a rainha no palacio das correntes de ar stieg larsson millennium 03

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a rainha no palacio das correntes de ar stieg larsson millennium 03

A RAINHA

NO PALACIO ´

DAS

CORRENTES

DE AR

STIEG

LARSSON

“A VINGANÇA É UMA FORÇA PODEROSA”

Lisbeth Salander

MILLENNIUM

03


Capítulo 1

SEXTA-FEIRA, 8 DE ABRIL

Faltava pouco para a uma e meia quando Hanna Nicander,

uma das enfermeiras, acordou o Dr. Anders Jonasson.

– Que se passa? – perguntou ele, ainda meio atordoado.

– Helicóptero a chegar. Dois pacientes. Um homem já de

idade e uma rapariga; ela com ferimentos de bala.

– Já vou, já vou – resmungou Jonasson, cansado.

Sentia-se sonolento apesar de não ter verdadeiramente

dormido, tinha apenas dormitado uma escassa meia hora.

Estava de serviço no Hospital Sahlgrenska, em Gotemburgo.

A noite fora esgotante. Logo às seis, quando entrara de turno,

tinham recebido quatro vítimas de uma colisão frontal

perto de Lindome. Uma delas em estado grave e outra decla -

rada morta pouco depois da chegada. Também tratara da

cria da de um restaurante da Avenyn que queimara as pernas

na cozinha e logo a seguir salvara a vida a um garoto de quatro

anos em paragem respiratória depois de ter engolido uma

roda de um carrinho de brincar. Além disso, ainda tivera

tempo de coser uma adolescente que caíra num buraco com

a bicicleta. A engenharia civil tinha, ardilosamente, colo cado

o dito buraco à saída de uma pista para ciclistas, e alguém

tivera o cuidado de atirar lá para dentro as barreiras de protecção.

A rapariga tivera direito a 14 pontos na cara e precisara

de dois incisivos novos. Ah, e também cosera a ponta do

pole gar que um marceneiro de fim-de-semana com mais entusiasmo

do que habilidade aplainara por engano.

Por volta das onze da noite, o número de pacientes nas

urgên cias tinha diminuído. Fizera a ronda e controlara o estado

dos hospitalizados, após o que se retirara para uma sala

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de repouso com a intenção de rela xar um pouco. O turno

acabaria às seis da manhã. Era raro dormir quando estava de

serviço, mesmo que não houvesse admissões, mas, precisamente

naquela noite, caíra num ensonado torpor mal se instalara

no cadeirão.

Hanna Nicander estendeu-lhe uma caneca de chá. Ainda

não tinha pormenores sobre os recém-chegados.

Anders Jonasson olhou pela janela e viu os raios riscarem

o céu por cima do mar. Ia ser mesmo no limite, para o helicóptero.

De re pen te, começou a chover furiosamente. A tempestade

tinha-se abati do sobre Gotemburgo.

Ainda estava à janela quando ouviu o barulho dos rotores

e viu o helicóptero, açoitado pelas rajadas de vento, fazer-se

à área de ater ra gem. Reteve a respiração por um instante,

quando lhe pareceu que o piloto estava com dificuldade em

controlar a aproximação. Depois, o aparelho saiu do seu

campo de visão e o uivo da turbina desceu vários decibéis.

Bebeu um golo de chá e pousou a caneca.

O Dr. Anders Jonasson foi receber os maqueiros à entrada

das ur gências. A colega de turno, a Dra. Katarina Holm,

tomou conta do primeiro paciente a chegar, um homem já

de idade, com um grave ferimento no rosto. Coube ao Dr.

Jonasson ocupar-se da outra pacien te, a mulher com ferimentos

de bala. Um primeiro e rápido exame per mi tiu-lhe

verificar que se tratava de uma adolescente, gravemente feri -

da e coberta de sangue e de terra. Levantou a manta em que

os serviços de emergência a tinham embrulhado e descobriu

que alguém tinha vedado os ferimentos na coxa e no ombro

com tiras de fita adesiva prateada. Uma iniciativa que considerou

particularmente inteli gente: a fita impedia a entrada

de bactérias e a saída do sangue. Uma das balas atingira-a no

lado externo da anca e atravessara o mús cu lo de um lado ao

outro. Levantou o camisolão e localizou o orifício de entrada

da segunda bala, nas costas. Não havia orifício de saída,

o que significava que o projéctil continuava algures no ombro.

Havia o perigo de ter perfurado o pulmão, mas como

não viu sangue na boca da rapariga, concluiu que não.

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– Raio X – disse à enfermeira que o assistia, e foi o bastante

como indicação.

Para terminar, desenrolou a ligadura que os socorristas tinham

atado à volta da cabeça da jovem ferida. Estremeceu

quando tacteou com as pontas dos dedos o orifício de entra -

da e compreendeu que ti nha sido atingida por uma terceira

bala, desta vez na cabeça. Como no caso do ombro, não havia

orifício de saída.

