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Boletim BioPESB 2014 - Edição 14.pdf

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Boletim Biopesb

Ciência, meio ambiente e cidadania em suas mãos ISSN - 2316-6649 - Ano 4 - Nº 14 - 2014

Saiba como os Sistemas Agroflorestais podem contribuir

para a agricultura sustentável na Zona da Mata Mineira

A Zona da Mata de Minas

Gerais apresenta como

principal cobertura vegetal

a Mata Atlântica. Porém, a

região que antes era dominada

por florestas foi substituída

por plantações de

café. A técnica de monocultura

de café apresenta

como ponto negativo a

redução da fertilidade do

solo, o que provoca erosão,

além de contribuir ainda

mais para o desmatamento.

Uma solução para o

problema é a implantação

dos Sistemas Agroflorestais

(SAFs) nas plantações, capazes

de promover benefícios

econômicos e ecológicos

ao combinar espécies

arbóreas com cultivos agrícolas

e/ou criação de animais

em uma mesma área.

Págs 7 e 8

Bioetanol de cana-de açúcar representa forma de energia

renovável com grande potencial de expansão

Considerando os impactos

ambientais associados

aos combustíveis

Ciência

Saiba mais sobre as pesquisas

realizadas a respeito

da flora da Mata

Atlântica no PESB.

Página 4

Meio Ambiente

Conheça a biodiversidade

do estado de Minas

Gerais e saiba como as

Unidades de conservação

a preservam.

Páginas 2 e 3

fósseis, o Brasil encontra

no bioetanol de cana-

-de-açúcar uma alternativa

economicamente gunda posição entre as

viável e com significativo mais importantes fontes

potencial de expansão. primárias e a principal

A produção e o uso de forma de energia renovável

na matriz energé-

bioetanol como combustível

é capaz de atenuar tica brasileira, além de

graves problemas ambientais.

Entre as magurança

ao suprimento

proporcionar maior setérias

primas utilizadas energético e reduzir os

para a produção do bioetanol

e da bioeletrici-

impactos ambientais.

dade, a cana de açúcar

ocupa atualmente a se- Pág 5

Entrevista

Alexandre Enout fala sobre

as Reservas Particulares

do Patrimônio Natural

Mata do Sossego e

Mata do Passarinho.

Página 6


MeioAmbiente Ano 4, n°14 - Pág 2

Unidades de conservação se alia à diminuição da

perda da biodiversidade em Minas Gerais

Os biomas brasileiros

perderam, ao longo

do tempo, grande parte

de suas riquezas. A Mata

Atlântica, por exemplo,

possui apenas 7% de sua

cobertura inicial. A atividade

humana irresponsável é

a maior culpada por essa

triste constatação. Segundo

o Atlas dos Remanescentes

Florestais da Mata Atlântica,

entre 2011 e 2012,

este bioma sofreu perda

de 235 km² de floresta, o

que representa um aumento

de 9% no ritmo da devastação

em relação ao último

período avaliado. A perda

de superfície vegetal causa

também perda da biodiversidade

da fauna, visto

que sem o habitat natural

preservado muitas espécies

acabam sofrendo e

entram na lista de espécies

Reserva Particular do Patrimônio Natural Mata do Sossego,

entre os municípios de Simonésia e Manhuaçu.

Boletim Biopesb

Redação: Alunos do PET- Bioquímica da UFV

(Danilo Santos, Fernanda Araújo, Helaindo Júnior,

Isabella Costa, Joana Marchiori, Paula Sudré,

Raquel Santos, Renato Senra e Thaís Martins).

Projeto Gráfico : Thamara Pereira

Diagramação: Ana Paula Lopes

Revisão: Joana Marchiori

www.biopesb.ufv.br

ameaçadas de extinção.

Em Minas Gerais, essa

realidade não é diferente.

Segundo dados da Ong

SOS Mata Atlântica, dos

17 estados aos quais Mata

Atlântica abrange, Minas

Gerais está entre os que

mais destruíram o bioma,

com perda de 84,3 km² de

floresta. A ocupação histórica

desorganizada e o

descaso pela preservação

e conservação ambiental

causaram transformações

na paisagem dos principais

biomas do estado: Cerrado,

Caatinga e Mata Atlântica.

