(CP/ECEME) INFORMATIVO Nr 117 - Portal de Ensino do Exército
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ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO<br />
CURSO DE PREPARAÇÃO E SELEÇÃO<br />
“ESCOLA MARECHAL CASTELLO BRANCO”<br />
CURSO DE PREPARAÇÃO<br />
À ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO<br />
(<strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong>)<br />
<strong>INFORMATIVO</strong> <strong>Nr</strong> <strong>117</strong><br />
− 1°/2011 –
ÍNDICES<br />
INTRODUÇÃO À ESTRATÉGIA: FUNDAMENTOS TEORIAS E CONCEITOS GERAIS..........5<br />
Formação <strong>de</strong> uma estratégia diplomática: relen<strong>do</strong> Sun Tzu para fins não belicosos...........................3<br />
Desarmamento e não-proliferação........................................................................................................8<br />
As revoluções <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> árabe e o Irã: <strong>do</strong>is cenários para o Oriente Médio.....................................10<br />
A ATUAL FASE DO CAPITALISMO GLOBALIZAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA.13<br />
Preparar, apontar...enter.....................................................................................................................12<br />
Acor<strong>do</strong> cria comissão para reduzir diferenças comerciais <strong>de</strong> Brasil e EUA.....................................14<br />
A insustentável não leveza <strong>do</strong> crescimento .......................................................................................16<br />
MEIO AMBIENTE E RECURSOS ESTRATÉGICOS...............................................................17<br />
Comida ou biocombustível ................................................................................................................17<br />
ANP assume o etanol e açúcar po<strong>de</strong> ser taxa<strong>do</strong>.................................................................................18<br />
Em Bangcoc, países concordam em priorizar discussão sobre clima.................................................19<br />
ÁSIA NOVAS CENTRALIDADES...........................................................................................20<br />
Americanos estão com me<strong>do</strong> da crise no Egito, diz analista .............................................................20<br />
China? Que China?............................................................................................................................21<br />
Notas sobre o comércio Brasil-Iraque................................................................................................28<br />
Um inverno nuclear? .........................................................................................................................31<br />
GEOGRAFIA SAÚDE.............................................................................................................32<br />
Desafios <strong>do</strong> envelhecimento...............................................................................................................32<br />
Metas <strong>de</strong> erradicar pobreza extrema <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> da economia ..............................................................34<br />
Viver mais custa caro ........................................................................................................................35<br />
HISTÓRIA.............................................................................................................................39<br />
Mão negra, espada branca..................................................................................................................39<br />
Descen<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> confe<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s celebram em SP o fim da Guerra Civil <strong>do</strong>s EUA.............................41<br />
Portugal já coman<strong>do</strong>u império <strong>de</strong> 14 colônias em quatro continentes...............................................43
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INTRODUÇÃO À<br />
ESTRATÉGIA:<br />
FUNDAMENTOS TEORIAS E<br />
CONCEITOS GERAIS<br />
FORMAÇÃO DE UMA ESTRATÉGIA DIPLOMÁTICA (ED): RELENDO SUN<br />
TZU PARA FINS MENOS BELICOSOS<br />
Os argumentos constantes <strong>do</strong> presente ensaio analítico se inserem num conjunto<br />
<strong>de</strong> trabalhos – já feitos ou em preparação – que po<strong>de</strong>m ser enfeixa<strong>do</strong>s na categoria <strong>do</strong>s<br />
“clássicos revisita<strong>do</strong>s”, entre os quais um Manifesto Comunista adapta<strong>do</strong> a estes tempos<br />
<strong>de</strong> globalização,1 e um Mo<strong>de</strong>rno Príncipe,2 que preten<strong>de</strong> aproveitar os conceitos <strong>do</strong><br />
florentino para a política atual. Da mesma forma, po<strong>de</strong>-se reler Sun Tzu e aproveitar os<br />
ensinamentos conti<strong>do</strong>s na Arte da Guerra3 para uma reflexão <strong>de</strong> caráter conceitual sobre<br />
a estratégia diplomática – referida simplesmente neste texto como ED – no contexto das<br />
relações internacionais contemporâneas. A esse título, não se trata <strong>de</strong> refazer,<br />
obviamente, uma “arte da guerra para diplomatas”, e sim tão somente <strong>de</strong> tecer<br />
consi<strong>de</strong>rações sobre uma (e não a) estratégia diplomática, com base nos argumentos<br />
basicamente filosóficos – e, claro, muitas regras práticas – presumivelmente redigi<strong>do</strong>s<br />
pelo conheci<strong>do</strong> mestre chinês, legitimamente consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> o “pai da estratégia” (no seu<br />
caso, militar).<br />
Da diplomacia como um instrumento <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong><br />
A diplomacia é <strong>de</strong> vital importância para o Esta<strong>do</strong>. Talvez não tão crucial quanto a<br />
<strong>de</strong>fesa <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> por suas forças armadas, pois <strong>de</strong>stas <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> a própria sobrevivência<br />
física <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. Este po<strong>de</strong>, teoricamente sobreviver sem manter intensas relações<br />
internacionais, ou sem exercer uma diplomacia ativa. Mas ele dificilmente teria vida longa,<br />
ou conseguiria preservar seus interesses vitais, sem uma capacitação a<strong>de</strong>quada em<br />
matéria <strong>de</strong> instrumentos <strong>de</strong>fensivos (que são, igualmente, mecanismos ofensivos,<br />
credíveis, tanto para a dissuasão quanto para o ataque).<br />
A diplomacia é, todavia, crescentemente relevante não apenas para a <strong>de</strong>fesa <strong>do</strong>s<br />
interesses fundamentais <strong>de</strong> um Esta<strong>do</strong>, mas sobretu<strong>do</strong> para se alcançar os objetivos<br />
nacionais relevantes <strong>de</strong> uma nação no contexto contemporâneo, partin<strong>do</strong> <strong>do</strong> pressuposto<br />
que a socieda<strong>de</strong> humana e a comunida<strong>de</strong> das nações se afastam, cada vez mais, <strong>do</strong><br />
direito da força para a<strong>de</strong>rir à força <strong>do</strong> direito. O mun<strong>do</strong> contemporâneo aban<strong>do</strong>nou,<br />
progressivamente, os esquemas restritos <strong>do</strong>s arranjos inter imperiais – embora a última<br />
instância da política internacional permaneça com as gran<strong>de</strong>s potências – para a<strong>de</strong>ntrar<br />
no multilateralismo <strong>do</strong>s esquemas <strong>de</strong> segurança coletiva consolida<strong>do</strong>s nos instrumentos
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onusianos. Da diplomacia <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> – paralelamente ao exercício potencial <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r<br />
militar – a preservação <strong>de</strong> um ambiente <strong>de</strong> paz e <strong>de</strong> estabilida<strong>de</strong>, tanto quanto <strong>de</strong><br />
cooperação nos planos bilateral, regional ou multilateral a que aspira to<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> que<br />
privilegia a solução <strong>de</strong> controvérsias pela via das negociações. Esta é uma condição<br />
essencial, hoje indispensável, para o crescimento econômico sustenta<strong>do</strong>, os avanços<br />
tecnológicos, o progresso social, a preservação <strong>do</strong> meio ambiente, enfim, para a<br />
prosperida<strong>de</strong> comum.<br />
Adaptan<strong>do</strong> nossa releitura <strong>de</strong> Sun Tzu ao contexto diplomático, po<strong>de</strong>ríamos dizer<br />
que a arte da diplomacia implica cinco fatores principais, que <strong>de</strong>vem ser objeto <strong>de</strong> nossa<br />
contínua reflexão, com vistas a aperfeiçoá-los e incorporá-los cada vez mais às nossas<br />
práticas <strong>de</strong> servi<strong>do</strong>res <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> no campo da política externa. Estes cinco fatores são: a<br />
<strong>do</strong>utrina, a interação entre a conjuntura e a estrutura, os condicionantes econômicos e<br />
geopolíticos da ação diplomática, o coman<strong>do</strong> e a disciplina. A partir <strong>de</strong>sses cinco fatores é<br />
possível elaborar uma “estratégia diplomática”, que será objeto da segunda seção <strong>de</strong>ste<br />
ensaio introdutório.<br />
A <strong>do</strong>utrina tem a ver com a concepção mesma da diplomacia, a sua razão <strong>de</strong> ser.<br />
Ela diz respeito aos princípios inspira<strong>do</strong>res da diplomacia, aos valores que fundamentam<br />
a sua ação, às diretrizes que guiam essa ação na prática. Ela também se refere a uma<br />
noção clara <strong>do</strong>s interesses nacionais e aos instrumentos indispensáveis à implementação<br />
<strong>do</strong>s objetivos fundamentais <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, cujo pressuposto básico é, obviamente, o ato <strong>de</strong><br />
dispor <strong>de</strong> uma <strong>do</strong>utrina básica para sua atuação diplomática – sem esquecer uma<br />
estratégia militar – no cenário internacional.<br />
A interação entre a conjuntura e a estrutura po<strong>de</strong> ser vista como o equivalente<br />
funcional daquilo que Sun Tzu chamava <strong>de</strong> tempo. Essa interação supõe a combinação<br />
da sincronia e da diacronia – ou seja, o momento presente e a flecha <strong>do</strong> tempo –, que<br />
constituem os <strong>do</strong>is vetores <strong>de</strong> atuação diplomática ao longo <strong>de</strong> um <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> perío<strong>do</strong>.<br />
Toda diplomacia lida com o aqui e o agora, mas ela o faz ten<strong>do</strong> em vista as<br />
consequências futuras das ações a<strong>do</strong>tadas na presente conjuntura e levan<strong>do</strong> em<br />
consi<strong>de</strong>ração a herança recebida <strong>do</strong> passa<strong>do</strong> recente, que imprime sua marca sobre a<br />
mente <strong>do</strong>s diplomatas e <strong>de</strong>termina, em gran<strong>de</strong> medida, a forma como eles vão agir no<br />
presente.<br />
Os condicionantes econômicos e geopolíticos representam o fator que Sun Tzu<br />
chamava <strong>de</strong> espaço, isto é, o ambiente concreto no qual <strong>de</strong>vem se movimentar os<br />
“exércitos” diplomáticos, em busca da materialização <strong>do</strong>s objetivos nacionais.<br />
O coman<strong>do</strong> aten<strong>de</strong> aos mesmos critérios estabeleci<strong>do</strong>s pelo mestre chinês da arte<br />
da guerra para esse conceito. Ele tem a ver com a capacida<strong>de</strong> exibida pelas li<strong>de</strong>ranças<br />
diplomáticas – o estadista, o chanceler, os altos responsáveis pela formulação da <strong>do</strong>utrina<br />
e pela <strong>de</strong>finição das principais diretrizes diplomáticas – <strong>de</strong> indicar claramente aos<br />
membros da comunida<strong>de</strong> diplomática nacional quais são os objetivos pelos quais eles<br />
<strong>de</strong>vem se bater.<br />
Sun Tzu consi<strong>de</strong>rava que o coman<strong>do</strong> <strong>de</strong>veria ter as seguintes qualida<strong>de</strong>s:<br />
sabe<strong>do</strong>ria, sincerida<strong>de</strong>, benevolência, coragem e disciplina. Dessas cinco qualida<strong>de</strong>s, a<br />
primeira é certamente necessária ao comandante, assim como a quarta, embora esta<br />
<strong>de</strong>va pertencer mais ao comandante militar <strong>do</strong> que propriamente ao chefe da diplomacia.<br />
Maquiavel certamente <strong>de</strong>scartaria a segunda e a terceira, ou seja, a sincerida<strong>de</strong> e a<br />
benevolência, embora consi<strong>de</strong>rasse esta última como um recurso a que o con<strong>do</strong>tier<br />
po<strong>de</strong>ria apelar quan<strong>do</strong> estivesse em situação <strong>de</strong> força, justamente. Quanto à ultima, <strong>de</strong>ve<br />
ser consi<strong>de</strong>rada mais como uma variante <strong>do</strong> rigor consigo mesmo <strong>do</strong> que o exercício da<br />
disciplina “contra” seus próprios subordina<strong>do</strong>s, que é o objeto <strong>do</strong> último fator da arte da<br />
diplomacia.
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A disciplina, no plano da diplomacia, tem a ver com organização e méto<strong>do</strong>s, ou<br />
seja, a construção <strong>de</strong> uma ferramenta burocrática que seja, ao mesmo tempo, eficiente e<br />
inova<strong>do</strong>ra, pru<strong>de</strong>nte e ousada, preparada no plano da informação e <strong>do</strong> conhecimento e<br />
apta a seguir instruções <strong>de</strong> forma or<strong>de</strong>nada e coerente, atuan<strong>do</strong> como uma agência<br />
homogênea e uniforme. Isto é possível quan<strong>do</strong> o estamento burocrático -diplomático<br />
possui processos <strong>de</strong> socialização e <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> um pensamento relativamente<br />
unifica<strong>do</strong> e convergente.<br />
Com base nesses cinco fatores, as autorida<strong>de</strong>s diplomáticas <strong>de</strong> um Esta<strong>do</strong> po<strong>de</strong>m<br />
planejar seus objetivos externos – a que chamaremos <strong>de</strong> “estratégia diplomática – a partir<br />
<strong>de</strong> um conjunto adicional <strong>de</strong> fatores instrumentais que têm a ver, essencialmente, com a<br />
implementação prática <strong>de</strong>sses objetivos, quaisquer que sejam eles. Entre esses fatores<br />
figuram os seguintes: a capacida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s dirigentes diplomáticos em formular metas<br />
realistas e a<strong>de</strong>quadas para a mobilização efetiva <strong>do</strong> estamento profissional diplomático; a<br />
avaliação correta <strong>do</strong>s limites e possibilida<strong>de</strong>s oferecidas pelo sistema internacional para<br />
que aqueles objetivos possam ser alcança<strong>do</strong>s; o uso eficiente <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os mecanismos e<br />
instrumentos <strong>do</strong> sistema internacional – instituições formais, grupos informais, coalizões<br />
temporárias <strong>de</strong> interesse, combinação <strong>de</strong> iniciativas bilaterais, coor<strong>de</strong>nação regional e<br />
exploração <strong>do</strong>s canais multilaterais – segun<strong>do</strong> a natureza <strong>de</strong> algum objetivo específico;<br />
coor<strong>de</strong>nação interna das agencias públicas que <strong>de</strong>têm alguma interface internacional e<br />
instruções claras aos agentes diplomáticos nas diversas frentes negocia<strong>do</strong>ras para se<br />
alcançar eficácia máxima nas iniciativas diplomáticas <strong>de</strong>sse Esta<strong>do</strong>.<br />
Mesmo sob condições <strong>de</strong>mocráticas, e portanto transparentes, a eficiência e a<br />
eficácia na ação diplomática <strong>de</strong> um Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>, em parte, <strong>do</strong> tratamento discreto que<br />
possa atribuir a <strong>de</strong>termina<strong>do</strong>s temas <strong>de</strong> seu interesse crucial na frente externa. Toda<br />
negociação diplomática é, por <strong>de</strong>finição, uma barganha entre interesses por vezes<br />
convergentes, mas em certa medida contraditórios, quan<strong>do</strong> não divergentes ou opostos<br />
(na medida que to<strong>do</strong> e qualquer acor<strong>do</strong> sempre implica em custos políticos e econômicos,<br />
a começar pela perda relativa <strong>de</strong> soberania, o que se <strong>de</strong>ve limitar o máximo possível). Daí<br />
a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se encaminhar um <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> tema com base em argumentos <strong>de</strong><br />
utilida<strong>de</strong> geral e <strong>de</strong> benefício recíproco que po<strong>de</strong>m oferecer a base para um entendimento<br />
mais próximo <strong>do</strong>s interesses nacionais.<br />
Esta questão implica também que o trabalho <strong>de</strong> avaliação <strong>de</strong>ve envolver não<br />
apenas os interesses próprios <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> em questão, mas igualmente os interesses <strong>do</strong><br />
Esta<strong>do</strong>, ou <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s com os quais se negocia, <strong>de</strong> maneira a permitir as acomodações<br />
necessárias. Dito isto, caberia, portanto, passar aos argumentos principais, que têm a ver<br />
com a elaboração e a implementação <strong>de</strong> uma estratégia diplomática (ED).<br />
Da estratégia diplomática como uma das artes especializadas <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong><br />
Analogamente a seu equivalente militar, mas nisso talvez <strong>de</strong>stoan<strong>do</strong> um pouco <strong>de</strong><br />
Sun Tzu, po<strong>de</strong>ríamos dizer que a ED consiste na mobilização <strong>de</strong> instrumentos políticos,<br />
econômicos e militares – pon<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s com base numa avaliação comparada e em<br />
análises conceituais e factuais sobre as intenções <strong>do</strong>s <strong>de</strong>mais participantes <strong>do</strong> jogo<br />
diplomático – com vistas à consecução <strong>de</strong> objetivos nacionais bem <strong>de</strong>fini<strong>do</strong>s, mas sem o<br />
recurso à, ou a ameaça <strong>do</strong> uso da força militar ou à guerra. Nesse senti<strong>do</strong>, a ED se opõe<br />
à, ou se distingue da estratégia militar, que pressupõe, <strong>de</strong> sua parte, o uso ou a ameaça<br />
<strong>de</strong> uso da força bruta, segun<strong>do</strong> linhas que já foram suficientemente discutidas ao longo da<br />
história, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> Sun Tzu até os mo<strong>de</strong>rnos estrategistas militares, passan<strong>do</strong> por<br />
Clausewitz, Henry Kissinger ou Raymond Aron.<br />
No plano puramente conceitual, a formulação <strong>de</strong> uma ED implica a análise <strong>do</strong>s<br />
fatores contingentes, <strong>de</strong> obstáculos conjunturais e <strong>de</strong> barreiras <strong>de</strong> caráter estrutural que
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dificultam – em alguns casos até obstaculizam – o atingimento <strong>do</strong>s objetivos nacionais,<br />
tais como <strong>de</strong>fini<strong>do</strong>s pelos estrategistas <strong>de</strong> um <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, uma comunida<strong>de</strong><br />
variada que po<strong>de</strong> envolver <strong>de</strong>s<strong>de</strong> estadistas até burocratas <strong>do</strong> planejamento<br />
governamental, passan<strong>do</strong> por representantes da cidadania e consultores in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />
(membros da aca<strong>de</strong>mia, especialistas setoriais, etc.). No plano operacional, a ED<br />
pressupõe a mobilização <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os instrumentos à disposição <strong>de</strong>sse Esta<strong>do</strong> para o<br />
atingimento daqueles objetivos, o que implica o uso <strong>do</strong>s meios propriamente diplomáticos,<br />
mas também o apoio das forças armadas e da comunida<strong>de</strong> econômica <strong>do</strong> país.<br />
To<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> mo<strong>de</strong>rno, atuante, inseri<strong>do</strong> na comunida<strong>de</strong> internacional,<br />
normalmente <strong>do</strong>ta<strong>do</strong> <strong>de</strong> órgãos executivos e <strong>de</strong> planejamento, possui, ou <strong>de</strong>veria possuir,<br />
uma ED. Não se <strong>de</strong>ve, evi<strong>de</strong>ntemente, superestimar uma ED: não se trata <strong>de</strong> algo fixo ou<br />
rígi<strong>do</strong>, estruturalmente <strong>de</strong>termina<strong>do</strong>, mas <strong>de</strong> uma concepção <strong>de</strong>terminada por fatores<br />
conjunturais e até contingentes, concomitante às iniciativas <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s e às ações<br />
humanas.<br />
Uma ED realista e flexível <strong>de</strong>ve submeter-se, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> logo, a constantes revisões,<br />
tantos são os fatores <strong>de</strong> mudança conjuntural e as alterações no cenário político<br />
internacional que influenciam ou impactam os objetivos nacionais <strong>de</strong> um Esta<strong>do</strong>. Ela <strong>de</strong>ve<br />
estar, portanto, sujeita a avaliações regulares por parte <strong>de</strong> um staff especialmente<br />
prepara<strong>do</strong> para essa finalida<strong>de</strong> e <strong>de</strong>dica<strong>do</strong> funcionalmente a esse tipo <strong>de</strong> tarefa. Não<br />
conviria, aliás, que o órgão encarrega<strong>do</strong> da elaboração <strong>de</strong> uma ED fosse exclusivo e<br />
exclu<strong>de</strong>nte, ou seja, trabalhan<strong>do</strong> unicamente em torno da ED, e sim que ele seja aberto a<br />
insumos externos e à colaboração <strong>de</strong> especialistas e consultores alheios ao próprio<br />
órgão, <strong>de</strong> forma a manter uma atmosfera aberta, inova<strong>do</strong>ra, permitin<strong>do</strong> até revisões<br />
radicais da “velha” ED (ou seja, in<strong>do</strong> temporariamente num senti<strong>do</strong> contrário à “razão <strong>de</strong><br />
Esta<strong>do</strong>”).<br />
Uma ED, ainda que elaborada por um governo <strong>de</strong>termina<strong>do</strong>, não é, ou não <strong>de</strong>veria<br />
ser, uma concepção e uma ação <strong>de</strong> um governo, e sim uma iniciativa e uma postura <strong>de</strong><br />
Esta<strong>do</strong>, ou seja, interessan<strong>do</strong> antes à Nação <strong>do</strong> que aos parti<strong>do</strong>s e personalida<strong>de</strong>s<br />
ocupan<strong>do</strong> temporariamente o po<strong>de</strong>r. Como ativida<strong>de</strong> típica <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>, a ED <strong>de</strong>ve estar<br />
sujeita ao escrutínio <strong>de</strong> todas as forças, movimentos e grupos <strong>de</strong> opinião representativos<br />
da Nação, ser objeto <strong>de</strong> discussão e <strong>de</strong> avaliação quanto a seus fundamentos concretos,<br />
seus instrumentos operacionais, seus objetivos explícitos e suas metas implícitas.<br />
Normalmente é isso que ocorre em sistemas <strong>de</strong>mocráticos, tanto mais intensamente<br />
quanto mais abertos e transparentes são os elementos centrais que <strong>de</strong>finem e ajudam a<br />
implementar uma ED.<br />
Os processos <strong>de</strong> concepção, elaboração e <strong>de</strong> revisão da ED se dão no corpo <strong>do</strong><br />
Esta<strong>do</strong>, envolven<strong>do</strong> as agências voltadas para as relações exteriores, os órgãos <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>fesa e o governo central, a<strong>de</strong>mais das instâncias voltadas precipuamente para<br />
planejamento <strong>de</strong> políticas e <strong>de</strong> análises aplicadas; eles passam pelo parlamento e<br />
alcançam a socieda<strong>de</strong>, por meio da opinião pública, <strong>de</strong>vidamente informada pelos órgãos<br />
<strong>de</strong> comunicação.<br />
O planejamento <strong>de</strong> uma ED implica, antes <strong>de</strong> qualquer outra ação, tratar <strong>do</strong>s meios<br />
próprios a uma organização diplomática: <strong>de</strong> nada serve ter uma ED sem a ferramenta que<br />
a implementará. Estamos falan<strong>do</strong> aqui <strong>de</strong> funcionários, equipamentos, recursos,<br />
organização, enfim, to<strong>do</strong>s os meios com os quais to<strong>do</strong> e qualquer Esta<strong>do</strong> leva sua ED da<br />
fase <strong>de</strong> concepção à <strong>de</strong> aplicação no terreno. Na diplomacia, como na guerra, nada existe<br />
estaticamente, ou <strong>de</strong> forma puramente passiva, mas, sim, compõe-se <strong>de</strong> interações<br />
dinâmicas; os meios precisam ser sempre manti<strong>do</strong>s, aperfeiçoa<strong>do</strong>s, substituí<strong>do</strong>s,<br />
instruí<strong>do</strong>s e monitora<strong>do</strong>s.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 7 <strong>de</strong> 45<br />
Diferentemente da guerra, porém, não é preciso ter um planejamento logístico<br />
<strong>de</strong>stina<strong>do</strong> a concentrar forças e operações ofensivas num espaço <strong>de</strong> tempo <strong>de</strong>limita<strong>do</strong> e<br />
num terreno previamente estuda<strong>do</strong>. Em outros termos, as ações diplomáticas não<br />
necessitam <strong>de</strong> uma “concentração <strong>de</strong> fogo” para se lograr alguma vantagem <strong>de</strong>cisiva no<br />
calor da batalha. A dinâmica diplomática é mais cumulativa, <strong>do</strong> que “<strong>de</strong>strutiva”, e as<br />
operações po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong>longadas em função <strong>de</strong> uma avaliação contínua e mutável das<br />
condições <strong>do</strong> “terreno”, em função da interação com o “adversário”, que, no ambiente<br />
diplomático, não significa uma atitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> confrontação como na guerra e nas <strong>de</strong>mais<br />
operações militares. A ED é bem mais intangível <strong>do</strong> que a EM, baseada no planejamento,<br />
certamente, mas em última instância na força bruta.<br />
Diferente da guerra, também, a conduta diplomática se baseia menos em meios<br />
materiais, ou equipamentos “pesa<strong>do</strong>s”, e mais em negociações diretas, quase pessoais,<br />
entre os atores. Não se trata <strong>de</strong> “aniquilar” o inimigo, mas sim <strong>de</strong> convencer e compor<br />
com um parceiro, mais que um adversário. A guerra <strong>de</strong>sgasta, se mantida durante muito<br />
tempo, ao passo que a diplomacia avança, com a composição <strong>de</strong> interesses. A “logística”<br />
da diplomacia possui uma lógica própria, baseada – aliás, como no caso das operações<br />
militares – na presença sobre o “terreno” e na interação constante com o “adversário”;<br />
diferentemente, porém, não se trata <strong>de</strong> vencê-lo, mas <strong>de</strong> compor com ele um novo terreno<br />
<strong>de</strong> interações e <strong>de</strong> cooperação.<br />
Essa presença tem um “preço”, que é o custo da manutenção <strong>de</strong> representantes<br />
diretos – os “agentes avança<strong>do</strong>s” <strong>do</strong>s serviços <strong>de</strong> inteligência militar – e <strong>do</strong> envio <strong>de</strong><br />
missões temporárias e permanentes, assim como o engajamento pleno em negociações<br />
em nível bilateral, regional ou multilateral. Esse preço po<strong>de</strong> ser o equivalente funcional da<br />
manutenção, bastante custosa no âmbito militar, <strong>de</strong> equipamentos pesa<strong>do</strong>s que se<br />
<strong>de</strong>stinam, na verda<strong>de</strong>, a não serem usa<strong>do</strong>s, mas que servem basicamente para<br />
dissuasão. No caso da diplomacia, a “dissuasão” é na verda<strong>de</strong> o diálogo e o<br />
entendimento, se possível no mais alto nível (mas <strong>de</strong> ordinário mantida pelo<br />
representante permanente, normalmente chama<strong>do</strong> <strong>de</strong> embaixa<strong>do</strong>r).<br />
A condução da diplomacia será, evi<strong>de</strong>ntemente, diferente, segun<strong>do</strong> o Esta<strong>do</strong><br />
ostenta um regime político centraliza<strong>do</strong> ou unitário, próximo <strong>do</strong> autoritarismo, ou se esse<br />
Esta<strong>do</strong> exibe características claras <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização, com dispersão relativa <strong>do</strong>s<br />
