IX. A viagem das palavras

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IX. A viagem das palavras

A VIAGEM DAS PALAVRAS 1

Maria Isabel Tomás IX

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Pai — [...]As armas e padrões portugueses, póstos em África e em Ásia,

e em tantas mil ilhas fóra da repartiçám das três pártes da térra, materiáes sãm,

e póde-âs o tempo gastár, peró nam gastará doutrina, costumes, linguágem,

que os Portugueses néstas térras leixárem.

Filho — Nam sei, lógo, quál será o português de tam errádo juizo,

pois é çérto que máis póde durár um bom costume e vocábulo que um padrám,

porque se nam préza máis leixár na India este nome, mercadoria,

que trazer de lá beniága, cá é sinál de ser vençedor e nam vençido.

JOÃO DE BARROS, Diálogo em louvor da nossa linguagem, 1540.

No Portugal de Seiscentos, João de Barros enuncia clara e veementemente 2

uma das contribuições mais duradouras da expansão portuguesa – a marca

que a língua lusa iria deixar no mundo, cumprido o Império, caídos os

padrões e esquecidos os homens.

A intensa circulação de homens, bens e ideias nos mares de todas as partes

da Terra foi acompanhada de uma igualmente intensa circulação de palavras

que, passados séculos, ainda perduram, sob as mais variadas formas, na cartografia

linguística do presente.

O Português é hoje falado, como língua materna e/ou como língua oficial,

em Portugal, no Brasil, nos países africanos de língua oficial portuguesa, em

Timor e em Macau. Línguas crioulas de base lexical portuguesa foram (e são

ainda hoje para algumas) a língua materna de comunidades diversas, em

África, na América do Sul e na Ásia. Dezenas e, nalguns casos mesmo, centenas

de palavras de origem portuguesa, consequência do contacto directo

de falantes seus com as mais variegadas gentes, são ainda de uso corrente em

línguas tão distintas como o Japonês, o Quicongo, o Bahasa indonésio, o

Suaíli, o Tetum, o Tupi, o Concani, o Malaio, o Singalês e muitas outras línguas,

cuja enumeração exaustiva cansaria certamente o leitor.

Mas a circulação das palavras teve outros destinos involuntários. Se, como

afirma um dos grandes estudiosos dos crioulos portugueses dos finais

do século XIX, o austríaco Hugo Schuchardt, a história das descobertas e

das con quistas portuguesas é simultaneamente a história da difusão da


língua portuguesa, não menos importante do que a influência directa

sobre outras línguas foi o papel de mediação que o Português desempenhou,

numa polinização cruzada das línguas e culturas regionais asiáticas

e das línguas europeias. A presença portuguesa enraizou, no Índico, uma

lingua franca, utilizada pelas populações costeiras e pelos poderes coloniais

europeus como língua de contacto, numa antecipação precoce ao

papel de língua global que o Inglês ocupa nos nossos dias. Através da lingua

franca, e não por contacto directo, os étimos portugueses entraram em

línguas europeias – o Inglês, o Francês, o Holandês –, numa viagem de rotas

cruzadas e recruzadas de palavras que, de línguas orientais as levou para a

lingua franca e para os crioulos, e destes para a Europa e para outras línguas

da Ásia. No Atlântico, onde a es cravatura foi, nesses séculos, o motor

da difusão linguística, terá sido um outro tipo de língua de contacto, um

pidgin de base portuguesa, a veicular vocábulos de origem portuguesa e palavras

de línguas africanas para crioulos de base inglesa, francesa, espanhola e

holandesa.

Mas as palavras, nos séculos da expansão e do Império, foram, tal como o

vinho, de torna viagem. As línguas das «três partes da terra» deixaram a sua

marca no Português que hoje falamos, num processo normal de enriquecimento

vocabular, o empréstimo, de que as línguas do mundo sempre se serviram

e servirão, inevitável consequência do contacto de falantes, e que só os

puristas rejeitam, numa «patriótica» defesa da língua contra os «estrangeirismos».

Os empréstimos linguísticos, que preencheram reais necessidades

expressivas dos falantes, foram «nativizados» e interiorizados – monção, chávena,

andor, tufão, chita, capanga, banana, canja, por exemplo –, qualquer

deles escaparia ao rótulo de «estrangeirismo» e poucos verão reconhecida a

sua origem etimológica pelo falante comum.

«Navegar é preciso» 3 , o dito atribuído ao romano Pompeu e alegada divisa

da Liga Hanseática na época da expansão, é a metáfora adequada para a perspectiva

assumida neste capítulo. Interessam-nos as viagens e não o seu destino.

Para aqueles para quem os destinos e as chegadas forem importantes,

inclui-se em anexo deste capítulo uma bibliografia (de modo algum exaustiva)

de obras em que se trata a influência do Português e se enumeram as

palavras portuguesas que entraram nas línguas de Além-Mar. Para os outros,

procuraremos descrever os actores, os processos e contextos históricos e

sociolinguísticos em que se deu esse fenómeno espantoso.

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O «Português» língua franca

A existência de uma vasta rede de núcleos populacionais ao longo das costas

de África e do Oriente, núcleos onde os crioulos de base portuguesa foram

a língua materna de parte da população e em cuja periferia se utilizava um

pidgin português como língua de contacto, tornou o Português (nas suas

metamorfoses crioulas ou nas versões pidginizadas), do século XV ao século

XVIII, a língua veicular do comércio e do contacto interétnico em vastas

zonas do Globo. Mercadores e missionários europeus tinham assim ao seu

dis por uma língua «simplificada», com um léxico onde eram facilmente reconhe

cíveis as palavras de uma língua europeia, facilitando o contacto imediato

e dispensando a aprendizagem das línguas locais.

No Índico, durante os séculos XVII e XVIII, em grande parte dos domínios

ingleses e holandeses, funcionaram como línguas francas versões mais ou

menos crioulizadas de um «corrupted Portuguese» 4 , utilizadas por administradores

coloniais, por visitantes ocasionais e por missionários das Igrejas

anglicanas, no seu trato com os habitantes locais.

Em nenhum outro lugar a sobrevivência desta língua veicular foi tão forte

como no Ceilão. Durante a primeira metade do século XIX, atestando a

sobre vivência da língua franca até à época, foram impressos vários glossários

e gra máticas do Ceylon Portuguese, com reedições sucessivas, para uso dos

admi nistradores coloniais ingleses, mais ainda do que para o simples viajante.

Berrenger (1811), autor de uma dessas gramáticas, dedica-a «to the English

Gentlemen in the Civil and Military Service on Ceylon». E, no prefácio, onde

comenta as vantagens e as características da língua, afirma:

Few of the natives of this Island talk English with sufficient fluency and correctness

to convey their meaning in that Language, but most of them speak and understand

this corrupted Portuguese 5 .

Charles Lockyer, um viajante inglês, refere, no início do século XVIII, a existência

de uma língua de contacto, espalhada pelos Portugueses, nos portos

da Índia:

This they may justly boast, they have established a kind of Lingua Franca in all the

Sea Ports in India, of great use to other Europeans, who would find it difficult in

many places to be well understood without it 6 .


D. Catarina, Imperatriz do Ceilão, recebendo o português Pedro Lopes. Gravura inglesa de 1602.

Washington State University Libraries

Um outro inglês, Alexander Hamilton, que viajou pelas Índias Orientais em

fins do século XVII, menciona a necessidade da aprendizagem desta lingua

franca para a comunicação entre europeus e os autóctones:

Along the Sea-coasts the Portuguese have left a Vestige of their Language, tho’ much

corrupted, yet it is the Language that most Europeans learn first to qualify them for

a general Converse with one another, as well as with the different inhabitants

of India 7 .

O prestígio do Português transforma-o na língua da moda nas esferas do

poder local: «It came so naturally to Dona Catherina that, according to Baldeus,

she spoke Portuguese on her death-bed. It was in Portuguese that her son,

Rájasinha, conversed with foreigners and corresponded with the Dutch» 8 .

O holandês Valentyn (1724) relata a explosão de Vimala Dharma Suriya,

senhor do reino de Candy, irritado pelo comportamento de Sebalt de Wert,

ordenando aos seus homens: «Mara isto can» («Amarrem este cão»).

Em pleno século XIX, os relatos dos viajantes britânicos atestavam a sobrevivência

do «Português corrupto» ainda em uso por toda a franja costeira da ilha:

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Already the language of the Dutch, which they thought to extend by penal enactments,

has ceased to be spoken by their direct descendents, whilst a corrupt

Portuguese is to the present day the vernacular of the middle classes in every town of

importance 9 .

O uso alargado do crioulo forçou os missionários ingleses a utilizá-lo na catequização

dos nativos. As tipografias da Missão Wesleyana imprimiram centenas

de livros de orações, sermões, catecismos, traduções do Antigo e do

Novo Testamento, todos em crioulo português do Ceilão. Tal como o

tinham feito os missionários holandeses um século antes, na província da

Batávia, os Ingleses fizeram do «Português» a língua da missionação em

terras asiáticas.

Na área de influência holandesa, a utilização generalizada deste «Português»

re vela-se numa obra publicada em Dresden, em 1692 10 , onde se inclui um

diálogo entre dois soldados, Orenpare, recém-chegado da Holanda, e Orlam,

um veterano de longa data das Índias Orientais, de naturalidade sueca. Não

podendo comunicar nas respectivas línguas, o diálogo é travado num jargão

onde, à mistura com palavras latinas, francesas, portuguesas, surgem frases

no crioulo malaio-português:

Orenpare: Dabetjes, Camrad.

Orlam: Mutemersi, Camrad, bene vene aqui Supra Java Major au Batavia.

Ore.: Este Terre muto cinte.

Orl.: Causa Sole cum ille mute cima.

[...]

Orl: Milior vvams, Camrad, nous lo ande tenter un Casa chinesa lomande Araca

um bom Salat cum Linguise fresca.

Ore: De Volunte de sihr, Camrade. Eeo doeng fome agora, osie nocke Cume

nada 11 .

Quase um século mais tarde, em 1780, publica-se em Batávia um glossário

em holandês, malaio e «português» 12 , com léxico, frases e notas gramaticais,

em cujo título novamente se salienta a utilidade para os recém-chegados:

«zeer gemakkelyk voor die eerst op Batavia komen».