Anders Jonasson deteve-se por um instante e olhou para

a jovem. Subitamente, sentiu-se invadir por uma vaga de pessimismo.

Comparava muitas vezes o seu trabalho ao de um

guarda-redes. To dos os dias chegavam às suas mãos pessoas

nos mais variados e diver sos estados, mas todas com uma

única intenção: obter ajuda. Como a senhora de 74 anos que

fizera uma paragem cardíaca no cen tro comer cial de Nord -

stan e caíra redonda no chão, ou o rapaz de 14 anos que perfurara

o pulmão esquerdo com uma chave de pa ra fusos, ou

a rapa riga de 16 que se empanturrara de ecstasy e dançara

durante 18 horas seguidas até cair para o lado com a cara

azula da. Havia vítimas de aci dentes de trabalho e vítimas de

maus -tratos. Havia crianças ataca das na Praça Vasa por cães

de luta e homens com jeito para a bri colage cuja intenção fora

apenas cortar algumas tábuas com a serra eléctrica e que tinham

acabado por cortar o pulso até ao osso.

Anders Jonasson era o guarda-redes entre os pacientes e

o cangalheiro. O seu trabalho consistia em decidir que medi -

das eram apropriadas. Se tomasse a decisão errada, o paciente

morria, ou talvez acordasse com uma invalidez permanente.

A maior parte das vezes decidia correctamente, e isto porque

a maioria dos pacientes tinha um problema específico e compreensível.

Uma facada num pulmão ou um traumatismo decorrente

de um acidente de viação eram ferimentos inteligíveis

e claros. A sobrevivência do paciente dependia da natureza

do ferimento e da habilidade dele.

Havia dois tipos de ferimentos que Anders Jonasson detestava

acima de todos os outros. Certas queimaduras que,

na maior parte dos casos, independentemente dos meios que

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utilizasse, conduziam a uma vida de sofrimento. E os feri -

men tos na cabeça.

Aquela rapariga que tinha à sua frente poderia viver com

uma bala na anca e outra bala no ombro. Mas uma bala algures

no cérebro era um problema de uma gravidade completamente

diferente. Apercebeu-se subitamente de que a

enfermeira dizia qualquer coisa.

– Perdão?

– É ela.

– Ela quem?

– A Lisbeth Salander. A rapariga que eles procuram há

semanas por causa do triplo homicídio em Estocolmo.

Anders Jonasson examinou o rosto da paciente. Hanna

tinha razão. Era a fotografia de passaporte daquela rapariga

que, desde a Páscoa, ele e praticamente todos os suecos

viam pespegada na montra de todos os quiosques de jornais.

E agora a assassina tinha sido ferida, o que constituía sem

dúvida uma forma de justiça imanente.

Era, porém, um problema que não lhe dizia respeito.

O seu tra ba lho consistia em salvar a vida da paciente, fosse

ela tripla homi cida ou laureada com o Nobel da Paz. Ou as

duas coisas ao mesmo tempo.

Depois, foi essa espécie de caos controlado que caracteriza

um Serviço de Urgências. O pessoal que trabalhava com

Jonasson era experiente e sabia o que tinha de fazer. As roupas

que Lisbeth Salander ainda vestia foram cortadas. Uma

enfermeira mediu-lhe a pressão ar te rial – 100/70 – enquanto

ele encostava o estetoscópio ao peito da paciente e auscultava

o bater do coração, que parecia bastante regular, e a respiração,

não tanto.

O Dr. Jonasson não hesitou em classificar imediatamente

o estado de Lisbeth Salander como crítico. As feridas no ombro

e na anca podiam esperar, de momento, aplicando compressas

ou até deixando onde estavam as tiras de fita adesiva,

que uma alma inspirada tinha aplicado. O principal era a cabeça.

Mandou que a passassem pelo scanner em que o hospi -

tal investira o dinheiro dos contribuintes.

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Anders Jonasson era um homem loiro de olhos azuis, ori -

ginário do Norte da Suécia, mais precisamente de Umeå, e

havia mais de vinte anos que trabalhava nos hospitais Sahlgrenska/Östra,

alternando as especialidades de investigador,

patologista e médico das Urgências. Tinha uma particularidade

que perturbava os colegas e envaidecia o pessoal que

trabalhava com ele: mantinha, como questão de princípio,

que nenhum paciente podia morrer durante os seus turnos,

e, como que por milagre, conseguira, até ao momento, manter

o seu score em zero. É certo que alguns tinham morrido,

mas isso acontecera sempre no decurso de tratamentos posteriores

e por razões que nada tinham tido que ver com a sua

intervenção.