centros <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r e participação <strong>de</strong> vários atores políticos e sociais. O Esta<strong>do</strong> <strong>do</strong> mestre<br />
chinês da arte da guerra, não obstante a <strong>de</strong>scontinuida<strong>de</strong> ocasional trazida por uma<br />
sucessão extraordinária <strong>de</strong> dinastias, invasões e <strong>de</strong> reconstruções sucessivas <strong>do</strong> sistema<br />
político, exibiu notável continuida<strong>de</strong> na centralização imperial, no limite <strong>do</strong> <strong>de</strong>spotismo<br />
“hidráulico”. Nesse tipo <strong>de</strong> regime, a condução da diplomacia obe<strong>de</strong>ce, simplesmente, à<br />
vonta<strong>de</strong> <strong>do</strong> soberano, com alguma participação <strong>do</strong>s cortesãos e membros <strong>do</strong> aparato<br />
estatal restrito (antigos mandarins, mo<strong>de</strong>rnos aparatchiks).<br />
A condução da diplomacia nas mo<strong>de</strong>rnas condições <strong>de</strong>mocráticas se faz sob forte<br />
pressão <strong>de</strong> forças sociais suscetíveis <strong>de</strong> expressar posições distintas e <strong>de</strong> influenciar o<br />
processo <strong>de</strong> tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão no plano externo. A <strong>de</strong>speito da legitimida<strong>de</strong> que possam<br />
exibir essas <strong>de</strong>mandas, seria conveniente que o Esta<strong>do</strong>, em especial seu aparelho<br />
diplomático, preservasse sua latitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação e ampla margem <strong>de</strong> opções, <strong>de</strong> maneira a<br />
escolher as melhores vias – que envolvem alianças ocasionais, coor<strong>de</strong>nações formais e<br />
até iniciativas individuais – para alcançar os objetivos nacionais <strong>de</strong>sse Esta<strong>do</strong>. Po<strong>de</strong>-se<br />
inclusive conceber certa autonomia <strong>de</strong> iniciativa e <strong>de</strong> ações atribuída ao negocia<strong>do</strong>r<br />
principal, da mesma forma como se conce<strong>de</strong> pleno po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> coman<strong>do</strong> ao general em seu<br />
campo <strong>de</strong> batalha. Em momentos <strong>de</strong>cisivos, essa autonomia <strong>de</strong>ve ser plena, posto que a<br />
autorida<strong>de</strong> responsável pelo sucesso (ou fracasso) <strong>de</strong> uma negociação ou iniciativa<br />
diplomática é o próprio agente no terreno, não o soberano em sua capital distante.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 8 <strong>de</strong> 45<br />
Em todas essas questões, Sun Tzu tem muito a ensinar aos diplomatas<br />
profissionais (e até aos iniciantes).<br />
[1] Ver Paulo Roberto <strong>de</strong> Almeida, Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da<br />
globalização (São Paulo: Juarez Oliveira, 1999).<br />
[2] Cf. Paulo Roberto <strong>de</strong> Almeida, O Mo<strong>de</strong>rno Príncipe: Maquiavel revisita<strong>do</strong> (Brasília: Sena<strong>do</strong><br />
Fe<strong>de</strong>ral, 2010).<br />
[3] O clássico <strong>de</strong> Sun Tzu po<strong>de</strong> ser encontra<strong>do</strong> facilmente na internet, numa infinida<strong>de</strong> <strong>de</strong> edições<br />
eletrônicas, em várias línguas e nas mais diferentes traduções e adaptações para o Português, voltadas<br />
tanto para o contexto militar quanto para o mun<strong>do</strong> <strong>do</strong>s negócios.<br />
Autor: Paulo Roberto <strong>de</strong> Almeida (Diplomata <strong>de</strong> carreira <strong>do</strong> serviço exterior brasileiro <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1977).<br />
Fonte: Revista Mun<strong>do</strong>rama. Disponível em http://mun<strong>do</strong>rama.net/2011/03/07/formacao-<strong>de</strong>-umaestrategia-diplomatica-relen<strong>do</strong>-sun-tzu-para-fins-menos-belicosos-por-paulo-roberto-<strong>de</strong>almeida/.<br />
Acesso em 18/03/2011;<br />
DESARMAMENTO E NÃO-PROLIFERAÇÃO<br />
Os temas <strong>do</strong> <strong>de</strong>sarmamento nuclear e da não -proliferação ganharam novo impulso<br />
na agenda internacional, com a maior ênfase dada ao <strong>de</strong>sarmamento nuclear, que se<br />
refletiu,em particular, na celebração, em 2010, <strong>do</strong> novo trata<strong>do</strong> START entre os Esta<strong>do</strong>s<br />
Uni<strong>do</strong>s e a Fe<strong>de</strong>ração da Rússia para a redução <strong>de</strong> armamentos estratégicos e a<br />
<strong>de</strong>clarada disposição <strong>do</strong> novo governo norte-americano <strong>de</strong> buscar a ratificação <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong><br />
<strong>de</strong> Proibição Completa <strong>do</strong>s Testes Nucleares (CTBT). Também contribuiu para esse<br />
quadro o êxito da VIII Conferência <strong>de</strong> Exame <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Não -Proliferação <strong>de</strong> Armas<br />
Nucleares (TNP), realizada em maio <strong>de</strong> 2010, que logrou aprovar Plano <strong>de</strong> Ação com<br />
medidas concretas a serem empreendidas pelos Esta<strong>do</strong>s Partes nos três principais eixos<br />
temáticos <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> (<strong>de</strong>sarmamento, não -proliferação e usos pacíficos da energia<br />
nuclear).<br />
Panorama Internacional<br />
Apesar <strong>do</strong>s sinais <strong>de</strong> compromisso renova<strong>do</strong> com o <strong>de</strong>sarmamento nuclear, ainda<br />
há muito a ser feito. Mais <strong>de</strong> quarenta anos após a entrada em vigor <strong>do</strong> TNP e vinte anos<br />
após o fim <strong>do</strong> conflito Leste-Oeste, a continuida<strong>de</strong> da existência numerosos arsenais<br />
nucleares e o risco <strong>de</strong> sua proliferação mantêm viva a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uso <strong>de</strong> tais armas<br />
- seja intencional, aci<strong>de</strong>ntal ou por erro <strong>de</strong> cálculo -, com consequências catastróficas<br />
para toda a humanida<strong>de</strong>. Essa possibilida<strong>de</strong> apenas aumenta em função <strong>do</strong> surgimento<br />
<strong>de</strong> novos países <strong>do</strong>ta<strong>do</strong>s <strong>de</strong> armas nucleares e <strong>do</strong> eventual acesso à tecnologia nuclear<br />
explosiva por parte <strong>de</strong> agentes não -estatais, como os grupos terroristas.<br />
Na VI Conferência <strong>de</strong> Exame <strong>do</strong> TNP, em 2000, as cinco potências nucleares<br />
reconhecidas pelo trata<strong>do</strong> assumiram um compromisso inequívoco com a eliminação
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completa <strong>de</strong> seus arsenais atômicos. Aceitaram, igualmente, um programa com 13<br />
passos concretos para alcançar esse objetivo. No entanto, pouco <strong>do</strong> que estava previsto<br />
naquele programa se cumpriu. As reduções numéricas <strong>de</strong> arsenais nucleares não<br />
significaram, <strong>de</strong> mo<strong>do</strong> geral, a redução da proeminência <strong>de</strong>ssas armas nas <strong>do</strong>utrinas<br />
estratégicas; manteve-se ou mesmo se ampliou a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uso <strong>de</strong> armas<br />
nucleares em diversos cenários <strong>de</strong> guerra, inclusive contra armamentos convencionais;<br />
foram mantidas, em alguns casos, as instalações para a eventual retomada <strong>do</strong>s testes<br />
nucleares; numerosas armas continuam em esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> alerta máximo; e prosseguem<br />
vultosos investimentos na mo<strong>de</strong>rnização das armas nucleares e <strong>de</strong> seus veículos <strong>de</strong><br />
lançamento. Espera-se que tais <strong>de</strong>s<strong>do</strong>bramentos possam ser reverti<strong>do</strong>s o quanto antes, à<br />
luz <strong>do</strong>s compromissos assumi<strong>do</strong>s ou reitera<strong>do</strong>s na Conferência <strong>de</strong> Exame <strong>de</strong> 2010, <strong>de</strong><br />
forma a assegurar a credibilida<strong>de</strong> e a futura sustentabilida<strong>de</strong> <strong>do</strong> regime internacional <strong>de</strong><br />
não -proliferação e <strong>de</strong>sarmamento nucleares.<br />
O Brasil e o Desarmamento e a Não-Proliferação<br />
O Brasil tem participação tradicionalmente ativa nos principais foros relaciona<strong>do</strong>s<br />
ao <strong>de</strong>sarmamento e à não -proliferação das armas <strong>de</strong> <strong>de</strong>struição em massa (nucleares,<br />
químicas e biológicas). A convicção <strong>de</strong> que o <strong>de</strong>sarmamento e a não -proliferação são<br />
processos inter<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes e que se reforçam mutuamente tem baliza<strong>do</strong> a posição <strong>do</strong><br />
Brasil. Desarmamento e não proliferação são as duas faces <strong>de</strong> uma mesma moeda. O<br />
país busca manter a priorida<strong>de</strong> <strong>do</strong> processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>sarmamento nuclear, frisan<strong>do</strong> a<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> a<strong>do</strong>ção <strong>de</strong> medidas concretas que traduzam o seu compromisso com a<br />
eliminação completa <strong>de</strong>ssas armas, conforme as obrigações que as potências nucleares<br />
assumiram no âmbito <strong>do</strong> TNP. O Brasil enten<strong>de</strong> que os esforços internacionais nessa<br />
área <strong>de</strong>vem culminar na proscrição completa, não -discriminatória e multilateralmente<br />
verificável das armas nucleares, a exemplo da Convenção para a Proibição das Armas<br />
Químicas (<strong>CP</strong>AQ), <strong>de</strong> 1993.<br />
O Brasil integra a “Coalizão da Nova Agenda” (NAC), grupo <strong>de</strong> países que <strong>de</strong>fen<strong>de</strong><br />
uma série <strong>de</strong> medidas práticas na área <strong>do</strong> <strong>de</strong>sarmamento nuclear, que vão além da<br />
simples redução numérica <strong>do</strong>s arsenais. É membro funda<strong>do</strong>r da Agência Internacional <strong>de</strong><br />
Energia Atômica (AIEA). É parte na primeira Zona Livre da Armas Nucleares <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>,<br />
criada na América Latina e Caribe pelo Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Tlatelolco, em 1967. Firmou o Acor<strong>do</strong><br />
Quadripartite, <strong>de</strong> 1991, para a aplicação <strong>de</strong> salvaguardas nucleares com a Argentina, a<br />
AIEA e a Agência Brasileiro-Argentina <strong>de</strong> Contabilida<strong>de</strong> e Controle <strong>de</strong> Material Nuclear<br />
(ABACC). É membro <strong>do</strong> Grupo <strong>de</strong> Supri<strong>do</strong>res Nucleares (NSG) e <strong>do</strong> Regime <strong>de</strong> Controle<br />
<strong>de</strong> Tecnologia <strong>de</strong> Mísseis (MTCR).<br />
Autor: Ministério das Relações Exteriores (MRE).<br />
Fonte: Itamaraty, disponível em http://www.itamaraty.gov.br/temas/paz-e-segurancainternacionais/<strong>de</strong>sarmamento-e-nao-proliferacao.<br />
Acesso em 20/03/2011.
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AS REVOLUÇÕES NO MUNDO ÁRABE E O IRÃ: DOIS CENÁRIOS PARA<br />
O ORIENTE MÉDIO<br />
Governos, serviços secretos e analistas políticos foram surpreendi<strong>do</strong>s quan<strong>do</strong> a<br />
pressão popular levou à queda <strong>do</strong> dita<strong>do</strong>r da Tunísia, Ben Ali. O exemplo <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ou<br />
movimentos que ganharam força pelo mun<strong>do</strong> Árabe. No Egito, a população protestou<br />
durante semanas, até que o dita<strong>do</strong>r Hosni Mubarack foi obriga<strong>do</strong> a <strong>de</strong>ixar o po<strong>de</strong>r. A Líbia<br />
<strong>de</strong> Kadafi parece tomar rumos semelhantes.<br />
As revoluções em andamento têm como principal componente a insatisfação<br />
interna <strong>de</strong> populações empobrecidas e longamente submetidas ao jugo <strong>de</strong> dita<strong>do</strong>res.<br />
Há ainda o maior fluxo <strong>de</strong> informações proporciona<strong>do</strong> pela internet como fator<br />
catalisa<strong>do</strong>r. Em uma região como o Oriente Médio, as consequências <strong>do</strong>s <strong>de</strong>slocamentos<br />
em curso <strong>de</strong>verão produzir mudanças significativas no atual quadro <strong>de</strong> forças. O caso <strong>do</strong><br />
Egito é emblemático. Mubarack <strong>de</strong>u continuida<strong>de</strong> ao posicionamento inaugura<strong>do</strong> por<br />
Anwar Saddat, manten<strong>do</strong> o trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> paz assina<strong>do</strong> com Israel e a aliança com os EUA.<br />
Sob seu coman<strong>do</strong> o Egito foi importante ator no diálogo entre Israel e Palestinos e<br />
representou contraponto à influência <strong>do</strong> Irã e <strong>de</strong> grupos radicais islâmicos como<br />
Hezbollah e o Hamas na região. Tal posicionamento e a ajuda financeira norte-americana<br />
não contribuíram, contu<strong>do</strong>, para a sustentação interna <strong>do</strong> regime, profundamente corrupto<br />
e opressor.<br />
A queda <strong>de</strong> Mubarack e a continuida<strong>de</strong> das revoltas por outros regimes árabes<br />
trazem gran<strong>de</strong> in<strong>de</strong>finição no que diz respeito aos rumos que o Oriente Médio irá tomar e<br />
<strong>de</strong> como ficarão as relações com o oci<strong>de</strong>nte e com Israel.<br />
Nesse senti<strong>do</strong>, um ponto <strong>de</strong>terminante será o impacto das revoltas populares sobre<br />
o regime iraniano, com a aparente revitalização <strong>do</strong> chama<strong>do</strong> Movimento Ver<strong>de</strong>, inicia<strong>do</strong><br />
em 2009 após evidências <strong>de</strong> frau<strong>de</strong> na reeleição <strong>de</strong> Mahmoud Ahmadinejad.<br />
Se a revolução iniciada na Tunísia atingir apenas o mun<strong>do</strong> árabe, a queda <strong>de</strong><br />
regimes como o egípcio favorecerá forças anti -oci<strong>de</strong>ntais, notadamente os radicais<br />
islâmicos, antes conti<strong>do</strong>s com brutalida<strong>de</strong> pelos dita<strong>do</strong>res.<br />
Os EUA e a Europa terão profunda dificulda<strong>de</strong> em convencer a opinião publica <strong>do</strong>s<br />
países árabes <strong>de</strong> que apoiam a legitima aspiração <strong>de</strong>stes povos à <strong>de</strong>mocracia, uma vez<br />
que sustentaram a or<strong>de</strong>m anterior. Assim, o Irã, cujo regime intenta exportar sua
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revolução pela região sob a ban<strong>de</strong>ira <strong>do</strong> pan-islamismo, terá margem para consagrar as<br />
revoluções árabes como <strong>de</strong> libertação islâmica.<br />
Haverá <strong>de</strong>sta forma, maior espaço para influencia iraniana no mun<strong>do</strong> árabe, o que<br />
alteraria substantivamente o quadro <strong>de</strong> forças da região. Nessa hipótese, o equilíbrio<br />
militar se <strong>de</strong>slocaria <strong>de</strong> mo<strong>do</strong> a reduzir o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> dissuasão israelense, favorecen<strong>do</strong> a<br />
escalada <strong>de</strong> tensões.<br />
É um contexto <strong>de</strong> enfraquecimento da solução <strong>de</strong> <strong>do</strong>is esta<strong>do</strong>s para a Questão<br />
Palestina e <strong>de</strong> <strong>de</strong>clínio da hegemonia americana na região.<br />
Outro cenário, inteiramente diverso, se dá na hipótese <strong>de</strong> a revolução atingir o Irã<br />
ao ponto <strong>de</strong> <strong>de</strong>rrubar o regime. Nesse caso surge situação para<strong>do</strong>xal, na qual as<br />
revoluções árabes por um la<strong>do</strong> oferecerão maior liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> atuação política para seus<br />
radicais internos, e, por outro la<strong>do</strong>, terão inicia<strong>do</strong> o fim <strong>do</strong> mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> esta<strong>do</strong> proposto pela<br />
Revolução Islâmica iraniana.<br />
Em qualquer <strong>de</strong>ssas hipóteses os EUA terão dificulda<strong>de</strong>s em lidar com a visível<br />
contradição entre seus i<strong>de</strong>ais e o longo apoio que <strong>de</strong>ram aos regimes autoritários em<br />
clássica realpolitik. Será possível, contu<strong>do</strong>, buscar conciliação por meio <strong>de</strong> valores<br />
comuns às <strong>de</strong>mocracias.<br />
O colapso <strong>do</strong> patrocínio iraniano aos grupos radicais da região - em especial no<br />
Líbano e na Palestina - representaria oportunida<strong>de</strong> em termos da criação <strong>de</strong> ambiente<br />
favorável à resolução <strong>do</strong> conflito árabe-israelense e <strong>de</strong> nova inserção internacional das<br />
nações <strong>do</strong> Oriente Médio.<br />
As duas possibilida<strong>de</strong>s aqui elaboradas já se refletem <strong>de</strong> forma clara nas retóricas<br />
<strong>de</strong> EUA e Irã. A queda <strong>de</strong> Mubarack foi saudada pelo Irã como o início <strong>de</strong> revoluções<br />
islâmicas que moldarão um novo Oriente Médio.<br />
Por sua vez, após ter perdi<strong>do</strong> seu alia<strong>do</strong> no Egito, Obama valeu-se da onda<br />
revolucionária ao <strong>de</strong>clarar que o povo iraniano tem os mesmos direitos que o povo<br />
egípcio.<br />
O futuro <strong>do</strong> Oriente Médio é um quadro em aberto, mas é altamente provável que<br />
as revoluções árabes, iniciadas <strong>de</strong> forma autônoma, passarão a sofrer crescentes<br />
influências externas, que buscarão conformá-las aos seus interesses.<br />
Autor: Rafael Seabra é mestre em Relações Internacionais pela Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral<br />
Fluminense, economista pela UFRJ e membro <strong>do</strong> GAPCon.<br />
Fonte: Disponível em http://www.inforel.org/noticias/noticia.php?not_id=4705&tipo=2.<br />
Acesso em 03/04/2011.<br />
A ATUAL FASE DO CAPITALISMO<br />
GLOBALIZAÇÃO E<br />
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
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PREPARAR, APONTAR...ENTER<br />
Cresce número <strong>de</strong> ciberataques. Levantamento mostra que 55 mil novos vírus surgem<br />
to<strong>do</strong>s os dias<br />
Aproxima-se o dia em que, como no filme "Duro <strong>de</strong> Matar 4", hackers conseguirão<br />
<strong>de</strong>sorganizar um país atacan<strong>do</strong> sua infraestrutura em vez <strong>de</strong> se valer <strong>de</strong> bombar<strong>de</strong>ios?<br />
Se, como sugeriu o teórico militar Karl von Clausewitz, "a guerra é a continuação da<br />
política por outros meios", atualmente, a internet po<strong>de</strong>, sim, ser a continuação da guerra<br />
por outros meios. Prova disso é o crescente número <strong>de</strong> casos <strong>de</strong> ataques que po<strong>de</strong>riam<br />
ser classifica<strong>do</strong>s como hostilida<strong>de</strong>s cibernéticas.<br />
Vazamento <strong>de</strong> informação é o que não falta nos informes <strong>de</strong> empresas <strong>de</strong><br />
segurança. No ano passa<strong>do</strong>, a violação <strong>de</strong> da<strong>do</strong>s custou ao mun<strong>do</strong> corporativo US$7,2<br />
milhões, contra US$6,8 milhões no ano anterior, segun<strong>do</strong> relatório da Symantec. E a<br />
indústria <strong>do</strong> malware (software que po<strong>de</strong> causar danos ao computa<strong>do</strong>r) não para <strong>de</strong><br />
crescer - 55 mil novos vírus e afins surgem to<strong>do</strong>s os dias, segun<strong>do</strong> levantamento da<br />
fabricante <strong>de</strong> antivírus americana McAfee.<br />
A primeira ciberguerra i<strong>de</strong>ntificada por esse nome aconteceu na Estônia, em 2007,<br />
quan<strong>do</strong> a internet saiu <strong>do</strong> ar <strong>de</strong>pois que um monumento a solda<strong>do</strong>s soviéticos da<br />
Segunda Guerra foi transferi<strong>do</strong> <strong>do</strong> centro da capital, Tallin, para um cemitério. Sites <strong>de</strong><br />
órgãos <strong>do</strong> governo, bancos e jornais foram ataca<strong>do</strong>s. A suspeita da autoria recaiu sobre a<br />
Rússia.<br />
Mas talvez o primeiro ato conheci<strong>do</strong> <strong>de</strong> uso <strong>de</strong> guerra tecnológica guerra tenha<br />
si<strong>do</strong> a quebra da criptografia da máquina alemã conhecida como Enigma por cientistas<br />
reuni<strong>do</strong>s em Bletchley Park, no Reino Uni<strong>do</strong>, nos anos 30 e 40. As estruturas <strong>de</strong> cálculo<br />
boladas para fazer a difícil <strong>de</strong>codificação inspiraram a criação <strong>do</strong> computa<strong>do</strong>r como o<br />
conhecemos. Já em 1982, um sistema computa<strong>do</strong>riza<strong>do</strong> cana<strong>de</strong>nse rouba<strong>do</strong> por espiões<br />
soviéticos explodiu numa companhia <strong>de</strong> gás na Rússia - o código <strong>do</strong> sistema havia si<strong>do</strong><br />
modifica<strong>do</strong> por agentes da CIA para causar um <strong>de</strong>feito, segun<strong>do</strong> a revista "The<br />
Economist".<br />
Em 2001, os computa<strong>do</strong>res <strong>de</strong> um avião americano <strong>de</strong> espionagem que caíra na<br />
China foram aparentemente toma<strong>do</strong>s pelos militares <strong>do</strong> país, que tiveram acesso a vários<br />
planos da Marinha americana, relatou a revista "New Yorker". O inci<strong>de</strong>nte levou à troca <strong>de</strong><br />
to<strong>do</strong> o sistema operacional usa<strong>do</strong> pela Marinha. Setor <strong>de</strong> energia elétrica é crítico Pamela<br />
Warren, diretora <strong>de</strong> Setor Público e estrategista contra cibercrime da McAfee, é cautelosa<br />
quanto à possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se <strong>de</strong>sestabilizar países com ataques virtuais, mas admite que<br />
há sistemas vulneráveis.<br />
- Se por um la<strong>do</strong> um ataque <strong>de</strong>ssa magnitu<strong>de</strong> não é provável, por outro há<br />
elementos <strong>de</strong> nossos setores críticos que são menos seguros <strong>do</strong> que <strong>de</strong>veriam - pon<strong>de</strong>ra<br />
Pamela. - E serviços importantes se baseiam nesses setores. Tem havi<strong>do</strong> ataques<br />
volta<strong>do</strong>s para <strong>de</strong>bilitar tais sistemas.<br />
Ela cita como exemplos o ataque ao sistema <strong>de</strong> tratamento <strong>de</strong> esgoto no conda<strong>do</strong><br />
<strong>de</strong> Maroochy, na Austrália, que fez vazar milhares <strong>de</strong> litros <strong>de</strong> esgoto em parques e rios<br />
por <strong>do</strong>is meses, e o malware SQL Slammer, que <strong>de</strong>sabilitou a segurança <strong>de</strong> uma usina<br />
nuclear americana em Ohio durante cinco horas. - E isso sem falar <strong>do</strong> infame Stuxnet<br />
(verme cria<strong>do</strong> para atacar sistemas industriais) - prossegue Pamela. - Houve vários
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inci<strong>de</strong>ntes públicos e muitos mais não divulga<strong>do</strong>s, com certeza. O setor <strong>de</strong> energia<br />
elétrica, por exemplo, precisa trabalhar rapidamente para fechar lacunas em suas re<strong>de</strong>s<br />
antes que elas comecem <strong>de</strong> fato a servir como meio <strong>de</strong> comunicação para os<br />
consumi<strong>do</strong>res, numa re<strong>de</strong> (grid) inteligente. A eletricida<strong>de</strong> é crítica para to<strong>do</strong>s os outros<br />
setores críticos <strong>de</strong> um país e tem que ser olhada com muita atenção.<br />
Para Roel Schouwenberg, analista <strong>de</strong> vírus sênior <strong>do</strong> time <strong>de</strong> pesquisa global <strong>do</strong><br />
Kaspersky Lab, na Rússia, um ataque como esse, entretanto, não seria nada fácil. Teria<br />
<strong>de</strong> lidar com muitos sistemas diferentes ao mesmo tempo. - Muito <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ria da<br />
habilida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s agressores, bem como da qualida<strong>de</strong> da <strong>de</strong>fesa a<strong>do</strong>tada pelo alvo.<br />
Em compensação, Schouwenberg lembra que as botnets - re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> máquinas<br />
infectadas, espalhadas pelo planeta - po<strong>de</strong>m ser responsáveis por ataques <strong>de</strong>vasta<strong>do</strong>res.<br />
- Já vimos gran<strong>de</strong>s ataques <strong>de</strong> negação <strong>de</strong> serviço (em que os servi<strong>do</strong>res <strong>de</strong> internet são<br />
sobrecarrega<strong>do</strong>s com solicitações enviadas e saem <strong>do</strong> ar) botarem fora <strong>do</strong> ar a conexão<br />
<strong>de</strong> internet <strong>de</strong> um país - conta. - E os países menores, que não têm uma infraestrutura <strong>de</strong><br />
internet bem <strong>de</strong>senvolvida, correm os maiores riscos.<br />
Pamela conta que a McAfee entrevistou executivos <strong>de</strong> setores críticos <strong>de</strong><br />
infraestrutura em 14 países, 54% <strong>do</strong>s quais já tiveram que enfrentar ataques <strong>de</strong>sse tipo.<br />
Boa parte bem pesada. E <strong>do</strong>is terços <strong>do</strong>s ataques afetaram as operações <strong>de</strong>les:<br />
- Outra ameaça a governos é o roubo <strong>de</strong> informação sensível ou confi<strong>de</strong>ncial, que, se<br />
utilizada <strong>de</strong> forma inteligente pelos hackers, po<strong>de</strong> levar a ataques maiores e mais<br />
precisos.<br />
A isso tu<strong>do</strong> se alia o aparecimento constante <strong>de</strong> novas tecnologias - tablets,<br />
smartphones turbina<strong>do</strong>s e afins - cuja segurança ainda <strong>de</strong>ixa a <strong>de</strong>sejar. Schouwenberg,<br />
da Kaspersky, alerta que esses novos gadgets também são alvos (ou po<strong>de</strong>m virar armas),<br />
através <strong>de</strong> seus sistemas operacionais, como iOS e Android. - Eles são muito mais<br />
difíceis <strong>de</strong> proteger que os sistemas tradicionais. Por exemplo, a Apple não nos permite,<br />
no Kaspersky Lab, criar um programa antimalware para o iOS - revela. - E o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
segurança no Android, da Google, igualmente limita nossas ações, enquanto os hackers<br />
po<strong>de</strong>m trapacear e ganhar acesso total aos telefones ou tablets. Essa será uma batalha<br />
dura. Estratégias também nas re<strong>de</strong>s sociais<br />
Um outro vetor da ciberguerra são as re<strong>de</strong>s sociais. Do ponto <strong>de</strong> vista da<br />
<strong>de</strong>sinformação, elas po<strong>de</strong>m virar uma arma - como bem comprovou a recente revelação<br />
<strong>do</strong> "Guardian" <strong>de</strong> que o exército americano planeja usar perfis falsos controla<strong>do</strong>s por<br />
agentes especiais para disseminar na internet mensagens pró-EUA e baixar a bola <strong>do</strong>s<br />
<strong>de</strong>fensores da Al-Qaeda e <strong>do</strong> terrorismo. Outro uso das re<strong>de</strong>s é para a mobilização<br />
mundial, que se revelou eficaz nas recentes insurgências na Tunísia e no Egito. - Devi<strong>do</strong><br />
à velocida<strong>de</strong> com que conectam as pessoas, mesmo nos lugares mais remotos, as re<strong>de</strong>s<br />
sociais conseguem granjear apoio para qualquer causa - admite Pamela. - São usadas<br />
em causas nacionalistas, e no terrorismo também. Para muitos governos <strong>de</strong>sejosos <strong>de</strong><br />
controlar movimentos, a tentação <strong>de</strong> cortar o acesso a elas é gran<strong>de</strong>, mas essa é uma<br />
longa e complexa discussão. Já Schouwenberg vê o papel das re<strong>de</strong>s sociais nos<br />
conflitos <strong>de</strong> maneira bem mais pragmática:<br />
- Não <strong>de</strong>veríamos ver a internet como algo totalmente diferente da mídia<br />
tradicional. Esse tipo <strong>de</strong> mobilização ocorre <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a Segunda Guerra e mesmo antes, <strong>de</strong><br />
mo<strong>do</strong> que vê-la acontecen<strong>do</strong> no Facebook e no Twitter é uma evolução natural.<br />
Por outro la<strong>do</strong>, os vazamentos <strong>do</strong> WikiLeaks - que continuam a provocar saias<br />
-justas diplomáticas - representam uma dura lição a ser aprendida. - É preciso reduzir ao<br />
máximo o acesso a informações protegidas - diz Pamela. - Isso é parte fundamental da<br />
ciber estratégia.