Sendo assim, torna-se

importante a criação de

medidas de preservação

ao patrimônio natural. Entre

essas medidas está a

criação das Unidades de

Conservação (UC). Visando

a necessidade de estabelecer

critérios e normas para

criar, implantar e gerir as

UC’s, foi instituido na esfera

federal o Sistema Nacional

de Unidades de Conservação

(SNUC), criado pela Lei

nº 9.985, de 18 de julho

de 2000, e regulamentado

em 22 de agosto de 2002

pelo Decreto nº 4.340. A lei

do SNUC definiu como UC

o “espaço territorial e seus

recursos ambientais, incluindo

as águas jurisdicionais,

com características naturais

relevantes, legalmente instituído

pelo poder público,

com objetivos de conservação

e limites definidos, sob

regime especial de administração,

ao qual se aplicam

garantias adequadas

de proteção”. Em Minas

Gerais, o Sistema Estadual

de Unidades de Conservação

foi criado, tendo entre

os objetivos, definir mecanismos

de adequação das

UCs já existentes.

Para conter o acelerado

processo de perda da

biodiversidade, somente a

criação de novas unidades

de conservação não é suficiente,

mas com certeza,

contribuirá para a preservação

de várias espécies

da fauna e flora que correm

risco de extinção.

Joana Marchiori

Danilo Santos

Editor-Chefe: João Paulo Viana Leite

Telefone: (31) 3899-3044

E-mail: biopesbufv@gmail.com

Endereço: Departamento de Bioquímica e Biologia

Molecular - UFV

CEP 36570-900, Viçosa - MG - Brasil

Tiragem: 1.000 exemplares

Apoio: Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PIBEX)-UFV

Apoio: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em

Interações Planta-Praga; Ministério da Educação.

Editorial

O tema Unidade de Conservação

(UC) tem gerado

grande debate no Congresso

brasileiro, com posições

opostas entre os que lutam

pela ampliação de sua área

e aqueles que veem estas

reservas como empecilho ao

desenvolvimento. Na verdade,

o que se observa é uma

redução dessas áreas no

Brasil. Entre os anos 1981 e

2012, as UC`s sofreram 93

perdas de área ou reduções

no status de proteção, de

acordo com estudo realizado

por Enrico Bernard, da

UFPE. Tramita no Congresso

um projeto para cortar um

quarto do Parque Nacional

da Serra da Canastra. Sabe-se

que em alguns países

as áreas de preservação,

além de conservar o meio

ambiente, são fontes de lucro.

Nos Estados Unidos, os parques

nacionais recebem 280

milhões de visitantes por ano,

que gastam cerca de US$

14,7 bilhões nas imediações

dos parques, gerando 240

mil empregos. Levantamento

realizado pelo professor

Carlos Young da UFRJ, constatou

que a visitação nos 67

parques nacionais existentes

no Brasil tem potencial para

gerar até R$ 1,8 bilhão por

ano. É possível constatar que

as UC`s são fortes aliadas

ao desenvolvimento do país

e não obstáculo. É preciso

aprimorar suas formas

de gestão e aproveitar seu

grande potencial ambiental

e a determinação de vários

moradores do seu entorno

que lutam pela sua conservação.

João Paulo Viana Leite

Editor Chefe


MeioAmbiente Ano 4, n°14 - Pág 3

Minas Gerais é um dos estados mais ricos em biodiversidade

Devido a grande extensão

territorial e variedade

climática do estado,

Minas Gerais é um dos

estados brasileiros com

maior biodiversidade.

O estado possui fauna e

flora extremamente variadas,

com três tipos de biomas

diferentes: o Cerrado,

Mata Atlântica e Caatinga.

O Cerrado predomina

a cobertura vegetal ocupando

mais de 50% do

território, seguido pela

Mata Atlântica com cerca

de 40% e a Caatinga com

menos de 10% predominantemente

encontrada no

Norte de Minas.

Com relação à sua hidrografia,

o território mineiro

é ocupado por muitos

rios e lagos, dentre

eles as nascentes do rio

São Francisco, Rio Pardo

e Rio Mucuri. Este fato

possibilita que seus recursos

sejam amplamente

utilizados pelas usinas

hidrelétricas e represas.

Desse modo, Minas Gerais

também apresenta uma

grande riqueza endêmica

e variedades de espécies

na sua fauna.

Com tantas riquezas

presentes, Minas Gerais

apresenta um conjunto

que resulta em uma biodiversidade

de extrema

importância para o país.