E, além disso, Jonasson tinha também uma visão pouco

ortodo xa da medicina. Segundo ele, os médicos tendiam a

tirar conclusões que não podiam justificar e, por isso, a desis -

tir demasiado depressa, ou então a dedicar demasiado tempo

à tentativa de definir exactamente o problema para poderem

prescrever o tratamento apropriado. Era, sem dúvida, o método

que os livros preconizavam, sendo o único óbi ce o facto

de o paciente correr o risco de morrer enquanto o corpo clí -

ni co estava ainda entregue às suas reflexões. No pior dos

cená rios, o médico chegava à conclusão de que o caso era desesperado

e interrompia o tratamento.

No entanto, nunca acontecera ao Dr. Anders Jonasson ter

uma paciente com uma bala alojada na cabeça. Ia muito provavelmente

ser necessária a intervenção de um neurocirurgião.

Sentia-se… impo tente, mas ocorreu-lhe, de repente, que

talvez tivesse mais sorte do que merecia. Antes de lavar as

mãos e enfiar a bata esterilizada, gritou a Hanna Nicander:

– Há um professor americano chamado Frank Ellis. Trabalha

no Karolinska em Estocolmo, mas de momento encon -

tra-se em Gotem burgo. É um neurologista célebre, e ainda

por cima meu amigo. Está alojado no Hotel Radisson, na Avenyn.

Veja se me consegue descobrir o número do telefone.

Enquanto Anders Jonasson aguardava ainda as ra diogra -

fias, Hanna Nicander voltou com o número de telefone do

Hotel Radisson. Jonasson lançou um olhar ao relógio – quase

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um quarto para as duas – e pegou no auscultador. O por teiro

da noite do Radisson mostrou-se muito renitente à ideia de

passar um telefonema àquela hora da noite, e o médico teve

de recorrer a algumas expressões muito veementes para

explicar a gravidade da situação antes que a ligação fosse estabelecida.

– Olá, Frank – disse Jonasson, quando finalmente alguém

atendeu. – Sou eu, o Anders. Soube que estás em Gotemburgo.

Que dizes a dar um salto aqui ao Sahlgrenska e ajudar-me

numa operação ao cérebro?

– Are you bullshiting me? – respondeu uma voz incrédula,

do outro lado.

Apesar de viver na Suécia havia longos anos e de falar

fluentemente sueco – é certo que com sotaque americano –,

Frank Ellis continuava a pensar, e a reagir, em inglês. Jonasson

falou em sueco, Ellis respondeu em inglês.

– Frank, tenho muita pena de ter perdido a tua conferência,

mas pensei que podias dar-me umas explicações particulares.

Tenho aqui uma rapariga que levou um tiro na

cabeça. Orifício de entrada por cima da orelha esquerda.

Não te teria telefonado se não precisasse de uma segunda

opinião. E não consegui lembrar-me de ninguém mais competente

do que tu para este género de coisa.

– Não estás a brincar? – perguntou Ellis.

– Deve andar pelos vinte e cinco anos, a rapariga.

– E como se apresenta o ferimento?

– Orifício de entrada, nenhum de saída.

– E ela está viva?

– Pulso fraco mas regular, respiração menos regular, tensão

100/70. Tem outra bala alojada no ombro e um ferimento

de bala na anca. Destes dois problemas posso tratar eu

sozinho.

– É bom sinal.

– Bom sinal?

– Quando uma pessoa tem uma bala alojada na cabeça e

continua viva, a situação tem de ser considerada promissora.

– Podes ajudar-me?

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– Tenho de confessar-te que passei a noite com uns amigos.

Deitei-me à uma da manhã e muito provavelmente o

meu nível de alcoolemia é considerável…

– Serei eu a tomar as decisões e a operar. Mas preciso de

alguém para me assistir e para me dizer se estou a cometer

algum erro. E um professor Ellis, mesmo completamente bêbedo,

está de certeza mais abalizado do que eu para avaliar

os danos causados ao cérebro.

– Tudo bem. Vou para aí. Mas ficas a dever-me uma.

– Tens um táxi à tua espera à porta do hotel.

O professor Frank Ellis empurrou os óculos para a testa

e coçou a nuca. Olhou para o monitor que lhe mostrava

todos os cantos e recantos do cérebro de Lisbeth Salander.

Ellis tinha 53 anos, cabelos muito pretos – com uma ou outra

branca aqui e além – e um resquício de barba escura que

o fazia parecer uma personagem secundá ria de ER. Via-se,

pelo físico, que passava várias horas por semana no ginásio.

Frank Ellis gostava da Suécia. Chegara no final da década

de setenta como jovem investigador no âmbito de um programa

de inter câm bio, e ficara dois anos. Posteriormente,

voltara várias vezes até lhe terem oferecido um lugar de professor

no Instituto Karolinska. Nessa altura, já o seu nome

era respeitado no mundo inteiro.

Anders Jonasson conhecia Frank Ellis havia 14 anos. Tinham-se

encontrado pela primeira vez aquando de um seminário,

em Es tocol mo, e descoberto uma paixão comum

pela pesca com mosca. Anders convidara-o para uma pescaria

na Noruega. Tinham mantido o contacto ao longo dos

anos, e tinha havido outras pescarias. Nunca, no entanto, tinham

trabalhado juntos.