A missionação da Reforma holandesa, tal como acontecera com a missionação

wesleyana no Ceilão, vê-se obrigada a utilizar o «Português» nas práticas

litúrgicas, sobretudo nas duas igrejas «portuguesas» da cidade de Batávia 13 . A

proposta feita ao Governador-Geral, em 1708, para que o serviço religioso

fosse feito alternadamente em português e em malaio, provoca por parte dos

pastores holandeses uma reacção veemente e uma resposta por escrito ao

Con selho, onde salientam, entre outros argumentos, a existência de grupos

numerosos de falantes do «Português»:

Des nombreuses familles qui appartiennent à l’Église portugaise, qui sont presques

toutes occidentales, ou descendantes de familles occidentales; [...]. Toutes les personnes

d’origine orientale [...] ne parlent pas le malais mais le portugais [...] celles qui sont

nées ici parlent le portugais comme leur langue maternelle, dès leur première enfance.

A extensão do uso da língua é descrita também pelos mesmos pastores:

[parlée] universellement par les propriétaires d’esclaves et leurs enfants dans les relations

journalières avec les esclaves et les Chrétiens indigènes; par les fa milles et les

personnes qui viennent du Siam, de Malaca, de Bengale, de la côte de Coromandel,

de l’Île de Ceylan, de la côte de Malabar, de Surate [ ...].

Esta frase testemunha claramente o facto de a circulação de pessoas ser tam -

bém particularmente intensa nos territórios controlados pela Companhia

Holandesa das Índias Orientais 14 .

Um outro contingente parece ter tido expressão relevante nesta difusão do

léxico português entre os falantes de línguas orientais – o grupo constituído

por soldados nativos, recrutados pelos Holandeses nas costas do Sul do

Índico (Malabar, Coromandel, Malaca), nas viagens da Europa para as

Índias Orientais. Eram cristãos, não falavam holandês, acabavam por constituir

família localmente e eram, apesar de não terem gota de sangue português,

conhecidos como os «Portugueses pretos», os Zwarte Portugueesen das

descrições holandesas. De estatuto social baixo, mas muito numerosos,

foram a partir de certa altura isentados do pagamento de taxas e, por esse

facto, conhecidos por mardijkers ou mardikas, com o sentido de «homens

isentos de impostos». A maior parte destes mardikas vinha das Molucas, de

Ma cassar, de Ternate e de Larantuka, na ilha das Flores, mas também de

Timor, locais onde muitos dos casados portugueses, que tinham saído de

Malaca, se instalaram e onde já existiam estabelecimentos privados de mercadores

portugueses 15 .

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Também os escravos de origem africana, os

cafres ou kaffirs (na designação inglesa), de

recrutamento forçado para a construção e

reparação de fortalezas e para as tripulações

dos navios, quando a falta de homens assim o

exigia, eram em grande número e iriam ter um

papel a desempenhar na difusão do léxico português.

Ganhavam, com a concessão da liberdade,

o estatuto de mardikas de segunda classe

(o termo mardika acaba aliás por assumir, na

documentação holandesa, e mesmo portuguesa

– no que se refere às feitorias privadas

do Arquipélago – a acepção genérica de «cristãos

estrangeiros»).

Os escravos no Índico

Um Topaz ou Mardika

com a mulher, 1676.

Washington State University Libraries

O comércio de escravos foi o veículo para o léxico de origem africana que

en contramos, quer nos crioulos das Índias Ocidentais, no Atlântico, quer

nos crioulos asiáticos de base lexical portuguesa.

No entanto, se o comércio negreiro para as Américas se fornecia ao longo

da costa ocidental de África, a população escrava africana do Estado da

Índia veio, desde o início, quase exclusivamente da África Oriental 16 . O ho -

landês John Huyghen Van Linschotten, que visitou Moçambique nos finais

do século XVI, escreveu:

[...] from Mozambique they carry into India Gold, Ambergris, Eben wood, and

Ivorie, and many slaves, both men and women which are carried thither, because

they are the strongest in all the East countries, to doe the filthiest and hardest labour,

wherein they only use them 17 .

A riqueza e estatuto dos Portugueses estabelecidos no Estado da Índia era

cal culada em função do número de escravos que possuíam:

The Portingals, Mesticos, and Christians, keep worshipful and bountiful houses,

having commonly (as it is said [before]) five, six, ten, twenty, some more, some less

slaves, both men and women, in their houses every men according to his estate and

quality 18 .


António Bocarro escreve no século XVII, que o número de escravos dos

Portugueses estabelecidos em Goa, em 1635, se estimava em 10 por família.

Em 1695, um viajante italiano, Gemeli Careri, calcula que pelo menos um

quarto da população da cidade de Goa seja constituída por mulatos, descendentes

de portugueses e de escravos africanos 19 . Teotónio de Souza (1979,

125) analisa a demografia urbana da Goa do século XVII, e discute a população

escrava, a sua origem e número:

The slave traffic then concentrated on East Africa. There is no way of checking

the number of slaves that arrived from there every year. One single frigate for

instance, that came from Mozambique to Goa in 1683 had brought 207 negro

slaves.

O mesmo se poderá dizer para outras possessões portuguesas na Índia.

Bocarro (1634, 99) afirma, em relação a Diu:

Os casados portuguezes, que vivem oje nesta cidade de fora da fortaleza, são cincoenta

e nove, avendo já sido muitos mais: são pobres, pelas ditas causas, mas ainda

assy tem huns por outros cincoenta e nove escravos que possão tomar armas, as

quaes tem alguns de cabides de lanças muy bastantes pera brigarem.

A proveniência africana oriental dos escravos encontra-se claramente evidenciada

na etiqueta étnica que lhes é atribuída – os «cafres». Um viajante

ho landês, que no século XVIII visitou Goa, menciona os escravos dos portugueses:

«[...] Caffres or Negroes, clothed in red coats, and they [the Por tu -

guese] were accompanied by other Caffres who bore long swords and acted as

bravoes for their masters» 20 .

A palavra cafre tinha sido trazida do árabe Ka – fir 21 , com o significado de

«infiel», os nativos que não praticavam a religião do Profeta. O seu sentido

restringiu-se, em português, e passou a significar os pagãos nativos da África

Oriental, os gentios, que em breve se tornariam a fonte do mercado de escravos

para o Estado da Índia. Pyrard de Laval, que visitou a Índia Portuguesa

no início do século XVII, faz uma distinção clara entre «negro» e «cafre»:

«Negro or negresse of Guiné are those from the western side of Africa, those of

the eastern side are in India generally known by the name of Cafres» 22 .

Esta designação é levada também até Macau. Em 1622, durante o cerco ho -

landês e a batalha que se lhe seguiu, «uma cafra matou muitos inimigos com

um grande pau» 23 .

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Nos crioulos portugueses do Oriente, a figura do Cafrinho esteve presente

na tradição oral de quase todas as comunidades. As recolhas publicadas no

sé culo XIX e no início do século XX são disso testemunho, em crioulos

vários (alguns dos quais hoje extintos):

Crioulo indo-português de Mangalore (Schuchardt, 1883b, 889)

Pai Jose ja mata cavallo,

Secco secco manda bata sal,

Cafrinha, ja repica sino

Meia noite, ja nasce menino.

Crioulo do Sri Lanka (Jackson, 1990, 144)

Passa bossa ruga

Ovie ravokiyoe

Sassa Sarumbaca

Baila Caffaryoe

Lingu maquista (crioulo de Macau) (Marques Pereira, 1899-1901, 190)

Unga rê são português

Otro môro, tem turbante;

Otro cafre beço grosso,

Corpo inchido diamante.

Mulher Portuguesa na Índia e seus criados. Itinerario de Linschote.

Fondos Digitalizados de la Universidad de Sevilla


Crioulo malaio-português de Tugu (Java, Indonésia) (Schuchardt, 1890, 26)

Kaferinjo teeng kansadoe

Kie nompodie maio bala

Pedie eskoeja sinjoor die kajoe

Toedoe moor kere anda 24 .

Em Damão, o cafre sobrevive até hoje na tradição popular da comunidade

crioula. As canções de Cafrinho, originalmente cantadas no dia de S. Bento,

o dia em que os senhores brancos concediam aos escravos cafres o lugar de

honra na igreja (Moniz, 1925), são ainda cantadas pelos crioulos de Damão

durante o Natal, em frente ao presépio, e fazem parte do repertório do

Grupo Folclórico Damanense.

Uma delas é particularmente interessante pelas referências aos locais de proveniência

dos cafres, trazidos para a Índia:

Cabelo torcido

1. Cabelo torcido

Cafarinho despido

Toda gente fala

Tem cafre de Sufala.

Huê huê huê, balhá com igual huê

Huê huê huê, cabelos torcidos huê

Huê huê huê, festa de Natal huê.

2. Cafarinho bem preto

Torcido e bem feito

Balhando na rua

Como cafre de Macuá.

3. Seus beiços compridos

Seus olhos torcidos

Rosto de rabana

Tem cafre de Inhabane.

4. Beicinhos furados

Seus dentes limados

Cafarinho pangaio

Pinchando na praia.

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5. Todos assim dizem

Chapado nariz

Cabeça pequena

Tem cafarinho de Sena.

Embora os cafres fossem, na Índia, utilizados principalmente como criados

e carregadores de palanquim, em breve, o exército os utilizaria como mercenários.

Com um território demasiado vasto, sujeitos a ataques constantes

pelos principados locais e pelos outros poderes coloniais europeus, os militares

começaram a usar escravos cafres para reforçar as guarnições. Esta tradição

sobreviveu em Macau até ao início do século passado; muitos anos

depois da escravatura ter sido abolida, a guarnição local incluía um regimento

de negros de Moçambique.

A mesma utilização lhes iria ser dada pelos poderes coloniais que substituem

os Portugueses no Índico. Admirados pelos Holandeses, pela sua bravura e

lealdade aos amos durante o cerco de Macau de 1622, os cafres deixados em

Ceilão, aquando da retirada portuguesa, foram utilizados pelos seus novos

senhores na construção do forte de Colombo. E a importação de escravos

da zona de Moçambique 25 irá continuar com ingleses e holandeses. Os In -

gle ses utilizaram-nos no exército, pelo menos desde 1807, altura em que um

regimento Kaffir em Colombo tinha cerca de 700 Kaffirs (Cordiner, 1807).

Este regimento transformou-se, mais tarde, no 3rd Ceylon Riffle Regiment

(Brohier, 1973, 22), estacionado em Puttalam. Os seus descendentes tornaram-se

conhecidos como os Kaffirs de Puttalam, uma comunidade que manteve,

até hoje, «a distinct way of leisury life, blending old time national traits with

new occupations and scenes» 26 . As suas músicas e danças, de clara in fluência

africana, tornaram-se parte do folclore do Sri Lanka contemporâneo: Baila,

Chikoti e Kaferinhoe 27 .

