ESPECIAL Imigração Japonesa Há cem anos, o navio ... - Apas

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ESPECIAL Imigração Japonesa Há cem anos, o navio ... - Apas

ESPECIAL Imigração Japonesa

Herança

cem anos, o navio

Kasato Maru chegava ao

porto de Santos trazendo

os primeiros imigrantes

japoneses, que iriam mudar

a cara do varejo brasileiro

POR VERA AMATTI

Quem assistiu ao filme Gaijin,

de Tizuka Yamazaki, pôde

constatar as dificuldades por

que passaram os imigrantes

japoneses no início do século

20. Longe da terra natal, famílias

inteiras se depararam

com diferenças de idioma, alimentação e cultura,

superadas com a convivência e a adaptação aos

costumes tropicais. Nas comemorações brasileiras,

os imigrantes mereceram até a visita do príncipeherdeiro

do trono do Japão, Naruhito, que demonstrou

por que esses irmãos de olhos puxados,

discretos e organizados, têm ainda muito o que nos

ensinar. Entre 1917 e 1940, aproximadamente 164

mil japoneses aportaram no Brasil e 75% deles se

radicaram no Estado de São Paulo.

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arquivo


oriental

Família tamayose, nos anos 1920,

no sítio de pedro de toledo

O piOneirO MOrita - Tetsuo Morita tinha 6 anos

de idade quando sua família chegou do Japão, em 1939, para

trabalhar na lavoura em Araçatuba, no interior de São Paulo. A

dedicação foi grande por parte de toda a família, que adquiriu

terras e formou a Fazenda Aliança. Logo, Morita descobriu

sua vocação para o comércio e abriu, na própria fazenda, um

botequim, que virou venda e empório, onde trabalhavam vários

membros da família.

O passo seguinte foi a abertura de um negócio na cidade

de Araçatuba e outro em Tupy Paulista, na mesma região,

para vender secos e molhados. Tetsuo e seu irmão Francisco

ficaram temerosos de abrir loja em São Paulo, por isso optaram

por Guarulhos, cidade próxima da capital, que prosperava

com a instalação de indústrias. O negócio deu certo e,

em 1971, o Morita já contava com 11 lojas. Em 1972, foram

abertas mais duas lojas, nos bairros Campo Belo e Morumbi,

na zona sul de São Paulo.

Francisco faleceu em 8 de junho de 1984 e, em agosto do mesmo

ano, o Grupo Pão de Açúcar comprou as cinco lojas da Rede

Morita instaladas em Mato Grosso e um hipermercado Morita

em Porto Velho (RO). A maior parte, no entanto, 28 lojas, foi

adquirida em 1986 pelos irmãos Peralta, da Baixada Santista.

terranOva para tOshiO - Não foi por acaso que

o supermercado fundado por Toshio Honda, em 1971, recebeu o

nome de Terranova, pois significava a esperança em um novo país.

A rede, em 1995, passou a ser administrada por seu filho Sussumu

que, depois do Plano Real, promoveu mudanças no modelo de

crescimento. Ele entendia que a centralização administrativa adotada

pelo pai tornava as decisões muito demoradas. Passou então

a freqüentar as lojas todos os dias para resolver rapidamente os

problemas, o que tornou a administração mais ágil.

Ele dizia que os pequenos deveriam dirigir o foco a determinados

setores e segurar a clientela com, por exemplo, produtos

perecíveis. Por isso, em sua estratégia de mudanças, fortaleceu a

seção de frutas e verduras. Em 2002, com sete lojas nas regiões

sul e norte da capital paulista, a rede Terranova associou-se à rede

Ricoy, hoje com 44 lojas, e Sussumu Honda passou a integrar o

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conselho administrativo. Ex-presidente da APAS e atual presidente

da Abras, Honda é o exemplo de descendente que uniu o melhor

da cultura japonesa com o caloroso jeito brasileiro. Acessível e

simpático, é um dirigente que trata funcionários, supermercadistas,

governantes e membros do poder público com a mesma humildade

e sabedoria, inteligência e bom humor.

Festa nO Marukai – No tradicional reduto oriental

de São Paulo, o bairro da Liberdade, um mercado com jeito diferente

parece não comportar tanta gente, em pleno início de

semana. Os check-outs dispostos na vertical deixam vislumbrar

as delícias vindas do Japão, da Tailândia, Coréia, China e Índia.

As operadoras brasileiras e japonesas atendem os clientes que,

em fila única que vai da frente ao fundo da loja, já sabem que a

espera não é longa, pois as moças primam pela eficiência e rapidez

ao passar os produtos pelos caixas.

