Coleção MAST: 30 Anos de Pesquisa Volume 1

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MAST: 30 ANOS DE PESQUISA

Volume 1

Museologia e Patrimônio

Organização: Marcus Granato

Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST/MCTI

Rio de Janeiro, Novembro de 2015.


Museu de Astronomia e Ciências Afins

Heloisa Maria Bertol Domingues

Coordenação de Museologia

Marcus Granato

Coordenação de Documentação e Arquivo

Marcio Rangel

Coordenação de Educação em Ciências

Eugênio Reis Neto

Coordenação de História da Ciência

Christina Helena da Motta Barboza

Coordenação de Administração

Carlos Roberto Conceição

Coleção MAST: 30 Anos de Pesquisa

Organizadores

Heloisa Maria Bertol Domingues, Marcus Granato, Christina Helena da Motta

Barboza e Maria Esther Alvarez Valente

Volume 1

Título: Museologia e Patrimônio

Organização

Marcus Granato

Comitê Científico

Antonio Carlos Augusto da Costa, Daniella de Carvalho Sophia, Marcio Rangel,

Marcus Granato, Maria Lucia de Niemeyer Matheus Loureiro.

Diagramação

Marcus Granato

Capa

Ivo Almico

Publicado por/Editor: Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)

Rua General Bruce, 586

S. Cristóvão

Rio de Janeiro, BRASIL

20.921-030

Data: 2015

ISBN: 978-85-60069-69-9


Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca do MAST.

M986

Museologia e patrimônio / Organização Marcus Granato.-- Rio de

Janeiro : Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2015.

344p. (MAST: 30 anos de pesquisa, v.1)

Inclui bibliografia

ISBN 978-85-60069-67-5 (obra compl.).--- ISBN 978-85-60069-69-9

(v.1)

1. Museologia. 2. Patrimônio científico e tecnológico.

3. Preservação. 4. Arquivos científicos. 5. Coleções. I. Granato,

Marcus. II. Título: Mast 30 anos de pesquisa. III. Museu de

Astronomia e Ciências Afins.

CDU: 069.01


SUMÁRIO

Museologia e Patrimônio

Apresentação

Heloisa Maria Bertol Domingues

Introdução

Marcus Granato

Cultura Material e Museologia: considerações

Tereza Cristina Moletta Scheiner

Pesquisas sobre a Preservação do Patrimônio Cultural de Ciência e

Tecnologia a partir de uma Parceria Luso-Brasileira

Marta Catarino Lourenço; Marcus Granato

Os Museus e a Salvaguarda do Patrimônio Cultural de Ciência e

Tecnologia no Brasil

Marcus Granato; Fernanda Pires Santos

Objeto, Informação e Materialidade: esboço de uma pesquisa em curso

Maria Lucia de Niemeyer Matheus Loureiro

A Documentação dos Acervos Científicos e Tecnológicos e o MAST:

uma história a partir das memórias

Claudia Penha dos Santos; Marcus Granato

Os Arquivos Pessoais como Fonte: reconhecendo os tipos documentais

Maria Celina Soares de Mello e Silva

A Conservação-Restauração de Documentos Arquivísticos: reflexões

sobre a tarefa de avaliação e priorização

Ozana Hannesch; Marcus Granato

A Pesquisa Científica em Museus, Arquivos e Bibliotecas

Antonio Carlos Augusto da Costa; Márcia Teresa Soares Lutterbach

A Preservação de Coleções Científicas de Objetos Arqueológicos

Metálicos

Guadalupe do Nascimento Campos; Marcus Granato

01

04

16

49

78

120

141

177

204

243

269


A Trajetória da Política Nacional de Museus: impactos sobre o campo

museológico brasileiro

Marcio Rangel; José do Nascimento Júnior

As Políticas de Preservação do Patrimônio na Arena Federal sob a

Gestão de Renato Soeiro (1967-1979)

Daniela Carvalho Sophia

ANEXO - Projetos de Pesquisa Desenvolvidos em Museologia e

Preservação de Acervos de C&T no MAST (1998 - 2015)

Marcus Granato

297

316

339

As opiniões e conceitos emitidos nesta publicação são de inteira

responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente o pensamento

do Museu de Astronomia e Ciências Afins.

É permitida a reprodução, desde que citada a fonte e para fins não comerciais.


COLEÇÃO MAST: 30 ANOS DE PESQUISA

APRESENTAÇÃO

A PESQUISA CIENTÍFICA E O MAST

Imagem da entrada do prédio sede do MAST (Foto: Jaime Acioli, 2010)

1


O MAST - Museu de Astronomia e Ciências Afins nasceu há 30 anos

como museu de ciências e instituto de pesquisa científica, em história das

ciências, educação não formal de ciências; museologia e preservação de

acervos de ciência e tecnologia. Nesse tempo, tem priorizado o estudo do

passado da produção científica brasileira e da sua cultura. Ser um instituto do

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação impôs uma aproximação com as

ciências físicas, químicas, matemática e da terra; basicamente, ciências

trabalhadas pelos demais institutos científicos do Ministério. Nesse tempo, o

MAST formou um arquivo de História das Ciências, especializado na guarda

de acervos de cientistas e de instituições científicas, que hoje abrange

diferentes áreas das ciências, superando em muito as áreas às quais se

limitou inicialmente. Formou também uma significativa coleção de

instrumentos científicos, principalmente, de astronomia, mas também de

física, de química, de geografia, preservados em suas reservas técnicas e

compondo espaços de exposições do Museu, visando a socialização do

patrimônio científico sob sua guarda e a divulgação de conhecimentos para o

público.

O MAST nasceu em meados da década de 1980, momento em que

regressavam ao país muitos cientistas que o haviam deixado após o golpe de

estado militar, nos anos 1960. Tanto quanto o social e político, o panorama

científico havia mudado. A política governamental orientava a produção

científica e havia definido, através dos planos de desenvolvimento econômico,

que a mais moderna tecnologia, em geral importada, dos satélites aos

computadores, seria objeto de pesquisas prioritárias. Novas instituições

científicas nasceram dessa política. Os centros de produção da ciência mais

tradicionais do país, aqueles que haviam sido deixados pelos cientistas que

voltavam, sofriam um processo agudo de sucateamento. Foi então o momento

de clamar por uma política que fomentasse a criação de instituições de

memória e história das ciências brasileiras, que pudessem moldar uma

identidade científica do país. O MAST nasceu daquele clamor da comunidade

científica.

Por muito tempo o MAST viveu o dilema de ser uma instituição de

divulgação científica ou uma instituição de pesquisa e de guarda de acervos.

Ao tornar-se balzaquiano o MAST superou a velha dicotomia e é hoje uma

instituição reconhecida pelas áreas das ciências físicas e naturais como uma

2


instituição de ciências humanas e sociais, cujo trabalho visa o público do

museu, o público dos arquivos, os cientistas com os quais dialoga, colabora e

faz avançar os conhecimentos sobre a cultura científica, práticas, realizações

e inserção social das ciências. Visa ainda os estudantes, principalmente

aqueles que passou a formar em suas pós-graduações, e o público escolar

que frequenta diariamente suas exposições e o campus, onde encontram-se

as cúpulas originais que serviam à observação para os astrônomos. O MAST

é hoje instituição interdisciplinar. Divulga e discute o papel social e político das

ciências no cotidiano, dos laboratórios e além deles, na vida de cada um.

Em 2015, ano em que completa 30 anos de história, o MAST, por

meio de ações estratégicas e de sua produção científica, técnica e

educacional, mostra-se como uma referência nas suas especialidades:

História das ciências e tecnologia, Educação não formal e Popularização das

ciências, Museologia e Preservação de acervos científicos e tecnológicos. A

instituição, que teve papel histórico fundamental e pioneiro na implantação

dessas áreas no País, realiza um esforço permanente para o desenvolvimento

e a institucionalização das mesmas, em âmbito nacional e internacional.

A Coleção MAST: 30 Anos de Pesquisa visa replicar conhecimentos

produzidos e adquiridos, apresentando resultados dos trabalhos de

pesquisadores. Não é um livro de história das suas pesquisas, tampouco se

pretende exaustivo no que apresenta. O seu objetivo é servir à comunidade,

divulgar conhecimentos, contribuir para o debate social e acadêmico das

áreas de ciências as quais construiu e institucionalizou, juntamente com

colegas de outras instituições, de outros estados brasileiros e países.

São três volumes, cada um discutindo temáticas de pesquisa

diferentes: Museologia e Patrimônio; Educação e Divulgação da Ciência;

Histórias de Ciência e Tecnologia no Brasil.

Heloisa Maria Bertol Domingues

Novembro de 2015

3


Vista das colunas com elementos coríntios de fuste liso, prédio sede do MAST,

encimadas pelo vitral do grande hall central (Foto: Jaime Acioli, 2010).

4


INTRODUÇÃO

Historicamente, no Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST, a

pesquisa esteve originalmente relacionada com a área de História das Ciências.

Desde a própria criação do Museu, havia a proposta de desenvolver estudos

sobre a história das ciências e da tecnologia no Brasil. Com o passar dos anos,

outra área de pesquisa se delineou, a de Educação em Ciências em Espaços

não Formais, passando inclusive a ser referência para os estudos desenvolvidos

sobre o tema no país. Outros dois volumes dessa Coleção se debruçam sobre

essas respectivas áreas de desenvolvimento.

As pesquisas voltadas para os acervos de ciência e tecnologia aparecem

na Instituição um pouco mais tardiamente, reflexo inclusive da titulação dos

profissionais que atuavam e atuam nesse tema. O primeiro registro documental

encontrado que se relaciona à atividade de pesquisa na área de Museologia e

Patrimônio trata-se de um documento de 2000, que menciona existir apenas uma

linha de pesquisa em atividade na Coordenação de Museologia denominada

Preservação do Acervo Museológico do MAST (bens móveis e imóveis). Nesse

contexto, são citados três projetos de pesquisa:

- Análise tecnológica do acervo instrumental do MAST, iniciado em 1998. 1

- Conservação e restauro de instrumentos científicos, iniciado em 1999.

- Conservação e restauro de edificações históricas, iniciado em 2000.

Assim, apesar da equipe ainda não contar com doutores, desenvolviamse

atividades de pesquisa pelo menos desde 1998.

Outro registro que documenta a existência de pesquisas sobre assuntos

correlatos é o Projeto Especial para o Programa de Capacitação Institucional

(PCI) do MAST, período 2000/2002. No documento, apesar do título do Projeto

ser "Pesquisa e desenvolvimento em história da ciência, educação e

popularização científica", portando mencionando apenas as duas áreas de

1 Em anexo, se encontra uma listagem de projetos de pesquisa desenvolvidos na temática

do volume, com seus períodos de realização e equipes. É preciso esclarecer que não foi

intenção desse registro incluir todas as iniciativas de investigação realizadas, em função

do período curto para a pesquisa documental necessária.

5


pesquisa já citadas, existe um terceiro subprojeto denominado "Preservação da

Coleção de Instrumentos do MAST: Formas de aquisição e reserva técnica", que

demarca claramente a existência de frente de investigação independente das

duas áreas já consolidadas na Instituição.

A análise dos objetivos específicos desse terceiro subprojeto permite

constatar quais os assuntos que seriam pesquisados naquela época:

• Definir uma política de aquisição/descarte para o

acervo de instrumentos científicos do MAST que possa ser

utilizada em nível nacional para acervos semelhantes, com

destaque para a coleta de objetos técnico-científicos

contemporâneos;

• Propor formas de utilização da coleção de

instrumentos científicos considerando-a no contexto do

museu;

• Avaliar os espaços de reserva técnica aberta do

MAST;

• Propor a criação de novos espaços de reserva técnica

para objetos de grande porte e para as futuras aquisições;

Pesquisar técnicas de conservação e restauração para

a coleção de instrumentos científicos;

• Produzir materiais de divulgação com o resultado das

pesquisas.

Percebe-se que havia a necessidade de incluir muitos tópicos no Sub-

Projeto, pela possibilidade de marcar espaço dentro da Instituição, mesmo sendo

o número de bolsistas muito reduzido (apenas 2) e o prazo curto (2 anos), e que

os objetivos relacionavam-se com o contexto institucional, mais especificamente

com aspectos da coleção de instrumentos científicos 2 do Museu.

Em 2001, outra iniciativa, agora de maior vulto, iniciou seu

desenvolvimento a partir da estruturação de uma rede de instituições para

submeter um projeto de envergadura a edital do Conselho Nacional de

Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq aberto, pela primeira e única

2 Nessa época ainda se utilizava o termo para denominar o conjunto de objetos que

compunham a coleção principal do Museu. A partir de 2004, foi cunhado o termo “objetos

de Ciência e Tecnologia” para poder abarcar de forma mais adequada a variedade de

artefatos que fazem parte das coleções museológicas do MAST.

6


vez, sobre preservação de acervos culturais. Liderando a rede estava a

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), através do Laboratório de

Corrosão do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais, sendo as

demais instituições componentes a Universidade do Estado do Rio de Janeiro

(UERJ), através do Departamento de Química Analítica (DQA) do Instituto de

Química (IQ), o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCT), através da

Coordenação de Museologia (CMU), e o Instituto Nacional de Tecnologia

(INT/MCT), através do Laboratório de Corrosão (LACOR). A rede se estruturou

em torno de um projeto que se denominava "Desenvolvimento de Metodologias

Científicas de Conservação e Restauração de Objetos Metálicos Expostos ao

Relento (outdoor) e em Ambientes de Museus (indoor) - CONSERMETAL”. O

Projeto foi aprovado pelo CNPq e obteve recursos, significativos na época, de

R$137.921,00 (centro e trinta e sete mil novecentos e vinte e um reais).

Em 2004, também no âmbito do mesmo Programa de Capacitação

Institucional já citado, o Sub-Projeto voltado para a terceira área de pesquisa que

se desenvolvia na Instituição denominava-se "Preservação de coleções em C&T:

Institutos de Pesquisa do MCT - FASE I", onde se verifica a ampliação do

número de bolsas (3 DTI para profissionais e 3 ITI para graduandos em áreas de

interesse do sub-projeto) e do foco da pesquisa, que passa a ser, em parte,

extramuros, voltada para acervos de outras instituições de pesquisa do

Ministério. Os objetivos específicos estão a seguir:

Pesquisar os objetos ainda existentes em parte dos

institutos do MCT (CBPF, INT, IEN), de forma a avaliar sua

importância histórica e possível preservação pelas instituições

proprietárias;

• Produzir conhecimento sobre a história da ciência

utilizando as informações coletadas nessas instituições,

avaliando os processos históricos relacionados;

• Realizar intercâmbio com especialistas e instituições

afins, promovendo a coleta de informações sobre os objetos

de interesse, a qualificação das equipes e a disseminação do

conhecimento adquirido no projeto.

Pesquisar o patrimônio edificado do campus MAST-ON

e estudar seus estilos e melhores formas de conservação e

intervenção;

7


• Produzir materiais de divulgação com o resultado das

pesquisas de forma a socializar o patrimônio estudado;

Pesquisar materiais e concepções para vitrines de

exposição de acervos de C&T, propiciando sua melhor

conservação e exposição.

Verifica-se que, apesar do título apontar apenas para pesquisas fora do

Museu, nos objetivos específicos estão inseridas perspectivas de atuação

também dentro do MAST. Provavelmente, essa forma explícita de mostrar a

atuação da Instituição para fora dos seus limites tem relação com a necessidade

de afirmação do Museu como instituto de pesquisas de alcance nacional.

Nesse momento, um fato que marca formalmente a existência de estudos

sobre temas relacionados a acervos e sua preservação é a instituição do Grupo

de Pesquisas "Preservação de Acervos Culturais" - GPPAC, registrado no CNPq

em 2004 e chancelado pela instituição 3 . Trata-se do segundo Grupo de

Pesquisas registrado na área de Museologia do CNPq 4 , estando sediado na

Coordenação de Museologia do MAST. Recentemente, o GPPAC passou a ser

denominado "Museologia e Preservação de Acervos Culturais" - GPMPAC, em

função da ampliação dos estudos mais relacionados com a Museologia na

Instituição, exigindo que a denominação do Grupo de Pesquisa se alterasse para

que caracterizasse melhor os temas de pesquisa ali desenvolvidos.

Desde 2004, no âmbito da Coordenação de Museologia, vem se

desenvolvendo projetos de pesquisas voltados aos acervos da instituição e a

aspectos relevantes da Museologia e do Patrimônio. Uma característica comum a

esses projetos é que, em geral, possuem recursos externos ao orçamento

institucional, obtidos em editais de agências de financiamento (CNPq, FAPERJ e

FINEP). Podemos citar alguns: "Objetos de C&T como fonte documental para a

História das Ciências"; "Divulgação científica: as coleções e seu papel na

linguagem expográfica"; "Thesaurus de acervos científicos em língua Portuguesa;

"Valorização do patrimônio científico e tecnológico brasileiro"; "A Construção e

3 O Grupo é liderado por Marcus Granato e, a partir de 2013, tem a vice-liderança de

Marcio Rangel. Disponível em: .

Acesso em: 09 nov. 2015.

4 O primeiro Grupo de Pesquisas na área de Museologia registrado no CNPq foi o GP

“Museologia e Patrimônio”, em 2001, liderado pela Profa. Tereza Cristina Moletta

Scheiner, da UNIRIO.

8


Formação de Coleções Museológicas"; "Pesquisa e Desenvolvimento de

Metodologias de Conservação e Caracterização Microanalítica de Objetos

Metálicos pertencentes a Coleções Científicas Arqueológicas"; "Musealização

como Processo Informacional"; "Patrimônio Cultural Luso-Brasileiro de Ciência e

Tecnologia: pesquisa, análise e acessibilidade", dentre outros.

O GPPAC/GPMPAC, desde sua organização, possui duas linhas de

pesquisa onde se dividem os projetos:

- Patrimonialização e musealização nos domínios da ciência e

- Teorias e princípios da organização e conservação de acervos.

O desenvolvimento das pesquisas no âmbito do GPPAC/GPMPAC teve

forte impacto com o advento do Programa de Pós-Graduação em Museologia e

Patrimônio - PPG PMUS, proposto à Coordenação de Aperfeiçoamento de

Pessoal de Nível Superior - CAPES pela Universidade Federal do Estado do Rio

de Janeiro – UNIRIO, em parceria com o MAST. A partir de 2006, primeiro ano

de funcionamento do curso de mestrado do PPG PMUS, houve um incremento

significativo da atividade do Grupo, especialmente em relação à produção de

publicações e realização de eventos acadêmicos. Esse aspecto se acentua com

a criação do curso de Doutorado a partir de 2011.

Originalmente, o Grupo incorporou os profissionais das Coordenações de

Museologia (CMU) e de Documentação e Arquivo (CDA) do MAST, além de

pesquisadores de outras instituições.

Em 2014 foi criado outro Grupo de Pesquisas, agora sediado na CDA,

denominado “Gestão e Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia” -

GPPACT 5 , que recebeu parte dos profissionais que estavam no GPMPAC.

O GPPACT possui as seguintes linhas de pesquisa cadastradas:

- Gestão de coleções bibliográficas especiais;

- Gestão e conservação de acervos; e

- Gestão e processamento de acervo arquivístico.

5 O Grupo de Pesquisas é liderado por Maria Celina Soares de Mello e Silva. Disponível

em: . Acesso em: 09 nov.

2015.

9


Percebe-se que a criação do GPPACT ocorre na esteira da aprovação

pela CAPES, no final de 2013, da proposta encaminhada pelo MAST para

desenvolvimento de um mestrado profissional em Preservação de Acervos de

Ciência e Tecnologia - PPACT 6 .

No que se refere aos acervos arquivístico e bibliográfico, as pesquisas

foram sendo realizadas de forma tímida a partir dos anos 2000. O primeiro

projeto de pesquisa formalizado teve início em 2004, intitulado: “Arquivos

científicos: análise da produção e da preservação dos registros da C&T no Rio de

Janeiro”, coordenado por Maria Celina Soares de Mello e Silva. O projeto foi

concluído em 2008. Este projeto, aproveitando os dados levantados pela

pesquisa anterior, deu origem ao projeto intitulado “Estudo da espécie e tipologia

documental de arquivos de ciência e tecnologia”, com a mesma coordenadora,

foi iniciado em 2010 e está ainda em andamento.

Outros projetos desenvolvidos na área podem ser citados: “Organização

de arquivos pessoais de cientistas”; “Estabelecimento de parâmetros de

identificação de obras para a formação e o desenvolvimento das coleções

especiais da biblioteca do MAST”; “Identificação de materiais de escrita e de

suporte em acervos científicos sobre papel e propostas de tratamento”; “Estudos

sobre tratamentos de conservação e restauração de documentos sob a guarda

da Coordenação de Documentação em História da Ciência”, “Estudos de

Conservação Preventiva de Documentos Científicos e Históricos.

O rememorar de alguns dos fatos que compõem a linha do tempo da

pesquisa em acervos de C&T no MAST nos permite verificar um

desenvolvimento bastante rápido e a produção de bons resultados em área

pouco desenvolvida e pesquisada no Brasil. Todas as iniciativas de pesquisa

apresentadas têm consolidado o MAST como referência na área de preservação

de acervos de ciência e tecnologia. Os capítulos que formam esse volume

representam de forma inequívoca a produção recente das pesquisas realizadas.

O primeiro texto, intitulado “Cultura Material e Museologia:

Considerações” é de autoria da Profa. Dra. Tereza Cristina Moletta Scheiner, da

UNIRIO, e coordenadora do PPG PMUS. Constitui-se em contribuição que abre o

volume a nosso convite, em vista da importância que essa Pós-Graduação

6 Para maiores informações consultar: . Acesso em:

13 nov. 2015.

10


epresenta para a pesquisa no MAST na área de acervos. A longa e produtiva

parceria entre o MAST e a UNIRIO permitiu gerar mais de 90 dissertações de

mestrado e 5 teses de doutorado defendidas nesses dez anos do Programa de

Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio. O texto apresenta algumas

questões vinculadas às relações entre cultura material e museus que são

basilares para as discussões apresentadas em vários outros capítulos deste

volume. Segundo a autora, as relações entre museus e cultura material,

aparentemente óbvias, quando reanalisadas à luz da teoria museológica,

desvelam aspectos inusitados e, até bem pouco tempo, raramente considerados

pelos especialistas. Ainda mais complexas são as relações entre cultura material

e Museologia, este campo disciplinar constituído na segunda metade do século

XX, que se articula na fronteira entre as ciências humanas e sociais e os demais

campos do conhecimento.

O segundo capítulo, de autoria de Marta Lourenço e Marcus Granato,

intitulado “Pesquisas sobre a Preservação do Patrimônio Cultural de Ciência e

Tecnologia a partir de uma Parceria Luso-Brasileira”, continua na mesma

frequência que o anterior, ressaltando a importância das colaborações

interinstitucionais para a produção científica, agora entre o MAST e o Museu de

Ciência/Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de

Lisboa. O texto inicia-se por uma descrição breve da instituição portuguesa,

seguindo-se as origens da cooperação institucional. Descrevem-se as atividades

em parceria, destacando dois projetos de grande fôlego: o “Thesaurus de

Acervos Científicos em Língua Portuguesa” e os “Levantamentos do Patrimônio

Cultural de C&T” do Brasil e de Portugal. Finalmente, faz-se uma síntese da

abordagem e apresentam-se algumas perspectivas de cooperação futuras.

O capítulo seguinte, intitulado “Patrimônio Cultural de Ciência e

Tecnologia (PCC&T) no Brasil: A situação dos conjuntos musealizados”, de

Marcus Granato e Fernanda Pires Santos, apresenta parte dos resultados

obtidos no levantamento nacional de dados realizado no âmbito do projeto

“Valorização do Patrimônio Científico e Tecnológico Brasileiro”. As análises

realizadas nesse capítulo se debruçaram sobre os museus e espaços que

preservam conjuntos de objetos de C&T e é inegável seu papel importante para a

existência hoje de remanescentes materiais do PCC&T. Os autores propõem

uma classificação em cinco tipos para esses espaços, de forma a melhor

caracterizá-los. Finalmente, verificou-se que a maioria (62%) das coleções

11


visitáveis registradas está em situação avançada para ser alçada à Classe1

(museus).

O quarto capítulo intitula-se “Objeto, Informação e Materialidade: Esboço

de uma pesquisa em curso”, sendo de autoria de Maria Lucia de Niemeyer

Matheus Loureiro. A autora sintetiza algumas das principais questões do projeto

de pesquisa que coordena, “Musealização como Processo Informacional”, em

desenvolvimento desde 2011 no MAST, no âmbito da Coordenação de

Museologia. A pesquisa contribui para as reflexões sobre processos de

musealização a partir de uma perspectiva informacional e com ênfase nos

domínios da Ciência e Tecnologia. Ao abordar objetos musealizados como

documentos, a autora adere a uma visão ampliada de documento e,

simultaneamente, afirma que a musealização é produto de uma vontade de

preservar.

O quinto capítulo, de autoria de Claudia Penha dos Santos e Marcus

Granato, intitula-se “A Documentação dos Acervos Científicos e Tecnológicos e o

MAST: Uma história a partir das memórias” e relaciona-se com a tese de

doutoramento em fase de conclusão da museóloga responsável pelas coleções

museológicas do MAST desde 1992. Os autores procuram estruturar um breve

panorama sobre a história da documentação das coleções museológicas do

MAST. Trata-se essencialmente de um texto de memórias, de relatos de

experiências, principalmente dos últimos vintes e três anos, período em que seus

autores estiveram diretamente envolvidos com esta atividade no MAST. Fica

claro para os autores que a atividade de documentação de acervos museológicos

é fundamental para todas as atividades que envolvam as coleções da instituição.

É importante mencionar também que se trata de um trabalho longo, complexo,

minucioso e que demanda foco e persistência, mas que muitas vezes não

aparece, não dá visibilidade imediata.

O próximo capítulo, denominado “Os Arquivos Pessoais como Fonte:

Reconhecendo os tipos documentais”, é de autoria de Maria Celina Soares de

Mello e Silva e aborda, como mencionado no título, os arquivos pessoais que, no

MAST, constituem boa parte do patrimônio arquivístico sob a guarda da

Instituição. A autora apresenta parte do estudo em andamento, refletindo sobre

os tipos documentais presentes nesses arquivos, com o objetivo de disseminar

uma importante fonte de pesquisa para a história das ciências e contribuir para a

reflexão sobre o conteúdo e o trabalho nestas fontes.

12


O sétimo capítulo, de autoria de Ozana Hannesch e Marcus Granato,

intitula-se “A Conservação-Restauração de Documentos Arquivísticos: Reflexões

sobre a tarefa de avaliação e priorização”. O texto busca delinear as

circunstâncias que vêm sendo analisadas no estudo sobre metodologias

utilizadas nas abordagens de seleção e priorização de ações de preservação,

conservação e restauração de documentos arquivísticos e bibliográficos para uso

pelo Laboratório de Conservação e Restauração de Papel - LAPEL, do MAST.

Este capítulo traz uma ampliação da abordagem da dissertação “Patrimônio

Arquivístico em Museus: reflexões sobre seleção e priorização em conservaçãorestauração

de documentos em suporte papel”, de Ozana Hannesch, incluindo a

apresentação de alguns instrumentos de coleta de dados e a abordagem do

Programa de Planejamento em Preservação - PPP. Tais ferramentas estão

sendo estudadas pela pesquisa em Gestão e Preservação de Acervos de Ciência

e Tecnologia, continuada agora, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em

Preservação de Acervos em Ciência e Tecnologia, pelo LAPEL.

O capítulo seguinte, intitulado “A Pesquisa Científica em Museus,

Arquivos e Bibliotecas”, e de autoria de Antonio Carlos Augusto da Costa e

Márcia Teresa Soares Lutterbach, representa mais uma colaboração de sucesso,

agora entre duas Unidades de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e

Inovação, o Instituto Nacional de Tecnologia - INT e o MAST, e o Museu Imperial

(IBRAM). Os autores refletem sobre o uso racionalizado de técnicas avançadas

de arqueometria na conservação e preservação do patrimônio cultural, como

contribuição para a melhor conservação preventiva. O ferramental analítico que

se apresenta disponível para emprego é abrangente, sofisticado e, na maioria

das vezes, de alta complexidade operacional, exigindo análise minuciosa para

seu uso economicamente sustentável. A partir dessa cooperação, diversas

questões acerca do patrimônio dessas instituições puderam ser respondidas,

possibilitando, então, que fossem tratados de forma adequada e com a

interdisciplinaridade e profundidade que merecem.

No nono capítulo, intitulado “A Preservação de Coleções Científicas de

Objetos Arqueológicos Metálicos”, Guadalupe do Nascimento Campos e Marcus

Granato apresentam o conhecimento produzido sobre metodologias de

conservação e caracterização de acervos arqueológicos metálicos, com o intuito

de contribuir para sua melhor preservação. Os estudos preenchem um vazio de

conhecimento importante, já que muitos arqueólogos desconhecem as

13


metodologias de manipulação e proteção necessárias ao retirar objetos metálicos

do solo ou resgatá-los do fundo do mar, assim como as formas de

acondicionamento e de preservação que permitam sua estabilidade. O

desenvolvimento deste projeto no MAST foi possível devido à experiência

existente em conservação de objetos metálicos científicos, desenvolvida no

Laboratório de Conservação de Objetos Metálicos - LAMET, que oferece a

infraestrutura necessária para a execução dos estudos mencionados.

O décimo capítulo, intitulado “A Trajetória da Política Nacional de

Museus: Impactos sobre o campo museológico brasileiro”, é de autoria de Marcio

Rangel e José do Nascimento Júnior. O texto desenvolve reflexões sobre os

seguintes aspectos: os museus como agentes de mudança social e

desenvolvimento; a construção e trajetória de elaboração de uma política

nacional de museus; memória e cidadania. Apesar das tensões geradas no

decorrer da produção e consolidação da Política Nacional de Museus - PNM, das

diversas críticas de diferentes setores, os autores reconhecem a PNM como um

importante dispositivo de desenvolvimento do campo museológico brasileiro. A

PNM estruturou uma série de instrumentos de gestão e conseguiu uma

capilaridade ampla, dando grande legitimidade para as ações propostas. Os

autores consideram relevante ressaltar que o caráter modelar da PNM para

diversos países da América Latina possibilitou sua internacionalização com a

criação do Programa Ibermuseus, a elaboração da Recomendação de Proteção

do Patrimônio Museológico junto a UNESCO, a criação do MercoMuseus e um

conjunto de acordos bilaterais com diferentes países.

O último capítulo, de autoria de Daniela Carvalho Sophia, intitula-se “As

Políticas de Preservação do Patrimônio na Arena Federal sob a Gestão de

Renato Soeiro (1967-1979) e vincula-se ao conjunto de trabalhos que examinam

as políticas voltadas para a preservação do patrimônio brasileiro de forma mais

ampla. Dividido em três partes, o texto, inicialmente, apresenta o contexto da

formulação e implementação de políticas públicas relacionadas ao patrimônio no

período 1967-1979. A seguir, descreve a formulação e implementação do

Programa de Cidades Históricas, política idealizada e implementada no âmbito

da Secretaria de Planejamento da Presidência da República. Na terceira parte,

apresenta o relato da mudança institucional ocorrida no IPHAN, que passa a se

constituir como secretaria no âmbito do Ministério da Educação e Cultura -

Secretaria de Proteção do Patrimônio História e Artístico Nacional (SPHAN).

14


Finalmente, o volume tem um Anexo onde foram incluídos diversos

projetos de pesquisa, e equipes participantes, desenvolvidos nos últimos 17

anos, como forma de registro e divulgação dessas informações, além do

reconhecimento pelo trabalho de seus participantes.

O volume 1 da Coleção MAST: 30 Anos de Pesquisa que se inicia a

seguir é composto de diferentes visões e abordagens de temas correlatos que

representam de forma característica parte da história da pesquisa sobre acervos

no MAST. Todos os textos contribuem para a discussão de questões hoje

debatidas no campo da Museologia e dos estudos sobre o Patrimônio. Trata-se

de um esforço coletivo que se realiza a partir do trabalho não só dos autores dos

capítulos desse volume, mas de todos que contribuíram para as atividades de

investigação realizadas em nossa Instituição no decorrer dos anos. Que se

sintam todos contemplados nesse registro realizado para comemorar os 30 anos

do Museu de Astronomia e Ciências Afins, paixão de muitos de nós.

Rio de Janeiro, novembro de 2015

Marcus Granato

15


Foto da escada do prédio anexo do MAST (Jaime Acioli, 2010).

16


CULTURA MATERIAL E MUSEOLOGIA: CONSIDERAÇÕES

Tereza Scheiner *

1. Introdução

O III Seminário Internacional sobre Cultura Material e o Patrimônio da

Ciência e da Tecnologia, organizado pelo MAST em novembro de 2014 como

parte das comemorações pelos 30 anos do Museu, constituiu uma interessante

oportunidade de celebrar as parcerias desenvolvidas com instituições

emblemáticas nos campos da Ciência, da Museologia e do Patrimônio: museus,

instituições de pesquisa e universidades do Brasil e do exterior.

Neste contexto, especialmente importante é a parceria desenvolvida com

a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO, que resultou na

criação e implementação do Programa de Pós-Graduação em Museologia e

Patrimônio (PPG-PMUS, UNIRIO/MAST), primeiro Programa stricto sensu em

Museologia do país e o único da América do Sul a oferecer um curso de

Doutorado. Implantado em 2006 na modalidade Mestrado e complementado em

2011 com a implantação do Doutorado, o PPG-PMUS vem-se destacando como

um exemplo positivo de trabalho articulado entre universidade e museu – como o

comprovam as inúmeras pesquisas desenvolvidas no Programa, cujo resultado

mais palpável são as 92 dissertações e cinco teses defendidas pelos alunos.

Cabe ainda destacar que o tema em questão alinha-se aos debates

internacionais sobre patrimônio e museus, desenvolvidos em 2014 - ano em que

* Bacharel em Museologia pelo Museu Histórico Nacional; Licenciada e Bacharel em

Geografia pela UERJ; Mestre e Doutora em Comunicação pela ECO/UFRJ. Professor

Associado 2 da UNIRIO; Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Museologia e

Patrimônio - PPG-PMUS, UNIRIO/MAST; Vice-Presidente do Conselho Internacional de

Museus - ICOM (2010/2013, reeleita para 2013/2016); Editora Chefe do periódico Museum

International; Membro do Conselho Executivo do ICOM (2004/2010); Presidente do

Comitê Internacional de Museologia - ICOFOM/ICOM (1998/2000); Criadora e Consultora

Permanente do ICOFOM LAM; Pesquisadora da Université Jean-Moulin, Lyon 3. Tem

experiência nas áreas de Museologia e Patrimônio e Educação Ambiental, com ênfase

em: Políticas Internacionais para Museus e Museologia; Criação e Gestão de Programas

de Formação Profissional para Museus; Teoria da Museologia; Teoria do Patrimônio;

Planejamento e Desenvolvimento de Exposições. e-mail: tacnet.cultural@uol.com.br

17


o tema de trabalho escolhido pelo Conselho Internacional de Museus-ICOM foi

justamente Museus - coleções promovem conexões.

O presente trabalho, que integra o volume comemorativo dos 30 anos do

MAST, busca uma sintonia com essas tendências, apresentando algumas

questões vinculadas às relações entre cultura material e museus.

Iniciamos enfatizando a complexidade do tema: as relações entre

museus e cultura material, aparentemente óbvias, quando reanalisadas à luz da

teoria museológica, desvelam aspectos inusitados e, até bem pouco tempo,

pouco considerados pelos especialistas. Ainda mais complexas são as relações

entre cultura material e Museologia, este campo disciplinar constituído na

segunda metade do século 20 e que se articula na fronteira entre as ciências

humanas e sociais e os demais campos do conhecimento.

Pontuamos, aqui, a importância visceral da relação entre museus e

cultura material, que tanta influencia exerce sobre o campo da Museologia.

Fundamentados no construto antropológico, os estudos de cultura material

constituem um dos vieses legítimos de estudo do universo dito “museológico”,

ajudando a compreender as múltiplas relações existentes entre os museus e a

produção material da atividade humana, em todos os tempos e espaços. Neste

viés, são formadores de uma das alternativas de “relação específica” entre o

Humano e o Real, de que tratam as bases teóricas da Museologia: o Museu

Tradicional.

Para abordar o tema do ponto de vista da Museologia, faremos o habitual

percurso pelo caminho da teoria museológica, partindo de uma ideia abrangente

de Museu que deriva nos conceitos apresentados mais adiante - e buscando as

interfaces com a Antropologia através da linha de estudos teóricos que se

autodenominou “museologia crítica”, mas que nós denominaríamos “museologia

interpretativa” 1 .

Cabe aqui lembrar a qualidade polissêmica do conceito de cultura,

considerado por Geertz (2001, p. 22) 2 "um conceito improvável sobre o qual

1 A este respeito, ver SCHEINER, Tereza. Conceitos, Termos e Linguagens da Museologia:

novas abordagens. Anais do XXV ENANCIB. UFMG, ANCIB, 2014. p. 4644-4663.

2 As citações a seguir referem-se à edição brasileira (2001) da obra de Geertz intitulada

"Available Light: anthropological reflections on Philosophical Topics" e publicada em 2000

pela Princeton University Press.

18


tentar construir uma ciência", porque "fugidio, instável, enciclopédico e

normativamente carregado" - e portanto impreciso, pluri-definível e multiutilizável.

E com a intenção de simplificar, adotamos aqui a perspectiva de cultura

de Geertz (2001), como conjunto de recursos simbólicos por meio dos quais os

indivíduos se percebem como pessoas. Para o autor, esses recursos são

portadores de significado e fundamentam a produção de sentidos que permitem

a um grupo de indivíduos identificar-se como tal. Nesta perspectiva, a análise

cultural implica compreender quem as pessoas "pensam que são, o que pensam

que estão fazendo e com que finalidade pensam que o estão fazendo" (GEERTZ,

2001, p. 26); e tanto os padrões como complexos culturais podem ser

apreendidos como textos, "afirmações materializadas (...) de maneiras

específicas de estar no mundo". Esta abordagem, que Geertz nomeia

“antropologia interpretativa”, permite a percepção da cultura como sistema de

sinais e inclui o reconhecimento e análise dos jogos de linguagem que

fundamentam as diferentes narrativas de mundo.

Esta é, de certa forma, também a via constitutiva da Museologia, que

apreende o real como múltiplo de múltiplos e percebe natureza e cultura como

sistemas de sinais que, interpretados, irão fundamentar narrativas de mundo.

Neste sentido, tanto a Museologia como a Antropologia movimentam-se como

empreendimentos “essencialmente hermenêuticos”, para usar a expressão de

Geertz 3 .

Aqui poderia estar uma das diferenças entre os dois campos: enquanto a

Antropologia se debruça sobre o humano e a cultura, seus sinais e narrativas, a

Museologia incorpora a percepção sobre a natureza e seus sinais, tanto de forma

direta como através das narrativas que os diferentes grupos humanos

desenvolvem sobre si mesmos e sobre o mundo - dobra sobre dobra, processo

sobre processo. Mas o que verdadeiramente define a Museologia como campo

autônomo é que ela se dedica à interpretação dos conjuntos de sinais que

determinados grupos percebem e nomeiam como “patrimônio” - e o faz

considerando a centralidade da relação 4 .

3 "Mas eu, encarando tudo isso como um empreendimento essencialmente hermenêutico

(...), preferi 'antropologia interpretativa'" (GEERTZ, 2001, p. 27).

4 O verdadeiro foco da Museologia, acreditamos, o lugar onde ela se define, é a relação.

Em vários trabalhos anteriores apontamos para essa característica como fundadora do

campo museal (ver SCHEINER, Tereza, 1998, 1999, 2014).

19


É, portanto, buscando incorporar os olhares de uma antropologia

interpretativa e de uma teoria museológica que se expressa pelo viés da

museologia crítica, ou interpretativa, que iremos desenvolver algumas ideias

sobre o tema.

2. Cultura Material - do mundo aos museus

A teoria antropológica fundamenta-se em parte no construto de cultura

material, a qual poderia ser definida, de modo mais simples, como “a totalidade

de objetos físicos criados por um grupo social para a satisfação de suas

necessidades” 5 . Numa perspectiva mais ampla, a cultura material inclui não

apenas objetos móveis (artefatos), mas também tudo aquilo que indica ou

comprova, por meios palpáveis, as relações entre os grupos humanos e seu

ambiente: ocupação humana e modos de uso do território, espaços construídos,

a escrita e a arte. Aqui, o que importa é a visão de produto, e não de processo

cultural: o objeto material (móvel ou imóvel) é registro e testemunho das ações

humanas sobre o meio.

O estudo da cultura material advém em grande parte da Arqueologia,

onde a análise inferencial da cultura sempre se fez pelo estudo do artefato (na

íntegra ou em fragmento) e dos índices da presença humana sobre o território;

sobretudo na arqueologia pré-histórica e clássica, voltadas essencialmente para

o estudo de sociedades (ou fases sociais) já extintas e, em muitos casos, sem

escrita. É certo que a Arqueologia só iria definir-se como campo ao final do

século XVIII, mas cabe lembrar que a ideia de um espaço configurado para

abrigar vestígios materiais da natureza e da ação humana, percebidos como

documentos que "representam e comprovam a Natureza, o cosmos e a trajetória

das sociedades" 6 (SCHEINER, 1999, p. 133) remonta ao século VII a.C., quando

a adoção da escrita pelos gregos possibilitou o exercício de construção da

memória "já não apenas pela fala, pela música e pelo gesto (características da

cultura oral), mas também pela fixação de experiências passadas, tornando

necessário comprovar o que era memorizado" (SCHEINER, 1999, p. 133); e a

5

MERRIAN-WEBSTER DICTIONARY. Disponível em: .

Acesso em: 21 nov. 2014.

6 A partir deste momento, o imaginário passa a ser presentificado já não mais apenas

pelas Musas [as palavras cantadas], mas também pelo Objeto [evidência] (SCHEINER,

1999, p. 133).

20


articulação do logos filosófico 7 fez com que o material se sobrepusesse ao

conceitual, vinculando, até os nossos dias, a memória ao documento. Este

movimento daria origem, alguns séculos mais tarde, ao Museu Tradicional 8 -

representação do fenômeno Museu que implica no recolhimento de evidencias

materiais para formar, em espaços predeterminados, conjuntos significantes

denominados, pelos estudiosos, de coleções 9 . A Figura 1, apresentada a seguir,

mostra uma representação gráfica do modelo conceitual mencionado.

Figura 01 - Museu Tradicional Ortodoxo. Representação gráfica do modelo conceitual.

7 Lembremos que a partir do séc. VII a. C. o pensamento grego faz a experiência concreta

da racionalidade, buscando entender a physis (origem e totalidade do Real) por meio da

razão.

8 Espaço, edifício ou conjunto arquitetônico / espacial arbitrariamente selecionado,

delimitado e preparado para receber coleções de testemunhos materiais recolhidas do

mundo. No espaço do Museu Tradicional, as coleções são pesquisadas, documentadas,

conservadas, interpretadas e exibidas por especialistas - tendo como público-alvo a

sociedade. A base conceitual do museu tradicional é o objeto, aqui visto como documento

(SCHEINER, 1998).

9 A este respeito, ver: SCHEINER, Tereza. Refletindo sobre coleções e os modos e

formas pelos quais criam conexões. Conferencia realizada na Universidade Federal de

Alfenas, em comemoração ao Dia Internacional de Museus. Alfenas, maio 2014 [não

publicada].

21


O movimento de comprovação da memória através da evidencia material

iria permear toda a trajetória da cultura dita “ocidental”, bem como de outras

sociedades e culturas fundamentadas na escrita, até o advento das novas

tecnologias da informação, que permitiram a captura e armazenamento da

evidencia sob a forma digital. Ainda assim, o modelo do Museu Tradicional

permanece na sociedade contemporânea, como uma das representações

emblemáticas da relação entre o humano, a memória e a evidencia. Eis aí

colocada a importância dos estudos sobre a cultura material e a sua relação

estreita com o Museu.

Recolher evidencias da natureza e da ação humana - movimento que, na

origem, é contemporâneo (e talvez mesmo anterior) ao Homo Sapiens - tornouse,

ao longo do tempo, uma prática sistemática de muitos grupos sociais.

Vinculada ao estudo do passado longínquo ou recente, esta prática floresceu a

partir da Renascença europeia, quando o conhecimento se volta para o estudo e

articulação das evidencias segundo critérios de semelhança e analogia; e tentase

constituir microcosmos especulares onde a representação se daria pela

repetição, mas também "pela tentativa de (re)criar pequenas totalidades"

(SCHEINER, 1998, p. 54). Neste sistema integrado de similitudes onde o homem

ocupa o lugar central, como catalisador e irradiador de todas as relações, o

Museu se realiza como espelho de mundo, sob a forma do gabinete de

curiosidades 10 ; e se institui como aula, onde a certeza dos fatos se dá pela

presença da coleção 11 .

10 Numa cultura onde a representação se dá como repetição e onde o teatro da vida se

desenvolve como espelho do mundo, o Museu encontra espaço para instituir-se como

instancia consagradora das principais figuras de articulação do pensamento ocidental: a

conveniência, a emulação, a analogia e o jogo das simpatias. Se as coisas se articulam

por semelhança; se esta articulação é da ordem da conjunção e do ajustamento; se as

coisas dispersas através do mundo se correspondem por emulação; se esta relação é não

apenas direta, mas ocorre também ao nível das sutilezas, por analogia; se, neste espaço

arbitrário e plural, o homem ocupa um lugar privilegiado como centro catalisador e

irradiador de todas as relações; se, enfim, tudo isto se dá em constante mobilidade, pela

conjugação/alternação de “simpatias” e “antipatias”, como o provam a filosofia e a ciência,

é no museu que estarão contidas as evidências materiais de todas essas coisas, as

marcas visíveis desses processos (SCHEINER, 1998, p.53-54).

11 Conjuntos de evidências materiais recolhidas do mundo, as coleções permitem aos

seus organizadores (re)(a)presentar e (re)conhecer, através das coisas visíveis, os

processos invisíveis do homem e da natureza. A apresentação sob a forma de microcosmo

garante - como freqüentemente se dá no séc. XVI - a possibilidade de acesso a uma

22


A Figura 2 apresenta uma imagem do Gabinete de curiosidades

organizado no Palazzo Gravina, em Nápoles, por Ferrante Imperato, apotecário

napolitano. . A imagem é considerada a primeira representação pictórica de um

gabinete renascentista de História Natural 12 .

Figura 02 - Gabinete de curiosidades organizado no Palazzo Gravina, em Nápoles, por

Ferrante Imperato, apotecário napolitano.

É no gabinete de curiosidades que se inicia, no âmbito do Museu, uma

relação que perdura até os nossos dias: a relação organizada entre evidência

material, memória e linguagem, possibilitando o jogo da interpretação

(SCHEINER, 1998, p. 54).

configuração geral da natureza que, de outra forma, só poderia ser percebida pela análise

exaustiva de um encadeamento continuado de similitudes (SCHEINER, 1999, p. 142-144).

12 A imagem, ilustração de seu livro sobre História Natural, é considerada a primeira

representação pictórica de um gabinete renascentista de História Natural. O livro

apresenta a imagem como o “retrato do museu de Ferrante Imperato”; e inclui as

representações de “animais terrestres, aquáticos e voláteis; da ordenação das gemas,

mármores, e outras diferenças de pedras, terras, minerais e metais; e da confirmação de

(…) de licores da terra e de plantas diversas”. Della Historia Naturale di Ferrante Imperato

Napolitano, Libri XXVIII, MDIC.

23


Mas é a partir do século 17 que o Museu passaria a ser percebido

"primordialmente como um espaço físico, de reunião dos testemunhos materiais

da natureza e do saber humano; de estudo e de busca do conhecimento; e de

produção intelectual" (SCHEINER, 2014a).

Neste momento, em que a relação com o Real se dá pela experiência da

ordem, passa-se a buscar o sentido das coisas sublinhando as relações entre a

norma, a diferença e a exceção: os fatos e fenômenos são agora entendidos

segundo relações de igualdade/desigualdade, e a melhor forma de compreendêlos

será ordenar, em série, as evidencias materiais - das mais simples às mais

complexas. Não se trata de aproximar as coisas entre si, mas de estabelecer

identidades, "numa relação permanente com a máthêsis, ou ciência universal da

medida e da ordem" (SCHEINER, 1999, p. 143, apud FOUCAULT, 1997) que

quase nada deixa ao acaso: o conhecimento sistemático é, agora, o modo de

entender o mundo 13 .

Alimentando-se dessa proposta de uma “ciência geral da ordem”, o Museu

incorpora para sempre a função ordenadora, como forma de representar o mundo.

E torna-se o espaço ideal onde exercer a sistemática dessa ordenação: é nele

que melhor se elabora, na prática, a síntese epistêmica da rede de

interdependências definidora do saber da época. Este é o momento em que a

História Natural se define como forma de conhecimento, ocupando, como lembra

Foucault, o espaço aberto pela distancia entre as palavras e as coisas: "as coisas

beiram as margens do discurso, porque aparecem no âmago da representação"

(FOUCAULT, 1981, p. 144).