Foram estes Kaffirs, falantes do «Português corrupto» ou de crioulos de

base portuguesa, que participaram como actores na difusão lexical que

estamos a analisar. Por um lado, contribuindo com palavras de origem

africana (oriental) para a língua franca e para os crioulos, e influenciando,

por outro, se gundo alguns estudiosos 28 – através da exportação pelos Ho -

landeses de escravos da Indonésia para a cidade do Cabo –, a formação do

Africânder.


As línguas crioulas de base lexical portuguesa

Os crioulos do Atlântico

A formação das línguas crioulas de base portuguesa vai, nesta região, ter

lugar em contextos sócio-históricos em que participam actores de tipo di -

verso. Línguas, tangomas, lançados, entrepostos e fortalezas, comerciantes e

missionários, escravos e mulheres, senhores de engenho e capatazes das

roças e plantações, portugueses e nativos, irão de modos diferentes contribuir

para o aparecimento de novas línguas de contacto – os pidgins e de

novas línguas maternas – os crioulos.

Os línguas

A exploração e o comércio ao longo do litoral africano colocaram aos Por -

tugueses do século XV problemas linguísticos novos. Ultrapassada a África

de influência árabe, a extraordinária multiplicidade de línguas, com características

estruturais diferentes das das línguas europeias, impedia a comunicação

e a indispensável recolha de informação sobre terras e gentes.

Em 1456, no encontro que Cadamosto relatou nas Navigazzione, a rudimentar

comunicação por gestos mais não conseguiu do que pequenas trocas:

«Vendo que estávamos num país novo e não podíamos ser entendidos, concluí

mos que era escusado ir mais adiante, porque julgávamos que teríamos

encontrado continuamente novos modos de falar e que, posto que não po -

de ríamos compreender estas linguagens, se não podia fazer coisa boa.»

Urgia, assim, encontrar um instrumento de contacto mais eficaz: a captura

de nativos a quem se ensinasse o Português e que «depois de aprenderem a

lín gua, costumes e tenção d’El Rei e do Reino de Portugal, tornariam em

suas terras, e por seu meio as coisas de uma parte e da outra se poderiam

bem comunicar: porque de outra maneira, segundo a diversidade de Lingua

não era possível». Em 1453, no período inicial da expansão, Zurara enuncia

nestes termos, na Crónica dos Feitos da Guiné, uma linha programática que

se tornaria central para o avanço da expansão – permitindo a recolha de

informações, os contactos diplomáticos, militares e comerciais. O sucesso da

empresa dos descobrimentos assentou pois, parcialmente, na aprendizagem

do Português por falantes estrangeiros – os escravos-intérpretes – os turgi-

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mões e, mais tarde, os línguas africanos livres e os jurubassas do Oriente 29 .

Do Português que falavam não temos notícia, mas encontrar-se-ia provavelmente

muito próximo do Português falado pela população negra em

Portugal, nos séculos XV e XVI 30 .

Fortalezas, entrepostos e feitorias

Ao longo das costas de África, do Brasil e da Ásia, os Portugueses foram estabelecendo

núcleos populacionais estáveis, a cujo carácter militar se sobrepôs,

com o desenvolvimento do comércio, uma componente urbana e social de

carácter civil.

Dentro das fortalezas e cidades muradas, em redor de feitorias e entrepostos,

cresceram povoações de tipo diverso e com uma população mista de portugueses

e nativos. Muitas delas, sobretudo as maiores, reproduziam no seu

planeamento físico os espaços seculares e religiosos do Portugal europeu: as

praças, o hospital, a Misericórdia, a catedral, as igrejas e capelas, os cemitérios,

o edifício da Câmara.

Em termos linguísticos, a realidade era bem menos parecida com a do Reino. O

contacto quotidiano entre falantes de línguas muito diversas – portu gue ses, es -

cravos e habitantes nativos – levou à criação de um pidgin, permitindo a comunicação

mínima que a coabitação e o comércio exigiam. A prá tica linguística do

bazar invadiu também o espaço doméstico dos Por tu gueses. A presença raríssima

de mulheres europeias na emigração para o Im pé rio forçou os ho mens a

casamentos interétnicos ou ao concubinato com mulheres nativas. Ao aprenderem

a falar, os filhos destas uniões ouviam à sua volta uma comple xidade de

modelos linguísticos, nem sempre claros e por vezes reduzidos – o Português do

pai, a língua nativa da mãe, o Pidgin em que ambos comunicavam, a fala dos

escravos, as línguas nativas de vizinhos e conhecidos, a fala igualmente diferente

das outras crianças. De tudo isto, as novas gerações construíram uma língua

materna diversa da dos pais, um crioulo doméstico que, com o tempo e as gerações

seguintes, se tornou mais complexo e se alargou à comunidade.

Lançados, tangomas e grumetes

A existência de portugueses que viviam ao longo das costas e rios da Guiné

e Senegâmbia é atestada a partir de 1500. Aventureiros, desertores, degreda-


Saleiro com figuras de Portugueses.

século XV- XVI. Benim.

The Metropolitan Museum of Art.

dos, fugidos à justiça, comerciantes

contrabandistas, cristãos-novos

e ju deus, os lançados ou tangomas

consti tuem uma presença significativa

como agentes económicos

no comércio português da expansão.

«Metidos pelos matos.... tratando

com os negros», os lançados

portugueses nativizam-se, afri canizam-se,

para desprazer da Co roa e

escândalo de missionários:

Uma sorte de gente que ainda que na

na ção são portugueses e na religião ou

Bap tis mo cristãos, de tal maneira po -

rém vi vem, como se nem uma cou sa

nem outra foram: porque muitos

deles andam nus e para mais se acomo

darem e com o natural usarem

como os gentios da terra onde tra tam,

riscam o corpo todo com um ferro,

ferindo-o até tirarem sangue e fazendo

neles muitos lavores... como de lagostas,

serpentes ou outras [figuras] que

mais querem. E desta maneira andam

por toda aquela Guiné tratando e

comprando escravos, ...andando tão

esquecidos de Deus e da sua salvação

como se foram os próprios negros e gentios da terra, porque andam nesta vida

os vinte anos sem se confessarem nem se lembrarem d’outra vida nem mundo,

mais que disto cá 31 .

Vivendo em relações poligâmicas com mulheres nativas – as tangomas,

gerando nelas uma prole numerosa – os filhos da terra, rodeados de auxiliares

nativos – os grumetes ou grumetos negros –, os lançados constituíram, à

mar gem dos fortes e feitorias sob jurisdição portuguesa, uma rede de comunidades

em que a assimilação cultural dos brancos teve como contrapartida

a assimilação linguística das aldeias e povoações que os seus núcleos domésticos

formavam. Do Português simplificado que falariam com grumetos e

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tangomas terá surgido um pidgin – um dos componentes possíveis na formação

da nova língua materna que a sua descendência falava.

Os escravos

Transformados em mercadoria apetecível pelas economias europeias, que se

desenvolveram com a expansão, os escravos africanos foram desde cedo um dos

factores determinantes no estabelecimento português no continente africano.

Em Portugal, onde «pululam por toda a parte» (Clenardo, 1553), e no

Oriente, foram sobretudo utilizados nos serviços agrícolas e nas tarefas

domésticas. Em África (em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) e nas

Américas, eles constituíram o suporte de uma economia de plantação, caracterizada

em geral por um regime de monocultura e de mão-de-obra intensiva.

A deslocação forçada de milhões de africanos, iniciada no século XV

pelos europeus, assumiu traços de extrema violência física e social. O Padre

Fernando de Oliveira, na Arte da Guerra do Mar (1555), denuncia apaixonadamente

o tráfico negreiro:

Não se achará nem razão humana consente que jamais ouvesse no mundo trato

pú blico de comprar e vender homens livres e pacíficos, como quem compra e

vende alimárias, bois ou cavalos e semelhantes. Assim os tangem, assim os constrangem,

trazem e levam e provam, e escolhem com tanto desprezo e ímpeto,

como o faz o magarefe ao gado no curral.

Arrebanhados como animais, amontoados durante meses nos cercados das

feitorias africanas, transportados em condições desumanas, separados das

famílias, os escravos foram em norma sujeitos a uma outra violência ainda –

a do isolamento linguístico:

– nos entrepostos e feitorias, onde esperavam pelos navios e se misturavam

escravos das mais diversas origens e línguas;

– nos navios negreiros, cuja carga apresentava a mesma composição aleatória

de falantes;

– nas plantações de destino, por estratégia intencional dos donos das fazendas

e plantações, para quem a possibilidade de comunicação fácil entre os


es cravos aumentava o risco de revolta, risco que tentavam minimizar

adquirindo preferencialmente escravos de origens diferentes.

Encontravam-se assim criadas as condições para a criação de pidgins que as

gerações seguintes, nascidas em cativeiro, desenvolveriam como língua

materna, no cenário de economia de plantação que dominava no Atlântico.

Fazendas, roças e engenhos

A imensa maioria dos escravos africanos, trazidos dos entrepostos da África

Ocidental, destinava-se às fazendas, roças e engenhos das possessões coloniais

europeias, onde asseguravam todos os trabalhos agrícolas exigidos pela

monocultura – a limpeza e amanho da terra, o cultivo e a transformação da

cana do açúcar, do café ou do algodão, além da agricultura de subsistência e

das tarefas domésticas na casa dos senhores e dos capatazes brancos. De merca

doria, arrolado como «peça» nos manifestos dos navios negreiros, o escravo

passava a instrumento de trabalho, readquiria um nome, um espaço físico e

um espaço de sociabilidade. Perdia, no entanto, o seu nome original, a sua

sociabilidade de origem, a sua religião, pela imposição do Baptismo e, além

do mais, a sua língua materna.

O trabalho na fazenda (1816 a 1831).

Aguarela de Jean Baptiste Debret

447

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

448

Forçado a costumes e hábitos diferentes, a aculturação fazia-se segundo o

mo delo europeu. A diversidade de línguas africanas presente nas plantações

obrigou-os a criar um instrumento de comunicação, uma língua de contacto

inteligível também, ainda que rudimentarmente, para os brancos. O modelo

linguístico imposto era o da língua do senhor, modelo presente quotidianamente

(se não tivermos em conta um número significativo de proprietários

absenteístas) entre os escravos domésticos, mas praticamente ausente entre

os escravos que trabalhavam nos campos, cuja comunicação com o branco

se resumia às ordens do feitor ou do capataz e cujo convívio se circunscrevia

aos outros escravos. Na fase de aquisição da língua, as crianças das gerações

seguintes iriam ter de construir uma língua primeira funcional, a partir de

um input (aquilo que ouviam à sua volta durante a infância) extremamente

complexo – as variegadas línguas africanas dos pais e outros escravos, o

Pidgin trazido de África e utilizado nos longos meses de viagem, a língua

europeia dos senhores e capatazes, nem sempre coincidente no dialecto, já

que a diferente origem regional e estatuto social de uns e outros implicava a

existência de variedades fonética, morfológica e sintacticamente diferentes.