Helaindo Junior

Luciana Fernandes

Conheça um pouco mais sobre os Biomas de Minas Gerais

Mata Atlântica: apresenta espécies de animais únicas. Apenas contando mamíferos são 160 espécies diferentes

que se somam a cerca de 20.000 espécies de plantas superiores. Sua principal característica é a

presença de árvores de médio e grande portes que formam uma floresta fechada e densa. É a segunda maior

floresta brasileira em extensão, com 100 mil km² atualmente, perdendo apenas para a floresta Amazônica. A

intensificação das atividades humanas e do desmatamento no estado teve grande impacto sobre a vegetação

nativa, que se encontra cada vez mais fragmentada, e também, sobre a fauna existente na região. À exemplo

das demais regiões do país com dominância da Mata Atlântica, o desenvolvimento agropecuário, industrial e

imobiliário, aliados à falta de uma política específica de ocupação e uso do solo, resultou na quase completa

destruição das suas tipologias florestais.

Cerrado: é caracterizado por arbustos e árvores de pequeno porte, com galhos retorcidos e folhas grossas. A

maioria das plantas é caducifólia, ou seja, perde suas folhas no período de estiagem. A maior parte do território

de Minas Gerais (57%) é coberta pelo bioma Cerrado, que se estende no sentido centro-noroeste, a partir de

Sete Lagoas, até o Triângulo Mineiro. Segundo dados da Embrapa existem cerca de 320.000 espécies de animais

na região do Cerrado, sendo apenas 0,6% formada por

animais vertebrados. Animais vertebrados são aqueles que

possuem coluna vertebral, como mamíferos, aves, peixes, etc.

Entre os animais invertebrados, os insetos têm posição de destaque

com cerca de 90.000 espécies, representando 28% de

toda a biota do Cerrado.

Caatinga: Por último, mas não menos importante, temos

a Caatinga, também chamada de ‘mata branca’ e é o único

sistema ambiental exclusivamente brasileiro. Em Minas Gerais

ocupa basicamente a região norte e se estende por estados

como Bahia, Piauí, Alagoas e Pernambuco. Sua vegetação é

adaptada ao clima extremamente seco, com poucas chuvas e

em sua maioria apresenta-se na forma de arbustos. Quanto

a sua fauna, temos grande variedade de répteis, principalmente

lagartos e cobras, roedores, insetos e até espécies

ameaçadas de extinção, como a arara-azul.

Reprodução


Ciência

Ano 4, n°14 - Pág 4

Parque Estadual da Serra do Brigadeiro: espaço privilegiado para

a realização de pesquisa sobre a flora da Mata Atlântica

Ao visitar o Parque Estadual

da Serra do Brigadeiro

(PESB) é comum

o turista se deparar com

pesquisadores munidos de

mochila, binóculo, aparelho

GPS, máquina fotográfica

e um inseparável bloco

para anotações. Alguns

chegam a passar semana

inteira na investigação de

alvo de estudo. Eles aproveitam

do grande “laboratório”

a céu aberto para

fazer descoberta sobre um

dos mais importante ecossistema

do planeta, a Floresta

Atlântica.

No campo da botânica,

o PESB abriga uma grande

diversidade de espécies

vegetais, aumentando o

interesse por informações

biológicas mais exatas e

consequentemente, atraindo

vários cientistas e estudantes.

O PESB é classificado

pelo Sistema Nacional de

Unidades de conservação

(SNUC) como Área de Proteção

Integral, cujo objetivo

principal é preservar

a natureza, sendo admitido

apenas o uso indireto

dos seus recursos naturais,

como para o turismo ecológico

e a realização de

pesquisas científicas.

Por estar localizada

em área de dominânica

da Mata Atlântica, bioma

este atualmente protegido

no Brasil apenas em pequenas

faixas territoriais,

o PESB é classificado na

categoria de “Extrema”

importância dentre as

“Áreas Prioritárias para a

Conservação da Biodiversidade

de Minas Gerais”.

O território do Parque tem

a guarda de várias espécies

vegetais em ameaça

de extinção.

Área Administrativa do PESB

Para a realização de

pesquisa científica no PESB,

como em outras Unidades

de Conservação (UC), é

necessária autorização

prévia emitida pelo Instituto

Estadual de Florestas

(IEF). Uma vez autorizada,

o gerente da UC é informado

do escopo da pesquisa

e dos pesquisadores

envolvidos. Com posse da

autorização, o pesquisador

e sua equipe passam a

contar com a infraestrutura

do Parque, como alojamento,

auditório, auxílio de

guarda-parques e outros

serviços que podem tornar

o trabalho de campo mais

ágil e prazeroso.

