isso explica o mau cheiro.Clarisse r<strong>os</strong>nou.- Nós tem<strong>os</strong> uma cerimônia <strong>de</strong> iniciação para novat<strong>os</strong>, Persiana.- Percy.- Seja o que for. Venha, vou lhe m<strong>os</strong>trar.- Clarisse... - Annabeth tentou dizer.- Fique fora disso, espertinha.Annabeth pareceu ofendida, mas ficou <strong>de</strong> fora, e eu realmente não queria a ajuda <strong>de</strong>la. Eu era onovato.Tinha <strong>de</strong> construir minha própria reputação.Entreguei a Annabeth meu chifre <strong>de</strong> minotauro e me preparei para a luta, mas antes que eupercebesse Clarisse tinha me segurado pelo pescoço e me arrastava na direção <strong>de</strong> um edifício <strong>de</strong>bloc<strong>os</strong> <strong>de</strong> concreto que percebi imediatamente que era o banheiro.Eu chutava e dava murr<strong>os</strong> no ar. Já tinha estado em muitas brigas antes, mas aquela Clarissegrandalhona tinha mã<strong>os</strong> <strong>de</strong> ferro. Arrastou-me para <strong>de</strong>ntro do banheiro das meninas. Havia umafileira <strong>de</strong> vas<strong>os</strong> sanitári<strong>os</strong> <strong>de</strong> um lado e uma fileira <strong>de</strong> chuveir<strong>os</strong> do outro. Cheirava como qualquerbanheiro público, e eu estava pensando - tanto quanto podia pensar com Clarisse me arrancando <strong>os</strong>cabel<strong>os</strong> - que se aquele lugar pertencia a<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, eles <strong>de</strong>viam po<strong>de</strong>r comprar privadas melhores.As amigas <strong>de</strong> Clarisse estavam todas rindo, e eu tentava encontrar a força que usara paraenfrentar o Minotauro, mas ela simplesmente não estava lá.- Como se ele f<strong>os</strong>se d<strong>os</strong> ―Três Gran<strong>de</strong>sǁ - disse Clarisse, me empurrando em direção a um d<strong>os</strong>


vas<strong>os</strong>. -Certo. O Minotauro provavelmente caiu na risada, <strong>de</strong> tão bobo que ele parecia.As amigas abafaram o riso.Annabeth ficou no canto, observando através d<strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>.Clarisse me forçou sobre <strong>os</strong> joelh<strong>os</strong> e começou a empurrar minha cabeça para <strong>de</strong>ntro do vas<strong>os</strong>anitário, que fedia a can<strong>os</strong> enferrujad<strong>os</strong> e, bem, ao que vai para <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> vas<strong>os</strong> sanitári<strong>os</strong>. Fizesforço para manter a cabeça erguida. Estava olhando para a água imunda e pensando: eu não vouenfiar a cabeça naquilo. Não vou.Então algo aconteceu. Senti uma pressão violenta na boca do estômago. Ouvi <strong>os</strong> encanament<strong>os</strong>roncando, <strong>os</strong> can<strong>os</strong> estremeceram. A mão <strong>de</strong> Clarisse no meu cabelo afrouxou. A água pulou parafora do vaso, formando um arco por cima da minha cabeça, e em seguida me vi estatelado sobre <strong>os</strong>ladrilh<strong>os</strong> do piso do banheiro com Clarisse berrando atrás <strong>de</strong> mim.Eu me virei bem no momento em que a água explodiu para fora do vaso outra vez, atingindoClarisse bem no r<strong>os</strong>to com tanta força que a fez cair <strong>de</strong> traseiro no chão. A água continuoujorrando em cima <strong>de</strong>la como o jato <strong>de</strong> uma mangueira <strong>de</strong> incêndio, empurrando-a para trás, para<strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> um boxe <strong>de</strong> chuveiro.Ela se <strong>de</strong>bateu, esbaforida, e as amigas começaram a ir em sua direção. Mas então <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>vas<strong>os</strong> também explodiram, e mais seis jorr<strong>os</strong> <strong>de</strong> água <strong>de</strong> privada as empurravam <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta. Oschuveir<strong>os</strong> também entraram em ação e, em conjunto, tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> disp<strong>os</strong>itiv<strong>os</strong> lançaram as meninascamufladas para fora do banheiro, fazendo-as rodopiar como pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> lixo sendo removid<strong>os</strong>com jat<strong>os</strong> d’água.Assim que elas foram p<strong>os</strong>tas porta afora, sentia a pressão nas minhas entranhas se aliviar, e aágua parou <strong>de</strong> jorrar tão <strong>de</strong>pressa quanto começara.O banheiro inteiro estava inundado. Annabeth não tinha sido poupada. Estava toda molhada epingando, mas não fora empurrada para fora. Estava <strong>de</strong> pé exatamente no mesmo lugar meolhando em estado <strong>de</strong> choque.Olhei para baixo e me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> que estava sentado no único ponto seco em todo o recinto.Havia um círculo <strong>de</strong> piso seco em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> mim. Não havia nem uma gota d’água nas minhasroupas. Nada.Levantei com as pernas trêmulas.Annabeth disse:- Como você...- Eu não sei.Caminham<strong>os</strong> até a porta. Do lado <strong>de</strong> fora, Clarisse e as amigas estavam pr<strong>os</strong>tadas na lama e umbando <strong>de</strong> outr<strong>os</strong> campistas se reunira em <strong>vol</strong>ta para olhar, perplex<strong>os</strong>. O cabelo <strong>de</strong> Clarisse estavacolado no r<strong>os</strong>to. O casaco camuflado estava encharcado e ela cheirava a esgoto. Ela me lançou umolhar <strong>de</strong> ódio absoluto.- Você está morto, novato. Está totalmente morto.Talvez eu <strong>de</strong>vesse ter <strong>de</strong>ixado pra lá, mas disse: - Quer gargarejar com água da privada <strong>de</strong> novo,Clarisse? Cale essa boca.As amigas tiveram <strong>de</strong> segurá-la. Arrastaram-na para o chalé 5, enquanto <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> campistasabriam caminho para evitar seus membr<strong>os</strong> que esperneavam.Annabeth olhou para mim. Eu nã<strong>os</strong> abia dizer se ela estava apenas enjoada ou zangada comigopor encharcá-la.


- O que foi? - perguntei. - O que está pensando?- Estou pensando - disse ela - que quero você no meu time para capturar a ban<strong>de</strong>ira.SETE – Meu jantar se esvai em fumaça.A notícia do inci<strong>de</strong>nte no banheiro se espalhou na mesma hora. Aon<strong>de</strong> quer que eu f<strong>os</strong>se, <strong>os</strong>campistas apontavam para mim e murmuravam algo sobre água <strong>de</strong> vaso sanitário. Ou talvezapenas olhassem para Annabeth, que ainda estava bastante encharcada.Ela me m<strong>os</strong>trou mais alguns lugares: a oficina <strong>de</strong> metais (on<strong>de</strong> as crianças forjavam as própriasespadas), a sala <strong>de</strong> artes e ofíci<strong>os</strong> (on<strong>de</strong> <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong> jateavam com areia uma estátua gigante <strong>de</strong> umhome-bo<strong>de</strong>) e a pare<strong>de</strong> para escalada, que na verda<strong>de</strong> consistia em duas pare<strong>de</strong>s que se sacudiamviolentamente, <strong>de</strong>ixavam cair rochas, espalhavam lava e colidiam uma com a outra se a gente nãochegasse ao topo bem <strong>de</strong>pressa.Finalmente retornam<strong>os</strong> ao lado <strong>de</strong> canoagem, <strong>de</strong> on<strong>de</strong> a trilha levava <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta a<strong>os</strong> chalés.- Tenho treinamento - disse Annabeth secamente. - O jantar é às sete e meia. Você só tem <strong>de</strong>seguir o pessoal do chalé até o refeitório.- Annabeth, <strong>de</strong>sculpe pel<strong>os</strong> sanitári<strong>os</strong>.- Não importa.- Não foi minha culpa.Ela me olhou com ar cético e me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> que tinha sido minha culpa. Eu havia feito a águajorrar no banheiro. Não entendia como. Mas <strong>os</strong> vas<strong>os</strong> tinham respondido a mim. Era como se euf<strong>os</strong>se um d<strong>os</strong> can<strong>os</strong>.- Você precisa falar com o Oráculo - disse Annabeth.- Quem?- Não quem. O quê. O Oráculo. Vou pedir a Quíron.Olhei para o lago, <strong>de</strong>sejando que alguém me <strong>de</strong>sse uma resp<strong>os</strong>ta direta pelo men<strong>os</strong> uma vez.


Eu não esperava que alguém estivesse olhando <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para mim do fundo, portanto meucoração <strong>de</strong>u um pulo quando notei duas meninas adolescente sentadas <strong>de</strong> pernas cruzadas na basedo píer, cerca <strong>de</strong> seis metr<strong>os</strong> abaixo. Vestiam jeans e camisetas ver<strong>de</strong>s cintilantes, e <strong>os</strong> cabel<strong>os</strong>castanh<strong>os</strong> flutuavam solt<strong>os</strong> em <strong>vol</strong>ta d<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong> enquanto peixinh<strong>os</strong> passavam por entre eles. Elassorriram e acenaram como se eu f<strong>os</strong>se um amigo há muito perdido.Eu não sabia que outra coisa fazer. Acenei <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.- Não as encoraje - advertiu Annabeth. - As náia<strong>de</strong>s são flertadoras incontroláveis.- Náia<strong>de</strong>s - repeti, sentindo-me completamente estupefado. - Já chega. Quero ir para casa agora.Annabeth franziu as sobrancelhas.- Você não percebe, Percy? Você está em casa. Este é o único lugar na terra seguro paracrianças como nós.- Você quer dizer crianças mentalmente perturbadas?- Eu quero dizer não-humanas. Não totalmente humanas, <strong>de</strong> qualquer modo. Meio humanas.- Meio humanas e meio o quê?- Acho que você sabe.Eu não queria admitir, mas sabia, sim. Senti um formigamento n<strong>os</strong> membr<strong>os</strong>, uma sensação queàs vezes me tomava quando minha mãe falava sobre meu pai.- Deusas - disse eu. - Meio <strong>de</strong>usas.Annabeth assentiu.- Seu pai não está morto, Percy. Ele é um d<strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong>.- Isso é... loucura.- Será? Qual é a coisa mais comum que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses faziam nas velhas histórias? Eles andavampor aí se apaixonando por seres human<strong>os</strong> e tendo filh<strong>os</strong> com eles. Você pensa que eles mudaram<strong>os</strong> hábit<strong>os</strong> n<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> pouc<strong>os</strong> milêni<strong>os</strong>?- Mas isso são apenas... - Eu quase disse mit<strong>os</strong> <strong>de</strong> novo. Então me lembrei do aviso <strong>de</strong> Quíron <strong>de</strong>que daqui a dois mil an<strong>os</strong> eu po<strong>de</strong>ria ser consi<strong>de</strong>rado um mito. - Mas se tod<strong>os</strong> aqui são meio<strong>de</strong>uses...- Semi<strong>de</strong>uses - disse Annabeth. - Esse é o termo oficial. Ou meio-sangues.- Então quem é seu pai?As mã<strong>os</strong> <strong>de</strong>la se apertaram em <strong>vol</strong>ta da balaustrada do píer. Tive a sensação <strong>de</strong> que acabara <strong>de</strong>tocar em um assunto <strong>de</strong>licado.- Meu pai é um professor em West Point - disse ela. - Não vejo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que era muito pequena.Ele ensina História Americana.- Ele é humano.- O quê? Está pensando que tem <strong>de</strong> ser um <strong>de</strong>us homem encontrando uma mulher humanaatraente, e não o contrário? Sabe que isso é machismo?- Então quem é sua mãe?- Chalé 6.- O que significa?Annabeth endireitou o corpo.- Atena. Deusa da sabedoria e da guerra.Certo, pensei. Por que não?- E meu pai?- In<strong>de</strong>terminado - disse Annabeth, como eu lhe disse antes. Ninguém sabe.


- A não ser a minha mãe. Ela sabia.- Talvez não, Percy. Os <strong>de</strong>uses nem sempre revelam sua i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>.- Meu pai teria revelado. Ele a amava.Annabeth me <strong>de</strong>u uma olhada cautel<strong>os</strong>a. Ela não queria acabar com as minhas ilusões.- Talvez você esteja certo. Talvez ele vá enviar um sinal. Esse é o único modo <strong>de</strong> saber comcerteza: seu pai tem <strong>de</strong> mandar a você um sinal reclamando você como filho. Às vezes issoacontece.- Quer dizer que às vezes não acontece?Annabeth correu a palma da mão pela balaustrada.- Os <strong>de</strong>uses são atarefad<strong>os</strong>. Eles têm uma porção <strong>de</strong> filh<strong>os</strong>, e nem sempre... Bem, às vezes elesnão se importam con<strong>os</strong>co, Percy. Eles n<strong>os</strong> ignoram.Pensei em algumas das crianças que tinha visto no chalé <strong>de</strong> Hermes, adolescentes que pareciammal-humorad<strong>os</strong> e <strong>de</strong>primid<strong>os</strong>, como se estivessem esperando por um chamado que nunca viria.Conhecera crianças assim na Aca<strong>de</strong>mia Yancy, <strong>de</strong>scartadas para internat<strong>os</strong> por pais ric<strong>os</strong> que nãotinham tempo para lidar com elas. Mas <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses <strong>de</strong>viam se comportar melhor.- Então eu estou encalhado aqui - disse eu. - É isso? Pelo resto da minha vida?- Depen<strong>de</strong> - disse Annabeth. - Alguns campistas só ficam no verão. Se você é filho <strong>de</strong> Afroditeou Demetra, provavelmente não é uma força realmente po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a. Os monstr<strong>os</strong> po<strong>de</strong>m ignorá-lo, eentão você po<strong>de</strong> se arranjar com alguns meses <strong>de</strong> treinamento <strong>de</strong> verão e viver no mundo mortalpelo resto do ano. Mas, para alguns <strong>de</strong> nós, sair é perig<strong>os</strong>o <strong>de</strong>mais. Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> ficar o ano inteiro.No mundo mortal, atraím<strong>os</strong> monstr<strong>os</strong>. Eles percebem n<strong>os</strong>sa presença. Vêm n<strong>os</strong> <strong>de</strong>safiar. Namaioria das vezes eles n<strong>os</strong> ignoram ate term<strong>os</strong> ida<strong>de</strong> suficiente para causar problemas - cerca <strong>de</strong><strong>de</strong>z ou onze an<strong>os</strong>, mas <strong>de</strong>pois disso muit<strong>os</strong> d<strong>os</strong> semi<strong>de</strong>uses vêem para cá ou são mort<strong>os</strong>. Algunsconseguem sobreviver no mundo exterior e se tornam fam<strong>os</strong><strong>os</strong>. Acredite, se eu lhe contasse <strong>os</strong>nomes você <strong>os</strong> conheceria. Alguns nem sequer se dão conta <strong>de</strong> que são semi<strong>de</strong>uses. Mas pouc<strong>os</strong>,muito pouc<strong>os</strong> são assim.- Então <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> não po<strong>de</strong>m entrar aqui?Annabeth sacudiu a cabeça.- Não, a não ser que sejam intencionalmente mantid<strong>os</strong> n<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques ou convocad<strong>os</strong> por alguém<strong>de</strong> <strong>de</strong>ntro.- Por que alguém ia querer convocar um monstro?- Para pratica <strong>de</strong> lutas. Para pregar peças.- Pregar peças?- A questão é que as fronteiras são fechadas para manter <strong>os</strong> mortais e <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> <strong>de</strong> fora. Dolado <strong>de</strong> fora, <strong>os</strong> mortais olham para o vale e não vêem nada <strong>de</strong> inusitado, apenas plantações <strong>de</strong>morang<strong>os</strong>.- Então... você é uma campista <strong>de</strong> ano inteiro?Annabeth assentiu. De <strong>de</strong>ntro da gola da camiseta ela puxou um colar <strong>de</strong> couro com cincocontas <strong>de</strong> argila <strong>de</strong> cores diferentes. Era exatamente como o <strong>de</strong> Luke, só que o <strong>de</strong> Annabethtambém tinha um gran<strong>de</strong> anel <strong>de</strong> ouro enfiado, como um anel <strong>de</strong> faculda<strong>de</strong>.- Estou aqui <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que tinha sete an<strong>os</strong> - disse ela. - Todo mês <strong>de</strong> ag<strong>os</strong>to, no último dia da sessão<strong>de</strong> verão, a gente ganha uma conta por sobreviver mais um ano. Estou aqui há mais tempo que amaioria d<strong>os</strong> conselheir<strong>os</strong>, e eles estão tod<strong>os</strong> na faculda<strong>de</strong>.- Por que veio tão jovem?


Ela girou o anel no colar.- Não é da sua conta.- Ah. - Fiquei ali por um minuto em um silêncio constrangedor. - Então... Eu po<strong>de</strong>riasimplesmente sair andando daqui agora mesmo, se quisesse?- Seria suicídio, mas você po<strong>de</strong>ria, com a permissão do sr. D ou <strong>de</strong> Quíron. Mas eles não dariampermissão até o final da sessão <strong>de</strong> verão, a não ser...- A não ser?- Que lhe seja concedida uma missão. Mas isso dificilmente acontece. Na última vez...A voz <strong>de</strong>la foi sumindo. Pu<strong>de</strong> perceber pelo seu tom <strong>de</strong> voz que a última vez não tinha idomuito bem.- Antes, quando estava doente no quarto - disse eu -, quando você dava <strong>de</strong> comer aquela coisa...- Ambr<strong>os</strong>ia.- É. Você me perguntou algo sobre o solstício <strong>de</strong> verão.Os ombr<strong>os</strong> <strong>de</strong> Annabeth se contraíram.- Então você sabe alguma coisa?- Bem... não. Na minha antiga escola, ouvi por acaso Grover e Quíron conversando sobre isso.Grover mencionou o solstício <strong>de</strong> verão. Ele disse algo como não term<strong>os</strong> muito tempo, por causado prazo final. Oque isso queria dizer?Ela apertou <strong>os</strong> punh<strong>os</strong>.- Eu g<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> saber. Quíron e <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>, eles sabem, mas não contaram para mim. Algo estáerrado no Olimpo, algo muito importante. Na última vez em que estive lá, parecia tudo tãonormal.- Você esteve no Olimpo?- Alguns <strong>de</strong> nós, campistas <strong>de</strong> ano inteiro... Luke, Clarisse, eu e pouc<strong>os</strong> outr<strong>os</strong>... fizem<strong>os</strong> umaexcursão durante o solstício <strong>de</strong> inverno. É quando <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses fazem sua gran<strong>de</strong> assembléia anual.- Mas... como chegou lá?- Pela Ferrovia <strong>de</strong> Long Island, é claro. Você <strong>de</strong>sce na Estação Penn. Empire State,seiscentésimo andar.- Ela me olhou como quem tinha certeza <strong>de</strong> que eu já sabia disso. - Você é nova-iorquino, certo?- Ah, com certeza. - Até on<strong>de</strong> eu sabia, havia apenas cento e dois andares no Empire States, mas<strong>de</strong>cidi não comentar isso.- Logo <strong>de</strong>pois da visita - continuou Annabeth -, o tempo ficou esquisito, como se <strong>os</strong> <strong>de</strong>usestivessem começado a brigar. Uma ou duas vezes <strong>de</strong>s<strong>de</strong> então, ouvi sátir<strong>os</strong> conversando. O máximoque p<strong>os</strong>so <strong>de</strong>duzir é que algo importante foi roubado. E, se não for <strong>de</strong><strong>vol</strong>vido até o solstício <strong>de</strong>verão, vai haver problemas. Quando você veio, eu estava esperando... quer dizer... Atena po<strong>de</strong> seenten<strong>de</strong>r com qualquer um, a não ser Ares. E, é claro, ela tem uma rivalida<strong>de</strong> com P<strong>os</strong>eidon. Mas,quer dizer, fora isso, pensei que po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> trabalhar junt<strong>os</strong>. Pensei que você pu<strong>de</strong>sse saberalguma coisa.Sacudi a cabeça. G<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r ajudá-la, mas estava com fome, cansado e mentalmentesobrecarregado <strong>de</strong>mais para fazer mais perguntas.- Preciso conseguir uma missão - murmurou Annabeth consigo mesma. - Eu não sou jovem<strong>de</strong>mais. Se eles ao men<strong>os</strong> me contassem qual é o problema.Senti cheiro <strong>de</strong> churrasco vindo <strong>de</strong> algum lugar por perto. Annabeth <strong>de</strong>ve ter ouvido meu


estômago roncar.Disseme para ir em frente, que me alcançaria <strong>de</strong>pois. Eu a <strong>de</strong>ixei no píer, correndo o <strong>de</strong>do pelabalaustrada como se estivesse <strong>de</strong>senhando um plano <strong>de</strong> batalha.*****De <strong>vol</strong>ta ao chalé 11, todo mundo estava falando e se divertindo, esperando o jantar. Pelaprimeira vez, notei que muit<strong>os</strong> campistas tinham feições parecidas: narizes pontud<strong>os</strong>,sobrancelhas arqueadas, sorris<strong>os</strong> malici<strong>os</strong><strong>os</strong>. Eram o tipo <strong>de</strong> criança que <strong>os</strong> professoresclassificariam como encrenqueir<strong>os</strong>. Felizmente, ninguém prestou muita atenção em mim quandofui até meu lugar no chão e me <strong>de</strong>ixei cair com o chifre <strong>de</strong> minotauro.O conselheiro, Luke, se aproximou. Ele também tinha a aparência familiar <strong>de</strong> Hermes. Estava<strong>de</strong>sfigurada pela cicatriz na face direita, mas o sorriso estava intacto.- Arranjei um saco <strong>de</strong> dormir para você - disse ele. - E, aqui, furtei para você alguns artig<strong>os</strong> <strong>de</strong>toalete da loja do acampamento.Não <strong>de</strong>u para saber se ele estava brincando quanto àquela parte <strong>de</strong> furtar.Eu disse:- Obrigado.- Sem problemas. - Luke sentou-se ao meu lado, <strong>de</strong>scansando as c<strong>os</strong>tas contra a pare<strong>de</strong>. -Primeiro dia difícil?- Meu lugar não é aqui - disse eu. - Nem mesmo acredito em <strong>de</strong>uses.- É - disse ele. - Foi assim que tod<strong>os</strong> nós começam<strong>os</strong>. E <strong>de</strong>pois que você começa a acreditarneles? Não fica nem um pouco mais fácil.A amargura em sua voz me surpreen<strong>de</strong>u, porque Luke parecia ser o tipo <strong>de</strong> cara <strong>de</strong>spreocupado.Parecia ser capaz <strong>de</strong> lidar com qualquer coisa.- Então seu pai é Hermes? - perguntei.Ele puxou um canivete <strong>de</strong> mola do bolso <strong>de</strong> trás, e por um segundo, pensei que f<strong>os</strong>se me<strong>de</strong>stripar, mas ele apenas raspou o barro da sola da sandália.- É, Hermes.- O mensageiro com asas n<strong>os</strong> pés.- É ele. Mensageir<strong>os</strong>. Medicina. Viajantes, mercadores, ladrões. Qualquer um que use asestradas. É por isso que você está aqui, <strong>de</strong>sfrutando a h<strong>os</strong>pitalida<strong>de</strong> do chalé 11. Hermes não éexigente com relação a quem apadrinha.Entendi que Luke não queria me chamar <strong>de</strong> joão-ninguém. Apenas tinha muita coisa na cabeça.- Você já encontrou seu pai? - perguntei.- Uma vez.Esperei, pensando que, se ele quisesse me contar, contaria. Aparentemente não. Imaginei se ahistoria tinha alguma coisa a ver com como ele conseguira aquela cicatriz.Luke ergueu <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e conseguiu sorrir.- Não se preocupe com isso, Percy. A maioria d<strong>os</strong> campistas aqui é boa gente. Afinal, som<strong>os</strong>uma gran<strong>de</strong> família, certo? Cuidam<strong>os</strong> um do outro.Ele parecia enten<strong>de</strong>r o quanto me sentia perdido e eu estava grato por isso, porque um cara maisvelho como ele - mesmo sendo um conselheiro - <strong>de</strong>via estar evitando um secundarista chato comoeu. Mas Luke me <strong>de</strong>ra as boas-vindas ao chalé. Até mesmo furtara alguns artig<strong>os</strong> <strong>de</strong> toalete, o queera a coisa mais simpática que alguém fizera por mim o dia inteiro.Decidi fazer a minha última gran<strong>de</strong> pergunta, aquela que vinha me incomodando a tar<strong>de</strong> toda.- Clarisse, <strong>de</strong> Ares, <strong>de</strong>bochou sobre eu ser um d<strong>os</strong> ―Três Gran<strong>de</strong>sǁ. Depois, Annabeth... ela


falou duas vezes que eu po<strong>de</strong>ria ser ―o caraǁ. Disse que <strong>de</strong>vo falar com o Oráculo. O que querdizer isso tudo?Luke fechou o canivete.- O<strong>de</strong>io profecias.- O que quer dizer?Seu r<strong>os</strong>to <strong>de</strong>u uma estremecida em <strong>vol</strong>ta da cicatriz.- Digam<strong>os</strong> apenas que eu compliquei as coisas para tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>. N<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> dois an<strong>os</strong>,<strong>de</strong>s<strong>de</strong> quando me <strong>de</strong>i mal em minha viagem ao Jardim das Hespéri<strong>de</strong>s, Quíron não autorizou maisnenhuma missão. Annabeth está morrendo <strong>de</strong> vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> sair para o mundo. Ela importunou tantoQuíron que ele finalmente disse que já conhecia o seu <strong>de</strong>stino. Recebera uma profecia do Oráculo.Não quis contar tudo a ela, mas disse que Annabeth ainda não estava <strong>de</strong>stinada a sair numamissão. Tinha <strong>de</strong> esperar até...alguém especial vir para o acampamento.- Alguém especial?- Não se preocupe com isso garoto - disse Luke. - Annabeth quer pensar que todo campista novoque chega aqui é o presságio que ela está esperando. Agora vam<strong>os</strong>, é hora do jantar.No momento em que ele disse isso, uma trombeta soou a distancia. De algum modo eu sabiaque era feita com uma concha <strong>de</strong> caramujo, apesar <strong>de</strong> nunca ter ouvido uma antes.Luke gritou:- Onze, reunir!O chalé inteiro, cerca <strong>de</strong> vinte <strong>de</strong> nós, formou uma fila no pátio. Enfileiramo-n<strong>os</strong> por or<strong>de</strong>m <strong>de</strong>antigüida<strong>de</strong>, portanto é claro que eu era o último. Vieram campistas também <strong>de</strong> outr<strong>os</strong> chalés,com exceção d<strong>os</strong> três vazi<strong>os</strong> no fim e do chalé 8, que parecia normal durante o dia mas agoracomeçava a ter um brilho prateado à medida que o sol se punha.Marcham<strong>os</strong> colina acima até o pavilhão do refeitório. Sátir<strong>os</strong> vieram da campina e juntaram-sea nós.Náia<strong>de</strong>s emergiram do lago <strong>de</strong> canoagem. Algumas outras meninas saíram d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques - equando digo d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques, quero dizer d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques mesmo. Vi uma menina <strong>de</strong> nove ou <strong>de</strong>z an<strong>os</strong>fundir-se da lateral <strong>de</strong> um bordo e vir saltitando colina acima.Ao todo, havia talvez uma centena <strong>de</strong> campista, algumas dúzias <strong>de</strong> sátir<strong>os</strong> e uma dúzia <strong>de</strong> ninfase náia<strong>de</strong>s variadas.No pavilhão, tochas ardiam em <strong>vol</strong>ta das colunas <strong>de</strong> mármore. Um fogo central queimava emum braseiro <strong>de</strong> bronze do tamanho <strong>de</strong> uma banheira. Cada chalé tinha sua própria mesa, cobertacom uma toalha branca com <strong>de</strong>talhes roxo. Quatro mesas estavam vazias, mas a do chalé 11 erasuperlotada. Tive <strong>de</strong> me espremer na ponta <strong>de</strong> um banco, com meta<strong>de</strong> do traseiro <strong>de</strong> fora.Vi Grover sentado à mesa 12, e um par <strong>de</strong> menin<strong>os</strong> loir<strong>os</strong> gorduch<strong>os</strong> bem parecid<strong>os</strong> com o sr. D.Quíron ficou em pé ao lado, pois a mesa <strong>de</strong> piquenique era muito pequena para um centauro.Annabeth sentou-se à mesa 6 com um bando <strong>de</strong> crianças atléticas <strong>de</strong> aparência séria, todas comolh<strong>os</strong> cinzent<strong>os</strong> e cabelo loiro da cor do mel.Clarisse sentou-se atrás <strong>de</strong> mim à mesa <strong>de</strong> Ares. Parecia recuperada do banho, pois estava rindoe arrotando ao lado das amigas.Finalmente, Quíron bateu o casco contra o piso <strong>de</strong> mármore do pavilhão e tod<strong>os</strong> se calaram. Eleergueu um copo.- A<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses!


Tod<strong>os</strong> ergueram <strong>os</strong> cop<strong>os</strong>.- A<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses!Ninfas do b<strong>os</strong>que avançaram com ban<strong>de</strong>jas <strong>de</strong> comida: uvas, maçãs, morang<strong>os</strong>, queijo, pãofresco e, sim, churrasco! Meu copo estava vazio, mas Luke disse; - Fale com ele. Qualquer coisaque queria. Não alcoólica, é claro.- Cherry Coke - falei.O copo se encheu <strong>de</strong> líquido espumante cor <strong>de</strong> caramelo.Então tive uma idéia.- Cherry Coke azul.O refrigerante assumiu um tom berrante <strong>de</strong> cobalto.Tomei um gole cautel<strong>os</strong>o. PerfeitoFiz um brin<strong>de</strong> à minha mãe.Ela não se foi, disse a mim mesmo. De qualquer modo, não para sempre. Ela está no MundoInferior. E, se ele é um lugar real, então algum dia...- Vai, Percy - disse Luke, me passando uma travessa <strong>de</strong> peito <strong>de</strong>fumado.Enchi meu prato e estava prestes a dar uma gran<strong>de</strong> garfada quando notei que tod<strong>os</strong> selevantavam, levando <strong>os</strong> prat<strong>os</strong> para o fogo no centro do pavilhão. Imaginei se estavam indo buscara sobremesa ou coisa assim.- Venha - disseme Luke.Quando cheguei mais perto, vi que tod<strong>os</strong> estavam pegando algo do prato e jogando <strong>de</strong>ntro dofogo, o morango mais maduro, a fatia mais suculenta <strong>de</strong> carne, o pão mais quente e maisamanteigado.Luke murmurou ao meu ouvido:- Oferendas queimadas para <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Eles g<strong>os</strong>tam do cheiro.- Fala sério!O olhar <strong>de</strong>le me advertiu a não <strong>de</strong>bochar daquilo, mas não pu<strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> me perguntar por queum ser imortal, todo-po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>o, g<strong>os</strong>taria do cheiro <strong>de</strong> comida queimada.Luke aproximou-se do fogo, inclinou a cabeça e atirou um cacho <strong>de</strong> uvas gordas e vermelhas.- Hermes.Eu era o próximo.Eu g<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> saber o nome <strong>de</strong> qual <strong>de</strong>us eu <strong>de</strong>via dizer.Acabei fazendo um pedido silenci<strong>os</strong>o. Quem quer que seja, conte-me. Por favor.Empurrei uma gran<strong>de</strong> fatia <strong>de</strong> peito para as chamas.Quando inalei um pouco <strong>de</strong> fumaça, não engasguei Não parecia nem um pouco cheiro <strong>de</strong>comida queimada. Cheirava a chocolate quente e brownies recém-assad<strong>os</strong>, hambúrgueresgrelhad<strong>os</strong> e flores silvestres, e uma centena <strong>de</strong> outras coisas boas que não <strong>de</strong>viam combinar, mascombinavam. Dava até para acreditar que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses podiam viver daquela fumaça.Depois que tod<strong>os</strong> <strong>vol</strong>taram a<strong>os</strong> lugares e terminaram <strong>de</strong> comer, Quíron bateu novamente o cascopara chamar n<strong>os</strong>sa atenção.O sr. D levantou-se com um enorme suspiro.- Sim, suponho que <strong>de</strong>va dizer olá a tod<strong>os</strong> vocês, moleques. Bem, olá. N<strong>os</strong>so diretor <strong>de</strong>ativida<strong>de</strong>s, Quíron, diz que a próxima captura da ban<strong>de</strong>ira será na sexta-feira. Atualmente, o chalé5 <strong>de</strong>tém <strong>os</strong> lauréis.Um monte <strong>de</strong> aplaus<strong>os</strong> disformes se ergueu da mesa <strong>de</strong> Ares.


- Pessoalmente - continuou o sr. D -, não me importo nem um pouco, mas congratulações.Também <strong>de</strong>vo lhes dizer que tem<strong>os</strong> um novo campista hoje. Peter Johnson.Quíron murmurou alguma coisa.- Ahn, Percy Jackson - corrigiu o sr. D. - Está certo. Viva, e tudo o mais. Agora vão correndopara a sua fogueira boba. An<strong>de</strong>m.Tod<strong>os</strong> aplaudiram. Dirigimo-n<strong>os</strong> para o anfiteatro, on<strong>de</strong> o chalé <strong>de</strong> Apolo li<strong>de</strong>rou a cantoria.Cantam<strong>os</strong> canções <strong>de</strong> acampamento sobre <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, comem<strong>os</strong> besteiras e n<strong>os</strong> divertim<strong>os</strong>, e oengraçado foi que não senti ninguém mais olhando para mim. Era como estar em casa.Mais à noite, quando as fagulhas da fogueira se enr<strong>os</strong>cavam em um céu estrelado, a trombeta <strong>de</strong>caramujo soou <strong>de</strong> novo, e tod<strong>os</strong> nós formam<strong>os</strong> filas para <strong>vol</strong>tar a<strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> chalés. Não me <strong>de</strong>iconta <strong>de</strong> como estava exausto até <strong>de</strong>smoronar em meu saco <strong>de</strong> dormir emprestado.Meus <strong>de</strong>d<strong>os</strong> se fecharam em <strong>vol</strong>ta do chifre do Minotauro. Pensei em minha mãe, mas tive bonspensament<strong>os</strong>: o sorriso <strong>de</strong>la, as histórias que lia para mim antes <strong>de</strong> dormir quando eu era pequeno,o jeito como me dizia para não <strong>de</strong>ixar <strong>os</strong> percevej<strong>os</strong> mor<strong>de</strong>rem.Quando fechei <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, adormeci instantaneamente.Assim foi meu primeiro dia no Acampamento Meio-Sangue.Queria ter sabido antes que em tão pouco tempo passaria a g<strong>os</strong>tar do meu novo lar.OITO – Nós capturam<strong>os</strong> uma ban<strong>de</strong>ira.Em pouc<strong>os</strong> dias me acomo<strong>de</strong>i em uma rotina que parecia quase normal, se <strong>de</strong>scontarm<strong>os</strong> o fato<strong>de</strong> que eu tinha aulas com sátir<strong>os</strong>, ninfas e um centauro.Todas as manhãs estudava grego antigo com Annabeth e conversávam<strong>os</strong> sobre <strong>de</strong>uses e <strong>de</strong>usasno presente, o que era um pouco estranho. Descobri que Annabeth estava certa a respeito <strong>de</strong> minhadislexia: o grego antigo não era tão difícil <strong>de</strong> ler. Pelo men<strong>os</strong>, não mais difícil que inglês. Depois<strong>de</strong> algumas manhãs eu já conseguia ler sem muita dor <strong>de</strong> cabeça algumas linhas <strong>de</strong> Homero,tropeçando aqui e ali.No resto do dia eu alternava ativida<strong>de</strong>s ao ar livre, procurando alguma coisa em que f<strong>os</strong>se bom.Quíron tentou me ensinar arco-e-flecha, mas <strong>de</strong>scobrim<strong>os</strong> bem <strong>de</strong>pressa que eu não dava paraaquilo. Ele não reclamou nem mesmo quando teve <strong>de</strong> arrancar <strong>de</strong> sua cauda uma flecha perdida.Corrida? Eu também não era bom. As instrutoras, as ninfas do b<strong>os</strong>que, me faziam comer poeira.Disseram-me para não me preocupar com isso. Tiveram sécul<strong>os</strong> <strong>de</strong> práticas fugindo <strong>de</strong> <strong>de</strong>usesapaixonad<strong>os</strong>. Mas ainda assim era meio humilhante ser mais lento que uma árvore.E as lutas? Esqueça. Toda vez que ia para a esteira, Clarisse acabava comigo.―E vem mais por aí, seu Manéǁ, murmurava ao meu ouvido.A única coisa em que eu era mesmo excelente era canoagem, e essa não era o tipo <strong>de</strong> habilida<strong>de</strong><strong>de</strong> herói que as pessoas esperavam do cara que venceu o Minotauro.Sabia que <strong>os</strong> campistas mais velh<strong>os</strong> e <strong>os</strong> conselheir<strong>os</strong> me observavam, tentando concluir quemera meu pai, mas não estava sendo fácil para eles. Eu não era tão forte quanto <strong>os</strong> garot<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ares,nem tão bom em arco-e-flecha quanto <strong>os</strong> garot<strong>os</strong> <strong>de</strong> Apolo. Não tinha a perícia <strong>de</strong> Hefesto commetais ou - <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses me livrem - o jeito <strong>de</strong> Dionísio com as vinhas. Luke me disse que eu podiaser filho <strong>de</strong> Hermes, uma espécie <strong>de</strong> pau para toda obra, mestre nada. Mas eu tinha a sensação <strong>de</strong>que ele só estava tentando me fazer sentir melhor. Na verda<strong>de</strong>, também não sabia o que fazercomigo.A <strong>de</strong>speito disso tudo, eu g<strong>os</strong>tava do acampamento. Eu me ac<strong>os</strong>tumei com a neblina matinalsobre a praia, com o cheiro d<strong>os</strong> camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong> à tar<strong>de</strong> e até com <strong>os</strong> ruíd<strong>os</strong> esquisit<strong>os</strong> d<strong>os</strong>


monstr<strong>os</strong> n<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques à noite. Eu jantava com o chalé 11, empurrava parte da minha refeição parao fogo e tentava sentir alguma conexão com meu verda<strong>de</strong>iro pai. Não vinha nada. Apenas aquelasensação morna que eu sempre tive, a lembrança do seu sorriso. Tentei não pensar <strong>de</strong>mais emminha mãe, mas ficava matutando: se <strong>de</strong>uses e monstr<strong>os</strong> eram reais, se todas aquelas coisasmágicas eram p<strong>os</strong>síveis, certamente haveria algum jeito <strong>de</strong> salvá-la, <strong>de</strong> trazê-la <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta...Comecei a enten<strong>de</strong>r o ressentimento <strong>de</strong> Luke e como ele parecia magoado com o pai, Hermes.Certo, talvez <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses tivessem tarefas importantes a fazer. Mas não po<strong>de</strong>riam fazer uma visita<strong>de</strong> vez enquando, trovejar ou alguma coisa? Dionísio podia fazer Diet Coke aparecer do nada. Porque meu pai, quem quer que f<strong>os</strong>se, não podia fazer aparecer um telefone?*****Quinta-feira à tar<strong>de</strong>, três dias <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> chegar ao Acampamento Meio-Sangue, tive minhaprimeira aula <strong>de</strong> esgrima. Tod<strong>os</strong> do chalé 11 se reuniram na gran<strong>de</strong> arena circular, on<strong>de</strong> Luke serian<strong>os</strong>so instrutor.Começam<strong>os</strong> com estocadas e cutiladas básicas, usando bonec<strong>os</strong> rechead<strong>os</strong> <strong>de</strong> palha comarmaduras gregas. Acho que fui bem. Pelo men<strong>os</strong> entendi o que <strong>de</strong>via fazer e meus reflex<strong>os</strong> forambons.O problema era que eu não conseguia encontrar uma lâmina que se adaptasse às minhas mã<strong>os</strong>.Eram pesadas <strong>de</strong>mais, leves <strong>de</strong>mais ou compridas <strong>de</strong>mais. Luke fez o melhor que pô<strong>de</strong> para meajudar, mas concordou que nenhuma das lâminas <strong>de</strong> prática parecia funcionar para mim.Passam<strong>os</strong> adiante, para duelo em duplas. Luke anunciou que seria meu parceiro, já que era aminha primeira vez.- Boa sorte - disse um d<strong>os</strong> campistas. - Luke é o melhor espadachim d<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> trezent<strong>os</strong> an<strong>os</strong>.- Talvez ele pegue leve comigo - comentei.O campista riu, <strong>de</strong>s<strong>de</strong>nh<strong>os</strong>o.Luke me m<strong>os</strong>trou as estocadas, paradas e <strong>de</strong>fesas com escudo do jeito difícil. A cada golpe euestava um pouco mais surrado e contundido.- Mantenha a guarda alta, Percy - dizia ele, e então me atingia com força nas c<strong>os</strong>telas usando aparte chata da lâmina. - Não, não tanto assim! - Plaft! - Ataque! - Plaft! - Agora, recue! - Plaft!Quando ele pediu um tempo, eu estava empapado <strong>de</strong> suor. Tod<strong>os</strong> correram para o isopor <strong>de</strong>bebidas.Luke <strong>de</strong>spejou água gelada em cima da própria cabeça, o que me pareceu uma ótima idéia. Fiz amesma coisa.Na mesma hora me senti melhor. A força percorreu novamente <strong>os</strong> meus braç<strong>os</strong>. A espada nãoparecia mais tão difícil <strong>de</strong> manejar.- O.k., todo mundo em circulo! - or<strong>de</strong>nou Luke. - Se Percy não se importar, vou fazer umapequena <strong>de</strong>monstração.Incrível, pensei. Vam<strong>os</strong> tod<strong>os</strong> assistir enquanto Percy é triturado.Os garot<strong>os</strong> <strong>de</strong> Hermes se reuniram em <strong>vol</strong>ta. Estavam tod<strong>os</strong> contendo o riso. Imaginei que játinham passado por aquilo e mal podiam esperar para ver Luke me usar como saco <strong>de</strong> pancadas.Ele disse a tod<strong>os</strong> que ia m<strong>os</strong>trar uma técnica para <strong>de</strong>sarmar o oponente: como girar a lâmina doinimigo com a parte chata da própria espada para que ele não tenha alternativa a não ser <strong>de</strong>ixar aarma cair.- Isso é difícil - enfatizou. - Já usaram contra mim. Não riam <strong>de</strong> Percy agora. A maioria d<strong>os</strong>espadachins precisa trabalhar an<strong>os</strong> para dominar essa técnica.


Ele <strong>de</strong>monstrou o movimento para mim em câmera lenta. Como previsto, a espada pulou daminha mão.- Agora, em tempo real - disse ele <strong>de</strong>pois que recuperei minha arma. - Vam<strong>os</strong> fazer omovimento até que um <strong>de</strong> nós tenha sucesso. Pronto, Percy?Eu assenti, e Luke veio para cima <strong>de</strong> mim. De algum modo, eu o impedi <strong>de</strong> golpear o cabo daminha espada. Meus sentid<strong>os</strong> se aguçaram. Vi seus ataques chegando. Eu rebati. Dei um passo àfrente e tentei minha própria estocada. Luke a revidou facilmente, mas notei uma mudança em seur<strong>os</strong>to. Seus olh<strong>os</strong> se estreitaram, e ele começou a me pressionar com mais força.A espada estava pesando em minha mão. Mas equilibrada. Eu sabia que era apenas uma questão<strong>de</strong> segund<strong>os</strong> antes que Luke me <strong>de</strong>rrubasse, então <strong>de</strong>cidi: Que se dane!Tentei a manobra para <strong>de</strong>sarmar.Minha lâmina atingiu a base da <strong>de</strong> Luke e eu a girei, pondo todo o meu peso em um golpe parabaixo.Plem!A espada <strong>de</strong> Luke retiniu contra as pare<strong>de</strong>s. A ponta da minha lâmina estava a dois centímetr<strong>os</strong>do seu peito <strong>de</strong>sprotegido.Os outr<strong>os</strong> campistas ficaram em silencio.Baixei a minha espada.- Ahn, sinto muito.Por um momento, Luke ficou perplexo <strong>de</strong>mais para falar.- Sinto muito? - Seu r<strong>os</strong>to marcado abriu-se num sorriso. - Pel<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, Percy, você sentemuito?M<strong>os</strong>tre-me aquilo <strong>de</strong> novo!Eu não queria. A rápida expl<strong>os</strong>ão <strong>de</strong> energia maníaca me abandonara completamente. Mas Lukeinsistiu.Dessa vez, não houve disputa. No momento em que n<strong>os</strong>sas espadas entraram em contato, Lukeatingiu o cabo da minha, que saiu <strong>de</strong>slizando pelo chão.Depois <strong>de</strong> uma longa pausa, alguém do público disse: - Sorte <strong>de</strong> principiante?Luke enxugou o suor da testa. Ele me avaliou com um interesse totalmente novo.- Talvez - disse. - Mas fico pensando o que Percy po<strong>de</strong>ria fazer com uma espada equilibrada...*****Sexta-feira à tar<strong>de</strong>. Eu estava sentado com Grover perto do lago, <strong>de</strong>scansando <strong>de</strong> umaexperiência quase fatal no muro <strong>de</strong> escalada. Grover subira até o topo como um bo<strong>de</strong> montanhês,mas a lava por pouco não me atingiu. Minha camisa ficou com burac<strong>os</strong> fumegantes. Os pêl<strong>os</strong> d<strong>os</strong>meus antebraç<strong>os</strong> ficaram chamuscad<strong>os</strong>.Sentam<strong>os</strong> no píer, olhando as náia<strong>de</strong>s que teciam cest<strong>os</strong> embaixo d’água, até que reuni coragempara pergunta a Grover como tinha sido a conversa com o sr. D.Seu r<strong>os</strong>to assumiu um tom doentio <strong>de</strong> amarelo.- Ótima - disse. - Legal mesmo.- Então sua carreira ainda está n<strong>os</strong> trilh<strong>os</strong>?Ele me lançou um olhar nerv<strong>os</strong>o.- Quíron c-contou a você que eu quero uma licença <strong>de</strong> buscador?- Bem... não. - Eu não tinha idéia do que era uma licença <strong>de</strong> pesquisador, mas aquele nãoparecia ser o momento certo para perguntar. - Ele só me disse que você tinha gran<strong>de</strong>s plan<strong>os</strong>,


sabe... e que precisava <strong>de</strong> reconhecimento por completar uma tarefa. Então você conseguiu?Grover baixou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para as náia<strong>de</strong>s.- O sr. D suspen<strong>de</strong>u o julgamento. Disse que ainda não fracassei nem tive sucesso com você,portanto n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> <strong>de</strong>stin<strong>os</strong> ainda estão ligad<strong>os</strong>. Se você ganhar uma missão, eu for junto paraprotegê-lo e nós dois <strong>vol</strong>tarm<strong>os</strong> viv<strong>os</strong>, então talvez ele consi<strong>de</strong>re a tarefa concluída.Meu ânimo melhorou.- Bem, isso não é mau, certo?- Bééé-é-é! Ele po<strong>de</strong>ria igualmente ter me transferido para o serviço <strong>de</strong> limpeza <strong>de</strong> estábul<strong>os</strong>.As chances <strong>de</strong> você ganhar uma missão... e mesmo se ganhasse, por que haveria <strong>de</strong> querer que euf<strong>os</strong>se junto?- É claro que eu ia querer você junto!Grover continuou olhando melancolicamente para a água.- Tecer cestas... Deve ser bom ter uma habilida<strong>de</strong> útil.Tentei convencê-lo <strong>de</strong> que ele tinha uma porção <strong>de</strong> talent<strong>os</strong>, mas isso só o fez parecer aindamais infeliz.Conversam<strong>os</strong> sobre canoagem e esgrima por algum tempo, e então <strong>de</strong>batem<strong>os</strong> <strong>os</strong> prós e <strong>os</strong>contras d<strong>os</strong> diferentes <strong>de</strong>uses. Por fim, perguntei-lhe sobre <strong>os</strong> quatro chalés vazi<strong>os</strong>.- O número 8, o prateado, pertence a Ártemis - disse ele. - Ela jurou ser virgem para sempre.Portanto, é claro, sem filh<strong>os</strong>. O chalé é honorário, enten<strong>de</strong>? Se ela não tivesse um ficaria zangada.- Sim, certo. Mas <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> três, <strong>os</strong> que ficam no fim. São <strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s?Grover ficou tenso. Estávam<strong>os</strong> chegando perto <strong>de</strong> um assunto <strong>de</strong>licado.- Não. Um <strong>de</strong>les, o <strong>de</strong> número 2, é <strong>de</strong> Hera - disse ele. - É outra coisa honorária. Ela é a <strong>de</strong>usado casamento, portanto é claro que não iria sair por aí tendo cas<strong>os</strong> com mortais. Isso é serviço domarido <strong>de</strong>la. Quando falam<strong>os</strong> d<strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s, querem<strong>os</strong> dizer <strong>os</strong> três irmã<strong>os</strong> po<strong>de</strong>r<strong>os</strong><strong>os</strong>, <strong>os</strong>filh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Cron<strong>os</strong>.- Zeus, P<strong>os</strong>eidon e Ha<strong>de</strong>s.- Certo. Você sabe. Depois da gran<strong>de</strong> batalha com <strong>os</strong> Titãs, eles tomaram o mundo do pai etiraram a sorte para <strong>de</strong>cidir quem ficava com o quê.- Zeus ficou com o céu - lembrei. - P<strong>os</strong>eidon, com o mar, Ha<strong>de</strong>s, com o Mundo Inferior.- A-hã.- Mas Ha<strong>de</strong>s não tem chalé aqui.- Não. Também não tem um trono no Olimpo. Ele, bem, fica na <strong>de</strong>le lá embaixo no MundoInferior. Se tivesse um chalé aqui... - Grover estremeceu. - Bem, isso não seria agradável. Vam<strong>os</strong><strong>de</strong>ixar assim.- Mas Zeus e P<strong>os</strong>eidon... <strong>os</strong> dois tinham zilhões <strong>de</strong> filh<strong>os</strong> n<strong>os</strong> mit<strong>os</strong>. Por que <strong>os</strong> chalés <strong>de</strong>lesestão vazi<strong>os</strong>?Grover se balançou <strong>de</strong> um casco para outro, pouco à vonta<strong>de</strong>.- Há cerca <strong>de</strong> sessenta an<strong>os</strong>, <strong>de</strong>pois da Segunda Guerra Mundial, <strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s combinaramque não iriam procriar mais nenhum herói. Os filh<strong>os</strong> <strong>de</strong>les eram po<strong>de</strong>r<strong>os</strong><strong>os</strong> <strong>de</strong>mais. Estavaminterferindo muito no curso d<strong>os</strong> event<strong>os</strong> human<strong>os</strong>, causando muitas carnificinas. A SegundaGuerra Mundial, sabe, foi basicamente uma luta entre <strong>os</strong> filh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Zeus e P<strong>os</strong>eidon, <strong>de</strong> um lado, e<strong>os</strong> filh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s do outro. Olado vencedor, Zeus e P<strong>os</strong>eidon, obrigou Ha<strong>de</strong>s a fazer um juramento junto com eles: nada <strong>de</strong>cas<strong>os</strong> com mulheres mortais. Tod<strong>os</strong> juraram sobre o rio Styx.


Um trovão.- Esse é o juramento mais sério que se po<strong>de</strong> fazer - disse eu.Grover assentiu.- E <strong>os</strong> irmã<strong>os</strong> mantiveram a palavra, sem filh<strong>os</strong>?O r<strong>os</strong>to <strong>de</strong> Grover se anuviou.- Há <strong>de</strong>zessete an<strong>os</strong>, Zeus retornou a<strong>os</strong> maus hábit<strong>os</strong>. Havia uma estrela <strong>de</strong> tevê com umpenteado alto e armado, estilo an<strong>os</strong> 80... Ele simplesmente não conseguiu evitar. Quando o bebênasceu, uma menininha chamada Thalia... Bem, o rio Styx é sério no que diz respeito a promessas.Zeus se safou com facilida<strong>de</strong> porque é imortal, mas causou um <strong>de</strong>stino terrível para sua filha.- Mas isso não é justo! Não foi culpa da menininha.Grover hesitou.- Percy, <strong>os</strong> filh<strong>os</strong> d<strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s são mais po<strong>de</strong>r<strong>os</strong><strong>os</strong> que <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> mei<strong>os</strong>-sangues. Eles têmuma aura forte, um odor que atrai monstr<strong>os</strong>. Quando Ha<strong>de</strong>s <strong>de</strong>scobriu a respeito da criança, nãoficou muito feliz com o fato <strong>de</strong> Zeus ter quebrado o juramento. Ha<strong>de</strong>s libertou <strong>os</strong> piores monstr<strong>os</strong>do Tártaro para atormentar Thalia. Um sátiro foi <strong>de</strong>signado para ser guardião <strong>de</strong>la quandocompletou doze an<strong>os</strong>, mas não havia nada que pu<strong>de</strong>sse fazer. Ele tentou escoltá-la para cá comoutr<strong>os</strong> mei<strong>os</strong>-sangues com quem ela fizera amiza<strong>de</strong>. Eles quase conseguiram. Chegaram até o topoda colina.Ele apontou para o outro lado do vale, para o pinheiro on<strong>de</strong> eu enfrentara o Minotauro.- As três Bene<strong>vol</strong>entes estavam atrás <strong>de</strong>les com um bando <strong>de</strong> cães infernais. Estavam quasesendo alcabçad<strong>os</strong> quando Thalia disse a seu sátiro que levasse <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> dois mei<strong>os</strong>-sangues paraum lugar seguro enquanto ela tentava conter <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong>. Estava ferida e cansada, e não <strong>de</strong>sejavaviver como um animal caçado. O sátiro não queria <strong>de</strong>ixá-la, mas não conseguiu fazê-la mudar <strong>de</strong>idéia e tinha <strong>de</strong> proteger <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>. Assim, Thalia <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u-se no final sozinha, no topo daquelacolina. Quando ela morreu, Zeus se apiedou <strong>de</strong>la. Transformou-a naquele pinheiro. Seu espíritoainda ajuda a proteger as fronteiras do vale. É por isso que a colina é chamada Colina Meio-Sangue.Olhei para o pinheiro distante.A história me fez sentir oco, e também culpado. Uma menina da minha ida<strong>de</strong> se sacrificara parasalvar <strong>os</strong> amig<strong>os</strong>. Enfrentara todo um exército <strong>de</strong> monstr<strong>os</strong>. Perto disso, minha vitória sobre oMinotauro não parecia gran<strong>de</strong> coisa. Perguntei a mim mesmo se agindo diferente po<strong>de</strong>ria tersalvado minha mãe.- Grover, <strong>os</strong> heróis realmente partiram em missões para o Mundo Inferior?- Algumas vezes - disse ele. - Orfeu. Hércules. Houdini.- E chegaram a trazer alguém <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta da morte?- Não. Nunca. Orfeu chegou perto.... Percy, você não está pesando mesmo em...- Não - menti. - Estava só imaginando. Então... um sátiro é sempre <strong>de</strong>signado para guardar umsemi<strong>de</strong>us?Grover me estudou cautel<strong>os</strong>o. Eu não o tinha convencido <strong>de</strong> que <strong>de</strong>sistira da idéia do MundoInferior.- Nem sempre. Vam<strong>os</strong> disfarçad<strong>os</strong> para uma porção <strong>de</strong> escolas. Tentam<strong>os</strong> farejas <strong>os</strong> mei<strong>os</strong>sanguesque tenham atribut<strong>os</strong> <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s heróis. Se encontram<strong>os</strong> um com uma aura muito forte,como uma criança d<strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s, alertam<strong>os</strong> Quíron. Ele tenta ficar <strong>de</strong> olho neles, já que po<strong>de</strong>mcausar problemas realmente enormes.


- E você me encontrou. Quíron disse que você achava que eu po<strong>de</strong>ria ser algo especial.Grover soou como se eu acabasse <strong>de</strong> atraí-lo para uma armadilha.- Eu não... Ora, escute, não pense assim. Se você f<strong>os</strong>se... você sabe... jamais lhe permitiriamuma missão, e eu jamais teria a minha licença. Você provavelmente é filho <strong>de</strong> Hermes. Ou talvezaté <strong>de</strong> um d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses menores, como Nêmesis, a <strong>de</strong>usa da vingança. Não se preocupe, ta?Percebi que ele estava tentando tranqüilizar mais a si mesmo que a mim.*****Naquela noite após o jantar havia muito mais agitação que <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tume.Finalmente, era hora da captura da ban<strong>de</strong>ira.Quando <strong>os</strong> prat<strong>os</strong> foram levad<strong>os</strong> embora, a trombeta <strong>de</strong> caramujo soou e tod<strong>os</strong> n<strong>os</strong> p<strong>os</strong>tam<strong>os</strong>junto às n<strong>os</strong>sas mesas.Os campistas gritaram e aplaudiram quando Annabeth e dois <strong>de</strong> seus irmã<strong>os</strong> entraram correndono pavilhão, carregando um estandarte <strong>de</strong> seda. Tinha cerca <strong>de</strong> três metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> comprimento,reluzindo em cinza, com a pintura <strong>de</strong> uma coruja em cima <strong>de</strong> uma oliveira. Do lado op<strong>os</strong>to dopavilhão, Clarisse e as amigas entraram correndo com outro estandarte, <strong>de</strong> tamanho idêntico, masvermelho-brilhante, com a pintura <strong>de</strong> uma lança sanguinolenta e uma cabeça <strong>de</strong> javali.Virei-me para Luke e gritei por cima do barulho: - Aquelas são as ban<strong>de</strong>iras?- Sim.- Ares e Atena sempre li<strong>de</strong>ram as equipes?- Nem sempre - disse ele. - Mas freqüentemente.- Então, se um outro chalé capturar uma <strong>de</strong>las, o que vocês fazem, pintam <strong>de</strong> novo a ban<strong>de</strong>ira?Ele sorriu ironicamente.- Você vai ver. Primeiro tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> conseguir uma.- De que lado nós estam<strong>os</strong>?Ele me <strong>de</strong>u uma olhada astuta, como se soubesse algo que eu não sabia. A cicatriz em seu r<strong>os</strong>too fazia parecer quase mau à luz das tochas.- Fizem<strong>os</strong> uma aliança temporária com Atena. Esta noite, tirarem<strong>os</strong> a ban<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> Ares. E vocêvai ajudar.As equipes foram anunciadas. Atena tinha feito uma aliança com Apolo e Hermes, <strong>os</strong> doischalés maiores.Aparentemente, haviam trocad<strong>os</strong> privilégi<strong>os</strong> - horári<strong>os</strong> <strong>de</strong> chuveiro, escala <strong>de</strong> <strong>de</strong>veres, asmelhores p<strong>os</strong>ições nas ativida<strong>de</strong>s - a fim <strong>de</strong> ganhar apoio.Ares tinha se aliado a tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>: Dionisio, Demeter, Afrodite e Hefesto. Pelo que eu tinhavisto, <strong>os</strong> campistas <strong>de</strong> Dionisio eram na verda<strong>de</strong> bons atletas, mas havia apenas dois <strong>de</strong>les. Os <strong>de</strong>Demeter tinham ligeira vantagem em habilida<strong>de</strong>s na natureza e ativida<strong>de</strong>s ao ar livre, mas nãoeram muito agressiv<strong>os</strong>.Como <strong>os</strong> filh<strong>os</strong> e filhas <strong>de</strong> Afrodite eu não estava muito preocupado. Eles, na maioria das vezes,esperavam sentad<strong>os</strong> todas as ativida<strong>de</strong>s acabarem e iam conferir seus reflex<strong>os</strong> no lago, penteavam<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> e fofocavam. Os <strong>de</strong> Hefesto não eram bonit<strong>os</strong>, e havia apenas quatro <strong>de</strong>les, mas eramgran<strong>de</strong>s e corpulent<strong>os</strong> <strong>de</strong> tanto trabalhar na oficina <strong>de</strong> metais o dia inteiro. Po<strong>de</strong>riam ser umproblema. Com isso, é claro, restava o chalé <strong>de</strong> Ares: uma dúzia d<strong>os</strong> maiores, mais fei<strong>os</strong> e maispervers<strong>os</strong> garot<strong>os</strong> e garotas <strong>de</strong> Long Island, ou <strong>de</strong> qualquer outro lugar no planeta.Quíron bateu o casco no mármore.- Heróis! - anunciou. - Vocês conhecem as regras. O riacho é o limite. A floresta inteira está


valendo.Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> itens mágic<strong>os</strong> são permitid<strong>os</strong>. A ban<strong>de</strong>ira <strong>de</strong>ve ser <strong>os</strong>tentada <strong>de</strong> modo <strong>de</strong>stacado e não<strong>de</strong>ve ter mais <strong>de</strong> dois guardas. Os prisioneir<strong>os</strong> po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong>sarmad<strong>os</strong>, mas não po<strong>de</strong>m seramarrad<strong>os</strong> ou amordaçad<strong>os</strong>. Não é permitido matar nem aleijar. Servirei <strong>de</strong> juiz e médico docampo <strong>de</strong> batalha. Armem-se!Ele esten<strong>de</strong>u as mã<strong>os</strong> e as mesas subitamente se cobriram <strong>de</strong> equipament<strong>os</strong>: capacetes, espadas<strong>de</strong> bronze, lanças, escud<strong>os</strong> <strong>de</strong> couro <strong>de</strong> boi recobert<strong>os</strong> <strong>de</strong> metal.- Uau! - falei. - Tem<strong>os</strong> mesmo que usar isso?Luke olhou para mim como se eu estivesse louco.- A não ser que você queira ser espetado pel<strong>os</strong> seus amig<strong>os</strong> do chalé. Aqui... Quíron achou queestes <strong>de</strong>vem lhe servir. Você ficará na patrulha da fronteira.Meu escudo era do tamanho <strong>de</strong> uma tabela <strong>de</strong> basquete da NBA, com um gran<strong>de</strong> caduceu nomeio.Pesava cerca <strong>de</strong> um milhão <strong>de</strong> quil<strong>os</strong>. Eu po<strong>de</strong>ria muito bem usá-lo como prancha <strong>de</strong>snowboard, mas tinha esperanças <strong>de</strong> que ninguém tivesse expectativas reais <strong>de</strong> que eu corressecom aquilo. Meu capacete, como tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> capacetes do lado <strong>de</strong> Atena, tinha um penacho <strong>de</strong> crinaazul no topo. Ares e seus aliad<strong>os</strong> tinham penach<strong>os</strong> vermelh<strong>os</strong>.Annabeth gritou:- Equipe azul, para frente!Aplaudim<strong>os</strong> e agitam<strong>os</strong> n<strong>os</strong>sas espadas, e a seguim<strong>os</strong> para baixo pelo caminho para <strong>os</strong> b<strong>os</strong>quesdo sul. A equipe vermelha gritou n<strong>os</strong> provocando enquanto seguia em direção ao norte.Consegui alcançar Annabeth sem tropeçar em meu próprio equipamento.- Ei!Ela continuou marchando.- Então, qual é o plano? - perguntei. - Tem alguns itens mágic<strong>os</strong> para me emprestar?A mão <strong>de</strong>la se <strong>de</strong>sviou para o bolso, como se estivesse com medo <strong>de</strong> que eu roubasse algumacoisa.- Só digo para ter cuidado com a lança <strong>de</strong> Clarisse. Você não vai querer que aquela coisa toqueem você.Fora isso, não se preocupe. Vam<strong>os</strong> tomar a ban<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> Ares. Luke <strong>de</strong>terminou sua tarefa?- Patrulha <strong>de</strong> fronteira, seja lá o que isso for.- É fácil. Fique junto ao riacho, mantenha <strong>os</strong> vermelh<strong>os</strong> longe. Deixe o resto comigo. Atenasempre tem um plano.Ela seguiu adiante, me <strong>de</strong>ixando na poeira.- Certo - murmurei. - Fico contente por me querer na sua equipe.Era uma noite quente e úmida, gru<strong>de</strong>nta. Os b<strong>os</strong>ques estavam escur<strong>os</strong>, com vaga-lumesaparecendo e sumindo. Annabeth me <strong>de</strong>signou para um pequeno regato que rumorejava por cima<strong>de</strong> algumas pedras, <strong>de</strong>pois ela e o restante da equipe se espalharam entre as árvores.Ali sozinho, com meu gran<strong>de</strong> capacete <strong>de</strong> penacho azul e meu enorme escudo, me senti umidiota. A espada <strong>de</strong> bronze, como todas as espadas que eu experimentara até então, parecia malequilibrada. Ocabo <strong>de</strong> couro pesava em minha mão como uma bola <strong>de</strong> boliche.Não havia como alguém me atacar <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>, não é? Quer dizer, o Olimpo tinha <strong>de</strong> terresponsabilida<strong>de</strong>, certo?