Na paisagem das plantações, fazendas e roças, surgia algo que se afastava dos

sistemas linguísticos em presença, uma língua nova, com estruturas gramaticais

novas e um léxico para os quais todos, em maior ou menor grau, tinham

contribuído – uma língua crioula.

Os escravos fugidos

A vida dos escravos africanos em muitas das plantações europeias de África

e das Américas era «dura, brutal e curta» estimando-se a esperança média de

vida de um escravo, em algumas regiões das Américas, de sete a dez anos

após a chegada à plantação.

Um relatório destinado à Companhia Holandesa das Índias Orientais descreve

as condições de trabalho nos engenhos de açúcar do Brasil, no início

do século XVII: «É tão grande o trabalho que se chama a um engenho destes

in ferno, e somente semelhante gente como são estes negros o podem

aturar.»

A necessidade de controlar pelo terror a população negra da fazenda ou da

roça, largamente maioritária em relação aos brancos residentes, e a tentativa


de aumentar os lucros da exploração pelo pouco gasto em mantimentos,

roupa ou habitações, explica, até certo ponto, a crueldade das condições de

vida impostas aos escravos. Sem alternativas, alguns deles resistiam, revoltando-se

e fugindo, acabando por formar comunidades isoladas em locais

inacessíveis, no interior do mato, onde a vida comunitária se organizava em

quilombos ou mocambos, reforçados de tempos a tempos por novas vagas de

fugitivos. Sobreviviam da recolecção, da caça e de uma agricultura de subsistência,

recorrendo em épocas de fome aos assaltos às fazendas. A incipiente

aculturação linguística, iniciada nos entrepostos negreiros e continuada nas

fazendas, ofereceu-lhes uma língua comum, que construíram a partir do

Pidgin aprendido antes da fuga. Mais próxima das línguas africanas no léxico

e em alguns traços fonológicos, a língua destas comunidades encontra a sua

expressão actual em dois crioulos:

– o saramacano, língua dos escravos fugidos na Guiana Holandesa (o actual

Suriname), onde a base portuguesa do crioulo se explica pelas numerosas

plantações de judeus portugueses vindos do Brasil, aquando da expulsão

dos Holandeses;

– o angolar, em São Tomé, língua formada a partir de um lendário núcleo

de escravos naturais de Angola, salvos na década de 1540 de um naufrágio

junto à costa sul da ilha, núcleo que nesse século e nos seguintes foi

engrossando com escravos fugidos dos cerrados negreiros e com os «negros

alevantados» das roças são-tomenses.

As línguas crioulas da Ásia

Na Ásia, o contexto social que levou à formação de línguas crioulas foi substancialmente

diferente. A escravatura, que nas economias de plantação do

Atlântico desempenhou um papel determinante, não teve no Índico a

mesma relevância no processo de formação dos crioulos, ainda que os escravos

tenham contribuído, como vimos, para a difusão da lingua franca. O

comércio, e não a exploração agrícola, foi o motor da economia do Estado

da Índia:

Quase todos os Portugueses da Índia, na medida das suas possibilidades, se de -

di cavam ao comércio: mercadores de profissão, «casados» ou fronteiros das

449

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

450

nossas praças, oficiais de Sua Alteza, homens de armas, «chatins» – soldados

que haviam trocado o ofício das armas pela mercancia –, etc. 32

As novas línguas nascem aqui num contexto de domesticidade, numa sociedade

de habitação, no meio das comunidades euro-asiáticas que se foram

constituindo nos centros urbanos em que os Portugueses se estabeleceram.

A população escrava, utilizada aqui essencialmente nos trabalhos domésticos,

é parte integrante, mas não exclusiva nem sequer maioritária (ao contrário

do que acontecia nas sociedades de economia de plantação do Atlân -

tico), desse contexto doméstico.

Aqui irão ser as mulheres e os seus descendentes luso-asiáticos a representar

o papel fundamental na subversão do Português e na criação de culturas

crioulas.

As mulheres 33

Família Indo-Portuguesa. Códice Casanatence

Com uma população europeia calculada, para o início do século XVI, entre

um milhão a um milhão e meio de habitantes, a escassez de meios humanos,

em conflito com as necessidades das vastas áreas sob o seu controlo, poderia,


a prazo, destruir o sonho de um Império que se estendia através dos oceanos.

A única política exequível para obviar a tais deficiências era a de criar

uma população leal, ligada aos Portugueses pela religião, pela cultura e pelo

sangue. Os perigos das longas e arriscadas viagens marítimas para o Oriente,

o clima, hostil aos europeus em muitas áreas, as insalubres condições de vida

do período inicial, quando nos territórios por eles controlados se vivia em

estado de guerra semipermanente, impediram a ida em números significativos

e, menos ainda, suficientes, de mulheres portuguesas para o Oriente. Os

Portugueses teriam de recorrer a outras estratégias na formação de um «mercado

matrimonial» onde pudessem escolher parceiras para suprir a falta de

mulheres portuguesas. Essas estratégias iriam resultar na formação de uma

população portuguesa estabelecida localmente, estável e de crescimento

exponencial, os «casados», que iriam constituir o núcleo fundador das comunidades

crioulas.

Das mulheres destes «portugueses» e destes «casados» quase nada se diz na

historiografia da expansão. Exceptuam-se, previsivelmente, alguns «vultos fe -

mininos ilustres» e as mulheres dos governantes da Índia, dos vice-reis, governadores

e conselheiros de governo. Cunha e Monteiro (1995) investigaram,

para o período de 1505 a 1834, a caracterização social, as origens sociais e as

trajectórias, os casamentos e laços de parentesco dos titulares dos mais altos

cargos do Estado da Índia, detectando uma clara diferenciação entre o grupo

dos vice-reis e os dos governadores militares e conselheiros, todos eles vindos

do Reino e pertencentes à elite nobiliárquica portuguesa: ainda que todos

eles tenham casado dentro da elite social a que pertenciam, os vice-reis casavam

fora da Índia com filhas de Grandes, «no cume da pirâmide nobiliárquica

do Reino» 34 , enquanto os governadores casavam quase sempre na

Índia e aí se fixavam, assumindo o estatuto de «casados» 35 .

Com quem casavam então os súbditos de El-Rei que não pertenciam aos es -

tratos hierárquicos superiores: os reinóis, tornados indiáticos, e os filhos da

terra, nascidos de pais portugueses, nas Índias, ao longo destes dois séculos?

Se analisarmos a composição do mercado matrimonial à sua disposição, no

contexto social deste período, verificaremos que as parceiras disponíveis se

distribuem pelos grupos seguintes:

A) As mulheres vindas do Reino. Sabemos que, pelo menos para as élites, era

desencorajado o casamento na Índia, sancionado pelo poder real, pelo

451

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

452

receio suspeitoso dos malefícios de um excessivo enraizamento nas colónias.

As dificuldades da viagem para as Índias: a duração das viagens, o perigo de

intempéries e naufrágios, a promiscuidade inevitável no espaço reduzido das

naus, que também se traduzia em condições de alimentação e higiene especialmente

insalubres 36 , desencorajavam a ida de mulheres «honestas», ainda

que os relatos nos falem da existência de «clandestinas», na sua maioria de

«costumes duvidosos», cuja presença a bordo foi objecto de severas e repetidas

medidas repressivas.

Na rara literatura histórica sobre a colonização feminina no Estado da Índia

tem-se invocado, por vezes, a relevância do envio, patrocinado pelo poder

régio, de mulheres órfãs (as «órfãs d’El Rei»), degredadas e prostitutas (as

«con vertidas») 37 . Boxer (1963, 1965), e sobretudo Coates (1995, 1998), refutam

convincentemente a relevância do papel destas mulheres na composição

étnica da população colonial, pelo seu número reduzido e pelo seu destino

mais habitual, bem documentado, os conventos de Goa.

B) As nativas. Também aqui o imaginário popular sobre a expansão privilegiou

durante muito tempo o papel de Afonso de Albuquerque na criação de

uma política de casamentos inter-raciais 38 , que incentivava o casamento com

mu lheres de casta alta, «muy alvas e de bom parecer», convertidas ao Crist ia -

nismo 39 . A verdade é que as ligações sexuais com nativas, numerosas sem

dúvida, se concentravam num contexto extramatrimonial de concubinato.

A «licenciosidade» da libido lusitana é alvo de críticas recorrentes dos

religiosos:

Sam muitos e muitos e muitos casados que tem quatrro, outo e dez escravas e

dormem com todas, e se sabe isto publycamente. Há tanto isto, que se achou

hum em Malaque que tinha vinte e quatro mulheres de varias castas, todas suas

cativas e todas husava 40 .

As uniões com escravas ou nativas convertidas 41 contribuíram, sem sombra

de dúvida, para a miscigenação da população colonial. Mas a preferência dos

que pretendiam instalar-se nos territórios do Estado da Índia e obter o estatuto

de «casados», e para os quais o casamento (e sobretudo o dote da noiva)

era uma das estratégias para o sucesso económico, ia para as filhas dos indiáticos

e para as eurasiáticas, fruto dos casamentos mistos dos «casados» filhos da

terra, mulheres que, no dote, levavam também uma língua materna crioula.


Mulher macaísta com livro de missa. Álbum do Comandante Filipe E. de Paiva, 1903.

Sociedade de Geografia de Lisboa

Não existem estudos que nos revelem dados sobre a intensidade e a direccionalidade

dos casamentos com eurasiáticas no espaço abrangido pelo

Estado da Índia. A circulação de homens nas redes do Império possibilitava,

sem dúvida, o contacto necessário para a criação do mercado matrimonial e

para a circulação das mulheres. As genealogias das famílias «tradicionais»

indo-portuguesas e macaenses, publicadas há alguns anos 42 , mostram a im -

por tância dessa circulação de mulheres, entre Macau e Goa, e entre Malaca

e Macau. Graciete Batalha (1965-1966, 1988) defende, com base na análise

do léxico e da sintaxe dos crioulos destas duas comunidades, a origem do

crioulo macaense nas uniões com mulheres eurasiáticas de Malaca e com

malaias, trazidas também como escravas ou servas. Ana Maria Amaro (1988)

analisa as referências históricas à origem étnica dos Macaenses e conclui que

as mulheres eurasiáticas da Índia e de Malaca terão constituído o elemento

crucial na formação da comunidade dos «filhos de Macau».