Começam a se definir então dois modelos representacionais do

fenômeno Museu:

a) o Museu Tradicional Ortodoxo (em francês - musée, muséum),

reatualização dos gabinetes de curiosidades, de medalhística e outras artes; e

dos gabinetes de experimentos alquímicos, derivados em laboratórios de estudo

cientifico. Espaço arquitetônico que abriga objetos e espécimes recolhidos do

mundo e ali trabalhados por especialistas, em procedimentos sistemáticos de

13 Esta forma de articular o conhecimento não exclui a probabilidade: num mundo

entendido como espaço combinatório formal e arbitrário, representado pelo signo, a

relação significante-significado se dará "no próprio interior do conhecimento, nas ligações

possíveis entre a ideia de uma coisa (a que representa) e a ideia de outra (a coisa

representada)" (SCHEINER, 1999, p. 143).

24


pesquisa, documentação e conservação, organiza-se sob a forma de coleções

articuladas de artefatos ou espécimes, mas também de obras de arte ou de

instrumentos científicos.

Na Inglaterra, destaca-se a coleção particular de John Tradescant, de

caráter universalista, integrada por espécimes naturais e objetos manufaturados,

procedentes de todas as regiões do mundo. Aberta ao público de forma gratuita

na casa de seu filho John em Lambeth, local conhecido como “a arca”, foi

progressivamente aumentada, até ser considerada como de alto interesse

científico. Legada por herança a Elias Ashmole, esta coleção foi doada pelo novo

dono à Universidade de Oxford. Em maio de 1683, abre as portas o Museu

Ashmoleano (Ashmolean Museum), trazendo ao domínio público a coleção

privada dos Tradescant. Integram o museu coleções de história natural,

numismática, arqueologia e etnologia, às quais se acrescenta, mais tarde, um

laboratório de química e uma biblioteca - e ainda salas para aulas. Professores

são designados para conservar e inventariar as coleções.

b) o Museu Tradicional com Coleções Vivas (muséum), configurado a

partir dos “jardins de plantas”, dos herbários e das coleções de animais vivos das

antigas ménageries. Edifício ou espaço aberto, que abriga espécimes recolhidos

do mundo, ali trabalhados por especialistas, em procedimentos sistemáticos de

pesquisa, documentação, conservação e exposição - com o diferencial de estarse

lidando com uma coleção cujos elementos integrantes nascem, crescem,

reproduzem-se e morrem (e, no caso das coleções zoológicas, precisam ser

alimentados). São exemplos dessa tendência o jardim botânico criado por Richet

de Belleval em Montpellier (1593), junto à faculdade de Medicina - o mais antigo

jardim botânico da França e segundo da Europa; e o Jardim de Plantas e

Gabinete do Rei (Luís XIII), fundados em 1623 por Guy de la Brosse, com

coleções de plantas medicinais.

O saber do mundo é, assim, espacializado, e a visualização da evidência

permite sua melhor observação e a sua descrição - fundamentando os estudos

taxonômicos que passariam a articular designação e derivação. Profundamente

vinculado ao saber organizado, o museu do período clássico se realiza

primordialmente sob a forma do museu universitário - espaço privilegiado para o

exercício das teorias classificatórias que tão bem explicitam essa episteme. O

Real é aqui representado pelo desenho de quadros articulados de fenômenos ou

de objetos, "que por sua vez representam a instauração de uma nova ordo mundis

25


sob a perspectiva da linguagem classificatória: ordem, gênero, espécie, atributos"

(SCHEINER, 1999, p. 144; 2014).

A busca de uma gênese do conhecimento estará também valorizada nos

museus de História e de Arqueologia, onde se busca a representação de culturas

passadas através do testemunho epigráfico.

A nova ordenação entre as coisas e a linguagem, que antes se refletia

pela ideia de “mostruário”, passa a revelar-se agora, nos museus, pela

ordenação em quadros significantes - sob a forma exposições que revelam, de

forma “permanente”, essas cadeias de relações. Foucault comenta:

o gabinete de história natural e o jardim, tal como são

organizados na idade clássica, substituem o desfile circular do

'mostruário' pela exposição das coisas em 'quadro'. O que se

esgueirou entre esses teatros e esse catálogo não foi o desejo

de saber, mas um novo modo de vincular as coisas, ao mesmo

tempo ao olhar e ao discurso (FOUCAULT, 1981, p. 145).

Tudo reduz os sentidos à prevalência da visão: conhecer passa a ser,

essencialmente, observar. Do microscópio ao telescópio, "o exercício sistemático

da visão aplicada a um dado objeto de estudo se faz em várias escalas - e ajuda

a identificar e classificar espécimes e objetos pelo (re)conhecimento das partes

constituintes" (SCHEINER, 1998, p. 57) 14 . A Figura 3 apresenta imagem das

Lunetas de Galileu do acervo do Museu Galileo, de Florença.

Esse privilégio da visão e da linguagem descritiva é elevado ao máximo

nos museus e coleções de arte, onde, ao lado da estética da delicadeza, impera

a representação da arte em analogia com a ciência, vinculando a noção do Belo

às leis da Razão; e irá permanecer no âmbito dos museus até meados do século

XX, influenciando as linguagens da exposição 15 .

14 Há também uma linguagem toda vinculada ao âmbito da visão, e que faz uso de termos

emprestados da geometria e da estética: uma linguagem que se desdobra linearmente,

descrevendo o objeto observado pela descrição de cores, aspectos visuais de superfície,

formas geométricas, como se fosse possível a toda a ordem do mundo estar contida no

visível descrito. O objeto é dado ao conhecimento muito mais pela sua superfície e linhas

do que pela sua própria essência enquanto corpo, ou pelo seu funcionamento

(SCHEINER, 1998, p. 57).

15 A descrição enumerativa de características dos objetos expostos dominou a expografia

até meados do século 20, quando finalmente foi substituída pela análise orgânica do real -

e ainda hoje subsiste em alguns museus de ciências.

26


Outro elemento se insere também nesta rede de significações: o tempo,

que instaura a necessidade de se pensar as evidências do mundo desde o ponto

de vista de uma evolução, de uma série cronológica de acontecimentos 16 .

Figura 03 - Lunetas de Galileu, parte integrante do acervo do

Museu de História da Ciência de Florença, atual Museu Galileo.

Esse privilégio da visão e da linguagem descritiva é elevado ao máximo

nos museus e coleções de arte, onde, ao lado da estética da delicadeza, impera

a representação da arte em analogia com a ciência, vinculando a noção do Belo

às leis da Razão; e irá permanecer no âmbito dos museus até meados do século

XX, influenciando as linguagens da exposição 17 .

16 Esta tendência a refletir a imposição do palpável sobre o abstrato, do material sobre o

imaginário permanecerá até o início do séc. XX - quando a radical transformação dos

paradigmas filosóficos, políticos e científicos colocará o Homem em face de uma nova

dimensão do conhecimento: tudo é relativo (SCHEINER, 1998; 1999; 2014).

17 A descrição enumerativa de características dos objetos expostos dominou a expografia

até meados do século 20, quando finalmente foi substituída pela análise orgânica do real -

e ainda hoje subsiste em alguns museus de ciências.

27


Outro elemento se insere também nesta rede de significações: o tempo,

que instaura a necessidade de se pensar as evidências do mundo desde o ponto

de vista de uma evolução, de uma série cronológica de acontecimentos 18 .

O saber clássico encontra seu primeiro modo de ruptura do séc. 18,

quando o pensamento filosófico volta-se para o homem e o coloca, como pontua

Foucault (1981,1995), no coração da representação.

O Ser ocupa o lugar da Verdade, e o Homem, o da Natureza:

agora, a representação só é possível quando os seres se

colocam na sua relação com o humano. Este será o lugar de

advento das antropologias, das neurologias, dos estudos do

homem sobre o homem que irão constituir o âmbito das

ciências humanas. E também o momento em que o homem

se instaura definitivamente no âmbito do Museu, elemento

cognoscente e objeto cognoscível, traduzindo as relações

entre natureza e cultura através de processos materializados

no objeto (SCHEINER, 2014).

É justamente ao final do século 18 que o Museu Tradicional se consolida

como modelo representacional do saber do mundo - "espaço per se de

apresentação de evidencias sobre as relações entre o mundo e o humano (...)

permeadas por uma articulação visceral entre presente e passado, pois só é

possível pensar o novo a partir do já acontecido" (SCHEINER, 2014).

O museu do período é o da revolução - e seu exemplo maior é o Louvre,

aberto à visitação por Louis XVI e reestruturado em 1792 pelo governo

revolucionário, para divulgar e manter na memória do povo os abusos da coroa

de França; mas é também o museu do Estado, da identidade e das glórias

nacionais; ou o museu-monumento, materializado sob a forma do grande palácio,

do arco do triunfo, da igreja decorada, da estátua do rei (SCHEINER, 1998, p.

57-59) - expressões concretas da arte sensível que iriam, a partir deste

momento, incluir-se no âmbito de uma nova esfera de representações: o

patrimônio.

A Figura 4, a seguir, apresenta uma imagem do Projeto de exposição da

Grande Galeria, Museu do Louvre (séc. XVIII).

18 Esta tendência a refletir a imposição do palpável sobre o abstrato, do material sobre o

imaginário permanecerá até o início do séc. XX - quando a radical transformação dos

paradigmas filosóficos, políticos e científicos colocará o Homem em face de uma nova

dimensão do conhecimento: tudo é relativo (SCHEINER, 1998; 1999; 2014).

28


Figura 04 - Museu do Louvre - Projeto de exposição da Grande Galeria. Hubert Robert,

séc. XVIII.

Na França revolucionária, criam-se dezenas, centenas de museus, que

buscariam por um lado reificar o novo homem do novo país, e por outro

salvaguardar os registros materiais cuja integridade era ameaçada pelas

sucessivas mudanças políticas. Torna-se agora imperativo vincular “todos os

bens” ao Estado, esta mão aglutinadora que busca reter as muitas formas de

representação cultural.

O desenvolvimento da ciência e a tentativa de entender o homem nas

suas relações consigo mesmo e com o mundo incentivam ainda a formação e o

desenvolvimento de novas coleções científicas. Coleções já existentes ampliamse

e transformam-se nos grandes museus de ciências que hoje conhecemos,

como o Museu Britânico e o Museu Nacional de História Natural, de França 19 .

19 No início do século XIX, destaca-se no Muséum de História Natural de França o estudo

da vida animal, representado pelos trabalhos de Saint-Hilaire e Cuvier.

29


A Figura 05, a seguir, apresenta uma imagem do interior do Museu Britânico,

séc. XVIII.

Figura 05 - Interior do Museu Britânico, séc. XVIII.

Há também o produto da 'apreensão' de patrimônios exóticos nas terras

colonizadas, ou invadidas por movimentos de expansão militar; e inicia-se

uma frenética atividade arqueológica, onde o homem do

passado e das regiões colonizadas ganha o estatuto de Outro

e é tratado como objeto de estudo. Tudo é possível, desde que

ajude a pensar quem é este homem que agora se inscreve, de

modo tão absoluto, no espaço filosófico; ou (...) desde que

ajude a entender o lugar da Origem numa ordem natural onde

os seres se sucederiam, numa trama contínua e cronológica

de evidências e manifestações - sequência perfeita e linear,

percurso dado no tempo e que instaura uma ligação

permanente com a historicidade (SCHEINER, 1998, p. 59).

É nessa perspectiva historicista que se constituirá o homem do séc. XIX,

essencialmente vinculado à origem - não ao começo das coisas, mas, como

30


lembra Foucault (1981) ao já existente. Este é um aspecto que interessa ao

Museu: comprovar o aparecimento da cultura e o nascimento das civilizações

como parte do movimento de evolução biológica; e inserir o tempo do homem no

tempo do mundo, relacioná-lo ao tempo das coisas. Esta relação com o tempo (e

com a própria finitude) leva à ideia de que a Verdade pode estar ora no objeto,

ora no discurso - ambiguidade que torna possível a elaboração de narrativas de

mundo fundamentadas na natureza e na história (como na análise positivista), ou

a elas antecipadas (discurso do devir - como em Marx).

O séc. XIX é o tempo em que, como bem explica Foucault, o campo

epistemológico se fragmenta em várias direções, instaurando novas dimensões e

lugares para o pensamento 20 - e em que se configuram os saberes que viriam a

ser conhecidos como as 'ciências humanas': e "os espaços deixados livres pelos

saberes já constituídos começam a ser habitados pelas psicologias, pelas

sociologias e pela linguagem enquanto forma de comunicação" (SCHEINER,

2014).

Nos museus, os sistemas classificatórios e a ênfase nas linguagens

atestam a prevalência do humano como foco central de toda e qualquer

representação. Não sem razão, o século 19 seria denominado “o século dos

museus”: neles, tudo está presente - terra, homem, natureza, civilização,

sociedades. E tudo pode ser percebido "através dessa grande panóplia cultural

que é a exposição, que a pouco e pouco inicia seu caminho no sentido da

articulação de uma linguagem própria do Museu: a linguagem museológica"

(SCHEINER, 1998, p. 64). E o Museu se instaura como ‘duplo’ do homem,

instância simbólica de um discurso elaborado "pela conjugação preestabelecida

de espaços, ideias, palavras e objetos, onde o homem é especialmente

representado na sua relação com a cultura" (SCHEINER, 1999, p. 146).

Eis a força simbólica do museu tradicional, cuja base conceitual é o

objeto, articulado sob a forma de coleções. Essencialmente dependente da

cultura material, o Museu Tradicional se estrutura a partir do objeto: sem objetos,

não há coleção, não há museu.

20 Foucault comenta que o espaço da episteme moderna se abre para três dimensões

específicas: as ciências matemáticas e físicas; as ciências que estabelecem relações

entre elementos descontínuos mas análogos (linguagem, ciências da vida, da produção e

distribuição de riquezas); e a reflexão filosófica - que se estabelece, então como

pensamento do Mesmo (FOUCAULT, 1981, p. 364).

31


Tão hegemônica se torna, no pensamento ocidental e na experiência

cultural do ocidente, esta matriz de representação, que se passa a acreditar que

este é o único museu existente: pois, pela via da conquista e da imposição

cultural, o modelo europeu de museu atravessa terras e mares e se difunde por

todos os continentes, perpetuando a falsa impressão de ser o único museu

possível, em todos os tempos, a todas as sociedades 21 .

E apenas na segunda metade do século XX será possível fazer a crítica

a esta hegemonia, reconhecendo que o Museu é fenômeno e identificando outras

representações do fenômeno Museu.

3. Antropologia, Sociologia: o material e o social

Quanto à Antropologia, passaria a ter uma função dogmática a partir do

século XIX - e conduziria o pensamento filosófico em direção ao século XX,

analisando "todo o real possível a partir da experiência do homem" (SCHEINER,

1998, p. 62), a ponto de criar, para a filosofia, uma configuração antropológica.

Visando adequar as realidades das populações colonizadas aos

interesses do sistema capitalista, a Antropologia buscou perceber e justificar a

diferença pela análise e pela tentativa de reconstrução dos critérios internos de

organização, representação e expressão de cada cultura. Contribuíram para isso

cientistas como Lévi-Strauss, ao implementar a noção de cultura como código,

tendo como domínio central a linguagem; ou Tylor, ao trabalhar a cultura como

um todo, sistema integrado e coerente de comportamentos e crenças ao qual

cada parte dá expressão e sentido. Passa-se também a entender a cultura como

sistema de símbolos – normas inconscientes que subjazem às manifestações

culturais, e que constituem aparelhos simbólicos capazes de serem

decodificados a partir dos códigos comuns aos indivíduos de um mesmo grupo,

ou a mais de um grupo.

Percebida a partir da expansão colonial europeia, a

diversidade cultural dos povos do mundo espanta e preocupa

o colonizador. É preciso buscar respostas para essa

perplexidade, elaborar, no âmbito do conhecimento científico,

um espaço possível para a compreensão de tanta diferença.

E para melhor ilustrar essa busca, multiplicam-se os museus

etnográficos, os museus nacionais de folclore e tradições

populares – espaços autorizados de análise das relações

homem, cultura e sociedade (SCHEINER, 1998, p. 68).

21 Ver (SCHEINER, 1998, cap. 03).

32


Um dos museus a registrar de forma emblemática esta relação é o Pitt

Rivers Museum, fundado em Oxford, em 1884, a partir de uma coleção de 18 mil

objetos de todas as regiões do mundo, doada pelo Ten. General Pitt Rivers,

figura influente no campo da arqueologia e da antropologia. O museu conta hoje

com mais de meio milhão de objetos, a maior parte doada pelos primeiros

antropólogos e exploradores, entre eles, o Capitão Cook - destacando-se os

registros sonoros e fotográficos 22 .

Os modelos lógicos de análise sociocultural desenvolvidos pelo campo

antropológico pressupunham a possibilidade de compreender os grupos sociais

por meio de sua produção material, chegando-se a imaginar ser possível medir

(ou inferir) o grau de desenvolvimento de cada grupo por esta produção - e, mais

especialmente, pelos objetos por eles criados e utilizados.

Geertz (2001, p.68) lembra o tempo em que a antropologia buscou

capturar a diferença numa "rede teórica universalizante: estágios evolutivos,

ideias ou práticas pan-humanas, ou formas transcendentais" - ou mesmo "na

incomensurabilidade". Foi neste ambiente que floresceram os estudos de cultura

material, iniciados ainda no século XIX, com as pesquisas de Morgan sobre as

relações entre a tecnologia e a estrutura social dos grupos humanos; e

desenvolvidos com os estudos de Boas, sobre as relações entre cultura material

e não material 23 ; e de Durkheim, sobre a cultura material como fato social.

Apesar dos esforços de alguns teóricos 24 , a Antropologia evoluiu como

campo acadêmico responsável pela criação de categorias que, em geral,

marginalizavam e hierarquizavam as culturas às quais se referiam,

desenvolvendo uma perspectiva etnocêntrica na qual, obviamente, o papel

central cabia à cultura europeia - ou a seus descendentes em outras regiões. O

mesmo ocorreria com a Sociologia:

Baseada no conceito positivista de que as ideias são ‘fatos

sociais’, a Sociologia analisa as percepções de mundo das

diferentes sociedades e busca entender como cada

sociedade se organiza hierarquicamente, informada por suas

22 Cabe pontuar que é nesta época que começam a constituir-se algumas das mais

emblemáticas coleções brasileiras de ciências – como as do Museu Nacional, Museu

Paraense Emilio Goeldi e Museu Paulista.

23 Para Boas era importante analisar não apenas os objetos e suas propriedades

intrínsecas, mas também seu significado e seu uso no contexto da cultura estudada.

24 Como Dewey e Mead, que estudaram a influencia do comportamento individual no

desenvolvimento dos padrões culturais.

33


concepções. E para fazê-lo classifica os homens como antes

se classificavam as coisas, buscando uma relação entre o

sistema social e o sistema lógico de cada sociedade

(SCHEINER, 1998, p. 69).

Este movimento tornou-se possível, em grande parte, pela

instrumentalização de museus como vitrines da evolução sociocultural: das

formas de ocupação do espaço e dos objetos de grupos ditos “primitivos” aos

conjuntos de objetos criados e/ou possuídos pelas culturas europeias ou seus

descendentes norte-americanos, tudo podia ser usado como evidencia

comprobatória de que, efetivamente, a matriz europeia configurava o topo da

cadeia evolutiva da sociedade humana. E mesmo pesquisadores consagrados

como Lévi-Strauss fizeram uso, em seus estudos, da cultura material,

acreditando que os objetos poderiam revelar níveis de significado sobre os

grupos que estudava, não passíveis de alcançar pela pesquisa de campo.

A evolução do conhecimento ao longo do século XX permitiu reconhecer

que a cultura não se desenvolve através de ciclos predeterminados, e admitir que

não é possível criar um modelo evolutivo onde se situem todas as sociedades.

Mas, estranhamente, em grande parte as coleções musealizadas continuaram a

ser percebidas como testemunhos de ciclos evolutivos já não mais considerados

pela teoria do conhecimento, gerando impasses e mal entendidos.

Um olhar mais cuidadoso sobre este descompasso entre substrato

teórico e apresentação da evidencia desvelou que o ponto de fricção entre teoria

e prática poderia indicar uma das situações a seguir:

a) coleções organizadas, estudadas e interpretadas por especialistas

com grande conhecimento da(s) disciplina(s) formadora(s) dessas coleções, mas

sem conhecimento suficiente sobre como apresentá-las de forma adequada;

b) coleções organizadas e estudadas por especialistas com grande

conhecimento da(s) disciplina(s) formadora(s), em situação de custódia por parte

de profissionais com conhecimento suficiente para apresentá-las, mas sem

conhecimento suficiente para interpretá-las;

c) coleções organizadas, estudadas e interpretadas por especialistas

com grande conhecimento da(s) disciplina(s) formadora(s) e custodiadas por

profissionais com conhecimento suficiente para apresentá-las, mas em situações

em que não se realiza a interface entre os dois tipos de profissionais.

34


Percebe-se assim que um dos aspectos geradores de tensões no âmbito

dos museus refere-se a questões ligadas às práticas desenvolvidas em torno das

coleções; não apenas às práticas expográficas, mas também aos modos e

formas segundo os quais essas coleções são organizadas, estudadas,

documentadas e interpretadas.

Aqui, é fundamental lembrar a importância da presença do profissional

bem qualificado, não apenas conhecedor das disciplinas sob as quais se

organizam e desenvolvem as coleções, mas também - e principalmente - das

metodologias de trabalho que são intrínsecas ao campo da Museologia.

4. O Trabalho nos Museus - base para a constituição do campo museal

O campo que hoje denominamos museológico (ou museal) articulou-se a

partir da prática profissional, com importantes interfaces com a história da ciência

e com a evolução do pensamento científico e da pesquisa, especialmente no

âmbito da História Natural. Para melhor compreensão, usaremos o modelo de

Stránský (apud SCHEINER, 2012), segundo o qual a Museologia ter-se-ia

estruturado como campo a partir de três momentos (ou estágios) específicos:

pré-científico (ou formativo), empírico-descritivo (unificação e sintetização) e

teórico-sintético (maturidade).

Os critérios para o desenvolvimento e o cuidado de coleções estão,

portanto, na origem da formação de profissionais de museus; e vêm-se

desenvolvendo, como já se sabe, desde o século XVI – quando se desenharam

as primeiras normas relativas ao trabalho de documentação e preservação de

coleções, resultantes da necessidade de controle dos objetos que as constituíam

(ver SCHEINER, 2012). O desenvolvimento de uma sistemática de ordenação

espacial de registros materiais, identificados a partir de duas grandes categorias -

espécimes naturais (naturalia) e objetos fabricados (artificialia) – e diretamente

ligado aos estudos da sistemática cientifica em diversos campos, daria lugar ao

que hoje conhecemos como estratégia museográfica”.

Neste primeiro estágio (formativo) da Museologia, destacam-se obras

como o manual de ordenação de coleções publicado em 1565 por Quiccheberg

(Figura 6), considerada a primeira publicação no campo da museologia teórica;

as normas e procedimentos do Museu Ashmoleano, publicadas em 1714, e que

incluíam procedimentos para a recepção de visitantes (MAROEVIC, 1998, p. 44);

35


e ainda o manual de Museografia publicado em 1727 por Neickelius, obra

considerada formalmente como o primeiro livro de estudos do campo (Figura 7).

Figura 06 (a e b) - Quiccheberg e seu Manual de Ordenação de Coleções, 1565.

Figura 07 (a e b) - As normas e procedimentos do Museus Ashmoleano (1714) e o

Manual de Museografia de Neickelius, 1727.

36


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-

A abertura dos museus públicos daria nova ênfase à necessidade de

tratamento adequado das coleções; multiplicam-se obras sobre o modo de tratar

conjuntos de objetos e de espécimes científicos, como as de Lineu, Systema

Naturae e Instructio musei rerum naturalium (Estabelecimento de um museu de

coisas naturais), ambas publicadas em Uppsalla (Suécia), respectivamente em

1735 e em 1753 (Figura 8). Estas obras iriam contribuir “para a formulação de

postulados e novas abordagens para a coleta [de registros] e o trabalho em

museus” (MAROEVIC, 1998, p. 76), alterando os postulados já existentes e

impregnando os campos da arqueologia e das artes.

INSTRUCTIO

'

MUSEI

Г> . Л G. 50

.

. RERUM NÄTURALIUM,

-3' Quam , .' .

CONSENSU EXPERÏENT. ET NOBILISS.

FA CULT. MEDIC. UPSAL. . „

PR Ж S ID I О

-

Sub

VI1U NOBILISSIMI A1QUE EXPElUENHIUMt ,

DnDoct.CAROLI

LINN Ж L

S:jeR:^ 2 M-.tis Archiatri, Med. et Botan. Prof.

Reg. et Ord. Acad. Im per. Monspel. Stock«.

Upsal. Berol. Tol. et Londin. Socii,

Nec non

; Equm s Aurati de Stella Polari.

PLACIDO BONORUM CENÎURœSUBZICÏI

Alum nus Regius?

DAVID HULTMAN,

UPLANDUS.

IN AUD. CAR. MAJ. D. XIV. NOV. AN, MDCCLIII.

H. A M. S.

UPSALÍJE,

Exc. LAUR. MAGNUS HÓJER, Reg, Acad. Typogr. ,

f

• -

Figura 08 (a e b) - Obras emblemáticas de Lineu sobre coleções de espécimes

científicos: Systema Naturae (1735) e Instructio musei rerum naturalium (1753).

Ao final do século XVIII já se havia generalizado a percepção sobre a

importância do estudo sistemático das coleções para definir o caráter científico

dos museus, percepção esta enfatizada pela publicação de livros sobre a história

dos museus e coleções. Ficava, assim, comprovada a relação direta e

necessária entre a organização dos museus e a pesquisa - fundamento de

diferentes ciências aplicadas e também da museografia. Mas, e quanto à

Museologia?

Embora a ideia de Museu e o termo “museu” tenham origem, como

acreditamos, no pensamento grego arcaico do séc. VIII A.C., apenas 122 anos

37


após Neickelius uma publicação faria uso do termo 'museologia': o livro A Prática

da História Natural 25 , publicado em 1869 em Weimar, Alemanha, por Philipp

Leopold Martin (LEWIS, s/d). Em 1882, J. G. Th. von Graesse publica um livro

denominado Museologia como Ciência, em que pela primeira vez se trata da

Museologia como saber científico, dedicado ao tema dos museus, enquanto o

cuidado com as coleções seria determinado pelas diferentes disciplinas

científicas (MAROEVIC, 1998, p. 78) 26 . Este livro iria influenciar os estudos no

âmbito da Museologia durante toda a primeira metade do século XX, sendo

considerado o primeiro a definir o estatuto de disciplina para a Museologia 27 .

Figura 09 - Die Praxis der Naturgeschichte

(A Prática da História Natural), 1869.

Figura 10 - Die Museologie als

fachwiessenschaft (A Museologia como

Ciência), 1882.

25 Die Praxis der Naturgeschichte. Maroevic (1998, p. 78) comenta que a segunda parte

deste livro, denominada 'Dermoplastik und Museologie' tratava das exposições e da

manutenção de coleções.

26 Maroevic e Mensch (apud Maroevic) indicam que este livro foi publicado em

1883. Entretanto, as referencias de imagem em alemão indicam que foi publicado

em 1882 (ver indicações de fonte de imagens, ao final deste artigo).

27 Datam também do século XIX as primeiras sociedades de museus e o surgimento de

periódicos (Journals) 'museológicos', dedicados ao manejo de museus e coleções. Tais

periódicos se multiplicam a partir do início do século XX, tendo constituído uma

contribuição marcante para o desenvolvimento da Museologia como campo. Alguns deles,

como o Museum Journal (Londres, 1901) e o Museumskunde (revista para o manejo

técnico de coleções públicas e privadas, Alemanha, 1905), vêm sendo publicados desde

então.

38


Os séculos XVIII e XIX teriam marcado, portanto, o momento em que se

desenvolve a ideia da profissionalização do trabalho em museus - com um

desenvolvimento gradual do corpo de conhecimentos teóricos, hoje identificado

como Museologia, acompanhando a identificação do papel social dos museus.

Este "processo emancipatório, envolvendo o distanciamento da museologia das

disciplinas específicas e o estabelecimento de uma orientação cognitiva e

metodologia próprias" (MENSCH, 1992, p. 2) teria correspondido ao segundo

estágio identificado por Stránský: o estágio empírico-descritivo, pontuado pela

unificação e sintetização de experiências e conceitos.

Mas tanto a Museologia como a própria museografia só iriam

desenvolver-se plenamente a partir do início do século XX - quando se

multiplicaram as associações de profissionais e os periódicos dedicados ao

trabalho em museus; e as universidades passaram a encarregar-se da formação

de pessoal para pesquisa e para as atividades técnicas em museus. Só a partir

de então poderíamos considerar ter-se dado verdadeiramente o processo de

emancipação da Museologia como disciplina acadêmica – com a adoção de um

paradigma de saber compartilhado, facilitado pela edição de manuais de

operações museográficas e pelo desenvolvimento de associações profissionais 28 .

Este é também o momento em que se estabelecem os primeiros cursos de

Museologia: Escola do Louvre (Paris, 1882), Pennsylvania Museum (Filadélfia,

1908) 29 , Harvard (1921 - coordenado por Paul Sachs) 30 , Universidade de

28 Museums Association (UK, 1889); American Association of Museums (USA, 1906);

Associação Alemã de Museus (1916).

29 Curso para curadores de museus de arte, desenvolvido em 1908, no citado museu, por

Sarah Yorke Stevenson, curadora das coleções de Egito e Mediterrâneo.

30 Iniciado por Sachs em 1922 como um curso em curadoria de coleções, intitulado “Fine

Arts 15 a : Museum Works and Museum Problems”, este curso foi sistematizado a partir de

1923 e oferecido sem interrupções até 1945. O programa incluía um curso sobre

"Trabalho em museus e problemas de museus" (mais conhecido como "Curso de

Museus"), que Sachs ofereceu anualmente até aposentar-se. O curso abrangia todos os

aspectos do trabalho e da prática em museus, incluindo história, filosofia, organização e

administração de museus; arquitetura de museus; desenvolvimento e montagem de

exposições; desenvolvimento de coleções, incluindo relações com doadores, catalogação

de objetos e identificação de falsificações; e ainda política e ética de museus. O conteúdo

envolvia teoria e prática e destinava-se à capacitação de diretores, curadores e

especialistas de museus.

39


Masaryk, Brno, República Tcheca (primeira cátedra de Museologia, 1922) 31

Curso de Museus do Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro, Brasil - 1932).

e

A partir dessas experiências, a Museologia torna-se gradualmente

reconhecida como um campo do conhecimento, com identidade própria - e evolui

em direção à estrutura interdisciplinar 32 - configurando a passagem do estágio

empírico-descritivo para o que Stránský definiria como estágio teórico-sintético,

correspondente à constituição de um corpus teórico do campo.

Os estudos desenvolvidos entre os anos 1930 e 1970 permitem pensar a

existência da Museologia como campo disciplinar específico – especialmente nos

anos 1970, quando, ao mesmo tempo em que se criam ecomuseus e se analisa

o conceito de museu integral, desenvolve-se uma produção teórica voltada não

para as coleções, mas para a investigação do fenômeno Museu. Este é o

momento em que se definem as bases epistemológicas da Museologia e se

multiplicam os cursos de formação e os programas de ensino voltados para as

questões teóricas do campo.

Lembremos, entretanto, que o uso do termo Museologia para identificar

um campo disciplinar específico, com teoria e métodos próprios, apenas se

consagra a partir da década de 1980: até aquele momento, os termos

Museologia e Museografia foram usados indiscriminadamente na literatura do

campo, com uma tendência, especialmente nos países de língua inglesa, a usarse

'museologia' ou 'museum studies' com referencia tanto à teoria como à prática

31 Segundo Stránský (1990), esta cátedra - dirigida por Jaroslav Helfert, então Diretor do

Museu da Moravia - ofereceu aulas de 1922 a 1939, quando se iniciou a II Guerra Mundial

- retomando seu trabalho de 1946 a 1948.

32 No plano internacional, Jirí Neustupný foi um dos primeiros profissionais a defender o

estatuto científico da museologia como disciplina acadêmica, em sua tese Problems of

Modern Museology, publicada em 1950. Neustupný foi um dos membros fundadores do

ICOM e participou, entre 1948 e 1957, do comitê editorial da revista Museum. Suas ideias

sobre a Museologia já se destacavam nos anos 1940, quando publicou o livro "Otazky

ceskeho muzejnictvi" (On Czech museum work). A partir de 1950, sua atuação como

professor Assistente na Universidade Charles, em Praga, onde desenvolveu cursos em

Museologia, e posteriormente na Universidade de Masaryk, em Brno, contribuiu para que

passasse a ser considerado um dos precursores do pensamento teórico no campo. Seu

livro "Museum a veda" (Museum and research), publicado em 1968, é considerado o ponto

alto de seu trabalho teórico. Nele, busca solucionar o problema do papel da ciência nos

museus e sua relação com a abordagem museológica dos ramos individuais da ciência.

In: STRANSKY, Z. Z. Tribute to Jirí Neustupný. MuWoP 2, ICOFOM, 1982. p. 6-7.

40


dos museus (LEWIS, s/d). Esta tendência permanece ainda hoje, em

determinadas situações em que se confunde o conhecimento sobre um ou mais

museus, ou o conhecimento sistemático sobre um determinado tipo de coleção,

com o conhecimento sobre Museologia – gerando distorções epistêmicas e de

interpretação das referencias do campo, que muito têm confundido os

profissionais.

Cabe pontuar aqui que nem todos os que falam de museus ou escrevem

sobre museus estarão, necessariamente, fazendo Museologia. E que, embora a

Museologia seja um saber de base transdisciplinar, que se gera e se articula na

interface entre os demais campos, ela constitui, hoje, um campo disciplinar

específico, com vocabulário e metodologias próprias e com objetos de estudo

específicos: o fenômeno Museu, a musealidade, os processos de musealização

do patrimônio e de socialização do patrimônio musealizado.

Esta é a tarefa que cabe, hoje, aos cursos e programas de qualificação

profissional para Museologia: trabalhar a Museologia como campo disciplinar. Há

aqui uma dupla responsabilidade: enquanto às escolas de formação cabe

conferir o know-how do campo aos futuros museólogos, provendo os

conhecimentos básicos necessários ao exercício profissional, a principal missão

dos programas de pós-graduação será desenvolver a análise crítica do campo,

pesquisando as relações entre teoria e prática. Museologia e geração do

conhecimento: eis a nossa missão, a nossa responsabilidade 33 .

A consolidação de um campo do conhecimento se fundamenta no

desenvolvimento teórico e na consequente aplicabilidade das teorias

desenvolvidas. Estes dois movimentos requerem profissionais bem qualificados e

capazes de identificar problemas teóricos e técnicos, desenvolver reflexões e

procedimentos que respondam a esses problemas e efetuar a análise crítica de

todos esses processos. É preciso pensar a Museologia com um olhar que venha

de dentro do campo e que também se volte para dentro do campo, buscando

33 O nível de Mestrado permite uma abordagem renovada das relações entre o profissional

e seu âmbito de trabalho (inclusive o trabalho prático); o Doutorado, por sua vez, abrirá

tempos e espaços para o aprofundamento da qualificação do museólogo pesquisador. É

fundamental, portanto, pensar numa formação profissional que se inicie na Graduação,

passe pelo Mestrado e tenha a possibilidade de aprofundar-se em estudos e pesquisas de

nível doutoral.

41


compreender suas especificidades, estrutura e relações com os demais

saberes 34 .

5. Museologia e Cultura Material: interpretação

A análise crítica dos modos e formas pelos quais os museus apresentam

e interpretam a cultura material constitui uma questão central para o campo - e

diz respeito a todas as representações do Museu, mas especialmente ao modelo

do Museu Tradicional Ortodoxo, que se fundamenta na existência de conjuntos

de objetos, que formam coleções. Os museus desse modelo, tradicionais

repositórios de artefatos culturais (objetos, documentos), são percebidos como

núcleos de irradiação de projetos e experimentos baseados ‘na evidencia'. Na

qualidade de centros de interpretação, conservação e exibição dos registros da

natureza e da cultura humana,

estabelecem uma relação especial com os produtos culturais

que abrigam. Eles trabalham com os valores autênticos que

formaram o universo do Homem e sua realidade num

determinado tempo e espaço; contribuem para todos os

processos cognitivos facilitando o acesso ao conhecimento

através da linguagem tridimensional do objeto (DECAROLIS,

1994, p. 83).

Sabemos, pelo estudo da evolução do campo, que um amplo e

riquíssimo espectro de dispositivos técnicos desenvolveu-se, no tempo e no

espaço, em torno dos movimentos de organização de coleções, a ponto de

chegar-se a confundir, ao longo de todo o século XIX e grande parte do século

XX, Museu e coleção.

A implementação da ideia de sociedade e de cultura enquanto

processos, através dos quais os indivíduos podem desempenhar o papel de

agentes de transformação do sistema simbólico e do sistema produtivo, levou à

percepção de cultura como código - como sistema de comunicação, que cria

significados a partir de uma realidade permanentemente em mudança. E a partir

34 Entre os temas de pesquisa, destacam-se os estudos terminológicos - que visam gerar

significados comuns nas mais diferentes línguas, permitindo que os pensadores do

campo, através do estudo semântico e da análise comparada de termos e conceitos,

possam efetivamente comunicar-se.

42


de então a relação entre museus e objetos passou a ser vista sob o prisma das

relações de sentidos.

Nesta perspectiva, as ideias de “patrimônio material” e de “coleção”

permitem identificar, no amplo espectro de referencias comprobatórias da ação

humana, recortes nos quais determinadas referencias podem ser articuladas

para formar “comunidades de sentido”: "ligações simbólicas, um jogo de

semelhanças e de espelho" (FOUCAULT, 1995, p. 24) que permitem ou facilitam

o surgimento de uma consciência coletiva sobre determinado fato ou momento.

Esta é a perspectiva que norteia e informa, hoje, o trabalho dos museus.

Sabemos que todo objeto, ao ser incluído numa coleção e especialmente

ao ser musealizado, adquire naquele contexto um papel específico: ele preenche

uma nova função (de memória, ou de documento) e pode servir de agente

evocador - comprobatório, ou mesmo deflagrador do acontecimento ou da

experiência. Mas aqui, é necessário lembrar que tanto o patrimônio material

como seu recorte musealizado - os objetos que constituem as coleções de

museus - são considerados suportes de informação, não porque tragam consigo

a informação, mas justamente porque podem ser articulados para formar

sentidos. O verdadeiro fluxo de informação é o que se estende do homem para o

homem, o que interliga pessoas e pessoas, e não pessoas e objetos.

É fundamental, portanto, utilizar o patrimônio material musealizado na

sua exata medida: objetos, sejam eles móveis ou imóveis, são apenas coisas -

ferramentas de trabalho, instrumentos de mediação. No âmbito do Museu,

precisam ser documentados, estudados, preservados e interpretados - mas a

verdadeira medida de sua significação será dada pelos modos e formas pelos

quais forem presentificados para a sociedade, seja por meio da exposição ou de

qualquer um de seus complementos: pesquisa, ações educativas, publicações,

multimídia, páginas digitais, eventos. É preciso, ainda, cuidar para que tais

articulações não resultem em sínteses acabadas, em narrativas fechadas cujos

efeitos são definidos a priori, ou em "certos recortes ou grupamentos que já nos

são familiares" (FOUCAULT, 1995, p. 24).

A Museologia contemporânea compreende Cultura como sistema

semiótico - um conjunto unificado de sistemas, que configura um grande texto; e,

enquanto tal, um sistema perceptivo, de armazenagem e divulgação de

informações. E como os processos perceptivos são inseparáveis da memória, na

43


estrutura de todo texto se manifesta a orientação para certo tipo de memória: a

memória coletiva. Cultura seria, assim, memória coletiva não hereditária,

caracterizada por um conjunto de informações geradas e/ou adquiridas,

armazenadas e transmitidas por um determinado grupo.

E como a cultura compõe-se de traços distintivos, as informações

vinculadas a uma coletividade configuram-se como subconjunto, caracterizado

por certo padrão de ordem - mas permeável e poroso o suficiente para incorporar

a troca permanente.

Aqui, o foco central não será a produção material, mas a produção

simbólica de uma sociedade, possível de apreender por meio da análise das

trocas informacionais que ocorrem tanto no interior de uma dada organização,

como entre diferentes estruturas. Essas trocas operam em contínua

retroalimentação, visando assegurar os pontos invariáveis num conjunto de

variáveis mantidas no interior de cada sistema; atuam, portanto, como

parâmetros de regulação que visam manter a integridade desses conjuntos ou

sistemas.

Assim sendo, é fundamental que a Teoria da Museologia se debruce

sistematicamente sobre os múltiplos significados do termo coleção, investigando

as diferentes articulações entre a ideia de coleção e a ideia de Museu; e

buscando analisar a cultura material como uma lente que permite enxergar com

mais clareza as estruturas sociais, econômicas e culturais do mundo em que

vivemos. Esta é a perspectiva da museologia crítica, ou interpretativa.

Isto requer certo afastamento da percepção logocêntrica do objeto, e a

tentativa de apreendê-lo com todos os sentidos, e com a emoção - de forma

integral, como nos ensinam a Gestalt - ou a arte.

Finalmente, devemos compreender e admitir que os estudos de cultura

material, ainda que importantes para o campo museal, não são o objeto principal

da Museologia, conforme já indicava Bezegg, há duas décadas: "Le monde

matériel n'est pas un sujet étudié par la muséologie. Le sujet principal de la

muséologie spécifie la discipline même" (BEZZEG, 1994, p. 31) 35 .

35 "O mundo material não é um objeto estudado pela Museologia. O principal sujeito da

Museologia é especificado pela própria disciplina [é estudar-se a si mesma]". [Trad.

Nossa].

44


A Museologia articula-se em torno dos seguintes fundamentos: o Real / a

evidencia / o signo / a linguagem / tempo e espaço / o homem integral / as

diferentes dobras, ou manifestações do Real (realidades) - entre as quais se

inclui o virtual 36 .

Teríamos muito para dizer a respeito, mas... esta já seria outra

conferencia.

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seu livro sobre História Natural, é considerada a primeira representação pictórica

de um gabinete renascentista de História Natural. Wunderkammer-1599. In:

. Acesso em: nov. 2015

Figura 03 - Lunetas de Galileu, parte integrante do acervo do Museu de História

da Ciência de Florença, Itália. In: . Acesso em: nov. 2014. Outra fonte:

.

Acesso em: nov. 2015.

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Figura 05 - Interior do Museu Britânico, séc. XVIII. Detalhe da exposição

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Acesso em: nov. 2014.

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Museumskonzept, 1565 - München - .

Acesso em: nov. 2014. Outra fonte:

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Figura 08 - Obras emblemáticas de Lineu sobre coleções de objetos científicos:

Systema Naturae, In:

. Acesso em:

novembro de 2015; e Instructio musei rerum naturalium, In:

. Acesso em: nov. 2015.

47


Figura 09 - Die Praxis der Naturgeschichte (A Prática da História Natural),

Weimar, Alemanha, 1869. Die Praxis der Naturgeschichte ein vollständiges

Lehrbuch über das Sammeln lebender und todter Naturkörper; deren

Beobachtung, Erhaltung und Pflege im freien und gefangenen Zustand;

Konservation, Präparation und Aufstellung in Sammlungen etc. Zweite, nach den

neuesten Erfahrungen vermehrte und verbesserte Auflage. nach den neuesten

Erfahrungen bearbeitet von Philipp Leopold Martin. Published 1876 by Bernhard

Friedrich Voigt in Weimar. In:

.

Acesso em: nov. 2014

Figura 10 - Die Museologie als fachwiessenschaft (A Museologia como Ciência),

1882. Zeitschrift für Museologie und Antiquitätenkunde sowie für verwandte

Wissenschaften. 5. Jahrgang 1882, S. 132. In: .

Acesso em: nov. 2015.

48


Garrafas de álcool absoluto, acervo MAST (Foto: Jaime Acioli, 2010).

49


PESQUISAS SOBRE A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO

CULTURAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA A PARTIR DE UMA

PARCERIA LUSO-BRASILEIRA * Marta C. Lourenço **

Marcus Granato ***

1 - Introdução

O tema que une as iniciativas institucionais colaborativas que serão aqui

apresentadas e problematizadas refere-se à materialidade, ao que foi produzido

pela sociedade e à qual foram atribuídos valores, incorporando uma dimensão

intangível ao tangível. No entanto, valores são aspectos subjetivos que variam no

tempo e no espaço, determinando compreensões e definições diversas sobre o

que é considerado patrimônio cultural. Assim, objetos que poderiam ser

desconsiderados como suportes de valores em determinado momento podem

passar a ter novo significado posteriormente. É importante esclarecer que, como

apresentado por Beatriz M. Kuhl:

na concepção contemporânea alargada sobre os bens

culturais, a tutela não mais se restringe apenas às "grandes

obras de arte", como ocorria no passado, mas se volta

também às obras "modestas" que com o tempo assumiram

significação cultural (KHUL, 2005/2006, p.19).

* Parte desse texto foi anteriormente publicada na revista Ciência da Informação (Online),

v. 42, p. 435-453, 2013.

** Possui Bacharelado em Física pela Universidade de Lisboa, M.Sc. em Museologia pela

Universidade Nova de Lisboa e Ph.D. em História da Ciência pelo Conservatoire National

des Arts et Metiers. É pesquisadora e subdiretora do Museu Nacional de História Natural e

da Ciência/Museus da Universidade de Lisboa. Pertence às direções do UNIVERSEUM

(Rede Européia para o Patrimônio das Universidades) e da Scientific Instrument

Commission.

***

Engenheiro metalúrgico (UFRJ), M.Sc. e D.Sc. em Engenharia Metalúrgica e de

Materiais (COPPE/UFRJ), Coordenador de Museologia do MAST, Vice-coordenador e

professor do programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST),

bolsista de produtividade 1C do CNPq, líder do Grupo de Pesquisa Museologia e

Preservação de Acervos Culturais.

50


Complementando esse esclarecimento, o que consideramos como

patrimônio cultural material são aqueles objetos/monumentos que se destacam

dos demais por um processo de significação, que se formaliza quando da

escolha para que façam parte desse conjunto. O que os diferencia dos demais,

na moderna concepção pelo viés da Museologia, inclui a noção de comunicação,

que pode traduzir-se de formas diferentes: significância, simbolismo, conotação

cultural, metáfora, etc.. Os objetos de interesse têm, portanto, em comum sua

natureza simbólica, todos são símbolos e todos têm o potencial de comunicação,

seja de significados sociais, seja de sentimentais. Como escreve Knauss (2008,

p.304), “o patrimônio cultural não se define como dado, mas como construção

social e histórica e que se oferece à interpretação histórica”.

O patrimônio cultural de uma nação inclui todos os bens tangíveis e

intangíveis que possuem valores culturais (estético, artístico, científico,

arquitetônico, histórico, etc.) para a sua sociedade. Eles são assim separados

para serem protegidos, de forma que as gerações futuras deles possam

desfrutar. A Declaração de Caracas define de forma ampla esse conceito 1 .

No rastro dos novos valores atribuídos e de “novos patrimônios”

considerados pela sociedade contemporânea, que são diversos e se ampliam em

variedade à medida que o século XX avança e adentramos o século XXI, se

insere o patrimônio cultural relacionado à Ciência e Tecnologia (C&T). Sendo um

conceito relativamente recente, ainda carece de aprofundamento e consolidação,

particularmente ao nível da definição e delimitação teórica. Acresce que é um

conceito duplamente derivado - por um lado, patrimônio cultural e, por outro, da

Ciência e Tecnologia - o que introduz interseções e campos múltiplos, onde

patrimônios diversos, antigos e recentes, se encontram e se misturam, tornando

complexa a delimitação das suas fronteiras. A própria terminologia é

avassaladora, registrando-se critérios epistemológicos, institucionais e

disciplinares, entre outros, para designar o mesmo objeto (ou quase). Fala-se em

‘patrimônio científico’, ‘patrimônio histórico-científico’ e ‘patrimônio da ciência’.

Tomando como base as instituições onde se produz e ensina ciência, surgem

também com frequência os termos ‘patrimônio universitário’ e ‘patrimônio escolar’

(ou ‘patrimônio de ensino’), embora o segundo seja mais utilizado no contexto

1 "O Patrimônio Cultural de uma nação, de uma região ou de uma comunidade é composto

de todas as expressões materiais e espirituais que lhe constituem, incluindo o meio

ambiente natural" (THE INTERNATIONAL COUNCIL OF MUSEUMS, 1992).

51


das escolas secundárias. Finalmente, é igualmente comum na literatura a

abordagem disciplinar e suas múltiplas derivações, por exemplo ‘patrimônio da

astronomia’, ‘patrimônio da física’, entre tantos outros.