Após o envio da documentação

para a Gerência

de Projetos e Pesquisas

(GPROP) do IEF e a emissão

da autorização pela

mesma gerência, o pesquisador

de posse da sua autorização,

deve agendar

sua ida à UC com o gerente

desta.

Após término da pesquisa,

também faz necessário

o envio do relatório final

ao GPROP sobre as atividades

exercidas, o produto

obtido da pesquisa

(tese, artigo, entre outros)

e uma planilha detalhada

das espécies encontradas

(levantamento florístico) e

coletas. Este retorno dos

resultados das pesquisas a

UC é de grande importância

para a difusão e popularização

da ciência, contribuindo

para o aumento

do acervo de informações

sobre as espécies existentes

no Parque.

Essas medidas determinadas

pelo IEF têm como

objetivo diminuir as ameaças

de invasão e coletas

indevidas que possam ser

realizadas por profissionais

ou até mesmo indivíduos

não autorizados. É

de extrema importância

ressaltar e enfatizar o uso

correto desses recursos

naturais, preservando assim

todo o potencial que a

natureza oferece, a fim de

atender às necessidades

humanas no futuro e claro,

as do próprio ecossistema.

Renato Senra

Fernanda Araújo

Pelo site do IEF (http://www.ief.mg.gov.br) é possível encontrar informações detalhadas

quanto a documentos necessários para alguns quesitos como: realização de pesquisa com ou

sem coleta; tabela de estimativa de coleta; autorização do SISBIO quando a flora for transportada

para outro estado ou envolver espécies ameaçadas de extinção; entre outros.


Ciência Ano 4, n°14 - Pág 5

Bioetanol de cana-de-açúcar para o desenvolvimento sustentável

A crescente necessidade

de ampliar o uso de fontes

renováveis de energia

de modo sustentável para

proporcionar maior segurança

ao suprimento energético

e reduzir os impactos

ambientais associados aos

combustíveis fósseis, encontra

no bioetanol da cana-

-de-açúcar uma alternativa

economicamente viável e

com significativo potencial

de expansão.

A produção e o uso de

bioetanol como combustível

vêm sendo utilizados regularmente

no Brasil desde

1931, com notável evolução

durante as últimas décadas.

Por meio do bioetanol

e da bioeletricidade, a

cana-de-açúcar representa

atualmente a segunda mais

importante fonte primária e

a principal forma de energia

renovável na matriz

energética brasileira.

Nos últimos tempos, os

biocombustíveis vêm sendo

Trigo

Soro sacarino

Mandioca

Milho

Beterraba

considerados fonte energética

renovável alternativa

aos combustíveis fósseis, capaz

de atenuar graves problemas

ambientais. Uma

condição fundamental a ser

observada para a viabilidade

da produção de Bioenergia

é a eficiência na

captação da energia solar,

associada à produtividade

por unidade de recursos

naturais utilizados.

A produtividade vegetal

depende, essencialmente,

das condições climáticas

(disponibilidade hídrica,

rádiação solar e temperatura)

e da fertilidade do

solo cultivado. Dessa forma,

as regiões tropicais úmidas,

especialmente na América

Latina e na África, apresentam-se

indiscutivelmente

como as mais promissoras

para a produção de Bioenergia.

Do ponto de vista econômico,

a análise dos custos

do bioetanol de cana-de-

-açúcar, frente ao açúcar e

ao melaço; e a comparação

dos preços pagos aos

produtores de bioetanol

no Brasil com os preços internacionais

da gasolina

durante a última década,

confirmam a atratividade

do emprego desse biocombustível.

A efetiva redução das

emissões de gases de efeito

estufa possivelmente é um

dos efeitos positivos mais

Álcool de bagaço da cana como alternativa para o aumento

de produtividade sem expansão agrícola

Em função das diferenças

entre a produtividade

agrícola e a produtividade

industrial, os volumes

de bioetanol produzido

por diferentes fontes por

unidade de área cultivada

variam bastante como

mostra o gráfico abaixo

referente ao ano de 2008.