Longe, a trombeta <strong>de</strong> caramujo soou. Ouvi brad<strong>os</strong> e grit<strong>os</strong> n<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques, metais chocando-se,gente lutando. Um aliado <strong>de</strong> Apolo <strong>de</strong> penacho azul passou por mim correndo como um cervo,pulou o regato e <strong>de</strong>sapareceu em território inimigo.Essa é boa, pensei. Vou ficar <strong>de</strong> fora da diversão, como sempre.Então ouvi um som que me <strong>de</strong>u um calafrio na espinha, um r<strong>os</strong>nado canino grave em algumlugar por perto.Ergui o escudo instintivamente; tinha a sensação <strong>de</strong> que alguma coisa estava me espreitando.Então o r<strong>os</strong>nado parou. Senti a presença recuando.Do outro lado do regato, a vegetação rasteira explodiu. Cinco guerreir<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ares saíramgritando e berrando da escuridão.- Acabem com o Mané! - berrou Clarisse.Seus olh<strong>os</strong> fei<strong>os</strong> <strong>de</strong> porco faiscaram nas fendas do capacete. Ela brandiu uma lança <strong>de</strong> um metroe meio <strong>de</strong> comprimento, a ponta <strong>de</strong> metal farpado lançando chispas <strong>de</strong> luz vermelha. Seus irmã<strong>os</strong>só tinham espadas <strong>de</strong> bronze comuns - não que isso me fizesse sentir melhor.Eles atacaram cruzando o regato. Não havia ajuda à vista. Eu podia correr. Ou podia me<strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r contra a meta<strong>de</strong> do chalé <strong>de</strong> Ares.Consegui me esquivar do golpe do primeiro garoto, mas aqueles caras não eram estúpid<strong>os</strong> comoo Minotauro. Eles me cercaram, e Clarisse investiu contra mim com sua lança. Meu escudo<strong>de</strong>sviou a ponta, mas senti um formigamento dolor<strong>os</strong>o em todo o corpo. Meus cabel<strong>os</strong> seeriçaram. O braço que segurava o escudo ficou dormente e o ar queimou.Eletricida<strong>de</strong>. Aquela lança estúpida era elétrica. Eu recuei.Outro cara <strong>de</strong> Ares me golpeou no peito com a parte mais gr<strong>os</strong>sa da espada e eu caí.Eles podiam ter me chutado até eu virar geléia, mas estavam muito ocupad<strong>os</strong> rindo.- Façam um corte no cabelo <strong>de</strong>le - disse Clarisse. - Agarrem o cabelo <strong>de</strong>le.Consegui me pôr <strong>de</strong> pé. Ergui a espada, mas Clarisse a jogou violentamente para o lado com sualança, e fagulhas voaram. Agora meus braç<strong>os</strong> estavam dormentes.- Ah, uau! - disse Clarisse. - Estou com medo <strong>de</strong>sse cara. Realmente apavorada.- A ban<strong>de</strong>ira está para lá - disse a ela. Queria parecer zangado, mas acho que não consegui.- É - disse um d<strong>os</strong> irmã<strong>os</strong> <strong>de</strong>la. - Mas, veja bem, nós não n<strong>os</strong> importam<strong>os</strong> com a ban<strong>de</strong>ira. Agente se importa com um cara que fez o pessoal do n<strong>os</strong>so chalé <strong>de</strong> idiota.- Vocês não precisam <strong>de</strong> mim para isso. - Provavelmente não foi a coisa mais esperta a dizer.Dois <strong>de</strong>les vieram para cima <strong>de</strong> mim. Recuei em direção ao regato, tentei erguer meu escudo,mas Clarisse era muito rápida. Sua lança me pegou bem nas c<strong>os</strong>telas. Se eu não estivesse usandouma armadura blindada, teria virado churrasco no espeto. Do jeito que foi, a ponta elétrica quasefez meus <strong>de</strong>ntes saltarem da boca com o choque. Um <strong>de</strong> seus colegas <strong>de</strong> chalé <strong>de</strong>sferiu a espadacontra o meu braço, fazendo um bom talho.Ver meu próprio sangue me <strong>de</strong>ixou zonzo - quente e frio ao mesmo tempo.- Sem aleijar - consegui dizer.- Oops - disse o cara. - Acho que perdi meu direito à sobremesa.Ele me empurrou para o regato e eu caí espalhando água. Tod<strong>os</strong> riram. Calculei que assim queacabassem <strong>de</strong> se divertir eu iria morrer. Mas então algo aconteceu. A água pareceu <strong>de</strong>spertar meussentid<strong>os</strong>, como se eu tivesse acabado <strong>de</strong> comer um saco duplo das jujubas da minha mãe.Clarisse e seus companheir<strong>os</strong> <strong>de</strong> chalé entraram no regato para me pegar, mas eu me pus <strong>de</strong> pépara recebê-l<strong>os</strong>. Sabia o que fazer. Desferi a parte chata da minha espada contra a cabeça do


primeiro cara e arranquei seu capacete. Atingi-o com tanta força que pu<strong>de</strong> ver seus olh<strong>os</strong>tremendo enquanto ele <strong>de</strong>smoronava na água.O Feio Número 2 e o Feio Número 3 vieram para cima <strong>de</strong> mim. Golpeei um no r<strong>os</strong>to com oescudo e usei a espada para <strong>de</strong>cepar o penacho da crina do outro. Os dois recuaram <strong>de</strong>pressa. OFeio Número 4 não pareceu muito ansi<strong>os</strong>o para atacar, mas Clarisse continuava vindo, a ponta dalança crepitando <strong>de</strong> eletricida<strong>de</strong>. Assim que ela investiu, peguei a vara da lança entre a borda domeu escudo e a minha espada, e a parti como se f<strong>os</strong>se um graveto.- Ah! - berrou ela. - Seu idiota! Seu verme com bafo <strong>de</strong> cadáver!Ela provavelmente ainda teia dito coisas piores, mas eu a golpeei entre <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> com a base daespada e a joguei cambaleando <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas para fora do regato.Então ouvi grit<strong>os</strong> exultantes, e vi Luke correndo em direção à linha limite com o estandarte daequipe vermelha erguido alto. Vinha flanqueado por alguns garot<strong>os</strong> <strong>de</strong> Hermes, cobrindo a suaretirada, e alguns Apol<strong>os</strong> atrás <strong>de</strong>le, combatendo <strong>os</strong> garot<strong>os</strong> <strong>de</strong> Hefesto. O pessoal <strong>de</strong> Ares selevantou e Clarisse resmungou uma praga estupefata.- Uma armadilha! - berrou. - Foi uma armadilha.Eles saíram cambaleando atrás <strong>de</strong> Luke, mas era tar<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais. Todo mundo convergiu para oregato enquanto Luke atravessava para território amigo. N<strong>os</strong>so lado explodiu em vivas. Oestandarte vermelho tremulou e ficou prateado. O javali e a lança foram substituíd<strong>os</strong> por umenorme caduceu, o símbolo do chalé 11. Tod<strong>os</strong> da equipe azul ergueram Luke n<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong> ecomeçaram a carregá-lo. Quíron saiu a meio galope do b<strong>os</strong>que e soprou a trombeta <strong>de</strong> caramujo.O jogo terminara. Tínham<strong>os</strong> vencid<strong>os</strong>.Eu estava prestes a me juntar à comemoração quando a voz <strong>de</strong> Annabeth, bem a meu lado noregato, disse: - Nada mau, herói.Eu olhei, mas ela não estava lá.- On<strong>de</strong> diabo apren<strong>de</strong>u a lutar assim? - perguntou ela. O ar tremulou e Annabeth sematerializou, segurando um boné <strong>de</strong> beisebol d<strong>os</strong> Yankees como se tivesse acabado <strong>de</strong> tirá-lo dacabeça.Senti que estava ficando zangado. Não fiquei nem mesmo perturbado com o fato <strong>de</strong> ela estarinvisível um segundo antes.- Você armou isso para mim - disse eu. - Você me pôs aqui porque sabia que Clarisse viria atrás<strong>de</strong> mim, enquanto você mandava Luke dar a <strong>vol</strong>ta pel<strong>os</strong> flanc<strong>os</strong>. Já tinha tudo preparado.Annabeth encolheu <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.- Eu disse para você. Atena sempre, sempre tem um plano.- Um plano para que eu f<strong>os</strong>se reduzido a pó.- Eu vim o mais rápido que pu<strong>de</strong>. Estava pronta para entrar na briga, mas... - Ela encolheu <strong>os</strong>ombr<strong>os</strong>. -Você não precisava <strong>de</strong> ajuda.Então ela reparou no braço ferido: - Como arranjou isso?- Corte <strong>de</strong> espada - disse eu. - O que você acha?- Não. Era um corte <strong>de</strong> espada. Olhe só.O sangue se fora. No lugar do rasgo enorme havia uma longa cicatriz branca, e mesmo estava<strong>de</strong>saparecendo. Enquanto eu olhava, ela se transformou em uma cicatriz pequena e sumiu.- Eu... eu não entendo - disse.Annabeth raciocinava com empenho. Eu quase podia ver as engrenagens girando. Ela baixou <strong>os</strong>


olh<strong>os</strong> para <strong>os</strong> meus pés, <strong>de</strong>pois para a lança quebrada <strong>de</strong> Clarisse e disse: - Saia da água, Percy.- O que...- Apenas saia.Saí do regato e logo me senti extremamente cansado. Meus braç<strong>os</strong> começaram a ficardormentes <strong>de</strong> novo. Minha <strong>de</strong>scarga <strong>de</strong> adrenalina me abandonou. Quase caí, mas Annabeth mesegurou.- Oh, Styx - praguejou ela. - Isso não é bom. Eu não queria... Eu pensei que podia ser Zeus...Antes que eu pu<strong>de</strong>sse perguntar o que ela queria dizer, ouvi o r<strong>os</strong>nado canino <strong>de</strong> novo, poremmuito mais perto. Um uivo cortou a floresta.A comemoração d<strong>os</strong> campistas cessou imediatamente. Quíron bradou alguma coisa em gregoantigo que eu, só mais tar<strong>de</strong> me daria conta, tinha entendido perfeitamente: - Preparem-se! Meuarco!Annabeth sacou a espada.Sobre as pedras, logo acima <strong>de</strong> nós, havia um cão preto <strong>de</strong> tamanho <strong>de</strong> um rinoceronte, comolh<strong>os</strong> vermelh<strong>os</strong> como lava e presas que pareciam punhais.Estava olhando diretamente para mim.Ninguém se moveu exceto Annabeth, que gritou: - Percy, corra!Ela tentou se interpor entre mim e o cão, mas o bicho foi rápido <strong>de</strong>mais. Pulou por cima <strong>de</strong>la -uma enorme sombra com <strong>de</strong>ntes - e, assim que me atingiu, quando cambaleei para trás e senti asgarras afiadas como navalhas rasgando minha armadura, houve uma cascata <strong>de</strong> sons <strong>de</strong> pancadas,como quarenta pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> papel sendo rasgad<strong>os</strong> um após o outro. Um amontoado <strong>de</strong> flechasbrotou no pescoço do cão. Omonstro caiu morto a<strong>os</strong> meus pés.Por algum milagre eu ainda estava vivo. Não quis olhar embaixo das ruínas da minha armaduraesfrangalhada. Meu peito parecia morno e molhado, e eu sabia que estava gravemente ferido. Maisum segundo e o monstro teria me transformado em quarenta e cinco quil<strong>os</strong> <strong>de</strong> carne fatiada.- Di immortales! - disse Annabeth. - Aquilo é um cão infernal d<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Punição. Elesnão... eles não <strong>de</strong>viam...- Alguém o convocou - disse Quíron. - Alguém <strong>de</strong> <strong>de</strong>ntro do acampamento.Luke se aproximou, o estandarte esquecido em suas mã<strong>os</strong>, o momento <strong>de</strong> glória acabado.Clarisse berrou:- É tudo culpa do Percy! Percy o convocou!- Fique quieta, criança - or<strong>de</strong>nou-lhe Quíron.Nós assistim<strong>os</strong> enquanto o cão infernal se dissolvia em sombra e era absorvido pela terra até<strong>de</strong>saparecer.- Você está ferido - disseme Annabeth. - Rápido, Percy, entre na água.- Eu estou bem.- Não, você não está - disse ela. - Quíron, veja isto.Eu estava cansado <strong>de</strong>mais para discutir. Voltei para <strong>de</strong>ntro do regato, o acampamento inteiroreunido à minha <strong>vol</strong>ta.No mesmo instante me senti melhor. Pu<strong>de</strong> perceber <strong>os</strong> cortes em meu peito se fechando. Algunsd<strong>os</strong> campistas sufocaram um grito.- Olhem, eu... eu não sei por quê - falei, tentando me <strong>de</strong>sculpar. - Sinto muito.Mas eles não estavam olhando minhas feridas cicatrizarem. Olhavam para algo acima da minha


cabeça.- Percy - disse Annabeth apontando. - Ahn...Quando olhei para cima, o sinal já estava <strong>de</strong>saparecendo, mas ainda pu<strong>de</strong> distinguir oholograma <strong>de</strong> luz ver<strong>de</strong>, girando e cintilando. Uma lança <strong>de</strong> três pontas: um tri<strong>de</strong>nte.- Seu pai - murmurou Annabeth. - Isso realmente não é bom.- Está <strong>de</strong>terminado - anunciou Quíron.Por toda a minha <strong>vol</strong>ta, <strong>os</strong> campistas começaram a se ajoelhar, até mesmo o chalé <strong>de</strong> Ares,embora não parecessem muito felizes com isso.- Meu pai? - perguntei, completamente perplexo.- P<strong>os</strong>eidon - disse Quíron. - Senhor d<strong>os</strong> Terremot<strong>os</strong>. Portador das Tempesta<strong>de</strong>s. Pai d<strong>os</strong>Caval<strong>os</strong>. Salve, Perseu Jackson, Filho do Deus do Mar.NOVE – Oferecem-me uma missão.Na manhã seguinte, Quíron me mudou para o chalé 3.Não tive <strong>de</strong> compartilhá-lo com ninguém. Tinha espaço à vonta<strong>de</strong> para todas as minhas coisas:o chifre do Minotauro, um conjunto <strong>de</strong> roupas <strong>de</strong> reserva e uma sacola <strong>de</strong> artig<strong>os</strong> <strong>de</strong> toalete. Ia mesentar à minha própria mesa <strong>de</strong> jantar, escolhia todas as minhas ativida<strong>de</strong>s, <strong>de</strong>terminava o―apagar das luzesǁ sempre que tinha vonta<strong>de</strong> e não ouvia mais ninguém.E me sentia totalmente infeliz.Bem quando começava a me sentir aceito, a sentir que tinha um lar no chalé 11 e po<strong>de</strong>ria ser umgaroto normal - ou tão normal quanto é p<strong>os</strong>sível quando se é um meio-sangue -, fui separado com<strong>os</strong>e tivesse alguma doença rara.Ninguém mencionou o cão infernal, mas tive a sensação <strong>de</strong> que estavam tod<strong>os</strong> falando sobreisso pelas minhas c<strong>os</strong>tas. O ataque assustara todo mundo. Ele mandou duas mensagens: aprimeira, que eu era filho do Deus do mar; a segunda, que <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> não mediriam esforç<strong>os</strong>para me matar. Podiam ate invadir um acampamento que sempre foi consi<strong>de</strong>rado seguro.Os outr<strong>os</strong> campistas mantinham distância <strong>de</strong> mim na medida do p<strong>os</strong>sível. O chalé 11 estavaagitado <strong>de</strong>mais para receber aula <strong>de</strong> esgrima junto comigo <strong>de</strong>pois do que eu fizera com o pessoal<strong>de</strong> Ares no b<strong>os</strong>que, e assim minhas aulas com Luke passaram a ser particulares. Ele me exigiamais do que nunca, e não tinha medo <strong>de</strong> me machucar.- Você vai precisar <strong>de</strong> todo o treinamento que pu<strong>de</strong>r obter - prometeu, enquanto trabalhávam<strong>os</strong>com espadas e tochas flamejantes. - Agora vam<strong>os</strong> tentar <strong>de</strong> novo aquele golpe <strong>de</strong> <strong>de</strong>capitarvíboras. Mais cinqüenta repetições.Annabeth ainda me ensinava grego pela manhã, mas aprecia distraída. A cada vez que eu diziaalguma coisa, ela fechava a cara, como se eu tivesse acabado <strong>de</strong> lhe dar um soco.Depois das aulas, ela ia embora resmungando consigo mesma: - Missão... P<strong>os</strong>eidon?... Gran<strong>de</strong>porcaria... Preciso <strong>de</strong> um plano...Até Clarisse mantinha distância, embora <strong>os</strong> olhares venen<strong>os</strong><strong>os</strong> <strong>de</strong>ixassem claro que queria mematar por ter quebrado sua lança mágica. Queria que ela simplesmente gritasse, me <strong>de</strong>sse um socoou coisa assim.Era melhor me meter em brigar tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> dias a ser ignorado.*****Soube que alguém no acampamento andava ressentido comigo, porque uma noite entrei no meuchalé e achei um jornal horrível jogado porta a<strong>de</strong>ntro, um exemplar do New York Daily News,


aberto na página Metrópole. Levei quase uma hora para ler a matéria, porque quanto mais ficavazangado mais as palavras pareciam flutuar na página.MENINO E SUA MÃE AINDA DESAPARECIDOS DEPOIS DE ESTRANHO ACIDENTEDE CARRO


Por Ellen SmytheSally Jackson e seu filho Percy ainda não foram encontrad<strong>os</strong> uma semana <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> seumisteri<strong>os</strong>o <strong>de</strong>saparecimento. O carro da família, um Camaro 1978, totalmente queimado, foi<strong>de</strong>scoberto no último sábado em uma estrada ao norte <strong>de</strong> Long Island com o teto arrancado e oeixo dianteiro quebrado. Ocarro havia capotado e <strong>de</strong>rrapado por várias centenas <strong>de</strong> metr<strong>os</strong> antes <strong>de</strong> explodir.Mãe e filho tinham ido passar um fim <strong>de</strong> semana em Montauk, mas saíram às pressas, sobcircunstâncias misteri<strong>os</strong>as. Pequen<strong>os</strong> sinais <strong>de</strong> sangue foram encontrad<strong>os</strong> no carro e perto dacena do <strong>de</strong>sastre, mas não havia outr<strong>os</strong> indíci<strong>os</strong> d<strong>os</strong> Jackson <strong>de</strong>saparecid<strong>os</strong>. Resi<strong>de</strong>ntes da árearural <strong>de</strong>clararam não ter visto nada <strong>de</strong> inusitado por <strong>vol</strong>ta da hora do aci<strong>de</strong>nte.O marido da sra. Jackson, Gabe Ugliano, alega que o enteado, Percy Jackson, é uma criançaproblemática que foi expulsa <strong>de</strong> inúmer<strong>os</strong> internat<strong>os</strong> e <strong>de</strong>monstrou tendências violentas nopassado.A polícia não diz se o filho Percy é suspeito do <strong>de</strong>saparecimento da mãe, porém não <strong>de</strong>scarta ahipótese <strong>de</strong> crime. Abaixo estão fotografias recentes <strong>de</strong> Sally Jackson e Percy. A polícia solicita aqualquer pessoa que tenha alguma informação que ligue gratuitamente para o disque-<strong>de</strong>núncia <strong>de</strong>crimes, a seguir.O número do telefone estava circulado com marcador preto.Amarrotei o jornal e joguei fora, <strong>de</strong>pois me joguei em meu beliche no meio do chalé vazio.―Apagar das luzesǁ, disse para mim mesmo, arrasado.*****Naquela noite, tive meu pior pesa<strong>de</strong>lo até então.Eu corria pela praia no meio <strong>de</strong> uma tempesta<strong>de</strong>. Dessa vez, havia uma cida<strong>de</strong> atrás <strong>de</strong> mim.Não Nova York. O panorama era diferente: <strong>os</strong> edifíci<strong>os</strong> eram mais afastad<strong>os</strong> uns d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong>, haviapalmeiras e colinas baixas a distância.Cem metr<strong>os</strong> adiante, na arrebentação, dois homens estavam brigando. Pareciam lutadores <strong>de</strong>tevê, muscul<strong>os</strong><strong>os</strong>, com barbas e cabel<strong>os</strong> comprid<strong>os</strong>. Amb<strong>os</strong> usavam túnicas gregas esvoaçantes,uma guarnecida <strong>de</strong> azul, a outra, <strong>de</strong> ver<strong>de</strong>. Atracavam-se, lutavam, chutavam e davam cabeçadas,e a cada vez que tocavam, caíam rai<strong>os</strong>, o céu escurecia e vent<strong>os</strong> sopravam.Eu precisava <strong>de</strong>tê-l<strong>os</strong>. Não sabia por quê. Mas, quanto mais eu corria, mais o vento meempurrava <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta, até eu correr sem sair do lugar, <strong>os</strong> calcanhares se enterrando inultimente naareia.Por cima do rugido da tempesta<strong>de</strong>, pu<strong>de</strong> ouvir o <strong>de</strong> túnica azul gritando para o <strong>de</strong> túnica ver<strong>de</strong>:De<strong>vol</strong>va!De<strong>vol</strong>va! Era como se uma criança do jardim-<strong>de</strong>-infância estivesse brigando por causa <strong>de</strong> umbrinquedo.As ondas ficaram maiores, arrebentando na praia e me borrifando com sal.Eu gritei: Parem com isso! Parem <strong>de</strong> brigar!O chão estremeceu. Risadas vieram <strong>de</strong> algum lugar embaixo da terra, e uma voz profunda emaligna me gelou o sangue.Venha para baixo, pequeno herói, a voz sussurrou. Venha para baixo!A areia se abriu embaixo <strong>de</strong> mim numa fenda que ia direto ao centro da Terra. Meus pésescorregaram e as trevas me engoliram.Acor<strong>de</strong>i, certo <strong>de</strong> que estava caindo.Ainda estava na cama, no chalé 3. Meu corpo me dizia que já era manhã, mas estava escuro lá


fora e o trovão ribombava pelas colinas. Uma tempesta<strong>de</strong> estava se formando. Isso eu não haviasonhado.Ouvi um som oco à porta, o som <strong>de</strong> um casco batendo na soleira.- Entre.Grover trotou para <strong>de</strong>ntro, parecendo preocupado.- O sr. D quer vê-lo.- Por quê?- Ele quer matar... quer dizer, é melhor <strong>de</strong>ixar que ele conte.Eu me vesti, agitado, e fui, certo <strong>de</strong> que estava em uma gran<strong>de</strong> encrenca.Havia dias eu estava esperando uma convocação para a Casa Gran<strong>de</strong>. Agora que tinha sido<strong>de</strong>clarado filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon, um d<strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>uses que não <strong>de</strong>veriam ter filh<strong>os</strong>, imagineique o simples fato <strong>de</strong> estar vivo já f<strong>os</strong>se um crime. Os outr<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses provavelmente haviam<strong>de</strong>batido sobre o melhor jeito <strong>de</strong> me punir por existir, e agora o sr. D estava pronto para dar seuveredicto.Acima do estreito <strong>de</strong> Long Island, o céu parecia uma sopa <strong>de</strong> tinta em ponto <strong>de</strong> fervura. Umacortina brum<strong>os</strong>a <strong>de</strong> chuva vinha em n<strong>os</strong>sa direção. Perguntei a Grover se precisávam<strong>os</strong> <strong>de</strong> umguarda-chuva.- Não - disse ele. - Aqui nunca chove, anão ser que queiram<strong>os</strong>.Apontei a tempesta<strong>de</strong>.- Então o que diabo é aquilo?Ele olhou, preocupado, para o céu.- Vai passar em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> nós. O mau tempo sempre faz isso.Percebi que ele estava certo. Fazia uma semana que estava ali e nunca vira o tempo fechado. Aspoucas nuvens <strong>de</strong> chuva que tinha notado contornavam <strong>os</strong> limites do vale.Mas aquela tempesta<strong>de</strong>... aquela era imensa.Na arena <strong>de</strong> vôlei as crianças do chalé <strong>de</strong> Apolo jogavam uma partida matinal contra <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>.Os gême<strong>os</strong> <strong>de</strong> Dionisio caminhavam em <strong>vol</strong>ta d<strong>os</strong> camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong> fazendo as plantascrescerem. Tod<strong>os</strong> estavam cuidando <strong>de</strong> suas tarefas normais, mas pareciam tens<strong>os</strong>. Estavam <strong>de</strong>olho na tempesta<strong>de</strong>.Grover e eu caminham<strong>os</strong> até a varanda da frente da Casa Gran<strong>de</strong>. Dionísio estava sentado àmesa <strong>de</strong> pinoche com sua Diet Coke, usando a camisa havaiana com listras <strong>de</strong> tigre, exatamentecomo no meu primeiro dia. Quíron estava do outro lado da mesa em sua falsa ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas.Jogavam contra oponentes invisíveis - duas mã<strong>os</strong> <strong>de</strong> cartas flutuavam no ar.- Bem, bem - disse o sr. D sem erguer <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>. - N<strong>os</strong>sa pequena celebrida<strong>de</strong>.Eu aguar<strong>de</strong>i.- Chegue mais perto - disse o sr. D. - E não espere que eu me pr<strong>os</strong>tre diante <strong>de</strong> você, mortal, sóporque o velho Barbas <strong>de</strong> Craca é seu pai.Uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> rai<strong>os</strong> brilhou através das nuvens. Um trovão fez tremerem as janelas da casa.- Blablablá - disse Dionisio.Quíron fingiu interesse em suas cartas <strong>de</strong> pinoche. Grover se encolheu junto ao gradil, <strong>os</strong> casc<strong>os</strong>batendo para a frente e para trás.- Se as coisas f<strong>os</strong>sem do meu jeito - disse Dionisio -, eu faria suas moléculas irromperem emchamas. Nós varreríam<strong>os</strong> as cinzas e estaríam<strong>os</strong> livres <strong>de</strong> um monte <strong>de</strong> problemas. Mas Quíronparece achar que isso seria contra a minha missão neste acampamento maldito: manter vocês,


moleques, a salvo do mal.- Combustão espontânea é uma forma <strong>de</strong> mal, sr. D - interveio Quíron.- Bobagem - disse Dionisio. - O menino não sentiria nada. No entanto, eu concor<strong>de</strong>i em meconter. Estou pensando em transformar você em um golfinho em vez disso, e mandá-lo <strong>de</strong> <strong>vol</strong>tapara seu pai.- Sr. D... - advertiu Quíron.- Ora, está bem - ce<strong>de</strong>u Dionisio. - Há mais uma opção. Mas é uma insensatez <strong>de</strong>scomunal. -Dionsio levantou-se, e as cartas d<strong>os</strong> jogadores invisíveis caíram sobre a mesa. - Estou indo aoOlimpo para uma reunião <strong>de</strong> emergência. Se o menino ainda estiver aqui quando eu <strong>vol</strong>tar, voutransformá-lo em um nariz-<strong>de</strong>-garrafa do Atlântico. Enten<strong>de</strong>u? E Perseu Jackson, se você formesmo esperto, verá que se trata <strong>de</strong> uma escolha muito mais sensata do que aquela que Quíronimagina.Dionísio pegou uma carta, torceu-a e ela se transformou em um retângulo <strong>de</strong> plástico. Cartão <strong>de</strong>crédito?Não. Um passe <strong>de</strong> segurança.Ele estalou <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>.O ar pareceu se dobrar e se curvar em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong>le. Ele transformou-se em um holograma, <strong>de</strong>poisem um vento e <strong>de</strong>pois <strong>de</strong>sapareceu, <strong>de</strong>ixando para trás apenas o cheiro <strong>de</strong> uvas recém-prensadas.Quíron sorriu para mim, mas parecia cansado e tenso.- Sente-se, Percy, por favor. Grover também.Nós obe<strong>de</strong>cem<strong>os</strong>.Quíron pôs suas cartas na mesa. A mão vencedora que ele não chegara a usar.- Diga-me, Percy - disse ele. - O que você fez com o cão infernal?Só <strong>de</strong> ouvir o nome, eu estremeci.Quíron provavelmente queria que eu dissesse: Ora, aquilo não foi nada. C<strong>os</strong>tumo comer cãesinfernais no café-da-manhã. Mas eu não estava com vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> mentir.- Ele me apavorou - falei. - Se vocês não o tivessem acertado, eu estaria morto.- Você vai enfrentar coisas piores, Percy. Muito piores, antes <strong>de</strong> terminar.- Terminar... o quê?- Sua missão, é claro. Você vai aceitá-la?Dei uma olhada para Grover, que estava cruzando <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>.- Ahn, senhor, ainda não me contou qual será.Quíron fez uma careta.- Bem, essa é a parte difícil, <strong>os</strong> <strong>de</strong>talhes.Um trovão irrompeu pelo vale. As nuvens <strong>de</strong> tempesta<strong>de</strong> haviam agora chegado ao limite dapraia. Até on<strong>de</strong> eu podia ver, o céu e o mar estavam fervendo junt<strong>os</strong>.- P<strong>os</strong>eidon e Zeus - disse eu. - Eles estão lutando por algo vali<strong>os</strong>o... algo que foi roubado, nãoestão?Quíron e Grover trocaram olhares.- Como você sabe disso?Senti o r<strong>os</strong>to quente. Desejei não ter aberto meu bocão.- Des<strong>de</strong> o Natal o tempo está esquisito, como se o mar e o céu estivessem brigando. Então faleicom Annabeth, e ela tinha ouvido alguma coisa sobre um roubo. E ... também an<strong>de</strong>i sonhandoumas coisas.


- Eu sabia - disse Grover.- Quieto, sátiro - or<strong>de</strong>nou Quíron.- Mas essa é a missão <strong>de</strong>le! - Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Grover estavam brilhantes <strong>de</strong> excitação. - Tem <strong>de</strong> ser!- Só o Oráculo po<strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar. - Quíron alisou a barba eriçada. - No entanto, Percy, você estácorreto.Seu pai e Zeus estão tendo sua pior disputa em sécul<strong>os</strong>. Estão lutando por uma coisa vali<strong>os</strong>a quefoi roubada. Para ser preciso: um relâmpago.Eu ri nerv<strong>os</strong>o.- Um o quê?- Não brinque com isso - advertiu Quíron. - Não estou falando <strong>de</strong> um ziguezague recoberto <strong>de</strong>papel-alumínio como você vê em peças da escola. Estou falando <strong>de</strong> um cilindro <strong>de</strong> bronzecelestial <strong>de</strong> alto grau, com sessenta centímetr<strong>os</strong> <strong>de</strong> comprimento, arrematado em amb<strong>os</strong> <strong>os</strong> lad<strong>os</strong>com expl<strong>os</strong>iv<strong>os</strong> <strong>de</strong> nível <strong>de</strong>ífico.- Ah.- O raio-mestre <strong>de</strong> Zeus - disse Quíron, agora ficando emocionado. - O símbolo <strong>de</strong> seu po<strong>de</strong>r,conforme o qual tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> rai<strong>os</strong> são moldad<strong>os</strong>. A primeira arma feita pel<strong>os</strong> Ciclopes para aguerra contra <strong>os</strong> Titãs, que <strong>de</strong>cepou o cume do Monte Etna e arremessou Cron<strong>os</strong> para fora do seutrono; o raio-mestre, que acumula potência suficiente para fazer as bombas <strong>de</strong> hidrogênio d<strong>os</strong>mortais parecerem fog<strong>os</strong> <strong>de</strong> artifíci<strong>os</strong>.- E ele <strong>de</strong>sapareceu? - Roubaram - disse Quíron.- Quem roubaram?- Quem roubou - corrigiu Quíron. Uma vez professor, sempre professor. - Você.Meu queixo caiu.- Pelo men<strong>os</strong> - Quíron ergueu uma das mã<strong>os</strong> -, é isso que Zeus pensa. Durante o solstício <strong>de</strong>inverno, na última assembléia d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, Zeus e P<strong>os</strong>eidon tiveram uma discussão. As tolices <strong>de</strong>sempre: ―A Mãe Rhea sempre g<strong>os</strong>tou mais <strong>de</strong> vocêǁ, ―Os <strong>de</strong>sastres aére<strong>os</strong> são maisespetaculares que <strong>os</strong> marítim<strong>os</strong>ǁ etc.Mais tar<strong>de</strong>, Zeus se <strong>de</strong>u conta <strong>de</strong> que o seu raio-mestre havia <strong>de</strong>saparecido, levado da sala dotrono bem <strong>de</strong>baixo do seu nariz. No mesmo instante culpou P<strong>os</strong>eidon. Agora, um <strong>de</strong>us não po<strong>de</strong>usurpar diretamente o símbolo <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> outro <strong>de</strong>us - isso é proibido pela mais antiga das leisdivinas. Mas Zeus acredita que seu pai convenceu um herói humano a pegá-lo.- Mas eu não...- Paciência, e escute, criança - disse Quíron. - Zeus tem boas razões para suspeitar. As forjasd<strong>os</strong> Ciclopes ficam embaixo do oceano, o que dá a P<strong>os</strong>eidon alguma influencia sobre <strong>os</strong>fabricantes d<strong>os</strong> rai<strong>os</strong> do seu irmão. Zeus acredita que P<strong>os</strong>eidon pegou o raio-mestre e está agoramandando <strong>os</strong> Ciclopes construírem secretamente um arsenal <strong>de</strong> cópias ilegais, que po<strong>de</strong>riam serusadas par <strong>de</strong>rrubar Zeus do seu trono. A única coisa <strong>de</strong> que Zeus não tinha certeza era qual heróiP<strong>os</strong>eidon usara para roubar o raio.Agora P<strong>os</strong>eidon <strong>de</strong>clarou abertamente que você é filho <strong>de</strong>le. Você estava em Nova York nasférias <strong>de</strong> inverno. Po<strong>de</strong>ria facilmente ter se infiltrado no Olimpo. Zeus acredita que encontrou <strong>os</strong>eu ladrão.- Mas eu nunca estive no Olimpo! Zeus está maluco!Quíron e Grover olharam nerv<strong>os</strong>amente para o céu. As nuvens não pareciam estar se separandoà n<strong>os</strong>sa <strong>vol</strong>ta, como Grover prometera. Estavam vindo para cima do n<strong>os</strong>so vale, fechando-n<strong>os</strong><strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>le como uma tampa <strong>de</strong> caixão.


- Ahn, Percy...? - disse Grover. - Nós não usam<strong>os</strong> essa palavra que começa com m para<strong>de</strong>screver o Senhor do Céu.- Paranóico, quem sabe - sugeriu Quíron. - Mas, por outro lado, P<strong>os</strong>eidon já tentou <strong>de</strong>rrubarZeus antes.Acredito que essa foi a pergunta 38 da sua prova final... - Ele olhou para mim como quemrealmente esperava que e me lembrasse da pergunta 38.Como podia alguém me acusar <strong>de</strong> roubar a arma <strong>de</strong> um <strong>de</strong>us? Eu não conseguia nem furtar umpedaço <strong>de</strong> pizza da mesa <strong>de</strong> pôquer <strong>de</strong> Gabe sem ser pego. Quíron estava esperando por umaresp<strong>os</strong>ta.- Alguma coisa a ver com uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> ouro? - adivinhei. - P<strong>os</strong>eidon, e Hera, e alguns outr<strong>os</strong><strong>de</strong>uses...eles, tipo, pren<strong>de</strong>ram Zeus numa armadilha e não o <strong>de</strong>ixaram sair até ele prometer ser umsoberano melhor, certo?- Correto - disse Quíron. - E Zeus nunca mais confiou em P<strong>os</strong>eidon <strong>de</strong>s<strong>de</strong> então. P<strong>os</strong>eidon, éclaro, nega ter roubado o raio-mestre. Ele se ofen<strong>de</strong>u com a acusação. Os dois vêm discutindo otempo todo há meses, com ameaças <strong>de</strong> guerra. E agora você apareceu - a fam<strong>os</strong>a gota-d’água.- Mas eu sou apenas uma criança!- Percy - interveio Grover -, se você f<strong>os</strong>se Zeus, e já achasse que o seu irmão estava planejando<strong>de</strong>rrubá-lo, e então subitamente admitisse que havia quebrado o juramento sagrado que fizera<strong>de</strong>pois da Segunda Guerra Mundial e que era pai <strong>de</strong> um novo herói mortal que po<strong>de</strong>ria ser usadocomo uma arma contra você... Isso não o <strong>de</strong>ixaria com a pulga atrás da orelha?- Mas eu não fiz nada. P<strong>os</strong>eidon - meu pai -, ele realmente não mandou roubar o raio-mestre,mandou?Quíron suspirou.- A maioria d<strong>os</strong> observadores inteligentes concordaria que o roubo não faz o estilo <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon.Mas o Deus do Mar é orgulh<strong>os</strong>o <strong>de</strong>mais para tentar convencer Zeus disso. Zeus exigiu queP<strong>os</strong>eidon <strong>de</strong><strong>vol</strong>va o raio até o solstício <strong>de</strong> verão. Isso será em 21 <strong>de</strong> junho, <strong>de</strong>z dias a contar <strong>de</strong>agora. P<strong>os</strong>eidon quer um pedido <strong>de</strong> <strong>de</strong>sculpas por ser chamado <strong>de</strong> ladrão até essa mesma data. Eutinha esperanças <strong>de</strong> que a diplomacia prevalecesse, que Hera ou Demeter ou Héstia fariam <strong>os</strong> doisirmã<strong>os</strong> verem a razão. Mas a sua chegada inflamou o gênio <strong>de</strong> Zeus. Agora nenhum d<strong>os</strong> dois<strong>de</strong>uses quer recuar. A não ser que alguém intervenha, a não ser que o raio-mestre seja encontradoe <strong>de</strong><strong>vol</strong>vido a Zeus antes do solstício, haverá guerra. E você sabe como po<strong>de</strong>ria ser uma guerratotal, Percy?- Ruim ? - adivinhei.- Imagine o mundo em ca<strong>os</strong>. A natureza em guerra consigo mesma. Os olimpian<strong>os</strong> forçad<strong>os</strong> aescolher lad<strong>os</strong> entre Zeus e P<strong>os</strong>eidon. Destruição. Carnificina. Milhões <strong>de</strong> mort<strong>os</strong>. A civilizaçãooci<strong>de</strong>ntal transformada em um campo <strong>de</strong> batalha tão gran<strong>de</strong> que fará a Guerra <strong>de</strong> Tróia pareceruma luta <strong>de</strong> balões d’água.- Ruim - repeti.- E você, Percy Jackson, será o primeiro a sentir a ira <strong>de</strong> Zeus.Começou a chover. Os jogadores <strong>de</strong> vôlei interromperam o jogo e olhavam perplexo para o céu.Eu havia trazido a tempesta<strong>de</strong> para a Colina Meio-Sangue, Zeus estava punindo o acampamentointeiro por minha causa. Eu estava furi<strong>os</strong>o.- Então eu tenho <strong>de</strong> encontrar aquele raio estúpido - disse. - E <strong>de</strong><strong>vol</strong>vê-lo a Zeus.- Que melhor oferenda <strong>de</strong> paz - disse Quíron -, do que fazer filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon <strong>de</strong><strong>vol</strong>ver o que é


<strong>de</strong> Zeus?- Se não está com P<strong>os</strong>eidon, on<strong>de</strong> está essa coisa?- Eu creio que sei. - A expressão <strong>de</strong> Quíron era soturna. - Parte da profecia que recebi an<strong>os</strong>atrás... bem, algumas frases fazem sentido para mim, agora. Mas, antes que eu p<strong>os</strong>sa dizer mais,você precisa aceitar oficialmente a missão. Você precisa procurar o conselho do Oráculo.- Por que você não po<strong>de</strong> dizer <strong>de</strong> antemão on<strong>de</strong> está o raio?- Porque, se eu fizer isso, você ficará assustado <strong>de</strong>mais para aceitar o <strong>de</strong>safio.Eu engoli em seco.- Boa razão.- Então você concorda?Olhei para Grover, que assentiu encorajadoramente.Fácil para ele. Era a mim que Zeus queria matar.- Está bem - disse eu. - É melhor do que ser transformado em um golfinho.- Então é hora <strong>de</strong> você consultar o Oráculo - disse Quíron. - Vá para cima, Percy Jackson, para <strong>os</strong>ótão.Quando <strong>de</strong>scer <strong>de</strong> novo, presumindo que ainda esteja lúcido, conversarem<strong>os</strong> mais.*****Quatro lances acima, a escada terminava embaixo <strong>de</strong> um alçapão ver<strong>de</strong>.Puxei o cordão. A porta se abriu e uma escada <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira caiu ruid<strong>os</strong>amente no lugar.O ar morno que vinha <strong>de</strong> cima cheirava a mofo, ma<strong>de</strong>ira podre e mais alguma coisa... um cheiroque me lembrou a aula <strong>de</strong> biologia. Répteis. O cheiro <strong>de</strong> serpentes.Prendi a respiração e subi.O sótão estava atulhado <strong>de</strong> sucata <strong>de</strong> heróis greg<strong>os</strong>: suportes <strong>de</strong> armaduras cobert<strong>os</strong> <strong>de</strong> teias <strong>de</strong>aranha; escud<strong>os</strong> outrora brilhantes chei<strong>os</strong> <strong>de</strong> a<strong>de</strong>siv<strong>os</strong> dizendo ÍTACA, ILHA DE CIRCE ETERRA DASAMAZONAS. Sobre uma mesa comprida estavam amontoad<strong>os</strong> potes <strong>de</strong> vidro chei<strong>os</strong> <strong>de</strong> coisasem conserva - garras peludas <strong>de</strong>cepadas, enormes olh<strong>os</strong> amarel<strong>os</strong> e diversas outras partes <strong>de</strong>monstr<strong>os</strong>. Um troféu empoeirado na pare<strong>de</strong> parecia ser uma cabeça <strong>de</strong> serpente gigante, mas comchifres e uma arcada completa <strong>de</strong> <strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> tubarão. Uma placa dizia: CABEÇA N. 1 DA HIDRA,WOOSSTOCK, N.Y., 1969.Junto à janela, sentado em uma banqueta <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira com três pernas, estava o suvenir maispavor<strong>os</strong>o <strong>de</strong> tod<strong>os</strong>: uma múmia. Não do tipo enfaixada em pan<strong>os</strong>, mas um corpo humanofeminino, ressecado até ficar só a casca. Usava um vestido <strong>de</strong> verão estampado em batique, comuma porção <strong>de</strong> colares <strong>de</strong> contas e uma bandana por cima <strong>de</strong> long<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> pret<strong>os</strong>. A pele dor<strong>os</strong>to era fina e parecia couro por cima do crânio, e <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> eram fendas brancas vítreas, como se<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> verda<strong>de</strong> tivessem sido substituíd<strong>os</strong> por bolas <strong>de</strong> gu<strong>de</strong>; <strong>de</strong>via estar morta fazia muito,muito tempo.Olhar para ela me <strong>de</strong>u arrepi<strong>os</strong> nas c<strong>os</strong>tas. E isso foi antes <strong>de</strong> ela se endireitar na banqueta eabrir a boca.Uma névoa ver<strong>de</strong> jorrou da garganta da múmia, serpenteando pelo chão em anéis gr<strong>os</strong>s<strong>os</strong>,sibilando como vinte mil cobras. Tropecei em mim mesmo tentando chegar até o alçapão, mas elese fechou com uma batida. Dentro da minha cabeça, ouvi uma voz, <strong>de</strong>slizando por um ouvido e seenr<strong>os</strong>cando por meu cérebro: Eu sou o espírito <strong>de</strong> Delf<strong>os</strong>, porta-voz das profecias <strong>de</strong> Febo Apolo,assassino da po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a Píton.


Aproxime-se, você que busca, e pergunte.Eu quis dizer: Não, obrigado, porta errada, só estava procurando o banheiro. Mas me forcei arespirar fundo.A múmia não estava viva. Era algum tipo <strong>de</strong> receptáculo horripilante para uma outra coisa, opo<strong>de</strong>r que girava em espiral à minha <strong>vol</strong>ta na névoa ver<strong>de</strong>. Mas sua presença não parecia maligna,como a da professora <strong>de</strong>moníaca <strong>de</strong> matemática, a sra. Dodds ou a do Minotauro. Era mais comoas Três Parcas que eu tinha visto tricotando o fio <strong>de</strong> lã ao lado da banca <strong>de</strong> frutas da rodovia:antiga, po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a e, sem duvida, não-humana. E também não parecia especialmente interessada emme matar.Reuni coragem para perguntar:- Qual é o meu <strong>de</strong>stino?A névoa rodopiou, mais <strong>de</strong>nsa, juntando-se bem na minha frente e em <strong>vol</strong>ta da mesa com <strong>os</strong>potes que continham partes <strong>de</strong> monstr<strong>os</strong> em conserva. De repente, havia quatro homens sentad<strong>os</strong> à<strong>vol</strong>ta da mesa, jogando cartas. Os r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> ficaram mais nítid<strong>os</strong>. Era Gabe Cheir<strong>os</strong>o e seuscupinchas.Meus punh<strong>os</strong> se contraíram, embora eu soubesse que aquele jogo <strong>de</strong> pôquer não podia ser real.Era uma ilusão, feita d névoa.Gabe <strong>vol</strong>tou-se para mim e falou na voz rouca do Oráculo: Você irá para o oeste, e iráenfrentar o <strong>de</strong>us que se tornou <strong>de</strong>sleal.O cupincha da direita ergueu <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e disse com a mesma voz: Você irá encontrar o que foiroubado, e o verá <strong>de</strong><strong>vol</strong>vido em segurança.O da esquerda colocou três fichas na mesa, <strong>de</strong>pois disse: Você será traído por aquele que ochama <strong>de</strong> amigo.Por fim Eddie, o zelador do n<strong>os</strong>so edifício, preferiu a por sentença <strong>de</strong> todas: E, no fim, iráfracassar em salvar aquilo que mais importa.As figuras começaram a se dissolver. De início fiquei atordoado <strong>de</strong>mais para dizer algumacoisa, mas quando a névoa recuou, enrolando-se como uma enorme serpente ver<strong>de</strong> e <strong>de</strong>slizando <strong>de</strong><strong>vol</strong>ta para <strong>de</strong>ntro da boca da múmia, eu gritei: - Espere! O que quer dizer? Que amigo? O que nãovou conseguir salvar?A cauda da serpente <strong>de</strong> névoa <strong>de</strong>sapareceu na boca da múmia. Ela se reclinou <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta contra apare<strong>de</strong>.A boca fechou-se bem apertada, como se não tivesse sido aberta em cem an<strong>os</strong>. O sótão ficousilenci<strong>os</strong>o <strong>de</strong> novo, abandonado, nada além <strong>de</strong> uma sala cheia <strong>de</strong> suvenires.Tive a sensação <strong>de</strong> que po<strong>de</strong>ria ficar lá parado até juntar teias <strong>de</strong> aranha também, e não ficariasabendo mais nada.Minha audiência com o Oráculo estava encerrada.*****- E então? - Quíron me perguntou.Desabei em uma ca<strong>de</strong>ira à mesa <strong>de</strong> pinoche. - Ela disse que eu <strong>de</strong>via recuperar o que foiroubado.Grover se inclinou para frente, mascando animado <strong>os</strong> rest<strong>os</strong> <strong>de</strong> uma lata <strong>de</strong> Diet Coke.- Isso é ótimo!- O que foi que o Oráculo disse exatamente? - pressionou Quíron. - Isso é importante.- Ela... ela disse que eu iria para o oeste e enfrentaria um <strong>de</strong>us que se tornou <strong>de</strong>sleal.


Recuperaria o que foi roubado e <strong>de</strong><strong>vol</strong>veria em segurança.- Eu sabia - disse Grover.Quíron não pareceu satisfeito.- Mais alguma coisa?Eu não queria contar a ele.Que amigo iria me trair? Eu não tinha tant<strong>os</strong> assim.E a última sentença - eu fracassaria em salvar o que mais importa. Que tipo <strong>de</strong> Oráculo memandaria em uma missão e me diria, Ah, a propósito, você vai se dar mal.Como eu po<strong>de</strong>ria confessar aquilo?- Não - falei. - Isso é tudo.Ele estudou meu r<strong>os</strong>to.- Muito bem, Percy. Mas saiba disto as palavras do Oráculo freqüentemente têm duplo sentido.Não se fie <strong>de</strong>mais nelas. A verda<strong>de</strong> nem sempre fica clara até que <strong>os</strong> event<strong>os</strong> aconteçam.Tive a sensação <strong>de</strong> que ele sabia que eu estava escon<strong>de</strong>ndo algo ruim, e tentava fazer com queeu me sentisse melhor.- Certo - falei, ansi<strong>os</strong>o por mudar <strong>de</strong> assunto. - Então, aon<strong>de</strong> vou? Quem é esse <strong>de</strong>us no oeste?- Ah, pense, Percy - disse Quíron. - Se Zeus e P<strong>os</strong>eidon enfraquecem um ao outro numa guerra,quem tem a ganhar com isso?- Algum outro que queira tomar o po<strong>de</strong>r? - adivinhei.- Sim, exatamente. Alguém que guarda um ressentimento, alguém que está infeliz com a parteque lhe coube <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que o mundo foi dividido eras atrás, cujo reinado se tornará po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>o com amorte <strong>de</strong> milhões. Alguém que o<strong>de</strong>ia <strong>os</strong> irmã<strong>os</strong> por forçá-lo a um juramento <strong>de</strong> não ter maisfilh<strong>os</strong>, um juramento que amb<strong>os</strong> quebraram.Pensei n<strong>os</strong> meus sonh<strong>os</strong>, na voz maligna que falara do fundo da terra.- Ha<strong>de</strong>s.Quíron assentiu.- O Senhor d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong> é a única p<strong>os</strong>sibilida<strong>de</strong>.Grover babou um pedaço <strong>de</strong> alumínio pelo canto da boca.- Opa, espere aí. O-o quê?- Uma das Fúrias veio trás <strong>de</strong> Percy - lembrou Quíron. - Ela observou o rapaz até ter certeza dasua i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>, e então tentou matá-lo. As Fúrias obe<strong>de</strong>cem a um só senhor: Ha<strong>de</strong>s.- Sim, mas... mas Ha<strong>de</strong>s o<strong>de</strong>ia tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> heróis - protestou Grover. - Especialmente se tiver<strong>de</strong>scoberto que Percy é filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon...- Um cão infernal conseguiu entrar na floresta - continuou Quíron. - Eles só po<strong>de</strong>m serconvocad<strong>os</strong> d<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> da Punição, e ele tinha <strong>de</strong> ser convocado por alguém <strong>de</strong> <strong>de</strong>ntro doacampamento. Ha<strong>de</strong>s <strong>de</strong>ve ter um espião aqui. Ele <strong>de</strong>ve suspeitar que P<strong>os</strong>eidon tentará usar Percypara limpar seu nome. Ha<strong>de</strong>s g<strong>os</strong>taria muito <strong>de</strong> matar esse jovem meio-sangue antes que ele p<strong>os</strong>saassumir a missão.- Boa - murmurei. - São dois d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses mais importantes querendo me matar.- Mas uma missão para... - Grover engoliu em seco. - Quer dizer, o raio-mestre não po<strong>de</strong>riaestar em algum lugar como o Maine? O Maine é muito agradável nesta época do ano.- Ha<strong>de</strong>s enviou um protegido para roubar o raio-mestre - insistiu Quíron. - Ele o escon<strong>de</strong>u noMundo Inferior, sabendo muito BM que Zeus culparia P<strong>os</strong>eidon. Não pretendo enten<strong>de</strong>r


perfeitamente <strong>os</strong> motiv<strong>os</strong> do Senhor d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong> ou por que ele escolheu esta época para começaruma guerra, mas uma coisa é certa: Percy precisa ir ao Mundo Inferior; encontrar o raio-mestre erevelar a verda<strong>de</strong>.Um fogo estranho queimou em meu estômago. O mais esquisito era que não se tratava <strong>de</strong> medo.Era expectativa. O <strong>de</strong>sejo <strong>de</strong> vingança. Ha<strong>de</strong>s tentara me matar três vezes até agora, com a Fúria, oMinotauro e o cão infernal. Por sua culpa minha mãe <strong>de</strong>saparecera em um clarão. Agora eletentava enquadrar eu e meu pai por um roubo que não tínham<strong>os</strong> cometido.Eu estava pronto para enfrentá-lo.Além disso, se minha mãe estava no Mundo Inferior...Epa, rapaz!, disse a pequena parte do meu cérebro que ainda estava lúcida. Você é um garoto.Ha<strong>de</strong>s é um <strong>de</strong>us.Grover estava tremendo. Tinha começado a comer cartas <strong>de</strong> pinoche como se f<strong>os</strong>sem batatinhasfritas.O pobre sujeito precisava completar uma missão comigo para obter sua licença <strong>de</strong> buscador, oque quer que f<strong>os</strong>se isso, mas como po<strong>de</strong>ria lhe pedir que participasse daquilo, principalmentesabendo que o Oráculo dissera que eu ia fracassar? Era suicídio.- Olhe, se nós abem<strong>os</strong> que é Ha<strong>de</strong>s - disse a Quíron -, Zeus ou P<strong>os</strong>eidon po<strong>de</strong>riam <strong>de</strong>scer aoMundo Inferior e fazer rolar algumas cabeças.- suspeitar e saber não são o mesmo - disse Quíron. - Além disso, mesmo que suspeitem <strong>de</strong>Ha<strong>de</strong>s...imagino que P<strong>os</strong>eidon suspeite.. <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses não po<strong>de</strong>riam recuperar o raio por si mesm<strong>os</strong>.Deuses não po<strong>de</strong>m entrar n<strong>os</strong> territóri<strong>os</strong> um do outro a não ser que sejam convidad<strong>os</strong>. Essa é outraregra muito antiga. Heróis, por outro lado, têm cert<strong>os</strong> privilégi<strong>os</strong>. Po<strong>de</strong>m ir a qualquer lugar,<strong>de</strong>safiar qualquer um, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que sejam coraj<strong>os</strong><strong>os</strong> e fortes o bastante para fazê-lo. Nenhum <strong>de</strong>uspo<strong>de</strong> ser responsabilida<strong>de</strong> pel<strong>os</strong> at<strong>os</strong> <strong>de</strong> um herói. Por que acha eu <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses sempre agem porintermédio <strong>de</strong> seres human<strong>os</strong>?- Você está dizendo que estou sendo usado.- Estou dizendo que não é por acaso que P<strong>os</strong>eidon o assumiu agora. É uma jogada muitoarriscada, mas ele está em uma situação <strong>de</strong>sesperadora. Precisa <strong>de</strong> você.Meu pai precisa <strong>de</strong> mim.As emoções giraram <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> mim como pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> vidro em um caleid<strong>os</strong>cópio. Eu não sabiase sentia ressentimento, gratidão, alegria ou raiva. P<strong>os</strong>eidon me ignorara por doze an<strong>os</strong>. Agora <strong>de</strong>repente, precisava <strong>de</strong> mim.Olhei para Quíron.- Você sabia o tempo todo que eu era filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon, não é?- Tinha minhas suspeitas. Como eu disse... também falei com o Oráculo.Tive a sensação <strong>de</strong> que havia muita coisa que ele não estava me contando sobre sua profecia,mas percebi que não po<strong>de</strong>ria me preocupar com aquilo naquela hora. Afinal, eu também estavasonegando informações.- Então, <strong>de</strong>ixe-me enten<strong>de</strong>r direito - falei. - Preciso ir para o Mundo Inferior e confrontar oSenhor d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong>.- Confere - disse Quíron.- Para encontrar a arma mais po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a do universo.- Confere.


E levá-la <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta ao Olimpo antes do solstício <strong>de</strong> verão, daqui a <strong>de</strong>z dias.- Isso mesmo.Olhei para Grover, que engoliu o ás <strong>de</strong> copas.- Cheguei a mencionar que o Maine é muito agradável nesta época do ano? - perguntou ele <strong>de</strong>um jeito cansado.- Você não precisa ir - disse a ele. - Não p<strong>os</strong>so lhe exigir isso.- Ah... - Ele se balançou <strong>de</strong> um casco para o outro. - Não... é só que <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>, e <strong>os</strong> lugaresembaixo da terra... bem...Ele respirou fundo, <strong>de</strong>pois se pôs <strong>de</strong> pé, sacudindo <strong>os</strong> pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> cartas e alumínio da camiseta.- Você salvou a minha vida, Percy. Se... se está falando sério em querer que eu vá junto, não vou<strong>de</strong>ixá-lo na mão.Fiquei tão aliviado que tive vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> chorar, embora não achasse isso muito heróico. Groverera o único amigo que já tivera por mais que alguns meses. Não sabia muito bem o que um sátiropo<strong>de</strong>ria fazer contra as forças d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>, mas me senti melhor sabendo que ele estaria comigo.- Junt<strong>os</strong> até o fim, homem-bo<strong>de</strong>. Eu me virei para Quíron. - Então, para on<strong>de</strong> vam<strong>os</strong>? O Orácul<strong>os</strong>ó disse para ir para oeste.- A entrada para o Mundo Inferior fica sempre no oeste. Muda <strong>de</strong> lugar <strong>de</strong> era em era, como oOlimpo.Atualmente, é claro, fica n<strong>os</strong> Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>.- On<strong>de</strong>?Quíron pareceu surpreso.Pensei que f<strong>os</strong>se óbvio. A entrada para o Mundo Inferior fica em L<strong>os</strong> Angeles.- Ah - falei. - Claro. Então é só pegar um avião...- Não! - gritou Grover. - Percy, o que está pensando? Alguma vez na vida já esteve em umavião?Sacudi a cabeça, sem graça. Minha mãe nunca me levara para lugar algum <strong>de</strong> avião. Ela sempredizia que não tínham<strong>os</strong> dinheiro pra isso. Além disso, <strong>os</strong> pais <strong>de</strong>la tinham morrido em um <strong>de</strong>sastre<strong>de</strong> avião.- Percy, pense - disse Quíron. - Você é filho do Deus do Mar. O rival mais rancor<strong>os</strong>o do seu paié Zeus, Senhor do Céu. Sua mãe sabia muito bem que não podia confiar você a um avião.Acima <strong>de</strong> nós, relâmpag<strong>os</strong> estalaram. O trovão ribombo.- Certo - disse eu, <strong>de</strong>terminado a não olhar para a tempesta<strong>de</strong>. - Então, viajarei por terra.- Certo - disse Quíron. - Dois parceir<strong>os</strong> po<strong>de</strong>rão acompanhá-lo. Grover é um. O outro já seapresentou como <strong>vol</strong>untário, se você aceitar a ajuda <strong>de</strong>la.- Puxa - falei, fingindo surpresa. - Quem mais seria bastante estúpido para se apresentar parauma missão como essa?O ar tremulou atrás <strong>de</strong> Quíron.Annabeth se tornou visível, enfiando o boné d<strong>os</strong> Yankees no bolso <strong>de</strong> trás.- Eu estava esperando há muito tempo por uma missão, cabeça <strong>de</strong> alga - disse ela. - Atena não éfã <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon, mas se você vai salvar o mundo, sou a melhor pessoa para impedir que estraguetudo.- Se é você quem diz. Tem algum plano, sabidinha?As bochechas <strong>de</strong>la coraram.- Você quer a minha ajuda ou não?


A verda<strong>de</strong> é que eu queria. Precisava <strong>de</strong> toda a ajuda que pu<strong>de</strong>sse encontrar.- Um trio - disse eu. - Isso vai dar certo.- Excelente - disse Quíron. - Esta tar<strong>de</strong> po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> levar vocês no máximo até o terminal <strong>de</strong>ônibus em Manhattan. Depois disso, estarão por conta própria.Um relâmpago. A chuva <strong>de</strong>sabou sobre as campinas que jamais <strong>de</strong>veriam ver um temporalviolento.- Não há tempo a per<strong>de</strong>r - disse Quíron. - Acho que tod<strong>os</strong> vocês <strong>de</strong>vem fazer as malas.DEZ – Eu <strong>de</strong>struo um ônibus.Não precisei <strong>de</strong> muito tempo para fazer as malas. Decidi <strong>de</strong>ixar o cifre do Minotauro no meuchalé, então só restaram uma muda extra <strong>de</strong> roupas e uma escova <strong>de</strong> <strong>de</strong>ntes para enfiar numamochila que Grover encontrara para mim.A loja do acampamento me emprestou cem dólares em dinheiro mortal e vinte dracmas <strong>de</strong> ouro.Essas moedas eram gran<strong>de</strong>s como um biscoito gigante, tinham imagens <strong>de</strong> divers<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses greg<strong>os</strong>estamapadas <strong>de</strong> um lado e o Edifício Empire States do outro. Os dracmas d<strong>os</strong> mortais antig<strong>os</strong>eram <strong>de</strong> prata, Quíron n<strong>os</strong> contou, mas <strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong> nunca usavam nada men<strong>os</strong> que ouro puro.Quíron disse que as moedas po<strong>de</strong>riam vir a calhar para transações não-mortais - o que quer queisso significasse. Ele <strong>de</strong>u a Annabeth e a mim um cantil <strong>de</strong> néctar e um saco hermético cheio <strong>de</strong>quadradinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> ambr<strong>os</strong>ia, para usar somente em emergências, se fôssem<strong>os</strong> gravemente ferid<strong>os</strong>.Aquilo era o alimento d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, Quíron lembrou. Iria n<strong>os</strong> curar <strong>de</strong> qualquer ferimento, mas eraletal para mortais. Em excesso, po<strong>de</strong>ria <strong>de</strong>ixar um meio-sangue com muita, muita febre. Umaoverd<strong>os</strong>e n<strong>os</strong> faria pegar fogo, literalmente.Annabeth carregava seu boné mágico d<strong>os</strong> Yankees, que era, ela me contou, um presente da mãepelo seu décimo segundo aniversario. Ela levou um livro sobre a fam<strong>os</strong>a arquitetura clássica,escrito em grego antigo, para ler quando estivesse entediada, e carregava uma comprida faca <strong>de</strong>bronze escondida na manga da camisa. Eu tinha certeza <strong>de</strong> que a faca ia n<strong>os</strong> causar problemas naprimeira vez em que passássem<strong>os</strong> por um <strong>de</strong>tector <strong>de</strong> metais.Grover estava com seus pés fals<strong>os</strong> e calças para passar por ser humano. Usava uma touca ver<strong>de</strong>estilo rastafári, porque, quando chovia, seu cabelo encaracolado se achatava, <strong>de</strong>ixando aparecer aponta d<strong>os</strong> chifres. Sua mochila berrante, alaranjada, estava cheia <strong>de</strong> sucata <strong>de</strong> metal e maçãs parao lanche. Em seu bolso havia um conjunto <strong>de</strong> flautas <strong>de</strong> bambu que o papai-bo<strong>de</strong> esculpira paraele, muito embora ele só conhecesse duas músicas: o Concerto para Piano n° 12, <strong>de</strong> Mozart, e SoYesterday, <strong>de</strong> Hilary Duff, e ambas soassem muito mal em flautas <strong>de</strong> bambu.Acenam<strong>os</strong> em <strong>de</strong>spedida para <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> campistas, <strong>de</strong>m<strong>os</strong> uma última olhada para <strong>os</strong> camp<strong>os</strong> <strong>de</strong>morang<strong>os</strong>, o oceano e a Casa Gran<strong>de</strong>, <strong>de</strong>pois subim<strong>os</strong> a Colina Meio-Sangue até o alto pinheiroque outrora fora Thalia, filha <strong>de</strong> Zeus.Quíron n<strong>os</strong> esperava em sua ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas. Ao lado <strong>de</strong>le estava o surfista que eu tinha vistoquando me recuperava no quarto doente. De acordo com Grover, o cara era chefe <strong>de</strong> segurança doacampamento. Sup<strong>os</strong>tamente, tinha olh<strong>os</strong> espalhad<strong>os</strong> pelo corpo inteiro para jamais ser pego <strong>de</strong>surpresa.Naquele dia, no entanto, usava uniforme <strong>de</strong> chofer, então só pu<strong>de</strong> ver <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> extras das mã<strong>os</strong>,do r<strong>os</strong>to e do pescoço.- Este é Arg<strong>os</strong> - disse Quíron. - Vai levar vocês <strong>de</strong> carro até a cida<strong>de</strong> e, ahn, bem, ficar <strong>de</strong> olhoem tudo.


Ouvi pass<strong>os</strong> atrás <strong>de</strong> nós.Luke veio correndo colina acima, carregando um par <strong>de</strong> tênis <strong>de</strong> basquete.- Ei! - ofegou ele. - Ainda bem que alcancei vocês.Annabeth corou, como sempre acontecia quando Luke estava por perto.- Só queria <strong>de</strong>sejar boa sorte - disse ele para mim. - E pensei... ahn, quem sabe você po<strong>de</strong>riausar isso.Ele me entregou <strong>os</strong> tênis, que pareciam bastante normais. Tinham até cheiro <strong>de</strong> normais.Luke disse:- Maia!Asas brancas <strong>de</strong> ave brotaram d<strong>os</strong> calcanhares, <strong>de</strong>ixando-me tão surpreso que <strong>os</strong> <strong>de</strong>ixei cair. Ostênis bateram as asas no chão até que estas se dobraram e <strong>de</strong>sapareceram.- Impressionante! - disse Grover.Luke sorriu.- Ajudaram muito quando eu estava na minha missão. Presente do papai. É claro, eu não <strong>os</strong> usomuito hoje em dia... - Sua expressão tornou-se triste.Eu não sabia o que dizer. Já era bem legal o fato <strong>de</strong> Luke ter ido se <strong>de</strong>spedir. Tinha receio <strong>de</strong>que ele estivesse magoado comigo por ter ganho tanta atenção n<strong>os</strong> últim<strong>os</strong> dias. Mas ali estavaele, com um presente mágico... Aquilo me fez corar quase tanto quanto Annabeth.- Ei, cara, obrigado.- Escute, Percy... - Luke pareceu sem graça. - Tod<strong>os</strong> esperam muito <strong>de</strong> você. Então, apenas...mate alguns monstr<strong>os</strong> por mim, ok?Trocam<strong>os</strong> um aperto <strong>de</strong> mã<strong>os</strong>. Luke afagou a cabeça <strong>de</strong> Grover entre <strong>os</strong> chifres e <strong>de</strong>pois <strong>de</strong>u umgran<strong>de</strong> abraço em Annabeth, que pareceu que ia <strong>de</strong>smaiar.Depois que Luke se foi, eu disse a ela: - Você está com a respiração acelerada.- Não estou, não.- Você o <strong>de</strong>ixou capturar a ban<strong>de</strong>ira em seu lugar, não foi?- Ai... por que mesmo eu quero ir a algum lugar com você, Percy?Ela <strong>de</strong>sceu batendo <strong>os</strong> pés para outro lado da colina, on<strong>de</strong> um utilitário esportivo brancoesperava no ac<strong>os</strong>tamento da estrada. Arg<strong>os</strong> a seguiu, balançando as chaves do carro.Peguei <strong>os</strong> tênis voadores e tive uma súbita sensação ruim. Olhei para Quíron.- Eu não vou po<strong>de</strong>r usar isso, não é?Ele sacudiu a cabeça.- A intenção <strong>de</strong> Luke foi boa, Percy. Mas subir para o ar.... não seria muito inteligente <strong>de</strong> suaparte.Eu assenti, <strong>de</strong>sapontado, mas então tive uma idéia.- Ei, Grover. Você quer um apetrecho mágico?Seus olh<strong>os</strong> se iluminaram.- Eu?Rapidamente, amarram<strong>os</strong> <strong>os</strong> tênis por cima d<strong>os</strong> seus fals<strong>os</strong> pés, e o primeiro menino-bo<strong>de</strong>voador do mundo estava pronto para o lançamento.- Maia! - bradou.Ele se ergueu do chão muito bem, mas então tombou <strong>de</strong> lado e sua mochila arrastou-se pelagrama. Os tênis alad<strong>os</strong> ficaram corcoveando para o alto e para baixo como minúscul<strong>os</strong> caval<strong>os</strong>selvagens.


- Prática - gritou Quíron para ele. - Você só precisa <strong>de</strong> prática.- Aaaaaa! - Grover saiu voando <strong>de</strong> lado colina baixo, como um cortador <strong>de</strong> grama ensan<strong>de</strong>cido,em direção à van.Antes que eu pu<strong>de</strong>sse segui-lo, Quíron segurou meu braço.- Eu <strong>de</strong>via tê-lo treinado melhor, Percy - disse ele. - Se ao men<strong>os</strong> tivesse tido mais tempo.Hércules, Jasão... tod<strong>os</strong> receberam mais treinamento.- Tudo bem. Só queria....Eu me interrompi pois estava prestes a soar como uma criança mimada. Queria que meu paitivesse me dado uma coisa mágica legal para ajudar na minha missão, algo tão bom quanto <strong>os</strong>tênis voadores <strong>de</strong> Luke ou o boné invisível <strong>de</strong> Annabeth.- On<strong>de</strong> estou com a cabeça? - exclamou Quíron. - Não p<strong>os</strong>so <strong>de</strong>ixar você ir sem isso.Ele puxou uma caneta do bolso do casaco e me entregou. Era uma esferográfica <strong>de</strong>scartávelcomum, tinta preta, tampa removível. Custava provavelmente trinta centav<strong>os</strong>.- Puxa disse eu. - Obrigado.- Percy, isto foi um presente <strong>de</strong> seu pai. Guar<strong>de</strong>i durante an<strong>os</strong>, sem saber que era você que euestava esperando. Mas a profecia agora está clara para mim. Você é o escolhido.Lembrei-me da excursão ao Metropolitan Museum of Art, quando reduzi a Poá a sra. Dodds.Quíron me jogara uma caneta que se transformou em espada. Será que aquilo era...?Tirei a tampa, e a caneta ficou mais comprida e pesada em minha mão. Em meio segundo euestava segurando uma reluzente espada <strong>de</strong> bronze com lâmina <strong>de</strong> fio duplo, cabo en<strong>vol</strong>vido emcouro e uma guarda chata rebitada com pin<strong>os</strong> <strong>de</strong> ouro. Era a primeira arma que realmente pareciaequilibrada em minha mão.- A espada tem uma história longa e trágica, sobre a qual não precisam<strong>os</strong> falar - contou-meQuíron. - Seu nome é Anaklusm<strong>os</strong>.- Contracorrente - traduzi, surpreso que o grego antigo me tenha vindo tão fácil.- Mas só a use para emergências - disse Quíron, e apenas contra monstr<strong>os</strong>. Nenhum herói <strong>de</strong>veferir mortais, só se for absolutamente necessário, é claro, mas esta espada não <strong>os</strong> feriria emnenhum caso.Olhei para a lâmina cruelmente afiada.- Como assim, não feriria mortais? Como ela po<strong>de</strong> não ferir?- A espada é <strong>de</strong> bronze celestial. Forjada pel<strong>os</strong> Ciclopes, temperada no coração do monte Etna,resfriada no rio Lete. É mortífera para monstr<strong>os</strong>, para qualquer criatura do Mundo Inferior, <strong>de</strong>s<strong>de</strong>que não matem você primeiro. Mas a lâmina passará através <strong>de</strong> mortais como uma ilusão. Elesnão são bastante importantes para serem mort<strong>os</strong> pela lâmina. E <strong>de</strong>vo avisá-lo: como um semi<strong>de</strong>us,você po<strong>de</strong> ser morto tanto por armas celestiais quanto por armas normais. Você é duas vezes maisvulnerável.- Bom saber.- Agora recoloque a tampa na caneta.Enc<strong>os</strong>tei a tampa da caneta na ponta da espada e instantaneamente Contracorrente encolheu e setransformou <strong>de</strong> novo em uma esferográfica. Enfiei-a no bolso um pouco nerv<strong>os</strong>o, porque na escolatinha a fama <strong>de</strong> per<strong>de</strong>r canetas.- Não há risc<strong>os</strong> - disse Quíron.- De quê?


- De per<strong>de</strong>r a caneta - disse ele. - É encantada. Sempre vai reaparecer no seu bolso.Experimente.Eu estava <strong>de</strong>sconfiado, mas atirei a caneta o mais longe que pu<strong>de</strong> colina abaixo e a vi<strong>de</strong>saparecer na grama.- Po<strong>de</strong> levar alguns instantes - disse Quíron. - Agora verifique o bolso.Sem dúvida, a caneta estava lá.- Certo, isso é muito legal - admiti. - Mas e se um mortal me vir puxando uma espada?Quíron sorriu.- A Névoa é algo po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>o, Percy.- A Névoa?- Sim. Leia a Ilíada. Está cheia <strong>de</strong> referências a isso. Sempre que element<strong>os</strong> divin<strong>os</strong> oumonstru<strong>os</strong><strong>os</strong> se misturam com o mundo mortal, eles geram a Névoa, que tolda a visão d<strong>os</strong> sereshuman<strong>os</strong>. Você verá as coisas exatamente como são, sendo um meio-sangue, mas <strong>os</strong> sereshuman<strong>os</strong> interpretarão tudo <strong>de</strong> modo muito diferente. É realmente incrível até que ponto <strong>os</strong> sereshuman<strong>os</strong> po<strong>de</strong>m ir para adaptar as situações à sua concepção <strong>de</strong> realida<strong>de</strong>.Pus Contracorrente <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta no bolso.Pela primeira vez, senti a missão como algo real. Eu estava <strong>de</strong> fato <strong>de</strong>ixando a Colina Meio-Sangue.Estava indo para o oeste sem nenhuma supervisão <strong>de</strong> adulto, sem um plano B, nem mesmo umtelefone celular. (Quíron disse que <strong>os</strong> telefones podiam ser rastread<strong>os</strong> por monstr<strong>os</strong>; se usasse um,seria pior do que lançar um foguete <strong>de</strong> sinalização.) Eu não tinha nenhuma arma mais po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a doque uma espada para combater monstr<strong>os</strong> e chegar à Terra d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong>.- Quíron... - falei. - Quando você diz que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses são imortais... quer dizer, havia um tempoantes <strong>de</strong>les, certo?- Quatro era antes <strong>de</strong>les, na verda<strong>de</strong>. O Tempo d<strong>os</strong> Titãs foi a Quarta Era, às vezes chamada <strong>de</strong>Era <strong>de</strong> Ouro, o que sem dúvida é um nome impróprio. Esta época, a época da civilização oci<strong>de</strong>ntale reinado <strong>de</strong> Zeus, é a Quinta Era.- Então como era... antes d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses?Quíron contraiu <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>.- Nem mesmo eu sou bastante velho para me lembrar disso, criança, mas sei que era um tempo<strong>de</strong> trevas e selvageria para <strong>os</strong> mortais. Cron<strong>os</strong>, o Senhor d<strong>os</strong> Titãs, chamou seu reinado <strong>de</strong> Era <strong>de</strong>Ouro porque <strong>os</strong> homens viviam em inocência e livres <strong>de</strong> todo o conhecimento. Mas isso era merapropaganda. O rei Titã não se importava nada com sua espécie a não ser para servir <strong>de</strong> aperitivo,ou como fonte <strong>de</strong> entretenimento. Foi só no início do reinado do Senhor Zeus, quando Prometeu, obom Titã, trouxe o fogo para a humanida<strong>de</strong>, que sua espécie começou a e<strong>vol</strong>uir, e mesmo entãoPrometeu foi estigmatizado como pensador radical. Zeus o castigou severamente, como você <strong>de</strong>vese lembrar. É claro, por fim <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses se interessaram pel<strong>os</strong> seres human<strong>os</strong>, e nasceu a civilizaçãooci<strong>de</strong>ntal.- Mas agora <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses não po<strong>de</strong>m morrer, certo? Quero dizer, enquanto a civilização oci<strong>de</strong>ntalestiver viva, eles estarão viv<strong>os</strong>. Assim... mesmo se eu fracassar, nada po<strong>de</strong> acontecer <strong>de</strong> tão ruim aponto <strong>de</strong> estragar tudo, certo?Quíron me <strong>de</strong>u um sorriso melancólico.- Ninguém sabe quanto tempo a Era do Oci<strong>de</strong>nte irá durar, Percy. Os <strong>de</strong>uses são imortais, sim.Mas <strong>os</strong> Titãs também eram imortais. Eles ainda existem, trancad<strong>os</strong> em suas várias prisões,


forçad<strong>os</strong> a suportar dores e castig<strong>os</strong> infinit<strong>os</strong>, com o po<strong>de</strong>r reduzido, mas ainda muito viv<strong>os</strong>. Queas Parcas não permitam que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses sofram tal maldição, ou que retornem<strong>os</strong> às trevas e a<strong>os</strong> ca<strong>os</strong>do passado. Tudo o que po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> fazer, criança, é seguir n<strong>os</strong>so <strong>de</strong>stino.- N<strong>os</strong>so <strong>de</strong>stino... presumindo que saibam<strong>os</strong> qual é.- Relaxe - disseme Quíron. - Mantenha as idéias no lugar. E lembre-se, você po<strong>de</strong> estar a ponto<strong>de</strong> evitar a maior guerra da história humana.- Relaxe - disse eu. - Estou muito relaxado.Quando cheguei ao pé da colina, olhei para trás. Sob o pinheiro que outrora era Thalia, filha <strong>de</strong>Zeus, Quíron estava em plena forma <strong>de</strong> homem-cavalo, segurando no alto seu arco em saudação.Uma típica <strong>de</strong>spedida do acampamento <strong>de</strong> verão pelo seu típico centauro.*****Arg<strong>os</strong> n<strong>os</strong> levou para fora da zona rural em direção ao oeste <strong>de</strong> Long Island. Era esquisito estarnovamente em uma auto-estrada, com Annabeth e Grover sentad<strong>os</strong> ao meu lado como se fôssem<strong>os</strong>caronas normais. Depois <strong>de</strong> duas semana na Colina Meio-Sangue, o mundo real parecia umafantasia.Surpreendi-me olhando para cada McDonald’s, cada criança no banco traseiro do carro d<strong>os</strong> pais,cada cartaz e cada shopping center.- Até agora, tudo bem - disse a Annabeth. - Quinze quilômetr<strong>os</strong> e nem um único monstro.Ela me lançou um olhar irritado.- Falar <strong>de</strong>sse jeito traz má sorte, cabeça <strong>de</strong> alga.- Aju<strong>de</strong>-me a lembrar: por que você me o<strong>de</strong>ia tanto?- Eu não o<strong>de</strong>io você.- P<strong>os</strong>so estar enganado.Ela dobrou o boné <strong>de</strong> invisibilida<strong>de</strong>.- Olhe... é só que não <strong>de</strong>veríam<strong>os</strong> n<strong>os</strong> dar bem, ok? N<strong>os</strong>s<strong>os</strong> pais são rivais.- Por quê?Ela suspirou.- Quantas razões você quer? Uma vez minha mãe pegou P<strong>os</strong>eidon com a namorada <strong>de</strong>le notemplo <strong>de</strong> Atena, o que é super<strong>de</strong>srespeit<strong>os</strong>o. Outra vez, Atena e P<strong>os</strong>eidon competiram para ser o<strong>de</strong>us patrono da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenas. Seu pai criou uma estúpida fonte <strong>de</strong> água salgada comopresente. Minha mãe criou a oliveira. As pessoas viram que o presente <strong>de</strong>la era melhor, portanto<strong>de</strong>ram à cida<strong>de</strong> o nome <strong>de</strong>la.- Elas realmente <strong>de</strong>vem g<strong>os</strong>tar <strong>de</strong> azeitonas.- Ah, <strong>de</strong>ixa pra lá.- Agora, se ela tivesse inventado a pizza... isso eu po<strong>de</strong>ria enten<strong>de</strong>r.- Eu disse: <strong>de</strong>ixa pra lá.No assento dianteiro, Arg<strong>os</strong> sorriu. Ele não disse nada, mas olho azul na sua nuca piscou paramim.O trânsito ficou lento no Queens. Quando chegam<strong>os</strong> a Manhattan já era pôr-do-sol e começava achover.Arg<strong>os</strong> n<strong>os</strong> largou na Estação Greyhound no Upper East Si<strong>de</strong>, não longe do apartamento <strong>de</strong>minha mãe e Gabe. Em uma caixa <strong>de</strong> correio, preso com fita a<strong>de</strong>siva, havia um folheto encharcadocom meu retrato: VOCÊ VIU ESTE MENINO?Eu o arranquei antes que Annabeth e Grover pu<strong>de</strong>ssem vê-lo.


Arg<strong>os</strong> <strong>de</strong>scarregou n<strong>os</strong>sas malas, certificou-se <strong>de</strong> que havíam<strong>os</strong> conseguido as passagens <strong>de</strong>ônibus e então foi embora, o olho nas c<strong>os</strong>tas <strong>de</strong> sua mão se abrindo para n<strong>os</strong> observar enquantotirava o carro do estacionamento.Pensei em como estava perto do meu velho apartamento. Em um dia normal, minha mãe estariachegando em casa da doceria mais ou men<strong>os</strong> naquela hora. Gabe Cheir<strong>os</strong>o provavelmente estavalá, jogando pôquer, sem nem sentir a falta <strong>de</strong>la.Grover pôs sua mochila n<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>. Olhou rua abaixo, na direção em que eu estava olhando.- Quer saber por que ela se casou com ele, Percy?Olhei para ele.- Você está lendo a minha mente ou coisa assim?- Só as suas emoções. - Ele encolheu <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>. - Acho que me esqueci <strong>de</strong> contar que <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>po<strong>de</strong>m fazer isso. Você estava pensando na sua mãe e no seu padrasto, certo?Eu assenti, me perguntando o que mais Grover teria esquecido <strong>de</strong> contar.- Sua mãe se casou com gabe por você - Grover me contou. - Você o chama <strong>de</strong> ―Cheir<strong>os</strong>oǁ, masnão tem idéia. O cara tem essa aura... Eca, eu p<strong>os</strong>so sentir o cheiro <strong>de</strong>le daqui. P<strong>os</strong>so sentirvestígi<strong>os</strong> do cheiro <strong>de</strong>le em você, e já faz uma semana que você esteve perto <strong>de</strong>le.- Obrigado - falei. - On<strong>de</strong> fica o chuveiro mais próximo?- Você <strong>de</strong>via ser grato, Percy. Seu padrasto tem um cheiro tão repulsivamente humano que po<strong>de</strong>mascarar a presença <strong>de</strong> qualquer semi<strong>de</strong>us. Assim que inalei o ar <strong>de</strong>ntro do seu Camaro, eu soube:Gabe esteve encobrindo seu cheiro por an<strong>os</strong>. Se você não tivesse morado com ele durante tod<strong>os</strong> <strong>os</strong>verões, provavelmente teria sido encontrado por monstr<strong>os</strong> muito tempo atrás. Sua mãe ficou comele para proteger você. Era uma senhora esperta. Devia amar muito você para aturar aquele cara...se é que isso o faz se sentir melhor.Não fazia, mas me forcei para não <strong>de</strong>monstrar. Eu a varei <strong>de</strong> novo, pensei. Ela não se foi.Fiquei imaginando se Grover ainda podia ler as minhas emoções, confusas como estavam.Estava grato por ele e Annabeth estarem comigo, mas me sentia culpado porque não fora sincerocom eles. Não lhes contara a verda<strong>de</strong>ira razão <strong>de</strong> ter dito sim para aquela missão maluca.A verda<strong>de</strong> era que eu não me importava em recuperar o relâmpago <strong>de</strong> Zeus, em salvar o mundoou mesmo em ajudar meu pai a sair da encrenca. Quanto mais pensava nisso, mas me ressentia <strong>de</strong>P<strong>os</strong>eidon por nunca ter me visitado, nunca ter ajudado a minha mãe, nunca se quer mandado umadroga <strong>de</strong> cheque <strong>de</strong> pensão alimentícia. Ele só me reconhecera porque tinha um serviço a ser feito.Eu só me preocupava com minha mãe. Ha<strong>de</strong>s a levara injustamente, e Ha<strong>de</strong>s iria <strong>de</strong><strong>vol</strong>vê-la.Você será traído por aquele que chama <strong>de</strong> amigo, sussurrou o Oráculo em minha mente. E, nofim, irá fracassar em salvar aquilo que mais importa.Cale a boca, respondi.*****A chuva continua caindo.Ficam<strong>os</strong> impacientes esperando o ônibus e <strong>de</strong>cidim<strong>os</strong> brincar <strong>de</strong> footbag com uma das maçãs <strong>de</strong>Grover.Annabeth foi incrível. Ela era capaz <strong>de</strong> arremeter a maçã com o joelho, com o cotovelo, com oombro, ou o que f<strong>os</strong>se. Eu mesmo não era <strong>de</strong> todo ruim.O jogo terminou quando arremessei a maçã para Grover e ela chegou perto <strong>de</strong>mais da sua boca.Em uma megamordida <strong>de</strong> bo<strong>de</strong>, n<strong>os</strong>sa footbag <strong>de</strong>sapareceu - miolo, pedúnculo e tudo.Grover enrubesceu. Ele tentou se <strong>de</strong>sculpar, mas Annabeth e eu estávam<strong>os</strong> muito ocupad<strong>os</strong>dando risada.