– O cérebro é um mistério – disse o professor Ellis. – Há

vinte anos que o investigo. Mais, até.

– Eu sei. Desculpa ter-te acordado, mas…

– Deixa. – Frank Ellis agitou uma mão, a desdramatizar

a questão. – Vai custar-te uma garrafa de Cragganmore da

próxima vez que formos pescar.

– De acordo. Não levas caro.

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– O teu caso recorda-me um outro que tive aqui há anos,

quan do trabalhava em Boston… descrevi-o no New England

Journal of Medicine. Era uma rapariga da mesma idade que

a tua paciente. Ia a caminho da universidade quando alguém

lhe acertou um tiro de besta. O dardo entrou por cima do

sobrolho esquerdo, atravessou toda a cabeça e foi sair a meio

da nuca.

– E ela sobreviveu? – perguntou Jonasson, espantado.

– Ficámos todos de boca aberta quando chegou às Urgências.

Cortámos a ponta do virote… acho que é assim que

chamam às fle chas disparadas com as bestas… e enfiámos-

-lhe a cabeça no scanner. Atravessava-lhe o cérebro de um

lado ao outro. A lógica e o bom senso exigiriam que estivesse

morta, ou pelo menos em coma, dada a extensão do traumatismo.

– E como é que estava?

– Manteve-se sempre consciente. Mas não só. Estava

cheia de medo, claro, mas perfeitamente lúcida. O único

pro blema era que tinha um dardo a atravessar-lhe o cérebro.

– E tu, que fizeste?

– Bem, peguei numa pinça, extraí o dardo e apliquei um

penso. Mais coisa menos coisa.

– E ela sobreviveu?

– Mantivemo-la em observação durante bastante tempo

antes de lhe dar alta, mas, para ser franco, podíamos tê-la

mandado para casa logo no dia em que chegou. Nunca tive

uma paciente tão cheia de saúde. – Anders Jonasson perguntou

a si mesmo se o professor Ellis esta ria a brincar. – Por

outro lado – continuou Ellis –, tive um paciente de quarenta

e dois anos, em Estocolmo, há meia dúzia de anos, que tinha

batido com a cabeça no peitoril da janela e feito um golpe -

zinho de nada. Começou a sentir náuseas e levaram-no de

ambulância para as Urgências. Estava inconsciente quando

deu entrada. Apresentava um pequeno inchaço e uma hemorragia

mínima. Mas nunca recuperou os sentidos e morreu

ao cabo de nove horas de cuidados intensivos. Ainda

hoje não sei por que morreu. No relatório da autó p sia escre -

ve mos «hemorragia cerebral em consequência de acidente»,

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mas nenhum de nós estava satisfeito com a explicação. A hemorragia

era extremamente pequena e situada de tal modo

que não deveria ter prejudicado fosse o que fosse. E no entanto

o fígado, os rins, o coração e os pulmões deixaram de

funcionar, uns atrás dos outros. Quanto mais envelheço, mais

me convenço de que isto é como uma lotaria. Pelo meu lado,

acredito que nunca saberemos exactamente como funciona

o cérebro. O que é que tencionas fazer?

Bateu com a ponta da esferográfica no monitor do TAC.

– Estava à espera de que fosses tu a dizer-me.

– Diz-me primeiro como é que vês a situação.

– Bom, em primeiro lugar, parece tratar-se de uma bala

de pe que no calibre. Entrou pela têmpora e penetrou cerca

de quatro cen tí me tros no cérebro. Está encostada ao ventrículo

lateral e há uma hemorragia.

– Medidas a tomar?

– Para usar a mesma linguagem que tu, pegar numa pinça

e tirar a bala pelo mesmo sítio por onde entrou.

– Excelente proposta. Mas aconselho-te a usar a pinça

mais fina que tiverem.

– Vai ser assim tão simples?

– Num caso destes, que mais se pode fazer? Podemos deixar

a bala onde está, e a rapariga viverá provavelmente até aos

cem anos, mas é uma lotaria. Pode tornar-se epiléptica, ter dores

de cabeça terríveis e mais um sem-fim de chatices. E não

va mos querer abrir-lhe a cabeça para a operar daqui a um

ano, quando a ferida propriamente dita estiver cicatriza da.

A bala está um pouco afastada das veias prin ci pais. O meu

conselho é que a retires, mas…

– Mas o quê?

– Não é a bala que me preocupa mais. É o que os traumatismos

cerebrais têm de fascinante: se a paciente sobreviveu

à entrada da bala, é sinal de que sobreviverá também à

saída. O problema situa-se mais aqui. – Frank Ellis pousou

um dedo no monitor. – Tens uma porção de lascas de osso à

volta do orifício de entrada. Estou a ver pelo menos uma dúzia

de fragmentos com alguns milímetros de comprimento.