Para a cana-de-açúcar,

considera-se ainda a produção

de etanol dos resíduos

celulósicos, tecnologia

Etanol de residuos

celulósticos

Cana

0 2000 4000 6000 8000 10000

litro/ha

ainda em desenvolvimento,

assumindo a utilização de

30% do bagaço da cana

disponível e metade da

palha, convertida em bioetanol

à razão de 400 litros

por tonelada de biomassa

celulósica seca.

O etanol produzido a

partir de celulose presente

no bagaço, palha e outros

resíduos da produção da

planta constitui atualmente

na principal aposta para

aumentar a oferta do etanol.

Este álcool combustível

gerado com o que sobra

importantes associados ao

bioetanol de cana-de-açúcar

em relação aos combustíveis

fósseis.

A existência de países

com boas condições para

a produção sustentável de

bioetanol e a necessidade

mundial de um combustível

renovável e ambientalmente

adequado sinalizam

perspectivas interessantes

para que esse biocombustível

seja um produto global.

da primeira moagem da

cana vem sendo chamado

de etanol de segunda

geração. Esta tecnologia

pode representar o aumento

na produção de

bioetanol no Brasil, sem

estender a área de plantio

de cana-de-açúcar. O

etanol de segunda geração,

ainda produzido em

projetos experimentais,

pode chegar aos postos

de combustíveis brasileiros

já este ano.

Paula Sudré

Thaís Martins


Entrevista Ano 4, n°14 - Pág 6

Mata do Sossego e Mata do Passarinho preservando de Mata Atlântica

Alexandre M. J. Enout é

bacharel em Ecologia pela

UNIBH e mestre em Ecologia

de Biomas Tropicais

pela UFOP. Atualmente, é

gerente das Reservas Particulares

do Patrimônio Natural

(RPPN) Mata do Sossego

e Mata do Passarinho. A

Mata do Sossego, está localizada

no mais extenso e

preservado remanescente

contínuo de Mata Atlântica,

entre os municípios de Simonésia

e Manhuaçu (MG), a

324 km de Belo Horizonte.

Fale um pouco sobre a RPPN

Mata do Sossego?

Alexandre Enout: A Mata

do Sossego é uma Reserva

Particular do Patrimônio

Natural da Fundação

Biodiversitas e foi criada

principalmente para conservação

do muriqui-do-

-norte, primata criticamente

ameaçado. Nós temos um

programa de monitoramento

dos muriquis e diversas

pesquisas com flora

e fauna são desenvolvidas

lá. Também trabalhamos

com educação ambiental,

desenvolvimento das comunidades

do entorno e reflorestamento.

Vocês recebem algum tipo

de auxílio para manter os

seus projetos e pesquisas?

A.E.: Para que a reserva se

mantenha e esteja sempre

ativa é fundamental que

executemos projetos. As

fontes de financiamento,

patrocínio ou doação vem

do poder público, mas

também de outras ONGs,

de empresas e também de

particulares.

Existe algum projeto voltado

para a comunidade da

região?

A.E.: A Mata do Sossego

é um espaço de convivência

e de integração com a

comunidade. Sempre recebemos

pessoas da comunidade,

o público escolar e

outros interessados. Muitos

cursos e capacitações

já ocorreram na reserva.

As comunidades rurais do

entorno são sensibilizadas

com a proposta de conservação

da área graças ao

trabalho que vem sendo

desenvolvido. Um exemplo

é o Projeto Corredor

Ecológico Sossego – Caratinga,

desenvolvido na

reserva, que tem como

objetivo conectar a Mata

do Sossego com a Reserva

Feliciano Miguel Abdala,

em Caratinga, onde

também encontra-se uma

importante população de

muriquis-do-norte. Para

isto, temos trabalhado com

a comunidade, com educação

ambiental e também

com capacitação em

agroecologia e reflorestamento.

Temos recuperado

nascentes degradadas nas

propriedades dos vizinhos

como forma de aumentar

a área florestal e ainda

beneficiar os proprietários

com recurso hídrico de qualidade.

A Mata do Passarinho também

tem o mesmo intuito da

Mata do Sossego?

A.E.: A Mata do Passarinho

é uma reserva nova, que no

momento está sendo implementada.

Ela foi criada especialmente

para a proteção

de uma espécie de ave,

o entufado-baiano, que foi

redescoberto lá depois de

décadas sem registro, ou

seja, lá é o único lugar conhecido

em que vive uma

das aves mais ameaçadas

de extinção do mundo. Contudo,

além disso, lá existem

outras espécies ameaçadas

e representa um dos últimos

remanescentes de Mata

Atlântica bem preservada

no Vale do Jequitinhonha.

