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Revista atlântica de cultura ibero-americana

N.º 05 Outono Inverno 2006 2007 15C _ Instituto de Cultura Ibero-Atlântica

LUGARES DE PARTIDA

LISBOA

URBANO TAVARES RODRIGUES

CIDADES INVISÍVEIS

VALPARAÍSO

NERUDA E A INVENÇÃO

DE VALPARAÍSO

SERGIO VUSKOVIC ROJO

SANTOS DA CASA

O DIABO

E AS VIRGENS

JULIO PANTOJA

O QUE FAÇO EU AQUI

CUIABÁ

JOSÉ LUÍS PEIXOTO

RESIDÊNCIAS NA TERRA

MÁRIO CESARINY

DUARTE BELO

OUTRAS INQUIRIÇÕES

PERTENÇA E CONTRADIÇÃO

LÍDIA JORGE


Número 05 Outono Inverno 2006/2007

Revista atlântica de cultura ibero-americana

3 PERTENCER AO SUL João Ventura

4 TODOS OS NOMES

6 HERÓIS DO MAR

A flor do sal João Mariano

12 LUGARES DE PARTIDA

Lisboa Urbano Tavares Rodrigues

18 VAGA GENTE

Tomé Álvares, um carpinteiro algarvio

nas Índias do Mar Oceano Maria da Graça A. Mateus Ventura

22 TRAVESSIAS

Sem regresso Carmen Yáñez

26 CIDADES INVISÍVEIS

VALPARAÍSO

28 Neruda e a invenção de Valparaíso Sergio Vuskovic Rojo

36 A BIBLIOTECA DE BABEL

Arquivo Histórico Ultramarino Caio Boschi

42 SANTOS DA CASA

O diabo e as virgens Julio Pantoja

52 A INVENÇÃO DA AMÉRICA

54 A descoberta imperial do selvagem Boaventura de Sousa Santos

58 As sociedades ameríndias da floresta tropical Jorge Couto

70 Vasco Fernandes e a visão do Índio Bom Vítor Serrão

74 CEM ANOS DE SOLIDÃO

Doriselma (Guatemala) Grau Sierra Espriu e Roger Sogues Marco

76 RIOS PROFUNDOS

Douro José Manuel Fajardo

84 ALTAS SOLIDÕES

Aconcágua, a rainha das Américas João Garcia

88 BESTIÁRIO

O ovo do pinguim ou crónica de um amor maior Maria Adelina Amorim

92 SABORES PRINCIPAIS

Erotismo e gula na América, desde o tempo colonial Virginia Vidal

100 ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

Portugal, sempre Luís Antônio de Assis Brasil

104 O QUE FAÇO EU AQUI

Cuiabá José Luís Peixoto

106 CRUZEIRO DO SUL

Pancho regressa ao mar Volodia Teitelboim

110 ESTÁDIO DE SÍTIO

Com o coração na boca (La Bombonera) Maria Mansilla

116 A MARESIA DO MUNDO

Mar absoluto António Ramos Rosa

118 RESIDÊNCIAS NA TERRA

Mário Cesariny Duarte Belo

124 OUTRAS INQUIRIÇÕES

Pertença e contradição Lídia Jorge

132 A MUDANÇA DA TERRA

O retratista de corações Luísa Monteiro

134 A COMPANHIA DOS LIVROS João Ventura

144 PROCEDIMENTOS DE ARBITRAGEM CIENTÍFICA


Discorre Lídia Jorge, num belíssimo ensaio que

publicamos nesta edição, sobre a noção de pertença, sobre a noção

de cisma, traição ou singularidade, o que leva, também, a uma

interpelação a nós próprios sobre o lugar de pertença da

Atlântica.Terá esta revista um lugar de pertença? E, se sim,

a que lugar pertence? Quais os territórios ambíguos que

nela atravessamos? Na sua génese partimos da ideia de

travessia oceânica, de aproximação de margens, de territórios,

de regiões e, sobretudo, de representação de um

certo imaginário ibero-americano. Diríamos, então, que a

revista pertence aos portos e praias da memória partilhada

entre as duas margens atlânticas, donde empreendemos,

depois, a viagem de intromissão, de indagação através

dos territórios sobrepostos da literatura, da história,

da política, dos usos, das identidades para descobrir no

rasto das vivências comuns iniciais a ressonância de um

passado que irrompe no musgo da história. Mas ressonância

que indicia todas as metáforas que este exercício

de curiosidade partilhada persegue, como se a Atlântica fosse

a região mais transparente onde, entre nós, se espelha a alma

ibero-americana. Vozes múltiplas ecoam na revista como

Fotografia de Paulo Barata

Pertencer ao Sul

João Ventura

jventura_atlantica@yahoo.com

num búzio onde se escuta a maresia do Sul.Vozes de navegantes

da escrita que aqui deixam o seu rasto num conto,

num poema, num ensaio, numa crónica, num testemunho,

numa fotografia, cujo sopro continua a empurrar a

revista cada vez mais para o Sul. A eles pertence também

esta revista.

Nesse movimento em direcção ao Sul, à utopia do

Sul, para onde o promontório de Sagres parece apontar,

guardamos, ainda, a herança do nosso próprio território

de pertença pessoal, o Algarve. Porque é nesse Sul português

que se faz a Atlântica, transportando consigo o lastro

de uma terra em mudança, que muitas vezes já não reconhecemos,

talvez já sem redenção, mas onde batem,

ainda, as nossas horas mais íntimas. Por isso, embora

nesta edição continuemos a navegar rumo ao Sul, aportando

em Valparaíso sob os céus secretos do Cruzeiro do

Sul, procurando Coloane em cada maré, ou atravessando

os cem anos de solidão de um Chile que não esquece as feridas

de um passado recente, é à Lisboa azul de muitas cores que

regressamos, para logo descermos ao Algarve iluminado,

ainda, pela brancura da flor do sal.


?????? TODOS OS NOMES 4

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

5

ANTÓNIO RAMOS ROSA (Faro, Portugal) é um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Poeta das coisas primordiais,

da luz, da pedra e da água, recebeu inúmeros prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1998. A sua

vasta obra poética e ensaística encontra-se publicada em inúmeros livros, revistas e antologias. BOAVENTURA DE SOUSA

SANTOS (Coimbra, Portugal) é doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, professor titular na Faculdade de

Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin – Madison.

É director do Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril da mesma Universidade. Tem trabalhos publicados

sobre sociologia do direito, globalização, epistemologia, direitos humanos e democracia. Os seus trabalhos encontram-se traduzidos

em inglês, espanhol, francês, italiano e alemão. CAIO BOSCHI (Belo Horizonte, Brasil) é doutor em História Social pela

Universidade de São Paulo e professor titular jubilado do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG) e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). É director do Centro de Pesquisa Histórica da

PUC-Minas.Tem como área de investigação: História do Brasil, Arquivos Históricos e História da Expansão Portuguesa. CARMEN

YÁÑEZ HIDALGO (Santiago do Chile) viveu o seu exílio na Suécia entre 1981 e 1997. Em Gijón (Astúrias) desde 1997, publicou

aí o seu primeiro livro de poesia Paisaje de Luna Fría. Em 2002, foi-lhe atribuído o prémio de poesia Nicolás Guillén. Alas del Viento é o

seu último livro. Actualmente, integra o conselho de redacção da revista do Salão do Livro Ibero-Americano de Gijón. DANIEL

BARRACO (Buenos Aires, Argentina) iniciou a sua actividade fotográfica em 1980, depois de frequentar a Escola Superior de Belas-Artes

de Mendoza, Argentina. Realizou vários trabalhos fotográficos para os diários Libération e Le Monde. Em 2000 recebeu, do Governo

chileno, o Prémio de Mérito Artístico. Lecciona na Pontifícia Universidade Católica de Santiago do Chile, no âmbito do curso

Património e Identidade. As suas fotografias integram diversas colecções internacionais. DUARTE BELO (Lisboa, Portugal) é licenciado

em Arquitectura pela Universidade do Porto. Paralelamente à arquitectura, desenvolve actividade em fotografia. Desde 1986,

tem percorrido Portugal num levantamento fotográfico de unidades de paisagem, formas primitivas de ocupação e domínio do território,

lugares arqueológicos, aspectos das cidades e da suburbanidade, arquitecturas e vias de comunicação. São da sua autoria as

fotografias da obra Portugal – O Sabor da Terra, desenvolvida com José Mattoso e Suzanne Daveau. Em aproximações à poesia portuguesa,

publicou Ruy Belo – Coisas de Silêncio e O Leitor Escreve para que Seja Possível. Com Nuno Júdice, é autor de Esfera do Caos. O seu trabalho

está representado em colecções públicas e privadas, em Portugal e no estrangeiro. GRAU SIERRA ESPRIU (Barcelona, Espanha)

é cineasta documental, formado no Centro Nacional de las Artes, do México D.F. Com o apoio da UNESCO, realizou no México o

seu primeiro documentário intitulado Última Palabra, sobre os últimos falantes das línguas indígenas do México. Actualmente prepara

a realização de vários documentários para televisão sobre temas etnológicos e sociais em diversos países de África, América

Latina e Ásia. O seu último projecto, ainda inacabado, é uma reportagem fotográfica, para a ONG Fundación Intervida, sobre problemáticas

da infância em países como o Bangladesh, a Índia, o Senegal, a Guatemala e a Bolívia. HENRIQUE CAYATTE (Lisboa,

Portugal) é presidente do Centro Português de Design e professor convidado da Universidade de Aveiro. Foi fundador e autor do

design global, editor gráfico e ilustrador do jornal Público. Consultor para os projectos especiais de design da EXPO'98 e do respectivo

plano de pormenor do recinto. Co-autor do sistema de sinalética e comunicação da EXPO’98. Co-autor e responsável pelo design da

revista Egoísta. Comissário e autor do design de diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Entre os vários galardões, recebeu

em 2003 o Prémio Nacional de Design e o Prémio Dibner Award. JOÃO GARCIA (Lisboa, Portugal) é o montanhista (alpinista

/himalaísta) português com maior currículo. Das catorze montanhas com mais de 8000 metros de altitude existentes no Planeta,

já ascendeu a oito delas. Foi o primeiro português a alcançar o cume do Evereste, sem recurso a oxigénio e sem carregadores de

altitude. É actualmente o único português cameraman de altitude e de condições extremas, tendo realizado vários documentários

sobre as suas expedições que têm sido transmitidos nas televisões portuguesas. João Garcia é autor dos livros A Mais Alta Solidão, que

já vendeu mais de 30 mil exemplares, e Mais Além – Para Além do Evereste, lançado em Fevereiro deste ano. JOÃO MARIANO (Aljezur,

Portugal) é fotógrafo. Editou e coordenou a fotografia do Grupo Forum, dirigiu o departamento de fotografia do portal Terravista e

actualmente dirige a agência 1000olhos – Imagem e Comunicação. Publicou diversos álbuns, livros e catálogos, e expõe regularmente

desde 1993. Colabora, eventualmente, com a revista Egoísta e com o semanário Dna. JOÃO VENTURA (Portimão, Portugal) é

mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE e pós-graduado em Ciências Documentais (área de

Bibliotecas) pela Universidade de Lisboa. Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Paris III e docente convidado

na Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve. Entre 1998 e 2003, foi delegado regional do Ministério da

Cultura no Algarve. Actualmente, desenvolve actividade na área da gestão cultural como director do projecto «Fórum Cultural de

Portimão». JORGE COUTO (Lisboa, Portugal) é mestre em História do Brasil e professor assistente na Faculdade de Letras da

Universidade de Lisboa. Foi presidente do Instituto Camões. Actualmente, é director da Biblioteca Nacional. É autor de diversas

publicações sobre os Descobrimentos Portugueses, entre as quais a construção do Brasil. JOSÉ LUÍS PEIXOTO (Lisboa, Portugal)

é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Recebeu o Prémio Jovens Criadores (área de

literatura) nos anos 1997, 1998 e 2000. Em 2001, o seu romance Nenhum Olhar recebeu o Prémio Literário José Saramago. Está

representado em diversas antologias de prosa e de poesia nacionais e estrangeiras. É colaborador de diversas publicações nacionais

e estrangeiras. Os seus romances estão publicados em França, Itália, Bulgária, Turquia, Finlândia, Holanda, Espanha, República

Checa, Croácia, Bielorússia e Brasil. O seu último romance é O Cemitério de Pianos. JOSÉ MANUEL FAJARDO (Granada, Espanha) é

jornalista e escritor, vivendo actualmente em Paris. Colaborou em vários jornais e revistas espanhóis como o El Mundo e o El País,

assim como em publicações de Itália, França e América Latina. Foi redactor do programa da RTVE Tiempo de Papel. Enquanto residiu

no País Basco, participou activamente no movimento cidadão pela paz e contra a ditadura do terrorismo, tendo também a seu cargo

uma coluna de opinião no jornal El Mundo del País Basco. Entre as várias obras publicadas, conta-se a participação com diversos autores,

como Luis Sepúlveda, Antonio Sarabia ou Rosa Montero, entre outros, nas antologias de relatos Contos Apátridas e Histórias do Mar.


Tem quatro romances editados em Portugal: Cartas do Fim do Mundo, Terra Prometida, Os Demónios à Minha Porta e Água na Boca. JULIO

PANTOJA (Tucumán, Argentina) Fotodocumentarista, jornalista, criativo e editor, formou-se como arquitecto e técnico de fotografia

na Universidade Nacional de Tucumán (Argentina). É docente universitário e dirige, com Gabriel Varsanyi, os Ateliers de

Expressão e Fotodocumentalismo. A sua obra integra colecções públicas e privadas, como a do Museu Nacional de Belas-Artes

(Argentina) e a da Casa das Américas (Cuba). É membro do Instituto Hemisférico de Performance e Políticas para as Américas da

Universidade de Nova Iorque. As suas fotografias foram expostas em galerias da Argentina, Venezuela, Brasil, Chile, Nicarágua, El

Salvador, Espanha, França, Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Suíça e África do Sul. LÍDIA JORGE (Boliqueime, Portugal) é uma

das mais prestigiadas romancistas portuguesas. É licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. A partir de O Dia

dos Prodígios (1979) tornou-se uma das mais importantes romancistas portuguesas. Recebeu vários prémios literários, entre os quais

o Prémio Europeu Jean Monnet com a obra O Vale da Paixão (1998), em 2003, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa

de Escritores, com o romance O Vento Assobiando nas Gruas, e, em 2006, foi distinguida na Alemanha com a primeira edição do Albatroz,

Prémio Internacional de Literatura da Fundação Günter Grass, atribuído pelo conjunto da sua obra. Acaba de publicar o romance

Combateremos a Sombra. LUÍSA MONTEIRO (Albufeira, Portugal) é licenciada em Ciências da Comunicação e pós-graduada em

Literaturas Românicas Modernas e Contemporâneas. Ao longo de 17 anos, exerceu jornalismo e publicou artigos literários em

diversas revistas. Escreve essencialmente romances, embora também se dedique ao texto dramático, ensaio e biografia, poesia, crónicas,

contos e novelas. Tem 17 obras publicadas, e diversos textos seus subiram já ao palco. Colabora regularmente com algumas

revistas literárias. LUIZ ANTÔNIO DE ASSIS BRASIL (Porto Alegre, Brasil) é escritor com uma vasta obra publicada, tanto no

Brasil como no estrangeiro. Em 1988, recebeu, com o romance Cães da Província, o Prémio Literário Nacional do Instituto do Livro

e, ainda nesse ano, o Prémio Literário Erico Veríssimo pelo conjunto da sua obra. Em 1995, recebeu o Prémio Açoriano de Literatura

com Pedra da Memória e Senhores do Século. MARIA ADELINA AMORIM (Lisboa, Portugal) é mestre em História do Brasil e autora de

vários estudos sobre a missionação no Brasil e sobre a literatura de viagens. Investigadora do CLEPUL e membro da ACLUS, colaborou

na organização do Dicionário de Lusofonia (Texto Editora, 2006). MARIA DA GRAÇA A. MATEUS VENTURA (Portimão,

Portugal) é doutora em Letras pela Universidade de Lisboa. Fundadora do ICIA, foi vice-presidente da Direcção de 1995 a 2002,

sendo presidente desde 2002. Foi professora visitante na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve no

âmbito da Cátedra de Estudos Ibero-Americanos, da qual foi coordenadora executiva (2003-2006). É especialista em história da

Ibero-América, com numerosos textos publicados nesta área, com destaque Os Portugueses no Peru ao Tempo da União Ibérica: mobilidade, cumplicidades

e vivências (2005, INCM). MARIA MANSILLA (Buenos Aires, Argentina) é jornalista e coordenadora de redacção da revista

Hecho en Buenos Aires.Tem artigos editados na National Geographic em espanhol, em Etiqueta Negra do Peru, ELLE (Argentina, México e Índia)

e Página 12 (Argentina). É bolseira da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), presidida por Gabriel García Márquez. PAULO

BARATA (Moçâmedes, Angola) é fotógrafo freelancer, colabora com a imprensa portuguesa e espanhola.Trabalha também como fotógrafo

de cena para teatro e cinema, e making of para publicidade. Expõe desde 1999. ROGER SOGUES MARCO (Barcelona,

Espanha) formou-se na Escola de Cinema da Catalunha, em Barcelona. É realizador e guionista de documentários onde aborda temáticas

sociais relacionadas com a cultura, os direitos humanos, o meio ambiente e as desigualdades sociais, em países como Espanha,

México, Guatemala, El Salvador e Estados Unidos. Actualmente, prepara o seu novo projecto documental relacionado com a recuperação

da memória cultural. SERGIO VUSKOVIC ROJO (Illapel, Chile) Na campanha presidencial do Chile, em 1952, conheceu,

em Valparíso, Pablo Neruda e Salvador Allende, com quem manteve amizade até à morte de ambos. Durante o Governo de

Allende, foi alcaide de Valparaíso. Após o golpe de Estado de 1973, esteve encarcerado três anos, passando pelos campos de concentração

de Puchuncaví e Ritoque. Durante os seus 11 anos de exílio, foi professor de filosofa na Universidade de Bolonha, em

Itália. Actualmente, é professor de filosofia nas Universidades de Valparaíso e de Playa Ancha, e director do Centro de Estudos do

Pensamento Latino-Americano e da revista Cuadernos del Pensamiento Latinoamericano. Escreveu várias obras sobre filosofia, sendo a última

Filosofía Latinoamericana. URBANO TAVARES RODRIGUES (Lisboa, Portugal) é escritor, ficcionista, investigador e crítico literário. É

professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, membro efectivo da Academia de Ciências de

Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Sendo um dos mais prolíficos e prestigiados escritores da segunda

metade do século XX em Portugal, a sua obra, que está traduzida em diversas línguas, atinge várias dezenas de títulos, entre

conto, romance, crónica e ensaio. Em 2002, foi-lhe atribuído o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores

e, em 2000, o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. VÍTOR SERRÃO (Lisboa, Portugal) é doutor

em História da Arte pela Universidade de Coimbra. É director do Instituto de História da Arte e coordenador do Departamento

de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É membro efectivo da Academia Nacional de Belas-Artes e do

ICOMOS, vice-presidente do CICOP-Portugal, comissário das exposições «Josefa de Óbidos e o Tempo Barroco» (catálogo de

1992: Prémio Nacional Gulbenkian de História da Arte) e «A Pintura Maneirista em Portugal – Arte no Tempo de Camões» (1995).