453

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

454

Esta opção preferencial por um segmento específico nos contextos matrimo -

niais disponíveis assenta em três elementos caracterizadores das eurasiáticas:

têm sangue europeu (mesmo que diluído); são filhas de «casados», com o

atractivo financeiro do dote e das redes de parentesco e de relacionamentos

sociais, políticos e comerciais dos futuros sogros; são nascidas e educadas em

lares de religião cristã e de cultura portuguesa (europeia) ou, pelo menos,

com um grau de aculturação significativo.

São estas eurasiáticas «viajantes», com o crioulo materno na bagagem, que

irão fazer parte dos núcleos familiares «fundadores» dos crioulos de base portu

guesa no Oriente, ao transmitirem aos filhos, na fase de aquisição, a sua

língua «portuguesa». Mas a subversão linguística por via feminina não irá

apenas afectar os lares dos Portugueses estabelecidos nos territórios do

Estado da Índia

A mesma estratégia matrimonial é continuada pelos Holandeses da Com pa -

nhia Unida das Índias Orientais após a conquista das possessões portuguesas

do Ceilão e de Malaca. Menos inclinados ainda do que os Portugueses a

uniões legítimas com nativas e enfrentando as mesmas dificuldades em relação

à emigração de mulheres europeias, o casamento com eurasiáticas de

origem portuguesa, com uma medida de sangue e comportamentos culturais

europeus, e além do mais cristãs (a conversão à fé dos maridos não lhes seria

difícil), permitia-lhes alargar o seu mercado nupcial, criando também, deste

modo, uma nova reserva para o casamento dos Holandeses noutros estabelecimentos,

em Java (Batávia) e noutras ilhas do Arquipélago – as filhas das

uniões entre holandeses e mulheres luso-asiáticas.

O recurso holandês a este contexto matrimonial está abundantemente referido

nas fontes históricas holandesas e nas análises dessas fontes 43 : «In the

towns and strongholds which the Dutch took from the Portuguese there were [...]

a large number of Portuguese women, both of pure and mixed descent, with

whom many of the Dutch intermarried» 44 .

Veja-se o caso específico de Colombo: «Within a couple of months of the capture

of Colombo, some hundred and fifty Dutchmen contracted marriages with

women from Colombo» 45 .

As fontes históricas são também abundantes para o período holandês de

Malaca. O relatório do governador Schouten, após visita a Malaca recém-


-con quistada, aponta para a activação imediata desta estratégia matrimonial,

nos dias que se seguiram à tomada da cidade. A 2 de Junho de 1641, do -

min go, o recém-chegado pároco Loosvelt «performed the marriages of Sa banb -

dhaar Jan Jansz Menie to Dona Isabella da Mora, widow of Manuel da Roger

who was the “Tommagon” of this city; and Roelop Manningsz Shaep, upper-merchant

to Jeronima da Mato – widow of Juan Fernandez, a Portuguese merchant»

46 .

Um édito holandês de 1617 decretava que os burghers holandeses (uma etiqueta

equivalente, em certa medida, aos «casados» portugueses) não poderiam

casar sem o consentimento dos oficiais locais da Companhia das Índias

Orientais, e apenas com mulheres asiáticas ou eurasiáticas 47 .

Prova da generalização de tais casamentos e dos seus efeitos linguísticos

encontra-se na promulgação frequente, ao longo do tempo, de Plakats das

au toridades da Companhia, sancionando o uso do crioulo português nos

lares holandeses. Ryklof von Goens, governador do Ceilão, promulga um

deles em 1659, com aplicação em todos os estabelecimentos da Companhia,

or denando a abolição da Portugees Spraak, pois o uso do crioulo se estendia

a muitas das famílias holandesas e as crianças não aprendiam bem a língua

dos seus pais. Ordenava-se igualmente que se castigassem os escravos que

não soubessem falar holandês 48 . Plakats sucessivos em Batávia determinam

me didas semelhantes, incluíndo a prescrição de que as mulheres asiáticas e

eu rasiáticas com quem os «burghers livres» se pretendiam casar deveriam ter

um conhecimento razoável do Holandês e não apenas do «Português» 49 .

A estratégia matrimonial acima descrita não deixou incólumes as línguas

europeias no Oriente. No caso português, ela constitui um dos vectores de -

ter minantes a ter em conta na análise da formação dos crioulos do Oriente,

em que o contexto doméstico de coabitação é a norma, ao inverso dos crioulos

do Atlântico, surgidos num contexto de exploração colonial de tipo

diverso, baseada numa economia de plantação e numa mão-de-obra intensiva

e escrava 50 . No caso holandês, a estratégia nupcial descrita não levou à

formação de qualquer crioulo de base holandesa, mas sim à adopção de um

crioulo de base portuguesa, já consolidado, como língua da casa de muitas

das famílias coloniais no Ceilão e em Java. Nicolas de Graff relata o que

encontrou na cidade de Batávia, durante as viagens que realizou entre 1639

e 1687:

455

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

456

Die Kinder der Holländer sind lieber mit den Sklaven als mit ihren Eltern zusammen.

Von jenen lernen sie Malabarisch, Bengalisch und das verdorbene Portu -

giesisch; daher können sie, wenn sie grösser geworden sind, auch kaum ein Wort auf

gut Holländisch sagen 51 .

A cristianização

A miscigenação, no entanto, não encontrou, por razões várias, o sucesso que

permitiria a criação de uma população leal demograficamente relevante,

ligada aos Portugueses por laços de sangue. Ter-se-ia que consegui-lo a partir

da criação de outros laços, os laços de fraternidade numa mesma religião.

Daí que o investimento na conversão das populações locais tenha sido,

desde o início, muitíssimo maior no Oriente do que na zona Atlântica, onde

o comércio localizado em entrepostos fixos, as contradições da escravatura

(como justificar a escravização de um irmão em Cristo?) e a economia de

plantação irão determinar coordenadas de contacto cultural diversas das do

Índico e do Pacífico.

O caso do Sri Lanka é notável,

pela exemplaridade das e -

stratégias de conversão utilizadas,

pela escala da conversão,

pelos efeitos que a aculturação

por via da conversão teve

e pela persistência desses efeitos

mesmo em zonas não do -

mi nadas pelos Portugueses,

onde a miscigenação não po -

de ser invocada, e muito para

além da retirada do modelo

português, século e meio após

a sua chegada à ilha.

«Ao serviço de Deus e sua

Alteza», expressão que ocorre

repetidamente nos registos

missionários da época, as or -

dens religiosas missionárias

Altar cruzeiro de Damão.

Foto de Maria Isabel Tomás


chegam ao Ceilão por ordem de D. João III, em resposta a um pedido do rei

de Kotte, em 1542, que explicitamente menciona os Franciscanos. É a elas,

mais do que aos padres seculares, que se deve o esforço de evangelização no

Sri Lanka.

Nesse esforço de evangelização encontraremos as estratégias várias utilizadas

na conversão das populações nativas, não obstante a insistência da teologia

cristã na livre aceitação do Baptismo, como condição de validade do Sa cra -

mento: a intimidação pela violência, com destruição de templos e símbolos

religiosos, e medidas repressivas contra aqueles que recusem a conversão; a

concessão de favores e privilégios como isco para a conversão; o assédio religioso

de príncipes e notáveis, cuja conquista para o Cristianismo facilitaria a

conversão das massas. O religioso e historiador do Sri Lanka, Don Peter,

traça, numa obra exaustivamente documentada, Education in Sri Lanka

under the Portuguese (1978), o quadro da acção religiosa dos Portugueses na

ilha. Cinco anos após a expulsão dos Portugueses pelos Holandeses, um Do -

mi nicano de origem ceilonesa escreve, em carta à Congregação da Pro -

paganda Fide, em Roma, que «os cristãos são tão numerosos que só no reino

de Jaffnapatão existem mais de oitenta mil. No resto da ilha, são mais de

150 000» 52 .

Uma crónica ceilonesa da época, o Rajavaliya, aponta a cobiça dos naturais

como responsável pelo sucesso dos missionários: «Os notáveis da cidade de

Kotte, cobiçando a riqueza dos Portugueses, e muita gente de casta baixa [...],

casaram com os Portugueses e converteram-se à sua fé» 53 . Em particular para

as classes mais altas, a cultura ocidental, no modelo português que lhes era

pro posto, permitir-lhes-ia aceder a um status social superior, numa sociedade

cuja estratificação social tradicional, baseada num sistema de castas, fora profundamente

transtornada pela abrupta superimposição de um estrato alienígeno,

o do poder colonial português. Uma mesma motivação de acesso a

uma cultura europeia, que a força das armas impunha como superior, leva os

príncipes, mesmo os que pelas armas também resistiam aos Portugueses, a

entregarem o ensino dos seus filhos a padres e missionários portugueses.

A religião agressivamente espalhada é uma religião de rosto europeu, ou

melhor, de rosto português, cujos preceitos doutrinários, sobretudo na estipul

ação dos comportamentos sociais e culturais, surgem no Sri Lanka na

forma cristalizada no reino português. É uma religião que fala português,

457

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

458

não obstante a atenção dada pelos missionários às línguas nativas (são eles os

au to res dos primeiros dicionários). O ensino formal acompanha o ensino

dou trinário, catequético, e nos vários níveis, da educação infantil ao ensino

superior, procura-se transmitir uma competência na leitura e escrita do

Português. Se atentarmos nos dados que Don Peter apresenta para as escolas

paroquiais e colégios ligados às ordens religiosas, o Ceilão da época apresentava

uma cobertura geográfica e quantitativa notável.

O Ceilão tinha assim, ao tempo da conquista holandesa (1658), uma população

nativa que nas zonas litorais se convertera ao catolicismo em números

significativo. Em 1681, Robert Knox escreve: «The sea-coast round about the

Island was formerly under their Power and government, and so held for many

years, in which time many of the natives became Christians, and learned the

Portuguese tongue» 54 . A persistência desta língua «portuguesa» an corava-se

num sentimento de lealdade linguística, de pertença a uma identidade portuguesa

simbólica e mítica, reforçada pelas etiquetas étnicas que Ingleses e

Holandeses persistiram em usar. Uma das Cantiega de Purtugiese, recolhidas

no Ceilão nas décadas de 1870 e 1880, por Hugh Nevill, um oficial da administração

colonial inglesa, dá voz a esse sentimento:

Sie kere canta

Canta dratoe purtugies

Numiste canta

Mallaye landes.