Quais as maiores dificuldades

encontradas hoje que

atrapalham a missão de preservação?

A.E.: O desafio sempre

foi conciliar conservação

com desenvolvimento. Boas

iniciativas existem e gente

interessada também,

procuramos explorar estas

oportunidades.

Qual a importância do

despertar da consciência

ambiental nas pessoas e a

prática dessas ações de preservação

no cenário ambiental

atual?

A.E.: A proteção destas

áreas transcende o benefício

para a fauna e a flora,

que por si só já valeria a

pena. A natureza nos fornece

diversos serviços que

são difíceis de mensurar

e que passam desapercebidos

pela maioria das

pessoas. A disponibilidade

de água, a regulação

do clima, o fornecimento de

produtos florestais como fibras,

alimentos e remédios,

a manutenção das populações

de polinizadores são

alguns exemplos de serviços

prestados pela natureza

e dos quais dependemos

para a nossa própria

sobrevivência.

Nota: Visitas devem ser

agendadas no endereço: comunicacao@biodiversitas.

org.br ou pelo telefone (31)

3284-6322

Vista Geral da paisagem da Reserva

Joana Marchiori


SerradoBrigadeiro Ano 4, n°14 - Pág 7

Sistemas Agroflorestais contribuem para uma agricultura sustentável

na Zona da Mata Mineira

A Zona da Mata está

localizada na região Sudeste

de Minas Gerais

e apresenta a Floresta

Atlântica como a principal

cobertura vegetal. A

região que antes era dominada

por florestas foi

substituída por plantações

de café. As monoculturas

de café reduziu a fertilidade

do solo, provocou

erosão e contribuiu ainda

mais para o desmatamento,

em virtude da procura

de solos férteis para implantação

das lavouras.

Além disso, devido ao

grande uso de agrotóxicos,

aumentaram, significativamente,

os insetos

indesejáveis, as doenças e

os problemas de intoxicação

dos agricultores.

Além destes, ocorrem

outros problemas ambientais

devido ao tipo de

agricultura praticada na

região. Por esse motivo,

o Centro de Tecnologias

Alternativas da Zona da

Mata (CTA/ZM), o sindicato

dos Trabalhadores

Rurais (STR) e vários pesquisadores

da Universidade

Federal de Viçosa

(UFV) iniciaram em 1993

a experimentação participativa

com Sistemas Agroflorestais

também conhecidos

como SAFs.

Os Sistemas Agroflorestais

são formas de uso

e manejo da terra em que

se combinam espécies arbóreas

(frutíferas e/ou

madeireiras) com cultivos

agrícolas e/ou criação de

animais em uma mesma

área, usando as espécies

arbóreas, arbustivas e

rasteiras, todas promovendo

benefícios econômicos

e ecológicos.

Sistema Agroflorestal: pasto com árvores

Propriedade do Pedro Raimundo dos Santos e Maria das Graças

Comunidade de Santa Cruz/Araponga

Saiba quais são as vantagens dos SAFs para os produtores

Neste tipo de sistema,

o produtor poderá consorciar

o plantio de café

com plantas de diversas

espécies, transformando

seu sistema e agregando

maior valor à renda familiar.

Os quintais e pomares

domésticos, em geral,

Sistema Agroflorestal: pasto com árvores

Propriedade do Samuel e Roseli Lopes

Comunidade Pedra Redonda/Araponga

constituem-se em um ótimo

e no mais antigo exemplo

de SAFs, visando o suprimento

da família, sobretudo

em frutos, durante o

ano. Os frutos são utilizados

pela família, gerando

segurança alimentar e ou

podem ser vendidos gerando

rendas.

As ervas e as árvores

também podem ser utilizadas

como plantas medicinais,

melíferas ou produzirem

a madeira que pode

ser usada pela família ou

comercializada a fim de

aumentar sua renda. Os

Sistemas Agroflorestais

podem ser considerados,

em muitos casos, exemplos

de agricultura sustentável.

Dentre as principais

vantagens dos Sistemas

Agroflorestais em relação

à agricultura convencional

encontram-se a conservação

e a recuperação da

fertilidade dos solos, o

fornecimento de adubos

verdes, o controle de vegetação

espontânea, a menor

incidência de pragas

e doenças, o não uso de

agrotóxico, a maior diversificação

da produção, a

maior estabilidade e bem-

-estar para as famílias que

produzirão seu próprio alimento

além de poder trabalhar

na sombra.