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Vários estão alojados no tecido cerebral. Se não tiveres cuidado,

são eles que a vão matar.

– Essa parte do cérebro está associada à fala e à aptidão

para os números.

Ellis encolheu os ombros.

– Conversa fiada. Não faço a mínima ideia de para que

serve essa massa cinzenta. E tudo o que tu podes fazer é dar

o teu melhor. Tu operas. Eu assisto. Arranja-me uma bata e

diz-me onde é que posso lavar as mãos.

Mikael Blomkvist deu uma olhadela ao relógio e verificou

que passava pouco das três da manhã. Tinham-no algemado.

Fechou os olhos por um segundo. Estava exausto, mas a adre -

nalina dava-lhe forças. Olhou furiosamente para o subcomissário

Thomas Paulsson, que lhe devolveu um olhar enfadado.

Estavam sentados à volta de uma mesa de cozinha numa

quinta de uma parvónia qualquer chamada Gosseberga, algu -

res perto de Nossebro, um sítio de que, até doze horas antes,

Mikael nunca ouvira sequer falar em toda a sua vida.

A catástrofe acabava de ser confirmada.

– Imbecil – rosnou Mikael.

– Escute…

– Imbecil! Eu disse-lhe, seu sacana de merda, que o tipo

era um perigo de morte ambulante. Disse-lhe que tinha de lidar

com ele como com uma granada sem cavilha. O estupor

assassinou pelo menos três pessoas, tem a constituição de um

carro de combate e mata com as próprias mãos. E você, seu

cretino, manda dois policiazecos buscá-lo, como se fosse um

vulgar bêbedo a causar distúrbios na festa da aldeia.

Voltou a fechar os olhos, perguntou a si mesmo que mais

poderia acontecer-lhe naquela noite.

Tinha encontrado Lisbeth Salander pouco depois da

meia-noite, gravemente ferida. Chamara a polícia e conse -

guira convencer os Serviços de Emergência Médica a enviar

um helicóptero que a evacuasse para Sahlgrenska. Descrevera

em pormenor os ferimentos e o buraco que a bala deixara

no crânio de Lisbeth, e tivera a sorte de encontrar uma

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pessoa suficientemente inteligente para compreender que

eram necessários cuidados médicos imediatos.

Mesmo assim, o helicóptero tardara meia hora a chegar.

Mikael tirara dois carros do celeiro, que também fazia de garagem,

e ligara os faróis iluminando o terreno em frente da

casa para indicar uma zona de aterragem.

O piloto do héli e os dois socorristas tinham agido como

profis sionais experientes. Um dos socorristas ministrara os

cuidados de emergência a Lisbeth Salander, enquanto o outro

se ocupava de Karl Axel Bodin, de seu verdadeiro nome

Zalachenko, pai de Lisbeth e o seu pior inimigo. Mikael encontrara-o,

gravemente ferido, numa ar re ca dação de lenha

pertencente àquela quinta isolada, com uma grave machada -

da no rosto e um ferimento na perna.

Enquanto esperava pelo helicóptero, fizera o que pudera

por Lisbeth. Fora buscar um lençol lavado ao armário da

rou pa, rasgara-o em tiras e servira-se dele para improvisar

uma ligadura. Verificara que o sangue coagulado vedara o

orifício que a bala abrira no crânio de Lisbeth e ficara sem

saber muito bem se devia ou não aplicar um penso. Acabara

por limitar-se a atar uma tira de lençol à volta da ca be ça, sem

apertar, sobretudo para impedir que a ferida ficasse exposta

a bactérias e à sujidade. Em contrapartida, estancara as hemorragias

na anca e no ombro da maneira mais simples possível.

Depois de encontrar, num armário, um grande rolo de

fita adesiva prateada, servira-se dela para tapar as feridas.

Limpara-lhe o rosto com uma toalha húmida, removendo o

melhor que pudera a terra e a sujidade.

Não fora à arrecadação da lenha prestar quaisquer cuidados

a Zalachenko. A verdade era, e no seu íntimo tivera de

o admitir, que se estava perfeitamente nas tintas para o que

pudesse acontecer àquele bandalho.

Enquanto esperava por socorro, aproveitara para ligar a

Erika Berger a explicar-lhe a situação.

– Estás bem? – perguntara Erika.

– Menos mal. A Lisbeth é que está gravemente ferida.

– Pobre rapariga. Esta tarde li o relatório do Björk para

a Säpo. Como é que vais gerir toda esta história?

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– Não tenho sequer forças para pensar nisso.

Enquanto falava com Erika, sentado no chão ao lado do

banco da cozinha, mantinha um olho atento fixado em Lisbeth.

Tinha-lhe tirado as botas e as calças para poder estancar

o ferimento na anca e, nesse instante, a sua mão encontrara a

peça de roupa que deixara cair, e sentira um objecto duro

num dos bolsos. Um Palm Tungsten T3.