É autor de diversos livros e estudos sobre arte portuguesa do Renascimento, do Maneirismo e do Barroco. VIRGINIA VIDAL

(Santiago, Chile) é escritora e jornalista. Exilada em 1976, viveu na ex-Jugoslávia e na Venezuela até 1987. Os seus textos foram traduzidos

e publicados em diversas línguas.Tem inúmeros artigos de crítica cultural em revistas e diários da Venezuela. O seu romance

Cadáveres del Incendio Hermoso recebeu o Prémio María Luisa Bombal de Viña del Mar em 1989. Trabalhou no programa cultural do

Canal 9 da Universidade do Chile. Integrou o conselho de redacção da revista Araucária. Actualmente, é directora da revista Anaquel

Austral e directora da Sociedade de Escritores do Chile. VOLODIA TEITELBOIM (Chillán, Chile) é um dos nomes mais ilustres das

letras chilenas e americanas do século XX. É um escritor multifacetado, autor de uma vasta obra, que inclui romances, crónicas,

memórias, biografias e ensaios. Integrou a Geração de 38 e é autor das biografias de Gabriela Mistral,Vicente Huidobro, Jorge Luis

Borges [Temas e Debates] e Pablo Neruda [Temas e Debates]. Foi galardoado com o Prémio Nacional de Literatura do Chile em 2002.


HERÓIS DO MAR 6 7

A flor do sal

João Mariano

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

As águas oceânicas da costa algarvia, aquecidas nos dias estivais

no quadriculado das salinas, produzem um tempero de requinte:

a flor do sal. Os cristais finos e transparentes, colhidos diariamente

pelos marenotos, são o toque mágico dos sabores intemporais da

comida mediterrânica.


Lisboa. Fotografia de Paulo Barata

LUGARES DE PARTIDA 12 13

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Lisboa

Urbano Tavares Rodrigues

Esta é a Lisboa de Álvaro de Campos, pavorosamente

perdida, cidade triste e alegre. A Lisboa azul de muitas

cores, como a viu Pedro Tamen.A cidade de José Cardoso Pires,

luminosa e enigmática, navegando sobre o Tejo. Cais de aventurosas

e, também, dolorosas partidas ou precipitadas fugas para

Urbano Tavares Rodrigues, que nos leva aqui pelos arredores

da sua memória através de uma cidade que navega.


LUGARES DE PARTIDA 14

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Lisboa. Fotografia de Paulo Barata

15

Não tenho qualquer memória de Lisboa

antes dos dez anos, idade em que vim do

Alentejo para aqui fazer o exame de admissão

ao liceu.

Mas, se para mim começou por ser

lugar de chegada, também é certo que,

pela vida fora, Lisboa foi o meu cais de

múltiplas partidas.

Num plano menos pessoal, embora

tudo isso ainda me toque e me respeite,

pois sempre vivi um pouco na história e

no futuro, Lisboa foi teatro, quantas

vezes dramático, de aventurosas e também

dolorosas partidas ou precipitadas

fugas.

Penso nos nossos navegadores de Quatrocentos

e Quinhentos e nos soldados que

os acompanharam às Áfricas, Índias e

Brasis e que se tornaram, muitos deles,

povoadores ou comerciantes. Penso no

melhor da nossa intelectualidade, os judeus

ameaçados ou expulsos pela Inquisição e

que deitaram raízes na Holanda, em França

ou demandaram as zonas do Bósforo, em

procura de mais tolerância.

E recordo a emigração económica para

o Brasil, para os Estados Unidos e Canadá e,

já em anos mais recentes, para a França,

Suíça, Alemanha, Inglaterra... Como se

Portugal, pátria madrasta, não conseguisse

dar a seus filhos o sustento nem a paz de

alma.

E houve os exílios políticos, o dos

liberais no século XIX, o dos antifascistas

sob as ditaduras de Salazar e Caetano.

E as lacrimosas partidas para as guerras,

a de 14-18, no século XX, e depois a

Guerra Colonial, com o seu aparato propagandístico

e o sentimento de absurdo que

muitos experimentavam, ao despedirem-se

de Lisboa e das famílias, dos amores, dos

projectos, no Cais da Rocha.

Foi muito cedo, em 1949, depois de

me licenciar e de me casar, que deixei a

redacção do Diário de Notícias e, como leitor

da Universidade de Montpellier, parti para

os céus claros do Midi, ao encontro de um

mundo mais culto, mais livre.

Em Dezembro desse mesmo ano estava

em Paris, a passar as férias do Natal,

com alguma neve e muitas luzes, cinemas,

teatros, chansonniers, caves existencialistas, os


imprescindíveis museus e passeios, com a

Maria Judite (de Carvalho) deslumbrada e

feliz.

Nos seis anos que vivi em França, primeiro

no Sul depois em Paris, visitei, ainda

quase de saco às costas, a Suíça, a Bélgica e

a Holanda, a Inglaterra e as duas Alemanhas

e voltei muitas vezes a Portugal, por

pouco tempo. Dessas andanças, mais ou

menos demoradas, quase sempre de comboio

ou de autocarro, deixei registos e

vivências transpostas, figuras de carne tornadas

em papel, cenários, episódios, nos

meus primeiros contos e romances.

O meu lugar de partida, nesse intervalo

de existência, não foi Lisboa, mas

Paris, de onde eu partia também para a

leitura de infindáveis livros, nas bibliotecas

e nas preciosas livrarias da Rive Gauche

ou nos bouquinistes.

Com o regresso definitivo a Lisboa,

instalámo-nos na zona de S. Sebastião da

Pedreira, perto das Picoas, mas não perdi o

hábito dos meus tempos de estudante de

passear pela Lapa, pela Madragoa, por toda

a área ribeirinha, de Belém ao Terreiro do

Paço e à Casa dos Bicos, a Alfama. Creio

que essa constante atracção está muito marcada

nos meus romances de fundo lisboeta,

de Os Insubmissos a O Eterno Efémero ou Ao

Contrário das Ondas.

A paisagem do rio e da sua foz, dos

cais, dos navios, velhos petroleiros, embarcações

à vela sempre me fascinou.

Em 1958, no ano da campanha eleitoral

do general Humberto Delgado, fiz uma

longa viagem até ao Brasil, onde meu

irmão Miguel já estava exilado. Fui num

paquete italiano, o «Ana C», em terceira

classe, fazendo escala na Madeira e em

Cabo Verde, outros lugares de partida, até

ao lumioso milagre da chegada a

Guanabara e depois a Santos, onde meu

irmão me esperava para subirmos até ao

planalto de São Paulo.

Foi o Jorge Amado o meu cicerone no

Rio, com ele vi o autêntico Brasil e vi as

marcas de Portugal no Brasil, na arquitectura

e nos seres humanos.

Primeiro contacto com o Rio Grande

do Sul, onde muito mais tarde havia de

assistir a uma discussão do orçamento

aberto e visitar, com a viúva de Vítor Jara,

um acampamento dos Sem-Terra.

Quantas partidas, quantas noites de

farra nos cais de Lisboa.

Não os olhei, esses cais, tal o Pessoa

na Ode Marítima, como porta do mundo

sonhado que dali se deseja, se espreita, se

imagina, sem ousar viagem alguma que

não seja interior.

Foram as aerogares, para voos de curta

ou de longa duração, os meus bem familiares

lugares de partida: para Roma, para

Paris (a minha rotina dourada de escritor,

jornalista e professor de literatura francesa),

Londres, Manchester, Colónia e Roma,

Berlim; e mais tarde a Rússia, de São Petersburgo

ao lago Baikal ou ao Norte da

Sibéria. E Praga, sob um nevão desumano,

Viena e Budapeste, Sófia, Belgrado...

Um período do século XX então prestes

a terminar.

Amei cidades e mulheres, o exotismo

ou o classicismo de paisagens diversas. Por

vezes reencontrei, em fulgores de saudade,

o Alentejo na Ásia Menor turca; o solo

mediterrânico, os seus olivais de prata no

Afeganistão, se bem me lembro perto de

Kandahar.

Gente tão diversa, mas sempre humana,

quer no mistério de Cabul, durante a

curta república do poeta Nur Mohamed

Taraki, quer nos países do Médio Oriente,

sempre em convulsão, quer na América

Latina, apesar da violência de certos bairros,

onde a miséria empurrava os mais

pobres para o crime. Estive em Caracas, em

Buenos Aires; vivi em Cuba, em 1962-63,

a delirante euforia da vitória em Playa Girón.

De Lisboa, nesse ano de 1963, em

que conheci os «curros» do Aljube, andei

por Florença, extasiado com os Botticelli,

com a visão do Arno, com os Giotto da

Piazza della Signoria, com os frescos do Fra

Angelico.

Voltei à Grécia, que já conhecia, mas

desta vez de barco, com inolvidáveis paragens

em Nápoles e na Sicília; vi teatro na

Acrópole, percorri as igrejas bizantinas

de Atenas; e fui a Delfos, à Acrocorinto;

escutei os ecos da Sibila; repensei Teixeira-

-Gomes, frente à harmoniosa paisagem

helénica.


LUGARES DE PARTIDA 16

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Em Nova Iorque fiz da Broadway o meu

centro, de começo sempre a olhar para

cima, apesar da neve, para fixar bem os

arranha-céus. Convivi com escritores e jornalistas

e com alguns subi ao topo do

Empire State Building, percorri Central Park e os

museus, as galerias; ousei entrar em Harlem

à hora do maior movimento, reconheci a

China Town do cinema; e em Greenwich Village

vieram até mim as sombras dos grandes

escritores que ali moraram.

Lisboa era a alegria da chegada, o retomar

do trabalho, que aumentara com a

ausência, e a serena reflexão não só sobre

as terras desvendadas, mas, e talvez sobretudo,

sobre a real dimensão das nossas

cidades, o carácter um pouco bisonho do

povo, sob o salazarismo. E o repensar dos

nossos mitos, que com o tempo vêm

mudando, neles permanecendo sempre,

todavia, o sentimento da grandeza perdida,

que desde D. João III e depois de Alcácer

Quibir faz tocar as nossas guitarras de alma

e nos leva a incessantemente partir, emigrar,

ou maldizer da pequena Pátria que

não torna a achar o segredo das vitórias,

nem o resplendor da Índia, o ouro do

Brasil. Por algum tempo, pouco, houve o

sonho transformador de Abril, a curta epopeia

da fraternidade, a euforia da mudança

que trouxe até nós, no local onde a história

avançava, gente de todo o mundo,

coleccionadores de esperança.

Lisboa. Fotografia de Paulo Barata

17

O entusiasmo da partida, a vontade do

novo esmoreceram um pouco em mim

com o abrandar da curiosidade e da

inquietação.

Foi, no entanto, com renovada surpresa

e enlevo, e por vezes desgostos e outras vezes

exaltação, que visitei, como escritor e conferencista,

a China e a Índia (1999 e 2002).

Enquanto puder, continuarei regularmente

a percorrer, de preferência acompanhado,

os bairros ribeirinhos, de Alcântara

e Alfama, Lisboa cidade-cais, e a prender

mais uma vez o olhar nas velhas casas de

azulejos, nos palacetes meio arruinados, a

pedirem restauro, nas estreitas ruas onde o

rio ressoa, da Lapa ou Santa Catarina às

Janelas Verdes, ao Adamastor, à sardinha

assada, à brisa picante onde o sol marinho

e sobretudo a pimenta evocam as especiarias;

e as mulheres continuam a balançar-se

como no Sentimento de um Ocidental. Até me

acontece relembrar poemas do Cancioneiro de

Resende ou a Ode Triunfal de Pessoa.

Lisboa, lugar de partida, às vezes definitiva,

mas também lugar de chegada,

ainda hoje orienta para o Tejo, de envolta

com frustrações, mau passadio, direitos

sociais a desaparecer, o sopro brando da

viagem redentora. E por vezes há vozes que

sussurram: com esta fuga dos jovens cérebros

para o estrangeiro, também os meus

filhos partirão. Eles que são tão dotados. Lá

é que os portugueses se afirmam.


VAGA GENTE 18 19

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Tomé Álvares,

um carpinteiro algarvio

nas Índias do Mar Oceano

Maria da Graça A. Mateus Ventura

Christoph Weiditz, 1529. Biblioteca Nacional, Madrid


1 Archivo General

de Índias (Sevilha),

Contratación,

922ª, N.12

VAGA GENTE 20 21

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

AGI (Sevilha), Testamento de Tomé Álvares, Contratación, 922A, nº12.

Tomé Álvares, natural da cidade de

Tavira, vizinho de Triana, enfermo do corpo

e são da vontade, em seu perfeito juízo e

entendimento, ditou um testamento 1 , poucos

dias antes de falecer, a 18 de Março de

1582, em Santiago de Guayaquil.

Nasceu no reino de Portugal, filho de

Lázaro Fernandes e de Inês Martim, e emigrou

para Triana, bairro de marinheiros na

margem direita do Guadalquivir, frente à

cidade de Sevilha, reino de Espanha. Daqui

partiu para as Índias do Mar Oceano com

outros algarvios e andaluzes por companheiros.

Instalou-se bem longe daqui, na margem

oriental do Oceano Pacífico, na cidade

portuária de Guayaquil, reino do Peru.

Não sabemos a sua idade, apenas que,

à data do seu testamento, os seus pais eram

defuntos e não tinha filhos. Casara em

Triana, segundo a ordem da Santa Madre

Igreja Católica Romana, com Catalina Garcia,

filha de Francisco Garcia e de Isabel Peres,

naturais de Vila Nova de Portimão e vizinhos

desse bairro marítimo. Tomé partiu

para as Índias, Catalina ficou em Triana,

com a mãe, cuidando da casa e da fazenda

com a ajuda das negras que tinha ao seu

serviço. O dote que levara consigo havia

sido duplicado em bens pela habilidade do

marido que, agora, no outro lado do mundo,

falecia deixando-lhe apenas um testamento

que pouco acrescentava àquilo que ficara

por dizer: universal herdeira dos bens em

Triana e de mais ou menos seiscentos

pesos de prata corrente, cobradas as dívidas

alheias e o salário de carpinteiro de ribeira

do marido.

Partira do Algarve para a Andaluzia,

de Portimão ou Tavira para Aiamonte ou Sevilha

em busca de uma viagem para a

Índia, desassossego que não passava disso

mesmo, desassossego por fortuna muitas

vezes transformada em má sorte.Tomé não

enriqueceu. Não tinha casa própria em

Guayaquil, apenas um colchão, um cobertor,

uma almofada e lençóis gastos. A roupa

que vestia era modesta, o melhor ficou

registado no testamento – um capote negro

guarnecido de passamanes, uns imperiais

negros de terciopelo e um velho saio azul.

Entre os seus parcos bens, fez questão de

nomear a ferramenta de carpinteiro com a

qual ia construindo o barco que o alcaide

ordinário de Guayaquil encomendara ao

mestre António Fernandes e que lhe valeria

os 280 pesos de salário por cobrar.

Os seus albaceias eram o mestre de

fazer navios e o alcaide ordinário da cidade.