Na última década, e mais do que razões de enquadramento conceptual

ou teórico, a utilização destes termos parece estar subordinada a contingências

de natureza política em face de agendas de sensibilização e preservação. Por

exemplo, no início do século XXI, o Conselho da Europa julgou necessário adotar

o termo ‘patrimônio universitário’, pela urgência em sensibilizar as universidades

europeias para o extraordinário patrimônio cultural que possuíam e se

encontrava em risco (SOUBIRAN et al., 2009). Do mesmo modo, nos últimos

cinco anos, tem-se observado um número crescente de textos sobre patrimônio

do ensino, particularmente no contexto ibero-americano. 2 Como último exemplo –

haveria muitos mais - o Centro de Patrimônio Mundial da UNESCO singularizou

recentemente o patrimônio da astronomia no sentido de alertar para a

importância da preservação deste tipo de patrimônio cultural da C&T,

particularmente in situ. 3

Introduzindo a dimensão da tecnologia, a terminologia ainda se

complexifica mais, o que é natural dada a fluidez da fronteira entre Ciência e

Tecnologia, 4 sendo que o patrimônio cultural mais não faz do que espelhar essa

fluidez. No caso do patrimônio dos transportes (sejam terrestres, marítimos ou

aéreos), por exemplo, os carros, trens e aviões estariam fora do escopo do

patrimônio da ciência, embora não o estivessem os protótipos e equipamentos

que materializam desenvolvimentos realizados para produzir novas formas de

transporte, inclusive de materiais e de design, e novas maneiras de uso da

energia para esse fim. Também os itens classificados como patrimônio industrial 5

que, em sua maioria, não se enquadrariam como patrimônio científico, mas

aqueles objetos encontrados em laboratórios de algumas fábricas, que foram

utilizados para testes e ensaios, estariam dentro do âmbito de interesse.

2 Para citar apenas alguns exemplos, veja-se Heering e Wittje (2011) e López-Ocón,

Aragón e Pedrazuela (2012).

3 Veja-se http://www2.astronomicalheritage.net/. Acesso: 11 ago. 2015.

4 Para alguns, é mesmo inexistente. O termo ‘tecnociência’ foi introduzido pela primeira

vez em 1953 (BACHELARD, 1953).

5 Em 2003, a Carta de Nizhny Tagil, o primeiro texto de referência internacional sobre

Patrimônio Industrial. Disponível em:

. Acesso em: 9 jun. 2015.

52


A Ciência e a Tecnologia estão presentes em muito do que fazemos e

somos. Possuem dimensões globais e locais de natureza política e social. As

múltiplas ramificações e interseções que projetam na sociedade e na cultura

tornam o seu estudo, qualquer que seja o âmbito, necessariamente complexo,

mas simultaneamente interessante e estimulante. Sendo o patrimônio da C&T

uma subárea do patrimônio cultural, o enquadramento teórico e metodologias

deste são, numa primeira abordagem, suficientes. Sendo o patrimônio da C&T,

por outro lado, uma subárea emergente, à medida que os dados empíricos forem

sendo coletados e os estudos específicos se forem diversificando e

aprofundando, o corpo teórico, as relações com outros saberes e as práticas vão

naturalmente adquirindo especificidade e consistência.

Na colaboração que dura há quase duas décadas, e que é objeto de

reflexão neste texto, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), do Brasil,

e o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), de Portugal,

têm vindo a trabalhar simultaneamente nestas duas frentes, conciliando uma

abordagem bastante ampla, solidamente ancorada na definição de patrimônio

cultural e fazendo uso das suas práticas e ferramentas teóricas e metodológicas,

com uma abordagem mais fina, que procura segmentar e aprofundar as

especificidades do patrimônio cultural da C&T. Um exemplo claro desta dupla

abordagem foi o desenvolvimento de um Thesaurus de Acervos Científicos em

Língua Portuguesa, 6 realizado num esforço conjunto de 14 instituições brasileiras

e portuguesas, que será detalhado mais adiante.

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) é a

designação pública de uma unidade especializada da Universidade de Lisboa. 7

Resulta da fusão em 2012 de dois museus: o Museu de Ciência (1985) e o

Museu Nacional de História Natural (1768). 8 Fica localizado no centro da cidade,

numa zona designada Príncipe Real. Em 2013, o MUHNAC integrou o

6 Disponível em: . Acesso: 11 ago. 2015.

7 Formalmente, a unidade chama-se ‘Museus da Universidade de Lisboa’ e teve os seus

Estatutos aprovados já este ano (Despacho nº 643/2014 de 3 de Janeiro de 2014). O

MUHNAC é museu credenciado da Rede Portuguesa de Museus desde 2002. Veja-se

. Acesso: 15 ago. 2014.

8 Para saber mais sobre o Museu de Ciência, veja-se por exemplo Bragança Gil (1994),

Lourenço e Eiró (2011); sobre o Museu Nacional de História Natural, veja-se Póvoas e

colaboradores (2011).

53


Observatório Astronômico de Lisboa (OAL), localizado na Tapada da Ajuda, 9 pelo

que atualmente possui dois polos. No seu polo principal do Príncipe Real, o

Museu inclui ainda o Laboratorio Chimico (Figura 1), 10 o Jardim Botânico de

Lisboa (Figura 2) e o pequeno Observatório Astronômico da Escola Politécnica

(OAEP), 11 todos oitocentistas e os dois últimos monumentos nacionais tombados.

Figura 1 - Laboratorio Chimico da Escola Politécnica (séc. XIX), em 2007, após o restauro

(Foto: P. Cintra, Arquivo MUHNAC).

O MUHNAC herda duas linhagens institucionais longas e complexas. A

primeira, mais longa, é a do local onde se encontra instalado. Foi iniciada em

1609 com a criação de um Noviciado de Jesuítas (o Noviciado da Cotovia).

Seguiram-se o Real Colégio dos Nobres (1761-1837), a Escola Politécnica de

9 O OAL é a instituição portuguesa equivalente ao Observatório Nacional do Rio de

Janeiro. Ver mais em Raposo (2011).

10 Veja-se Romão (2011) e Lourenço (2013b).

11 Pela sua história, o OAEP seria o observatório equivalente ao Observatório do Valongo,

no Rio de Janeiro, também criado no seio da Escola Politécnica e depois integrado numa

universidade, a UFRJ. Para o caso português veja-se Carolino (2011) e para o caso

brasileiro veja-se Oliveira e Granato (2012).

54


Lisboa (1837-1911) e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ali

criada em 1911 e funcionando ininterruptamente até meados dos anos 1980

(BRAGANÇA GIL, 1994). A segunda linhagem é a das coleções reais, iniciada

com o Real Museu da Ajuda (1768), que foi transferido para a Escola Politécnica

de Lisboa em 1858, após uma passagem pela Academia das Ciências de Lisboa;

seguiu-se a transferência do Museu Real das Necessidades, em 1863

(FELISMINO, 2014).

Tal como no MAST, os trabalhos realizados para a preservação do

patrimônio científico tem vindo a obrigar o MUHNAC a aprofundar metodologias

associadas à documentação. No caso do MUHNAC, têm tido particular

relevância a classificação de coleções (aqui designadas de forma simplificada,

mas incluindo os conjuntos ou proto-coleções) (LOURENÇO; WILSON, 2013) e

os estudos históricos de coleções e objetos, para os quais foram igualmente

desenvolvidos instrumentos inovadores (LOURENÇO; GESSNER, 2014).

Figura 2 - Observatório Astronômico da Escola Politécnica (séc. XIX), magnificamente

enquadrado pelo Jardim Botânico (Foto: M. Heller, Arquivo MUHNAC).

55


Ambas as instituições trabalham com definições operacionais que

refletem esta dupla abordagem e cujas similaridades e diferenças serão

identificadas e discutidas ao longo deste texto. O MAST utiliza uma definição de

base mais ampla de patrimônio cultural de C&T:

.... considera-se o conhecimento científico e tecnológico

produzido pelo homem, além de todos aqueles objetos

(considerando também documentos em suporte papel),

inclusive as coleções arqueológicas, etnográficas e

espécimes das coleções biológicas que são testemunhos dos

processos científicos e do desenvolvimento tecnológico.

Também se incluem nesse grande conjunto as construções

arquitetônicas produzidas com a funcionalidade de atender às

necessidades desses processos e desenvolvimentos

(GRANATO; CÂMARA, 2008, p.173).

O MUHNAC trabalha com a seguinte definição, de abordagem mais

específica, de patrimônio científico:

Scientific heritage is the shared collective legacy of the

scientific community, in other words what the scientific

community as a whole perceives as its identity, worth being

passed on to the next generation of scientists and to the

general public as well. It includes what we know about life,

nature and the universe, but also how we know it. Its media

are both material and immaterial. It encompasses artefacts

and specimens, but also laboratories, observatories,

landscapes, gardens, collections, savoir faires, research and

teaching practices and ethics, documents and books

(LOURENÇO; WILSON, 2013, p.746).

Neste texto não se pretende fazer uma análise objetiva, impossível de

fazer em ‘causa própria’. A sua finalidade é apresentar e discutir a cooperação de

pesquisa muito estreita e produtiva entre o MAST e o MUHNAC, a mais longa

entre duas instituições do Brasil e de Portugal no âmbito do patrimônio cultural da

C&T. Aproveita-se igualmente para organizar e sistematizar a reflexão conjunta e

divulgar os resultados obtidos. O texto inicia-se por descrever a cooperação,

destacando dois projetos de grande fôlego: o Thesaurus de Acervos Científicos

em Língua Portuguesa e os Levantamentos do Patrimônio Cultural de C&T do

Brasil e de Portugal. Finalmente, faz-se uma síntese da abordagem apresentamse

algumas perspectivas de cooperação futuras.

56


Ressalta-se que, apesar dos consideráveis progressos feitos no sentido

da valorização do patrimônio cultural de C&T em ambos os países, a área é

vasta, complexa e ainda largamente desconhecida. Muita pesquisa se encontra

ainda por fazer em múltiplas frentes, como explicaremos. Mas foi talvez essa

complexidade, a diversidade e o desconhecimento sobre a real situação desse

tipo de patrimônio no Brasil e em Portugal, a urgência por ações para seu

salvamento, e as afinidades tanto institucionais quanto pessoais dos profissionais

do MAST e do MUHNAC, que gerou uma cooperação tão produtiva.

2 - As Origens e o Desenvolvimento da Parceria Luso-Brasileira

Os primeiros contatos entre o MAST e o MUNHAC remontam à década

de 1990, ainda no tempo do MCUL, quando seus diretores, Henrique Lins de

Barros (MAST) e Fernando Bragança Gil (MCUL), trocaram correspondência e

ideias em encontros profissionais em Portugal. 12 Ambos os museus

apresentavam similaridades de constituição, tanto em relação aos acervos,

objetivos e realizações, como em relação aos períodos de crise e de avanço por

que passaram. Já ao final dessa década, em 1999, o MAST organiza a IV

Reunião Bianual da Red-POP, 13 no Rio de Janeiro, e convida Bragança Gil para

conferencista de abertura. Naquele momento, sua participação não foi possível,

por problemas de saúde, e em seu lugar veio sua orientanda Marta Lourenço, na

época ainda fazendo seu mestrado em Museologia.

Apesar do contato feito nesse momento, as duas instituições

permanecem ativas em suas atividades, mas sem desenvolver colaborações

mais estreitas. Mais tarde, em outubro de 2006, a Coordenação de Museologia

do MAST toma a iniciativa de convidar Marta Lourenço para uma estada de 20

dias na instituição. 14 Os trabalhos e atividades desenvolvidos nesse período

12 Fernando Bragança Gil faleceu em 2009.

13 Red de Popularización de la Ciencia y la Tecnología para América Latina y el Caribe,

conhecida como Red-POP, é uma rede que agrupa centros e programas de popularização

da ciência e da tecnologia, e que funciona mediante mecanismos regionais de cooperação

que favorecem o intercâmbio, a capacitação e o aproveitamento de recursos entre seus

membros. Foi fundada no MAST em 1991.

14 Segundo o relatório técnico de trabalho da pesquisadora sobre o período de estada no

MAST, foram três objetivos principais: dar início a um projeto de construção de um

thesaurus de instrumentos científicos em língua portuguesa; participar no Mestrado em

Museologia e Patrimônio (Unirio/Mast); e iniciar investigação histórica relativa ao Gabinete

57


foram intensos e extremamente produtivos, sendo discutidos possíveis projetos

conjuntos e a assinatura de um convênio de cooperação, para além de terem

sido realizadas visitas técnicas a diversas instituições de interesse. 15 É nessa

altura que emerge uma conscientização muito forte em relação a três dimensões

da realidade do patrimônio cultural de C&T em Portugal e no Brasil.

Em primeiro lugar, a semelhança das situações nacionais, apesar das

diferenças de escala. Em ambos os países o patrimônio cultural de C&T

encontra-se disperso por uma grande diversidade de instituições, em múltiplos

estados de organização e muito dele encontra-se órfão, vulnerável e em risco. É

virtualmente desconhecido, frequentemente desaparecendo sem se saber que

existia. Nenhum dos dois países possui uma política nacional estratégica para o

patrimônio cultural da C&T. Apesar de possuírem legislação adequada, 16 na

prática, quer Portugal quer o Brasil possuem poucos museus que preservem e

estudem os artefatos de C&T.

Em segundo lugar, a necessidade de sistematização e aprofundamento

de conceitos específicos a nível teórico (patrimônio, objeto e coleção científica,

entre outros), bem como do desenvolvimento de metodologias que permitissem

lidar com uma realidade ultra-complexa, particularmente ao nível dos múltiplos

níveis de organização do patrimônio cultural de C&T nas diferentes instituições

(universidades, escolas, laboratórios de pesquisa), muitos deles ‘fora das

normas’ habituais do patrimônio cultural.

Em terceiro lugar, a necessidade de promover a formação de

profissionais e o desenvolvimento de estudos acadêmicos. Com efeito, quer

Portugal quer o Brasil dispunham nessa altura de escassos pesquisadores

interessados em questões relacionadas com o patrimônio da C&T, seja nas

vertentes da museologia, seja na conservação ou mesmo na história e outras

humanidades e ciências sociais.

de Física levado por D. João VI do Palácio da Ajuda em Lisboa para o Brasil no início do

século XIX (LOURENÇO, 2006).

15 Foram realizadas visitas a instituições com potencialidade de ter objetos de interesse

para o patrimônio cultural de C&T: Museu Nacional, Instituto de Química, Observatório

Valongo e Museu da Escola Politécnica (todos da UFRJ), Museu Histórico Nacional,

Colégio Militar, Real Gabinete Português de Leitura e Colégio Pedro II.

16 O Brasil tem inclusive a preservação do seu patrimônio da C&T inscrito na sua

Constituição - art. 216, Incisos 3 e 5 da Carta Magna de 1988 (BRASIL, 2013).

58


Estas três dimensões de conscientização determinaram, em larga

medida, os anos que se seguiriam na cooperação entre os dois museus. Logo

nesse primeiro período intensivo de trabalho em 2006, lançam-se as sementes

para a cooperação em longo prazo em duas frentes: o Thesaurus de Acervos

Científicos em Língua Portuguesa e os Levantamentos de Patrimônio Cultural da

C&T de ambos os países.

Estas frentes serão detalhadas mais adiante, mas foi em 2006, em

reuniões de trabalho diárias com a equipe da Coordenação de Museologia -

CMU, que foram pela primeira vez discutidos aspectos teóricos e metodológicos

do projeto Thesaurus de Acervos Científicos em Língua Portuguesa, bem como

se elaborou uma primeira redação do seu texto, de forma a iniciar suas

atividades e propiciar o envio às agencias de financiamento portuguesas e

brasileiras para obtenção de financiamento. Foi também em 2006, a partir das

discussões tidas, das diversas visitas feitas a instituições detentoras de conjuntos

de objetos de interesse para o patrimônio cultural da C&T, no Rio de Janeiro, e

das inquietações daí advindas, que se considerou pela primeira vez a

possibilidade de se fazerem levantamentos sistemáticos do patrimônio cultural de

C&T em Portugal e no Brasil, de forma articulada e em paralelo, para que os

dados pudessem ser comparados e disponibilizados em conjunto. Examinaramse

as metodologias, o âmbito e os dados preliminares do levantamento que

nessa altura estava a arrancar em Portugal, ainda informalmente e sem

financiamento. Ali nasceu a estruturação de um levantamento de conjuntos de

objetos de C&T no Brasil, um projeto de pesquisa de grande vulto realizado mais

tarde pelo MAST (Valorização do Patrimônio Científico e Tecnológico Brasileiro),

consideravelmente reforçado pelo convite, realizado no ano seguinte a Marcus

Granato 17 , pela organização do evento International Workshop on Historic

Scientific Instrument Collections in the University (SICU2), por indicação de Marta

Lourenço, para que este apresentasse um panorama sobre o patrimônio cultural

científico brasileiro, especialmente aquele existente e oriundo das universidades

(GRANATO, 2008). 18 Naquele momento, a partir de levantamentos preliminares

realizados num período de seis meses, percebeu-se que o desconhecimento

17 Já na época Coordenador de Museologia do MAST.

18 O evento realizou-se na Universidade de Oxford (Mississippi, EUA), entre 21 e 24 de

junho de 2007. Outras informações em: . Acesso:

15 ago. 2015.

59


sobre o patrimônio cultural de C&T brasileiro não existia apenas no exterior, era

uma realidade também no país.

3 - A Cooperação para Preservação e Acessibilidade do Patrimônio Cultural

de C&T

3.1 - O projeto Thesaurus de Acervos Científico em Língua Portuguesa

Entre 2007 e 2009, o projeto Thesaurus ocupou o centro das atividades

de pesquisa conjuntas das duas instituições. O MAST, desde 1993, desenvolve

um trabalho sistemático de documentação, que apresenta como resultados um

arquivo com fichas de registro, um arquivo iconográfico e um banco de dados

informatizado, todos disponibilizados para o público, inclusive com esse conteúdo

apresentado de forma livre na internet. O MUHNAC, na época MCUL, por seu

turno, encontrava-se numa fase de diagnóstico e reestruturação profunda das

suas coleções. Assim, a ideia de um thesaurus 19 surgiu naturalmente pela

constatação da inexistência de uma padronização terminológica que dificultava a

identificação e a classificação de seus acervos, bem como os diversos problemas

daí decorrentes, tais como a dificuldade de comunicação entre instituições e

entre pesquisadores, a identificação inadequada de objetos, a incerteza e a

pouca credibilidade dos dados.

A inexistência de padronização em acervos de C&T não acontecia

apenas na língua portuguesa, mas também noutras línguas, inclusive o inglês.

Assim, surge a proposta de elaboração de um thesaurus para acervos de objetos

de C&T 20 que pudesse constituir um instrumento de controle terminológico e de

recuperação da informação a utilizar não só pelo MAST e pelo MUHNAC, mas

19 O MAST desenvolveu uma experiência em 1999, quando iniciou a elaboração de um

Thesaurus similar, como parte de um projeto patrocinado pela Fundação VITAE. Foi

elaborada uma proposta inicial, mas o trabalho foi interrompido por falta de pessoal para

sua continuidade.

20 Os objetos mais facilmente identificados ao patrimônio cultural de C&T são os

denominados instrumentos científicos, pois fizeram parte das atividades realizadas em

laboratórios científicos e de tecnologia aplicada. No entanto, instrumento científico é um

termo complexo e que só se aplica em período histórico determinado (século XIX e início

do século XX). De forma mais geral, utilizar-se-á objetos de ciência e tecnologia, como

termo mais geral e que engloba a variedade de artefatos considerados nesses estudos

(GRANATO et al., 2007).

60


por todas as instituições detentoras de acervos de C&T da esfera lusófona,

sobretudo Portugal e Brasil.

Os museus de ciência e técnica enfrentam problemas de clarificação e

uniformização terminológica de dois grandes tipos. Em primeiro lugar, existe um

problema de terminologia geral, por outras palavras a necessidade de clarificar e

padronizar termos como acervo, coleção, catalogação, numeração,

documentação, inventário, etc. Na realidade, este é um problema comum a todos

os museus e resulta da Museologia ser uma ciência recente e de natureza

eminentemente multidisciplinar. Em segundo lugar, os museus de ciência e

técnica padecem de um problema de terminologia específica, ou seja, inexistem

padronizações para as designações dos objetos que compõem os seus acervos -

por exemplo, máquina pneumática, bomba de vácuo, bússola marítima, bússola

marinha, ampola de raios-X, etc. A uniformização terminológica em museus de

ciência é importante para facilitar a comunicação, promover a pesquisa e a

valorização do patrimônio cultural de C&T. Soma-se a isso a constatação de que

a uniformização é cada vez mais necessária devido à informatização das bases

de dados em papel e a consequente disponibilização das coleções online.

A primeira iniciativa do projeto, a partir de novembro de 2006 até 2007,

foi a constituição da rede de instituições brasileiras e portuguesas que

contribuíssem para o projeto. Catorze instituições aderiram de imediato. 21 O

trabalho partiu de uma base preliminar de termos estabelecida pelos acervos de

C&T constituintes dessas instituições. Esta base preliminar de termos – na

realidade, duas listas, uma para as instituições de Portugal e outra para as

instituições do Brasil – foi fundamental para o desenvolvimento do Thesaurus

21 No Brasil, e para além do MAST, integraram a rede o Museu de Ciência e Técnica da

Escola de Minas e o Centro de Memória da Farmácia ambos da Universidade Federal de

Ouro Preto, o Colégio Pedro II, o Museu da Escola Politécnica da Universidade Federal do

Rio de Janeiro, o Museu Dinâmico de Ciência e Tecnologia e o Museu de Farmácia Lucas

Marques do Amaral, ambos da Universidade Federal de Juiz de Fora e o Instituto

Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Em Portugal, e para além do

MUHNAC, participam do projeto o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Museu

de Física da Universidade de Coimbra (atualmente integrado no Museu da Ciência da

mesma Universidade), o Museu Nacional da Ciência e da Técnica de Coimbra (atualmente

extinto, tendo os acervos integrados a Universidade de Coimbra), o Museu de Ciência da

Universidade do Porto, o Museu de Física do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa,

o Museu da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e o Museu do Instituto

Superior de Engenharia do Porto.

61


porque permitiu um recorte que viabilizasse o trabalho, já por si imenso, a ser

feito. Mesmo assim, e para se ter uma noção da dimensão do projeto, quando se

somaram todas as designações de objetos das catorze instituições atingiu-se o

valor de 30.000 termos. Foi também logo elaborada uma página na internet, com

vistas à divulgação do projeto e dos acervos das instituições envolvidas. 22 Em

paralelo, foram realizados levantamentos bibliográficos para aprofundamento da

metodologia e fontes, além de iniciada a compilação das listas de termos dos

museus da Rede, sendo uma de Portugal e outra do Brasil, acompanhadas das

correspondentes definições.

Sem pretender aprofundar aqui as atividades realizadas, já exploradas

noutras publicações, 23 estas envolveram a pesquisa para elaboração de notas

explicativas, o ‘expurgo’ 24 e fusão das listas, a identificação de sinônimos, a

análise e seleção de aplicativo (software) para estruturação do thesaurus, a

seleção de imagens dos objetos e o estudo das definições, conceitos e suas

relações para a estruturação do thesaurus. É importante destacar que, assim

como no Thesaurus para Acervos Museológicos (FERREZ; BIANCHINI, 1987), a

função original dos objetos foi adotada como critério de classificação. Uma

parceria público-privada de trabalho com uma empresa portuguesa - Sistemas do

Futuro - viabilizou o desenvolvimento do software que estrutura e disponibiliza o

Thesaurus na internet. 25

Um aporte pequeno, porém importante, de recursos financeiros para o

projeto veio em 2008 26 com a seleção no âmbito do edital CNPq/FCT para

projetos de cooperação internacional. Os recursos foram priorizados para a

realização de dois workshops internacionais, sendo um em Lisboa (16 a

22 Ver . Acesso: 13 ago. 2015.

23 Por exemplo, ver Granato e colaboradores (2013b).

24 O critério de expurgo de termos para redução das listagens originais, brasileira e

portuguesa, consistiu em eliminar termos duplicados, redundantes, correntes, fora do

âmbito e também acessórios, peças e estojos.

25 O software designa-se InThesaurus e foi desenvolvido especificamente para o projeto. A

colaboração envolveu ainda a apresentação de comunicações conjuntas sobre o projeto

em congressos internacionais (CABRAL; LOURENÇO; GRANATO, 2012).

26 O projeto se iniciou sem quaisquer recursos financeiros, mas com a vontade coletiva de

elaborar o trabalho na certeza de sua importância.

62


20/11/2009) 27 e outro no Rio de Janeiro (22 a 28/07/2010). 28 Estes workshops

foram fundamentais para o estreitamento do conhecimento entre os membros

das equipes do Brasil e de Portugal e para a discussão de pontos importantes do

projeto, como o expurgo de termos da lista comum, produzida a partir da fusão

das listas brasileira e portuguesa (num total de 6.000 termos), a escolha dos

termos em português do Brasil como referência para o Thesaurus, entre outros.

O primeiro workshop, essencial para estreitar o contato entre os

participantes do projeto, propiciou também a ideia de realizar um evento

acadêmico no Brasil no ano seguinte. Esse evento, denominado ‘Seminário

Luso-Brasileiro de Coleções Científicas e de Ensino’ (19-21/07/2010), incluiu

comunicações de todas as instituições da Rede Thesaurus de Portugal e do

Brasil, bem como de outros convidados. O Seminário foi aberto à comunidade

científica brasileira, tendo participado estudantes, profissionais de museus e

pesquisadores dos mais diversos pontos do país. Deste Seminário, resultou a

publicação Coleções científicas de Instituições Luso-Brasileiras: patrimônio a ser

descoberto (GRANATO; LOURENÇO, 2010), 29 que foi lançada em Portugal no

dia 21 de outubro e no Brasil no dia 8 de Dezembro desse mesmo ano. 30

Nos anos seguintes, as atividades do projeto conjunto se desenvolveram

de forma mais lenta, mas ininterrupta. Finalmente, em fins de 2013, o Thesaurus

27 Ocorreu no MUHNAC e contou com a participação de toda a equipe portuguesa e cinco

membros da equipe do Brasil. No total, a Workshop contou com 17 participantes e dois

convidados.

28 Constituiu o momento mais alto do desenvolvimento científico do projeto durante o ano

de 2010. O principal objetivo foi fechar a lista de termos para que pudesse ser validada

cientificamente e depois estruturada. A Workshop também fechou a lista de Classificação

e a lista de Termos de Topo, bem como os critérios de redação das Notas de Aplicação,

da recolha fotográfica para o Banco de Imagens e das Definições dos Termos de Topo. A

Workshop incluiu a participação da empresa Sistemas do Futuro, na modalidade de

videoconferência, para discussão de aspectos relacionados com o desenvolvimento do

software para estruturação do Thesaurus, numa parceria público-privada. Uma finalidade

complementar da Workshop consistiu na visita às instituições da Rede no Brasil.

29

Disponível

em:

. Acesso: 15 ago. 2015.

30 Cabe ainda destacar a elaboração de uma exposição conjunta entre as instituições

brasileiras, inaugurada no MAST, em novembro de 2010, apresentando mostras

características dos respectivos acervos. A exposição se transformou em itinerante em

2011.

63


chega a um formato que já permite seu uso pelos interessados no assunto e é

divulgado internacionalmente.

A Figura 3 apresenta uma imagem da página de entrada na internet do

Thesaurus de acervos científicos em língua portuguesa.

Figura 3 - Imagem da tela de entrada do Thesaurus de acervos científicos em língua

portuguesa.

O número de termos relacionados é de 1154 no momento, constituindose

agora dois novos desafios: por um lado, enfrentar a lista de termos

descartados, cerca de 1.500, para pesquisa e decisão sobre sua integração ao

Thesaurus ou descarte definitivo; por outro, refletir sobre os mecanismos de

integração e validação de novos termos.

A experiência de desenvolvimento desse projeto tem sido muito

interessante e produtiva. A formação da rede de instituições mostrou-se tão

importante quanto o próprio produto desenvolvido, propiciando a articulação de

profissionais brasileiros e portugueses e resultando em outras atividades

complementares e paralelas ao projeto. Para além do desenvolvimento deste

projeto, foi fundamental reunir instituições que, por múltiplas razões, dificilmente

poderiam ter seu acervo inventariado, registrado e pesquisado. A partir das

relações estabelecidas, foram identificados acervos até então desconhecidos,

propiciando inclusive uma revalorização geral das coleções. Em casos

64


específicos, esses conjuntos passaram por um reconhecimento institucional, até

então inexistente.

3.2 - Levantamentos do Patrimônio Cultural de C&T no Brasil e em Portugal

A preservação de bens culturais somente é possível de se realizar a

partir do conhecimento da sua existência e de onde se encontram. Para tal é

necessário empreender jornadas de identificação, os chamados levantamentos,

como primeira etapa para sua salvaguarda. Os primeiros levantamentos em torno

desse tipo de patrimônio de que se tem notícia foram realizados na década de

1990, na Holanda, no Reino Unido e na Austrália (LOURENÇO; WILSON, 2013).

Mais tarde, outros países europeus seguiram esse exemplo e hoje em dia o

conhecimento sobre o patrimônio universitário, em particular o europeu, é

bastante amplo e em âmbito mais completo do que o que aqui se discute,

incluindo outras tipologias de patrimônio, inclusive o artístico e o da saúde

(SOUBIRAN et al., 2009).

No caso do patrimônio cultural de C&T, esse tipo de iniciativa

praticamente inexistia no Brasil, mas no exterior, especialmente no ambiente

universitário percebe-se uma situação diferente. Assim, o trabalho de

levantamento realizado no Brasil constitui mais um dos projetos de colaboração

entre o MAST e o MUHNAC, tem, portanto, inspiração em iniciativas europeias.

Apesar do âmbito diverso, a perspectiva é similar, debruçar-se sobre o

patrimônio cultural de C&T e que está em situação de abandono.

As origens dessa iniciativa no Brasil remontam aos trabalhos de

preservação desenvolvidos pelo MAST em torno de sua coleção, às

colaborações do MAST com instituições brasileiras no sentido de auxiliar na

preservação de conjuntos patrimoniais de C&T e às discussões empreendidas no

âmbito das cooperações desenvolvidas com o MUHNAC.

No Brasil, as pesquisas desenvolvidas e aqui relatadas dedicaram-se a

estudar os bens produzidos e/ou utilizados nas atividades de pesquisa científica

e de desenvolvimento tecnológico. Ou seja, aqueles bens que participaram do

cotidiano dos laboratórios de pesquisa do país e contribuíram para o

desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil. Esses bens estão em centros

de pesquisa e nas universidades e, em sua maioria, não tem seu valor

65


econhecido. Uma parte, por outro lado, encontra-se em museus e já está sendo

preservada para o futuro. Resultados do projeto já foram publicados

anteriormente (GRANATO et al., 2013a; GRANATO, 2013) e dois cortes, 31 um

histórico e outro de áreas de conhecimento, foram necessários para delimitar o

universo de estudo. 32

O relato aqui apresentado advém de um período de quatro anos de

atividades no projeto Valorização do Patrimônio de C&T. Como pouco se sabia

sobre esses bens, o levantamento realizado precisou ser em âmbito nacional, no

sentido de identificar quais instituições ainda possuiriam objetos que poderiam

ser preservados, qual a sua condição e em que número seriam. O resultado é

surpreendente. A maior parte dos objetos de C&T anteriores ao século XX, no

Brasil, já se perdeu. O que ainda resta está protegido nos museus. Por outro

lado, existe um grande número desses objetos que são mais recentes e que

estão em situação de abandono, especialmente nas universidades e institutos de

pesquisa.

Em relação ao total de artefatos identificados no projeto (cerca de

30.000), boa parte está minimamente preservada nos museus (45%). Por outro

lado, nem todas as instituições que se propõem a ser museus, ou que assim se

autodenominam, conseguem se enquadrar plenamente nessa categoria. Essa

impossibilidade pode ter uma série de causas: a falta de recursos financeiros e

humanos; a falta de espaço adequado; a falta de prioridade da instituição a qual

estão vinculados; e inclusive, a falta de interesse em praticar todas as ações que

deveriam ser primordiais nos museus, limitando-se a salvar do descarte peças

consideradas importantes e possibilitando o acesso ao público. Portanto, o uso

de outras nomenclaturas, como memoriais, exposições, coleções visitáveis, etc.,

poderia ser adotado, sem demérito do trabalho realizado. Por outro lado, em

31 Em termos de período, foram selecionados objetos de C&T produzidos até a década de

1960, e em termos de áreas de conhecimento incluem-se as ciências exatas, as

engenharias e as ciências da terra. Para maiores detalhes ver Granato e colaboradores

(2013a).

32 O projeto também fez um estudo das legislações de proteção desse tipo de patrimônio

no Brasil e em vários outros países, o que possibilitou encontrar formas jurídicas

interessantes que poderiam complementar as leis brasileiras. Também foram escolhidos

dois conjuntos de objetos de C&T, pertencentes ao Observatório do Valongo/UFRJ

(OLIVEIRA; GRANATO, 2012), e ao Colégio Pedro II, unidade Centro, Rio de Janeiro

(GRANATO; SANTOS, 2014), para estudo e construção de suas biografias coletivas.

66


muitos casos a denominação de ‘museus’ torna-se importante para o

reconhecimento institucional e, muitas vezes, para a própria sobrevivência do

espaço de salvaguarda do patrimônio cultural de C&T, especialmente no âmbito

das Instituições de Ensino Superior - IES.

Em Portugal, um verdadeiro levantamento nacional sistemático do

patrimônio científico ainda está por começar. O projeto tem o âmbito delimitado,

está orçamentado e tem cronograma feito desde 2005, mas múltiplas razões de

âmbito institucional, nomeadamente as reestruturações sofridas pelo Museu e

pela Universidade nos últimos anos, 33 bem como a ausência de financiamento,

têm impossibilitado a sua plena execução. A criação da infraestrutura de

coleções científicas PRISC, liderada pelo MUHNAC, já referida, permite ter

novamente esperança, dado que o Levantamento constitui um dos principais

work packages do PRISC.

Apesar de tudo, o levantamento tem sido feito, embora não seja

sistemático do ponto de vista geográfico (tem-se concentrado sobretudo na

região de Lisboa) e a ritmo mais lento que o do Brasil dado que, na ausência de

financiamento dedicado, se vão aproveitando ocasiões propícias para levantar as

diversas instituições.

A principal fonte para o levantamento tem sido o Programa de Apoio a

Instituições com Patrimônio Científico do MUHNAC, já referido. Desde o início,

cada instituição que adere ao Programa é sistemática e detalhadamente

levantada e os dados integrados no banco de dados. Daqui resulta, desde logo,

uma primeira diferença em relação ao Brasil: a base institucional do

levantamento português é mais alargada, incluindo universidades e escolas

secundárias, mas também hospitais e museus.

Mais tarde, em 2011, levantou-se sistematicamente o patrimônio cultural

da Universidade de Lisboa, por ocasião do seu centenário. 34 O âmbito foi o mais

amplo possível, abrangendo todo o patrimônio da Universidade, incluindo

coleções, museus, arquivos, edifícios e bibliotecas de todas as áreas

33 Para além da reestruturação do MCUL, deve referir-se, em 2013, a fusão da

Universidade de Lisboa com a Universidade Técnica de Lisboa, tornando a Universidade

de Lisboa a maior do país e a segunda maior da península ibérica.

34 O levantamento da Universidade de Lisboa foi feito por Catarina Teixeira e Ana Mehnert

Pascoal, sob coordenação de Marta Lourenço.

67


disciplinares (artes, ciências e humanidades). Os resultados foram publicados

num livro (LOURENÇO; NETO, 2011) e na internet, 35 tendo a reflexão crítica e

metodológica sido publicada pouco depois (PASCOAL; TEIXEIRA; LOURENÇO,

2012).

Embora os conceitos de base e a metodologia sejam as mesmas, há

algumas diferenças entre os levantamentos de Portugal e do Brasil. Essas

diferenças devem-se, sobretudo, à abissal diferença de escala entre os dois

países. Nem tudo o que se pode fazer em Portugal pode ser feito no Brasil.

Essas diferenças são seis. Para além da já referida base institucional mais

ampla, a segunda diferença é que o levantamento em Portugal inclui sempre

visitas de campo; o país é pequeno e isso se torna possível (embora caro). Em

terceiro lugar, o levantamento tem um âmbito disciplinar mais alargado, incluindo,

para além das ciências ditas ‘exatas’ e engenharias, a medicina e a história

natural. Também não tem balizas cronológicas bem definidas, sendo que o

levantamento apanha igualmente materiais do século XVI e do século XXI.

Em quinto lugar, e apesar de no início do levantamento apenas se

considerar a categoria ‘coleção/conjunto’ (COL), a gradual coleta de dados,

sobretudo a partir do levantamento do patrimônio cultural da Universidade de

Lisboa, conduziu à introdução de mais duas categorias: ‘objeto singular’ (OBJ) e

‘estrutura edificada’ (ED). Na realidade, objeto singular foi introduzido para dar

conta de obras de arte, particularmente esculturas, no levantamento do

patrimônio cultural da Universidade de Lisboa - UL. Posteriormente, confirmou-se

que dava igualmente conta de objetos científicos singulares de grande porte,

particularmente do patrimônio recente da ciência (como aceleradores de

partículas, entre outros), que não ficavam cobertos pela categoria ‘coleção’. A

categoria ‘edificado’ foi necessária para levantar os laboratórios químicos,

observatórios astronômicos etc. 36 Não existe a categoria ‘museu’ porque do

ponto de vista do levantamento não é tanto a organização institucional que

interessa, mas sim o patrimônio científico que existe n’importe ou. Finalmente, e

em sexto lugar, a última diferença é que em Portugal bibliotecas e arquivos

35 Veja-se em . Acesso: 15 ago. 2015.

36 Jardins botânicos também estão a ser levantados, mas caem na categoria ‘coleção’.

68


históricos com interesse científico também estão a ser levantados. Entram na

categoria ‘coleção’. 37

Posto isto, compreende-se que o levantamento brasileiro é de malha

mais fina e o português de malha mais grossa. Compreende-se também que não

seja trivial comparar os dados dos dois levantamentos, pelo menos até os dados

de Portugal estarem devidamente segmentados e estatisticamente tratados para

a intersecção com o âmbito do levantamento brasileiro poder ser mais

rigorosamente delimitada. 38

4 - Discussão e Perspectivas

Nestas quase duas décadas, o MAST e o MUHNAC têm estado em

sintonia quer na necessidade de preservar o patrimônio cultural de C&T quer na

pesquisa e no desenvolvimento de instrumentos de preservação e valorização

que permitam lidar com uma paisagem em larga medida desconhecida, ultracomplexa

e muito volátil. Muitos desses instrumentos colocam desafios

inovadores à Museologia, aos estudos de patrimônio e à conservação, quer a

nível teórico, quer ao nível metodológico, bem como das práticas e ética

profissional.

Quando entramos em qualquer faculdade de engenharia, seja no Brasil

seja em Portugal (seja em outro país qualquer), e observamos a coexistência de

vitrines com objetos ‘bonitos e antigos’ em corredores, de sótãos e galpões

cheios de equipamentos obsoletos na iminência de serem esvaziados, de

laboratórios que são reestruturados e desmantelados semanalmente, de

problemas de resíduos perigosos (radioativos, químicos, microbiológicos) e ainda

de dezenas de artefatos que são eliminados todos os dias, damo-nos conta, de

37

Não se devem confundir os arquivos e bibliotecas históricas que entram

autonomamente na categoria ‘coleção’ (e.g. espólio de um cientista ou de um laboratório),

com a documentação associada às coleções ou conjuntos (manuscritos, desenhos,

manuais que contêm dados relacionados com os objetos), que são descritos nos registros

das próprias coleções; esta documentação é considerada parte integrante e não

inalienável da coleção/conjunto de objetos.

38 Até à data, o levantamento do patrimônio científico português inclui 320 registros, dos

quais 254 são coleções/conjuntos (80%), 29 são estruturas edificadas científicas (9%) e

37 são objetos singulares científicos (11%). Das coleções, cerca de 5% são bibliotecas e

arquivos históricos.

69


forma muito evidente, da inadequação de muitos instrumentos tradicionais de

seleção, diagnóstico e preservação do patrimônio cultural. Damo-nos conta

também da impossibilidade prática da instituição ‘museu’ conseguir sozinha lidar

com uma realidade de tamanha complexidade, dinâmica e escala. O papel do

‘museu’ terá de ser, sobretudo o de mediador, orientador e validador, numa

lógica de prestação de serviço público à comunidade científica e à sociedade.

Em médio e longo prazos, se pretendemos preservar o patrimônio

cultural de C&T, precisamos passar de uma óptica de ‘emergência’ e ‘improviso’

para uma óptica de ‘sustentabilidade’. A preservação e acessibilidade das

evidências materiais da pesquisa e do ensino nas sociedades contemporâneas

exige que as instituições geradoras desenvolvam e implementem políticas e

práticas de preservação e disponibilização das suas coleções e patrimônio,

incluindo arquivos e bibliotecas de interesse histórico-científico. Estas práticas

envolvem a seleção, a documentação e a conservação, para além da divulgação

e exposição, implementadas numa base diária e regular, in situ, por cientistas,

pesquisadores, professores, técnicos, ou seja, por não-profissionais do campo.

Esta apreciação é pragmática e tem várias implicações. Em primeiro

lugar, implica apoio e orientação permanentes dos museus e profissionais do

patrimônio e da conservação às instituições geradoras de patrimônio para

encontrarem, em conjunto, as políticas, práticas e modelos de gestão e

organização mais adequados a cada caso. 39 A experiência quer do MAST quer

do MUHNAC indicia que as instituições estão abertas a estas colaborações, o

que parece ser confirmado por pesquisas recentes. 40 Em segundo lugar, implica

o desenvolvimento de instrumentos simples, contendo linhas orientadoras

básicas e em linguagem clara e simples, que possam ser usados com um

considerável grau de autonomia, pelas instituições. 41

39 De resto, previstos nas leis-quadro dos museus portugueses e brasileiros: museu e

coleção visitável, que depois se podem agrupar, consoante o caso, em redes e sistemas.

40 Num estudo recente realizado na Universidade de Cambridge, Wilson (2013) mostrou

que os cientistas e técnicos estão em geral sensibilizados para a preservação do

patrimônio científico dos seus departamentos e abertos à implementação de boas

práticas, desde que não lhes tomem muito do escasso tempo de que dispõem.

41 Como por exemplo, a já referida Cartilha, desenvolvida pelo MAST, e os dois

documentos orientadores publicados pela Rede Europeia do Património Universitário,

UNIVERSEUM: Selection Criteria e Minimum Requirements, estes dois últimos acessíveis

em: . Acesso: 15 ago. 2015.

70


Esta tem sido a filosofia de base do MAST e do MUHNAC no trabalho de

cooperação que têm vindo a desenvolver: por um lado trabalhar diretamente com

as instituições geradoras de patrimônio cultural de C&T e, por outro, desenvolver

pesquisa no sentido de produzir instrumentos específicos (thesaurus, cartilha,

classificação de coleções, entre outros). O conjunto se ancora na coleta

sistemática de dados sobre uma realidade em larga medida desconhecida cuja

organização permita a fundamentação de uma reflexão e pesquisa sólida (nível

objeto, conjuntos/coleções e patrimônio) e, simultaneamente, a utilização para

fins de sensibilização, divulgação e políticos. Ancora-se igualmente na formação

de futuros profissionais e pesquisadores, sendo que o MAST apresenta uma

ligação tradicionalmente mais forte à Museologia, no caso dessas pesquisas, e o

MUHNAC à História da Ciência. 42 Pelo caminho, ambas as instituições estão

fortemente motivadas em contribuir para colocar o patrimônio científico brasileiro

e português no mapa internacional, seja através da organização de encontros,

convites a especialistas, publicações em língua inglesa e integração em redes

internacionais, como a Scientific Instruments Commission, o Universeum e o

ICOM-UMAC, entre outras.

Muito há ainda a fazer neste quadro amplo que aqui traçamos. O

caminho é árduo e longo. A coleta e organização de dados dos levantamentos

têm de prosseguir, para que o quadro empírico seja o mais completo possível.

Há que olhar, de forma mais profunda para as micro-dinâmicas locais de

produção e utilização de artefatos em contextos de pesquisa e ensino, seja no

passado seja no presente. Existem conceitos a aprofundar e mais instrumentos

metodológicos a desenvolver, nomeadamente ao nível das coleções e do

patrimônio cientifico do pós-guerra e da análise e diagnóstico do estado de

conservação das coleções e conjuntos, entre outros.

Especificamente em relação aos instrumentos já desenvolvidos, o

Thesaurus de Acervos Científicos poderá ser elaborado em espanhol e em

inglês, cobrindo lacunas existentes também para os profissionais nativos desses

idiomas. Para tal, é necessário identificar instituições de pesquisa originárias de

países onde o espanhol e o inglês sejam idiomas pátrios e que queiram se

42 Programas de Pós-Graduação, Mestrado e Doutoramento em Museologia (com a

Unirio) e em História e Filosofia da Ciência (com a Faculdade de Ciências da Universidade

de Lisboa), respectivamente.

71


associar para viabilizar mais esse desenvolvimento. Além disso, ainda no âmbito

do Thesaurus em português, muitos termos poderão ser inseridos nesse

instrumento terminológico, necessitando para tal que as duas instituições (MAST

e MUHNAC) invistam recursos para a continuidade das pesquisas necessárias.

Por outro lado, à medida que o patrimônio vai ficando acessível,

inúmeras possibilidades de estudos horizontais e verticais se abrem algumas

delas já planejadas. Uma possibilidade estimulante é a dos estudos

comparativos. O projeto “Patrimônio Cultural Luso-Brasileiro de Ciência e

Tecnologia: pesquisa, análise e acessibilidade”, estruturado pelo MAST, pretende

desenvolver análises comparativas entre o patrimônio cultural de C&T no Brasil e

em Portugal, discutindo os resultados obtidos nas pesquisas de campo

realizadas nos dois países de forma a aprofundar a discussão sobre uma série

de temas. 43

Outra possibilidade de estudos, desta feita no âmbito da história, é a dos

trânsitos de objetos e coleções científicas entre o Brasil e Portugal e vice-versa.

Estudos recentes desenvolvidos pelo MUHNAC sugerem uma circulação muito

intensa de instrumentos e espécimes de história natural desde o século XVI

(LOURENÇO, [2014?]) (LOPES; LUÍS, [2014?]).

No que diz respeito à formação avançada, as perspectivas da

cooperação Brasil e Portugal via parceria MAST-MUHNAC também se

amplificam em várias frentes. Por um lado, existem planos para finalmente se

iniciarem as trocas não-ocasionais e por períodos mais prolongados de

profissionais de ambos os museus e de estudantes dos dois Programas de Pós-

Graduação (Museologia, no Rio, e História das Ciências, em Lisboa). Também

no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, se

estabeleceu uma orientação compartilhada de tese de doutorado, por

pesquisadores do MAST (Marcus Granato) e do MUHNAC (Marta Lourenço) que

possibilitará o aprofundamento de estudos relacionados ao patrimônio cultural de

C&T existente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As teses em

43 Os critérios de seleção utilizados em cada país para identificar os conjuntos de artefatos

de interesse; os valores atribuídos a esses conjuntos; a avaliação das

coleções/diagnóstico nas vertentes de acessibilidade, conservação e documentação nos

dois países; além de produzir um panorama sobre conjuntos de objetos que seriam

candidatos a constituir um possível inventário luso-brasileiro do patrimônio de C&T.

72


orientação compartilhada terão tendência a aumentar, até porque foi submetida

recentemente à FCT portuguesa a criação de um curso de Doutoramento em

História, Filosofia e Cultura Material da Ciência, Tecnologia e Medicina,

capitaneado pelo Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia

(CIUHCT) 44 , da Universidade de Lisboa, onde pesquisadores do MAST 45 foram

convidados a compor a relação de docentes permanentes.

A partir desse registro e da reflexão sobre a cooperação desenvolvida

entre os dois museus, percebe-se que o tempo e a necessidade de recursos,

ainda que estruturantes, são de importância relativa. Fundamental parece ser a

existência de equipes, formadas por membros permanentes e mesmo

temporários, que estejam envolvidos e interessados, diríamos mesmo

apaixonados, pelos projetos que se apresentam urgentes. A partir disso, esforços

são feitos para que saiam do papel e se realizem, especialmente ao se perceber

que ambas as instituições possuem orçamentos muito reduzidos, mas que isso

não foi obstáculo que determinasse o cancelamento de qualquer iniciativa. A

continuidade da parceria entre o MAST e o MUHNAC parece garantida por conta

desse ingrediente, o comprometimento das equipes de ambas as instituições.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento

Científico e Tecnológico (CNPq), à Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado

do Rio de Janeiro (FAPERJ) e à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)

portuguesa pelo financiamento das pesquisas aqui apresentadas. Agradecem

também a todos os membros das equipes dos projetos, bem como aos diretores

e funcionários do MAST e do MUHNAC e ainda a todos os alunos,

pesquisadores e bolsistas, sobretudo de Portugal e do Brasil, mas também da

Espanha, Argentina, Suíça, Itália e outros países, que colaboraram nas

44 Uma unidade de pesquisa credenciada pela FCT, ver . Acesso:

15 ago. 2014.

45 Marcus Granato, Marcio F. Rangel e Heloisa Gesteira. Além do MAST e do MUHNAC,

fazem parte da proposta docentes de diversas instituições (Fundação Oswaldo Cruz,

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidad Autonoma de Madrid, Universitat

Autónoma de Barcelona, Universidade Estadual de Campinas, Universidade de São

Paulo, dentre outras).

73


atividades relatadas. São demasiados para serem enumerados, mas, sem o

contributo individual de cada um, nada teria sido possível.