Finalmente o ônibus chegou. Enquanto estávam<strong>os</strong> na fila para embarcar, Grover começou aolhar em <strong>vol</strong>ta, farejando o ar do jeito como farejava seu lanche favorito na cantina da escola -enchiladas.- O que foi isso? - perguntei.- Não sei - disse ele, tenso. - Talvez não seja nada.Mas podia perceber que era alguma coisa. Também comecei a olhar para trás por cima doombro.Fiquei aliviado quando afinal embarcam<strong>os</strong> e encontram<strong>os</strong> lugar junt<strong>os</strong> na parte <strong>de</strong> trás doônibus.Guardam<strong>os</strong> n<strong>os</strong>sas mochilas. Annabeth batia nerv<strong>os</strong>amente seu boné d<strong>os</strong> Yankees na coxa.Quando <strong>os</strong> últim<strong>os</strong> passageir<strong>os</strong> subiram, Annabeth apertou com força o meu joelho. ―Percyǁ.Uma senhora acabava <strong>de</strong> embarcar no ônibus. Usava vestido <strong>de</strong> veludo amarrotado, luvas <strong>de</strong>renda e chapéu laranja, tricotado e disforme, que encobria seu r<strong>os</strong>to, e carregava uma gran<strong>de</strong> bolsa<strong>de</strong> lã estampada. Quando ergueu a cabeça seus olh<strong>os</strong> pret<strong>os</strong> faiscaram, e meu coração <strong>de</strong>u umpulo.Era a sra. Dodds. Mais velha, mas enrugada, mas sem dúvida a mesma cara maligna.Eu me encolhi no assento.Atrás <strong>de</strong>la subiram mais duas senhoras: uma <strong>de</strong> chapéu ver<strong>de</strong>, outra <strong>de</strong> chapéu roxo. A não serpor isso, eram parecidíssimas com a sra. Dodds - as mesmas mã<strong>os</strong> encarquilhadas, as mesmasbolsas <strong>de</strong> lã, <strong>os</strong> mesmo vestid<strong>os</strong> <strong>de</strong> veludo enrugad<strong>os</strong>. Um trio <strong>de</strong> avós <strong>de</strong>moníacas.Elas se sentaram na fileira da frente, logo atrás do motorista. As duas no corredor cruzaram aspernas bem na passagem, formando um X. Aquilo era bastante normal, mas enviava umamensagem clara: ninguém sai.O ônibus partiu da estação e seguim<strong>os</strong> pelas ruas escorregadias <strong>de</strong> Manhattan.- Ela não ficou morta muito tempo - disse eu, tentando impedir minha voz <strong>de</strong> tremer. - Acheique você tivesse dito que eles po<strong>de</strong>m ser afastad<strong>os</strong> por toda uma vida.- Eu disse, se você tiver sorte - disse Annabeth. - Você obviamente não tem.- Todas as três - choramingou Grover. - Di immortales!- Está tudo bem - disse Annabeth, obviamente se empenhando em pensar. - As Fúrias. Os trêspiores monstr<strong>os</strong> do Mundo Inferior. Sem problemas. Sem problemas. Vam<strong>os</strong> simplesmente saltarpelas janelas.- Não abrem - gemeu Grover.- Uma saída n<strong>os</strong> fund<strong>os</strong>? - sugeriu ela.Não havia nenhuma. E, mesmo que houvesse, não teria ajudado. Àquela altura, estávam<strong>os</strong> naNona Avenida, em direção ao Túnel Lincoln.- Elas não vão n<strong>os</strong> atacar com testemunhas em <strong>vol</strong>ta - disse eu. - Ou vão?- Os mortais não têm bons olh<strong>os</strong> - lembrou-me Annabeth. - Seus cérebr<strong>os</strong> só po<strong>de</strong>m processar oque eles vêem através da Névoa.- Eles vão ver três velhas n<strong>os</strong> matando, não vão?Ela pensou a respeito.- Difícil dizer. Mas não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> contar com a ajuda <strong>de</strong> mortais. Talvez uma saída <strong>de</strong>emergência no teto...?Chegam<strong>os</strong> ao Túnel Lincoln, e o ônibus ficou às escuras a não ser pelas luzes do corredor.Estava assustadoramente silenci<strong>os</strong>o sem o ruído da chuva.


A sra. Dodds se levantou. Com uma voz inexpressiva, como se tivesse ensaiado aquilo, elaanunciou para o ônibus inteiro: - Preciso usar o toalete.- Eu também - disse a segunda irmã.- Eu também - disse a terceira irmã.Todas elas começaram a se aproximar pelo corredor.- Já sei - disse Annabeth. - Percy, pegue meu chapéu.- O quê?- É você que elas querem. Fique invisível e siga pelo corredor. Deixe que elas passem por você.Talvez você p<strong>os</strong>sa chegar até a frente e escapar.- Mas vocês...- Há uma pequena p<strong>os</strong>sibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> que elas não reparem em nós - disse Annabeth. - Você éfilho <strong>de</strong> um d<strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s. Seu cheiro <strong>de</strong>ve encobrir o n<strong>os</strong>so.- Não p<strong>os</strong>so abandonar vocês.- Não se preocupe con<strong>os</strong>co - disse Grover. - Vá!Minhas mã<strong>os</strong> tremiam. Eu me senti um covar<strong>de</strong>, mas peguei o boné d<strong>os</strong> Yankees e pus nacabeça.Quando olhei para baixo, meu corpo não estava mais ali.Comecei a me esgueirar pelo corredor. Consegui passar <strong>de</strong>z fileiras, <strong>de</strong>pois me esquivei paraum assento vazio bem quando as Fúrias passaram.A sra. Dodds parou, farejando, e olhou diretamente para mim. Meu coração estava disparado.Parecia não ter visto nada. Ela e as irmãs continuaram andando.Eu estava livre. Cheguei até a frente do ônibus. Já estávam<strong>os</strong> quase saindo do Túnel Lincoln.Estava a ponto <strong>de</strong> apertar o botão <strong>de</strong> parada <strong>de</strong> emergência quando ouvi lament<strong>os</strong> abomináveisvind<strong>os</strong> da fileira do fundo.As velhas não eram mais velhas. Os r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> ainda eram <strong>os</strong> mesm<strong>os</strong> - acho que seria imp<strong>os</strong>sívelficarem mais fei<strong>os</strong> -, mas <strong>os</strong> corp<strong>os</strong> haviam murchado e tinham o aspecto <strong>de</strong> um couro marromsobre formas <strong>de</strong> bruxas, com asas <strong>de</strong> morcego e mã<strong>os</strong> e pés como garras <strong>de</strong> gárgulas. As bolsasviraram chicotes chamejantes.As Fúrias cercaram Grover e Annabeth estalando <strong>os</strong> chicotes e sibilando: - On<strong>de</strong> está? On<strong>de</strong>?As outras pessoas no ônibus estavam gritando, escon<strong>de</strong>ndo-se em seus banc<strong>os</strong>. Certo, elas viramalguma coisa.- Ele não está aqui! - gritou Annabeth. - Saiu!As Fúrias ergueram <strong>os</strong> chicotes.Annabeth sacou a faca <strong>de</strong> bronze. Grover agarrou uma lata da sua sacola <strong>de</strong> lanches e sepreparou para jogá-la.O que eu fiz a seguir foi tão impulsivo e perig<strong>os</strong>o que eu merecia ser o rei do transtorno dodéficit <strong>de</strong> atenção do ano.O motorista do ônibus estava distraído, tentando enxergar o que estava acontecendo peloespelho retrovisor.Ainda invisível, agarrei o <strong>vol</strong>ante e <strong>de</strong>i um tranco para a esquerda. Tod<strong>os</strong> gritaram ao seremjogad<strong>os</strong> para a direita, e ouvi o que esperava ser o som das três Fúrias esmagadas contra asjanelas.- Ei! - gritou o motorista. - Ei! Oaaa!Ele lutou para segurar o <strong>vol</strong>ante. O ônibus chocou-se com a lateral do túnel, o metal arrastado


pela pare<strong>de</strong> lançando fagulhas um quilômetro atrás <strong>de</strong> nós.Saím<strong>os</strong> <strong>de</strong> lado do túnel, <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta à tempesta<strong>de</strong>, com pessoas e monstr<strong>os</strong> arremessad<strong>os</strong> <strong>de</strong> umcanto a outro do ônibus e carr<strong>os</strong> jogad<strong>os</strong> <strong>de</strong> lado como se f<strong>os</strong>sem pin<strong>os</strong> <strong>de</strong> boliche.De algum modo o motorista achou uma saída. Arremessamo-n<strong>os</strong> para fora da auto-estrada,passam<strong>os</strong> méis dúzia <strong>de</strong> semáfor<strong>os</strong> e acabam<strong>os</strong> disparando por uma daquelas estradas rurais <strong>de</strong>New Jersey, nas quais não dá para acreditar que exista tanto nada do outro lado do rio quando se<strong>de</strong>ixa Nova York. Havia b<strong>os</strong>ques à n<strong>os</strong>sa esquerda e o rio Hudson à direita, e o motorista pareciase <strong>de</strong>sviar na direção do rio.Outra gran<strong>de</strong> idéia: aperto o freio <strong>de</strong> emergência.O ônibus gemeu, traçou um circulo completo sobre o asfalto molhado e se chocou contra asárvores. As luzes <strong>de</strong> emergência se acen<strong>de</strong>ram. A porta se abriu. O motorista foi o primeiro a sair,com <strong>os</strong> passageir<strong>os</strong> gritando enquanto fugiam em pânico atrás <strong>de</strong>le. Subi no assento do motorista e<strong>de</strong>ixei-<strong>os</strong> passar.As Fúrias retomaram o equilíbrio. Estalaram <strong>os</strong> chicotes para Annabeth enquanto ela brandia afaca e gritava em grego antigo que recuassem. Grover atirava latas.Olhei para a porta aberta. Eu estava livre para partir, mas não podia abandonar meus amig<strong>os</strong>.Tirei o boné invisível.- Ei!As Fúrias se viraram, m<strong>os</strong>trando as presas amareladas para mim, e a saída <strong>de</strong> repente mepareceu uma excelente idéia. A sra. Dodds avançou <strong>de</strong> modo arrogante pelo corredor, comoc<strong>os</strong>tumava fazer em classe, pronta para entregar meu F na prova <strong>de</strong> matemática. Cada vez que elaestalava o chicote, chamas vermelhas dançavam pelo couro farpado.Suas duas irmãs horror<strong>os</strong>as pularam para cima d<strong>os</strong> assent<strong>os</strong> <strong>de</strong> amb<strong>os</strong> <strong>os</strong> lad<strong>os</strong> e se arrastaramna minha direção como dois lagart<strong>os</strong> enormes e asquer<strong>os</strong><strong>os</strong>.- Perseu Jackson - disse a sra.Dodds com um sotaque que vinha <strong>de</strong> algum lugar mais distante doque o sul da Geórgia. - Você ofen<strong>de</strong>u <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Você <strong>de</strong>ve morrer.- Eu g<strong>os</strong>tava mais <strong>de</strong> você como professora <strong>de</strong> matemática - falei.Ela r<strong>os</strong>nou.Annabeth e Grover se aproximaram com cautela por trás das Fúrias, procurando uma passagem.Tirei a esferográfica do bolso e a <strong>de</strong>stampei. Contracorrente se alongou e virou uma reluzenteespada <strong>de</strong> fio duplo.As Fúrias hesitaram.A sra. Dodds já havia sentido a lamina <strong>de</strong> Contracorrente antes. Obviamente não g<strong>os</strong>tou <strong>de</strong> vê-la<strong>de</strong> novo.- Renda-se agora - sibilou. - E não sofrerá o tormento eterno.- Boa tentativa - disse a ela.- Percy, cuidado! - gritou Annabeth.A sra. Dodds lançou seu chicote em <strong>vol</strong>ta da mão com a qual eu segurava a espada, enquanto asFúrias em cada lado pularam em cima <strong>de</strong> mim.Era como se minha mão estivesse en<strong>vol</strong>ta em chumbo <strong>de</strong>rretido, mas consegui não soltarContracorrente.Atingi a Fúria da esquerda com o cabo e a man<strong>de</strong>i cambaleando <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas para a poltrona. Vireie fiz um corte na Fúria da direita. Assim que a lamina entrou em contato com o pescoço <strong>de</strong>la, elagritou e explodiu em pó. Annabeth agarrou a sra. Dodds em um golpe <strong>de</strong> luta e a atirou para trás,


enquanto Grover arrancava o chicote <strong>de</strong> suas mã<strong>os</strong>.- Ai! - gritou ele. - Ai! Quente! Quente!A Fúria que eu havia atingido com o cabo da espada veio <strong>de</strong> novo para cima <strong>de</strong> mim, garras àm<strong>os</strong>tra, mas <strong>de</strong>sferi um golpe com Contracorrente e ela estourou como um saco cheio <strong>de</strong> bolinhas<strong>de</strong> isopor.A sra. Dodds estava tentando tirar Annabeth das c<strong>os</strong>tas. Ela esperneou, arranhou, sibilou emor<strong>de</strong>u, mas Annabeth se agarrou firme enquanto Grover amarrava suas pernas com seu própriochicote. Depois <strong>os</strong> dois a empurraram <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas para o corredor. A sra. Dodds tentou se erguer,mas não havia espaço para ela bater as asas <strong>de</strong> morcego, portanto continuou caindo.- Zeus o <strong>de</strong>struirá! - prometeu ela. - Ha<strong>de</strong>s terá sua alma!- Braccas meas vescimini! - gritei.Eu não sabia muito bem <strong>de</strong> on<strong>de</strong> viera o latim. Acho que queria dizer: ―Coma as minhascalças!ǁUm trovão sacudiu o ônibus. Os cabel<strong>os</strong> se eriçaram na minha nuca.- Fora! - gritou Annabeth para mim. - Agora!Não era necessário.Correm<strong>os</strong> para fora e encontram<strong>os</strong> <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> passageir<strong>os</strong> andando <strong>de</strong> uma lado para outro,atordoad<strong>os</strong>, discutindo com o motorista ou correndo em círcul<strong>os</strong> e gritando: ―Nós vam<strong>os</strong>morrer!ǁ Um turista <strong>de</strong> camisa com estampa havaiana e uma câmara bateu uma foto minha antesque eu pu<strong>de</strong>sse pôr a tampa na minha espada.- N<strong>os</strong>sas malas! - Grover se <strong>de</strong>u conta. - Nós <strong>de</strong>ixam<strong>os</strong> n<strong>os</strong>sas...BUUUUUUM!!As janelas do ônibus explodiram enquanto <strong>os</strong> passageir<strong>os</strong> corriam para se abrigar. Umrelâmpago rasgara uma enorme cratera no teto, mas um lamento furi<strong>os</strong>o lá <strong>de</strong>ntro me disse que asra. Dodds ainda não estava morta.- Corram! - disse Annabeth. - Ela está chamando reforç<strong>os</strong>! Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> sair daqui!Mergulham<strong>os</strong> para <strong>de</strong>ntro d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques enquanto a chuva <strong>de</strong>spencava torrencialmente, com oônibus em chamas atrás <strong>de</strong> nós e nada à frente a não ser trevas.ONZE – N<strong>os</strong>sa visita ao Empório <strong>de</strong> Anões <strong>de</strong> Jardim.De certo modo, é bom saber que há <strong>de</strong>uses greg<strong>os</strong> lá fora, porque aí tem<strong>os</strong> alguém para culparquando as coisas dão errado. Por exemplo, quando você está se afastando a pé <strong>de</strong> um ônibus queacaba <strong>de</strong> ser atacado por bruxas monstru<strong>os</strong>as e explodido por um relâmpago, e ainda por cima estáchovendo, a maioria das pessoas acha que na verda<strong>de</strong> isso é apenas muita falta <strong>de</strong> sorte - quand<strong>os</strong>e é um meio-sangue, a gente sabe que alguma força divina está tentando estragar o n<strong>os</strong>so dia.Então lá estávam<strong>os</strong> nós, Annabeth, Grover e eu, andando pel<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques ao longo da margem dorio, em New Jersey, as luzes <strong>de</strong> Nova York tornando o céu amarelo atrás <strong>de</strong> nós e o fedor do rioHudson entrando por n<strong>os</strong>so nariz.Grover estava tremendo e balindo, e seus gran<strong>de</strong>s olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> bo<strong>de</strong>, cujas pupilas haviam setransformado em fendas, estavam chei<strong>os</strong> <strong>de</strong> terror.- Três Bene<strong>vol</strong>entes. As três <strong>de</strong> uma vez.Eu mesmo estava em estado <strong>de</strong> choque. A expl<strong>os</strong>ão das janelas do ônibus ainda ecoava em meusouvid<strong>os</strong>. Mas Annabeth n<strong>os</strong> fazia seguir, dizendo: - Vam<strong>os</strong>! Quanto mais longe chegarm<strong>os</strong>,


melhor.- Todo o n<strong>os</strong>so dinheiro ficou lá atrás - lembrei. - N<strong>os</strong>sa comida e n<strong>os</strong>sas roupas. Tudo.- Bem, quem sabe se você não tivesse <strong>de</strong>cidido entrar na briga...- O que queria que eu fizesse? Deixasse vocês serem mort<strong>os</strong>?- Você não precisava me proteger, Percy. Eu ia ficar bem.- fatiada como pão <strong>de</strong> fôrma - interveio Grover -, mas bem.- Cale a boca, garoto-bo<strong>de</strong> - disse Annabeth.Grover baliu, triste.- As latas... Uma sacola <strong>de</strong> latas perfeitamente boa.Nós chapinham<strong>os</strong> pelas terras lamacentas, por entre horríveis árvores retorcidas que tinham umcheiro azedo <strong>de</strong> roupa suja.Depois <strong>de</strong> alguns minut<strong>os</strong>, Annabeth veio para o meu lado.- Olhe, eu... - sua voz vacilou. - Eu g<strong>os</strong>tei <strong>de</strong> você ter <strong>vol</strong>tado para n<strong>os</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r, ok? Aquilo foirealmente coraj<strong>os</strong>o.- Som<strong>os</strong> uma equipe, certo?Ela ficou em silêncio por mais alguns pass<strong>os</strong>.- É só que, se você morresse... além do fato <strong>de</strong> que seria realmente uma droga para você, iss<strong>os</strong>ignificaria o fim da missão. Esta po<strong>de</strong> ser a minha única chance <strong>de</strong> ver o mundo real.A tempesta<strong>de</strong> havia finalmente acalmado. As luzes da cida<strong>de</strong> diminuíram atrás <strong>de</strong> nós,<strong>de</strong>ixando-n<strong>os</strong> em uma escuridão quase total. Não conseguia ver nada <strong>de</strong> Annabeth a não ser umreflexo <strong>de</strong> seu cabelo loiro.- Você não sai do Acampamento Meio-Sangue <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que tinha sete an<strong>os</strong>? - perguntei-lhe.- Não... apenas excursões rápidas. Meu pai...- O professor <strong>de</strong> história.- É. Não <strong>de</strong>u certo morar em casa. Quer dizer, o Acampamento Meio-Sangue é a minha casa. -Ela agora estava <strong>de</strong>spejando as palavras como se tivesse medo <strong>de</strong> que alguém a interrompesse. -No acampamento a gente treina, treina. E é legal e tudo mais, mas o mundo real é on<strong>de</strong> <strong>os</strong>monstr<strong>os</strong> estão. É on<strong>de</strong> a gente <strong>de</strong>scobre se serve para alguma coisa ou não.Se não a conhecesse bem, po<strong>de</strong>ria ter jurado que ouvi dúvida em sua voz.- Você é muito boa com aquela faca - falei.- Você acha?- Qualquer um que seja capaz <strong>de</strong> montar nas c<strong>os</strong>tas <strong>de</strong> uma Fúria, para mim, é muito bom.Não pu<strong>de</strong> ver direito, mas acho que ela <strong>de</strong>u um sorrisinho.- Sabe - disse ela -, talvez eu <strong>de</strong>va lhe contar... Uma coisa engraçada lá no ônibus...O que quer que ela quisesse dizer foi interrompido por um piado estri<strong>de</strong>nte, como o som <strong>de</strong> umacoruja sendo torturada.- Ei, as minhas flautas <strong>de</strong> bambu ainda funcionam! - exclamou Grover. - Se ao men<strong>os</strong> eupu<strong>de</strong>sse me lembrar <strong>de</strong> uma melodia <strong>de</strong> ―achar caminhoǁ, po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> sair <strong>de</strong>sses b<strong>os</strong>ques!Ele soprou algumas notas, mas a semelhança da melodia com a <strong>de</strong> Hilary Duff ainda eraquestionável.Em vez <strong>de</strong> achar um caminho, imediatamente colidi com uma árvore e arranjei um galo <strong>de</strong> bomtamanho na cabeça.Adicionar à lista <strong>de</strong> superpo<strong>de</strong>res que eu não tenho: visão infravermelha.Depois <strong>de</strong> tropeçar, praguejar e, <strong>de</strong> modo geral, me sentir infeliz por mais um quilômetro ou


algo assim, comecei a ver luzes à frente: as cores <strong>de</strong> um letreiro <strong>de</strong> neon. Senti cheiro <strong>de</strong> comida.Comida frita, gordur<strong>os</strong>a, excelente. Percebi que não havia comido nada que não f<strong>os</strong>se saudável<strong>de</strong>s<strong>de</strong> que chegara à Colina Meio-Sangue, on<strong>de</strong> vivíam<strong>os</strong> <strong>de</strong> uvas, pão, queijo e churrasco lightpreparado por ninfas. O garoto aqui precisava <strong>de</strong> um cheeseburguer duplo.Continuam<strong>os</strong> andando até que vi por entre as árvores uma estrada <strong>de</strong>serta <strong>de</strong> duas pistas. Dooutro lado havia um p<strong>os</strong>to <strong>de</strong> gasolina fechado, um cartaz <strong>de</strong> um filme d<strong>os</strong> an<strong>os</strong> 90 e uma lojaaberta, que era a fonte <strong>de</strong> luz <strong>de</strong> neon e do cheiro g<strong>os</strong>t<strong>os</strong>o.Não era um restaurante <strong>de</strong> fast-food como eu esperava. Era uma <strong>de</strong>ssas estranhas lojas <strong>de</strong>curi<strong>os</strong>ida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> beira <strong>de</strong> estrada, que ven<strong>de</strong>m flaming<strong>os</strong> <strong>de</strong> jardim, índi<strong>os</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, urs<strong>os</strong>pard<strong>os</strong><strong>de</strong> cimento e coisas do gênero. A construção principal era um armazém comprido e baixo,cercado por quilômetr<strong>os</strong> <strong>de</strong> estátuas. O letreiro <strong>de</strong> neon acima do portão era para mim imp<strong>os</strong>sível<strong>de</strong> ler, pois, se existe coisa pior para a minha dislexia do que inglês normal, é inglês em letrascursivas, vermelhas, em neon.Para mim, parecia MEOPRÓI ED NESÕA ED JIDARN AD IAT MEE.- Que diab<strong>os</strong> que dizer aquilo? - perguntei.- Não sei - disse Annabeth.Ela g<strong>os</strong>tava tanto <strong>de</strong> ler que eu esquecera que ela também era disléxica.Grover traduziu:- Empório <strong>de</strong> Anões <strong>de</strong> Jardim da Tia Eme.Nas laterais da entrada, conforme anunciado, havia dois anões <strong>de</strong> jardim <strong>de</strong> cimento, unsnanic<strong>os</strong> e fei<strong>os</strong> e barbad<strong>os</strong>, sorrindo e acenando como se estivessem p<strong>os</strong>ando para uma fotografia.Atravessei a rua, seguindo o cheiro d<strong>os</strong> hambúrgeres.- Ei... - avisou Grover.- As luzes estão acessas lá <strong>de</strong>ntro - disse Annabeth. - Talvez esteja aberto.- Lanchonete - falei, ansi<strong>os</strong>o.- Lanchonete - concordou ela.- Vocês dois estão louc<strong>os</strong>? - disse Grover. - Este lugar é esquisito.Nós o ignoram<strong>os</strong>.O terreno da frente era uma floresta <strong>de</strong> estátuas: animais <strong>de</strong> cimento, crianças <strong>de</strong> cimento, atéum sátiro <strong>de</strong> cimento tocando as flautas, o que <strong>de</strong>ixou Grover arrepiado.- Béééé! - baliu. - Parece meu tio Ferdinando!Param<strong>os</strong> diante da porta do armazém.- Não bata - implorou Grover. - Sinto cheiro <strong>de</strong> monstr<strong>os</strong>.- Seu nariz está congestionado com as Fúrias - disselhe Annabeth. - O único cheiro que estousentindo é <strong>de</strong> hambúrgueres. Você não está com fome?- Carne! - disse ele, <strong>de</strong>s<strong>de</strong>nh<strong>os</strong>o. - Sou vegetariano.- Você come enchiladas <strong>de</strong> queijo e latas <strong>de</strong> alumínio - lembrei-o.- São vegetais. Venham, vam<strong>os</strong> embora. Essas estátuas estão... olhando para mim.Então a porta se abriu rangendo, e diante <strong>de</strong> nós estava uma mulher alta, do Oriente Médio - eupelo presumi que f<strong>os</strong>se <strong>de</strong> lá, porque usava um longo vestido preto que escondia tudo men<strong>os</strong> asmã<strong>os</strong>, e sua cabeça estava totalmente coberta por um véu. Seus olh<strong>os</strong> brilhavam embaixo <strong>de</strong> umacortina <strong>de</strong> gaze preta, mas isso foi tudo o que pu<strong>de</strong> distinguir. As mã<strong>os</strong> cor <strong>de</strong> café pareciamvelhas, mas bem cuidadas e elegantes, portanto imaginei que se tratasse <strong>de</strong> uma avó que foraoutrora uma bonita dama.


O sotaque <strong>de</strong>la também tinha um quê do Oriente Médio. Ela disse: - Crianças, já é muito tar<strong>de</strong>para estarem sozinhas na rua. On<strong>de</strong> estão seus pais?- Eles estão... ahn... - Annabeth começou a dizer.- Nós som<strong>os</strong> órfã<strong>os</strong> - falei.- Órfã<strong>os</strong>? - disse a mulher. A palavra soou estranha em sua boca. - Mas meus querid<strong>os</strong>!Certamente não!- Nós n<strong>os</strong> per<strong>de</strong>m<strong>os</strong> da caravana - disse eu. - A caravana do n<strong>os</strong>so circo. O Mestre-<strong>de</strong>cerimônias n<strong>os</strong> disse para encontrá-lo no p<strong>os</strong>to <strong>de</strong> gasolina se n<strong>os</strong> perdêssem<strong>os</strong>, mas ele po<strong>de</strong> teresquecido, ou talvez se referisse a outro p<strong>os</strong>to <strong>de</strong> gasolina. De qualquer modo, estam<strong>os</strong> perdid<strong>os</strong>.Esse cheiro é <strong>de</strong> comida?- Ah, meus querid<strong>os</strong> - disse a mulher. - Vocês precisam entrar, pobres crianças. Eu sou a tiaEme. Vão direto para <strong>os</strong> fund<strong>os</strong> do armazém, por favor. Ali há um lugar para refeições.Agra<strong>de</strong>cem<strong>os</strong> e entram<strong>os</strong>.Annabeth murmurou para mim;- Caravana do circo?- Sempre há uma estratégia, certo?- Sua cabeça está cheia <strong>de</strong> algas.O armazém era abarrotado <strong>de</strong> mais estátuas - pessoas, todas em p<strong>os</strong>es diferentes, usando roupasdiferentes e com expressões diferentes no r<strong>os</strong>to. Fiquei imaginando que era preciso ter um jardimbem gran<strong>de</strong> para alojar ainda que uma única estátua daquelas, porque eram todas em tamanhonatural. Mas eu estava mesmo era pensando em comida.Vá em frente, po<strong>de</strong> me chamar <strong>de</strong> idiota por ir entrando na loja <strong>de</strong> uma senhora estranha comoaquela só porque estava com fome, mas às vezes faço as coisas por impulso. Além disso, vocênunca sentiu o cheiro d<strong>os</strong> hambúrgueres da tia Eme. O aroma era como um gás hilariante naca<strong>de</strong>ira do <strong>de</strong>ntista – fazia sumir todo o resto. Mal reparei n<strong>os</strong> soluç<strong>os</strong> nerv<strong>os</strong><strong>os</strong> <strong>de</strong> Grover, nem nomodo como <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> das estátuas pareciam me seguir ou no fato <strong>de</strong> que a tia Eme trancara a portaatrás <strong>de</strong> nós.Tudo o que me preocupava era achar o lugar das refeições. E, sem duvida, lá estava, no fundodo armazém, um balcão <strong>de</strong> sanduíches com uma grelha, uma maquina <strong>de</strong> refrigerantes, uma estufa<strong>de</strong> pretzels e uma máquina <strong>de</strong> queijo nacho. Tudo o que po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> querer, mais algumas mesas<strong>de</strong> piquinique <strong>de</strong> aço na frente.- Por favor, sentem-se - disse a tia Eme.- Fantástico - comentei.- Hum - disse Grover com relutância -, não tem<strong>os</strong> nenhum dinheiro, senhora.Antes que eu pu<strong>de</strong>sse dar uma cotovelada nas c<strong>os</strong>telas <strong>de</strong>le, a tia Eme disse: - Não, não,crianças. Nada <strong>de</strong> dinheiro. Esse é um caso especial, certo? Para órfã<strong>os</strong> tão simpátic<strong>os</strong>, é porminha conta.- Obrigada, senhora - disse Annabeth.Tia Eme enrijeceu-se, como se Annabeth tivesse dito algo <strong>de</strong> errado, mas <strong>de</strong>pois, com a mesmarapi<strong>de</strong>z, relaxou. Portanto achei que estivesse imaginando coisas.- Não tem <strong>de</strong> quê, Annabeth. Você tem uns olh<strong>os</strong> cinzent<strong>os</strong> tão bonit<strong>os</strong>, criança. - Só <strong>de</strong>pois meperguntei como ela sabia o nome <strong>de</strong> Annabeth, já que não tínham<strong>os</strong> n<strong>os</strong> apresentado.N<strong>os</strong>sa anfitriã <strong>de</strong>sapareceu atrás do balcão e começou a cozinhar. Antes que eu me <strong>de</strong>sse conta,ela n<strong>os</strong> tinha trazido ban<strong>de</strong>jas <strong>de</strong> plástico com cheesburguer dupl<strong>os</strong>, Milk-shakes <strong>de</strong> baunilha e


porções gigantes <strong>de</strong> batas fritas.Eu já tinha comido meta<strong>de</strong> do meu sanduíche quando me lembrei <strong>de</strong> respirar.Annabeth sorveu ruid<strong>os</strong>amente seu Milk-shake.Grover beliscou as batatas fritas e olhou para o papel-toalha da ban<strong>de</strong>ja como quem po<strong>de</strong>riaexperimentar aquilo, mas ainda parecia nerv<strong>os</strong>o <strong>de</strong>mais para comer.- O que é esse chiado? - perguntou ele.Prestei atenção, mas não ouvi nada. Annabeth sacudiu a cabeça.- Chiado? - perguntou tia Eme. - Talvez você esteja ouvindo o óleo <strong>de</strong> fritura. Voce tem bonsouvid<strong>os</strong>, Grover.- Eu tomo vitaminas. Para <strong>os</strong> ouvid<strong>os</strong>.- Admirável - disse ela. - Mas, por favor, relaxe.Tia Eme não comeu nada. Ela não <strong>de</strong>scobrira a cabeça nem para cozinhar, e agora estavasentada com <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong> entelaçad<strong>os</strong>, observando enquanto comíam<strong>os</strong>. Era um pouco incômodo serobservado por alguém cujo o r<strong>os</strong>to eu não conseguia ver, mas me sentia satisfeito <strong>de</strong>pois d<strong>os</strong>anduíche, e um pouco sonolento, e imaginei que o mínimo que podia fazer era puxar um pouco <strong>de</strong>conversa com n<strong>os</strong>sa anfitriã.- Então, você ven<strong>de</strong> anões - falei, tentando parecer interessado.- Ah, sim - disse tia Eme. - E animais. E pessoas. Tudo para o jardim. Sob encomenda. Asestátuas são muito populares, sabe.- Muito movimento nessa estrada?- Não, nem tanto. Des<strong>de</strong> que a auto-estrada foi construída... a maioria d<strong>os</strong> carr<strong>os</strong> já não passapor este caminho. Preciso cuidar bem <strong>de</strong> cada cliente que recebo.Senti um formigamento na nuca, como se alguém estivesse me observando. Virei-me, mas eraapenas a estátua <strong>de</strong> uma garotinha segurando uma cesta <strong>de</strong> Páscoa. Os <strong>de</strong>talhes eram incríveis,muito melhores que <strong>os</strong> vist<strong>os</strong> na maioria das estátuas <strong>de</strong> jardim. Mas havia algo <strong>de</strong> errado com seur<strong>os</strong>to. Ela parecia assustada, até aterriorizada.- Ah! - disse tia Eme com tristeza. - Você po<strong>de</strong> notar que alguma das minhas criações não dãomuito certo.Elas são <strong>de</strong>feitu<strong>os</strong>as. Não ven<strong>de</strong>m. O r<strong>os</strong>to é a parte mais difícil <strong>de</strong> sair perfeito. Sempre or<strong>os</strong>to.- Você mesma faz estas estátuas? - perguntei.- Ah, sim. Já tive duas irmãs para me ajudar no negócio, mas elas faleceram, e a tia Eme ficousozinha. Só tenho as minhas estátuas. É por isso que as faço, sabe? São minha compania. - atristeza na voz <strong>de</strong>la parecia tão profunda e tão real que não pu<strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> sentir pena.Annabeth tinha parado <strong>de</strong> comer. Ela se inclinou e disse: - Duas irmãs?- É uma história terrível - disse tia Eme. - Não é para crianças, na verda<strong>de</strong>. Veja, Annabeth, umamulher má estava com inveja <strong>de</strong> mim, muito tempo atrás, quando eu era jovem. Eu tinha um... umnamorado, sabe, e essa mulher má estava <strong>de</strong>terminada a n<strong>os</strong> separar. Ela provocou um aci<strong>de</strong>nteterrível. Minhas irmãs ficaram do meu lado. Compartilharam a minha má sorte enquanto foip<strong>os</strong>sível, mas por fim morreram. Elas se esvaíram. Só eu sobrevivi, mas a um preço. Que preço.Não entendi muito bem o que ela queria dizer, mas senti pena. Minhas pálpebras estavam cadavez mais pesadas, o estômago cheio me <strong>de</strong>ixara sonolento. Coitada da velha senhora. Quem iaquerer fazer mal a alguém tão gentil?- Percy? - Annabeth me sacudia para chamar minha atenção. - Acho que <strong>de</strong>vem<strong>os</strong> ir. Quer dizer,


o mestre-<strong>de</strong>-cerimônias do circo <strong>de</strong>ve estar esperando.A voz <strong>de</strong>la pareceu tensa. Eu não sabia muito bem por quê. Grover estava comendo o papelencerado da ban<strong>de</strong>ja, mas se tia Eme estranhou aquilo, não disse nada.- Que olh<strong>os</strong> cinzent<strong>os</strong> bonit<strong>os</strong> - disse ela, outra vez para Annabeth. - Ah, mas faz muito tempoque não vejo olh<strong>os</strong> cinzent<strong>os</strong> como esses.Ela esten<strong>de</strong>u o braço como se f<strong>os</strong>se acariciar o r<strong>os</strong>to <strong>de</strong> Annabeth, mas Annabeth se levantouabruptamente.- Precisam<strong>os</strong> mesmo ir.- Sim! - Grover engoliu o papel toalha encerado e pôs-se <strong>de</strong> pé. - O mestre-<strong>de</strong>-cerimônia estáesperando!Isso!Eu não queria ir. Estava satisfeito e contente. Tia Eme era muito gentil. Queria ficar um poucocom ela.- Por favor, querid<strong>os</strong> - implorou a tia Eme. - É tão raro eu estar com crianças... Antes <strong>de</strong> ir, nãog<strong>os</strong>tariam <strong>de</strong> pelo men<strong>os</strong> <strong>de</strong> p<strong>os</strong>ar para uma foto?- Uma foto? - perguntou Annabeth com cautela.- Sim, uma fotografia. Vou usá-la como mo<strong>de</strong>lo para um novo conjunto <strong>de</strong> estátuas. Criançassão muito populares, sabem? Todo mundo ama crianças.Annabeth se balançou <strong>de</strong> um pé para o outro.- Acho que não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong>, senhora. Vam<strong>os</strong>, Percy...- Claro que po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> - disse eu. Estava irritado com Annabeth por ser tão mandona, tão maleducadacom uma velha senhora que acabara <strong>de</strong> n<strong>os</strong> dar comida <strong>de</strong> graça. - É só uma foto,Annabeth. Qual é o problema?- Sim, Annabeth - a mulher murmurou. - Não há mal nenhum.Percebi que Annabeth não tinha g<strong>os</strong>tado, mas <strong>de</strong>ixou que tia Eme n<strong>os</strong> levasse para fora pelaporta da frente, para o jardim <strong>de</strong> estátuas.Tia Eme n<strong>os</strong> conduziu até um banco <strong>de</strong> jardim perto do sátiro <strong>de</strong> pedra.- Agora - disse ela - vou p<strong>os</strong>icionar vocês corretamente. A mocinha no meio, e <strong>os</strong> dois jovenscavalheir<strong>os</strong> em cada lado.- Não há muita luz para uma foto - observei.- Ah, é o suficiente - disse tia Eme. - Suficiente para enxergarm<strong>os</strong> um ao outro, não é?- On<strong>de</strong> está a sua câmera? - perguntou Grover.Tia Eme <strong>de</strong>u um passo atrás, como que para admirar a foto.- Agora, o r<strong>os</strong>to é o mais difícil. Vocês po<strong>de</strong>m sorrir para mim, por favor, todo mundo? Umgran<strong>de</strong> sorriso?Grover <strong>de</strong>u uma olhada para o sátiro <strong>de</strong> cimento a seu lado e murmurou: - Parece mesmo com otio Ferdinando.- Grover! - ralhou tia Eme. - Olhe para este lado, querido.Ela ainda não tinha nenhuma câmera nas mã<strong>os</strong>.- Percy... - disse Annabeth.Algum instinto me advertiu a dar ouvid<strong>os</strong> a Annabeth, mas eu estava lutando contra a sensação<strong>de</strong> sono, a agradável moleza induzida pela comida e pela voz da velha senhora.- Não vai <strong>de</strong>morar nem um segundo - disse tia Eme. - Sabe, não consigo vê-l<strong>os</strong> muito bem por


causa <strong>de</strong>sse maldito véu...- Percy, alguma coisa está errada - insistiu Annabeth.- Errada? - disse tia Ema, erguendo as mã<strong>os</strong> para remover p véu em <strong>vol</strong>ta da cabeça. - De modoalgum, querida. Estou em tão nobre companhia esta noite. O que po<strong>de</strong>ria estar errado?- Aquele é o tio Ferdinando! - disse Grover, arfando.- Não olhem para ela! - gritou Annabeth. Num piscar <strong>de</strong> olh<strong>os</strong>, ela enfiou o boné d<strong>os</strong> Yankeesna cabeça e <strong>de</strong>sapareceu. Suas mã<strong>os</strong> invisíveis empurrara Grover e eu para fora do banco.Eu me vi caído no chão, olhando para as sandálias n<strong>os</strong> pés <strong>de</strong> tia Eme.Pu<strong>de</strong> ouvir Grover correndo para um lado e Annabeth para o outro. Mas eu estava aturdido<strong>de</strong>mais para me mexer.Então ouvi um som estranho, um chiado, acima <strong>de</strong> mim. Meus olh<strong>os</strong> se ergueram para as mã<strong>os</strong><strong>de</strong> tia Eme, que se tornaram enrugadas e cheias <strong>de</strong> verrugas, com afiadas garras <strong>de</strong> bronze no lugardas unhas.Quase olhei mais para o alto, mas em algum lugar à minha esquerda Annabeth gritou: - Não!Não olhe!Mais chiad<strong>os</strong> - o som <strong>de</strong> pequenas serpentes, logo acima <strong>de</strong> mim, que vinham <strong>de</strong>... <strong>de</strong> on<strong>de</strong><strong>de</strong>veria estar a cabeça da tia Eme.- Corra! - baliu Grover.Ouvi-o correndo pel<strong>os</strong> pedregulh<strong>os</strong>, gritando “Maia!” para dar partida em seus tênis voadores.Eu não conseguia me mexer. Fiquei olhando ficamente para as garras encarquilhadas <strong>de</strong> tia Eme, etentei lutar contra o transe entorpecedor em que a velha me pusera.- Que pena ter <strong>de</strong> <strong>de</strong>struir um jovem r<strong>os</strong>to tão bonito - disseme em tom confortador. - Fiquecomigo, Percy. Tudo o que tem a fazer é olhar para cima.Combati o ímpeto <strong>de</strong> obe<strong>de</strong>cer. Em vez disso, olhei para o lado e vi uma daquelas bolas <strong>de</strong>vidro que as pessoas põem n<strong>os</strong> jardins - uma esfera espelhada. Pu<strong>de</strong> ver o reflexo escuro <strong>de</strong> tiaEme no vidro alaranjado; seu véu se fora, revelando o r<strong>os</strong>to como um círculo pálido tremeluzente.Os cabel<strong>os</strong> se mexiam, se contorcendo como serpentes.Tia Eme.Tia ―Mǁ.Como pu<strong>de</strong> ser tão estúpido?Pense, disse a mim mesmo. Como foi que a Medusa morreu no mito?Mas eu não conseguia pensar. Algo me dizia que a Medusa do mito estava dormindo quando foiatacada por meu xará, Perseu. Agora, não estava nem um pouco sonolenta. Se quisesse, po<strong>de</strong>riausar aquelas garras ali mesmo e rasgar o meu r<strong>os</strong>to.- A d<strong>os</strong> Olh<strong>os</strong> Cinzent<strong>os</strong> fez isso comigo, Percy - disse a Medusa, ela não soava como ummonstro. Sua voz me convidava a olhar para cima, a simpatizar com a pobre vovó velhinha. - Amãe <strong>de</strong> Annabeth, a maldita Atena, transformou a bela mulher que eu era nisto aqui.- Não dê puvid<strong>os</strong> a ela! - gritou a voz <strong>de</strong> Annabeth, <strong>de</strong> algum lugar entre as estáturas. - Corra,Percy!- Silêncio! - r<strong>os</strong>nou a Medusa. Depois sua voz <strong>vol</strong>tou a ser um murmurar tranqüilizante. - Vocêestá vendo por que preciso <strong>de</strong>struir a menina, Percy. Ela é filha <strong>de</strong> minha inimiga. Vou esmagar asua estátua até virar pó. Mas você, querido, você não precisa sofrer.- Não - murmurei. Tentei fazer minhas pernas se mexerem.- Você quer mesmo ajudar <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses? - perguntou a Medusa. - Enten<strong>de</strong> o que o espera nessa


missão boba, Percy? O que acontecerá se chegar ao Mundo Inferior? Não seja um peão d<strong>os</strong>olimpian<strong>os</strong>, meu querido. Você estará melhor como estátua. Men<strong>os</strong> dor. Men<strong>os</strong> dor.- Percy!Atrás <strong>de</strong> mim, ouvi um zumbido, como o <strong>de</strong> um beija-flor <strong>de</strong> cem quil<strong>os</strong> dando um mergulho.Grover gritou: - Abaixe-se!Eu me virei, e lá estava ele, Grover, no céu noturno, vindo bem na minha frente, com <strong>os</strong> tênisvoadores batendo as assas, segurando um galho <strong>de</strong> árvore do tamanho <strong>de</strong> um bastão <strong>de</strong> beisebol.Seus olh<strong>os</strong> estavam fechad<strong>os</strong> com força, a cabeça se agitando <strong>de</strong> um lado para o outro. Guiava-sesó pel<strong>os</strong> ouvid<strong>os</strong> e o nariz.- Abaixe-se! - gritou ele <strong>de</strong> novo. - Vou pegá-la!Aquilo por fim me acordou para ação. Conhecendo Grover, tinha certeza <strong>de</strong> que ele ia errar aMedusa e me acertar. Mergulhei para um lado.Plaft!De início pensei que f<strong>os</strong>se o som <strong>de</strong> Grover atingindo uma árvore. Então a Medusa rugiu <strong>de</strong>raiva.- Seu sátiro miserável - r<strong>os</strong>nou. - Vou acrescentá-lo à minha coleção!- Essa foi pelo tio Ferdinando! - gritou Grover <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.Saí correndo a<strong>os</strong> tropeções e me escondi entre as estátuas enquanto Grover mergulhava paramais um ataque.Pimba!- Aaargh! - berrou a Medusa, as serpentes do cabelo sibilando e cuspindo.Bem ao meu lado, a voz <strong>de</strong> Annabeth disse: - Percy!Pulei tão alto que meus pés quase <strong>de</strong>rrubaram um anão <strong>de</strong> jardim.- Ai! Não faça isso!Annabeth tirou o boné d<strong>os</strong> Yankees e se tornou visível.- Você tem <strong>de</strong> cortar a cabeça <strong>de</strong>la.- O quê?- Está louca? Vam<strong>os</strong> dar o fora daqui.- A Medusa é uma ameaça. Ela é má. Eu mesma a mataria, mas... - Annabeth engoliu em seco,como se estivesse prestes a admitir algo difícil. - Mas você tem a melhor arma. Além disso, nuncavou conseguir chegar perto <strong>de</strong>la. Ela me faria em pedacinh<strong>os</strong> por causa da minha mãe. Você...você tem uma chance.- O quê? Eu não p<strong>os</strong>so...- Olhe, você quer que ela transforme mais gente inocente em estátua?Ela apontou para as estátuas <strong>de</strong> um casal apaixonado, um homem e uma mulher abraçad<strong>os</strong>,transformad<strong>os</strong> em pedra pelo monstro.Annabeth, agarrou uma esfera espelhada ver<strong>de</strong> <strong>de</strong> um pe<strong>de</strong>stal próximo.- Um escudo espelhado seria melhor. - Ela estudou a esfera com ar crítico. - A convexida<strong>de</strong>causará uma certa distorção. O tamanho do reflexo estará distorcido por uma fator <strong>de</strong>...- Quer falar numa língua que eu entenda?- Estou falando! - Ela me jogou a bola <strong>de</strong> vidro. - Só olhe para a Medusa pelo espelho. Nuncaolhe diretamente para ela.- Ei, gente! - gritou Grover em algum lugar acima <strong>de</strong> nós. - Acho que ela está inconsciente!- Grrraaaurrr!


- Talvez não - corrigiu ele. E mergulhou para mais um ataque.- Depressa - disse Annabeth para mim. - Grover tem um excelente nariz, mas vai acabar caindo.Peguei minha caneta e tirei a tampa. A lâmina <strong>de</strong> bronze <strong>de</strong> Contracorrente se alongou emminha mão.Segui <strong>os</strong> sons <strong>de</strong> silv<strong>os</strong> e cuspidas do cabelo <strong>de</strong> Medusa.Mantive <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> cravad<strong>os</strong> na esfera espelhada para ver somente o reflexo do monstro, e não acoisa real.Então, no vidro tingido <strong>de</strong> ver<strong>de</strong>, eu a enxerguei.Grover vinha <strong>de</strong>scendo para mais um assalto com o bastão, mas <strong>de</strong>ssa vez voou um pouco baixo<strong>de</strong>mais.A Medusa agarrou o bastão e o <strong>de</strong>sviou do curso. Ele <strong>de</strong>u uma cambalhota no ar e tombou n<strong>os</strong>braç<strong>os</strong> <strong>de</strong> um urso-pardo <strong>de</strong> pedra com um dolorido “Uummmpff”.A Medusa estava a ponto <strong>de</strong> pular em cima <strong>de</strong>le quando eu gritei: - Ei!Avancei na direção <strong>de</strong>la, o que não foi fácil, segurando uma espada e uma bola <strong>de</strong> vidro. Se aMedusa atacasse, seria difícil me <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r.Mas ela <strong>de</strong>ixou que eu me aproximasse - seis metr<strong>os</strong>, três metr<strong>os</strong>.Agora era p<strong>os</strong>sível para ver o reflexo do seu r<strong>os</strong>to. Certamente não era assim tão feio. As curvasver<strong>de</strong>s da bola espelhada <strong>de</strong>viam estar distorcendo a imagem, tornando-a ainda pior.- Você não machucaria uma velhinha, Percy - sussurrou ela. - Sei que não faria isso.Hesitei, fascinado pelo r<strong>os</strong>to que vi refletido no vidro - <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> que pareciam ar<strong>de</strong>r refletid<strong>os</strong>no tom esver<strong>de</strong>ado, fazendo mes braç<strong>os</strong> fraquejarem.De cima do urso-pardo <strong>de</strong> cmento, Grover gemeu: - Percy, não lhe dê ouvid<strong>os</strong>!A Medusa gargalhou.- Tar<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais.Ela se lançou até mim com suas garras.Dei um golpe com a espada, ouvi um plof! nauseante, e então um chiado como o <strong>de</strong> ventoescapando <strong>de</strong> uma caverna - o som <strong>de</strong> um monstro se <strong>de</strong>sintegrando.Algo caiu no chão ao lado do meu pé. Precisei reunir toda a minha força <strong>de</strong> vonta<strong>de</strong> para nãoolhar. Pu<strong>de</strong> sentir uma secreção morna empapando minha meia e pequenas serpentes agonizantespuxando <strong>os</strong> cadarç<strong>os</strong> d<strong>os</strong> meus sapat<strong>os</strong>.- Ah, eca! - disse Grover. Seus olh<strong>os</strong> ainda estavam bem fechad<strong>os</strong>, mas imagino queconseguisse ouvir aquilo gorgolejando e fumegando. - Megaeca.Annabeth se aproximou <strong>de</strong> mim, <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> fix<strong>os</strong> no céu. Estava segurndo o véu da medusa.- Não se mova - disse ela.Com muito, muito cuidado, sem olhar para baixo, ajoelhou-se e embrulhou a cabeça do monstrono pano preto, <strong>de</strong>pois a ergueu. Ainda estava pingando um suco ver<strong>de</strong>.- Tudo bem com você? - perguntou-me com a voz trêmula.- Sim - concluí, embora sentisse vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> vomitar meu cheesburguer duplo. - Por que... porque a cabeça não evaporou?- Depois que você a <strong>de</strong>cepa, ela se torna um troféu <strong>de</strong> guerra - disse ela. - Como o chifre doMinotauro.Mas não a <strong>de</strong>sembrulhe. Ainda po<strong>de</strong> petrificá-lo.Grover gemeu enquanto <strong>de</strong>scia da estátua do urso-pardo. Estava com um gran<strong>de</strong> vergo na testa.O boné rastafári ver<strong>de</strong> estava pendurado em um d<strong>os</strong> pequen<strong>os</strong> chifres <strong>de</strong> bo<strong>de</strong> e <strong>os</strong> pés fals<strong>os</strong>


haviam sido arrancad<strong>os</strong> d<strong>os</strong> casc<strong>os</strong>. Os tênis mágic<strong>os</strong> voavam sem rumo em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> sua cabeça.- N<strong>os</strong>so gran<strong>de</strong> aviador - disse eu. - Bom trabalho, cara.Ele conseguiu dar um sorriso envergonhado.- Se bem que, na verda<strong>de</strong>, não foi nada divertido. Bem, a parte <strong>de</strong> acertá-la com o pau, isso foibom. Mas me arrebentar contra um urso <strong>de</strong> concreto? Nada divertido.Ele agarrou <strong>os</strong> tênis no ar. Eu pus a tampa em minha espada. Junt<strong>os</strong>, nós três <strong>vol</strong>tam<strong>os</strong>cambaleando para o armazém.Encontram<strong>os</strong> alguns sac<strong>os</strong> plástic<strong>os</strong> velh<strong>os</strong> atrás do balcão <strong>de</strong> lanches e embrulham<strong>os</strong> duasvezes a cabeça da Medusa. Com um plop, largam<strong>os</strong> a coisa em cima da mesa on<strong>de</strong> havíam<strong>os</strong>jantado e n<strong>os</strong> sentam<strong>os</strong> em <strong>vol</strong>ta, exaust<strong>os</strong> <strong>de</strong>mais para falar.Por fim eu disse:- Então tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> agra<strong>de</strong>cer a Atena por esse monstro?Annabeth me lançou um olhar irritado.- A seu pai, na verda<strong>de</strong>. Medusa era namorada <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon. Eles combinaram um encontro notemplo <strong>de</strong> minha mãe. Foi por isso que Atena a transformou em monstro. A Medusa e suas irmãs,que a ajudaram a entrar no templo, se transformaram nas três Górgonas. É por isso que ela queriame picar em pedacinh<strong>os</strong>, mas ia conservar você como uma bela estátua. Ainda g<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> seu pai.Você <strong>de</strong>ve tê-la feito se lembrar <strong>de</strong>le.Meu r<strong>os</strong>to estava ar<strong>de</strong>ndo.- Ah, então a culpa <strong>de</strong> term<strong>os</strong> encontrado a Medusa é minha?Annabeth endireitou o corpo. Em uma péssima imitação <strong>de</strong> minha voz, disse: - ―É só uma foto,Annabeth. Qual é o problema?ǁ- Deixa para lá - falei. - Você é imp<strong>os</strong>sível.- Você é insuportável.- Você é...- Ei! - Interrompeu Grover. - Vocês dois estão me dando enxaqueca. E sátir<strong>os</strong> nem têmenxaqueca. O que vam<strong>os</strong> fazer com a cabeça?Eu olhei para aquilo. Uma pequena serpente estava pendurada para fora <strong>de</strong> um buraco noplástico. As palavras impressas no saco diziam: AGRADECEMOS SUA VISITA!Eu estava zangado, não só com Annabeth ou a mãe <strong>de</strong>la, mas com tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses por causadaquela missão, por n<strong>os</strong> terem tirado da estrada e pelas duas gran<strong>de</strong>s batalhas logo no primeiro diafora do acampamento. Nesse ritmo, jamais chegaríam<strong>os</strong> viv<strong>os</strong> a L<strong>os</strong> Angeles, muito men<strong>os</strong> antesdo solstício <strong>de</strong> verão.O que a Medusa tinha dito? Não seja um peão d<strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong>, meu querido. Você estará melhorcomo estátua.Eu me levantei.- Volto já.- Percy - chamou Annabeth. - O que você...Vasculhei <strong>os</strong> fund<strong>os</strong> do armazém até encontrar o escritório da Medusa. Seu livro-caixam<strong>os</strong>trava as seis vendas mais recentes, todas remessadas para o Mundo Inferior para <strong>de</strong>corar ojardim <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s e Perséfone. De acordo com uma nota <strong>de</strong> embarque, o en<strong>de</strong>reço <strong>de</strong> cobrança doMundo Inferior era <strong>os</strong> Estúdi<strong>os</strong> <strong>de</strong> Gravação M.A.C. – Morto ao Chegar -, West Hollywood,Califórnia. Dobrei a nota e a enfiei no bolso.Na caixa registradora encontrei vinte dólares, uns dracmas <strong>de</strong> ouro e algumas guias <strong>de</strong> remessa


do Expresso Noturno <strong>de</strong> Hermes, cada qual com uma pequena bolsa <strong>de</strong> couro anexa, para moedas.Vasculhei o restante do escritório até encontrar uma caixa do tamanho certo.Voltei para a mesa <strong>de</strong> piquenique, encaixotei a cabeça da Medusa e preenchi uma guia <strong>de</strong>remessa: AOS DEUSESMONTE OLIMPO,600º ANDAR,EDIFÍCIO EMPIRE STATENOVA YORK, NYCOM OS MELHORES VOTOS,


PERCY JACKSON- Eles não vão g<strong>os</strong>tar disso - advertiu Grover. - Vão achá-lo impertinente.Coloquei alguns dracmas <strong>de</strong> ouro na bolsa anexa. Assim que a fechei, veio um som como o <strong>de</strong>uma caixa registradora. O pacote flutuou para fora da mesa e <strong>de</strong>sapareceu com um pop!- Eu sou impertinente - disse.Olhei para Annabeth, <strong>de</strong>safiando-a a me criticar.Ela não criticou. Parecia resignada com o fato <strong>de</strong> eu ter um talento especial para chatear <strong>os</strong><strong>de</strong>uses.- Vam<strong>os</strong> - murmurou ela. - Precisam<strong>os</strong> <strong>de</strong> um novo plano.DOZE – Um poodle é o n<strong>os</strong>so conselheiro.Estávam<strong>os</strong> n<strong>os</strong> sentindo superinfelizes naquela noite.Acampam<strong>os</strong> no b<strong>os</strong>que, a cem metr<strong>os</strong> da estrada principal, em uma clareira pantan<strong>os</strong>a que ascrianças do lugar obviamente vinham usando para festas. O chão estava repleto <strong>de</strong> latas <strong>de</strong>refrigerantes amassadas e embalagens <strong>de</strong> fast-food.Tínham<strong>os</strong> pego um pouco <strong>de</strong> comida e cobertores da tia Eme, mas não ousam<strong>os</strong> acen<strong>de</strong>r umafogueira para secar n<strong>os</strong>sas roupas molhadas. As Fúrias e a Medusa já haviam proporcionadoanimação suficiente para um dia. Não queríam<strong>os</strong> atrair mais nada.Decidim<strong>os</strong> dormir em turn<strong>os</strong>. Prontifiquei-me a ser o primeiro a ficar <strong>de</strong> guarda.Annabeth enr<strong>os</strong>cou-se sobre <strong>os</strong> cobertores e já estava roncando quando sua cabeça tocou o chão.Grover subiu com seus tênis voadores para o galho mais baixo <strong>de</strong> uma arvore, enc<strong>os</strong>tou-se notronco e ficou olhando para o céu da noite.- Vá em frente e durma - disse a ele. - Acordo você se houver problemas.Ele assentiu, mas ainda assim não fechou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Isso me <strong>de</strong>ixa triste, Percy.- O quê? Ter se juntado a essa missão estúpida?


- Não. Isso me <strong>de</strong>ixa triste. - Ele apontou para todo aquele lixo no chão. - E o céu. Não dá nempara ver as estrelas. Eles poluíram o céu. Esta é uma época terrível para ser um sátiro.- Ah, sim. Acho que você seria um ambientalista.Ele me lançou um olhar penetrante.- Só um ser humano não seria. Sua espécie está entulhando o mundo tão <strong>de</strong>pressa que... Ora, nãoimporta. É inútil fazer sermões para um ser humano. Do jeito que as coisas vão, nunca encontrareiPan.- Que Pan?- Pan! - bradou, indignado. - P-A-N. O gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>us Pan! Acha que quero uma licença <strong>de</strong>buscador para quê?Uma brisa estranha faz farfalhar a clareira, encobrindo por um momento o fedor <strong>de</strong> lixo eputrefação.Trazia o cheiro <strong>de</strong> frutas e flores selvagens, e <strong>de</strong> água limpa <strong>de</strong> chuva, coisas que <strong>de</strong>vem terexistido algum dia naqueles b<strong>os</strong>ques. De repente, senti sauda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> algo que jamais conhecera.- Fale-me sobre a busca - disse eu.Grover olhou para mim com receio, como se temesse que eu estivesse apenas me divertindo àscustas <strong>de</strong>le.- O Deus d<strong>os</strong> Lugares Selvagens <strong>de</strong>sapareceu há dois mil an<strong>os</strong> - contou. - Um marinheiro vindoda c<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> Éfeso ouviu uma voz misteri<strong>os</strong>a gritando na praia: ―Conte a eles que o gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>usPan morreu!ǁQuando <strong>os</strong> seres human<strong>os</strong> ouviram a notícia, acreditaram. Estão pilhando o reino <strong>de</strong> Pan <strong>de</strong>s<strong>de</strong>então.Mas, para <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>, Pan era n<strong>os</strong>so senhor e mestre. Era n<strong>os</strong>so protetor, e também d<strong>os</strong> lugaresselvagens na Terra. Não acreditam<strong>os</strong> que tenha morrido. A cada geração, <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong> mais valentesempenham a vida para encontrar Pan. Eles esquadrinham o planeta, explorando tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> locaismais selvagens à espera <strong>de</strong> encontrar o lugar on<strong>de</strong> ele se escon<strong>de</strong>r e <strong>de</strong>spertá-lo <strong>de</strong> seu sono.- E você quer ser um buscador.- É o sonho da minha vida - disse ele.- Meu pai era um buscador. E meu tio Ferdinando... aestátua que você viu lá...- Ah, certo, <strong>de</strong>sculpe.Grover sacudiu a cabeça.- Tio Ferdinando sabia <strong>os</strong> risc<strong>os</strong>. Meu pai também. Mas eu terei sucesso. Serei o primeirobuscador a retornar com vida.- Espere... o primeiro?Grover tirou suas flautas <strong>de</strong> bambu do bolso.- Nenhum buscador jamais <strong>vol</strong>tou. Depois que partem, eles <strong>de</strong>saparecem. Nunca mais são vist<strong>os</strong>viv<strong>os</strong> <strong>de</strong> novo.- Nem uma vez em dois mil an<strong>os</strong>?- Não.- E seu pai? Você não tem idéia do que aconteceu com ele?- Nenhuma.- Mas ainda assim quer ir - falei, admirado. - Quer dizer, você realmente acha que será vocêquem vai encontrar Pan?- Preciso acreditar nisso, Percy. Todo buscador acredita. É a única coisa que n<strong>os</strong> impe<strong>de</strong> <strong>de</strong> ficar


<strong>de</strong>sesperad<strong>os</strong> quando olharm<strong>os</strong> para o que <strong>os</strong> seres human<strong>os</strong> fizeram com o mundo. Tenho <strong>de</strong>acreditar que Pan ainda po<strong>de</strong> estar <strong>de</strong>spertado.Olhei para o nevoeiro alaranjado do céu e tentei enten<strong>de</strong>r como Grover podia perseguir umsonho que parecia tão imp<strong>os</strong>sível. Mas, por outro lado, será que eu era melhor?- Como vam<strong>os</strong> entrar no Mundo Inferior? - perguntei. - Quer dizer, que chances tem<strong>os</strong> contraum <strong>de</strong>us?- Eu não sei - admitiu ele. - Mas antes, na casa da Medusa, quando você estava vasculhando oescritório <strong>de</strong>la, Annabeth me disse...- Ah, esqueci. Annabeth sempre tem um plano todo esquematizado.- Não seja tão duro com ela, Percy. Annabeth teve uma vida difícil, mas é boa pessoa. Afinal,ela me perdoou... - ele se interrompeu.- O que quer dizer? - perguntei. - Perdoou o quê?De repente, Grover pareceu muito interessado em tirar notas das suas flautas.- Espere um minuto - disse eu. - Seu primeiro trabalho <strong>de</strong> guardião foi cinco an<strong>os</strong> atrás.Annabeth está no acampamento há cinco an<strong>os</strong>. Ela não era... quer dizer, a sua primeira tarefa que<strong>de</strong>u errado...- Não p<strong>os</strong>so falar sobre isso - disse Grover, e o tremor em seu lábio inferior me sugeriu que elecomeçaria a chorar se eu o pressionasse. - Mas como eu estava dizendo, lá na casa da MedusaAnnabeth e eu acham<strong>os</strong> em que há algo estranho com esta missão. Algo que não é o que parece.- Ah, novida<strong>de</strong>s. Estou sendo acusado <strong>de</strong> roubar um relâmpago que foi Ha<strong>de</strong>s quem pegou.- Não me refiro a isso. As Fú... as Bene<strong>vol</strong>entes pareciam estar se segurando. Como a sra.Dodds na Aca<strong>de</strong>mia Yancy... por que ela esperou tanto tempo para tentar matá-lo? Depois, noônibus, elas não foram tão agressivas quanto po<strong>de</strong>riam.- Elas me pareceram bastante agressivas.Grover sacudiu a cabeça.- Estavam guinchando para nós: ―On<strong>de</strong> está? On<strong>de</strong>?ǁ- Perguntavam sobre mim - falei.- Talvez... mas tanto eu como Annabeth tivem<strong>os</strong> a sensação <strong>de</strong> que não estavam perguntand<strong>os</strong>obre uma pessoa. Elas perguntaram apenas ―On<strong>de</strong> está?ǁ, e não on<strong>de</strong> ele ou ela está. Pareciamfalar <strong>de</strong> um objeto.- Isso não faz sentido.- Eu sei. Mas, se tiverm<strong>os</strong> entendido mal alguma coisa a respeito <strong>de</strong>sta missão, e só tem<strong>os</strong> novedias para encontrar o raio-mestre... - Ele olhou para mim como se estivesse esperando porresp<strong>os</strong>tas, mas eu não tinha nenhuma.Pensei no que a Medusa dissera: eu estava sendo usado pel<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. O que me aguardava erapior que a petrificação.- Não fui sincero com você - contei a Grover. - Eu não me importo com o raio-mestre.Concor<strong>de</strong>i em ir para o Mundo Inferior para po<strong>de</strong>r trazer <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta a minha mãe.Grover soprou uma nota suave nas suas flautas.- Eu sei, Percy. Mas você tem certeza <strong>de</strong> que esse é o único motivo?- Não estou fazendo isso para ajudar meu pai. Ele não se importa comigo eu não me importocom ele.Do seu galho, Grover olhou atentamente para baixo.- Olhe, Percy. Não sou tão esperto quanto Annabeth. Não sou tão valente quanto você. Mas sou


muito bom em ler emoções. Você está contente porque seu pai está vivo. Sente-se bem pelo fato<strong>de</strong> ele o ter assumido como filho, e parte <strong>de</strong> você quer que ele fique orgulh<strong>os</strong>o. Foi por isso quevocê <strong>de</strong>spachou a cabeça da Medusa para o Olimpo. Você queria que ele visse o que você fez.- É mesmo? Bem, talvez as emoções d<strong>os</strong> sátir<strong>os</strong> funcionem <strong>de</strong> um jeito diferente das emoçõeshumanas.Porque você está errado. Não me importo com o que ele pensa.Grover puxou <strong>os</strong> pés para cima do galho.- Certo, Percy. Tanto faz.- Além disso, não fiz nada <strong>de</strong>mais para me vangloriar. Mas saím<strong>os</strong> <strong>de</strong> Nova York e já estam<strong>os</strong>aqui encalhad<strong>os</strong> sem dinheiro e sem ter como ir para o oeste.Grover olhou para o céu noturno, como se estivesse pensando no problema.- Que tal eu ficar com o primeiro turno, heim? Vá dormir um pouco.Eu quis protestar, mas ele começou a tocar Mozart, suava e doce, e eu me virei para o outrolado, <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> ar<strong>de</strong>ndo. Depois <strong>de</strong> alguns compass<strong>os</strong> do Concerto para Piano n.12 eu estavadormindo.*****Em meus sonh<strong>os</strong>, eu estava em uma caverna escura à beira <strong>de</strong> um enorme abismo. Criaturascinzentas <strong>de</strong> névoa se re<strong>vol</strong>viam à minha <strong>vol</strong>ta, sussurrando tiras <strong>de</strong> fumaça que eu, <strong>de</strong> algummodo, sabia que eram <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>.Eles puxavam as minhas roupas, tentando me empurrar <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta, mas eu me sentia compelido aandar para frente, para a beira.Olhar para baixo me dava vertigens.O abismo se abria tão voraz e tão largo, e era tão completamente negro, que eu sabia que não<strong>de</strong>via ter fundo. Contudo tinha a sensação <strong>de</strong> que algo tentava emergir dali, algo enorme emaligno.O pequeno herói, ressoou uma voz em <strong>de</strong>leite, vinda lá <strong>de</strong> baixo, das trevas. Fraco <strong>de</strong>mais,jovem <strong>de</strong>mais, mas talvez você sirva.A voz parecia ancestral - fria e pesada. En<strong>vol</strong>veu-me como lençóis <strong>de</strong> chumbo.Eles o enganaram, menino, disse ela. Faça comigo uma troca. Eu lhe darei o que quer.Uma imagem tremeluzente pairou acima do vazio: minha mãe, congelada no momento em quese dissolveu em uma chuva <strong>de</strong> ouro. Seu r<strong>os</strong>to estava distorcido <strong>de</strong> dor, como se o Minotauroainda apertasse seu pescoço. Os olh<strong>os</strong> me encaravam, implorando: Vá!Tentei gritar, mas minha voz não saiu.De <strong>de</strong>ntro do abismo, um riso frio ecoou.Uma força invisível me puxou para frente. Ia me arrastar para o precipício se eu não agüentassefirme.Aju<strong>de</strong>-me a subir, menino. A voz ficou mais ávida. Traga-me o raio. Desfira um golpe contra <strong>os</strong><strong>de</strong>uses traiçoeir<strong>os</strong>!Os espírit<strong>os</strong> d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong> sussurravam à minha <strong>vol</strong>ta: Não! Acor<strong>de</strong>!A imagem da minha mãe começou a sumir. A coisa no abismo apertou sua garra invisível em<strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> mim.Percebi que ela não queria me puxar para <strong>de</strong>ntro. Estava me usando para erguer a si mesmapara fora.Bom, a coisa murmurou. Bom.Acor<strong>de</strong>! sussurraram <strong>os</strong> mort<strong>os</strong>. Acor<strong>de</strong>!


*****Alguém estava me sacudindo.Meus olh<strong>os</strong> se abriram, e era dia.- Ah! - disse Annabeth. - O zumbi <strong>vol</strong>ta à vida.Eu tremia por causa do sonho. Ainda podia sentir o aperto do monstro do abismo em <strong>vol</strong>ta domeu peito.- Quanto tempo estive dormindo?- O suficiente para eu preparar o café-da-manhã - Annabeth me jogou um saco <strong>de</strong> floc<strong>os</strong> <strong>de</strong>milho sabor nacho, da lanchonete da tia Eme. - E para Grover sair e explorar. Olhe, ele encontrouum amigo.Tive dificulda<strong>de</strong>s em focalizar o olhar.Grover estava sentado <strong>de</strong> pernas cruzadas em um cobertor com alguma coisa felpuda no colo,um bicho <strong>de</strong> pelúcia sujo e <strong>de</strong> um cor-<strong>de</strong>-r<strong>os</strong>a artificial.Não. Não era um animal <strong>de</strong> pelúcia. Era um poodle cor-<strong>de</strong>-r<strong>os</strong>a.O poodle latiu para mim, <strong>de</strong>sconfiado. Grover disse: - Não, ele não é.Eu pisquei.- Você está... falando com essa coisa?O poodle r<strong>os</strong>nou.- Esta coisa - avisou Grover - é n<strong>os</strong>sa passagem para o oeste. Seja simpático com ele.- Você po<strong>de</strong> falar com animais?Grover ignorou a pergunta.- Percy, apresento-lhe Gladiola. Gladiola, Percy.Olhei para Annabeth, calculando que ela f<strong>os</strong>se rir da peça que eles estavam me pregando, masela pareceu extremamente séria.- Não vou dizer olá para um poodle cor-<strong>de</strong>-r<strong>os</strong>a - falei. - Esqueça.- Percy - disse Annabeth -, eu disse olá para o poodle. Diga olá para o poodle.O poodle r<strong>os</strong>nou.Eu disse olá para o poodle.Grover explicou que havia encontrado Gladiola no b<strong>os</strong>que e que começaram a conversar. Opoodle tinha fugido <strong>de</strong> uma família endinheirada do lugar, que oferecera duzent<strong>os</strong> dólares <strong>de</strong>recompensa para quem o <strong>de</strong><strong>vol</strong>vesse. Gladiola na verda<strong>de</strong> não queria <strong>vol</strong>tar para a família, masestava disp<strong>os</strong>to a fazê-lo, se isso f<strong>os</strong>se ajudar Grover.- Como Gladiola sabe da recompensa? - perguntei.- Ele leu <strong>os</strong> avis<strong>os</strong> - disse Grover. - Óbvio...- É claro - retruquei. - Que bobagem a minha.- Então nós entregam<strong>os</strong> Gladiola - explicou Annabeth, em seu melhor tom <strong>de</strong> estrategista -,recebem<strong>os</strong> o dinheiro e compram<strong>os</strong> passagens para L<strong>os</strong> Angeles. Simples.Pensei no sonho - as vozes sussurrantes d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>, a coisa no abismo e o r<strong>os</strong>to <strong>de</strong> minha mãe,tremeluzindo enquanto se dissolvia em dourado. Tudo aquilo podia estar esperando por mim nooeste.- Não em outro ônibus - disse, cautel<strong>os</strong>o.- Não - concordou Annabeth.Ela apontou colina abaixo, para <strong>os</strong> trilh<strong>os</strong> <strong>de</strong> trem que eu não conseguira ver na noite anterior,no escuro.