Testemunhas do testamento e dos últimos

dias de vida de Tomé foram outros algarvios,

como António Resio, mercador natural

de Vila Nova de Portimão que era vizinho

de Aiamonte e viajava de cá para lá do

Atlântico ao Pacífico. António mal teve

tempo de satisfazer uma vontade do seu

amigo enfermo – comprar-lhe 36 pesos de

queijos. Foi também António que trouxe

para Sevilha os 120 ducados que Tomé

devia aos herdeiros do bretão Francisco

Martins. Chegado a Sevilha com cópia do

testamento para Catalina, não resistiu à

insistência desta para que lhe entregasse os

ducados de prata. Isabel Fernandes, viúva

do bretão, mandou António para a cadeia

por este não lhe ter pago a dívida do carpinteiro

defunto, e este vê-se envolvido

num processo motivado pela má-fé da

viúva do seu amigo. Coisas de mulheres,

disputas de herdeiros.


Bem longe daqui a alma do nosso

defunto, sepultado, conforme sua vontade,

com o hábito de São Domingos, na capela

de Nossa Senhora do Rosário, no mosteiro

de S. Paulo, na cidade de Guayaquil, carecia

do bom senso das partes mais que das missas

de requiem cantadas e rezadas pelo cura e

pelos religiosos da cidade.

Triana, bairro de mareantes, era ninho

de algarvios com ramificações familiares em

todo o garb andaluz. O porto de Santiago de

Guayaquil atraía os homens do mar pelas

excelentes oportunidades resultantes da sua

estratégica localização entre o Peru e o

Panamá. Não é, por isso, de estranhar que aí

encontremos marinheiros aos molhos, reunidos

quando é necessário testemunhar as

últimas vontades dos enfermos que insistem

em fechar o círculo de uma relação familiar

ditando um testamento que sintetiza a sua

identidade e apazigua a sua consciência.

Christoph Weiditz, 1529. Biblioteca Nacional, Madrid.

De Sevilha, o Guadalquivir era o atalho

para o Mar Oceano, devassado continuamente

por mestres, marinheiros, pilotos e

mercadores naturais do Algarve, vizinhos

dos portos andaluzes, residentes ou estantes

temporariamente nos portos indianos.

Tomé Álvares, António Resio e António

Fernandes ilustram o padrão de mobilidade

dos portugueses e, particularmente, dos

algarvios que se dispersaram num amplo

território cuja fronteira fluida não era obstáculo

eminente à busca de fortuna. Neste

vaivém se foi formando a idiossincrasia da

vaga gente que fez do Sul espaço de viagem

e do Atlântico um mar de oportunidades.


TRAVESSIAS 22

23

Sem regresso

Carmen Yáñez

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007


Por vias sinuosas, clandestinas,

atravessaram a noite densa

de chacais, pesada de amargura.

Era um tempo de renúncia no Chile.

Renúncia das coisas e dos afectos

deixados para trás. Um testemunho

de quem atravessou a sombra.


TRAVESSIAS 24

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Já não estão

os meus pais

Nem o fogo

que acenderam

Carlos Liscano

25

Eu tinha uma casa, marido,

filho, pais, um pequeno

jardim de ervas aromáticas,

algumas árvores que davam os

seus frutos, um parreiral para

as tardes estivais, uma rua,

uma vereda até ao sul, uma

cidade dentro de um país. Um

país que um dia amanheceu

sombrio e hostil.

Suponho que começou ali a

minha viagem, apesar de o ignorar

naqueles primeiros tempos

de horror. Eram os anos setenta e

começava o êxodo.

Muitos procuraram embaixadas,

consulados, a Nunciatura

da Igreja Católica, vias clandestinas

entre os caminhos das cordilheiras

para partir rumo à Argentina,

ou pelo norte até ao Peru e

à Bolívia, ludibriando os guardas

fronteiriços. Procuravam uma

via rápida de fuga desesperada

para fugir dos institucionalizados

e recém-estreados métodos

de tortura, desaparecimento e

morte quase certa. Nessa tentativa,

grande parte deles ficaram

pelo caminho: as mãos negras da

ditadura chegavam até às entreabertas

portas salvadoras para

alcançar as presas. Assim, a ditadura

aplicava o terrorismo de

Estado em nome da Doutrina da

Segurança Nacional, combatendo

as ideias e o pensamento livre

dos agora depostos opositores ao

seu regime militar.

Sergio Leiva Molina, militante

socialista, tinha 34 anos,

mulher e uma filha. Uns dias

depois do golpe do 11 de Setembro

de 1973, começou a ser

perseguido e fugiu. Algumas

semanas mais tarde, emergiu da

sua clandestinidade; com uma

escada feita de cânhamo e paus

de bambu sobressaindo da sua

mochila, disse-nos adeus e

pediu-nos que cuidássemos da

sua mulher e da sua filha Aleida.

Nesse dia tentaria ludibriar a

vigilância dos carabineiros que

estavam de guarda à embaixada

argentina; utilizaria a escada

para saltar o muro das traseiras

da embaixada, num sítio descampado

e escuro. Não sei

como o fez, mas conseguiu.

Pensávamos que o nosso

amado companheiro se encontrava

a salvo, já a pedir asilo como

refugiado, mas o seu espírito

intrépido e solidário levou-o a

contactar com outros que, como

ele, tentavam dar o salto: assim,

a sua improvisada e engenhosa

escada aparecia e desaparecia do

muro. Sergio assomava de vez

em quando do outro lado para

ver se algum fugitivo necessitava

de ajuda; nesse caso, assobiava e

voltava a lançar imediatamente a

escada flexível.

Salvou muitos, mas no dia 4

de Janeiro de 1974, atraído por

um ruído, assomou-se cautelosamente.

Caiu destroçado pela

bala assassina que o esperava,

espreitando-o, incessantemente.

A televisão, já nas mãos das hordas

fascistas, emitiu a notícia

entre comunicados militares

sobre o recolher obrigatório,

falseando-a com o característico

tom distorcido que costumava

imprimir à explicação dos assassinatos

de Estado.

Não sabíamos que o dia em

que Sergio nos abraçou seria a

última vez que o veríamos.

Agora e depois de muitos anos,

o seu nome é mais um dos que

estão presentes no Memorial em

honra das vítimas daqueles 17

anos de ditadura, no Cemitério

Geral de Santiago do Chile, mais

um na categoria dos fuzilados.

Creio que ali começou a esboçar-se

a minha viagem, ainda

sem regresso.

Aos que conseguimos continuar

em pé, despertava-nos a


constante vigília; por onde se

espreitava, apareciam a crosta do

medo, a ferida, a morte. Os

funerais celebravam-se uma e

outra vez com a presença sinistra

de capangas e delinquentes a

soldo; por todo o país proliferaram

os cárceres clandestinos, as

prisões e os desaparecimentos,

mas resistia-se secretamente pelo

regresso da democracia, em

todas as cidades e de mil modos.

Pode-se conviver com o medo,

desafiá-lo, tomar partido, mas

render-se-lhe não constitui uma

vida digna, e esse pensamento

foi o alento de muitos para continuarem

a resistir apesar da

repressão. No entanto, a pátria

dividiu-se; as denúncias entre

vizinhos opuseram cada família,

cada bairro. O medo quebrava os

laços; a resistência devia proteger-se

até da sua própria sombra.

Os que ficávamos despedíamo-nos

de amigos e companheiros

que partiam para o exílio.

E eu continuava sem saber

que, um dia, partilharia da sua

sentença.

Durante o Golpe Militar,Augusto

Pinochet dirigiu o assalto

a «La Moneda», o Palácio do

Governo, a partir da Villa

Grimaldi – a casa convertida em

forte militar que passou a denominar-se

Cuartel Terranova. No final

de 1973, o local converteu-se na

sinistra casa de tortura Villa Grimaldi

sob o comando do general

do Exército Manuel Contreras

Sepúlveda, que recebia ordens

directas do seu comandante-chefe

Augusto Pinochet. Contreras era

o chefe da DINA, posteriormente

CNI.

Muitos dos detidos-desaparecidos

passaram por ali – estima-se

que à volta de 5000 pessoas.

A quase todas foram aplicadas

diversas formas de tortura e

vexames.

Às três da manhã de um dia

de Outubro de 1975, e durante

o recolher obrigatório, pararam

dois carros à porta da minha

casa e desceram seis homens

armados que me levaram, com

os olhos vendados, à Villa

Grimaldi perante uma viscosa

personagem que consegui reconhecer

muitos anos depois, graças

ao testemunho de outros

Pode-se conviver

com o medo,

desafiá-lo,

tomar partido,

mas render-se-lhe

não constitui

uma vida digna.

prisioneiros que tinham passado

pelas suas mãos: Osvaldo Romo

Mena, torturador e violador.

Apesar desta situação, não planeava

a fuga e agarrava-me ao

meu território.

Avançava-se a pouco e pouco

desafiando o medo.

Eu e o meu filho refugiámo-nos

no Sul do país, mas em

1980 decidi voltar a Santiago.

Soube que parte da organização

da resistência tinha sido presa.

Os militares foram a minha casa

e deixaram-me em prisão domiciliária;

nos primeiros meses do

ano seguinte, dirigi-me aos

Organismos do Alto-Comissariado

das Nações Unidas e

preparei-me para sair do país.

Foram as horas mais tristes

da minha vida; o meu filho

separava-se dos seus brinquedos

e dos seus avós, e tínhamos perdido

o rasto do meu marido –

Luis Sepúlveda. Eu deixava para

trás todos os meus haveres,

sonhos e pesadelos. Não voltaria

a ver os meus pais durante mais

de dez anos, e cada hora subtraía

as raízes à minha vida.

O país e a cidade tinham

mudado. Regressaram os tempos

democráticos, mas a casa está

em ruínas, os meus pais faleceram,

as árvores e o parreiral

secaram, e as ervas aromáticas

deram lugar às ervas daninhas.

Se é certo que o exílio foi

uma forma de castigo, uma condenação

ao desmembramento

familiar, também nos proporcionou

uma visão original do

mundo que marcou profundamente

o nosso olhar; os diversos

cenários geográficos proporcionaram-nos

uma compreensão

mais ampla do ser

humano e, em particular, de nós

próprios.

Ao fim de muitos anos,

consegui reunir-me com o meu

marido e os meus filhos, consegui

imprimir uma ordem afectiva

ao nosso ambiente familiar e,

hoje, vivo num país que escolhi

por minha própria vontade. Da

minha parte, sei que venci a

morte emboscada na Villa Grimaldi

e a que farejava atrás de

cada esquina do desenraizamento:

a bagagem não foi leve, mas

a viagem valeu a pena.


CIDADES INVISÍVEIS 26 27

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

VALPARAÍSO

Fotografias de Daniel Barraco

Valparaíso é um velho balcão debruçado sobre o Pacífico.

Viajantes, cineastas, poetas, pintores, fotógrafos gravaram

a sua história sob os céus secretos do Cruzeiro do Sul.

Mas quem melhor descobriu a sua alma profunda de porto

de partidas e de chegadas foi Neruda, que a reinventou a partir

da sua casa La Sebastiana, construída no cerro Florida.


CIDADES INVISÍVEIS 28

Neruda

e a invenção

de Valparaíso

Sergio Vuskovic Rojo

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

29


«Não será

simplesmente

[Valparaíso]

o fantasma de uma

cidade que nunca

pôde pertencer

inteiramente a

nenhum presente?»

Agustín Squella

Sempre me questionei sobre

a atracção que Valparaíso exerceu

sobre Neruda desde a sua mocidade

até à sua maturidade criadora.

Num exemplar do diário La

Nación de 1973, a poetisa Sara

Vial reproduziu algumas das

palavras que proferiu em Paris,

depois de receber o Prémio Nobel:

«Mais do que nunca sinto falta

do Chile e, com Matilde aqui a

meu lado, da nossa querida Valparaíso.»

No Estádio Nacional, aquando

do seu regresso de França,

após renunciar à embaixada,

começa a sua história pessoal:

«Nasci no centro do Chile, criei-

-me em La Frontera, iniciei a

minha educação em Santiago,

Valparaíso conquistou-me.»

Vaticinando o seu encontro

com a morte, escreveu docemente:

«Em Isla Negra os espero,

entre ontem e Valparaíso.»

E desta preocupação nasceram

em mim algumas reflexões

filosóficas e sociais.

Valparaíso é um lugar metafísico,

situado para lá da física,

para lá do tempo e do espaço,

para lá da história, uma urbe parada

no tempo, fora desta época e

que, todavia, vive e muda constantemente,

é um centro mágico

da existência.

É talvez a única povoação

deste país que não foi fundada

pelos espanhóis, mas sim, no seu

estatuto nobiliário, por vários

poetas e escritores. Desde Nicanor

Parra, que fala de «Valparaíso

afundada para cima», a Gon-


CIDADES INVISÍVEIS 30

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

zalo Rojas, que considera a cidade

como «obscuridade que sobe,

obscuridade que desce», ou a

Joaquín Edwards Bello, que defende

que «Valparaíso não impõe

ideias feitas. Cada qual a imagina

à sua maneira», exaltando o

carácter tolerante da primeira

cidade chilena que acolheu imigrantes

de todo o mundo, especialmente

da Europa.Até à chegada

do cigano Rodríguez que descobriu

que «Valparaíso amarra

como a fome». Cidade milagrosa

criada pelos «cerrenhos» e pelos

poetas.

Naturalmente que deste afã

de criação não escaparia Pablo

que, num livro chamado Geografía,

criou uma orografia imaginária:

«Vamos a Valparaíso, vamos

ao insólito porto sem portas, à

porta dos vastos mares. Valparaíso

é mínima e universal, sórdida

e gloriosa: Valparaíso obscura

arde na areia do Pacífico como

uma brasa fria, como uma estrela

de mil pontas.Valparaíso usurpou-me,

submeteu-me ao seu

domínio, ao seu dislate:Valparaíso

é um montão, é um racimo de

casas loucas, é um pássaro que

cai sobre a tua cabeça, é uma

criança pobre no meio do ferro

velho, é uma mulher angustiada,

é uma distância.

Um casal, uma cama, Valparaíso

é uma escada e três cavalos,

outra escada que conduz às nuvens

e outra que nos convida às

vidas alheias, à intimidade escorregadia

que nunca conseguiremos

partilhar senão com os degraus

pisados por um milhão de

pés que passaram enfiando-se

nos lençóis de Domingo, quando

tudo corre escadas acima, para os

cerros, para as famílias numerosas,

para a pobreza de cima, pobreza

orgulhosa e férrea temperada

em todos os combates de

terra e mar.»

31

VALPARAÍSO

É UM LUGAR

METAFÍSICO, SITUADO

PARA ALÉM DA FÍSICA,

PARA LÁ DO TEMPO

E DO ESPAÇO, PARA LÁ

DA HISTÓRIA, UMA URBE

PARADA NO TEMPO,

FORA DESTA ÉPOCA

E QUE, TODAVIA,

VIVE E MUDA

CONSTANTEMENTE,

É UM CENTRO MÁGICO

DA EXISTÊNCIA.

Valparaíso não é uma cidade,

pois, por muito que falemos

da cidade, esta, na verdade, não

existe: é uma confederação de 42

cerros e um vale. E, como se não

bastasse, é fácil constatar que não

tem um centro. Cada um imagina-o

como quer. Por isso, Lukas

afirmava que Valparaíso é a única

cidade do Chile que não se parece

com Quillota: aqui não há

uma Praça de Armas ou uma

Praça Maior. E, no entanto, existe

uma harmonia subjacente na sua

desordem. Como cidade, padece

de irrealidade, tanta que, às vezes,

o duque de Goicolea exclama,

surpreendendo-se a si mesmo:

«Valparaíso não existe.» E, por

isso, o poeta Arturo Morales lhe

recomenda: «Não gires, a cidade

não existe» (23.º poema itinerante),

desinventando Valparaíso.

Como é possível que os

cemitérios desfrutem da melhor

vista sobre o mar, já que todos

estão no cimo de alguns cerros?

Durante o terramoto de 1965,

no cemitério n.º 2 quebraram-se

vários mausoléus e sepulturas

comuns, produzindo-se uma

«chuva de mortos na cidade»,

como anunciou o El Mercurio.

Quem poderia imaginar que

apareceria um leão afogado na

praia de Las Gaviotas à saída do

leito da avenida Argentina? Valparaíso,

cidade de África?!

Melhor, parece que é um

estado de alma. Manuel Peña

Muñoz, por sua vez, sentiu: «Nada

mais triste que o Cerro Alegre.

Sobretudo num Domingo de

Outono, quando no meio da

neblina aparece o tocador de realejo,

pela rua Munich, a tocar

Violetas Imperiais». Ou o «mote

mei» que irrompe com o seu

farol entre as cascatas de neblina

que anunciam as primeiras gotas

de chuva.

Na realidade, verdadeiramente,

Valparaíso padece de um

sentimento de irrealidade que

evidencia o seu tom metafísico,

como história do ser de Valparaíso,

no qual são frequentes as

rajadas de vento norte e também

os ventos de irracionalidade e os

encontros fortuitos.