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77


Magnetômetro (1993/0943), acervo MAST (Foto: Jaime Acioli, 2010).

78


OS MUSEUS E A SALVAGUARDA DO PATRIMÔNIO CULTURAL

DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA NO BRASIL

Marcus Granato *

Fernanda Pires Santos **

1. Introdução

Museu e patrimônio cultural se inter-relacionam de forma ampla e

diversa. Não cabe aqui problematizar como são definidos na contemporaneidade

e compreendidos pelas diversas correntes de pensamento, mas sim afirmar a

sua estreita ligação e o que disso resulta. Um exemplo claro é caracterizado pelo

Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e pelas atividades que se

desenvolvem nessa instituição em torno do patrimônio cultural de Ciência e

Tecnologia (PCC&T).

A definição do que constitui o PCC&T está publicada em texto anterior

(GRANATO; CAMARA, 2008, p. 174), mas é dinâmica e amadurece de acordo

com as discussões que se realizam sobre o tema.

Mais recentemente, considera-se o conjunto tangível e intangível

relacionado à C&T, a que se atribuem valores que justificam a sua preservação

para as futuras gerações. Inclui o conhecimento científico e tecnológico

produzido pelo homem, além dos saberes, das práticas de ensino e pesquisa, e

de todos aqueles artefatos e espécimes que são testemunhos dos processos

científicos, de desenvolvimento tecnológico e de ensino, considerando

documentos em suporte papel (arquivísticos e bibliográficos), instrumentos

*

Engenheiro metalúrgico (UFRJ), mestre e doutor em Engenharia Metalúrgica

(COPPE/UFRJ), Coordenador de Museologia do MAST, vice-coordenador e professor do

programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST), professor do

curso de Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio de C&T (MAST); bolsista

de produtividade 1C do CNPq; Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ; líder do

Grupo de Pesquisa Museologia e Preservação de Acervos Culturais. E-mail:

marcus@mast.br

** Historiadora, mestre em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST), bolsista do Programa

de Capacitação Institucional do MAST. E-mail: fernandasantos@mast.br.

79


científicos, máquinas, montagens, coleções científicas de natureza diversa como

arqueológicas, etnográficas, biológicas, além de construções arquitetônicas

produzidas com a funcionalidade de atender às necessidades desses processos

e desenvolvimentos (laboratórios, observatórios, paisagens e jardins).

Exemplos claros desse tipo de patrimônio estão sob a guarda do MAST,

um dos poucos museus de C&T na América Latina. Criado pelo Conselho

Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 1985, o MAST

vincula-se, a partir de setembro de 1999, diretamente ao Ministério da Ciência e

Tecnologia como uma de suas Unidades de Pesquisa. Situa-se no bairro imperial

de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro, e suas atividades, desde a

concepção original, têm sido direcionadas para a preservação, pesquisa e

divulgação do patrimônio sob sua guarda, sistematizado em diferentes categorias

(arquivístico, bibliográfico, arquitetônico e museológico). Portanto, percebe-se

aqui uma estreita relação entre Museu e Patrimônio, que se desenvolve e

retroalimenta, fundamentando todas as ações institucionais.

As pesquisas realizadas nessa instituição, a partir de 2004, no âmbito do

Grupo de Pesquisas Museologia e Preservação de Acervos Culturais,

determinam as reflexões que serão aqui apresentadas. Esses estudos,

desenvolvidos em mais de dez anos de atividade do Grupo, se realizam em torno

do PCC&T.

A partir das inquietações acadêmicas, dúvidas e questões que foram

sendo identificadas durante o trabalho de preservação da coleção de objetos de

C&T do Museu, além das experiências de preservação extramuros, realizadas

em outras instituições, estruturou-se o projeto de pesquisa Valorização do

Patrimônio Científico e Tecnológico Brasileiro 1 , em 2006, que teve como objetivo

principal acolher as propostas de pesquisa para dissertação, no âmbito do

Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio 2 .

Em 2009, no âmbito desse Projeto, surge a proposta de criar três frentes

de pesquisa diferentes. Na primeira, o intuito seria realizar um levantamento de

âmbito nacional para identificar quais instituições ainda possuíam objetos

1

Sítio do Projeto na internet disponível em:

. Acesso em: 13 abr. 2015.

2 Realizado em parceria pela UNIRIO e pelo MAST desde 2006. Disponível em:

. Acesso em: 13 abr. 2015

80


característicos do PCC&T que poderiam ser preservados, qual a sua condição e

em que número seriam. Na segunda, seriam desenvolvidos estudos das

legislações de proteção desse tipo de patrimônio no Brasil e em vários países

(Argentina, México, Peru, Cuba, França, Inglaterra, Portugal, Espanha, China,

Itália) 3 , procurando identificar aspectos que pudessem complementar a legislação

brasileira. E, na terceira, seriam desenvolvidos estudos sobre conjuntos

selecionados de objetos de C&T específicos, no intuito de produzir conhecimento

sobre os mesmos e construir a sua trajetória de formação 4 . A estratégia mostrouse

produtiva, permitindo desenvolver todas as frentes de pesquisa de forma

articulada, gerando um movimento de retroalimentação entre elas.

A metodologia de pesquisa utilizada na etapa dos levantamentos de

conjuntos de objetos, já publicada com detalhes anteriormente (GRANATO, et

al., 2013; 2014), incluiu a elaboração de uma ficha de registro específica, tendo

por base iniciativas similares europeias, e cortes cronológico 5 e de áreas de

conhecimento 6 . Serão destacadas, a seguir, as tipologias de instituições

pesquisadas e as fontes de informação utilizadas para identificar os locais

potenciais de existência dos conjuntos de objetos de C&T. Outros detalhes sobre

a metodologia de pesquisa utilizada poderão ser obtidos nas publicações

mencionadas.

As instituições consideradas na pesquisa foram classificadas em 4

categorias: Instituições de Ensino Superior (IES), Institutos de Pesquisa

Científica e/ou Tecnológica (ICT), Instituições Museológicas ou Espaços

Museológicos (MUS) e Instituições de Ensino Médio (IEM). É importante

mencionar que as IEM não foram priorizadas no primeiro momento, em função

do grande universo de instituições a ser avaliado.

3

Para maiores informações consultar (GRANATO; OLIVEIRA, 2013), (OLIVEIRA;

GRANATO, 2013).

4 Até o momento foram finalizados os estudos sobre a coleção de objetos de C&T do

Observatório do Valongo (OLIVEIRA; GRANATO, 2012) e do laboratório de física do

Colégio Pedro II - unidade centro (GRANATO; SANTOS, 2014). Estão em andamento

estudos relacionados aos conjuntos de objetos de C&T da Universidade Federal do Rio de

Janeiro e aqueles relacionados às engenharias nas universidades de Pernambuco,

5 Os objetos de interesse para o projeto devem ter sido produzidos até a década de 1960.

6 Objetos de interesse devem ter sido utilizados em atividades relacionadas às áreas das

Ciências Exatas, Geociências e Engenharias.

81


Para levantamento de conjuntos de objetos de C&T pertencentes às

universidades brasileiras (IES), foram utilizados os seguintes critérios:

- Levantamento das universidades brasileiras constantes no E-MEC 7 . A utilização

desta base justifica-se por tratar-se da base de dados oficial e única de

informações relativas às instituições e cursos de educação superior, mantida pelo

Ministério da Educação. No cadastro, foram selecionadas as instituições

consideradas como: pública federal (aquelas mantidas pelo Poder Público

Federal, com gratuidade de matrículas e mensalidades) e pública estadual

(mantida pelo Poder Público Estadual, com gratuidade de matrículas e

mensalidades).

- Nas instituições federais e estaduais cadastradas no E-MEC, foram

identificados e selecionados os departamentos e cursos concernentes às áreas

das Ciências Exatas, Geociências e Engenharias, conforme classificação da

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES 8 .

Para levantamento de conjuntos de objetos de C&T pertencentes às

Instituições Museológicas ou Espaços Museológicos (MUS), utilizou-se o

seguinte critério:

- Levantamento dos museus brasileiros a partir do Cadastro de Museus do

Instituto Brasileiro de Museus 9 (IBRAM) e do Guia dos Museus Brasileiros 10 ,

publicação que contém os museus presenciais, virtuais e instituições em

implantação constantes da referida base de dados. Nos referidos Guia e

Cadastro, foram selecionados os museus que possuíam no item “tipologia do

acervo” as categorias “ciência e tecnologia” e “história”, além de museus

municipais 11 .

7 O E-MEC foi criado por meio da Portaria Nº 40 (12/12/2007) para instituir o cadastro de

instituições e cursos superiores.

8 Nessa classe se inserem Departamentos, Laboratórios, Escolas e demais espaços

acadêmicos das IES, menos os museus.

9 Disponível em: . Acesso em: 25

abr. 2015.

10 Catálogo online (também há versão impressa) disponível na internet desde 2010.

Disponível em: . Acesso em: 25

abr. 2015.

11 É preciso esclarecer que os museus universitários estão inseridos na classe MUS, no

âmbito dessa pesquisa.

82


Para levantamento de conjuntos de objetos de C&T pertencentes às

instituições de pesquisa científica e/ou tecnológica (ICT), utilizou-se o seguinte

critério:

- Levantamento das instituições de pesquisa cadastradas no Programa de

Informação e Comunicação para Ciência e Tecnologia - Prossiga 12 . Nessa base

de dados, foram selecionadas as instituições que se enquadravam no âmbito dos

cortes cronológico e de áreas de conhecimento já mencionados anteriormente.

De forma complementar, nos levantamentos, também foram utilizadas as

seguintes fontes: portais das prefeituras das cidades e dos governos dos estados

brasileiros na internet; sites de busca na web etc..

Em um primeiro momento serão aqui discutidos os resultados gerais

mais recentes obtidos no projeto para, em seguida, analisar aqueles relacionados

aos espaços museológicos (MUS) que possuem objetos de C&T e sua condição

no que se refere à conservação, documentação e relevância. Em seguida, a

partir das especificidades identificadas nos espaços museológicos registrados,

será proposta uma classificação que permita identificar as diferenças de estrutura

e atividades desses locais. Finalmente, será apresentada a atuação do MAST,

em seus 30 anos de atividades, no que concerne especificamente à preservação

do PCC&T.

2. Museus e Patrimônio Cultural de C&T no Brasil

A preservação de bens culturais inclui como etapa inicial o conhecimento

sobre esses bens e onde se encontram. Para tal, é necessário um processo de

busca, identificação e localização, como primeiro passo para sua salvaguarda.

Em relação ao patrimônio cultural de C&T, esse tipo de iniciativa praticamente

inexistia no Brasil, mas no exterior, especialmente no ambiente universitário,

percebe-se nos últimos anos uma situação bastante diferente, com várias

iniciativas desenvolvidas e em desenvolvimento (GRANATO et. al., 2014).

No entanto, nem sempre foi assim. Paolo Brenni, na introdução do livro

Arranging and Rearranging: Planning university heritage for the future,

12 O Prossiga, criado pelo IBICT, tem como objetivo principal organizar e disseminar

informações para a gestão de ciência, tecnologia e inovação.

83


organizado por Sofia Talas e Marta C. Lourenço, dá outro panorama, mas aponta

uma saída. Nas palavras do autor:

Historical scientific collections represent an immense cultural

heritage. This heritage, when not in danger, is still

underexplored.

[...] I do believe that it is possible to better appreciate and

understand them if we are able to vividly illustrate and explain

how, especially since the eighteenth century, these artefacts

became essential for scientific research and teaching,

engineering, industry, exploration, and so on. They also

played a paramount role in building our society, in modifying

our habits, in influencing our life and activities (BRENNI, 2012,

p.21) 13 .

Em relação à preservação do patrimônio cultural de C&T, há que se

destacar a iniciativa alemã que talvez possa ser considerada a mais produtiva, no

que se refere a resultados concretos. Um levantamento nacional de patrimônio

universitário foi iniciado em 2004 pelo Helmholtz Zentrum für Kulturtechnik, da

Universidade de Humboldt, em Berlim, financiado pela Fundação de Pesquisa

Alemã (DFG) (ZAUZIG, 2013, p. 2). Num primeiro momento, mesmo na

Alemanha, muitas universidades não conseguiram nem mesmo produzir uma

listagem de suas coleções. Situação similar à que vivemos hoje no Brasil. O

trabalho de identificar e documentar esses conjuntos de bens alemães levou

vários anos e permitiu verificar a existência de 819 coleções nas universidades e

de outras 300 que haviam sido perdidas de formas diversas (ZAUZIG, 2013, p.

3).

Em 2011, sete anos após o início dessa iniciativa, o Conselho Federal de

pesquisa alemã - Wissenschaftsrat - German Council for the Sciences and

Humanities - reconheceu publicamente que as coleções científicas fazem parte

da infraestrutura para pesquisa e que sua preservação é atividade fundamental

13 Coleções científicas de caráter histórico representam um imenso patrimônio cultural.

Esse patrimônio, quando não está em perigo, está ainda sem ser explorado.

[...] Eu acredito que é possível, para melhor apreciá-los e compreendê-los, se formos

capazes de ilustrar de forma clara e explicar como, especialmente desde o século XVIII,

esses artefatos tornaram-se essenciais para a pesquisa científica e o ensino, a

engenharia, a indústria, a exploração etc.. Eles também tiveram um papel fundamental na

construção de nossa sociedade, na modificação de nossos hábitos, influenciando nossas

vidas e atividades. (tradução nossa)

84


das instituições que possuem sua guarda 14 . Uma das recomendações do

Conselho Alemão foi a criação de um centro que coordenasse e centralizasse os

esforços de preservação dessas coleções, além de disponibilizar fundos em nível

nacional para dar suporte a tal atividade. Em 2012, financiado pelo Estado, o

centro de coordenação iniciou suas atividades, propiciando uma perspectiva

nova para o patrimônio científico alemão (ZAUZIG, 2013, p.5).

É interessante mencionar que no Brasil, em 2010, acontecia um

movimento similar. Um evento preparatório para a 4 a Conferência Nacional de

C&T&I 15 foi realizado no MAST, em 09 de abril de 2010: a Pré-Conferência

Ciência e Patrimônio. O objetivo desse encontro foi discutir e propor iniciativas

relacionadas à preservação do patrimônio cultural brasileiro para inserção na 4ª

CNTI. A Pré-Conferência contou com a participação de representantes de

diversas entidades/instituições com interesse no assunto (GRANATO;

LOURENÇO, 2011, p. 97).

A discussão se deu em torno de dois temas centrais:

- política de preservação do patrimônio cultural relacionado à Ciência e à

Tecnologia, e

- política de preservação de acervos que são fonte para a pesquisa na área das

Humanidades.

Ao final do evento, uma frase resumiu a discussão que ali teve lugar: “a

ciência e a tecnologia produzindo patrimônio cultural, a ciência e a tecnologia

como apoio ao patrimônio cultural e a ciência e a tecnologia usufruindo o

patrimônio cultural” (GRANATO; LOURENÇO, 2011, p. 97).

A partir das reflexões foram propostas diversas ações e um documento

foi produzido para encaminhamento aos organizadores da 4 a CNCTI. Algumas

das sugestões foram:

- definir uma política nacional de preservação do patrimônio cultural relacionado

à ciência e tecnologia, estabelecendo uma instância responsável / comissão de

gestão desse patrimônio no âmbito do MCT;

14 Scientific Collections as Research Infrastructure, German Council for the Sciences and

Humanities, Disponível em: . Acesso em: 13 fev. 2014.

15 O evento se realizou entre 26 e 28 de maio de 2010, em Brasília (DF).

85


- estabelecer fontes de financiamento para a preservação do patrimônio cultural.

Em especial as agências financiadoras como CNPq. FINEP e FAPs deveriam

abrir editais específicos para o tema;

- incentivar as pesquisas relacionadas ao patrimônio cultural, em especial nas

pós-graduações.

Com essa iniciativa, dentro da sessão temática “Ciência, Tecnologia e

Cultura”, no âmbito da 4 a Conferência Nacional de C&T&I, foi apresentado um

relato sobre o documento produzido. Esse fato foi de grande significado, pois

consistiu na primeira vez que o tema do patrimônio cultural de C&T foi discutido

numa Conferência Nacional da área. Existia, assim, uma possibilidade real de

alteração do panorama de descaso para com o PCC&T. No entanto, não houve

continuidade e apoio político para a implementação das sugestões no âmbito do

MCTI.

O MAST, por sua vez, continuou a desenvolver atividades e elaborar

propostas visando à preservação do PCC&T. O levantamento de conjuntos de

objetos de C&T, realizado em nível nacional, caracteriza-se como uma delas e é

similar àqueles realizados na Europa. Entretanto, cabe ressaltar que as

iniciativas empreendidas no exterior sempre se deram em âmbito universitário,

enquanto, no Brasil, uma gama mais ampla de instituições foi objeto de interesse

nos levantamentos. Outro aspecto que diferencia significativamente a iniciativa

brasileira são as dimensões continentais de nosso país, que ampliam o desafio a

ser enfrentado. Ainda assim, os resultados são auspiciosos e estimulam a

continuação dos esforços em prol da preservação desses conjuntos de objetos

em nosso país.

Há que se ressaltar que já foram publicados anteriormente dados sobre

os levantamentos realizados, no entanto, acontecem variações de acordo com o

momento em que foi feita a publicação, já que o levantamento é dinâmico e os

valores dos dados se alteram no tempo. Para isso, contribui o fato de que, em

alguns casos, grupos de objetos registrados em um momento podem,

posteriormente, serem descartados e com um novo contato de atualização

podem gerar variações para menos. Por outro lado, novos conjuntos podem ser

descobertos numa mesma instituição, gerando variações para mais.

Nesse capítulo, estão sendo apresentados os dados mais recentes da

pesquisa. Partindo de um conjunto da ordem de cerca de 1500 instituições,

86


sendo 56% Instituições de Ensino Superior - IES; 32% Museus - MUS; 11%

Instituições de Pesquisa Científica e/ou Tecnológica - ICT e 1% Instituições de

Ensino Médio - IEM, foi possível identificar inicialmente 337 (22,5%) locais com

conjuntos de objetos de C&T de interesse para as pesquisas em

desenvolvimento (GRANATO et al., 2014, p.18). Esse número, aqui atualizado,

baixou para 311 (21% do total), sendo a diferença relacionada provavelmente a

espaços que descartaram seus conjuntos de objetos de C&T no período entre as

duas medições.

Os contatos resultaram num total de mais de 40.000 objetos

identificados, que podem ser avaliados em sua distribuição, por tipo de

instituição, no gráfico apresentado na Figura 1, a seguir.

N.º DE INSTRUMENTOS - NACIONAL

16.279

19.581

1.733

2.198

IES ICT MUS IEM

Figura 1 - Total de objetos de C&T identificados no país, por tipo de instituição (IES -

Instituições de Ensino Superior; ICT - Instituições de Pesquisa; MUS - Instituições

Museológicas; IEM - Instituições de Ensino Médio).

Percebe-se pelo gráfico que a maioria dos objetos (49%), felizmente,

está nos museus (MUS), o que significa que estão minimamente valorados e

protegidos, destacando o importante papel desempenhado por essas instituições

para a preservação desse tipo de patrimônio. Em seguida, temos as

87


universidades (IES), com 41% dos objetos, as instituições de ensino de médio,

com 6% do total, e as instituições de pesquisa, com 4%.

Esses dados são um indicativo do que foi verificado nas visitas e

contatos e revelam que as instituições de pesquisa fazem descarte de seus

artefatos mais regularmente e têm uma facilidade maior de renovar sua

infraestrutura de instrumentos e equipamentos, por isso a presença de objetos

antigos e de interesse para o projeto resultou em menor número. Em relação às

instituições de ensino médio, os números não são conclusivos, pois os

levantamentos não foram priorizados nesses locais, restando boa parte do

universo de IEMs a ser identificado e avaliado.

Por outro lado, se calcularmos o número médio de objetos preservados

por instituição, em cada tipologia, teremos o seguinte panorama: 62 objetos por

ICT; 110 objetos por IES; 154 objetos por MUS; 275 objetos por IEM. O resultado

mostra o potencial significativo das IEM em guardar objetos de interesse, já que

em 8 instituições foram identificados mais de 2.000 artefatos.

Apesar do número relativamente baixo de objetos preservados por

instituição nas IES, um dado importante é o grande contingente de objetos ali

existente, que está em sua grande maioria em alto risco de perda, pois, com

raras exceções, essas instituições não possuem políticas de preservação para o

patrimônio cultural 16 . Essa situação é similar ao que relatam Talas e Lourenço

(2012, p.10), em relação às universidades europeias. Por outro lado, as autoras

mencionam que algumas dessas instituições estão procurando novos caminhos

para organizar seu patrimônio cultural e ampliar o acesso ao mesmo,

destacando-se a centralização e integração de seus acervos sob uma única

estrutura de gerenciamento, que pode ser um museu único para todas as

coleções universitárias, ou um museu que se responsabiliza pelas coleções que

estão espalhadas por toda a universidade.

16 No Brasil, algumas exceções devem ser mencionadas, como a Universidade de São

Paulo (USP), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal

de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Nessas instituições já existem, ou estão sendo estruturadas, políticas de preservação do

patrimônio universitário.

88


Registre-se aqui que a instituição Museu foi escolhida para lidar com o

problema de preservação do patrimônio cultural universitário europeu,

caracterizando-se, portanto, como o espaço natural para essa atividade e

reforçando o papel que vem desempenhando há séculos.

No Brasil, pela análise dos números apresentados na Figura 1, fica claro

o papel decisivo dos MUS para a preservação do PCC&T. Na verdade, os

objetos mais antigos estão nesses locais e teriam sido perdidos caso não

tivessem sido salvaguardados nos museus. No entanto, a experiência obtida a

partir do desenvolvimento dessa pesquisa, mostra que os espaços museológicos

universitários são diversos e merecem um olhar diferenciado. Talas e Lourenço

(2012, p. 9-10), a partir de vários textos publicados sobre o tema do patrimônio

universitário europeu, relatam que os museus que se encontram nas

universidades apresentam diferenças significativas em relação aos demais

museus, especialmente pela falta de padrões de qualidade a serem seguidos e

pela ausência de pessoal treinado nas atividades características dos museus. No

Brasil, verifica-se situação similar.

Na Figura 2, a seguir, são apresentados os resultados obtidos do número

de objetos identificados por região do país.

Figura 2 - Número de objetos de C&T identificados por região do país.

89


Verifica-se, pelos resultados apresentados no gráfico, que a região com

maior percentual de instituições que detêm a posse de conjuntos de objetos de

interesse é a Sudeste (67% do total de instituições contêm objetos), em seguida,

em ordem descrescente, vêm as regiões Nordeste (18%), Sul (8%), Norte (4%) e

Centro-Oeste (3%). Esses números revelam certa coerência, pois a região com

maior concentração de instituições de ensino superior e de pesquisa, e as mais

antigas, é de fato a Sudeste. Em seguida, situam-se as regiões com um histórico

cada vez mais recente de desenvolvimento e ocupação.

Passaremos, a seguir, a analisar especificamente os dados obtidos para

a classe de instituições denominadas de Museus (MUS), que são o ponto central

da discussão desse Capítulo. O papel dessas instituições para a preservação

dos objetos de C&T já se mostrava fundamental desde o início das pesquisas,

mesmo pelos dados preliminares coletados (GRANATO, 2008).

Para realizar pesquisas sobre museus existentes no Brasil a fonte

principal, como já mencionado, é o Guia dos Museus Brasileiros. Consta nessa

publicação um total de 3.118 museus, incluindo 23 museus virtuais. As regiões

Sudeste, com 1.150 museus, Sul, com 874, e Nordeste, com 709, são as que

apresentam maior quantitativo de museus. Entre eles estão os que são

registrados no Cadastro Nacional de Museus (CNM) do IBRAM, que aparecem

no Guia com seus nomes sublinhados em cor laranja, com informações como:

ano de criação, situação atual (aberto ou fechado a visitação), endereço,

telefone, fax, site, e-mail, horário de funcionamento, tipologia de acervo,

acessibilidade, infraestrutura para recebimento de turistas estrangeiros e

natureza administrativa. E os que não estão registrados no Guia, mas foram

identificados quando da elaboração do CNM, que apresentam seus nomes

sublinhados em cor cinza. Nesse caso, as informações existentes são: situação

atual, endereço, natureza administrativa, e em algumas situações, telefone, fax,

site e e-mail.

Como já mencionado em item anterior, uma das informações

especialmente consideradas pela equipe do Projeto Valorização do Patrimônio

Cultural de C&T, na seleção de museus que poderiam constituir objeto de

interesse para o Projeto, foi a "tipologia do acervo", que no catálogo do IBRAM

90


apresenta 11 diferentes opções 17 . Foram selecionados aqueles que nesta

categoria apresentam "Ciência e Tecnologia". Além desses, alguns museus que

não apresentam essa tipologia de acervo também foram selecionados,

especialmente os que continham “História” e “Ciências Naturais”, que

normalmente conservam equipamentos utilizados em campo, como instrumentos

topográficos.

Para além dos museus selecionados no Guia, os contatos realizados

com instituições de outras tipologias (de ensino superior, ensino médio, e de

pesquisa), trouxeram à luz outros locais que se autodenominam “museus”, e que

foram registrados nesta categoria pela equipe do projeto, considerando-se a

forma como se reconhecem.

Dos 1500 contatos identificados, chegou-se a um total de 484 instituições

categorizadas como Museus. Até o momento, desse total resultaram em 127

espaços MUS registrados pelo Projeto, portanto, contendo conjuntos de objetos

de C&T, 325 não possuem esses conjuntos e 32 locais permanecem na

classificação inviável/indefinido 18 . Assim, 93% dos contatos possibilitaram uma

resposta concreta, resultado muito bom, levando em consideração as

dificuldades muitas vezes encontradas de identificação de número de telefone e

e-mail em funcionamento e de pessoa que pudesse responder às perguntas da

ficha de registro. Do total de espaços museológicos registrados, 100 estão no

Guia Brasileiro de Museus e 27 não.

A Figura 3, a seguir, apresenta a distribuição desses 127 espaços pelas

regiões do Brasil.

A análise dos dados da Figura 3 mostra que 47% dos espaços

museológicos que salvaguardam conjuntos de objetos de C&T estão na região

Sudeste, seguindo o comportamento de museus em geral no país. Esse

resultado também tem relação com a alta concentração de instituições de

pesquisa nessa região, especialmente as mais antigas, fontes de origem desses

17 São elas: Antropologia e Etnografia; Arqueologia, Artes Visuais; Ciências Naturais e

História Natural; Ciência e Tecnologia; História; Imagem e Som; Virtual; Biblioteconômico;

Documental; e Arquivístico.

18 Incluem-se nessa categoria os casos em que não foi possível obter e-mails e/ou

telefones que permitissem um contato conclusivo e produtivo, ou em que as pessoas não

conseguiram fornecer nenhuma informação consistente.

91


acervos, e também devido à maior facilidade de obter informações nas

instituições dessa região. Em seguida, os resultados diferenciam-se daqueles

relacionados à presença de museus nas regiões do país, apresentado no início

desse item, e temos a região Nordeste em segundo lugar, com 18%, a Sul em

terceiro, com 14%, seguidas da Centro-Oeste e da Norte, respectivamente com

12% e 9%.

MUSEUS REGISTRADOS - POR REGIÃO

7

0

6

0

60

5

0

4

0

3

0

2

0

1

0

12

23

15

17

NORT

E NORDEST

E CENTRO-

OESTE

SUDEST

SU E

L

0

Figura 3 - Número de museus registrados no projeto, por região do país.

A Figura 4, a seguir, apresenta os dados sobre a relevância dos

conjuntos de objetos de C&T preservados nos espaços museológicos.

A relevância atribuída aos conjuntos identificados constitui-se em fator

importante a ser considerado no estudo e também para posteriores políticas de

estado para o setor. Por relevante entende-se aqui aquele conjunto com valores

atribuídos por terceiros que dão destaque ao conjunto ou ao objeto específico e

irão interferir decisivamente sobre a sua classificação ou não como patrimônio

cultural. Nessa pesquisa, foram estabelecidos cinco níveis de relevância que

92


poderiam estar associados aos conjuntos: internacional, nacional, regional, local

e institucional.

RELEVÂNCIA DOS CONJUNTOS DE C&T

6

0

5

0

4

0

3

0

4

4

5

5

INSTITUCIONAL

LOCAL

REGIONAL

NACIONAL

2

0

1

0

1

0

4

1

4

INTERNACIONAL

0

Figura 4 - Relevância dos conjuntos de objetos de C&T preservados nos espaços

museológicos.

Os dados apresentados mostram que nos MUS, ao contrário dos

resultados obtidos nessa categoria de resposta para os outros tipos de

instituição, a maioria, com 55% do total, apresenta relevância nacional; seguida

de 35% com relevância regional, 11% com relevância internacional, 8%

institucional e 3% local.

Para a avaliação da relevância, no caso dos conjuntos de objetos de

C&T, destacam-se os valores relacionados ao desenvolvimento científico e

tecnológico, ou seja, artefatos que foram produzidos no país, ou adquiridos no

exterior, e que participaram de desenvolvimentos científicos e tecnológicos.

Outro aspecto determinante na atribuição de valor, diz respeito ao caráter

histórico desses objetos. Aqui, inserem-se aspectos relacionados à história das

93


instituições que os detém ou que são a origem dos conjuntos e que poderão

resultar em relevância em níveis variados, dependendo da própria atuação

institucional no cenário brasileiro e internacional. Outro aspecto importante a ser

considerado diz respeito à raridade do artefato. Aqui está situada a maioria dos

protótipos de equipamentos e instrumentos, que são os primeiros a serem

desenvolvidos no processo de desenvolvimento e produção de objetos de C&T.

Como em toda dimensão subjetiva, a atribuição de relevância e dos

valores agregados aos conjuntos levantados é muito relativa e depende sempre

que quem atribui os valores. Nas IES é comum a relevância ser atribuída à

importância que os objetos tiveram no ensino e na pesquisa desenvolvida na

instituição. Nos ICT a relevância está ligada à importância que a instituição teve

em relação à sua área de atuação. Nos espaços museológicos a relevância

muitas vezes estava ligada a alguma personalidade que manteve contato com o

objeto, ou à história local, destacando-se a atividade na qual os objetos

estiveram envolvidos.

Apesar de criado um critério em 5 níveis, foi bastante complexa a tarefa

de atribuição de nível de relevância para os conjuntos. Muitas vezes foi solicitado

que o responsável pelo conjunto comentasse a importância do conjunto que

estava de posse da instituição. Muitas vezes as respostas eram inconclusivas,

pois grande parte dos espaços museológicos não possuía pesquisa sobre suas

coleções. A visita de membros da equipe a alguns desses locais trouxe, na

verdade, um efeito positivo nesse aspecto, despertando em muitas pessoas uma

nova consciência e interesse em produzir conhecimento sobre esse tipo de

patrimônio.

Com relação à situação dos conjuntos nos espaços museológicos

registrados pelo Projeto e aqui analisados, verificou-se que a maioria estava em

estado de conservação bom (57%) ou regular (35%) e possuía inventário (71%).

Esse último resultado era esperado em nível superior ao obtido, desde que se

trata de atividade típica dos museus. No entanto, esse resultado está relacionado

às questões sobre como se caracterizam e atuam esses espaços que se

denominam “museus”, mas que algumas vezes não se caracterizam como tal, o

que será discutido no próximo item.

A Figura 5, a seguir, apresenta os resultados obtidos para a forma de

utilização dos conjuntos de objetos de C&T preservados nos espaços

94


museológicos. Foram identificadas três categoria de utilização: acervo histórico,

ensino e sem uso.

UTILIZAÇÃO DOS CONJUNTOS DE OBJETOS DE C&T

120

100

11

4

80

60

ACERVO HISTÓRICO

ENSINO

SEM USO

40

20

0

5

8

Figura 5 - Forma de utilização dos conjuntos de objetos de C&T preservados nos espaços

museológicos.

Foram considerados “acervo histórico” aqueles conjuntos usados

exclusivamente para fins museológicos, como exposições, atividades educativas,

entretenimento, pesquisa, etc., ainda que não sejam usados para todos esses

fins concomitantemente. Essa categoria corresponde a 90% dos conjuntos de

objetos de C&T nos espaços museológicos. Como seria de se esperar, o

resultado é bem elevado, mas poderia ser de 100%, pois estamos no âmbito dos

“museus”.

Aqueles objetos que ainda são usados no ensino, não mais em sua

função original, mas como objetos demonstrativos, são capazes de desvendar as

engrenagens e a lógica de funcionamento dos instrumentos científicos, estão

95


em abaixo do anterior, com 4% do total. Nesse caso, o valor de uso ainda se

sobrepõe ao valor museológico.

Há ainda conjuntos de objetos que, apesar de estarem em locais

denominados “museus”, e de terem sido, em algum momento, selecionados para

compor uma coleção, ainda não foram documentados, não passaram por

processos de conservação, não são expostos, ou não participaram de ações

educativas ou de pesquisa. Em geral, são conjuntos de objetos em locais

denominados museus, mas que não se caracterizam como tal, ou que estão

fechados, ou inativos e, felizmente, são apenas 6% do total.

Verificou-se que nem todos os espaços que se intitulam “museus”

cumprem, na verdade, todas as exigências da Lei para tal. Por isso, a seguir,

serão problematizados os espaços museológicos que salvaguardam o PCC&T no

país, e estruturada uma classificação que permita seu grupamento, a partir de

características comuns.

3. Panorama sobre a Diversidade de Museus de C&T no Brasil

Com o intuito de discutir e problematizar os espaços encontrados no

levantamento realizado e que se denominam 'museus, inicialmente faremos uma

análise de como esse termo se define no decorrer do tempo, tomando como

base as definições emanadas do Conselho Internacional de Museus - ICOM. A

definição do que é um "Museu" varia no tempo e se relaciona com a dinâmica

dessas instituições que se diversificam, transformam e se ampliam em funções,

acompanhando as modificações na sociedade.

Criado no âmbito da Organização das Nações Unidas para a Educação,

a Ciência e a Cultura - UNESCO em 1946 19 , o ICOM apresenta em junho de

1948, na sua I Conferência Geral, em Paris, a seguinte definição: “O termo

museu inclui todas as coleções abertas ao público de objetos artísticos, técnicos,

científicos à exclusão de bibliotecas, salvo se mantidas permanentes em salas de

exposição“ (EDSON, 2007, p.42). Aqui se percebe que o PCC&T está

contemplado, na menção "objetos...... técnicos, científicos", mas a noção de

museu parece bem distante das instituições contemporâneas que levam essa

designação.

19 Órgão Consultivo da Unesco para assuntos do Patrimônio, inicialmente com 14 Países.

96


Em 1951, o ICOM apresenta uma nova definição para museu:

todo estabelecimento permanente, administrado no interesse

público para conservar, estudar, desenvolver por meios

diversos e essencialmente expor para fruição do público

conjuntos de itens com valor cultural: coleções de objetos

históricos, artísticos, científicos e técnicos, jardins botânicos,

zoológicos e aquários. São consideradas semelhantes aos

museus bibliotecas públicas e arquivos que mantêm

permanentemente salas de exposição (EDSON, 2007, p.43).

Percebe-se uma alteração significativa em relação à definição anterior,

com inserção de aspectos relevantes como ser um "estabelecimento

permanente", "interesse público", e "conservar, estudar e expor". Cinco anos

mais tarde, em 1956, nova definição surge, também emanada do ICOM, mas

com poucas alterações em relação à anterior 20 .

Na 7ª Conferência do ICOM, em 1965, realizada em Nova York, foi

acrescida à definição anterior a frase: “A serviço do homem e de seu

desenvolvimento”. Em 1969, o termo museu foi novamente redefinido pelo ICOM,

mas também sem grandes alterações 21 .

Em 06 de julho de 2001, portanto 32 anos mais tarde, na 20 a Assembléia

Geral, realizada em Barcelona, Espanha, o ICOM amplia o entendimento do

termo para a seguinte forma:

Museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a

serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao

público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os

testemunhos materiais do homem e do seu entorno, para a

educação e deleite da sociedade. Além das Instituições

designadas como "Museus", se considerarão incluídas nesta

definição:

- Os sítios e monumentos naturais, arqueológicos e

etnográficos;

20 Museu é um estabelecimento de caráter permanente, administrado para interesse geral,

com a finalidade de conservar, estudar, valorizar de diversas maneiras o conjunto de

elementos de valor cultural: coleções de objetos artísticos, históricos, científicos e

técnicos, jardins botânicos e zoológicos, aquários. Disponível em:

. Acesso em: 31 mar. 2015.

21 “Toda instituição permanente que conserva e expõe, para fins de estudo, educação e

fruição, as coleções de objetos de importância cultural ou científica“ (EDSON, 2007, p.43).

97


- Os sítios e monumentos históricos de caráter museológico,

que adquirem, conservam e difundem a prova material dos

povos e de seu entorno;

- As instituições que conservam coleções exemplares vivos

de vegetais e animais - como os jardins zoológicos, botânicos,

aquários e viveiros;

- Os centros de ciência e planetários;

- As galerias de exposições não comerciais;

- Os institutos de conservação e galerias de exposição, que

dependem de bibliotecas e centros arquivísticos;

- Os parques naturais;

- As organizações internacionais, nacionais, regionais e locais

de museus;

- Os ministérios ou as administrações sem fins lucrativos, que

realizem atividades de pesquisa, educação, formação,

documentação e de outro tipo, relacionadas aos museus e à

museologia;

- Os centros culturais e demais entidades que facilitem a

conservação e a continuação e gestão de bens patrimoniais,

materiais ou imateriais;

- Qualquer outra instituição que (...) reúna algumas ou todas

as características do museu, ou que ofereça aos museus e

aos profissionais de museus os meios para realizar pesquisas

nos campos da Museologia, da Educação ou da Formação

(EDSON, 2007, p.43).

Em 2005, o ICOM apresenta mais uma definição de Museu, que não

apresenta grandes alterações em relação à concepção anterior 22 . Finalmente, na

21ª Conferência Geral do ICOM, realizada em 2007, em Viena, temos a última

atualização até o momento, resultando na compreensão atual do ICOM sobre

esse termo:

Um museu é uma organização sem fins lucrativos, instituição

permanente, a serviço da sociedade e do seu

desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva,

pesquisa, comunica e exibe o patrimônio material e imaterial

22 "Os Museus são instituições permanentes, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e

de seu desenvolvimento, abertas ao público, que adquirem, preservam, pesquisam,

comunicam e expõem, para fins de estudo, educação e lazer, testemunhos materiais e

imateriais dos povos e de seus ambientes" (ICOM/BR, 2009, p.28).

98


da humanidade e do seu ambiente para fins de educação,

pesquisa e diversão (ICOM/BR, 2009, p.28).

Apesar dos conjuntos de objetos de C&T aqui analisados comporem

acervos de espaços que se denominam museus, a atribuição de “coleção

museológica” a esses conjuntos exige reflexões, assim como a própria

denominação de museu para alguns desses espaços.

O Brasil é dos poucos países do mundo que possui uma legislação

específica que regulamenta os museus. Trata-se do Estatuto dos Museus,

através da Lei 11.904. Em seu artigo 1º, a Lei define o que é um museu,

incluindo uma série de atividades que não se observam em muitos dos museus

registrados pelo Projeto Valorização:

Art. 1º. Consideram-se museus, para os efeitos desta Lei, as

instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam,

comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação,

estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo,

conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico,

técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao

público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento

(BRASIL, 2009).

A comparação entre a última definição emanada pelo ICOM e aquela

registrada no Estatuto Brasileiro mostra mais semelhanças do que diferenças.

Talvez os pontos díspares mais significativos sejam que a definição do ICOM

menciona o patrimônio imaterial e o ambiental, que a instituição é permanente e

que pode adquirir patrimônio, além de preservá-lo. Por outro lado, a definição do

Estatuto identifica os valores que devem ser considerados (histórico, artístico,

científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural), para que os conjuntos

e coleções sejam salvaguardados pelos museus, e amplia as finalidades para as

quais se guarda o patrimônio nos museus - além da educação, pesquisa e

diversão, também previstas pelo ICOM, menciona a preservação, o estudo e a

contemplação.

O Estatuto também coloca, no artigo 6º, outra classificação, a de Coleção

Visitável, para a qual as exigências citadas para os museus na Lei não se

aplicam:

Art. 6º. Coleções visitáveis: conjuntos de bens culturais

conservados por uma pessoa física ou jurídica, que não

99


apresentem as características previstas no art. 1 o desta Lei, e

que sejam abertos à visitação, ainda que esporadicamente

(BRASIL, 2009).

Na prática, os espaços que não atendem às características previstas no

estatuto para designar-se museu passam a ser denominadas coleções visitáveis.

Em 17 de outubro de 2013, foi publicado o Decreto 8.124 (BRASIL, 2013), que

regulamenta dispositivos da referida Lei 11.904. Logo no segundo artigo, o

documento apresenta outras classificações importantes. Além de ratificar as

definições de museu e de coleção visitável, acrescenta outras: bens culturais;

bens culturais musealizados; bens culturais passíveis de musealização; centro de

documentação; degradação; destruição; inutilização e processo museológico.

Todas essas definições estabelecidas no decreto são de grande importância para

a elaboração de classificações dos conjuntos encontrados e registrados pelo

Projeto Valorização. Para a conclusão das análises propostas neste capítulo,

especificamente, é importante ressaltar seis delas:

Art. 2º Para fins desse Decreto consideram-se:

I - bens culturais - todos os bens culturais e naturais que se

transformam em testemunhos materiais e imateriais da

trajetória do homem sobre o seu território;

II - bens culturais musealizados - os descritos no inciso I do

caput que, ao serem protegidos por museus, se constituem

como patrimônio museológico;

III - bens culturais passíveis de musealização - bens móveis e

imóveis, de interesse público, de natureza material ou

imaterial, considerados individualmente ou em conjunto,

portadores de referência ao ambiente natural, à identidade, à

cultura e à memória dos diferentes grupos formadores da

sociedade brasileira;

V - coleção visitável - conjuntos de bens culturais

conservados por pessoa física ou jurídica que não

apresentem as características previstas nos incisos IX e X do

caput, e que sejam abertos à visitação, ainda que

esporadicamente;

IX - museu - instituição sem fins lucrativos, de natureza

cultural, que conserva, investiga, comunica, interpreta e

expõe, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação,

contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor

histórico, artístico, científico, técnico ou de outra natureza

cultural, abertos ao público, a serviço da sociedade e de seu

desenvolvimento;

X - processo museológico - programa, projeto e ação em

desenvolvimento ou desenvolvido com fundamentos teórico e

100


prático da museologia, que considere o território, o patrimônio

cultural e a memória social de comunidades específicas, para

produzir conhecimento e desenvolvimento cultural

socioeconômico (BRASIL, 2013).

Analisando as definições, percebe-se que o artigo trata tanto dos

elementos culturais quanto das instituições responsáveis por esses elementos

(que podem ser museus, ou não).

Tendo em vista a situação dos objetos de C&T nos conjuntos

apresentados, é indiscutível que todos são “bens culturais”, pois inegavelmente

são testemunhos materiais da trajetória do homem. Não só são bens culturais,

como também já foram transformados em museália (POMIAN, 1984), após

serem retirados da esfera econômica e de suas funções originais, tornando-se

algo que pode ser colecionado e documentado e que está submetido a uma

proteção especial. A priori, por estarem alocados em museus, estes conjuntos

poderiam ser considerados “bens culturais musealizados”, no entanto, a definição

de museu determinada na Lei nos mostra que nem todos os conjuntos devem ser

assim definidos. Como afirma Panese (2007), os objetos transformados em

museália possuem uma capacidade mutável de serem semióforos, isto é,

representar o que não está mais presente, o abstrato, estando essa capacidade

diretamente relacionada com as intervenções realizadas nesses conjuntos.

É necessário que sejam analisadas as ações às quais esses conjuntos

estão submetidos, para se ter certeza que podem ser classificados como

coleções museológicas - ou, de acordo com a Lei 8.124, como bens culturais

musealizados. E, no mesmo viés, analisar os espaços que se denominam

museus e que preservam esses conjuntos, pois podem não atender ao Estatuto e

assim não se caracterizarem como museus e sim, como coleções visitáveis. É

importante atentar para o fato de se tratar de uma classificação. Os locais que

não atendem a todos os aspectos relacionados no artigo primeiro do Estatuto

continuam podendo se auto-denominar “museu”, se assim desejarem 23 .

23 Em entrevista gentilmente cedida pelo ex-presidente do IBRAM, José Nascimento

Junior, aos autores deste capítulo, foi esclarecida a importância do Estatuto de Museus

apresentar diferentes conceitos para “Museu” e “Coleção Visitável”, como forma de

reconhecer a existência de todos os espaços museológicos na Lei, não estando as

instituições classificadas como “coleções visitáveis” obrigadas a modificar suas

denominações, e sim, que se sintam estimuladas a ampliar suas atividades e

características para alcançar o conceito de “museu”. Resumidamente, nas palavras de

101


Com base nas legislações e conhecendo a realidade dos museus

brasileiros, o que se supõe é que apenas uma pequena parcela dessas

instituições poderia ser classificada como tal, ficando a maior parte classificada

como “coleção visitável”.

Essa suposição se confirma ao analisar os museus registrados pelo

Projeto Valorização. A equipe verificou quais museus estão abertos ao público e

“conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem” suas coleções “para

fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo”, de

forma a poderem ser classificados “museus”, tal qual determina o artigo 1º do

Estatuto. Consideraram-se os locais que possuem reservas-técnicas

minimamente estruturadas e que executam ações de conservação preventiva,

como limpeza, controle ambiental, etc.; que pesquisam os seus acervos ou

elaboram ao menos uma documentação museológica (que necessita um olhar

analítico sobre os itens do acervo); que produzem e publicam resultados de

pesquisas sobre os acervos, e/ou catálogos, e/ou inventários, etc.; e que

elaboram exposições com fins educativos e/ou de entretenimento.

A maior parte não consegue executar todos esses aspectos de forma

sistemática, estando em estágios mais ou menos avançados no processo de

musealização. Ao tentar grupar os 127 museus registrados pelo Projeto nas

categorias definidas nas leis, chegou-se à conclusão que havia necessidade de

criar sub-classificações para as “coleções visitáveis”. A Tabela 1, a seguir, ratifica

as classificações apresentadas nas leis, acrescidas de outras desenvolvidas para

os espaços registrados.

Nascimento Junior: “A ideia do conceito de museu é um conceito a ser buscado, a ser

materializado. ‘Coleção visitável’ é uma coisa que não existia, não se falava no Brasil, é

algo que nós trouxemos da legislação catalã. O que importava não era o nome. Não existe

essa instituição, ‘coleção visitável’, existe só o museu. A gente fez essa diferenciação para

que pudesse abranger o campo todo dos museus. Porque se a gente só estabelecesse o

conceito de museu, 90% ou mais de 90% dos museus estariam fora. Para que a gente

dialogasse com o campo como um todo, nós fizemos uma diferenciação. Então todos

estão na lei, uns podem sair de coleção visitável e chegar a museu, mas todos estão

abrangidos pela lei. Nós estabelecemos um parâmetro para ser um caminho de busca.

Era uma perspectiva educativa, não uma perspectiva punitiva. Para que constituísse uma

forma educativa de parametrizar o museu. Se a gente olhar no decorrer da política de

museus, a gente vê que há uma busca dos museus de se fortalecer, mesmo os menores,

porque se estabeleceu um conjunto de capacitações, de formulações, de publicações. O

campo mudou muito nesses 12 anos, tem muito mais informação para as pessoas

poderem institucionalizar o seu museu de forma a cumprir com o Estatuto”.

102


Tabela 1 - Tabela com classificações para museus registrados pelo Projeto Valorização do

Patrimônio Científico e Tecnológico Brasileiro.

Classe 1 - Museus

Classe 2 -

Coleções

Visitáveis em

estágio avançado

Classe 3 -

Coleções

Visitáveis em

exibições

permanentes

Classe 4 -

Coleções

Visitáveis em usos

esporádicos

Classe 5 -

Conjuntos Inativos

Locais que cumprem todas as ações previstas no artigo 1º do Estatuto de Museus em

pelo menos parte do seu acervo, isto é, são “instituições sem fins lucrativos que

conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação,

estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor

histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao

público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento” (BRASIL, 2009).

Como previsto no artigo 6º do Estatuto de Museus, são “conjuntos de bens culturais

conservados por uma pessoa física ou jurídica, que não apresentem as características

previstas no art. 1 o desta Lei, e que sejam abertos à visitação, ainda que

esporadicamente” (BRASIL, 2009). São locais que executam parte das atividades

museológicas colocadas no artigo 1º do Estatuto. Encontra-se em andamento no

processo de musealização, mas ainda não cumprem todas as especificações da lei de

forma global.

Como previsto no artigo 6º do Estatuto de Museus, são “conjuntos de bens culturais

conservados por uma pessoa física ou jurídica, que não apresentem as características

previstas no art. 1º desta Lei, e que sejam abertos à visitação, ainda que

esporadicamente” (BRASIL, 2009). São locais que possuem coleções exibidas de forma

permanente, mas não há projeto expográfico e/ou educativo voltado para a socialização

dos bens. Podem apresentar inventários, ainda que de forma simplificada 24 .