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Enquanto Schouwenberg crê que uma guerra <strong>de</strong> fato sempre terá consequências<br />
físicas, embora reconheça que seus ciber elementos ten<strong>de</strong>m a aumentar, Pamela acredita<br />
que as guerras <strong>do</strong> futuro serão cada vez mais virtuais. - É fácil conceber um dia em que<br />
guerras ou conflitos sejam trava<strong>do</strong>s virtualmente - diz a executiva. - Afinal, muitos <strong>do</strong>s<br />
crimes hoje em dia são cometi<strong>do</strong>s virtualmente, e acabam causan<strong>do</strong> muitos danos<br />
econômicos e operacionais mesmo à distância. Segurança como em gran<strong>de</strong>s empresas<br />
Por isso tu<strong>do</strong>, os governos precisam botar as barbas <strong>de</strong> molho. Schouwenberg diz que a<br />
segurança <strong>de</strong> um governo <strong>de</strong>ve espelhar a <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> empresa: investir em<br />
segurança física e lógica, gerenciamento <strong>de</strong> risco, restrições <strong>de</strong> acesso. - A <strong>de</strong>fesa <strong>do</strong>s<br />
sistemas é cada vez mais complicada, até porque smartphones e tablets agora têm<br />
acesso às re<strong>de</strong>s, e os ataques são cada vez mais sofistica<strong>do</strong>s.<br />
Por sua vez, Pamela advoga forte treinamento a to<strong>do</strong>s os envolvi<strong>do</strong>s nos<br />
procedimentos governamentais e uma "ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> suprimentos <strong>de</strong> segurança" em que<br />
ferramentas <strong>de</strong>tectem precocemente fluxos não -autoriza<strong>do</strong>s <strong>de</strong> informação e anomalias<br />
para evitar que causem danos. - A chave é achar o menor <strong>de</strong>nomina<strong>do</strong>r comum para que<br />
a informação trafegue em segurança entre órgãos e agências, e mesmo entre países. A<br />
tecnologia tem seu papel aí, e esse <strong>de</strong>nomina<strong>do</strong>r po<strong>de</strong> ajudar contra as ameaças.<br />
Autor: André Macha<strong>do</strong>, “O Globo”.<br />
Fonte: O GLOBO (RJ) • ECONOMIA • 28/3/2011 • PASTA ENERGIA, disponível em<br />
http://www.mccomunicacao.com.br/mc/cliente/copelportal/clipping/materia.asp?<br />
codmateria=15898487&codpasta=ENERGIA&codmeio=JORNAL<br />
ACORDO CRIA COMISSÃO PARA REDUZIR DIFERENÇAS COMERCIAIS<br />
DE BRASIL E EUA<br />
Acor<strong>do</strong> é um <strong>do</strong>s <strong>de</strong>z assina<strong>do</strong>s neste sába<strong>do</strong> entre os <strong>do</strong>is países. Objetivo é 'remover<br />
obstáculos' ao comércio bilateral e ao investimento.<br />
A visita <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, Barack Obama, ao Brasil resultou na<br />
assinatura <strong>de</strong> <strong>de</strong>z acor<strong>do</strong>s e memoran<strong>do</strong>s bilaterais envolven<strong>do</strong> os <strong>do</strong>is países. Um <strong>do</strong>s<br />
principais acor<strong>do</strong>s prevê a criação da Comissão Brasil-Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s para Relações<br />
Econômicas e Comerciais, que será responsável por <strong>de</strong>liberar a respeito <strong>de</strong> questões<br />
comerciais entre os <strong>do</strong>is países.<br />
Segun<strong>do</strong> <strong>do</strong>is itens <strong>do</strong> acor<strong>do</strong>, a comissão "i<strong>de</strong>ntificará oportunida<strong>de</strong>s para<br />
expandir o comércio bilateral e os fluxos <strong>de</strong> investimento" e "promoverá a remoção <strong>de</strong><br />
obstáculos <strong>de</strong>snecessários ao comércio bilateral e ao investimento, particularmente no<br />
campo regulamentar".<br />
O <strong>de</strong>sequilíbrio nas relações comerciais - o Brasil atualmente tem déficit na balança<br />
comercial com os EUA - é uma das principais diferenças entre os <strong>do</strong>is países. Os acor<strong>do</strong>s<br />
foram assina<strong>do</strong>s na manhã <strong>de</strong>ste sába<strong>do</strong> (19) pelo ministro das Relações Exteriores <strong>do</strong><br />
Brasil, Antonio Patriota, e pelo representante <strong>de</strong> Comércio <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, Ron Kirk.<br />
Os acor<strong>do</strong>s preveem parcerias em diversos setores, como aéreo e comercial. O<br />
embaixa<strong>do</strong>r <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s no Brasil, Thomas Shannon, também participou da<br />
assinatura <strong>do</strong>s atos. Dilma e Obama não participaram da assinatura <strong>do</strong>s acor<strong>do</strong>s, mas
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farão um comunica<strong>do</strong> conjunto em que <strong>de</strong>vem ressaltar as necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> parceria<br />
entre os <strong>do</strong>is países.<br />
Copa e Olimpíadas<br />
Um <strong>do</strong>s <strong>do</strong>cumentos assina<strong>do</strong>s pelos representantes <strong>do</strong>s <strong>do</strong>is países prevê a<br />
cooperação <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s para apoiar o governo brasileiro na organização <strong>de</strong><br />
gran<strong>de</strong>s eventos esportivos, como a Copa <strong>do</strong> Mun<strong>do</strong> <strong>de</strong> 2014 e os Jogos Olímpicos <strong>de</strong><br />
2016.<br />
Segun<strong>do</strong> o Itamaraty, por ter gran<strong>de</strong> experiência na área <strong>de</strong> segurança, os Esta<strong>do</strong>s<br />
Uni<strong>do</strong>s po<strong>de</strong>rão ajudar o Brasil com treinamentos específicos. O setor <strong>de</strong> infraestrutura<br />
também <strong>de</strong>ve receber apoio americano, especialmente nas obras que precisam ser feitas<br />
pelo Brasil para receber os jogos.<br />
Biocombustíveis<br />
Os <strong>do</strong>is países também assinaram um acor<strong>do</strong> que prevê parcerias para o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> biocombustíveis, especificamente para a área <strong>de</strong> aviação. Ainda<br />
nesta área, os <strong>do</strong>is países fecharam um acor<strong>do</strong> que <strong>de</strong>ve facilitar a concessão <strong>de</strong> licenças<br />
para voos <strong>de</strong> empresas aéreas brasileiras para os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s.<br />
Educação<br />
Na área da educação, um <strong>do</strong>s acor<strong>do</strong>s prevê a facilitação para ingresso <strong>de</strong><br />
brasileiros em universida<strong>de</strong>s norte-americanas, a partir <strong>de</strong> programas <strong>de</strong> bolsas <strong>de</strong><br />
estu<strong>do</strong>. O ato prevê "aprofundar a cooperação entre acadêmicos e cientistas brasileiros e<br />
americanos".<br />
Veja abaixo a relação <strong>do</strong>s acor<strong>do</strong>s firma<strong>do</strong>s entre os <strong>do</strong>is países:<br />
− Acor<strong>do</strong> <strong>de</strong> comércio e cooperação econômica;<br />
− Acor<strong>do</strong> sobre transportes aéreos;<br />
− Acor<strong>do</strong> sobre cooperação nos usos pacíficos <strong>do</strong> espaço exterior;<br />
− Memoran<strong>do</strong> <strong>de</strong> entendimento sobre cooperação para apoiar a organização <strong>de</strong><br />
gran<strong>de</strong>s eventos esportivos mundiais;<br />
− Memoran<strong>do</strong> <strong>de</strong> entendimento para a implementação <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cooperação<br />
técnica em terceiros países no âmbito <strong>do</strong> trabalho <strong>de</strong>cente;<br />
− Memoran<strong>do</strong> <strong>de</strong> entendimento para o estabelecimento <strong>do</strong> Programa Diálogos<br />
Estratégicos Brasil-EUA, assina<strong>do</strong> entre a Fundação Coor<strong>de</strong>nação <strong>de</strong><br />
Aperfeiçoamento <strong>de</strong> Pessoal <strong>de</strong> Nível Superior (Capes) e a Comissão Para o<br />
Intercâmbio Educacional entre os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s e Brasil (Comissão Fulbright);<br />
− Memoran<strong>do</strong> <strong>de</strong> entendimento sobre as dimensões da biodiversida<strong>de</strong>;<br />
− Parceria para o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> biocombustíveis para aviões;<br />
− Protocolo <strong>de</strong> intenções sobre a ampliação <strong>de</strong> cooperação técnica em terceiros<br />
países;<br />
− Acor<strong>do</strong> relativo ao exercício <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s remuneradas por <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes <strong>do</strong><br />
pessoal diplomático e consular.<br />
Autor: Iara Lemos, “O Globo”.<br />
Fonte: G1 Disponível em http://g1.globo.com/obama-no-brasil/noticia/2011/03/durante-visita<strong>de</strong>-obama-brasil-e-eua-assinam-10-acor<strong>do</strong>s-bilaterais.html.<br />
Acesso em 21/03/2011.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 16 <strong>de</strong> 45<br />
A INSUSTENTÁVEL NÃO LEVEZA DO CRESCIMENTO<br />
Parmêni<strong>de</strong>s, o filósofo pré-socrático que inspirou Milan Kun<strong>de</strong>ra a escrever "A<br />
insustentável leveza <strong>do</strong> ser", explorou os contrastes entre a presença e a ausência <strong>de</strong><br />
certas qualida<strong>de</strong>s. Curiosamente, ao contrário <strong>do</strong> que seria a inclinação lógica natural, o<br />
peso era <strong>de</strong>fini<strong>do</strong> como a ausência <strong>de</strong> leveza, ou a não leveza. O impressionante<br />
<strong>de</strong>sempenho <strong>do</strong> PIB brasileiro no ano passa<strong>do</strong> revelou uma não leveza que torna a sua<br />
manutenção insustentável.<br />
De acor<strong>do</strong> com a última divulgação <strong>do</strong> IBGE, a economia brasileira cresceu 7,5%<br />
em 2010, um ritmo certamente "milagroso", à la década <strong>de</strong> 70. No entanto, para o<br />
<strong>de</strong>sgosto <strong>do</strong>s não economistas, não faltam profissionais da área para dizer que tal ritmo<br />
<strong>de</strong> expansão não é sustentável. De fato, a incapacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manter a economia brasileira<br />
crescen<strong>do</strong> nessa velocida<strong>de</strong> já se reflete na aceleração inflacionária, em curso <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o<br />
fim <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>. É este comportamento <strong>do</strong>s preços que revela os <strong>de</strong>sequilíbrios <strong>do</strong><br />
crescimento brasileiro, ou a não leveza das suas fontes principais.<br />
Ao menos <strong>do</strong>is fatores contribuíram fortemente para a expansão da <strong>de</strong>manda<br />
agregada que impulsionou a ativida<strong>de</strong> no país em 2010. Primeiro, a expansão <strong>do</strong> crédito,<br />
sobretu<strong>do</strong> <strong>do</strong>s bancos públicos, que, em 2009, foi utilizada como instrumento <strong>de</strong> combate<br />
aos efeitos recessivos da crise financeira <strong>de</strong> 2008, mas que posteriormente se<br />
transformou em um forte impulso econômico pré-eleitoral. Segun<strong>do</strong>, o aumento <strong>do</strong>s<br />
gastos <strong>do</strong> governo, sobretu<strong>do</strong> nos últimos meses <strong>de</strong> mandato <strong>do</strong> ex-presi<strong>de</strong>nte Lula. A<br />
inflação só não foi maior <strong>do</strong> que os 6% registra<strong>do</strong>s pelo IPCA porque o mun<strong>do</strong> aju<strong>do</strong>u. A<br />
fragilida<strong>de</strong> da economia americana, a crise fiscal nos países europeus e a perspectiva <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>saceleração da ativida<strong>de</strong> mundial, que <strong>de</strong>ixaram to<strong>do</strong>s apreensivos em mea<strong>do</strong>s <strong>do</strong> ano<br />
passa<strong>do</strong>, impediram que a dinâmica <strong>do</strong>s gastos internos provocasse um forte estrago<br />
inflacionário.<br />
O contexto global hoje é outro. Os preços <strong>do</strong>s alimentos no merca<strong>do</strong> internacional<br />
se aceleraram substancialmente no fim <strong>de</strong> 2010, <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> tanto a fatores climáticos e<br />
quebras <strong>de</strong> safra quanto à maior <strong>de</strong>manda das economias emergentes, contaminan<strong>do</strong> a<br />
inflação em diversos países, inclusive no Brasil. A este quadro somam-se agora as<br />
perspectivas sombrias para o preço <strong>do</strong> petróleo, influenciadas pelas revoltas no Oriente<br />
Médio. Esse ambiente, combina<strong>do</strong> com as políticas monetárias frouxas nos países<br />
avança<strong>do</strong>s, gera um panorama bastante preocupante para a inflação global.<br />
Inseri<strong>do</strong> em um mun<strong>do</strong> <strong>de</strong> ambiente inflacionário mais hostil, o Brasil não po<strong>de</strong><br />
sustentar o peso <strong>do</strong>s seus <strong>de</strong>sequilíbrios internos sem elevar substancialmente os riscos<br />
<strong>de</strong> um maior <strong>de</strong>scontrole da inflação. É hora, portanto, <strong>de</strong> restaurar a leveza <strong>do</strong><br />
crescimento brasileiro por meio <strong>do</strong>s cortes <strong>de</strong> gastos anuncia<strong>do</strong>s e <strong>do</strong>s ajustes<br />
monetários e creditícios. Disso é que <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> a sustentabilida<strong>de</strong> futura da expansão da<br />
renda e <strong>do</strong>s ganhos <strong>de</strong> bem-estar para a população.<br />
Autor: Monica Baumgarten <strong>de</strong> Bolle, economista, Profª PUC-Rio.<br />
Fonte: “O Globo”, disponível em<br />
https://conteu<strong>do</strong>clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/3/4/ainsustentavel-nao-leveza-<strong>do</strong>-crescimento.<br />
Acesso em 09/03/2011.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 17 <strong>de</strong> 45<br />
MEIO AMBIENTE E RECURSOS<br />
ESTRATÉGICOS<br />
COMIDA OU BIOCOMBUSTÍVEL<br />
Na sua edição <strong>de</strong> ontem, o New York Times publicou matéria com este título:<br />
"Precisamos <strong>de</strong> proteína, não <strong>de</strong> biocombustíveis" (We Need Protein, Not Biofuels). A<br />
escalada <strong>do</strong>s preços da comida está aumentan<strong>do</strong> a fervura política. O Banco Mundial já<br />
avisou que a escassez <strong>de</strong> alimentos empurrou 44 milhões <strong>de</strong> pessoas para abaixo da<br />
linha <strong>de</strong> pobreza. O presi<strong>de</strong>nte da França, Nicolas Sarkozy, na condição <strong>de</strong> presi<strong>de</strong>nte<br />
rotativo <strong>do</strong> Grupo <strong>do</strong>s 20 (G-20) países mais ricos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, quer intervenção para<br />
garantir a segurança alimentar.<br />
Por enquanto, Sarkozy e os críticos ainda vêm pon<strong>do</strong> força no diagnóstico erra<strong>do</strong>,<br />
o <strong>de</strong> que a disparada <strong>do</strong>s preços está sen<strong>do</strong> provocada prepon<strong>de</strong>rantemente pela ação<br />
<strong>do</strong>s especula<strong>do</strong>res financeiros. Mas à medida que esse argumento vai sen<strong>do</strong> rebati<strong>do</strong> -<br />
até mesmo pelo governo brasileiro - duas consequências parecem inevitáveis. A primeira<br />
<strong>de</strong>las é a maior flexibilização para <strong>de</strong>senvolvimento e produção <strong>de</strong> culturas geneticamente<br />
modificadas (transgênicas), que ainda hoje encontram fortes resistências na Europa e<br />
também aqui no Brasil. A outra é o crescimento das pressões para proibir o <strong>de</strong>svio <strong>de</strong><br />
grãos e <strong>de</strong> outros alimentos para a produção <strong>de</strong> biocombustíveis.<br />
Os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, por exemplo, canalizam mais <strong>de</strong> 100 milhões <strong>de</strong> toneladas <strong>de</strong><br />
milho para a produção <strong>de</strong> etanol, o suficiente para alimentar 240 milhões <strong>de</strong> pessoas, nos<br />
cálculos <strong>do</strong> professor Kenneth Cassmann, da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Nebraska, cita<strong>do</strong> em outra<br />
matéria <strong>do</strong> New York Times. A própria União Europeia usa óleos vegetais (especialmente<br />
<strong>de</strong> canola e girassol) para a produção <strong>de</strong> biodiesel.<br />
E o Brasil também tem lá seus fortes programas <strong>de</strong> etanol e biodiesel. No ano<br />
passa<strong>do</strong> cerca <strong>de</strong> 335 milhões <strong>de</strong> toneladas <strong>de</strong> cana-<strong>de</strong>-açúcar foram usadas para a<br />
produção <strong>de</strong> etanol e mais não foram porque os próprios usineiros puxaram mais matériaprima<br />
para suas fábricas <strong>de</strong> açúcar, cujos preços saltaram 72% no merca<strong>do</strong> internacional.<br />
Também por aqui 1,9 milhão <strong>de</strong> toneladas <strong>de</strong> óleo <strong>de</strong> soja <strong>de</strong>ixaram <strong>de</strong> ser utilizadas na<br />
alimentação e foram empregadas na produção <strong>de</strong> 2,5 bilhões <strong>de</strong> litros <strong>de</strong> biodiesel.<br />
Por enquanto, o Brasil vem <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> a produção <strong>de</strong> biocombustíveis a partir <strong>de</strong><br />
matéria-prima alimentar com o argumento <strong>de</strong> que há espaço para os <strong>do</strong>is segmentos.<br />
Mas à medida que crescer a escassez <strong>de</strong> alimentos, maiores serão as pressões e mais<br />
vulnerável ficará o governo brasileiro.<br />
O crescimento da procura <strong>de</strong> proteína tanto vegetal como animal parece inexorável<br />
à medida que cresce a população <strong>do</strong>s países emergentes que ascen<strong>de</strong>m à condição <strong>de</strong><br />
consumi<strong>do</strong>res. Desapareceram as montanhas <strong>de</strong> trigo e <strong>de</strong> manteiga nos países ricos que<br />
caracterizaram os anos <strong>de</strong> pós-guerra. Esta é uma extraordinária oportunida<strong>de</strong> para o<br />
Brasil. No entanto, um após o outro, os governos brasileiros renunciaram a ter uma
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 18 <strong>de</strong> 45<br />
política agrícola. A produção vai crescen<strong>do</strong>, sim, mas na base da inércia, estimulada<br />
apenas pelo que Deus manda, enfrentan<strong>do</strong> custos predatórios e uma infraestrutura<br />
precária e <strong>de</strong>sestimula<strong>do</strong>ra.<br />
Autor: Ministério <strong>do</strong> Planejamento.<br />
Fonte:Ministério <strong>do</strong> Planejamento, disponível em<br />
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/2/17/comida-ou<br />
biocombustivel/?searchterm=. Acesso em 05/03/2011.<br />
ANP ASSUME O ETANOL E AÇÚCAR PODE SER TAXADO<br />
A presi<strong>de</strong>nte Dilma Rousseff <strong>de</strong>terminou aos seus principais ministros, em reunião<br />
no fim da tar<strong>de</strong> <strong>de</strong> segunda-feira, a "transferência compulsória" <strong>do</strong> controle e da<br />
fiscalização sobre a ca<strong>de</strong>ia produtiva <strong>do</strong> etanol à Agência Nacional <strong>do</strong> Petróleo (ANP). O<br />
produto passará a ser trata<strong>do</strong> como combustível estratégico e não mais como um mero<br />
<strong>de</strong>riva<strong>do</strong> da produção agrícola.<br />
O governo sabe que tem pouco controle sobre níveis <strong>de</strong> estoques em mãos<br />
privadas e das estatísticas <strong>de</strong> oferta e <strong>de</strong>manda internas. A <strong>de</strong>terminação <strong>de</strong> Dilma à ANP<br />