O professor alemão, doutor

em literatura, Thomas Brons, o

primeiro que propôs que Valparaíso

fosse declarada Património

Cultural da Humanidade pela

UNESCO em 1993, escreveu:

«No plano simbólico, eu diria

que esta cidade cresce em busca

do seu centro desconhecido» e,

na forma de haiku, «Valparaíso,

porta aberta a qualquer ser».

Procurando o seu centro,

andaremos pelo vale, subiremos

ou desceremos por qualquer

escadaria, mas poderá ocorrer

que alguma não levará a parte

nenhuma, como a que existe na

avenida Francia com Colón, na


esquina do Liceu Eduardo de la

Barra, atrás da bomba de gasolina.

Ou, então, sofreremos uma

espécie de ilusão óptica ao observarmos,

de cima, as casas do

porto porque nos mostram cinco

paredes em vez de quatro, sendo

a quinta o tecto multicor.

Este espírito de tolerância

também foi intuído por Pablo

Neruda que, ao escrever o livro

Valparaíso, exerceu a sua função

criadora com uma topografia

imaginária na qual aparecem 50

cerros, quatro ou cinco dos quais

são fruto da sua imaginação prodigiosa,

mas que tinham nomes

muito bonitos como El Árbol Copado,

Del Buey, Del Cardenal, e termina

com um toque de realidade

nomeando El Cerro de la Florida:

«Neste cerro está a minha casa»,

ainda que os vizinhos do cerro

Bella Vista digam que a Sebastiana

está no seu cerro. E reclamam

porque o poeta se esqueceu de o

nomear.

O logos portenho exibe-se através

de uma arquitectura contorcionista,

com casas velhas desequilibradas,

imbricadas umas nas

outras, amparando-se mutuamente,

nos bairros antigos, dentro

de labirintos de becos sujos

em terra batida, alguns tão estreitos

como o caminho de uma

mina subterrânea. Becos em

ziguezague, com escadas e escadinhas

deformadas, com os

degraus a diferente altura que, de

vez em quando, terminam numa

parede cega ou em casas malignas,

criando uma atmosfera de

pesadelo, de medo, ao ter que

percorrê-los de noite ou quando

as sombras começam a cobrir o

mundo. Becos propensos a

encontros fortuitos, devidos à

ocorrência de circunstâncias ou

da cumplicidade inverosímil

entre fenómenos opostos. Em

total contradição com a ilumina-

O LOGOS PORTENHO

EXIBE-SE ATRAVÉS

DE UMA ARQUITECTURA

CONTORCIONISTA,

COM CASAS VELHAS

DESEQUILIBRADAS,

IMBRICADAS UMAS

NAS OUTRAS,

AMPARANDO-SE

MUTUAMENTE,

NOS BAIRROS ANTIGOS,

DENTRO DE LABIRINTOS

DE BECOS SUJOS

EM TERRA BATIDA.

ção dos bares ou dos restaurantes

do vale.

Esta convivência entre a

sombra e a luz constitui, em

grande parte, o logos da Valparaíso

oitocentista que ressuscitou no

século XXI, transmitido pelas

gerações anteriores no século

XX, e que devemos transmitir às

gerações do século XXI. O seu

logos sempre foi e é aventureiro,

perigoso e fascinante porque não

cessa de atrair com os seus

encantos e abismos. Valparaíso

não liberta os que cativou, como

sucede com o jovem poeta norte-

-americano Todd Temkins e com

o pintor francês Thierry Defert,

Loro Coirón. Entretanto, Ennio

Moltedo e Allan Browne mantinham

erguida a bandeira dos

portenhistas.

O arquitecto Carlos Alberto

Cruz sustenta que, «entre 1850 e

1920, Valparaíso possui o conjunto

mais homogéneo de arqui-

tectura do século XIX que se

conserva na América, o que, porventura,

lhe granjeará, num futuro

próximo, o estatuto de cidade-museu

viva, tal como Quito,

Veneza e Edimburgo» (El Mercurio,

20.11.1994).

Os cerros e o raio verde: ao

caminhar pelos becos ou pelas

escadas dos cerros, no segundo

crepúsculo que anuncia a noite,

sempre sopra algo misterioso,

ambíguo, tão indefinível como o

próprio nome da cidade que não

admite o seu gentílico correspondente

(a não ser que aceitemos

«valparaisino», proposto,

em italiano, pelo professor Mauricio

Nocera), já que portenho se

refere ao porto; mas o que a define

são os cerros e a sua sismografia,

áreas encantadas da imaginação

e a partir dos quais se

pode ver correr o azul-lavanda da

atmosfera cristalina ou o raio

verde. Fulgor infinito, o último a

aparecer sobre o mar antes que o

Sol se esconda nos crepúsculos

claros do fim de tarde, ao cair da

noite, e que eu pensava que só

existia como metáfora num

verso de Pablo Neruda, até que o

vi afundar-se no horizonte límpido,

acompanhado de Nenita e

Rodolfo Pumpin, como testemunhas.

Todos os cerros e não apenas

os da fundação, isto é, Cordillera,

Alegre e Concepción, têm casas

solarengas com estruturas e

andares de madeiras nobres –

tepa, carvalho americano, pinho

«oregón», lariço das Guaitecas

– guardadas por portas com

maçanetas de bronze em forma

de punho ou de cabeça de leão e

as janelas de guilhotina que emitem

sons e ruídos característicos

ao abrir ou fechar.

As divisões da casa apresentam

geralmente rodapés de madeira,

às vezes de pau duro de Caiena,


CIDADES INVISÍVEIS 32

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

A ÂNSIA DE MAR,

DE LIBERDADE

E AVENTURA FOI O QUE

CONTRIBUIU PARA QUE

AS GERAÇÕES PASSADAS

NOS LEGASSEM

ESTE VALPARAÍSO

DO SÉCULO XIX,

A NÓS,

GENTE DO SÉCULO XX,

QUE TEMOS

COMO MISSÃO

DEIXÁ-LO, COMO

HERANÇA CULTURAL,

ÀS GERAÇÕES

DO SÉCULO XXI,

33

trazido das Guianas e que, passado

um século, ainda exalam uma

suave fragrância vegetal. Os escritórios,

as salas de jantar e os

quartos de dormir possuem formosas

lareiras construídas por

operários ingleses, trazidos especialmente

de Londres. Os móveis

eram da famosa oficina Cruz

Montt, de Santiago.

O Palácio Baburizza e as casas

Astoreca e Antoncit tinham as

suas respectivas salas de música.

Nas casas antigas, os jardins

são pequenos: copihues 1 , alfazema,

filodendros paraguaios, aspidistras,

etc. Com sebes de trepadeiras

e canteiros cobertos de

aromáticos jasmins e, nos maiores

das casas solarengas, podem

encontrar-se palmeiras, palmas

chilenas, araucárias e camélias.

Manuel Rojas, no seu romance

Lanchas en la Bahía, não

deixou de se fixar no gosto portenho

pelos jardins e pelas árvores,

o que também é visível nas

casas mais modestas: «Alguns

ranchos pendiam dos muros dos

cerros, ostentando vasos de

barro com cravos, malvas, cardenales

e achiras.»

Sendo muito importante o

património material – arquitectónico,

urbanístico e doméstico,

com uma vida vivida nas casas e

nos becos –, não é menos importante

o património espiritual,

ético que aqui se construiu: a

emigração multiétnica e de diferentes

continentes produziu a

virtude da tolerância, típica do

ser portenho, que sabe que detém

uma parte da verdade, mas não

toda a verdade; no próprio cerro

Concepción, a um quarteirão de

distância, encontram-se a Igreja

Luterana, alemã, e a Igreja Anglicana

de São Paulo, inglesa. Perto

delas está a Igreja de São Luís,

católica, nas imediações da qual

os mormones construíram, recentemente,

a sua igreja.

Os antigos comerciantes e

industriais eram, por sua vez,

homens de cultura e, em alguns

casos, refinada; Don Joaquín

Edwards Bello sustenta que «a

cortesia e a boa educação de

Valparaíso têm uma parte do

cunho inglês».

Este espírito de tolerância,

de cavalheirismo nas maneiras e

certo bom gosto é a base da


ausência de fanatismo que envolve

a cidade e que encontramos

reflectida nos resultados de morte,

na sequência do golpe de 11 de

Setembro, em comparação com

o massacre que se verificou em

Santiago e nas zonas agrárias.

Encontramos também esta

ausência de fanatismos num dos

seus locais mais belos, o cemitério

n.º 2. Aí, onde se manteve até

hoje, D. Vicente Martínez de

Morentín, falecido a 29 de Agosto

de 1914, mandou inscrever no

seu jazigo de mármore: «Quarto

do dono da casa.» No mesmo

cerro La Cárcel, encontra-se o primeiro

cemitério de dissidentes

do Chile.

Este espírito de tolerância e

esta ausência de fanatismo parecem

encontrar uma das suas raízes

na ânsia de mar e de vastidão

que sempre esteve presente na

cultura portenha. O romancista Salvador

Reyes escreveu em Los Tripulantes

de la Noche: «Nas tardes mais

luminosas, o porto era um grande

barco. Cortava as amarras e

lançava-se empurrado pelo vento

das grandes aventuras»; e Carlos

León, em Hombre del Traje Blanco,

também investigou sobre o seu

sentido metafísico e a sua abertura

ao mundo: «Valparaíso é uma

terra diferente. Sobe à cabeça

como un vinho generoso»; e, em

Hombres de Palabras, transforma-o

num amigo: «o porto de Valparaíso

que escolhi para viver

como a um amigo».

A ânsia de mar levou «aquele

chileno» à tripulação do capitão

Acab em Moby Dick, de Herman

Melville, ou «àquele portenho»

que D. Benjamín Subercaseux

encontrou nas ruas de Tóquio

conduzindo um riquexó,

segundo conta num velho Pacífico

Magazine.

A ânsia de mar, de liberdade

e aventura é que contribuiu para

que as gerações passadas nos

legassem esta Valparaíso do século

XIX, a nós, gente do século

XX, que temos como missão

deixá-la, como herança cultural,

às gerações do século XXI, libertando-a

da especulação idílica e

fazendo suas as aquisições provadas

pela história e pela estética.

Sara Vial, no seu imprescindível

Neruda en Valparaíso, recorda a

advertência feita pelo poeta nesta

mesma sala, quando eu era alcaide

desta cidade: «Todos os dias,

vemos que voa um edifício e que

dá lugar a um caixote de cimento.

Não sou inimigo dos caixotes

de cimento, mas há que saber

onde construí-los, uma vez que,

depois, virão as queixas e as

lamentações.»

O orador oceânico Augusto

D´Halmar, o eterno viajeiro pela

passagem Elias, afirma que «o

seu nome sugere distância, exotismo,

aventura. O seu nome, só

por si, infiltra já nas veias dos

sedentários ou dos inquietos o

feitiço da viagem»; ainda mais

agora que é património cultural

da Humanidade. «Vamos a Valparaíso»,

venha a Valparaíso e invente

a sua própria Valparaíso.

1 Planta trepadeira que dá uma flor vermelha, muito formosa,

por vezes de cor branca. (N. da T.)


CIDADES INVISÍVEIS 34 35

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007


Arquivo Histórico

Ultramarino

Caio Boschi

BIBLIOTECA DE BABEL 36

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

São livros (em grande parte encadernados

em pergaminho e em carneira); são incontáveis

papéis manuscritos, de diversa tipologia (como cartas,

requerimentos, alvarás, ofícios, decretos, provisões);

são plantas de diferentes núcleos urbanos

e populacionais; são desenhos representativos,

37

por exemplo, da fauna e da flora ultramarinas;

são fotografias de missões científicas, viagens...

eis o que se pode encontrar no Arquivo Histórico

Ultramarino se nos aventurarmos pelos quinze

quilómetros de documentação que aí se guardam.

Salão Pompeia, sala nobre do Palácio da Ega. Fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino


BIBLIOTECA DE BABEL 38

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Ao lançar-se à aventura marítima que o glorificaria,

Portugal já se apresentava como país que,

desde sempre, cuidou de preservar testemunhos

escritos sobre sua trajetória histórica. No momento

inaugural dos Descobrimentos, uma torre

albarrã do castelo de São Jorge passou a abrigar o

Livro do Tombo. Em simultâneo, criou-se o cargo de

guarda-mor da Torre do Tombo, cujo primeiro

titular, recordemo-nos, foi, cumulativamente, o

cronista do Reino, ninguém menos do que Fernão

Lopes.

A saga das navegações e

das conquistas, mais do que,

obviamente, fazer crescer a

dimensão e o volume da

massa documental, diversificou

a sua tipologia e a sua

natureza. Quando nada porque

a Expansão exigia e trouxe

consigo os relatos que lhe

eram inerentes e o estabelecimento

de novos órgãos administrativos.

Os documentos produzidos

e recebidos pelas autoridades

e repartições, metropolitanas

e ultramarinas, foram

tendo a Torre do Tombo como

seu desaguadouro e depósito

naturais. O Império se

ampliou, se complexificou. E

teve vida longa! Proliferaram-se

as fontes históricas a

ele relacionadas.

Há tempos, o Tombo deixou

de ser o celeiro que alimenta

e faz as delícias dos

estudiosos da História do

vasto império colonial português.

Ainda que não exclusivo,

o locus privilegiado para tais incursões é o

Arquivo Histórico Ultramarino, o AHU, como se apresenta

nos rodapés bibliográficos, ou o Ultramarino,

como ficou cunhado no jargão de seus freqüentadores.

Sucessor do Arquivo Histórico Colonial, o

Ultramarino tem sede, desde 1929, no antigo Palácio

da Ega, à Junqueira, isto é, nas cercanias de Belém

e do Restelo, inserção espacial que bem condiz

com a evocação da epopéia expansionista lusitana.

A massa documental que lhe deu origem perten-

39

A saga das navegações

e das conquistas,

mais do que,

obviamente,

fazer crescer

a dimensão e o volume

da massa documental,

diversificou

a sua tipologia

e a sua natureza.

cia ao Ministério das Colónias e, na altura, estava

custodiada no Arsenal da Marinha e na Cordoaria

Nacional. A ela se aduziu, naquela circunstância, o

Archivo da Marinha e Ultramar ou Secção Ultramarina da

Biblioteca Nacional de Lisboa. O objetivo da nova

instituição era inequívoco: congregar, em um só

local, a dispersa documentação respeitante às possessões

portuguesas do Ultramar; organizá-la e

tratá-la tecnicamente, para, de seguida, oferecê-la

à consulta.

O advento do Ultramarino, formalmente

institucionalizado, em

1931, pelo Decreto-Lei n.°19.869,

se explica muito bem à luz da

política estadonovista para as possessões

ultramarinas portuguesas.

Ou seja, a criação do novo órgão,

para além de propugnar inerentemente

pela centralização dos fundos

arquivísticos relativos àqueles

territórios, tinha claro propósito

prático-político, porquanto passava

a permitir às autoridades de

então acesso mais rápido e eficaz

a documentos que lhes facultassem

melhor e mais vertical compreensão

de realidades históricas

nas quais a seiva colonialista lusitana

ainda se mantinha forte e

ativa.

Apesar de as aparências equivocadamente

nos levarem a assim

considerá-lo, o acervo do Ultramarino

não se esgota ou não se

limita a documentos relativos às

ex-colônias portuguesas. O correto

seria dizer que se trata de fontes

respeitantes a lugares e a coletividades

nos quais os portugueses

se fizeram presentes e com as

quais (man)tiveram relações da mais variada natureza.

Assim, nas amplas e agradáveis instalações do

número 30 da Calçada da Boa Hora nos deparamos

com as alentadas e variegadas espécies documentais.

São livros (em grande parte encadernados

em pergaminho e em carneira); são incontáveis

papéis manuscritos, de diversa tipologia

(como cartas, requerimentos, alvarás, ofícios,

decretos, provisões); são plantas de diferentes

núcleos urbanos e populacionais; são desenhos

representativos, por exemplo, da fauna e da flora


ultramarinas; são fotografias de missões científicas,

viagens oficiais e que documentam a vida nos

espaços africanos e asiáticos de língua portuguesa,

eis o que encontramos quando nos aventuramos

nessa Babel de fundos ultramarinos que é o

Arquivo Histórico Ultramarino. Enfim, um considerável

repertório de fontes históricas sobre o

passado colonial do Brasil (1548-1825), Timor

(1642-1975), Macau (1603-1975), Índia (1509-

-1960), Cabo Verde (1602-1975), Guiné-Bissau

(1614-1975), São Tomé e

Príncipe (1538-1975), Angola

(1610-1975) e Moçambique

(1608-1975). Lá também nos deleitamos

com documentos sobre

o Norte Africano (1596-1832),

sobre a Serra Leoa, sobre as rela-

ções luso-persas (entre 1589 e

1798), sobre o Japão (em particular,

sobre a missionação e a

presença religiosa dos portugueses,

séculos XVI-XVII), sobre

a região platina (entre os séculos

XVII e XIX) e sobre as ilhas

da Madeira (1513-1834) e dos

Açores (1607-1834).