Assim é o Empório Marukai, fundado há apenas dez anos

como auto-serviço, mas há quinze como mercearia. Hoje, a

loja conta com 400 metros quadrados, 9 mil itens de mix e 60

funcionários. Entre eles, está Sílvia Yamamoto, a atendente

mais antiga. Paciente e atenciosa, não apenas com os novos

funcionários mas com os clientes, cada vez mais numerosos

e interessados na culinária oriental. “Atendo principalmente

brasileiros que querem saber como se faz sushi, o tradicional

bolinho de arroz com peixe, e shimeji, os cogumelos no shoyu

e saquê”, conta Sílvia.

A gestão do Marukai, que quer dizer “mar redondo”, traduz

a filosofia dos seus fundadores: propiciar um local não apenas

para as compras, mas também um ambiente em que todos se

sintam bem, em casa, com conforto, apesar dos concorridíssimos

fins de semana, quando a “feirinha” da Liberdade atrai não

apenas os paulistanos, mas turistas vindos de todas as partes do

Brasil e do mundo. “Japoneses, americanos, europeus e pessoas

do interior perceberam que somos um pedacinho do Japão”,

diz Sílvia, orgulhosa.

BeM-vindO aO taMayOse – Os letreiros na porta

da pequena loja confirmam a vocação japonesa para bom atendimento,

organização e trabalho. O avô de Nelson Tamayose

chegou ao Brasil há oitenta anos fugindo da guerra e, como

a maioria dos imigrantes, foi trabalhar nas lavouras. Instalouse

no Vale do Ribeira, em São Paulo, na cidade de Pedro de

Toledo e logo percebeu que sua vocação estava diretamente

relacionada com o comércio, pois era ele quem levava de

caminhão os produtos para serem vendidos no Mercado da

Cantareira, na década de 1950.

Na década seguinte, montou uma barraca na feira para vender

legumes e verduras e mais tarde, na década de 1980, o supermercado

que leva seu nome, no bairro do Imirim, região norte

da capital paulista. A cultura que se formou, no entanto, parece

ser a mesma dos ancestrais: “Todos nós, filhos, netos e bisnetos

passamos por aqui antes de fazer qualquer outra coisa”, defende

Tamayose. Apesar de ser relações-públicas e ter uma empresa de

promoção de eventos, ele aprendeu a viver a partir do trabalho

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sandra, do empório Marukai,

na Liberdade: pedacinho do

Japão em gôndolas

do sítio ao supermercado, a

filosofia de trabalho que une

Cynthia, a sobrinha, e o tio

nelson tamayose


paulo pepe/nau

eliane cunha

em supermercados com seu pai e avô. A sobrinha Cynthia, que

está na faculdade, é operadora de caixa e cumpre suas obrigações

com disciplina, como um estágio para o futuro. “Faço tudo aqui

com prazer”, ensina ela.

traBaLhO nO interiOr - A história dos Supermercados

Nagai começa com a vinda da família Nagai do Japão

para o Brasil, em 1933. Hideo Nagai era o único filho homem

da família, e aos 12 anos, com o falecimento de seu pai, tomou

a frente dos negócios. Com o passar do tempo e o excesso

de trabalho na lavoura, surgiu a vontade de trocar o campo

pela cidade, o que ocorreu em 1955, na cidade de Martinópolis,

região de Presidente Prudente (SP). Hideo e sua família

optaram por abrir um estabelecimento comercial, e compraram

um pequeno armazém com aproximadamente 35 metros

quadrados, onde vendiam vários tipos de produtos e toda a

família trabalhava, ajudando no atendimento e na conquista

dos primeiros clientes.

Em 1967 a família comprou o primeiro prédio e contava com

a ajuda de dois funcionários; nessa época, os filhos de Hideo

já auxiliavam tia, mãe e avó no atendimento aos clientes e na

seleção de mercadorias. Com o crescimento das vendas, surgiu

então a idéia da abertura de um supermercado, e em 1980 nasceu

o Supermercado Irmãos Nagai, localizado no mesmo prédio, ao

lado do armazém, com 200 metros quadrados.

Seu Hideo faleceu em 1992, mas deixou aos cinco filhos suas

lições e a responsabilidade de dar andamento ao seu trabalho.

Em 2004 foi implantada a técnica dos 5S, que visa preparar o

ambiente para a gestão pela qualidade. A implantação criou a

necessidade de se formar um grupo de verificação, e com essa

filosofia foi gerada a oportunidade de crescimento para os colaboradores,

proporcionando qualidade de vida e melhora no

ambiente de trabalho (veja box).