De cenho franzido, contemplara pensativamente o pequeno

com pu tador. Ao ouvir os rotores do helicóptero, en fia ra-o

no bolso interior do casaco. Em seguida, e enquan to ainda es -

ta va sozinho, revistara todos os bolsos de Lisbeth. Encontrara

um porta-chaves com as chaves do apartamento em Mosebacke

e um passaporte em nome de Irene Nesser. Sem hesitar,

guardara-os na bolsa exterior da pasta do computador.

O primeiro carro-patrulha, com os agentes Fredrik Tor -

stensson e Gunnar Andersson, da polícia de Trollhättan, chegara

minutos depois de o helicóptero da Emergência Médica

ter aterrado. Acom panha va-os o subcomissário Thomas

Paul sson, que assumira de imediato o comando das ope ra -

ções. Mikael adiantara-se e começara a explicar o que se tinha

passado. O subcomissário dera-lhe a impressão de ser um

subalter no obtuso e cheio de auto-estima. Com a che ga da de

Paulsson, as coisas tinham começado imediatamente a dar

para o torto.

Manifestamente, Paulsson não compreendia nada do que

Mikael explicava. Parecia curiosamente baralhado e o único

dado que captara fora que a rapariga gravemente ferida estendida

no chão junto ao banco da cozinha era Lisbeth Salander,

suspeita de três homicídios, procurada pela polícia e

que a sua captura era importante. Perguntara três vezes ao

socorrista se a rapariga estava em condições de ser imediatamente

detida, até que o homem, de cabeça perdida, se levan -

tara e lhe gritara que ficasse calado e não se intrometesse.

Em seguida, Paulsson virara a sua atenção para Alexander

Zalachenko, que continuava na arrecadação da lenha, e

Mikael ouvira-o anunciar pela rádio que, de acordo com os

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indícios encontrados no local, Lisbeth Salander tentara fazer

uma quarta vítima.

Neste ponto, Mikael irritara-se com o subcomissário, que

mani festamente não ouvira uma palavra do que ele tentara dizer

e, subindo o tom de voz, aconselhara Paulsson a ligar sem

mais demoras para o inspector Jan Bublanski, em Estocolmo.

Tirara o telemóvel do bolso e oferecera-se para fazer ele próprio

a ligação. Paulsson não se mostrara interessado.

E fora então que Mikael cometera dois erros.

Declarara resolutamente que o verdadeiro autor dos três

homicí dios era um homem chamado Ronald Niedermann,

pa recido com um robô antitanque, que sofria de analgesia

congénita e se encontra va, de momento, amarrado e atado a

um poste na berma da estrada de Nossebro. Indicara o local

exacto e recomendara a Paulsson que mobilizasse um batalhão

de infantaria, com armamento pesado, antes de ir buscá-lo.

Paulsson perguntara como fora Niedermann parar

àquela sarjeta e Mikael reconhecera, de coração nas mãos,

que fora ele que o ameaçara com uma arma e o deixara naquela

situação.

– Ameaça com uma arma – frisara o subcomissário Pauls -

son.

Naquele momento, Mikael devia ter compreendido que

Paulsson era um cretino. Devia ter pegado no telemóvel e

ligado ele próprio para Jan Bublanski para lhe pedir que

inter viesse e dissipasse o nevoeiro no meio do qual Paulsson

parecia navegar. Em vez disso, cometera o segundo erro ao

decidir entregar ao subcomissário a arma que tinha no bolso

– o Colt 1911 Government que encontrara no apar ta mento

de Lisbeth Salander em Estocolmo e de que se servira para

dominar Ronald Niedermann.

Gesto infeliz, que levara Paulsson a detê-lo imediata -

mente por posse ilegal de arma. Em seguida, o subcomis sário

or de na ra aos agentes Torstensson e Andersson que se dirigissem

ao local indicado por Mikael, na estrada de Nossebro,

para determinar se havia alguma verdade na história que

aquele indivíduo contava a respeito de um homem amarrado

ao poste de um sinal indicativo da passagem de alces. Se fosse

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o caso, os agentes deveriam algemar a pessoa em causa e le -

vá-la para a quinta de Gosseberga.

Mikael protestara, explicando que Ronald Niedermann

não era alguém que se pudesse prender com um par de alge -

mas e sim um te mí vel assassino. Paulsson preferira ignorar

estes protestos, e a fadiga acabara por se impor. Mikael chamara-lhe

sacana incompetente e gritara a Torstensson e a Andersson

que tivessem o cuidado de não soltar Niedermann

antes de chamarem reforços.

O resultado fora ver-se algemado e empurrado para o

ban co trasei ro do carro do subcomissário, de onde assistira

à partida de Tors tens son e Andersson no carro-patrulha.

A única luz no meio daquela escuridão total era o facto de

Lisbeth ter sido levada pelo heli cóptero que desaparecia por

cima das árvores a caminho do hospital. Mikael sentiu-se totalmente

impotente e à margem do fluxo de informações.