- Há uma estação da Amtrack a um quilômetro naquela direção. De acordo com Gladiola, otrem para o oeste parte ao meio-dia.TREZE – Meu mergulho para morte.Passam<strong>os</strong> dois dias no trem, rumo a oeste pelas colinas, por cima <strong>de</strong> ri<strong>os</strong>, atravessando ondas <strong>de</strong>trigo cor <strong>de</strong> âmbar.Não fom<strong>os</strong> atacad<strong>os</strong> nem uma vez, mas não relaxei. Sentia que estávam<strong>os</strong> viajando em umavitrine, sendo observad<strong>os</strong> <strong>de</strong> cima e, talvez <strong>de</strong> baixo, que alguma coisa estava aguardando omomento certo.Tentei ser discreto, pois meu nome e fotografia estavam estampad<strong>os</strong> nas primeiras páginas <strong>de</strong>vári<strong>os</strong> jornais da C<strong>os</strong>ta Leste. O Trenton Register-News publicou uma foto tirada por um turistaquando <strong>de</strong>sci do ônibus da Greyhound. Estava com uma expressão ensan<strong>de</strong>cida n<strong>os</strong> olh<strong>os</strong>. Minhaespada era um borrão metálico em minhas mã<strong>os</strong>. Po<strong>de</strong>ria ser um taco <strong>de</strong> beisebol ou <strong>de</strong> lacr<strong>os</strong>e.A legenda da foto dizia:Percy Jackson, 12 an<strong>os</strong>, procurando para interrogatório sobre o <strong>de</strong>saparecimento em LongIsland <strong>de</strong> sua mãe há duas semanas, aparece aqui fugindo do ônibus on<strong>de</strong> abordou diversaspassageiras id<strong>os</strong>as. Oônibus explodiu no ac<strong>os</strong>tamento <strong>de</strong> uma rodovia a leste <strong>de</strong> New Jersey logo <strong>de</strong>pois que Jacksonfugiu da cena do crime. Com base em relat<strong>os</strong> <strong>de</strong> testemunhas, a polícia acredita que o meninop<strong>os</strong>sa estar viajando com dois cúmplices adolescentes. O padrasto, Gabe Ugliano, ofereceu umarecompensa em dinheiro para qualquer informação que leve à sua captura.- Não se preocupe - disseme Annabeth. - A polícia d<strong>os</strong> mortais nunca n<strong>os</strong> encontraria.Mas não pareceu muito segura.Passei o resto do dia alternando entre andar <strong>de</strong> uma ponta a outra do trem (pois para mim eradifícil ficar sentado) e olhar pelas janelas.Numa oportunida<strong>de</strong> avistei uma família <strong>de</strong> centaur<strong>os</strong> galopando por um campo <strong>de</strong> trigo, arc<strong>os</strong><strong>de</strong> prontidão, como se estivessem caçando o almoço. O menininho centauro, que era do tamanho<strong>de</strong> um pônei, percebeu que eu estava olhando e acenou. Olhei em <strong>vol</strong>ta no vagão <strong>de</strong> passageir<strong>os</strong>,porém mais ninguém reparou. Os passageir<strong>os</strong> adult<strong>os</strong> estavam tod<strong>os</strong> com a cara enterrada emlaptops ou revistas.Em outra, mais ao anoitecer, vi algo muito gran<strong>de</strong> se movendo pelo b<strong>os</strong>que. Po<strong>de</strong>ria jurar queera um leão, só que não há leões vivendo solt<strong>os</strong> n<strong>os</strong> Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>, e aquilo era do tamanho <strong>de</strong>um tanque <strong>de</strong> guerra. O pêlo tinha reflex<strong>os</strong> dourad<strong>os</strong> à luz do entar<strong>de</strong>cer. Ele então saltou por entreas arvores e <strong>de</strong>sapareceu.*****O dinheiro <strong>de</strong> recompensa por <strong>de</strong><strong>vol</strong>ver o poodle Gladiola só foi bastante para comprarpassagens até Denver. Não pu<strong>de</strong>m<strong>os</strong> comprar leit<strong>os</strong> no vagão-dormitório, então cochilam<strong>os</strong> n<strong>os</strong>assent<strong>os</strong>. Meu pescoço ficou duro. Tentei não babar enquanto dormia, já que Annabeth estavasentada bem a meu lado.Grover ficou roncando e balindo, e me acordava. Num momento ele se agitou <strong>de</strong>mais e um <strong>de</strong>seus pés fals<strong>os</strong> caiu. Annabeth e eu tivem<strong>os</strong> <strong>de</strong> enfiá-lo <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta antes que algum d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong>passageir<strong>os</strong> notasse.- E então - Annabeth me perguntou <strong>de</strong>pois que recolocam<strong>os</strong> o tênis <strong>de</strong> Grover -, quem quer asua ajuda?- O que quer dizer?


- Quando estava dormindo agora mesmo, você murmurou ―Não quero ajudar vocêǁ. Com quemestava sonhando?Estava em dúvida sobre dizer alguma coisa. Era a segunda vez que sonhava com a voz malignado abismo. Aquilo me incomodava tanto que, por fim, contei a ela.Annabeth ficou em silêncio por um bom tempo.- Não parece ser Ha<strong>de</strong>s. Ele sempre aparece sentado em um trono negro, e nunca ri.- Ele ofereceu minha mãe em troca. Quem mais po<strong>de</strong>ria fazer isso?- Eu acho... se ele queria dizer ―Aju<strong>de</strong>-me a subir do Mundo Inferiorǁ... Se ele quer guerra com<strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong>... Mas por que pedir a você o raio-mestre, se ele já o tem?Sacudi a cabeça, <strong>de</strong>sejando saber a resp<strong>os</strong>ta. Pensei no que Grover havia contado, que as Fúriasno ônibus pareciam estar procurando alguma coisa.On<strong>de</strong> está? On<strong>de</strong>?Talvez Grover tivesse sentido as minhas emoções. Ele bufou dormindo, resmungou algo sobrevegetais, e virou a cabeça.Annabeth ajeitou o boné <strong>de</strong>le para cobrir <strong>os</strong> chifres.- Percy, você não po<strong>de</strong> negociar com Ha<strong>de</strong>s. Sabe disso, certo? Ele é enganador, cruel egananci<strong>os</strong>o. Não me importo se suas Bene<strong>vol</strong>entes não foram tão agressivas <strong>de</strong>ssa vez...- Dessa vez? - perguntei. - Você quer dizer que já cruzou com elas antes?A mão <strong>de</strong>la <strong>de</strong>slizou até o colar. Ela manuseou uma conta branca vitrificada, na qual estavapintada a imagem <strong>de</strong> um pinheiro, um d<strong>os</strong> seus marc<strong>os</strong> <strong>de</strong> fim <strong>de</strong> verão, em argila.- Digam<strong>os</strong> apenas que não morro <strong>de</strong> amores pelo Senhor d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong>. Você não po<strong>de</strong> ficartentado a negociar sua mãe.- O que faria se f<strong>os</strong>se seu pai?- Essa é fácil - disse ela. - Eu o <strong>de</strong>ixaria apodrecer.- Sério?Os olh<strong>os</strong> cinzent<strong>os</strong> <strong>de</strong> Annabeth se fixaram em mim. Estavam com a mesma expressão que vino b<strong>os</strong>que, no acampamento, no momento em que ela puxou a espada contra o cão infernal.- Meu pai me <strong>de</strong>testou <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o dia em que nasci, Percy - disse ela. - Ele nunca quis um bebê.Quando me ganhou, pediu a Atena que me levasse <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta e me criasse no Olimpo, porque estavamuito ocupado com seu trabalho. Ela não ficou contente com isso. Disse a ele que <strong>os</strong> heróis têm<strong>de</strong> ser criad<strong>os</strong> por seu parente mortal.- Mas como... quer dizer, você não nasceu em um h<strong>os</strong>pital...- Apareci na porta do meu pai, em um berço <strong>de</strong> ouro, trazido do Olimpo por Zéfiro, o VentoOci<strong>de</strong>ntal. Daí você imaginaria que meu pai se lembrasse disso como um milagre, não é? Com<strong>os</strong>e, quem sabe, tivesse feito algumas fot<strong>os</strong> digitais ou algo do tipo. Mas ele sempre falou sobre aminha chegada como se f<strong>os</strong>se a coisa mais inconveniente que já lhe acontecera. Quando eu tinhacinco an<strong>os</strong>, ele se casou e esqueceu totalmente Atena. Arranjou uma esp<strong>os</strong>a mortal ―normalǁ eteve dois filh<strong>os</strong> mortais ―normaisǁ, e tentou fazer <strong>de</strong> conta que eu não existia.Olhei pela janela do trem. As luzes <strong>de</strong> uma cida<strong>de</strong> adormecida estavam passando. Quis fazerAnnabeth se sentir melhor, mas não sabia como.- Minha mãe se casou com um cara horror<strong>os</strong>o <strong>de</strong>mais - contei a ela. - Grover disse que ela fezisso para me proteger, para me escon<strong>de</strong>r no cheiro <strong>de</strong> uma família humana. Quem sabe seu pai nãoestava pensando nisso?


Annabeth continuou focada em seu colar. Apertava o anel <strong>de</strong> formatura <strong>de</strong> ouro que estavapendurado entre as contas. Ocorreu-me que o anel <strong>de</strong>via ser do pai <strong>de</strong>la. Fiquei imaginando porque ela o usava se o odiava tanto.- Ele não liga para mim - disse ela. - A mulher <strong>de</strong>le... minha madrasta... me tratava como umaaberração.Ela ia me <strong>de</strong>ixar brincar com <strong>os</strong> filh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la. Meu pai concordava. Sempre que acontecia algumacoisa perig<strong>os</strong>a... sabe, algo a ver com monstr<strong>os</strong>... <strong>os</strong> dois me olhavam com raiva, do tipo ―Comovocê ousa pôr n<strong>os</strong>sa família em perigoǁ. No fim, entendi a indireta. Eu não era querida. Eu fugi.- Que ida<strong>de</strong> você tinha?- A mesma ida<strong>de</strong> que comecei o acampamento. Sete.- Mas... você não ia conseguir chegar até a Colina Meio-Sangue sozinha.- Não, sozinha não. Atena me protegeu, me guiou em direção à ajuda. Fiz amig<strong>os</strong> inesperad<strong>os</strong>que cuidaram <strong>de</strong> mim, bem, por pouco tempo.Quis perguntar o que havia acontecido, mas Annabeth parecia perdida em lembranças tristes.Então ouvi o som d<strong>os</strong> ronc<strong>os</strong> <strong>de</strong> Grover e fiquei olhando para fora, pelas janelas do trem, enquanto<strong>os</strong> camp<strong>os</strong> escur<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ohio iam passando.*****Perto do fim do n<strong>os</strong>so segundo dia no trem, em 13 <strong>de</strong> junho, oito dias antes do solstício <strong>de</strong>verão, passam<strong>os</strong> por algumas colinas douradas e sobre o rio Mississipi, e entram<strong>os</strong> em St. Louis.Annabeth esticou o pescoço para ver o Portal em Arco, que me pareceu uma enorme alça <strong>de</strong>sacola <strong>de</strong> compras fincada na cida<strong>de</strong>.- Eu quero fazer aquilo - suspirou ela.- O quê? - perguntei.- Construir algo como aquilo. Você já viu o Partenon, Percy?- Só em fot<strong>os</strong>.- Algum dia eu vou vê-lo em pessoa. Vou construir o maior monumento a<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses que já foifeito. Algo que vai durar mil an<strong>os</strong>.Eu ri.- Você? Uma arquiteta?Não sei por quê, mas achei aquilo engraçado: a idéia <strong>de</strong> Annabeth tentando ficar sentada emsilêncio <strong>de</strong>senhando o dia inteiro.As bochechas <strong>de</strong>la coraram.- Sim, uma arquiteta. Atena espera que seus filh<strong>os</strong> criem coisas, não apenas as <strong>de</strong>rrubem, comoum certo <strong>de</strong>us d<strong>os</strong> terremot<strong>os</strong>.Observei as águas marrons e turbulentas do Mississipi embaixo.- Desculpe - disse Annabeth. - Isso foi mald<strong>os</strong>o.- Não dá para trabalharm<strong>os</strong> junt<strong>os</strong>? - implorei. - Quer dizer, Atena e P<strong>os</strong>eidon não po<strong>de</strong>riamcolaborar um com o outro?Annabeth teve <strong>de</strong> pensar a respeito.- Eu acho... a carruagem - disse ela, hesitante. - Minha mãe a inventou, mas P<strong>os</strong>eidon criou <strong>os</strong>caval<strong>os</strong> saíd<strong>os</strong> das cristas das ondas. Então eles tiveram <strong>de</strong> trabalhar junt<strong>os</strong> para torná-lacompleta.- Então nós também po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> colaborar um com o outro. Certo?Entram<strong>os</strong> na cida<strong>de</strong>. Annabeth olhava enquanto o Arco <strong>de</strong>saparecia atrás <strong>de</strong> um hotel.


- Acho que sim - disse, afinal.Entram<strong>os</strong> na estação da re<strong>de</strong> ferroviária no centro da cida<strong>de</strong>. O alto falante n<strong>os</strong> avisou queteríam<strong>os</strong> uma parada <strong>de</strong> três horas antes <strong>de</strong> partir para Denver.Grover se espreguiçou. Ainda <strong>de</strong>spertando, disse: - Comida.- Vam<strong>os</strong>, menino-bo<strong>de</strong> - disse Annabeth. - Fazer um passeio.- Passeio?- Até o Portal em Arco - disse ela. - Po<strong>de</strong> ser a minha única oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> subir até o topo.Você vem ou não?Grover e eu n<strong>os</strong> entreolham<strong>os</strong>.Eu queria dizer não, mas concluí que, se Annabeth ia, não po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixá-la sozinha.- Des<strong>de</strong> que haja uma lanchonete sem monstr<strong>os</strong>.*****O Arco ficava a cerca <strong>de</strong> um quilometro e meio da estação. No fim do dia, as filas para entrarnão eram tão longas. Seguim<strong>os</strong> cautel<strong>os</strong>amente pelo museu subterrâneo, olhando para vagõescobert<strong>os</strong> e outras sucatas do século XIX. Não era assim tão empolgante, mas Annabeth iacontando fat<strong>os</strong> interessantes sobre como o Arco fora construído e Grover me passava jujubas,portanto, para mim estava bom.Mas fiquei olhando em <strong>vol</strong>ta, para as outras pessoas na fila.- Está sentindo algum cheiro? - murmurei para Grover.Ele tirou o nariz do saco <strong>de</strong> jujubas por tempo suficiente para farejar.- Subterrâneo - disse ele enojado. - O ar embaixo da terra sempre tem cheiro <strong>de</strong> monstr<strong>os</strong>.Provavelmente não quer dizer nada.Mas eu tinha a sensação <strong>de</strong> que algo estava errado. Tinha a sensação <strong>de</strong> que não <strong>de</strong>víam<strong>os</strong> estarali.- Gente - disse eu -, vocês conhecem <strong>os</strong> símbol<strong>os</strong> <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses?Annabeth estava no meio da leitura sobre o equipamento <strong>de</strong> construção usado para erigir oArco, mas <strong>de</strong>u uma olhada.- Sim?- Bem, Ha<strong>de</strong>s...Grover pigarreou.- Estam<strong>os</strong> em local público... Você quer dizer, o n<strong>os</strong>so amigo do andar <strong>de</strong> baixo?- Ahn, certo - falei. - N<strong>os</strong>so amigo do andar muito <strong>de</strong> baixo. Ele não tem um chapéu como o <strong>de</strong>Annabeth?- Você quer dizer o Elmo das Trevas - disse Annabeth. - Sim, é seu símbolo <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r. Eu o vijunto ao assento <strong>de</strong>le durante a assembléia do solstício <strong>de</strong> inverno.- Ele estava lá? - perguntei.Ela assentiu.- É a única ocasião em que ele tem permissão <strong>de</strong> visitar o Olimpo - o dia mais escuro do ano.Mas, se o que ouvi é verda<strong>de</strong>, o elmo é muito mais po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>o que meu boné da invisibilida<strong>de</strong>...- Permite que ele se transforme em trevas - confirmou Grover. - Ele po<strong>de</strong> se fundir com assombras ou passar através <strong>de</strong> pare<strong>de</strong>s. Não po<strong>de</strong> ser tocado nem visto nem ouvido. E po<strong>de</strong> irradiarum medo tão intenso que é capaz <strong>de</strong> enlouquecer você, ou fazer seu coração parar <strong>de</strong> bater. Porque acha que todas as criaturas racionais têm medo do escuro?- Mas então... como sabem<strong>os</strong> se ele não está aqui agora mesmo, n<strong>os</strong> observando? - perguntei.


Annabeth e Grover se entreolharam.- Nós não sabem<strong>os</strong> - disse Grover.- Obrigado, agora me sinto muito melhor - falei. - Ainda sobrou alguma jujuba azul?Tinha quase controlado meu <strong>de</strong>sespero quando vi o minúsculo elevador no qual iríam<strong>os</strong> subiraté o topo do Arco, e percebi que estava encrencado. O<strong>de</strong>io espaç<strong>os</strong> confinad<strong>os</strong>. Eles me <strong>de</strong>ixamdoido.Fom<strong>os</strong> espremid<strong>os</strong> <strong>de</strong>ntro do elevador junto com uma senhora gran<strong>de</strong> e gorda e seu cão, umchihuahua com uma coleira <strong>de</strong> fals<strong>os</strong> brilhantes. Calculei que talvez o chihuahua f<strong>os</strong>se um cãoguia,por que nenhum d<strong>os</strong> guardas disse uma palavra a respeito.Começam<strong>os</strong> a subir <strong>de</strong>ntro do Arco. Eu nunca havia estado em um elevador que subia em curva,e meu estômago não g<strong>os</strong>tou muito.- Sem <strong>os</strong> pais? - perguntou-n<strong>os</strong> a senhora gorda.Tinha olh<strong>os</strong> pequen<strong>os</strong>, redond<strong>os</strong> e brilhantes; <strong>de</strong>ntes pontud<strong>os</strong> e manchad<strong>os</strong> <strong>de</strong> café; um chapéumole <strong>de</strong> jeans e um vestido <strong>de</strong> jeans armado <strong>de</strong>mais. Parecia um dirigível jeans.- Eles estão lá embaixo - disse Annabeth. - Têm medo <strong>de</strong> altura.- Ah, pobrezinh<strong>os</strong>.O chihuahua r<strong>os</strong>nou. A mulher disse: - Vam<strong>os</strong>, vam<strong>os</strong>, filhinho. Comporte-se. - O cão tinhaolh<strong>os</strong> pequen<strong>os</strong>, redond<strong>os</strong> e brilhantes como <strong>os</strong> da dona, inteligentes e malvad<strong>os</strong>.Eu disse:- Filhinho. É o nome <strong>de</strong>le?- Não.Ela falou e sorriu, como se aquilo esclarecesse tudo.No topo do Arco, a plataforma <strong>de</strong> observação me lembrou uma lata acarpetada. Fileiras <strong>de</strong>janelinhas davam para a cida<strong>de</strong>, <strong>de</strong> um lado, e para o rio, do outro. A vista era legal, mas se existeuma coisa <strong>de</strong> que g<strong>os</strong>to ainda men<strong>os</strong> que lugar fechado, é um lugar fechado a duzent<strong>os</strong> metr<strong>os</strong> <strong>de</strong>altura.Annabeth seguiu falando sobre suportes estruturais e sobre como teria feito as janelas maiores eprojetado um piso transparente. Ela po<strong>de</strong>ria ter ficado lá em cima horas a fio, mas, para minhasorte, o guarda anunciou que a plataforma <strong>de</strong> observação seria fechada em pouc<strong>os</strong> minut<strong>os</strong>.Guiei Grover e Annabeth em direção à saída, enfiei-<strong>os</strong> no elevador e estava quase entrandoquando me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> que já havia outr<strong>os</strong> dois turistas lá <strong>de</strong>ntro. Não tinha espaço para mim.O guarda disse:- Próximo carro, senhor.- Vam<strong>os</strong> sair - disse Annabeth. - Vam<strong>os</strong> esperar com você.Mas aquilo ia atrapalhar todo mundo e levar ainda mais tempo, então eu disse: - Não, tudo bem.Vejo vocês lá embaixo.Grover e Annabeth pareceram nerv<strong>os</strong><strong>os</strong>, mas <strong>de</strong>ixaram a porta do elevador se fechar. O carro<strong>de</strong>sapareceu rampa abaixo.Agora as únicas pessoas que restavam na plataforma <strong>de</strong> observação éram<strong>os</strong> eu, um garotinhocom <strong>os</strong> pais, o guarda e a senhora gorda com o chihuahua.Sorri pouco à vonta<strong>de</strong> para a senhora gorda. Ela sorriu <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta, a língua bifurcada tremulandoentre <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes.Espere um minuto.Língua bifurcada?


Antes que eu pu<strong>de</strong>sse concluir se tinha realmente visto aquilo, o chihuahua pulou no chão ecomeçou a latir para mim.- Vam<strong>os</strong>, vam<strong>os</strong>, filhinho - disse a senhora. - Não está divertido? Tem<strong>os</strong> todas essas pessoassimpáticas aqui.- Cachorrinho! - disse o menino. - Olhe, um cachorrinho!Os pais o puxaram <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.O chihuahua arreganhou <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes para mim, a espuma pingando d<strong>os</strong> lábi<strong>os</strong> negr<strong>os</strong>.- Bem, meu filho - suspirou a senhora gorda. - Se você insiste.Meu estômago começou a gelar.- Ahn, você chamou esse chihuahua <strong>de</strong> filho?- Quimera, querido - corrigiu a senhora gorda. - Não é um chihuahua. É um engano muitocomum.Ela arregaçou as mangas jeans, m<strong>os</strong>trando que a pele <strong>de</strong> seus braç<strong>os</strong> era escam<strong>os</strong>a e ver<strong>de</strong>.Quando sorriu, vi que seus <strong>de</strong>ntes eram presas. As pupilas d<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> eram fendas verticais, comoas d<strong>os</strong> répteis.O chihuahua latiu mais alto, e a cada latido ele crescia. Primeiro ficou do tamanho <strong>de</strong> umdoberman, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> um leão. O latido se transformou em rugido.O menininho gritou. Os pais o puxaram para a saída, bem na direção do guarda, que estavaparalisado, <strong>de</strong> olh<strong>os</strong> arregalad<strong>os</strong> para o monstro.A Quimera estava tão alta que suas c<strong>os</strong>tas tocavam o teto. Tinha cabeça <strong>de</strong> leão, com a jubauntada <strong>de</strong> sangue, o corpo e <strong>os</strong> casc<strong>os</strong> <strong>de</strong> um bo<strong>de</strong> gigante e uma serpente no lugar da cauda,l<strong>os</strong>ang<strong>os</strong> <strong>de</strong> três metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> comprimento brotavam do traseiro peludo.Ainda tinha no pescoço a coleira <strong>de</strong> fals<strong>os</strong> brilhantes e a placa, do tamanho <strong>de</strong> um prato, eraagora fácil <strong>de</strong> ler: QUIMERA – RAIVOSA, HÁLITO DE FOGO, VENENOSA – SEENCONTRADA, FAVOR LIGAR PARA O TÁTARO – RAMAL 954.Percebi que não havia sequer tirado a tampa da minha espada. Minhas mã<strong>os</strong> estavamamortecidas. Eu estava a três metr<strong>os</strong> da bocarra sangrenta da Quimera, e sabia que assim que memexesse a criatura iria investir.A mulher-cobra fez um som sibilante que po<strong>de</strong>ria ter sido uma risada.- Sinta-se honrado, Percy Jackson. O Senhor Zeus raramente me permite pôr um herói à provacom um <strong>de</strong> minha prole. Pois eu sou a Mãe <strong>de</strong> Monstr<strong>os</strong>, a terrível Equidna!Olhei para ela. Tudo que eu pu<strong>de</strong> pensar foi: - Isso não é o nome <strong>de</strong> bicho que come formigas?Ela uivou, a cara <strong>de</strong> réptil ficou marrom e ver<strong>de</strong> <strong>de</strong> raiva.- Detesto quando as pessoas dizem isso! Detesto a Austrália! Dar meu nome àquele animalridículo. Por causa disso, Percy Jackson, meu filho o <strong>de</strong>struirá!A Quimera avançou, <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> leão rangendo. Consegui pular para o lado e me esquivar damordida.Fui parar junto da família e do guarda, que agora estavam tod<strong>os</strong> gritando, tentando abrir à forçaas portas da saída <strong>de</strong> emergência.Não podia <strong>de</strong>ixar que eles f<strong>os</strong>sem ferid<strong>os</strong>. Tirei a tampa da espada, corri para o outro lado daplataforma e gritei: - Ei, chihuahua!A Quimera se virou mais <strong>de</strong>pressa do que eu achava p<strong>os</strong>sível.Antes que eu pu<strong>de</strong>sse erguer a espada, ela abriu a boca, soltando um mau cheiro como o damaior churrasqueira do mundo, e lançou uma coluna <strong>de</strong> chamas bem em cima <strong>de</strong> mim.


Mergulhei através da expl<strong>os</strong>ão. O carpete explodiu em chamas; o calor foi tão intenso que quasequeimou minhas sobrancelhas.O lugar on<strong>de</strong> eu estava um momento antes se tornara um buraco esfarrapado na lateral do Arco,com metal <strong>de</strong>rretido fumegando nas bordas.Essa é boa, pensei. Acabam<strong>os</strong> <strong>de</strong> soldar um monumento nacional.Contracorrente era agora uma lamina <strong>de</strong> bronze reluzente em minhas mã<strong>os</strong>, e quando a Quimerase virou, eu a golpeei com violência no pescoço.Foi um erro fatal. A lâmina faiscou sem efeito contra a coleira <strong>de</strong> cachorro. Tentei recuperar oequilíbrio, mas estava tão preocupado em me <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r da boca chamejante <strong>de</strong> leão que me esquecicompletamente da cauda <strong>de</strong> serpente, até que ela fez uma <strong>vol</strong>ta e cravou as presas na minhapanturrilha.Minha perna inteira ar<strong>de</strong>u em fogo. Tentei enfiar Contracorrente na boca da Quimera, mas acauda <strong>de</strong> serpente enrolou-se n<strong>os</strong> meus tornozel<strong>os</strong> e me <strong>de</strong>sequilibrou, e a espada voou <strong>de</strong> minhamão, saiu rodopiando pelo buraco no Arco e caiu no rio Mississipi.Consegui ficar em pé, mas sabia que tinha perdido. Estava <strong>de</strong>sarmado. Podia sentir o venenoletal subindo por meu peito. Lembrei-me <strong>de</strong> Quíron dizendo que Anaklusm<strong>os</strong> sempre <strong>vol</strong>taria paramim, mas não havia nenhuma caneta em meu bolso. Talvez estivesse caído longe <strong>de</strong>mais. Ou só<strong>vol</strong>tasse quando estava em forma <strong>de</strong> caneta. Eu não sabia, e não ia viver o bastante para <strong>de</strong>scobrir.Recuei para o buraco na pare<strong>de</strong>. A Quimera avançou, r<strong>os</strong>nando e soltando espirais <strong>de</strong> fumaçapel<strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>. A mulher-serpente, Equidna, gargalhou.- Já não se fazem mais heróis como antigamente, heim, filho?O monstro r<strong>os</strong>nou. Parecia não estar com pressa <strong>de</strong> acabar comigo, agora que eu estava<strong>de</strong>rrotado.Dei uma olhada para o guarda e a família. O menininho se escondia atrás das pernas do pai. Eutinha <strong>de</strong> proteger aquelas pessoas. Não podia simplesmente... morrer. Tentei pensar, mas meucorpo inteiro estava em fogo. Minha cabeça girava. Eu não e tinha espada. Estava enfrentando ummonstro imenso, que cuspia fogo, e sua mãe. E estava apavorado.Não havia outro lugar para ir, portanto subi na beira do buraco. Muito, muito embaixo, o riobrilhava.Será que se eu morresse <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> iriam embora? Deixariam <strong>os</strong> human<strong>os</strong> em paz?- Se você é o filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon - sibilou Equidna -, então não tem medo da água. Pule, PercyJackson.M<strong>os</strong>tre-me que a água não lhe fará mal. Pule e recupere a espada. Prove a sua linhagem.Sim, certo, pensei. Eu tinha lido em algum lugar que pular na água da altura <strong>de</strong> alguns andaresera como se atirar em asfalto. Dali, eu ia me <strong>de</strong>sfazer em pedaç<strong>os</strong> com o impacto.A boca da Quimera estava vermelha, incan<strong>de</strong>scente, preparando uma nova rajada <strong>de</strong> fogo.- Você não tem fé - disse a Quimera. - Não confia n<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Não p<strong>os</strong>so culpá-lo, pequenocovar<strong>de</strong>.Melhor que morra agora. Os <strong>de</strong>uses são infiéis. O veneno está no seu coração.Ela estava certa: eu estava morrendo. Podia sentir a respiração falhando. Ninguém po<strong>de</strong>ria mesalvar, nem mesmo <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.Recuei e olhei para a água lá embaixo. Lembrei-me do calor do sorriso <strong>de</strong> meu pai quando euera um bebê. Ele <strong>de</strong>ve ter me visto. Deve ter me visitado quando eu estava no berço.Lembrei-me do tri<strong>de</strong>nte ver<strong>de</strong> que aparecera girando acima da minha cabeça na noite da captura


da ban<strong>de</strong>ira, quando P<strong>os</strong>eidon me reconheceu como seu filho.Mas aquilo não era o mar. Aquilo era o Mississipi, bem no meio d<strong>os</strong> Estad<strong>os</strong> Unid<strong>os</strong>. Ali nãohavia nenhum Deus do mar.- Morra, infiel - disse a voz rouca <strong>de</strong> Equidna, e a Quimera mandou uma coluna <strong>de</strong> fogo nadireção <strong>de</strong> meu r<strong>os</strong>to.- Pai, me aju<strong>de</strong> - implorei.Virei-me e pulei. Minhas roupas em chamas, o veneno correndo por minhas veias, mergulhei norio.QUATORZE – Me torno um fugitivo conhecido.Eu adoraria contar que tive alguma revelação profunda enquanto caía, que aprendi a aceitarminha própria mortalida<strong>de</strong>, que ri em face da morte etc.A verda<strong>de</strong>? Meu único pensamento foi: Aaaaarggghhhh!O rio vinha em minha direção na velocida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um caminhão. O vento arrancou o fôlego d<strong>os</strong>meus pulmões. Torres, arranha-céus e pontes giravam entrando e saindo do meu campo <strong>de</strong> visão.E então...Cata-puuum!Um turbilhão <strong>de</strong> bolhas. Afun<strong>de</strong>i nas trevas, certo <strong>de</strong> que acabaria engolindo por trinta metr<strong>os</strong><strong>de</strong> lama e perdido para sempre.Mas meu impacto com a água não doeu. Eu estava agora <strong>de</strong>scendo lentamente, com bolhaspassando por entre meus <strong>de</strong>d<strong>os</strong>. Fui parar no fundo do rio, em silencio. Um peixe-gato do tamanhodo meu padrasto se afastou com uma guinada para a escuridão. Nuvens <strong>de</strong> lodo e lixo nojento -garrafas <strong>de</strong> cerveja, sapat<strong>os</strong> velh<strong>os</strong>, sac<strong>os</strong> plástic<strong>os</strong> - giravam ao meu redor.Àquela altura me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> algumas coisas. Primeiro: eu não tinha sido achatado como umapanqueca.Não havia sido assado como churrasco. Não sentia nem mesmo o veneno da Quimera fervendoem minhas veias. Eu estava vivo, o que era bom.Segundo: eu não estava molhado. Quer dizer, conseguia sentir a friagem da água. Podia veron<strong>de</strong> o fogo em minhas roupas tinha sido apagado. Mas, quando toquei minha camisa, pareciaperfeitamente seca.Olhei para o lixo que passava flutuando e agarrei um velho isqueiro.Sem chance, pensei.Risquei o isqueiro. Uma faísca saltou. Uma chama pequenina apareceu, bem ali, no fundo doMississipi.Agarrei uma embalagem ensopada <strong>de</strong> hambúrguer na corrente e o papel secou imediatamente.Queimei-o sem problemas. Assim que o soltei, as chamas bruxelearam e se apagaram. Aembalagem <strong>vol</strong>tou a se transformar em um trapo visc<strong>os</strong>o. Esquisito.Mas a idéia mais estranha me ocorreu por último: eu estava respirando. Estava embaixo d’águae respirava normalmente.Fiquei <strong>de</strong> pé, afundado até as coxas na lama. Sentia as pernas tremulas. As mã<strong>os</strong> tremiam. Eu<strong>de</strong>via estar morto. O fato <strong>de</strong> não estar parecia... bem, um milagre. Imaginei uma voz <strong>de</strong> mulher,uma voz que parecia um pouco com a da minha mãe: Percy, como é que se diz?- Ahn... muito obrigado. - Embaixo d’água, minha voz soava como em gravações, idêntica à <strong>de</strong>um garoto muito mais velho. - Muito obrigado... pai.


Nenhuma resp<strong>os</strong>ta. Apenas o fluir escuro do lixo rio abaixo, o enorme peixe-gato que passava<strong>de</strong>slizando, o brilho do sol poente na superfície da água muito acima, <strong>de</strong>ixando tudo da cor <strong>de</strong>doce <strong>de</strong> leite.Por que P<strong>os</strong>eidon me salvara? Quanto mais eu pensava nisso, mais envergonhado me sentia.Então, eu tivera sorte algumas vezes. Contra algo como a Quimera, eu não tinha a menor chance.Aquela pobre gente no Arco provavelmente virara torrada. Não consegui protegê-l<strong>os</strong>. Não eranenhum herói. Talvez <strong>de</strong>vesse simplesmente ficar aqui embaixo com o peixe-gato, juntar-me a<strong>os</strong>comensais do fundo do rio.Plof-plof-plof. As pás da hélice <strong>de</strong> um barco agitaram a água sobre mim, revirando o lodo aoredor.Ali, não mais <strong>de</strong> cinco metr<strong>os</strong> à frente, estava minha espada, a guarda <strong>de</strong> bronze brilhando,espetada na lama.Ouvi aquela voz <strong>de</strong> mulher outra vez: Percy, pegue a espada. Seu pai acredita em você . Dessavez percebi que a voz não estava em minha cabeça. Eu não a estava imaginando. As palavraspareciam vir <strong>de</strong> toda parte, ondulando pela água como o sonar <strong>de</strong> um golfinho.- On<strong>de</strong> está você? - perguntei em voz alta.Então, nas sombras, eu a vi - uma mulher da cor da água, um fantasma na corrente, flutuandologo acima da espada. Tinha long<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> ondulantes, e <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, pouco visíveis, eram ver<strong>de</strong>scomo <strong>os</strong> meus.Um nó se formou em minha garganta.- Mamãe?Não, criança, apenas uma mensageira, embora o <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> sua mãe não seja tão inevitávelcomo você acredita. Vá para a praia em Santa Monica.- O quê?É a vonta<strong>de</strong> se seu pai. Antes <strong>de</strong> <strong>de</strong>scer para o Mundo Inferior, <strong>de</strong>ve ir a Santa Monica. Porfavor, Percy, não p<strong>os</strong>so ficar muito tempo aqui. O rio é sujo <strong>de</strong>mais para a minha presença.- Mas... - Eu não sabia muito bem se a mulher era a minha mãe ou, bem, uma visão <strong>de</strong>la. -Quem... como você...Havia muita coisa que eu queria perguntar, as palavras se amontoavam em minha garganta.Não p<strong>os</strong>so ficar, meu valente, disse a mulher. Ela esten<strong>de</strong>u a mão, e sentia a corrente roçar meur<strong>os</strong>to como uma caricia. Você precisa ir a Santa Monica! E, Percy, cuidado com <strong>os</strong> presentes...A voz <strong>de</strong>la sumiu.- Presentes? - perguntei. - Que presentes? Espere!Ela tentou falar novamente, mas o som se fora. Sua imagem se <strong>de</strong>sfez. Se era a minha mãe, eu atinha perdido <strong>de</strong> novo.Senti vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> me afogar. O único problema: eu era imune a isso.Seu pai acredita em você, ela dissera.Ela também me chamara <strong>de</strong> valente... a não ser que estivesse falando com o peixe-gato.Fui me arrastando até Contracorrente e a agarrei pela guarda. A Quimera ainda podia estar láem cima com sua mãe gorda e peçonhenta, esperando para acabar comigo. Na melhor dashipóteses, a polícia mortal estaria chegando, tentando <strong>de</strong>scobrir quem havia aberto um buraco noArco. Se me achassem, teriam algumas perguntas a fazer.Pus a tampa na espada e enfiei a esferográfica no bolso.- Muito obrigado, pai - disse <strong>de</strong> novo para a água escura. Então <strong>de</strong>i um impulso para cima,


através da sujeira, e na<strong>de</strong>i até a superfície.*****Emergi ao lado <strong>de</strong> um McDonald’s flutuante.A um quarteirão <strong>de</strong> distancia, tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> veícul<strong>os</strong> <strong>de</strong> emergência se St. Louis cercavam o Arco.Helicópter<strong>os</strong> da policia circulavam no alto. A multidão <strong>de</strong> curi<strong>os</strong><strong>os</strong> me lembrou Times Square nodia <strong>de</strong> ano-novo.Uma menininha disse:- Mamãe! Aquele menino saiu andando do rio.- Que bom, querida - disse a mãe, esticando o pescoço para ver as ambulâncias.- Mas ele está seco!- Que bom, querida.Uma repórter estava falando para a câmera: ―Tudo leva a crer, pelo que soubem<strong>os</strong>, que não setrata <strong>de</strong> um ataque terrorista, mas as investigações ainda estão muito no começo. Os dan<strong>os</strong>, comopo<strong>de</strong>m ver, são muito séri<strong>os</strong>. Estam<strong>os</strong> tentando obter acesso a alguns sobreviventes paraquestioná-l<strong>os</strong> a respeito <strong>de</strong> testemunh<strong>os</strong> <strong>de</strong> que alguém teria caído <strong>de</strong> cima do Arco.ǁSobreviventes. Senti uma onda <strong>de</strong> alivio. O guarda e a família tinham escapado iles<strong>os</strong>. Euesperava que Annabeth e Grover estivessem bem.Tentei abrir caminho na multidão para ver o que estava acontecendo <strong>de</strong>pois da barreira policial.―...um adolescenteǁ, outro reporte estava dizendo. ―O Canal 5 soube que as câmeras <strong>de</strong>vigilância m<strong>os</strong>tram um adolescente enlouquecido na plataforma <strong>de</strong> observação, <strong>de</strong>tonando <strong>de</strong>algum modo aquela estranha expl<strong>os</strong>ão. É difícil acreditar, John, mas é isso que estam<strong>os</strong> ouvindodizer. Mais uma vez, não há nenhuma fatalida<strong>de</strong> confirmada...ǁRecuei, tentando manter a cabeça baixa. Tinha <strong>de</strong> dar uma <strong>vol</strong>ta enorme para contornar aperímetro policial. Havia policiais e repórteres por toda parte.Estava quase per<strong>de</strong>ndo a esperança <strong>de</strong> encontrar Annabeth e Grover quando uma voz familiarbaliu: - Perrr-cy!Virei-me e <strong>de</strong>i com o abraço <strong>de</strong> urso <strong>de</strong> Grover - ou abraço <strong>de</strong> bo<strong>de</strong>. Ele disse: - Pensam<strong>os</strong> quetivesse ido para o Ha<strong>de</strong>s pelo pior caminho!Annabeth estava trás <strong>de</strong>le, tentando fazer cara <strong>de</strong> zangada, mas até ela parecia aliviada por mever.- Não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixar você cinco minut<strong>os</strong> sozinho! O que aconteceu?- Foi como um tombo.- Percy! Cento e noventa e dois metr<strong>os</strong>?Atrás <strong>de</strong> nós, um policial gritou: - Abram passagem! - A multidão se dividiu e uma dupla <strong>de</strong>paramédic<strong>os</strong> avançou empurrando uma mulher numa maca. Eu a reconheci imediatamente como amãe do menininho que estava na plataforma. Ela dizia: - E então aquele cachorro enorme, aquelechihuahua enorme cuspindo fogo...- Certo, minha senhora - disse o paramédico. - Acalme-se por favor. Sua família está bem. Omedicamento esta começando a fazer efeito.- Eu não estou louca! Aquele menino pulou pelo buraco e o monstro <strong>de</strong>sapareceu. - Então elame viu. - Lá está ele! É aquele menino!Virei rapidamente e puxei Annabeth e Grover atrás <strong>de</strong> mim. Desaparecem<strong>os</strong> na multidão.- O que está acontecendo? - perguntou Annabeth. - Ela estava falando do chihuahua do


elevador?Contei a eles a historia inteira da Quimera, Equidna, meu show <strong>de</strong> mergulho e a mensagem damoça embaixo d’água.- Uau – disse Grover. - Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> levá-lo a Santa Monica! Não po<strong>de</strong> ignorar uma or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> seupai.Antes que Annabeth pu<strong>de</strong>sse respon<strong>de</strong>r, passam<strong>os</strong> por outro repórter que gravava um boletiminformativo, e quase fiquei paralisado quando ele disse: - Percy Jackson. É isso mesmo, Dan. Ocanal 12 soube que o menino que po<strong>de</strong> ter causado essa expl<strong>os</strong>ão se encaixa na <strong>de</strong>scrição <strong>de</strong> umrapazinho procurado pelas autorida<strong>de</strong>s por um serio aci<strong>de</strong>nte com um ônibus em New Jersey trêsdias atrás. E acredita-se que o menino esteja viajando para o oeste.Para <strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> espectadores <strong>de</strong> casa, esta é a foto <strong>de</strong> Percy Jackson.Nós n<strong>os</strong> abaixam<strong>os</strong> atrás do carro <strong>de</strong> reportagem e n<strong>os</strong> esgueiram<strong>os</strong> para um beco.- Primeiro o mais importante - disse a Grover. - Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> sair da cida<strong>de</strong>!De algum modo conseguim<strong>os</strong> <strong>vol</strong>tar à estação ferroviária sem serm<strong>os</strong> vist<strong>os</strong>. Embarcam<strong>os</strong> notrem bem no momento em que estava saindo para Denver. O trem seguiu para oeste enquanto anoite caía, com as luzes da policia ainda piscando contra a silhueta <strong>de</strong> St. Louis atrás <strong>de</strong> nós.QUINZE – Um <strong>de</strong>us compra cheesburgers para nós.Na tar<strong>de</strong> seguinte, 14 <strong>de</strong> junho, sete dias antes do solstício, n<strong>os</strong>so trem entrou em Denver. Nãocomíam<strong>os</strong> nada <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a noite anterior no vagão-restaurante, em algum lugar <strong>de</strong> Kansas. Nãotomávam<strong>os</strong> banho <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que saím<strong>os</strong> da Colina Meio-Sangue, e eu tinha certeza <strong>de</strong> que isso eraoóbvio.- Vam<strong>os</strong> tentar entrar em contato com Quíron - disse Annabeth. - Quero contar a ele sobre suaconversa com o espírito do rio.- Não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> usar telefones, certo?- Não estou falando <strong>de</strong> telefones.Perambulam<strong>os</strong> pelo centro da cida<strong>de</strong> por cerca <strong>de</strong> meia hora, embora eu não soubesse muitobem o que Annabeth estava procurando. O ar estava seco e quente, o que era estranho <strong>de</strong>pois daumida<strong>de</strong> <strong>de</strong> St.Louis. Aon<strong>de</strong> quer que fôssem<strong>os</strong>, as Montanhas Roch<strong>os</strong>as pareciam me olhar, como um tsunamiprestes a quebrar sobre a cida<strong>de</strong>.Finalmente encontram<strong>os</strong> um lava-jato vazio. Fom<strong>os</strong> para o boxe mais afastado da rua, atent<strong>os</strong> acarr<strong>os</strong> <strong>de</strong> policia. Éram<strong>os</strong> três adolescentes sem automóvel em um lava-jato; qualquer policial quese prezasse <strong>de</strong>duziria que não estávam<strong>os</strong> tramando nada <strong>de</strong> bom.- O que exatamente estam<strong>os</strong> fazendo? - perguntei quando Grover pegou a mangueira <strong>de</strong> umcompressor.- São setenta e cinco centav<strong>os</strong> - resmungou. Só me restauram duas moedas <strong>de</strong> vinte e cinco.Annabeth?- Não olhe para mim - disse ela. - O vagão-restaurante me <strong>de</strong>ixou lisa.Pesquei o meu último restinho <strong>de</strong> trocad<strong>os</strong> e passei uma moeda <strong>de</strong> vinte e cinco centav<strong>os</strong> paraGrover, o que me <strong>de</strong>ixou com cinco e um dracma da Medusa.- Excelente - disse Grover. - Po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> fazer isso com qualquer spray, é claro, mas a conexãonão fica boa, e meus braç<strong>os</strong> cansam <strong>de</strong> tanto bombear.- Do que está falando?


Ele <strong>de</strong>p<strong>os</strong>itou as moedas e ajustou o botão para ESGUICHO FINO.- M. I.- Mensagem instantânea?- Mensagem <strong>de</strong> Íris - corrigiu Annabeth. - A <strong>de</strong>usa do arco-íris transmite mensagens a<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.Se a gente souber como pedir, e ela não estiver atarefada <strong>de</strong>mais, fará o mesmo para mei<strong>os</strong>sangues.- Você convoca a <strong>de</strong>usa com um compressor?Grover apontou o bico da mangueira para o ar e água saiu chiando em uma espessa névoabranca.- A não ser que conheça um meio mais fácil <strong>de</strong> fazer um arco-íris.De fato, a lumin<strong>os</strong>ida<strong>de</strong> do fim <strong>de</strong> tar<strong>de</strong> se filtrou através da névoa e se <strong>de</strong>compôs em cores.Annabeth esten<strong>de</strong>u a palma da mão para mim.- Dracma, por favor.Eu o entreguei.Ela ergueu a moeda acima da cabeça.- Ó <strong>de</strong>usa, aceite n<strong>os</strong>sa oferenda.Jogou o dracma no arco-íris. Ele <strong>de</strong>sapareceu em um tremuluzir dourado.- Colina Meio-Sangue - solicitou Annabeth.Por um momento, nada aconteceu.E então eu estava olhando através da névoa para camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong> e o Estreito <strong>de</strong> LongIsland a distância. Era como se estivéssem<strong>os</strong> na varanda da Casa Gran<strong>de</strong>. Em pé, <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas paranós junto à cerca, estava um cara <strong>de</strong> cabel<strong>os</strong> da cor da areia, <strong>de</strong> short e camiseta regata laranja.Segurava uma espada <strong>de</strong> bronze e parecia olhar atentamente para algo na campina.- Luke! - chamei.Ele se virou, <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> arregalad<strong>os</strong>. Po<strong>de</strong>ria jurar que ele estava na minha frente, a um metro <strong>de</strong>distância, atrás <strong>de</strong> uma cortina <strong>de</strong> névoa,só que eu via apenas a parte <strong>de</strong>le que aparecia no arcoíris.- Percy! - O seu r<strong>os</strong>to marcado pela cicatriz se abriu em um sorriso. - E Annabeth também?Graças a<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses! Vocês estão bem?- Estam<strong>os</strong>... ahn... ótim<strong>os</strong> - gaguejou Annabeth. Ela tentava <strong>de</strong>seperadamente alisar a camisetasuja e tirar <strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> solt<strong>os</strong> da fente do r<strong>os</strong>to. - Nós pensam<strong>os</strong>... Quíron... quer dizer...- Ele esta lá embaixo n<strong>os</strong> chalés. - O sorriso <strong>de</strong> Luke se apagou. Estam<strong>os</strong> tendo algunsproblemas com <strong>os</strong> campistas. Escute, está tudo legal com vocês? Grover está bem?- Estou bem aqui - gritou Grover. Ele virou o esguicho para um lado e entrou no campo <strong>de</strong> visão<strong>de</strong> Luke.- Que tipo <strong>de</strong> problemas?Bem naquele momento um gran<strong>de</strong> Lincoln Continental entrou no lava-jato com o rádio tocandohip-hop no último <strong>vol</strong>ume.Quando o carro entrou no boxe ao lado, <strong>os</strong> alto-falantes vibravam tanto que sacudiram ocalçamento.- Quíron teve <strong>de</strong>... que barulho é esse? - gritou Luke.- Deixe que eu cuido disso! - gritou Annabeth parecendo muito aliviada por ter uma <strong>de</strong>sculpapara sair <strong>de</strong> vista. - Grover, venha!- O quê? - disse Grover. - Mas...


- Dê a mangueira a Percy e venha! - or<strong>de</strong>nou ela.Grover resmungou qualquer coisa sobre as meninas serem mais difíceis <strong>de</strong> enten<strong>de</strong>r do que oOráculo <strong>de</strong> Delf<strong>os</strong>, <strong>de</strong>pois me entregou a mangueira e seguiu Annabeth.Eu reajustei o esguicho para manter o arco-íris e ainda ver Luke.- Quíron teve <strong>de</strong> separar uma briga - gritou Luke, mais alto que música. - A situação anda umbocado tensa por aqui. A questão-impasse entre Zeus e P<strong>os</strong>eidon vazou. Ainda não sabem<strong>os</strong>direito como...provavelmente, foi o mesmo s ujeito nojento que convocou o cão infernal. Agora <strong>os</strong> campistasestão começando a tomar partido. As coisas estão ficando como na Guerra <strong>de</strong> Tróia, tudo <strong>de</strong> novo.Afrodite, Ares e Apolo estão <strong>de</strong> certo modo apoiando P<strong>os</strong>eidon. Atena está apoiando Zeus.Estremeci só <strong>de</strong> pensar que o chalé <strong>de</strong> Clarisse pu<strong>de</strong>sse estar do lado <strong>de</strong> meu pai para algumacoisa. No boxe ao l a d o , o u v i Annabeth e algum cara discutindo, e então o <strong>vol</strong>ume da mús ic aabaixou drasticamente.- Então, qual é a sua situação? - perguntou Luke para mim. - Quíron vai lamentar muito não terpodido falar com você.Contei-lhe praticamente tudo, inclusive meus sonh<strong>os</strong>. Era tão boa a sensação <strong>de</strong> vê-lo, <strong>de</strong> que euestava <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta ao acampamento, mesmo que f<strong>os</strong>se por alguns minut<strong>os</strong>, que não percebi porquanto tempo havia falado até que o alarme do compressor disparou. Vi que só tinha mais umminuto antes que a água <strong>de</strong>sligasse.- Queria po<strong>de</strong>r estar aí - disse Luke. - Não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> ajudar muito daqui, infelizmente, masescute... com certeza foi Ha<strong>de</strong>s quem pegou o raio-mestre. Ele estava lá no Olimpo solstício <strong>de</strong>inverno. Eu estava supervisionando uma excursão e nós o vim<strong>os</strong>.- Mas Quíron falou que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses não po<strong>de</strong>m tomar diretamente <strong>os</strong> itens mágic<strong>os</strong> um do outro.- É verda<strong>de</strong> - disse Luke, parecendo perturbado. - Ainda assim... Ha<strong>de</strong>s tem o elmo das trevas.Como alguém mais po<strong>de</strong>ria se esgueirar para <strong>de</strong>ntro da sala do trono e roubar o raio-mestre? Épreciso estar invisível.Ficam<strong>os</strong> <strong>os</strong> dois em silêncio até que Luke pareceu se dar conta do que dissera.- Ei - protestou ele. - Não quis dizer Annabeth. Ela e eu n<strong>os</strong> conhecem<strong>os</strong> há uma eternida<strong>de</strong>. Elajamais iria... quer dizer, ela é como uma irmã para mim.Pensei comigo mesmo se Annabeth iria g<strong>os</strong>tar daquela <strong>de</strong>scrição. No boxe ao lado, a músicaparou.Um homem gritou aterrorizado, portas <strong>de</strong> carro bateram e o Lincoln saiu a toda do lava-jato.- É melhor você ir ver o que foi aquilo - disse Luke. - Escute, está usando <strong>os</strong> ténis voadores? Eume sentiria melhor se soubesse que lhe serviram <strong>de</strong> alguma coisa.- Ah... ahn, sim! - Tentei não soar como parecer um mentir<strong>os</strong>o culpado. - Sim, foram úteis.- É mesmo? - sorriu. - Serviram e tudo o mais?A água cessou. A névoa começou a dispersar.- Bem, cui<strong>de</strong>-se lá em Denver - gritou Luke, a voz f i c a n d o mais baixa. - E diga a Grover que<strong>de</strong>ssa vez será melhor! Ninguém será transformado em pinheiro se ele apenas...Mas a névoa se foi, e a imagem <strong>de</strong> Luke <strong>de</strong>sapareceu. Eu estava sozinho em um boxe molhado evazio <strong>de</strong> lava-jato.Annabeth e Grover apareceram no canto, rindo, mas p a r a r a m quando viram minha cara. Osorriso <strong>de</strong> Annabeth sumiu.- O que aconteceu, Percy? O que Luke disse?


- Quase nada - menti, sentindo o estômago tão vazio quanto um chalé d<strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s.- Venham, vam<strong>os</strong> procurar alguma coisa para jantar.*****Pouc<strong>os</strong> minut<strong>os</strong> <strong>de</strong>pois, estávam<strong>os</strong> sentad<strong>os</strong> num reservado <strong>de</strong> um pequeno e reluzenterestaurante todo cromado. À n<strong>os</strong>sa <strong>vol</strong>ta, famílias comiam hambúrgueres e bebiam cerveja erefrigerantes.Finalmente, a garçonete veio. Ela ergueu uma sobrancelha com um ar cético.- Então?Eu disse:- Nós, ahn, querem<strong>os</strong> pedir o jantar.- Têm dinheiro para pagar, crianças?O lábio inferior <strong>de</strong> Grover tremeu. Tive medo <strong>de</strong> que ele começasse a balir, ou, pior, começassea comer o linóleo. Annabeth parecia prestes a <strong>de</strong>smaiar <strong>de</strong> fome.Eu estava tentando pensar em uma história comovente p a r a a garçonete quando um forteronco sacudiu o edifício inteiro; uma motocicleta do tamanho <strong>de</strong> um filhote <strong>de</strong> elefante haviaenc<strong>os</strong>tado no meio-fío.Todas as conversas cessaram. O farol da motocicleta brilh a va em vermelho. Tinha labaredaspintadas sobre o tanque <strong>de</strong> gasolina e um coldre <strong>de</strong> cada lado, com espingardas <strong>de</strong> caca. O a s s e nt o era <strong>de</strong> couro - mas um couro que parecia... bem, pele h u m a n a , c a u c a s i a n a .O cara da moto podia fazer lutadores profissionais saírem correndo chamando a mamãe. Vestiauma camiseta justa vermelha, que ressaltava <strong>os</strong> múscul<strong>os</strong>, jeans pret<strong>os</strong> e um casaco comprido <strong>de</strong>couro preto, com um facão <strong>de</strong> caça preso à coxa. Usava ócul<strong>os</strong> escur<strong>os</strong> vermelh<strong>os</strong>, pres<strong>os</strong> na nuca,e tinha a cara mais cruel, mais b r u t a l que eu já tinha visto - boa-pinta, eu acho, porém mau -,com cabelo aparado a máquina negro como petróleo o r<strong>os</strong>to marcado por cicatrizes <strong>de</strong> muitas,muitas brigas. O estranho era que parecia que eu já tinha visto aquele homem em algum lugar.Quando ele entrou no restaurante, um vento quente e seco soprou no ambiente. Tod<strong>os</strong> selevantaram, como se estivessem hipnotizad<strong>os</strong>, mas o motociclista acenou a mão com <strong>de</strong>sdém eeles sentaram <strong>de</strong> novo. Tod<strong>os</strong> <strong>vol</strong>taram às suas conversas. A garçonete piscou, como se alguémtivesse apertado o botão <strong>de</strong> retroce<strong>de</strong>r em seu cérebro. Ela perguntou novamente: - Têm dinheiropara pagar, crianças?O cara da moto disse:- É por minha conta. - Escorregou para <strong>de</strong>ntro do n<strong>os</strong>so reservado, pequeno <strong>de</strong>mais para ele, eespremeu Annabeth contra janela.Encarou a garçonete, que olhava para ele <strong>de</strong> olh<strong>os</strong> arregalad<strong>os</strong>, e disse: - Ainda está aí?Ele apontou para ela, e ela ficou rígida. Virou-se como se alguém a tivesse girado e marchou <strong>de</strong><strong>vol</strong>ta para a cozinha.O homem da moto me olhou. Não pu<strong>de</strong> ver seus olh<strong>os</strong> atr á s d<strong>os</strong> ócul<strong>os</strong> vermelh<strong>os</strong>, massentiment<strong>os</strong> ruins começaram a fervilhar no meu estômago. Raiva, ressentimento, amargor. Tivevonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> bater na pare<strong>de</strong>.Tive vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> comprar briga com alguém. Quem aquele cara pensavaque era?Ele me <strong>de</strong>u um sorriso mald<strong>os</strong>o.- Então você é o garoto do Velho das Algas, ahn?Eu <strong>de</strong>via ter ficado surpreso, ou assustado, mas em vez disso era como se estivesse olhandopara o meu padrasto, Gabe. Quis arrancar a cabeça do cara: - O que você tem com isso?


Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Annabeth me lançaram um alerta.- Percy, este é...- Tudo bem - disse ele. - Não me incomodo c om um pouco <strong>de</strong> petulância. Des<strong>de</strong> que vocêlembre quem manda. Sabe quem eu sou, priminho?Então me veio à cabeça por que o cara me parecia família. Ele tinha o mesmo olhar cruel <strong>de</strong>algumas crianças do Acampamento Meio-Sangue, <strong>os</strong> do chalé 5.- Você é o pai <strong>de</strong> Clansse - disse eu. - Ares, <strong>de</strong> u s guerra.Ares arreganhou um sorriso e tirou <strong>os</strong> ócul<strong>os</strong>. On<strong>de</strong> <strong>de</strong>veriam estar <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> havia apenas fogo,órbitas vazias brilhando com miniexpl<strong>os</strong>ões nucleares.- Certo, mané. Ouvi que quebrou a lança <strong>de</strong> Clarisse.- Ela estava pedindo isso.- Provavelmente. Tranqüilo. Não me meto nas brigas d<strong>os</strong> meus filh<strong>os</strong>, sabia? Estou aqui porqueouvi dizer que es t av a n a cida<strong>de</strong>. Tenho uma pequena prop<strong>os</strong>ta para você.A garçonete <strong>vol</strong>tou trazendo ban<strong>de</strong>jas com montes <strong>de</strong> comida - cheeseburgers, batatas fritas,anéis <strong>de</strong> cebola empad<strong>os</strong> e milk-shakes <strong>de</strong> chocolate.Ares entregou-lhe alguns dracmas <strong>de</strong> ouro.Ela olhou nerv<strong>os</strong>a para as moedas.- Mas estas não são...Ares puxou seu enorme facão e começou a limpar as unhas.- Algum problema, benzinho? A garçonete engoliu em seco e se afastou com o ouro.- Não po<strong>de</strong> fazer isso - disse a Ares. - Não po<strong>de</strong> ameaçar pessoas com uma faca.Ares riu.- Está brincando? Eu adoro este país. Melhor lugar, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> Esparta. Você não anda armado,otário?Pois <strong>de</strong>via. O mundo lá fora é perig<strong>os</strong>o. O que me traz <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta à minha prop<strong>os</strong>ta. Preciso queme faça um favor.- Que favor eu po<strong>de</strong>ria fazer para um <strong>de</strong>us?- Algo que um <strong>de</strong>us não tem tempo <strong>de</strong> fazer ele mesmo. Na d a <strong>de</strong>mais. Larguei meu escudo emum parque aquático abandonado aqui na cida<strong>de</strong>. Estava no meio <strong>de</strong> um... encontro com minhanamorada.Fom<strong>os</strong> interrompid<strong>os</strong>. Deixei o escudo para trás. Quero que vá buscá-lo para mim.- Por que não <strong>vol</strong>ta lá e pega você mesmo?O fogo nas órbitas <strong>de</strong>le ficou um pouco mais incan<strong>de</strong>scente. - Por que não transformo você emuma marmota e o atropelo com minha Harley? Porque não estou com vonta<strong>de</strong>. Um <strong>de</strong>us estádando a você a oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se pôr à prova, Percy Jackson. Você vai m<strong>os</strong>trar que é umcovar<strong>de</strong>? - Ele se inclinou para a frente. - Ou, quem sabe, você só luta quando há um rio paramergulhar <strong>de</strong>ntro, para que seu papai p<strong>os</strong>sa protegê-lo?Queria dar um murro naquele cara, mas, <strong>de</strong> algum modo, sabia que ele esperava por isso. Opo<strong>de</strong>r <strong>de</strong> Ares estava causando a minha raiva. Ele adoraria se eu o atacasse. Eu não queria lhe daresse g<strong>os</strong>tinho.- Não estam<strong>os</strong> interessad<strong>os</strong> - falei. - Já tem<strong>os</strong> uma missão.Os olh<strong>os</strong> ar<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> Ares me fizeram ver coisas que eu não queria - sangue, fumaça e corp<strong>os</strong>no campo <strong>de</strong> batalha.


- Eu sei <strong>de</strong> tudo sobre sua missão, seu imprestável. Quando aquele item foi roubado, Zeusenviou seus melhores para procurá-lo: Apolo, Atena, Ártemis e, naturalmente, eu. Se eu nãoconsegui farejar uma arma tão po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a... - Ele lambeu o beiço, como se a própria idéia do raiomestreo tivesse <strong>de</strong>ixado com fome. - Bem... se eu não consegui encontrá-lo, você não temnenhuma chance. Entretanto, estou tentando lhe dar o beneficio da dúvida. Seu pai e eu n<strong>os</strong>conhecem<strong>os</strong> há muito tempo. Afinal, fui eu quem lhe contou minhas suspeitas sobre o velho Bafo<strong>de</strong> Cadáver.- Você disse a ele que Ha<strong>de</strong>s roubou o raio?- Claro. Acirrar <strong>os</strong> ânim<strong>os</strong> para uma guerra. O truque mais antigo <strong>de</strong> tod<strong>os</strong>. Eu o reconheciimediatamente.De certo modo, você tem <strong>de</strong> agra<strong>de</strong>cer a mim por sua missãozinha.- Obrigado - resmunguei.- Ei, sou um cara gener<strong>os</strong>o. Faça meu servicinho e eu o ajudarei em sua viagem. Vou arranjaruma carona para oeste para você e seus amig<strong>os</strong>.- Estam<strong>os</strong> indo muito bem sozinh<strong>os</strong>.- Sim, certo. Sem dinheiro. Sem rodas. Sem nenhuma pista do que vão enfrentar. Aju<strong>de</strong>-me, etalvez eu lhe conte algo sobre que precisa saber. Algo sobre a sua mãe.- Minha mãe?Ele sorriu.- Isso <strong>de</strong>spertou sua atenção. O parque aquático fica um quilômetro e meio a oeste, na Delancy.Não há como errar. Procurem o Túnel do Amor.- O que interrompeu seu namoro? - perguntei. - Alguma coisa o assustou?Ares arreganhou <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes, mas eu já tinha visto aquela cara ameaçadora antes, em Clarisse.Havia nela algo <strong>de</strong> incerto, quase um nerv<strong>os</strong>ismo.- Você tem sorte <strong>de</strong> ter me encontrado, imprestável, e não um d<strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong>. Eles não são tãoindulgentes com a gr<strong>os</strong>seria quanto eu. Encontrarei você aqui novamente quando tiver terminado.Não me <strong>de</strong>saponte.Depois disso eu <strong>de</strong>vo ter <strong>de</strong>smaiado, ou entrado em um transe, pois quando <strong>vol</strong>tei a abrir <strong>os</strong>olh<strong>os</strong> Ares havia <strong>de</strong>saparecido. Podia ter pensado que toda a conversa fora um sonho, mas aexpressão <strong>de</strong> Annabeth e Grover me dizia outra coisa.- Nada bom - disse Grover. - Ares o procurou, Percy. Isso não é nada bom.Olhei pela janela. A motocicleta havia <strong>de</strong>saparecido.Será que Ares realmente sabia algo sobre minha mãe, ou estava apenas jogando comigo? Agoraque ele se fora, toda a minha raiva passara. Percebi que Ares <strong>de</strong>via adorar bagunçar as emoçõesdas pessoas.Era esse o seu po<strong>de</strong>r - exacerbar tanto as paixões que elas atrapalhavam n<strong>os</strong>sa capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong>pensar.- Deve ser algum tipo <strong>de</strong> truque - falei. - Esqueçam Ares. Vam<strong>os</strong> embora e pronto.- Não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> - disse Annabeth. - Olhe, <strong>de</strong>testo Ares tanto quanto qualquer um, mas não ép<strong>os</strong>sível ignorar <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses a não ser que se <strong>de</strong>seje um azar tremendo. Ele não <strong>de</strong>stava brincand<strong>os</strong>obre transformar você em um roedor.Baixei <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para meu cheesburguer, que <strong>de</strong> repente não parecia mais tão apetit<strong>os</strong>o.- Por que ele precisa <strong>de</strong> nós?- Talvez seja um problema que requeira inteligência - disse Annabeth. - Ares tem força. É tudo


o que tem. Mesmo às vezes tem <strong>de</strong> se curvar à sabedoria.- Mas esse parque aquático... ele agiu quase como se estivesse apavorado. O que faria um <strong>de</strong>usda guerra fugir <strong>de</strong>sse j e i t o ?Annabeth e Grover se entreolharam nerv<strong>os</strong>amente.Annabeth disse:- Acho que terem<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>scobrir.*****Quando encontram<strong>os</strong> o parque aquático, o sol estava se pondo atrás das montanhas. A julgarpela placa, ele outrora se c h a m a r a A Q U A L Â N D I A , mas agora algumas letras haviamsido arranca, então ela dizia AQU L D A.O portão principal estava fechado com ca<strong>de</strong>ado e tinha no alto arame farpado. Dentro, enormesescorregadores, tub<strong>os</strong> e can<strong>os</strong> se retorciam por toda parte, sec<strong>os</strong>, <strong>de</strong>sembocando em piscinasvazias. Velh<strong>os</strong> ingress<strong>os</strong> e folhet<strong>os</strong> subiam do asfalto com o vento. Com a noite chegando, o lugarparecia triste e arrepiante.- Se Ares traz a namorada aqui para um encontro - falei, olhando para o arame farpado -, não iag<strong>os</strong>tar <strong>de</strong> ver com aparência <strong>de</strong>la.- Percy - advertiu Annabeth -, tenha mais respeito.- Por quê? Pensei que você <strong>de</strong>testasse Ares.- Ainda assim, ele é um <strong>de</strong>us. E a namorada <strong>de</strong>le é muito temperamental.- Não querem<strong>os</strong> ofendê-la - acrescentou Grover.- Quem é? Equidna?- Não, Afrodite - disse Grover, um pouco sonhador. - A <strong>de</strong>usa do amor.- Pensei que ela f<strong>os</strong>se casada com alguém - disse eu.- Hefesto..- E daí? - perguntou ele.- Ah. - De repente, senti que era preciso mudar <strong>de</strong> assunto. Então, como fazem<strong>os</strong> para entrar?- Maia! - Os ténis <strong>de</strong> Grover criaram asas.Ele voou por cima da cerca, <strong>de</strong>u um mortal in<strong>vol</strong>untário no ar, <strong>de</strong>pois pousou cambaleando nolado op<strong>os</strong>to. Sacudiu o pó d<strong>os</strong> seus jeans, como se tivesse planejado tudo aquilo.- Vocês vêm?Annabeth e eu tivem<strong>os</strong> <strong>de</strong> escalar à moda antiga, empurrando o arame farpado um para o outroenquanto n<strong>os</strong> arrastávam<strong>os</strong> por cima do topo.As sombras se alongaram enquanto caminhávam<strong>os</strong> pelo parque, conferindo as atrações. Havia aIlha d<strong>os</strong> Pequenin<strong>os</strong>, o Por cima da Cabeça e o Cara, Cadê o Meu Calção?Nenhum monstro chegou para n<strong>os</strong> pegar. Nada fazia o menor barulho.Encontram<strong>os</strong> uma loja <strong>de</strong> lembrancinhas que fora <strong>de</strong>ixada aberta. Ainda havia mercadoriasenfileiradas nas prateleiras: glob<strong>os</strong> <strong>de</strong> neve, lápis, cartões-p<strong>os</strong>tais, e prateleiras <strong>de</strong>...- Roupas - disse Annabeth. - Roupas limpas.- É - completei. - Mas você não po<strong>de</strong> simplesmente...- Observe.Ela agarrou uma fileira inteira <strong>de</strong> artig<strong>os</strong> das prateleiras e <strong>de</strong>sapareceu <strong>de</strong>ntro do provador.Pouc<strong>os</strong> minut<strong>os</strong> <strong>de</strong>pois saiu vestindo short estampado <strong>de</strong> flores da Aqualândia, uma gran<strong>de</strong>camiseta vermelha da Aqualândia e sapatilhas <strong>de</strong> surfe temáticas da Aqualândia. Pendurada noombro, uma mochila da Aqualândia, obviamente recheada <strong>de</strong> outras coisinhas.- Ora, que se dane. - Grover encolheu <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.


Logo nós três parecíam<strong>os</strong> anúnci<strong>os</strong> ambulantes do p a r q u e t e m á t i c o fantasma.Continuam<strong>os</strong> procurando pelo Túnel do Amor. Eu tinha a sensação <strong>de</strong> que o parque inteiroestava pren<strong>de</strong>ndo a respiração.- Então Ares e Afrodite - falei, só para afastar <strong>os</strong> pensament<strong>os</strong> da escuridão que aumentava -estão tendo um caso?- É uma fofoca velha, Percy - disse Annabeth. - fofoca <strong>de</strong> três mil an<strong>os</strong>.- E o mando <strong>de</strong> Afrodite?- Bem, você sabe - disse ela. - Hefesto. O ferreiro ficou aleijado quando bebê, atirado <strong>de</strong> cimado Monte O l i m p o por Zeus. Então não é exatamente lindo. Habilid<strong>os</strong>o com as mã<strong>os</strong> e tudo, masAfrodite não curte inteligência e talento, enten<strong>de</strong>?- Ela g<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> motoqueir<strong>os</strong>.- Ou isso.- Hefesto sabe?- Ah, com certeza - disse Annabeth. - Uma vez ele <strong>os</strong> pegou junt<strong>os</strong>. Quer dizer, pegou mesmo,em uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> o u r o , e chamou tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses para ver e rir da cara <strong>de</strong>les. Hefesto estásempre tentando constrangê-l<strong>os</strong>. E por isso que eles se encontram em lugares escondid<strong>os</strong>, como...Ela se interrompeu, olhando em frente.- Como aquilo.Diante <strong>de</strong> nós havia uma piscina vazia que teria sido s ens acional para andar <strong>de</strong> skate. Tinhapelo men<strong>os</strong> cinquenta m e t r o s d e largura e forma <strong>de</strong> bacia.Em v olta da beira, uma dúzia <strong>de</strong> estátuas <strong>de</strong> Cupido montavam guarda <strong>de</strong> asas abertas e arc<strong>os</strong>pront<strong>os</strong> para disparar. Do outro lado abria-se um túnel, provavelmente para on<strong>de</strong> a água escoavaquando a piscina estava cheia. A placa a c im a d e le d i z i a : E M O C I O N A N T E P A S S E IO D EA M O R : E S T E N Ã O É O T Ú N E L D O A M O R D O S S E U S P A I S !G rover se arrastou até a borda.- Gente, olhe.Abandonado no fundo da piscina havia um barco <strong>de</strong> dois lugares r<strong>os</strong>a e branco, comcoraçõezinh<strong>os</strong> pintad<strong>os</strong> por toda parte. No assento da esquerda, brilhando na luz pálida, estava oescudo <strong>de</strong> Ares, um círculo polido <strong>de</strong> bronze.- Fácil <strong>de</strong>mais - disse eu. - Então é só <strong>de</strong>scer até lá e pegá-lo?Annabeth correu <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong> pela base da estátua <strong>de</strong> Cupido mais próxima.- Há uma letra grega entalhada aqui - disse ela. - Eta. Imagino...- Grover - falei -, sente cheiro <strong>de</strong> algum monstro?Ele farejou o vento.- Nada.- Nada do tipo no-Arco-você-não-sentiu-o-cheiro-<strong>de</strong>-Equidna ou realmente nada?Grover pareceu ofendido.- Disse a você, aquilo foi num subterrâneo.- Certo, <strong>de</strong>sculpe. - Eu respirei fundo. - Vou <strong>de</strong>scer até lá.- Vou com você. - Grover não pareceu muito entusiasmado, mas tive a impressão <strong>de</strong> que eleestava tentando compensar pelo que acontecera em St. Louis.- Não - disse a ele. - Quero que fique no alto com <strong>os</strong> tênis voadores. Você é n<strong>os</strong>so ás da aviação,está lembrado? Vou contar com você para dar apoio, caso alguma coisa dê errado.


Grover estufou um pouco o peito.- Claro. Mas o que po<strong>de</strong>ria dar errado?- Não sei. Só urna sensação. Annabeth, venha comigo...- Está brincando? - Ela olhou para mim como se eu tivesse acabado <strong>de</strong> cair da Lua. Suasbochechas estavam num tom vermelho vivo.- Qual o problema agora? - perguntei.- Eu... ir com você para um... um "Emocionante Passeio <strong>de</strong> Amor"? Que coisa mais embaraç<strong>os</strong>a!E se alguém me vir?- Quem é que vai ver? - Mas agora a minha cara t a m b é m estava queimando. Só mesmo umamenina para complicar as coisas. - Otimo - disse a ela. - Vou fazer isso sozinho, quando comecei a<strong>de</strong>scer pela lateral da piscina, ela me seguiu resmungando sobre como <strong>os</strong> menin<strong>os</strong> semprecomplicam as coisas.Chegam<strong>os</strong> ao barco. O escudo estava apoiado em um banco e ao lado havia um lenço feminino<strong>de</strong> seda. Tentei imaginai Afrodite ali, um casal <strong>de</strong> <strong>de</strong>uses se encontrando em um brinquedo <strong>de</strong>parque <strong>de</strong> diversões sucateado. Por quê? Então notei al go não tinha visto <strong>de</strong> cima: espelh<strong>os</strong> portoda a <strong>vol</strong>ta da borda da piscina, <strong>vol</strong>tad<strong>os</strong> para aquele ponto. Podíam<strong>os</strong> n<strong>os</strong> ver, não importa emque direção olhássem<strong>os</strong>. Tinha <strong>de</strong> ser isso. Enquanto Ares e Afrodite estavam se agarrando,podiam ver suas pessoas f a v o r i t a s : eles mesm<strong>os</strong>.Peguei o lenço. Tinha um brilho r<strong>os</strong>ado, e o perfume in<strong>de</strong>scritível - r<strong>os</strong>as, ou louro. Algumacoisa boa.Sorri, um sonhador, e estava quase passando o lenço no r<strong>os</strong>to quando Annabeth o arrancou daminha mão e enfiou em seu bolso.- Ah, não, não faça isso. Fique longe <strong>de</strong>ssa magia <strong>de</strong> amor.- O quê?- Apenas pegue o escudo, Cabeça <strong>de</strong> Alga, e vam<strong>os</strong> dar o fora daqui.No momento em que toquei o escudo, vi que e s t á v a m o s encrencad<strong>os</strong>. Minha mãoarrebentou algo que o conectava ao pára-brisa. Uma teia <strong>de</strong> aranha, pensei, mas então olhei paraum fio invisív el na minha palma e vi que era algum tipo <strong>de</strong> filamento metálico, tão fino que eraquase invisível.Uma armadilha.- Espere - disse Annabeth.- Tar<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais.- Há uma outra letra grega na lateral do barco, um outro eta. Trata-se <strong>de</strong> uma armadilha.Um ruído irrompeu a n<strong>os</strong>sa <strong>vol</strong>ta, um milhão <strong>de</strong> engrenagensrangendo, como se a piscina inteiraestivesse se transformando em uma máquina gigante.Grover gritou:- Gente!Lá em cima na borda, as estátuas <strong>de</strong> Cupido armavam <strong>os</strong> arc<strong>os</strong>; Antes que eu pu<strong>de</strong>sse sugerirque n<strong>os</strong> abaixássem<strong>os</strong>, dispararam, mas não contra nós. Dispararam uma contra a outra,atravessando a piscina. Cab<strong>os</strong> <strong>de</strong> seda foram levad<strong>os</strong> pelas flechas, fazendo um arco por cima dapiscina e fincando-se no chão para formar um imenso asterisco dourado. Então fi<strong>os</strong> metálic<strong>os</strong>menores começaram a se tecer magicamente por entre <strong>os</strong> principais, formando uma re<strong>de</strong>.- Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> dar o fora - disse eu.- Ah, é mesmo? - disse Annabeth.