Se queres cantar

Canta direito português

Não deves cantar

Malaio ou holandês 55 .

Em 1890, ainda se publica em Colombo um periódico em crioulo do

Ceilão, O Bruffador 56 , onde, no exemplar de 5 de Março de 1898, se escreve:

«Nos ta publica iste novo papela de novas em lingua Portuguez pera satisfazer

muito pesans quem te usa iste lingua.» E em 1914, publicam-se em Colombo

as Cantigas ne o lingua de Portuguez 57 , revelando um reconhecimento continuado

da existência de falantes da língua.

Esta continuação, séculos após a saída dos Portugueses do Ceilão, de marcas

da língua e da cultura portuguesa, aquilo a que poderíamos chamar a pre-


sença oculta 58 de Portugal, só pode ser explicada pela intensidade de uma

aculturação que se enraíza no período português, através do contacto íntimo

com a cultura e a língua, próprio das relações de coabitação, nas situações

do mésticas em que se encontravam esposas, concubinas, criados e escravos;

do recrutamento intensivo dos naturais para o exército português, e da relação

de poder em que a burocracia administrativa portuguesa se encontrava

face às populações locais, justificando, por si só, a persistência de uma cultura

e língua crioulas durante o período de contacto com outras línguas e

culturas europeias – a holandesa e a inglesa, resistindo hoje em bolsas reduzidas

e concentradas geograficamente (Trincomalee e Batticaloa). Também

só uma aculturação generalizada poderá explicar a sobrevivência nas línguas

e culturas do Sri Lanka moderno de elementos culturais e linguísticos com

origem no Português.

A polinização cultural e linguística

Os diferentes contextos socioeconómicos da expansão no Atlântico e no

Índico (e Pacífico) determinariam, por sua vez, características diferentes nas

línguas crioulas de base lexical portuguesa a que deram origem.

No caso português e, em especial, no Brasil, em São Tomé e na ilha de

San tia go, a colonização assentou numa economia agrícola, de latifúndio

e mo nocultura, com a consequente estabilização da população o que,

a longo prazo, permitiu a especiação de cada uma das línguas crioulas,

um processo em que a diversa composição linguística a nível de substratos

e adstratos, os contactos linguísticos posteriores e a composição social e

étnica específica de cada uma delas, contribuíram para uma maior diferenciação

entre si, pesem embora as similitudes evidentes, que terão de

ser assacadas à presença em todas elas do lexificador europeu comum – o

Português.

Na zona atlântica, um proto-pidgin português, originado nas feitorias e entrepostos

do litoral africano, viajou a bordo dos navios negreiros, explicando a

existência de palavras de origem portuguesa nos crioulos com base lexical

noutras línguas europeias (espanhola, francesa e inglesa) nas Caraíbas e a

América do Norte 59 (em particular no Gullah, no litoral da Carolina do Sul

e da Geórgia).

459

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

460

No Oriente, onde o comércio foi o empreendimento económico determinante

na sociedade portuguesa asiática, esta era tendencialmente menos

estável, deslocando a sua residência para onde quer que as oportunidades

comerciais fossem mais prometedoras.

A empresa comercial portuguesa apresenta ainda uma outra característica

que a diferencia dos seus concorrentes europeus no Índico – uma interacção

ass ídua com os naturais. Um viajante francês do início do século XVII,

Pierre de Laval, reconhece essa sociabilidade pragmática dos Por tugueses,

com consequências na intensa troca linguística que aqui tentamos descrever:

Os Portugueses tiram um espantoso lucro em toda a parte da Índia, onde têm

entrada. Associam-se com os naturais, que os acompanham em suas navegações,

e até todos os seus marinheiros e pilotos são índios, gentios ou mouros 60 .

À existência de uma população flutuante de soldados, missionários, clérigos

e comerciantes que, de uma possessão portuguesa migravam para outra em

busca de fortuna, acrescia um outro factor responsável pela migração intracontinental:

as viagens por mar estavam condicionadas pelo regime de monções,

o que obrigava as naus

a esperarem pelos ventos fa -

vo ráveis num qualquer porto

de origem ou de escala,

forçando sazonalmente centenas

de por tugueses das

Índias a uma residência temporária,

mais ou menos alargada,

numa outra cidade,

num outro porto. A circulação

de bens e pessoas que a

Carreira da Índia instaurou

contribuiu assim para uma

circulação de ideias e de for -

mas linguísticas e culturais,

de Goa para Malaca, de Ma -

la ca para as Molucas, do Cei -

lão para Cochim, de Macau

para Goa. A emigração for-

Janela de Goa, com «carepas», lâminas de madrepérola.

Foto de Maria Isabel Tomás


çada de numerosas famílias, de Malaca para outras possessões portuguesas,

após a ocupação holandesa, e a circulação de mulheres de famílias luso-

-asiáticas, a quem as vantagens do sangue e da cultura portuguesa acrescentavam

mais-valia no sempre escasso mercado matrimonial, constituíram

factores adicionais de polinização entre as línguas crioulas no Oriente.

As semelhanças lexicais e estruturais dos crioulos do Índico e do Pacífico

devem-se, assim, não a um putativo proto-pidgin trazido de África, que

teria estado na origem de todos os crioulos de base portuguesa, mas sobretudo

a uma recíproca transfusão parcial, nas palavras de Sebastião Dalgado

(1917):

Tais similitudes não se podem justificar, na sua totalidade, pela identidade de

pro cessos evolutivos, determinados pelas mesmas leis psicológicas e fisiológicas,

nem pela afinidade das línguas do solo onde germinaram. É necessário, além

disso, admitir frequente contacto dum com outros e recíproca transfusão parcial,

proveniente da constante migração da grande parte dos indivíduos que os

falavam (in Dialecto Indo-Português de Negapatão, 1917).

Mas a polinização linguística não se deu apenas de um crioulo português

para outro. O contacto linguístico neste período atingiu também as outras

línguas europeias, quer por coincidirem num mesmo espaço, utilizando

como língua de contacto a lingua franca «portuguesa», o que inevitavelmente

levou à transferência de alguns vocábulos para o uso local do Inglês, do Fran -

cês ou do Holandês, de onde passaram para a Europa, quer através do em -

préstimo directo, fruto do comércio português com os países europeus, onde

a importação dos novos produtos ou conceitos eram acompanhada da im -

portação dos vocábulos que os nomeavam.

A consulta breve de um qualquer bom dicionário etimológico de inglês ou

de francês revela esse papel de mediação que o Português teve no período

que se seguiu à expansão:

Português banana, francês banane, inglês banana (presumivelmente de

origem africana ou árabe); port. carambola, fr. carambole, ingl. carambola (do

concani-marata karambal); port. palanquim, fr. palanquin (do sânscrito paryank

ou palyanka); port. cairo, fr. caire, (do malaiala-tamul kayuru, «corda»);

port. caixa, ingl. cash (do dravídico k su, «moeda oriental»); port. mandarim,

fr. mandarin, (do malaio m ntri, «conselheiro, ministro»); port. bambu, fr.

bambou, ingl. bamboo (do marata b mb).

461

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

462

Frutos como o caju, a manga, especiarias como a canela e o caril, produtos

como o betel, a areca e a copra, madeiras preciosas, tecidos, animais exóticos,

partiam de Lisboa para a Europa, etiquetados em português. As descrições dos

novos povos e costumes, das drogas e simples, das desconhecidas configurações

sociais, os nomes e títulos de dignatários, templos e palácios, aci dentes

geográficos e topónimos espalham-se pelo Velho Mundo, im pondo noutras

línguas as designações que os Portugueses lhes tinham dado, na sua maioria

em «segunda mão», apropriadas de línguas africanas, orientais e americanas.

A influência das línguas de Além-Mar no Português

Lisboa, em meados do século XVI, transformara-se num enorme empório, a

que os produtos trazidos de África e da Ásia davam um ar de bazar oriental

à beira Tejo. Exibiam-se animais exóticos que, para os europeus, durante

séculos, não tinham passado de monstros míticos do bestiário medieval. Os

tecidos e tapetes do Oriente, porcelanas da China e do Japão, madeiras exóticas,

jóias, objectos de ouro, prata e marfim estavam à venda nas lojas da

Rua Nova dos Mercadores.

Um espanto maravilhado pela riqueza do Oriente, as artes sumptuosas da

China e da Índia, os objectos exóticos da Ásia e a miscelânea de estranhezas

que enchiam as lojas e ruas de Lisboa ecoa num poema do século XVI, de

Diogo Velho 61 :

Ouro, aljôfar, pedraria,

gomas e especiaria,

toda outra pedraria

se recolhe em Portugal.

Onças, liões, alifantes,

monstros e aves falantes,

porcelanas, diamantes,

é já tudo mui geral.

Gentes novas escondidas,

são a nós tão conhecidas

como qualquer natural.

Um Romance Indiático, incluído num manuscrito 62 do início do século

XVII, espelha no humor do sem-sentido dos seus versos a abundância, a


variedade e a acessibilidade dos produtos da indústria e da arte orientais na

vida dos habitantes de Lisboa:

Tenho três pardaus 63

e mais quatro tangas

tenho cinco mangas

e quatro cajus;

tenho dous baús

lavrados de ouro;

tenho um singidoiro

que passa das marcas;

tenho umas alparcas

que ajustam nos pés,

tenho uns sintonés

tudo em bazarucos 64 ;

tenho uns pantufos

lavrados de tela,

tenho uma sovela

de tirar ouções.

Tenho dois capões

lá no meu quintal;

tenho um didal

feito em Mangalor,

tenho um furador

de boa feição,

tenho um quimão 65

de branco e vermelho;

tenho um espelho

feito em Portugal.

Tenho de cristal

uma rica peça,

tenho de cabeça

um prego galante,

tenho um diamante

lavrado nas pontas.

Tenho duas contas

de peixe-mulher 66 ,

tenho uma colher

feita em Angola,

tenho uma viola

de tanger suave.

463

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

464

Tenho uma chave

que abre e não fecha

tenho uma flecha

para os passarinhos;

tenho cachorrinhos

brancos de Manilha;

tenho beatilha

fina de Chaúl,

tenho um baúl

de rico feitio;

tenho um assobio

que outro não há.