Restava-lhe esperar que Lisbeth fosse entregue em mãos

competentes.

O Dr. Anders Jonasson fez duas profundas incisões até

ao osso do crânio, dobrou a pele à volta do orifício de entrada

e prendeu-a com pinças. Uma enfermeira inseriu um

aspirador para remover o sangue. Depois, veio a parte desagradável

em que o Dr. Jonasson usava um berbequim para

alargar o buraco no osso. A intervenção progrediu com uma

lentidão exasperante.

Quando obteve um orifício suficientemente largo para aceder

ao cérebro de Lisbeth Salander, introduziu nele, com

infinitos cuidados, uma sonda, e afastou as extremidades da

ferida uns quantos milímetros. Em seguida, usando uma sonda

mais fina, localizou a bala. Graças ao raio X, pôde ver que

a bala rodara até se colocar num ângulo de 45 graus relativamente

à trajectória de entrada. Utilizou a sonda para lhe tocar

muito ao de leve e, depois de várias tentativas falhadas, conseguiu

levantá-la o suficiente para a colocar na posição inicial.

Por fim, introduziu no orifício uma pinça muito fina e

comprida, agarrou a base do projéctil e apertou com força.

A bala saiu quase sem oferecer resistência. O Dr. Jonasson

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segurou-a por um instante em contraluz, verificou que parecia

intacta e deixou-a cair numa bacia.

– Esponja – disse, e a ordem foi instantaneamente obedecida.

Lançou um olhar ao electrocardiograma, que continuava

a registar uma actividade cardíaca regular.

– Pinça.

Puxou para si uma potente lupa suspensa de um braço

articulado e examinou a área de trabalho.

Durante os três quartos de hora seguintes, Anders Jonasson

retirou nada menos do que 32 fragmentos de osso espalhados

à volta do orifício de entrada. O mais pequeno era

invisível a olho nu.

Enquanto, louco de frustração, Mikael Blomkvist tentava

tirar o telemóvel do bolso interior do casaco – tarefa que

se revelou impossí vel com as mãos algemadas –, vários veículos

chegaram a Gosse berga. Transportavam polícias e pessoal

técnico que, depois de instruídos pelo subcomissário

Paulsson, foram encarregados de recolher provas irrefutáveis

na arrecadação de lenha e revistar minuciosamente a casa

onde tinham sido apreendidas várias armas de fogo. Resigna -

do, Mikael acompanhou as manobras do seu posto de obser -

vação no banco traseiro do carro.

Só ao cabo de uma hora, Paulsson pareceu aperceber-se

de que os agentes Torstensson e Andersson não tinham ainda

regressado da sua missão de ir buscar Ronald Niedermann.

Subitamente preocupa do, mandou levar Mikael Blomkvist

para a cozinha, onde lhe pediu que descrevesse uma vez mais

o caminho.

Mikael fechou os olhos.

Ainda estava na cozinha com Paulsson quando os re -

forços envia dos para socorrer os dois agentes regressaram.

Gunnar Andersson fora encontrado morto, com o pescoço

partido. O colega, Fredrik Torstensson, estava ainda vivo,

mas gravemente ferido. Ambos tinham sido encontrados na

valeta da berma da estrada, junto a um sinal que alertava

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para a passagem de alces. As armas de serviço e o carro-pa -

tru lha tinham desaparecido.

Se, à partida, o subcomissário tivera de gerir uma situação

relati va mente clara, via-se agora a braços com o assassínio de

um polícia e a fuga de um perigosíssimo homicida armado.

– Imbecil – repetiu Mikael Blomkvist.

– Insultar a polícia não serve de nada.

– Nisso estamos de acordo. Mas tenciono acusá-lo de falta

de profissionalismo, e vou fazer sangue. Quando acabar

consigo, todos os jornais do país vão apontá-lo como o polícia

mais estúpido da Suécia.

A ameaça de ser atirado aos lobos nos media era, aparentemente,

a única coisa capaz de impressionar Thomas Paulsson.

Fez um ar preo cupado.

– O que é que propõe?

– Exijo que ligue para o inspector Jan Bublanski, em Estocolmo.

Ime diatamente.

A inspectora Sonja Modig acordou sobressaltada quando

o telemóvel, que deixara a carregar no outro lado do

quarto, começou a tocar. Virou os olhos para o despertador,

em cima da mesa-de-cabeceira, e verificou, exasperada, que

pouco passava das quatro da manhã. Olhou para o marido,

que ressonava tranquilamente. Nem um bom bar deamento

de artilharia o faria acordar. Levantou-se da cama, atra ves -

sou o quarto aos tropeções e premiu a tecla de atender.

O Jan Bublanski, pensou. Quem havia de ser.

– É o caos total para os lados de Trollhätan – anunciou o

chefe, sem mais preâmbulos. – O X2000 para Gotemburgo

parte às cinco e dez.