Totalizando 15 quilómetros

de documentação textual, cartográfica

e iconográfica, à qual se

junta uma biblioteca com cerca

de 14.000 títulos de livros e

680 de periódicos, o acervo do

AHU se estrutura hoje, grosso

modo, em três grandes conjuntos

(ou fundos) documentais: o do

Conselho Ultramarino (século XVI a

1833), o da Secretaria de Estado

dos Negócios da Marinha e

Domínios Ultramarinos, dita

Secretaria de Estado da Marinha e

Ultramar (1833 a 1910), e o do Ministério do Ultramar

(1911 a 1975), sem esquecer de fundos menores

e singulares, como os do Instituto de Apoio ao

Retorno de Nacionais, da Agência Geral das

Colónias, do Banco Nacional Ultramarino e da

Procuradoria dos Estudantes Ultramarinos.

Com tudo isso, ou melhor, a despeito da

intenção original, o que se constata, tal como

ocorre em quase todas as instituições do gênero, é

que o acervo do Ultramarino não tem sentido de

completitude, seja pelas idas-e-vindas da docu-

Ao simbolizar

a Babel

dos fundos

arquivísticos de povos

e de cultura

ibero-americanos,

o Ultramarino se aninha,

oportuna

e adequadamente,

à Atlântica.

mentação como, por exemplo, as mudanças das

instalações físicas e o trânsito de partes dos fundos

ocorridos no início do Dezenove, aquando da

transferência da sede da Monarquia para o Rio de

Janeiro, ou as trajectórias diversas dos arquivos

após a extinção dos organismos de Antigo

Regime, como o Conselho Ultramarino, ou do

Estado Novo, após o 25 de Abril de 1974, caso do

Ministério do Ultramar, seja porque documentos

concernentes à administração colonial, por distintas

razões, permaneceram ou

foram incorporados aos fundos

arquivísticos de outros órgãos,

como no caso dos que se quedaram

ou afluíram para a Torre

do Tombo, para a Biblioteca do

Palácio Nacional da Ajuda, para

a Divisão de Manuscritos da

Biblioteca Nacional de Lisboa

ou para o Arquivo Histórico do

Tribunal de Contas, seja, ainda,

pela ação de impróprias condições

de aclimatização no armazenamento

ou pelo deletério manuseio

e consulta, posto que

estes nem sempre são realizados

por consulentes conscienciosos.

A riqueza documental do

AHU, a pouco e pouco, vem

sendo divulgada em meio a sistemática

política de acessibilidade

ao acervo. Sem desdouro

pelos ingentes esforços e resultados

que se expressaram em

outros tempos, enfatizem-se

algumas iniciativas levadas a

cabo nas últimas duas décadas.

Assim, enquanto do ponto de

vista do espaço físico e da infra-

-estrutura um moderno e apropriado

edifício se construiu e se acoplou ao prédio

histórico do AHU, novos e sofisticados

equipamentos foram incorporados, e importantes

empreendimentos se desenvolvem no que

respeita à democratização de acesso aos fundos

documentais.

Exemplo ilustrativo dessa segunda diretriz é

a que se configurou no âmbito do Projeto Resgate,

implementado a partir de 1996, como expressão

operacional da Comissão Luso-Brasileira

para Salvaguarda e Divulgação do Património


BIBLIOTECA DE BABEL 40

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Plantas do Brasil, Jacaranda Caroba, c. 1801.

Ilustração do Arquivo Histórico Ultramarino

Documental – COLUSO. Trata-se de gigantesca

operação que objectivou, no que respeita à documentação

manuscrita avulsa sobre o Brasil depositada

no AHU, conferir-lhe tratamento técnico e, a

partir dele, elaborar instrumentos de busca e disponibilizar

mais facilitadamente aquela documentação

à consulta pública. Este propósito efectivamente

se cumpriu com a correspondente microfilmagem.

Significa dizer, então, que o conteúdo

de mais de duas mil caixas de documentos foi organizado,

lido, sumariado e catalogado, permitindo

que os verbetes-sumários servissem de sinaléticas

para os cerca de três milhões de fotogramas dos

microfilmes. Ainda como parte do Projeto, microfilmaram-se

os 759 Códices do Fundo da Secretaria

do Conselho Ultramarino relativos ao Brasil. O

producto mais patente e utilitário desses esforços,

afora evidentemente a reprodução microfílmica, é

uma colecção de 279 CD-ROM que, produzidos

entre 1996 e 2002, foram ofertados a instituições

universitárias e centros de investigação.

41

Ademais, cumpre salientar um efeito colateral

desta iniciativa: o desejável intuito de estender as

actividades do Resgate à documentação concernente

às outras partes do império colonial português

que se encontra igualmente armazenada no AHU.

Ou mesmo de se efetuar a identificação definitiva

e o tratamento arquivístico do Reino, núcleo composto

por 500 caixas de documentos avulsos e cuja

organicidade só agora começa a ser detectada e

identificada criticamente.

Com tais actividades e utilizando-se alargadamente

os avanços tecnológicos, mais do que

nunca vai sendo possível investigar e analisar, com

maior segurança, o real sentido e significado do

império ultramarino português. É nesse horizonte,

pois, que conhecer a potencialidade informativa

do acervo do AHU se apresenta como necessidade

ímpar para, por exemplo, alcançarmos maior

discernimento nem tanto sobre as afinidades existentes

entre os lusofalantes, mas, sobretudo, das

diferenças que nos singularizam.

É flagrante o dinamismo no cotidiano do

Ultramarino. Por conseguinte, tecer loas à qualidade

do seu recheio documental implica conhecer as

condições de acessibilidade ao mesmo. Nesse sentido

e para finalizar, há que se referir a iniciativas,

em grande parte já materializadas, concernentes

quer ao tratamento técnico e à acomodação física

do acervo, quer à informatização do acervo, quer,

ainda, à produção e veiculação de instrumentos de

pesquisa. Em outras palavras, abrem-se portas e

janelas para que, quando nada, se possa desmonumentalizar

a documentação ali recolhida. Ao simbolizar

a Babel dos fundos arquivísticos de povos e de

cultura ibero-americanos, o Ultramarino se aninha,

oportuna e adequadamente, à Atlântica.

Figurinos militares da Baía, 1806. Ilustração do Arquivo Histórico Ultramarino


SANTOS DA CASA 42 43

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

O diabo e as virgens

texto e fotografias Julio Pantoja

As celebrações oscilam entre sinceras promessas à Virgem

e oferendas ao Diabo e a Pachamama;

entre passeios familiares e o álcool ou o sexo urgente

com alguma mascarinha. Coisas de santos da casa.


SANTOS DA CASA 44 45

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Em Oruro, tecto do continente

e coração do altiplanalto

boliviano, houve uma vez um

grande centro cerimonial a

quase 4000 metros de altitude.

Ali, os índios urus adoraram,

desde a Pré-história,

Huari, deus da força

e o fogo da montanha.

Com o tempo, a cultura quechua fez

seu esse deus, transformando-o em Zupay,

que mais não é do que a versão indígena

do Diabo da fé católica, o protector dos

socavones, a que os mineiros chamam «El

Tío» e ao qual levam como oferenda

folhas de coca e cigarros para que não se

aborreça, porque, se se aborrecer, provocará

tremores de terra e desabamentos.

Noutra etapa histórica de dualismo

religioso, entre os anos 1700 e 1900, aproximadamente,

a Pachamama andina (Mãe

Terra) transformou-se na Virgem do

Socavón, ampliando o sincretismo e a dinâmica

da fé por intermédio desta mutação

religiosa.

Hoje, o seu templo está exactamente

no lugar onde os bruxos e os feiticeiros

faziam os seus conciliábulos. Ali mesmo,

nessa igreja, também desemboca a galeria

de uma velha jazida que, transformada

num museu mineiro, é presidida pelo

mesmíssimo Diabo. E para esse centro

sagrado se dirigem ainda os que sentem

nos seus espíritos o peso do misticismo

milenário.

Tudo isto foi sempre patrocinado pela

Igreja Católica do colonizador espanhol

que, durante séculos, procurou o modo

de hegemonizar a religiosidade em todo o

continente, ainda que à custa de esvanecer

os seus contornos tradicionais.

Os sacerdotes construíram os seus

templos nos antigos lugares sagrados,

para que os indígenas entrem nesses

recintos, agora católicos, para cantarem e

dançarem à sua maneira. Não lhes importava.

O objectivo era transculturizar os

que resistiam a crer na fé trazida de outro

continente.

As datas das celebrações, que a princípio

tinham a ver com a estação das

chuvas, foram-se ajustando a pouco e

pouco aos feriados autorizados pelos

padres e patrões, até ficarem definitivamente

integradas no Carnaval do calendário

oficial.

Actualmente, tão curiosa mistura

permite que, em cada ano, mais de

40.000 peregrinos, na sua maioria disfarçados

de diabos, e encabeçados pelo bispo

da cidade, desfilem dançando ao longo de

vários quilómetros, enquanto adoram ao

mesmo tempo a Virgem católica e o

Diabo.

Dentro desse paradoxo, as celebrações

oscilam entre sinceras promessas à Virgem

e oferendas ao Diabo e a Pachamama,

entre passeios familiares e o álcool ou o

sexo urgente com alguma mascarinha.

Coisas de virgens e diabinhos.


SANTOS DA CASA 46 47

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007


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A INVENÇÃO DA AMÉRICA 52

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

52

Tal como Waldseemüller se precipitou ao

baptizar o Novo Mundo de América,

também Colombo cometeu o erro fatal de

designar os seus habitantes como índios.

Pior que o termo foi o conceito que foi

dando corpo a uma acesa polémica,

representada por Bartolomeu de las

Casas e Juan Ginés de Sepúlveda, que

duraria séculos e que, ainda hoje, segun-

do o sociólogo Boaventura de Sousa

Santos, alimenta preconceitos culturais

subjacentes ao sistema capitalista.

A generalização do termo índio a toda a

América mistificou o retrato de um con-


tinente que apresentava, no alvor da

modernidade europeia, uma óbvia com-

plexidade cultural. Do México ao Peru,

das ilhas caribenhas ao litoral brasileiro

e ao rio da Prata, o panorama era muito

diverso – de sociedades fortemente hie-

rarquizadas a comunidades seminóma-

das e recolectoras. Fiquemos, por ora,

pelo Brasil, acompanhando Jorge Couto

e Vítor Serrão. O primeiro apresenta-nos

as comunidades pré-cabralinas, e o

segundo, a representação do índio na

pintura portuguesa de Quinhentos.

Organização de Maria da Graça M. Ventura


A INVENÇÃO DA AMÉRICA

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

54 55

O selvagem

Boaventura de Sousa Santos

É, ainda, o paradigma fundado na violência civilizadora

do Ocidente que mobiliza subterraneamente os projectos

de desenvolvimento, depois enfeitados com declarações

de solidariedade e direitos humanos, escreve Boaventura

de Sousa Santos no terceiro volume da Gramática

do Tempo.Aqui fica um excerto dessa obra fundamental

que visa fundar uma nova cultura política

e um novo senso comum.

Índio tupi. Albert Eckout, 1641. Copenhaga, National Museum of Denmark


1 Num dos relatos recolhidos

por Ana Barradas, os índios

são descritos como

«(…) verdadeiros seres

inumanos, bestas da floresta

incapazes de compreender

e fé católica (…), esquálidos

selvagens, ferozes e vis,

parecendo-se mais animais

selvagens em tudo menos

na forma humana (…)»

(1992: 34).

2 Rousseau, no seu

«Discurso sobre a Origem

da Desigualdade entre os

Homens», publicado em

1755, defende que o homem

nasce bom e sem vícios

– o bom selvagem –, mas

é pervertido pela sociedade

civilizada (Rousseau, 1971

(1755).

3 Num trabalho anterior,

Frei Bartolomé de Las Casas

denuncia a «destruição

de África» (1996), através

do roubo, comércio de

escravos, etc.

A INVENÇÃO DA AMÉRICA 56

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

57

Se o Oriente é, para o Ocidente, o lugar

de alteridade, o selvagem é o lugar da inferioridade.

O selvagem é a indiferença incapaz

de se constituir em alteridade. Não é o

outro porque não é sequer plenamente

humano 1 .A sua diferença é a medida da sua

inferioridade. Por isso, longe de constituir

uma ameaça civilizacional, é tão-só ameaça

do irracional. O seu valor é o valor da sua

utilidade. Só merece a pena confrontá-lo na

medida em que ele é um recurso ou a via de

acesso a um recurso. A incondicionalidade

dos fins – a acumulação dos metais preciosos,

a expansão da fé – justifica o total pragmatismo

dos meios: escravatura, genocídio,

apropriação, conversão, assimilação.

Os jesuítas, despachados quase ao

mesmo tempo, ao serviço de D. João III,

para o Japão e para o Brasil, foram os primeiros

a testemunhar a diferença entre o

Oriente e o selvagem:

«Entre o Brasil e esse vasto Oriente, a

disparidade era imensa. Lá, povos de requintada

civilização… Aqui florestas virgens e

selvagens nus. Para o aproveitamento da

terra pouco se poderia contar com sua rarefeita

população indígena cuja cultura não

ultrapassava a idade da pedra. Era necessário

povoá-la, estabelecer na terra inculta a verdadeira

«colonização». Não assim no

Oriente, superpovoado, onde a Índia, o

Japão e, sobretudo, a China haviam deslumbrado,

em plena Idade Média, os olhos e a

imaginação de Marco Polo» (Viotti, 1984: 12).

A ideia do selvagem passou por várias

metamorfoses ao longo do milénio. O seu

antecedente conceptual está na teoria da

«escravatura natural» de Aristóteles. Segundo

esta teoria, a natureza criou duas partes,

uma superior, destinada a mandar, e a outra

inferior, destinada a obedecer. Assim, é

natural que o homem livre mande no

escravo, o marido, na mulher, o pai, no

filho. Em qualquer destes casos, quem obedecer

está total ou parcialmente privado da

razão e da vontade e, por isso, é do seu

interesse ser tutelado por quem tem uma e

outra em pleno. No caso do selvagem, esta

dualidade atinge uma expressão extrema,

na medida em que o selvagem não é sequer

plenamente humano: meio animal, meio

homem, monstro, demónio, etc. Esta

matriz conceptual variou ao longo do

milénio e, tal como sucedeu com o Oriente,

foi a economia política e simbólica da

definição do «Nós», de Montaigne a Rousseau,

de Bartolomé de Las Casas ao Padre

António Vieira que esteve na base das visões

positivas do selvagem, o «bom selvagem» 2 .

No segundo milénio, a América e a

África, enquanto «descobertas» ocidentais,

foram o lugar por excelência do selvagem.

E a América, talvez mais do que a África,

dado o modelo de conquista e colonização

no «Novo Mundo», como significativamente

foi designado por Américo Vespúcio,

o continente que rompia com a geografia

do mundo antigo, confinado à Europa,

à Ásia e à África. É a propósito da América

e dos povos indígenas submetidos ao

jugo europeu que se suscita o debate fundador

sobre a concepção do selvagem no

segundo milénio. Este debate que, contrariamente

às aparências, está hoje tão em

aberto como há quinhentos anos, inicia-se

com as descobertas de Cristóvão Colombo

e Pedro Álvares Cabral e atinge o seu clímax

na «Disputa de Valladolid», convocada em

1550 por Carlos V, em que se confrontaram

dois discursos paradigmáticos sobre os

povos indígenas e a sua dominação, protagonizados

por Juan Ginés de Sepúlveda e

Bartolomé de Las Casas. Para Sepúlveda

(1979), fundado em Aristóteles, é justa a

guerra contra os índios porque estes são os

«escravos naturais», seres inferiores, animalescos,

homúnculos, pecadores graves e

invertebrados, que devem ser integrados na

comunidade cristã, pela força, se for caso

disso, a qual, se necessário, pode levar à sua

eliminação. Ditado por uma moral superior,

o amor do próximo pode, assim, sem

qualquer contradição, justificar a destruição

dos povos indígenas: na medida em

que resistem à dominação «natural e justa»

dos seres superiores, os índios tornam-se

culpados da sua própria destruição. É para

seu próprio benefício que são integrados

ou destruídos.

A este paradigma da descoberta imperial,

fundado na violência civilizadora do

Ocidente 3 , contrapôs Las Casas (1992) a sua

luta pela libertação e emancipação dos

povos indígenas das Américas, que conside-


ava seres racionais e livres, dotados de cultura

e instituições próprias, com as quais a

única relação legítima era a do diálogo

construtivo assente em razões persuasivas

«suavemente atractivas e exortativas da vontade».

Fustigando a hipocrisia dos conquistadores,

como mais tarde fará o Padre António

Vieira, Las Casas denuncia a declaração

da inferioridade dos índios como um artifício

para compatibilizar a mais brutal exploração

com o imaculado cumprimento dos

ditames da fé e dos bons costumes. Pese

embora o brilho de Las Casas, foi o paradigma

de Sepúlveda que prevaleceu. Porque só

esse era compatível com as necessidades do

novo sistema mundial capitalista e colonial,

centrado na Europa.

No terreno concreto da missionação,

dominaram quase sempre as ambiguidades

e os compromissos entre os dois paradigmas.