Agarrei o escudo e correm<strong>os</strong>, mas subir pela inclinação da piscina não era tão fácil quanto<strong>de</strong>scer.- Venham! - gritou Grover.Ele estava tentando manter uma seção da re<strong>de</strong> aberta para nós, mas on<strong>de</strong> quer que a tocasse, <strong>os</strong>fi<strong>os</strong> dourad<strong>os</strong> começavam a en<strong>vol</strong>ver suas mã<strong>os</strong>.A cabeça d<strong>os</strong> Cupid<strong>os</strong> se abriu <strong>de</strong> repente. De lá, saíram câmeras <strong>de</strong> ví<strong>de</strong>o. Luzes se erguerampor toda a <strong>vol</strong>ta d a p i sci n a, cegando-n<strong>os</strong> com a clarida<strong>de</strong>, e um alto-falante soou: - Ao vivopara o Olimpo em um minuto... Cinqüenta e nove segund<strong>os</strong>, cinquenta e oito...- Hefesto! - gritou Annabeth. - Como eu sou estúpida! Eta é ―Hǁ. Ele fez essa armadilha parapegar a mulher <strong>de</strong>le com Ares. Agora vam<strong>os</strong> ser transmitid<strong>os</strong> ao vivo para o Olimpo e parecercomplet<strong>os</strong> idiotas!Estávam<strong>os</strong> quase conseguindo chegar à borda quando a fileira <strong>de</strong> espelh<strong>os</strong> se abriu comoescotilhas e milhares <strong>de</strong>... coisinhas metálicas jorraram para fora.Annabeth gritou.Era um exército <strong>de</strong> bich<strong>os</strong> rastejantes <strong>de</strong> corda: corpo <strong>de</strong> engrenagens <strong>de</strong> bronze, pernascompridas e finas, bocas em pequenas pinças, tod<strong>os</strong> correndo em n<strong>os</strong>sa direção em uma onda <strong>de</strong>estalando e zumbindo.- Aranhas! - disse Annabeth. - Ar... ar... aaaaaaaah!Eu nunca a tinha visto daquele jeito. Ela caiu para trás , aterrorizada e quase se ren<strong>de</strong>u àsaranhas-robôs antes que eu a puxasse para cima e a arrastasse <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta em direção ao barco.Aquelas coisas vinham <strong>de</strong> tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> lad<strong>os</strong>, milhões <strong>de</strong>las, inundando o centro da piscina,cercando-n<strong>os</strong> completamente. Disse a mim mesmo que não estavam programadas para matar,apenas para n<strong>os</strong> encurralar, n<strong>os</strong> mor<strong>de</strong>r e n<strong>os</strong> fazer parecer idiotas. Mas, por outro lado, era umaarmadilha para <strong>de</strong>uses. E não éram<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.Annabeth e eu subim<strong>os</strong> para <strong>de</strong>ntro do barco. Comecei a chutar as aranhas para longe quando seacumulavam a bordo. Gritei para Annabeth me ajudar, mas ela estava paralisada <strong>de</strong>mais para fazerqualquer coisa além <strong>de</strong> gritar.- Trinta, vinte e nove - anunciou o alto-falante.As aranhas começaram a cuspir fi<strong>os</strong> <strong>de</strong> metal, t e n t a n d o n<strong>os</strong> amarrar. De início <strong>os</strong> fi<strong>os</strong> eramfáceis <strong>de</strong> romper, mas havia muit<strong>os</strong> d e l e s , e as aranhas simplesmente continuavam a chegar.Tirei uma da p e r na <strong>de</strong> Annabeth com um chute, e suas pinças arrancaram um pedaço da minhanova sapatilha <strong>de</strong> surfista.Grover pairava acima da piscina com seus tênis voadores, tentando soltar a re<strong>de</strong>, mas ela nãocedia.Pense, disse a mim mesmo, pense.A entrada para o Túnel do Amor ficava embaixo da re<strong>de</strong>. Políam<strong>os</strong> usá-la como saída, masestava bloqueada por um milhão <strong>de</strong> aranhas-robôs.- Quinze, catorze - anunciou o alto-falante. Água, pensei. De on<strong>de</strong> vem a água para o passeio?Então vi: enormes can<strong>os</strong> atrás d<strong>os</strong> espelh<strong>os</strong>, <strong>de</strong> on<strong>de</strong> tinham vindo as aranhas. E acima da re<strong>de</strong>,perto <strong>de</strong> um d<strong>os</strong> Cupid<strong>os</strong>, uma cabine com janelas <strong>de</strong> vidro que <strong>de</strong>via ser a estação <strong>de</strong> controle.- Grover! - gritei. - Entre naquela cabine! Encontre o botão <strong>de</strong> ligar!- Mas...- Faça isso! - Era uma esperança louca, mas era a n<strong>os</strong>sa única chance. As aranhas já estavam portoda a proa do barco, Annabeth gritava sem parar. Eu tinha <strong>de</strong> n<strong>os</strong> tirar dali.


Grover estava agora na cabine <strong>de</strong> controle, malhando <strong>os</strong> botões.- Cinco, quatro...Ele olhou para mim <strong>de</strong>samparado, erguendo as mã<strong>os</strong>. Estava sinalizando que já tinha apertadotod<strong>os</strong> <strong>os</strong> botões, mas nada acontecia.Fechei <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e pensei em ondas, água correndo, o no Mississipi. Senti um aperto familiar nagarganta. Tentei imaginar q u e e s t a v a arrastando o oceano até Denver.- Dois, um, zerol A água explodiu para fora d<strong>os</strong> can<strong>os</strong>. Entrou rugindo na piscina, varrendo asaranhas para longe.Puxei Annabeth para ao lado do meu e prendi seu cinto <strong>de</strong> segurança bem quando a ondagigante atingiu o barco, <strong>de</strong> cima, expulsando as a r a n h a s e n<strong>os</strong> encharcando completamente,mas sem virar o barco. Ele girou, erguido pela inundação, e circulou no re<strong>de</strong>moinho.A água estava cheia <strong>de</strong> aranhas em curto-circuito, algumas colidindo contra a pare<strong>de</strong> <strong>de</strong>concreto da piscina com tamanha força que explodiam.As luzes brilharam sobre nós. As câmeras d<strong>os</strong> Cupid<strong>os</strong> estavam transmitindo ao vivo para oOlimpo.Mas eu só podia me concentrar em controlar o barco,. Desejei que ele seguisse a corrente, queficasse afastado da pare<strong>de</strong>. Talvez f<strong>os</strong>se minha imaginação, mas o barco pareceu reagir. Pelomen<strong>os</strong> não se quebrou em um milhão <strong>de</strong> pedaç<strong>os</strong>. Circulam<strong>os</strong> uma última vez, e o nível da água jáera quase suficiente para n<strong>os</strong> retalhar contra a re<strong>de</strong> <strong>de</strong> metal. Então o nariz do barco se virou parao túnel e disparam<strong>os</strong> como um foguete para <strong>de</strong>ntro das trevas.Annabeth e eu n<strong>os</strong> seguram<strong>os</strong> com força, <strong>os</strong> dois gritando quanto o barco se atirava em curvas ero<strong>de</strong>ava cant<strong>os</strong> e dava mergulh<strong>os</strong> <strong>de</strong> quarenta e cinco graus, passando por figuras <strong>de</strong> Romeu eJulieta e montes <strong>de</strong> outras bugigangas <strong>de</strong> Dia d<strong>os</strong> Namorad<strong>os</strong>.Então estávam<strong>os</strong> fora do túnel, o ar da noite assobiando em n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> enquanto o barc<strong>os</strong>eguia em alta velocida<strong>de</strong> para a saída.Se o brinquedo estivesse em perfeito funcionamento, t e r í a m o s navegado por uma rampaentre <strong>os</strong> Portões Dourad<strong>os</strong> do Amor e caído em segurança na piscina <strong>de</strong> saída. Mas havia umproblema. Os Portões do Amor estavam fechad<strong>os</strong> com correntes. Dois barc<strong>os</strong> que haviam sidoarrastad<strong>os</strong> para fora do t ú n e l a n t e s <strong>de</strong> nós estavam empilhad<strong>os</strong> contra a barricada - umsubmerso e o o u t r o p a r t i d o ao meio.- Solte seu cinto <strong>de</strong> segurança - gritei para Annabeth.- Está maluco?- A não ser que queira morrer esmagada. - Prendi o escudo <strong>de</strong> Ares no braço. - Vam<strong>os</strong> ter <strong>de</strong>pular. -Minha i<strong>de</strong>ia era simples e insana. Quando o barco colidisse, íam<strong>os</strong> usar a força do impactocomo um trampolim para pular por cima do portão. O u v i falar <strong>de</strong> pessoas que sobreviveram a<strong>de</strong>sastres <strong>de</strong> automóvel <strong>de</strong>sse jeito, lançadas a <strong>de</strong>z ou vinte metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> distância do aci<strong>de</strong>nte. Comsorte, cairíam<strong>os</strong> na piscina.Annabeth pareceu enten<strong>de</strong>r. Ela apertou minha mão quando <strong>os</strong> portões se aproximaram.- Quando eu <strong>de</strong>r o sinal - falei.- Não! Quando eu <strong>de</strong>r o sinal - corrigiu ela.- O quê?- Física básica! - gritou ela. - A força multiplicada pelo ângulo da trajetória...- Está bem! - gritei. - Quando você <strong>de</strong>r o sinal!


Ela hesitou... hesitou... e então gritou: - Agora!Crack!Annabeth estava certa. Se tivéssem<strong>os</strong> pulado quando eu achava <strong>de</strong>víam<strong>os</strong>, teríam<strong>os</strong> n<strong>os</strong>arrebentado contra <strong>os</strong> portões. Ela conseguiu o máximo <strong>de</strong> impulso.Por azar, foi um pouco maior do que precisávam<strong>os</strong>. N<strong>os</strong>so barco foi atirado na pilha e fom<strong>os</strong>lançad<strong>os</strong> para o ar, por cima do portão, por cima da piscina, e na direção do asfalto duro.Alguma coisa me segurou por trás.Annabeth gritou:- Aaai!Grover!Em pleno ar, ele tinha me agarrado pela camisa, e agarrado Annabeth pelo braço, e tentavaimpedir que n<strong>os</strong> arrebentássem<strong>os</strong> no chão, mas Annabeth e eu ainda estávam<strong>os</strong> com toda a e n e rg i a do impulso.- Vocês são pesad<strong>os</strong> <strong>de</strong>mais! - disse Grover. - Estam<strong>os</strong> caindo!Descem<strong>os</strong> em espiral, com Grover fazendo o que podia para reduzir a velocida<strong>de</strong> da queda.Batem<strong>os</strong> contra um painel <strong>de</strong> fotografia. A cabeça <strong>de</strong> Grover entrou bem no buraco on<strong>de</strong> <strong>os</strong>turistas enfiavam a cara, fingindo ser Nu-Nu, a Baleia Camarada. Annabeth e eu <strong>de</strong>smoronam nochão, machucad<strong>os</strong>, porém viv<strong>os</strong>. O escudo <strong>de</strong> Ares ainda preso ao meu braço.Depois que recuperam<strong>os</strong> o fôlego, Annabeth e eu tiram<strong>os</strong> Grover do painel e o agra<strong>de</strong>cem<strong>os</strong> porsalvar n<strong>os</strong>sa vida. Olhei para o Emocionante Passeio <strong>de</strong> Amor atrás <strong>de</strong> nós. A água estavabaixando. N<strong>os</strong>so barco em pedaç<strong>os</strong>, esmagado contr a <strong>os</strong> portões.A cem metr<strong>os</strong>, na piscina <strong>de</strong> entrada do túnel, <strong>os</strong> Cupid<strong>os</strong> ainda filmavam. As estátuas tinhamse virado <strong>de</strong> modo que as câmeras estavam apontadas para nós, <strong>os</strong> holofotes em n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> r<strong>os</strong>t<strong>os</strong>.- Acabou o show! - gritei. - Obrigado! Boa noite!Os Cupid<strong>os</strong> <strong>vol</strong>taram às p<strong>os</strong>ições originais. As luzes se apagaram. O parque ficou novamenteem silêncio e no escur<strong>os</strong>, a não ser pelo brilho fraco da água na piscina da saída do E m ocionantePasseio <strong>de</strong> Amor. Imaginei se o Olimpo estaria em um inervalo comercial, e se n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> índices <strong>de</strong>audiência haviam sido bons.Eu <strong>de</strong>testava ser provocado. Detestava ser enganado. E tinha vasta experiência <strong>de</strong> lidar comvalentões que g<strong>os</strong>tavam <strong>de</strong> fazer isso comigo. Levantei o escudo em meu braço e me virei para <strong>os</strong>meus amig<strong>os</strong>.- Precisam<strong>os</strong> ter uma conversinha com Ares.DEZESSEIS – A ida <strong>de</strong> uma zebra para Las Vegas.O <strong>de</strong>us da guerra n<strong>os</strong> esperava no estacionamento do restaurante.- Bem, bem - disse ele. - Você conseguiu não ser morto.- Você sabia que era uma armadilha - retruquei.Ares me <strong>de</strong>u um sorriso malvado.- Ap<strong>os</strong>to que aquele ferreiro aleijado ficou surpreso quando pegou na re<strong>de</strong> um par <strong>de</strong> criançasestúpidas. Você ficou bem na tevê.Empurrei o escudo para ele.- Você é um imbecil.Annabeth e Grover pararam <strong>de</strong> respirar.Ares agarrou o escudo e o girou no ar como massa <strong>de</strong> pizza. escudo mudou <strong>de</strong> forma,


transformando-se em um colete à prova <strong>de</strong> balas. Ele o pendurou nas c<strong>os</strong>tas.- Estão vendo aquele caminhão logo ali? - Apontou um caminhão <strong>de</strong> <strong>de</strong>zoito rodas estacionadodo outro lado da rua. - É a carona <strong>de</strong> vocês. Vai levá-l<strong>os</strong> direto a L<strong>os</strong> Angeles, com uma parada emVegas.O caminhão tinha uma placa na parte <strong>de</strong> trás, que eu só pu<strong>de</strong> ler porque estava pintada aocontrário, em branco sobre preto, uma boa combinação para a dislexia: CARIDADEINTERNACIONAL: TRANSPORTE HUMANITÁRIO DE ZOOLÓGICO. CUIDADO: ANIMAISSELVAGENS VIVOSEu disse:- Fala sério!Ares estalou <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>. A porta traseira do caminhão se <strong>de</strong>strancou.- Carona grátis para oeste, imprestável. Pare <strong>de</strong> reclamar. E aqui está uma coisinha por ter feitoo serviço.Ele suspen<strong>de</strong>u uma mochila <strong>de</strong> náilon azul do seu guidom e a jogou para mim.Dentro havia roupas limpas para tod<strong>os</strong> nós, vinte dólares em dinheiro, uma bolsa cheia <strong>de</strong>dracmas <strong>de</strong> ouro e uma embalagem <strong>de</strong> biscoito Oreo recheado.Eu disse:- Não quero a porcaria do seu...- Obrigado, Senhor Ares - interrompeu Grover, me fuzilando com seu melhor olhar <strong>de</strong> alertavermelho. - Muito obrigado.Rangi <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes. Devia ser um insulto mortal recusar algo <strong>de</strong> um <strong>de</strong>us, mas eu não queria nadaque Ares tivesse tocado. Pendurei a mochila no ombro relutando. Sabia que minha raiva eracausada pela presença do <strong>de</strong>us da guerra, mas ainda sentia uma vonta<strong>de</strong>zinha <strong>de</strong> lhe dar um murrono nariz. Ele me lembrou <strong>de</strong> tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> valentões que já havia enfrentado: Nancy Bobofit, Clarisse,Gabe Cheir<strong>os</strong>o, professores <strong>de</strong>bochad<strong>os</strong> - tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> imbecis que me chamaram <strong>de</strong> estúpido naescola ou riram <strong>de</strong> mim quando fui expulso.Olhei para o restaurante atrás <strong>de</strong> mim, que tinha agora apenas u m o u d o i s clientes. Agarçonete que n<strong>os</strong> servira o jantar olhava, nerv<strong>os</strong>a, pela janela, como se tivesse medo <strong>de</strong> que Aresn<strong>os</strong> machucasse.Ela arrastou o cozinheiro <strong>de</strong> <strong>de</strong>ntro da cozinha para ver. Disse algo a ele. Ele assentiu, ergueuuma pequena câmera <strong>de</strong>scartável e tirou uma foto <strong>de</strong> nós.Boa, pensei. Amanhã vam<strong>os</strong> estar <strong>de</strong> novo n<strong>os</strong> jornais.Imaginei a manchete: CRIMINOSO DE DOZE ANOS ESPANCA MOTOCICLISTAINDEFESO.- Você me <strong>de</strong>ve mais uma coisa - disse a Ares, t e n t a n d o manter o <strong>vol</strong>ume <strong>de</strong> minha voz. -Você me prometeu informações sobre minha mãe.- Tem certeza <strong>de</strong> que é capaz <strong>de</strong> suportar a notícia? - Ele <strong>de</strong>u a partida no pedal da moto. - Elanão está morta.O chão pareceu girar embaixo <strong>de</strong> mim.- O que quer dizer?- Quero dizer que ela foi levada pelo Minotauro a n t e s d e morrer. Foi transformada em umachuva <strong>de</strong> ouro, certo? Isso é metamorf<strong>os</strong>e. Não morte. Ela está sendo mantida presa.- Presa. Por quê?- Você precisa estudar guerra, coisinha imprestável. Reféns. Você pren<strong>de</strong> alguém para controlaroutro alguém.


- Ninguém está me controlando.Ele riu.- Ah, não? A gente se vê por aí, garoto.Cerrei <strong>os</strong> punh<strong>os</strong>.- Você é bem convencido, Senhor Ares, para um c ara que foge <strong>de</strong> estátuas <strong>de</strong> Cupido.Atrás d<strong>os</strong> ócul<strong>os</strong> escur<strong>os</strong>, o fogo brilhou. Senti um vento quente n<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong>.- Nós n<strong>os</strong> encontrarem<strong>os</strong> novamente, Percy Jackson. Na próxima vez em que estiver numabriga, cui<strong>de</strong> <strong>de</strong> sua retaguarda.Ele pôs a Harley em movimento e saiu roncando pela rua Delancy.Annabeth disse:- Isso não foi muito inteligente, Percy.- Não estou nem aí.- Você não quer um <strong>de</strong>us como inimigo. Especialmente esse <strong>de</strong>us.- Ei, gente - disse Grover. - Detesto interromper, mas...Ele apontou na direção do restaurante. No caixa, <strong>os</strong> dois últim<strong>os</strong> clientes estavam pagando suascontas, dois homens <strong>de</strong> macacões pret<strong>os</strong> idêntic<strong>os</strong>, com uma logomarca branca nas c<strong>os</strong>tas quecombinava com a do caminhão da CARIDADE INTERNACIONAL.- Se vam<strong>os</strong> pegar o expresso do zoológico - disse Grover -, precisam<strong>os</strong> n<strong>os</strong> apressar.Eu não tinha g<strong>os</strong>tado daquilo, mas não havia opção melhor. Além disso, já tinha visto <strong>os</strong>uficiente <strong>de</strong> Denver.Atravessam<strong>os</strong> a rua correndo e subim<strong>os</strong> na traseira do veículo enorme,, fechando as portas atrás<strong>de</strong> nós.*****A primeira coisa que percebi foi o cheiro. Era como a maior caixa <strong>de</strong> areia para cocô <strong>de</strong> gato domundo.O interior da carreta estava escuro até eu tirar a tampa <strong>de</strong> Anaklusm<strong>os</strong>. A lâmina lançou umaleve luz <strong>de</strong> bronze sobre uma cena muito triste. Em uma fileira <strong>de</strong> jaulas metálicas imundas haviatrês d<strong>os</strong> mais patétic<strong>os</strong> animais <strong>de</strong> zoológico que eu já vira: uma zebra, um leão albino e um tipoestranho <strong>de</strong> antílope, cujo o nome eu não sabia.A l g u é m jogara para o leão um saco <strong>de</strong> nab<strong>os</strong> que ele obviamente não queria comer. A zebrae o antílope tinham ganhado uma ban<strong>de</strong>ja <strong>de</strong> isopor <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> hambúrguer cada um. A crina dazebra estava toda emaranhada em goma <strong>de</strong> m a s c a r , c o m o s e alguém ficasse cuspindo nelanas horas vagas. O antílope tinha um estúpido balão <strong>de</strong> aniversário amarrado em um d<strong>os</strong> seuschifres que dizia PASSEI DA IDADE!Tudo indicava que ninguém quisera chegar perto o bastante do leão para mexer com ele, mas opobre andava <strong>de</strong> um lado para outro em cima <strong>de</strong> cobertores suj<strong>os</strong>, em um espaço que era mais doque muito pequeno para ele, arfando com o ar abafado da carreta. M<strong>os</strong>cas zumbiam em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong>seus olh<strong>os</strong> cor-<strong>de</strong>-r<strong>os</strong>a, e as c<strong>os</strong>telas apareciam no pêlo branco.- Isso é carida<strong>de</strong>? - gritou Grover. - Transporte humanitário <strong>de</strong> zoológico?Ele provavelmente teria saído <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para bater n<strong>os</strong> caminhoneir<strong>os</strong> com suas flautas <strong>de</strong>bambu, e eu o teria ajudado, mas bem naquele momento o motor roncou, a carreta começou achacoalhar e fom<strong>os</strong> forçad<strong>os</strong> a n<strong>os</strong> sentar ou cair.Nós n<strong>os</strong> amontoam<strong>os</strong> no canto em cima <strong>de</strong> alguns sac<strong>os</strong> <strong>de</strong> ração embolorad<strong>os</strong>, tentando ignoraro cheiro, o calor e as m<strong>os</strong>cas. Grover falou com <strong>os</strong> animais em uma série <strong>de</strong> balid<strong>os</strong> <strong>de</strong> bo<strong>de</strong>, mas


eles apenas olharam tristemente para ele. Annabeth era a favor <strong>de</strong> arrombar as jaulas e soltá-l<strong>os</strong>ali mesmo, mas argumentei que isso não ia adiantar muito até o caminhão parar <strong>de</strong> se mover.Além disso, tinha a sensação <strong>de</strong> que, para o leão, po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> paracer bem mais apetit<strong>os</strong><strong>os</strong> do queaqueles nab<strong>os</strong>.Achei um jarro <strong>de</strong> água e reabasteci as tigelas <strong>de</strong>les, <strong>de</strong>pois usei Anaklusm<strong>os</strong> para puxar <strong>os</strong>aliment<strong>os</strong> trocad<strong>os</strong> para fora das jaulas. Dei a carne ao leão e <strong>os</strong> nab<strong>os</strong> para a zebra e o antílope.Grover acalmou o antílope enquanto Annabeth usava sua faca para tirar o balão preso ao chifre.Pensou também em c o r t a r a goma <strong>de</strong> mascar da crina da zebra, mas concluím<strong>os</strong> que s eriamuito arris c ado com o caminhão a<strong>os</strong> solavanc<strong>os</strong>. Pedim<strong>os</strong> a Grover para prometer a<strong>os</strong> animaisque <strong>os</strong> ajudaríam<strong>os</strong> mais pela manhã, e então n<strong>os</strong> acomodam<strong>os</strong> para a noite.Grover se enrodilhou sobre um saco <strong>de</strong> nab<strong>os</strong>; Annabeth abriu n<strong>os</strong>so pacote <strong>de</strong> Ore<strong>os</strong> emordiscou um <strong>de</strong>les sem muito entusiasmo, tentei ficar animado com a idéia <strong>de</strong> que estávam<strong>os</strong> ameio c aminho <strong>de</strong> L<strong>os</strong> Angeles. Próximo <strong>de</strong> n<strong>os</strong>so <strong>de</strong>stino. Ainda era 14 junho. O solstício sóaconteceria no dia 21. Tínham<strong>os</strong> tempo <strong>de</strong> sobra.Por outro lado, não tinha idáia do que n<strong>os</strong> esperava. Os <strong>de</strong>uses estavam brincando comigo. Pelomen<strong>os</strong> Hefesto teve a <strong>de</strong>cência <strong>de</strong> ser honesto quanto a isso - instalou câmeras e me anunciou c om o entretenimento. Mas até quando não havia câmeras filmando eu tinha a sensação <strong>de</strong> que aminha missão estava sendo observada. Eu era uma fonte <strong>de</strong> diversão para <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.- Ei - disse Annabeth. - Sinto muito por ter me apavorado lá no parque aquático, Percy.- Tudo bem.- É só que... - Ela estremeceu. - Aranhas.- Por causa da história <strong>de</strong> Aracne - adivinhei. - Ela foi transformada em aranha por <strong>de</strong>safiar suamãe para uma competição <strong>de</strong> tecelagem, certo?Annabeth assentiu.- Os filh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Aracne têm se vingado n<strong>os</strong> filh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Atena d e s d e então. Se houver uma aranhaa um quilômetro <strong>de</strong> distância <strong>de</strong> mim, ela me encontrará. Eu o<strong>de</strong>io aquelas coisinhas rastejantes.De qualquer jeito, lhe <strong>de</strong>vo uma.- Som<strong>os</strong> uma equipe, está lembrada? Além disso, Grover fez aquele vôo fantástico.Pensei que estivesse dormindo, mas ele murmurou do seu canto: - Fui o máximo, não fui?Annabeth e eu <strong>de</strong>m<strong>os</strong> risada.Ela separou as duas partes do biscoito recheado e me <strong>de</strong>u uma.- Na mensagem <strong>de</strong> Íris...Luke realmente não disse nada?Mastiguei meu biscoito e pensei em como respon<strong>de</strong>r. A conversa via arco-íris me incomodara anoite toda.- Luke disse que você e ele se conhecem há muito. Também disse que Grover não iria fracassar<strong>de</strong>ssa vez. Ninguém seria transformado em pinheiro.Na pálida luz <strong>de</strong> bronze da lâmina da espada, era d i f í c i l l e r a expressão <strong>de</strong>les.Grover soltou um balido lament<strong>os</strong>o.- Eu <strong>de</strong>via ter contado a verda<strong>de</strong> a você <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o começo. - Sua voz tremia. - Pensei que, sesoubesse o fracasso que eu era, não iria querer que eu viesse junto.- Você era o sátiro que tentou salvar Thalia, a filha <strong>de</strong> Zeus.Ele assentiu, com tristeza.- E <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> dois mei<strong>os</strong>-sangues que Thalia protegeu, <strong>os</strong> que chegaram ao acampamento emsegurança... - Olhei para Annabeth. - Eram você e Luke, não é?


Ela pôs seu biscoito <strong>de</strong> lado, intocado.- Como você disse, Percy, uma meio-sangue <strong>de</strong> sete an<strong>os</strong> <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> não teria chegado muitolonge sozinha. Atena me guiou até a ajuda. Thalia tinha doze an<strong>os</strong>. Luke, catorze. Os dois haviamfugido <strong>de</strong> casa, como eu. Ficaram contentes em me levar com eles. Eram... fantástic<strong>os</strong>combatentes <strong>de</strong> monstr<strong>os</strong>, mesmo sem treino. Viajam<strong>os</strong> da Virgínia para o norte sem nenhumplano <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>, n<strong>os</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>m<strong>os</strong> d<strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> por cerca <strong>de</strong> duas semanas antes <strong>de</strong> Grover n<strong>os</strong>encontrar.- Eu <strong>de</strong>via escoltar Thalia até o acampamento - disse ele, fungando. - Somente Thalia. Tinhaor<strong>de</strong>ns es tritas <strong>de</strong> Q u í r o n : n ã o faç a nada que atrase o resgate. Sabíam<strong>os</strong> que Ha<strong>de</strong>s estavaatrás <strong>de</strong>la, enten<strong>de</strong>, mas eu não podia simplesmente abandonar Luke e Annabeth. Achei... acheique conseguiria levar tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> três até um lugar seguro. Foi minha culpa as Bene<strong>vol</strong>entes n<strong>os</strong>alcançarem. Eu fiquei paralisado. Fiquei apavorado no caminho <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta ao acampamento e pegueialguns <strong>de</strong>svi<strong>os</strong> errad<strong>os</strong>. Se tivesse sido um pouco mais rápido...- Pare com isso - disse Annabeth. - Ninguém culpa você. Thalia também não o culpou.- Ela se sacrificou para n<strong>os</strong> salvar - disse ele, <strong>de</strong>sconsolado. Sou culpado pela morte <strong>de</strong>la. OConselho d<strong>os</strong> Anciã<strong>os</strong> <strong>de</strong> Casco Fendido disse isso.- Porque você não <strong>de</strong>ixou outr<strong>os</strong> dois mei<strong>os</strong>-sangues para trás? - disse eu. - Isso não é justo.- Percy tem razão - disse Annabeth. - Eu não estaria aqui hoje se não f<strong>os</strong>se por você, Grover.Nem Luke. Não estam<strong>os</strong> nem aí para o que diz o conselho.Grover continuou fungando no escuro.- É a minha sina. Sou o mais fraco d<strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>, e encontro <strong>os</strong> dois mei<strong>os</strong>-sangues maispo<strong>de</strong>r<strong>os</strong><strong>os</strong> do século, Thalia e Percy.- Você não é fraco - insistiu Annabeth. - Tem mais coragem do que qualquer sátiro que jáconheci.Cite outro que se atreveria a ir para o Mundo Inferior. Ap<strong>os</strong>to que Percy está muito contente porvocê estar aqui agora.Ela me chutou na canela.- Sim - falei, o que teria feito mesmo sem o chute. - Não foi por sina que você encontrou Thaliae eu, Grover. Você tem o maior coração entre tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> sátir<strong>os</strong>. Você é um buscador n a tu r a l . Éisso que é você quem vai achar Pan.Ouvi um suspiro profundo e satisfeito. Esperei que Grover dissesse algo, mas sua respiração sóficou mais pesada. Quando o som se transformou em ronco, percebi que ele t i n h a c a í d o n <strong>os</strong>ono.- Como ele faz isso? - maravilhei-me.- Não sei - disse Annabeth. - Mas foi realmente legal o que você disse a ele.- Eu fui sincero.Viajam<strong>os</strong> em silêncio por alguns quilômetr<strong>os</strong>, s a c u d i n d o a cima d<strong>os</strong> sac<strong>os</strong> <strong>de</strong> ração. Azebra mascou um nabo. O leão lambeu o que restara da carne <strong>de</strong> hambúrguer d<strong>os</strong> lábi<strong>os</strong> e olhoupara mim esperanç<strong>os</strong>o.Annabeth esfregou seu colar como se estivesse bolando gran<strong>de</strong>s estratégias.- Essa conta do pinheiro - disse eu. - É do seu primeiro ano?Ela olhou. Não havia percebido o que estava fazendo.- É - falou. - Todo mês <strong>de</strong> ag<strong>os</strong>to <strong>os</strong> conselheiro escolhem o evento mais importante do verão, eo pintam nas contas daquele ano. Eu fiquei com o pinheiro <strong>de</strong> Thalia, uma trirreme grega em


chamas, um centauro vestido para um baile... bem, aquele foi um verão estranho...- E o anel <strong>de</strong> formatura é do seu pai?- Isso não é da sua... - Ela se interrompeu. - Sim. Sim, é.- Você não precisa me contar.- Não... tudo bem. - Ela respirou fundo, vacilante. - Meu pai o mandou para mim <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> umacarta, há dois verões. O anel era, bem, sua maior recordação <strong>de</strong> Atena. Ele não teria conseguidoterminar o doutorado em Harvard sem ela... É uma longa história. De qualquer modo, ele disse quequeria que eu f i c a s s e c o m o a n e l . Desculpou-se por ser um idiota, disse q u e m e a m a v ae s e n t i a sauda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> mim. Queria que eu f<strong>os</strong>se para casa.- Isso não parece tão ruim assim.- É , mas... o problema é que eu acreditei nele. Tentei ir para casa naquele ano escolar, masminha madrasta era a mesma <strong>de</strong> sempre. Não queria ver seus filh<strong>os</strong> em perigo por viver com umaaberração. Monstrons atacavam. A gente brigava. Monstr<strong>os</strong> atacavam. A gente brigava. Nãoagüentei nem mesmo até as férias inverno. Chamei Quíron e <strong>vol</strong>tei direto para o AcampamentoMeio-Sangue.- Você acha que vai tentar viver com seu pai <strong>de</strong> novo?Ela não me olhou n<strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Por favor. Não estou a fim <strong>de</strong> me autoflagelar.- Você não <strong>de</strong>via <strong>de</strong>sistir - falei. - Devia lhe escrever uma carta, ou coisa assim.- Obrigada pelo conselho - disse ela, friamente -, mas meu pai escolheu com quem quer viver.Passam<strong>os</strong> mais alguns quilômetr<strong>os</strong> em silêncio.- Então, se <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses brigarem - falei -, as coisas vão ficar como na Guerra <strong>de</strong> Tróia? Será Atenacontra P<strong>os</strong>eidon?Ela enc<strong>os</strong>tou a cabeça na mochila que Ares n<strong>os</strong> <strong>de</strong>ra e fechou olh<strong>os</strong>.- Não sei o que a minha mãe vai fazer. Só sei que vou lutar junto com você.- Por quê?- Porque você é meu amigo, cabeça <strong>de</strong> alga. Mais alguma pergunta boba?Não consegui pensar em uma resp<strong>os</strong>ta para aquilo. Felizemente, não precisei. Annabeth estavadormindo.Tive dificulda<strong>de</strong> em seguir o exemplo <strong>de</strong>la, com Grover roncando e um leão albino me olhandocom ar esfomeado, mas por fim fechei <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.*****Meu pesa<strong>de</strong>lo começou como um milhão <strong>de</strong> vezes antes: eu sendo forçado a fazer um testeusando uma camisa-<strong>de</strong>-força. Todas as outras crianças estavam saindo para o recreio, e oprofessor dizendo: Vam<strong>os</strong>, Percy. Você não é burro, não é? Pegue seu lápis.Então o sonho tomou um rumo diferente.Olhei para a carteira ao lado e vi uma menina sentada, que também usava uma camisa-<strong>de</strong>-força.Tinha a minha ida<strong>de</strong>, com um cabelo preto rebel<strong>de</strong>, estilo punk, <strong>de</strong>lineador escuro em <strong>vol</strong>ta d<strong>os</strong>olh<strong>os</strong> ver<strong>de</strong>s tempestu<strong>os</strong><strong>os</strong>, e sardas no nariz. De algum modo, eu sabia quem era. Thalia, filha <strong>de</strong>Zeus.Ela se <strong>de</strong>bateu na camisa-<strong>de</strong>-força, olhou para mim com raiva e frustração, e disparou: E então,cabeça <strong>de</strong> alga? Um <strong>de</strong> nós precisa sair daqui.Ela tem razão, pensei no sonho. Vou <strong>vol</strong>tar para aquela caverna. Vou dizer o que penso na cara<strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s.


A camisa-<strong>de</strong>-força se dissolveu e fiquei livre. Caí através do piso da sala <strong>de</strong> aula. A voz doprofessor mudou até ficar fria e maligna, ecoando das profun<strong>de</strong>zas <strong>de</strong> um gran<strong>de</strong> abismo.Percy Jackson, disse. Sim, a troca foi bem, estou vendo.Eu estava novamente na caverna escura, com <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong> flutuando à minha <strong>vol</strong>ta.De <strong>de</strong>ntro do poço, sem ser vista, a coisa monstru<strong>os</strong>a falava, mas não se dirigia a mim. O po<strong>de</strong>rentorpecedor <strong>de</strong> sua voz parecia dirigir-se a outro lugar.E ele não suspeita <strong>de</strong> nada? , perguntou.Outra voz, uma que quase reconheci, respon<strong>de</strong>u junto ao meu ombro: Nada, meu senhor. Ele étão ignorante quanto o resto.Ohei, mas não havia ninguém lá. Quem falara estava invisível.Mentira em cima <strong>de</strong> mentira, refletiu em voz alta a coisa no poço. Excelente.Na verda<strong>de</strong>, meu senhor, disse a voz ao meu lado, o nome O Trapaceiro lhe foi muito bemaplicado, mas aquilo foi <strong>de</strong> fato necessário? Eu po<strong>de</strong>ria ter trazido o que roubei diretamente parao senhor...Você?, escarneceu o monstro. Você já m<strong>os</strong>trou seus limites. Teria falhado completamente semminha intervenção.Mas, meu senhor...Por favor, pequeno servo. N<strong>os</strong>s<strong>os</strong> seis meses n<strong>os</strong> ren<strong>de</strong>ram muito. A ira <strong>de</strong> Zeus cresceu.P<strong>os</strong>eidon jogou sua cartada mais <strong>de</strong>sesperada. Agora <strong>de</strong>vem<strong>os</strong> usá-la contra ele. Logo você terá arecompensa que <strong>de</strong>seja, e sua vingança. E assim que amb<strong>os</strong> <strong>os</strong> itens forem entregues em minhasmã<strong>os</strong>... mas espere. Ele está aqui.O quê?O servo invisível <strong>de</strong> repente pareceu tenso.Acaso o convocou, meu senhor?Não.Toda a força da atenção do monstro agora se <strong>de</strong>spejava sobre mim, paralisando-me.Maldito seja o sangue <strong>de</strong> seu pai - ele é inconstante <strong>de</strong>mais, imprevisível <strong>de</strong>mais. O meninotrouxe a si mesmo para cá.Imp<strong>os</strong>sível!, exclamou o servo.Para alguém fraco como você, talvez, r<strong>os</strong>nou a voz. Depois sua força gélida se <strong>vol</strong>tou <strong>de</strong> novopara mim.Então... você quer sonhar com sua missão, meio-sangue? Pois vou atendê-lo.O cenário mudou.Eu estava numa vasta sala com um trono, com pare<strong>de</strong>s <strong>de</strong> mármore negro e piso <strong>de</strong> bronze. Ohorripilante trono vazio era feito <strong>de</strong> <strong>os</strong>s<strong>os</strong> human<strong>os</strong> fundid<strong>os</strong>. P<strong>os</strong>tada ao pé do <strong>de</strong>grau estavaminha mãe, uma estátua <strong>de</strong> luz dourada tremeluzente, <strong>os</strong> braç<strong>os</strong> estendid<strong>os</strong>.Tentei avançar em sua direção, mas minhas pernas n ã o s e m o viam. Estendi a mão para ela,apenas para perceber que minhas mã<strong>os</strong> haviam murchado até <strong>os</strong> <strong>os</strong>s<strong>os</strong>. Esquelet<strong>os</strong> sorri<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong>armadura grega se juntavam ao meu redor, vestindo-me com mant<strong>os</strong> <strong>de</strong> seda, coroando-me comlour<strong>os</strong> que fumegavam com v e n e n o d a Quimera, queimando-me o couro cabeludo.A voz maligna começou a rir. Vivas ao herói conquistador!*****Acor<strong>de</strong>i assustado.Grover sacudia meu ombro.


- O caminhão parou - disse ele. - Acham<strong>os</strong> que e l e s v ê m checar <strong>os</strong> animais.- Escondam-se! - Annabeth falou baixinho.Para ela foi fácil. Pôs na cabeça seu boné mágico e <strong>de</strong>sapareceu. Grover e eu tivem<strong>os</strong> <strong>de</strong>mergulhar atrás d<strong>os</strong> sac<strong>os</strong> <strong>de</strong> ração e torcer para parecerm<strong>os</strong> dois nab<strong>os</strong>.As portas da carreta se abriram com um rangido. A luz e o calor do sol entraram.- Cara! - disse um d<strong>os</strong> caminhoneir<strong>os</strong>, abanando a mão na frente do nariz feio. - Queria estartransportando eletrodoméstic<strong>os</strong>. - Ele trepou para <strong>de</strong>ntro e <strong>de</strong>spejou um pouco d’água nas vasilhasd<strong>os</strong> animais.- Com calor, garotão? - perguntou ao leão, e então esvaziou o resto do bal<strong>de</strong> direto na cara doanimal. Oleão rugiu <strong>de</strong> indignação.- Certo, certo, certo - disse o homem.Ao meu lado, embaixo d<strong>os</strong> sac<strong>os</strong> <strong>de</strong> nab<strong>os</strong>, Grover se r e s e t o u . Para um herbívoro amante dapaz, ele parecia absolutarnente sanguinário.O caminhoneiro jogou um saco meio esmagado <strong>de</strong> McLanche Feliz para o antílope. Earreganhou um sorriso para a zebra: - T u d o em cima, Listradona? Ao men<strong>os</strong> n<strong>os</strong> livrarem<strong>os</strong> <strong>de</strong>você nesta parada. G<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> shows <strong>de</strong> mágica? Vai adorar este. Vão serrar você no meio!A zebra, com <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> arregalad<strong>os</strong> <strong>de</strong> medo, olhou diretamente para mim.Não houve som nenhum, mas claro como o dia, eu a ouvi dizer: Liberte-me, senhor. Por favor.Fiquei perplexo <strong>de</strong>mais para reagir.Houve um forte toque-toque-toque na lateral da carreta.O caminhoneiro que estava <strong>de</strong>ntro, con<strong>os</strong>co, gritou: - O que você quer, Eddie?Uma voz do lado <strong>de</strong> fora - <strong>de</strong>ve ter sido a <strong>de</strong> Eddie - gritou <strong>vol</strong>ta: - Maurice? O que você disse?- Por que está batendo?Toque-toque-toque.De fora, Eddie gritou:- Quem está batendo?O n<strong>os</strong>so cara, Maurice, revirou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e <strong>vol</strong>tou para fora, xingando Eddie por ser tão idiota.Um segundo <strong>de</strong>pois, Annabeth apareceu ao meu lado. Devia ser ela quem fez as batidas, paratirar Maurice da carreta. Ela isse: - Esse negócio <strong>de</strong> transporte não <strong>de</strong>ve ser legal.- Mentira? - disse Grover. Ele fez uma pausa, como se estivesse escutando. - O leão diz queesses caras são contrabandistas <strong>de</strong> animais!É verda<strong>de</strong>, disse a voz da zebra <strong>de</strong>ntro da minha cabeça.- Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> libertá-l<strong>os</strong>! - disse Grover. Ele e Annabeth olharam para mim, esperando meucomando.Eu tinha ouvido a zebra falar, mas não o leão. Por q u ê ? T a l v e z f<strong>os</strong>se mais uma <strong>de</strong>ficiência<strong>de</strong> aprendizado... Será que eu só podia enten<strong>de</strong>r zebras? Então pensei: caval<strong>os</strong>. O que Annabethdissera sobre P<strong>os</strong>eidon criar caval<strong>os</strong>? Uma zebra seria próxima o bastante <strong>de</strong> um cavalo? Será queera por isso que eu podia entendê-la?A zebra disse: Abra minha jaula, senhor. Por favor. Ficarei bem, <strong>de</strong>pois disso.Do lado <strong>de</strong> fora, Eddie e Maurice ainda estavam gritando um com o outro, mas eu sabia que elesentrariam a qualquer minuto para atormentar <strong>os</strong> animais. Agarrei Contracorrente e cortei com umgolpe a tranca da gaiola da zebra.


A zebra disparou para fora. Virou-se para mim e inclinou a cabeça. Obrigada, senhor.Grover ergueu as mã<strong>os</strong> e disse algo a ela em sua fala <strong>de</strong> bo<strong>de</strong>, como uma bênção.No momento em que Maurice enfiava a cabeça para verificar que barulho era aquele lá <strong>de</strong>ntro, azebra saltou por cima <strong>de</strong>le para a rua. Houve berr<strong>os</strong>, grit<strong>os</strong> e carr<strong>os</strong> buzinando. Correm<strong>os</strong> para asportas da carreta a tempo <strong>de</strong> ver a zebra galopando por u m a avenida la<strong>de</strong>ada por hotéis, cassin<strong>os</strong>e letreir<strong>os</strong> <strong>de</strong> néon. T ínham<strong>os</strong> acabado <strong>de</strong> soltar uma zebra em Las Vegas.Maurice e Eddie correram atrás <strong>de</strong>la, com alguns policiais correndo atrás <strong>de</strong>les e gritando: - Ei!Vocês precisam <strong>de</strong> permissão para isso!- Agora seria um bom momento para dar o fora - disse Annabeth.- Primeiro <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> animais - disse Grover.Cortei as trancas com minha espada. Grover ergueu as mã<strong>os</strong> e falou a mesma bênção <strong>de</strong> bo<strong>de</strong>que usara para a zebra.- Boa sorte - disse a<strong>os</strong> animais. O antílope e o leão dispararam para fora das jaulas e foramjunt<strong>os</strong> para as ruas.Alguns turistas gritaram. A maioria recuou e tirou fot<strong>os</strong>, provavelmente pensando que setratasse <strong>de</strong> algum tipo <strong>de</strong> show <strong>de</strong> um d<strong>os</strong> cassin<strong>os</strong>.- Os animais vão ficar bem? - perguntei a Grover. - Quer dizer, o <strong>de</strong>serto e tudo...- Não se preocupe - disse ele. - Eu lhes <strong>de</strong>i uma bênção <strong>de</strong> sátiro.- O que quer dizer isso?- Quer dizer que chegarão à floresta em segurança - disse ele. - Encontrarão água, comida,sombra, e o que mais precisarem até acharem um lugar seguro para viver.- Por que você não po<strong>de</strong> fazer uma oração <strong>de</strong>ssas para nós? - perguntei.- Só funciona com animais.- Então só iria afetar Percy - pon<strong>de</strong>rou Annabeth.- Ei! - protestei.- Brinca<strong>de</strong>irinha - disse ela. - Venha. Vam<strong>os</strong> sair <strong>de</strong>sse caminhão imundo.Cambaleam<strong>os</strong> para fora, para a tar<strong>de</strong> do <strong>de</strong>serto. Fazia quarenta e três graus, fácil, e <strong>de</strong>víam<strong>os</strong>estar parecendo vagabund<strong>os</strong> frit<strong>os</strong>, mas tod<strong>os</strong> estavam interessad<strong>os</strong> <strong>de</strong>mais n<strong>os</strong> animais selvagenspara prestar muita atenção em nós.Passam<strong>os</strong> pelo Monte Carlo e pela MGM. Passam<strong>os</strong> por pirâmi<strong>de</strong>s, por um navio pirata e pelaEstátua da Liberda<strong>de</strong>, que era uma réplica bem pequena, mas ainda assim me <strong>de</strong>ixou comsauda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> casa.Não sabia muito bem o que estávam<strong>os</strong> procurando. Talvez apenas um lugar para fugir do calorpor alguns minut<strong>os</strong>, achar um sanduíche e um copo <strong>de</strong> limonada, bolar um novo plano para chegarao oeste.Provavelmente, entram<strong>os</strong> numa rua errada, pois chegam<strong>os</strong> em um beco sem saída, em frente aoHotel e Cassino Lotus. A entrada era uma enorme flor <strong>de</strong> néon, as pétalas acen<strong>de</strong>ndo e piscando.Ninguém entrava nem saía, mas as reluzentes portas cromadas estavam abertas, espalhando arcondicionado com cheiro <strong>de</strong> flores - flor-<strong>de</strong>-lótus, quem sabe. Eu nunca cheirara uma, por isso nãotinha certeza.O porteiro sorriu para nós.- Ei, crianças. Vocês parecem cansad<strong>os</strong>. Querem entrar e sentar?Tinha aprendido a ser <strong>de</strong>sconfiado, mais ou men<strong>os</strong> na última semana. Imaginava que qualquerum po<strong>de</strong>ria ser um monstro ou um <strong>de</strong>us. Não dava para saber. Mas aquele cara era normal. Era só


olhar.Além disso, fiquei tão aliviado <strong>de</strong> ouvir alguém que parecia simpático que assenti e disse queadoraríam<strong>os</strong> entrar. Dentro, <strong>de</strong>m<strong>os</strong> uma olhada em <strong>vol</strong>ta e Grover disse: - Uau.O saguão inteiro era uma sala <strong>de</strong> jog<strong>os</strong> gigante. E não estou falando <strong>de</strong> joguinh<strong>os</strong> vagabund<strong>os</strong>como o velho Pac-Man ou <strong>os</strong> caça-níqueis. Havia um toboágua serpenteando em <strong>vol</strong>ta do elevador<strong>de</strong> vidro, que subia pelo men<strong>os</strong> quarenta andares. Havia uma pare<strong>de</strong> <strong>de</strong> escalada ao lado <strong>de</strong> umedifício, e uma ponte i n t e r n a para bungee-jumping. Trajes <strong>de</strong> realida<strong>de</strong> virtual com pistolaslaseres que funcionavam. E centenas <strong>de</strong> vi<strong>de</strong>ogames, cada qual do tamanho <strong>de</strong> uma tevê wi<strong>de</strong>smen.Basicamente, o que você disser, o lugar tinha. Havia algumas outras crianças jogando, mas nãomuitas. Não havia espera para nenhum d<strong>os</strong> jog<strong>os</strong>. Garçonetes e lanchonetes estavam por todaparte, servindo todo tipo <strong>de</strong> comida que se p<strong>os</strong>sa imaginar.- Ei! - disse um mensageiro. Pêl<strong>os</strong> men<strong>os</strong> achei que f<strong>os</strong>se um mensageiro. Usava uma camisahavaiana branca e amarela com <strong>de</strong>senh<strong>os</strong> <strong>de</strong> lótus, short e sandálias <strong>de</strong> <strong>de</strong>do. - B em -vind<strong>os</strong> a o Ca s s i n o Lótus.Aqui está a chave do seu quarto.Eu gaguejei:- Ahn, mas...- Não, não - disse ele, rindo. - A conta já foi paga. Sem taxas extras, sem gorjetas. Vocês sóprecisam subir para o último andar, quarto 4001. Se precisarem alguma coisa, como mais espumapara a banheira quente ou alv<strong>os</strong> para tiro ao prato, ou o que for, é só ligar para a recepção. Aquiestão <strong>os</strong> seus cartões GranaLótus. Eles funcionam n<strong>os</strong> restaurantes e em tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> jog<strong>os</strong> ebrinqued<strong>os</strong>.Ele entregou a cada um <strong>de</strong> nós um cartão <strong>de</strong> crédito <strong>de</strong> plástico ver<strong>de</strong>.Eu sabia que <strong>de</strong>via haver algum engano. Obviamente ele pensara q u e éram<strong>os</strong> criançasmilionárias. Mas peguei o cartão e disse: - Quanto tem aqui?Ele juntou as sobrancelhas.- O que quer dizer?- Quero dizer quanto tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> crédito?Ele riu.- Ah, é uma piada. Ei, legal. Aproveitem sua estada.Subim<strong>os</strong> <strong>de</strong> elevador e conferim<strong>os</strong> n<strong>os</strong>so quarto. Era uma suíte com três dormitóri<strong>os</strong> separad<strong>os</strong>e um bar cheio <strong>de</strong> doces, refrigerantes e salgadinh<strong>os</strong>. Uma linha direta para o serviço <strong>de</strong> quarto.Toalhas fofas e camas d'água com travesseir<strong>os</strong> <strong>de</strong> penas. Uma televisão enorme com satélite eInternet banda larga. A varanda tinha sua própria banheira quente e, <strong>de</strong> fato, uma máquina <strong>de</strong>lançar p r a t o s e uma espingarda -dava para lançar pomb<strong>os</strong> <strong>de</strong> louça sobre a paisagem <strong>de</strong> Las Vegas e acertá-l<strong>os</strong> com aespingarda. Não ntendi como aquilo podia ser permitido, mas achei muito leg al.A vista para a Vegas Boulevard e o <strong>de</strong>serto era maravilh<strong>os</strong>a, muito embora eu duvidasse queteríam<strong>os</strong> tempo para admirar a paisagem com um quarto como aquele.- Ah, <strong>de</strong>uses - disse Annabeth. - Este lugar é...- Maravilh<strong>os</strong>o - disse Grover. - Supermaravilh<strong>os</strong>o.Havia roupas no armário, e cabiam em mim. Franzi a testa, achando um pouco estranho.Joguei a mochila <strong>de</strong> Ares na lata <strong>de</strong> lixo. Não precisaria mais daquilo. Quando fôssem<strong>os</strong>embora, po<strong>de</strong>ria comprar uma nova loja do hotel.


Tomei um banho, o que foi uma sensação ótima <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> uma semana <strong>de</strong> viagem suja. Troquei<strong>de</strong> roupa, comi um saco <strong>de</strong> salgadinh<strong>os</strong>, bebi três Cocas e não me sentia tão b e m h a v i a muitotempo. Bem no fundo da cabeça, um probleminha me incomodava. Eu tivera um sonho, ou coisaassim... Precisava f a l a r c o m meus amig<strong>os</strong>. Mas certamente aquilo podia esperar.Saí do quarto e vi que Annabeth e Grover também tinham tomado banho e trocado <strong>de</strong> roupa.Grover estava comendo batatinhas até se fartar, enquanto Annabeth sintonizava o NationalGeographic Channel.- Tod<strong>os</strong> esses canais - disse a ela -, e você liga no National Geographic. Está maluca?- É interessante.- Eu me sinto bem - disse Grover. - Adoro este lugar.Sem que ele se <strong>de</strong>sse conta, as asas apareceram n<strong>os</strong> seus tênis e o suspen<strong>de</strong>ram a trintacentímetr<strong>os</strong> do chão, <strong>de</strong>pois o <strong>de</strong>sceram <strong>de</strong> novo.- Então, o que fazem<strong>os</strong> agora? - perguntou Annabeth. - Dormim<strong>os</strong>?Grover e eu n<strong>os</strong> entreolham<strong>os</strong> e sorrim<strong>os</strong>. Amb<strong>os</strong> erguem<strong>os</strong> <strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> cartões GranaLótus <strong>de</strong>plástico ver<strong>de</strong>.- Hora do recreio - falei.Não conseguia me lembrar da última vez em que me d i v e r t i r a t a n t o . Eu vinha <strong>de</strong> umafamília relativamente pobre. Para nós esbanjar era comer fora no Burger King e alugar um ví<strong>de</strong>o.Um h otel c inc o es t relas em Vegas? Nem pensar.Pulei <strong>de</strong> bungee-jump no saguão cinco ou seis vezes, an<strong>de</strong>i no toboágua, fiz snowboard narampa <strong>de</strong> neve artificial, joguei lasertag e atirador <strong>de</strong> elite do FBI em realida<strong>de</strong> virtual. Vi Groveralgumas vezes, indo <strong>de</strong> jogo em jogo. Ele tinha g<strong>os</strong>tado mesmo daquela coisa do caçador àsavessas - em que <strong>os</strong> cerv<strong>os</strong> saem e atiram contra <strong>os</strong> caipiras. Vi Annabeth jogando trívia e outr<strong>os</strong>jog<strong>os</strong> <strong>de</strong> cabeçud<strong>os</strong>.Havia um Sim enorme em 3D, no qual você podia construir sua própria cida<strong>de</strong> e realmente ver<strong>os</strong> edifíci<strong>os</strong> holográfico subirem no tabuleiro. Não <strong>de</strong>i muita importância para esse, mas Annabethadorou.Não sei muito bem quando percebi que algo estava errado.Provavelmente, foi quando reparei no cara que estava em pé ao meu lado no jogo d<strong>os</strong> atiradores<strong>de</strong> elite virtuais. Tinha cerca <strong>de</strong> treze an<strong>os</strong>, eu acho, mas suas roupas eram esquisitas. Achei quef<strong>os</strong>se filho <strong>de</strong> algum dublê do Elvis Presley. Usava jeans boca-<strong>de</strong>-sino e uma camiseta vermelhacom enfeites pret<strong>os</strong>, e o cabelo era cacheado e cheio <strong>de</strong> gel, como o <strong>de</strong> uma garota <strong>de</strong> New Jerseyem noite <strong>de</strong> reunião <strong>de</strong> ex-alun<strong>os</strong>.Brincam<strong>os</strong> junt<strong>os</strong> no jogo <strong>de</strong> atiradores, e ele disse: - Joinha, bicho. Estou aqui há duas semanase <strong>os</strong> jog<strong>os</strong> estão cada vez melhores Joinha, bicho?Mais tar<strong>de</strong>, enquanto conversávam<strong>os</strong>, eu disse que alguma coisa era "irada" e ele me olhoumeio surpreso, como se nunca tivesse ouvido a palavra ser usada daquele jeito antes.Disse que seu nome era Darrin, mas assim que comecei a fazer perguntas ele se aborreceu e fezmenção <strong>de</strong> <strong>vol</strong>tar para a tela do computador.Eu disse:- Ei, Darrin?- O quê?- Em que ano estam<strong>os</strong>? Ele franziu a testa para mim.- No jogo?- Não. Na vida real. Ele precisou pensar.


- Mil novecent<strong>os</strong> e setenta e sete.- Não - falei, começando a ficar um pouco as sus tado. - De verda<strong>de</strong>.- Ei, bicho. Vibrações ruins. Estou no meio <strong>de</strong> um jogo.Depois disso ele me ignorou totalmente.Comecei a falar com as pessoas e <strong>de</strong>scobri que n ã o e r a f á c i l .Elas estavam grudadas na tela da tevê ou no vi<strong>de</strong>ogame ou no que f<strong>os</strong>se. Achei um cara que medisse que era 1985 . Outro cara me disse que era 1993. Tod<strong>os</strong> alegavam não estar ali há muitotempo, alguns dias, algumas semanas no máximo. Re alm ente não sabiam, nem se importavamcom isso.Então me ocorreu: havia quanto tempo eu estava a l i ? P a r e c i a m apenas algumas horas,mas seriam mesmo?Tentei lembrar por que estávam<strong>os</strong> ali. Íam<strong>os</strong> para L<strong>os</strong> Angeles. Deveríam<strong>os</strong> encontrar a entradapara o Mundo I n f e r i o r . M i n h a mãe... por um momento apavorante, tive dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong>lembrar o nome <strong>de</strong>la.Sally. Sally Jackson. Eu tinha <strong>de</strong> encontrá-la. precisava impedir Ha<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ar aTerceira Guerra Mu n d i a l.Achei Annabeth ainda construindo sua cida<strong>de</strong>.- Vam<strong>os</strong> - disse a ela. - Precisam<strong>os</strong> sair daqui.Nenhuma resp<strong>os</strong>ta.- Annabeth?Ela ergueu <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, aborrecida.- O quê?- Escute. O Mundo Inferior. A n<strong>os</strong>sa missão!- Or a, va mo s, Percy. Só mais alguns minut<strong>os</strong>.- Annabeth, há gente aqui <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1977. Crianças que nunca cresceram. Quando você entra, ficapara sempre.- E dai? - perguntou ela. - Você po<strong>de</strong> imaginar lugar melhor?Agarrei o pulso <strong>de</strong>la e a arranquei do jogo.- Ei! - ela gritou e me bateu, mas ninguém sequer se incomodou em olhar. Estavam ocupad<strong>os</strong><strong>de</strong>mais.Eu a fiz olhar em meus olh<strong>os</strong>. Falei: - Aranhas. Gran<strong>de</strong>s aranhas peludas.Aquilo mexeu com ela. Sua visão clareou.- Ah, meus <strong>de</strong>uses - falou. - Há quanto tempo nós...- Não sei, mas tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> encontrar Grover.Saímo à procura <strong>de</strong>le, e o encontram<strong>os</strong> ainda jogando Caçador <strong>de</strong> Cerv<strong>os</strong> Virtual.- Grover! - gritam<strong>os</strong> junt<strong>os</strong>.Ele disse:- Morra, ser humano! Morra, pessoa tola e poluente!- Grover!Ele apontou a arma <strong>de</strong> plástico para mim e começou a clicar, como se eu f<strong>os</strong>se apenas mais umaimagem na tela.Olhei para Annabeth e junt<strong>os</strong> pegam<strong>os</strong> Grover pel<strong>os</strong> braç<strong>os</strong> e o arrastam<strong>os</strong> para longe. Os tênisvoadores <strong>de</strong>spertaram e começaram a puxar as pernas <strong>de</strong>le na diração op<strong>os</strong>ta, enquanto ele gritava:- Não! Acabei <strong>de</strong> passar <strong>de</strong> nível! Não!


O mensageiro do Lótus correu até nós.- E então, estão pront<strong>os</strong> para <strong>os</strong> seus cartões platinum?- Estam<strong>os</strong> indo embora - disse a ele.- Que pena - disse ele, e tive a sensação <strong>de</strong> que ele estava sendo sincero, <strong>de</strong> que íam<strong>os</strong><strong>de</strong>spedaçar seu coração partindo. - Acabam<strong>os</strong> <strong>de</strong> anexar um novo andar cheio <strong>de</strong> jog<strong>os</strong> paraportadores <strong>de</strong> cartões platinum.Ele m<strong>os</strong>trou <strong>os</strong> cartões, e eu queria um. Sabia que, se pegasse jamais iria embora. Ficaria ali,feliz para sempre, j og an d o p ara sempre, e logo esqueceria minha mãe, e minha missão, e talvezaté meu próprio nome. Ficaria jogando Atirador Virtual com o bicho joinha Darrin Discoteca parasempre.Grover esten<strong>de</strong>u a mão para o cartão, mas Annabeth puxou o braço <strong>de</strong>le e disse: - Não,obrigada.Fom<strong>os</strong> andando em direção à porta, e quando fizem<strong>os</strong> isso, o cheiro <strong>de</strong> comida e <strong>os</strong> sons d<strong>os</strong>jog<strong>os</strong> pareceram ficar mais e mais convidativ<strong>os</strong>. Pensei em n<strong>os</strong>so quarto lá em cima. Podíam<strong>os</strong> sópassar a noite, dormir em uma cama <strong>de</strong> verda<strong>de</strong> para variar...Então disparam<strong>os</strong> pelas portas do Cassino Lótus e saím<strong>os</strong> correndo pela calçada. A sensação era<strong>de</strong> meio <strong>de</strong> tar<strong>de</strong>, mais ou men<strong>os</strong> a mesma hora que havíam<strong>os</strong> entrado no cassino, mas algo estavaerrado. O tempo mudara completamente. Estava tempestu<strong>os</strong>o, com rai<strong>os</strong> <strong>de</strong> calor relampejando no<strong>de</strong>serto.A mochila <strong>de</strong> Ares estava pendurada em meu ombro, o que era estranho, pois eu tinha certeza<strong>de</strong> que a jogara na lata <strong>de</strong> lixo do quarto 4001. Mas naquele momento eu tinha outr<strong>os</strong> problemascom que me preocupar.Corri para o jornal mais próximo e li o ano primeiro. Graças a<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, era o mesmo ano <strong>de</strong>quando entram<strong>os</strong>. Então reparei na data: 20 <strong>de</strong> junho.Tínham<strong>os</strong> ficado no Cassino Lótus por cinco dias.Restáva-n<strong>os</strong> só um dia até o solstício <strong>de</strong> verão. Um dia para completar n<strong>os</strong>sa missão.DEZESSETE – Vam<strong>os</strong> comprar camas d’água.A idéia foi <strong>de</strong> Annabeth.Ela n<strong>os</strong> meteu no banco <strong>de</strong> trás <strong>de</strong> um táxi <strong>de</strong> Las Vegas como se realmente tivéssem<strong>os</strong>dinheiro, e disse ao motorista: - L<strong>os</strong> Angeles, por favor.O taxista mascou seu charuto e n<strong>os</strong> mediu com <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- São quatrocent<strong>os</strong> e oitenta e dois quilômetr<strong>os</strong>. Para isso, vocês têm <strong>de</strong> pagar adiantado.- Aceita cartão <strong>de</strong> débito <strong>de</strong> cassin<strong>os</strong>? - perguntou Annabeth.Ele <strong>de</strong>u <strong>de</strong> ombr<strong>os</strong>.- Alguns. Funcionam como <strong>os</strong> cartões <strong>de</strong> crédito. Preciso passar o cartão primeiro.Annabeth esten<strong>de</strong>u o cartão GranaLótus ver<strong>de</strong> para ele.O motorista olhou com ar <strong>de</strong>sconfiado.- Passe o cartão - convidou Annabeth.Ele fez isso.O taxímetro começou a crepitar. Luzes se acen<strong>de</strong>ram. Por fim, um símbolo do infinito apareceuao lado do cifrão.O charuto caiu da boca do motorista. Ele olhou para nós <strong>de</strong> olh<strong>os</strong> arregalad<strong>os</strong>.- Em que lugar <strong>de</strong> L<strong>os</strong> Angeles... ahn... Sua Alteza?- O píer Santa Monica. - Annabeth endireitou um pouco o corpo. Dava para perceber que ela


g<strong>os</strong>tara daquilo <strong>de</strong> "Sua Altezaǁ. - Leve-n<strong>os</strong> <strong>de</strong>pressa, e po<strong>de</strong> ficar com o troco.Talvez ela não <strong>de</strong>vesse ter dito aquilo.O velocímetro do táxi não caiu nem por um instante abaixo <strong>de</strong> cento e sessenta ao longo <strong>de</strong> todoo percurso pelo <strong>de</strong>serto <strong>de</strong> Mojave.*****Na estrada, tivem<strong>os</strong> tempo à vonta<strong>de</strong> para conversar. Contei a Annabeth e Grover sobre meuúltimo sonho, mas, quanto mais tentava me lembrar, mais imprecis<strong>os</strong> foram ficando <strong>os</strong> <strong>de</strong>talhes.O Cassino Lótus parecia ter causado um curto-circuito na minha memória. Eu não conseguia melembrar <strong>de</strong> como era o som da voz do servo, embora tivesse certeza <strong>de</strong> que era <strong>de</strong> alguém que euconhecia. O servo chamara o monstro no abismo <strong>de</strong> algum outro nome além <strong>de</strong> "meu senhor"...Algum nome ou título especial...- O Silenci<strong>os</strong>o? - sugeriu Annabeth. - O Rico? Amb<strong>os</strong> são apelid<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s.- Talvez... - falei -, embora nenhum d<strong>os</strong> dois parecesse muito certo.- A sala do trono parece ser a <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s - disse Grover. - É assim que c<strong>os</strong>tumam <strong>de</strong>screvê-la.Eu sacudi a cabeça.- Alguma coisa está errada. A sala do trono não era a parte principal do meu sonho. E aquelavoz no abismo... Eu não sei. Simplesmente não parecia a voz <strong>de</strong> um <strong>de</strong>us.Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Annabeth se arregalaram.- O que foi? - perguntei.- Ah... nada. Eu estava só... Não, tem <strong>de</strong> ser Ha<strong>de</strong>s. Talvez ele tenha mandado esse ladrão, essapessoa invisível, para pegar o raio-mestre, e algo tenha dado errado...- Tipo o quê?- Eu... eu não sei - disse ela. - Mas se ele roubou o símbolo do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> Zeus do Olimpo, e <strong>os</strong><strong>de</strong>uses o estavam caçando, quer dizer, uma porção <strong>de</strong> coisas po<strong>de</strong>ria dar errado, ou ele o per<strong>de</strong>u <strong>de</strong>algum modo. De qualquer jeito, não conseguiu levá-lo até Ha<strong>de</strong>s. Foi isso o que a voz disse no seusonho, certo? O cara fracassou. Isso explicaria o que as Fúrias estavam procurando quando vieramatrás <strong>de</strong> nós no ônibus. Talvez achem que recuperam<strong>os</strong> o raio.Não sabia muito bem o que estava errado com ela. Parecia pálida.- Mas se eu já tivesse recuperado o raio - falei -, por que estaria viajando para o MundoInferior?- Para ameaçar Ha<strong>de</strong>s - sugeriu Grover. - Para suborná-lo ou chantageá-lo para <strong>de</strong><strong>vol</strong>ver suamãe.Eu assobiei.- Você tem pensament<strong>os</strong> pervers<strong>os</strong> para um bo<strong>de</strong>.- Ora, obrigado.- Mas a coisa no abismo disse que estava esperando dois - falei. - Se o raio-mestre é um, qual éo outro?Grover sacudiu a cabeça, claramente perplexo.Annabeth olhava para mim como se soubesse qual seria a minha próxima pergunta e estivesse<strong>de</strong>sejando silenci<strong>os</strong>amente que eu não a fizesse.- Você tem idéia do que po<strong>de</strong>ria estar naquele abismo tem? - perguntei a ela. - Quer dizer, senão for Ha<strong>de</strong>s.- Percy... não vam<strong>os</strong> falar sobre isso. Porque se não for Ha<strong>de</strong>s... Não. Tem <strong>de</strong> ser Ha<strong>de</strong>s.A d e s o l a ç ã o p a s s a v a por nós. Passam<strong>os</strong> por uma placa que dizia DIVISA DO ESTADO


DA CALIFÓRNIA, VINTE QUILÔMETROS.Tive a sensação <strong>de</strong> que estava <strong>de</strong>ixando <strong>de</strong> notar alguma informação simples e crucial. Eracomo quando eu olhava para uma palavra que <strong>de</strong>veria conhecer, mas ela não fazia sentido porqueuma ou duas letras estavam flutuando f o r a do lugar. Quanto mais eu pensava sobre minhamissão, mais certeza tinha <strong>de</strong> que confrontar Ha<strong>de</strong>s não era a verda<strong>de</strong>ira resp<strong>os</strong>ta. Havia algo maisacontecendo, algo ainda mais perig<strong>os</strong>o.O problema era: estávam<strong>os</strong> disparad<strong>os</strong> na direção do Mundo Inferior a cento e sessentaquilômetr<strong>os</strong> por hora, ap<strong>os</strong>tando que que Ha<strong>de</strong>s tinha o raio-mestre. Se chegássem<strong>os</strong> lá e<strong>de</strong>scobríssem<strong>os</strong> que estávam<strong>os</strong> errad<strong>os</strong>, não teríam<strong>os</strong> tempo para corrigir o erro. O prazo d<strong>os</strong>olstício passaria e a guerra começaria.- A resp<strong>os</strong>ta está no Mundo Inferior - assegurou Annabeth. - Você viu <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>,Percy.Só há um lugar on<strong>de</strong> isso é p<strong>os</strong>sível. Estam<strong>os</strong> fazendo a coisa certa.Ela tentou levantar a n<strong>os</strong>sa moral sugerindo estratégias engenh<strong>os</strong>as para entrar na Terra d<strong>os</strong>Mort<strong>os</strong>, mas meu coração não estava naquilo. O fato é que havia muit<strong>os</strong> fatores <strong>de</strong>sconhecid<strong>os</strong>.Era como estudar loucamente para uma prova sem saber qual é o assunto. E, acredite-me, isso eujá fizera muitas vezes.O táxi ia a toda para oeste. Cada rajada <strong>de</strong> vento no Vale da Morte parecia um espírito d<strong>os</strong>mort<strong>os</strong>.Cada vez que <strong>os</strong> frei<strong>os</strong> chiavam atrás <strong>de</strong> um caminhão <strong>de</strong> <strong>de</strong>zoito rodas, aquilo me lembrava avoz reptiliana <strong>de</strong> Equidna.*****Ao pôr-do-sol, o táxi n<strong>os</strong> <strong>de</strong>ixou na praia <strong>de</strong> Santa Monica. Era exatamente como as praias <strong>de</strong>L<strong>os</strong> Angeles que se vêem n<strong>os</strong> filmes, só que o cheiro era pior. Havia carr<strong>os</strong>séis <strong>de</strong> parque <strong>de</strong>diversão ao longo do píer, palmeiras nas calçadas, sem-teto dormindo nas dunas e surfistasesperando a onda perfeita.Grover, Annabeth e eu caminham<strong>os</strong> até a beira-mar.- E agora? - perguntou Annabeth.O Pacífico estava ficando dourado ao sol poente. Pensei em quanto tempo se passara <strong>de</strong>s<strong>de</strong> queestivera na praia <strong>de</strong> Montauk, do outro lado do país, olhando para um mar diferente.Como podia haver um <strong>de</strong>us capaz <strong>de</strong> controlar aquilo tudo? O que meu professor <strong>de</strong> ciênciasdizia -dois terç<strong>os</strong> da superfície da Terra são cobert<strong>os</strong> <strong>de</strong> água? Como eu podia ser filho <strong>de</strong> alguém tãopo<strong>de</strong>r<strong>os</strong>o?Entrei na arrebentação.- Percy? - disse Annabeth. - O que está fazendo?Continuei andando, até a água chegar à minha cintura, <strong>de</strong>pois ao peito.Ela gritou para mim:- Tem idéia <strong>de</strong> quanto essa água está poluída? Há tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> tip<strong>os</strong> <strong>de</strong> coisas tóxicas...Foi quando minha cabeça submergiu.De início, prendi a respiração. É difícil inalar água <strong>de</strong> propósito. Por fim não pu<strong>de</strong> maisaguentar.Inspirei. De fato, eu conseguia respirar normalmente.Desci andando até <strong>os</strong> banc<strong>os</strong> <strong>de</strong> areia. Não <strong>de</strong>veria conseguie enxergar naquelas águas escuras,mas <strong>de</strong> algum modo podia dizer on<strong>de</strong> tudo estava. Conseguia sentir a textura ondulada do fundo.