inclui maior controle sobre a quantida<strong>de</strong> produzida e o fluxo <strong>de</strong> comercialização das<br />
usinas. "Agastada" com a forte alta <strong>de</strong> preços nas bombas e as ameaças <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sabastecimento, a presi<strong>de</strong>nte encomen<strong>do</strong>u a quatro auxiliares estu<strong>do</strong>s para reduzir<br />
"substancialmente" a mistura <strong>de</strong> etanol à gasolina, que hoje varia <strong>de</strong> 20% a 25%.<br />
Na reunião, ela avaliou serem necessárias "medidas complementares" para sanear<br />
o setor. A certa altura, disse aos ministros que, se os EUA <strong>de</strong>cidissem retirar as tarifas ao<br />
etanol brasileiro, o país passaria pelo vexame <strong>de</strong> não ter como fornecer o combustível ao<br />
exterior. Ao contrário, o país virou importa<strong>do</strong>r <strong>de</strong> etanol - e justamente <strong>do</strong>s EUA. Medidas<br />
<strong>de</strong> fiscalização tributária, como a obrigação <strong>de</strong> instalar medi<strong>do</strong>res <strong>de</strong> vazão nas usinas,<br />
também estão no horizonte.<br />
Aborrecida com os usineiros, sobretu<strong>do</strong> com executivos <strong>de</strong> companhias<br />
estrangeiras, Dilma Rousseff chegou a mencionar que, "no limite", pensaria em uma<br />
eventual taxação das exportações <strong>de</strong> açúcar. Seria uma forma <strong>de</strong> punir a alegada falta <strong>de</strong><br />
compromisso <strong>do</strong>s empresários <strong>do</strong> setor com os planos estratégicos <strong>do</strong> governo. Os<br />
usineiros são acusa<strong>do</strong>s <strong>de</strong> produzir mais açúcar em <strong>de</strong>trimento <strong>do</strong> etanol. Os preços da<br />
commodity são os maiores <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a década <strong>de</strong> 70 e sua remuneração supera a <strong>do</strong> etanol<br />
em 75%. Mas há dúvidas sobre a eficácia <strong>de</strong>ssa medida, tida como extrema.<br />
A presi<strong>de</strong>nte acusou os usineiros <strong>de</strong> terem atuação "pouco solidária" e <strong>de</strong> "não<br />
cumprirem" acor<strong>do</strong>s. A entrada <strong>de</strong> empresas multinacionais no setor, avaliou, não<br />
resolveu esse problema. Ao contrário, agravou a "visão restritiva" <strong>do</strong>s compromissos.<br />
Dilma reconheceu que é necessário apoiar o setor com financiamentos e <strong>de</strong>sonerações<br />
da ca<strong>de</strong>ia produtiva, mas que, antes disso, precisa ter o compromisso <strong>do</strong>s usineiros.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 19 <strong>de</strong> 45<br />
Na reunião <strong>de</strong> segunda-feira, ficou clara a disposição <strong>do</strong> governo <strong>de</strong> não ficar "<strong>de</strong><br />
braços cruza<strong>do</strong>s" esperan<strong>do</strong> a situação se agravar. Estavam no encontro os ministros<br />
Antonio Palocci (Casa Civil), Gui<strong>do</strong> Mantega (Fazenda), Edison Lobão (Minas e Energia)<br />
e Wagner Rossi (Agricultura).<br />
Autor:Autor(es): Mauro Zanatta e Paulo <strong>de</strong> Tarso Lyra | De Brasília.<br />
Fonte: Valor Econômico. Disponível em<br />
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/4/6/anp-assume-o-etanol-eacucar-po<strong>de</strong>-ser-taxa<strong>do</strong>.<br />
Acesso em 06/04/2011<br />
EM BANGCOC, PAÍSES CONCORDAM EM PRIORIZAR DISCUSSÃO<br />
SOBRE CLIMA<br />
Segun<strong>do</strong> secretária executiva da ONU, houve <strong>de</strong>monstrações no encontro <strong>de</strong> que há vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
se seguir o Protocolo Kyoto<br />
Brasília – Depois <strong>de</strong> quatro dias <strong>de</strong> discussões em Bangcoc, na Tailândia,<br />
negocia<strong>do</strong>res <strong>de</strong> países ricos e em <strong>de</strong>senvolvimento concordaram em dar priorida<strong>de</strong> à<br />
agenda sobre a mudança <strong>do</strong> clima. Às vésperas <strong>de</strong> encerrar o prazo para os governos<br />
atingirem as metas <strong>de</strong> redução da emissão <strong>de</strong> gases <strong>de</strong> efeito estufa, que, segun<strong>do</strong><br />
especialistas, é uma das principais causas <strong>do</strong> aquecimento global - conforme o Protocolo<br />
<strong>de</strong> Kyoto -, o tema pre<strong>do</strong>minou nas reuniões.<br />
Pelo acor<strong>do</strong> <strong>de</strong>fini<strong>do</strong> no protocolo, há um calendário que <strong>de</strong>ve ser cumpri<strong>do</strong> pelos<br />
países, principalmente os ricos, cuja obrigação é reduzir a emissão <strong>de</strong> gases <strong>de</strong> efeito<br />
estufa em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis <strong>de</strong> 1990 até 2012. As metas <strong>de</strong><br />
redução variam <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com cada país, com níveis diferencia<strong>do</strong>s para os que mais<br />
emitem gases.<br />
A secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança<br />
<strong>do</strong> Clima, Christiana Figueres, disse hoje (8) que os <strong>de</strong>bates foram “positivos e<br />
construtivos”. Segun<strong>do</strong> ela, houve <strong>de</strong>monstrações <strong>de</strong> que está entre as priorida<strong>de</strong>s o<br />
“<strong>de</strong>sejo <strong>de</strong> manter as regras <strong>de</strong> Kyoto e buscar soluções políticas em 2011".<br />
Christiana <strong>de</strong>stacou ainda que é necessário que cada país cumpra também as<br />
metas estabelecidas individualmente para que o plano global atinja os objetivos <strong>de</strong>fini<strong>do</strong>s<br />
nas reuniões anteriores. “Em casa, com seu próprio sistema político, é preciso<br />
implementar as políticas a<strong>de</strong>quadas. Não é uma escolha entre um ou outro, é um<br />
conjunto. País algum po<strong>de</strong> agir sozinho.”.<br />
Organizada pelas Nações Unidas, a conferência em Bangcoc reuniu 2 mil<br />
representantes <strong>de</strong> 175 países. Participaram <strong>do</strong> encontro representantes <strong>de</strong> governos,<br />
empresas privadas, organizações ambientais e instituições <strong>de</strong> pesquisa.<br />
De acor<strong>do</strong> com as Nações Unidas, a reunião em Bangcoc foi a primeira <strong>de</strong> uma<br />
série <strong>de</strong> <strong>de</strong>bates internacionais <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s a preparar a Conferência da Convenção-<br />
Quadro das Nações Unidas sobre Mudança <strong>do</strong> Clima, em Durban, África <strong>do</strong> Sul, em
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 20 <strong>de</strong> 45<br />
<strong>de</strong>zembro. A próxima reunião preparatória será realizada em Bonn, Alemanha, no dia 6<br />
<strong>de</strong> junho.<br />
Autor: Renata Giraldi, da AGÊNCIA BRASIL<br />
Fonte: Revista Exame. Disponível em http://exame.abril.com.br/economia/meio-ambientee-energia/noticias/em-bangcoc-paises-concordam-em-priorizar-discussao-sobre-clima.<br />
Acesso em 11/04/2011.<br />
ÁSIA NOVAS CENTRALIDADES<br />
AMERICANOS ESTÃO COM MEDO DA CRISE NO EGITO, DIZ ANALISTA<br />
Rashid Khalili, da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Colúmbia, é uma das vozes mais influentes<br />
sobre Oriente Médio nos EUA.. Ele vê uma mudança no comportamento americano em<br />
relação ao Egito.<br />
Até que ponto proce<strong>de</strong>m temores <strong>de</strong> que se repita no Egito o que aconteceu no Irã em<br />
79?<br />
Os clérigos sempre exerceram um papel importante na política iraniana, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o<br />
fim <strong>do</strong> século XIX, e esse não é o caso <strong>do</strong> Egito. É uma situação diferente. Em segun<strong>do</strong><br />
lugar, eu faria um alerta contra a <strong>de</strong>monização <strong>do</strong> islamismo político, que tem si<strong>do</strong> a<br />
moeda <strong>de</strong> troca <strong>do</strong> regime Mubarak e <strong>de</strong> outros regimes ditatoriais, um meio <strong>de</strong> justificar a<br />
repressão e que tem recebi<strong>do</strong> por plateias simpáticas em Washington e em muitas outras<br />
capitais.<br />
Não há sinais <strong>de</strong> que a Irmanda<strong>de</strong> Muçulmana tenha ti<strong>do</strong> um gran<strong>de</strong> peso agora,<br />
embora seja uma força importante. A oposição secular foi pulverizada pelo regime, muito<br />
mais <strong>do</strong> que os muçulmanos. Acho que há possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> uma transição <strong>de</strong>mocrática<br />
que leve a uma maior influência islâmica no Egito; há risco <strong>de</strong> caos; há chance <strong>de</strong> os<br />
militares tentarem reter o po<strong>de</strong>r, não sabemos para que la<strong>do</strong> as coisas irão.<br />
O senhor acha que Mohammed ElBara<strong>de</strong>i po<strong>de</strong>ria ser comandante da transição?<br />
Parece haver um entendimento entre as forças <strong>de</strong> oposição <strong>de</strong> que ele é uma<br />
figura <strong>de</strong> proa, um interlocutor respeita<strong>do</strong> no Oci<strong>de</strong>nte, então po<strong>de</strong> ter um papel. Vai<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r da habilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>le.<br />
Após tantas décadas <strong>de</strong> ditadura, a oposição po<strong>de</strong> se organizar na mesma velocida<strong>de</strong><br />
das mudanças?<br />
Só o tempo dirá. Mas temos que dar um crédito aos egípcios, cuja socieda<strong>de</strong> civil é<br />
forte, 70% alfabetizada e possui uma forte tradição <strong>de</strong>mocrática, apesar <strong>do</strong>s últimos 30
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 21 <strong>de</strong> 45<br />
anos. Mas ... será que um governo <strong>de</strong>mocrático conseguirá governar o Egito com os<br />
problemas que terá pela frente? Esta, sim, é a questão mais importante. E, sim, é uma<br />
questão muito mais importante.<br />
Autor: Fernan<strong>do</strong> Go<strong>do</strong>y, “O Globo”.<br />
Fonte:Blog <strong>do</strong> Noblat. Disponível em<br />
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/02/01/americanos-estao-com-me<strong>do</strong>-dacrise-no-egito-diz-analista-360321.asp.<br />
Acesso em 02/02/2011.<br />
CHINA? QUE CHINA?<br />
Com suas dimensões continentais e mais <strong>de</strong> 190 milhões <strong>de</strong> habitantes, o Brasil é<br />
um prodígio <strong>de</strong> unida<strong>de</strong> cultural. Talvez essa seja a maior herança que a colonização<br />
portuguesa nos <strong>de</strong>ixou. Não po<strong>de</strong>mos, também, esquecer o gran<strong>de</strong> trabalho <strong>do</strong> Império<br />
na manutenção <strong>de</strong>ssa integrida<strong>de</strong> territorial e cultural, conquistada contra to<strong>do</strong>s os<br />
inimigos externos e internos, não raro com a necessária utilização <strong>de</strong> seu braço arma<strong>do</strong>.<br />
Como hoje temos garantida essa situação, frequentemente somos leva<strong>do</strong>s a<br />
esquecer o sacrifício e o esforço que nossos antepassa<strong>do</strong>s <strong>de</strong>spen<strong>de</strong>ram para nos<br />
entregar o que agora temos.<br />
Resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong>sse trabalho hercúleo, quan<strong>do</strong> se pensa no Brasil, vê-se um enorme<br />
país, com mais <strong>de</strong> 8,5 milhões <strong>de</strong> quilômetros quadra<strong>do</strong>s, falan<strong>do</strong> a mesma língua,<br />
usan<strong>do</strong> o mesmo alfabeto, on<strong>de</strong> as pequenas diferenças regionais no vocabulário ou na<br />
pronúncia não impe<strong>de</strong>m o perfeito entendimento entre to<strong>do</strong>s os brasileiros.<br />
UMA CHINA<br />
Outro gigante <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> atual, a milenar China, também apresenta números<br />
impressionantes: com mais <strong>de</strong> 1,3 bilhões <strong>de</strong> habitantes, praticamente 1/5 <strong>de</strong> toda a<br />
humanida<strong>de</strong>, ocupa um território maior que 9,5 milhões <strong>de</strong> quilômetros quadra<strong>do</strong>s. Sua<br />
situação cultural e social, porém, é completamente diversa da brasileira. Embora ostente<br />
uma história <strong>de</strong> quatro milênios, sua população é composta por várias etnias, povos, clãs<br />
e tribos, algumas das quais inimigas entre si.<br />
A República Popular da China reconhece oficialmente 56 grupos étnicos distintos, o<br />
maior <strong>do</strong>s quais são a etnia Han, que constitui cerca <strong>de</strong> 91,9% <strong>do</strong> total da população <strong>do</strong><br />
país. Gran<strong>de</strong> minorias étnicas incluem os zhuang (16 milhões), manchu (10 milhões), hui<br />
(9 milhões), miao (8 milhões), uigur (7 milhões), yi (7 milhões), tujia (5,75 milhões),<br />
mongóis (5 milhões), tibetanos (5 milhões), buyei (3 milhões) e coreanos (2 milhões).
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 22 <strong>de</strong> 45<br />
Quanto ao idioma, a língua chinesa é na verda<strong>de</strong> uma família <strong>de</strong> línguas que<br />
pertence ao ramo sino-tibetano. Aproximadamente a quinta parte <strong>do</strong>s habitantes da Terra<br />
fala alguma forma <strong>de</strong> chinês como língua materna, tornan<strong>do</strong> a língua chinesa a mais<br />
falada no planeta, embora não seja a mais difundida.<br />
É uma língua tonal, isolante e, basicamente, monossilábica, ten<strong>de</strong>n<strong>do</strong> ao<br />
monossilabismo principalmente na variante escrita, enquanto as variantes faladas<br />
(notoriamente o mandarim) costumam fazer amplo uso <strong>de</strong> palavras dissilábicas e<br />
polissilábicas. As raízes lexicais são, no entanto, todas monossilábicas.<br />
A língua chinesa apresenta gran<strong>de</strong> varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> dialetos, sen<strong>do</strong> tamanha a<br />
diferença entre eles a ponto <strong>de</strong> muitos serem incompreensíveis entre si. O idioma<br />
mantém a unida<strong>de</strong> por causa da origem genética comum e pelo fato <strong>de</strong> a escrita ser<br />
comum a to<strong>do</strong>s eles, transcreven<strong>do</strong> i<strong>de</strong>ias (ou melhor, palavras), e não sons.<br />
A família <strong>de</strong> línguas chinesa está composta por vários idiomas diferentes entre si. Os<br />
principais são:<br />
- Mandarim, ou Putonghua - 836 milhões <strong>de</strong> falantes<br />
- Wú - 77 milhões<br />
- Cantonês ou Yue - 71 milhões<br />
- Dialetos Min - 60 milhões<br />
- Jin - 45 milhões<br />
- Xiang ou Huanés - 36 milhões<br />
- Hakka ou Kejia - 34 milhões<br />
- Gàn - 31 milhões<br />
- Hui – 3,2 milhões<br />
- Pinghua - 2 milhões<br />
Naturalmente, tal diversida<strong>de</strong> cultural é um gran<strong>de</strong> óbice ao <strong>de</strong>senvolvimento<br />
chinês, pois parcelas significativas <strong>do</strong> povo ficam alijadas <strong>do</strong> simples entendimento <strong>do</strong><br />
que é discuti<strong>do</strong> pela maioria. Perdi<strong>do</strong>s nos gran<strong>de</strong>s números chineses, basta lembrarmos<br />
que os mais <strong>de</strong> 140 milhões <strong>de</strong> chineses que falam os dialetos Wú e cantonês<br />
representam uma população maior <strong>do</strong> que a da Rússia ou a <strong>do</strong> Japão. Se<br />
acrescentarmos os usuários <strong>do</strong> dialeto Min, apenas China, Índia, Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s e<br />
In<strong>do</strong>nésia serão mais populosos.<br />
Quanto à escrita, o alfabeto chinês surgiu há cerca <strong>de</strong> 4500 anos. Com o passar<br />
<strong>do</strong>s anos, as letras foram se simplifican<strong>do</strong>. Durante a Revolução Chinesa, foi cria<strong>do</strong> um
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novo alfabeto chinês simplifica<strong>do</strong>. O alfabeto simplifica<strong>do</strong> hoje é utiliza<strong>do</strong> na China e em<br />
Singapura, enquanto o alfabeto tradicional é utiliza<strong>do</strong> em Taiwan, Hong Kong, por<br />
imigrantes chineses e vem ganhan<strong>do</strong> força no sul da China.<br />
Ao contrário <strong>do</strong> nosso alfabeto latino, on<strong>de</strong> a letra i<strong>de</strong>ntifica um som, mas não dá<br />
qualquer informação sobre seu significa<strong>do</strong>, no alfabeto chinês cada letra tem um<br />
significa<strong>do</strong>, mas não um som. Ou seja, a não ser que você saiba o som <strong>de</strong> um caractere,<br />
você não po<strong>de</strong> saber qual é o som apenas olhan<strong>do</strong> para ele, mas po<strong>de</strong> saber o<br />
significa<strong>do</strong>. Isso faz com que os vários dialetos possam ler um mesmo texto, mesmo que<br />
sua pronúncia seja diferente. Cada caractere chinês, normalmente, correspon<strong>de</strong> a uma<br />
sílaba.<br />
O alfabeto chinês era, inicialmente, composto por cerca <strong>de</strong> 50.000 caracteres. Os<br />
sistemas <strong>de</strong> computa<strong>do</strong>r, hoje, incorporam cerca <strong>de</strong> 6.500 caracteres na China e 13.000<br />
em Taiwan. Para que se leia um jornal comum, é necessário o conhecimento <strong>de</strong> 3.000<br />
caracteres chineses (ou 4.000 em Taiwan). Uma pessoa é consi<strong>de</strong>rada alfabetizada na<br />
China caso conheça 2.000 caracteres específicos (ou 1.500, se for um agricultor).<br />
Antigamente os caracteres eram escritos apenas verticalmente, <strong>de</strong> cima para<br />
baixo. Hoje, o alfabeto simplifica<strong>do</strong> é escrito horizontalmente, da esquerda para direita,<br />
como o nosso. O alfabeto tradicional ainda é escrito <strong>de</strong> cima para baixo, exceto em textos<br />
científicos, on<strong>de</strong> o uso <strong>de</strong> equações torna essa escrita difícil.<br />
Há, no total, vinte e quatro tipos diferentes <strong>de</strong> escrita.<br />
Assim, conforme o ponto <strong>de</strong> vista consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>, po<strong>de</strong>mos encontrar várias Chinas, como<br />
nos exemplos a seguir.<br />
DUAS CHINAS<br />
A primeira gran<strong>de</strong> divisão a consi<strong>de</strong>rar é a separação política, militar, social<br />
econômica e física entre a República Popular da China (RPC) e a República da China<br />
(RC). Neste artigo, quan<strong>do</strong> nos referirmos à China, estaremos falan<strong>do</strong> da RPC.<br />
Durante 4.000 anos a China foi governada por uma série <strong>de</strong> monarquias hereditárias<br />
(dinastias).<br />
A última dinastia foi a Qing, que terminou em 1911, com a fundação da República<br />
da China (RC) pelo Parti<strong>do</strong> Nacionalista – Kuomintang (KMT). Na primeira meta<strong>de</strong> <strong>do</strong><br />
século XX, a China mergulhou em um perío<strong>do</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>sunião e guerras civis que dividiram o<br />
país em <strong>do</strong>is principais campos políticos – o Kuomintang e os Comunistas. As<br />
hostilida<strong>de</strong>s terminaram em 1949, quan<strong>do</strong> a República Popular da China foi estabelecida<br />
pelos comunistas vitoriosos. O KMT, li<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> pelo governo da República da China, recuou<br />
para Taipei, agora limitan<strong>do</strong> sua competência para a ilha <strong>de</strong> Taiwan e algumas ilhas<br />
adjacentes. Ainda hoje, a China está envolvida em disputas com a RC em relação a<br />
questões <strong>de</strong> soberania e <strong>do</strong> estatuto político <strong>de</strong> Taiwan.