Como previsto no artigo 6º do Estatuto de Museus, são “conjuntos de bens culturais

conservados por uma pessoa física ou jurídica, que não apresentem as características

previstas no art. 1º desta Lei, e que sejam abertos à visitação, ainda que

esporadicamente” (BRASIL, 2009). São locais que possuem coleções usadas de forma

esporádica, especialmente em exposições temporárias, para fins de comemoração,

educação e entretenimento; também podem ser utilizadas como conjuntos de objetos

demonstrativos em aulas ou mostras. Podem apresentar inventários, ainda que de

forma simplificada.

São conjuntos de bens culturais que não estão sendo alvo de nenhuma das ações

previstas para as instituições museológicas. Em geral, são locais que se encontram

inativos, ou fechados.

24 A equipe do projeto considerou inventariada as coleções que possuem ao menos uma

listagem com os nomes dos objetos pertencentes aquele acervo, de forma a minimamente

organizá-los.

103


A Figura 6, a seguir, apresenta o número de museus registrados pelo

Projeto por cada uma das classes identificadas na Tabela 1.

CLASSIFICAÇÃO DOS LOCAIS DENOMINADOS MUSEUS

6

0

5

0

4

0

3

0

2

0

1

0

0

2

9

5

6

2

4

Classes de espaços museológicos

1

1 7

Museu

s

Coleções visitáveis em estágio

avançado

Coleções visitáveis em exibição

permanente

Coleções visitáveis em uso

esporádico

Conjuntos de Objetos Inativos

Figura 6 - Classificação dos museus brasileiros registrados pelo Projeto Valorização do

Patrimônio Científico e Tecnológico Brasileiro.

Verifica-se que a maioria está na Classe 2, de coleções visitáveis em

estágio avançado de muselização. Dos 29 museus que estão na Classe 1, a

maioria está na região Sudeste, 21 museus, além de dois no Nordeste, quatro no

Sul e dois no Centro-Oeste. Em cinco desses museus, considerou-se que os

objetos de C&T possuem relevância internacional; 15 coleções de C&T foram

consideradas com relevância nacional; oito com relevância regional; e uma

coleção relevante em nível local.

Esses 29 museus Classe 1 correspondem a 23% do total de espaços

museológicos registrados e estão preservando cerca de 7.800 objetos de C&T, o

que corresponde a 39% do total de objetos identificados em museus. Em quatro

desses espaços, onde estão cerca de 200 objetos científicos, os conjuntos de

C&T ainda não estão totalmente musealizados, isso acontece porque eles não

fazem parte das tipologias principais do acervo da instituição. Assim, a instituição

é um museu como determina a lei, mas seu acervo não está igualmente tratado.

104


É importante salientar que ainda são poucos os museus que conseguem

executar todas as ações previstas no artigo 1º do Estatuto com o acervo inteiro,

especialmente aqueles que possuem coleções muito numerosas e de diferentes

tipologias. Portanto, há instituições que podem ser classificadas como museus,

mas possuem conjuntos de objetos ainda não musealizados. Obviamente,

existem diferentes níveis de intervenção museológica sobre esses acervos, mas

o fato é que estão em grande parte inventariados, bem conservados, participam

de ações educativas e são, mesmo que pontualmente, fonte de estudos

museológicos ou de outras áreas.

A porcentagem pode parecer surpreendente (39%), pois se sabe da

situação precária de muitos acervos museológicos no país, mas vale destacar

que nesse número estão inseridas algumas das principais e mais importantes

coleções de C&T brasileiras, com destaque para o Museu de Astronomia e

Ciências Afins, no Rio de Janeiro. Criado em 1985 com o antigo conjunto de

instrumentos e equipamentos científicos do Observatório Nacional e agregando

recentemente objetos de outras instituições, a coleção do MAST soma 2.200

objetos de C&T; o Museu das Telecomunicações no Rio de Janeiro, pertencente

à empresa de Telefonia Oi, que tem sob sua guarda o acervo do extinto Museu

do Telefone 25 , incluindo outras peças e somando cerca de 1050 objetos de C&T;

a Rede Museu da Energia, que possui cinco museus e duas usinas-parque no

estado de São Paulo, e preserva um grande acervo arquivístico, bibliográfico,

arquitetônico e museológico, proveniente de antigas estatais da área da energia

e saneamento, onde estão cerca de 870 objetos de C&T; o Museu Dinâmico de

Ciência e Tecnologia, da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, Minas

Gerais, responsável pela guarda, conservação, pesquisa e divulgação do acervo

documental e de aproximadamente 1.800 instrumentos históricos, técnicos e

científicos, do Departamento de Física e da Faculdade de Engenharia da UFJF; e

o Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas, da Universidade Federal de

Ouro Preto - UFOP, também em Minas Gerais, que iniciou seu acervo com uma

coleção de mineralogia do século XIX e hoje possui mais de 30 mil peças de

várias áreas do conhecimento, sendo em torno de 400 instrumentos científicos.

25 Proveniente das empresas Telecomunicações do Estado do Rio de Janeiro - Telerj e

Companhia Telefônica Brasileira - CTB.

105


Também estão na Classe 1 museus que possuem coleções de C&T

menores, mas que podem ter alguns dos objetos mais antigos e raros do país. É

o caso do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, cuja coleção possui

cerca de 170 objetos de C&T, dentre eles instrumentos científicos do século

XVIII; o Departamento do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, que

fica na reserva técnica da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, onde há cerca de 200

objetos de C&T que datam entre 1731 e 1950, incluindo remanescentes da

Guerra do Paraguai; e o Museu Náutico da Bahia, que possui um acervo com 65

instrumentos náuticos, contando com peças do século XIX, fragmentos de uma

luneta no século XVII e o primeiro previsor de marés da América do Sul.

Seguindo para a análise das 91 instituições classificadas como “coleções

visitáveis”, subdivididas em três grupos, observa-se que a maior parte está em

locais em estágio avançado no processo de musealização de suas coleções. Das

56 “coleções visitáveis em estágio avançado” (Classe 2), a maior parte, 40 delas,

já possui inventário, mesmo que simplificado, o que corresponde a 71% das

coleções. Mais uma vez, a maioria está na região Sudeste, 26 coleções, 11 estão

na região Nordeste, oito na região Sul, quatro na região Centro-Oeste e sete na

região Norte. Em 25 delas considerou-se que há objetos de C&T relevantes em

nível nacional, e ainda há oito coleções com relevância internacional, com

artefatos utilizados pelas Forças Armadas Brasileiras nas grandes guerras e

também objetos que participaram de pesquisas científicas de destaque

internacional. As coleções enquadradas na Classe 2 possuem 5.285 objetos de

C&T, com destaque para duas coleções provenientes de instituições de ensino

fundamental e médio, que vêm trabalhando na musealização de um conjunto

significativo de exemplares do ensino regular no Brasil.

O segundo tipo de coleção visitável, onde se inserem aquelas que estão

permanentemente exibidas (Classe 3), soma 24 coleções, divididas de forma

mais homogênea pelo país: há cinco no Sudeste, seis no Nordeste, seis no

Centro-oeste, quatro no Norte e três no Sul. Pouco mais que a metade delas, 13

coleções, possui inventário, mesmo que simplificado. Quanto à relevância, 11

conjuntos foram considerados relevantes regionalmente, mas ainda há oito

coleções com relevância nacional, e uma internacional, também se tratando de

objetos de C&T utilizados em guerras. A maior parte delas está em exibição

permanente em salas ou vitrines, sendo que nove coleções estão dentro de

institutos de pesquisa e oito no âmbito universitário. Em geral, nesses locais não

106


há interesse ou condições de avançar no processo de musealização, apenas o

intuito de salvar do descarte e colocar acessível ao olhar público, de forma que a

manutenção desses objetos não é garantida, pois geralmente está associada a

pessoas específicas. Também há coleções visitáveis Classe 3 que se intitulam

museus e são locais que lutam pela sua sobrevivência em meio à precariedade

de recursos financeiros e humanos.

Das 11 “coleções visitáveis com uso esporádico” (Classe 4), 10 estão em

instituições de ensino, sendo nove no âmbito universitário e uma no ensino

médio. Trata-se de coleções de objetos com valores científicos e históricos

reunidos para serem apresentados aos alunos em aulas ou exposições

temporárias, a maior parte deles pode ser manuseada. Sete coleções estão

inventariadas. Há cinco coleções com relevância nacional, por serem

provenientes de departamentos acadêmicos universitários muito antigos e que se

destacam na história do ensino científico brasileiro. O que se percebe é que o

uso demonstrativo tem sido argumento para a salvaguarda desses objetos.

Por fim, há sete locais denominados museus que não puderam ser

classificados nem como coleções visitáveis, pois não estão praticando nenhuma

das atividades museológicas, sendo descritos como conjuntos inativos (Classe

5). Cabe esclarecer que locais são esses: há dois museus que se encontram

fechados, sem previsão de reabertura, um na região Norte, outro na região

Nordeste do país. Há duas usinas, ambas na região Centro-Oeste, que, apesar

de serem reconhecidas como patrimônio cultural e possuírem centenas de

objetos de C&T, estão abandonadas, não havendo recursos financeiros e

humanos para elaborar atividades nos locais; e, por fim, há 3 instituições, duas

militares, na região Sudeste, e uma universitária, na região Sul, que reuniram

objetos de valor histórico e científico, mas ainda não conseguiram iniciar o

processo de musealização desses conjuntos. Ainda que não sejam coleções

pelos critérios estabelecidos pelo Projeto, a maior parte desses conjuntos está

acessível para quem tiver interesse em conhecê-los.

A partir da análise dos 127 espaços museológicos registrados pelo

Projeto Valorização, pode-se concluir que a atividade menos evidente é a da

pesquisa museológica. Poucos museus investigam o seu acervo; alguns

produzem inventário museológico, o que pode não exigir propriamente uma

pesquisa. A produção de catálogos e fichas museológicas é ainda menor, e

107


considerando pesquisas mais aprofundadas, com uso de outras documentações

e metodologias, chega-se a pouquíssimas instituições.

O afastamento entre os museus e a pesquisa é ponto de debate para

autores da área, e particularmente interessante, pois no Brasil os estudos

científicos tiveram início nos Museus de História Natural e Jardins Botânicos no

século XIX; que eram museus e institutos de pesquisa simultaneamente. Nesses

locais eram realizadas pesquisas de ponta e as ciências naturais e humanas

consolidaram-se como disciplinas autônomas (SANJAD, 2007, p. 126). Essa

relação foi estreita até o início do século XX, quando o desenvolvimento das

universidades e a criação de instituições de pesquisa acabaram por tornar a

relação entre museus e produção científica menos evidente, o que não quer dizer

que a pesquisa deixou de ser um dos objetivos do Museu.

Outro aspecto que tem relação com a variedade de locais denominados

museus é o fenômeno observado a partir das últimas décadas do século XX,

concomitante com o grande número de criações de museus. Trata-se da

ampliação do uso do termo “museu” a situações e ambientes cada vez mais

diversos. Além da relativização do que pode ser musealizado, como territórios,

paisagens, cidades e ambientes virtuais, o termo vem sendo usado para coleção,

exposição, galeria e memorial, palavras de uso similar, mas com significados

específicos (SANJAD, 2007, p. 128). Sanjad considera que o alargamento do

termo contribui para o afastamento entre museus e pesquisas científicas. Nas

palavras do autor:

Podemos supor que a multiplicação numérica e tipológica de

museus (incluindo os que não têm acervo), simultaneamente

à ampliação de significados da palavra museu, verificadas ao

longo do século XX, vem contribuindo para que esse tipo de

instituição seja cada vez mais identificado com a salvaguarda

de patrimônio e / ou com espaço para o ensino não formal, e

não com a pesquisa científica propriamente dita (SANJAD,

2007, p. 128).

Fica claro que nem todas as instituições que se propõem a ser museus,

ou que assim se intitulam, conseguem se enquadrar nessa classificação. Essa

impossibilidade pode ter uma série de causas: a falta de recursos financeiros e

humanos; a falta de espaço adequado; a falta de prioridade na instituição à qual

estão vinculados; e inclusive a falta de interesse em praticar todas as ações que

108


deveriam ser primordiais nos museus, limitando-se a salvar do descarte peças

consideradas importantes e possibilitando o acesso ao público.

Ainda que esses locais não possam ser classificados como museus, em

muitos casos essa denominação torna-se importante para o reconhecimento

institucional e, muitas vezes, para a própria sobrevivência do espaço. Essa

situação se verifica, algumas vezes, especialmente no âmbito da Ciência e

Tecnologia, mesmo em museus estabelecidos e que realizam as atividades

previstas na lei, mas que, normalmente por razões relacionadas ao

desconhecimento do que vem a ser um Museu na contemporaneidade, ainda são

consideradas como “lugar de coisas velhas”.

4. O Papel do Museu de Astronomia e Ciências Afins para a Preservação do

Patrimônio Cultural de C&T

Como já anteriormente mencionado, o MAST é um dos poucos exemplos

de museu de ciência e tecnologia (C&T) na América Latina. Suas origens

institucionais remontam ao Projeto Memória da Astronomia e Ciências Afins -

PMAC (RE 130/82 de 11/10/1982), desenvolvido no âmbito do Observatório

Nacional, que tinha como objetivos o lançamento das bases para a criação de

um museu de ciências voltado para a preservação, para a pesquisa histórica e

para a formação de recursos pedagógicos, além de elaborar um projeto para a

preservação da memória científica brasileira.

Em um segundo momento, surge como Núcleo de Pesquisa em História

da Ciência (04/12/84), cuja coordenação era diretamente ligada ao Conselho

Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com ênfase em

pesquisas em história da ciência no Brasil e onde surgem as primeiras iniciativas

para a criação do MAST. Como já mencionado, institucionalizado em 1985, o

MAST vincula-se, a partir de setembro de 1999, diretamente ao Ministério da

Ciência e Tecnologia; suas atividades, desde a concepção original, têm sido

direcionadas para a preservação, pesquisa e divulgação do patrimônio a partir do

seu acervo, constituído por coleções museológicas, arquivos históricos de

instituições científicas e de cientistas brasileiros e edificações de importância

para a história das ciências, além de coleções especiais de cunho bibliográfico.

109


Em seus 30 anos de existência, o MAST passou por momentos de crise

e momentos de grande desenvolvimento e apresenta como missão institucional:

“Ampliar o acesso da sociedade ao conhecimento científico e tecnológico por

meio da pesquisa, preservação de acervos e divulgação da história da ciência e

tecnologia no Brasil.”

É guardião de um valioso patrimônio, tanto no que se refere a edificações

históricas, quanto a fundos arquivísticos de cientistas e instituições científicas,

coleções bibliográficas e objetos, especialmente instrumentos científicos, que são

testemunhos da história das ciências do Brasil. De forma surpreendente, esses

artefatos não foram, em sua maioria, descaracterizados através de

modernizações, típicas das áreas das ciências e da tecnologia, onde o

instrumento mais recente, o mais exato, é sempre o objeto de interesse dos

pesquisadores. No campus do MAST, encontramos instrumentos científicos de

grande porte, alocados em seus pavilhões astronômicos de origem, sem que a

eletrônica tenha transformado as características originais de utilização desses

objetos do final século XIX e início do XX.

O acervo museológico, parte desse patrimônio e com relação mais direta

com o tema desse capítulo, é formado por esculturas, equipamentos fotográficos,

instrumentos científicos, máquinas e motores, máquinas de escrever e mobiliário.

Destaca-se no conjunto a coleção de objetos de C&T 26 que caracteriza o museu

como de ciência e técnica. Contando com mais de 2.200 objetos, é das mais

representativas e significativas de seu gênero, sendo formada, em sua maioria,

por instrumentos adquiridos pelo Imperial Observatório entre 1850 e 1930, nas

áreas de astronomia, ótica, cálculo e desenho, eletricidade, geodésia, metrologia,

meteorologia, medição do tempo e etc. A partir desse núcleo original, o Museu

tem coletado objetos provenientes da segunda metade do século XX e de áreas

como a engenharia nuclear e a tecnologia mineral e que eram pertencentes a

institutos de pesquisa do MCTI, como o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), o

26 Os objetos mais facilmente identificados ao patrimônio cultural de C&T são os

denominados instrumentos científicos, pois fizeram parte das atividades realizadas em

laboratórios científicos e de tecnologia aplicada. No entanto, instrumento científico é um

termo complexo e que só se aplica em período histórico determinado (século XIX e início

do século XX). De forma mais geral, utilizar-se-á objetos de ciência e tecnologia, como

termo mais geral e que engloba a variedade de artefatos considerados nesses estudos

(GRANATO et al., 2007a).

110


Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Física

(CBPF).

As coleções museológicas do MAST começaram a ser trabalhadas

sistematicamente a partir de 1993, quando foi iniciado o registro e a conservação

dos objetos seguindo padrões internacionais. Até o momento, foram publicados

dois inventários, sendo o primeiro em 2000 e o segundo em 2011, ambos

produzidos a partir do registro em software específico. Os objetos estão

disponibilizados na internet 27 , juntamente com a coleção digitalizada de catálogos

de fabricantes 28 . Maiores detalhes sobre o processo de documentação dessa

coleção podem ser obtidos no Capítulo A documentação dos acervos científicos

e tecnológicos e o MAST: uma história a partir das memórias. A Figura 7, a

seguir, apresenta imagens de alguns objetos desse acervo.

Quanto ao acervo documental em suporte papel, constituído inicialmente

com os documentos oriundos principalmente do antigo Conselho Nacional de

Pesquisas (CNPq), o MAST vem praticando uma política de coleta através de

doações de cientistas e instituições científicas, abarcando principalmente as

áreas relacionadas às ciências exatas e da natureza e à tecnologia. Do seu

acervo constam fundos institucionais e pessoais de cientistas que tiveram

importante participação na consolidação da ciência brasileira. Os documentos se

encontram em diferentes suportes, caracterizados como textuais, iconográficos,

sonoros, impressos e tridimensionais. Esse conjunto tem crescido de forma

ininterrupta e também está, em grande parte, disponibilizado na internet na

página do MAST, na base de dados Zenith 29 , do Arquivo de História da Ciência -

AHC do MAST. A base apresenta a descrição dos documentos, em nível dos

dossiês, dos fundos arquivísticos sob a guarda do AHC já organizados,

inventariados e abertos à consulta.

27 Disponível em: .

Acesso em: 13 abr. 2015.

28 Disponível em: . Acesso em: 13 abr.

2015.

29 Disponível em: . Acesso em: 13 abr.

2015.

111


Figura 7 - Imagens de objetos do acervo museológico do Mast, computador (2007/1897

a - computador, 2007/1897 b - teclado), magnetômetro (1998/1003) e espectroscópio de

laboratório (1997/914) (Acervo MAST, fotos: Jaime Acioli, 2010).

Como apoio para a preservação de seus acervos, foram organizados

dois espaços de conservação que evoluíram para laboratórios com o decorrer do

tempo. Em 2004, o MAST formalizou o Laboratório de Conservação e

Restauração em Papel (LAPEL), em atividade desde o início da instituição, em

1985. Em 2012, formaliza o Laboratório de Conservação de Objetos Metálicos

(LAMET), que funcionava desde 1995 como oficina de conservação da coleção

museológica. Esse espaço centraliza as ações de conservação realizadas para a

coleção de objetos de C&T do Museu, incluindo algumas iniciativas de

restauração de instrumentos científicos (GRANATO & MIRANDA, 2011;

GRANATO et al., 2007b; GRANATO et al., 2005), além de abrigar projetos de

pesquisa, como o que estuda a conservação de coleções científicas

arqueológicas de artefatos metálicos.

Um terceiro laboratório, o Laboratório de Inovação de Recursos

Educacionais - LIRE é formalizado em 2013 e objetiva conceber, produzir e testar

protótipos de novos materiais pedagógicos, tais como jogos, filmes, multimídias,

kits de experiências e aparatos para exposições e atividades desenvolvidas em

museus de ciências.

Esses espaços se tornaram locais privilegiados para aulas práticas dos

cursos e pós-graduações em que o MAST participa e para o desenvolvimento de

projetos de pesquisa aplicada. A Figura 8, apresentada a seguir, apresenta

imagens dos laboratórios de conservação de papel (LAPEL) e de objetos

metálicos (LAMET) do MAST.

112


Figura 8 (a e b) - Imagens do LAPEL e do LAMET, respectivamente (Acervo MAST,

2014).

O trabalho de preservação desenvolvido em torno do patrimônio de C&T

pelo MAST o torna referência, no Brasil, na sua área de atuação. De forma a

poder contribuir para a preservação desse patrimônio em outras instituições, o

MAST vem desenvolvendo parcerias que têm por objetivo identificar acervos de

interesse, registrar esses objetos, sensibilizar profissionais no sentido de

preservar o patrimônio in situ ou, quando não é possível, receber objetos por

doação para salvamento de acervos ameaçados. A partir da experiência

desenvolvida no auxílio a uma série de instituições, o MAST passa a desenvolver

diversos projetos de pesquisa científica ou aplicada que se articulam num

Programa de Preservação do Patrimônio Cultural de C&T. Nele se insere o

levantamento nacional de conjuntos de objetos que fazem parte do patrimônio

cultural de C&T aqui abordado (GRANATO et al., 2014), a elaboração de um

Thesaurus de Acervos Científicos em Língua Portuguesa (GRANATO et. al.,

2013); um projeto para refletir sobre a Musealização como Processo

Informacional, em especial para acervos de C&T; um projeto para a digitalização

dos arquivos sob guarda da instituição, dentre outros

A preservação de acervos não se justifica em si, assim, com vistas a

contribuir para o processo de socialização dos acervos de C&T, de

esclarecimento e de formação de pessoal, o MAST realiza exposições variadas,

programas e atividades de educação científica em vários níveis. Além disto, esta

113


desenvolvendo, em parceria com a Universidade Federal do Estado do Rio de

Janeiro (Unirio), os primeiros cursos de mestrado e doutorado em Museologia e

Patrimônio no Brasil 30 . Nesse caso, constituiu-se um núcleo de produção de

conhecimento sobre o patrimônio cultural de C&T que singulariza este Programa

de Pós-Graduação mundialmente.

Mais especificamente relacionado aos acervos de ciência e tecnologia, o

museu teve aprovado pela CAPES um projeto de mestrado profissional sobre

“Preservação de Acervos da Ciência e da Tecnologia” 31 , que foi iniciado em

março de 2015, fruto de um curso de especialização que formou, com sucesso, 5

turmas consecutivas (2009-2013).

Ainda no sentido de estimular a preservação do patrimônio científico e

tecnológico brasileiro, o MAST desenvolve como já citado, uma série de

atividades que poderiam ser sustentáculo para uma política nacional de proteção

e salvaguarda desse patrimônio. Além disso, através de suas expertises, o

Museu pode dar subsídios para uma política que estimule a criação de museus

de C&T no país, item importante para a preservação do patrimônio cultural de

C&T brasileiro.

A partir das diversas parcerias que desenvolve para auxiliar instituições

na preservação de seus acervos e dos projetos onde pesquisa o patrimônio de

C&T, o MAST pode estabelecer critérios para reconhecimento e seleção desse

patrimônio e medidas para sua preservação. Dessa forma, assumiria

formalmente o papel de Museu Nacional de Ciência e Tecnologia, que de fato é,

e poderia se constituir no nódulo central de uma rede de museus de C&T e

centros de memória regionais que, por um lado, preservariam o patrimônio

cultural de C&T in situ e, por outro, auxiliariam as escolas na realização de

atividades diversificadas de divulgação científica.

5. Considerações Finais

Os estudos sobre o patrimônio cultural de Ciência e Tecnologia (PCC&T)

no Brasil tem se diversificado nos últimos dez anos e produzido conhecimentos

que permitem hoje avaliar melhor a sua situação, especialmente em relação à

30 Disponível em: . Acesso em: 15 abr. 2015.

31 Disponível em: . Acesso em: 15 abr. 2015.

114


sua existência e condições de preservação. O MAST é precursor nesses estudos

e a colaboração institucional com a UNIRIO, para o desenvolvimento do

Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, tem contribuído

significativamente para esse panorama positivo. Por outro lado, percebe-se

também que ainda existem poucos pesquisadores no país que se debruçam

sobre esse tipo de patrimônio 32 . A situação é bastante similar àquela percebida

em outros países da Europa e nos EUA, mas em melhor estágio do que o que se

encontra nos demais países latino-americanos.

As análises realizadas nesse capítulo se debruçaram sobre os museus e

espaços que preservam conjuntos de objetos de C&T e é inegável seu papel

importante para a existência hoje de remanescentes materiais do PCC&T. Esse

panorama é diverso daquele verificado em outras instâncias institucionais,

especialmente no âmbito universitário, onde se verifica um descaso e mesmo

desconhecimento da existência e do valor do PCC&T.

A proposta de classificação aqui apresentada para os espaços

museológicos que preservam o PCC&T não tem por objetivo desqualificar

aqueles que não se inserem na Classe1 (museus), mas problematizar e

esclarecer resultados produzidos a partir da realidade existente no país.

Pretende também alertar para a complexidade e variedade de situações que

foram identificadas nos levantamentos realizados pelo Projeto Valorização,

especialmente no âmbito dos denominados museus, que são espaços

privilegiados na salvaguarda do PCC&T. Pretende-se assim alertar os

interessados no tema e as instituições que têm a guarda desses conjuntos, para

que estabeleçam políticas específicas de apoio à preservação desse patrimônio

e, especialmente, que reconheçam a importância dos chamados 'museus' e os

apóiem nessa tarefa.

A classificação e os resultados de sua aplicação no universo de dados

produzidos pelo Projeto Valorização mostram que a maioria (62%) das coleções

visitáveis registradas está em situação avançada para ser alçada à Classe1

32 Há que se ressaltar a nucleação de um grupo de interessados no tema na Universidade

Federal de Pernambuco, que inclusive realiza eventos de forma regular (Seminários de

Gestão do Patrimônio Cultural de Ciência e Tecnologia que, em 2015, está em sua

terceira edição).

115


(museus) e que talvez uma pequena ampliação do apoio de suas mantenedoras

poderá trazer uma mudança sensível de atuação.

Percebe-se também que a relevância da maioria dos conjuntos

existentes nos espaços museológicos registrados é de âmbito nacional ou

internacional, o que reforça e mesmo justifica a presença dos mesmos nesses

locais. Finalmente, cabe ressaltar a importância de constituir áreas de pesquisa

nesses espaços, pois essa atividade foi identificada como a menos realizada

dentro do universo pesquisado no Projeto Valorização e, acredita-se, isso pode

ser extrapolado para o universo de museus brasileiros. É fundamental, portanto,

que políticas públicas estimulem o desenvolvimento de pesquisas nos museus e

a titulação dos profissionais que ali trabalham, de forma a constituir núcleos de

produção de conhecimento nesses locais, alavancando atividade que lhes é

inerente.

Finalmente, foi claramente caracterizado o papel determinante exercido

pelo MAST no sentido de preservar e apoiar a salvaguarda de bens integrantes

do PCC&T no país e seu alcance nacional. As experiências desenvolvidas na

instituição constituem um corpo de informações que podem servir de base para o

estabelecimento de políticas de estado na área.

Agradecimentos

Os autores agradecem os apoios do Conselho Nacional de

Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq e da Fundação Carlos Chagas

de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ para o

desenvolvimento das pesquisas, sem os quais teria sido impossível realizar o

projeto de pesquisa cujos resultados foram aqui apresentados.

Referências

BRASIL. Decreto nº 8.124, de 17 de outubro de 2013. Regulamenta dispositivos

da Lei nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009, que institui o Estatuto de Museus, e

da Lei nº 11.906, de 20 de janeiro de 2009, que cria o Instituto Brasileiro de

Museus - IBRAM. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 out. 2013.

______. Lei nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009. Institui o Estatuto de Museus e

dá outras providências. Brasília, 14 jan. 2009.

116


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119


Previsor de Marés (1994/0356), acervo MAST (Foto: Jaime Acioli, 2010).

120


OBJETO, INFORMAÇÃO E MATERIALIDADE: ESBOÇO DE UMA

PESQUISA EM CURSO

Maria Lucia de Niemeyer Matheus Loureiro *

1. Introdução

O Capítulo que se segue sintetiza algumas das principais questões do

projeto de pesquisa intitulado “Musealização como Processo Informacional”, em

desenvolvimento desde 2011 no Museu de Astronomia e Ciências Afins - Mast,

no âmbito da Coordenação de Museologia. O projeto busca contribuir para as

reflexões sobre processos de musealização a partir de uma perspectiva

informacional e com ênfase nos domínios da Ciência e Tecnologia.

A pesquisa vem sendo desenvolvida principalmente por meio de estudos

de caso e as reflexões resultantes enfatizam a dimensão informacional dos

processos de musealização e, por conseguinte, a noção de documento.

Confrontando abordagens aos conceitos de objeto musealizado e de documento,

a pesquisa se apoia em autores oriundos de diferentes áreas, entre as quais

Museologia e Ciência da Informação, além de estudos de cultura material.

Os estudos de cultura material abordam o mundo das coisas materiais

como uma das forças que constituem a sociedade e desempenham um papel

mnemônico que não se limita a aspectos puramente simbólicos. Em outras

palavras, objetos não são meros elementos do mundo, subordinados

exclusivamente à experiência e interpretação do sujeito pensante (JONES, 2007,

p. 6). Para Christopher Tilley, a cultura material é um meio de comunicação e

estruturação envolvido na prática social, passível de ser usado para transformar,

armazenar e preservar informação social. Pode ser abordada como “uma espécie

* Museóloga pelo Museu Histórico Nacional, Mestre e Doutora em Ciência da Informação

pelo IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia / UFRJ -

Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência nas áreas de Museologia e

Ciência da Informação. Atua no Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST/MCTI,

onde desenvolve pesquisas relacionadas a processos de musealização e é docente

permanente do Mestrado Profissional em Preservação de Acervos de Ciência e

Tecnologia.

121


de texto, uma forma silenciosa de escrita e discurso; literalmente um canal para

expressão de práticas reificadas e objetificadas” (TILEY, 1994, p. 70).

Tais estudos servem para balizar a pesquisa e sinalizar que, quando

abordamos musealização como processo informacional e objetos musealizados

como documentos, não estamos aderindo à ideia bastante difundida de que

museu é exclusivamente sobre informação e que o objeto é uma pequena parte,

nem sempre essencial, dessa “cultura informacional” (DUDLEY, 2010, p. 3) 1 . A

abordagem que propomos parte de uma perspectiva material e concreta da

informação. No objeto visto e tratado como documento, suporte e informação são

inseparáveis: sua materialidade essencial não permite simples operações de

“extração” de informação e transferência para outras mídias, tal como ocorre com

a reprodução de documentos escritos por diferentes meios. O registro de um

objeto gera sempre e inevitavelmente um documento de outra ordem, que não o

substitui e tem propósitos operacionais.

A musealização é abordada, ainda, como estratégia de preservação.

Embora admitindo o caráter seletivo das práticas de salvaguarda, que eliminam

no mesmo movimento partes do passado que se propõem a preservar, Tilley

(2006, p. 24) observa que o esquecimento do passado é um processo inevitável

a menos que traços materiais tenham sido preservados. É a partir dessa

perspectiva que buscamos contribuir para as reflexões sobre processos de

musealização - tema que, embora não seja novo, apresenta ainda trilhas

inexploradas.

2. O Objeto Musealizado: limites e estratégias

Introduzido na Museologia por Stransky (cf. BARAÇAL, 2008), o termo

musealização designa, segundo Desvallées e Mairesse (2010, p. 48), “a

operação destinada a extrair, física e conceitualmente, uma coisa de seu meio

natural ou cultural de origem e a lhe dar um estatuto museal, transformá-lo em

musealium ou museália”.

Por meio de estudos de caso, a pesquisa vem buscando explorar a

extensão do conceito de objeto musealizado e as diferentes estratégias de

musealização. Esta, por sua vez, deve ser compreendida como:

1 Ver considerações finais.

122


... um conjunto de processos seletivos de caráter infocomunicacional

baseados na agregação de valores a coisas

de diferentes naturezas às quais é atribuída a função de

documento, e que por esse motivo tornam-se objeto de

preservação e divulgação. Tais processos, que têm no museu

seu caso privilegiado, exprimem na prática a crença na

possibilidade de constituição de uma síntese a partir da

seleção, ordenação e classificação de elementos que,

reunidos em um sistema coerente, representarão uma

realidade necessariamente maior e mais complexa

(LOUREIRO, 2012a, 2012b).

A seleção de casos para estudo levou em consideração a extensão do

conceito de objeto musealizado 2 . Como assinala Samuel Alberti (2005, p. 561), a

noção de objeto de museu compreende virtualmente elementos de diferentes

naturezas, oriundos de diferentes domínios: ele pode ser “artificial ou natural,

morto ou vivo, humano ou animal, orgânico ou inorgânico, único ou

representativo”. A extensão do conceito é bem exemplificada pela definição de

cultura material formulada por James Deetz:

Cultura material é usualmente considerada, grosso modo,

como sinônimo de artefato, o vasto universo de objetos

usados pela espécie humana para enfrentar o mundo físico,

facilitar as relações sociais e beneficiar nosso estado mental.

Uma definição um pouco mais ampla, útil para enfatizar quão

profundamente nosso mundo é produto de nossos

pensamentos, é: aquele setor de nosso ambiente físico que

modificamos por meio de comportamento culturalmente

determinado. Essa definição inclui todo e qualquer artefato,

do mais simples, como um alfinete ordinário, ao mais

complexo, como um veículo espacial interplanetário (DEETZ,

1996, p. 35, tradução nossa).

A seleção de casos para análise considerou não apenas aspectos

genéricos dos objetos, mas, igualmente, seu caráter individual. Ingetraut

Dahlberg distingue, em sua “Teoria do Conceito”, os objetos gerais e individuais:

Toda vez que o objeto é pensado como único, distinto dos

demais, constituindo uma unidade inconfundível (coisas,

fenômenos, processos, acontecimentos, atributos, etc.) podese

falar de objetos individuais. Pode-se dizer que o que

caracteriza os objetos individuais é a presença das formas do

2 A extensão de um conceito consiste na totalidade dos objetos que compreende (cf.

FERRATER MORA, 2004).

123


tempo e espaço. Os objetos individuais estão aqui e agora.

[...] Não sabemos, ou não temos experiência de como

possam existir seres individuais fora do tempo e do espaço.

Podemos dizer, utilizando a linguagem kantiana, que nossa

experiência é toda condicionada pelas formas do tempo e do

espaço ou que tempo e espaço são condições “a priori” da

nossa sensibilidade (DAHLBERG, 1978, p. 101-102).

Essa distinção é significativa uma vez que objetos são simultaneamente

genéricos e específicos. Do ponto de vista genérico, são representativos de um

universo mais amplo, constituído por um conjunto indeterminado de objetos

presentes ou ausentes. Nessa medida, um exemplar de pau-brasil preservado

em um jardim botânico remete, em sua materialidade, a uma abstração: a

espécie Caesalpinia echinata, que engloba todos os exemplares que existem ou

já existiram da planta em qualquer lugar do mundo. O mesmo vale para

espécimes de pássaros vivos ou taxidermizados em zoológicos ou museus de

história natural; para lunetas, cronômetros ou teodolitos em museus de ciência e

tecnologia. Só temos acesso, entretanto, aos objetos individuais (o espécime, o

exemplar): os objetos gerais (a espécie, o gênero, a família, a classe) são

construções mentais. É primeiramente em sua especificidade que se pode dirigir

aos objetos musealizados.

Esta constatação lógica determinou a opção pelos estudos de caso. A

escolha metodológica deveu-se ao caráter subjetivo do objeto de estudo,

impregnado de valores humanos, e pela necessidade de analisar um fenômeno

que é, essencialmente, inseparável de seu contexto. Os casos analisados não

têm como objetivo único ilustrar de modo descritivo questões teóricas

previamente desenvolvidas, mas sim alimentar a análise e a reflexão teórica,

levantar questões e formular proposições a serem discutidas e aprofundadas. A

seleção dos casos buscou explorar a extensão do conceito de objeto

musealizado, utilizando como pano de fundo a já mencionada referência a

Samuel Alberti 3 . Entre outros, já foram realizados estudos sobre um previsor de

marés (cf. SANTOS; LOUREIRO, 2012) e um cronômetro de Marinha, ambos

pertencentes ao MAST, um chimpanzé que nasceu e viveu no Zoo do Rio (o

popular Macaco Tião) e hoje tem seu esqueleto preservado no Centro de

3 O objeto de museu pode ser “artificial ou natural, morto ou vivo, humano ou animal,

orgânico ou inorgânico, único ou representativo” (ALBERTI, 2005, p. 561-562).

124


Primatologia do Rio de Janeiro - CPRJ 4 , a Palma Filia, exemplar de palmeira

pertencente às coleções vivas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (cf.

LOUREIRO et al., 2013), um celóstato (cf. LOUREIRO, ALMEIDA, 2013;

LOUREIRO et al., 2014), além de espaços, como o sítio arqueológico

“Itacoatiaras do Ingá” (Paraíba) (cf. LOUREIRO et al., 2012) e a “Pedra do Sal”,

na região portuária do Rio de Janeiro (cf. LOUREIRO, 2014).

Os casos analisados contemplam, também, diferentes estratégias de

musealização / preservação. Peter Van Mensch (1992) enumera diferentes

possibilidades de musealização, das quais destacamos:

- in situ : o objeto é preservado em seu espaço/contexto original;

- ex situ : o objeto é separado de seu espaço/contexto original;

- funcional: o objeto mantém as funções originais, de forma sustentável;

- não-funcional: o objeto não mantém as funções originais.

Além das estratégias enumeradas acima, Mensch menciona ainda a

possibilidade de “preservação indireta”, por documentação, que não será

abordada neste texto por não contemplar seus objetivos. O autor estabelece,

ainda, uma crítica à preservação ex situ não funcional, que qualifica como

“morta”, uma vez que, com a completa perda da função original, a conservação

restringir-se-ia às propriedades físicas. Ainda que discorde dessa posição, não é

possível omiti-la sem distorcer o sentido do texto.

É possível, entretanto, confrontar algumas das críticas à preservação não

funcional ex situ com as idéias de “centro de cálculo” e de “produção de

informações”, em que Bruno Latour ressalta o importante papel da formação de

coleções para o empreendimento científico. A abordagem enfatiza a informação -

definida como aquilo que “os membros de uma expedição devem levar, na volta,

para que um centro possa fazer uma ideia de outro lugar” (2000, p. 23). Não se

trata de “uma forma, no sentido platônico do termo”, mas sim de uma relação (de

caráter prático e material) entre dois lugares que se estabelecem como centro e

periferia, e que permite ao primeiro uma ação à distância em relação ao

segundo. Nas palavras do autor:

4 Localizado no Município de Guapimirim (RJ), o CPRJ tem como missão a conservação

da fauna primatológica e realiza estudos, manutenção e reprodução das espécies de

primatas da Mata Atlântica, em regime de cativeiro.

125


A produção de informações permite, pois, resolver de modo

prático, por operações de seleção, extração, redução, a

contradição entre a presença num lugar e a ausência desse

lugar. Impossível compreendê-la sem se interessar pelas

instituições que permitem o estabelecimento dessas relações

de dominação, e sem os veículos materiais que permitem o

transporte e o carregamento. O signo não remete de início a

outros signos, e sim a um trabalho de produção tão concreto,

tão material quanto a extração de urânio ou de antracito [...]

(LATOUR, 2000, p. 24).

Uma das críticas mais recorrentes à musealização ex situ é a redução

(ou morte, segundo Mensch) que se opera no ato de subtração do contexto

original do objeto. Essa questão é abordada por Latour como uma via de mão

dupla: o movimento de redução (do ponto de vista do indivíduo, exemplar,

espécime) é compensado por outro, de amplificação (da informação, do ponto de

vista do conjunto). Esse duplo movimento é ilustrado por uma coleção de

pássaros empalhados em um museu de história natural. Vista por esse enfoque,

as coleções e, por extensão, os museus, tornam-se elementos indispensáveis ao

desenvolvimento da Ornitologia. A morte de cada ave é compensada pelo

conhecimento científico que se ganha a partir de uma reunião artificial que

possibilita uma visada sinótica e sincrônica:

[...] Em comparação com a situação inicial, em que cada ave

vivia livremente em seu ecossistema, que perda considerável,

que diminuição! Mas, em comparação com a situação inicial,

em que cada ave voava invisível na confusão de uma noite

tropical ou de um amanhecer popular, que ganho fantástico,

que aumento! O ornitólogo pode então, tranquilamente, em

local protegido, comparar os traços característicos de

milhares de aves tornadas visíveis pela imobilidade, pela

pose, pelo empalhamento. O que vivia disperso em estados

singulares do mundo se unifica, se universaliza, sob o olhar

preciso do naturalista. Impossível, é claro, compreender este

suplemento de precisão, de conhecimento, sem a instituição

que abriga todas essas aves empalhadas, que as marca por

um fino jogo de escrita e de etiquetas, que as classifica por

um sistema retificável de prateleiras, de gavetas, de vitrines,

que as preserva e as conserva borrifando-as com inseticida

[...] (LATOUR, 2000, p. 25-26).

Ao lançar luz sobre os museus de história natural, com suas coleções de

animais taxidermizados, Latour lhes confere grandeza e importância pouco

126


exploradas pelos estudiosos dos museus: trata-se de instituições imprescindíveis

para os estudos taxonômicos, e que permitiram o avanço do conhecimento

científico nas áreas de suas coleções. A crítica de Mensch, entretanto, contempla

toda a extensão do conceito de objeto musealizado, não se restringindo aos

animais e outros seres vivos, exemplificados pela citação de Latour, para quem o

qualificativo “morto” pode ser aplicado de forma literal. A acusação é dirigida

igualmente à preservação de artefatos criados pelo homem que, privados da

função original e afastados de seu contexto espacial, estariam metaforicamente

“mortos”: apenas estratégias de preservação funcional / in situ seriam capazes

de mantê-los “vivos”.

Essa questão é abordada por Martin Heidegger (1992, p. 34) em um

estudo dedicado à obra de arte. Para o filósofo, a transferência de uma obra para

uma coleção arranca-a de seu espaço essencial, mas evitar esse deslocamento

não impede a ruína e a subtração do mundo da obra, que é inevitável e

irreversível. Podemos aplicar a mesma lógica aos objetos em geral, cuja

musealização implica, indiscutivelmente, em redução. A preservação in situ,

funcional (ou ambas), entretanto, não são antídotos contra a ruína do contexto

espacial e funcional do objeto, irremediavelmente perdido. Nesse sentido, toda

estratégia expositiva voltada a contextualizar o objeto é sempre uma pálida

referência ao seu contexto original. O ganho obtido com coleções de artefatos,

no entanto, é comparável ao do ornitólogo diante de sua coleção de aves. A

reunião sinótica e sincrônica de exemplares dispersos no tempo e no espaço

permite a estudiosos ver o que de outra forma estaria invisível.

Em relação à preservação funcional in situ, considerada, sobretudo,

como “viva” (cf. MENSCH, 1992), merece menção especial à crítica dirigida por

Jean Baudrillard (1991) ao ecomuseu de Creusot - caso emblemático da referida

estratégia - citado como exemplo extremo de simulação 5 por ter “museificado” em

seu espaço original...

[...] como testemunhas ‘históricas’ de sua época, bairros

operários inteiros, zonas metalúrgicas vivas, uma cultura

completa, homens, mulheres, crianças incluídos – gestos,

5

Segundo Baudrillard (1991, p. 13-15) a simulação que caracteriza a cultura

contemporânea manifesta-se pela substituição do signo pelo real. A simulação, para o

autor, opõe-se à representação, e parte do “princípio da equivalência do signo e do real” e

do “aniquilamento de toda referência”.

127


linguagens, costumes incluídos, fossilizados vivos como num

instantâneo. O museu, em vez de estar circunscrito como

lugar geométrico, está, agora, em toda a parte, como uma

dimensão da vida (BAUDRILLARD, 1991, p. 17).

O esquema a seguir baseia-se na já mencionada distinção estabelecida

por Mensch entre estratégias de preservação (ex situ - in situ / funcional - não

funcional). O Quadro 1, a seguir, tem fins meramente didáticos e serve para

demonstrar de forma sinótica as inúmeras possibilidades de musealização e

também a representatividade dos estudos de caso que vêm sendo desenvolvidos

ao longo da pesquisa. Algumas ressalvas podem ser feitas à posição ocupada na

tabela pelo cronômetro de Marinha e ao Previsor de Marés, do acervo do Mast -

citados como exemplos de musealização / preservação não funcional in situ.

Pode-se argumentar que os objetos passaram a integrar uma coleção

museológica e que a formação de coleções é por excelência a estratégia clássica

de musealização, baseada na preservação ex situ. Trata-se de um argumento

válido e passível de ser explorado em outro texto. Em ambos os casos,

entretanto, levamos em conta que, embora tenham sido “demitidos” de suas

funções originais, os objetos não foram afastados de seu contexto espacial - já

que o Mast, detentor da guarda do acervo do Observatório Nacional, ocupa sua

antiga sede.

Quadro 1 - Estratégias de musealização.

Musealização in situ

Musealização ex situ

Funcional não funcional funcional não funcional

Pedra do Sal

Sítio

Arqueológico

Itacoatiaras do

Ingá

Cronômetro de

Marinha

Previsor de

marés

Macaco Tião

(no Rio Zoo)

Palma Filia

Esqueleto do

Macaco Tião

Cabe ressaltar ainda que as estratégias acima são passíveis de

combinação, ou seja, não são excludentes. O “Macaco Tião”, por exemplo, ocupa

duas colunas diferentes, cada uma das quais corresponde a uma fase de sua

“biografia” como objeto musealizado. A primeira corresponde à sua vida no

128


Zoológico e a segunda à fase atual, em que seu esqueleto é exposto e

preservado para estudos sobre Primatologia. A rica “biografia” do “objeto” foi um

dos elementos que determinaram sua seleção: o espécime presta-se de modo

exemplar à abordagem biográfica, que será examinada a seguir.

A utilização da abordagem biográfica, proposta por Igor Kopytoff em um

estudo sobre mercadorias, foi preconizada por autores como Mensch (1992) e

Samuel Alberti (2005), e adotada por este último. Para Kopytoff (2008, p. 92-93),

é proveitoso dirigir às coisas o mesmo tipo de perguntas que fazemos às

pessoas, quando queremos traçar suas biografias: de onde vem? Quem a

fabricou? Quais suas fases mais significativas? Para que foi usada e o que

ocorreu quando sua vida útil chegou ao fim? A abordagem permitiria evidenciar

aspectos inesperados de sua trajetória.

O objeto é, segundo Mensch (1992), suporte de dados 6 e fonte ilimitada

de informações, que podem ser intrínsecas - deduzidas do próprio objeto - ou

extrínsecas - transmitidas por tradição ou por fontes documentais externas a ele.

Para o autor, informações do tipo “onde, quando e como o objeto foi feito, por

quem, para quem, por que”, além das sucessivas mudanças de propriedade,

condição e função” seriam contempladas pela abordagem biográfica proposta por

Kopytoff.

Alberti (2005), por sua vez, propõe-se a narrar a história dos museus -

particularmente os de história natural e anatomia humana - através das biografias

de objetos de seus acervos. Sua abordagem visa resgatar a trajetória desses

objetos, examinados a partir de diferentes fases:

Eu estruturo a pesquisa de acordo com três fases na vida de

um objeto de museu. Em primeiro lugar, considero a

mecânica do movimento de objetos desde sua fabricação ou

desenvolvimento através da coleta e intercâmbio para o

museu, juntamente com as respectivas mudanças de

significado e status. Eu, então, considero o uso do item uma

vez que ele é agregado à coleção, seja classificatório,

analítico, ou expositivo. Na seção final, eu considero o papel

do objeto na experiência dos visitantes do museu e a

natureza da relação entre o objeto e seu espectador. É claro

que a categoria de "objeto de museu" é ampla e flexível.

(ALBERTI, 2005, p. 561, tradução nossa)

6 “The object as data carrier”.

129


A terceira fase, que considera a experiência com o espectador, implica

no reconhecimento de que “os sentidos de um objeto variam não apenas no

tempo e espaço, mas também de acordo com quem o percebe” (ALBERTI, 2005,

p. 568).

Uma das biografias narradas pelo autor é a de Zarafa, a primeira girafa

vista em território francês. A trajetória do animal - oferecido como presente pelo

vice-rei otomano do Egito ao então monarca francês - inclui uma longa jornada

no ano de 1827, em que atravessa o Rio Nilo, o Mar Mediterrâneo e parte do

territória francês, do Porto de Marselha até o Zoológico do Jardin des Plantes,

em Paris, na companhia do naturalista Saint-Hilaire. Após sua morte, em 1845,

Zarafa é taxidermizada e exposta no Museu de História Natural de Paris.

Posteriormente, é enviada ao Museu Lafaille, em La Rochele, onde permanece

até os dias de hoje 7 (ALBERTI, 2005, p. 563).

O que motivou um empreendimento tão difícil e dispendioso como o

transporte de uma girafa por dois continentes? O que determinou a preservação

do animal por quase dois séculos? A resposta talvez seja sua importância como

documento. Como observa Ivo Maroevic, o “valor documentário” do objeto se

expressa em um “eixo temporal”: ao longo de sua existência, ele “acumula os

traços do tempo e eventos em sua estrutura material e formal” (2004, p. 25) e

simultaneamente, os preserva para o futuro.