SerradoBrigadeiro

Na Zona da Mata, a experimentação

dos Sistemas

Agroflorestais apontou que

para cada propriedade há

uma combinação de espécies

apropriadas às condições

locais, e que ninguém

melhor do que os próprios

agricultores para decidir

a combinação ideal, pois

cada agricultor reconhece

e entende os benefícios e

as dificuldades do seu sistema.

Entretanto, a experimentação

apontou alguns

critérios importantes na implantação

de um Sistema

Espécies frutíferas são

apreciadas pelos agricultores.

O abacate e a banana

são espécies apontadas

como adequada aos

Sistemas Agroflorestais.

Seus frutos apresentam

ampla utilização, sendo

destinados à alimentação

da família e dos animais

domésticos ou silvestres, à

produção de sabão e à

comercialização. Quando

a produção do abacate

é maior do que o seu consumo,

o excesso de frutos

cai e permanece no solo,

Agroflorestal com café.

O principal critério para

a implantação de um Sistema

Agroflorestal é a escolha

das espécies arbóreas

e a sua compatibilidade ao

café gerando produtividade.

A quantidade de biomassa

(folhas principalmente)

produzida é um critério

essencial para a introdução

ou eliminação de uma espécie

em um sistema, pois a

cobertura do solo e a ciclagem

de nutrientes serão favorecidos,

seja através da

queda natural das folhas

o que aumenta o potencial

de ciclagem de nutrientes.

Os “pés” de bananeira

podem ser oferecidos

como alimento aos animais,

principalmente bovinos, ou

servem de matéria orgânica

para o solo.

A preferência por árvores

espontâneas que

nascem na lavoura como

o papagaio e a capoeira

branca é importante, pois

sendo assim não é preciso

adquirir mudas, pois sendo

espontâneas, não há necessidade

de plantio, ten-

ou por poda. O breu, ingá,

fedegoso, açoita-cavalo,

pau-mulato, dentre outras,

do apenas que deixá-las

desenvolver no campo e

manejá-las.

A perda natural das

folhas (caducifolismo), ou

a facilidade da poda é

verificada pela necessidade

de maior entrada de

luz no cafezal. Desta forma,

espécies caducifólias

como açoita-cavalo, castanha-mineira,

ipê-preto,

eritrina, ingá, pau-mulato,

dentre outras, além de não

competirem com o café,

também são consideradas

desejáveis, pois perdem

folhas na época da floração

do café diminuindo a

mão-de-obra com a poda.

Muitos agricultores relataram

que o conhecimento

adquirido com a experiência

com Sistemas Agroflorestais

levou-os a manejar

de forma diferenciada

sua propriedade, levando

a um aumento do número

Ano 4, n°14 - Pág 8

Conheça os critérios de implantação dos Sistemas Agroflorestais

são consideradas boas produtoras

de biomassa.

Sistema Agroflorestal: café e outros produtos com árvores

Propriedade do João dos Santos Souza e Santinha

Comunidade São Joaquim/Araponga

Descubra quais são as espécies mais adequadas

de árvores na propriedade,

tendo efeito positivo

no aumento da cobertura

florestal e aumento na

quantidade e qualidade

da água.

Sendo assim, a integração

das árvores com as

culturas agrícolas e com a

pecuária oferece uma alternativa

para enfrentar

os problemas de degradação

ambiental, sociais e

econômicos.

Para maiores informações

sobre os SAFs, entrar

em contato com o CTA,

Centro de tecnologias Alternativas

da Zona da

Mata, pelo email cta@

ctazm.org.br ou pelo telefone

(31)3892-2000.

Agradecemos ao CNPq,

ao MDA e ao MEC-SESU

e à Fapemig pelo apoio

aos trabalhos com SAFs e

agroecologia na região.

Sistema Agroflorestal: café e outros produtos com árvores

Propriedade do Senhor Ângelo da Guarda Costa

Comunidade Córrego dos Lanas/Araponga

Lívia Constâncio de Siqueira, bióloga, doutoranda em Botânica pela UFV.

Irene Maria Cardoso, agrônoma, profa. do Dep. de Solos da UFV.

José Martins Fernandes, biólogo, doutor em Botânica pela UFV.

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