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Para to<strong>do</strong>s os efeitos práticos, são <strong>do</strong>is países in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, embora a RC só<br />
não seja reincorporada à RPC em virtu<strong>de</strong> <strong>do</strong> apoio militar por parte das potências<br />
oci<strong>de</strong>ntais, em especial <strong>do</strong>s EUA.<br />
Taiwan tem governo próprio, eleito <strong>de</strong>mocraticamente, instituições in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes,<br />
moeda nacional, forças armadas, participa ativamente <strong>do</strong> comércio internacional e é<br />
membro da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico). Para efeitos práticos, é um<br />
Esta<strong>do</strong> soberano, mas apesar disso não é reconheci<strong>do</strong> pela ONU e pelas principais<br />
organizações internacionais. Mantém relações diplomáticas com apenas 26 países.<br />
A RPC consi<strong>de</strong>ra Taiwan uma província rebel<strong>de</strong>, uma parte inalienável <strong>do</strong> seu<br />
território. Nos últimos anos, tem se empenha<strong>do</strong> ostensivamente no projeto <strong>de</strong><br />
reunificação, inclusive recorren<strong>do</strong> ao uso da força, caso isso seja inevitável. Des<strong>de</strong> a<br />
década <strong>de</strong> 1990, tem realiza<strong>do</strong> manobras militares no estreito <strong>de</strong> Taiwan, no senti<strong>do</strong> <strong>de</strong><br />
reforçar a sua disposição <strong>de</strong> impedir qualquer tentativa <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência.<br />
Em busca <strong>de</strong> uma solução pacífica, contu<strong>do</strong>, Pequim propõe o conceito <strong>de</strong> "um<br />
país, <strong>do</strong>is sistemas": o socialista no continente e o capitalista em Taiwan. Em tese, isso<br />
permitiria a Taiwan a<strong>do</strong>tar as suas políticas econômicas e manter as suas instituições<br />
com relativa autonomia.<br />
Do outro la<strong>do</strong> <strong>do</strong> estreito, o atual presi<strong>de</strong>nte taiwanês não ousa <strong>de</strong>clarar<br />
publicamente a in<strong>de</strong>pendência ou tomar qualquer <strong>de</strong>cisão contra a reunificação com a<br />
parte continental. No entanto, tem manifesta<strong>do</strong> que qualquer atitu<strong>de</strong> a esse respeito<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá <strong>de</strong> um processo livre e <strong>de</strong>mocrático, cuja <strong>de</strong>liberação cabe aos 23 milhões <strong>de</strong><br />
pessoas que vivem em Taiwan, em sua maioria simpática à causa separatista. A<br />
perspectiva <strong>de</strong> uma só China no futuro, <strong>de</strong>clara ele, <strong>de</strong>verá ser fruto <strong>de</strong> negociações em<br />
bases iguais.<br />
TRÊS CHINAS<br />
Des<strong>de</strong> sua fundação, em 1949, a República Popular da China a<strong>do</strong>tava um estilo<br />
soviético <strong>de</strong> economia planificada. Com a morte <strong>de</strong> Mao Tse-tung e o fim da Revolução<br />
Cultural, os novos dirigentes chineses começaram a reformar a economia. A sua<br />
transformação em economia mista foi iniciada por Deng Xiaoping em 1978, após a falha<br />
da economia planificada em <strong>de</strong>senvolver os sistemas produtivos chineses a níveis<br />
aceitáveis. As reformas <strong>de</strong> Xiaoping incluíram a privatização das fazendas, o que pôs fim<br />
à agricultura coletiva, e <strong>de</strong> indústrias estatais que fossem consi<strong>de</strong>radas <strong>de</strong> baixo
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<strong>de</strong>sempenho na época, como mineração e produtos básicos (roupas, processamento <strong>de</strong><br />
alimentos), entre outras.<br />
Uma das experiências econômicas mais interessantes e bem sucedidas foi a<br />
criação da Região Administrativa Especial (RAE), uma divisão administrativa <strong>de</strong> nível<br />
provincial da RPC. Cada RAE tem um chefe <strong>de</strong> governo executivo, como chefe da região,<br />
e um chefe <strong>de</strong> governo político.<br />
Atualmente, são duas as Regiões Administrativas Especiais – Hong Kong e Macau.<br />
Trata-se <strong>de</strong> antigas colônias inglesa e portuguesa, respectivamente. A lei chinesa fornece<br />
a estas regiões um alto nível <strong>de</strong> autonomia, um sistema político separa<strong>do</strong> e uma<br />
economia capitalista, sob o princípio <strong>de</strong> "um país, <strong>do</strong>is sistemas" proposto por Deng<br />
Xiaoping.<br />
As duas RAEs são responsáveis por todas as questões locais, exceto por atos <strong>de</strong><br />
Esta<strong>do</strong>, como política externa e <strong>de</strong>fesa nacional. Com algumas exceções, as leis<br />
nacionais que se aplicam na PRC não se esten<strong>de</strong>m a uma RAE. Cada uma das RAEs<br />
emite passaportes próprios, apenas para resi<strong>de</strong>ntes permanentes que também são<br />
nacionais da RPC, ou seja, nacionais da RPC que satisfazem a <strong>de</strong>terminadas condições.<br />
Na verda<strong>de</strong>, trata-se quase <strong>de</strong> <strong>do</strong>is países semissoberanos <strong>de</strong>ntro da RPC, que<br />
funcionam como verda<strong>de</strong>iras zonas francas ou portos livres, oxigenan<strong>do</strong> o sistema<br />
socialista com as vantagens <strong>do</strong> capitalismo. Naturalmente, existirão como experimentos<br />
políticos e econômicos enquanto forem positivos para a RPC.<br />
QUATRO CHINAS<br />
As Zonas Econômicas Especiais (ZEE) da China constituem o principal mecanismo<br />
<strong>de</strong> abertura da economia chinesa. Foram criadas na segunda meta<strong>de</strong> da década <strong>de</strong> 1970,<br />
junto ao litoral oriental da China.<br />
A formação e consolidação das ZEE baseiam-se em:<br />
• Abertura <strong>do</strong> merca<strong>do</strong> ao capital estrangeiro, mas com forte participação estatal;<br />
• Proximida<strong>de</strong> das áreas portuárias e urbanas;<br />
• Produção industrial diversificada e voltada preferencialmente para as exportações;<br />
• Mão <strong>de</strong> obra barata e abundante;<br />
• Economia <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>;<br />
• Isenção <strong>de</strong> impostos;<br />
• Salários mais altos <strong>do</strong> que os pagos no restante <strong>do</strong> País.<br />
Entre 1980 e 1984 o governo da República Popular da China estabeleceu uma<br />
série <strong>de</strong> zonas econômicas especiais, com leis próprias no que toca à iniciativa<br />
econômica <strong>de</strong> particulares, que se afastam da rigi<strong>de</strong>z <strong>do</strong> regime comunista vigente no<br />
resto <strong>do</strong> território chinês. Estas foram estabelecidas em Shantou, Shenzhen, e Zhuhai,<br />
todas na Província <strong>de</strong> Cantão e em Xiamen, na Província <strong>de</strong> Fujian, bem como a ilha<br />
inteira que constitui a Província <strong>de</strong> Hainan.<br />
Des<strong>de</strong> então, <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> cida<strong>de</strong>s e regiões costeiras receberam o status <strong>de</strong> ZEE,<br />
no que parece ser o caminho a<strong>do</strong>ta<strong>do</strong> pelo regime chinês para, progressiva e<br />
controladamente, aproximar-se <strong>do</strong> capitalismo.<br />
As principais Zonas Econômicas são: Shenzhen , Zhuhai , Shantou , Xiamen e Província<br />
<strong>de</strong> Hainan.<br />
CINCO CHINAS
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Há, ainda, cinco Regiões Autônomas (RA). São áreas incorporadas à China em<br />
épocas mais recentes (na escala chinesa <strong>de</strong> tempo), on<strong>de</strong> existem várias minorias étnicas<br />
e alguns movimentos separatistas e on<strong>de</strong> o <strong>do</strong>mínio chinês é manti<strong>do</strong> por forte presença<br />
militar. São elas:<br />
-Região Autônoma Uigur <strong>do</strong> Xinjiang, que inclui a maior parte <strong>de</strong> Aksai Chin, uma<br />
região reivindicada pela Índia como parte <strong>de</strong> seu esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> Jammu e Caxemira.<br />
Xinjiang significa, literalmente, "a fronteira nova", um nome da<strong>do</strong> durante a dinastia Qing<br />
da China manchu. O nome é consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> ofensivo por muitos <strong>de</strong>fensores da<br />
in<strong>de</strong>pendência, que preferem usar nomes históricos ou étnicos, tais como Turquestão<br />
Chinês, Turquestão Oriental ou Uiguristão. Devi<strong>do</strong> à associação <strong>de</strong>stes nomes com o<br />
movimento <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência <strong>do</strong> Turquestão Oriental, tais <strong>de</strong>nominações são con<strong>de</strong>nadas<br />
pelo governo chinês.<br />
Por ocasião da intervenção soviética no Afeganistão, nos anos <strong>de</strong> 1980, a China<br />
enviou combatentes uigures para apoiar os talibãs. Ao retornar à província, eles a<strong>de</strong>ririam<br />
ao separatismo uigur. Nos anos <strong>de</strong> 1990, os separatistas passaram a recorrer ao<br />
terrorismo.<br />
Ao la<strong>do</strong> <strong>do</strong> Tibete, Xinjiang é a maior região territorial da RPC: são 1.660.001 km2, com<br />
uma população <strong>de</strong> 19.630.000 habitantes.<br />
O Xinjiang produz um terço <strong>do</strong> algodão da China, bem como dispõe das maiores reservas<br />
<strong>de</strong> petróleo e gás.<br />
- Região Autônoma da Mongólia Interior é a terceira maior subdivisão da China,<br />
abrangen<strong>do</strong> uma área aproximada <strong>de</strong> 1.200.000 km² (12% <strong>do</strong> território chinês) e uma<br />
população <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 24 milhões <strong>de</strong> habitantes em 2004.<br />
A Região Autônoma foi criada em 1947. A maior parte <strong>do</strong> seu território é constituída por<br />
altas mesetas e ca<strong>de</strong>ias montanhosas. Nos vales cultivam-se preferencialmente cereais,<br />
como o trigo. Nas pradarias, mais áridas, a criação <strong>de</strong> cabras e ovelhas é o méto<strong>do</strong><br />
tradicional <strong>de</strong> subsistência. Há abundância <strong>de</strong> recursos naturais, como carvão, lã <strong>de</strong><br />
Cachemira, gás natural, metais raros e os maiores <strong>de</strong>pósitos <strong>de</strong> toda a China <strong>de</strong> nióbio,<br />
zircônio e berílio.<br />
- Região Autônoma <strong>do</strong> Tibete é uma região <strong>de</strong> planalto da Ásia, um território disputa<strong>do</strong><br />
situa<strong>do</strong> ao norte da cordilheira <strong>do</strong> Himalaia. É habitada pelos tibetanos e outros grupos<br />
étnicos, como os monpas e os lhobas, além <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s minorias <strong>de</strong> chineses han e hui.<br />
O Tibete é a região mais alta <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, com uma elevação média <strong>de</strong> 4.900 metros<br />
<strong>de</strong> altitu<strong>de</strong>, e por vezes recebe a <strong>de</strong>signação <strong>de</strong> "o teto <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>".<br />
Por diversas vezes, <strong>de</strong> 1640 até 1950, um governo nominalmente encabeça<strong>do</strong><br />
pelos Dalai Lamas (uma linhagem <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res políticos espirituais ti<strong>do</strong>s como emanações<br />
<strong>de</strong> Avalokitesvara - o <strong>de</strong>us da compaixão) <strong>do</strong>minou sobre uma gran<strong>de</strong> parte da região<br />
tibetana. Durante boa parte <strong>de</strong>ste perío<strong>do</strong>, a administração tibetana também esteve<br />
subordinada ao império chinês da Dinastia Qing.<br />
Em 1913, o 13º Dalai Lama expulsou os representantes e tropas chinesas <strong>do</strong><br />
território forma<strong>do</strong> atualmente pela Região Autônoma <strong>do</strong> Tibete. Embora a expulsão tenha<br />
si<strong>do</strong> vista como uma afirmação da autonomia tibetana, esta in<strong>de</strong>pendência proclamada <strong>do</strong><br />
Tibete não foi aceita pelo governo da China nem recebeu reconhecimento diplomático<br />
internacional e, em 1945, a soberania da China sobre o Tibete não foi questionada pela<br />
Organização das Nações Unidas.<br />
Após uma invasão contun<strong>de</strong>nte e uma batalha feroz em Cham<strong>do</strong>, em 1950, o<br />
Parti<strong>do</strong> Comunista da China assumiu o controle da região <strong>de</strong> Kham, a oeste <strong>do</strong> alto rio<br />
Yangtzé; no ano seguinte o 14º Dalai Lama e seu governo assinaram o Acor<strong>do</strong> <strong>de</strong><br />
Dezessete Pontos, praticamente reconhecen<strong>do</strong> o <strong>do</strong>mínio chinês.
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Em 1959, juntamente com um grupo <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res tibetanos e <strong>de</strong> seus segui<strong>do</strong>res, o<br />
Dalai Lama fugiu para a Índia, on<strong>de</strong> instalou o Governo <strong>do</strong> Tibete no Exílio, em<br />
Dharamsala. Pequim e este governo no exílio discordam a respeito <strong>de</strong> quan<strong>do</strong> o Tibete<br />
teria passa<strong>do</strong> a fazer parte da China, e se a incorporação <strong>do</strong> território à China é legítima<br />
<strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com o direito internacional.<br />
A Índia reivindica áreas que a China consi<strong>de</strong>ra pertencentes à RA <strong>do</strong> Tibete.<br />
- Região Autônoma <strong>de</strong> Nigxia Hui, região <strong>de</strong> origem da etnia Hui, com capital em<br />
Yinchuan. A região é pre<strong>do</strong>minantemente <strong>de</strong>sértica e pouco habitada, mas as gran<strong>de</strong>s<br />
planícies <strong>do</strong> Rio Amarelo, ao norte, têm si<strong>do</strong> irrigadas por séculos, com a construção, ao<br />
longo <strong>do</strong>s anos, <strong>de</strong> extenso sistema <strong>de</strong> canais.<br />
Em duas áreas industriais, há instalações si<strong>de</strong>rúrgicas, fábricas <strong>de</strong> equipamentos e<br />
indústrias farmacêuticas e <strong>de</strong> química fina. Mesmo assim, é uma das regiões mais<br />
pobres da China.<br />
- Região Autônoma <strong>de</strong> Guangxi - recebeu a qualificação <strong>de</strong> região autônoma, já que a<br />
etnia majoritária é a <strong>do</strong>s Zhuang. Cerca <strong>de</strong> 90% <strong>do</strong>s membros <strong>de</strong>sta etnia vivem na<br />
região. Esta qualificação permite aos seus habitantes não estarem sujeitos a algumas leis<br />
chinesas – como a <strong>do</strong> controle <strong>de</strong> natalida<strong>de</strong> – e favorece a promoção da língua e da<br />
cultura das etnias minoritárias.<br />
Localizada junto à fronteira <strong>do</strong> Vietnam, é uma região montanhosa e <strong>de</strong> belas<br />
paisagens. Conta com alguma indústria pesada e sua principal fonte <strong>de</strong> renda é o<br />
turismo.<br />
À GUISA DE CONCLUSÃO, DÚVIDAS<br />
O colosso chinês impressiona sob qualquer ponto <strong>de</strong> vista: extensão territorial,<br />
população gigantesca, crescimento econômico espantoso e contínuo. Sob essa<br />
aparência, no entanto, gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>safios jazem submersos, levan<strong>do</strong>-nos a questões <strong>de</strong><br />
difícil solução, mas que encerram os enigmas quanto ao futuro <strong>do</strong> gran<strong>de</strong> país. Digo<br />
gran<strong>de</strong> país, não gran<strong>de</strong> nação, pois as nações encerradas sob o mesmo governo são<br />
muitas.<br />
As respostas a essas e outras indagações, que ultrapassam o escopo <strong>de</strong>ste artigo,<br />
<strong>de</strong>terminarão a evolução chinesa nas próximas décadas. Vamos, portanto, às perguntas<br />
que nos ocorrem:<br />
- Até que ponto será possível manter unidas tantas etnias, línguas, formas <strong>de</strong> escrever,<br />
sistemas <strong>de</strong> gestão econômica, países subjuga<strong>do</strong>s, que latejam sob o guarda-chuva <strong>do</strong>s<br />
atuais mandarins?<br />
- Por quanto tempo as etnias mais prejudicadas na distribuição da riqueza e <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r<br />
manter-se-ão controladas?<br />
- Qual o resulta<strong>do</strong> <strong>do</strong> processo <strong>de</strong> evolução <strong>de</strong> um governo totalitário comunista para uma<br />
economia capitalista <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>? Isso é possível, sem gran<strong>de</strong>s choques ou rupturas<br />
insolúveis?<br />
- Até quan<strong>do</strong> a evolução tecnológica permitirá ao governo controlar as informações que<br />
chegam ao povo? Talvez isso já não seja possível nas gran<strong>de</strong>s cida<strong>de</strong>s, mas em breve o<br />
mesmo acontecerá no gran<strong>de</strong> interior chinês.<br />
- Até quan<strong>do</strong> o sistema suportará a pressão da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> criar milhões <strong>de</strong><br />
empregos a cada ano, para absorver os milhões <strong>de</strong> chineses que ingressam no merca<strong>do</strong><br />
<strong>de</strong> trabalho? Como controlar a urbanização resultante <strong>do</strong> êxo<strong>do</strong> rural? Como gerenciar a<br />
diferença <strong>de</strong> salários e <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s entre as ZEE e as RAE e o restante das cida<strong>de</strong>s<br />
chinesas?
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- Até quan<strong>do</strong> será possível conciliar uma socieda<strong>de</strong> da era espacial, potência nuclear,<br />
com o feudalismo em vigor na área rural?<br />
- Como solucionar o problema <strong>de</strong> Taiwan? Invasão militar? Como reagirão as potências<br />
mundiais a essa aventura?<br />
- Como controlar a explosão <strong>de</strong>mográfica que continua acontecen<strong>do</strong>? Se a política <strong>do</strong><br />
filho único existe há tantos anos, como a população não para <strong>de</strong> crescer?<br />
- O que fazer com as cinco Regiões Autônomas (Xinjiang, Mongólia Interior, Tibete,<br />
Ningxia e Guangxi), incorporadas à China por força militar e mantidas na situação pela<br />
presença <strong>de</strong> fortes contingentes militares e <strong>de</strong> governos submissos pela força?<br />
- Até quan<strong>do</strong> os parceiros internacionais tolerarão os preços irreais das merca<strong>do</strong>rias<br />
chinesas, que inva<strong>de</strong>m seus merca<strong>do</strong>s <strong>do</strong>mésticos a preços vis, resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong> salários<br />
extremamente baixos, falta <strong>de</strong> custos sociais – férias, licenças, previdência – e <strong>do</strong> câmbio<br />
controla<strong>do</strong> que mantém a moeda chinesa artificialmente barata?<br />
-Será possível evoluir <strong>de</strong> forma controlada pelo Parti<strong>do</strong> Comunista, <strong>de</strong> um sistema<br />
totalitário comunista para um sistema totalitário capitalista? Ou o capitalismo imporá a<br />
abertura política?<br />
- E as empresas multinacionais que aceitam condições únicas e <strong>de</strong>svantajosas para<br />
terem acesso ao megamerca<strong>do</strong> chinês, continuarão a aceitar essas regras ou agirão para<br />
mudá-las?<br />
- Qual a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ocorrer com a China o que aconteceu com a antiga União<br />
Soviética, que se fragmentou quan<strong>do</strong> o monopólio <strong>do</strong> Parti<strong>do</strong> Comunista rompeu-se, em<br />
consequência <strong>de</strong> formidáveis pressões internas e externas que não teve como enfrentar?<br />
Autor: Gen Div R/1 Clovis Purper Ban<strong>de</strong>ira, 1º Vice-Presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Clube Militar.<br />
NOTAS SOBRE O COMÉRCIO BRASIL-IRAQUE<br />
O Iraque, conheci<strong>do</strong> por ser berço da civilização e também pelas ricas reservas <strong>de</strong><br />
petróleo, nos últimos anos tem recebi<strong>do</strong> uma alcunha não condizente com seu passa<strong>do</strong><br />
<strong>de</strong> realizações, seja ao mun<strong>do</strong> muçulmano, seja à humanida<strong>de</strong>. Contu<strong>do</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2003 o<br />
país busca estruturar-se e recomeçar. Por isso, propõe-se neste artigo lançar luz sobre<br />
um outro Iraque, não apenas marca<strong>do</strong> pelo conflito, mas como ator internacional em<br />
reconstrução e prenhe <strong>de</strong> reerguer sua economia, apoian<strong>do</strong>-se em parceiros estratégicos,<br />
como po<strong>de</strong> figurar o Brasil.<br />
O fim <strong>do</strong> embargo ao Iraque foi <strong>de</strong>creta<strong>do</strong> pela Organização das Nações Unidas<br />
em maio daquele ano, após a queda <strong>do</strong> regime <strong>de</strong> Saddam Hussein. Então, um governo<br />
<strong>de</strong> ocupação provisório foi instala<strong>do</strong>, sob a tutela <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, e iniciou-se um<br />
processo <strong>de</strong> atração <strong>de</strong> investimentos e grupos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> to<strong>do</strong> para possibilitar a<br />
reconstrução <strong>do</strong> país. Soma-se a isto o fato <strong>de</strong> em <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2010 o Conselho <strong>de</strong><br />
Segurança da ONU (CSNU) reconhecer “a importância <strong>do</strong> Iraque alcançar prestígio<br />
internacional, igual ao que <strong>de</strong>tinha antes da a<strong>do</strong>ção da Resolução 661” (UN, 2011a).<br />
O espírito <strong>de</strong> reconstrução e retomada iraquiano po<strong>de</strong> ser capta<strong>do</strong> nas palavras <strong>do</strong><br />
vice-presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, Joe Bi<strong>de</strong>n, que presidiu a sessão <strong>do</strong> CSNU, ao dizer<br />
que se trata <strong>de</strong> “um importante marco para o governo <strong>do</strong> Iraque e ao povo <strong>do</strong> Iraque nos
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seus esforços contínuos para <strong>de</strong>ixar para trás o seu passa<strong>do</strong> conturba<strong>do</strong> e abraçar um<br />
futuro muito brilhante”, e também que com “as três resoluções que passamos colocamos<br />
um fim aos resquícios opressivos da sombria era <strong>de</strong> Saddam Hussein” (LEDERER, 2010).<br />
Diante da <strong>de</strong>struição e <strong>do</strong> sucateamento <strong>de</strong> diversos setores econômicos, que<br />
po<strong>de</strong> ser creditada ao ambiente <strong>de</strong> guerra <strong>do</strong>s anos 1980 e ao fechamento <strong>do</strong> merca<strong>do</strong><br />
iraquiano por quase treze anos (1990-2003), o governo <strong>do</strong> Iraque tem aberto<br />
constantemente licitações mundiais para questões concernentes à reconstrução e<br />
mo<strong>de</strong>rnização <strong>do</strong> país. Não só, a indústria <strong>do</strong> petróleo, principal riqueza e motor da<br />
economia iraquiana, têm recebi<strong>do</strong> maciços investimentos para que possa recuperar seu<br />
vigor produtivo.<br />
Interessante observar o fato <strong>de</strong> que o orçamento <strong>de</strong> reconstrução iraquiano, que<br />
ultrapassa a casa <strong>do</strong>s 500 bilhões <strong>de</strong> dólares, já começa a mostrar resulta<strong>do</strong>s, apesar <strong>de</strong><br />
não ter completa<strong>do</strong> uma década. Cabe ressaltar que o país possui uma população <strong>de</strong><br />
quase 30 milhões <strong>de</strong> habitantes, o equivalente a nove países da região. A<strong>de</strong>mais, os<br />
constantes investimentos <strong>de</strong> países interessa<strong>do</strong>s nesse processo vêm ocorren<strong>do</strong>,<br />
incentiva<strong>do</strong>s por ações como a <strong>do</strong> governo <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> autônomo <strong>do</strong> Curdistão, que<br />
aprovou mo<strong>de</strong>rna regulação <strong>de</strong> investimentos estrangeiros na região.<br />
Como resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong>sses investimentos, o Iraque vem <strong>de</strong>senvolven<strong>do</strong> não apenas<br />
sua estrutura interna básica, mas também seu potencial exporta<strong>do</strong>r e importa<strong>do</strong>r, ao<br />
remo<strong>de</strong>lar aeroportos e portos <strong>do</strong> país, possibilitan<strong>do</strong> a troca <strong>de</strong> produtos <strong>de</strong> maneira<br />
direta, sem trânsito por seus países vizinhos – o chama<strong>do</strong> comércio triangular. Com isso,<br />
aeroportos internacionais como os <strong>de</strong> Bagdá, Erbil, Sulaimaniyah e Najaf já realizam voos<br />
diretos para diversas cida<strong>de</strong>s <strong>do</strong> Oriente Médio e Europa, e portos como o <strong>de</strong> Umm Qasr<br />
vêm passan<strong>do</strong> por uma expansão qualitativa e quantitativa.<br />
O relacionamento entre Brasil e Iraque po<strong>de</strong>, em um primeiro momento, soar tão<br />
distante quanto as bombas que ecoaram pelo país árabe há alguns anos. No entanto,<br />
uma análise mais acurada <strong>do</strong> dinamismo das relações <strong>de</strong> comércio permite afirmar que o<br />
Brasil foi, e continua sen<strong>do</strong>, importante parceiro, diversamente <strong>do</strong> que um rápi<strong>do</strong><br />
julgamento po<strong>de</strong>ria supor (FARES, 2008).<br />
Pela primeira vez, em outubro <strong>de</strong> 2010, o Brasil viu seu sal<strong>do</strong> na balança comercial<br />
com o Iraque atingir níveis superavitários, alcançan<strong>do</strong> a marca <strong>de</strong> 1,2 bilhões <strong>de</strong> dólares,<br />
frente aos 42 milhões <strong>de</strong> dólares intercambia<strong>do</strong>s em 2003. Ao final <strong>do</strong> ano o fluxo<br />
comercial atingiu US$ 1,4 bilhão, ten<strong>do</strong> como principais componentes da cesta <strong>de</strong><br />
exportações: alimentos (carnes, cereais e açúcar), autopeças, máquinas agrícolas e<br />
equipamentos hospitalares (MDIC, 2010).<br />
Também, é importante ressaltar as vantagens históricas <strong>do</strong> Brasil junto ao merca<strong>do</strong><br />
iraquiano, da<strong>do</strong> que o país <strong>de</strong>tém gran<strong>de</strong>s prerrogativas políticas aos seus produtos e<br />
serviços na concorrência em licitações governamentais e privadas.<br />
Uma ótima referência da imagem brasileira ao merca<strong>do</strong> iraquiano são as antigas<br />
relações bilaterais – na década <strong>de</strong> 80, por exemplo, o Brasil enviou profissionais e seus<br />
familiares na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 170.000 pessoas para auxiliar na construção <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s obras<br />
públicas no Iraque, além <strong>de</strong> ter exporta<strong>do</strong> uma gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> veículos<br />
Volkswagen Passat produzi<strong>do</strong>s no Brasil, conheci<strong>do</strong>s em solo iraquiano como “Brasili”,<br />
um <strong>do</strong>s carros <strong>de</strong> maior sucesso e durabilida<strong>de</strong> no país.<br />
Com a expansão <strong>de</strong> investimentos e capacida<strong>de</strong> tecnológica <strong>do</strong> Brasil nos últimos<br />
anos, não só bens <strong>de</strong> consumo têm espaço no merca<strong>do</strong> iraquiano. A Petrobras é uma das<br />
gran<strong>de</strong>s brasileiras que po<strong>de</strong> obter sucesso naquele país.<br />
Segun<strong>do</strong> o Ministro <strong>de</strong> Política Energética <strong>do</strong> Iraque, Hussain Al-Shahristani,<br />
“empresas da China, Coreia <strong>do</strong> Sul e Europa estão interessadas, mas também<br />
gostaríamos <strong>de</strong> ter a Petrobras envolvida <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> à sua importância” (IBN, 2011). Isto se
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dá pelo fato <strong>de</strong> que o país está aumentan<strong>do</strong> sua produção <strong>de</strong> petróleo, no entanto, faltalhe<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> refino para <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>s <strong>de</strong> maior valor agrega<strong>do</strong>, como gasolina e diesel.<br />
Atualmente o Iraque <strong>de</strong>tém cerca <strong>de</strong> 143 bilhões <strong>de</strong> barris <strong>de</strong> reservas comprovadas, e<br />
planeja construir quatro novas refinarias para elevar sua capacida<strong>de</strong> a 750.000 barris por<br />
dia.<br />
Certamente, após o conjunto das resoluções 1956 a 1958, <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2010,<br />
cuja implementação se dá a partir <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 2011, a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> investimento <strong>do</strong> país<br />
aumentará significativamente, incrementan<strong>do</strong> os 90 bilhões <strong>de</strong> dólares orçamentários<br />
programa<strong>do</strong>s para o ano <strong>de</strong> 2011.<br />
A complementarida<strong>de</strong> das economias é patente e não só no que tange aos <strong>do</strong>is<br />
países, é sabi<strong>do</strong> que América <strong>do</strong> Sul e Oriente Médio possuem oportunida<strong>de</strong>s<br />
expressivas ao comércio. Desvela-se ao Brasil um merca<strong>do</strong> aberto, regula<strong>do</strong> e com<br />
inúmeras opções setoriais, seja por seus anos <strong>de</strong> clausura, ou por seu amplo po<strong>de</strong>r <strong>de</strong><br />
compra, cujas transações comerciais em 2010 correspon<strong>de</strong>ram a 15% <strong>do</strong> comércio Brasil<br />
Oriente Médio.<br />
REFERÊNCIAS<br />
CÂMARA DE COMÉRCIO E INDÚSTRIA BRASIL IRAQUE – CCIBI. Anuário Estatístico<br />
2010. CCIBI: São Paulo, 2010.<br />
FARES, Seme Taleb (2007). “O Pragmatismo <strong>do</strong> Petróleo: as relações entre o Brasil e o<br />
Iraque”. Revista Brasileira <strong>de</strong> Política Internacional, vol. 50, nº 2, pp. 129-145, 2007.<br />
HALLIDAY, Fred (2005). The Middle East in International Relations: power, politics and<br />
i<strong>de</strong>ology. New York: Cambridge University Press.<br />
IRAQ BUSINESS NEWS – IBN. Iraq Wants Petrobras to Invest in Refining. Disponível em:<br />
.<br />
Acesso em: 02 fev. 2011.<br />
LEDERER, E. M. UN lifts key sanctions against Iraq. Associated Press. Disponível em:<br />
.<br />
Acesso em: 20 jan. 2011.<br />
LEWIS, Bernard (1996). O Oriente Médio: <strong>do</strong> advento <strong>do</strong> cristianismo aos dias <strong>de</strong> hoje.<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro: Jorge Zahar.<br />
MILLER, Judith; MYLORIE, Laurie (1990). Saddam Hussein and the Crisis in the Gulf.<br />
New York: Times Books.<br />
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR – MDIC.<br />
Balança Comercial 2010 – da<strong>do</strong>s consolida<strong>do</strong>s. Brasília, DF: MDIC, 2010.<br />
UNITED NATIONS. Security Council. S/RES/1956 (2010). Disponível em: .<br />
Acesso<br />
em: 20 jan. 2011. 2011a.<br />
UNITED NATIONS. Security Council. S/RES/1957 (2010). Disponível em: .<br />
Acesso<br />
em: 20 jan. 2011. 2011b.<br />
UNITED NATIONS. Security Council. S/RES/1958 (2010). Disponível em: .<br />
Acesso<br />
em: 20 jan. 2011. 2011c.<br />
Autor: Fabrício Henricco Chagas Bastos é Pesquisa<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Núcleo <strong>de</strong> Pesquisa em<br />
Relações Internacionais da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo – Nupri/USP<br />
(fabriciohbastos@usp.br).