3. Objeto, Informação, Documento

Em um influente artigo publicado em 1991, Michael Buckland ressalta a

ambiguidade do termo informação - compreendido e utilizado como processo,

conhecimento ou coisa. Informação como processo refere-se ao ato de informar

e às mudanças provocadas naquele que é informado. Compreendido como

conhecimento, o termo informação é também usado para denotar aquilo que é

apreendido ou percebido nesse processo. Informação-como-coisa, por fim,

refere-se ao uso do termo para nomear objetos informativos, como dados e

documentos. A “informação-como-conhecimento” caracteriza-se, entre outros

aspectos, por seu caráter intangível. Para comunicá-la, entretanto, precisa ser

7 A já mencionada trajetória do Macaco Tião apresenta semelhanças óbvias com a

abordagem apresentada acima, que lhe serviu de inspiração. Tal como a girafa biografada

por Alberti, Tião sobrevive hoje como objeto de estudo em uma coleção.

130


expressa, descrita ou representada em forma física, gerando o que o autor

chama “informação-como-coisa”. Neste texto, informação deve ser entendida no

sentido material e tangível atribuído pelo autor (BUCKLAND, 1991, p. 351).

Para a acepção ampliada de “documento” contribuíram teóricos de

diferentes campos, entre os quais História e Documentação. Rodrigo Rabello

observa que a produção de documentos escritos, ou seja, o “ato de narrar um

acontecimento e registrá-lo por escrito num suporte” moldou e restringiu a

compreensão do conceito de documentos por um longo período. A “ampliação

conceitual do documento à luz do universo interpretativo da cultura material”,

segundo o autor, deve-se em grande parte à contribuição da Escola dos Annales,

em particular Marc Bloch e Lucien Febvre, que criticaram o uso exclusivo de

fontes escritas para a escrita da História e a concepção ingênua do documento

(RABELLO, 2011, p. 134-135).

O historiador de Lucien Febvre ressalta que, na falta de documentos

escritos, a História deveria ser feita:

[...] com tudo o que o engenho do historiador pode permitir-lhe

utilizar para fabricar o seu mel, na falta das flores habituais.

Portanto, com palavras. Com signos. Com paisagens e telhas.

Com formas de cultivo e ervas daninhas. Com eclipses da lua

e cangas de bois. Com exames de pedras por geólogos e

análises de espadas de metal por químicos. Numa palavra,

com tudo aquilo que, pertencendo ao homem, depende do

homem, serve o homem, exprime o homem, depende do

homem, significa a presença, a atividade, os gostos e as

maneiras de ser do homem (FEBVRE, 1989, p. 249).

Marc Bloch (2002, p. 76-77), por sua vez, divide os documentos em duas

grandes classes: os testemunhos voluntários e os involuntários. Os primeiros

foram “colocados pelo passado à disposição dos historiadores”. Os “relatos

deliberadamente destinados à informação dos leitores” são em geral os únicos a

“fornecer um enquadramento cronológico, razoavelmente seguido”. Os

“testemunhos à revelia”, entretanto, seriam mais confiáveis. Não por serem mais

“isentos de erro ou de mentira”, mas porque:

[...] a deformação aqui, a supor que exista, pelo menos não foi

concebida especialmente em intenção de posteridade. Acima

de tudo, esses indícios que, sem premeditação, o passado

deixa cair ao longo de sua estrada não apenas nos permitem

suplementar esses relatos, quando estes apresentam

131


lacunas, ou controlá-los, caso sua veracidade seja suspeita;

eles afastam de nossos estudos um perigo mais mortal do

que a ignorância ou a inexatidão: o de uma irremediável

esclerose. [...] (BLOCH, 2002, p. 77).

Como disciplina acadêmica, a Documentação “começou a ganhar

contornos no início do movimento bibliográfico, no final do século XIX” e se

solidificou com a publicação do “Traité de Documentation”, em 1934, por seu

principal personagem, Paul Otlet. É no âmbito da Documentação que o

documento “transcendeu a noção de documento bibliográfico”. Rabelo distingue

dois momentos na Documentação: a “fase positivista”, que teria Otlet como

principal expoente e representa um primeiro movimento de ampliação do

conceito de documento com a inclusão de objetos dotados de conteúdo

informacional. A “fase hermenêutica”, inaugurada por Suzanne Briet na década

de 1950, representa mais um passo rumo à ampliação do conceito de documento

(RABELLO, 2011, p. 139-141).

Niels W. Lund (2009, p. 1,5) adota a expressão “Teoria Profissional do

Documento”, ressaltando que o desenvolvimento do conceito de documento

ocorreu em paralelo a demandas das comunidades profissionais e acadêmicas.

Os empreendimentos de Paul Otlet 8 teriam sido motivados por razões práticas:

buscavam fornecer “ferramentas úteis para estudiosos”. Para o autor, Otlet foi um

“profissional reflexivo” e não exatamente um teórico. Para atingir seu ideal - a

criação de uma “máquina para explorar tempo e espaço” - sentiu a necessidade

de redefinir e ampliar o termo documento. Sua teoria do documento seria voltada

“para bibliotecas, não para a vida social em geral”. Embora seu principal

interesse fossem os escritos, Otlet era em princípio aberto a todos os tipos de

documentos, ultrapassando o “universo gráfico e o modelo biblioteca” para criar

um único modelo ampliado de documento (LUND, 2009, p. 5-6).

Em seu Tratado, Otlet distingue o documento escrito ou gráfico e as

coisas materiais: o primeiro é compreendido como “a representação das coisas

materiais ou imagens intelectuais e abstratas das coisas”. Quanto às próprias

8 Otlet dedicou sua vida a empreendimentos como o Instituto Internacional de Bibliografia

Sociológica - criado em 1893 e expandido dois anos mais tarde, dando lugar ao Escritório

Internacional de Bibliografia. No âmbito dessa organização, fundada em parceria com La

Fontaine, criou o Repertório Bibliográfico Universal e reelaborou a Classificação Decimal

de Dewey, dando origem à Classificação Decimal Universal (CDU) (RAYWARD, 1975;

LUND, 2009).

132


coisas, podem ser vistas como documentos se abordadas como “elementos

sensíveis diretos para estudos ou como provas de uma demonstração” (OTLET,

1934, p. 216-217). Para o autor, coleções de objetos reunidos com o objetivo de

preservação ou estudo têm caráter “essencialmente documentário” (OTLET,

1990, p. 197).

De acordo com Annelise Riles, o termo documentação teria sido cunhado

pelo American Documentation Institute, em 1937, ano de sua fundação, “para

conotar a junção das novas tecnologias de informação com uma perspectiva

filosófica universalista racionalista”. Citando Ronald Day, a autora ressalta que o

projeto de Otlet foi criticado por marxistas como Walter Benjamin, que condenou

a “fetichização da tecnologia capitalista no coração do projeto da documentação”

e fenomenologistas como Heidegger, que atacou suas “pretensões

universalistas” (RILES, 2006, p. 5-6, tradução nossa).

Assim como Otlet, Briet visava também resolver problemas práticos e

aperfeiçoar procedimentos documentais, mas tinha consciência da importância

de “teorizar o campo e formular princípios”, razão pela qual teria publicado seu

livro “Qu’est-ce que La Documentation?”, em 1951. Sua teoria, na qual

bibliotecas são “centros proativos de documentação”, difere da de Otlet por

“favorecer um modelo descentralizado de documentação” (LUND, 2009, p. 10).

Briet também vai mais longe que Otlet em sua definição de documento,

que inclui qualquer forma de evidência física: “todo indício concreto ou simbólico,

conservado ou registrado com os fins de representar, reconstituir ou provar um

fenômeno físico ou intelectual” (OTLET, 1951, p. 7). A definição é

complementada pelas questões a seguir:

Uma estrela é um documento? Um seixo levado pela torrente

é um documento? Um animal vivo é um documento? Não.

Mas são documentos as fotografias e os catálogos de

estrelas, as pedras em um museu de mineralogia, os animais

catalogados e expostos em um Zôo (BRIET, 1951, p. 7).

Buckland (1991) ressalta a importância das reflexões de Briet,

sublinhando que “considerar qualquer coisa informativa como documento é um

argumento consistente com as origens e uso original da palavra, derivada do

latim docere, ensinar ou informar”. A etimologia da palavra documento é também

alvo de reflexão do pensador francês Paul Ricoeur:

133


Na noção de documento, hoje, não se dá ênfase à função de

ensinamento, que a etimologia da palavra sublinha (embora

do ensinamento – enseignement – à informação –

renseignement – a transição não seja difícil), mas sim à de

apoio, de garantia, trazida a uma história, uma narrativa, um

debate. Esse papel de garantia constitui a prova material, o

que em inglês é chamado de “evidence”, da relação que é

feita de uma sequência de acontecimentos. Se a história é

uma narrativa verdadeira e os documentos constituem seu

último meio de prova, esta alimenta a pretensão que a história

tem de se basear em fatos (RICOEUR, 1997, p. 197-198).

As obras de Otlet e Briet são redescobertas no último quarto do século

XX e retomadas por inúmeros autores, entre os quais o francês Jean Meyriat,

que propõe uma distinção entre “documento por intenção” e “documento por

atribuição” (cf. COUZINET, 2004).

Para Meyriat, documento é “um objeto que dá suporte à informação,

serve para comunicar e é durável”. Ressaltando que os escritos não são os

únicos objetos capazes de transmitir informação, menciona as coleções de

museu, advertindo não ser necessário que os objetos tenham sido reunidos com

o objetivo de de informar: “a arqueologia utiliza como documentos objetos que

descobre no local da pesquisa, porque eles lhe trazem informação sobre os

grupos humanos que os fabricou ou utilizou”. Independente de sua função

original, qualquer objeto pode ser tornado documento. A distinção entre

documento por intenção e por atribuição é fundamental, porque implica em

admitir o primado daquele que, ao buscar informação em um objeto qualquer, faz

dele um documento. Emissor e receptor estão autorizados a atribuir sentido a

objetos, mas é o último que tem a primazia. O documento é “produto de uma

vontade”, a de informar (emissor) ou a de obter informação (receptor), mas a

primeira não basta: “é no momento em que busco uma informação em um objeto

cuja função original foi prática ou estética (...) que eu faço dele um documento”.

Se a vontade de transmitir uma informação não encontra reposta no destinatário,

a informação permanece como virtualidade. O objeto não é ainda um documento,

mas poderá tornar-se posteriormente, ativado por uma nova questão (MEYRIAT,

1981, p. 51-54).

Essa abordagem é consonante com as reflexões dos historiadores dos

Annales e sugere que Meyriat pode ter sido influenciado pelas noções de

documentos voluntários e involuntários, de Marc Bloch, já mencionadas neste

134


texto. Este já havia assinalado também a diversidade virtualmente infinita dos

testemunhos históricos - “tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica,

tudo que toca pode e deve informar sobre ele” - e ressaltado que “os textos ou os

documentos arqueológicos, mesmo os aparentemente mais claros e mais

complacentes, não falam, senão quando sabemos interrogá-los” (BLOCH, 2002,

p. 79).

Em sua abordagem à noção de documento, Paul Ricoeur lança luz sobre

algumas das questões levantadas ao longo deste texto. Afirma que “qualquer

rastro deixado pelo passado se torna um documento para o historiador, desde

que ele saiba interrogar seus vestígios e questioná-los”, enfatizando que “os mais

preciosos são os que não estavam destinados à nossa informação”, que Marc

Bloch denomina “testemunhos contra a vontade”. Para o filósofo, “é documento

tudo o que pode informar um pesquisador cuja investigação é orientada por uma

escolha razoável de questões” (RICOEUR, 1997, p. 198, grifo nosso).

4. Considerações Finais

Escolhemos fechar este texto com uma volta ao seu início, ou seja, com

uma ênfase na materialidade das coisas, dos documentos e da informação. Ao

contrário do que tem sido a chave de grande parte das abordagens

contemporâneas ao objeto de museu, não queremos ressaltar o caráter imaterial

ou intangível da informação da qual são portadores. Mantendo o foco na

informação e no documento, enfatizamos uma necessidade de pensar a própria

materialidade. Esta, por sua vez, compreende não só os elementos materiais e

as técnicas que dão forma a um objeto, mas também elementos externos como

molduras, e “todo e qualquer traço da passagem do tempo, especialmente a

interação física humana” (DUDLEY, 2010, p. 7).

Ao definir materialidade como “a soma de características físicas,

experiência sensorial e significado”, Sandra Dudley dirige a atenção de volta ao

objeto, ou, em suas palavras, “a coisa diante de nós”. Não se trata, para a autora,

em propor uma “ligeira mudança na terminologia acadêmica”, mas em evidenciar

que “as propriedades materiais da coisa em si são essenciais para a forma como

nossos sentidos a detectam e, portanto, como formulamos ideias sobre ela”

(DUDLEY, 2010, p. 8, tradução nossa). Como ressalta Tilley (1994), a cultura

135


material está profundamente enraizada na prática social e consiste ainda em

uma forma de escrita e objetivação que aponta e ilumina práticas humanas. Nas

coisas acionadas como documentos, informação e materialidade se entrelaçam,

não há um suporte material passível de ser considerado separadamente ou, nas

palavras de Dudley (2010), não há um “pacote objeto-informação” passível de ser

desembrulhado”.

O objeto de museu é uma noção ampla, que se aplica a plantas e

animais vivos ou mortos, objetos naturais, seres humanos e artefatos criados por

eles (cf. ALBERTI, 2005). Tais artefatos, por sua vez, variam em escala e

complexidade, indo de simples alfinetes até veículos espaciais (cf. DEETZ,

1996). O leque de possibilidades de estratégias de musealização é igualmente

extenso, e compreende diferentes abordagens que não se opõem, mas se

complementam.

Este texto propôs uma abordagem ao objeto como documento, a partir de

um enfoque concreto e material. Ressaltamos que, tais como textos, objetos são

passíveis de uso documental. O documento é “produto de uma vontade” (cf.

MEYRIAT), mas pode ter sido ou não criado para documentar, o que ocorre com

alguns escritos e a maior parte dos objetos, como enfatizaram teóricos da

História e da Documentação. Febvre (1989) sugere que os historiadores

trabalhem com tudo o que seu engenho permitir usar “para fabricar o seu mel, na

falta das flores habituais”. Bloch observa que os “documentos à revelia”, ou seja,

“esses indícios que, sem premeditação, o passado deixa cair ao longo de sua

estrada” seriam mais confiáveis que os voluntários, deliberadamente deixados

para a posteridade. Meyriat (1981), por fim, fala em “documentos por atribuição”,

produzidos pela vontade de ser informado. Isso abre caminho para pensar

qualquer coisa como documento, desde que abordado e tratado como tal.

Ao abordarmos objetos musealizados como documentos, estamos

aderindo a essa visão ampliada de documento e, simultaneamente, afirmando

que a musealização é produto de uma vontade de preservar e que tudo é, em

princípio, passível de musealização. Se tudo é musealizável, entretanto, nem

tudo é efetivamente musealizado, uma vez que processos de musealização são,

por definição, seletivos.

136


Agradecimentos

A autora agradece os apoios recebidos do Conselho Nacional de

Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq para o desenvolvimento das

pesquisas, sem os quais teria sido impossível realizar o projeto de pesquisa

cujos resultados foram aqui apresentados 9 .

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New York: Anchor Books, 1996.

DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François (dir.). Concepts clés de la

9 O projeto foi apoiado pelo CNPq através do Edital 14/2011 - Universal (fase 1, de 2011 a

2013) e Edital 14/2013 - Universal (fase 2, a partir de 2013).

137


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140


Bússola de Gambey (1997/0999), acervo MAST (Foto: Jaime Acioli, 2010).

141


A DOCUMENTAÇÃO DOS ACERVOS CIENTÍFICOS E

TECNOLÓGICOS E O MAST: UMA HISTÓRIA A PARTIR DAS

MEMÓRIAS

Cláudia Penha dos Santos *

Marcus Granato **

Todos os museus se baseiam na esperança - na crença -

de que o estudo das coisas pode levar a uma compreensão

mais verdadeira do mundo.

Neil MacGregor

1. Introdução

Apresentar um breve panorama sobre a história da documentação dos

acervos museológicos do Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST/MCTI

parece ser o objetivo geral do presente texto. Contudo, um olhar um pouco mais

apurado permite afirmar que se trata essencialmente de um texto de memórias,

de relatos de experiências, principalmente dos últimos vintes e três anos, período

em que seus autores estiveram diretamente envolvidos com esta atividade no

MAST. Buscamos registrar fatos e momentos que consideramos essenciais e

refletir sobre alguns pontos relacionados à trajetória da documentação dos

acervos museológicos do MAST, reflexões estas que, em última análise, estão

condicionadas a uma determinada forma de olhar a instituição.

*

Museóloga (UNIRIO), M.Sc. em História da Ciência (FIOCRUZ), doutoranda do

Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (PPG-PMUS/UNIRIO/MAST);

tecnologista do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). E-mail: claudia@mast.br

**

Engenheiro metalúrgico (UFRJ), mestre e doutor em Engenharia Metalúrgica

(COPPE/UFRJ), Coordenador de Museologia do MAST, vice-coordenador e professor do

programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST), professor do

curso de Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio de C&T (MAST); bolsista

de produtividade 1C do CNPq; Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ; líder do

Grupo de Pesquisa Museologia e Preservação de Acervos Culturais. E-mail:

marcus@mast.br

142


A epígrafe utilizada, apesar do seu caráter generalista e de expressar a

crença na possibilidade de acessarmos um mundo mais verdadeiro, fornece uma

pista sobre a visão de museu na qual acreditamos, pois, elege o estudo das

coisas, dos acervos em museus, como a base para a compreensão do mundo.

Não cabe no presente texto discutir as diversas concepções de Museu e de

Museologia, mas vale ressaltar que estudos teóricos contemporâneos sobre

Museologia apontam para uma não vinculação exclusiva entre a disciplina e a

instituição museu, existindo diversas formas de se entender tanto a disciplina

como o museu. A publicação Conceitos-chave de Museologia (DESVALLÉES;

MAIRESSE, 2013) apresenta, por exemplo, cinco distintos significados para o

termo Museologia que variam em função do contexto de uso. Com relação aos

museus acontece um processo semelhante, pois coexistem diversos modelos e

projetos.

A nossa visão do museu que deveria ser o MAST apóia-se, nesse

sentido, na possibilidade de elencar as coisas, neste caso, o acervo do Museu

como fio condutor para a quase totalidade de suas ações. Se considerarmos

esse aspecto, talvez o MAST possa ser classificado, a partir das tipologias

existentes, como um museu tradicional ortodoxo (SCHEINER, 2006) ou clássico

(LIMA, 2013), um modelo de instituição que se estrutura a partir de seus acervos.

Contudo, tal visão está longe de ser hegemônica na instituição.

As informações sobre os objetos 1 que compõem os acervos de museus

são sistematizadas por meio da documentação museológica, termos que, assim

como Museologia e museu, apresentam significados variados em função do local

e do período analisado, mas que continuam sendo alvo de estudo. Nos últimos

dois anos, a realização de cursos de documentação promovidos pelo Comitê de

Documentação do Conselho Internacional de Museus (ICOM - CIDOC) 2 , assim,

1 Objeto pode ser definido como “Item que integra o acervo de uma instituição de forma

permanente (neste caso, será registrado no cadastro das incorporações) ou temporária

(por exemplo, um depósito ou empréstimo)” (CIDOC, 2014, p.43).

2 O CIDOC, em parceria com o Museu da Texas Tech University, desenvolveu um

programa de seminários de formação em Documentação Museológica com módulos

práticos e avançados. O treinamento foi oferecido pela primeira vez no Brasil nos anos de

2013 e 2014 com o título de Documentação Museológica, Princípios e Práticas. O

programa de treinamento é resultado de uma parceria entre Secretaria de Cultura do

Estado de São Paulo, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Instituto de Arte

Contemporânea e o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Um dos autores

participou das duas edições do programa de treinamento.

143


como a publicação em 2014 da tradução dos documentos Declaração dos

princípios de documentação em museus e Diretrizes internacionais sobre o

ICOM-CIDOC representam uma tentativa de normalização das atividades do

setor. Tais publicações vieram se juntar aos diversos manuais existentes sobre o

tema e também a livros e trabalhos acadêmicos, estes últimos feitos

principalmente em parceria com a área da Ciência da Informação. Segundo a

Declaração dos princípios de documentação em museus, a documentação em

museus envolve:

O desenvolvimento e a utilização de informações sobre os

objetos que fazem parte do acervo e os procedimentos que

auxiliam sua administração. Essas informações deverão ser

registradas por escrito ou inseridas no sistema informatizado

de documentação do museu, devendo ser acessíveis aos

funcionários, pesquisadores e ao público em geral. Com uma

documentação eficiente, o museu poderá facilitar o

desenvolvimento dos seguintes processos: políticas de

acervo; cuidado e prestação de contas em relação ao acervo;

acesso interpretação e utilização do acervo; pesquisa do

acervo (CIDOC, 2014, p. 19).

Para a documentação museológica o conceito de objeto como item de

uma coleção museológica é importante, pois as informações extraídas do mesmo

constituem o elemento fundamental de todo o processo de documentação da

coleção. Assim, torna-se imprescindível compreender os processos de

musealização que, segundo autores como Meneses (1995), se caracterizam pela

perda da função de uso do objeto no momento de sua incorporação aos acervos

museológicos e a sua posterior existência como referência, como documento. A

documentação museológica, portanto, não pode estar dissociada da reflexão

sobre os conceitos de musealidade e musealização. Entre os autores do campo

da Museologia que trabalham com o tema, aqui escolhemos as contribuições de

Waldisa Russio Guarnieri (2010), Ivo Maroevic (1986) e Maria Lúcia de Niemeyer

Matheus Loureiro (2012).

Para Guarnieri (2010), os objetos materiais musealizados se tornariam

objetos-conceitos; de vestígios passam a ser a prova material da existência do

homem e de seu ambiente adquirindo valor como testemunhos, como

documentos. Nesse sentido, todos os objetos de museu seriam autênticos e

acreditamos que esta característica do objeto de museu pode ser entendida

como musealidade, que não é natural do objeto, mas sim atribuída ao mesmo

144


após o processo de musealização que apresenta as características de

documentalidade, testemunhalidade e fidelidade.

Ivo Maroevic (1986) traz importantes contribuições para a compreensão

do objeto museológico como documento, pois entende a Museologia como uma

disciplina científica que estuda a musealidade através da musealia (museum

objects).

Na tentativa de conceituar musealidade, Maroevic (1986) afirmava que se

tratava de um aspecto característico do objeto quando separado do ambiente

real e colocado no ambiente museal, tornando-se documento daquela realidade

da qual está separado.

Loureiro (2011) traz uma contribuição importante, resultado de pesquisas

desenvolvidas no projeto de pesquisa “Musealização como processo

informacional”, desenvolvido na Coordenação de Museologia (CMU) do MAST,

que tem como objetivo refletir sobre musealização como processo informacional

em diferentes domínios, particularmente na área de ciência e tecnologia.

Utilizando o pensamento de Ulpiano Bezerra de Meneses, segundo o qual o “eixo

da musealização” é o “processo de transformação do objeto em documento”,

Loureiro propõe uma noção operacional de musealização que consiste:

em um conjunto de processos seletivos de caráter infocomunicacional

baseados na agregação de valores a coisas

de diferentes naturezas, às quais é atribuída a função de

documento, e que por esse motivo tornam-se objeto de

preservação e divulgação. Tais processos, que têm no museu

seu caso privilegiado, exprimem na prática a crença na

possibilidade de constituição de uma síntese a partir da

seleção, ordenação e classificação de elementos que,

reunidos em um sistema coerente, representarão uma

realidade necessariamente maior e mais complexa

(LOUREIRO, 2011, p.156).

Em outro texto da autora, encontramos a noção de musealização como

estratégia de preservação, que apontaria para duas frentes de ação: uma voltada

para a garantia das condições físicas dos objetos nas coleções e a outra para as

atividades de pesquisa, documentação e disseminação das informações

relacionadas aos objetos. Para Loureiro (2012, p.51), “trabalhar com objetos

musealizados implica em assumir sua polissemia”. Concordamos com Loureiro

(2012) e, como são muitas as possibilidades de leitura e interpretação dos

145


objetos em museus, há uma dimensão que julgamos não deveria ser descartada:

a da materialidade. Em uma bela passagem, Ítalo Calvino nos dá a noção exata

do significado da materialidade que poderia resumir o porquê da importância do

trabalho de documentação com acervos em museus. Afirma Calvino:

O humano é o vestígio que o homem deixa nas coisas, é a

obra, seja ela obra-prima ilustre ou produto anônimo de uma

época. É a disseminação contínua de obras, objetos e signos

que faz a civilização, o habitat de nossa espécie, sua segunda

natureza. Se essa esfera de signos que nos circunda com seu

denso pulvísculo é negada, o homem não sobrevive. E mais:

todo homem é homem-mais-coisas, é homem na medida em

que se reconhece em um número de coisas, reconhece o

humano investido em coisas, o si mesmo que tomou forma de

coisas (CALVINO, 2010, p.123).

Com relação à documentação museológica voltada para acervos

científicos e tecnológicos, trata-se de um tema ainda pouco estudado.

Normalmente, as normas e procedimentos aos quais estão submetidos os

acervos históricos dos museus são estendidos aos objetos científicos e técnicos

e/ou tecnológicos. Estes, todavia, apresentam especificidades que deveriam

estar contempladas em um sistema organizacional voltado para eles. Vamos

elencar aqui, ainda que brevemente, alguns desses pontos.

As duas principais dificuldades consistem na definição de objeto de C&T

e na determinação de quais objetos de C&T serão alvo das políticas de

preservação. No primeiro caso, dada a dificuldade em definir objeto, ciência e

tecnologia, o que temos, muitas das vezes, são definições operacionais ou

tipificações de objetos que podem ser de interesse para as políticas de

preservação. A dificuldade é agravada pelo fato da área de ciência e tecnologia

ser composta por uma grande diversidade, entre outras características, de

disciplinas, objetos e coleções (BALLÉ, 2011, p. 176). Um dos autores deste

texto, em parceria com outros autores, cunhou a seguinte definição para

patrimônio de C&T que vem sendo muito utilizada:

considera-se o conhecimento científico e tecnológico

produzido pelo homem, além de todos aqueles objetos

(considerando também documentos em suporte papel),

inclusive as coleções arqueológicas, etnográficas e

espécimes das coleções biológicas que são testemunhos dos

processos científicos e do desenvolvimento tecnológico.

Também se incluem nesse grande conjunto as construções

146


arquitetônicas produzidas com a funcionalidade de atender às

necessidades desses processos e desenvolvimentos

(GRANATO; MAIA; CÂMARA, 2010, p.1).

Com relação ao segundo aspecto, o trabalho de Kubota Toshio (2011)

sobre a preservação do patrimônio científico e técnico no Japão merece ser

citado, pois, apesar de não apresentar definições, aponta para o caráter

interdisciplinar da seleção dos objetos de interesse para preservação e estudo.

No Centro Japonês de História da Indústria e das Técnicas, criado em 2002, no

âmbito do Museu Nacional de História Natural e Ciências, “associações

profissionais, equipes universitárias e órgãos governamentais” atuam em todo o

país na seleção e coleta dos “objetos científicos e técnicos de primeira

importância” (TOSHIO, 2011, p. 183).

Por outro lado, não existem muitas dúvidas em torno da ideia de que a

partir da preservação e estudo dos objetos de C&T de valor histórico é possível

compreender aspectos do desenvolvimento científico e tecnológico de um

determinado local ou período. Sobre o tema existe, por exemplo, o trabalho de

Edoardo Proverbio segundo o qual, após a realização de seminários para discutir

a preservação do patrimônio instrumental da Astronomia e Astrofísica na Itália,

nos anos de 1988 e 1989, definiu-se como de interesse histórico todos os

instrumentos e acessórios não mais em uso (PROVERBIO, 1995).

A dificuldade de definir critérios para seleção de acervos não é

exclusividade da área de C&T, uma vez que estes sempre são definidos em

consonância com os valores e concepções dos agentes envolvidos no processo

de aquisição. Contudo, em função da constante necessidade de atualização de

equipamentos e instrumentos de pesquisa, os descartes de objetos na área

científica e tecnológica são mais frequentes. Por esta razão, esta questão está

sempre presente quando nos referimos à documentação para acervos de C&T.

A partir das pesquisas desenvolvidas em outro projeto de pesquisa em

andamento na CMU, Valorização do Patrimônio Científico e Tecnológico

Brasileiro 3 , foram elaborados critérios de seleção desse tipo de patrimônio que

abrangem: o risco de perda, a facilidade de acesso aos objetos, o interesse

institucional na preservação do conjunto, os valores relacionados ao

desenvolvimento científico e tecnológico do país, o caráter histórico dos objetos,

3 Mais informações no sítio do projeto na web:

.

147


a raridade do artefato, a possibilidade de sua preservação, o estado de

conservação do artefato.

2. O Acervo Museológico do MAST: breves considerações

A análise da missão do MAST, que consta no seu atual regimento

interno 4 , permite afirmar que a preservação dos acervos sob sua guarda está

entre as suas atribuições principais: “O MAST tem por finalidade a ampliação do

acesso da sociedade ao conhecimento científico e tecnológico por meio da

pesquisa, preservação de acervos e divulgação da história da ciência e da

tecnologia no Brasil” (MAST, 2010, p. 1). Entre suas competências, apresentadas

no mesmo regimento, destacamos os itens: “II - pesquisar, preservar e tornar

acessíveis à sociedade acervos de ciência e tecnologia de importância histórica;

III - preservar o acervo móvel e imóvel sob sua guarda; V - disseminar o

conhecimento científico e tecnológico" (MAST, 2010, p. 1). Cabe à Coordenação

de Museologia, através do Núcleo de Documentação e Conservação do Acervo

Museológico (NUDCAM/CMU), a responsabilidade pela preservação do acervo

tridimensional da instituição, ou seja, a preservação de suas coleções, sejam

essas constituídas de objetos científicos e tecnológicos, mobiliário, documentos

textuais e iconográficos relacionados. A preservação, neste contexto, deve ser

entendida em seu sentido mais amplo, englobando as ações de documentação,

conservação, estudo e disseminação, e não apenas como sinônimo de

conservação ou mesmo restauração.

Hoje, os objetos de interesse da Instituição estão definidos em uma

política de aquisição e descarte 5 , trabalho interdisciplinar realizado ao longo de

alguns anos no âmbito da Comissão Permanente de Aquisição e Descarte de

Acervos - COPAD, que aponta para os objetos e documentos de interesse do

Museu. Para a Coordenação de Museologia, o principal problema foi a já citada

dificuldade em definir objeto de ciência e tecnologia e, apesar disso, optou-se por

tal terminologia na tentativa de utilizar uma definição que englobasse desde os

instrumentos científicos até os produtos tecnológicos do século XXI. Assim, no

grupo dos objetos de ciência e tecnologia, existem os seguintes subgrupos:

4 Disponível em: .

Acesso em: 05 jun. 2015.

5

Disponível em:.

Acesso em: 05 jun. 2015.

148


objetos científicos construídos com o propósito de investigação científica

(instrumentos, máquinas, equipamentos experimentais adicionais como

acessórios, padrões de medida e reagentes); objetos pedagógicos construídos

com o propósito de ensinar ciência (modelos esquemáticos, maquetes, réplicas e

modelos ilustrativos); e, objetos de divulgação construídos com o propósito de

apresentar os princípios da ciência a um público mais vasto (reconstituições,

modelos, objetos participativos). São também relevantes os documentos textuais

e iconográficos que acompanham o objeto, tais como: catálogos, manuais,

instruções para experimentos, fotografias, diapositivos, negativos, estampas,

gravuras, pinturas, livros, panfletos, notas de compra, listas de preços, material

promocional, mapas e planos, gravações sonoras e audiovisuais (MAST, 2010).

Contudo, antes de explicar a documentação definida para os objetos

listados pela Política de Aquisição e Descarte propriamente dita, faz-se

necessário esclarecer que o processo de tombamento pelo Instituto do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/ IPHAN 6 subdividiu o acervo do MAST

em quatro grupos que acabaram por definir também as atribuições e

competências de alguns dos setores do museu. Assim, apesar das diversas

designações dos setores do museu ao longo de sua história, não é errado afirmar

que coube a atual Coordenação de Museologia a responsabilidade pelo acervo

museológico e pelo patrimônio arquitetônico e à Coordenação de Arquivo e

Documentação a responsabilidade pelo acervo arquivístico e bibliográfico.

Nos documentos constantes no anexo do referido processo de

tombamento do IPHAN define-se dez categorias para o acervo do museu:

esculturas, equipamento fotográfico, instrumentos científicos, instrumentos de

comunicação, luminárias, máquinas e motores, mecanografia, mobiliário, placas

serralheria, vidros e cristais. O levantamento para o tombamento foi um trabalho

elaborado por uma equipe multidisciplinar composta dos seguintes membros:

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Gilberto Oliveira da Silva, Oliveiros Cardoso

Tavares e Clarisse Guimarães da Rocha (“Projeto Memória da Astronomia no

Brasil e Ciências Afins - PMAC”); Therezinha de Moraes Sarmento e Alair

Siqueira Barros (Programa Nacional de Museus - PNM); Dora M. S. de Alcântara,

Umberto Napoli, Ana Lúcia Magalhães, Fernanda Marasciulo e Maria Tarcila

Ferreira Guedes (Sub-Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Os

6 Processo nº 1009-T-79/IPHAN, no âmbito do IPHAN, estando registrado no Livro

Histórico, volume 1, folhas 94-97, inscrição 509, de 14/08/1986.

149


membros do PMAC e do PNM foram provavelmente os diretamente envolvidos

com o levantamento do acervo móvel.

As coleções de equipamento fotográfico, instrumentos científicos,

instrumentos de comunicação, máquinas e motores e mecanografia formam hoje

a denominada coleção de objetos de C&T que é composta, até o momento, de

2126 objetos procedentes principalmente do Observatório Nacional - ON, do

Instituto de Engenharia Nuclear - IEN, do Centro de Tecnologia Mineral -

CETEM, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF, além de doações

particulares.

Os itens da coleção, utilizados em serviços e pesquisas científicas ou de

desenvolvimento tecnológico em suas instituições de origem, foram em sua

maioria fabricados no exterior e pertencem a um período que compreende dos

séculos XVIII ao XX. Os objetos mais antigos foram produzidos em países

europeus como Alemanha, França e Inglaterra, e os mais recentes

preferencialmente nos Estados Unidos da América. A pesquisa por objetos

brasileiros na base de dados do acervo museológico 7 resulta num total de 112

objetos fabricados no país, como o altazimute prismático, tubos de luneta,

voltímetros, cromatógrafos, entre outros. As Figuras 1 (a e b) e 2 (a e b), a

seguir, apresentam imagens de objetos característicos da coleção de objetos de

C&T do MAST.

Figura 1 (a e b) - As imagens de um Identificador de astros e de um Nefoscópio

procedentes do Observatório Nacional. Fotos: Jaime Acioli, 2010, acervo MAST.

7 Disponível em: .

Acesso em: 06 jun. 2015.

150


Figura 2 (a e b) - As imagens apresentam um Pirômetro óptico e um Cromatógrafo a gás

procedentes, respectivamente, do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) e do Centro de

Tecnologia Mineral (CETEM). Fotos: Jaime Acioli, 2010, acervo MAST.

Faz parte ainda do acervo museológico do MAST a coleção de catálogos

de instrumentos científicos e as coleções de esculturas, placas e mobiliário. Os

catálogos da coleção do MAST foram confeccionados no mesmo período dos

objetos de C&T pelos mesmos fabricantes europeus e norte-americanos e

“informam sobre os modelos de instrumentos e equipamentos que foram

utilizados pelos institutos de pesquisa brasileiros, especialmente no ON e o IEN”

(SANTOS; ALVES; GRANATO, 2006, p.7). Além de parte do acervo institucional,

os catálogos são importantes fontes de pesquisa para a documentação

museológica, pois apresentam descrições detalhadas e ilustrações dos

instrumentos. Em 2003, foi publicado um inventário (MAST, 2003) no qual

constavam 112 catálogos de 45 fabricantes diferentes. Após a publicação foram

incorporados ao acervo mais 38 catálogos e atualmente todos podem ser

consultados pela internet. 8

8

Atualmente é possível acessar os catálogos de fabricantes pelo endereço

.

151


A coleção de placas é composta de quatro objetos comemorativos em

alusão à inauguração do Observatório Nacional e a construção de seu prédio

administrativo, além de uma referente ao Gran Premio Torino 9 e um marco

geográfico. As esculturas, em número de quatro, são elementos decorativos do

prédio-sede e do campus. A coleção de mobiliário conta atualmente com 138

objetos e, diferente da coleção de objetos de C&T, é limitada, pois não receberá

novas incorporações. Trata-se de móveis, mesas, escrivaninhas, armários,

estantes, cadeiras, que foram utilizados na sede administrativa do Observatório

Nacional e por ocasião do tombamento do IPHAN julgou-se que deveriam ser

alvo de preservação. Segundo Odílio Ferreira Brandão 10 , muitos desses móveis

foram adquiridos a partir de modelos determinados pelo Departamento

Administrativo do Serviço Público - DASP 11 , como mostra a citação abaixo:

O DASP também padronizou os móveis do serviço público,

acabando com o privilégio de alguns funcionários, que

queriam móveis especiais para seu uso [...]. Os móveis foram

padronizados obedecendo um estilo bastante robusto, sendo

criados tamanhos de mesa de acordo com a categoria dos

funcionários. As cadeiras passaram a ser no estilo americano

de escritório, com assento de madeira pura. As estantes

passaram a ser de portas de correr e bem mais resistentes

que as anteriores (BRANDÃO, 1999, p.59).

Apesar de até o momento não ter sido possível identificar a origem ou

época do mobiliário, é possível confirmar que algumas empresas fabricavam

9

O I Gran Premio di Torino, também conhecido como 3º Gran Premio del Valentino,

realizou-se no Parco del Valentino, em Torino (Itália), em 1º de setembro de 1946.

Tratava-se de uma corrida automobilística de Formula A, competição antecessora a de

Fórmula 1. Disponível em: http://www.parcovalentino.com/it/storia/gran-premio-delvalentino-circuito-torino-nuvolari-ascari-villoresi-1935-1955-.html.

Acesso em: 11 jun. 2015.

10 Funcionário do Observatório Nacional no período de 1935 a 1980, tendo sido chefe de

Seção de Preparo Instrumental do mesmo instituto por dez anos. Foi um grande

colaborador do Museu de Astronomia e Ciências Afins, especificamente nas atividades de

documentação do acervo museológico. Em sua homenagem o MAST publicou em 1999 o

livro autobiográfico Os meus 40 anos de Observatório Nacional.

11

Criado no governo de Getúlio Vargas (1937-1945) este “Órgão previsto pela

Constituição de 1937 e criado em 30 de julho de 1938, diretamente subordinado à

Presidência da República, com o objetivo de aprofundar a reforma administrativa

destinada a organizar e a racionalizar o serviço público no país, iniciada anos antes por

Getúlio Vargas.” Disponível em:

. Acesso em: 06 jun. 2015.

152


móveis segundo as determinações do Departamento. Maria Angélica Santi, por

exemplo, ao estudar a fábrica M. Zipperer&Cia, afirma que “muitos modelos

foram adaptados às exigências de padronização do DASP seguindo padrões

ergonômicos por ele estipulados” (SANTI, 2013, p. 288). Em seu livro é possível

identificar móveis muito semelhantes aos existentes no acervo do MAST.

A Figura 3, a seguir, mostra à esquerda uma imagem do catálogo de

móveis do DASP e à direita uma mesa do acervo do MAST. A imagem do

catálogo foi copiada do livro de Maria Angélica Santi, Mobiliário no Brasil: origens

da produção e da industrialização.

Figura 3 (a e b) - A imagem à esquerda refere-se ao catálogo de móveis do DASP e à da

direita à uma mesa do acervo do MAST. A imagem do catálogo foi copiada do livro de

Maria Angélica Santi (2013, p. 289).

Os móveis receberam o mesmo tratamento documental dos demais

objetos do acervo museológico, ou seja, encontram-se devidamente registrados,

fotografados e receberam marcação provisória com um número de registro.

Apesar de alguns ainda continuarem em uso, em função da inexistência de um

local adequado de guarda, estes objetos precisam receber os mesmos cuidados

com relação à conservação e acondicionamento.

3. A Documentação do Acervo Museológico do MAST

Antes da implantação do sistema documental atual, algumas propostas

para a documentação do MAST já haviam sido sugeridas como, por exemplo, o

da museóloga Márcia Ferreira Neto, de 1987, que se inseria no projeto de

153


implantação das reservas técnicas do museu; o de 1989, que objetivava criar um

sistema de documentação museológica para o acervo da instituição que

englobasse todas as categorias que o compõem; e o de 1991, assinado por

Maria Esther Alvarez Valente, que além da documentação pode ser entendido

como um projeto de gestão do acervo (SANTOS, 2008).

Em 1992, a denominação do Departamento de Exposição e Preservação

do MAST é alterada para Departamento de Museologia (DEM). Na nova

estrutura, no âmbito desse Departamento, aparecem o Serviço de Exposições e

o Serviço de Conservação e Processamento Técnico de Acervo 12 . Além de

estabelecer uma política museológica para o MAST, entre as principais

atribuições do novo Departamento estavam o estabelecimento de "um sistema de

controle para o acervo do MAST, sobretudo no que diz respeito à sua

documentação, seu adequado acondicionamento e sua utilização" e a promoção

do "estudo do acervo do MAST, com vista à sua difusão, através de exposições,

publicações ou quaisquer mecanismos que o museu venha utilizar para se

comunicar com o público em geral" (CALDAS, 1993).

O diretor da Instituição na época era Henrique Lins de Barros e o chefe

do Departamento de Museologia (1992-1994) o museólogo Maurício Elias

Caldas, que enfatizou três ações voltadas diretamente para a gestão e

documentação do acervo museológico do MAST: a oficina de Museografia, o

projeto de implantação de uma reserva técnica aberta à visitação pública e o

projeto de documentação para o acervo propriamente dito.

A Oficina de Museografia foi o ponto central da mostra temporária

"Aspectos de uma política museológica", que teve como objetivo principal

sensibilizar o público interno do museu para a atividade de processamento

técnico que estava sendo iniciada. Por meio da promoção do contato com

especialistas, tanto da Museologia como das áreas científicas, a Oficina

possibilitou a reunião de subsídios para o desenvolvimento do processamento

técnico do acervo do MAST. Durante o seu período de funcionamento, no

decorrer do ano de 1993, se constituiu em um espaço para debates e trocas de

experiências sobre os acervos e museus científicos. Participaram da Oficina

12 Essa estrutura se manteve inalterada até setembro de 2007. Atualmente a Coordenação

de Museologia tem um Serviço de Produção Técnica e um Núcleo de Documentação e

Conservação do Acervo Museológico.

154


museólogos como Fernanda Camargo-Moro, Liana Ocampo, Lourdes do Rego

Novaes, Margareth de Moraes, Maria Helena Bianchini, Mário Chagas e Telma

Lasmar; especialistas de instituições como Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística -IBGE e Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI, além de

Oliveiros Cardoso Tavares e do próprio Odílio Ferreira Brandão. Segundo

Maurício Elias Caldas, a Oficina de Museografia:

consistiu num ateliê vivo para a discussão sobre os acervos e

os Museus científicos em nosso país, cuja preocupação maior

foi contribuir para o aprofundamento da especialização dos

profissionais desta área, e para uma maior divulgação da

pesquisa científica no Brasil. O acervo aparecia

contextualizado nos bastidores do Museu enquanto

demonstrávamos a trajetória do objeto, desde sua entrada até

sua difusão nas exposições. Grupos de especialistas e

estudantes de museologia, restauradores, dentre outros, eram

trazidos ao Museu para refletir sobre o trabalho que

estávamos fazendo, intercambiar experiências e, até mesmo,

avaliar e colaborar com o nosso trabalho (CALDAS, 1993).

O segundo projeto refere-se à transferência da reserva técnica fechada,

situada na época no terraço do prédio principal do museu, para algumas salas do

primeiro pavimento, com sua abertura à visitação pública. Ressaltamos que as

informações sobre este segundo projeto aqui apresentadas são quase todas

apoiadas em lembranças, reflexo de um período no qual o trabalho prático

predominava, restando pouco tempo para o registro. Em 1992, quando um dos

autores do presente texto ingressa como chefe do Serviço de Conservação e

Processamento Técnico do Acervo Museológico, a reserva técnica do MAST era

fechada à visitação e objetivava a guarda e acondicionamento do acervo.

Contudo, este espaço, nas palavras do coordenador da Museologia de então,

não correspondiam mais à proposta do atual Departamento de Museologia, que

entendia a reserva técnica como:

o espaço onde se vivencia o processamento técnico do

acervo. Nesta visão maior, o acervo será trabalhado, através

do estudo e confronto, agrupado segundo áreas específicas,

e aberto à visitação, para que o público leigo e o pesquisador

direcionado, tenham acesso ao objeto e à informação que o

cerca, de forma clara, rápida e interativa (CALDAS, 1994).

Ao decidir pela abertura da reserva técnica, o MAST estava se alinhando

com o movimento internacional de democratização da instituição museu que

155


uscou responder às críticas formuladas a partir de 1970, acerca do seu papel na

sociedade. Vale ressaltar que, com o desenvolvimento dos estudos sobre a

exposição e suas diversas narrativas, não era mais possível deixar a totalidade

dos acervos à mostra. A partir desse momento, as exposições passam a ser

temáticas, tendo como base um conceito a ser desenvolvido.

Consequentemente, os objetos do acervo passam a ser selecionados e inseridos

em uma narrativa expositiva - não se tratava mais de expor os objetos apenas

por serem objetos da coleção, mas sim inseri-los em um determinado tema.

Contudo, segundo Thistle (2000), se as reservas técnicas abertas possibilitam

uma maior socialização do patrimônio, também trazem problemas para a

conservação dos objetos ali acondicionados.

Um importante estudo que ajudou no embasamento teórico para a

consolidação da reserva técnica aberta do MAST foi o de Dana Neitzel 13 que, a

partir de um levantamento em setenta instituições museológicas norteamericanas,

classificou estes espaços em três tipos: a reserva técnica visível,

como um espaço de guarda de acervo onde os visitantes podem ter o acesso

visual a partes da coleção permanente, incluindo os espaços das atividades

técnicas e do trabalho dos técnicos; a reserva técnica de estudo, onde além do

acesso visual os visitantes podem examinar e até tocar, sob supervisão, os

objetos; e, a reserva técnica aberta, voltada para objetos de grandes dimensões

como automóveis e grandes máquinas que, em função de seu tamanho, não

ficam em vitrines.

A reserva técnica aberta do MAST enquadra-se perfeitamente no

primeiro tipo descrito por Neitzel. Inaugurada em 1995, ocupava inicialmente sete

salas no primeiro pavimento do prédio sede do museu: cinco salas com cerca de

90% do acervo procedente do Observatório Nacional, sendo uma delas para os

objetos de grandes dimensões, além de uma sala para a oficina de conservação

e outra para serviço de registro museológico da coleção. Dois critérios nortearam

a distribuição do acervo pelas salas da reserva técnica visitável, o número de

registro dos objetos e as disciplinas científicas que classificam a coleção. Nas

salas, utilizou-se a cor como mais um elemento de organização e os objetos

13

O estudo sobre reservas técnicas esteve disponível nos endereços


e

. Contudo, tentativas

recentes de acesso mostraram-se infrutíferas.

156


foram ordenados da seguinte forma: objetos de Astronomia e Cosmografia (sala

rosa); objetos de Cálculo & Desenho, Geodesia & Topografia, Meteorologia,

Metrologia e Navegação (sala amarela); objetos de Medição do Tempo (sala

azul), Eletricidade & Magnetismo, Geofísica, Óptica, Química (sala verde). A

Figura 4, a seguir, apresenta imagens da reserva técnica visitável do MAST.

Figura 4 (a e b) - Entrada da reserva técnica visitável do MAST e Sala de Cronometria.

Fotos; acervo MAST.

Os objetos foram acondicionados, na maior parte das vezes, em

mobiliário antigo e também tombado pelo IPHAN, o que engendrou dúvidas com

relação a natureza desses espaços, confundidos com salas de exposição ou

mesmo com gabinetes de Física 14 . Brenni, por exemplo, chegou a afirmar que:

As salas da reserva técnica estão muito bem ordenadas e

organizadas, mesmo contendo um grande número de objetos,

e também por isso, recriam a atmosfera dos antigos gabinetes

de ciências do início do século XX, o que pode ser fascinante

e evocativo para os visitantes (BRENNI, 2000, p.26).

14 Uma boa descrição de um Gabinete de Física do século XVIII pode ser encontrada no

livro O Engenho e a Arte que trata do Gabinete de Física Experimental da Universidade de

Coimbra (PROVIDÊNCIA, 1997, p. 20-25)

157


Os objetos apresentam uma etiqueta individualizada com seu nome e

número de registro e, inicialmente, cada sala possuía um totem com folhetos com

informações resumidas dos objetos acondicionadas nas salas. Duas das salas

apresentavam também terminais de computadores através dos quais era

também possível acessar informações sobre os objetos. Pensado como um

espaço dinâmico, de interação entre os visitantes e os técnicos do museu, era

permitido que, caso fosse de interesse do visitante, este poderia se dirigir até as

salas de conservação e documentação para solicitar mais informações sobre os

objetos ou até mesmo conhecer um pouco do trabalho dos bastidores do museu.