Tenho um alvá 67

que vem de Mascate,

Tenho um chiricate 68

de coser arecas,

tenho de marrecas

redes e armilhas

tenho umas pastilhas

de suave cheiro;

tenho um tabuleiro

de China dourado;

tenho um cadeado

que abre de pancada,

tenho marmelada

que vem de Ormuz;

tenho um arcabuz

de matar pardais,

tenho uns corais

de rica valia;

tenho uma bacia

de assar pastéis.

Tenho uns anéis

de ouro Stambaca;

tenho de Malaca

mui ricas atacas 69 ,

tenho três patacas

na minha gaveta,

tenho uma boceta

cheia de brinquinhos.

Tudo para vós

se quereis bem para mim!


O Romance Indiático revela-nos, paradigmaticamente, a outra face do contac -

to linguístico. O empréstimo nunca é, em situações de contacto prolongado

e intenso, unidireccional. As línguas em contacto influenciam-se reciprocamente.

E a necessidade de nomear foi particularmente intensa durante toda

a expansão: povos, costumes, religiões, flora, fauna, embarcações, tecidos

novos, medidas, pesos e moedas, tinham de ser registados nos roteiros e

relatórios.

Se em muitas situações se optou pela analogia como estratégia de nomeação:

uma vaga parecença na forma ou na cor com um fruto ou animal conhecido

na Europa ou encontrado em terras de Africa ou América iria sugerir um

nome – peixe-mulher; coco, açafrão da terra, figos da Índia 70 –; as propriedades

de determinada planta, o seu sabor ou cheiro característicos – amargoseira,

fruta estrelada, pau-rosa –; o lugar de origem de um produto iria encontrar

um lugar no novo nome – ouro de Stambaca, beatilha de Chaúl, na maior

parte dos casos, no entanto, adoptar-se-ia simplesmente o nome local:

Chamamos-lhe betre, porque a primeira terra dos Portuguezes conhecida foi o

Malavar... Todos os nomes que virdes, que nam sam portuguezes, sam malavares;

assi como betre, chuna, que he cal, maynato, que he lavador de roupa, patamar,

que he caminheiro, e outros muytos 71 .

Deste modo, os vocábulos estrangeiros e estranhos tornavam-se parte da linguagem

comum, assimilados no cerne lexical do Português.

E o sinal desta verdade, é que nam sómente temos vitória destas partes, mas

ainda tomamos muito vocábulos: como podemos ver em todolos que começam

em al, e em xá, e os que acabam em z, os quais sam mouriscos. E agora da conquista

de Ásia, tomamos, chatinar, por mercadejar, Beniaga, por mercadoria,

Lascarim, por homem de guerra, cumbaya, por mesura e cortesia: e outros vocábulos

que sam já tão naturais na boca dos homens, que naquelas partes andaram,

como o seu próprio português 72 .

A importação maciça de vocábulos orientais pelos que voltavam das Índias

tornou-se tão óbvia que os Portugueses do reino, confrontados não só com

novos objectos e conceitos, mas também com um dilúvio de novas palavras,

contra-atacam, disfarçando o desconforto com o sarcasmo. Em 1619, Fra n -

cisco Rodrigues Lobo critica acutilantemente a «indianização» linguística dos

indiáticos, homens fixados há longo tempo na Índia e muitas vezes aí casa-

465

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

466

dos, num ataque revelador da tensão social que, no reino e no Estado da

Índia, se instalara subterraneamente entre reinóis e indiáticos 73 :

Há alguns que colhendo na prática Ormuz, Malaca ou Sofala, não sabem dar

um passo sem palanquins, bajús, catanas, bois, larins e bazarucos; e outras palavras,

que deixam em jejum o entendimento dos ouvintes, sem os seus por isso

ficarem melhor acreditados 74 .

O ridículo e o sarcasmo não evitaram a invasão de palavras. Centenas de pa -

la vras sobreviveram à erosão do tempo e fazem ainda parte do uso quotidiano

75 : andor, pires, biombo, chá, bengala, bule, boião, catre, chita, quimono,

corja, pagode 76 , para lembrar apenas algumas das muitas que do Oriente chegaram;

cacimba, missanga, banzé, tanga, cachimbo, samba, banana, carimbo,

capanga, de origem africana; capim, jibóia, piaçaba, ananás, amendoim, jacaré,

goiaba, arara, pipoca, jacarandá, das línguas ameríndias do Brasil; batata,

cacau, tomate, vindas das Antilhas, através do espanhol.

Hoje, a viagem das palavras faz-se noutros sentidos, com outros actores, noutros

contextos. É o Inglês que, no século XXI, parece vir a impor-se como

nova lingua franca, transportada no bojo de caravelas invisíveis – o cinema,

a música, os media, as novas tecnologias, a expansão do comércio das grandes

multinacionais, os avanços científicos. Os falantes de português comuni -

cam agora, nos contextos de contacto linguístico com falantes de outras línguas,

em inglês, com maior ou menor competência (e, neste caso, poder-se-ia

dizer, reinventando individualmente um pidgin). São o turismo e a emigração

que motivam a circulação de falantes, em contextos sociais em que o Por -

tu guês não tem um papel dominante. Apesar disto, a língua portuguesa tem

ainda fronteiras imensas que extravasam o território de onde saíu no pe -

ríodo da expansão e é património de centenas de milhões de falantes. O seu

destino, as viagens que fará no futuro, dependerão dos seus falantes, do que

eles fizerem com ela. Já não João de Barros, mas um outro gramático português

do século XVI, Fernão de Oliveira, devolve-nos, em epílogo, o conselho

do autor das Décadas:

Não façamos assi; mas tornemos sobre nós, porque milhor é que ensinemos a

Guiné ca que sejamos ensinados de Roma, ainda que ella agora tevera toda sua

valia e preço. E não desconfiemos da nossa lingua porque os homens fazem a lingua,

e não a lingua os homens 77 .


Notas

1 Com a vénia devida a Nuno Júdice, cuja obra de 2005, A Viagem das Palavras. Estudo sobre

poesia, coincide no título.

2 Barros (1540, 1971, 120). Na mesma obra, Barros enaltece a supremacia do Português sobre

a língua latina: «Pai — Çérto é que nam {h}á i glória que se póssa comparár a quando os mininos

etíopas, persianos, indos, d’aquém e d’além do Gange, em suas próprias térras, na força

de seus templos e pagódes, onde nunca se ouviu o nome romano, per ésta nóssa árte aprenderem

a nóssa linguágem, com que póssam ser doutrinádos em os preçeitos da nóssa fé, que

néla vam escritos» (Ibidem, 119).

3 A frase, atribuída a Pompeu – Vivere non necesse, navigare necesse est –, aparece pela primei -

ra vez nas traduções latinas de Plutarco, na Idade Média.

4 O exame dos textos publicados, e são abundantes, permite afirmar que não se tratava de

um pidgin, mais ou menos reduzido. As características estruturais e lexicais deste «corrupted

Portuguese» apontam senão para um crioulo, pelo menos para um pidgin expandido, modelado

nos crioulos portugueses, um pidgin cujos domínios de uso se tornaram mais alargados

(com a subsequente complexificação estrutural), sobretudo com a obra de missionação dos

Ho landeses e Britânicos, que a ele recorreram e que foram responsáveis por grande parte das

publicações neste «Português corrupto».

5 Berrenger, 1811, 11.

6 Charles LOCKYER, 1711, An Account of the Trade in India, cit. em Yule & Burnell, p. xviii.

7 Alexander HAMILTON, 1727, A New Account of the East Indies, Edimburgo; C. Hitch & A.

Miller, p. xii.

8 S. G. PERERA, 1922, «Portuguese Influence on Sinhalese Speech», in Ceylon Antiquary and

Literary Register, vol. 8 (1), 47.

9 Sir James Emerson TENNENT, 1859, Ceylon: An Account of the Island, Physical, Historical

and Topographical, Londres; citado na edição de 1977, Colombo, Tisara Prakasakayo Ltd.,

p. 61-62.

10 Der Orientalisch-Indianische Kunst- und Lust-Gärtner ...; o diálogo referido foi transcrito

em Schuchardt, 1890, 11-14.

11 A ortografia arcaica utilizada neste diálogo obscurece a relação próxima com o Malaio-portu

guês, mais propriamente com um sistema crioulo que de Malaca se terá espalhado para sul

e sudeste até Macau, passando pelas Molucas e pelas Flores (Tomás, 2005). Algumas das

formas presentes neste excerto apontam para tal: a negativa nogke (nungka em Papiá

Kristang); a forma de futuro com a partícula lo – lo ande, equivalente à forma lo anda em

Papiá Kristang.

Tradução: Ore. — Boa sorte, camarada/ Orl. — Muito obrigado, camarada. Bem vindo aqui

a Java Maior ou Batávia / Ore. — Esta terra (é) muito quente / Orl. — Por causa do Sol que

muito queima […] Orl. — Melhor ainda, camarada. Vamos a uma casa (de comidas) chinesa

e mandamos (vir) arraca, uma boa salada com linguiça fresca./ Ore. — Como o senhor

quiser, Camarada. Eu tenho fome agora, hoje não comi muito.

467

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IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

468

12 Lodewyck DOMENICUS, 1780, Nieuwe Woordenshat. Uyt het Nederduitsch in het gemeene

Maleidsch en Portugeesch; citado em Schuchardt, 1890, 18.

13 Schuchardt, 1890, e Huet, 1909. Huet traduz para francês a fonte que Schuchardt também

utiliza, Oud en Nieuw Oost-Indië de Valentyn, 1724.

14 Essa circulação explicará também, segundo alguns autores (Hesseling, 1897; Kok, 1953;

Valkoff, 1966, 1967, 1970, 1975; Dias & Velozo, 1967-70], a formação do Afrikânder, através

de forte influência do Malaio-português.

15 Veja-se Daus, 1989.

16 A proveniência quase exclusiva da África Oriental dos escravos no Índico, durante os sé -

culos XVI, XVII e XVIII, parece desmentir convincentemente a teoria monogenética da

origem dos crioulos, nas suas várias versões. Esta teoria reclama um antepassado «genético»

comum para os vários pidgins e crioulos: um proto-pidgin de base europeia (para muitos, portuguesa)

que, no/e do Atlântico, se teria difundido para outros contextos geográficos da

expansão europeia. Assumindo que este proto-pidgin, nascido no Atlântico, teria sido levado

pelos Portugueses para a costa oriental de África e para as Índias, a influência das línguas da

África Ocidental teria de ser muito mais marcante nos léxicos da lingua franca, dos crioulos

do Oriente e nas transferências lexicais mediadas por essa lingua franca para outras línguas.