Podia distinguir colônias <strong>de</strong> estrelas-do-mar pontilhando <strong>os</strong> banc<strong>os</strong> <strong>de</strong> areia. Podia até ver ascorrentes, quentes e frias, rodopiando juntas.Senti algo roçando a minha perna. Olhei para baixo e pulei para fora da água como um míssil.Deslizando ao meu lado, havia um tubarão-sombreiro <strong>de</strong> um metro e meio <strong>de</strong> comprimento.Mas ele não estava atacando, apenas esfregava o nariz em mim. Estava n<strong>os</strong> meus calcanharescomo um cachorro. Vacilante, toquei sua barbatana dorsal. Ele resistiu um pouco, como seestivesse me convidando a segurar mais forte. Agarrei a barbatana com as duas mã<strong>os</strong>. Ele partiu,me puxando.O tubarão me arrastou para o fundo, para a escuridão, e me largou à beira do oceanopropriamente dito, on<strong>de</strong> o banco <strong>de</strong> areia <strong>de</strong>spencava em um imenso abismo. Era como estar nabeira do Grand Canyon à meia-noite, sem conseguir v e r m u i t a coisa mas sabendo que o vazioestava bem ali.A superfície tremeluzia a uns cinquenta metr<strong>os</strong>. Eu sabia que <strong>de</strong>via ter sido esmagado pelapressão. Mas, por outro lado, o natural era que também não respirasse. Fiquei imaginando sehaveria um limite até o qual eu po<strong>de</strong>ria avançar, e se era p<strong>os</strong>sível <strong>de</strong>scer d i r e t o a t é o fundo doPacífico.Então vi algo reluzindo na escuridão abaixo, ficando maior e mais brilhante à medida que subiana minha direção. Uma voz <strong>de</strong> mulher, como a da minha mãe, chamou: - Percy Jackson.Quando ela chegou mais perto, sua forma ficou mais clara. Tinha cabel<strong>os</strong> pret<strong>os</strong> solt<strong>os</strong> e usavaum vestido <strong>de</strong> seda ver<strong>de</strong>. A luz tremeluzia a seu redor, e <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> eram tão perturbadoramentebonit<strong>os</strong> que mal notei o cavalo-marinho do tamanho <strong>de</strong> um corcel em que ela estava montando.Ela <strong>de</strong>smontou. O cavalo-mannho e o tubarão-sombreiro se afastaram rapidamente ecomeçaram uma brinca<strong>de</strong>ira que parecia escon<strong>de</strong>-escon<strong>de</strong>. A dama submarina sorriu para mim.- Você chegou longe, Percy Jackson. Muito bem!Eu não sabia muito bem o que fazer, então me curvei.- Você é a mulher que falou comigo no rio Mississipi.- Sim, criança. Eu sou uma nereida, um es pí rito do m ar . Não foi fácil aparecer tão longe, rioacima, mas as náia<strong>de</strong>s, minhas primas da água doce, ajudaram a sustentar minha força vital. Elashonram o Senhor P<strong>os</strong>eidon, embora não sirvam em sua corte.- E... você serve na corte <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon?Ela assentiu.- Muit<strong>os</strong> an<strong>os</strong> se passaram <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que nasceu uma criança do Deus do Mar. Nós o observam<strong>os</strong>com gran<strong>de</strong> interesse.De repente me lembrei d<strong>os</strong> r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> nas ondas perto da praia <strong>de</strong> Montauk quando eu era pequeno,reflex<strong>os</strong> <strong>de</strong> mulheres sorri<strong>de</strong>ntes. Como com tantas coisas estranhas em minha vida, nunca haviapensado muito naquilo.- Se meu pai se interessa tanto por mim - falei -, por que não está aqui? Por que não falacomigo?Uma corrente fria subiu das profun<strong>de</strong>zas.- Não julgue o Senhor do Mar tão duramente - disseme a nereida. - Ele está prestes a lutar emuma guerra in<strong>de</strong>sejada. Tem muito com que ocupar seu tempo. Além disso, está proibido <strong>de</strong> ajudálodiretamente. Os <strong>de</strong>uses não po<strong>de</strong>m <strong>de</strong>monstrar tal favoritismo.- Mesmo com seus própri<strong>os</strong> filh<strong>os</strong>?- Especialmente com estes. Os <strong>de</strong>uses só po<strong>de</strong>m agir por influência indireta. E por isso que lhe


dou um aviso, e um presente.Ela esten<strong>de</strong>u a mão aberta e três pérolas brancas brilharam.- Sei <strong>de</strong> sua jornada a<strong>os</strong> domíni<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s - disse. - Pouc<strong>os</strong> mortais já fizeram isso esobreviveram: Orfeu, que p<strong>os</strong>suía gran<strong>de</strong> talento musical; Hércules, que tinha gran<strong>de</strong> força;Houdini, que podia escapar até mesmo das profun<strong>de</strong>zas do Tártaro. Você tem esses talent<strong>os</strong>?- Ahn... não, senhora.- Ah, mas você tem algo mais, Percy. P<strong>os</strong>sui dons que es ta apenas começando a <strong>de</strong>scobrir. Osorácul<strong>os</strong> vaticinaram um gran<strong>de</strong> e extraordinário futuro para você, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que sobreviva até a ida<strong>de</strong>adulta. P<strong>os</strong>eidon não aceitará que morra antes do tempo, P o r t a n t o pegue estas pérolas, equando estiver em apuro, esmague elas a seus pés.- O que vai acontecer?- Depen<strong>de</strong> do apuro. Mas lembre: o que pertence ao mar sempre retornará ao mar.- E o aviso?Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la brilharam com uma luz ver<strong>de</strong>.- Faça o que seu coração manda, ou per<strong>de</strong>rá tudo. Ha<strong>de</strong>s se alimenta <strong>de</strong> dúvidas e <strong>de</strong>sesperança.Ele o enganará se pu<strong>de</strong>r, o fará <strong>de</strong>sconfiar <strong>de</strong> seu próprio julgamento. Depois que estiver n<strong>os</strong>domíni<strong>os</strong> <strong>de</strong>le, Ha<strong>de</strong>s jamais permitirá <strong>vol</strong>untariamente que você parta. Mantenha a fé. Boa sorte,Percy Jackson.Ela chamou seu cavalo-marinho e partiu para o vazio.- Espere! - gritei. - No rio, você disse para não confiar em presentes. Que presentes?- A<strong>de</strong>us, jovem herói - gritou ela <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta, a voz <strong>de</strong>saparecendo nas profun<strong>de</strong>zas. - Você <strong>de</strong>veouvir seu coração. - Ela se transformou em um ponto ver<strong>de</strong> lumin<strong>os</strong>o e <strong>de</strong>pois <strong>de</strong>sapareceu. Euquis segui-la para as profun<strong>de</strong>zas escuras. Quis ver a corte <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon. Mas ergui <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para ocrepúsculo que se transformava em noite na superfície. Meus amig<strong>os</strong> estavam esperando.Tínham<strong>os</strong> tão pouco tempo...Tomei impulso para cima em direção à arrebentação.Quando cheguei à praia, minhas roupas secaram instantaneamente. Contei a Grover e aAnnabeth o que acontecera, e m<strong>os</strong>trei as pérolas a eles.Annabeth fez uma careta.- Nenhum presente vem sem um preço.- Elas foram <strong>de</strong> graça.- Não. - Ela sacudiu a cabeça. - "Não existe a l m o ç o g r á t i s ." É um antigo ditado grego quese aplica perfeiramente hoje em dia. Haverá um preço. Aguar<strong>de</strong>.Com esse pensamento feliz, <strong>de</strong>m<strong>os</strong> as c<strong>os</strong>tas para o mar.*****Tomam<strong>os</strong> o ônibus para West Hollywood com um pouco d<strong>os</strong> trocad<strong>os</strong> que sobraram na mochila<strong>de</strong> Ares. M<strong>os</strong>trei ao motorista o recibo com o en<strong>de</strong>reço do Mundo Inferior que eu pegara noEmpório <strong>de</strong> Anões <strong>de</strong> Jardim da Tia Eme, mas ele n u n c a o u v i r a falar n<strong>os</strong> Estúdi<strong>os</strong> <strong>de</strong>Gravação M.A.C. -Morto ao Chegar.- Você me lembra alguém que vi na tevê - falou, ator infantil, ou coisa assim?- Ahn... eu sou dublê... <strong>de</strong> uma porção <strong>de</strong> atores infa ntis .- Ah! Está explicado.Agra<strong>de</strong>ci e <strong>de</strong>sci rapidamente na parada seguinte.


Perambulam<strong>os</strong> por quilômetr<strong>os</strong> à procura do M.A.C. Ninguém parecia saber on<strong>de</strong> era. Nãoconstava da lista telefônica.Duas vezes n<strong>os</strong> esquivam<strong>os</strong> para bec<strong>os</strong>, para evitar viaturas <strong>de</strong> polícia.Fiquei paralisado na frente da vitrine <strong>de</strong> uma loja <strong>de</strong> eletrodoméstic<strong>os</strong> porque uma televisãom<strong>os</strong>trava uma entrevista com alguém que pareceu muito familiar - meu padrasto, Gabe Cheir<strong>os</strong>o.Ele estava falando com Barbara Walters - parecendo uma gran<strong>de</strong> celebrida<strong>de</strong>. Ela o entrevistavaem n<strong>os</strong>so apartamento, no meio <strong>de</strong> um jogo <strong>de</strong> pôquer, e havia uma jovem loira sentada ao lado<strong>de</strong>le, afagando-lhe a mão.Uma lágrima falsa brilhou na bochecha <strong>de</strong>le enquanto ele dizia: - Honestamente, sra. Walters,se não f<strong>os</strong>se aqui pela Fofinha, minha conselheira nas horas tristes, eu estaria um caco. Meuenteado levou tudo o que me era caro... Minha esp<strong>os</strong>a... meu Camaro... Eu..<strong>de</strong>sculpe. Sinto dificulda<strong>de</strong> em falar sobre isso.- Ai está, América. - Barbara Walters <strong>vol</strong>tou-se para a câmera. - Um homem <strong>de</strong>stroçado. Ummenino adolescente com séri<strong>os</strong> problemas. Deixem-me m<strong>os</strong>trar agora a última foto <strong>de</strong>sseproblemático jovem fugitivo, tirada há uma semana em Denver.A tela cortou para uma foto granulada em que eu, Annabeth e G r o v e r do lado <strong>de</strong> fora dorestaurante Colorado estávam<strong>os</strong> falando com Ares.- Quem são as outras crianças nesta foto? - perguntou Barbara Walters com dramaticida<strong>de</strong>. -Quem é o homem que está com elas? Percy Jackson é um <strong>de</strong>linquente, um terrorista ou umavítima da lavagem cerebral <strong>de</strong> uma nova e assustadora seita? Quando <strong>vol</strong>tarm<strong>os</strong>, vam<strong>os</strong> conversarcom uma renomada psicóloga infantil. Fique con<strong>os</strong>co, América.- Vam<strong>os</strong> - disseme Grover. Ele me arrastou para longe antes que eu abrisse um buraco na vitrineda loja <strong>de</strong> eletrodoméstic<strong>os</strong> com um murro.Anoiteceu, e personagens <strong>de</strong> aparência esfomeada começaram a sair para as ruas pararepresentar seus papéis. Não me entendam mal. Sou nova-iorqumo. Não me assusto facilmente.Mas estar em L<strong>os</strong> Angeles era bem diferente <strong>de</strong> estar em Nova York. On<strong>de</strong> eu morava tudo pareciaperto. Embora f<strong>os</strong>se uma gran<strong>de</strong> cida<strong>de</strong>, era p<strong>os</strong>sível se chegar a qualquer lugar sem se per<strong>de</strong>r. Opadrão das ruas e o metrô faziam sentido. Havia um critério <strong>de</strong> funcionamento das coisas. Des<strong>de</strong>que não f<strong>os</strong>se bobo, um garoto podia se sentir seguro lá.L<strong>os</strong> Angeles não era assim. Era espalhada, caótica, ficava difícil se loc omover. Fazia lembrarAres.Para L<strong>os</strong> Angeles, não bastava ser gran<strong>de</strong>; era preciso também provar-se gran<strong>de</strong> sendobarulhenta, estranha e difícil <strong>de</strong> navegar. Eu não sabia como iríam<strong>os</strong> encontrar a entrada para oMundo Inferior até o dia seguinte, o solstício <strong>de</strong> verão.Passam<strong>os</strong> por gangues, vagabund<strong>os</strong> e camelôs, que n<strong>os</strong> olhavam como se tentassem avaliar sen<strong>os</strong> atacar seria um bom negócio.Quando passam<strong>os</strong> apressad<strong>os</strong> pela entrada <strong>de</strong> um b e c o , u m a voz disse no escuro: - Eí, você.Como um idiota, parei.Antes que n<strong>os</strong> déssem<strong>os</strong> conta, estávam<strong>os</strong> cercad<strong>os</strong>, Uma gangue <strong>de</strong> garot<strong>os</strong> estava ao n<strong>os</strong>soredor.Seis ao todo - garot<strong>os</strong> branc<strong>os</strong> com roupas caras e expressão perversa. Como <strong>os</strong> garot<strong>os</strong> daAca<strong>de</strong>mia Yancy; moleques ric<strong>os</strong> brincando <strong>de</strong> ser malvad<strong>os</strong>.Por instinto, <strong>de</strong>stampei Contracorrente.Quando a espada apareceu do nada, eles recuaram, mas seu lí<strong>de</strong>r ou era muito estúpido ou muitovalente, porque continuou avançando em minha direção com um canivete <strong>de</strong> mola.


Cometi o erro <strong>de</strong> <strong>de</strong>sferir um golpe.O garoto <strong>de</strong>u um grito agudo. Mas ele <strong>de</strong>via ser cem por cento mortal, porque a lâmina passouinofensiva por seu peito. Ele olhou para baixo.- Mas que...Calculei que teria mais ou men<strong>os</strong> três segund<strong>os</strong> antes que o choque <strong>de</strong>le se transformasse emraiva.- Corram! - gritei para Annabeth e Grover.Empurram<strong>os</strong> dois <strong>de</strong>les para fora do caminho e dísparam<strong>os</strong> pela rua, sem saber aon<strong>de</strong>estávam<strong>os</strong> indo. Dobram<strong>os</strong> uma esquina numa curva bem fechada.- Ali! - gritou Annabeth.Somente uma loja do quarteirão parecia aberta, as vitrines brilhando em néon. O letreiro acimada porta dizia algo como LACIÁPO ADS MASCA Á’GDUS OS SCRATO.- Palácio das Camas d'Água do Cr<strong>os</strong>ta? - traduziu Grover.Não parecia o tipo <strong>de</strong> lugar on<strong>de</strong> eu entraria a não ser em uma emergência, mas sem dúvida eraessa a situação.Irrompem<strong>os</strong> pelas portas, correm<strong>os</strong> para trás <strong>de</strong> uma cama dágua e n<strong>os</strong> abaixam<strong>os</strong>. Uma fração<strong>de</strong> segundo <strong>de</strong>pois, a gangue <strong>de</strong> garot<strong>os</strong> passou correndo do lado <strong>de</strong> fora.- Acho que <strong>os</strong> <strong>de</strong>spistam<strong>os</strong> - ofegou Grover.Uma na voz atrás <strong>de</strong> nós retumbou: - Despistaram quem?N<strong>os</strong> três pulam<strong>os</strong>.Logo atrás, em pé, estava um cara que parecia um tiran<strong>os</strong>sauro em trajes <strong>de</strong> passeio. Tinha pelomen<strong>os</strong> dois metr<strong>os</strong> e tanto <strong>de</strong> al tu ra , completamente careca. A pele era cinzenta e curtida comocouro, olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> pálpebras gr<strong>os</strong>sas e sorriso frio, reptiliano. Aproximava-se lentamente, mas tive asensação <strong>de</strong> que po<strong>de</strong>ria se mover <strong>de</strong>pressa se precisasse.Seu traje parecia saído do Cassino Lótus. Era d<strong>os</strong> glori<strong>os</strong><strong>os</strong> an<strong>os</strong> 70. A camisa era <strong>de</strong> sedaestampada, <strong>de</strong>sabotoada até a meta<strong>de</strong> do peito sem pêl<strong>os</strong>. As lapelas do casaco <strong>de</strong> veludo eramlargas como pistas <strong>de</strong> pouso. Eram tantas correntes <strong>de</strong> prata no pescoço que nem consegui contar.- Eu sou o Cr<strong>os</strong>ta - disse com um sorriso amarelo <strong>de</strong> tanto tártaro.Resisti ao impulso <strong>de</strong> dizer, Sim, está na cara.- Desculpe a invasão - falei. - Estam<strong>os</strong> só, ahn, dando uma olhada.- Você quer dizer, se escon<strong>de</strong>ndo daqueles garot<strong>os</strong> mal-encarad<strong>os</strong> - resmungou ele. - Eles ficamvadiando por aqui todas as noites. Entra uma porção <strong>de</strong> gente na loja, graças a eles. Digam,querem ver uma cama d'água?Eu já ia dizer Não, obrigado quando ele pôs uma pata enorme no meu ombro e me empurroumais para <strong>de</strong>ntro do salão da loja.Havia tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> tip<strong>os</strong> <strong>de</strong> camas d'água que você p<strong>os</strong>sa imaginar: diferentes tip<strong>os</strong> <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira,lençóis <strong>de</strong> padronagem variadas; queen-size, king-size, gigantescas.- Este é meu mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> maior sucesso. - Cr<strong>os</strong>ta passou as mã<strong>os</strong> orgulh<strong>os</strong>amente sobre umacama coberta com cetim preto, com lâmpadas <strong>de</strong> lava embutidas na cabeceira. O colchão vibrava,e a coisa ficava parecendo gelatina <strong>de</strong> p e t r ó l e o .- Massagem <strong>de</strong> um milhão mã<strong>os</strong> - disse Cr<strong>os</strong>ta. - Vão em frente, experimentem. Tirem umasoneca, man<strong>de</strong>m ver. Eu não importo. Tem pouco movimento hoje.- Ahn - falei. - Não acho que...


- Massagem <strong>de</strong> urn milhão <strong>de</strong> mã<strong>os</strong>! - exclamou Grover, e mergulhou na cama. - Ah, gente! Issoé legal.- Hummm - disse Cr<strong>os</strong>ta, coçando o seu queixo <strong>de</strong> couro. - Quase, quase.- Quase o quê? - perguntei.Ele olhou para Annabeth.- Faça-me um favor e experimente aquela lá, meu bem. Po<strong>de</strong> servir.Annabeth disse:- Mas o que...Ele lhe <strong>de</strong>u algumas palmadinhas tranqüilizadoras no ombro e a levou para o mo<strong>de</strong>lo SafáriDeluxe, com leões <strong>de</strong> teca entalhad<strong>os</strong> na armação e um acolchoado <strong>de</strong> leopardo. Como Annabethnão quis <strong>de</strong>itar, Cr<strong>os</strong>ta a empurrou.- Ei! - protestou ela.Cr<strong>os</strong>ta estalou do <strong>de</strong>d<strong>os</strong>.- Ergo!Cordas pularam das laterais da cama e en<strong>vol</strong>veram Annabeth como chicotes, pren<strong>de</strong>ndo-a aocolchão.Grover tentou se levantar, mas cordas pularam também <strong>de</strong> sua cama <strong>de</strong> cetim preto, e opren<strong>de</strong>ram.- N-não é l-l-legal! - gritou ele, a voz vibrando com a massagem <strong>de</strong> um milhão <strong>de</strong> mã<strong>os</strong>. - N-nnadal-l-legal!O gigante olhou para Annabeth, <strong>vol</strong>tou-se para mim e arreganhou um sorriso.- Quase. Droga.T e n t e i me afastar, mas a mão <strong>de</strong>le se arremessou e me agarrou pela nuca.- Opa, garoto. Não se preocupe. Vam<strong>os</strong> achar uma para você em um segundo.- Solte meus amig<strong>os</strong>.- Ah, certamente, eu vou. Mas vou ter <strong>de</strong> ajustá-l<strong>os</strong> primeiro.- O que quer dizer?- Todas as camas têm exatamente um metro e oitenta, sabia? Seus amig<strong>os</strong> são baixinh<strong>os</strong><strong>de</strong>mais.Tenho <strong>de</strong> ajustá-l<strong>os</strong> para servir nas camas.Annabeth e Grover continuaram se <strong>de</strong>batendo.- Não tolero medidas imperfeitas - resmungou Cr<strong>os</strong>ta. – Ergo!Um novo conjunto <strong>de</strong> cordas pulou d<strong>os</strong> pés e da cabeceira da cama, enrolando-se n<strong>os</strong> tornozel<strong>os</strong>e axilas <strong>de</strong> Grover e Annabeth. As cordas começaram a se esticar, puxando meus amig<strong>os</strong> pelasduas extremida<strong>de</strong>s.- Não se preocupe - disse Cr<strong>os</strong>ta para mim. - É um servicinho <strong>de</strong> estiramento. Talvez uns oitocentímetr<strong>os</strong> a mais nas colunas <strong>de</strong>les. Po<strong>de</strong>m até sobreviver. Agora, por que n ã o a c h a m o s u ma cama <strong>de</strong> que você g<strong>os</strong>te, heim?- Percy! - gritou Grover.Minha cabeça estava a mil. Sabia que não conseguiria dominar sozinho aquele gigante ven<strong>de</strong>dor<strong>de</strong> camas d'água. Ele quebraria meu pescoço antes mesmo que eu pegasse a espada.- Seu nome <strong>de</strong> verda<strong>de</strong> não é Cr<strong>os</strong>ta, é? - p e r g u n t e i .- Na certidão é Procrusto - admitiu ele.- O Esticador.Lembrei-me da história: o gigante que tentara matar Teseu excesso <strong>de</strong> h<strong>os</strong>pitalida<strong>de</strong> a caminho


<strong>de</strong> Atenas.- Sim - disse o ven<strong>de</strong>dor. - Mas quem é capaz <strong>de</strong> pronunciar Procrusto? É ruim para <strong>os</strong>negóci<strong>os</strong>.Agora, "Cr<strong>os</strong>ta' um po<strong>de</strong> dizer.- Tem razão. Soa muito bem. Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong>le se iluminaram.- Acha mesmo?- Ah, sem dúvida - disse eu. - E o acabamento <strong>de</strong>ssas camas? Fabul<strong>os</strong>o!Ele abriu um enorme sorriso, mas <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong> não a f r o u x a r a m em meu pescoço.- Digo isso a<strong>os</strong> meus fregueses. Sempre. Ninguém se preocupa em examinar o acabamento.Quantas lâmpadas <strong>de</strong> lava embutidas você já viu?- Não muitas.- Claro!- Percy! - gritou Annabeth. - O que está fazendo?- Não ligue para ela - disse eu a Procrusto. - E l a i m p<strong>os</strong>sível.O gigante riu.- Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> meus fregueses são. Nunca têm um metro e oitenta exato. M u i t o <strong>de</strong>satenci<strong>os</strong>o. E<strong>de</strong>pois se queixam do ajuste.- O que você faz quando eles têm mais <strong>de</strong> um metro e oitenta?- Ora, isso acontece sempre. É um ajuste simples.Ele soltou meu pescoço, mas antes que eu pu<strong>de</strong>sse reagir esticou o braço para trás <strong>de</strong> um balcãopróximo e <strong>de</strong> lá tirou um enorme machado <strong>de</strong> bronze com lâmina dupla. Ele disse: - É sócentralizar o freguês o melhor p<strong>os</strong>sível e aparar o que estiver sobrando nas duas extremida<strong>de</strong>s.- Ah - falei, engolindo em seco. - Sensato.- Estou tão satisfeito em cruzar com um freguês inteligente!Agora as cordas estavam realmente esticando meus amig<strong>os</strong>. Annabeth estava ficando pálida.Grover fazia sons gorgolejantes, como um ganso estrangulado.- Então, Cr<strong>os</strong>ta... - falei, tentando manter a voz <strong>de</strong>spreocupada. Olhei <strong>de</strong> relance para a camaLua-<strong>de</strong>-Mel Especial, em forma <strong>de</strong> coração. - Esta aqui tem mesmo estabilizadores dinâmic<strong>os</strong>para compensar o movimento ondulatório?- É claro. Experimente.Sim, talvez eu experimente. Mas funcionaria também para um cara gran<strong>de</strong> como você? Semnenhuma ondulação?- Garantido.- Não acredito.- Po<strong>de</strong> acreditar.- M<strong>os</strong>tre.Ele sentou com vonta<strong>de</strong> na cama e <strong>de</strong>u uma palmadmha no colchão.- Nenhuma ondulação. Viu?Estalei <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>.- Ergo!As cordas saltaram em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> Cr<strong>os</strong>ta e o achataram no colchão.- Ei! - gritou ele.- Centralizar bem - falei.As cordas se reajustaram ao meu comando. A cabeça inteira <strong>de</strong> Cr<strong>os</strong>ta ficou para fora da


cabeceira.Os pés ficaram para fora na outra ponta.- Não! - disse ele. - Espere! E só uma <strong>de</strong>monstração.Destampei Contracorrente.- Alguns ajustezinh<strong>os</strong>...Não tive nenhum escrúpulo quanto ao que estava prestes a fazer. Se Cr<strong>os</strong>ta não f<strong>os</strong>se humano,eu, <strong>de</strong> qualquer j e i t o , n ã o p o <strong>de</strong>ria feri-lo. Se f<strong>os</strong>se um monstro, merecia ser transformado empó por algum tempo.- Você negocia duro - disseme ele. - Dou-lhe trinta por cento <strong>de</strong> <strong>de</strong>sconto n<strong>os</strong> mo<strong>de</strong>l<strong>os</strong> emexp<strong>os</strong>ição!


- Acho que vou começar com a parte <strong>de</strong> cima. - Ergui a espada.- Sem entrada! Financiamento em seis meses sem jur<strong>os</strong>!Desci a espada. Cr<strong>os</strong>ta parou <strong>de</strong> fazer ofertas.Cortei as cordas nas outras camas. Annabeth e Grover puseram-se em pé, gemendo e seencolhendo e me xingando m u i t o .- Vocês parecem mais alt<strong>os</strong> - falei.- Muito engraçado - disse Annabeth. - Da próxima vez seja mais rápido.Olhei para o quadro <strong>de</strong> avis<strong>os</strong> atrás do balcão <strong>de</strong> Cr<strong>os</strong>ta. Havia uma propaganda do Serviço <strong>de</strong>Entregas Hermes e outra do Guia Completo d<strong>os</strong> Monstr<strong>os</strong> na Área <strong>de</strong> L<strong>os</strong> Angeles - "As únicasPáginas Amarelas Monstru<strong>os</strong>as <strong>de</strong> que você vai precisar!". Embaixo daquilo, um panfleto emlaranja vivo d<strong>os</strong> Estúdi<strong>os</strong> <strong>de</strong> Gravação M.A.C. oferecendo comissões por almas <strong>de</strong> heróis."Estam<strong>os</strong> sempre a procura <strong>de</strong> <strong>de</strong> nov<strong>os</strong> talent<strong>os</strong>!" O en<strong>de</strong>reço estava logo abaixo, com um mapa.- Vam<strong>os</strong> - disse a meus amig<strong>os</strong>.- Espere só um minuto - queixou-se Grover. - Fom<strong>os</strong> praticamente esticad<strong>os</strong> até a morte!- E n t ã o estão preparad<strong>os</strong> para o Mundo Inferior - falei. - Fica apenas uma quadra daqui.DEZOITO – Annabeth usa a aula <strong>de</strong> a<strong>de</strong>stramento.Estávam<strong>os</strong> nas sombras da Valência Boulevard, olhando para as letras douradas gravadas nomármore negro: ESTÚDIOS DE GRAVAÇÃO M.A.C.Embaixo, impresso nas portas <strong>de</strong> vidro, PROIBIDA A ENTRADA DE ADVOGADOS,VAGABUNDOS EVIVENTES.Já era quase meia-noite, mas o saguão estava iluminado e cheio <strong>de</strong> gente. Atrás do balcão dasegurança estava sentado um guarda <strong>de</strong> aparência agressiva, com ócul<strong>os</strong> escur<strong>os</strong> e um fone <strong>de</strong>ouvid<strong>os</strong>.Virei-me para meus amig<strong>os</strong>.- Certo. Vocês se lembram do plano.- O plano - Grover engoliu seco. - Isso. Adoro o plano.Annabeth disse:- O que vai acontecer se o plano não funcionar?- Sem pensament<strong>os</strong> negativ<strong>os</strong>.- Certo - disse ela. - Estam<strong>os</strong> entrando na Terra d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong> e eu não <strong>de</strong>vo ter pensament<strong>os</strong>negativ<strong>os</strong>.Tirei as pérolas do bolso, as três esferas cor <strong>de</strong> leite que a nereida me <strong>de</strong>ra em Santa Monica.Elas não pareciam un recurso para o caso <strong>de</strong> algo dar errado.Annabeth pôs a mão em meu ombro.- Desculpe, Percy. Você tem razão, vam<strong>os</strong> conseguir. Vai dar tudo certo.Ela <strong>de</strong>u uma cutucada em Grover.- Ah, está certo! - concordou ele. - Chegam<strong>os</strong> a t e a q u i . V a m o s encontrar o raio-mestre esalvar sua mãe. Sem problemas.OIhei para <strong>os</strong> dois e me senti realmente grato. Alguns minut<strong>os</strong> antes, eu quase <strong>os</strong> tinha feito seresticad<strong>os</strong> até a morte em camas d’água <strong>de</strong> luxo, e agora eles tentavam bancar <strong>os</strong> coraj<strong>os</strong><strong>os</strong> porminha causa, tentavam fazer com que me sentisse melhor.


Enfiei as pérolas <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta no bolso.- Vam<strong>os</strong> chutar alguns traseir<strong>os</strong> no Mundo Inferior.Entram<strong>os</strong> no saguão do M.A.C.Alto-falantes embutid<strong>os</strong> tocavam uma música ambiente suave. O carpete e as pare<strong>de</strong>s eramcinza-chumbo. Cact<strong>os</strong> cresciam n<strong>os</strong> cant<strong>os</strong> como mã<strong>os</strong> <strong>de</strong> esquelet<strong>os</strong>. Os móveis eram <strong>de</strong> couropreto, e tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> assent<strong>os</strong> estavam ocupad<strong>os</strong>. Havia gente sentada em sofás, gente em pé, genteolhando pela janela ou aguardando o elevador. Ninguém se mexia, nem falava, não faziam nada.Com o canto do olho, eu podia vê-l<strong>os</strong> muito bem, mas, se me concentrasse em qualquer um emparticular, eles começavam a parecer... transparentes. Dava para ver através d<strong>os</strong> seus corp<strong>os</strong>.O balcão da segurança ficava em cima <strong>de</strong> um <strong>de</strong>grau, portanto tínham<strong>os</strong> <strong>de</strong> olhar para o altopara falar com o guarda.Ele era alto e elegante, com pele na cor <strong>de</strong> chocolate e cabelo tingido <strong>de</strong> loiro, cortado em estilomilitar.Usava armação <strong>de</strong> tartaruga e um terno <strong>de</strong> seda italiano que combinava com o cabelo. Uma r<strong>os</strong>anegra estava presa à lapela, embaixo <strong>de</strong> um crachá <strong>de</strong> prata.L i o nome no crachá e olhei para ele perplexo.- Seu nome é Quíron?Ele se inclinou por cima da mesa. Não consegui ver nada em seus ócul<strong>os</strong> exceto meu próprioreflexo, mas seu sorriso era doce e frio, como o <strong>de</strong> uma jibóia exatamente antes <strong>de</strong> <strong>de</strong>vorar você.- Que rapaz mais engraçadinho. - Ele tinha um sotaque estranho... inglês, talvez, mas como setivesse aprendido inglês como segunda língua. - Diga-me, parceiro, eu pareço um centauro?- N-não.- Senhor - acrescentou ele suavemente.- Senhor - falei.Ele segurou o crachá e correu o <strong>de</strong>do embaixo das letras.- Consegue ler isto, parceiro? Aqui diz C-A-R-O-N-T-E. Diga comigo: CA-RON-TE.- Caronte.- Fantástico! Agora: senhor Caronte.- Senhor Caronte - disse eu.- Muito bem. - Ele se rec<strong>os</strong>tou. - Detesto ser confundido com aquele homem-cavalo. E agora,como p<strong>os</strong>so ajudá-l<strong>os</strong>, pequen<strong>os</strong> <strong>de</strong>funt<strong>os</strong>?A pergunta <strong>de</strong>le me acertou o estômago como uma bola <strong>de</strong> beisebol. Olhei para Annabeth embusca <strong>de</strong> ajuda.- Querem<strong>os</strong> ir para o Mundo Inferior - disse ela.A boca <strong>de</strong> Caronte repuxou-se.- Bem, isso é revigorante.- É mesmo? - perguntou ela.- Direto e honesto. Sem grit<strong>os</strong>. Sem "Deve haver algum engano, sr. Caronte". - Ele n<strong>os</strong> olhou <strong>de</strong>cima a baixo. - Então, como vocês morreram?Cutuquei Grover.- Ah - disse ele. - Ahn... afogad<strong>os</strong>... na banheira.- Os três? - perguntou Caronte.Nós assentim<strong>os</strong>.- Que banheira gran<strong>de</strong>. - Caronte pareceu levemente impressionado. - Suponho que vocês não


têm moedas para passagem. Com adult<strong>os</strong>, vocês sabem, eu po<strong>de</strong>ria <strong>de</strong>bitar no cartão <strong>de</strong> crédito, ouacrescentar o preço da travessia na sua última conta <strong>de</strong> telefone. Mas com crianças... infelizmente,vocês nunca morrem preparadas. Acho que terão <strong>de</strong> ficar sentad<strong>os</strong> por alguns sécul<strong>os</strong>.- Ah, mas nós tem<strong>os</strong> moedas. - Pus três dracmas <strong>de</strong> ouro sobre o balcão, parte da provisão queeu encontrara na mesa do escritório <strong>de</strong> Cr<strong>os</strong>ta.- Ora vejam... - Caronte ume<strong>de</strong>ceu <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>. - Dracmas <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>. Não vejo uma <strong>de</strong>ssas faz...Seus <strong>de</strong>d<strong>os</strong> pairaram avidamente sobre as moedas.Estávam<strong>os</strong> muito perto.Então Caronte me olhou. O olhar frio atrás d<strong>os</strong> ócul<strong>os</strong> pareceu abrir um buraco em meu peito.- Mas você não conseguiu ler meu nome direito. Você é disléxico, rapaz?- Não. Sou um morto.Caronte inclinou-se para a frente e <strong>de</strong>u uma cheirada.- Você não está morto. Eu <strong>de</strong>via saber. É um filhote <strong>de</strong> <strong>de</strong>us.- Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> chegar ao Mundo Inferior - insisti.Caronte r<strong>os</strong>nou no fundo da garganta.No mesmo instante, todas as pessoas na sala <strong>de</strong> espera se levantaram e começaram a andar <strong>de</strong>um lado para outro, agitadas, a c e n d e n d o cigarr<strong>os</strong>, passando as mã<strong>os</strong> pel<strong>os</strong> cabel<strong>os</strong> ou olhandopara <strong>os</strong> relógi<strong>os</strong> <strong>de</strong> pulso.- Vão embora enquanto po<strong>de</strong>m - disse-n<strong>os</strong> Caronte. - V o u f i c a r com estas moedas e esquecerque <strong>os</strong> vi.Ele começou a esticar a mão para as moedas, mas eu as puxei <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.- Sem serviço, sem gorjeta. -Tentei parecer mais valente do que me sentia.Caronte r<strong>os</strong>nou <strong>de</strong> novo — um som profundo, <strong>de</strong> gelar sangue. Os espírit<strong>os</strong> d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>começaram a bater nas p o r t a s d o elevador.- É uma pena - suspirei. -Tínham<strong>os</strong> mais para o f e r e c e r .Ergui a sacola inteira com o tesouro <strong>de</strong> Cr<strong>os</strong>ta. Tirei um punhado <strong>de</strong> dracmas e <strong>de</strong>ixei asmoedas escorregarem entre <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>.O r<strong>os</strong>nado <strong>de</strong> Caronte se transformou em algo mais parecido com um ronronar <strong>de</strong> leão.- Acha que po<strong>de</strong> me comprar, filhote <strong>de</strong> <strong>de</strong>us? Ahn... curi<strong>os</strong>ida<strong>de</strong>, quanto você tem aí?- Muito - falei. - Ap<strong>os</strong>to que Ha<strong>de</strong>s não lhe paga o bastante por um trabalho tão duro.- Ah, você não sabe nem da meta<strong>de</strong>. Iria g<strong>os</strong>tar <strong>de</strong> ser babá <strong>de</strong>sses espírit<strong>os</strong> o dia inteiro?Sempre com "Por favor, não me <strong>de</strong>ixe ficar morto" ou "Por favor, <strong>de</strong>ixe-me atravessar <strong>de</strong> graçaǁ.Não tenho um aumento há três mil an<strong>os</strong>. Acha que tern<strong>os</strong> como este custam barato?- Você merece coisa melhor - concor<strong>de</strong>i. - Algum reconhecimento. Respeito. Bom salário.A cada palavra, eu empilhava outra moeda <strong>de</strong> ouro no balcão.Caronte baixou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para o paletó <strong>de</strong> seda italiana, como se estivesse se imaginando comalgo ainda melhor.- Devo dizer, rapaz, que a gente está começando a falar a mesma língua. Um pouco.Empilhei mais algumas moedas.- Eu po<strong>de</strong>ria mencionar um aumento <strong>de</strong> salário quando estiver falando com Ha<strong>de</strong>s.Ele suspirou.- Bem, o barco já está quase cheio. Po<strong>de</strong>ria muito bem encaixar vocês três e zarpar.Ele se pôs <strong>de</strong> pé, pegou n<strong>os</strong>so dinheiro e disse: - Venham comigo.Abrim<strong>os</strong> caminho entre a multidão <strong>de</strong> espírit<strong>os</strong> que aguardavam, <strong>os</strong> quais começaram a puxar


n<strong>os</strong>sas roupas como o vento, ds vozes sussurrando coisas que eu não podia distinguir. Caronteempurrou-<strong>os</strong> do caminho, resmungando: - Parasitas.Ele n<strong>os</strong> escoltou até o elevador, que já estava apinhado <strong>de</strong> algumas d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>, tod<strong>os</strong> segurandoum cartão <strong>de</strong> embarque ver<strong>de</strong>. Caronte agarrou dois espírit<strong>os</strong> que tentavam entrar con<strong>os</strong>co e <strong>os</strong>empurrou <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para o saguão.- Muito bem. Agora, ninguém comece a ter idéias enquanto eu estiver fora - anunciou ele para asala <strong>de</strong> espera. - E se alguém tirar minha estação <strong>de</strong> música <strong>de</strong> sintonia novamente, farei vocêsficarem aqui por outro milénio. Entendido?Ele fechou as portas. Enfiou um cartão-chave em uma fenda no painel do elevador ecomeçam<strong>os</strong> a <strong>de</strong>scer.- O que acontece com <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> que ficam esperando no saguão? - perguntou Annabeth.- Nada - disse Caronte.- Por quanto tempo?- Para sempre, ou até eu me sentir gener<strong>os</strong>o.- Ah - disse ela. - Isso é... justo.Caronte ergueu uma sobrancelha.- Quem disse que a morte era justa, mocinha? Espere até chegar a sua vez. Você vai morrer empouco tempo, no lugar está indo.- Vam<strong>os</strong> sair viv<strong>os</strong> - falei.- Ah.Tive <strong>de</strong> repente uma sensação <strong>de</strong> vertigem. Não estávam<strong>os</strong> mais indo para baixo, mas para afrente. Oar ficou enev oado. Os espírit<strong>os</strong> à minha <strong>vol</strong>ta começaram a mudar <strong>de</strong> forma. Suas roupasmo<strong>de</strong>rnas tremiam e se transformavam em mant<strong>os</strong> cinzent<strong>os</strong> com capuz. O piso do elevadorcomeçou a <strong>os</strong>cilar.Pisquei com força. Quando abri <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, o terno creme italiano <strong>de</strong> Caronte fora substituído porum longo manto n e g r o . S e u s ócul<strong>os</strong> <strong>de</strong> tartaruga haviam <strong>de</strong>saparecido. On<strong>de</strong> <strong>de</strong>viam es tar <strong>os</strong>olh<strong>os</strong> havia órbitas vazias - como <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ares, só que <strong>os</strong> <strong>de</strong> Caronte eram totalmente escur<strong>os</strong>,replet<strong>os</strong> <strong>de</strong> noite, trevas e <strong>de</strong>sespero.Ele me viu olhando e disse:- O quê?- Nada - consegui dizer.Achei que ele estivesse sorrindo, mas não era isso. A pele <strong>de</strong> seu r<strong>os</strong>to estava ficandotransparente, <strong>de</strong>ixando que eu visse até o crânio.O chão continuou <strong>os</strong>cilando.Grover disse:- Acho que estou ficando enjoado.Quando pisquei <strong>de</strong> novo, o elevador não era mais um elevador. Estávam<strong>os</strong> <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> umabarcaça <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira. Caronte usava uma vara para n<strong>os</strong> mover ao longo <strong>de</strong> um rio escuro, cheio <strong>de</strong>óleo, com <strong>os</strong>s<strong>os</strong>, peixes mort<strong>os</strong> e outras coisas estranhas girando na superfície... bonecas <strong>de</strong>plástico, crav<strong>os</strong> esmagad<strong>os</strong>, diplomas encharcad<strong>os</strong> com bordas douradas.- O rio Styx - murmurou Annabeth. - É tão...- Poluído - disse Caronte. - Há milhares <strong>de</strong> an<strong>os</strong> v o c ê s , seres human<strong>os</strong>, quando o atravessam,jogam tudo nele... esperanças, sonh<strong>os</strong>, <strong>de</strong>sej<strong>os</strong> que jamais se tornam realida<strong>de</strong>. Um modo


irresponsável <strong>de</strong> tratar seu lixo, se querem saber.A névoa subia em espirais da água imunda. Acima <strong>de</strong> nós, quase perdido nas sombras, havia umteto <strong>de</strong> estalactites. A frente, a c<strong>os</strong>ta distante brilhava com uma luz esver<strong>de</strong>ada, a cor do veneno.O pânico obstruiu minha garganta. O que eu estava fazendo ali? Aquelas pessoas ao meu redor...estavam mortas.Annabeth agarrou minha mão. Em circunstâncias normais, isso teria me embaraçado, masentendi como ela se sentia. Queria se assegurar <strong>de</strong> que mais alguém estava vivo naquele barco.Percebi que eu murmurava uma oração, embora não soubesse bem para quem estava rezando.Ali embaixo só um <strong>de</strong>us importava, e era ele que eu fora confrontar.A praia do Mundo Inferior surgiu à vista. Rochas escarpadas e areia vulcânica negra seestendiam terra a<strong>de</strong>ntro por cerca <strong>de</strong> cem metr<strong>os</strong> até um muro alto <strong>de</strong> pedra, que se prolongavapara <strong>os</strong> lad<strong>os</strong> até on<strong>de</strong> a vista podia alcançar. De algum lugar por perto nas sombras ver<strong>de</strong>s, veioum som, reverberando nas pedras - o uivo <strong>de</strong> um gran<strong>de</strong> animal.- O velho Três-Caras está com fome - disse Caronte. Seu sorriso se tornou esquelético à luzesver<strong>de</strong>ada. -Má sorte para vocês, filhotes <strong>de</strong> <strong>de</strong>uses.O fundo do n<strong>os</strong>so barco <strong>de</strong>slizou sobre a areia preta. Os mort<strong>os</strong> começaram a <strong>de</strong>sembarcar. Umamulher segurando a mão <strong>de</strong> uma menininha. Um casal <strong>de</strong> id<strong>os</strong><strong>os</strong> capengando lentamente, <strong>de</strong>braç<strong>os</strong>. Um menino que não era mais velho que eu arrastava <strong>os</strong> pés em silêncio em seu mantocinzento.Caronte disse:- Eu lhe <strong>de</strong>sejaria sorte, parceiro, mas isso não existe por aqui. Lembre-se, não <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong>mencionar meu aumento <strong>de</strong> salário.Ele contou n<strong>os</strong>sas moedas <strong>de</strong> ouro em sua bolsa, <strong>de</strong>pois a vara. Gorjeou algo que parecia umacanção <strong>de</strong> Barry Manilow enquanto empurrava a barcaça <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta através do rio.Seguim<strong>os</strong> <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> por um caminho já muito percorrido.*****Não sei muito bem o que estava esperando - <strong>os</strong> Portões do Céu, uma ponte levadiça gran<strong>de</strong> eescura ou coisa assim. Mas a entrada para o Mundo Inferior parecia uma mistura <strong>de</strong> segurança <strong>de</strong>aeroporto com a auto-estrada <strong>de</strong> New Jersey.Havia três entradas separadas embaixo <strong>de</strong> um enorme arco negro que dizia VOCÊ ESTÁENTRANDOEM ÉREBO. Em cada entrada havia um <strong>de</strong>tector <strong>de</strong> metais com câmeras <strong>de</strong> segurançainstaladas no alto. Depois disso, havia cabines <strong>de</strong> pedágio operadas por ghouls como Caronte.Os uiv<strong>os</strong> <strong>de</strong> animal faminto eram agora muito alt<strong>os</strong>, mas eu não conseguia ver <strong>de</strong> on<strong>de</strong> vinham.O cão <strong>de</strong> três cabeças, Cérbero, que <strong>de</strong>veria guardar a porta do Ha<strong>de</strong>s, não estava em lugarnenhum.Os mort<strong>os</strong> formaram três filas, duas i<strong>de</strong>ntificadas como ATENDENTE DE SERVIÇO e umacomo MORTE ESPRESSA. A fila MORTE EXPRESSA estava avançando sem parar. As outrasduas se arrastavam.- O que você imagina? - perguntei a Annabeth.- A fila rápida <strong>de</strong>ve ir diretamente para <strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong> - disse ela. - Sem contestação.Eles não querem se arriscar ao julgamento do tribunal, porque po<strong>de</strong> ir contra eles.- Existe um tribunal para gente mo rt a?- Sim. Três juizes. Eles se revezam na n a m a g i s t r a t u r a . O rei Min<strong>os</strong>, Thomas Jefferson,


Shakespeare... pessoas assim. Às vezes olham para uma vida e concluem que aquela pessoaprecisa <strong>de</strong> uma recompensa especial: <strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> Elísi<strong>os</strong>. Às vezes <strong>de</strong>ci<strong>de</strong>m por um castigo. Mas amaioria das pessoas, bem, elas apenas viveram. Nada <strong>de</strong> especial, nem bom nem mau. Então vãopara <strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>.- E fazem o quê? Grover disse:- Imagine-se em um campo <strong>de</strong> trigo no Kansas. Para sempre.- Dureza - disse eu.- Não tanto quanto aquilo - murmurou Grover. - Olhe.Uma dupla <strong>de</strong> ghouls <strong>de</strong> mant<strong>os</strong> negr<strong>os</strong> havia puxado um espírito para o lado e o estavarevistando junto à mesa da segurança. O r<strong>os</strong>to do morto parecia vagamente familiar.- Ele é o pregador que saiu no noticiário, está lembrado? - perguntou Grover.- Ah, sim - eu lembrava. Nós o tínham<strong>os</strong> visto na tevê uma ou duas vezes no dormitório daAca<strong>de</strong>mia Yancy. Era um tele-evangelista chato do norte do estado <strong>de</strong> Nova York que arrecadaramilhões <strong>de</strong> dólares para orfanat<strong>os</strong> e <strong>de</strong>pois foi pego gastando o dinheiro em artig<strong>os</strong> para a suamansão, como assent<strong>os</strong> <strong>de</strong> privada folead<strong>os</strong> a ouro e um campo <strong>de</strong> mmigolfe. Morrera numaperseguição da polícia quando seu "Lamborghini abençoado" <strong>de</strong>spencou <strong>de</strong> um penhasco.- O que estão fazendo com ele? - perguntei.O castigo especial <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s - adivinhou Grover. - As pess oas realmente más recebem atençãoparticular <strong>de</strong>le q u a n d o chegam. As Fúr... as Bene<strong>vol</strong>entes vão preparar uma tortura para ele.Pensar nas Fúrias me fez estremecer. Percebi que naquele M O mento estava no território <strong>de</strong>las.A velha sra. DodJds <strong>de</strong>via estar lambendo <strong>os</strong> beiç<strong>os</strong> <strong>de</strong> expectativa.- Mas se ele é um pregador - falei -, e acredita em um inferno diferente...Grover encolheu <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.- Quem disse que ele está vendo este lugar do mesmo modo que nós? Os seres human<strong>os</strong> vêem oque querem ver. Vocês são muito teim<strong>os</strong><strong>os</strong>... ahn, persistentes, nisso.Chegam<strong>os</strong> mais perto d<strong>os</strong> portões. Os uiv<strong>os</strong> ali eram tão alt<strong>os</strong> que sacudiam o chão embaixo <strong>de</strong>meus pés, mas ainda assim eu não conseguia perceber <strong>de</strong> on<strong>de</strong> vinham.Então, cerca <strong>de</strong> quinze metr<strong>os</strong> à n<strong>os</strong>sa frente, a n é v o a v e r d e tremulou. Exatamente no lugaron<strong>de</strong> o caminho se dividia em três estava um monstro enorme e indistinto.Eu não o tinha visto antes porque ele era meio transparente, como <strong>os</strong> mort<strong>os</strong>. Até se mexer, suaimagem se fundia com o quer que estivesse atrás <strong>de</strong>le. Somente <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> e <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes pareciamsólid<strong>os</strong>. Ele estava me encarando.Meu queixo caiu. Tudo o que pu<strong>de</strong> pensar em dizer foi: - É um rottweiler.Sempre imaginara Cérbero como um gran<strong>de</strong> mastim preto. Mas ele era obviamente umrottweiler <strong>de</strong> raça pura, a não ser, é claro, por ter duas vezes o tamanho <strong>de</strong> um mamute, ser quaseinvisível e ter três cabeças.Os mort<strong>os</strong> andavam na direção <strong>de</strong>le - sem nenhum medo. As filas das placas ATENDENTE EMSERVIÇO se separavam, cada uma para um lado do monstro. Os espírit<strong>os</strong> <strong>de</strong> MORTEEXPRESSA caminhavam direto por entre as patas da frente e por baixo da barriga, o que podiamfazer sem sequer se abaixar.Estou começando a vê-lo melhor - murmurei. - Por que será?- Acho... - Annabeth ume<strong>de</strong>ceu <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>. - Sinto muito, mas acho que é porque estam<strong>os</strong> maisperto <strong>de</strong> ser pessoas mortas.A cabeça do meio do cão se esticou em n<strong>os</strong>sa direção. Ele farejou o ar e r<strong>os</strong>nou.


- Ele consegue farejar <strong>os</strong> viv<strong>os</strong> - falei.- Mas está tudo bem - disse Grover, trémulo ao meu lado. Porque tem<strong>os</strong> um plano.- Certo - disse Annabeth. Nunca tinha ouvido a voz <strong>de</strong>la soar tão baixa. - Um plano.Avançam<strong>os</strong> na direção do monstro.A cabeça do meio r<strong>os</strong>nou para nós, <strong>de</strong>pois latiu tão alto que minhas pupilas chacoalharam.- Você consegue enten<strong>de</strong>r? - perguntei a Grover.- Ah, sim - disse ele. - Eu consigo enten<strong>de</strong>r.- O que ele está dizendo?- Não acredito que <strong>os</strong> seres human<strong>os</strong> p<strong>os</strong>suam um palavrão tão gran<strong>de</strong> assim.Peguei um pedaço <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira que tinha na mochila - um pé d e cama que eu tinha arrancado <strong>de</strong>um mo<strong>de</strong>lo em exp<strong>os</strong>ição <strong>de</strong> Cr<strong>os</strong>ta, a Safári Deluxe. Segurei-o no alto e tentei canalizarpensament<strong>os</strong> canin<strong>os</strong> felizes para o Cérbero - comerciais <strong>de</strong> ração, cães engraçadinh<strong>os</strong>, p<strong>os</strong>tes.Tentei sorrir, como se não estivesse prestes a morrer.- Ei, garotão - gritei. - Ap<strong>os</strong>to que eles não brincam muito com você aqui."GRRRRRRRRRAU"- Bom menino - falei, fraquejando.Acenei o bastão. A cabeça do meio do cão acompanhou o movimento. As outras duas fixaram<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> em m i m , i g n o r a n d o completamente <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong>. Eu tinha toda a atenção <strong>de</strong>Cérbero. Não sabia muito bem se isso era bom.- Vá buscar! - atirei o bastão para as sombras, um lançamento perfeito. Ouvi o tíbum! no noStyx.Cérbero me olhou, feroz, nada impressionado. Os o l h o s e r a m chei<strong>os</strong> <strong>de</strong> ódio e fri<strong>os</strong>.Fim do plano.O monstro agora produzia um novo tipo <strong>de</strong> r<strong>os</strong>nado, mais profundo nas suas três gargantas.- Ahn - disse Grover. - Percy?- Sim?- Apenas achei que você g<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> saber.- Sim?- Cérbero... Ele está dizendo que tem<strong>os</strong> <strong>de</strong>z segundo rezar para o <strong>de</strong>us que escolherm<strong>os</strong>. Depoisdisso...bem... ele está com fome.- Espere! - disse Annabeth. Ela começou a revirar sua mochila.Epa, pensei.- Cinco segund<strong>os</strong> - disse Grover. - Correm<strong>os</strong> agora?Annabeth surgiu com uma bola <strong>de</strong> borracha vermelha do tamanho <strong>de</strong> uma grapefruit. A etiquetadizia PARQUE AQUÁTICO AQUALÂNDIA – DENVER, COLORADO. Antes que eu pu<strong>de</strong>sseimpedi-a, ergueu a bola e marchou na direção <strong>de</strong> Cérbero.Ela gritou:- Está vendo a bola? Quer a bola, Cérbero? Senta!Cérbero parecia tão perplexo quanto nós.As três cabeças se inclinaram <strong>de</strong> lado. Seis narinas se dilataram.- Senta! - gritou Annabeth outra vez.Eu tinha certeza <strong>de</strong> que a qualquer momento ela se trans formaria no maior biscoito paracachorro do mundo.


Em vez disso, porém, Cérbero lambeu seus três pares <strong>de</strong> lábi<strong>os</strong>, sacudiu o traseiro e sentou,esmagando imediatamente uma dúzia <strong>de</strong> espírit<strong>os</strong> que passavam por baixo <strong>de</strong>le na fila MORTEEXPRESSA. Os espírit<strong>os</strong> produziram um chiado abafado ao se dissipar, como ar escapando <strong>de</strong>pneus.- Bom menino! - disse Annabeth.E atirou a bola para Cérbero.Ela a agarrou com a boca do meio. A bola mal tinha tamanho suficiente para ele mor<strong>de</strong>r, e asoutras cabeças começaram a avançar na do meio, tentando pegar o novo brinquedo.- Solta! - or<strong>de</strong>nou Annabeth.As cabeças <strong>de</strong> Cérbero pararam <strong>de</strong> brigar e olharam para ela, A boIa estava presa entre dois d<strong>os</strong>seus <strong>de</strong>ntes como um pedacinho <strong>de</strong> chiclete. Ele soltou um lamento alto e assustador, <strong>de</strong>poislargou a bola, g<strong>os</strong>menta e quase rasgada no meio, a<strong>os</strong> pés <strong>de</strong> Annabeth.- Bom menino. - Annabeth pegou a bola, ignorando a baba <strong>de</strong> monstro.Ela se virou para nós.- Vão, agora. Fila da MORTE EXPRESSA... essa anda mais rápido.- Mas... - argumentei.- Agora! - or<strong>de</strong>nou ela, no mesmo tom que estava usando com o cão.Grover e eu avançam<strong>os</strong> <strong>de</strong>vagarzinho, cautel<strong>os</strong><strong>os</strong>.Cérbero começou a r<strong>os</strong>nar.- Fica! - or<strong>de</strong>nou Annabeth ao monstro. - Se quer a bola, fica!Cérbero ganiu, mas ficou on<strong>de</strong> estava.- E você? - perguntei a Annabeth quando passam<strong>os</strong> por ela.- Sei o que estou fazendo, Percv - murmurou ela. - Pelo men<strong>os</strong>, tenho quase certeza...Grover e eu seguim<strong>os</strong> por entre as pernas do monstro.Por favor, Annabeth, eu rezei. Não o man<strong>de</strong> sentar <strong>de</strong> novo.Conseguim<strong>os</strong> passar. Cérbero não era men<strong>os</strong> assustador visto <strong>de</strong> trás.- Bom cachorro! - disse Annabeth.Ela ergueu a bola vermelha esfrangalhada e, prov av elmente, chegou à mesma conclusão queeu -se recompensasse Cérebro, não restaria nada para mais um truque.Assim mesmo, ela jogou a bola. A boca esquerda do monstro a agarrou imediatamente, só paraser atacada pela cabeça do meio enquanto a cabeça da direita gemia em protesto.Enquanto o monstro estava distraído, Annabeth marchou energicamente por baixo da barriga<strong>de</strong>le e juntou-se a nós perto do <strong>de</strong>tector <strong>de</strong> metais.- Como fez aquilo? - perguntei, admirado.- Aula <strong>de</strong> a<strong>de</strong>stramento - disse ela sem fôlego, e fiquei surpreso ao ver que havia lágrimas emseus olh<strong>os</strong>. - Quando eu pequena, na casa do meu pai, nós tínham<strong>os</strong> um dobermann...- Não tem importância - disse Grover puxando minha camisa. - Vam<strong>os</strong>!Estávam<strong>os</strong> a ponto <strong>de</strong> disparar pela fila <strong>de</strong> MORTE EXPRESSA quando Cérbero gemeu <strong>de</strong> dardó, com todas as três bocas. Annabeth parou.Cérbero arfava ansi<strong>os</strong>o, a pequenina bola vermelha <strong>de</strong>spedaçada em uma lagoa <strong>de</strong> baba a seuspés.- Bom menino - disse Annabeth, mas sua voz pareceu melâcolica e insegura.As cabeças do monstro se inclinaram, como se e l e estivesse preocupado com ela.


- Logo vou trazer uma bola nova para você – prome t eu Ann abe th , insegura. - Você quer?O monstro choramingou. Eu não precisava f a l a r língua <strong>de</strong> cachorro para saber que Cérberoainda estava esperando a bola.- Bom cachorro. Venho logo visitar você. Eu... eu prometo. Annabeth virou-se para nós. —Vam<strong>os</strong>.Grover e eu passam<strong>os</strong> pelo <strong>de</strong>tector <strong>de</strong> metais, que imediatamente soou e disparou a piscarluzes vermelhas."Pertences não autorizad<strong>os</strong>! Mágica <strong>de</strong>tectada!"Cérbero começou a latir.Nós n<strong>os</strong> lançam<strong>os</strong> pelo portão MORTE EXPRESSA, o que disparou ainda mais alarmes, ecorrem<strong>os</strong> para <strong>de</strong>ntro do Mundo Inferior.Alguns minut<strong>os</strong> <strong>de</strong>pois, estávam<strong>os</strong> n<strong>os</strong> escon<strong>de</strong>ndo, sem fôlego, no tronco apodrecido <strong>de</strong> umaimensa árvore negra, enquanto <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> da segurança passavam correndo, berrando pela ajudadas Fúrias.Grover murmurou:- Bem, Percy, o que apren<strong>de</strong>m<strong>os</strong> hoje?- Que cães <strong>de</strong> três cabeças preferem bolas <strong>de</strong> borracha a pedaç<strong>os</strong> <strong>de</strong> pau?- Não - disse Grover. - Apren<strong>de</strong>m<strong>os</strong> que seus plan<strong>os</strong> são muito, muito ruins!Eu não tinha essa certeza. Talvez f<strong>os</strong>se o caso <strong>de</strong> eu e Annabeth term<strong>os</strong> tido a idéia certa.Mesmo ali, no Mundo Inferior, todo mundo - até mesmo <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> - precisa <strong>de</strong> um pouco <strong>de</strong>atenção <strong>de</strong> vez em quando.Pensei nisso enquanto esperávam<strong>os</strong> que <strong>os</strong> ghouls passassem. Fingi que não vi Annabethenxugar uma lágrima ao ouvir o lamento triste <strong>de</strong> Cérbero a distância, sentindo falta da novaamiga.DEZENOVE – De certa forma, <strong>de</strong>scobrim<strong>os</strong> a verda<strong>de</strong>.Imagine a maior aglomeração <strong>de</strong> gente que você já viu em um show, um campo <strong>de</strong> futebollotado com um milhão <strong>de</strong> fãs.Agora imagine um campo um milhão <strong>de</strong> vezes maior do que esse, lotado, e imagine que aenergia elétrica falhou e não há barulho, não há luz, nem aquelas bolas gigantes quicando por cimada multidão. Algo <strong>de</strong> trágico aconteceu n<strong>os</strong> bastidores. Uma massa sussurrante <strong>de</strong> gente ficasimplesmente vagueando nas sombras sem direção, esperando um show que nunca vai começar.Se é capaz <strong>de</strong> imaginar isso, tem uma boa idéia <strong>de</strong> como são <strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>. A gramapreta tinha sido pisoteada por eras <strong>de</strong> pés mort<strong>os</strong>. Um vento morno e úmido soprava como o hálito<strong>de</strong> um pântano. Árvores negras - Grover me disse que eram choup<strong>os</strong> - cresciam em grup<strong>os</strong> aqui eali.O teto da caverna era tão alto acima <strong>de</strong> nós que po<strong>de</strong>ria passar por uma massa <strong>de</strong> nuvens <strong>de</strong>tempesta<strong>de</strong>, a não ser pelas estalactites, que brilhavam em um cinza pálido e pareciammalvadamente pontudas. Tentei não imaginar que po<strong>de</strong>riam cair sobre nós a qualquer momento,mas havia várias <strong>de</strong>las salpicadas ao redor, que caíram e empalaram a si mesmas na grama preta.Acho que <strong>os</strong> mort<strong>os</strong> não precisavam se preocupar com pequen<strong>os</strong> risc<strong>os</strong> como ser espetad<strong>os</strong> porestalactites do tamanho <strong>de</strong> foguetes.Annabeth, Grover e eu tentam<strong>os</strong> n<strong>os</strong> misturar com a multidão permanecendo <strong>de</strong> olho n<strong>os</strong> ghouls


da segurança. Não pu<strong>de</strong> d e ix a r <strong>de</strong> procurar r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> familiares entre <strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>,mas é difícil olhar para <strong>os</strong> mort<strong>os</strong>. Seus r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> tremulam. Tod<strong>os</strong> parecem ligeiramente zangad<strong>os</strong>ou confus<strong>os</strong>. Eles até n<strong>os</strong> vêem e falam, mas a voz soa como trepidações, como o chiado <strong>de</strong>morceg<strong>os</strong>.Depois que eles percebem que você não consegue entendê-l<strong>os</strong>, fecham a cara e se afastam.Os mort<strong>os</strong> não são assustadores. São apenas tristes.Arrastamo-n<strong>os</strong>, seguindo a fila <strong>de</strong> recém-chegad<strong>os</strong> que serpenteava <strong>de</strong>s<strong>de</strong> <strong>os</strong> portões principaisem direção a uma gran<strong>de</strong> tenda, negra com uma faixa que dizia: JULGAMENTOS PARA OELÍSIO E PARA A DANAÇÃO ETERNA Bem-vind<strong>os</strong>, Recém-Falecid<strong>os</strong>!Do fundo da tenda saíam duas filas muito menores.À esquerda, espírit<strong>os</strong> flanquead<strong>os</strong> por espírit<strong>os</strong> maligno <strong>de</strong> segurança marchavam por umcaminho pedreg<strong>os</strong>o rumo a<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Punição, que incan<strong>de</strong>sciam e fumegavam a distância,uma vastidão <strong>de</strong>sértica e rachada com ri<strong>os</strong> <strong>de</strong> lava e camp<strong>os</strong> minad<strong>os</strong>, e quilômetr<strong>os</strong> <strong>de</strong> aramefarpado separando as diferentes áreas <strong>de</strong> tortura. Mesmo <strong>de</strong> longe, pu<strong>de</strong> ver pessoas sendoperseguidas por cães infernais, queimadas na fogueira, forçadas a correr nuas por plantações <strong>de</strong>cact<strong>os</strong> ou ouvir música <strong>de</strong> ópera. Pu<strong>de</strong> apenas distinguir uma colina minúscula com o vulto dotamanho <strong>de</strong> uma formiga <strong>de</strong> Sísifo lutando para empurrar sua pedra até o topo. E vi tambémtorturas piores - coisas que nem quero <strong>de</strong>screver.A fila que vinha do lado direito do pavilhão d<strong>os</strong> julgamento era muito melhor. Dava numpequeno vale cercado <strong>de</strong> mur<strong>os</strong> - uma comunida<strong>de</strong> com portões, que parecia ser a única parte felizdo Mundo Inferior. Além do portão <strong>de</strong> segurança havia belas casas <strong>de</strong> tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> períod<strong>os</strong> dahistória, vilas romanas, castel<strong>os</strong> medievais e mansões vitorianas. Flores <strong>de</strong> prata e ouro floresciamn<strong>os</strong> camp<strong>os</strong>. A grama ondulava nas cores do arco-íris. Dava para ouvir <strong>os</strong> ris<strong>os</strong> e sentir o cheiro <strong>de</strong>churrasco.Elísio.No meio daquele vale havia um brilhante lago azul, com três pequenas ilhas como um hotel <strong>de</strong>lazer nas Bahamas. As Ilhas d<strong>os</strong> Abençoad<strong>os</strong>, para pessoas que escolheram renascer três vezes, etrês vezes conquistaram o Elísio. No mesmo instante eu soube que era para lá que queria ir quandomorresse.- É isso mesmo - disse Annabeth como se estivesse lendo meus pensament<strong>os</strong>. - Este é o lugarpara <strong>os</strong> heróis.Mas percebi como havia poucas pessoas no Elísio, como era minúsculo em comparação com <strong>os</strong>Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong> ou até <strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> da Punição. Portanto, poucas pessoas se davam bem emsuas vidas. Era <strong>de</strong>primente.Deixam<strong>os</strong> o pavilhão d<strong>os</strong> julgament<strong>os</strong> e n<strong>os</strong> aprofundam<strong>os</strong> mais n<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>.Ficou mais escuro. As cores se esvaíram das n<strong>os</strong>sas roupas. As multidões <strong>de</strong> espírit<strong>os</strong> tagarelascomeçaram a rarear.Depois <strong>de</strong> alguns quilômetr<strong>os</strong> <strong>de</strong> caminhada, passam<strong>os</strong> a ouvir guinch<strong>os</strong> familiares a distância.Agigantando-se longe estava um palácio <strong>de</strong> obsidiana negra, brilhante. Acima d<strong>os</strong> baluartesrodopiavam três criaturas escuras semelhantes a morceg<strong>os</strong>: as Fúrias. Tive a sensação <strong>de</strong> que n<strong>os</strong>aguardavam.- Talvez seja tar<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais para <strong>vol</strong>tar atrás - disse Grover com tristeza.- Vai dar tudo certo. -Tentei parecer confiante.- Talvez <strong>de</strong>vêssem<strong>os</strong> procurar em alguns d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong> lugares primeiro - sugeriu Grover. - Comoo EIísio, por exemplo...


- Venha, menino-bo<strong>de</strong>. - Annabeth agarrou-lhe o braço.Grover ganiu. Seus tênis criaram asas e as pernas saltaram para a frente, puxando-o para longe<strong>de</strong> Annabeth. Ele aterrissou <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tas na grama.- Grover - ralhou Annabeth. - Pare <strong>de</strong> embromar.- Mas eu não...Ele ganiu <strong>de</strong> novo. Os tênis estavam agora batendo as asas como louc<strong>os</strong>. Levitaram do chão ecomeçaram a arrastá-lo para longe <strong>de</strong> nós.- Maia! - gritou ele, mas a palavra mágica parecia não f a z e r mais efeito. - Maia, agoramesmo! Um-nove-zero! Socorro!Eu me refiz da perplexida<strong>de</strong> e tentei agarrar a mão <strong>de</strong> Grover, mas era tar<strong>de</strong> <strong>de</strong>mais. Ele estavaganhando velocida<strong>de</strong>, escorregando colina abaixo como um trenó.Correm<strong>os</strong> atrás <strong>de</strong>le.Annabeth gritou:- Desamarre <strong>os</strong> tênis!Foi uma idéia esperta, mas acho que isso não é tão fácil q u a n d o <strong>os</strong> seus sapat<strong>os</strong> o estãoarrastando para a frente a toda velocida<strong>de</strong>. Grover tentou sentar, mas não conseguiu alcançar <strong>os</strong>cadarç<strong>os</strong>.Continuam<strong>os</strong> correndo atrás <strong>de</strong>le, tentando mantê-lo à vista enquanto disparava por entre aspernas d<strong>os</strong> espírit<strong>os</strong> que matraqueavam para ele, aborrecid<strong>os</strong>.Eu tinha certeza <strong>de</strong> que Grover iria passar direro d<strong>os</strong> portões do palácio <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s, mas <strong>de</strong>repente <strong>os</strong> tênis <strong>de</strong>sviaram para a direita e o arrastaram na direção op<strong>os</strong>ta.A la<strong>de</strong>ira ficou mais íngreme. Grover ganhou velocida<strong>de</strong>. Annabeth e eu tivem<strong>os</strong> <strong>de</strong> correr atoda para acompanhá-lo. As pare<strong>de</strong>s da caverna se estreitaram d<strong>os</strong> dois lad<strong>os</strong>, e me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong>que estávam<strong>os</strong> entrando em algum tipo <strong>de</strong> túnel lateral. Não havia mais grama preta nem árvores,apenas pedras sob <strong>os</strong> pés, e a luz pálida das estalactites acima.- Grover! - gritei, minha voz reverberando. - Segure em alguma coisa!- O quê? - gritou ele <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.Estava agarrando <strong>os</strong> pedregulh<strong>os</strong>, mas não havia nada gran<strong>de</strong> o bastante para reduzir suavelocida<strong>de</strong>.O túnel ficou mais escuro e frio. Os pêl<strong>os</strong> d<strong>os</strong> meus braç<strong>os</strong> se arrepiaram. O cheiro ali embaixoera nauseabundo. Me fez pensar em coisas que nem <strong>de</strong>via saber — sangue <strong>de</strong>rramado sobre umantigo altar <strong>de</strong> pedra, o hálito fétido <strong>de</strong> um assassino.Então vi o que estava à n<strong>os</strong>sa frente e, <strong>de</strong> repente, estanquei.O túnel se alargava para uma enorme caverna escura, e no meio havia um abismo do tamanho<strong>de</strong> um quarteirão da cida<strong>de</strong>.Grover estava escorregando direto para a borda.- Venha, Percy! - gritou Annabeth, puxando-me pelo pulso.- Mas aquilo...- Eu sei! - gritou ela. - O lugar que você <strong>de</strong>screveu <strong>de</strong> seu sonho! Mas Grover vai cair se não opegarm<strong>os</strong>. - Ela estava certa, é claro. O apuro <strong>de</strong> Grover fez com que me mexesse <strong>de</strong> novo.Ele estava gritando, arranhando o chão, mas <strong>os</strong> tênis alad<strong>os</strong> continuavam a arrastá-lo emdireção ao poço, e não parecia p<strong>os</strong>sível chegar até ele a tempo.O que o salvou foram seus casc<strong>os</strong>.Os tênis voadores sempre ficaram folgad<strong>os</strong> nele, e quando Grover chocou-se com uma gran<strong>de</strong>


pedra, seu tênis esquerdo saiu voando e disparou para as trevas, abismo abaixo. O tênis direitocontinuou a puxá-lo, mas não tão <strong>de</strong>pressa. Grover consegui reduzir a velocida<strong>de</strong> agarrando-se àgran<strong>de</strong> pedra e usando-a como âncora.Estava a três metr<strong>os</strong> da borda do abismo quando nós pegam<strong>os</strong> e o puxam<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta la<strong>de</strong>iraacima. O outro tênis a l a d o se <strong>de</strong>spren<strong>de</strong>u, circulou em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong> nós furi<strong>os</strong>amente e chu toun<strong>os</strong>sas cabeças em protesto antes <strong>de</strong> voar para <strong>de</strong>ntro do abismo a fim <strong>de</strong> juntar-se a seu par.Tod<strong>os</strong> <strong>de</strong>sabam<strong>os</strong> exaust<strong>os</strong> sobre <strong>os</strong> pedregulh<strong>os</strong> <strong>de</strong> obsidiana. Meus membr<strong>os</strong> pareciam feit<strong>os</strong><strong>de</strong> chumbo. Até minha mochila parecia mais pesada, como se alguém a tivesse enchido <strong>de</strong> pedras.Grover estava muito arranhado. Suas mã<strong>os</strong> sangravam. As pupilas d<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> se transformaramem fendas, no estilo d<strong>os</strong> bo<strong>de</strong>s como sempre acontecia quando ele estava aterrorizado.- Eu não sei como... - arquejou ele. - Eu não...- Espere - falei. - Escute.Eu tinha ouvido algo. Um sussurro profundo na escuridão.Mais alguns segund<strong>os</strong>, e Annabeth disse: - Percy, este lugar...- Psiu. - Fiquei em pé.O som estava ficando mais alto, uma voz murmurante, malé<strong>vol</strong>a, vinda <strong>de</strong> longe, muito longeabaixo <strong>de</strong> nós. Vinda do abismo. Grover sentou-se.- O... o que é esse ruído?Agora Annabeth também ouvira. Pu<strong>de</strong> ver em seus olh<strong>os</strong>.- Tártaro. A entrada para o Tártaro. Destampei Anaklusm<strong>os</strong>.A espada <strong>de</strong> bronze se expandiu, brilhando no escuro, e a voz. maligna pareceu vacilar, só porum momento, antes <strong>de</strong> retomar seu canto.Eu agora quase conseguia distinguir palavras, palavras muito, muito antigas, ainda mais antigasque o grego. Como se...- Mágica - falei.- Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> dar o fora daqui - disse Annabeth. Junt<strong>os</strong>, arrastam<strong>os</strong> Grover para cima d<strong>os</strong> casc<strong>os</strong> ecomeçam<strong>os</strong> a <strong>vol</strong>tar pelo túnel. Minhas pernas não se moviam <strong>de</strong>pressa o bastante. Minha mochilapesava. A voz ficou mais alta e irada atrás <strong>de</strong> nós, e <strong>de</strong>sandam<strong>os</strong> a correr.Bem na hora.Uma rajada fria <strong>de</strong> vento n<strong>os</strong> aspirou pelas c<strong>os</strong>tas, como se o abismo inteiro estivesse inalando.Por um momento aterronzante eu perdi o controle, e meus pés começaram a escorregar n<strong>os</strong>pedregulh<strong>os</strong>. Se estivéssem<strong>os</strong> mais perto da borda, teríam<strong>os</strong> sido sugad<strong>os</strong> para <strong>de</strong>ntro.Continuam<strong>os</strong> fazendo força para a frente e finalmente chegam<strong>os</strong> ao topo do túnel, on<strong>de</strong> acaverna se abria para <strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>. O vento parou. Um lamento <strong>de</strong> indignação ecoouno fundo. Alguma coisa não estava feliz por term<strong>os</strong> escapado.- O que era aquilo? — ofegou Grover quando <strong>de</strong>sabam<strong>os</strong> na relativa segurança <strong>de</strong> um b<strong>os</strong>que <strong>de</strong>choup<strong>os</strong> negr<strong>os</strong>, - Um d<strong>os</strong> bichinh<strong>os</strong> <strong>de</strong> estimação <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s?Annabeth e eu n<strong>os</strong> entreolham<strong>os</strong>. Eu podia ver que ela acalentava uma i<strong>de</strong>ia, provavelmente amesma que tivera durante a viagem <strong>de</strong> táxi a L<strong>os</strong> Angeles, mas estava apavorada <strong>de</strong>mais paradividi-la comigo. Isso já era o bastante para me aterrorizar.Pus a tampa na minha espada, pus a caneta <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta no bolso.- Vam<strong>os</strong> andando. - Olhei para Grover. - Consegue andar?Ele engoliu em seco.- Sim, com certeza. Nunca g<strong>os</strong>tei muito daqueles tênis mesmo.