O padre José de Anchieta é talvez um

dos primeiros exemplos. Tendo repugnância

pela antropofagia e pela concupiscência

dos brasis, «gente bestial e carniceira», o

padre Anchieta acha legítimo sujeitar os

gentios ao jugo de Cristo que «assim (…)

serão obrigados a fazer, por força, aquilo a

que não é possível levá-los por amor» 4 ,ao

mesmo tempo que de Roma os seus superiores

lhe recomendam que evite atritos

com os portugueses, «pelo que importa

mantê-los benévolos» 5 . Mas, por outro lado,

tal como Las Casas, Anchieta embrenha-se

no conhecimento dos costumes e das línguas

indígenas e vê nos ataques dos índios

aos portugueses o castigo divino «pelas

muitas sem-razões que têm feito a esta

nação, que dantes eram nossos inimigos,

salteando-os, cativando-os, e matando-os,

muitas vezes com muitas mentiras e enganos»

6 . Quase vinte anos depois, haveria

Anchieta de se lamentar que «a maior parte

dos índios, naturais do Brasil, está consumida,

e alguns poucos, que se hão conservado

com a diligência e trabalhos da Companhia,

são tão oprimidos que em pouco

tempo se gastarão 7 .

Com matizes vários, é o paradigma de

Sepúlveda que ainda hoje prevalece na

posição ocidental sobre os povos ameríndios

e os povos africanos. Apesar de

expulsa das declarações universais e dos

discursos oficiais, é, contudo, a posição

que domina as conversas privadas dos

agentes do Ocidente no Terceiro Mundo,

sejam eles embaixadores, funcionários da

ONU, do Banco Mundial ou do Fundo

Monetário Internacional, cooperantes,

empresários, etc. É esse discurso privado

sobre pretos e índios que mobiliza subterraneamente

os projectos de desenvolvimento,

depois enfeitados publicamente

com declarações de solidariedade e direitos

humanos.

Maximiliano de Wied-Neuwied, «Caçador surpreendendo araras no Rio Grande de Belmonte» (Outubro de 1816).

Aguarela e pena. Colecção Robert Bosch, Stuttgart

4 Carta de 1.10.1554,

em Obras Completas,

volume 6: 79.

5 Carta do general Everardo

para o padre José Anchieta,

de 19 de Agosto de 1579.

Em Obras Completas,

volume 6: 299.

6 Carta de 8 de Janeiro de 1565,

em Obras Completas,

volume 6: 210.

7 Carta a 7 de Agosto de 1583,

em Obras Completas,

volume 6: 338.

SANTOS, Boaventura de Sousa.

A Gramática do Tempo –

para uma nova cultura política

– Para um novo senso

comum. A ciência, o direito e

a política na transição paradigmática.

Porto: Edições

Afrontamento, 2006, volume

4, cap. 5, pp. 173-175.


As sociedades ameríndias

da floresta tropical

Jorge Couto

A INVENÇÃO DA AMÉRICA 58 59

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

«Mappa do Continente da Colonia do Sacramento, Rº. Grande de S. Pedro the a Ilha de S. Catharina com a Linha divizoria da Arraya ajustada pelo

Tratado de Limites Celebrado entre as Corôas de Portugal e Castela em o anno de MDCCL», posterior a 1750. Biblioteca Pública Municipal do Porto


1 Cf. Aryon Dall’Igna

RODRIGUES, Línguas

Brasileiras. Para

o conhecimento das

línguas indígenas,

São Paulo, 1987, pp. 41-98.

2 Cf. Alfred MÉTRAUX,

La Civilisation

Matérielle des Tribus

Tupi-Guarani, Paris, 1928,

p. 312.

3 Cf. Aryon Dall’Igna

RODRIGUES, «A Classificação

do Tronco Linguístico Tupi»,

in Revista de

Antropologia (São Paulo),

12 (1964), pp. 103-104.

4 Donald W. LATHRAP,

O Alto Amazonas, trad.

port., Verbo, Lisboa, 1975,

pp. 81-84.

A INVENÇÃO DA AMÉRICA 60

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

61

Ao longo do milenar processo de

povoamento do território que viria a

denominar-se Brasil, verificou-se uma

progressiva diferenciação linguística e

civilizacional entre os descendentes dos

primitivos povoadores. Por volta de 5000

anos A.P. (Antes do Presente), registou-se

um acentuado crescimento demográfico e

ocorreram diversos movimentos migratórios

que estiveram na origem do aparecimento

de grupos populacionais crescentemente

individualizados.

Os ameríndios, que se fixaram no

espaço brasílico e nas imediações das suas

actuais fronteiras, são agrupados, de acordo

com critérios linguísticos, do seguinte

modo: troncos (Macro-Tupi e Macro-Jê);

grandes famílias (Caribe, Aruaque e

Arauá); famílias menores situadas a norte

do Amazonas (Tucano, Macú e Ianomámi)

e famílias menores estabelecidas a sul do

mesmo rio (Guaicurú, Nambiquára,Txapacúra,

Páno, Múra e Catuquína), bem como

grupos isolados (Aricapú, Auaquê, Irántche,

Jabutí, Canoê, Coiá,Trumai e outras) 1 .

O tronco Macro-Tupi é constituído

por sete famílias (Tupi-Guarani, Mundurucu,

Juruna, Ariquém, Tupari, Ramarama

e Mondé) que se dividem em vários grupos

(línguas) e subgrupos (dialectos).

Refira-se, a título exemplificativo, que o

subgrupo Guajajara pertence ao grupo

Teneteára, integrado, por sua vez, na família

Tupi-Guarani, um dos sete ramos do

Macro-Tupi.

Desde o século XIX têm sido desenvolvidas

diversas tentativas, iniciadas por

Carlos Frederico von Martius (Leipzig,

1867), para determinar o centro de dispersão

da família Tupi-Guarani. Segundo

Alfred Métraux, esse local situava-se na

região limitada a norte pelo Amazonas, a

sul pelo rio Paraguai, a este pelo rio Tocantins

e a oeste pelo rio Madeira 2 . Por seu

turno,Aryon Dall’Igna Rodrigues, baseado

em elementos linguísticos e no método da

glotocronologia, aponta a zona do rio

Guaporé (alto Madeira) como centro de

difusão dos falantes do tronco Macro-Tupi

há 5000 anos A.P., sugerindo que a separação

da família Tupi-Guarani ocorreu ao

redor de 2500 anos A.P. 3 .

Apoiados na análise comparativa das

características da cerâmica amazónica e

tupi-guarani e em estudos de natureza linguística,

diversos antropólogos e arqueólogos

(Evans, Meggers, Lathrap) defendem

que o centro de diferenciação do tronco

Macro-Tupi deve ser procurado na Amazónia.

O último autor considera acertado

localizar «a zona de origem da comunidade

de idiomas prototupi-guarani na margem

sul do Amazonas, um pouco abaixo da

confluência do rio Madeira» (há cerca de

5000 anos A.P.), apontando a foz do Amazonas

como área de dispersão, ao redor de

2500 anos A.P., dos falantes da «protolíngua

tupi-guarani propriamente dita» 4 .

Uma tese datada de 1982 e baseada

nos métodos da glotocronologia sugere

que o tronco Macro-Tupi teve a sua origem,

por volta de 5000 anos A.P, na região

situada entre os rios Jiparaná e Aripuanã,

tributários da margem direita do rio

Madeira, um dos afluentes do baixo Amazonas.

Os recursos alimentares fornecidos

pela borda meridional amazónica – zona

de florestas entrecortadas de cerrados –

terão possibilitado aos grupos de caçadores-recolectores

do tronco Macro-Tupi, no

período compreendido entre 4000 a 2000

anos A.P., um importante acréscimo da

densidade populacional que esteve na origem

de um primeiro movimento de

expansão geográfica e de diferenciação linguística

que os conduziu a leste até ao alto

Xingu, a oeste ao alto Madeira e a sul ao rio

Guaporé, processo de que resultou a formação

das sete famílias deste tronco e, consequentemente,

a individualização dos

Tupi-Guarani. Nesta fase, é altamente provável

que tenham adquirido e desenvolvido

as técnicas da domesticação de plantas,

da fabricação de cerâmica, da confecção da

rede-de-dormir e da navegação fluvial.

Por volta do início da Era Cristã, o

crescimento demográfico e os efeitos de

um persistente surto de seca que afectava,

desde cerca de 3000 anos A.P., a floresta

equatorial amazónica, bem como a generalidade

do território brasílico, provavelmente

obrigaram os Tupi-Guarani a buscar

novos nichos ecológicos que proporcio-


nassem condições de subsistência adequadas

a horticultores da floresta tropical e

ceramistas: zonas de mata situadas na proximidade

de cursos de água navegáveis;

áreas pouco acidentadas, húmidas, pluviosas

e quentes ou, no mínimo, temperadas.

Pelo contrário, as regiões semiáridas, montanhosas

ou frias nunca despertaram o seu

interesse.

As migrações destas populações levaram-nas

a ocupar, sobretudo, a vizinhança

das terras banhadas pelos mais importantes

rios e a progredir para sul, alcançando,

pelo interior, há cerca de 1800 anos, os férteis

vales do Paraguai, Paraná, Uruguai e

Jacuí, bem como dos seus afluentes. A partir

dessa área, irradiaram, posteriormente,

para leste, ocupando paulatinamente a orla

marítima compreendida entre o Rio Grande

do Sul e o Ceará 5 .

Das importantes movimentações empreendidas

pelos Tupi-Guarani no decurso da

presente Era resultou, por volta dos séculos

VIII-IX, a sua separação em dois grupos linguísticos

distintos: o tupi («pai supremo,

tronco da geração») e o guarani («guerra»).

O primeiro abrange as populações que se

instalaram ao longo da maior parte da

região costeira tropical; o segundo engloba

os grupos que estabeleceram o seu habitat

na área subtropical – Mato Grosso do Sul,

região meridional do Brasil, Paraguai, Uruguai

e Nordeste da Argentina – após expulsarem

os seus primitivos ocupantes, povos

exclusivamente caçadores-recolectores précerâmicos,

tecnologicamente inferiores e

criadores de indústrias líticas designadas

por «Tradição Humaitá» 6 .

Os Prototupi apropriaram-se das terras

mais quentes da faixa atlântica, dedicando-

-se à cultura da mandioca amarga, enquanto

os Protoguarani colonizaram as terras temperadas,

especializando-se no cultivo do

milho 7 . O processo de diferenciação dos

Tupiguarani repercutiu-se, também, nas

tradições cerâmicas, tendo os Tupi desenvolvido

a «subtradição pintada», e os Guarani

a «subtradição corrugada».

Uma proposta de reconstrução das

migrações Tupi-Guarani – elaborada a partir

dos resultados de investigações linguísticas,

etnográficas e arqueológicas – adian-

ta que a separação entre os Prototupi e os

Protoguarani se terá verificado, há cerca de

2500 anos A.P., numa área situada entre a

foz do rio Madeira e a ilha de Marajó. Uma

forte pressão demográfica teria impelido

os Protoguarani para sul, através dos cursos

dos rios Madeira e Guaporé, chegando, por

volta do início da presente Era, ao sistema

fluvial Paraná-Paraguai-Uruguai. Os Prototupi,

por seu turno, estabelecidos na bacia

amazónica, ter-se-iam fragmentado em

vários subgrupos que, entre os séculos VI-XI,

ocuparam paulatinamente o litoral até às

proximidades do Trópico de Capricórnio,

onde depararam com os Guarani. Iniciaram,

então, a penetração no planalto meridional,

estabelecendo-se a fronteira entre

os dois grupos linguísticos ao sul do curso

do Tietê 8 .

O modelo explicativo mais recente

sobre a origem e dispersão do tronco

Macro-Tupi – que utiliza o método da

reconstrução desenvolvido na linguística

comparativa para determinar as relações

genéticas entre as línguas e, desse modo,

elaborar as respectivas árvores genealógicas

– defende a hipótese de que este tronco

linguístico teve o seu berço algures na

região delimitada pelos afluentes orientais

do Madeira e as cabeceiras dos rios Tapajós

e Xingu, em áreas de altitudes da ordem

dos 200 a 1000 metros e, em média, acima

dos 500 metros, eventualmente o chapadão

dos Parecis. No período compreendido

entre 5 a 3000 anos A.P., ter-se-á iniciado o

processo de dispersão dessas populações,

numa área localizada aproximadamente

entre as nascentes dos rios Madeira e

Xingu, de que resultou a individualização

das sete famílias do tronco Macro-Tupi,

entre as quais assumiu posição de relevo a

Tupi-Guarani.

Há cerca de 2000 a 3000 anos, ter-se-á

verificado a primeira grande movimentação

expansionista da família Tupi-Guarani,

que provocou a migração dos Cocama e

dos Omágua para norte, rumo à região

amazónica, dos Guaiaqui para sul, em

direcção ao Paraguai, e dos Xirionó para

sudoeste, onde penetraram em território

actualmente pertencente à Bolívia. Seguidamente,

eclodiu a fase de separação do

5 Cf. Ernest C. MIGLIAZZA,

«Linguistic Prehistory and the

Refuge Model in Amazonia»,

in Biological

Diversification in the

Tropics, ed. de G.T. Prance,

Nova Iorque, 1982,

pp. 497-519.

6 Cf. Arno Alvarez KERN,

«Les Groupes Préhistoriques

de la région Sud-brésilienne

et les changements des

páleo-milieux: une analyse

diachronique», in Revista

de Arqueología

Americana

(Cidade do México), 4 (1991),

pp. 101-121.

7 Cf. Pedro Ignácio SCHMITZ,

«Migrantes da Amazónia:

a tradição tupiguarani»,

in Arqueologia

Pré-Histórica do Rio

Grande do Sul,

pp. 301-302.

8 Cf. José Proenza BROCHADO,

«A Expansão dos Tupi e da

Cerâmica da Tradição

Policrômica Amazónica»,

in Dédalo (São Paulo),

27 (1989), pp. 65-82.


9 Cf. GREG URBAN, «A História

da Cultura Brasileira segundo

as Línguas Nativas»,

in História dos Índios

no Brasil, dir. de Manuela

Carneiro da Cunha,

São Paulo, 1992, pp. 92-100.

10 Cf. Estêvão PINTO,

Os Indígenas do

Nordeste, vol. I,

São Paulo, 1935, pp. 115-117.

11 Cf. Idem, ibidem,

pp. 136-137.

A INVENÇÃO DA AMÉRICA 62

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

63

núcleo central, que levou os Pauserna e os

Cauaib para oeste, os Oiampi para as Guianas,

os Caiabi e os Camaiurá para o curso

do Xingu, os Tapirapé e os Teneteára para as

imediações da foz do Amazonas, e os Xetá

para o extremo sul do Brasil. Depois do ano

1000 da nossa Era, ter-se-á verificado a

última cisão da família Tupi-Guarani,

dando origem aos grupos Tupi e Guarani 9 .

Quando os tripulantes da armada de

Cabral desembarcaram na Terra de Santa

Cruz, os Tupi e os Guarani efectuavam

denodados esforços para completar a conquista

do litoral. Os seculares conflitos que

se verificaram entre os vários grupos indígenas

pela posse da faixa costeira foram

provocados pela imperiosa necessidade de

procurar dominar um nicho ecológico que

fornecia alimentos abundantes, designadamente

peixe, tartarugas, moluscos, crustáceos

e sal, imprescindíveis para a dieta aborígene,

sobretudo se se atender ao facto de

que os recursos cinegéticos eram insuficientes

para fornecer a quantidade de proteínas

indispensável à sua conveniente

nutrição.

A ambição de uma comunidade ameríndia

em exercer o domínio sobre uma

região favorecida teria de se traduzir na

conquista de uma parte da várzea amazónica

ou da orla marítima. Naturalmente,

ganhavam a disputa os grupos tribais mais

coesos, numerosos e tecnologicamente

mais bem apetrechados.

Em 1500, osTupi ocupavam a mais significativa

parcela da zona costeira compreendida

entre o Ceará e a Cananeia (São

Paulo), e os Guarani, estabelecidos exclusivamente

a sul do Trópico de Capricórnio,

dominavam a faixa litorânea situada entre a

ilha da Cananeia e a lagoa dos Patos (Rio

Grande do Sul), além de importantes

regiões no interior desse espaço.

A reconstituição da distribuição espacial

dos grupos tribais aborígenes ao longo

do litoral brasílico, no final do século XV-

-início do século XVI, apresenta-se como

uma tarefa problemática devido à escassez

de elementos de origem indígena, à imprecisão

dos testemunhos dos autores quinhentistas

e à mobilidade das áreas fronteiriças

decorrente do estado de guerra endé-

mica existente entre os diferentes grupos

autóctones. Conjugando as informações

fornecidas por várias fontes, é, contudo,

possível traçar um quadro geral aproximativo

das diversas «nações» ameríndias que

controlavam a costa e os sertões adjacentes

nos primórdios de Quinhentos.

A orla marítima era ocupada, no sentido

norte-sul, pelos seguintes grupos tribais:

o Aruaque habitava o Norte desde a foz

do Oiapoque (Amapá) até à costa paraense,

incluindo o delta amazónico e as respectivas

ilhas, designadamente a de Marajó (território

do grupo aruã, «pacífico») 10 ;o Tremembé

(«alagadiço»), pertencente à família

Cariri e ao tronco Macro-Jê, por seu lado,

estava sobretudo fixado no Meio-Norte

(Maranhão-Piauí), estendendo-se a sua

área de influência das desembocaduras dos

rios Gurupi (no limite sul do Pará) ao

Camocim ou ao Mucuripe (Ceará) 11 .