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 31 <strong>de</strong> 45<br />
Fonte: Mun<strong>do</strong>rama Relações Internacionais, Disponível em<br />
http://mun<strong>do</strong>rama.net/2011/02/04/notas-sobre-o-comercio-brasil-iraque-por-fabriciohenricco-chagas-bastos/#more-7228.<br />
Acesso em 06/03/2011.<br />
UM INVERNO NUCLEAR?<br />
Reatores 5 e 6 <strong>de</strong> Fukushima foram coloca<strong>do</strong>s em mo<strong>do</strong> <strong>de</strong> segurança. Apesar da melhora,<br />
quadro no complexo nuclear ainda é “preocupante”.<br />
A tragédia causada pelo terremoto e pelo tsunami converteu-se em pesa<strong>de</strong>lo ainda<br />
maior para o Japão: os reatores da usina atômica na região <strong>de</strong> Fukushima atingida pela<br />
catástrofe, continuam com falhas no sistema <strong>de</strong> refrigeração, e a radiação por eles<br />
emitida chegou a Tóquio, a capital <strong>do</strong> país. A semana terminou com a situação<br />
parcialmente controlada, mas é inescapável a conclusão <strong>de</strong> que jamais será a mesma a<br />
relação da humanida<strong>de</strong> com a energia gerada pela fissão <strong>do</strong>s átomos.<br />
O número <strong>de</strong> mortos já passa <strong>de</strong> 7000 e há meio milhão <strong>de</strong> pessoas <strong>de</strong>sabrigadas<br />
no Japão, em <strong>de</strong>corrência <strong>do</strong> terremoto e <strong>do</strong> tsunami que <strong>de</strong>vastaram a região nor<strong>de</strong>ste<br />
<strong>do</strong> país. A tragédia teve continuida<strong>de</strong> com os problemas <strong>de</strong> refrigeração nos quatro<br />
reatores <strong>de</strong> uma das duas usinas nucleares próximo à cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Fukushima. No dia em<br />
que um <strong>de</strong>les sofreu uma explosão, a radiação chegou a Tóquio, a capital <strong>do</strong> país, em um<br />
nível vinte vezes maior <strong>do</strong> que o normal.<br />
A falha no sistema <strong>de</strong> refrigeração <strong>do</strong>s reatores 1, 2 e 3 da usina <strong>de</strong>veu-se tanto ao<br />
abalo em si como ao tsunami por ele provoca<strong>do</strong>. O problema fez com que as varetas <strong>de</strong><br />
combustível atômico <strong>do</strong>s reatores, que aquecem seus vasos internos, transforman<strong>do</strong> a<br />
água no vapor que movimenta as turbinas, ficassem expostas e se aquecessem em<br />
<strong>de</strong>masia. A explosão provocada pelo aumento da pressão interna <strong>de</strong>struiu parte da<br />
estrutura <strong>do</strong> reator 1 no sába<strong>do</strong>. O mesmo ocorreu na segunda e terça-feira com os<br />
reatores 3 e 2. Na quarta, um incêndio começou no reator 4, mas foi controla<strong>do</strong>. Na sextafeira,<br />
o temor maior era em relação ao reator 3. A estrutura <strong>do</strong> prédio foi danificada pela<br />
explosão <strong>de</strong> segunda-feira e havia a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> que parte <strong>do</strong> combustível, uma<br />
mistura <strong>de</strong> urânio e plutônio, fosse liberada para a atmosfera. Ou seja, os técnicos<br />
japoneses passaram a semana toda lutan<strong>do</strong> para evitar o <strong>de</strong>rretimento <strong>do</strong> núcleo <strong>do</strong>s<br />
reatores e a liberação <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> partículas radioativas - uma<br />
catástrofe <strong>de</strong> proporções inimagináveis. No Japão, o sába<strong>do</strong> começou com notícias<br />
anima<strong>do</strong>ras sobre o controle da situação. Mas, em Tóquio, as ruas vazias lembravam um<br />
inverno nuclear - o cenário apocalíptico pós-guerra nuclear.<br />
Uma das metrópoles mais populosas <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> adquiriu as feições <strong>de</strong> uma cida<strong>de</strong><br />
-fantasma. Tóquio está literalmente nas sombras. Com o racionamento <strong>de</strong> energia<br />
provoca<strong>do</strong>. pela parada da usina <strong>de</strong> Fukushima, a iluminação nas estações <strong>de</strong> metrô e<br />
prédios públicos foi reduzida ao mínimo e os telões barulhentos e colori<strong>do</strong>s que<br />
<strong>de</strong>coravam o topo <strong>do</strong>s edifícios em bairros como Ginza e Shibuya viraram quadros<br />
negros. A falta <strong>de</strong> eletricida<strong>de</strong> também afetou a frequência <strong>do</strong>s trens e, com isso, sair <strong>de</strong><br />
casa e chegar ao <strong>de</strong>stino - pontualmente, como é mandatário no Japão - virou um <strong>de</strong>safio<br />
que espíritos indômitos tentam vencer in<strong>do</strong> às plataformas com até duas horas <strong>de</strong>
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antecedência em dias normais. Não se vê pânico no rosto <strong>do</strong>s japoneses, só o sorriso<br />
impassível <strong>de</strong> sempre. Mas, por trás <strong>de</strong>le, há precaução e <strong>de</strong>sconfiança. O hábito <strong>de</strong> fazer<br />
compras - que não <strong>de</strong> artigos <strong>de</strong> primeiríssima necessida<strong>de</strong>, como pilhas para lanternas e<br />
comida enlatada - foi temporariamente suspenso. Nas elegantes lojas <strong>de</strong> <strong>de</strong>partamentos<br />
<strong>de</strong> Ginza, o que se via na última sexta-feira eram andares e mais andares ocupa<strong>do</strong>s<br />
unicamente por aten<strong>de</strong>ntes (que, mesmo diante da ausência <strong>de</strong> fregueses, mantinham a<br />
postura <strong>do</strong>s emprega<strong>do</strong>s japoneses: solenemente <strong>de</strong> pé, com as mãos cruzadas diante<br />
<strong>do</strong> corpo e a cabeça engatilhada para reverências).<br />
À escassez e aos imprevistos, os habitantes <strong>de</strong> Tóquio vinham reagin<strong>do</strong> com o<br />
estoicismo habitual até quarta-feira. Mas a notícia <strong>de</strong> que o governo <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s<br />
fretara aviões para tirar militares e suas famílias <strong>do</strong> arquipélago <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> aos altos níveis <strong>de</strong><br />
radiação balançou a fleuma da população mais disciplinada <strong>do</strong> planeta. Mesmo com o<br />
<strong>de</strong>sempenho surpreen<strong>de</strong>ntemente acima <strong>do</strong> espera<strong>do</strong> <strong>do</strong> primeiro-ministro Naoto Kan, a<br />
estratégia <strong>de</strong> comunicação <strong>do</strong> governo japonês no <strong>de</strong>correr <strong>do</strong> <strong>de</strong>sastre revelou-se<br />
idêntica à exibida em dias normais - o que quer dizer meticulosamente vaga e, nesse<br />
caso, especialmente inquietante. Para piorar a sensação <strong>de</strong> insegurança, a Tokyo Electric<br />
Power Company (Tepco), empresa da qual o governo <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> para avaliar o perigo da<br />
situação, é a mesma que foi flagrada mentin<strong>do</strong>, em 2002; num episódio igualmente<br />
relaciona<strong>do</strong> à segurança nuclear. Em Tóquio, a Tepco foi eleita a vilã <strong>do</strong> vazamento<br />
nuclear - e <strong>de</strong> agruras menores também. Na quarta-feira, ela divulgou a previsão <strong>de</strong> mais<br />
um corte <strong>de</strong> luz na capital para o dia seguinte. O apagão acabou não ocorren<strong>do</strong>, o que<br />
<strong>de</strong>ixou os mora<strong>do</strong>res ainda mais exaspera<strong>do</strong>s. Eles não queriam luz? Queriam, sim. Mas,<br />
ao cancelar o cancelamento, a empresa os privou <strong>de</strong> um artigo hoje mais escasso <strong>do</strong> que<br />
a eletricida<strong>de</strong>: o gosto <strong>de</strong> saber que alguma coisa sairá conforme o planeja<strong>do</strong><br />
Autor: Thaís Oyama.<br />
Fonte: Clipping <strong>do</strong> Ministério <strong>do</strong> Planejamento<br />
https://conteu<strong>do</strong>clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/3/21/um-invernonuclear.<br />
Acesso em 29/03/2011.<br />
GEOGRAFIA SAÚDE<br />
DESAFIOS DO ENVELHECIMENTO<br />
Surpreen<strong>de</strong>ntemente rápida, a mudança <strong>do</strong> padrão <strong>de</strong> crescimento da população<br />
está geran<strong>do</strong> uma gran<strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> expansão da economia e <strong>de</strong> melhoria das<br />
condições <strong>de</strong> vida <strong>do</strong>s brasileiros, mas também aponta para a emergência <strong>de</strong> novas e<br />
onerosas <strong>de</strong>mandas econômicas e sociais nas décadas seguintes e para as quais o País
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precisa preparar-se a<strong>de</strong>quadamente <strong>de</strong>s<strong>de</strong> já para não transferir to<strong>do</strong> o custo às gerações<br />
futuras. A população brasileira está envelhecen<strong>do</strong> muito mais <strong>de</strong>pressa <strong>do</strong> que<br />
envelheceram as populações <strong>do</strong>s países <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s. Nestes, a faixa da população<br />
com mais <strong>de</strong> 65 anos só começou a crescer mais <strong>de</strong>pressa <strong>do</strong> que as <strong>de</strong>mais faixas<br />
etárias <strong>de</strong>pois que eles se tornaram ricos. O Brasil está envelhecen<strong>do</strong> antes <strong>de</strong> ficar rico.<br />
Isso tem um custo.<br />
É o que mostra um pormenoriza<strong>do</strong> estu<strong>do</strong> <strong>do</strong> Banco Mundial (Bird) sobre o<br />
envelhecimento da população brasileira, os ganhos e os ônus <strong>de</strong>sse processo e os<br />
<strong>de</strong>safios que ele apresenta para a socieda<strong>de</strong> e para os governantes.<br />
As políticas públicas e, sobretu<strong>do</strong>, as finanças públicas <strong>de</strong>vem estar<br />
a<strong>de</strong>quadamente preparadas para suportar os custos <strong>do</strong> sistema previ<strong>de</strong>nciário e <strong>do</strong><br />
sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, que certamente crescerão mais <strong>de</strong>pressa <strong>do</strong> que a população i<strong>do</strong>sa,<br />
pois os sistemas <strong>de</strong> proteção <strong>de</strong>ssa população são geralmente mais caros <strong>do</strong> que os das<br />
<strong>de</strong>mais faixas.<br />
No presente, o País ainda po<strong>de</strong> beneficiar-se <strong>do</strong> que os <strong>de</strong>mógrafos e economistas<br />
chamam <strong>de</strong> bônus <strong>de</strong>mográfico, perío<strong>do</strong> que, pelos padrões atuais <strong>de</strong> evolução da<br />
população brasileira, se esten<strong>de</strong>rá <strong>de</strong> 2011 a 2020 e tem como característica o fato <strong>de</strong> a<br />
população em ida<strong>de</strong> <strong>de</strong> trabalhar crescer mais <strong>de</strong>pressa <strong>do</strong> que a população <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte<br />
(crianças e i<strong>do</strong>sos). Esse é o perío<strong>do</strong> em que, proporcionalmente, as pessoas em ida<strong>de</strong><br />
ativa representam a maior fatia da população, razão pela qual, por razões <strong>de</strong>mográficas, a<br />
economia tem a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> crescer mais <strong>de</strong>pressa. O Bird estima que esse bônus<br />
po<strong>de</strong> aumentar o PIB per capita em até 2,5% por ano.<br />
Este é o momento, portanto, <strong>do</strong> País poupar e preparar-se para enriquecer<br />
enquanto envelhece. Como na vida das pessoas, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> velho será muito mais difícil<br />
para o Brasil obter a renda <strong>de</strong> que necessitará para sustentar o envelhecimento.<br />
O processo é rápi<strong>do</strong> e requer <strong>de</strong>cisões corajosas e tempestivas. A França levou<br />
mais <strong>de</strong> um século para que a faixa da população com mais <strong>de</strong> 65 anos passasse <strong>de</strong> 7%<br />
para 14% <strong>do</strong> total. Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, esse processo <strong>de</strong>morou quase 70 anos e na<br />
Espanha, mais <strong>de</strong> 40. No Brasil, a fatia da população com mais <strong>de</strong> 65 anos será duplicada<br />
em duas décadas, <strong>de</strong> 2011 a 2032. Hoje, os i<strong>do</strong>sos correspon<strong>de</strong>m a 11% da população<br />
em ida<strong>de</strong> <strong>de</strong> trabalhar; em 2050, serão praticamente a meta<strong>de</strong> (49%). Em relação à<br />
população total, os i<strong>do</strong>sos representarão 29,7%, um índice maior <strong>do</strong> que o da Europa e<br />
muito próximo <strong>do</strong> padrão <strong>do</strong> Japão, país que tem como gran<strong>de</strong>s problemas a crescente<br />
escassez <strong>de</strong> mão <strong>de</strong> obra e o crescente custo <strong>do</strong>s sistemas <strong>de</strong> proteção à velhice.<br />
Já a partir da próxima década, a população brasileira em ida<strong>de</strong> <strong>de</strong> trabalhar começará a<br />
diminuir proporcionalmente, reduzin<strong>do</strong> gradual e sistematicamente os efeitos <strong>do</strong> bônus<br />
<strong>de</strong>mográfico <strong>do</strong> presente.<br />
"Com as políticas a<strong>de</strong>quadas, é possível envelhecer e se tornar <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong> ao<br />
mesmo tempo", disse o diretor <strong>do</strong> Bird para o Brasil, Makhtar Diop. Políticas a<strong>de</strong>quadas<br />
incluem mais investimentos em educação, para melhorar o <strong>de</strong>sempenho da população em<br />
ida<strong>de</strong> <strong>de</strong> trabalhar e, <strong>de</strong>sse mo<strong>do</strong>, assegurar mais eficiência e competitivida<strong>de</strong>, o que<br />
po<strong>de</strong> tornar ainda mais rápi<strong>do</strong> o crescimento e elevar os ganhos <strong>do</strong> bônus <strong>de</strong>mográfico.<br />
É preciso também melhorar os sistemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, amplian<strong>do</strong>-os e dan<strong>do</strong>-lhes<br />
mais eficiência, pois os gastos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com um i<strong>do</strong>so são <strong>de</strong> 7 a 8 vezes maiores <strong>do</strong><br />
que com uma criança.<br />
E é necessário, sobretu<strong>do</strong>, rever o sistema previ<strong>de</strong>nciário, a começar pela ida<strong>de</strong><br />
mínima para aposenta<strong>do</strong>ria, que precisa acompanhar o aumento da expectativa <strong>de</strong> vida.<br />
"Mesmo em cenários mais otimistas, aumentos nas <strong>de</strong>spesas previ<strong>de</strong>nciárias <strong>do</strong>minarão<br />
as perspectivas fiscais no Brasil", adverte o Bird.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 34 <strong>de</strong> 45<br />
Autor: O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> S. Paulo - 11/04/2011<br />
Fonte:Disponível em<br />
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/4/11/<strong>de</strong>safios-<strong>do</strong><br />
envelhecimento/?searchterm= Acesso em 11/04/2011.<br />
METAS DE ERRADICAR POBREZA EXTREMA DEPENDE DA ECONOMIA<br />
A meta <strong>de</strong> erradicar a miséria no País até 2014 está mantida no plano, em<br />
preparação no governo, que <strong>de</strong>talha um <strong>do</strong>s principais compromissos <strong>de</strong> campanha <strong>de</strong><br />
Dilma Rousseff. Para sair <strong>do</strong> papel, contu<strong>do</strong>, vai <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r não apenas das medidas<br />
a<strong>do</strong>tadas, mas sobretu<strong>do</strong> <strong>do</strong> ritmo <strong>de</strong> crescimento da economia.<br />
No fim <strong>de</strong> março, a presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>clarou que seus quatro anos <strong>de</strong> mandato po<strong>de</strong>riam<br />
não ser suficientes para cumprir integralmente a meta.<br />
O Bolsa Família consi<strong>de</strong>ra miseráveis as famílias com renda <strong>de</strong> até R$ 70 mensais por<br />
pessoa. Por esse critério, há cerca <strong>de</strong> 5 milhões <strong>de</strong> famílias viven<strong>do</strong> em pobreza extrema<br />
entre os beneficiários <strong>do</strong> programa. Também há miseráveis que não fazem parte <strong>do</strong> Bolsa<br />
Família.<br />
Outro compromisso <strong>de</strong> campanha <strong>de</strong> Dilma, exibi<strong>do</strong> no en<strong>de</strong>reço eletrônico da<br />
Presidência da República, dificilmente sairá <strong>do</strong> papel: a erradicação <strong>do</strong> analfabetismo. O<br />
problema atinge cerca <strong>de</strong> 10% da população com mais <strong>de</strong> 15 anos. Mais <strong>de</strong> 14 milhões<br />
<strong>de</strong> pessoas não sabem ler nem escrever um bilhete simples.<br />
Especialistas em educação <strong>do</strong> próprio governo acham possível, num cenário otimista,<br />
uma redução em até 2 pontos porcentuais <strong>do</strong> analfabetismo até 2014 e contam com os<br />
resulta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> censo para uma nova contabilida<strong>de</strong> <strong>do</strong> problema. Bahia e São Paulo são os<br />
Esta<strong>do</strong>s que li<strong>de</strong>ram o ranking <strong>do</strong> analfabetismo no País. A redução <strong>do</strong> número <strong>de</strong><br />
analfabetos foi pequena durante o governo Lula, indicam os da<strong>do</strong>s da Pesquisa Nacional<br />
por Amostra <strong>de</strong> Domicílios (Pnad).<br />
Dilma prometeu "ampla mobilização, envolven<strong>do</strong> po<strong>de</strong>res públicos e socieda<strong>de</strong> civil<br />
para que o analfabetismo seja erradica<strong>do</strong>". Em relação à erradicação da extrema<br />
pobreza, o reajuste <strong>do</strong>s benefícios <strong>do</strong> Bolsa Família anuncia<strong>do</strong> no início <strong>de</strong> março teria<br />
contribuí<strong>do</strong> para a redução em 10% <strong>do</strong> número <strong>de</strong> famílias consi<strong>de</strong>radas miseráveis que<br />
recebem os pagamentos mensais - cerca <strong>de</strong> 500 mil famílias, segun<strong>do</strong> estimativa <strong>do</strong><br />
governo.<br />
O benefício básico, pago às famílias com renda <strong>de</strong> até R$ 70 por pessoa, aumentou<br />
2,9%, <strong>de</strong> R$ 68 para R$ 70. A parcela paga <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com o número <strong>de</strong> filhos até 15<br />
anos subiu 45,5%, <strong>de</strong> R$ 22 para R$ 32. No benefício médio, a correção foi <strong>de</strong> 19,4%,<br />
acima da inflação acumulada (9,9%) <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o último reajuste, concedi<strong>do</strong> em 2009.<br />
Renda e educação 5 milhões <strong>de</strong> famílias beneficiadas pelo programa Bolsa Família<br />
vivem na pobreza extrema, com rendimento <strong>de</strong> até R$ 70 mensais por pessoa 10% da<br />
população com mais <strong>de</strong> 15 anos <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> é analfabeta 14 milhões <strong>de</strong> pessoas não sabem<br />
ler nem escrever um bilhete simples.<br />
Autor: O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São Paulo.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 35 <strong>de</strong> 45<br />
Fonte:Disponível<br />
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/4/10/meta-<strong>de</strong>-erradicarpobreza-extrema-<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>-da-economia/?searchterm=.<br />
Acesso em 10/04/2011.<br />
VIVER MAIS CUSTA CARO<br />
O prêmio Nobel americano diz que o setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> será um <strong>do</strong>s motores da economia<br />
no século XXI - e que a alta <strong>de</strong> preços reverterá em ganhos para os mais pobres<br />
Aos 84 anos, o americano Robert Fogel figura no rol <strong>do</strong>s mais renoma<strong>do</strong>s e<br />
prolíficos economistas em ativida<strong>de</strong>. Laurea<strong>do</strong> com um Prêmio Nobel em 1993, diretor <strong>do</strong><br />
Centro <strong>de</strong> Economia Populacional da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Chicago, on<strong>de</strong> dá aulas. Fogel<br />
notabilizou-se pela objetivida<strong>de</strong> com que se <strong>de</strong>bruça sobre montanhas <strong>de</strong> da<strong>do</strong>s para<br />
<strong>de</strong>cifrar questões surgidas <strong>do</strong> crescimento econômico tanto <strong>de</strong> países <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s<br />
como <strong>de</strong> nações emergentes, entre as quais a China, principalmente. No estu<strong>do</strong> que lhe<br />
valeu o Nobel, o economista conseguiu estimar o peso <strong>do</strong> advento das ferrovias para o<br />
avanço <strong>do</strong> produto interno bruto (PIB) americano em 1890.<br />
Fogel atualmente vem se <strong>de</strong>dican<strong>do</strong> a analisar o setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, que vê como uma<br />
das molas propulsoras <strong>do</strong> capitalismo mo<strong>de</strong>rno. Em meio às discussões sobre a reforma<br />
proposta pelo presi<strong>de</strong>nte Barack Obama, que preten<strong>de</strong> universalizar o sistema médico<br />
americano ao estilo europeu, ele <strong>de</strong>safia o senso comum ao afirmar, com base em suas<br />
pesquisas, que para os cidadãos menos abasta<strong>do</strong>s a melhor saída é que os abona<strong>do</strong>s<br />
gastem mais. “Os bons hospitais construí<strong>do</strong>s para os ricos acabam benefician<strong>do</strong> também<br />
os mais pobres por meio <strong>do</strong>s planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>”, resume Fogel, na seguinte entrevista que<br />
conce<strong>de</strong>u a VEJA.<br />
O senhor acredita que os gastos médicos das pessoas ten<strong>de</strong>m a aumentar?<br />
Eles já estão aumentan<strong>do</strong>. Fiz projeções para os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s e para países da<br />
Europa que mostram que, pelo menos até 2040, o acesso à saú<strong>de</strong> vai encarecer, ano<br />
após ano. Isso porque, a princípio, a maior parte das novas tecnologias se traduzirá em<br />
instalações e equipamentos também mais dispendiosos. Veja o que ocorreu com o<br />
diagnóstico por imagens. Em pouco tempo, passamos <strong>de</strong> um simples raio X a imagens<br />
incrivelmente precisas. Tu<strong>do</strong> muito caro, mas também maravilhoso <strong>do</strong> ponto <strong>de</strong> vista <strong>do</strong>s<br />
benefícios. É um equívoco achar que as pessoas <strong>de</strong>vem gastar menos com saú<strong>de</strong>.<br />
Precisamos <strong>de</strong>smistificar essa i<strong>de</strong>ia. Trata-se <strong>de</strong> um investimento que lhes traz cada vez<br />
mais retorno. À medida que a tecnologia evolui, a tendência é que os cidadãos obtenham<br />
resulta<strong>do</strong>s também mais eficazes. Em suma, as pessoas estão pagan<strong>do</strong> para viver mais<br />
tempo e com mais qualida<strong>de</strong>.<br />
E como os mais pobres po<strong>de</strong>rão se beneficiar <strong>do</strong>s avanços na saú<strong>de</strong>?<br />
Infelizmente, nunca haverá igualda<strong>de</strong> absoluta entre ricos e pobres nesse campo.<br />
Nos países mais avança<strong>do</strong>s, a gran<strong>de</strong> diferença no acesso à saú<strong>de</strong> não está tanto na<br />