Ele tentou parecer valente, mas estava tremendo tanto q u an to Annabeth e eu. O que quer queestivesse naquele abismo, não era bichinho <strong>de</strong> estimação <strong>de</strong> ninguém. Era indizivelmente v e l h oe po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>o. Nem mesmo Equidna me <strong>de</strong>ra aquela sensação. F iquei quase aliviado <strong>de</strong> dar as c<strong>os</strong>taspara aquele túnel e me dirigir para o palácio <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s.Quase.*****As Fúrias ro<strong>de</strong>avam <strong>os</strong> baluartes, lá no alto, nas trevas. As muralhas externas da fortalezabrilhavam em negro e <strong>os</strong> portões <strong>de</strong> bronze com dois andares <strong>de</strong> altura estavam escancarad<strong>os</strong>.De perto, vi que as gravações n<strong>os</strong> portões eram cenas <strong>de</strong> morte. Algumas <strong>de</strong> temp<strong>os</strong> mo<strong>de</strong>rn<strong>os</strong> -uma bomba atómica explodindo sobre uma cida<strong>de</strong>, uma trincheira cheia <strong>de</strong> soldad<strong>os</strong> usandomáscaras <strong>de</strong> gás, uma fila <strong>de</strong> african<strong>os</strong> vítimas da fome aguardando com tigelas vazias -, mastodas pareciam ter sido gravadas no bronze havia milhares <strong>de</strong> an<strong>os</strong>. Fiquei pensando se estavaolhando para profecias que se tornaram realida<strong>de</strong>.Dentro do pátio havia o jardim mais estranho que já vi. Cogumel<strong>os</strong> multicolorid<strong>os</strong>, arbust<strong>os</strong>venen<strong>os</strong><strong>os</strong> e plantas lumin<strong>os</strong>as fantasmagóricas cresciam sem a luz do sol. Gemas preci<strong>os</strong>assupriam a falta <strong>de</strong> flores, pilhas <strong>de</strong> rubis gran<strong>de</strong>s como meu punho, aglomerad<strong>os</strong> <strong>de</strong> diamantesbrut<strong>os</strong>. Aqui e ali, como convidad<strong>os</strong> <strong>de</strong> uma festa que foram congelad<strong>os</strong>, havia estátuas <strong>de</strong> jardimda Medusa - crianças, sátir<strong>os</strong> e centaur<strong>os</strong> petrificad<strong>os</strong> - tod<strong>os</strong> sorrindo grotescamente.No centro do jardim havia um pomar <strong>de</strong> romãzeiras, suas flores alaranjadas brilhando comonéon no escuro.- O jardim <strong>de</strong> Perséfone - disse Annabeth. - Continue andando.Entendi por que ela quis seguir andando. O cheiro ácido daquelas romãs era quase irresistível.Tive um súbito <strong>de</strong>sejo <strong>de</strong> comê-las, mas então me lembrei da história <strong>de</strong> Perséfone. Uma mordida<strong>de</strong> um alimento do Mundo Inferior e nunca mais po<strong>de</strong>ríam<strong>os</strong> sair. Puxei Grover para longe, paraimpedi-lo <strong>de</strong> colher uma <strong>de</strong>las, gran<strong>de</strong> e suculenta.Subim<strong>os</strong> <strong>os</strong> <strong>de</strong>graus do palácio, entre colunas negras, passando por um pórtico <strong>de</strong> mármorenegro, para <strong>de</strong>ntro da casa <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s. O vestíbulo tinha um piso <strong>de</strong> bronze polido que pareciaferver à luz refletida das tochas. Não havia teto, apenas o teto da caverna muito acima. Acho queeles nunca precisaram se preocupar com chuva aqui embaixo.Todas as portas laterais eram guardadas por um esqueleto com trajes militares. Alguns usavamarmaduras gregas, outr<strong>os</strong>, uniformes ingleses <strong>de</strong> casacas vermelhas, e havia ainda <strong>os</strong> que vestiamroupas camufladas com ban<strong>de</strong>iras americanas esfarrapadas n<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>. Carregavam lanças,m<strong>os</strong>quetes ou fuzis. Nenhum <strong>de</strong>les n<strong>os</strong> incomodou, mas suas órbitas ocas n<strong>os</strong> seguiram enquantoandávam<strong>os</strong> pelo vestíbulo em direção ao gran<strong>de</strong> conjunto <strong>de</strong> portas no extremo op<strong>os</strong>to.Dois esquelet<strong>os</strong> <strong>de</strong> fuzileir<strong>os</strong> navais american<strong>os</strong> guardavam as portas. Eles sorriram para nós,com lançadores <strong>de</strong> granadas atravessadas no peito.- Sabem <strong>de</strong> uma coisa - murmurou Grover -, ap<strong>os</strong>to que Ha<strong>de</strong>s não tem problemas para<strong>de</strong>spachar ven<strong>de</strong>dores <strong>de</strong> porta a porta.Minha mochila agora pesava uma tonelada. Eu não conseguia imaginar por quê. Quis abri-la,verificar se por acaso havia colhido alguma bola <strong>de</strong> boliche perdida, mas aquele não era omomento.- Bem, gente - disse. - Acho que <strong>de</strong>vem<strong>os</strong>... bater?Um vento quente soprou pelo corredor e as portas se abriram. Os guardas <strong>de</strong>ram um passo parao lado.


- Acho que isso significa entrez-vous - disse Annabeth.Lá <strong>de</strong>ntro a sala era exatamente como em meu sonho, só que <strong>de</strong>ssa vez o trono <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s estavaocupado.Era o terceiro <strong>de</strong>us que eu conhecia, mas o primeiro que realmente me impressionava como<strong>de</strong>us.Para início <strong>de</strong> conversa, ele tinha pelo men<strong>os</strong> três metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> altura, e usava mant<strong>os</strong> <strong>de</strong> sedapreta e uma coroa <strong>de</strong> ouro trançado . Sua pele era branca como a <strong>de</strong> um albino, o cabelo compridoaté <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong> era preto-azeviche. Não era corpulento como Ares, mas irradiava força. Reclinavaseem seu trono <strong>de</strong> <strong>os</strong>s<strong>os</strong> human<strong>os</strong> fundid<strong>os</strong> parecendo flexível, elegante e perig<strong>os</strong>o como umapantera.No mesmo instante tive a sensação <strong>de</strong> que ele <strong>de</strong>veria dar as or<strong>de</strong>ns. Sabia mais do que eu.Devia ser meu mestre. Então disse a mim mesmo para dar o fora.A aura <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s estava me afetando, assim como acontecera com a <strong>de</strong> Ares. O Senhor d<strong>os</strong>Mort<strong>os</strong> lembrava retrat<strong>os</strong> que eu tinha visto <strong>de</strong> Adolf Hitler, ou Napoleão, ou d<strong>os</strong> lí<strong>de</strong>resterroristas que controlam <strong>os</strong> homens-bomba. Ha<strong>de</strong>s tinha o mesmo olhar intenso, o mesmo tipo <strong>de</strong>carisma hipnotizador e maligno.- Você é coraj<strong>os</strong>o <strong>de</strong> vir até aqui, Filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon - disse ele com uma voz untu<strong>os</strong>a. - Depoisdo que me fez, você é muito valente, sem dúvida. Ou talvez seja simplesmente muito tolo.Um entorpecimento se insinuou nas minhas juntas, tentando-me a <strong>de</strong>itar e tirar uma pequenasoneca a<strong>os</strong> pés <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s. Queria me enr<strong>os</strong>car ali e dormir para sempre.Lutei contra a sensação e <strong>de</strong>i um passo à frente. Sabia o que tinha <strong>de</strong> dizer.- Senhor e tio, trago dois pedid<strong>os</strong>.Ha<strong>de</strong>s ergueu uma sobrancelha. Quando ele chegou mais para a frente em seu trono, r<strong>os</strong>t<strong>os</strong>sombri<strong>os</strong> apareceram nas dobras d<strong>os</strong> seus mant<strong>os</strong> negr<strong>os</strong>, r<strong>os</strong>t<strong>os</strong> atormentad<strong>os</strong>, como se o trajef<strong>os</strong>se feito <strong>de</strong> almas d<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> da Punição pegas ao tentar escapar, c<strong>os</strong>turadas umas nas outras.Minha porção transtorno do déficit <strong>de</strong> atenção se perguntou se o resto das roupas <strong>de</strong>le era feito domesmo modo. Que coisas horríveis alguém teria <strong>de</strong> fazer em vida para merecer ser parte da roupa<strong>de</strong> baixo <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s?- Só dois pedid<strong>os</strong>? - disse Ha<strong>de</strong>s. - Criança arrogante. Como se você já não tivesse recebido obastante.Fale, então. Acho divertido esperar um pouco para fulminar você.Engoli em seco. Aquilo estava indo mais ou men<strong>os</strong> tão bem quanto eu temia.Relanceei para o trono menor, vazio, ao lado do <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s. Tinha a forma <strong>de</strong> uma flor negra,<strong>de</strong>corada em ouro. Desejei que a rainha Perséfone estivesse ali. Lembrei-me <strong>de</strong> algo n<strong>os</strong> mit<strong>os</strong>sobre como ela podia acalmar <strong>os</strong> humores do marido. Mas era verão. É claro que Perséfone estariaacima no mundo <strong>de</strong> luz com mãe, a <strong>de</strong>usa da agricultura, Demeter. Suas visitas, e não a inclinaçãodo planeta, criavam as estações.Annabeth pigarreou. Seu <strong>de</strong>do me cutucou nas c<strong>os</strong>tas.- Senhor Ha<strong>de</strong>s - disse eu. - Olhe, senhor, não po<strong>de</strong> haver uma guerra entre <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Iss<strong>os</strong>eria...ruim.- Realmente ruim - acrescentou Grover, querendo ajudar.- De<strong>vol</strong>va o raio-mestre <strong>de</strong> Zeus para mim - disse eu. Por favor, senhor, <strong>de</strong>ixe-me levá-lo para oOlimpo.


Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s brilharam perig<strong>os</strong>amente.- Você se atreve a continuar com essa farsa, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> tudo o que fez?Dei uma olhada para <strong>os</strong> meus amig<strong>os</strong> atrás <strong>de</strong> mim. Pareciam tão confus<strong>os</strong> quanto eu.- Ahn... tio - falei. - Você fica dizendo "<strong>de</strong>pois <strong>de</strong> tudo oque você fez". O que foi, exatamente,que eu fiz?A sala do trono tremeu com tanta força que, provavelmente, o impacto foi sentido lá em cima,em L<strong>os</strong> Angeles. Fragment<strong>os</strong> <strong>de</strong> rocha caíram do teto da caverna. Portas se abriram violentamenteem todas as pare<strong>de</strong>s, e guerreir<strong>os</strong> esquelétic<strong>os</strong> marcharam para <strong>de</strong>ntro, centenas <strong>de</strong>les, <strong>de</strong> todas asépocas e nações da civilizaição oci<strong>de</strong>ntal. Enfileiraram-se n<strong>os</strong> quatro cant<strong>os</strong> da sala, bloquendo assaídas.Ha<strong>de</strong>s urrou:- Você acha que eu quero a guerra, filhote <strong>de</strong> <strong>de</strong>us?Tive vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> dizer , Bem, esses caras não se parecem muito com ativistas pela paz. Masachei que po<strong>de</strong>ria ser uma resp<strong>os</strong>ta perig<strong>os</strong>a.- Você é o Senhor d<strong>os</strong> Mort<strong>os</strong> - falei com cautela. - Uma guerra iria expandir seu remo, certo?- E bem característico d<strong>os</strong> meus irmã<strong>os</strong> dizerem uma coisa <strong>de</strong>ssas! Acha que preciso <strong>de</strong> maissúdit<strong>os</strong>?Não está vendo a gran<strong>de</strong>za d<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>?- Bem...- Você tem idéia <strong>de</strong> quanto meu reino inchou só neste último século, quantas subdivisões tive<strong>de</strong> criar? -Abri a boca para respon<strong>de</strong>r, mas Ha<strong>de</strong>s agora estava embalado.- Mais espírit<strong>os</strong> <strong>de</strong> segurança - queixou-se. - Problemas <strong>de</strong> trânsito no pavilhão <strong>de</strong> julgament<strong>os</strong>.Horas extras em dobro para o pessoal. Eu era um <strong>de</strong>us rico, Percy Jackson. Controlo tod<strong>os</strong> <strong>os</strong>metais preci<strong>os</strong><strong>os</strong> embaixo da terra. Mas as minhas <strong>de</strong>spesas!- Caronte quer um aumento <strong>de</strong> salário - <strong>de</strong>spejei, acabando <strong>de</strong> me lembrar do fato. Assim quefalei, pensei que per<strong>de</strong>ra uma ótima chance <strong>de</strong> ficar calado.- Não me fale <strong>de</strong> Caronte! - gritou Ha<strong>de</strong>s. - Ele está imp<strong>os</strong>sível <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que <strong>de</strong>scobriu <strong>os</strong> tern<strong>os</strong>italian<strong>os</strong>!Problemas em toda parte, e eu tenho <strong>de</strong> lidar com tod<strong>os</strong> eles pessoalmente. O tempo <strong>de</strong> viagementre o palácio e <strong>os</strong> portões já é suficiente para me <strong>de</strong>ixar insano! E <strong>os</strong> mort<strong>os</strong> continuamchegando. Não, filhote <strong>de</strong> <strong>de</strong>us, eu não preciso <strong>de</strong> ajuda para arranjar súdit<strong>os</strong>! Não pedi essaguerra.- Mas você pegou o raio-mestre <strong>de</strong> Zeus.- Mentiras! - Mais estrond<strong>os</strong>. Ha<strong>de</strong>s ergueu-se do trono, ficando da altura <strong>de</strong> uma trave <strong>de</strong>futebol. - Seu pai po<strong>de</strong> enganar Zeus, menino, mas eu não sou tão estúpido. Enxergo o plano <strong>de</strong>le.- O plano <strong>de</strong>le?- Você foi o ladrão no solstício <strong>de</strong> inverno - disse ele. - Seu pai pensou em mantê-lo como seupequeno segredo. Ele o man dou para a sala do trono no Olimpo. Você pegou o raio-mestre e meuelmo. Se eu não tivesse enviado minha Fúria para <strong>de</strong>scobri-lo na Aca<strong>de</strong>mia Yancy, P<strong>os</strong>eidontalvez tivesse conseguido escon <strong>de</strong>r o plano para <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ar uma guerra. Mas agora você foiforçado a aparecer. Será exp<strong>os</strong>to como o ladrão <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon, e eu terei meu elmo <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta!- Mas... - falou Annabeth. Pu<strong>de</strong> perceber que a cabeça <strong>de</strong>la estava a um milhão <strong>de</strong> quilômetr<strong>os</strong>por hora. -


Senhor Ha<strong>de</strong>s, seu elmo das trevas também <strong>de</strong>sapareceu?-Não banque a inocente comigo, menina. Você e o sátiro estiveram ajudando este herói, queveio aqui me ameaçar sem dúvida em nome <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon, a me trazer um últimato. P<strong>os</strong>eidon achaque p<strong>os</strong>so ser chantageado para apoiá-lo?- Não! - falei. - P<strong>os</strong>eidon não... eu não...-Não falei nada do <strong>de</strong>saparecimento do elmo - r<strong>os</strong>nou Ha<strong>de</strong>s - porque não tenho ilusões <strong>de</strong> quealguém no Olimpo me faça justiça, que me dê alguma ajuda. Não p<strong>os</strong>so permitir que vaze anotícia <strong>de</strong> que minha arma mais po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a está <strong>de</strong>saparecida. Portanto procurei por você eumesmo, e quando ficou claro que você vinha a mim para fazer sua ameaça, não tentei <strong>de</strong>tê-lo.- Você não tentou n<strong>os</strong> <strong>de</strong>ter? Mas...- De<strong>vol</strong>va meu elmo agora, ou vou interromper a morte - ameaçou Ha<strong>de</strong>s. - Esta é a minhacontraprop<strong>os</strong>ta. Abrirei a terra e mandarei <strong>os</strong> mort<strong>os</strong> se <strong>de</strong>spejarem <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta em seu mundo.Transformarei suas terras em um pesa<strong>de</strong>lo. E você, Percy Jackson... o seu esqueleto li<strong>de</strong>rará omeu exército para fora do Ha<strong>de</strong>s.Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> soldad<strong>os</strong> esquelétic<strong>os</strong> <strong>de</strong>ram um passo à frente, com as armas <strong>de</strong> prontidão.A essa altura, eu <strong>de</strong>veria ter ficado aterrorizado. O estranho foi que eu me senti ofendido. Nadame <strong>de</strong>ixa mais zangado do que ser acusado <strong>de</strong> algo que não fiz. Já tivera uma porção <strong>de</strong>experiências com isso.- Você é tão mau quanto Zeus - disse eu. - Acha que roubei você? E por isso que mandou asFúrias atrás <strong>de</strong> mim?- É claro - disse Ha<strong>de</strong>s.- E <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> monstr<strong>os</strong>?Ha<strong>de</strong>s franziu o lábio.- Não tive nada a ver com eles. Eu não queria uma morte rápida para você; queria você diante<strong>de</strong> mim, vivo, para enfrentar todas as torturas d<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> da Punição. Por que acha que o <strong>de</strong>ixeientrar no meu reino tão facilmente?- Facilmente?- De<strong>vol</strong>va o que me pertence!- Mas eu não tenho o seu elmo. Vim buscar o raio-mestre.- Que você já p<strong>os</strong>sui! - bradou Ha<strong>de</strong>s. - Você veio aqui com ele, pequeno idiota, achando quepo<strong>de</strong>ria me ameaçar!- Não é verda<strong>de</strong>!- Então abra a sua mochila.Um pensamento horrível me assaltou. O peso da minha mochila, como uma bola <strong>de</strong> boliche...Não podia ser...Tirei a mochila d<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong> e abri o zíper. Dentro havia um cilindro <strong>de</strong> metal <strong>de</strong> sessentacentímetr<strong>os</strong> <strong>de</strong> comprimento, com uma ponta <strong>de</strong> cada lado, zumbindo <strong>de</strong> energia.- Percy - disse Annabeth. - Como...- Eu... eu não sei. Não entendo.- Vocês, heróis, são sempre iguais - disse Ha<strong>de</strong>s. - Seu orgulho <strong>os</strong> torna tol<strong>os</strong>, achando quepo<strong>de</strong>m trazer uma arma as sim diante <strong>de</strong> mim. Eu não pedi o raio <strong>de</strong> Zeus, mas já que ele estáaqui, você o entregará a mim. Tenho certeza <strong>de</strong> que será um excelente instrumento <strong>de</strong> barganha. Eagora... o meu elmo. On<strong>de</strong> está?Eu estava sem fala. Não tinha elmo nenhum. Não tinha idéia <strong>de</strong> como o raio-mestre fora parar


na minha mochila. Quis pensar que Ha<strong>de</strong>s estava armando algum tipo <strong>de</strong> truque. Ha<strong>de</strong>s era o vilão.Mas <strong>de</strong> repente o mundo virará <strong>de</strong> lado. Percebi que havia sido usado. Alguém fizera Zeus,P<strong>os</strong>eidon e Ha<strong>de</strong>s quererem a caveira um do outro. O raio-mestre estava na minha mochila, e eurecebera a mochila <strong>de</strong>...- Senhor Ha<strong>de</strong>s, espere - disse eu. - Isso tudo é um engano.- Um engano? - rugiu Ha<strong>de</strong>s.Os esquelet<strong>os</strong> apontaram as armas. Lá no alto houve um bater <strong>de</strong> asas coriáceas, e as três Fúriasvoaram para baixo para empoleirar-se nas c<strong>os</strong>tas do trono do seu senhor. A que tinha as feições dasra. Dodds arreganhou um sorriso ávido para mim e estalou o seu chicote.- Não há engano nenhum - disse Ha<strong>de</strong>s. - Sei por que você veio, e sei a razão real por que trouxeo raio.Você veio negociar por ela.Ha<strong>de</strong>s soltou uma bola <strong>de</strong> fogo dourado da palma <strong>de</strong> sua mão Ela explodiu n<strong>os</strong> <strong>de</strong>graus diante<strong>de</strong> mim, e lá estava a minha mãe congelada em uma chuva <strong>de</strong> ouro, exatamente como no momentoem que o Minotauro começou a apertá-la até a morte.Não pu<strong>de</strong> falar. Estendi a mão para tocá-la, mas a luz era quente como uma fogueira.- Sim - disse Ha<strong>de</strong>s com satisfação. - Eu a tomei. Eu sabia, Percy Jackson, que você por fimviria barganhar comigo. De<strong>vol</strong>va o meu elmo, e talvez eu a <strong>de</strong>ixe ir. Ela não está morta, você sabe.Ainda não.Mas, se você me <strong>de</strong>sagradar, isso irá mudar.Pensei nas pérolas no meu bolso. Talvez elas pu<strong>de</strong>ssem me safar daquilo. Se ao men<strong>os</strong> euconseguisse libertar a minha mãe...- Ah, as pérolas - disse Ha<strong>de</strong>s, e meu sangue gelou. - Sim meu irmão e <strong>os</strong> seus truquezinh<strong>os</strong>.Apresente-as, Percy Jackson.Minha mão se moveu contra a vonta<strong>de</strong> e eu apresentei as pérolas.- Apenas três - disse Ha<strong>de</strong>s. - Que pena. Você sabe que cada qual protege uma só pessoa. Tentelevar a sua mãe, então filhotinho <strong>de</strong> <strong>de</strong>us. E qual d<strong>os</strong> seus amig<strong>os</strong> você <strong>de</strong>ixará para trás parapassar a eternida<strong>de</strong> comigo? Vá em frente. Escolha. Ou me dê a mochila e aceite as minhascondições.Olhei para Annabeth e Grover. Suas expressões eram soturnas.- Fom<strong>os</strong> enganad<strong>os</strong> - disselhes. - Peg<strong>os</strong> numa armadilha.- Sim, mas por quê? - perguntou Annabeth. - E a voz no abismo...- Ainda não sei - disse eu. - Mas pretendo perguntar.- Decida, menino! - gritou Ha<strong>de</strong>s.- Percy. - Grover pôs a mão no meu ombro. - Você não po<strong>de</strong> lhe entregar o raio.- Eu sei disso.- Deixe-me aqui - disse ele. - Use a terceira pérola par; a sua mãe.- Não!- Eu sou um sátiro - disse Grover. - Nós não tem<strong>os</strong> almas como <strong>os</strong> seres human<strong>os</strong>. Ele po<strong>de</strong> metorturar até a morte, mas não ficará comigo para sempre. Eu reencarnarei em uma flor, ou algumaoutra coisa. É o melhor jeito.- Não. - Annabeth sacou a sua faca <strong>de</strong> bronze. - Vocês dois continuam. Grover, você tem <strong>de</strong>proteger Percy. Você tem <strong>de</strong> conseguir a sua licença <strong>de</strong> buscador e começar a sua missão por Pan.Tire a mãe <strong>de</strong>le para fora daqui. Eu lhes darei cobertura. Planejo cair lutando.


- Nem pensar - disse Grover. - Eu vou ficar para trás.- Pense <strong>de</strong> novo, menino-bo<strong>de</strong> - disse Annabeth.- Parem, vocês dois! - Era como se o meu coração estivesse sendo rasgado ao meio. Amb<strong>os</strong>passaram por tanta coisa comigo. Lembrei-me <strong>de</strong> Grover bombar<strong>de</strong>ando a medusa no jardim <strong>de</strong>estátuas, e <strong>de</strong> Annabeth n<strong>os</strong> salvando <strong>de</strong> Cérbero; nós sobrevivem<strong>os</strong> ao Parque Aquático <strong>de</strong>Hefesto, ao Arco <strong>de</strong> St.Louis, ao Cassino Lótus. Passei milhares <strong>de</strong> quilômetr<strong>os</strong> preocupado porque seria traído por umamigo, mas aqueles amig<strong>os</strong> jamais fariam isso. Eles não fizeram nada a não ser me salvar, vezes evezes seguidas, e agora queriam sacrificar suas vidas pela minha mãe.- Eu sei o que fazer - disse eu. - Segurem isto. Entreguei uma pérola a cada um <strong>de</strong>les. Annabethdisse: - Mas, Percy...Virei-me e encarei minha mãe. Queria <strong>de</strong>sesperadamente me sacrificar e usar a última pérolapara ela, mas sabia o que ela iria dizer. Ela jamais permitiria isso. Eu tinha <strong>de</strong> levar o raio <strong>de</strong> <strong>vol</strong>tapara o Olimpo e contar a verda<strong>de</strong> a Zeus. Tinha <strong>de</strong> impedir a guerra. Ela jamais me perdoaria se eua salvasse em vez disso. Pensei na profecia feita na Colina Meio-Sangue, que parecia ter sido ummilhão <strong>de</strong> an<strong>os</strong> atrás. No fim você não conseguirá salvar aquilo que mais importa.- Desculpe - disse a ela. - Eu <strong>vol</strong>tarei. Vou encontrar um jeito.A expressão presunç<strong>os</strong>a na cara <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s se apagou. Ele disse: - Filhote <strong>de</strong> <strong>de</strong>us...?- Vou encontrar o seu elmo, tio - disse a ele. - Vou <strong>de</strong><strong>vol</strong>vê-lo. Lembre-se do aumento <strong>de</strong> salário<strong>de</strong> Caronte.- Não me <strong>de</strong>safie...- E não faria mal brincar com Cérbero <strong>de</strong> vez em quando. Ele g<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> bolas <strong>de</strong> borrachavermelhas.- Percy Jackson, você não vai...Eu gritei:- Agora!Esmagam<strong>os</strong> as pérolas a<strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> pés. Por um momento apavorante, nada aconteceu. Ha<strong>de</strong>sgritou: - Destruam-n<strong>os</strong>!O exército <strong>de</strong> esquelet<strong>os</strong> avançou, espadas <strong>de</strong>sembainhadas fuzis engatilhad<strong>os</strong> no modototalmente automático. As Fúrias mergulharam, <strong>os</strong> chicotes explodindo em chamas.Exatamente quando <strong>os</strong> esquelet<strong>os</strong> abriram fogo, <strong>os</strong> fragment<strong>os</strong>; <strong>de</strong> pérola a<strong>os</strong> meus pésexplodiram em luz ver<strong>de</strong> e uma rajada <strong>de</strong> ar fresco do mar. Eu fui encapsulado em uma esferabranca leit<strong>os</strong>a que começava a flutuar para fora do chão.Annabeth e Grover estavam bem atrás <strong>de</strong> mim. Lanças e balas centelharam inofensivamente nasbolhas <strong>de</strong> pérola enquanto flutuávam<strong>os</strong> para cima. Ha<strong>de</strong>s gritou com tamanha raiva que a fortalezainteira se sacudiu e eu soube que aquela não seria uma noite tranqüila em L<strong>os</strong> Angeles.- Olhem para cima! - gritou Grover. -Vam<strong>os</strong> bater!Sem dúvida, estávam<strong>os</strong> indo direto para as estalactites, as quais imaginei que iriam estourar asn<strong>os</strong>sas bolhas e n<strong>os</strong> espetar.- Como se controla essas coisas? - gritou Annabeth.- Acho que não se controla! - gritei <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta.Gritam<strong>os</strong> quando as bolhas colidiram com o teto e... Escuridão.Será que estávam<strong>os</strong> mort<strong>os</strong>?


Não, eu ainda tinha a sensação <strong>de</strong> velocida<strong>de</strong>. Estávam<strong>os</strong> indo para cima, através da rochasólida, tão facilmente quanto uma bolha <strong>de</strong> ar na água. Aquele era o po<strong>de</strong>r das pérolas, eu me <strong>de</strong>iconta - o que pertence ao mar sempre retornará ao mar.Por alguns moment<strong>os</strong>, não vi nada além das pare<strong>de</strong>s macias da minha esfera, então minhapérola irrompeu no fundo do oceano. As outras duas esferas leit<strong>os</strong>as, Annabeth e Grover, meacompanharam enquanto disparávam<strong>os</strong> para cima através da água. E... pimba!Explodim<strong>os</strong> na superfície, no meio da baía <strong>de</strong> Santa Monica, jogando um surfista para fora dasua prancha com um indignado "Ei, cara!".Agarrei Grover e o arrastei até uma bóia salva-vidas. Peguei Annabeth e a arrastei também. Umtubarão curi<strong>os</strong>o dava <strong>vol</strong>tas em torno <strong>de</strong> nós, um gran<strong>de</strong> tubarão branco com cerca <strong>de</strong> três metr<strong>os</strong> emeio <strong>de</strong> comprimento.Eu disse:- Cai fora!O tubarão se virou e fugiu apressado.O surfista gritou alguma coisa sobre cogumel<strong>os</strong> estragad<strong>os</strong> e se afastou <strong>de</strong> nós patinhando omais rápido que podia.De algum modo, eu sabia que horas eram: início da manhã, 21 <strong>de</strong> junho, o dia do solstício <strong>de</strong>verão.A distância, L<strong>os</strong> Angeles estava em chamas, nuvens <strong>de</strong> fumaça subindo <strong>de</strong> bairr<strong>os</strong> por toda acida<strong>de</strong>.Tinha havido um terremoto sem dúvida, e a culpa era <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s. Provavelmente estavamandando um exército <strong>de</strong> mort<strong>os</strong> atrás <strong>de</strong> mim naquele instante.Mas, naquele momento, o Mundo Inferior não era o meu maior problema.Eu tinha <strong>de</strong> chegar até a praia. Tinha <strong>de</strong> levar o raio <strong>de</strong> Zeus <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para o Olimpo. Mais quetudo, eu precisava ter uma conversa séria com o <strong>de</strong>us que me enganara.VINTE – A luta contra o meu parente imbecil.Um barco da Guarda C<strong>os</strong>teira n<strong>os</strong> recolheu, mas eles estavam ocupad<strong>os</strong> <strong>de</strong>mais para ficarcon<strong>os</strong>co por muito tempo, ou para querer saber por que três crianças com roupas casuais foramparar no meio da baía.Havia um <strong>de</strong>sastre para cuidar. Seus rádi<strong>os</strong> estavam entupid<strong>os</strong> <strong>de</strong> chamad<strong>os</strong> <strong>de</strong> emergência.Eles n<strong>os</strong> largaram no píer Santa Monica com toalhas em <strong>vol</strong>ta d<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong> e garrafas d'água quediziam EUSOU UM GUARDA-COSTEIRO MIRIM! e saíram às pressas para salvar mais gente.N<strong>os</strong>sas roupas estavam encharcadas, inclusive as minhas. Quando o barco da Guarda C<strong>os</strong>teiraapareceu, eu implorei baixinho que eles não me tirassem da água e me achassem perfeitamenteseco, o que teria feito algumas sobrancelhas se erguerem. Então <strong>de</strong>sejei ficar encharcado. Semdúvida, minha mágica à prova d'água me abandonara. Eu também estava <strong>de</strong>scalço, porqueentregara meus sapat<strong>os</strong> a Grover. Era melhor a Guarda C<strong>os</strong>teira se perguntar por que um <strong>de</strong> nósestava <strong>de</strong>scalço do que se perguntar por que um <strong>de</strong> nós tinha casc<strong>os</strong>.Depois <strong>de</strong> chegar a terra firme, saím<strong>os</strong> cambaleando pela praia vendo a cida<strong>de</strong> queimar contraum lindo pôr-do-sol. Era como se tivesse acabado <strong>de</strong> retornar do mundo d<strong>os</strong> mort<strong>os</strong> — o que eraverda<strong>de</strong>. Minha mochila estava pesada, com o raio-mestre <strong>de</strong> Zeus. Meu coração estava aindamais pesado por ter visto minha mãe.


- Eu não acredito - disse Annabeth. - A gente passou por tudo aquilo e...- Foi um truque - disse eu. - Uma estratégia digna <strong>de</strong> Atena.- Ei - avisou.- Você enten<strong>de</strong>u, não é?Ela baixou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, a raiva murchou.- Sim. Entendi.- Bem, eu não entendi! - reclamou Grover. - Será que alguém po<strong>de</strong>ria...- Percy... - disse Annabeth. - Eu sinto muito pela sua mãe. Sinto tanto...Fiz que não estava ouvindo. Se eu falasse sobre a minha mãe, ia começar a chorar como umacriancinha.- A profecia estava certa - disse eu. - " Você <strong>de</strong>ve ir para o oeste, e enfrentar o <strong>de</strong>us que setornou <strong>de</strong>sleal".Mas não era Ha<strong>de</strong>s. Ha<strong>de</strong>s não queria guerra entre <strong>os</strong> Três Gran<strong>de</strong>s. Algum outro executou oroubou.Alguém roubou o raio-mestre <strong>de</strong> Zeus, e o elmo <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s, e tramou contra mim porque soufilho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon. P<strong>os</strong>eidon será culpado por amb<strong>os</strong> <strong>os</strong> lad<strong>os</strong>. Ao pôr-do-sol <strong>de</strong> hoje, haverá umaguerra tríplice.E eu a terei causado.Grover sacudiu a cabeça, <strong>de</strong>sconcertado.- Mas quem seria tão fingido? Quem iria querer uma guerra tão ruim?Parei bruscamente, olhando para a praia.- Puxa, <strong>de</strong>ixem-me pensar.Ali estava ele, aguardando por nós, em seu casaco preto <strong>de</strong> couro, e ócul<strong>os</strong> escur<strong>os</strong>, um bastão<strong>de</strong> beisebol <strong>de</strong> alumínio ao ombro. A motocicleta roncava ao seu lado, o farol <strong>de</strong>ixando a areiavermelha.- Ei, garoto - disse Ares, parecendo genuinamente contente em me ver. - Você <strong>de</strong>via estarmorto.- Você me enganou - disse eu. - Você roubou o elmo e o raio-mestre.Ares arreganhou um sorriso.- Bem, mas eu não <strong>os</strong> roubei pessoalmente. Deuses tirando símbol<strong>os</strong> <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r uns d<strong>os</strong> outr<strong>os</strong>,nã-nã-nã, isso é inaceitável. Mas você não é o único herói do mundo que po<strong>de</strong> dar recad<strong>os</strong>.- Quem você usou? Clarisse? Ela estava lá no solstício <strong>de</strong> inverno.A idéia pareceu diverti-lo.- Não importa. A questão, garoto, é que você está impedindo o esforço <strong>de</strong> guerra. Entenda, vocêprecisa morrer no Mundo Inferior. Então o Velho Alga do Mar vai ficar furi<strong>os</strong>o com Ha<strong>de</strong>s pormatá-lo. O Hálito <strong>de</strong> Cadáver ficará com o raio-mestre <strong>de</strong> Zeus, e assim Zeus ficará furi<strong>os</strong>o comele. E Ha<strong>de</strong>s ainda está procurando por isto...Ele tirou do bolso um capuz <strong>de</strong> esqui - do tipo que <strong>os</strong> ladrões <strong>de</strong> banco usam - e o colocou nomeio do guidão da sua moto. Imediatamente, o capuz se transformou em um elaborado capacete<strong>de</strong> guerra em bronze.- O elmo das trevas - arfou Grover.- Exatamente - disse Ares. - Mas on<strong>de</strong> é mesmo que eu estava? Ah, sim, Ha<strong>de</strong>s ficará furi<strong>os</strong>ocom amb<strong>os</strong>, Zeus e P<strong>os</strong>eidon, porque ele não sabe quem pegou isto. Logo logo terem<strong>os</strong> uma belapancadariazinha tríplice em andamento.


- Mas eles são a sua família! - protestou Annabeth.Ares encolheu <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.- O melhor tipo <strong>de</strong> guerra. Sempre a mais sangrenta. Nada como ficar olhando seus parenteslutarem, eu sempre digo.- Você me <strong>de</strong>u a mochila em Denver - disse eu. - O raio-mestre estava lá o tempo todo.- Sim e não - disse Ares. - Provavelmente é complicado <strong>de</strong>mais para o seu pequeno cérebromortal acompanhar, mas a mochila é a bainha do raio-mestre, apenas um pouco adaptada. O raioestá conectado a ela, tipo aquela sua espada, garoto. Ela sempre <strong>vol</strong>ta para o seu bolso, certo?Não estava bem certo <strong>de</strong> como Ares sabia disso, mas acho que um <strong>de</strong>us da guerra precisa tratar<strong>de</strong> conhecer tudo sobre armas.- De qualquer modo - continuou Ares - eu modifiquei a mágica um pouquinho, para que o rai<strong>os</strong>ó retornasse à bainha <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> você chegar ao Mundo Inferior. Chegou perto <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s... Bingo!Você recebeu um e-mail. Se você morresse no caminho, não haveria perda. Eu ainda teria a arma.- Mas por que você simplesmente não ficou com o raio para você? - disse eu. - Por que mandálopara Ha<strong>de</strong>s?O queixo <strong>de</strong> Ares crispou-se. Por um momento, foi quase como se ele estivesse ouvindo umaoutra voz, bem no fundo da cabeça.- Por que eu não... sim... com esse tipo <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> fogo...Ele manteve o transe por um segundo... dois segund<strong>os</strong>...Troquei olhares nerv<strong>os</strong><strong>os</strong> com Annabeth.A cara <strong>de</strong> Ares clareou.- Porque eu não queria ter problemas. Melhor você ser pego em flagrante, segurando a coisa.- Você está mentindo - disse eu. - Mandar o raio para o Mundo Inferior não foi idéia sua, foi?- É claro que foi! - Fumaça escapou por baixo d<strong>os</strong> seus ócul<strong>os</strong> escur<strong>os</strong>, como se eles estivessema ponto <strong>de</strong> pegar fogo.- Você não or<strong>de</strong>nou o roubo - adivinhei. - Alguém mais enviou um herói para roubar <strong>os</strong> doisitens. Então, quando Zeus mandou você caçá-lo, você pegou o ladrão. Mas você não o entregou aZeus. Alguma coisa o convenceu a <strong>de</strong>ixá-lo ir. Você guardou <strong>os</strong> itens até que outro herói pu<strong>de</strong>ssevir e completar a entrega.Aquela coisa no abismo está dando or<strong>de</strong>ns a você.- Eu sou o <strong>de</strong>us da guerra! Não aceito or<strong>de</strong>ns <strong>de</strong> ninguém! Eu não tenho sonh<strong>os</strong>!Eu hesitei.- Quem foi que disse alguma coisa sobre sonh<strong>os</strong>?Ares pareceu agitado, mas tentou encobrir isso com um sorriso forçado.- Vam<strong>os</strong> <strong>vol</strong>tar ao problema em pauta, garoto. Você está vivo. Eu não p<strong>os</strong>so <strong>de</strong>ixar que leveaquele raio para o Olimpo. Po<strong>de</strong> ser que consiga convencer aqueles idiotas cabeças-duras a ouvilo.Portanto preciso matá-lo. Não é nada pessoal.Ele estalou <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>. A areia explodiu a<strong>os</strong> seus pés e surgiu um javali feroz investindo, aindamaior e mais feio que aquele cuja cabeça estava pendurada acima da porta do chalé 7 doAcampamento Meio-Sangue. A besta escarvou a areia, olhando furi<strong>os</strong>amente para mim com olh<strong>os</strong>pequen<strong>os</strong> e brilhantes enquanto abaixava <strong>os</strong> presas afiadas como navalhas e aguardava a or<strong>de</strong>mpara matar.Eu entrei na arrebentação.- Enfrente-me você mesmo, Ares.


Ele riu, mas ouvi um pouco <strong>de</strong> tensão na sua risada... um certo constrangimento.- Você só tem um talento, garoto, que é fugir. Você fugiu da Quimera. Você fugiu do MundoInferior. Não tem coragem para me enfrentar.- Com medo?- Só n<strong>os</strong> seus sonh<strong>os</strong> <strong>de</strong> adolescente. - Mas seus ócul<strong>os</strong> escur<strong>os</strong> estavam começando a <strong>de</strong>rretercom o calor d<strong>os</strong> olh<strong>os</strong>. - Nada <strong>de</strong> en<strong>vol</strong>vimento direto. Sinto muito, garoto. Você não está no meunível.Annabeth disse:- Percy, corra!O javali gigante atacou.Mas eu já estava cansado <strong>de</strong> correr <strong>de</strong> monstr<strong>os</strong>. Ou <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s, ou <strong>de</strong> Ares, ou <strong>de</strong> qualquer um.Quando o javali investiu contra mim, eu <strong>de</strong>stampei minha caneta e <strong>de</strong>i um passo para o lado.Contracorrente apareceu nas minhas mã<strong>os</strong>. Dei um golpe para cima. A presa direita <strong>de</strong>cepada dojavali caiu a<strong>os</strong> meus pés, enquanto o animal <strong>de</strong>sorientado investia contra o mar.Eu gritei:- Onda!Imediatamente uma onda surgiu do nada e engolfou o javali, enrolando-se nele como umcobertor. A besta guinchou uma vez, aterrorizada. E então se foi, engolida pelo mar.Voltei-me novamente para Ares.- Você vai lutar comigo agora? - perguntei. - Ou vai se escon<strong>de</strong>r <strong>de</strong> novo atrás <strong>de</strong> um porquinho<strong>de</strong> estimação?A cara <strong>de</strong> Ares estava roxa <strong>de</strong> raiva.- Tome cuidado, garoto. Eu po<strong>de</strong>ria transformá-lo em...- Uma barata - disse eu. - Ou uma lombriga. Sim, eu tenho certeza. Isso o salvaria <strong>de</strong> ter o seudivino couro chicoteado, não é mesmo?Chamas dançaram por cima d<strong>os</strong> seus ócul<strong>os</strong>.- Ah, você realmente está pedindo para ser esmagado até virar uma poça <strong>de</strong> gordura.- Se eu per<strong>de</strong>r, me transforme no que quiser. Fique com o raio. Se eu vencer, o elmo e o raio sãomeus, e você tem <strong>de</strong> ir embora.Ares me olhou com uma expressão <strong>de</strong> escárnio.Ele brandiu o bastão <strong>de</strong> beisebol que trazia ao ombro.- Como g<strong>os</strong>taria <strong>de</strong> ser esmagado: modo clássico ou mo<strong>de</strong>rno?Eu lhe m<strong>os</strong>trei a minha espada.- Legal, menino morto - disse ele. - Modo clássico então. - O bastão <strong>de</strong> beisebol transformou-seem uma enorme espada <strong>de</strong> duas mã<strong>os</strong>. A guarda era uma gran<strong>de</strong> caveira <strong>de</strong> prata com um rubi naboca.- Percy - disse Annabeth. - Não faça isso. Ele é um <strong>de</strong>us.- Ele é um covar<strong>de</strong> - disse eu para ela. Ela engoliu em seco.- Use isto pelo men<strong>os</strong>. Para dar sorte.Ela tirou o seu colar, com cinco an<strong>os</strong> <strong>de</strong> contas do acampamento e o anel do pai <strong>de</strong>la e colocouem <strong>vol</strong>ta do meu pescoço.- Reconciliação - disse ela. - Atena e P<strong>os</strong>eidon junt<strong>os</strong>. Meu r<strong>os</strong>to ficou um pouco quente, masconsegui sorrir.- Obrigado.


- E pegue isto - disse Grover. Ele me entregou uma lata achatada que parecia estar no seu bolsohá mil quilômetr<strong>os</strong>. - Os sátir<strong>os</strong> lhe dão respaldo.- Grover... eu não sei o que dizer.Ele me <strong>de</strong>u uma palmadinha no ombro. Enfiei a lata no meu bolso <strong>de</strong> trás.- Vocês já se <strong>de</strong>spediram? - Ares veio em minha direção, o comprido casaco <strong>de</strong> couro preto searrastando atrás <strong>de</strong>le, a espada faiscando como fogo ao nascer do sol. - Eu venho lutando há umaeternida<strong>de</strong>, garoto.Minha força é ilimitada e eu não p<strong>os</strong>so morrer. O que você tem?Um ego menor, pensei, mas não disse nada. Mantive <strong>os</strong> pés na arrebentação, recuando na águaaté <strong>os</strong> tornozel<strong>os</strong>. Pensei no que Annabeth havia dito no restaurante <strong>de</strong> Denver, tanto tempo atrás:Ares tem força. É tudo o que ele tem. Mesmo a força às vezes tem <strong>de</strong> se curvar à sabedoria.Ele <strong>de</strong>sceu a espada, tentando rachar ao meio a minha cabeça, mas eu não estava lá.Meu corpo pensava por mim. A água pareceu me empurrar para o ar e eu me lancei para cima<strong>de</strong>le, golpeando para o lado com a espada ao <strong>de</strong>scer. Mas Ares foi igualmente rápido. Torceu ocorpo e o golpe que <strong>de</strong>veria tê-lo pego diretamente na espinha foi <strong>de</strong>sviado para fora pela guardada sua espada.Ele sorriu.- Nada mau, nada mau.Ele atacou <strong>de</strong> novo e fui forçado a pular para a terra seca. Tentei sair <strong>de</strong> lado, para <strong>vol</strong>tar à água,mas Ares parecia saber o que eu queria. Ele foi mais habilid<strong>os</strong>o, me pressionando tanto que tive <strong>de</strong>me concentrar totalmente em não ser cortado em pedaç<strong>os</strong>. Continuei recuando para longe daarrebentação.Não conseguia achar nenhuma abertura para atacar. O alcance da espada-<strong>de</strong>le era bem maiorque o <strong>de</strong> Anaklusm<strong>os</strong>.Chegue perto, Luke me dissera uma vez, em n<strong>os</strong>sa aula <strong>de</strong> esgrima. Quando a sua lâmina é amais curta, chegue perto.Avancei com uma estocada, mas Ares estava esperando por isso. Ele arrancou a espada dasminhas mã<strong>os</strong> e me chutou no peito. Eu saí voando — cinco, talvez <strong>de</strong>z metr<strong>os</strong>.Teria quebrado asc<strong>os</strong>tas se não tivesse <strong>de</strong>sabado sobre a areia fofa <strong>de</strong> uma duna.- Percy! - gritou Annabeth. - Polícia!Estava vendo tudo dobrado. Parecia que o meu peito tinha sido atingido por um aríete, masconsegui me pôr em pé.Eu não podia <strong>de</strong>sviar <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ares por medo <strong>de</strong> que ele me cortasse ao meio, mas com ocanto do olho vi as luzes vermelhas piscando na avenida beira-mar. Portas <strong>de</strong> carr<strong>os</strong> batiam.- Ali, guarda! - gritou alguém. - Está vendo?Uma voz brusca <strong>de</strong> policial:- Parece aquele garoto da tevê... que diabo...- Aquele cara está armado - disse outro policial. - Peça reforç<strong>os</strong>.Rolei para o lado e a lâmina <strong>de</strong> Ares cortou a areia.Corri para a minha espada, peguei-a e <strong>de</strong>sferi um golpe contra o r<strong>os</strong>to <strong>de</strong> Ares, apenas para ver aminha lâmina <strong>de</strong>sviada <strong>de</strong> novo.Ares parecia saber exatamente o que eu ia fazer um momento antes.Recuei para a arrebentação, forçando-o a me seguir.- Admita, garoto - disse Ares. - Você está perdido. Estou só brincando com você.


Meus sentid<strong>os</strong> estavam fazendo hora extra. Agora eu entendia o que Annabeth dissera sobrecomo o transtorno do déficit <strong>de</strong> atenção po<strong>de</strong> manter você vivo na batalha. Eu estava totalmente<strong>de</strong>sperto, notando cada pequeno <strong>de</strong>talhe.Eu podia ver on<strong>de</strong> Ares estava se retesando. Podia dizer <strong>de</strong> que lado ia atacar. Ao mesmotempo, tinha consciência <strong>de</strong> Annabeth e Grover, <strong>de</strong>z metr<strong>os</strong> à minha esquerda. Vi uma segundaviatura parando, a sirene uivando. Espectadores, pessoas que perambula viam pelas ruas por causado terremoto, começavam a se juntar.No meio da multidão, pensei ver alguns andando com aquele estranho passo <strong>de</strong> trote <strong>de</strong> sátir<strong>os</strong>disfarçad<strong>os</strong>. Havia também vult<strong>os</strong> rebrilhantes <strong>de</strong> espírit<strong>os</strong>, como se <strong>os</strong> mort<strong>os</strong> tivessem seerguido do Ha<strong>de</strong>s para assistir à batalha. Ouvi o bater <strong>de</strong> asas coriáceas circulando em algum lugaracima.Mais sirenes.Avancei mais para <strong>de</strong>ntro da água, mas Ares foi rápido. A ponta da sua espada rasgou a mangada minha roupa e roçou o meu antebraço.A voz <strong>de</strong> um policial no megafone disse: - Larguem as espingardas! Coloquem na areia. Agora!Espingardas?Olhei para a arma <strong>de</strong> Ares, e ela parecia estar tremeluzindo; às vezes parecia uma espingarda, àsvezes uma espada <strong>de</strong> duas mã<strong>os</strong>. Eu não sabia o que <strong>os</strong> seres human<strong>os</strong> estavam vendo nas minhasmã<strong>os</strong>, mas tinha certeza <strong>de</strong> que não <strong>os</strong> faria g<strong>os</strong>tar <strong>de</strong> mim.Ares virou-se para olhar ferozmente para <strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> espectadores, o que me <strong>de</strong>u um momentopara respirar. Havia cinco viaturas <strong>de</strong> polícia agora, e uma fileira <strong>de</strong> policiais abaixad<strong>os</strong> atrás<strong>de</strong>las, com pistolas apontadas para nós.- Este é um assunto particular! - berrou Ares. - Vão embora!Ele fez um movimento circular com a mão, e uma pare<strong>de</strong> <strong>de</strong> chamas vermelhas passou atravésdas viaturas. Os policiais mal tiveram tempo <strong>de</strong> mergulhar para se proteger antes <strong>de</strong> <strong>os</strong> carr<strong>os</strong>explodirem. A multidão se dispersou a<strong>os</strong> grit<strong>os</strong>.Ares soltou uma gargalhada retumbante.- Agora, heroizinho. Vam<strong>os</strong> acrescentar você ao churrasco.Ele golpeou. Eu <strong>de</strong>sviei da lâmina. Cheguei perto o bastante para atacar, tentei enganá-lo comuma ginga, mas o meu golpe foi rechaçado. As ondas agora estavam me atingindo nas c<strong>os</strong>tas. Aresestava mergulhado até as coxas, avançando atrás <strong>de</strong> mim.Senti o ritmo do mar, as ondas ficando maiores enquanto a maré avançava, e <strong>de</strong> repente tiveuma idéia.Ondas pequenas, pensei. E a água atrás <strong>de</strong> mim pareceu recuar. Eu estava segurando a marécom a força da minha vonta<strong>de</strong>, mas a tensão se acumulava, como gás carbônico atrás <strong>de</strong> umarolha.Ares avançou, sorrindo confiante. Eu abaixei a minha lâmina, como se estivesse exausto <strong>de</strong>maispara pr<strong>os</strong>seguir. Aguar<strong>de</strong>, eu disse para o mar. A pressão agora estava quase me levantando acimad<strong>os</strong> pés.Ares ergueu a espada. Eu liberei a maré e pulei, subindo como um rojão em uma onda, passandodiretamente por cima <strong>de</strong> Ares. Uma pare<strong>de</strong> <strong>de</strong> dois metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> água o atingiu em cheio no r<strong>os</strong>to, eele ficou praguejando e cuspindo com a boca cheia <strong>de</strong> algas. Caí em pé atrás <strong>de</strong>le, espirrando água,e simulei um ataque em direção à cabeça <strong>de</strong>le, como já havia feito. Ele se virou a tempo <strong>de</strong> erguera espada, mas <strong>de</strong>ssa vez estava <strong>de</strong>sorientado e não previu o truque. Mu<strong>de</strong>i <strong>de</strong> direção, investi para


o lado e man<strong>de</strong>i Contracorrente diretamente para baixo na água, enfiando a ponta no calcanhar do<strong>de</strong>us.O rugido que se seguiu fez o terremoto do Ha<strong>de</strong>s parecer um evento menor. O próprio marexplodiu para longe <strong>de</strong> Ares, <strong>de</strong>ixaindo um círculo <strong>de</strong> areia molhada com quinze metr<strong>os</strong> <strong>de</strong>diâmetro.Icor, o sangue dourado d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, jorrou <strong>de</strong> um talho profundo na bota do <strong>de</strong>us. A expressão n<strong>os</strong>eu r<strong>os</strong>to ia além do ódio. Era dor, choque, incredulida<strong>de</strong> total por ter sido ferido.Ele veio mancando na minha direção, resmungando antigas pragas gregas.Alguma coisa o <strong>de</strong>teve.Era como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, mas pior. A luz foi sumindo. Sons e cores seextinguiram. Uma presença fria e pesada passou sobre a praia, retardando o tempo, diminuindo atemperatura até o congelamento, e fazendo-me sentir que a vida não valia a pena, que lutar erainútil.As trevas se dissiparam.Ares parecia aturdido.As viaturas da polícia ardiam atrás <strong>de</strong> nós. A multidão <strong>de</strong> espectadores fugira. Annabeth eGrover estavam plantad<strong>os</strong> na praia, em choque, observando a água se <strong>de</strong>rramar <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta em tornod<strong>os</strong> pés <strong>de</strong> Ares, e o seu luminescente icor dourado se diluindo na maré.Ares abaixou a espada.- Você fez um inimigo, filhote <strong>de</strong> <strong>de</strong>us - disseme ele. - Você selou o seu <strong>de</strong>stino. A cada vez queerguer a sua lâmina em batalha, a cada vez que você esperar sucesso, sentirá a minha maldição.Cuidado, Perseu Jackson. Cuidado.Seu corpo começou a brilhar.- Percy! - gritou Annabeth. - Não olhe!Virei-me enquanto o <strong>de</strong>us Ares revelava sua verda<strong>de</strong>ira forma imortal. De algum modo eu sabiaque, se olhasse, iria me <strong>de</strong>sintegrar em cinzas.A luz se extinguiu.Olhei para trás. Ares se fora. A maré recuou para revelar o elmo <strong>de</strong> bronze das trevas <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s.Eu o recolhi e fui andando na direção d<strong>os</strong> meus amig<strong>os</strong>.Mas, antes <strong>de</strong> chegar lá, ouvi o bater <strong>de</strong> asas <strong>de</strong> couro. Três vovós <strong>de</strong> aparência maligna comchapéus <strong>de</strong> renda e chicotes flamejantes <strong>de</strong>sceram do céu e pousaram diante <strong>de</strong> mim.A Fúria do meio, a que tinha sido a sra. Dodds, <strong>de</strong>u um passo à frente. Seus canin<strong>os</strong> estavamexp<strong>os</strong>t<strong>os</strong>, mas pela primeira vez não tinha um aspecto ameaçador. Parecia mais <strong>de</strong>sapontada,como se tivesse planejado me comer na ceia, mas percebera que eu podia lhe dar indigestão.- Nós vim<strong>os</strong> tudo - sibilou ela. - Então... realmente não foi você?Joguei o capacete para ela, e ela o agarrou, surpresa.- De<strong>vol</strong>va isto ao Senhor Ha<strong>de</strong>s - disse eu. - Conte-lhe a verda<strong>de</strong>. Diga-lhe para cancelar aguerra.Ela hesitou, <strong>de</strong>pois passou uma língua bifurcada pel<strong>os</strong> lábi<strong>os</strong> coriáce<strong>os</strong> ver<strong>de</strong>s.- Viva bem, Percy Jackson. Torne-se um verda<strong>de</strong>iro herói. Porque, se você não o fizer, se algumdia cair nas minhas garras <strong>de</strong> novo...Ela cacarejou, saboreando a idéia. Então ela e as irmãs levantaram vôo em suas asas <strong>de</strong>morcego, pairaram no céu cheio <strong>de</strong> fumaça e <strong>de</strong>sapareceram.Juntei-me a Grover e Annabeth, que olhavam para mim assombrad<strong>os</strong>.


- Percy... - disse Grover. - Aquilo foi tão incrivelmente...- Aterrorizante - disse Annabeth.- Legal! - corrigiu Grover.Eu não me sentia aterrorizado. Certamente não me sentia legal. Estava cansado, doído e semnenhuma energia.- Vocês sentiram aquele... o que era aquilo? - perguntei.Os dois assentiram, constrangid<strong>os</strong>.- Devem ser as Fúrias lá no alto - disse Grover.Mas eu não tinha tanta certeza. Alguma coisa impedira Ares <strong>de</strong> me matar, e o que quer quepu<strong>de</strong>sse fazer isso era muito mais forte do que as Fúrias.Olhei para Annabeth, e tivem<strong>os</strong> a mesma sacação. Agora eu sabia o que estava naquele abismo,o que havia falado da entrada do Tártaro.Resgatei a minha mochila com Grover e olhei <strong>de</strong>ntro. O raio-mestre ainda estava lá. Uma coisatão pequena quase causara a Terceira Guerra Mundial.- Tem<strong>os</strong> <strong>de</strong> <strong>vol</strong>tar a Nova York - disse eu. - Esta noite.- É imp<strong>os</strong>sível - disse Annabeth -, a não ser que nós...- Fôssem<strong>os</strong> voando — completei. Ela arregalou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para mim.- Voando, tipo num avião, coisa que avisaram você para nunca fazer, para que Zeus não ofulmine para fora do céu, e ainda for cima carregando uma arma que tem mais po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>strutivo doque uma bomba nuclear?- É - disse eu. - Mais ou men<strong>os</strong> isso. Vam<strong>os</strong>.VINTE E UM – Meu acerto <strong>de</strong> contas.É gozado como <strong>os</strong> seres human<strong>os</strong> são capazes <strong>de</strong> enrolar a sua mente em <strong>vol</strong>ta das coisas eencaixá-las na sua versão <strong>de</strong> realida<strong>de</strong>. Quíron me contara isso muito tempo atrás. Como <strong>de</strong>c<strong>os</strong>tume, eu só <strong>de</strong>i bola para sua sabedoria muito tempo <strong>de</strong>pois.De acordo com as notícias <strong>de</strong> L<strong>os</strong> Angeles, a expl<strong>os</strong>ão na praia <strong>de</strong> Santa Monica tinha sidocausada quando um seqüestrador enlouquecido disparou uma espingarda contra uma viatura dapolícia. Ele aci<strong>de</strong>ntalmente atingiu um tubo principal <strong>de</strong> gás que se rompera durante o terremoto.Esse seqüestrador enlouquecido (também conhecido como Ares) era o mesmo homem que meabduzira com dois outr<strong>os</strong> adolescentes em New York e n<strong>os</strong> trouxera até o outro lado do país emuma odisséia <strong>de</strong> terror que durara <strong>de</strong>z dias.O pobrezinho do Percy Jackson, afinal, não era um crimin<strong>os</strong>o internacional. Ele causara umacomoção naquele ônibus da Greyhound em New Jersey tentando escapar do seu seqüestrador (e<strong>de</strong>pois, testemunhas chegaram a jurar que tinham visto o homem <strong>de</strong> roupa <strong>de</strong> couro no ônibus -"Por que não me lembrei <strong>de</strong>le antes?"). O homem enlouquecido causara a expl<strong>os</strong>ão no Arco <strong>de</strong> St.Louis. Afinal, nenhum garotinho po<strong>de</strong>ria ter feito aquilo. Uma garçonete preocupada <strong>de</strong> Denvervira o homem ameaçar seus seqüestrad<strong>os</strong> do lado <strong>de</strong> fora do seu restaurante, chamara um amigopara tirar uma foto, e notificara a polícia. Finalmente, o bravo Percy Jackson (eu estavacomeçando a g<strong>os</strong>tar <strong>de</strong>sse menino) subtraíra uma espingarda do seu seqüestrador em L<strong>os</strong> Angelese lutara contra ele, espingarda contra rifle, na praia. A polícia chegara bem a tempo. Mas, naespetacular expl<strong>os</strong>ão, cinco viaturas da polícia foram <strong>de</strong>struídas e o seqüestrador fugira. Nãohouve mortes. Percy Jackson e seus dois amig<strong>os</strong> estavam em segurança, sob custódia da polícia.Os repórteres n<strong>os</strong> forneceram essa história inteira. Nós apenas assentim<strong>os</strong> e n<strong>os</strong> fizem<strong>os</strong> <strong>de</strong>


chor<strong>os</strong><strong>os</strong> e exaust<strong>os</strong> (o que não foi difícil), e representam<strong>os</strong> o papel <strong>de</strong> crianças vitimizadas paraas câmeras.- Tudo o que eu quero - disse eu, contendo as lágrimas -, é ver o meu adorado padrasto <strong>de</strong> novo.Toda vez que o via na tevê me chamando <strong>de</strong> punk <strong>de</strong>linqüente, eu sabia... <strong>de</strong> algum modo... quetudo ia dar certo. E eu sei que ele vai querer recompensar uma por uma todas as pessoas <strong>de</strong>stalinda cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> L<strong>os</strong> Angeles com um eletrodoméstico grátis, d<strong>os</strong> gran<strong>de</strong>s, da sua loja. Aqui está onúmero do telefone. - A polícia e <strong>os</strong> repórteres ficaram tão comovid<strong>os</strong> que passaram o chapéu elevantaram dinheiro para três passagens no próximo avião para Nova York.Eu sabia que não havia escolha senão voar. Esperava que Zeus me <strong>de</strong>sse algum tempo <strong>de</strong>lambuja, consi<strong>de</strong>radas as circunstâncias. Mas ainda assim foi difícil me forçar a embarcar no vôo.A <strong>de</strong>colagem foi um pesa<strong>de</strong>lo. Cada momento <strong>de</strong> turbulência era mais assustador que ummonstro grego.Eu não larguei d<strong>os</strong> braç<strong>os</strong> da poltrona até pousarm<strong>os</strong> em segurança no aeroporto <strong>de</strong> La Guardia.A imprensa local aguardava por nós do lado <strong>de</strong> fora da segurança, mas conseguim<strong>os</strong> escapargraças a Annabeth, que atraiu para longe com o seu boné d<strong>os</strong> Yankees invisível, gritando: - Elesestão lá, perto da sorveteria! Venham! — e <strong>de</strong>pois juntou a nós na área <strong>de</strong> retirada <strong>de</strong> bagagem.Separamo-n<strong>os</strong> no ponto <strong>de</strong> táxi. Eu disse a Annabeth e Grover para <strong>vol</strong>tar à Colina Meio-Sanguee contar a Quíron o que acontecera. Eles protestaram, e era difícil <strong>de</strong>ixá-l<strong>os</strong> partir <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> tudoque passam<strong>os</strong> junt<strong>os</strong>, mas eu sabia que tinha <strong>de</strong> cumprir essa última parte da minha missã<strong>os</strong>ozinho. Se as coisas <strong>de</strong>ssem errado, se <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses não acreditassem em mim... eu queria queAnnabeth e Grover sobrevivessem para contar a verda<strong>de</strong> a Quíron.Embarquei em um táxi e segui para Manhattan.*****Trinta minut<strong>os</strong> <strong>de</strong>pois, entrei no saguão do Edifício Empire State. Devo ter parecido umacriança abandonada, com minhas roupas esfarrapadas e minha cara toda arranhada. Eu não dormiahavia pelo men<strong>os</strong> vinte e quatro horas.Fui até o guarda na mesa da recepção e disse: - Seiscentésimo andar.Ele estava lendo um livro enorme com a figura <strong>de</strong> um feiticeiro na capa. Eu não curto muitofantasia, mas acho que o livro era bom, porque o guarda levou algum tempo para erguer <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Esse andar não existe, garoto.- Eu preciso <strong>de</strong> uma audiência com Zeus. Ele me <strong>de</strong>u um sorriso vago.- O quê?- Você me ouviu.Eu já estava quase concluindo que aquele cara era apenas um mortal comum, e era melhor eucorrer antes que ele chamasse a patrulha da camisa-<strong>de</strong>-força, quando ele disse: - Sem horamarcada, nada <strong>de</strong> audiência, garoto. O Senhor Zeus não aten<strong>de</strong> ninguém sem aviso prévio.- Ah, eu acho que ele vai abrir uma exceção. - Tirei a mochila das c<strong>os</strong>tas e abri o zíper.O guarda olhou para o cilindro metálico lá <strong>de</strong>ntro sem enten<strong>de</strong>r o que era por alguns segund<strong>os</strong>.Então seu r<strong>os</strong>to empali<strong>de</strong>ceu.- Isto não é...- Sim, é - garanti. - Você quer que eu o tire e...- Não! Não! - Ele se ergueu atabalhoadamente da sua ca<strong>de</strong>ira, tateou em <strong>vol</strong>ta da mesaprocurando um cartão-chave, e o entregou para mim. - Insira na fenda <strong>de</strong> segurança. Certifique-se<strong>de</strong> que ninguém mais esteja no elevador com você.


Fiz o que ele me disse. Assim que as portas do elevador se fecharam, enfiei o cartão na fenda. Ocartão <strong>de</strong>sapareceu e um novo botão apareceu no quadro, um botão vermelho que dizia 600.Apertei e esperei, e esperei.Havia música tocando. "Raindrops keepfalling on my head..."Finalmente, plim. As portas se abriram. Saí e quase tive um ataque do coração.Eu estava em um estreito caminho <strong>de</strong> pedra no meio do ar. Abaixo <strong>de</strong> mim se encontravaManhattan, da altura <strong>de</strong> um avião. Diante <strong>de</strong> mim, <strong>de</strong>graus <strong>de</strong> mármore branco subiam em espiralpelo meio <strong>de</strong> uma nuvem até o céu. Meus olh<strong>os</strong> seguiram a escada até o fim, on<strong>de</strong> meu cérebr<strong>os</strong>implesmente não pô<strong>de</strong> aceitar o que vi.Olhem outra vez, disse meu cérebro.Estam<strong>os</strong> olhando, meus olh<strong>os</strong> insistiram. Está realmente lá.Do topo das nuvens se erguia o pico <strong>de</strong>capitado <strong>de</strong> uma montanha, o cume coberto <strong>de</strong> neve. Naenc<strong>os</strong>ta da montanha havia dúzias <strong>de</strong> paláci<strong>os</strong> com vári<strong>os</strong> níveis - uma cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mansões -, tod<strong>os</strong>com pórtic<strong>os</strong> <strong>de</strong> colunas brancas, terraç<strong>os</strong> dourad<strong>os</strong> e braseir<strong>os</strong> <strong>de</strong> bronze brilhando com milfog<strong>os</strong>. Estradas se enr<strong>os</strong>cavam <strong>de</strong> um jeito maluco até o pico, on<strong>de</strong> o maior d<strong>os</strong> paláci<strong>os</strong>resplan<strong>de</strong>cia contra a neve. Jardins precariamente encarapitad<strong>os</strong> floresciam com oliveiras er<strong>os</strong>eiras. Pu<strong>de</strong> distinguir um mercado a céu aberto cheio <strong>de</strong> tendas coloridas, um anfiteatro <strong>de</strong>pedra construído em um lado da montanha, um hipódromo e um coliseu do outro. Era uma cida<strong>de</strong>grega antiga, só que não estava em ruínas. Era nova, limpa e colorida, como Atenas <strong>de</strong>ve ter sidohá dois mil e quinhent<strong>os</strong> an<strong>os</strong>.Este palácio não po<strong>de</strong> estar aqui, disse para mim mesmo. A ponta <strong>de</strong> uma montanha penduradaem cima da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Nova York como um asterói<strong>de</strong> <strong>de</strong> um bilhão <strong>de</strong> toneladas? Como podia umacoisa assim estar ancorada acima do Edifício Empire Statem a plena vista <strong>de</strong> milhões <strong>de</strong> pessoas,e não ser notada?Mas aqui estava. E aqui estava eu.Minha viagem pelo Olimpo foi <strong>de</strong>slumbrante. Passei por algumas ninfas das florestas que<strong>de</strong>ram risadinhas e me atiraram azeitonas do seu pomar. No mercado, mascates se oferecerampara ven<strong>de</strong>r ambr<strong>os</strong>ia-no-palito, um escudo novo e uma réplica genuína do Velocino <strong>de</strong> Ouro emtecido cintilante, conforme anunciado na tevê Hefesto. As nove musas afinavam seus instrument<strong>os</strong>para um concerto no parque enquanto uma pequena multidão se reunia - sátir<strong>os</strong>, náia<strong>de</strong>s e umbando <strong>de</strong> adolescentes <strong>de</strong> boa aparência que talvez f<strong>os</strong>sem <strong>de</strong>uses e <strong>de</strong>usas menores. Ninguémparecia preocupado com uma guerra civil iminente. De fato, todo mundo parecia estar num estado<strong>de</strong> ânimo festivo. Vári<strong>os</strong> se <strong>vol</strong>taram para me ver passar e cochicharam entre si.Subi pela estrada principal rumo ao gran<strong>de</strong> palácio no pico. Era uma cópia invertida do paláciono Mundo Inferior. Lá, tudo era preto e bronze. Aqui, tudo rebrilhava em branco e prata.Dei-me conta <strong>de</strong> que Ha<strong>de</strong>s <strong>de</strong>ve ter construído o seu palácio para se parecer com este. Ele nãoera bem-vindo no Olimpo, exceto no solstício <strong>de</strong> inverno, então construiu seu próprio Olimpoembaixo da terra. A <strong>de</strong>speito da minha má experiência com ele, senti pena do cara. Ser banido<strong>de</strong>ste palácio parecia realmente injusto. Era <strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar qualquer um amargo.Degraus levavam a um pátio central. Além <strong>de</strong>le, a sala do trono.Sala não é exatamente a palavra certa. O lugar fazia a Gran<strong>de</strong> Estação Central parecer umarmário <strong>de</strong> vassouras. Colunas maciças se erguiam até um teto abobadado, que era <strong>de</strong>corado comconstelações que se moviam.Doze tron<strong>os</strong>, construíd<strong>os</strong> para seres do tamanho <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s, estavam arrumad<strong>os</strong> em um U


invertido, exatamente como <strong>os</strong> chalés do Acampamento Meio-Sangue. Uma enorme fogueiracrepitava no braseiro central. Os tron<strong>os</strong> estavam vazi<strong>os</strong> com exceção <strong>de</strong> dois no fim: o tronoprincipal à direita e um imediatamente à sua esquerda. Ninguém precisou me dizer quem eram <strong>os</strong>dois <strong>de</strong>uses que estavam sentad<strong>os</strong> lá, esperando que eu me aproximasse. Cheguei à frente <strong>de</strong>lescom as pernas tremendo.Os <strong>de</strong>uses estavam em forma humana gigante, como Ha<strong>de</strong>s estivera, mas eu mal podia olharpara eles sem sentir um formigamento, como se o meu corpo estivesse começando a queimar.Zeus, o Senhor d<strong>os</strong> Deuses, usava um terno risca-<strong>de</strong>-giz azul-escuro. Estava sentado em um tron<strong>os</strong>imples <strong>de</strong> platina maciça.Tinha uma barba bem aparada, cinza-mármore e preta, como uma nuvem <strong>de</strong> tempesta<strong>de</strong>. Seur<strong>os</strong>to era orgulh<strong>os</strong>o belo e severo, <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> tinham o tom cinzento da chuva.Quando me aproximei <strong>de</strong>le, o ar estralejou e senti cheiro <strong>de</strong> ozônio.O <strong>de</strong>us sentado ao lado <strong>de</strong>le era seu irmão, sem dúvida, mas estava vestido <strong>de</strong> modo muitodiferente.Lembrou-me um catador <strong>de</strong> praia <strong>de</strong> Key West. Usava sandálias <strong>de</strong> couro, bermudas caqui euma camisa marca Tommy Bahama toda estampada <strong>de</strong> coqueir<strong>os</strong> e papagai<strong>os</strong>. Sua pele tinha umbronzeado escuro e as mã<strong>os</strong> eram marcadas <strong>de</strong> cicatrizes como as <strong>de</strong> um velho pescador. O cabeloera preto, como o meu.Seu r<strong>os</strong>to tinha o mesmo ar taciturno que sempre me fez ser rotulado <strong>de</strong> rebel<strong>de</strong>. Mas <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>,ver<strong>de</strong>-mar como <strong>os</strong> meus, eram ro<strong>de</strong>ad<strong>os</strong> <strong>de</strong> rugas que me diziam que ele também sorria muito.Os <strong>de</strong>uses não estavam se movendo nem falando, mas havia tensão no ar, como se tivessemacabado <strong>de</strong> discutir.Aproximei-me do trono do pescador e me ajoelhei a<strong>os</strong> seus pés.- Pai. - Não ousei olhar para cima. Meu coração estava disparado, eu podia sentir a energia queemanava d<strong>os</strong> dois <strong>de</strong>uses. Se eu dissesse a coisa errada, não havia dúvida <strong>de</strong> que eles po<strong>de</strong>riam mereduzir a pó.A minha esquerda, Zeus falou:- Você não <strong>de</strong>veria se dirigir primeiro ao senhor <strong>de</strong>sta casa, menino?Mantive a cabeça baixa e esperei.- Paz, irmão - disse por fim P<strong>os</strong>eidon. Sua voz mexeu com as minhas lembranças mais antigas:aquela sensação morna <strong>de</strong> que me lembrava, <strong>de</strong> quando eu era bebê, a sensação da sua mão <strong>de</strong><strong>de</strong>us sobre a minha testa. - O menino submete-se ao seu pai. Está certo.- Então você ainda o reclama como seu? - perguntou Zeus, ameaçadoramente. - Você reclamaesta criança que procriou contrariando o n<strong>os</strong>so sagrado juramento?- Eu admiti a minha transgressão - disse P<strong>os</strong>eidon. - E agora vou ouvi-lo falar.Transgressão.Senti um nó na garganta. Era isso tudo o que eu era? Uma transgressão? O resultado do erro <strong>de</strong>um <strong>de</strong>us?- Eu já o poupei uma vez - resmungou Zeus. - Ousando voar através d<strong>os</strong> meus domíni<strong>os</strong>... bah!Eu <strong>de</strong>via tê-lo mandado pel<strong>os</strong> ares, para fora do céu pelo seu atrevimento.- E correr o risco <strong>de</strong> <strong>de</strong>struir seu próprio raio-mestre? - perguntou P<strong>os</strong>eidon calmamente. -Vam<strong>os</strong> ouvi-lo, irmão.Zeus resmungou mais um pouco.- Ouvirei - resolveu. - E então <strong>de</strong>cidirei se atirarei ou não este menino para fora do Olimpo.