A partir, grosso modo, da foz do rio Jaguaribe

(Ceará), entrava-se em território

maioritariamente Tupi: os Potiguar («comedor

de camarão») dominavam a zona costeira

localizada entre aquele rio e o Paraíba;

os Tabajara («senhor da taba») viviam no

litoral situado entre o estuário deste curso

de água e Itamaracá, e os Caeté («mata verdadeira»)

predominavam no trecho de

costa compreendido entre este marco geográfico

e a margem norte do rio de São

Francisco (Alagoas).

Nos sertões nordestinos (serras da

Borborema, dos Cariris Velhos e dos Cariris

Novos e vales do Acarajú, do Jaguaribe, do

Açú, do Apodi e do baixo São Francisco),

refugiaram-se os Cariri («silencioso»), pertencentes

ao tronco Macro-Jê, após terem

sido expulsos do litoral pelos Tupi. Numa

parcela do interior cearense (sobretudo na

serra de Ibiapaba), do Rio Grande do Norte

e da Paraíba imperavam os tabajaras.

Os Tupinambá («descendentes dos Tupi»)

ocupavam a costa desde a margem direita

do São Francisco até à zona norte de Ilhéus,

depois de terem vencido os seus anteriores

habitantes; no entanto, a sua divisão em

dois grupos rivais – o primeiro abarcando

a área enquadrada pelos rios de São Francisco

e Real (Sergipe), e o segundo senhoreando

o litoral desde aí até ao Camamu –


deu origem a um estado de guerra permanente.

Por outro lado, os moradores da

região onde veio a ser edificada a vila do

Pereira e, posteriormente, a cidade do Salvador

eram inimigos dos habitantes das

ilhas de Itaparica e Tinharé e da costa norte

de Ilhéus, situação que provocava acesos

combates entre aqueles bandos.

Nos sertões baianos fixaram-se os

Tapuia, os Tupina e os Amoipira («os da outra

banda do rio»), um ramo segregado dos

Tupinambá, após terem sido derrotados em

sucessivas guerras quer entre si, quer com

os Tupinambá. Aí viviam, também, os Ibirajara

(«senhor do pau»), pertencentes ao

grupo Caiapó da família Jê.

Do estuário do Camamu (a norte de

Ilhéus) até ao do Cricaré ou São Mateus

(Espírito Santo), as zonas litorâneas pertenciam

aos Tupiniquim («colaterais dos

Tupi») que, contudo, se debatiam com as

duras investidas dos Aimoré (vocábulo tupi

que designa uma espécie de macacos), pertencentes

à família Botocudo (Macro-Jê),

que lhes disputavam o território. Nos sertões

de Porto Seguro e do Espírito Santo

viviam os Papaná, que foram forçados a

abandonar o litoral devido aos ataques dos

Tupiniquim e dos Aimoré. Os Goitacá

(«nómadas») provinham do tronco Macro-

-Jê e viviam no trecho de costa compreendido

entre o rio Cricaré e o cabo de São

Tomé, ocupando também o interior dessa

região.

A área costeira fluminense, delimitada

pelo cabo de São Tomé e Angra dos Reis, era

controlada pelos Tamoio («avô») – outro

ramo dos Tupinambá – que dispunham,

ainda, de algumas povoações mais a sul:

Ariró, Mambucaba, Taquaraçu-Tiba, Ticoaripe

e Ubatuba. Todavia, ainda restavam

nessa área alguns núcleos de Temiminó

(«netos do homem»), designadamente na

ilha de Paranapuã ou dos Maracajá (actual

ilha do Governador, na baía da Guanabara),

que resistiam às constantes investidas dos

seus implacáveis inimigos.

O domínio do litoral paulista, localizado

entre Caraguatatuba e Iguape-ilha Comprida,

pertencia aos Tupiniquim que também

viviam numa parcela do sertão. Os Guaianá

(«gente aparentada») predominavam na

Das importantes

movimentações

empreendidas

pelos Tupi-guarani

no decurso da presente

Era resultou, por volta

dos séculos VIII-IX,

a sua separação em dois

grupos linguísticos

distintos: o tupi

(«pai supremo,

tronco da geração»)

e o guarani («guerra»).


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 64

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

65

zona de matas de pinheiro, a 300 metros

de altitude, e na área de planalto correspondente

à faixa que se estende de Angra

dos Reis à Cananeia. Pertenciam à família

Jê, devendo ser considerados antepassados

dos actuais Caingangues.

A partir da Cananeia, entrava-se no

espaço dos Guarani e dos autóctones por eles

assimilados ou «guaranizados» – conhecidos

por diversas designações locais, nomeadamente

Carijó, Tape, Patos e Arachã – que se

estendia até à lagoa dos Patos, numa extensão

de cerca de 80 léguas de costa. Estes

tinham como vizinhos e adversários populações

pertencentes aos grupos pampeanos:

os Charrua, no Sudoeste, fixados em

ambas as margens do rio Uruguai e respectivos

afluentes, e os Minuano, no Sudeste,

que detinham a posse do trecho de costa

que se iniciava na lagoa dos Patos e alcançava

o estuário platino (nas imediações do

local onde, no século XVIII, viria a ser edificada

a cidade de Montevideu).

No decurso da longa luta pelo domínio

do litoral, os Tupi-guarani – mais bem

organizados, mais bem armados, dispondo

das técnicas da agricultura de coivara e da

cerâmica, bem como da construção de

habitações, estruturas defensivas e canoas –

derrotaram e expulsaram as populações

que habitavam o litoral. Estas foram apodadas

de Tapuia, vocábulo tupi que significa os

«outros ou selvagens» e que era utilizado

depreciativamente pelos vencedores com o

sentido de «inimigos bárbaros». Esta denominação

foi atribuída aos membros de

todos os outros troncos linguísticos –

sobretudo Jê – que ainda não tinham atingido

o seu estádio civilizacional.

Quando entraram em contacto com os

portugueses, os Tupi transmitiram-lhes o

seu menosprezo pelos povos Jê, tendo

aqueles perfilhado idêntica posição e adoptado,

inclusivamente, a expressão tapuia

para designar todas as populações não pertencentes

à família Tupi-Guarani. Os tapuias

correspondiam, pois, na generalidade dos

casos, às populações Jê.

Os autores quinhentistas tinham clara

consciência de que – anteriormente à chegada

dos portugueses ao Brasil e até já

depois do início da colonização – os gru-

pos tribais do ramo tupi, constituídos

por sociedades de horticultores-caçadores-

-recolectores-pescadores, tinham derrotado

e expulsado de grande parte do litoral brasílico

os seus primitivos ocupantes, na sua

maioria comunidades de caçadores-recolectores

pertencentes ao tronco Macro-Jê,

instalando-se nesses territórios.

Estas sociedades caracterizavam-se pela

prática de uma horticultura de raízes, pela

importância vital da caça e da pesca, pela

mudança periódica dos povoados, pela

menor densidade populacional comparativamente

com as sociedades de agricultura

sedentária, bem como pela inexistência, na

generalidade dos casos, de diferenciações

sociais significativas, de tipos coercivos de

organização do poder, do pagamento de

tributos ou de formas institucionalizadas

de religião.

As populações que desenvolveram este

modelo civilizacional estavam estabelecidas

em largas faixas do Leste da América do

Norte, no Norte do México, em algumas

zonas da Colômbia e do Chile, nas ilhas

ocupadas pelos Caribe e em grande parte da

América do Sul, da Venezuela ao Paraguai.

No litoral sul-americano – da costa

caribenha da Colômbia até ligeiramente a

sul do estuário platino (Argentina) – predominavam

as sociedades semi-sedentárias,

ou seja, comunidades de horticultores-caçadores-recolectores-pescadores

que

baseavam o seu modo de subsistência no

cultivo intensivo de raízes, sem recurso à

utilização do arado ou de adubos que são

característicos da agricultura sedentária, na

caça, na pesca, na colecta de animais, vegetais

e matérias-primas, adoptando um

padrão cultural chamado «cultura da floresta

tropical».

A generalidade dos grupos tribais da

floresta tropical especializou-se na horticultura

de raízes ou agricultura de coivara

(«ramos secos que ficam nas terras depois

de roçadas») caracterizada pelo cultivo

através de mudas e não por semeadura.

Na escolha das terras destinadas ao

cultivo, davam preferência aos solos argilosos

e a áreas com declives, de modo a permitir

a drenagem da água e a evitar o apodrecimento

das raízes.


As tarefas de preparação da mata para o

cultivo exigiam grande esforço. Na época

da estiagem, efectuava-se a limpeza preliminar,

recorrendo-se a machados de pedra

para cortar os arbustos. A etapa seguinte –

passados dois meses para secar a lenha –

consistia na queimada, geralmente em

forma de círculo, fazendo fogueiras em

torno das grandes árvores. Esta etapa ocorria

antes das primeiras chuvas. Seguidamente,

empregavam-se «bastões de cavar»

(paus pontiagudos) para rasgar o solo e

cavavam-se buracos, onde eram enterradas

as mudas, recobrindo-os de terra.

A área desmatada era dividida em parcelas

distribuídas pelas famílias nucleares e

cultivada, em média, durante três a quatro

anos, sendo abandonada ao fim desse

tempo. Deixava-se à natureza a tarefa de

regenerar a cobertura vegetal destruída

(processo que demorava entre 20 e 100

anos), repetindo-se o mesmo procedimento

noutro trecho da floresta.

As espécies cultivadas variavam conforme

as condições ecológicas. Os Tupi,

que habitavam na faixa tropical, optaram

pela mandioca, os Guarani, que colonizaram

as terras subtropicais, preferiram o

milho, e, nas regiões de planalto, os Jê cultivavam

o amendoim. Além destes alimentos

básicos, plantavam feijão, batata-doce, cará

(inhame), jerimum (abóbora) e cumari

(pimenta). Entre as plantas não alimentares,

destacavam-se a purunga (cabaça), o

jenipapo e o urucu (corantes), o algodão e

o tabaco.

A caça era mais abundante e diversificada

nas proximidades de rios e lagoas – devido

à abundância de alimentos – do que nas

matas afastadas de cursos de água, relativamente

pobres, pelo que os Ameríndios

caçavam, nas zonas mais ricas, uma grande

variedade de animais, nomeadamente antas,

pacas, capivaras, cutias, caititus, queixadas,

veados, preguiças, tamanduás, tatus, além

de onças, macacos, aves e répteis.

Entre os métodos de caça utilizados,

figurava o mutá, posto de observação construído

em árvores altas, até cerca de 15

metros do solo, onde se instalavam os caçadores,

aguardando a passagem dos animais

para os atingir com flechas. Outra das téc-

nicas empregues era o mundéu, armadilha

que consistia em covas escavadas nos trilhos,

recobertas de ramos e folhas, ou numa

estacada de pau a pique, com uma só entrada

dotada de um dispositivo que se fechava

quando a presa lá entrava. Destinava-se a

capturar as espécies de maior porte, designadamente

a onça-pintada. Recorriam,

ainda, à caça com laço e à utilização do

fogo para forçar os animais a sair das tocas.

Os aborígenes procuravam atrair a

benevolência dos seres sobrenaturais, com

o objectivo de garantir o sucesso da caçada.

Utilizavam práticas mágicas como, por

exemplo, esfregar o corpo com determinados

vegetais ou ingerir infusões adequadas

ao tipo de fauna que pretendiam abater.

Os guerreiros Tupi apreciavam sobremaneira

a ingestão da carne de espécies

velozes, pois acreditavam que, ao comê-la,

absorveriam a agilidade do animal abatido,

rejeitando incluir na sua alimentação carne

de espécies lentas.

Quando habitavam na faixa costeira ou

nas margens dos rios e das lagoas, os Ameríndios

preferiam as actividades piscatórias

que lhes davam abundantes e concentradas

quantidades de peixe, moluscos e crustáceos,

obtidas com menor dispêndio de energia

e em menos tempo do que os exigidos

pela caça.

Os Tupi tinham predilecção pelo parati

(tainha), que desova nos rios no mês de

Agosto, época que aproveitavam para o

capturar em grandes quantidades. Pescavam

numerosas espécies de água salgada e

doce e abatiam baleias e tubarões quando

estes penetravam nos rios ou encalhavam

na costa.

Desenvolveram várias técnicas de

pesca, que se revestiam de carácter essencialmente

colectivo. Uma das mais eficientes

consistia em utilizar venenos vegetais,

nomeadamente o timbó, que atordoa e asfixia

os peixes, solução que se transformou

num hábito cultural profundamente arraigado

nas populações indígenas da América

do Sul. A eficácia deste método é atestada

por um testemunho quinhentista que

informa que, numa única operação desse

tipo, eram «apanhados mais de doze mil

peixes grandes».


A INVENÇÃO DA AMÉRICA

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

66 67

Em 1500, os Tupi

ocupavam a mais

significativa parcela

da zona costeira

compreendida entre

o Ceará e a Cananeia

(São Paulo), e os Guarani,

estabelecidos

exclusivamente a sul do

Trópico de Capricórnio,

dominavam a faixa

litorânea situada

entre a ilha da Cananeia

e a lagoa dos Patos

(Rio Grande do Sul),

além de importantes

regiões no interior

desse espaço.

Uma variante mais complexa assentava

na organização de pescarias nocturnas,

atraindo os cardumes com archotes de

facheiro, atordoando-os, em seguida, com

essas plantas.

Outra das técnicas consistia na construção

de armadilhas nos perequês («estuário

onde os peixes se reúnem para a desova»).

Na época da piracema, em que os grandes

cardumes migratórios penetravam nos rios,

vedavam o piraiquê («entrada do peixe»),

local de confluência das águas doce e salgada,

e edificavam, com varas e esteiras, na

altura da maré vazante, um pari (barragem

com 3 metros de altura e 40 de comprimento).

Cercavam o peixe, que era obrigado

a vir à tona pela acção dos venenos,

sendo, então, capturado em larga escala.

Individualmente, os Tupi pescavam nas

margens dos rios de águas claras e à beira-

-mar, utilizando arco e flechas, algumas das

quais com ponta de osso, e a pindaíba

(«vara de pescar»).

Utilizavam matérias-primas vegetais

na confecção de cordões, cordas, fios,

espremedores de polpa de mandioca (tipiti),

peneiras, abanadores de fogo, esteiras,

diversos tipos de cestos, gaiolas e armadilhas

de pesca.

Usavam os frutos da purunga que,

depois de secos, serviam para o fabrico de

cuias (cabaças) e de maracás (objectos mágico-religiosos).

Seleccionaram variedades

de algodão sul-americanas para a confecção

da rede-de-dormir, difundindo o seu

uso em todas as regiões por onde se expandiram.

A cerâmica desempenhou um papel

essencial na evolução civilizacional dos

grupos indígenas, permitindo-lhes a preparação

e conservação de alimentos. Dominavam

a técnica da manufactura (com

cozedura efectuada a céu aberto, sendo os

objectos colocados directamente sobre a

fogueira). A cerâmica tupi-guarani caracterizava-se

pela técnica do alisado simples e

pela pintura policroma com linhas vermelhas

e pretas sobre fundo branco. Entre os

utensílios produzidos, destacavam-se as

grandes igaçabas (potes).

Escolhiam madeiras leves para a feitura

de jangadas e canoas. Algumas destas eram


de grandes dimensões (mais de 30 metros),

sendo escavadas em troncos de árvore.

Recorriam sobretudo ao ipê para fazer

arcos, confeccionando as cordas com fibras

vegetais longas de folhas de tucum ou

casca de embaúba. Para as flechas, usavam

normalmente ubá, sendo as pontas feitas

de taquara (uma espécie de bambu), osso

ou dentes aguçados (preferencialmente de

tubarão), e o tacape (semelhante a uma

clava ou maça) com madeira dura de jucá.

Com o objectivo de tornar comestível a

raiz da mandioca amarga, os Tupi sujeitavam-na

a um complexo tratamento destinado a eliminar

o ácido cianídrico.A polpa era espremida

no tipiti (prensa destinada a extrair a

água que continha a substância venenosa),

amassada e, depois, assada ou torrada em

grandes recipientes circulares de barro.

A mandioca doce (aipim) era normalmente

comida depois de descascada e assada

directamente nas brasas. Os Guarani preferiam

o milho, ingerindo-o cozido ou assado,

procedendo também à secagem do

grão maduro e inteiro.

Comiam normalmente peixe fresco,

depois de fervido em água. No entanto,

podiam também consumi-lo moqueado,

ou seja, cozinhado numa grelha confeccionada

com varas de madeira verde (moquém).

A carne era geralmente grelhada, constituindo

excepção a da anta, que era cozida.

Misturavam sal com pimenta e tomavam

uma pitada dessa massa (juquiraí) sempre

que ingeriam uma porção de alimento.

Confeccionavam uma bebida – o

cauim – a partir do aipim, do milho, da

batata-doce, de seiva de palmeiras e de

frutas (ananás e caju). Esta tarefa era

cometida às moças que, após a cozedura

da matéria-prima, a mastigavam, desencadeando,

através da saliva, o processo de

fermentação. Apresentava um aspecto

turvo e espesso como borra, sendo consumida

morna.

Da dieta alimentar tupi-guarani faziam,

ainda, parte frutos silvestres como maracujá,

jabuticaba, araçá, cajá e mangaba,

além de mel, ovos de pássaros, larvas, gafanhotos,

abelhas e formigas.