qualida<strong>de</strong> <strong>do</strong> tratamento, mas na conveniência. Sempre que pu<strong>de</strong>r, o cidadão pagará para<br />
que o médico o espere, e não o inverso. Ainda assim, há uma correlação interessante
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 36 <strong>de</strong> 45<br />
entre as vantagens que os <strong>do</strong>is estratos sociais po<strong>de</strong>m obter quan<strong>do</strong> o sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
evolui.<br />
Como isso ocorre?<br />
Uma comissão da Organização Mundial <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (OMS) da qual participei<br />
concluiu que, em diversos lugares, a única forma <strong>de</strong> prover acesso à saú<strong>de</strong> aos mais<br />
pobres é construin<strong>do</strong> hospitais para os muito ricos. Mesmo que a população que habita o<br />
topo da pirâmi<strong>de</strong> <strong>de</strong> renda não precise <strong>de</strong>les, porque tem dinheiro para voar até um país<br />
vizinho e se tratar, se essas instalações estiverem disponíveis, po<strong>de</strong>rão em algum<br />
momento aten<strong>de</strong>r também os menos abasta<strong>do</strong>s, por meio <strong>do</strong>s planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Por isso,<br />
por mais para<strong>do</strong>xal que pareça, apoiar a criação <strong>de</strong> hospitais priva<strong>do</strong>s no mun<strong>do</strong> em<br />
<strong>de</strong>senvolvimento é a melhor maneira <strong>de</strong> conseguir tratamento para os mais pobres.<br />
O setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> será o gran<strong>de</strong> propulsor da economia <strong>do</strong> século XXI?<br />
Não tenho dúvida. Está claro que a <strong>de</strong>manda por serviços na área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
seguirá em trajetória ascen<strong>de</strong>nte, seja nos países <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s, seja nas nações<br />
emergentes. Primeiro, por uma questão <strong>de</strong>mográfica. Pelos meus cálculos, graças à<br />
evolução tecnológica e à maior disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água e comida, a geração nascida nos<br />
anos 1980 alcançará, em países mais ricos, uma expectativa <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> 100 anos. A<br />
ca<strong>de</strong>ia produtiva nessa área é das mais extensas. Com os estímulos a<strong>de</strong>qua<strong>do</strong>s, calculo<br />
que o impacto da saú<strong>de</strong> no produto interno bruto (PIB) americano po<strong>de</strong>rá chegar a algo<br />
como 2,5% a 3% ao ano. Isso representa um enorme impulso para a economia. Se<br />
consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s os valores <strong>de</strong> hoje, esse porcentual significa adicionar anualmente à riqueza<br />
americana algo como 438 bilhões <strong>de</strong> dólares. Estamos falan<strong>do</strong> <strong>de</strong> uma quantia<br />
equivalente ao PIB da Suécia.<br />
Os setores que mais avançaram nos séculos XIX e XX se originaram <strong>de</strong> monopólios<br />
estatais. Qual será o maior vetor <strong>de</strong> crescimento para a saú<strong>de</strong> - estatal ou priva<strong>do</strong>?<br />
Certamente priva<strong>do</strong>. Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, a maior parte <strong>do</strong> investimento na área é<br />
patrocinada pelos próprios emprega<strong>do</strong>res. Todas as empresas têm registra<strong>do</strong> aumento<br />
em seus gastos com saú<strong>de</strong>, a ponto <strong>de</strong> eles se tornarem cada vez mais parte relevante<br />
<strong>do</strong> pacote <strong>de</strong> benefícios <strong>do</strong>s funcionários. Tais gastos já representam mais <strong>de</strong> 20% da<br />
remuneração média oferecida pelo setor priva<strong>do</strong> americano. Vejo, no entanto, como um<br />
claro papel <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> custear a saú<strong>de</strong> <strong>do</strong>s mais velhos e <strong>do</strong>s mais pobres, gente que não<br />
é capaz <strong>de</strong> arcar com um plano <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Acho que a reforma proposta pelo presi<strong>de</strong>nte<br />
Barack Obama tem si<strong>do</strong> mal conduzida. Ela visa a cortar custos, mas, antes <strong>de</strong> fazer isso,<br />
o governo teria <strong>de</strong> verificar se o sistema está caro porque é ruim ou simplesmente porque<br />
as pessoas começaram a gastar mais. Para mim, essa última hipótese parece ser a mais<br />
plausível - e incontornável.<br />
Como um estudioso <strong>do</strong> impacto das novas tecnologias na economia, o senhor diria que<br />
elas são hoje o gran<strong>de</strong> motor <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento?<br />
As inovações têm si<strong>do</strong> fator <strong>de</strong>cisivo para o crescimento <strong>do</strong>s países, mas os afeta<br />
<strong>de</strong> forma muito distinta. Uma economia como a americana, situada na fronteira da<br />
inovação, avança no ritmo <strong>de</strong> sua evolução tecnológica. Já nações como Índia ou China,<br />
às quais venho me <strong>de</strong>dican<strong>do</strong>, aumentam seu PIB não exatamente por suas próprias
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invenções, mas pela gran<strong>de</strong> capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> aplicar à sua realida<strong>de</strong> tecnologias já<br />
existentes no mun<strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>. Elas estão in<strong>do</strong> muito bem. A China tem o<br />
crescimento mais vigoroso <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> - três vezes o ritmo da União Europeia - e a<br />
Índia avança apenas um pouco mais <strong>de</strong>vagar. Os chineses apresentam uma evolução<br />
particularmente consistente. Em não mais que três décadas, acredito que darão um passo<br />
à freme, tornan<strong>do</strong>-se fones produtores <strong>de</strong> tecnologia. Até lá, a China já será, nesse setor,<br />
bem mais avançada <strong>do</strong> que países da Europa. E fará séria concorrência aos Esta<strong>do</strong>s<br />
Uni<strong>do</strong>s.<br />
O senhor acredita que a economia chinesa superará a americana em algum momento?<br />
Isso <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá mais <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s <strong>do</strong> que da própria China. Se os<br />
americanos continuarem aumentan<strong>do</strong> a produtivida<strong>de</strong> <strong>do</strong> trabalho em 2% ou 3% ao ano,<br />
como acontece hoje, po<strong>de</strong>rão manter-se na dianteira in<strong>de</strong>finidamente.<br />
O que vem impulsionan<strong>do</strong> o fenômeno chinês?<br />
Em primeiro lugar, a opção <strong>do</strong>s chineses por uma forma <strong>de</strong> capitalismo que<br />
aban<strong>do</strong>nou <strong>de</strong> vez a velha i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> que o governo central <strong>de</strong>ve gerenciar tu<strong>do</strong> na<br />
economia. Espantosamente, nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s a interferência <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> em alguns<br />
setores é hoje até maior que na China. Só para dar um exemplo, são necessários muito<br />
mais licenças para instalar uma usina termelétrica a carvão em solo americano <strong>do</strong> que em<br />
território chinês. Os chineses também acertaram ao investir pesadamente em educação e<br />
pesquisa científica. Eles enten<strong>de</strong>ram que contar com capital humano é essencial para a<br />
mudança <strong>de</strong> patamar. Na China, 100% das crianças <strong>de</strong> 6 a 15 anos e 80% <strong>do</strong>s jovens<br />
frequentam as salas <strong>de</strong> aula, números incríveis. A taxa na universida<strong>de</strong> já é <strong>de</strong> 25%, e a<br />
meta é chegar ao <strong>do</strong>bro disso em 2020. O pragmatismo <strong>do</strong>s chineses é tal que eles<br />
<strong>de</strong>verão alcançar o objetivo bem antes <strong>do</strong> prazo.<br />
O Brasil po<strong>de</strong>ria dar um salto educacional tão acentua<strong>do</strong> como o da China?<br />
O caso brasileiro é mais complexo. Para empreen<strong>de</strong>r uma transformação <strong>de</strong><br />
tamanha magnitu<strong>de</strong> na educação, é necessário contar com forte apoio da população, já<br />
que envolveria aumento <strong>de</strong> impostos e implantação <strong>de</strong> novas regras para o setor ganhar<br />
eficiência. Tu<strong>do</strong> isso leva muito tempo numa <strong>de</strong>mocracia - algo que inexiste na China.<br />
Mas não quer dizer que não possa ser feito no Brasil. Um ótimo exemplo <strong>de</strong> avanço<br />
educacional numa <strong>de</strong>mocracia vem <strong>do</strong> Chile, que conseguiu saltar <strong>de</strong> nível na última<br />
década. Como os chilenos atingiram tal feito? Além <strong>de</strong> investirem maciçamente e <strong>de</strong><br />
forma racional na educação, eles alçaram a sala <strong>de</strong> aula ao topo da agenda política. A<br />
pergunta que <strong>de</strong>ve ser respondida pelos brasileiros é se há, verda<strong>de</strong>iramente, disposição<br />
<strong>de</strong> concentrar esforços ai.<br />
O senhor apostaria numa lenta transição para a <strong>de</strong>mocracia na China?<br />
Não iria tão longe. E a principal razão é que a ditadura chinesa não tem<br />
representa<strong>do</strong> um obstáculo para o crescimento <strong>do</strong> país. Embora eu esteja convicto <strong>de</strong> que<br />
o sistema <strong>de</strong>mocrático é ainda a melhor forma <strong>de</strong> conquistar o progresso econômico a<br />
longo prazo, ele não é condição necessária para tal. Nenhum <strong>do</strong>s paises que<br />
<strong>de</strong>spontaram entre o fim <strong>do</strong> século XIX e o inicio <strong>do</strong> XX - incluin<strong>do</strong> ai Alemanha e Japão<br />
vivia numa <strong>de</strong>mocracia.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 38 <strong>de</strong> 45<br />
Levantes populares como os que ocorreram no Oriente Médio são improváveis <strong>de</strong> se<br />
repetir na China?<br />
Estamos falan<strong>do</strong> <strong>de</strong> situações muito diferentes. Não creio que haverá gran<strong>de</strong>s<br />
tumultos na China. O país monitora o tempo to<strong>do</strong> o risco <strong>de</strong> isso acontecer, por meio <strong>de</strong><br />
institutos <strong>de</strong> pesquisa e universida<strong>de</strong>s que consi<strong>de</strong>ro honestas. Elas, que aferem a<br />
satisfação da população com o governo, indicam hoje uma aprovação na casa <strong>de</strong> 80%.<br />
Existe entre os chineses uma sensação disseminada em to<strong>do</strong>s os estratos sociais <strong>de</strong> que<br />
a vida está melhoran<strong>do</strong>, o que distingue <strong>de</strong>cisivamente a China <strong>do</strong>s países <strong>do</strong> Oriente<br />
Médio. Não significa, obviamente, que tu<strong>do</strong> ali transcorra tranquilamente, sem greves ou<br />
protestos. Mas, quan<strong>do</strong> uma agitação ocorre, apesar <strong>de</strong> as administrações regionais<br />
serem autoritárias, elas são levadas pelo governo central a ouvir os <strong>de</strong>scontentes. O<br />
objetivo é tentar lhes agradar <strong>de</strong> alguma forma, para apaziguar os ânimos.<br />
Como o senhor classificaria o ciclo econômico inicia<strong>do</strong> nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s a partir da<br />
crise <strong>de</strong> 2008?<br />
A situação é certamente muito grave, mas eu não a poria no mesmo patamar da<br />
crise que se instaurou no país <strong>de</strong>pois da Gran<strong>de</strong> Depressão. Entre 1932 e 1941, o<br />
<strong>de</strong>semprego nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s ficou perto <strong>de</strong> 25%, e só viria a diminuir na II Guerra<br />
Mundial, quan<strong>do</strong> o envio <strong>de</strong> milhares <strong>de</strong> jovens aos campos <strong>de</strong> batalha levou à escassez<br />
<strong>de</strong> mão <strong>de</strong> obra. Ainda assim, a atual taxa <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego americana, em torno <strong>de</strong> 9%, é<br />
muito alta para os padrões <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>. Em ciclos <strong>de</strong> crescimento vigoroso,<br />
esse indica<strong>do</strong>r não costuma passar <strong>do</strong>s 5%.<br />
Por que o governo <strong>de</strong> Barack Obama não está conseguin<strong>do</strong> criar empregos na<br />
quantida<strong>de</strong> necessária?<br />
O governo exagerou na abordagem keynesiana, <strong>de</strong>spejan<strong>do</strong> uma montanha <strong>de</strong><br />
dinheiro em programas governamentais complexos e <strong>de</strong>mora<strong>do</strong>s, quan<strong>do</strong> <strong>de</strong>veria ter<br />
aposta<strong>do</strong> em estímulos mais direto ao setor priva<strong>do</strong>. Medidas, como abater das empresas<br />
impostos relativos ao investimento na instalação <strong>de</strong> fábricas, ou o estimulo à redução <strong>do</strong>s<br />
juros pratica<strong>do</strong>s pelos bancos, teriam muito mais efeito <strong>do</strong> que o incentivo à compra <strong>de</strong><br />
carros, por exemplo. A meu ver, essa iniciativa foi um enorme equívoco. Afinal, os<br />
americanos já possuem <strong>do</strong>is automóveis por família. E em cada uma <strong>de</strong>las contam-se, em<br />
média, apenas duas pessoas com ida<strong>de</strong> para dirigir. Trata-se <strong>de</strong> um exemplo <strong>de</strong> como a<br />
intervenção <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> po<strong>de</strong> ser não só inócua - como um obstáculo à prosperida<strong>de</strong>.<br />
.<br />
Autor: Robert Fogel.<br />
Fonte: Revista Veja. Disponível em http://jeffersonws.blogspot.com/2011/04/viver-maiscusta-caro.html.<br />
Acesso em 09/04/2011.
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HISTÓRIA<br />
MÃO NEGRA,ESPADA BRANCA<br />
Em 1762, durante a Guerra <strong>do</strong>s Sete Anos (1756-1763), a fronteira noroeste <strong>de</strong><br />
Portugal foi invadida por forças francesas e espanholas. Graças ao auxílio inglês a<br />
campanha militar foi breve. Mas a fragilida<strong>de</strong> lusa ficou patente no conflito. Era preciso<br />
reformular sua arcaica estrutura militar. E isso era tarefa urgente, porque a Espanha<br />
continuava ameaçan<strong>do</strong> suas fronteiras. Mas <strong>de</strong>sta vez <strong>do</strong> outro la<strong>do</strong> <strong>do</strong> oceano.<br />
Des<strong>de</strong> a União das Coroas Ibéricas (1580), comerciantes das Américas portuguesa<br />
e espanhola haviam forma<strong>do</strong> re<strong>de</strong>s que continuaram existin<strong>do</strong> <strong>de</strong>pois da restauração <strong>de</strong><br />
1640. Para garantir suas posições no comércio que ligava a região <strong>do</strong> Rio da Prata com o<br />
centro-sul <strong>do</strong> Brasil, Portugal criou a Colônia <strong>de</strong> Sacramento (1680), situada em frente a<br />
Buenos Aires, e a capitania <strong>de</strong> Rio Gran<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Pedro (1713). Os espanhóis atacavam<br />
estas posições sempre que podiam, tornan<strong>do</strong> muito instável a situação daquelas<br />
fronteiras. A crise chegou ao auge quan<strong>do</strong>, numa investida a partir <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1762,<br />
forças espanholas li<strong>de</strong>radas por D. Pedro <strong>de</strong> Cevallos ocuparam a Colônia <strong>de</strong><br />
Sacramento, os fortes <strong>de</strong> São Miguel e <strong>de</strong> Santa Tereza (no que viria a ser o Uruguai), e<br />
Rio Gran<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Pedro (atual Rio Gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Sul). Tinha início o perío<strong>do</strong> da <strong>do</strong>minação<br />
espanhola no sul da América portuguesa.<br />
Era o momento <strong>de</strong> reagir, e Portugal contava com o homem certo para isso:<br />
Sebastião José <strong>de</strong> Carvalho e Melo (1699-1782), mais tar<strong>de</strong> conheci<strong>do</strong> como marquês <strong>de</strong><br />
Pombal, tinha status <strong>de</strong> superministro e vinha empreen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> várias reformas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que<br />
assumiu o cargo, em 1755. Com o agravamento da situação ao sul <strong>do</strong> Brasil, ele <strong>de</strong>u<br />
início a uma série <strong>de</strong> medidas militares e estratégicas para retomar o território.<br />
A primeira <strong>de</strong>las, já em 1763, foi a transferência da capital <strong>de</strong> Salva<strong>do</strong>r para o Rio<br />
<strong>de</strong> Janeiro. Mais central e mais próxima <strong>do</strong> palco da guerra, a nova se<strong>de</strong> <strong>do</strong> Vice-Reino<br />
receberia mais facilmente recrutas, munições e rações das outras capitanias, e os<br />
remeteria ao Sul. À capitania <strong>de</strong> São Paulo foi atribuí<strong>do</strong> o papel <strong>de</strong> muralha entre os<br />
espanhóis e o cobiça<strong>do</strong> território das Minas. Finalmente, veio a Carta Régia <strong>de</strong> 22 <strong>de</strong> abril<br />
<strong>de</strong> 1766. Envia<strong>do</strong> a to<strong>do</strong>s os governa<strong>do</strong>res e capitães-generais, o comunica<strong>do</strong> man<strong>do</strong>u<br />
“alistar to<strong>do</strong>s os mora<strong>do</strong>res das terras da Vossa jurisdição que se acharem em esta<strong>do</strong> <strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>rem servir nas Tropas Auxiliares, sem exceção <strong>de</strong> Nobres, Plebeus, Brancos,<br />
Mestiços, Pretos, Ingênuos e Libertos”.<br />
Ao contrário <strong>do</strong> exército profissional, que era farda<strong>do</strong>, arma<strong>do</strong> e remunera<strong>do</strong> pela<br />
Coroa, os colonos alista<strong>do</strong>s nas tropas auxiliares tinham que prover suas próprias armas,<br />
munições e fardamentos. A Carta Régia reconhecia que, até então, essas tropas<br />
pecavam pela “irregularida<strong>de</strong> e falta <strong>de</strong> disciplina”, mas apostava que, se fossem<br />
“reguladas e disciplinadas como <strong>de</strong>vem ser”, constituiriam “uma das principais forças que<br />
tem o mesmo Esta<strong>do</strong> para se <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r”.<br />
O esforço <strong>de</strong> guerra pretendi<strong>do</strong> por Pombal esbarraria num problema social: as<br />
relações escravistas e raciais no Brasil Colônia. Na década <strong>de</strong> 1760, negros livres e<br />
escravos formavam quase <strong>do</strong>is terços da população da América portuguesa, e na maior<br />
parte das capitanias havia mais negros <strong>do</strong> que brancos entre a população livre. Por isso,
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o resulta<strong>do</strong> óbvio da convocação seriam corpos militares forma<strong>do</strong>s, em sua maioria, por<br />
homens <strong>de</strong> cor.<br />
Cada capitania respon<strong>de</strong>u à sua maneira ao chama<strong>do</strong> para a guerra lusocastelhana.<br />
Em Minas Gerais, o governa<strong>do</strong>r Luís Diogo Lobo da Silva (1763-1768) criou<br />
regimentos – chama<strong>do</strong>s <strong>de</strong> “Terços” – apenas com par<strong>do</strong>s e pretos, <strong>de</strong>terminan<strong>do</strong> que<br />
eles <strong>de</strong>veriam ter seus próprios oficiais. Or<strong>de</strong>nou que os capitães-mores fizessem a<br />
contagem <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os escravos <strong>de</strong> suas freguesias para formar, com a quinta parte <strong>de</strong>les,<br />
alguns “Terços <strong>de</strong> Negros Cativos”. E ainda sugeriu, para espanto local, que os senhores<br />
provi<strong>de</strong>nciassem armas <strong>de</strong> fogo para seus escravos recruta<strong>do</strong>s. Várias câmaras <strong>de</strong> vilas<br />
consi<strong>de</strong>raram essas medidas muito arriscadas. As <strong>de</strong> Caeté e Mariana, por exemplo,<br />
recusaram-se a armar e a formar tropas com o que chamavam <strong>de</strong> “inimigos <strong>do</strong>mésticos<br />
<strong>do</strong>s brancos” e “bárbaros infiéis”.<br />
Em São Paulo, o recrutamento <strong>de</strong> par<strong>do</strong>s e pretos começara antes mesmo da<br />
publicação da Carta Régia <strong>de</strong> 1766. Em agosto <strong>do</strong> ano anterior, o governa<strong>do</strong>r D. Luís<br />
Antonio <strong>de</strong> Souza Botelho Mourão, o morga<strong>do</strong> <strong>de</strong> Mateus (1765-1775), <strong>de</strong>terminara a<br />
formação <strong>de</strong> uma companhia <strong>de</strong> par<strong>do</strong>s na vila <strong>de</strong> Santos, uma <strong>de</strong> mulatos em São<br />
Sebastião e revelou intenção <strong>de</strong> criar outra tropa <strong>de</strong> par<strong>do</strong>s em São Vicente. Também<br />
colocou em marcha um projeto <strong>de</strong> armar com chuços (espécies <strong>de</strong> lanças) to<strong>do</strong>s os<br />
escravos <strong>do</strong> litoral. Depois da Carta Régia, surgiram ainda mais corpos militares <strong>de</strong><br />
homens <strong>de</strong> cor em São Paulo, como as Companhias <strong>de</strong> Mulatos <strong>de</strong> Taubaté e <strong>de</strong><br />
Pindamonhangaba, a Tropa <strong>de</strong> Par<strong>do</strong>s <strong>de</strong> Jundiaí e as Companhias <strong>de</strong> Pretos da vila <strong>de</strong><br />
Paranaguá.<br />
Mas o berço das tropas <strong>do</strong>s homens <strong>de</strong> cor era mesmo Pernambuco, pois a<br />
capitania já havia passa<strong>do</strong> pelas guerras contra os holan<strong>de</strong>ses <strong>de</strong> 1630-1635 (invasão) e<br />
1645-1654 (restauração). A memória <strong>de</strong> Henrique Dias, mestre <strong>de</strong> campo das tropas<br />
negras naqueles conflitos, eternizara-se: seu nome fora a<strong>do</strong>ta<strong>do</strong> pelos batalhões <strong>de</strong><br />
Pretos que surgiram em várias capitanias após sua morte, em 1662. Um século <strong>de</strong>pois,<br />
estavam ativos <strong>do</strong>is corpos militares <strong>de</strong> homens <strong>de</strong> cor em Pernambuco. O <strong>de</strong> Par<strong>do</strong>s<br />
possuía 31 companhias e contava com 1.401 pessoas. O <strong>de</strong> Henrique Dias,<br />
exclusivamente forma<strong>do</strong> por Pretos, contava com 17 companhias formadas por 1.549<br />
homens. A Carta Régia <strong>de</strong> 1766 chegou à capitania no governo <strong>de</strong> Antônio <strong>de</strong> Sousa<br />
Manoel <strong>de</strong> Meneses, con<strong>de</strong> <strong>de</strong> Vila Flor (1763-1768). Ele <strong>de</strong>cidiu estabelecer três novos<br />
corpos militares: um Terço Novo <strong>de</strong> Henriques, <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> exclusivamente aos Pretos, e<br />
<strong>do</strong>is Terços <strong>de</strong> Par<strong>do</strong>s.<br />
Os combates se intensificaram a partir <strong>de</strong> 1774. Os espanhóis, que já haviam<br />