Em junho de 2010, o MAST inaugura um prédio anexo, com 3 andares.

Uma das motivações para o desenvolvimento do projeto e construção da

edificação foi a incorporação de novos acervos, tanto museológicos como

arquivísticos, e a ampliação das atividades do museu. O novo prédio, pensado

inicialmente apenas para a preservação (guarda, conservação e pesquisa), foi

construído no campus da instituição, em local de baixo impacto para a

visibilidade do prédio sede, e inclui áreas para todas as atividades internas da

instituição. As novas instalações permitiram a implantação do Laboratório de

Conservação de Objetos Metálicos (LAMET/CMU) e a construção de uma nova

reserva técnica para acondicionamento das novas aquisições. Esta reserva

técnica tem um conceito oposto ao da reserva técnica visitável do prédio-sede: é

um espaço fechado com rígido controle ambiental e o acesso só será permitido

às salas de consulta em horários pré-agendados. Utilizando novamente as

reflexões de Thistle (2000), pode-se afirmar que este modelo também apresenta

vantagens e desvantagens: se ganha em segurança e controle ambiental, mas o

público perde o acesso à totalidade do acervo.

A reserva técnica visitável completa em 2015 vinte anos, sempre

acessível ao público e, ao longo desse tempo, algumas modificações foram

implantadas, mas seu conceito continua o mesmo. A oficina de conservação no

prédio sede transformou-se no Laboratório de Conservação de Objetos Metálicos

no prédio anexo, mas em seu lugar no prédio sede foi incorporada mais uma sala

à reserva visitável, com alguns dos objetos procedentes do Instituto de

Engenharia Nuclear - IEN/MCTI e do Centro de Tecnologia Mineral -

CETEM/MCTI. Recentemente, as atividades de documentação foram reduzidas

em função da diminuição da equipe, mas acrescentaram-se nas etiquetas dos

158


objetos um código QR (Quick Response Code) 15 para acesso às informações da

base de dados 16 .

Confundida com espaços de exposição, a reserva técnica visitável do

MAST precisa ser reavaliada e a instituição deve decidir se esta permanecerá

como está ou se será completamente modificada. Acreditamos que, qualquer que

seja a decisão, sempre existirá vantagens e desvantagens.

O terceiro projeto iniciado na gestão de Maurício Elias Caldas

denominou-se Processamento Técnico do Acervo Museológico do MAST. Iniciase

oficialmente com o primeiro objeto registrado no ano de 1993, um chassi

fotográfico, mas este momento foi precedido por uma etapa de pesquisa e

levantamento sobre o sistema mais adequado para o acervo de instrumento

científicos do MAST. A Figura 5, a seguir, apresenta imagens desse objeto.

Figura 5 (a e b) - Imagens do chassi fotográfico, primeiro objeto a ser registrado no MAST.

Para o processamento, optamos pela metodologia proposta por

Fernanda Camargo-Moro (1986), responsável pela publicação de um livro

considerado clássico para a documentação museológica no Brasil que, além de

15 Código de barras bidimensional que pode ser facilmente esquadrinhado usando a

maioria dos telefones celulares equipados com câmera. Esse código é convertido em texto

(interativo), um endereço URI etc..

16 A ideia de trabalhar com o conceito de realidade aumentada nas salas da reserva

técnica aberta foi da astrofísica Tânia Dominici, pesquisadora visitante no MAST no

período de 2013-2015.

159


propor a normalização da atividade, foi durante muitos anos a única referência

existente sobre a temática. Camargo-Moro afirma que:

um museu que não mantém atualizado e em bom estado as

informações relativas a seu acervo que estão registradas no

sistema documental, deixa de cumprir uma de suas principais

funções, ou talvez a mais importante, que é a preservação

das informações do acervo através dos procedimentos

técnicos estabelecidos na ação documental museológica

(CAMARGO-MORO, 1986, p.239).

A mesma autora define documentação museológica como “1) processo

de organização dos diversos elementos de identificação do acervo; 2) conjunto

de conhecimentos e técnicas que têm por fim a pesquisa, reunião, descrição,

produção e utilização dos documentos sobre as coleções” (CAMARGO-MORO,

1986, p.239). A autora divide as etapas da documentação em registro e

catalogação aprofundada ou classificação, sendo a primeira “o ato fundamental

para o estabelecimento da relação do objeto do museu” (CAMARGO-MORO,

1986, p.239). Camargo-Moro afirma que: “a primeira etapa da documentação é

dedicada à identificação básica, - decodificação básica, já a segunda atém-se à

análise de maior profundidade, decodificação de profundidade” (CAMARGO-

MORO, 1986, p.79, grifo da autora).

Os instrumentos científicos procedentes do Observatório Nacional foram

os primeiros a serem registrados e optamos por seguir a ordenação de

inventários pré-existentes, elaborados pelo ex-funcionário do ON anteriormente

citado, Gilberto Oliveira da Silva. Esses inventários, todos manuscritos, eram

divididos de acordo com as categorias definidas no tombamento do IPHAN e

continham algumas informações sobre os objetos. Eles apresentavam onze

colunas, tendo cada uma delas um dos seguintes títulos: número de tombamento

IPHAN, número de registro, discriminação (nome do objeto), número de

fabricação, número no inventário de 1924, número no inventário de 1973,

fabricante, local de fabricação, ano de fabricação, carga e observações. Além de

não apresentarem os dados básicos recomendados pelos organismos

internacionais de documentação 17 , a numeração era iniciada do zero no interior

de cada categoria.

17

os campos obrigatórios são: nome do museu, número do objeto, número de

incorporação, método de aquisição, data de aquisição, fonte da aquisição, localização

160


O processamento técnico iniciado em 1993 continua até os dias atuais e

trouxe modificações significativas para a documentação do acervo do MAST,

sendo a primeira delas a alteração do número de registro tripartido (composto de

três partes - ano de registro/número da categoria/ numeração sequencial) para o

bipartido, composto de duas partes - o ano de registro/numeração sequencial

(SANTOS,1993; MAST, 2000). Optamos pela mudança na forma de numerar em

função da facilidade introduzida pelo sistema bipartido, como a possibilidade de

quantificar o acervo de imediato e a não confusão causada entre os objetos e as

suas partes. Neste novo sistema, cada peça, desde que se configure como uma

unidade reconhecida, recebe um número de registro. As partes móveis dos

instrumentos recebem, após o número sequencial, uma letra. O ano de registro

foi convencionado como 1993, ano de reformulação da numeração do museu.

Foi elaborada também uma ficha de registro híbrida, com campos de registro

aliados a campos de catalogação.

Vale ressaltar que até 1993 não existia no MAST o registro sistemático

do acervo do Museu, já que não foram encontrados nos arquivos da instituição

fichas de registro ou catalogação do acervo. Existem fichas elaboradas na

ocasião do tombamento e fichas de pesquisa, elaboradas para fins específicos

como exposições ou catálogos.

Alguns campos da ficha precisam ser aqui discutidos. Como a questão

da propriedade do acervo até o momento não foi resolvida, como forma de

aquisição utilizamos o depósito, o que significa que “a peça é assumida de forma

permanente pela instituição que a recebe, porém sua referência não é de

propriedade, mas apenas de guarda” (CAMARGO-MORO, 1986, p. 25, grifo da

autora).

A data de entrada foi convencionada como a data de inauguração do

museu: 08 de março de 1985. Além das fontes de pesquisa tradicionais, como

antigas fichas de pesquisa e inventários patrimoniais do Observatório Nacional,

merece destaque a coleta de depoimentos de especialistas e principalmente do

Sr. Odílio Ferreira Brandão. Ao longo de quase 10 anos, este ex-funcionário do

Observatório Nacional colaborou na identificação e descrição dos objetos. Assim

como o seu livro, anteriormente citado, suas entrevistas, todas devidamente

normal, localização atual, nome do objeto/nome comum, material, dimensões. (ICOM,

2014, p.40)

161


gravadas, constituem um rico material de pesquisa. A importância dos

depoimentos de Brandão pode ser atestada na citação abaixo que revela o uso

não essencialmente científico de alguns dos objetos procedentes do ON, no caso

na cronometragem de corridas automobilísticas no Rio de Janeiro, em um

período não muito preciso entre as décadas de 1930 e 1950. Segundo Brandão:

Eram levados para tal empreendimento um cronômetro de

marinha com contatos elétricos, o cronógrafo impressor

Gaertner, um cronômetro de algibeira, um manipulador

telegráfico e baterias elétricas. O cronógrafo era posto em

sincronização com o cronômetro e registravam num papel

colocado no mesmo, os segundos, minutos e horas, por

impressão através de tipos rotativos sobre os quais batiam

martelos, com suas bases forradas de borracha, articulados

por um eletroímã acionado pelos impulsos elétricos que

partiam dos contatos do cronômetro, que eram alimentados

pelas baterias (BRANDÃO, 1999, p. 60).

A Figura 6, a seguir, apresenta a imagem de um cronógrafo impressor,

existente no acervo do MAST. Segundo nossas memórias das conversas com o

“seu” Odílio, o cronógrafo teria sido utilizado no circuito automobilístico da

Gávea.

O campo de descrição física dos objetos é um dos mais difíceis de

preencher e padronizar informações. Compostos de inúmeras peças, chegando a

ocupar grandes espaços, a descrição de um objeto de C&T pode ser considerada

“um dos momentos de maior esforço de um procedimento de inventário” (BRITO,

2007, p.27). Como inexistem padrões descritivos, apesar da existência de

catálogos e manuais de fabricantes, o trabalho de descrição configura-se como

exaustivo e quase sempre não se tem a certeza de que as informações foram

coletadas e organizadas da forma mais adequada. Por exemplo, os embates

entre os técnicos da Museologia e o “seu” Odílio eram frequentes, pois

revelavam visões diversas de “olhar” para os objetos: um olhar mais estético

versus um olhar mais técnico.

162


Figura 6 - Cronógrafo impressor fabricado por The Gaertner Scientific Corporation em

Chicago, EUA. Foto: Acervo MAST.

Ao tratar cada objeto de uma forma individualizada, a documentação

museológica exige que os objetos sejam identificados e descritos da forma mais

abrangente possível, o que significa a descrição dos pormenores físicos (formato,

cor, peso, etc.), a identificação da procedência/proveniência, do estado de

conservação, assim como dos tratamentos e intervenções por que passa o

objeto. É possível afirmar, a partir da leitura de autores clássicos que

fundamentam o campo da conservação e do restauro que, desde o século XIX,

há o reconhecimento da importância dos registros, sejam estes escritos ou

fotográficos. Autores contemporâneos (CAPPLE, 2003; VIÑAS, 2005) também

ressaltam a sua importância, assim como os manuais de Museologia e

Conservação.

A importância dos registros das atividades de conservação obriga os

conservadores a examinar e conhecer os objetos em detalhe, minimizando os

riscos nas intervenções, e a disponibilizar o registro das intervenções para outros

estudiosos. Além disso, evitaria o manuseio desnecessário dos objetos, permitiria

o acompanhamento das mudanças no estado de conservação do objeto e seria

163


um exemplo valioso para tratamento de outros objetos semelhantes.

Normalmente, a importância desses registros só é reconhecida quando passa a

ser a única fonte de pesquisa disponível (CAPLE, 2003, p.71).

Portanto, o estado de conservação de um objeto para a Museologia é um

dos campos que possibilitam a sua identificação e a sua catalogação. Na ficha de

registro do MAST, existe um campo dedicado ao estado de conservação, mas

como se trata de uma ficha para preenchimento imediato a partir da observação

visual do objeto, estabeleceu-se uma classificação simples em três níveis: bom,

regular e ruim. Após alguns anos, percebemos que esse campo não era

suficiente para o registro de todas as informações relacionadas com a

conservação e elaboramos uma ficha de conservação. Esta ficha também é

individual e deve ter o número de registro do objeto. Inicialmente arquivada em

separado da ficha de registro, atualmente compõe o dossiê do objeto.

As atividades de processamento técnico mantiveram-se inalteradas até

1998 quando, já na gestão de Marcus Granato 18 como coordenador de

Museologia, é apresentado à extinta Fundação VITAE um projeto de

documentação museológica que apresentava os seguintes objetivos específicos:

Definir e determinar o uso principal de cada objeto da coleção

de instrumentos científicos;

Finalizar a descrição e a recuperação do funcionamento de

cada objeto dessa coleção;

Elaborar um thesaurus para instrumentos científicos;

Produzir um arquivo iconográfico do acervo instrumental do

MAST; Organizar um banco de dados sobre a coleção de

instrumentos científicos;

Disponibilizar ao público em geral os bancos de dados

produzidos, permitindo a democratização das informações e

aceleração da atividade de pesquisa (GRANATO, 1998, p.9-

10).

Assim, com a aprovação do projeto, inicia-se o trabalho nas várias

frentes propostas. Em relação à informatização, a base para os

desenvolvimentos foi a própria ficha de registro utilizada até então. Após estudos

18 Marcus Granato assume pela primeira vez a Coordenação de Museologia em março de

1997 e, com breves intervalos, permanece no cargo até a presente data.

164


das diversas bases utilizadas pelos museus brasileiros na época, optou-se pelo

desenvolvimento de uma base própria. A responsabilidade pelo seu

desenvolvimento coube ao bibliotecário e programador Alexandre Magno, na

época bolsista da instituição. A base de dados, denominada Sistema de

Gerenciamento do Acervo Museológico, para inserção dos dados das fichas

manuais e das imagens dos objetos da coleção, foi desenvolvida em linguagem

DELPHI e, inicialmente, não funcionava em rede, ficando o acesso restrito ao

público que visitava o museu. Consta de seis telas com campos que identificam e

permitem a inclusão de dados mais aprofundados sobre os objetos: dados de

identificação, de aquisição, dados técnicos, de conservação, descrição e

complemento.

É importante ressaltar que os recursos do projeto financiado por VITAE

permitiram trazer dois especialistas internacionais sobre instrumentos científicos

históricos ao MAST, Paolo Brenni e Mara Miniati, na ocasião consultor e vicediretora

do então denominado Museo di Storia dela Scienza, atual Museo Galileo.

A contribuição dos especialistas no desenvolvimento do projeto foi significativa e

mesmo para o reconhecimento institucional do valor da coleção sob a guarda do

MAST.

A classificação para a coleção de instrumentos científicos foi elaborada

com a colaboração do consultor Paolo Brenni, com base em critérios

internacionais. Abrangia as seguintes áreas: astronomia, cálculo e desenho,

cosmografia e geografia, medição do tempo, eletricidade e magnetismo,

geodésia e topografia, geofísica e oceanografia, mecânica, meteorologia,

metrologia, navegação, ótica, termologia e química (BRENNI, 2000). Com a

incorporação das coleções procedentes de outros institutos do Ministério da

Ciência, Tecnologia e Inovação - MCTI, como o Instituto de Energia Nuclear -

IEN, o Centro de Tecnologia Mineral - CETEM e o Centro Brasileiro de Pesquisas

Físicas - CBPF, foram acrescentadas novas áreas: energia nuclear, fotografia e

tecnologia mineral. Todavia, a inclusão dessas áreas ocorreu mais em função da

necessidade de classificar por área de conhecimento os novos objetos da

coleção do MAST. No entanto, a classificação como um todo precisa ser revista.

Com a informatização da base de dados e incorporação das fichas de

registro na base acontece a integração da documentação do museu, não

existindo mais um arquivo com fichas de registro e outro com fichas de

conservação.

165


A partir de 2004, com a atualização do programa de informatização do

acervo para a linguagem web, a base de dados passa a ser disponibilizada pela

internet. A alimentação do banco e a disponibilização dos dados acontecem de

forma simultânea e, a partir do preenchimento dos campos da tela de consulta,

os usuários acessam as informações existentes na base. Atualmente, aparece

como resposta aos usuários da base uma imagem do objeto selecionado, seu

nome, número de registro, fabricante, dimensões e descrição física. Um campo

para a descrição resumida do objeto, além de informações históricas e de

identificação, será acrescentado brevemente à base, substituindo o de descrição

física.

4. Os Inventários de Acervos Científicos

Os anos de 1999 e 2000 foram extremamente profícuos com relação à

documentação do acervo museológico do MAST. Foram produzidos a base de

dados informatizada e o CD-ROM Acervo Museológico (durante muitos anos

importante instrumento de divulgação do acervo). Além disso, ocorreu a

discussão de aspectos da documentação de instrumentos científicos juntamente

com os consultores Paolo Brenni e Mara Miniatti. Também, no ano de 2000, foi

publicado o primeiro Inventário da Coleção de Instrumentos Científicos do Museu

de Astronomia e Ciências Afins (MAST, 2000) que “é a fase final do processo de

tratamento de um acervo e sua publicação permite a divulgação de informações

relevantes para consulta por pesquisadores e estudiosos" (MAST, 2000, p. 5).

Com a ampliação da coleção em função da incorporação de objetos

procedentes de outros institutos de pesquisa do MCTI é publicada, no ano de

2011, uma versão atualizada do inventário com o título de Inventário da Coleção

de Objetos de Ciência e Tecnologia do Museu de Astronomia e Ciências Afins

(MAST, 2011). Neste inventário, assim como no primeiro, os objetos são

classificados por áreas de conhecimento e apresentam informações

individualizadas de cada objeto: número, nome do objeto, fabricante e uma

imagem. A substituição, no título, da expressão instrumentos científicos para

objetos de C&T justifica-se pela incorporação no acervo de objetos que não

poderiam mais ser classificados como instrumentos científicos 19 .

19 Não cabe no presente texto discutir o conceito de instrumento científico, mas apenas

alertar que este conceito é aplicado a um grupo específico de objetos.

166


Uma face importante do trabalho de documentação museológica

desenvolvido pelo MAST, a partir da experiência desenvolvida na instituição,

foram as várias iniciativas extramuros, de documentação de outros conjuntos de

objetos de C&T de interesse histórico. Destaca-se o trabalho realizado em

institutos de pesquisa da área de C&T, que resultou na elaboração de inventários

das instituições do setor nuclear (MAST, 2006) 20 , do Observatório do Valongo 21 ,

que foi incorporado à publicação Coleção de Instrumentos Científicos do

Observatório do Valongo (UFRJ, 2010), do Instituto Nacional de Tecnologia

(INT/MCTI) 22 , do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA/MCTI) 23 e do

Observatório Magnético de Vassouras - ON/MCTI, os três últimos ainda não

publicados.

Segundo o manual Como gerir um museu, o inventário pode ser definido

como uma “lista detalhada, conferida fisicamente, dos objectos nas propriedades

do museu” (ICOM, 2004, p.226). Todavia, os inventários produzidos e/ou

publicados pelo MAST não devem ser entendidos em seu sentido mais

tradicional, mas também como instrumentos de disseminação e divulgação dos

acervos museológicos do próprio Museu ou de acervos de C&T de interesse

histórico inventariados pela equipe do Museu em outros institutos de pesquisa.

Para a realização dos inventários, a equipe do Museu prepara uma “ficha de

inventário”, uma versão resumida da "ficha de registro”, e visita várias vezes as

instituições envolvidas levantando, a partir do contato com os técnicos e

pesquisadores da instituição, os objetos de interesse para preservação. As

20 O inventário do setor nuclear é um dos produtos do projeto “Panorama Histórico da

Energia Nuclear no Brasil 1950-1980” desenvolvido pela Coordenação de Museologia do

MAST entre 2005 e 2006 e financiado pela FINEP, a partir de edital de seleção de

projetos. Foram levantados objetos nas seguintes instituições: Centro Brasileiro de

Pesquisas Físicas (CBPF/RJ); Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear

(CDTN/MG); Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo (CTMSP); Centrais Nucleares

de Angra/RJ (ELETRONUCLEAR); Indústrias Nucleares do Brasil (INB), unidades de

Caetité (BA) e Caldas (MG); Instituto de Energia Nuclear (IEN); Instituto de Pesquisas

Energéticas e Nucleares (IPEN/SP); e Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD/RJ).

21 Resultado de um convênio entre o Observatório do Valongo/ UFRJ e o MAST para

preservação da coleção instrumental do Observatório. Pela equipe da Coordenação de

Museologia do MAST participaram Kátia Maria de Oliveira Bello e Carlos Nascimento.

22 Levantamento realizado no âmbito de projeto "Organização de inventário, concepção e

elaboração da exposição comemorativa" do Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCTI)

realizado nos anos de 2002-2003.

23 Levantamento feito no âmbito do projeto de criação do Museu Virtual do Observatório

do Pico dos Dias/Laboratório Nacional de Astrofísica, parceria MAST-LNA.

167


informações para a elaboração dos inventários são retiradas dessas fichas e, nas

visitas, os objetos de interesse também são fotografados. Especificamente sobre

o inventário dos objetos de C&T do setor nuclear, Ana Gordon, pesquisadora do

IPEN, afirma que:

Para a elaboração deste livro, pesquisadores e museólogos

do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCT)

percorreram as diversas instituições do setor nuclear do país

catalogando, fotografando, recuperando a memória ainda viva

do desenvolvimento desta tecnologia estratégica, que tanto

pode ser usada para fins pacíficos como militares. Esta é uma

contribuição para a reflexão sobre parte da história do país e

soma-se às outras que vêm sendo realizadas pelos

pesquisadores que se ocupam do tema (GORDON, 2006,

p.9).

5. Thesaurus para Acervos Científicos em Língua Portuguesa

Desde os anos 2000, existia a ideia de produção de um thesaurus para a

coleção de instrumentos científicos do MAST em razão da necessidade de

classificarmos a coleção. Constatamos que inexistiam no país instrumentos para

tal finalidade, pois o único thesaurus voltado especificamente para acervos

museológicos era o Thesaurus para Acervos Museológicos, de autoria de Helena

Ferrez e Maria Helena Bianchini, publicado em 1987 como:

um instrumento de controle da terminologia utilizada para

designar os documentos/objetos criados pelo homem e

existentes nos museus, em particular os de caráter histórico.

Elaborado para atender, sobretudo, à recuperação de acervos

museológicos, seja ela manual ou automatizada, procura

apresentar um sistema internamente consistente para a

classificação e denominação de artefatos (FERREZ;

BIANCHINI, 1987, p. XVII).

Além dos objetos criados pelo homem poderem ser classificados de

diversas formas, como informado pelas autoras, o thesaurus foi elaborado

especificamente para acervos de museus históricos, inicialmente para o acervo

do Museu Histórico Nacional. Por outro lado, apesar de todo objeto em museu

ser essencialmente histórico, os instrumentos científicos apresentam

especificidades não contempladas nas categorias classificatórias concebidas

para o livro. A classe, nesse thesaurus citado, na qual é possível relacionar os

168


objetos do acervo do MAST é a de Medição / Registro / Observação /

Processamento, na subclasse Instrumento de Precisão / Óptico, dedicada aos

“objetos usados na medição, registro e observação de fenômenos, substâncias,

propriedades, volume, massa, ou ainda processar dados e ampliar a capacidade

visual dos seres humanos” (FERREZ; BIANCHINI, 1987, p.10).

Ainda em 2000, como parte do projeto de documentação museológica

patrocinado pela Fundação VITAE, e com a consultoria de Mara Miniati, foram

iniciados alguns estudos para a elaboração de um thesaurus específico para

acervos como o do MAST. Entretanto, a ideia foi esquecida por alguns anos,

tendo sido retomada em 2006, durante visita ao MAST da pesquisadora Marta

Lourenço, do então Museu de Ciências da Universidade de Lisboa (MCUL), atual

Museu Nacional de História Natural e de Ciência da Universidade de Lisboa

(MUHNAC). Foi então elaborado o projeto de cooperação internacional

Thesaurus para acervos científicos em língua portuguesa, coordenado pelo

MAST e pelo MCUL/MUHNAC, que envolveu diversas instituições no Brasil e em

Portugal 24 . O objetivo deste projeto foi ampliado passando a ser:

Desenvolver um thesaurus terminológico para acervos

científicos que possa constituir um instrumento de trabalho e

de recuperação da informação, facilitando a comunicação

entre os museus de ciência e técnica da esfera lusófona,

sobretudo Portugal e Brasil, além de outras instituições

museológicas que possuem objetos desta tipologia

(GRANATO, 2011, p. 3).

As atividades relacionadas ao projeto de cooperação internacional,

formalizadas a partir de apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento

24 Além do MAST e do MCUL, participaram no Brasil: o Museu de Ciência e Técnica da

Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o Museu Dinâmico de

Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (MDCT-UFJF), o Museu da

Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MEP-UFRJ), o Colégio

Pedro II (CPII); em Portugal: o Museu de Ciência da Universidade do Porto (MCUP), o

Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (MCUC), o Serviço de Documentação e

Informação/Museu da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (MFEUP), o

Museu do Instituto Superior de Engenharia do Porto (MISEP), o Museu de Física do

Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (MFISEL) e o Museu Nacional de Ciência e

Técnica (MNCT|). Colaboraram também: o Instituto de Historia de la Medicina y de la

Ciencia López Piñero, Universidade de Valencia, Espanha; o Museu da Escola da

Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto, o Museu da Faculdade de Farmácia e

Bioquímica da Universidade Federal de Juiz de Fora e o Centro de Memória da

Engenharia/Universidade Federal de Minas Gerais, todos no Brasil.

169


Científico e Tecnológico - CNPq (Brasil) e da Fundação para a Ciência e

Tecnologia - FCT (Portugal), iniciaram-se em meados de 2009, finalizando em

2011. Em seguida, com recursos próprios, o MAST prosseguiu no

desenvolvimento do projeto até 2013, quando foi disponibilizado o thesaurus na

web. Posteriormente, o thesaurus foi premiado internacionalmente, o Prêmio

APOM, na Categoria Aplicação de Gestão de Coleções e Multimidia, pela

Associação Portuguesa de Museus.

Seria impossível descrever aqui toda a riqueza de informações e

conhecimento proporcionados pelos anos de desenvolvimento do thesaurus. 25

Foram realizados diversos workshops, tanto no Brasil como em Portugal, tendo

sido mesmo possível em alguns momentos trabalharmos juntos no mesmo local.

Um dos produtos do projeto foi o livro Coleções Científicas Luso-Brasileiras:

patrimônio a ser descoberto, que possibilitou a divulgação de acervos dos dois

países muito pouco conhecidos (GRANATO; LOURENÇO, 2010).

Todos os objetos levantados nas instituições brasileiras foram

registrados e fotografados, permitindo o reconhecimento da diversidade

tipológica da área. Nos levantamentos realizados nas instituições, surgiram

questões acerca das designações e classificações que certamente refletem

diretamente no sistema de documentação. Verificou-se a falta de normas e de

padrões para identificação e designação dos objetos de C&T. Encontraram-se,

por exemplo, designações com nomes próprios que não se referem ao inventor

do objeto, mas sim ao seu fabricante ou ainda designações que descrevem o

objeto ao invés de nomeá-lo. Outras questões surgem: quando um objeto é

considerado singular para que sua designação seja incorporada em um

thesaurus? Um tópico relacionado diretamente a esse é a distinção entre partes

móveis e acessórios. Contudo, continuava valendo o alerta de Bianchini e Ferrez

sobre a utilização dos thesauri para acervos museológicos. Segundo as autoras:

O thesaurus não elimina, entretanto, o trabalho

essencialmente do museólogo, de identificação dos objetos,

etapa que antecede o seu manuseio e, diferentemente dos

demais thesauri, não foi criado para auxiliar na indexação do

conteúdo temático de documentos textuais/bibliográficos

(FERREZ; BIANCHINI, 1987, p. XVII).

25 Para maiores informações sobre o trabalho realizado consultar: (GRANATO et al., 2010;

GRANATO et. al., 2013).

170


6. Considerações Finais

Traçar este panorama, ainda que breve, dos principais momentos da

documentação museológica do MAST exigiu um esforço de memória, pois nem

tudo havia sido ainda escrito. Na verdade, até as fontes documentais foram

selecionadas a partir de flashes de memória como, por exemplo, quando ocorrem

as referências à Odílio Ferreira Brandão. Temos total clareza de que o trabalho

iniciado em 1992 apresentou um resultado satisfatório, pois foi alvo de

constantes críticas de todos os envolvidos nas atividades durante todo o

processo. Resta agora perguntar: quais são as perspectivas futuras para a

documentação museológica do MAST? Sabe-se que a documentação de acervos

museológicos deve sempre ser aprimorada e atualizada, pois vão surgindo novas

informações com o desenvolvimento das pesquisas que precisam ser

incorporadas aos sistemas documentais existentes. As bases de dados

informatizadas também precisam de constante atualização.

Alguns pontos precisam ser mais bem estudados: a conceituação de

objetos de C&T de caráter histórico, os sistemas classificatórios específicos para

acervos de C&T e as possibilidades de diálogo entre os acervos museológico,

arquivístico e bibliográfico do MAST. Contudo, hoje a questão principal é a

dificuldade de recursos humanos. Dos profissionais que atuavam no setor restam

apenas duas servidoras e não existe a perspectiva de aumento desse número.

Aliado a esse fato, existe também um aumento da demanda como no caso do

registro das atividades de conservação. Não tendo renovação do corpo técnico,

quem herdará todo esse conhecimento acumulado?

Fica claro para os autores deste texto que a atividade de documentação

de acervos museológicos é fundamental para todas as atividades que envolvam

as coleções da instituição. A prática de tantos anos permite essa afirmação. É

importante mencionar também que se trata de um trabalho longo, complexo,

minucioso e que demanda foco e persistência, mas que muitas vezes não

aparece, não dá visibilidade imediata, o que o faz, frequentemente, não ter o

apoio e reconhecimento institucional que deveria.

Finalmente, por ser este texto também um texto de celebração, não

poderíamos deixar de citar e agradecer aos diversos profissionais,

pesquisadores, bolsistas e estagiários que ajudaram na construção deste

trabalho, desde a solitária atividade de registro até o trabalho em equipe nos

171


levantamentos realizados em instituições de C&T brasileiras. Como é impossível

lembrar de todos os nomes gostaríamos que todos os que passaram pelo

Serviço de Conservação e Processamento Técnico de Acervo/Núcleo de

Documentação e Conservação do Acervo Museológico da Coordenação de

Museologia, nos últimos vinte e três anos, se sentissem homenageados. Um

agradecimento especial aos que estiveram mais próximos: Odílio Ferreira

Brandão (in memoriam), Kátia Maria de Oliveira Bello, Márcia Cristina Alves, Ízis

Escóssia, Marcio Ferreira Rangel, Carlos Nascimento, Ricardo de Oliveira Dias,

Mônica Penco, Zenilda Ferreira Brasil e Yolanda Soares Freire Hinds.

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177


OS ARQUIVOS PESSOAIS COMO FONTE: RECONHECENDO

OS TIPOS DOCUMENTAIS

Maria Celina Soares de Mello e Silva *

1. Introdução

Os arquivos pessoais já são reconhecidamente uma importante fonte de

informação para a pesquisa histórica. Enquanto os arquivos institucionais

preservam informações oficiais, reguladas por normativas, os arquivos pessoais

preservam informações de acordo com o livre arbítrio de seu produtor. Embora

também tenham documentos oficiais, são ricos em documentação produzida livre

das amarras do poder público, repletos de curiosidades, espelhando muito mais

a personalidade de seu produtor do que a estrutura ou legislação vigente. A

liberdade e a criatividade para a guarda e a utilização dos documentos são

características marcantes dos arquivos pessoais. Dentre os documentos que

podem ser encontrados nesses arquivos estão aqueles que se referem e

testemunham atividades profissionais, relações familiares e sociais, gostos e

preferências, e uma gama de atuações durante uma vida.

Assim, os arquivos pessoais precisam ser conhecidos e decifrados. O

estudo das espécies e tipos de documentos encontrados nesses arquivos é um

esforço instigante que os arquivistas precisam enfrentar.

Para Oliveira, o estudo das tipologias em arquivos pessoais permite

muitas explorações por parte dos usuários:

O estudo do tipo documental permite analisar aspectos não

explicitados na estrutura do documento, fornecendo

elementos para compreender o comportamento da sociedade,

ou de seus segmentos em determinadas situações, como o

* Graduada em Arquivologia pela UFF, Mestre em Memória Social e Documento pela

UNIRIO e Doutora em História Social pela USP. Coordenadora do Mestrado Profissional

em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia do MAST. Professora do Mestrado

Profissional em Gestão de Documentos e Arquivo da UNIRIO. Coordenadora do projeto

de pesquisa “Estudo da espécie e tipologia documental de arquivos de ciência e

tecnologia”. E-mail: celina@mast.br

178


casamento, o nascimento, a morte, a primeira comunhão, os

banquetes, as comunicações do cotidiano. A identificação dos

tipos documentais adequada, demonstrando seu vínculo com

a atividade ou ato que dá origem à criação do documento,

oferece aos usuários amplas possibilidades de abordagem

dos arquivos, seja para a história social, a psicologia ou a

cultura (OLIVEIRA, 2012, p. 83-84).

A autora ainda ressalta que a identificação da tipologia documental ajuda

na análise do conteúdo, demonstrando o laço entre o produtor dos documentos e

seu trabalho, sua vida pessoal e familiar, suas relações de amizades e lazer.

Para tal, é preciso uma abordagem investigativa (OLIVEIRA, 2012, p. 92). A

pesquisa sobre a trajetória de vida e sobre os correlatos documentais, os tipos

documentais e as relações entre as atividades, faz-se necessária na organização

dos arquivos pessoais. Um exemplo de iniciativa investigativa de sucesso foi o

trabalho realizado por Camargo e Goulart no arquivo do ex-Presidente Fernando

Henrique Cardoso, registrada no livro “Tempo e Circunstância” (CAMARGO;

GOULART, 2007). As autoras realizaram um amplo levantamento tipológico,

como por exemplo, da documentação textual, audiovisual, sonora, iconográfica e

tridimensional. Foi também elaborado um glossário de tipos de eventos.

Percebe-se, assim, que uma das características marcantes nos arquivos

pessoais é não apenas fornecer informações de uma pessoa, sua atuação

profissional, de sua vida pessoal, mas também de sua participação em

instituições e entidades, sob um ponto de vista diferenciado. Rascunhos e

minutas, bilhetes, cartas, mensagens e outros documentos constituem um

conjunto que facilmente é descartado pelas entidades e que a pessoa guarda por

uma razão específica, pode fornecer informações que sirvam para complementar

uma história oficial ou pelo menos aceita por todos. Assim, os documentos

podem apresentar outro olhar para fatos e acontecimentos.

No caso dos arquivos pessoais sob a guarda do Mast, os documentos

registram um amplo leque de atuação de cientistas e homens de ciência, além da

sua postura diante da vida e dos acontecimentos. A grande maioria dos

documentos refere-se a atividades profissionais. Poucos são os casos em que os

registros referentes à vida pessoal e familiar se sobressaem.

Para estudar as espécies e tipos documentais nesses arquivos, o Arquivo

de História da Ciência do Mast vem desenvolvendo o projeto de pesquisa

179


“Tipologia documental em acervos de ciência e tecnologia”, iniciado em 2011. A

pesquisa vem levantando e refletindo sobre os tipos de documentos que

constituem os arquivos pessoais. O presente trabalho visa apresentar parte do

estudo em andamento, refletindo sobre os tipos documentais presentes nesses

arquivos, com o objetivo de disseminar uma importante fonte de pesquisa para a

história das ciências e contribuir para a reflexão sobre o conteúdo e o trabalho

nestas fontes.

2. Características dos Arquivos Pessoais

Os arquivos pessoais apresentam características peculiares e até pouco

tempo não eram sequer considerados arquivos. Em língua inglesa ainda é muito

utilizada a expressão personal papers para designar os arquivos pessoais, como

fontes complementares aos arquivos institucionais.

Os arquivos pessoais são reconhecidos como arquivos a partir do

momento que se caracterizam enquanto um conjunto de documentos produzidos

e acumulados por uma pessoa no decorrer das atividades desempenhadas

durante sua vida, testemunhando-as. Para reconhecê-los como arquivo, é

preciso recorrer à teoria arquivística, desenvolvida para os arquivos

institucionais, que os considera constituídos de documentos produzidos ou

acumulados por uma instituição no desempenho de suas atividades. Este

conjunto de documentos é preservado por seu valor de prova, fiscal ou legal, em

um primeiro momento, e por outros valores que podem ser adquiridos e

reconhecidos com o passar do tempo, tais como de testemunho, histórico,

científico, cultural, educativo etc. A teoria arquivística foi estabelecida para os

arquivos institucionais, observando-se a lógica de acumulação, bem como a

produção em série de documentos em decorrência das funções e atividades

institucionais. Nas palavras de Camargo e Goulart:

Os arquivos pessoais de cientistas, artistas e políticos

constituem matéria privilegiada para que se possam

compreender os processos de conhecimento, criação e

decisão, razão por que, aliás, têm sido objeto de iniciativas de

recolhimento por instituições diversas (CAMARGO;

GOULART, 2007, p. 50).

180


Os arquivos pessoais institucionalizados devem ser tratados como

arquivos e, como tal, devem seguir a teoria arquivística para o seu tratamento.

Muito embora as características da produção documental e da acumulação

sejam distintas, os documentos pessoais são testemunhos das atividades

desempenhadas por um indivíduo nas diversas atuações ao longo da vida. Tais

atividades podem se dar na esfera doméstica, familiar, social, profissional, cívica,

política, religiosa etc.. Os documentos produzidos na esfera pessoal,

diferentemente da institucional, não necessariamente precisam seguir fórmulas

rígidas de confecção, nem seguir normativas de guarda e descarte.

O levantamento da tipologia documental em arquivos institucionais leva o

arquivista a estudar as funções do órgão produtor e as atividades relacionadas a

essas funções, para se chegar à produção documental oriunda de cada

atividade. Nos arquivos pessoais, o desafio maior é o de definir o que poderia ser

considerado “função” de uma pessoa. Mais apropriado seria trabalhar com as

“atividades” desempenhadas por uma pessoa durante sua vida (SILVA, 2013a).

Como visto anteriormente, é preciso, em primeiro lugar, estudar a biografia,

realizando uma pesquisa sobre a vida do produtor do arquivo. Isto se refere tanto

às atividades ligadas ao trabalho e à profissão, quanto às demais relacionadas a

outros aspectos da vida da pessoa. Dessa maneira, o arquivista poderá mais

facilmente identificar os documentos e relacioná-los às atividades que o

produziram. Tal pesquisa faz-se necessária para que seja possível identificar as

atividades desempenhadas pela pessoa no decorrer de sua vida. Esse caminho

torna-se mais seguro e de melhor aplicabilidade.

Em segundo lugar é necessário identificar os documentos

individualmente, por meio de leitura e levantamento tipológico, para localizar qual

a atividade desempenhada pelo produtor que deu origem ao documento. Assim,

será possível estabelecer um quadro de classificação para os documentos que

reflita as funções e atividades do cientista, e seus respectivos correlatos

documentais.

O tratamento dado aos arquivos pessoais pressupõe o exercício de se

identificar as atividades que produziram os documentos. Tal como no arquivo

institucional, onde é necessário conhecer a missão, as funções e atribuições de

um órgão para se estruturar um plano de classificação, no arquivo pessoal é

preciso conhecer a biografia da pessoa. Tal conhecimento é determinante para a

classificação. Aliar o conhecimento da história de vida com o do conteúdo do

181


acervo é um desafio que demanda pesquisa. Quanto mais desordenado um

arquivo pessoal se apresenta, mais será necessário ao arquivista estudar para

compreendê-lo em sua totalidade. O arquivista que atua com arquivos pessoais

trabalha como quem monta um quebra-cabeça, onde as peças encontram-se

espalhadas em meio ao conjunto, e precisam ser identificadas, reunidas e

articuladas, para que façam sentido.

A liberdade que o produtor do arquivo pessoal possui, livre das amarras

da legislação, lhe permite avaliar e selecionar os documentos que permanecerão

sob sua guarda e descartar aqueles que não lhe interessa perpetuar. Dessa

maneira, ele decide os conteúdos que permanecerão e ficarão como

testemunhos de sua vida pessoal e profissional, sem a menor preocupação com

a perspectiva de preservar registros de todas as atividades de forma

proporcional, podendo eliminar completamente qualquer documento que

testemunhe ou comprove um evento ou uma atividade de sua vida. Segundo

Oliveira, a seleção dos documentos também representa muito sobre a pessoa e

suas escolhas. Nas palavras da autora:

A acumulação dos documentos é consequência não somente

das atividades e experiências do produtor do arquivo, mas

também de suas escolhas. Perceber as inexistências e os

destaques no conjunto do acervo e explicitá-los é importante

para o estudo do titular, de seus familiares e do contexto

social em que viveram (OLIVEIRA, 2012, p. 78).

Percebe-se, então, que as escolhas de preservação do produtor do

arquivo também dizem muito sobre si e da sua relação com os documentos por

ele produzidos, bem como fornece pistas sobre as informações por ele

consideradas dignas de se preservar. Revelam, ainda, sobre sua personalidade.

Assim, os arquivos pessoais apresentam um leque muito maior de

possibilidades de constituição, tratamento e exploração do que os institucionais,

por estarem livres de amarras jurídicas. A formação dos arquivos pessoais

permite ao seu produtor uma liberdade de acumulação, de organização e de

seleção, que pode ser baseada em critérios próprios ou simplesmente pela falta

deles. Os critérios podem ser de acordo com o entendimento, o gosto ou as

necessidades pessoais de seu produtor, pois é a necessidade individual que

prevalece no âmbito doméstico. A preservação doméstica dos arquivos pessoais

obedece à lógica própria do produtor, o que pode não ser compreensível a

terceiros (SILVA, 2013a).

182


Os arquivos pessoais que chegam ao MAST apresentam características

semelhantes no que se refere aos tipos documentais: refletem a vida profissional

do cientista, bem como a vida familiar e doméstica. Tais arquivos podem ter

vindo de diferentes locais, como a residência, o escritório, ou laboratório onde o

indivíduo trabalhou, outras instituições às quais esteve ligado, ou também podem

se constituir em documentos complementares entregues por terceiros para

incorporar ao arquivo.

O estudo publicado pelo Massachusetts Institute of Technology (HAAS;

SAMUELS; SIMMONS, 1985), sobre a preservação de documentos produzidos

pela ciência e tecnologia modernas, ressalta a característica da documentação

produzida por cientistas e engenheiros, que no geral, também podem ser

observadas nos arquivos presentes no acervo do MAST. O trecho selecionado e

apresentado a seguir mostra a diversidade de documentos que compõem esses

arquivos:

Cientistas e pesquisadores acumulam documentação

referente ao seu trabalho na instituição onde atuam e, ainda,

sobre outros aspectos da sua carreira profissional. No meio

acadêmico, por exemplo, produzem notas de leitura, sumários

de cursos, exercícios de laboratório, projetos de estudantes e

outros itens relacionados ao papel de um membro da

faculdade, como um professor. Também acumulam registros

sobre o seu envolvimento no trabalho de sociedades

profissionais, atuando como consultores pagos, ou algo

assim. Todas essas atividades e relações profissionais

resultam na criação de uma documentação crucial para o

trabalho de ciência e tecnologia que pode permanecer nas

mãos dos cientistas individualmente, muito embora ela seja

alocada fisicamente na sala de trabalho do cientista ou do

engenheiro (HAAS; SAMUELS; SIMMONS, 1985, p. 47,

tradução nossa).

O estudo, publicado na forma de um guia, também tece considerações

sobre os documentos pessoais de cientistas, indicando tipos documentais e

sugestões para avaliação e preservação, como exemplificado a seguir:

A vida pessoal e profissional de cientistas e engenheiros pode

ser documentada nos seguintes registros: atividades

pessoais, tais como relações familiares, amizades, assuntos

financeiros e esforços políticos, religiosos, civis, artísticos e

atléticos; e atividades relacionadas à vida profissional, tais

como educação, ensino e administração, consultoria e

assessoria, e participação em organizações profissionais. Os

183


documentos referentes à vida pessoal e profissional de

cientistas e engenheiros podem ser encontrados em sua

residência, escritório, em outras instituições às quais

estiveram ligados, e em documentos de seus colegas (HAAS;

SAMUELS; SIMMONS, 1985, p. 12, tradução nossa).

Os arquivos pessoais sob a guarda do MAST também apresentam uma

grande variedade de tipos de documentos que precisam ser mapeados e

identificados. Reconhecer os documentos é o ponto de partida para um trabalho

de organização, preservação e acesso aos mesmos.

3. A Diplomática e a Tipologia Documental

O estudo da tipologia documental tem sua origem na Diplomática,

surgida no século XVII. A Diplomática nasce da necessidade de se verificar a

autenticidade das hagiografias, pois começou a haver contestação sobre as

biografias dos santos e dos documentos antigos do governo central da Igreja.

Também estava relacionada às indagações sobre o direito patrimonial de terras

da Igreja. Os clérigos, então, começaram a submeter hagiografias, diplomas e

documentos medievais a uma análise mais cuidadosa, contestando grande parte

deles como não autênticos. A Diplomática, "em sua forma clássica, objetiva julgar

e identificar se o documento, manuscrito ou impresso, antigo ou recente, é

autêntico, falso ou falsificado, além de analisar sua tipologia” (LEAL; SIQUEIRA,

2011, p. 13).

Já nos séculos XVIII e XIX a Diplomática utilizava a técnica de análise

documental no auxílio a outras áreas do conhecimento, como o Direito e a

História. Os estudos da Diplomática do século XVII ao XIX refletiam o contexto

de dúvidas quanto à autenticidade de documentos antigos, como a transcrição de

manuscritos antigos. Para Richter e Araújo, a diplomática é uma

ciência documentalística que estuda o documento em toda

sua integridade, sem limitação de época, conteúdo, espaço

geográfico, procedência ou solenidade, analisando-o

criticamente nos caracteres que o configuram. Aborda a

gênese, estrutura, modo de tradição, utilizando método para

demonstrar sua autenticidade e estabelecer sua categoria e

seu valor testemunhal (RICHTER; ARAÚJO, 2007, p. 221).

184


A técnica de análise diplomática se constitui na separação do documento

diplomático em partes distintas a fim de analisá-las separadamente,

categorizando todo e qualquer elemento que será estudado (BELLOTTO, 2002;

DURANTI, 2005 1 ). A decomposição define os elementos intrínsecos, que são os

de conteúdo, e extrínsecos, que são os de forma ou formato, constituintes do

documento. A primeira parte do estudo da Diplomática é a repartição do

formulário escrito, isto é, a repartição de “modelo de espécies ou de tipos

documentais” (CAMARGO; BELLOTTO, 1996). Assim, é preciso dividir para

analisar.

A análise do conteúdo e de sua configuração no documento torna

possível identificar sua autenticidade. A lógica da produção de documentos na

administração pública, onde a mesma função gera o mesmo documento, permite

que se faça a ligação entre a Diplomática e a Arquivística na atualidade.

A Arquivística vem utilizando a Diplomática por meio da tipologia

documental, nos processos de organização de documentos de arquivo e na

construção de séries orgânicas. Segundo Bellotto (2008, p. 93), o laço que se

firmou entre a Arquivística e a Diplomática resultou na “diplomática arquivística”

ou “tipologia documental”, que só veio enriquecer a metodologia e a prática de

ambas as áreas. Assim, a tipologia documental é o estudo mais detalhado do

documento e suas características físicas, tais como formato, escrita e matéria,

vinculadas à atividade que lhe deu origem. Esta composição permite

compreender melhor a lógica orgânica dos conjuntos documentais, relacionandoos

às suas competências, sejam elas administrativas, jurídicas ou outras.

Dessa maneira, tem sido cada vez mais frequente a utilização do estudo

tipológico na organização de arquivos, pois é de grande utilidade não apenas

para arquivistas, mas também para os pesquisadores, já que permite uma

identificação minuciosa do documento. O estudo tipológico vincula as

informações do conteúdo do documento à forma física com que são

apresentados, analisando-os no seu conjunto. Isto favorece o entendimento do

valor orgânico dos documentos enquanto conjunto, e da atividade que os gerou.

O vínculo do documento e a atividade são essenciais para a definição do tipo

documental.

1 Material do curso “Diplomática aplicada a documentos convencionais e digitais”. Rio de

Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.

185


O estudo tipológico também procura identificar a denominação adequada

dos nomes dos documentos, considerando o contexto onde estão inseridos

(SILVA, 2013c). O conhecimento dos documentos é fundamental. Para Herrera,

“los nombres de las cosas son el primer paso para su reconocimiento”

(HERRERA, 2007, p. 46).

O estudo tipológico é utilizado pelos arquivos como metodologia para a

identificação, classificação e descrição de documentos, além de ser de grande

utilidade quando aparecem explícitos nos instrumentos de pesquisa. Segundo

Heredia Herrera (2007), o tipo documental é indispensável no momento da

descrição, colaborando na representação adequada das unidades documentais,

das séries e das subséries.

Como já mencionado, o conhecimento prévio da biografia do produtor do

arquivo é importante, pois ajuda a mapear as atividades e funções

desempenhadas, o que permitirá melhor compreensão da produção de

documentos para a elaboração da organização e disseminação das informações

em arquivos pessoais. Para Bellotto (2008), somente com este conhecimento

será possível entender o porquê da escolha das tipologias documentais

adequadas para comprovar competências, funções e atividades encontradas em

determinado arquivo.