E esse não é o caso. Os vocábulos de origem africana nestes sistemas linguísticos são raros e

vindos sobretudo da África Oriental.

17 Jan Huygen van Linschoten, (1596), 1988, p. 193.

18 Ibidem.

19 SEN (ed.), Indian Travels of Thevenot and Careri, p. 187.

20 Letter from Malabar by Jacob Canter Visscher, translated from the original by Major Herbert

Durm, Madras, 1862, p. 32.

21 Introduzida provavelmente no Português pelo contacto com marinheiros e pilotos árabes

da costa oriental de África.

22 François Pyrard de LAVAL, 1615-16, Discours du Voyage des Français aux Indes Orientales,

Paris; citado a partir da tradução de 1858 de J. H. da Cunha RIVARA, Viagem, Nova Goa.

23 Boletim do Governo de Macau, n.º 30, 28 de Abril de 1862.

24 A ortografia holandesa, utilizada pelo correspondente de Schuchardt, dificulta a leitura

dos textos provenientes de possessões holandesas: oe deve ler-se u, nj, corresponde ao som

grafado nh em português.

25 Veja-se, para o contexto da importação de escravos africanos para a Ásia e as suas consequências

culturais: Jayasurya & Pankhurst, 2001; Jayasurya & Angenot, 2008.

26

BROHIER, Ibidem, 23. Veja-se também Hettiaratchi, 1969; Goonatilekka, 1974, 1983;

Jayasuriya, 2000.

27 Canções dos Kaffir do Sri Lanka encontram-se registadas no CD VSO2 Cantigas do Ceilão,

recolhidas e anotadas por Kenneth David Jackson, CD esse que faz parte da colecção «A

Viagem dos Sons», editada em 1998 pela CNCDP/Tradisom. A sua popularidade entre a

po pulação mais geral do Sri Lanka, com letras em singalês ou em tamíl, é confirmada pelo

nú mero de vídeos que uma pesquisa no You Tube (pesquisando, por exemplo, Sri Lanka


Baila) permite encontrar. Veja-se, para uma análise académica do fenómeno, Anne

SHERERAN, 1997, White Noise: European Modernity, Sinhala Musical Nationalism, and The

Practice of a Creole Popular Music in Modern Sri Lanka, Ph. D. dissertation, University of

Washington.

28 Entre eles, Hesseling (1897) e Valkhof (1996), e seguintes.

29 Sobre o papel dos línguas e jurubassas, veja-se Dejanirah COUTO, 2003, «The Role of

Interpreters, or Linguas, in the Portuguese Empire During the 16th Century», in e-JPH,

vol. 1, n. 1 (Winter 2003), URL: http://www.brown.edu/Departments/Portuguese_

Brazilian_Studies/ejph/.

30 A literatura portuguesa do século XVI, dos poetas do Cancioneiro Geral ao teatro vicentino

e aos autos de António Ribeiro Chiado, reproduz em abundância a maneira de falar da

po pulação negra em Portugal. Personagens pícaras por excelência, numa tradição literária

em que a diferença linguística era introduzida por razões estéticas e para conseguir efeitos

dr amáticos, a língua dos pretos, patente ainda nos entremezes de cordel do século XVIII,

reflectia a sua marginalização social e os estereótipos étnicos de comportamento e carácter

operantes na população branca em relação ao escravo africano. Reinterpretação estereotipada

de uma prática linguística, a regularidade dos traços linguísticos que evidencia, de obra

para obra, aponta no entanto para uma aproximação a uma linguagem real – a dos escravos

e dos negros livres. As suas características fonológicas e morfossintácticas coincidem perturbantemente

com alguns traços linguísticos que encontramos em vários estádios da evolução

dos crioulos portugueses.

31 Padre Fernão GUERREIRO, 1605, Relação Anual das Coisas Que Fizeram os Padres da

Companhia de Jesus nas Suas Missões.

32 Thomaz, 1994, 296.

33 A análise das condições de formação dos crioulos do Oriente segue de perto Tomás, 2005

(cap. III).

34 Cunha & Monteiro, 1995, 110.

35 Ibidem, 102.

36 Veja-se o artigo de Domingues e Guerreiro, 1989.

37 Veja-se Correia, 1960.

38 Política invocada vezes sem conta pela propaganda política do Estado Novo, como prova

irrefutável do caracter não racista dos Portugueses, esquecendo que Albuquerque, na famosa

Carta a D. Manuel, refere expressamente que não quer que os seus homens casem com «mu -

lheres negras» do Malabar.

39 Veja-se a refutação em Boxer, 1963, 77-78.

40 Comentário do jesuíta Nicolas Lanciloto (1550), citado em Boxer, 1963, 63.

41 Uniões legítimas, sobretudo no caso das noivas pertencentes à nobreza nativa, incentivadas,

a partir de certa altura, como estratégia de reforço das alianças políticas e comerciais

com os potentados locais. Veja-se o caso exemplar de Emanuel de Eredia, autor da De cla -

raçam de Malaca, filho do casamento entre uma princesa de Macassar e um fidalgo português.

Nos estratos sociais mais baixos, a união legítima tinha como condição necessária a

469

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

470

con versão das cônjuges. De notar que a conversão implicou também, a partir de certa época,

o aforramento das escravas e da sua prole.

42 Forjaz, 1996, e Forjaz e Noronha, 2000.

43 Veja-se, em particular, McGilvray, 1982, e Roberts et al., 1989.

44 Anthonisz, 1908, 30.

45 Gowanardena, 1959, 226.

46 Transcrito em Leupe, 1859, 65. De notar também a referência «Many Netherlanders married

Portuguese widows» (em itálico no original), p. 73.

47 Boxer, 1965b, 242.

48 Schuchardt, 1890, 2-4.

49 Boxer, 1965b, 243.

50 De salientar que a escravatura no Estado da Índia, ainda que envolvendo um número considerável

de escravos, foi utilizada, quase sem excepções, no serviço doméstico e como mão-

-de-obra auxiliar nos mesteres e no pequeno comércio.

51 Citado em Schuchardt, 1890, 8.

52 Citado em Don Peter, 1978, 64.

53 Ibidem, 71.

54 Robert Knox (1681), citado na edição de 1981, 257.

55 Jackson, 1996 (tradução portuguesa da obra em inglês de 1990), 138.

56 Publicado em 1883-1899 (?), Colombo, Wesleyan Mission Press.

57 Jackson, 2005, 101-121.

58 Tomás, 1992, e Jackson, 1995.

59 Sobre o proto-pidgin e a influência lexical do Português nos crioulos de base europeia não

por tuguesa, veja-se Keith WHINNOM, «The Origin of the European-Based Creoles and

Pidgins», in Orbis, XIV (1965), 509-527; J. L. DILLARD, «Creole English and Creole Por tu -

guese: The early records», in HANCOCK, Ian F. (ed.), Readings in Creole Studies, Ghent, 1979,

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Afri can Pidgin», in CORUM, Claudia et al. (eds.), Papers from the Ninth Regional Meeting of the

Chicago Linguistic Society, Chicago, 1973, 442-449.

60 François Pyrard de Laval (1615-1616); citado a partir da tradução de 1858, de J. H. da

Cunha Rivara, p. 363.

61 Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda,

1990, p. 464.


62 Biblioteca Nacional da Ajuda, Colecção Pombalina, N.º 133 Fl 125 v., transcrito em João

M. Pacheco de FIGUEIREDO (Filho), 1958, «“Romances Velhos” Indo-Portugueses», in Boletim

da Sociedade de Geografia de Lisboa, Separata (Out.-Dez.), pp. 323-36.

63 Pardao, tanga, bazaruco e pataca eram moedas em circulação no Oriente nos séculos XVI

e XVII. A pataca é, ainda hoje, a unidade monetária de Macau.

64 Antiga moeda da Índia portuguesa, pequena, feita de metais como cobre, estanho e chum -

bo, de valor variável e de etimologia incerta. Sinónimo do termo popular pataco.

65 Quimono, do japonês kimono.

66 Peixe-mulher – manatim, mamífero marinho das regiões tropicais, habitando no Atlântico

as zonas costeiras da Geórgia (EUA) até ao Estado brasileiro de Alagoas.

67 Alvá ou aluá – um doce que encontramos hoje, com variações locais, nas comunidades

crio las do Oriente. Do árabe al-halu ou al-hal uâ («doce açucarado»), através das línguas

indianas (alwa). Em português, o mesmo étimo deu origem a alféloa.

68 Chiricate ou chilicate – «tesouras para noz de betel». Do tamul siri-katti. No Papiá Kristang

de Malaca encontramos chircati – «tesouras para partir areca», do malaio chelekati, também

ele derivado do tamul.

69 Rendas.

70 Primeira designação da banana.

71 Garcia da ORTA, 1563, Colóquio de Betre; citado em Dalgado, 1919-1920, p. xxii (ff).

72 João de BARROS, Op. cit., pp. 401-02.

73 Ao nível das elites, e são as elites que demonstram e dão voz a uma consciência purista em

relação ao empréstimo linguístico, esta tensão tem raízes mais fundas do que uma simples

de fesa da língua: «A fixação de fidalgos no Oriente – os indiáticos, “casados”, e até mesmo

“os fidalgos antigos da Índia” – suscitava desconfiança no Reino (para não o referir mesmo

como sinal de desqualificação social), sendo sempre acusados de servir menos o rei que a si

próprios», Cunha e Monteiro, 1995, 102.

74 Rodrigues Lobo, (1619), 1945, 184.

75 No caso dos países africanos de expressão oficial portuguesa e do Brasil, o léxico inclui

obviamente uma percentagem muito maior de empréstimos de línguas africanas e, no caso

brasileiro, uma componente relevante das línguas ameríndias, sobretudo do Tupi-guarani,

tanto ao nível da toponímia como nas palavras comuns.

76 Derivação, de acordo com Dalgado: andor < malaiala andola; pires < malaio piring; biombo

< japonês byóbu ou bióbu; chá < mandarim; bengala < do bengali; bule < malay búli; boião <

malaio búyong; catre < malaiala kattil; chita < sânscrito chitra; quimono < japonês kimomo;

corja < malaialam kórchchu; pagode < sânscrito bhagavat (cf. malaiala pagôdi).

77 Fernão de OLIVEIRA, (1536), 2000, Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Academia das

Ciências de Lisboa, p. 86 (itálico da autora).

471

Maria Isabel Tomás


IX A VIAGEM DAS PALAVRAS

472

Referências Bibliográficas

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