- Perseu - disse P<strong>os</strong>eidon. - Olhe para mim.Fiz isso, e não sei ao certo o que vi no seu r<strong>os</strong>to. Não havia sinal claro <strong>de</strong> amor ou aprovação.Nada para me encorajar. Era como olhar para o oceano: em alguns dias, era p<strong>os</strong>sível dizer comoestava o seu humor. Na maioria d<strong>os</strong> dias, no entanto, era imp<strong>os</strong>sível <strong>de</strong> ler, misteri<strong>os</strong>o.Tive a sensação <strong>de</strong> que P<strong>os</strong>eidon na verda<strong>de</strong> não sabia o que pensar <strong>de</strong> mim. Não sabia se estavafeliz por ter-me como filho ou não. De um modo estranho, eu estava contente por P<strong>os</strong>eidon estartão distante.Se ele tivesse tentado se <strong>de</strong>sculpar, ou dito que me amava, ou mesmo sorrido, teria parecidofalso. Como um pai humano, dando alguma <strong>de</strong>sculpa pouco convincente por não estar presente. Eupo<strong>de</strong>ria viver com isso. Afinal, eu mesmo também não estava muito seguro a respeito <strong>de</strong>le.- Dirija-se ao Senhor Zeus, menino - disseme P<strong>os</strong>eidon.- Conte a ele a sua história.Então contei tudo a Zeus, exatamente como havia acontecido. Tirei da mochila o cilindro <strong>de</strong>metal, que começou a fagulhar na presença do Deus do Céu, e o pus a<strong>os</strong> seus pés.Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelo crepitar do fogo no braseiro.Zeus abriu a palma da sua mão. O raio voou para <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>la. Quando ele fechou o punho, <strong>os</strong>pont<strong>os</strong> metálic<strong>os</strong> fulguraram com eletricida<strong>de</strong>, até ele ficar segurando o que parecia mais umrelâmpago clássico, um dardo <strong>de</strong> seis metr<strong>os</strong> feito <strong>de</strong> energia com centelhas chiantes que fez <strong>os</strong>meus cabel<strong>os</strong> se eriçarem.- Sinto que o menino diz a verda<strong>de</strong> - murmurou Zeus.- Mas não é nada típico <strong>de</strong> Ares fazer uma coisa assim.- Ele é orgulh<strong>os</strong>o e impulsivo - disse P<strong>os</strong>eidon. - E coisa <strong>de</strong> família.- Senhor? - chamei. Amb<strong>os</strong> disseram:- Sim?- Ares não agiu sozinho. Outra pessoa - ou outra coisa teve a idéia.Descrevi <strong>os</strong> meus sonh<strong>os</strong> e a sensação que tive na praia, o momentâneo hálito do mal queparecera parar o mundo e fizera Ares <strong>de</strong>sistir <strong>de</strong> me matar.- N<strong>os</strong> meus sonh<strong>os</strong> - disse eu -, a voz me disse para levar o raio ao Mundo Inferior. Aresinsinuou que também estava tendo sonh<strong>os</strong>. Acho que ele estava sendo usado, assim como eu, parcomeçar uma guerra.- Você está acusando Ha<strong>de</strong>s, afinal? - perguntou Zeus.- Não - disse eu. - Quer dizer, Senhor Zeus, eu estive na presença <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s. A sensação na praiafoi diferente. Era a mesma coisa que senti quando cheguei perto daquele abismo. Aquela eraentrada para o Tártaro, não era? Alguma coisa po<strong>de</strong>r<strong>os</strong>a e maligna está se agitando lá embaixo...alguma coisa ainda mais antiga que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses.P<strong>os</strong>eidon e Zeus se entreolharam. Eles tiveram uma rápida e intensa discussão em grego antigo.Só peguei uma palavra. Pai.P<strong>os</strong>eidon fez algum tipo <strong>de</strong> sugestão, mas Zeus o cortou. P<strong>os</strong>eidon tentou discutir. Zeus ergueua mão, zangado.- Não vam<strong>os</strong> mais falar disso - disse Zeus. - Preciso ir pessoalmente purificar este raio naságuas <strong>de</strong> Lemn<strong>os</strong>, para remover a mácula humana do seu metal. - Ele se levantou e olhou paramim. Sua expressão se suavizou uma fração <strong>de</strong> um grau.- Você me prestou um serviço, menino. Pouc<strong>os</strong> heróis po<strong>de</strong>riam ter conseguido tanto.- Eu tive ajuda, senhor - disse eu. - Grover Un<strong>de</strong>rwood e Annabeth Chase...- Para <strong>de</strong>monstrar minha gratidão, pouparei sua vida. Não confio em você, Perseu Jackson. Não


g<strong>os</strong>to do que a sua chegada significa para o futuro do Olimpo. Mas, em nome da paz na família, euo <strong>de</strong>ixarei viver.- Ahn... obrigado, senhor.- Não ouse voar <strong>de</strong> novo. Não me <strong>de</strong>ixe encontrá-lo aqui quando eu <strong>vol</strong>tar. Ou irá provar esteraio. E será a sua última sensação.Um trovão sacudiu o palácio. Com um clarão ofuscante, Zeus se foi.Eu estava sozinho na sala do trono com meu pai.- O seu tio - suspirou P<strong>os</strong>eidon -, sempre teve um talento especial para saídas teatrais. Acho queele teria se saído bem como o <strong>de</strong>us do teatro.Um silêncio constrangedor.- Senhor - disse eu -, o que havia naquele abismo? P<strong>os</strong>eidon olhou atentamente para mim.- Você não adivinhou?- Cron<strong>os</strong> - disse eu. - O rei d<strong>os</strong> Titãs.Mesmo na sala do trono do Olimpo, longe doTártaro, o nome Cron<strong>os</strong> escureceu o ambiente, efez o fogo no braseiro não parecer mais tão quente nas minhas c<strong>os</strong>tas.P<strong>os</strong>eidon segurou o seu tri<strong>de</strong>nte.- Na Primeira Guerra Mundial, Percy, Zeus cortou o n<strong>os</strong>so pai Cron<strong>os</strong> em mil pedaç<strong>os</strong>,exatamente como Cron<strong>os</strong> fizera com seu próprio pai, Uran<strong>os</strong>. Zeus lançou <strong>os</strong> rest<strong>os</strong> <strong>de</strong> Cron<strong>os</strong> nomais escuro abismo do Tártaro. O exército d<strong>os</strong> Titãs foi dispersado, sua fortaleza na montanhasobre o Etna, <strong>de</strong>struída, seus monstru<strong>os</strong><strong>os</strong> aliad<strong>os</strong> foram expuls<strong>os</strong> para <strong>os</strong> cant<strong>os</strong> mais distantes daTerra. E, contudo, Titãs não po<strong>de</strong>m morrer, não mais que nós, <strong>de</strong>uses. O que resta <strong>de</strong> Cron<strong>os</strong> aindavive <strong>de</strong> algum modo hediondo, ainda consciente em seu sofrimento eterno, ainda com fome <strong>de</strong>po<strong>de</strong>r.- Ele está se curando - disse eu. - Ele vai <strong>vol</strong>tar.P<strong>os</strong>eidon sacudiu a cabeça.- De temp<strong>os</strong> em temp<strong>os</strong>, no <strong>de</strong>correr das eras, Cron<strong>os</strong> se agita. Ele entra n<strong>os</strong> pesa<strong>de</strong>l<strong>os</strong> d<strong>os</strong>homens e exala pensament<strong>os</strong> malign<strong>os</strong>. Desperta monstr<strong>os</strong> inquiet<strong>os</strong> das profun<strong>de</strong>zas. Mas sugerirque ele po<strong>de</strong> erguer-se do abismo é outra coisa.É o que ele preten<strong>de</strong>, pai. É o que ele disse.P<strong>os</strong>eidon ficou em silêncio por um bom tempo.- O Senhor Zeus encerrou a discussão sobre o assunto. Ele não permitirá que se fale <strong>de</strong> Cron<strong>os</strong>.Você completou a sua missão, criança. É tudo o que precisa fazer.- Mas... - eu me interrompi. Discutir não iria adiantar nada. Muito p<strong>os</strong>sivelmente, irritaria oúnico <strong>de</strong>us que eu tinha do meu lado. - Como... como queira, pai.Um leve sorriso brincou n<strong>os</strong> lábi<strong>os</strong> <strong>de</strong>le.- A obediência não lhe vem naturalmente, não é?- Não... senhor.- Devo ter alguma culpa por isso, imagino. O mar não g<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> ser contido. - Ele se ergueu emtoda a sua altura e pegou seu tri<strong>de</strong>nte. Então tremeluziu e ficou do tamanho <strong>de</strong> um homem normal,em pé diante <strong>de</strong> mim. - Você precisa ir, criança. Mas primeiro saiba que sua mãe retornou.Olhei para ele, completamente perplexo.- Minha mãe?- Você a encontrará em casa. Ha<strong>de</strong>s a enviou quando recuperou seu elmo. Até mesmo o Senhorda Morte paga as suas dívidas.


Meu coração disparou. Eu mal podia acreditar.- Você... você vai...Eu queria perguntar se P<strong>os</strong>eidon viria comigo para vê-la, mas então percebi que isso eraridículo.Imaginei-me embarcando com o Deus do Mar em um táxi e levando-o para o Upper East Si<strong>de</strong>.Se durante tod<strong>os</strong> aqueles an<strong>os</strong> ele tivesse <strong>de</strong>sejado ver minha mãe, teria visto. E também erapreciso pensar que Gabe Cheir<strong>os</strong>o estava lá.Os olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon ficaram um pouco tristes.- Quando você <strong>vol</strong>tar para casa, Percy, precisará fazer uma escolha importante. Irá encontrar umpacote esperando por você no seu quarto.- Um pacote?- Você enten<strong>de</strong>rá quando o vir. Ninguém po<strong>de</strong> escolher o seu caminho, Percy. Você terá <strong>de</strong><strong>de</strong>cidir.Assenti, embora sem saber o que ele queria dizer.- Sua mãe é uma rainha entre as mulheres - disse P<strong>os</strong>eidon saud<strong>os</strong>amente. - Não conhecinenhuma mulher mortal como ela em mil an<strong>os</strong>. Ainda assim... sinto muito por você ter nascido,criança. Eu trouxe para você um <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> herói, e um <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> herói nunca é feliz. Não passa<strong>de</strong> um <strong>de</strong>stino trágico.Tentei não me sentir magoado. Ali estava o meu próprio pai, dizendo que sentia muito por euter nascido.- Eu não me importo, pai.- Ainda não, talvez - disse ele. - Ainda não. Mas foi um erro imperdoável da minha parte.- Vou <strong>de</strong>ixá-lo, então. - Eu me inclinei, <strong>de</strong>sajeitado. - Não... não vou incomodá-lo <strong>de</strong> novo.Eu estava a cinco pass<strong>os</strong> <strong>de</strong> distância quando ele chamou: - Perseu.Eu me virei.Havia uma luz diferente em seus olh<strong>os</strong>, um tipo flamejante <strong>de</strong> orgulho.- Você se saiu bem, Perseu. Não me entenda mal. O que quer que ainda faça, saiba que você émeu.Você é um verda<strong>de</strong>iro filho do Deus do Mar.Enquanto eu caminhava <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta pela cida<strong>de</strong> d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses, as conversas se interromperam. Asmusas pararam seu concerto. Pessoas, sátir<strong>os</strong> e náia<strong>de</strong>s, tod<strong>os</strong> se <strong>vol</strong>tavam para mim, <strong>os</strong> r<strong>os</strong>t<strong>os</strong>plen<strong>os</strong> <strong>de</strong> respeito e gratidão, e quando eu passava eles se ajoelhavam, como se eu f<strong>os</strong>se algumtipo <strong>de</strong> herói.*****Quinze minut<strong>os</strong> <strong>de</strong>pois, ainda em transe, eu estava <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta às ruas <strong>de</strong> Manhattan.Peguei um táxi para o apartamento da minha mãe, toquei a campainha, e lá estava ela - minhalinda mãe, cheirando a hortelã e alcaçuz, e o cansaço e a preocupação se evaporaram do seu r<strong>os</strong>toassim que ela me viu.- Percy! Oh, graças a Deus! Oh, meu querido.Ela me apertou até não po<strong>de</strong>r mais. Ficam<strong>os</strong> no vestíbulo enquanto ela chorava e passava asmã<strong>os</strong> pel<strong>os</strong> meus cabel<strong>os</strong>.Eu admito - meus olh<strong>os</strong> também ficaram um pouco nublad<strong>os</strong>. Eu tremia, <strong>de</strong> tão aliviado queestava por vê-la.Ela me contou que simplesmente aparecera no apartamento naquela manhã, <strong>de</strong>ixando Gabe


meio fora <strong>de</strong> si <strong>de</strong> tão apavorado. Não se lembrava <strong>de</strong> nada <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o Minotauro, e não pô<strong>de</strong>acreditar quando Gabe lhe disse que eu era um crimin<strong>os</strong>o procurado, viajando pelo país eexplodindo monument<strong>os</strong> nacionais. Ficara louca <strong>de</strong> preocupação o dia inteiro porque não ouvira asnotícias. Gabe a forçara a ir trabalhar, dizendo que ela precisava um mês <strong>de</strong> salário paracompensar, e era melhor começar.Engoli a raiva e contei-lhe minha própria história. Tentei fazer que parecesse men<strong>os</strong> apavorantedo que fora, mas não era fácil. Estava justamente chegando à luta com Ares quando a voz <strong>de</strong> Gabeirrompeu da sala <strong>de</strong> estar.- Ei, Sally! Aquele bolo <strong>de</strong> carne já está pronto ou não?Ela fechou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Ele não vai ficar muito feliz em vê-lo, Percy. A loja recebeu um milhão <strong>de</strong> telefonemas <strong>de</strong> L<strong>os</strong>Angeles hoje... alguma coisa sobre eletrodoméstic<strong>os</strong> grátis.- Ah, sim. Quanto a isso... Ela conseguiu sorrir fracamente.- Só não o <strong>de</strong>ixe ainda mais zangado, certo? Venha.No mês em que estive fora, o apartamento se transformara em Gabelândia. Havia lixo no tapeteaté a altura d<strong>os</strong> tornozel<strong>os</strong>.O sofá tinha sido estofado <strong>de</strong> novo com latas <strong>de</strong> cerveja. Meias e roupas <strong>de</strong> baixo sujas estavampenduradas n<strong>os</strong> abajures.Gabe e três d<strong>os</strong> seus amig<strong>os</strong> cretin<strong>os</strong> estavam sentad<strong>os</strong> à mesa jogando pôquer.Quando Gabe me viu, o charuto caiu da boca. A cara <strong>de</strong>le ficou mais vermelha que lava.- Você é muito <strong>de</strong>scarado <strong>de</strong> vir aqui, seu pequeno punk. Eu pensei que a polícia...- Ele não é um fugitivo, afinal - interrompeu minha mãe. - Não é maravilh<strong>os</strong>o, Gabe?Gabe olhou para um lado e para outro entre nós. Não parecia achar que a minha <strong>vol</strong>ta para casaf<strong>os</strong>se assim tão maravilh<strong>os</strong>a.- Já não basta ter <strong>de</strong> <strong>de</strong><strong>vol</strong>ver o dinheiro do seu seguro <strong>de</strong> vida, Sally - r<strong>os</strong>nou ele. - Me dê otelefone. Vou chamar a polícia.- Gabe, não!Ele ergueu as sobrancelhas.- Você disse não! Acha que eu vou ter <strong>de</strong> agüentar esse punk <strong>de</strong> novo? Ainda p<strong>os</strong>so registrarqueixa contra ele por <strong>de</strong>struir o meu Camaro.- Mas... - Ele levantou a mão e minha mãe se encolheu.Pela primeira vez me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> uma coisa. Gabe já tinha batido na minha mãe. Não seiquando, nem quanto. Talvez estivesse acontecendo há an<strong>os</strong>, quando eu não estava por perto.Um balão <strong>de</strong> raiva começou a se expandir no meu peito. Avencei para Gabe, instintivamentetirando minha caneta do bolso. Ele apenas riu.- O que foi, punk? Vai escrever em mim? Enc<strong>os</strong>te em mim, e irá para a ca<strong>de</strong>ia para sempre,enten<strong>de</strong>u?- Ei, Gabe - seu amigo Eddie interrompeu. - Ele é só uma criança.Gabe olhou para ele irritado e macaqueou em voz <strong>de</strong> falsete: - Ele é só uma criança!Seus outr<strong>os</strong> amig<strong>os</strong> riram como idiotas.- Eu vou ser bonzinho com você, punk. - Gabe m<strong>os</strong>trou <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes manchad<strong>os</strong> <strong>de</strong> tabaco. - Voulhe dar cinco minut<strong>os</strong> para pegar suas coisas e dar o fora. Depois disso, chamo a polícia.- Gabe! - implorou minha mãe.- Ele fugiu - disse Gabe a ela. - Que continue fugido.


Eu estava sentindo uma comichão para <strong>de</strong>stampar Contracorrente, mas mesmo que fizesse isso,a lâmina não podia ferir seres human<strong>os</strong>. E Gabe, segundo a mais vaga das <strong>de</strong>finições, era um serhumano.Minha mãe segurou meu braço.- Por favor, Percy. Venha. Vam<strong>os</strong> para o seu quarto.Deixei que ela me puxasse, as mã<strong>os</strong> ainda tremendo <strong>de</strong> raiva.Meu quarto tinha sido completamente abarrotado com o lixo <strong>de</strong> Gabe. Havia pilhas <strong>de</strong> bateriasvelhas <strong>de</strong> carro, um buquê apodrecido <strong>de</strong> flores <strong>de</strong> solidarieda<strong>de</strong> com um cartão <strong>de</strong> alguém queassistira sua entrevista com Barbara Walters.- Gabe está apenas chateado, querido - disse minha mãe. - Vou falar com ele mais tar<strong>de</strong>. Tenhocerteza <strong>de</strong> que vai dar certo.- Mamãe, nunca vai dar certo. Não enquanto Gabe estiver aqui.Ela torceu as mã<strong>os</strong> nerv<strong>os</strong>amente.- Eu p<strong>os</strong>so... vou levar você comigo para o trabalho durante o resto do verão. No outono talvezhaja algum outro internato...- Mamãe.Ela baixou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.- Estou tentando, Percy. Eu só... só preciso <strong>de</strong> algum tempo.Um pacote apareceu em cima da minha cama. Pelo men<strong>os</strong>, eu po<strong>de</strong>ria jurar que não estava láum momento antes.Era uma caixa <strong>de</strong> papelão surrada mais ou men<strong>os</strong> do tamanho certo para conter uma bola <strong>de</strong>basquete. Oen<strong>de</strong>reço na etiqueta estava na minha própria caligrafia: A<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses Monte Olimpo,600° andar,Edifício Empire StateNova York, NYCom <strong>os</strong> melhores vot<strong>os</strong>,


Percy JacksonNo topo da caixa, em marcador preto, na caligrafia clara e forte <strong>de</strong> um homem, estava oen<strong>de</strong>reço do n<strong>os</strong>so apartamento, e as palavras: RETORNAR AO REMETENTE.De repente entendi o que P<strong>os</strong>eidon me dissera no Olimpo.Um pacote. Uma <strong>de</strong>cisão.O que quer que ainda faça, saiba que você é meu. Você é um verda<strong>de</strong>iro filho do Deus do Mar.Olhei para a minha mãe.- Mãe, você quer se livrar do Gabe?- Percy, não é tão simples. Eu...- Mãe, apenas me diga. Aquele cretino está batendo em você. Você quer que ele se vá ou não?Ela hesitou, <strong>de</strong>pois assentiu quase imperceptivelmente.- Sim, Percy. Eu quero. E estou tentando reunir coragem para dizer a ele. Mas você não po<strong>de</strong>fazer isso por mim. Você não po<strong>de</strong> resolver <strong>os</strong> meus problemas.Eu olhei para a caixa.Eu podia resolver o problema <strong>de</strong>la. Queria abrir aquele pacote, botá-lo sobre a mesa <strong>de</strong> pôquer etirar o que havia <strong>de</strong>ntro. Podia começar o meu próprio jardim <strong>de</strong> estátuas bem ali na sala <strong>de</strong> estar.E o que um herói grego faria nas histórias, pensei. É o que Gabe merece.Mas a história <strong>de</strong> um herói sempre termina em tragédia. P<strong>os</strong>eidon me dissera isso.Lembrei-me do Mundo Inferior. Pensei no espírito <strong>de</strong> Gabe à <strong>de</strong>riva n<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> Asfó<strong>de</strong>l<strong>os</strong>,ou con<strong>de</strong>nado a alguma tortura horrível atrás do arame farpado d<strong>os</strong> Camp<strong>os</strong> da Punição - sentadoem um eterno jogo <strong>de</strong> pôquer, mergulhado até a cintura em óleo fervente ou ouvindo música <strong>de</strong>ópera. Será que eu tinha o direito <strong>de</strong> mandar alguém para lá? Mesmo Gabe?Um mês atrás, eu não teria hesitado. Agora...- Eu p<strong>os</strong>so fazer isso - disse à minha mãe. - Uma espiada para o que há <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>sta caixa, e elenunca mais a incomodará <strong>de</strong> novo.Ela <strong>de</strong>u uma olhada para o pacote e pareceu enten<strong>de</strong>r imediatamente.- Não, Percy - disse ela afastando-se. - Você não po<strong>de</strong>.- P<strong>os</strong>eidon chamou você <strong>de</strong> rainha - contei-lhe. - Ele disse que não conheceu nenhuma mulhercomo você em mil an<strong>os</strong>.Suas faces coraram.- Percy...- Você merece coisa melhor do que isso, mãe. Você <strong>de</strong>via ir para a faculda<strong>de</strong>, tirar o seudiploma. Podia escrever o seu romance, conhecer um cara legal, quem sabe, e viver numa belacasa. Você não precisa mais me proteger ficando com Gabe, Deixe que eu me livre <strong>de</strong>le.Ela enxugou uma lágrima do r<strong>os</strong>to, - Você se parece tanto com o seu pai - disse ela, - Uma vezpropôs parar a maré por mim. Propôs construir um palácio para mim no fundo do mar, Achava quepodia resolver tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> meus problemas com um aceno <strong>de</strong> mão.- O que há <strong>de</strong> errado nisso?Seus olh<strong>os</strong> multicolorid<strong>os</strong> pareceram investigar <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> mim.- Eu acho que você sabe, Percy, Eu acho que você é parecido o bastante comigo para enten<strong>de</strong>r,Se é para a minha vida ter algum significado, tenho <strong>de</strong> vivê-la eu mesma. Não p<strong>os</strong>so <strong>de</strong>ixar queum <strong>de</strong>us cui<strong>de</strong> <strong>de</strong> mim,,, ou meu filho, Eu preciso,,, encontrar a coragem sozinha, A sua missãome fez lembrar disso, Ouvim<strong>os</strong> o som das fichas <strong>de</strong> pôquer e pragas, e a ESPN n televisão da sala<strong>de</strong> estar, - Vou <strong>de</strong>ixar a caixa - disse eu, - Se ele a ameaçar,,, Ela empali<strong>de</strong>ceu, mas assentiu.


- Aon<strong>de</strong> você vai, Percy?- Colina Meio-Sangue,- Passar o verão,,, ou para sempre?- Ainda não sei,N<strong>os</strong>s<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> se encontraram, e eu senti que tínham<strong>os</strong> um acordo. Veríam<strong>os</strong> como estariam ascoisas no fim do verão.Ele beijou a minha testa,- Você será um herói, Percy, O maior <strong>de</strong> tod<strong>os</strong>.Passei <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> pelo quarto pela última vez,Tinha a sensação <strong>de</strong> que nunca mais o veria <strong>de</strong> novo.Então fui com minha mãe até a porta da frente.- Indo embora tão cedo, punk? - gritou Gabe atrás <strong>de</strong> mim. - Já vai tar<strong>de</strong>!Senti uma última ponta <strong>de</strong> dúvida. Como eu podia rejeitar a oportunida<strong>de</strong> perfeita para mevingar <strong>de</strong>le? Eu estava indo embora daqui sem salvar a minha mãe.- Ei, Sally! - berrou ele. - E aquele bolo <strong>de</strong> carne, heim?Uma expressão <strong>de</strong> raiva, dura como aço, brilhou n<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> da minha mãe, e eu pensei, quemsabe, talvez eu a estivesse <strong>de</strong>ixando em boas mã<strong>os</strong> afinal. As <strong>de</strong>la mesma.- O bolo <strong>de</strong> carne já está saindo, meu bem - disse ela a Gabe. - Um bolo <strong>de</strong> carne surpresa.Olhou para mim e piscou.A última coisa que vi quando a porta se fechou foi minha mãe olhando para Gabe com jeito <strong>de</strong>quem imagina que ele daria uma ótima estátua <strong>de</strong> jardim.VINTE E DOIS - A profecia se cumpre.Fom<strong>os</strong> <strong>os</strong> primeir<strong>os</strong> heróis a retornar viv<strong>os</strong> à Colina Meio-Sangue <strong>de</strong>s<strong>de</strong> Luke, portanto é claroque tod<strong>os</strong> n<strong>os</strong> trataram como se tivéssem<strong>os</strong> ganho algum prêmio <strong>de</strong> reality show na tevê. Deacordo com a tradição do acampamento, usam<strong>os</strong> coroas <strong>de</strong> lour<strong>os</strong> em um gran<strong>de</strong> banquetepreparado em n<strong>os</strong>sa honra, <strong>de</strong>pois li<strong>de</strong>ram<strong>os</strong> um cortejo até a fogueira, on<strong>de</strong> queimam<strong>os</strong> asmortalhas que tinham sido feitas para nós na n<strong>os</strong>sa ausência.A mortalha <strong>de</strong> Annabeth era lindíssima - seda cinzenta co corujas bordadas -, e eu disse que erauma pena não po<strong>de</strong>r enterrá-la com ela. Ela me <strong>de</strong>u um soco e me mandou calar a boca.Por ser filho <strong>de</strong> P<strong>os</strong>eidon, eu não tinha nenhum companheiro <strong>de</strong> chalé, e assim o chalé <strong>de</strong> Aresse ofereceu para fazer a minha mortalha. Eles pegaram um lençol velho e pintaram carinhassorri<strong>de</strong>ntes nas bordas, com XX no lugar d<strong>os</strong> olh<strong>os</strong>, e a palavra PE DERDOR em tamanhorealmente gran<strong>de</strong> no meio.Foi divertido queimá-la.Enquanto o chalé <strong>de</strong> Apoio li<strong>de</strong>rava a cantoria e passava gul<strong>os</strong>eimas, fui ro<strong>de</strong>ado pel<strong>os</strong> meuscompanheir<strong>os</strong> do chalé <strong>de</strong> Hermes, pel<strong>os</strong> amig<strong>os</strong> <strong>de</strong> Annabeth <strong>de</strong> Atena e pel<strong>os</strong> colegas sátir<strong>os</strong> <strong>de</strong>Grover, que estavam admirando a licença <strong>de</strong> buscador nova em folha que ele recebera do Conselhod<strong>os</strong> Anciã<strong>os</strong> <strong>de</strong> Casco Fendido. O conselho chamara o <strong>de</strong>sempenho <strong>de</strong> Grover na missão <strong>de</strong> "Bravoa ponto <strong>de</strong> dar indigestão. Chifres-e-barba acima <strong>de</strong> tudo t) que já vim<strong>os</strong> no passado."Os únic<strong>os</strong> que não estavam com um espírito festivo eram Clarisse e seus companheir<strong>os</strong> <strong>de</strong>chalé, cuj<strong>os</strong> olhares venen<strong>os</strong><strong>os</strong> me diziam que jamais me perdoariam por envergonhar o pai <strong>de</strong>les.Por mim, tudo bem.Até mesmo o discurso <strong>de</strong> boas-vindas <strong>de</strong> Dioniso foi insuficiente para abafar o meu bomhumor.


- Sim, sim, o molequinho não se <strong>de</strong>ixou matar e agora vai ficar ainda mais presunç<strong>os</strong>o. Bem,um viva para isso. Entre outr<strong>os</strong> comunicad<strong>os</strong>, não haverá corridas <strong>de</strong> canoas neste sábado...Mu<strong>de</strong>i-me <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta para o chalé 3, mas ele não parecia mais tão solitário. Tinha <strong>os</strong> meus amig<strong>os</strong>para treinar durante o dia. À noite, ficava acordado e ouvia o mar, sabendo que meu pai estava láfora. Talvez ele ainda não se sentisse muito seguro a meu respeito, talvez ainda não quisesse queeu tivesse nascido, mas estava observando. E, até agora, estava orgulh<strong>os</strong>o do que eu havia feito.Quanto à minha mãe, ela teve chance <strong>de</strong> uma vida nova. A carta <strong>de</strong>la chegou uma semana<strong>de</strong>pois que <strong>vol</strong>tei ao acampamento. Ela me contou que Gabe partira misteri<strong>os</strong>amente -<strong>de</strong>saparecera da face do planeta, <strong>de</strong> fato. Ela <strong>de</strong>u queixa do <strong>de</strong>saparecimento <strong>de</strong>le à polícia, mastinha uma sensação engraçada <strong>de</strong> que jamais o encontrariam.Mudando completamente <strong>de</strong> assunto, ela tinha vendido a sua primeira escultura <strong>de</strong> concreto emtamanho natural, intitulada O jogador <strong>de</strong> pôquer, para um colecionador, através <strong>de</strong> uma galeria <strong>de</strong>arte do Soho.Recebera tanto dinheiro por ela que <strong>de</strong>ra entrada em um novo apartamento e fizera o pagamentodo primeiro semestre do seu curso na Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Nova York. A galeria do Soho estavaclamando por mais trabalh<strong>os</strong> <strong>de</strong>la, que eles chamaram <strong>de</strong> "um gran<strong>de</strong> passo do neo-realismo d<strong>os</strong>uperfeio".Mas não se preocupe, escreveu a minha mãe. Para mim, chega <strong>de</strong> escultura. Livrei-me daquelacaixa <strong>de</strong> ferramentas que você <strong>de</strong>ixou para mim. Já è hora <strong>de</strong> eu <strong>vol</strong>tar a escrever.No fim, ela escreveu um P.S.: Percy, encontrei uma boa escola particular aqui na cida<strong>de</strong>. Fizum <strong>de</strong>pósito para reservar um lugar para você, caso queira se matricular na sétima série. Vocêpo<strong>de</strong>rá morar em casa. Mas, se quiser ficar o ano inteiro na Colina Meío-Sangue, vou enten<strong>de</strong>r.Dobrei a carta cuidad<strong>os</strong>amente e a pus na minha mesa-<strong>de</strong>-cabeceira. Todas as noites antes <strong>de</strong>dormir eu a leio <strong>de</strong> novo, e tento <strong>de</strong>cidir como respon<strong>de</strong>r a ela.*****No Quatro <strong>de</strong> Julho, o acampamento inteiro se reuniu na praia para um espetáculo pirotécnicopor conta do chalé 9. Como filh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Hefesto, não iriam se contentar com expl<strong>os</strong>ões comuns emvermelho, branco e azul. Eles ancoraram uma barcaça longe da c<strong>os</strong>ta e a carregaram com foguetesdo tamanho <strong>de</strong> mísseis Patriot. De acordo com Annabeth, que já tinha visto o espetáculo antes, asexpl<strong>os</strong>ões seriam tão bem seqüenciadas que pareceriam quadr<strong>os</strong> <strong>de</strong> animação no céu. O final<strong>de</strong>veria ser um par <strong>de</strong> guerreir<strong>os</strong> espartan<strong>os</strong> <strong>de</strong> trinta metr<strong>os</strong> <strong>de</strong> altura que iriam crepitar para avida acima do oceano, travar uma batalha e então explodir em um milhão <strong>de</strong> cores.Enquanto Annabeth e eu estendíam<strong>os</strong> toalhas <strong>de</strong> piquenique, Grover apareceu para se <strong>de</strong>spedir<strong>de</strong> nós.Usava <strong>os</strong> jeans, a camiseta e <strong>os</strong> tênis <strong>de</strong> sempre, mas nas últimas semanas começara a parecermais velho, quase com ida<strong>de</strong> <strong>de</strong> secundarista. Seu cavanhaque ficara mais espesso. Ganhara peso.Seus chifres haviam crescido pelo men<strong>os</strong> três centímetr<strong>os</strong>, <strong>de</strong> modo que agora tinha <strong>de</strong> usar o seuboné rastafári o tempo todo para passar por ser humano.- Estou <strong>de</strong> partida - disse ele. - Vim só dizer... bem, vocês sabem.Tentei me sentir feliz por ele. Afinal, não era todo dia que um sátiro conseguia permissão paraprocurar o gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>us Pan. Mas era difícil dizer a<strong>de</strong>us. Eu só conhecia Grover fazia um ano, e noentanto ele era o meu amigo mais antigo.Annabeth <strong>de</strong>u-lhe um abraço. Ela lhe disse para usar sempre <strong>os</strong> seus pés fals<strong>os</strong>.Perguntei-lhe on<strong>de</strong> iria procurar primeiro.- Tipo segredo - disse ele, parecendo embaraçado. - G<strong>os</strong>taria que vocês pu<strong>de</strong>ssem vir comigo,


mas seres human<strong>os</strong> e Pan...- A gente enten<strong>de</strong> - disse Annabeth. - Você tem latas suficientes para a viagem?- Sim.- E se lembrou das suas flautas <strong>de</strong> bambu?- Puxa, Annabeth - resmungou ele. - Você parece uma velha mamãe-cabra.Mas ele não pareceu aborrecido <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>.Ele agarrou sua bengala e jogou uma mochila por cima d<strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>. Parecia um caroneiro<strong>de</strong>sses que se vêem nas estradas - nada parecido com o menino baixinho que eu c<strong>os</strong>tumava<strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r d<strong>os</strong> valentões na Aca<strong>de</strong>mia Yancy.- Bem - disse ele -, <strong>de</strong>sejem-me boa sorte.Ele <strong>de</strong>u outro abraço em Annabeth. Bateu no meu ombro, e então retornou através das dunas.Fog<strong>os</strong> <strong>de</strong> artifício explodiram acima <strong>de</strong> nós: Hércules matando o leão da Neméia, Ártemisperseguindo o javali, George Washington (que, aliás, era um filho <strong>de</strong> Atena) cruzando o rioDelaware.- Ei, Grover - chamei.Ele se <strong>vol</strong>tou à margem do b<strong>os</strong>que.- Aon<strong>de</strong> quer que esteja indo, espero que façam boas enchiladas.Grover sorriu, e se foi; as árvores se fechando em <strong>vol</strong>ta <strong>de</strong>le.- Nós o verem<strong>os</strong> <strong>de</strong> novo - disse Annabeth.Tentei acreditar nisso. O fato <strong>de</strong> que nenhum buscador jamais <strong>vol</strong>tara em dois mil an<strong>os</strong>... bem,<strong>de</strong>cidi não pensar nisso. Grover ia ser o primeiro. Tinha <strong>de</strong> ser.*****Julho se foi.Eu passava <strong>os</strong> meus dias bolando novas estratégias para a captura da ban<strong>de</strong>ira e fazendoalianças com <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> chalés para manter o estandarte fora das mã<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ares. Cheguei até o topoda pare<strong>de</strong> <strong>de</strong> escalada pela primeira vez sem ser t<strong>os</strong>tado pela lava.De temp<strong>os</strong> em temp<strong>os</strong>, eu passava pela Casa Gran<strong>de</strong>, dava uma olhada nas janelas do sótão epensava no Oráculo. Tentei convencer a mim mesmo que a sua profecia se completara.Você <strong>de</strong>ve ir para o oeste, e enfrentar o <strong>de</strong>us que se tornou <strong>de</strong>sleal.Estive lá, fiz isso - mesmo que no fim o <strong>de</strong>us traidor f<strong>os</strong>se Ares, e não Ha<strong>de</strong>s.Você <strong>de</strong>ve encontrar o que foi roubado e <strong>de</strong><strong>vol</strong>ver em segurança.Confere. Um raio-mestre entregue. Um elmo das trevas <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta na cabeça untu<strong>os</strong>a <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s.Você será traído por aquele que o chama <strong>de</strong> amigo.Essa linha ainda me incomodava. Ares fingira ser meu amigo e <strong>de</strong>pois me traíra. Devia ser issoque o Oráculo queria dizer...E no fim não conseguirá salvar aquilo que mais importa.Eu não conseguira salvar minha mãe, mas só porque eu a <strong>de</strong>ixara se salvar sozinha, e sabia queera a coisa certa a fazer.Então por que ainda estava incomodado?*****A última noite da sessão <strong>de</strong> verão chegou <strong>de</strong>pressa <strong>de</strong>mais.Os campistas fizeram uma última refeição junt<strong>os</strong>. Queimam<strong>os</strong> parte do n<strong>os</strong>so jantar para <strong>os</strong><strong>de</strong>uses. Junto à fogueira, <strong>os</strong> conselheir<strong>os</strong> mais velh<strong>os</strong> entregaram as contas <strong>de</strong> fim <strong>de</strong> verão.Ganhei o meu próprio colar <strong>de</strong> couro, e quando vi a conta pelo meu primeiro verão, fiquei


contente porque a luz da fogueira encobriu o vermelho na minha cara. O <strong>de</strong>senho era preto comopiche, com um tri<strong>de</strong>nte ver<strong>de</strong>-mar cintilando no centro.- A escolha foi unânime - anunciou Luke. - Esta conta comemora o primeiro Filho do Deus doMar neste acampamento, e a missão que ele assumiu para a parte mais escura do Mundo Inferiorpara impedir uma guerra!O acampamento inteiro se pôs <strong>de</strong> pé e aplaudiu. Mesmo o chalé <strong>de</strong> Ares se sentiu na obrigação<strong>de</strong> levantar. O chalé <strong>de</strong> Atenas empurrou Annabeth para a frente para que ela pu<strong>de</strong>sse compartilhar<strong>os</strong> aplaus<strong>os</strong>.Acho que nunca na vida me senti ao mesmo tempo tão feliz ou e tão triste como naquelemomento.Finalmente encontrara uma família, gente que se preocupava comigo e achava que eu tinha feitoalguma coisa <strong>de</strong> modo certo. E, pela manhã, a maior parte <strong>de</strong>les ficaria fora o resto do ano.Na manhã seguinte encontrei uma carta padronizada na minha mesa-<strong>de</strong>-cabeceira.Soube que <strong>de</strong>via ter sido preenchida por Dioniso, pois ele insistia teim<strong>os</strong>amente em errar o meunome: Caro ________ Peter Johnson ___ , Se você preten<strong>de</strong> permanecer no AcampamentoMeio-Sangue o ano inteiro, precisa informar a Casa Gran<strong>de</strong> até o meio-dia <strong>de</strong> hoje. Caso nãoanuncie suas intenções, presumirem<strong>os</strong> que você vagou o seu chalé ou morreu <strong>de</strong> uma mortehorrível. Harpias da limpeza começarão seu trabalho ao pôr-do-sol. Elas estarão autorizadasa comer qualquer campista não registrado. Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> artig<strong>os</strong> pessoais <strong>de</strong>ixad<strong>os</strong> para trásserão incinerad<strong>os</strong> no poço <strong>de</strong> lava.Tenha um bom dia!Senhor D (Dioniso) Diretor do Acampamento, Conselho Olimpiano n° 12*****Essa é mais uma questão do transtorno do déficit <strong>de</strong> atenção. Os praz<strong>os</strong> simplesmente nãoexistem para mim até que não tenha mais jeito. O verão acabara, e eu ainda não havia respondidopara a minha mãe, nem para o acampamento, se iria ficar. Agora tinha apenas algumas horas para<strong>de</strong>cidir.A <strong>de</strong>cisão tinha tudo para ser fácil. Quer dizer, nove meses treinando para herói, ou nove mesessentado numa sala <strong>de</strong> aula - fala sério!Mas havia a minha mãe para consi<strong>de</strong>rar. Pela primeira vez eu tinha oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> morar comela por um ano inteiro, sem Gabe. Tinha chance <strong>de</strong> estar em casa e perambular pela cida<strong>de</strong> nashoras livres.Lembrei-me do que Annabeth dissera tanto tempo atrás sobre a n<strong>os</strong>sa missão: O mundo real éon<strong>de</strong> <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> estão. É on<strong>de</strong> a gente apren<strong>de</strong> se serve para alguma coisa ou não.Pensei no <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> Thalia, filha <strong>de</strong> Zeus. Fiquei pensando quant<strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> me atacariam seeu <strong>de</strong>ixasse a Colina Meio-Sangue. Se eu ficasse em um só lugar durante todo um ano escolar,sem Quíron e meus amig<strong>os</strong> em <strong>vol</strong>ta para me ajudar, será que minha mãe e eu sobreviveríam<strong>os</strong> atéo próximo verão?E isso presumindo que <strong>os</strong> testes <strong>de</strong> ortografia e <strong>os</strong> ensai<strong>os</strong> <strong>de</strong> cinco parágraf<strong>os</strong> não mematassem. Decidi ir até a arena e praticar um pouco <strong>de</strong> esgrima. Talvez isso me clareasse acabeça.A área do acampamento estava <strong>de</strong>serta na maior parte, tremeluzindo no calor <strong>de</strong> ag<strong>os</strong>to. Tod<strong>os</strong><strong>os</strong> campistas estavam n<strong>os</strong> seus chalés fazendo as malas, ou correndo <strong>de</strong> um lado para outro comvassouras e esfregões, preparando-se para a inspeção final. Arg<strong>os</strong> estava ajudando algumas filhas<strong>de</strong> Afrodite a carregar suas malas e estoj<strong>os</strong> <strong>de</strong> maquiagem Gucci para o outro lado da colina, on<strong>de</strong>


o ônibus do acampamento estaria esperando para levá-las ao aeroporto.Não pense em partir ainda, disse para mim mesmo. Apenas treine.Cheguei à arena d<strong>os</strong> espadachins e <strong>de</strong>scobri que Luke tivera a mesma idéia. Sua sacola estavajogada na beirada da arena. Ele estava treinando sozinho, investindo violentamente contra bonec<strong>os</strong>com uma espada que eu nunca tinha visto antes. Devia ser uma espada toda <strong>de</strong> aço, pois <strong>de</strong>cepava<strong>de</strong> um golpe as cabeças d<strong>os</strong> bonec<strong>os</strong> e atravessava com estocadas as suas tripas recheadas <strong>de</strong>palha. Sua camisa laranja <strong>de</strong> conselheiro pingava <strong>de</strong> suor. A expressão <strong>de</strong>le era tão intensa quedava para pensar que sua vida estava realmente em perigo. Eu assisti, fascinado, enquanto ele<strong>de</strong>stripava toda a fileira <strong>de</strong> bonec<strong>os</strong>, cortando fora <strong>os</strong> membr<strong>os</strong> e basicamente <strong>os</strong> reduzindo a umapilha <strong>de</strong> palha e armaduras.Eram apenas bonec<strong>os</strong>, mas ainda assim eu não podia <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> ficar assombrado com ahabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Luke. O cara era um guerreiro incrível. Aquilo me fez pensar, novamente, como elepodia ter falhado em sua missão.Por fim ele me viu e interrompeu-se no meio <strong>de</strong> um golpe.- Percy.- Ahn, <strong>de</strong>sculpe - disse eu, embaraçado. - Eu só...- Tudo bem - disse ele, abaixando a espada. - Estava só dando uma treinada <strong>de</strong> último minuto.- Aqueles bonec<strong>os</strong> nunca mais vão incomodar ninguém. Luke encolheu <strong>os</strong> ombr<strong>os</strong>.- Nós fazem<strong>os</strong> nov<strong>os</strong> todo verão.Agora que a espada não estava mais rodopiando <strong>de</strong> um lado para outro, pu<strong>de</strong> ver algo <strong>de</strong>estranho nela.A lâmina era feita com dois tip<strong>os</strong> <strong>de</strong> metal diferentes - um fio <strong>de</strong> bronze, o outro <strong>de</strong> aço.Luke reparou que eu estava olhando.- Ah, isso? Brinquedo novo. Esta é a Malvada.- Malvada?Luke virou a lâmina na luz, e a fez brilhar <strong>de</strong> um jeito maligno.-Um lado é <strong>de</strong> bronze celestial. O outro é <strong>de</strong> aço temperado. Funciona tanto em mortais comoem imortais.Pensei no que Quíron tinha me dito quando eu comecei a minha missão - que um herói jamais<strong>de</strong>ve ferir mortais a não ser que seja absolutamente necessário.- Eu não sabia que eles podiam fazer armas como esta.- Eles provavelmente não - concordou Luke. - Esta aqui é única.Ele me <strong>de</strong>u um sorrisinho mínimo e então enfiou a espada na bainha.- Escute. Eu estava indo procurar por você. O que me diz <strong>de</strong> irm<strong>os</strong> até a floresta uma últimavez, para procurar algo para enfrentar?Não sei por que hesitei. Devia ter me sentido aliviado por Luke estar sendo tão amigável. Des<strong>de</strong>que eu <strong>vol</strong>tara da missão ele vinha agindo <strong>de</strong> modo um pouco distante. Estava com medo <strong>de</strong> queele estivesse ressentido com toda a atenção que eu recebera.- Você acha que é uma boa idéia? - perguntei. - Quero dizer...- Ora, vam<strong>os</strong>. - Ele remexeu na sua sacola e tirou <strong>de</strong> lá uma embalagem <strong>de</strong> seis Cocas. - Bebidaspor minha conta.Olhei para as Cocas, me perguntando on<strong>de</strong> diabo as teria conseguido. Não havia refrigerantesmortais comuns na loja do acampamento. Não havia como consegui-l<strong>os</strong> a não ser que a gentefalasse com um sátiro, talvez.


Naturalmente, as taças mágicas do jantar se encheriam com qualquer coisa que a gente quisesse,mas não tinham exatamente o mesmo g<strong>os</strong>to <strong>de</strong> uma Coca <strong>de</strong> verda<strong>de</strong>, saída da lata.Açúcar e cafeína. Minha força <strong>de</strong> vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong>smoronou.- Claro - <strong>de</strong>cidi. - Por que não?Fom<strong>os</strong> andando até a floresta e perambulam<strong>os</strong> sem rumo à procura <strong>de</strong> algum tipo <strong>de</strong> monstropara enfrentar, mas estava quente <strong>de</strong>mais. Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> com um mínimo <strong>de</strong> bom senso<strong>de</strong>viam estar fazendo a sesta nas suas cavernas agradáveis e frescas.Encontram<strong>os</strong> um lugar à sombra junto ao regato on<strong>de</strong> eu quebrara a lança <strong>de</strong> Clarisse durantemeu primeiro jogo <strong>de</strong> captura da ban<strong>de</strong>ira. Sentamo-n<strong>os</strong> em uma gran<strong>de</strong> pedra, bebem<strong>os</strong> as n<strong>os</strong>sasCocas e ficam<strong>os</strong> olhando para a luz do sol na floresta.Depois <strong>de</strong> algum tempo, Luke disse:- Sente falta <strong>de</strong> estar em uma missão?- Com monstr<strong>os</strong> me atacando a cada passo? Fala sério!Luke ergueu uma sobrancelha.- Sim, eu sinto falta - admiti. - E você?Uma sombra passou pelo seu r<strong>os</strong>to.Eu estava ac<strong>os</strong>tumado a ouvir as meninas dizerem como Luke era bonito, mas naquelemomento ele pareceu cansado, zangado e nem um pouco bonito. Seu cabelo loiro estava cinzento àluz do sol. A cicatriz no r<strong>os</strong>to parecia mais funda que <strong>de</strong> c<strong>os</strong>tume. Parecia estar vendo um velho.- Vivo na Colina Meio-Sangue o ano inteiro <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que tinha catorze an<strong>os</strong> - contou-me. - Des<strong>de</strong>que Thalia... bem, você sabe. Treinei, treinei e treinei. Nunca cheguei a ser um adolescentenormal, lá fora no mundo real. Então eles me jogaram numa missão, e quando <strong>vol</strong>tei, foi tipo,"Certo, o passeio acabou.Passe bem".Ele amarrotou a sua Coca e a atirou no regato, o que realmente me chocou. Uma das primeirascoisas que a gente apren<strong>de</strong> no Acampamento Meio-Sangue é: não jogue lixo no chão. Você serárepreendido pelas ninfas e náia<strong>de</strong>s. Elas ajustarão as contas. Você cai na cama uma noite eencontra <strong>os</strong> lençóis chei<strong>os</strong> <strong>de</strong> centopéias e lama.- Para o diabo com as coroas <strong>de</strong> lour<strong>os</strong> - disse Luke. - Não vou terminar como aqueles troféusempoeirad<strong>os</strong> no sótão da Casa Gran<strong>de</strong>.- Você está parecendo alguém que vai embora.Luke me <strong>de</strong>u um sorriso torto.- Oh, eu estou indo embora, sem dúvida, Percy. Trouxe você aqui para dizer a<strong>de</strong>us.Ele estalou <strong>os</strong> <strong>de</strong>d<strong>os</strong>. Um pequeno fogo queimou um buraco no chão a<strong>os</strong> meus pés. De lá, saiuse arrastando alguma coisa preta e brilhante, mais ou men<strong>os</strong> do tamanho da minha mão. Umescorpião.Comecei a procurar a minha caneta.- Eu não faria isso - advertiu Luke. Escorpiões das profun<strong>de</strong>zas po<strong>de</strong>m pular até cinco metr<strong>os</strong>.Seu ferrão po<strong>de</strong> perfurar as suas roupas. Você estaria morto em sessenta segund<strong>os</strong>.- Luke, o que...Então caiu a ficha.Você será traído por aquele que o chama <strong>de</strong> amigo.- Você - disse eu.Ele se levantou calmamente e sacudiu o pó d<strong>os</strong> seus jeans.O escorpião não lhe <strong>de</strong>u atenção. Seus olh<strong>os</strong> pequen<strong>os</strong> e brilhantes continuavam fix<strong>os</strong> em mim,


apertando as pinças enquanto se arrastava para cima do meu sapato.- Eu vi muita coisa lá fora no mundo, Percy - disse Luke. - Você não sentiu... a escuridão seacumulando, <strong>os</strong> monstr<strong>os</strong> ficando mais fortes? Não percebeu como tudo é inútil? Tod<strong>os</strong> <strong>os</strong> feit<strong>os</strong>heróic<strong>os</strong>... Nós não passam<strong>os</strong> <strong>de</strong> peões d<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Eles já <strong>de</strong>viam ter sido <strong>de</strong>rrubad<strong>os</strong> há milhares<strong>de</strong> an<strong>os</strong>, mas persistem, graças a nós, mei<strong>os</strong>-sangues.Eu não podia acreditar no que estava acontecendo.- Luke... você está falando d<strong>os</strong> n<strong>os</strong>s<strong>os</strong> pais - disse eu.Ele riu.- E por isso eu preciso amá-l<strong>os</strong>? A sua preci<strong>os</strong>a "civilização oci<strong>de</strong>ntal" é uma doença, Percy. Elaestá matando o mundo. O único meio <strong>de</strong> <strong>de</strong>tê-la é queimá-la completamente e começar tudo <strong>de</strong>novo com algo mais honesto.- Você é tão louco quanto Ares.Seus olh<strong>os</strong> flamejaram.- Ares é um tolo. Ele nunca percebeu quem é o verda<strong>de</strong>iro mestre a quem está servindo. Se eutivesse tempo, Percy, po<strong>de</strong>ria explicar. Mas infelizmente você não vai viver tanto.O escorpião se arrastou para cima da perna das minhas calças.Tinha <strong>de</strong> haver um meio <strong>de</strong> sair <strong>de</strong>ssa. Eu precisava <strong>de</strong> tempo para pensar.- Cron<strong>os</strong> - disse eu. - É a ele que você serve. O ar ficou mais frio.- Você <strong>de</strong>via ter cuidado com nomes - avisou Luke.- Cron<strong>os</strong> fez você roubar o raio-mestre e o elmo. Ele falou com você n<strong>os</strong> seus sonh<strong>os</strong>.O olho <strong>de</strong> Luke se contraiu.- Ele falou com você também, Percy. Devia ter ouvido.- Ele está fazendo uma lavagem cerebral em você, Luke.- Você está errado. Ele me m<strong>os</strong>trou que <strong>os</strong> meus talent<strong>os</strong> estão sendo <strong>de</strong>sperdiçad<strong>os</strong>. Você sabequal foi a minha missão dois an<strong>os</strong> atrás, Percy? Meu pai, Hermes, queria que eu roubasse umpomo <strong>de</strong> ouro do jardim das Hespéri<strong>de</strong>s e o levasse ao Olimpo. Depois <strong>de</strong> todo o treinamento quefiz, aquilo foi o melhor em que ele pô<strong>de</strong> pensar.- Essa não é uma missão fácil - disse eu. - Hércules fez isso.- Exatamente - disse Luke. - On<strong>de</strong> está a glória em repetir o que outr<strong>os</strong> já fizeram? Tudo o que<strong>os</strong> <strong>de</strong>uses sabem fazer é repetir o passado. Meu coração não estava naquilo. O dragão do jardimme <strong>de</strong>u isto - ele apontou para a cicatriz -, e quando <strong>vol</strong>tei, tudo o que ganhei foi pieda<strong>de</strong>. Euqueria <strong>de</strong>struir o Olimpo pedra por pedra naquele momento, mas esperei pelo momento certo.Comecei a sonhar com Cron<strong>os</strong>. Ele me convenceu a roubar alguma coisa que valesse a pena, algoque nenhum herói jamais tivera a coragem <strong>de</strong> pegar. Quando fom<strong>os</strong> naquela excursão do solstício<strong>de</strong> inverno, enquanto <strong>os</strong> outr<strong>os</strong> campistas dormiam, entrei furtivamente na sala do trono e peguei oraio-mestre <strong>de</strong> Zeus bem em cima da ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong>le. O elmo das trevas <strong>de</strong> Ha<strong>de</strong>s também.Você não tem idéia como foi fácil. Os olimpian<strong>os</strong> são tão arrogantes; eles nunca nem sonharamque alguém se atrevesse a roubá-l<strong>os</strong>. A segurança <strong>de</strong>les é horrível. Eu já estava a meio caminhoatravés <strong>de</strong> New Jersey antes <strong>de</strong> ouvir as tempesta<strong>de</strong>s troando, e soube que eles tinham <strong>de</strong>scobertoo meu roubo.O escorpião agora estava parado no meu joelho, me olhando com seus olh<strong>os</strong> brilhantes. Tenteimanter a voz no mesmo nível.- Então por que não levou <strong>os</strong> objet<strong>os</strong> para Cron<strong>os</strong>?O sorriso <strong>de</strong> Luke vacilou.


- Eu... eu fiquei confiante <strong>de</strong>mais. Zeus mandou seus filh<strong>os</strong> e filhas para encontrar o raioroubado: Ártemis, Apoio, meu pai, Hermes. Mas foi Ares quem me pegou. Eu podia tê-lo vencido,mas não fui bastante cuidad<strong>os</strong>o. Ele me <strong>de</strong>sarmou, tomou <strong>de</strong> mim <strong>os</strong> objet<strong>os</strong> <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, ameaçou<strong>de</strong><strong>vol</strong>vê-l<strong>os</strong> ao Olimpo e me queimar vivo. Então a voz <strong>de</strong> Cron<strong>os</strong> veio a mim e me falou o quedizer. Pus na cabeça <strong>de</strong> Ares a idéia <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> guerra entre <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses. Disse que tudo o queele teria <strong>de</strong> fazer seria escon<strong>de</strong>r <strong>os</strong> objet<strong>os</strong> por algum tempo e ficar assistindo enquanto <strong>os</strong> outr<strong>os</strong>lutavam. Um brilho perverso surgiu n<strong>os</strong> olh<strong>os</strong> <strong>de</strong> Ares.Eu sabia que ele estava fisgado. Ele me <strong>de</strong>ixou ir, e eu <strong>vol</strong>tei ao Olimpo antes que alguémnotasse a minha ausência. - Luke sacou a sua nova espada. Ele correu o polegar pela parteachatada da lâmina, como se estivesse hipnotizado por sua beleza. - Depois, o Senhor d<strong>os</strong> Titãs...e-ele me castigou com pesa<strong>de</strong>l<strong>os</strong>. Eu jurei não falhar outra vez. De <strong>vol</strong>ta ao Acampamento Meio-Sangue, em meus sonh<strong>os</strong>, me foi dito que um segundo herói chegaria, um que po<strong>de</strong>ria serenganado para levar o raio e o elmo o resto do caminho, <strong>de</strong> Ares até o Tártaro.- Você convocou o cão infernal aquela noite na floresta.- Tínham<strong>os</strong> <strong>de</strong> fazer Quíron pensar que o acampamento não era seguro para você, e assim eleiria dar início à sua missão. Tínham<strong>os</strong> <strong>de</strong> confirmar seus temores <strong>de</strong> que Ha<strong>de</strong>s estava atrás <strong>de</strong>você. Efuncionou.- Os tênis voadores estavam amaldiçoad<strong>os</strong> - disse eu.- Eles <strong>de</strong>veriam me arrastar com a mochila para <strong>de</strong>ntro do Tártaro.- E teriam, se você <strong>os</strong> estivesse usando. Mas você <strong>os</strong> <strong>de</strong>u ao sátiro, o que não era parte do plano.Grover bagunça tudo o que ele toca. Confundiu até a maldição.Luke baixou <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> para o escorpião, que estava agora parado na minha coxa.- Você <strong>de</strong>via ter morrido no Tártaro, Percy. Mas não se preocupe. Vou <strong>de</strong>ixá-lo com o meupequeno amigo para corrigir as coisas.- Thalia <strong>de</strong>u a vida <strong>de</strong>la para salvá-lo - disse eu rangendo <strong>os</strong> <strong>de</strong>ntes. - E é assim que vocêretribui?- Não fale <strong>de</strong> Thalia! - berrou ele. - Os <strong>de</strong>uses a <strong>de</strong>ixaram morrer! Essa é uma das muitas coisaspelas quais eles pagarão.- Você está sendo usado, Luke. Você e Ares, <strong>os</strong> dois. Não dê ouvid<strong>os</strong> a Cron<strong>os</strong>.- Eu estou sendo usado? - A voz <strong>de</strong> Luke ficou estri<strong>de</strong>nte.- Olhe para você mesmo. O que o seu pai já fez por você? Cron<strong>os</strong> se erguerá. Você apenasretardou <strong>os</strong> seus plan<strong>os</strong>. Ele irá lançar <strong>os</strong> olimpian<strong>os</strong> no Tártaro e mandará a humanida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>vol</strong>tapara as cavernas.Tod<strong>os</strong> men<strong>os</strong> <strong>os</strong> mais fortes; aqueles que o servem.- Chame <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta o seu bicho rastejante - disse eu. - Se você é tão forte, lute comigo vocêmesmo.Luke sorriu.- Boa tentativa, Percy. Mas eu não sou Ares. Você não po<strong>de</strong> me engabelar. Meu senhor estáesperando, e ele tem muitas missões para mim.- Luke...-A<strong>de</strong>us, Percy. Uma nova Ida<strong>de</strong> do Ouro está chegando. Você não será parte <strong>de</strong>la.Ele traçou um arco com a espada e <strong>de</strong>sapareceu numa onda <strong>de</strong> escuridão.O escorpião <strong>de</strong>u o bote.


Eu o joguei <strong>de</strong> lado com a mão e <strong>de</strong>stampei a espada. A coisa pulou em cima <strong>de</strong> mim e eu acortei ao meio no ar.Estava a ponto <strong>de</strong> me congratular quando olhei para a minha mão. Na palma havia um enormevergão vermelho, que <strong>de</strong>stilava uma secreção amarela e fumegante. A coisa me pegara, afinal.Meus ouvid<strong>os</strong> latejavam. Minha visão ficou embaçada. A água, pensei. Ela já me curara antes.Cambaleei até o regato e mergulhei a mão, mas nada pareceu acontecer. O veneno era forte<strong>de</strong>mais.Minha visão estava escurecendo. Eu mal conseguia ficar em pé.Sessenta segund<strong>os</strong>, Luke me dissera.Eu tinha <strong>de</strong> <strong>vol</strong>tar ao acampamento. Se <strong>de</strong>smaiasse aqui, meu corpo seria o jantar <strong>de</strong> algummonstro.Ninguém jamais saberia o que aconteceu.Minhas pernas pareciam feitas <strong>de</strong> chumbo. Minha testa queimava. Fui cambaleando até oacampamento, e as ninfas <strong>de</strong>spertaram <strong>de</strong> suas árvores.- Socorro - grasnei. - Por favor...Duas <strong>de</strong>las seguraram <strong>os</strong> meus braç<strong>os</strong> e me puxaram para frente. Lembro-me <strong>de</strong> chegar até aclareira, <strong>de</strong> um conselheiro gritando por ajuda, <strong>de</strong> um centauro tocando uma trombeta <strong>de</strong> concha.Então tudo escureceu.• • •Acor<strong>de</strong>i com um canudinho na boca. Estava bebendo alguma coisa que tinha g<strong>os</strong>to <strong>de</strong> biscoit<strong>os</strong><strong>de</strong> floc<strong>os</strong> <strong>de</strong> chocolate líquid<strong>os</strong>. Néctar.Abri <strong>os</strong> olh<strong>os</strong>.Estava reclinado na cama no quarto <strong>de</strong> doentes da Casa Gran<strong>de</strong>, a mão direita enfaixada comoum pedaço <strong>de</strong> pau. Arg<strong>os</strong> montava guarda no canto. Annabeth estava sentada ao meu lado,segurando o copo <strong>de</strong> néctar e enxugando a minha testa com uma toalha.- Aqui estam<strong>os</strong> nós outra vez - disse eu.- Seu idiota - disse Annabeth, e foi como eu percebi que ela estava radiante por me verconsciente. - Você estava ver<strong>de</strong> e ficando cinzento quando o encontram<strong>os</strong>. Se não f<strong>os</strong>se otratamento <strong>de</strong> Quíron...- Vam<strong>os</strong>, vam<strong>os</strong> - disse a voz <strong>de</strong> Quíron. - A constituição <strong>de</strong> Percy merece parte do crédito.Ele estava sentado perto do pé da minha cama em forma humana, e foi por isso que eu não onotara antes. Sua parte inferior estava magicamente compactada na ca<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> rodas, e a partesuperior usava casaco e gravata. Ele sorriu, mas seu r<strong>os</strong>to parecia cansado e pálido, como quandopassava a noite em claro corrigindo provas <strong>de</strong> latim.- Como está se sentindo? - perguntou.- Como se as minhas entranhas tivessem sido congeladas e <strong>de</strong>pois assadas no microondas.- Apropriado, consi<strong>de</strong>rando que foi veneno <strong>de</strong> escorpião das profun<strong>de</strong>zas. Agora você tem <strong>de</strong>me contar, se pu<strong>de</strong>r, exatamente o que aconteceu.Entre goles <strong>de</strong> néctar, contei-lhes a história.O quarto ficou em silêncio por um longo tempo.- Eu não p<strong>os</strong>so acreditar que Luke... - A voz <strong>de</strong> Annabeth vacilou. Sua expressão ficou zangadae triste. -Sim. Sim, eu p<strong>os</strong>so acreditar. Que <strong>os</strong> <strong>de</strong>uses o amaldiçoem... Ele nunca mais foi o mesmo


<strong>de</strong>pois da sua missão.- Isso <strong>de</strong>ve ser relatado ao Olimpo - murmurou Quíron.- Irei imediatamente.- Luke está lá fora agora - disse eu. - Preciso ir atrás <strong>de</strong>le.Quíron sacudiu a cabeça.- Não, Percy. Os <strong>de</strong>uses...- Nem mesmo falam sobre Cron<strong>os</strong> - disparei. - Zeus <strong>de</strong>clarou o assunto encerrado!- Percy, eu sei que é difícil. Mas você não <strong>de</strong>ve correr atrás <strong>de</strong> vingança. Você não estápreparado.Eu não g<strong>os</strong>tei, mas parte <strong>de</strong> mim suspeitava que Quíron estava certo. Bastava uma olhada para aminha mão e dava para ver que não haveria lutas <strong>de</strong> espada tão cedo.- Quíron... a sua profecia do Oráculo... era sobre Cron<strong>os</strong>, não era? Eu estava nela? E Annabeth?Quíron olhou nerv<strong>os</strong>amente para o teto.- Percy, não cabe a mim...- Você recebeu or<strong>de</strong>ns <strong>de</strong> não falar comigo sobre isso, não foi?Seus olh<strong>os</strong> eram solidári<strong>os</strong>, mas tristes.- Você será um gran<strong>de</strong> herói, criança. Darei o melhor <strong>de</strong> mim para prepará-lo. Mas se estoucerto quanto ao caminho à sua frente... - O trovão ribombou acima, chacoalhando as janelas.- Está certo! - gritou Quíron. - Perfeito! - Ele suspirou com frustração. - Os <strong>de</strong>uses têm suasrazões, Percy.Saber <strong>de</strong>mais sobre o próprio futuro nunca é uma boa coisa.- Não po<strong>de</strong>m<strong>os</strong> simplesmente ficar sentad<strong>os</strong> sem fazer nada - disse eu.- Nós não vam<strong>os</strong> ficar sentad<strong>os</strong> - prometeu Quíron. - Mas você precisa ter cuidado. Cron<strong>os</strong> querque você seja <strong>de</strong>struído. Ele quer a sua vida interrompida, <strong>os</strong> seus pensament<strong>os</strong> obscureci-d<strong>os</strong> pormedo e raiva.Não dê a ele o que ele quer. Treine pacientemente. O seu momento chegará.- Presumindo que eu esteja vivo até lá.Quíron pousou a mão no meu tornozelo.- Você terá <strong>de</strong> confiar em mim, Percy. Você viverá. Mas primeiro precisa <strong>de</strong>cidir seu caminhopara o próximo ano. Não p<strong>os</strong>so dizer a você qual é a escolha certa... - Tive a impressão <strong>de</strong> que eletinha uma opinião muito bem <strong>de</strong>finida, e estava usando toda a sua força <strong>de</strong> vonta<strong>de</strong> para não meaconselhar. - Mas você precisa <strong>de</strong>cidir se vai ficar no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro,ou se vai <strong>vol</strong>tar ao mundo mortal para a sétima série e ser um campista <strong>de</strong> verão. Pense nisso.Quando eu <strong>vol</strong>tar do Olimpo, você terá <strong>de</strong> me contar a sua <strong>de</strong>cisão.Eu quis protestar. Quis lhe fazer mais perguntas. Mas sua expressão me disse que não haveriamais discussão; ele já dissera tudo o que podia.- Estarei <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta assim que pu<strong>de</strong>r - prometeu Quíron.- Arg<strong>os</strong> o protegerá.Ele lançou um olhar para Annabeth.- Ah, e minha querida... quando estiver pronta, eles estão aqui.- Quem está aqui? - perguntei.Ninguém respon<strong>de</strong>u.Quíron rodou para fora do quarto. Ouvi o som metálico abafado das rodas da sua ca<strong>de</strong>ira<strong>de</strong>scendo cautel<strong>os</strong>amente <strong>os</strong> <strong>de</strong>graus da frente, dois <strong>de</strong> cada vez.


Annabeth estudou o gelo na minha bebida.- O que está errado? - perguntei a ela.- Nada. - Ela pôs o copo sobre a mesa. - Eu... apenas aceitei o seu conselho sobre algo. Você...ahn...precisa <strong>de</strong> alguma coisa?- Sim. Aju<strong>de</strong>-me a levantar. Quero ir para fora.- Percy, não é uma boa idéia.Arrastei as pernas para fora da cama. Annabeth me agarrou antes que eu <strong>de</strong>sabasse no chão.Uma onda <strong>de</strong> náusea me acometeu.Annabeth disse:- Eu falei...- Estou ótimo - insisti. Eu não queria ficar <strong>de</strong>itado na cama como um inválido enquanto Lukeestava lá fora planejando <strong>de</strong>struir o mundo oci<strong>de</strong>ntal.Consegui dar um passo para a frente. Depois outro, ainda me apoiando pesadamente emAnnabeth.Arg<strong>os</strong> n<strong>os</strong> seguiu para fora, mas manteve distância.Quando chegam<strong>os</strong> à varanda, meu r<strong>os</strong>to estava molhado <strong>de</strong> suor. Meu estômago se contorcia emnós.Mas eu conseguira ir até a cerca.Estava anoitecendo. O acampamento parecia completamente <strong>de</strong>serto. Os chalés estavam escur<strong>os</strong>e a quadra <strong>de</strong> vôlei, silenci<strong>os</strong>a. Nenhuma canoa cortava a superfície do lago. Além d<strong>os</strong> b<strong>os</strong>ques ed<strong>os</strong> camp<strong>os</strong> <strong>de</strong> morang<strong>os</strong>, o estreito <strong>de</strong> Long Island brilhava com <strong>os</strong> últim<strong>os</strong> rai<strong>os</strong> do sol.- O que você vai fazer? - perguntou-me Annabeth.- Eu não sei.Disse a ela que tinha a sensação <strong>de</strong> que Quíron queria que eu ficasse o ano inteiro, para ter maistempo <strong>de</strong> treinamento individual, mas eu não tinha certeza <strong>de</strong> que era isso o que queria. Porémadmiti que me sentia mal por <strong>de</strong>ixá-la sozinha, com Clarisse por companhia...Annabeth apertou <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong> e então disse baixinho: - Eu vou passar o ano em casa, Percy. Euolhei para ela.- Você quer dizer, com o seu pai?Ela apontou para o cume da Colina Meio-Sangue. Junto ao pinheiro <strong>de</strong> Thalia, bem no limitedas fronteiras mágicas do acampamento, havia uma família em silhueta - duas crianças pequenas,uma mulher e um homem alto <strong>de</strong> cabel<strong>os</strong> loir<strong>os</strong>. Pareciam estar aguardando. O homem seguravauma mochila parecida com a que Annabeth pegara no Parque Aquático em Denver.- Eu escrevi uma carta para ele quando <strong>vol</strong>tam<strong>os</strong> - disse Annabeth. - Como você sugeriu. Eudisse a ele...que sentia muito. Que iria para casa passar o ano escolar se ele ainda me quisesse. Elerespon<strong>de</strong>u na mesma hora. Nós <strong>de</strong>cidim<strong>os</strong>... que íam<strong>os</strong> tentar <strong>de</strong> novo.- Foi preciso coragem para isso.Ela apertou <strong>os</strong> lábi<strong>os</strong>.- Você não vai tentar nada <strong>de</strong> estúpido durante o ano escolar, vai? Pelo men<strong>os</strong>... não sem memandar uma mensagem <strong>de</strong> íris? Consegui sorrir.- Não vou procurar encrenca. Normalmente eu não preciso.- Quando eu <strong>vol</strong>tar no próximo verão - disse ela -, vam<strong>os</strong> caçar Luke. Vou pedir uma missão,mas se não tiverm<strong>os</strong> aprovação, vam<strong>os</strong> sair escondid<strong>os</strong> e fazer isso do mesmo jeito. De acordo?


- Parece um plano digno <strong>de</strong> Atena.Ela esten<strong>de</strong>u a mão. Eu a apertei.- Cui<strong>de</strong>-se, Cabeça <strong>de</strong> Alga - disse Annabeth. - Mantenha <strong>os</strong> olh<strong>os</strong> abert<strong>os</strong>.- Você também, Sabidinha.Fiquei olhando enquanto ela subia a colina para se juntar à família. Ela <strong>de</strong>u um abraço mei<strong>os</strong>em jeito no pai e olhou para o vale atrás <strong>de</strong>la uma última vez. Tocou o pinheiro <strong>de</strong> Thalia e entã<strong>os</strong>e <strong>de</strong>ixou levar por cima do cume e para <strong>de</strong>ntro do mundo mortal.Pela primeira vez no acampamento, me senti verda<strong>de</strong>iramente só. Olhei para o estreito <strong>de</strong> LongIsland e me lembrei do meu pai dizendo: O mar não g<strong>os</strong>ta <strong>de</strong> ser contido.Tomei minha <strong>de</strong>cisão.Fiquei pensando: se P<strong>os</strong>eidon estivesse vendo, ele aprovaria a minha escolha?Estarei <strong>de</strong> <strong>vol</strong>ta no próximo verão - prometi a ele. - Sobreviverei até lá. Afinal, eu sou seu filho.- Pedi a Arg<strong>os</strong> para me levar até o chalé 3, para eu arrumar as minhas coisas antes <strong>de</strong> ir para casa.


AGRADECIMENTOSSem a assistência <strong>de</strong> muit<strong>os</strong> ajudantes valor<strong>os</strong><strong>os</strong>, eu teria sido morto por monstr<strong>os</strong> muitas vezesseguidas na luta para publicar esta história. Obrigado ao meu filho mais velho, Haley Michael, queouviu a história primeiro; meu filho mais novo, Pat<strong>rick</strong> John, que com seis an<strong>os</strong> <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> é <strong>os</strong>ensato da família; e minha mulher, Becky, que agüenta as minhas muitas e longas horas noAcampamento Meio-Sangue. Obrigado também ao meu núcleo <strong>de</strong> testado-res beta do curs<strong>os</strong>ecundário: Travis Stoll, esperto e rápido como Hermes; C.C. Kellog, amado como Atena; AllisonBauer, clarivi-<strong>de</strong>nte como Ártemis, a Caçadora; e à sra.Margaret Floyd, a sábia e gentil vi<strong>de</strong>nte da escola secundária <strong>de</strong> inglês. Meu reconhecimentotambém ao professor Egbert J. Bakker, extraordinário classicista; Nancy Gallt, agente summa cumlauie; Jonathan Burnham, Jennifer Besser e Sarah Hughes, por acreditar em Percy.Digitalizado por: Αηδψϊηћα βϊττψComunida<strong>de</strong>s:Traduções & Digitalizações http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057Percy Jackson e <strong>os</strong> Olimpian<strong>os</strong> http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=42384468