A identificação do tipo documental depende primeiramente do

reconhecimento da espécie documental, que é “a configuração que assume um

documento de acordo com a disposição e a natureza das informações nele

contidas”, e do tipo documental, ou seja, “a configuração que assume a espécie

documental, de acordo com a atividade que a gerou” (BELLOTTO; CAMARGO,

1996). Assim, o tipo documental é o nome que o documento recebe de acordo

com suas características físicas e a atividade que o gerou dentro de um

determinado contexto. Ele é formado por uma base invariável - a espécie

documental. Oliveira (2009, p.7) afirma que os tipos documentais esclarecem

quais são os conteúdos fixos e quais são variáveis em determinado formato e de

acordo com a espécie documental.

Os estudos de tipologia documental têm motivado profissionais da área a

repensar os métodos de organização e os tipos de classificação a serem

adotados. Na identificação tipológica cabe ao arquivista fazer o trabalho

intelectual de levantar os dados do arquivo, realizar pesquisa sobre a biografia do

186


produtor do arquivo, no caso do arquivo pessoal, e analisar o documento e sua

relação com a pessoa para, desta maneira, estruturar as séries documentais.

Quanto mais se conhece a pessoa e a produção de documentos do

arquivo, mais apurado se apresenta o trabalho científico de avaliação, descrição

e classificação, visando, por meio das funções e atividades, a contextualização

da produção documental. Para se contextualizar um arquivo é fundamental a

identificação dos tipos documentais.

4. Os Arquivos Pessoais no MAST e o Estudo Tipológico

Como já observamos, os arquivos pessoais dizem muito sobre a

personalidade do produtor dos documentos. Expressam individualidades e

subjetividades, de acordo com a área de atuação do produtor, exigindo do

arquivista uma atenção redobrada na contextualização dos documentos de

acordo com as ações que o titular desempenhou ao longo da vida. Reconhecer e

dar o nome correto aos documentos dentro de seu contexto de produção pode

fazer toda a diferença na compreensão das informações (SILVA, 2013c).

Assim, os arquivos pessoais sob a guarda do Mast oferecem uma fonte

rica para a pesquisa de tipos documentais, que desafia o profissional da área

arquivística a um estudo minucioso sobre as peculiaridades inerentes a cada

área de conhecimento. Neste sentido, cabe ao arquivista compreender o

contexto da produção documental, mais do que o conteúdo do documento de

cada área.

O Mast recebe arquivos pessoais de cientistas e profissionais ligados à

ciência e à tecnologia com relevância para sua área de atuação. Até o momento,

são mais de quarenta fundos 2 , sendo o primeiro doado antes mesmo de o Museu

ser criado, mas que consta da relação de bens tombados pelo Instituto do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, hoje acervo do Mast, que é o

arquivo de Lélio Gama, ex-diretor do Observatório Nacional.

O Mast vem recebendo, organizando e preservando estes arquivos com

o objetivo de promover o acesso a fontes antes desconhecidas ou inacessíveis.

2 O MAST desenvolveu uma Política de Aquisição e Descarte de Acervos, a qual traça

critérios para a seleção dos arquivos pessoais de interesse para a instituição. Está

disponível no site .

187


São documentos dos mais variados gêneros, suportes, espécies e tipos, que se

relacionam direta ou indiretamente às atividades desempenhadas pelos

cientistas no decorrer de sua vida. Para a história das ciências todos os

documentos que contextualizem não apenas a trajetória científica, mas também o

ambiente em que viveu o cientista e que possibilitou o desenvolvimento de seu

trabalho, são importantes. Assim, são igualmente relevantes os documentos que

registram suas atividades em família, no meio social onde atuou, seus momentos

de lazer e também as atividades políticas. O estudo biográfico de um

personagem não prescinde dos documentos, quaisquer que sejam o suporte e o

gênero, de todas as facetas de sua vida.

O estudo tipológico dos arquivos pessoais sob a guarda do MAST teve

início em 2011 e está em andamento.

5. As Categorias de Atividades de Cientistas e os Tipos Documentais

O estudo dos tipos documentais nos acervos do Arquivo de História da

Ciência pressupõe o conhecimento das atividades desempenhadas. Como cada

arquivo pessoal possui um quadro de arranjo individualizado, nem todos por

atividades, era preciso um método que padronizasse o levantamento. Assim, foi

desenvolvida uma metodologia que levou em consideração os diferentes quadros

de arranjo que cada fundo apresentava. Para tal, tomou-se por base o trabalho,

já citado, de classificação das atividades científicas e tecnológicas desenvolvido

pelo Massachusetts Institute of Technology - MIT. Este trabalho foi publicado na

forma de guia, com o objetivo de auxiliar arquivistas na avaliação de

documentos, mapeando as atividades desenvolvidas, a função de cada uma, e

apresentando recomendações para a guarda dos documentos. A metodologia do

Mast também tomou por base o trabalho de Paulo Elian dos Santos “Entre o

laboratório, o campo e outros lugares: gênese documental e tratamento técnico

em arquivos de cientistas” (2002), fruto de sua dissertação de mestrado.

O guia do MIT, mais voltado para as atividades de pesquisa, divide-se

em “planejamento da pesquisa”, “desenvolvimento da pesquisa” e "disseminação

dos resultados da pesquisa”. O trabalho de Santos apresenta sete categorias de

atividades que um cientista da área das ciências da saúde pode desempenhar

durante sua vida, quais sejam: pesquisa; planejamento e administração da

pesquisa; docência; gestão de políticas científicas; relações interinstitucionais e

188


intergrupos; formação e administração da carreira; vida pessoal (SANTOS,

2002).

Para a organização dos arquivos pessoais sob a guarda do Mast não era

suficiente tratar apenas das categorias expressas no Guia do MIT, nem apenas

as propostas por Santos. Mas as duas propostas complementavam-se

harmoniosamente, e foram adaptadas para o levantamento. 3 O Guia do MIT

detalha as atividades ligadas ao trabalho científico e tecnológico, o que é

interessante para um acervo cuja grande maioria dos documentos relaciona-se

às atividades de pesquisa, como é o caso dos arquivos pessoais do Mast. Já a

proposta de Santos vem complementar a proposta do MIT no que se refere às

atividades não relacionadas à pesquisa, mas sim a outros trabalhos

desempenhados e à vida pessoal e social.

Assim sendo, a junção e a adaptação das duas propostas contribuíram

para o desenvolvimento do Quadro de Categorias de Atividades de Cientistas,

apresentado no Quadro 1.

Quadro 1 - Quadro de Categorias de Atividades de Cientistas.

ATIVIDADES VINCULADAS À VIDA PESSOAL

Identificação e registros pessoais

Relações familiares

Relações sociais

Assuntos financeiros

Atividades de lazer/entretenimento

Práticas religiosas

Educação

ATIVIDADES VINCULADAS À VIDA PROFISSIONAL

Atividades docentes

Atividades administrativas em unidades de pesquisa

3 A metodologia desenvolvida para o levantamento tipológico nos arquivos pessoais do

Mast foi apresentada na III Reparq - Reunião Brasileira de Ensino e Pesquisa em

Arquivologia, realizada em Salvador em outubro de 2013.

189


Consultoria e assessoramento

Filiação em associações e entidades de classe

Gestão de políticas públicas para ciência e tecnologia

ATIVIDADES DE PESQUISA EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Administração da pesquisa

Desenvolvimento da pesquisa

Disseminação dos resultados da pesquisa

ATIVIDADES POLÍTICAS

Relações e atividades políticas

Atuação partidária

Fonte: elaborado pela equipe do projeto “Analise das espécies e tipologias

documentais em arquivos de ciência e tecnologia”.

A partir do Quadro de Categorias de atividades foi dado início à

identificação dos tipos documentais nos arquivos pessoais. Aqui, a título de

exemplo, são apresentados os dados coletados nos arquivos pessoais dos

físicos Bernhard Gross e Joaquim da Costa Ribeiro. Mesmo neste universo de

apenas dois fundos, pode-se perceber a variedade de espécies e tipos

documentais, bem como a ocorrência de repetição de tipos documentais em

diferentes atividades.

As categorias de atividades identificadas e definidas até o momento são:

Atividades vinculadas à vida pessoal

Os documentos desta categoria não representam o de maior número no

contexto dos arquivos pessoais sob a guarda do MAST. A documentação oriunda

das atividades de pesquisa científica e acadêmica, bem como demais atividades

profissionais, compõem a grande maioria desses acervos. Assim, poucos

exemplares de documentos relacionados à vida pessoal chegam ao Arquivo de

História da Ciência, pois são previamente selecionados, seja pelo próprio

produtor, seja pelo doador, familiar ou herdeiro legítimo.

190


Os documentos de identificação e registros pessoais são aqueles

produzidos pelo cientista na sua intimidade e enquanto cidadão, para a garantia

de direitos e obrigações civis e militares. São exemplos desses tipos

documentais: atestado de idoneidade moral; carteira de identidade; carteira

profissional; certidão de nascimento; certificado de licenciamento militar;

certificado de vacinação; passaporte; solicitação de certidão de tempo de serviço;

título de eleitor.

Os documentos sobre as relações familiares são aqueles produzidos no

âmbito das ligações de parentesco e representam os relacionamentos entre os

membros da família do produtor. São exemplos desses tipos documentais: carta

de comunicação; carta de cumprimentos; carta de encaminhamento; cartão de

agradecimento; cartão de boas festas; cartão postal; convite de casamento; voto

de boas festas.

Os documentos sobre as relações sociais são aqueles produzidos no

âmbito das relações com amigos e da vida em sociedade. São exemplos desses

tipos documentais: agenda; bilhete de encaminhamento; bilhete de

esclarecimento; carta de agradecimento; carta de comunicação; carta de convite;

carta de cumprimentos; carta de encaminhamento; carta de pêsames; carta de

recebimento; carta de solicitação; voto de boas festas; convite; relação de

cumprimentos; relação de destinatários; relação de nomes; lista de presença em

funeral; telegrama de pêsames; voto de agradecimento; voto de pêsames.

Os documentos sobre os assuntos financeiros são aqueles produzidos no

âmbito da administração doméstica e pessoal, e do patrimônio pessoal e familiar.

São exemplos desses tipos documentais: acordo de trabalho; anotação de

cálculo de tempo de serviço; aviso de crédito; aviso de pagamento; caderneta

bancária; certidão de tempo de serviço; declaração de atividade; declaração de

participação em fundo de pensão; extrato bancário; fatura de serviço postal; guia

de aquisição de talão de cheque; guia de declaração de quitação; solicitação de

certidão; tabela de tarifa bancária; talão de cheque.

Os documentos das atividades de lazer e de entretenimento são aqueles

produzidos no âmbito do interesse pessoal ou da prática de atividades de

esportes, artes e cultura em geral, e interesses pessoais. Nos dois arquivos

estudados somente foram identificados dois exemplos desse tipo documental:

caderno de poesia; e poesia.

191


Os documentos referentes às atividades ligadas às práticas religiosas

são aqueles produzidos no âmbito do interesse pessoal por religiões, crenças ou

da prática religiosa. Igualmente foram identificados até o momento dois exemplos

desse tipo documental: oração; e pedido de indulgência.

Os documentos referentes à educação são aqueles produzidos durante a

formação escolar básica e cursos realizados, não ligados às atividades

profissionais. São exemplos desse tipo documental: caderneta escolar;

certificado de conclusão de curso; declaração de conclusão de curso; histórico

escolar.

Atividades profissionais

Os documentos produzidos pelas atividades profissionais, em especial a

de pesquisa científica, são os que mais chegam ao Arquivo de História da

Ciência. Talvez porque o doador do acervo - seja a família ou o próprio cientista -

considere relevante para a doação apenas o produto de sua pesquisa, os

resultados finais. Nesta categoria se destacam:

- Documentos sobre a formação profissional - são aqueles que registram a

formação superior, ligados às atividades profissionais. São exemplos desse tipo

documental: atestado de idoneidade moral; certidão de aprovação (titulação);

currículo; diploma.

- Documentos sobre as atividades docentes - são os produzidos pela atuação do

produtor como professor de cursos de graduação e pós-graduação e,

consequentemente, na formação de profissionais, incluindo participação em

bancas e processos de avaliação. São exemplos desse tipo documental: agenda;

anotação de cálculos; anotação de participação em evento; apontamento;

apostila; artigo científico; aviso de palestra; aviso de seminário; bilhete;

calendário de encontro técnico; calendário de reunião; carta de aceitação; carta

de agradecimento; carta de comunicação; carta de convite; carta de convocação;

carta de esclarecimento; carta de referência; carta de solicitação; certificado de

registro provisório (de professor); comunicação; comunicação científica;

declaração de afastamento; declaração de participação; discurso de abertura;

discurso de agradecimento; discurso de encerramento; discurso de homenagem;

formulário de inscrição; formulário de levantamento; instrução administrativa;

mapa de cidade; memorando; memorando de esclarecimento; ofício; ofício de

192


encaminhamento; ofício de solicitação; parecer de trabalho de aluno; programa

de divulgação de atividades; programa de pesquisa; programa de simpósio;

prospecto de curso; prospecto de seminário; prova de aluno; relação de inscritos;

relação de nomes; relação de participantes; relação de teses; relatório de

atividades; relatório de viagem; requerimento de esclarecimento; resumo de

palestra; solicitação de serviços; telegrama; trabalho de aluno.

- Documentos relacionados às atividades administrativas em unidades de

pesquisa - são documentos produzidos pela atuação do produtor em cargos

administrativos em instituição de pesquisa e ensino, que podem ser laboratórios,

departamentos e coordenações, ou a instituição como um todo. São exemplos

desse tipo documental: apontamento; carta de agradecimento; carta de

comunicação; carta de convite; carta de cumprimento; carta de encaminhamento;

carta de esclarecimento; carta de orientação; carta de solicitação; decreto de

cessão de gratificação; decreto de reintegração; discurso de homenagem; ficha

de requisição de publicação; ficha de visto temporário; formulário de investigação

de segurança; formulário de solicitação de treinamento; instrução de

preenchimento de formulário; nomeação; notificação de recebimento; ofício de

solicitação; portaria de contratação; portaria de designação; portaria de

nomeação; portaria de prorrogação; resolução de concessão; resolução de

dispensa; resolução de nomeação; resolução de readmissão; telegrama;

telegrama de cumprimento.

- Documentos relacionados às atividades de consultorias e assessoramentos -

são documentos produzidos pela atuação em conselhos, indústria, governo,

assessorias ou projetos, ou serviços prestados de forma autônoma. São

exemplos desse tipo documental: aerograma; ata; carta de agradecimento; carta

de comunicação; carta de convite; carta de encaminhamento; carta de

intercâmbio de informações científicas; carta de solicitação; certidão de parecer;

folha de avaliação de artigo; parecer; parecer técnico; questionário; relatório de

atividades.

- Documentos sobre filiação em associações e entidades de classe - documentos

produzidos no âmbito da participação do produtor como filiado, membro ou

dirigente de uma entidade de classe ou algum tipo de associativismo ligado à

profissão. São exemplos desse tipo documental: ata; atestado de participação;

bilhete; boletim de premiação; carta de aceitação; carta de agradecimento; carta

de comunicação; carta de convite; carta de cumprimento

193


(felicitações/homenagens); carta de encaminhamento; carta de esclarecimento;

carta de intercâmbio de informações científicas; carta de solicitação; certidão de

premiação; certificado de participação; diploma; discurso de abertura; discurso de

agradecimento; discurso de homenagem; estatuto; fatura de associado; folheto;

formulário de atualização cadastral; informe de atividades; nota fiscal; pedido de

adesão; procuração; programa de evento; relação de membros; relação de

nomes (diretório acadêmico); telegrama de congratulação.

- Documentos sobre gestão de políticas públicas para ciência e tecnologia -

documentos produzidos pelas atividades de formulação e implementação de

políticas públicas voltadas para a ciência e tecnologia, e no exercício de cargos

políticos. São exemplos desse tipo documental: programa de intercâmbio e

treinamento; relatório de atividades.

Atividades de pesquisa em ciência e tecnologia

Os arquivos pessoais sob a guarda do MAST apresentam muitos

documentos produzidos no âmbito da pesquisa científica, razão pela qual se

optou por categorizar estas atividades de acordo com o guia do MIT, em

administração, desenvolvimento e disseminação da pesquisa. A seguir, serão

detalhados caso a caso.

- Documentos sobre administração da pesquisa – registram as atividades de

planejamento da pesquisa, incluindo prioridades, recursos e equipe. São

exemplos desse tipo documental: acordo de capacitação profissional; acordo de

trabalho; agenda; autorização de viagem; aviso de pagamento; aviso de

remessa; balancete; carta circular; carta de aceitação; carta de agradecimento;

carta de comunicado; carta de encaminhamento; carta de esclarecimento; carta

de recomendação; carta de referência; carta de solicitação; ficha de recebimento

de equipamento; comunicado de aprovação; contrato de serviço; fatura de

aquisição de equipamento; formulário de enquadramento; formulário de

reembolso; guia de recolhimento; memorando; memorando de esclarecimento;

nota de empenho; nota fiscal; nota promissória; ofício de encaminhamento;

ordem de pagamento; programa de pesquisa; proposta de programa de

pesquisa; recibo de aquisição de equipamento; recibo de pagamento;

regulamento de contrato de serviço; requerimento; requerimento de

esclarecimento; resolução; solicitação de reembolso; telegrama; termo aditivo;

termo de concessão; vale de desconto.

194


- Documentos sobre o desenvolvimento da pesquisa - são os produzidos pela

execução da pesquisa, seja teórica ou experimental, incluindo o planejamento de

experimentos e produtos, condução da pesquisa, análise de dados, testes e

resultados. São exemplos desse tipo documental: aerograma; anotação; nota de

leitura; anteprojeto; apontamento de cálculo; apostila; bibliografia; caderno de

campo; caderno de estudo; caderno de laboratório; carta circular; carta de

aceitação; carta de agradecimento; carta de comunicação; carta de convite; carta

de encaminhamento; carta de esclarecimento; carta de intercâmbio de

informações científicas; carta de solicitação; cartão de visita; circular de

solicitação; desenho técnico; errata de artigo científico; formulário de

investigação; gráfico de curvas; gráfico de linhas; nota de leitura; prefácio; recibo

de doação; relação de artigos; relação de livros; relação de nomes; relatório de

atividades; relatório de participação; relatório de pesquisa; relatório de viagem;

tabela de cálculo; telegrama; trabalho de conclusão de curso.

Documentos sobre a disseminação dos resultados da pesquisa - documentos

produzidos para a divulgação e publicação dos resultados. São exemplos desse

tipo documental: artigo científico; aviso de palestra; boletim informativo; carta de

encaminhamento; carta de solicitação; comunicação científica; entrevista; notícia

de jornal; patente de invenção; portaria de designação; prospecto de seminário;

registro de patente; relatório de pesquisa; resenha de artigo; resumo de

comunicação científica; resumo de trabalho científico; roteiro de preparação de

artigo; sumário de artigo; termo de depósito de patente; tese.

Há ainda a previsão de atividades políticas, porém nos arquivos

levantados até o momento não foram identificados documentos referentes ao

envolvimento dos cientistas em tais atividades.

Nas categorias de atividades e seus exemplos de tipos documentais é

possível perceber a grande variedade de tipos de documentos que podem ser

preservados nos arquivos pessoais de cientistas sob a guarda do Mast. Vale

destaque para alguns documentos que normalmente as famílias subtraem dos

arquivos no momento da doação para institucionalização. Trata-se de

documentos que são de foro íntimo ou que a família entende que apresentam

informações que julgam não devem se tornar públicas. Mas que, quando são

mantidos junto aos demais documentos do arquivo, e chegam às instituições

para preservação e acesso público, possibilitam outro olhar sobre o indivíduo,

sua personalidade. Um exemplo é o documento apresentado na Figura 1, que

195


mostra o pedido de Indulgência, concedida a Joaquim da Costa Ribeiro e sua

família.

Figura 1 - Certificado de indulgência (Arquivo Costa Ribeiro/Acervo MAST).

Alguns arquivos pessoais apresentam documentos que dificilmente

chegariam aos arquivos institucionais, visto que passariam antes pela seleção

imposta pela família ou pelo doador. Os documentos ligados às crenças

religiosas ou a devoções são exemplos disso. É possível observar que o lado

religioso de alguns indivíduos é muito marcante, o que se reflete em seus

arquivos pessoais. O pedido de Indulgência (Figura1) é um exemplo significativo,

igualmente como outros, tais como as orações.

196


As Indulgências 4 são concedidas pela Igreja, com base na doutrina

católica, aos fiéis para que possam obter, a si e às almas do Purgatório, a

remissão dos pecados. É considerada meritória e caritativa a transferência da

Indulgência aos mortos, como é o caso do presente documento, com data

posterior ao falecimento de Joaquim da Costa Ribeiro. É um pedido pela sua

alma.

O pedido de Indulgência é um documento que possui regras para sua

emissão. De acordo com o Manual de Indulgências 5 , para ser concedida a

Indulgência, o fiel deve realizar obras e, de acordo com a mesma, a Indulgência

poderá ser plena ou parcial. No caso do presente documento, a Indulgência é

plena e assinada por uma autoridade da Igreja competente para tal, qual seja,

um Arcebispo.

Quanto ao tipo documental apresentado na Figura 2, um poema, é uma

composição literária com valor poético, em verso ou prosa 6 . Este tipo de poema

se caracteriza por ser composto de 4 quatro versos - um quarteto. É rimado de

maneira consoante: na segunda, terceira e quarta estrofes as rimas são

emparelhadas; na primeira estrofe o primeiro verso rima com o quarto e o

segundo com o terceiro.

O poema é igualmente um tipo documental pouco comum em arquivos

de cientistas, sendo mais típico em arquivos de literatos. Neste caso, não é

produzido por uma atividade relacionada às profissionais, estando mais

relacionado às atividades ligadas à cultura, às artes, aos gostos e vocações,

preferências e ao lazer e entretenimento.

No caso deste exemplo, o conteúdo do poema é uma “brincadeira” com a

profissão de físico. O poema não é assinado, e não há indicação de autoria.

Como não há qualquer outro indício nos documentos do arquivo e nem na

4 "A remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados

quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições,

alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui a aplica,

com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos" (AQUINO, 2007, p.

104).

5 O Manual de Indulgências foi aprovado pela Santa Sé e publicado pela CNBB

(Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) pelas Edições Paulinas, São Paulo, 1990.

6 Definição baseada em CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. São Paulo,

Cultrix, 1978. 3ª ed.

197


pesquisa biográfica sobre Bernhard Gross, que indicassem que ele escrevesse

poesias ou tivesse um gosto pessoal por poemas, e a letra não é a sua, concluise

que ele não seja o autor do poema. Mas foi professor, o mais provável é que

tenha sido uma homenagem de alunos, ou de algum outro professor.

Figura 2 - Poema (Arquivo Bernhard Gross/Acervo MAST).

Dos documentos localizados nos arquivos, os quais já passaram por

estudo tipológico, alguns são facilmente identificados, tais como relatório, ofício,

ata, diploma, recibo, declaração, pois as informações constantes e a forma como

estão configuradas já são conhecidas. São espécies documentais que

frequentemente são produzidas e acumuladas por instituições, portanto já

mapeadas e definidas em manuais e, em muitos casos, na legislação. Outros,

198


porém, precisam ser analisados para serem identificados e corretamente

nomeados.

A carta é um exemplo de espécie que aparentemente é fácil de tipificar. A

carta pode ser de agradecimento, de reconhecimento, de felicitações, de

comunicação, de convite, de encaminhamento, carta de esclarecimento e tantos

outros tipos. Mas não é tão simples assim quando nos deparamos com uma

carta que contém diversos assuntos, podendo ser classificada em mais de um

tipo documental. Por exemplo, uma carta pode ser iniciada com saudações para

o destinatário, bem como para sua família, indagando como estão a fulana e o

sicrano, demonstrando assim, que há certa intimidade ou familiaridade entre o

remetente e o destinatário. A seguir, a mesma carta pode iniciar um assunto de

trabalho e até mesmo trocar informações científicas, ou também enviar algum

artigo para análise. Pode ainda incluir informações sobre alguma viagem de

estudos, com considerações sobre o trabalho e sobre a cidade visitada. Todas

estas informações, além de enriquecerem o conhecimento sobre o indivíduo,

podem dificultar a tipificação por haver mais de uma atividade que motivou a

escrita da carta. Será preciso um conhecimento do contexto da produção da

carta, da relação entre os indivíduos, para se chegar ao motivo principal que

gerou a necessidade de escrevê-la, para tipificar.

O Arquivo de História da Ciência definiu um tipo de carta, para dar conta

de um contexto recorrente nos arquivos pessoais do Mast. Em vários arquivos é

possível identificar um tipo de carta comum, que pode ser considerado uma

constante entre os cientistas, pelo menos em um determinado período de tempo,

anterior ao intenso uso da internet e dos e-mails. Trata-se de carta entre

cientistas com troca de informações sobre dados científicos. Algumas enviam

dados coletados ou analisados e pedem confirmação. Outras perguntam sobre

resultados de experimentos, e podem, inclusive, conter anexos com quadros,

tabelas etc. No caso de cientistas que se conhecem pessoalmente ou possuem

algum grau de intimidade entre famílias, há trocas de saudações para familiares

e assuntos diversos, embora seja marcante que o motivo principal que gerou a

produção da carta é a informação científica. Para estes tipos de carta foi

padronizado, como tipo documental, a carta de intercâmbio de informações

científicas.

O estudo tipológico conduzido pelo Mast permite muitas abordagens de

exploração, que podem trazer resultados importantes para o próprio trabalho

199


arquivístico, como também para o usuário e o pesquisador dos arquivos. Um

aspecto a ser levantado é a comparação dos tipos documentais de uma mesma

categoria de atividades em diferentes arquivos, observando as tendências e as

especificidades de cada um.

Outra abordagem possível é a comparação dos tipos documentais por

atividade e por área do conhecimento, também verificando os tipos mais

recorrentes e os específicos. A pesquisa também pode prosseguir no sentido de

acompanhar um tipo documental com o passar do tempo, analisando os

elementos que permanecem constantes e os que variam. Está em andamento o

estudo do diploma e seus tipos, pois é um documento recorrente nos arquivos

pessoais, cobrindo um período de mais de cem anos.

6. Perspectivas para Pesquisa

O estudo tipológico abre um leque de oportunidades para o trabalho

arquivístico e é um ganho para pesquisadores, que terão mais informações sobre

a produção dos documentos.

O Brasil possui um acervo arquivístico relevante para a história das

ciências, mas não há uma política ou um programa abrangente sobre a

preservação desses documentos. Não existe um mapeamento dos acervos

produzidos nas instituições de pesquisa, especialmente no que se refere a

arquivos pessoais. Na área científica, os arquivos pessoais podem estar

localizados nas instituições onde o cientista atuou, e muitas vezes, estes acervos

não estão mapeados, identificados, controlados ou disponíveis à consulta

pública. Diante desta realidade, o estudo tipológico acaba sendo uma

sofisticação que poucas instituições conseguem realizar.

O levantamento de espécies e tipos documentais ainda não se tornou

uma atividade regular para arquivistas. Poucas iniciativas no Brasil têm abordado

esta temática, embora nos últimos anos hajam crescido consideravelmente as

pesquisas nessa área, especialmente em nível acadêmico.

Os arquivos produzidos pelas áreas de ciência e tecnologia enfrentam os

mesmos desafios e são submetidos aos mesmos critérios de tratamento de

arquivos produzidos por qualquer conjunto documental que possa ser

considerado arquivo. O que poderíamos considerar diferente, ou pelo menos

200


singular, seriam justamente os tipos documentais produzidos, bem como sua

variedade de suportes. Segundo Harper:

O que é particular aos arquivos científicos é a documentação

da pesquisa, e eu falarei um pouco mais sobre isto. Não

acredito que o arquivista precise entender a ciência. O que o

arquivista precisa entender é a maneira como o cientista

trabalha e a consequente documentação produzida. O

arquivista precisa conhecer o processo, não o conteúdo

(HARPER, 2006, p. 62-63, tradução nossa).

Os arquivistas precisam entender a importância de se conhecer as

espécies e os tipos de documentos dentro da sua área de atuação e investir no

levantamento tipológico. Desta forma será possível a consolidação da

denominação correta dos documentos que está sendo organizada em um

glossário de tipos documentais do Arquivo de História da Ciência. Este glossário

está em constante atualização, conforme os arquivos pessoais vão recebendo

tratamento arquivístico. O glossário também será de grande utilidade para os

profissionais que lidam com a organização e a preservação dos arquivos, bem

como para os produtores dos documentos e seus usuários.

Isso facilitará o trabalho a ser realizado nas etapas de avaliação e

descrição de documentos, como também na elaboração de quadros de arranjo

para cada arquivo pessoal.

Referências

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bilíngüe: português e inglês.

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202


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o que nos reserva o futuro? In: OLIVEIRA, Lucia Maria Velloso de; OLIVEIRA,

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203


Índios Carajás da Ilha do Bananal (Tocantins) / Serra do Roncador (Mato Grosso) retratados pela Bandeira Piratininga.

(1938?, Fundo CFE) (Foto: Jaime Acioli, 2010).

204


A CONSERVAÇÃO-RESTAURAÇÃO DE DOCUMENTOS

ARQUIVÍSTICOS: REFLEXÕES SOBRE A TAREFA DE

AVALIAÇÃO E PRIORIZAÇÃO

Ozana Hannesch *

Marcus Granato **

1. Introdução

As razões que levam à realização de tratamentos de conservação e

restauração de bens culturais são múltiplas, e não dependem apenas do estado

de conservação, do uso e do acesso aos acervos, mas também, e

especialmente, dos valores que lhes são atribuídos. Do mesmo modo, as

atitudes e atividades de preservação e/ou conservação são inúmeras frente aos

distintos bens a serem tratados, implicando inclusive, conforme afirma Lemos

(1987, p. 66), “em atuações interdisciplinares e julgamentos os mais variados”.

Assim, os valores atribuídos ao patrimônio, apesar de absolutos na sua essência,

são relativos na sua aplicação, pois cada lugar, período ou atores podem

reconhecê-los de forma diferenciada com o objetivo de justificar, ou não, a

preservação.

No campo da conservação-restauração, Avrami; Randall & Torres (2000,

p. 8) informam que os debates sobre valor já haviam sido esboçados no início do

século XX, quando Alois Riegl propõe as primeiras tipologias sobre valor

*

Arquivista. Especialista em Conservação de Bens Culturais Móveis. Mestre em

Museologia e Patrimônio. Conservadora-Restauradora de Documentos Gráficos no Museu

de Astronomia e Ciências Afins. E-mail: ozana@mast.br

**

Engenheiro metalúrgico (UFRJ), mestre e doutor em Engenharia Metalúrgica

(COPPE/UFRJ), Coordenador de Museologia do MAST, vice-coordenador e professor do

programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST), professor do

curso de Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio de C&T (MAST); bolsista

de produtividade 1C do CNPq; Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ; líder do

Grupo de Pesquisa Museologia e Preservação de Acervos Culturais. E-mail:

marcus@mast.br

205


vinculadas às tomadas de decisão para conservação física do patrimônio cultural.

Para Berducou (2007, p. 52), Riegl foi a primeira pessoa a demonstrar, não só “a

coexistência de valores contraditórios; [mas também, segundo esta autora] a

relatividade destes valores do ponto de vista e perspectiva do observador que os

aprecia; e do impacto que a restauração pode ter sobre a legibilidade destes

valores”.

Portanto, as avaliações visando à conservação-restauração não têm tido

êxito apenas nas análises de ordem técnica de observação e documentação das

condições dos acervos, mas no juízo crítico realizado pelo Conservador-

Restaurador. Contudo, para Cesari Brandi (2004, p. 103-104) ao exercer o juízo

crítico em restauração, defini-se que cada caso é um caso. E, segundo Cris

Caple (2000), o “juízo crítico” pressupõe uma série de capacidades do

profissional: experiência, habilidades, formação e raciocínio dedutivo, isto é,

condições que apenas um especialista é capaz de exercer e que o permitem

traçar referências para intervenção e tomada de decisão entre a preservação,

conservação e restauração do patrimônio. As referências mencionadas por Caple

(2000) dizem respeito tanto à teoria quanto às práticas da disciplina e são

fundamentadas com a introdução da perspectiva científica e complementadas

pelos códigos de ética profissional no campo da Conservação do patrimônio.

É possível afirmar que a subjetividade envolvida nas decisões tem,

portanto, sua delimitação na responsabilidade técnica, moral e ética do

profissional para com o patrimônio, com seu(s) proprietário(s) e com a sociedade.

Por outro lado, a subjetividade encontra-se também, como inicialmente apontado

neste texto, nas valorações individuais, comunitárias, regionais, nacionais e,

igualmente, internacionais. E, ainda, pode-se afirmar que a subjetividade é

expressa em função de um momento temporal (época), sendo ela uma

característica identificada a partir do século XVIII.

Por essas razões, as tomadas de decisão que consideram o valor e

definem a eleição e seleção para preservação, as escolhas de tratamento, os

procedimentos executados e a priorização da intervenção, obrigaram à adoção

de limites e padrões técnico-profissionais nas intervenções vigentes no final do

século XIX, dirigidas especialmente aos monumentos. Para além disto, pode-se

dizer que é somente a partir da segunda metade do século XX, com o surgimento

das bases e orientações globais que direcionaram as ações de conservação, que

se estabeleceram os princípios e critérios éticos com certo consenso, fruto dos

206


debates internacionais promovidos por instituições como a Organização das

Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO e as associações

de profissionais constituídas também de âmbito internacional, como o Conselho

Internacional de Monumentos e Sítios Históricos - ICOMOS, o Conselho

Internacional de Museus - ICOM, a Federação Internacional de Instituições e

Associações de Bibliotecas - IFLA, o Conselho Internacional de Arquivos - CIA e

o Centro Internacional de Estudos para Preservação e Conservação de Bens

Culturais - ICCROM.

Esse movimento foi reflexo, àquela época, das ideias de distintos

profissionais de diferentes países, atores do patrimônio, que se propagaram em

nível macro e que promoveram a disseminação dos princípios interventivos e da

pesquisa científica em todos os processos da área de Conservação-

Restauração. Essa disseminação também foi favorecida pelos programas de

intercâmbio, treinamento, pela produção bibliográfica 1 e pelos eventos

internacionais realizados naquele período (segunda metade do século XX).

Em desdobramento desta trajetória, se estabelecem as ações em torno

do tema da Conservação Preventiva. Caldeira (2006) e Elias (2002) identificaram

que organizações como o Instituto Internacional de Conservação de Objetos

Históricos e Obras de Arte (IIC) e o Instituto de Conservação do Reino Unido

(UKIC) também contribuíram para a consolidação deste campo, especialmente

no que se refere ao seu delineamento científico, por meio da produção e

divulgação de pesquisas. Assim, a manutenção permanente e as ciências da

conservação passam a ter relevância e foco no âmbito das ações aplicadas ao

patrimônio cultural e, por conseguinte, aos acervos documentais.

Do mesmo modo que as políticas de conservação preventiva, as ações

de conservação-restauração, especialmente de documentos arquivísticos e

1 O incremento de produção de bibliográfica em nível de cada país e internacionalmente

por meio da UNESCO verifica-se com as séries: Documentation, Libraries and Archives:

studies and research, editada na década de 1970, dentro do General Information

Programme and UNISIST e Records and Archives Management Programme - RAMP,

publicada entre as décadas de 1980 e 1990. Em âmbito Ibero-Americano, na década de

2000, podem ser citadas as iniciativas de publicação da Série Conservaplan (Venezuela);

do Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos (editado no Brasil e

replicado no Chile); e, mais recentemente, da Série Publicações Técnicas: Preservação e

conservação (editada em Portugal).

207


ibliográficos, a partir da década de 1960 2 , passaram a ser pensadas dentro de

uma ótica da administração eficiente de recursos financeiros, humanos e de

tempo. Assim, ao analisar o caráter global das iniciativas de

preservação/conservação, a partir de então, é possível verificar o impacto

potencial da necessidade de definição na seleção e na priorização de

documentos/acervos, o que fundamentalmente levou à questão: Qual a real

capacidade de avaliação do agente responsável pela “eleição”, considerando que

a sociedade contemporânea está comprometida com um ideal de inclusão?

Segundo Ross Atkinson, "a razão pela relutância do descarte de materiais é que

nos falta, no momento atual [(1986)], aparato epistemológico para distinguir um

nível de qualidade ou veracidade que claramente permita uma decisão pela

rejeição ou pela aceitação" (2001, p. 25).

Numa abordagem distinta, mas muito esclarecedora sobre a questão,

Gonçalves (2002), em seu livro A Retória da Perda, identifica a circunstância das

incessantes justificativas para evitar a perda serem motivações de preservação.

Nesse contexto, buscou-se delinear as circunstâncias que vêm sendo

analisadas no estudo sobre metodologias utilizadas nas abordagens de seleção

e priorização de ações de preservação, conservação e restauração de

documentos arquivísticos e bibliográficos para uso pelo Laboratório de

Conservação e Restauração de Papel - LAPEL, do Museu de Astronomia e

Ciências Afins - MAST. As bases deste texto foram escritas como um projeto de

pesquisa de mestrado acadêmico, desenvolvido no âmbito do Programa de Pós

Graduação em Museologia e Patrimônio, oferecido pela Universidade Federal do

Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO em parceria com o MAST. No projeto, foi

proposto o estudo de duas ferramentas (a abordagem materialística e o

gerencialmente de risco) que são indicadas para a seleção e priorização de

ações de conservação-restauração de documentos gráficos, a fim de caracterizálas

e analisar seu potencial de uso aplicado aos documentos arquivísticos, o que

deu origem à dissertação “Patrimônio Arquivístico em Museus: reflexões sobre

2 Isto ocorreu depois das enchentes de Veneza, onde inúmeros acervos foram inundados

e com os primeiros estudos sobre a deterioração do papel ácido divulgados nos Estados

Unidos. No Brasil esta consciência se inicia um pouco mais tarde, no início da década de

1980, com a promoção dos primeiros encontros sobre conservação promovidos tanto pela

Associação dos Arquivistas Brasileiros - AAB quanto pela Associação Brasileira de

Conservadores Restauradores de Bens Culturais.

208


seleção e priorização em conservação-restauração de documentos em suporte

papel” (HANNESCH, 2013).

Assim, este capítulo traz uma ampliação da abordagem inicial, incluindo

a apresentação de alguns instrumentos de coleta de dados e a abordagem do

Programa de Planejamento em Preservação - PPP. Tais ferramentas estão

sendo estudadas pela pesquisa em Gestão e Preservação de Acervos de Ciência

e Tecnologia, continuada agora, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em

Preservação de Acervos em Ciência e Tecnologia, pelo LAPEL (MAST).

2. O Valor dos Documentos de Arquivo

Considerando a eleição ou seleção para preservação de documentos

arquivísticos, o critério do valor passa a ser estabelecido/considerado a partir da

segunda metade do século XIX, já em plena Revolução Industrial. Porém, na

ocasião fazia referência apenas aos aspectos administrativos, funcionais (legal e

probatório) e históricos. Durante o século XX, os critérios de valor começam a ser

mais claramente esboçados e descritos dentro das instituições arquivísticas,

sendo citados: o valor de evidência/testemunho; o valor probatório/legal; e o valor

informativo (resultado da explosão da sociedade da informação e da produção

documental).

Segundo Cunha e Cavalcanti (2008, p. 373-374), o valor de evidência

tem relação com o poder esclarecedor (documental) dos documentos/arquivos

sobre a natureza do seu produtor, por serem estes (os documentos) provedores

de evidência da sua origem, funções e atividades. Esta afirmação encontra-se no

âmbito do que pode ser identificado como valor histórico. O valor probatório seria

aquele que se refere à utilidade e qualidade que um documento tem pela sua

capacidade de provar a existência ou veracidade de um fato (CUNHA;

CAVALCANTI, 2008, p, 375), o que pode ser relacionado com o valor legal. O

valor informativo, segundo Silva e colaboradores, se insere na perspectiva de

comunicação, isto é, no potencial do documento de transmitir algum dado que

possa configurar-se num novo conhecimento (SILVA et al., 2002, p. 23-24).

Outra forma de olhar os valores dos documentos de arquivo surge em

1956, quando Theodoro Schellenberg (1974, p. 180), um dos teóricos da

Arquivologia, afirma a existência de um valor primário e um valor secundário. O

209


primeiro se refere ao motivo de sua produção (por razões administrativas, fiscais,

legais); o segundo, dado por outros interesses que não o original. Contudo, esta

abordagem sobre o valor pode ser considerada mais de ordem técnica do que de

categorias de valor propriamente ditas, ainda que possam ser distinguidas duas

vertentes: a de uso funcional e a de uso cultural.

Nas práticas arquivísticas de meados do século XX surge, ainda, outra

perspectiva de abordagem do valor: a noção de valor intrínseco. Esta buscou

justificar a manutenção de documentos na sua forma original, sendo um

enfrentamento aos discursos de reprodução e de abandono como solução para a

preservação de documentos.

O tema do valor intrínseco ganhou importância nos Estados Unidos da

América (EUA) na década de 1980, quando o National Archives and Record

Service - NARS (atualmente denominado National Archives and Record

Administration - NARA) iniciou um trabalho de análise e avaliação de

documentos objetivando a tomada de decisão sobre aqueles que deveriam ou

não ser mantidos no seu formato original, para fins de guarda permanente. Para

isso, os EUA constituíram um comitê nacional para redação de um relatório

normalizador sobre este tema controverso (NARS, 1982, p. 1). No relatório, o

Comitê definiu o valor intrínseco como aquele identificado nos documentos de

valor permanente que lhes conferiria a qualidade e as características

arquivísticas necessárias para sua preservação ser aceitável somente na forma

física original (NARS, 1982, p. 1-2), que são:

1) forma física que fornecesse documentação importante e amostras

significativas sobre a técnica e desenvolvimento tecnológico do seu material de

constituição;

2) qualidade estética e artística;

3) aspecto físico único e curioso;

4) idade que lhe conferisse qualidade de único;

5) valor para uso em exposições;

6) autenticidade, data, autor ou outras características questionáveis, que

fossem significativas e determinadas pela forma física;

210


7) o interesse público geral ou substancial;

8) importância documental em função de base legal;

9) importância documental sobre as decisões políticas de nível executivo

superior e de amplitude de efeito.

No entanto, o tema do valor parece não estar esgotado nos aspectos

anteriormente apresentados. Acrescenta-se outra abordagem do valor que passa

a ser enfatizada: quando do reconhecimento do documento de arquivo enquanto

elemento componente da cultura e da identidade de um grupo ou povo,

nomeadamente identificado como bem ou patrimônio cultural. Às dimensões

histórica, legal e informativa, se agrega o valor intrínseco sob outro foco

extremamente alargado: o cultural. Verifica-se que a multiplicidade de valores

outorga importância à sua conservação no suporte original (primeiro), ao mesmo

tempo em que amplia a perspectiva de olhá-lo. Manero (1997, p. 289) assim

identifica: a condição de patrimônio cultural exige sua conservação física para

transmissão a gerações futuras, com todas suas prerrogativas.

Contudo, ao verificar as cartas internacionais e algumas leis brasileiras

que tratam da identificação de objetos e acervos documentais como patrimônio

cultural a partir da segunda metade do século XX, ainda se observa a presença

de termos como valor de antiguidade, excepcionalidade e raridade - cf. Lei

5.741/68 (BRASIL, 1968) e o Decreto 65.347/69 (BRASIL, 1969), por exemplo -,

que delineiam o que se considera valor cultural.

Na década de 1980, o atributo de bem, e posteriormente, de patrimônio

cultural, por outro lado, estabeleceu uma profusão de novas categorias de valor

(conf. cunhou José Reginaldo Gonçalves) para justificação da preservação. No

Brasil, com a instituição do Programa Nacional de Preservação da

Documentação Histórica - Pró-Documento no âmbito da Fundação Nacional Pró-

Memória - Pró-Memória, em 1984, estas circunstâncias também foram descritas

especialmente para os acervos documentais, favorecendo o aparecimento de

qualificações de arquivos, por exemplo, arquivos científicos, religiosos, artísticos,

entre outros. O propósito era reconhecer os acervos documentais privados de

importância para a memória e identidade nacionais e para a pesquisa e cultura

do país. Segundo informa o documento de criação do Pró-Documento, o critério

histórico é o privilegiado, contudo este se manifesta quando o acervo se “torna

211


disponível para os diversos usos culturais” (FUNDAÇÃO, 1984, p. 12), o que

justificaria sua preservação, em consonância com a abordagem apresentada

acima.

Por fim, caberia ainda retomar: como o tema da subjetividade é expresso

nos valores atribuídos aos documentos de arquivo? Neste sentido, tomam-se os

argumentos do teórico Muñoz Viñas (2010), que admite que o conceito de valor

do documento, como o do patrimônio, será sempre subjetivo. Isto porque

depende não só do julgamento, da experiência e da crítica do gestor,

pesquisador, conservador e do debate profissional, mas igualmente dos que o

reconhecem no presente (seja um indivíduo, grupo social ou a própria instituição

que o recebe) e daqueles que o receberão (no futuro).

Tanto Appelbaum (2009) como Muñoz Viñas (2003) refletiram sobre um

ponto convergente, isto é, de uma justificativa mais acertada e clara para a

tomada de decisão sobre os métodos e as ações a serem realizadas. Contudo,

observa-se que suas proposições não fazem menção a um grau ou escala de

valor, mas considerações acerca da identificação e reconhecimento destes

valores (categorias) que, segundo estes autores, afetam as decisões de

intervenção.

Assim, no referente à Conservação-Restauração, se pode afirmar que

cada instituição estabelece seus critérios, apoiados na sua missão/propósito, em

seus acervos, no contexto político e social no qual está inserida, como também

em função das análises e capacidades de julgamento de sua equipe. Se isto é

assumido como verdade, então, conforme aponta Appelbaum (2009, p.86-87):

“durante os processos e avaliações para proposição de tratamentos, os

conservadores devem ter claro e explicito o valor 3 que os objetos possuem, a fim

de poder decidir com segurança o que será preservado e em qual estado”. Então

o valor pelo qual o documento de arquivo foi salvaguardado deve ser observado

nos procedimentos relativos à Conservação-Restauração.

3 Os valores citados por Appelbaum (2009) são: valor de arte; valor estético; valor

histórico; valor de uso; valor de pesquisa; valor de idade; valor de novidade; valor

sentimental; valor monetário; valor associativo; valor comemorativo; valor educacional e

raridade.

212


3. Os Instrumentos e Ferramentas de Avaliação

O uso de instrumentos para se chegar à seleção e priorização de ações

de preservação, conservação e restauração, como apresentado no início deste

texto, tem origem nos debates que se estabeleceram a partir da década de 1960,

cujas ações passam a ser pensadas dentro da ótica da administração e

otimização de recursos, sejam financeiros, humanos e/ou materiais.

Os levantamentos direcionados à coleta de dados, dentro de uma

perspectiva científica, exigem a adoção de uma metodologia que possibilite

conhecer uma variedade de abordagens sobre os aspectos da prospecção

histórica, tecnológica, ambiental e materialística do acervo, além de considerar a

valoração que lhe é dada e o seu uso. A partir dos levantamentos é que se

estabelecem as condições e o estado de conservação por meio de um estudo

científico. Dentre os inúmeros instrumentos de coleta de dados, podem ser

citados:

Questionários - permitem um tipo de anamnese apoiada em questões

formuladas para serem respondidas de forma genérica (abertas) ou especifica

(fechadas). Estas fornecem um panorama da situação avaliada. Geralmente

conformam uma coleta de dados mais abrangente, que considera não apenas o

acervo, mas o local onde estes se encontram; as circunstâncias; entre outros.

Um exemplo deste instrumento pode ser verificado na publicação “Roteiro de

avaliação e diagnóstico de conservação preventiva” (SOUZA et al., 2008);

Listas de checagem ou avaliação - relação que tem por base padrões ou

critérios pré-estabelecidos direcionados à verificação da situação de conservação

das coleções e de seus espaços. Permitem identificar a situação ou as etapas a

alcançar segundo os parâmetros e exigências definidos a priori. Um exemplo

deste tipo de instrumento foi publicado sob o título: “Parâmetros para

Conservação de Acervos” (RESOURCE, 2004);

Formulários - favorecem a anamnese por meio do preenchimento de uma

série de dados (abrangentes ou particulares) de caráter global, e que são

dispostos em campos de informação específica. Em geral, os campos têm

respostas limitadas e padronizadas e possuem um “guia” orientador de

preenchimento. Um exemplo deste tipo de instrumento pode ser encontrado na

publicação "Métodos de evaluación para determinar las necesidades de

conservación en bibliotecas y archivos: un estudio del RAMP” (CUNHA, 1988);

213


Fichas-diagnóstico - são instrumentos de anamnese direcionados à

avaliação do estado de conservação de documentos ou coleções, geralmente

pela identificação dos danos. Pode-se dizer que são um modelo de formulário

dirigido/particular. Podem conter campos de registro prospectivo e propostas de

tratamento, tratamentos realizados (e incluir campo