Antonio Nagai, diretor Comercial da rede, que hoje conta com

duas lojas, uma em Martinópolis e outra em Presidente Prudente,

ambas no interior paulista, e cerca de 240 funcionários, acredita

que assim como a empresa, sua família se integrou totalmente ao

Brasil, ensinamento que também deve ao pai. “Meu pai nos ensinou

a não desistir dos nossos objetivos e nos adaptar à cultura”,

lembra Nagai. Além de supermercadista, ele segue sua vocação

associativista, pois Nagai é também diretor da Regional APAS

de Presidente Prudente, prestando serviços a toda a comunidade

supermercadista.

OrientaL BeM BrasiLeira – Quem conhece os

produtos Sakura, exportados até para o Japão, nem imagina a

saga de Suekichi Nakaya e sua esposa Chioko, fundadores da

empresa. Chegaram ao Brasil em 1932 e, logo depois de começarem

a trabalhar em uma fazenda no interior de São Paulo,

Suekichi pegou malária, doença tropical a que os imigrantes

estavam suscetíveis e contra a qual não tinham resistência. Assustado,

o casal resolveu, então, mudar-se para a capital paulista

e trabalhar no comércio.

Foi quando ele resolveu produzir e comercializar, ainda em


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O patriarca hideo nagai (de óculos) com a família e no tempo da caderneta, organizando as contas e a vida

tonéis, o famoso shoyu para auxiliar as preparações da cozinha

oriental. Em 1940, com o aumento da demanda, abriu uma fábrica

no Parque Novo Mundo, na região de Vila Prudente, em São

Paulo, ainda em funcionamento. “Naquele tempo, só os japoneses

compravam esses produtos, que tinham de ser os mais parecidos

possíveis com os do Japão”, conta o diretor de Marketing da Sakura,

Henry Nakaya, neto do fundador.

Nakaya acrescenta que tudo era muito artesanal. Além da

preparação que se compara à produção de um vinho, o shoyu

era transportado em barris de madeira e vendido para armazéns

de secos e molhados. Na década de 1950, embora o consumo

continuasse entre os descendentes de japoneses, o brasileiro ainda

era resistente ao paladar e não tinha informação suficiente para

apreciar o forte sabor oriental.

Quando o filho mais novo de Suekichi, Renato Nakaya, assumiu

a empresa em meados da década de 1960, trabalhou no

sentido de popularizar o produto, transmitindo informações e

vislumbrando o futuro: hoje, principalmente nos grandes centros, o

shoyu está nas gôndolas, em exposição casada com produtos brasileiros

e faz parte da mesa saudável, não apenas nas preparações

de culinária típica, mas como molho para saladas e tempero para

carnes, frangos e peixes.

Para as comemorações, a empresa, cujo nome significa “flor de

cerejeira”, lança embalagens especiais para colecionadores, com

a foto do Kasato Maru e da flor-símbolo do Japão.

FOnTES DESTA MATéRIA

D’Almeida, joão F.; Eid, William. O Supermercado nosso de Cada Dia.

São Paulo: APAS, 2008 (no prelo)

Empório Marukai: (11) 3341-3350

Mini Mercado Irmãos Tamayose: (11) 2239-5872

Rede nagai: (18) 2104-7900

Sakura: (11) 2941-1177

Terranova/Ricoy: (11) 6947-2688

revista@supervarejo.com.br

60 SuPERVAREjO | junhO 2008

A FILoSoFIA

JAPonESA doS 5S

A técnica japonesa, baseada em 5 palavras que começam

pela letra S, é uma grande aliada para a gestão. De acordo

com seus preceitos, somente quando todos se sentirem orgulhosos

por terem construído um local de trabalho digno e

se dispuserem a melhorá-lo continuamente, estará realmente

compreendida a verdadeira essência do 5S:

Seiri, senso de utilização: classificação e seleção de

utensílios, materiais e equipamentos adequados para cada

trabalho ou atividade; seleção de informações e dados necessários

para o trabalho.

Seiton, senso de ordenação: local certo para guardar os

objetos, organização do local de trabalho, organização dos

sistemas de armazenamento e recuperação de informação.

SeiSou, senso de limpeza: manutenção da área de trabalho

sempre limpa; ter apenas informações e dados necessários

para as decisões em tarefas específicas.

SeiketSu, senso de saúde: boas condições sanitárias e

de higiene, verificando itens como iluminação, poluição atmosférica,

ruído e temperatura ambiente; manter boa apresentação

de dados para fácil assimilação e compreensão.

ShitSuke, senso de autodisciplina: também chamado

senso de ordem mantida; hábito de observar preceitos e

normas, exercício do autocontrole e autodireção.

arquivo

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