conquista<strong>do</strong> o Rio Gran<strong>de</strong>, avançaram até Santa Catarina. O Brasil tinha um novo vice-rei<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1769, o marquês <strong>do</strong> Lavradio, que diante da situação solicitou a Pombal que<br />
militares <strong>de</strong> sua confiança assumissem o governo <strong>de</strong> algumas capitanias, ou fossem<br />
remaneja<strong>do</strong>s <strong>de</strong> umas para outras, e man<strong>do</strong>u aumentar o recrutamento para a guerra. O<br />
que gerou novos problemas.<br />
De São Paulo, tropas <strong>de</strong> Par<strong>do</strong>s e Pretos foram enviadas para as fronteiras <strong>do</strong><br />
Mato Grosso. Determinou-se que to<strong>do</strong>s os “homens solteiros, Brancos, Bastar<strong>do</strong>s, Negros<br />
forros, e ainda os papu<strong>do</strong>s [pessoas com bócio]... e to<strong>do</strong>s os mal casa<strong>do</strong>s” serviriam em<br />
um mesmo corpo militar. As resistências por parte <strong>do</strong>s solda<strong>do</strong>s brancos foram imediatas.<br />
Os <strong>de</strong> Itu protestaram contra o alistamento <strong>do</strong> filho <strong>de</strong> uma mulata em suas fileiras. Em<br />
Jundiaí, mães negras eram presas pelas autorida<strong>de</strong>s caso seus filhos <strong>de</strong>sertassem das<br />
tropas. Perfazen<strong>do</strong> apenas 25% da população da capitania e consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s novatos na<br />
região, os negros livres eram trata<strong>do</strong>s como escória na capitania. As câmaras mineiras,<br />
por sua vez, aceitaram a existência <strong>do</strong>s Terços <strong>de</strong> Pretos e Par<strong>do</strong>s, mas reclamavam que<br />
eles fossem li<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s por homens <strong>de</strong> cor.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 41 <strong>de</strong> 45<br />
Para piorar o quadro, a situação das tropas era <strong>de</strong> evi<strong>de</strong>nte penúria. A maior parte<br />
<strong>do</strong>s 4.085 solda<strong>do</strong>s envia<strong>do</strong>s <strong>de</strong> Minas Gerais foi <strong>de</strong>scrita como “vadios”. Somente 757<br />
<strong>de</strong>les portavam armas <strong>de</strong> fogo. O restante utilizava lanças <strong>de</strong> pau tosta<strong>do</strong>. Muitos<br />
estavam “inteiramente nus, sem mais que umas ceroulas e camisas”. O próprio vice-rei<br />
Lavradio, ao constatar que não estavam prepara<strong>do</strong>s para enfrentar uma guerra, acabou<br />
dispensan<strong>do</strong> muitos solda<strong>do</strong>s.<br />
A discriminação às tropas <strong>de</strong> cor não era a mesma em Pernambuco. Ao contrário,<br />
os Terços <strong>de</strong> Pretos e Par<strong>do</strong>s eram uma instituição respeitável. A Or<strong>de</strong>m Régia enviada<br />
para a capitania em maio <strong>de</strong> 1775, <strong>de</strong>terminan<strong>do</strong> novo recrutamento, fazia menção<br />
especial ao histórico <strong>de</strong> serviços presta<strong>do</strong>s pelos homens <strong>de</strong> cor na capitania: “Sua<br />
Majesta<strong>de</strong> conserva muito vivas na sua lembrança as gloriosas ações com que sempre se<br />
distinguiu o dito Terço”. Os que então o compunham <strong>de</strong>veriam “parecer não só<br />
<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes, mas verda<strong>de</strong>iros imita<strong>do</strong>res <strong>do</strong>s heróis que tanto o ilustram”. Retórica bem<br />
distante <strong>do</strong> que se viu: quase to<strong>do</strong>s os recruta<strong>do</strong>s estavam nus e poucos tinham armas.<br />
Muitas sequer funcionavam. A solução, como em Minas, foi fazer oitocentos paus<br />
tosta<strong>do</strong>s, recurso por sinal elogia<strong>do</strong> pelo governa<strong>do</strong>r, José César <strong>de</strong> Meneses, que se<br />
lembrava “<strong>de</strong> terem si<strong>do</strong> estas as armas <strong>de</strong> que aqui se usou durante a expulsão <strong>do</strong>s<br />
Holan<strong>de</strong>ses, as quais os Pretos jogam com admirável <strong>de</strong>streza”.<br />
Os combates heroicos <strong>de</strong> Henrique Dias eram coisa <strong>do</strong> passa<strong>do</strong>. Prova disso foi a<br />
reação <strong>do</strong>s solda<strong>do</strong>s pernambucanos quan<strong>do</strong>, no dia 7 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1775, já<br />
prepara<strong>do</strong>s para partir, chegou ao Recife a suspensão da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> recrutamento. A<br />
guerra já estava em seu final. Pretos e Par<strong>do</strong>s correram “para suas casas, com tanta<br />
pressa que se atropelavam uns aos outros, soan<strong>do</strong> por todas as ruas as festivas<br />
aclamações <strong>de</strong> viva El Rey Nosso Senhor”.<br />
Autor: Luiz Geral<strong>do</strong> Silva é professor da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>do</strong> Paraná e autor <strong>de</strong> A<br />
faina, a festa e o rito. Uma etnografia histórica sobre as gentes <strong>do</strong> mar, sécs. XVII ao XIX<br />
(Campinas, Papirus, 2001).<br />
Fonte: Disponível em: http://www.revista<strong>de</strong>historia.com.br/v2/home/?go=<strong>de</strong>talhe&id=2272.<br />
Acesso em 06/04/2011.<br />
DESCENDENTES DE CONFEDERADOS CELEBRAM EM SP O FIM DA<br />
GUERRA CIVIL DOS EUA<br />
Festa em Santa Bárbara d’Oeste tem cenário <strong>do</strong> sul <strong>do</strong>s EUA <strong>do</strong> século XIX.<br />
Senhores trajan<strong>do</strong> uniformes típicos <strong>do</strong>s veteranos da Guerra <strong>de</strong> Secessão<br />
americana conversam numa roda, alguns em inglês com forte sotaque sulista, enquanto<br />
moças vestidas como a personagem Scarlett O’hara (a protagonista <strong>do</strong> clássico filme...'E<br />
o Vento Levou’) dançam a square dance (espécie <strong>de</strong> quadrilha americana) ao som <strong>de</strong><br />
jazz, country ou folk toca<strong>do</strong>s por uma banda.<br />
Ali perto, barracas ornadas com as cores da ban<strong>de</strong>ira americana ven<strong>de</strong>m<br />
hambúrgueres e hot <strong>do</strong>gs. To<strong>do</strong> o cenário remete a uma típica festa <strong>do</strong> sul <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s
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Uni<strong>do</strong>s, não estivessem os personagens a apenas 130 quilômetros <strong>de</strong> São Paulo, entre<br />
as cida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Americana e Santa Bárbara d’Oeste.<br />
É na região paulista que se concentra uma das maiores e organizadas<br />
comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> norte-americanos no Brasil, muitos <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes diretos <strong>do</strong>s primeiros<br />
imigrantes que <strong>de</strong>sembarcaram por aqui no final <strong>do</strong> século XIX. A “Festa Confe<strong>de</strong>rada”<br />
(ou “Confe<strong>de</strong>rate Party”) chega neste <strong>do</strong>mingo (11) à sua 24ª edição e lembra também os<br />
145 anos <strong>do</strong> fim <strong>do</strong> conflito. Mas por que comemorar o fim <strong>de</strong> uma guerra consi<strong>de</strong>rada<br />
uma das mais sangrentas da história americana, que <strong>de</strong>ixou mais <strong>de</strong> 600 mil mortos e<br />
arrasou com a economia <strong>do</strong> sul <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s?<br />
“O Cemitério <strong>do</strong> Campo virou um lugar marcante que evoca lembranças da história<br />
<strong>de</strong>ssas famílias, que saíram <strong>de</strong> uma situação dramática e vieram para o Brasil. Marca a<br />
experiência histórica <strong>de</strong>ssas pessoas, um lugar <strong>de</strong> revitalização <strong>de</strong> laços e da própria vida<br />
da comunida<strong>de</strong>”, diz o antropólogo John Dawsey, um <strong>do</strong>s organiza<strong>do</strong>res da coletânea <strong>de</strong><br />
artigos “Americans: Imigrantes <strong>do</strong> Velho Sul no Brasil” (Ed. Unimep, 2005), cuja história<br />
familiar está ligada à imigração americano no Brasil.<br />
No cemitério funda<strong>do</strong> em 1868, local da festa, estão enterra<strong>do</strong>s os primeiros<br />
imigrantes, trata<strong>do</strong>s como heróis nas homenagens em inglês nas lápi<strong>de</strong>s. “Fizemos a<br />
festa para po<strong>de</strong>r manter o cemitério. Com isso, a gente cobre esse custo e também faz a<br />
confraternização <strong>do</strong>s <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes”, conta Nancy Pa<strong>do</strong>veze, membro da Fraternida<strong>de</strong><br />
Descendência Americana, que realiza o evento.<br />
Tetraneta <strong>do</strong> coronel William Hutchinson Norris, consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> pela<br />
fraternida<strong>de</strong> o pioneiro da colônia paulista, ela conta que até hoje só são enterra<strong>do</strong>s no<br />
campo os <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes diretos <strong>do</strong>s confe<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s. Mais que uma atitu<strong>de</strong> discriminatória,<br />
trata-se <strong>de</strong> uma reparação histórica: na época <strong>do</strong>s primeiros imigrantes, os cemitérios<br />
católicos brasileiros se recusavam a enterrar os protestantes americanos mortos.<br />
“Não se sabe o que pesou mais: se o fato <strong>de</strong> serem protestantes ou <strong>de</strong> serem da<br />
maçonaria, mas o cemitério começou no local on<strong>de</strong> foi fundada a primeira igreja batista <strong>do</strong><br />
Brasil, que está na terceira construção <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> ao solo ruim”, conta Nancy Pa<strong>do</strong>veze (o<br />
sobrenome é herda<strong>do</strong> <strong>do</strong> mari<strong>do</strong> italiano).<br />
Nasci<strong>do</strong> na Georgia, o coronel Norris chegou a ser sena<strong>do</strong>r pelo Texas antes que<br />
os exércitos <strong>do</strong> industrializa<strong>do</strong> norte <strong>do</strong>s EUA <strong>de</strong>vastassem econômica e militarmente os<br />
esta<strong>do</strong>s confe<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s <strong>do</strong> sul latifundiário, na guerra entre 1861 e 1865. Veio para o Brasil,<br />
segun<strong>do</strong> a fraternida<strong>de</strong>, graças ao contato que tinha com a maçonaria (da qual o<br />
impera<strong>do</strong>r Dom Pedro II fazia parte) e <strong>do</strong> interesse brasileiro nas técnicas agrícolas<br />
sulistas, principalmente o cultivo <strong>do</strong> algodão.<br />
“Os americanos então trouxeram o algodão e o ara<strong>do</strong>. Os italianos vieram e<br />
<strong>de</strong>senvolveram o ara<strong>do</strong>. Em seguida, chegaram os alemães e montaram as fábricas <strong>de</strong><br />
teci<strong>do</strong>. E assim Americana se tornou esse gran<strong>de</strong> polo têxtil."<br />
“O que nossos antepassa<strong>do</strong>s contavam é que a região <strong>de</strong> Santa Bárbara,<br />
principalmente, tem um clima e uma terra muito pareci<strong>do</strong>s com o sul <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s.<br />
Este foi o motivo para escolher essa região. Os americanos então trouxeram o algodão e<br />
o ara<strong>do</strong>. Os italianos vieram e <strong>de</strong>senvolveram o ara<strong>do</strong>. Em seguida, chegaram os<br />
alemães e montaram as fábricas <strong>de</strong> teci<strong>do</strong>. E assim Americana se tornou esse gran<strong>de</strong><br />
polo têxtil”, afirma a tetraneta <strong>do</strong> pioneiro.<br />
Além das técnicas então <strong>de</strong>senvolvidas <strong>de</strong> agricultura, os <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes <strong>do</strong>s<br />
confe<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s orgulham-se <strong>do</strong> sistema americano <strong>de</strong> educação – consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> mo<strong>de</strong>lo<br />
pelo governo brasileiro - que <strong>de</strong>u origem a escolas americanas até hoje em ativida<strong>de</strong> no<br />
país, como a Universida<strong>de</strong> Metodista <strong>de</strong> Piracicaba (Unimep), o Mackenzie, na capital, e o<br />
Benedict, no Rio, entre outras. Isso sem falar nos <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes renoma<strong>do</strong>s, como a<br />
cantora Rita Lee e a ministra <strong>do</strong> Supremo Ellen Gracie Northfleet.
Informativo <strong>Nr</strong> <strong>117</strong> (1º/2011) – <strong>CP</strong>/<strong>ECEME</strong> 2011 Página 43 <strong>de</strong> 45<br />
“É interessante ver como nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s o sul ficou associa<strong>do</strong> com as forças<br />
<strong>do</strong> atraso, enquanto que no Brasil [os sulistas] foram associa<strong>do</strong>s ao progresso."<br />
Boa parte <strong>de</strong>sta história está exposta no Museu da Imigração, em Santa Bárbara<br />
d’Oeste, que tem no acervo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> <strong>do</strong>cumentos históricos até as primeiras máquinas para<br />
o ara<strong>do</strong> trazidas pelos americanos e utensílios <strong>do</strong>mésticos consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s mo<strong>de</strong>rnos para<br />
os padrões <strong>do</strong> império brasileiro, como moe<strong>do</strong>res <strong>de</strong> café.“É interessante ver como nos<br />
Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s o sul ficou associa<strong>do</strong> com as forças <strong>do</strong> atraso, enquanto que no Brasil [os<br />
sulistas] foram associa<strong>do</strong>s ao progresso”, diz o antropólogo John Dawsey. Segun<strong>do</strong> ele,<br />
americanos que vão à festa paulista se assustam ao ver a ban<strong>de</strong>ira dixie confe<strong>de</strong>rada –<br />
nos EUA ainda associada a escravidão e racismo.<br />
Para <strong>do</strong>na Nancy, responsável pelas apresentações artísticas da Festa<br />
Confe<strong>de</strong>rada, graças à integração cultural, o evento acabou ganhan<strong>do</strong> sabores<br />
brasileiros. “A gente tenta fazer o típico, mas o típico, típico americano mesmo é<br />
complica<strong>do</strong>. Então a gente abrasileirou um pouco algumas coisas para agradar o público.<br />
Temos churrasco, hambúrguer, cachorro quente, frango frito. Mas o sabor é bem<br />
brasileiro”, diz, rin<strong>do</strong>.<br />
Autor: Amauri Arrais Do G1.<br />
Fonte: Disponível em: http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1564781-<br />
16107,00DESCENDENTES+DE+CONFEDERADOS+CELEBRAM+EM+SP+O+FIM+DA+<br />
GUERRA+CIVIL+DOS+EUA.html<br />
PORTUGAL JÁ COMANDOU IMPÉRIO DE 14 COLÔNIAS EM QUATRO<br />
CONTINENTES<br />
Regiões da África e Ásia foram principais fontes <strong>de</strong> escravos e pimenta.<br />
Portugal, hoje, não é o país mais po<strong>de</strong>roso da União Europeia e nem tem a maior<br />
economia <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Mas, um dia, nossos coloniza<strong>do</strong>res já estiveram no topo, <strong>do</strong>minan<strong>do</strong><br />
um verda<strong>de</strong>iro império global e se posicionan<strong>do</strong> como a nação mais empreen<strong>de</strong><strong>do</strong>ra <strong>do</strong><br />
planeta. Foi nos séculos XV a XVIII, quan<strong>do</strong> as gran<strong>de</strong>s navegações ajudaram a<br />
encontrar terras novas – e a explorar tu<strong>do</strong> o que se podia <strong>de</strong>las.<br />
Nessa época, territórios foram <strong>do</strong>mina<strong>do</strong>s e um intercâmbio mundial <strong>de</strong> produtos<br />
tomou conta <strong>do</strong>s mares. Portugal submetia os povos pela força das armas, estimulan<strong>do</strong><br />
rivalida<strong>de</strong>s internas, e pelo comércio.<br />
Além <strong>do</strong> Brasil, que, como sabemos, foi prove<strong>do</strong>r <strong>de</strong> matérias-primas para a nação<br />
portuguesa a partir <strong>do</strong> século XVI, outras regiões também ajudaram a concentrar a<br />
riqueza <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> na Europa – os portugueses chegaram até ao Tibete!<br />
Muitas das colônias ficaram sob coman<strong>do</strong> <strong>do</strong>s lusitanos por séculos – Timor Leste,<br />
por exemplo, comemora neste <strong>do</strong>mingo (30) <strong>de</strong>z anos <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência. Depois <strong>de</strong> terem<br />
se <strong>de</strong>svincula<strong>do</strong> <strong>de</strong> Portugal, em 1975, os timorenses foram submeti<strong>do</strong>s pelos in<strong>do</strong>nésios<br />
por mais 24 anos. O país era fornece<strong>do</strong>r <strong>de</strong> sândalo e, <strong>de</strong>pois da expulsão <strong>do</strong>s<br />
portugueses da China, foi palco para contraban<strong>do</strong>.<br />
"As colônias asiáticas tinham um papel muito mais importante para Portugal,<br />
porque eram o principal meio <strong>de</strong> obter capital, aí que estava o lucro, uma lucrativida<strong>de</strong>
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imensamente maior <strong>do</strong> que na América Portuguesa. Enquanto na Ásia eles tinham um<br />
lucro que chegava a mais <strong>de</strong> 40.000% principalmente com a pimenta, a porcelana e a<br />
prata", explica em entrevista ao G1 Fábio Pestana Ramos, <strong>do</strong>utor em história social pela<br />
USP e professor da Fundação Santo André.<br />
Segun<strong>do</strong> o professor, que também é autor <strong>de</strong> "Por Mares nunca dantes navega<strong>do</strong>s<br />
- as aventuras <strong>do</strong>s <strong>de</strong>scobrimentos" (Ed. Contexto), a África teve uma importância<br />
fundamental para os portugueses no início das gran<strong>de</strong>s navegações, no século XVI, como<br />
produtora <strong>de</strong> pimenta malagueta. "Esse produto era uma alternativa <strong>de</strong> consumo da<br />
pimenta <strong>do</strong> reino, monopolizada pelos italianos. Foi em parte com o dinheiro da venda<br />
<strong>de</strong>ssa pimenta que as gran<strong>de</strong>s navegações <strong>do</strong> século XVI foram financiadas. Depois, a<br />
África teve o papel <strong>de</strong> ser fornece<strong>do</strong>ra <strong>de</strong> mão-<strong>de</strong>-obra escrava."<br />
As viagens<br />
Muitos fatores permitiram o pioneirismo português nos <strong>de</strong>scobrimentos. Entre eles,<br />
a posição geográfica e a centralização precoce da nação, que possibilitou investimentos.<br />
Na era <strong>do</strong> mercantilismo, aventurar-se pelos mares e se tornar um império marítimo era<br />
um sonho para os portugueses, que tinham poucas riquezas internas. "Porém, monstros e<br />
me<strong>do</strong>s povoavam o imaginário europeu. Enfrentar os mares <strong>de</strong>sconheci<strong>do</strong>s, por exemplo,<br />
não era fácil", escreve Fábio Ramos.<br />
A ida a uma terra nova geralmente vinha com uma exploração <strong>de</strong> reconhecimento.<br />
Depois vinham as carreiras - rotas regulares entre a nova terra e Lisboa. As maiores<br />
carreiras eram as que iam para a Índia e <strong>de</strong>moravam um ano. As embarcações, as<br />
maiores <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, geralmente partiam superlotadas. A fome e a <strong>do</strong>ença eram problemas<br />
constantes. Não havia instalações sanitárias e muitas vezes se morria por pragas.<br />
As conquistas<br />
Ao chegar em uma nova região, os portugueses geralmente enfrentavam<br />
dificulda<strong>de</strong>s no encontro com as culturas locais. Havia ainda a intolerância religiosa. Os<br />
angolanos, quan<strong>do</strong> viram os lusitanos pela primeira vez, acharam que eram mortos vivos,<br />
zumbis que vinham das águas. "Os portugueses se acostumaram a resolver os impasses<br />
com os nativos através <strong>do</strong> bombar<strong>de</strong>io às povoações que se recusavam a servir aos seus<br />
interesses", escreve o professor Ramos.<br />
Uma das primeiras conquistas portuguesas foi Ceuta em 1415 e a ilha <strong>de</strong> Ma<strong>de</strong>ira<br />
em 1418. Ma<strong>de</strong>ira tornou-se gran<strong>de</strong> produtora <strong>de</strong> trigo e açúcar. Já o arquipélago <strong>do</strong>s<br />
Açores, encontra<strong>do</strong> em 1427, foi escolhi<strong>do</strong> para servir <strong>de</strong> base para uma armada fixa, que<br />
protegeria as embarcações que saíssem <strong>de</strong> Lisboa <strong>de</strong> ataques piratas - frequentes na<br />
época.<br />
O território <strong>de</strong> São Tomé e Príncipe, <strong>de</strong>scoberto em 1471 e primeiramente<br />
chama<strong>do</strong> <strong>de</strong> Ano Bom e Fernão <strong>do</strong> Pó, foi usa<strong>do</strong> como verda<strong>de</strong>iro laboratório <strong>de</strong> tipos <strong>de</strong><br />
colonização. Portugal conquistou a região e <strong>de</strong>pois só aparecia para <strong>de</strong>spejar populações<br />
<strong>de</strong> escravos, crianças judias tiradas <strong>do</strong>s pais e homens livres.<br />
A ilha <strong>de</strong> Santa Helena foi útil para a navegação para as Índias. Descoberta<br />
em 1502, ela se tornou um ponto <strong>de</strong> apoio às longas viagens.<br />
Os portugueses também chegaram na China em 1509. No Japão, aportaram em<br />
1543 e foram os primeiros oci<strong>de</strong>ntais a <strong>de</strong>sembarcar na região, embora nunca tenham<br />
consegui<strong>do</strong> estabelecer uma base firme.<br />
As in<strong>de</strong>pendências
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A <strong>de</strong>cadência <strong>do</strong> império marítimo português ocorreu quan<strong>do</strong> a Inglaterra e a<br />
Holanda, principalmente, começaram a correr atrás <strong>do</strong> prejuízo e se lançar aos mares.<br />
Esses países passaram a construir embarcações melhores e mais rápidas, enquanto os<br />
portugueses continuavam com suas frotas antigas.<br />
"Havia um <strong>de</strong>sleixo em relação à frota naval. Não havia manutenção. Há registro<br />
<strong>de</strong> vários navios que ficaram 24 anos em serviço. Além disso, há a fuga <strong>de</strong> profissionais<br />
qualifica<strong>do</strong>s pra fazer essa manutenção, pois os portugueses não os remuneravam<br />
a<strong>de</strong>quadamente. Os ingleses foram bem mais espertos. Eles faziam navios menores,<br />
mais ágeis e mais bem arma<strong>do</strong>s. Esperavam os portuguese chegarem, atacavam os<br />
navios, roubavam tu<strong>do</strong>, raptavam as pessoas pra pedir resgate e queimavam as<br />
embarcações", conta Fábio Ramos. O índice <strong>de</strong> naufrágios nessa época, em navios<br />
vin<strong>do</strong>s da Índia, era <strong>de</strong> 40% - a maioria por ataques piratas.<br />
Após a abolição da escravatura, Portugal manteve suas colônias o máximo que<br />
po<strong>de</strong>. Segun<strong>do</strong> Fábio Ramos, os portugueses "passam a tentar transformar as colônias<br />
africanas em colônias agrícolas."<br />
Na década <strong>de</strong> 1970, muitas colônias se libertaram: Timor Leste, Angola, Cabo Ver<strong>de</strong>,<br />
Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.<br />
Autor: Giovana Sanchez <strong>do</strong> G1.<br />
Fonte: O Globo, disponível em<br />
http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1283991-16107,00.html. Acesso em<br />
08/04/2011.<br />
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