– Que aconteceu?

– O Blomkvist encontrou a Salander, o Niedermann e o

Zalachenko. Está detido por insultos à autoridade, resistência

à detenção e posse ilegal de arma. A Salander foi transpor -

tada para o Hospital Sahlgrenska com uma bala na cabeça.

O Niedermann pôs-se a milhas depois de ter matado um

polícia.

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Sonja Modig pestanejou duas vezes e sentiu a fadiga pesar-lhe

nas pálpebras. O que lhe apetecia acima de tudo era

voltar para a cama e tirar um mês de férias.

– X2000, às cinco e dez. De acordo. O que é que tenho

de fazer?

– Apanha um táxi para a estação. O Jerker Holmberg vai

lá ter contigo. Vão os dois contactar um tal Thomas Paulsson,

subcomissário em Trollhättan que, aparentemente, é o

responsável pela baralhada desta noite e, segundo o Blom -

kvist, um merdas de todo o tamanho, fim de citação.

– Falaste com o Blomkvist?

– Tudo indica que o puseram a ferros. Consegui convencer

o Paulsson a deixar-me falar com ele. Vou a caminho de

Kungsholmen para, a partir do centro de operações, tentar saber

o que se passa. Mantemo-nos em contacto via telemóvel.

Sonja Modig voltou a olhar para as horas. Em seguida

chamou um táxi e foi meter-se debaixo do chuveiro durante

um minuto. Lavou os dentes, passou um pente pelos cabelos,

vestiu umas calças pretas, uma T-shirt também preta e um

casaco cinzento. Guardou a arma de serviço na mala e pegou

num casaco a três-quartos de couro ver me lho-escuro. Em seguida,

sacudiu o marido e explicou-lhe onde ia e que ia ter

de ser ele a tratar dos filhos, de manhã. Saiu para a rua no

mesmo instante em que o táxi parava diante da porta.

Não precisou de procurar Jerker Holmberg. Calculou

que o encontraria na carruagem-restaurante e não se enganou.

Holmberg já lhe tinha comprado uma sanduíche e um

café. Não disseram uma palavra durante cinco minutos, enquanto

tomavam o pequeno-almoço. Final mente, Holmberg

afastou a chávena de café e quebrou o silêncio:

– Talvez devêssemos mudar de emprego.

Às quatro horas, o inspector Marcus Ackerman, da Brigada

Cri mi nal de Gotemburgo, chegou a Gosseberga e assumiu

a chefia das operações, libertando Thomas Paulsson

de um peso para o qual não es ta va realmente preparado.

Uma das suas primeiras medidas foi desembarar Mikael

Blomkvist das algemas e oferecer-lhe pãezinhos e café de

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uma garrafa-termo que levara consigo. Instalaram-se os dois

na sala de estar, para uma conversa a sós.

– Falei com o Bublanski, em Estocolmo – disse Ackerman.

– Conhe cemo-nos há anos. Ambos lamentamos o comportamento

do Paulsson.

– Conseguiu que um polícia fosse assassinado, esta noite.

Ackerman inclinou a cabeça.

– Conhecia pessoalmente o agente Gunnar Andersson.

Serviu em Gotemburgo antes de se mudar para Trollhättan.

Era pai de uma me nina de três anos.

– Sinto muito. Tentei avisá-los…

– Eu sei. Falou demasiado grosso para o gosto do Paulsson,

e foi por isso que ele o mandou algemar. Foi você que

apanhou o Wennerström. O Bublanski disse-me que é um

maldito jornalista bisbilhoteiro e um detective privado completamente

maluco, mas que provavelmente sabe do que está

a falar. É capaz de me fazer um resu mo, o mais completo

possível?

– Estamos a falar da solução dos homicídios dos meus

amigos Dag Svensson e Mia Johansson, em Enskede, e também

do homicídio de uma pessoa que não era minha amiga…

o advogado Nils Bjurman, tutor de Lisbeth Salander. – Acker -

man assentiu com a ca be ça. – Como sabe, desde a Páscoa

que a Polícia procura Lisbeth Sa lan der, suspeita de triplo homicídio.

Antes de mais, é preciso que meta na cabeça que

Lisbeth Salander não é a culpada desses assassínios. Se algum

papel tem nesta história, é o de vítima.

– Não trabalhei no caso Salander, mas depois de tudo o

que os media escreveram, tenho alguma dificuldade em digerir

que ela esteja completamente inocente.

– Mas está. Completamente inocente. O verdadeiro assas -

sino é o Ronald Niedermann, o homem que esta noite matou

o seu colega Gunnar Andersson. O Niedermann trabalha

para um homem que diz chamar-se Karl Axel Bodin.

– O Bodin que está internado em Sahlgrenska, com um

macha do cravado na cabeça.

– Calculo que tenha sido a Lisbeth a pô-lo lá; mas de um

ponto de vista estritamente técnico, já não tem o machado

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