Nas sociedades ameríndias da floresta

tropical, em que imperava a nudez, o corpo

era interpretado como uma marca, sendo,

por conseguinte, objecto de uma particular

atenção.

As pinturas protegiam dos raios solares

e das picadas dos insectos. Além disso, a

ornamentação corporal possuía uma linguagem

simbólica, sendo certos padrões

específicos do género e de grupos de

idade, facto que revelava o estatuto do seu

detentor.Acrescentavam, assim, uma segunda

«pele» ao indivíduo: a social, que se sobrepunha

à biológica. Os corantes mais usados

eram o jenipapo (azul-escuro que, com a

exposição ao sol, se torna preto) e o urucu

(vermelho).

Como o corpo humano era o lugar

privilegiado para inscrições, os guerreiros

eram escarificados no peito, nos braços,

nas coxas e na barriga das pernas, marcas

visíveis da sua valentia na guerra e na execução

ritual de prisioneiros.

A arte plumária constituía a mais importante

expressão artística das populações da floresta

tropical, tendo funções míticas, estéticas

e rituais e contribuindo para a personalização

do corpo. Os guerreiros prestavam particular

atenção aos adornos plumários (diademas,

coroas, toucados e coifas), cujos pássaros doadores

(papagaios, araras, tucanos, canindés,

etc.) e respectivas cores continham importantes

cargas simbólicas. Os grandes chefes usavam,

por vezes, mantos de penas, sendo

conhecidos os de guará (íbis-rubra).

As sociedades indígenas da floresta

tropical adoptaram normalmente padrões

de estabelecimento modestos, construindo

núcleos pequenos e dispersos.

A taba («aldeia») tinha, em geral, entre

4 e 8 ocas e 30 a 60 famílias nucleares. Nos

aglomerados costeiros residiam, em média,

600 a 700 indivíduos, havendo, no entanto,

variações regionais e tribais. Algumas

dispunham de estruturas defensivas: as caiçaras

(«paliçadas»).

A oca («morada actual»), grande casa

comunitária, era edificada em círculo, disposta

à volta de um terreiro, a algumas

dezenas de metros das vizinhas, abrigando

uma família extensa. Aí viviam, em média,

entre 85 a 140 pessoas.

Os padrões de fixação eram condicionados

pelas condições de subsistência.


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 68 69

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Uma vez que a permanência das populações

num local era temporária (cerca de

três a quatro anos), a precariedade da instalação

determinava, naturalmente, o tipo de

materiais utilizados na edificação das habitações:

madeira, cipós e folhas de árvore

para as coberturas.

Os Tupi construíam estruturas habitacionais

elípticas ou rectangulares, sendo as

ligações entre os troncos feitas com trançados

de embira. Dispunham de três pequenas

aberturas, sendo duas localizadas nas

extremidades e uma no centro que dava

para o terreiro. O comprimento variava

entre 40 metros para as menores e mais de

160 para as maiores, oscilando a largura

entre os 10 a 16 metros.

Nas sociedades ameríndias, vigorava a

divisão sexual do trabalho. Os homens executavam

tarefas que implicavam esforço intenso,

bem como actividades arriscadas. Às

mulheres competiam os trabalhos produtivos,

de recolecção, domésticos e de apoio

nas expedições guerreiras terrestres ou

marítimas.

As bases da organização das comunidades

ameríndias assentavam na família

extensa, constituída por várias famílias

nucleares que estavam ligadas entre si por

laços de parentesco. Encontravam-se subordinados

ao patriarca da oca: o principal.

Verificava-se a existência da poligamia.No

entanto, somente um reduzido número de

indivíduos (o chefe, o feiticeiro e os grandes

guerreiros) possuía várias mulheres, constituindo

o seu número sinal de prestígio.

O casamento avuncular, ou seja, do tio

materno com a sobrinha, era a modalidade

preferida pelos Tupi, sendo também comum

entre primos cruzados.

A regra residencial mais difundida era

a da patrilocalidade (a esposa ia viver na oca

do marido ou do sogro), favorecendo,

assim, a forma patrilinear de descendência.

Estas sociedades desenvolveram uma

estrutura social com um reduzido grau

de diferenciação, tendo, todavia, gerado

alguns tipos de hierarquias.Verificava-se a

existência de acentuadas tendências comunitárias

e de fortes laços de solidariedade.

Os Tupi-guarani adoptaram como

forma de organização dominante o grupo

local (correspondente a uma taba), que se

situava numa posição intermédia entre a

menor unidade vicinal (a oca) e o agrupamento

territorial mais abrangente (o grupo

tribal).

Uma das características essenciais das

sociedades tupi residia na falta de poder

dos morubixabas («chefes»), bem como na

inexistência de métodos coercivos. Os líderes

desempenhavam as suas funções com

base na persuasão, não podendo recorrer à

ameaça do uso da força.

Para o exercício da função de morubixaba,

exigiam-se diversos requisitos, entre

os quais se contavam a valentia, a ponderação,

a generosidade, a posse de dotes oratórios

(«senhor da fala»), a pertença a uma

parentela poderosa e a aceitação favorável

junto dos guerreiros da aldeia. As atribuições

dos chefes eram muito reduzidas em

tempo de paz, ganhando maior relevo em

período de guerra.

A instituição política básica era o

«conselho dos chefes», formado pelo

morubixaba, pajé, chefes das ocas e guerreiros

prestigiados. Este órgão, frequentemente

designado por «roda de fumadores»,

tomava as decisões mais importantes

referentes à taba: mudança de local de residência,

organização de expedições guerreiras,

definição da rede de alianças e fixação

da data para a execução ritual dos prisioneiros.

Nas sociedades Tupi-guarani, o complexo

guerra-vingança-antropofagia desempenhava

papel central, sendo a guerra a sua instituição

fundamental.

As decisões sobre a realização de expedições

guerreiras destinadas a conquistar

habitats privilegiados, superar tensões internas

ou capturar inimigos eram alvo de cuidada

ponderação.

Os atacantes percorriam grandes distâncias

por terra, rio ou mar até encontrarem

uma taba inimiga. Escolhiam, normalmente,

a lua cheia para efectuar o último

trecho do percurso ao luar, desencadeando

a investida ao alvorecer.

Recorriam a diversos métodos para

forçar os defensores a abandonar as paliçadas.

Um deles consistia em atar mechas

incendiárias (feitas de algodão embebido


em cera) às flechas que eram disparadas

contra as coberturas das ocas. Outra táctica

consistia em acender fogueiras onde lançavam

pimenta, formando nuvens de gases

tóxicos.

Nos combates só podiam participar os

homens pertencentes ao grupo Ava (a partir

dos 25 anos). Primeiro, disparavam nuvens

de flechas e, seguidamente, atacavam com

grande algazarra, batendo com os pés e

tocando buzinas ou instrumentos confeccionados

com ossos humanos (braços e

tíbias), tanto para excitar o ânimo dos atacantes

como para amedrontar os defensores.

Na luta corpo a corpo, utilizavam

sobretudo o tacape, arma com que procuravam

esmagar o crânio do inimigo.

A antropofagia era uma prática corrente

entre os Ameríndios, designadamente entre

os Tupi-guarani.

O cativo desempenhava um papel primordial

nas relações interaldeias, devendo

ser exibido nas povoações vizinhas. Geralmente,

as tabas aliadas eram convidadas a

participar no banquete canibal, transformando-o

numa manifestação colectiva que

consolidava as alianças.

Na data aprazada, dava-se início à cauinagem,

que geralmente durava três dias,

acompanhada de cantos e danças. Este acto

festivo antecedia o ritual antropofágico.

Ao alvorecer do dia escolhido, o prisioneiro

era lavado, enfeitado e amarrado

pela cintura com a mussurana (corda grossa

de algodão), sendo seguidamente conduzido

ao centro do terreiro, onde se encontravam

reunidos os convivas.

Chegado o executor, profusamente

enfeitado, recebia cerimonialmente o ibirapema

(tacape cerimonial) com o qual iniciava

uma dança junto do cativo, imitando as

evoluções de uma ave de rapina.Terminada

a gesticulação, o algoz e a vítima travavam

um curto diálogo, findo o qual o executor

esmagava o crânio do inimigo.

Abatido o prisioneiro, escaldavam-no

para lhe retirar a pele e esquartejavam-no.

Algumas partes do corpo (braços e pernas)

eram moqueadas, sendo as vísceras aproveitadas

para fazer um cozinhado. Existiam

regras para a distribuição do corpo da vítima,

que era integralmente aproveitado.

A visão cosmológica dos Tupi-guarani

não atribuía a formação do Universo a um

ser supremo, concebendo, antes, esse processo

como resultante de sucessivas acções

parciais e incompletas.

As actividades criadoras de Monan e

Maír teriam sido prosseguidas por heróis-

-civilizadores – poderosos pajés e ancestrais

míticos detentores de poderes transformadores

especiais – transmissores de técnicas,

ritos e regras sociais que permitiram aos

homens ultrapassar o estado de bestialidade.

Entre estes, destacava-se Sumé, a quem

era atribuída a instituição da agricultura de

coivara e da organização social. Outra personagem

mitológica importante era Tupã,

associado ao raio e ao trovão.

Davam particular ênfase aos mitos cósmicos

de sucessivas destruições do Mundo,

pelo fogo ou pela água, conhecendo-se

diversas versões do dilúvio.

Acreditavam na possibilidade de uma

parcela do ser encontrar, após a morte, o

Guajupiá («aldeia das almas»), situado para

além das altas montanhas.

Um papel fulcral era desempenhado

pelos homens que desempenhavam funções

mágico-religiosas. Os pajés, munidos

do maracá (cabaça decorada que imitava o

rosto humano, atravessada por uma vareta,

com sementes ou pedras que serviam de

chocalho, funcionando como receptáculos

das vozes dos espíritos e reproduzindo-as

através do seu ruído), tratavam os doentes

com ervas medicinais e com esconjuros,

nomeadamente através do bafejo com tabaco,

para afastar os espíritos. Efectuavam,

também, profecias, recorrendo ao transe

induzido pela intoxicação com tabaco.


Vasco Fernandes

e a visão do Índio Bom:

sinais de antropocentrismo

no Calvário da Sé de Viseu

Vítor Serrão

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Calvário, de Vasco Fernandes, c. 1535-40, óleo sobre madeira, 2423 x 2393 mm. Museu de Grão Vasco, Viseu, Portugal


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N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Generalizou-se a ideia de que a imagem

com que os europeus do século XVI

viram os índios americanos foi sempre

negativa. Na realidade, e pesem os termos

com que Pêro Vaz de Caminha se lhes refere

na sua célebre carta ao rei de Portugal, em

Abril de 1500 (mas só no século XIX dada a

conhecer à comunidade científica), o índio

cedo deixaria de ser entreolhado como essa

pessoa afável, solidária e, em consequência,

cristianizável, com que o cronista da viagem

de Pedro Álvares Cabral o descreveu.

Assim, o índio seria, por natureza, um primitivo,

isto é, um indomável bárbaro, antropófago

e poligâmico, vivendo em estado de

nudez, ou seja, um ser não integrável e sem

alma. As estampas abertas nos livros quinhentistas,

ou divulgadas por séries de gravados

um pouco por toda a Europa, multiplicaram

essa imagem do índio como selvagem

preso a ritos tribais e a práticas troglodíticas

e quase uma espécie de demónio.

O grande painel do Calvário, exposto no

Museu Grão Vasco em Viseu, vem contrariar

de maneira taxativa esta visão do índio brasileiro

e, ao integrar na simbologia do Bom

Ladrão uma figuração de índio, mostrar

que uma outra imagem, radicalmente

oposta àquela, tinha espaços de adesão e

ganhara foros de credibilidade nos meandros

do Humanismo português. Trata-se

por isso, também, de um dos aspectos que

mais valoriza essa peça, já de per se uma das

pinturas fundamentais para a compreensão,

não só do universo artístico do seu

autor, Vasco Fernandes (c. 1475-1542),

mas um dos mais significativos testemunhos

da plena adesão da cultura portuguesa

do segundo quartel do século XVI aos

valores clássicos italianos.

Como é timbre das melhores obras do

Renascimento internacional, trata-se de uma

pintura eloquente, isto é, de uma peça de culto

que visava tocar diversos públicos, assumir

vários discursos e intervir num debate

intemporal, projectado em outros tempos.

O modo flagrante como a personagem do

Bom Ladrão representado neste quadro se

transmuda em índio brasileiro, ou seja,

como uma espécie de elemento positivo que

encarna a bondade inata e a possibilidade de

missão evangélica à escala dos Novos Mun-

dos, revela os propósitos de afirmação ideológica

no seio das humanae litterae que, sob

estímulo da Renascença e dos princípios

neoplatónicos, viam nos povos primitivos

contactados pelo processo das Descobertas

portuguesas uma marca de dignidade da

Criação e uma forma eficaz de, através do

achamento de novas terras, se alargar a família

cristã a outras comunidades de povos.

Neste quadro pintado cerca de 1535, o

artista representou o Gólgota, a cena mais

transcendente da Paixão de Cristo, em composição

de escala monumental, estruturada pela

distribuição vertical das três cruzes. Ao centro,

uma admirável figuração de Jesus Cristo

sofredor, à hora de expirar, aparece ladeado

por um Mau Ladrão, à direita, visto como um

rebelde praguejador e, à esquerda, sofrendo

de igual modo o suplício da crucifixão, um

sereno e benfazejo Bom Ladrão, representado

por um índio brasileiro, imagem obviamente

alusiva à bondade inata dos povos pré-

-colombianos, desprovidos da mancha do

pecado original. A ocupar o espaço envolvente,

duas dezenas de figuras dispostas em

vários planos e formando grupos autónomos,

desde os soldados romanos, a cavalo, à

Virgem Maria, com as Santas Mulheres e o

apóstolo São João, chorando em desespero,

aos soldados romanos, de joelhos, que disputam

a túnica de Jesus, jogando-a aos dados, a

figurações de judeus assistentes, um deles

bebendo vinho de um pichel. Num plano

afastado à direita, o suicídio de Judas Iscariotes,

com um diabo voador prestes a tomar-lhe

a alma. Num segundo plano, à esquerda,

desenha-se uma cidade acastelada com altas

torres e cúpulas de arquitectura fantasista. O

céu é representado com nuvens carregadas,

ameaçando tempestade iminente.

A presença do índio como Bom Ladrão

mostra que o pintor Vasco Fernandes, e

quem lhe encomendou a obra, dispunham

de uma sólida visão humanística em relação

aos povos antediluvianos, na crença de

que se tratava de «gentes desprovidas de

pecado original» e, por isso, sinal benfazejo

de sentimentos apropriáveis para a causa

do cristianismo. O cuidado com que o painel

explora níveis múltiplos de leitura é

deveras significativo. Dir-se-ia que estamos

a ouvir as palavras de Caminha: «Parece-me


gente de tal inocência que se os homens entendessem, e

eles a nós,que seriam logo cristãos,porque eles não têm,

nem entendem em nenhuma crença, segundo parece

(…), que se hão-de fazer cristãos e crerem em nossa

santa fé porque (...) esta gente é boa e de boa simplicidade.

E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer

cunho que lhes quiserem dar. E porque Nosso Senhor,

que lhes deu bons corpos e bons rostos como a bons

homens». A verdade é que, cerca de 1535,

Vasco Fernandes e o encomendante da obra

fizeram valer esta visão humanística do

índio, espécie de bom selvagem avant la lettre,

num reflectido assomo de renovação. Esse

princípio já se manifestara, três decénios

antes, num dos quadros do retábulo do

altar-mor da Sé de Viseu (c. 1502-1505),

onde um índio tupinambá emplumado

surge na figura do Rei Mago negro, Baltazar,

na Adoração dos Magos (Museu Grão Vasco),

uma presença que pode ter sugerido ao

artista esta provocatória solução carregada

de intenções humanísticas.

Trata-se de uma das mais cuidadas criações

da antiga pintura portuguesa, e não é

de estranhar, por isso, que o discurso ideológico

deste Calvário fosse estudado ao pormenor.

À organização segura do espaço

acresce um grande domínio da ciência

perspéctica e, sobretudo, uma capacidade

de tratar expressões humanas, num pathos

inflamado de sentimentos contraditórios

que oscilam entre o drama e a indiferença,

tocando ora a mágoa do sacrifício, ora a

crueza dos homens e a intolerância dos

poderes instituídos. O desenho é excelente,

a paleta quente e luminosa, o naturalismo

dos tecidos e adereços concorre para a força

transcontextual que faz deste quadro um

unicum, permanente revitalizável para a

encantação dos nossos olhares. Mesmo que

as suas funções primeiras tenham sido

modificadas desde que os novos gostos do

século XVIII alteraram a decoração da Capela

de Jesus, mudando o quadro para a

sacristia da Sé e, muito depois, para o

Museu criado no contíguo Paço Episcopal, a

pintura de Vasco Fernandes continua a desafiar

o tempo com a sedução das suas formas

e a convicção da sua doutrina imaginizada.

A encomenda desta grandiosa obra

deve-se a D. Miguel da Silva, bispo de Viseu

designado em 1525 e que dirigirá a dioce-

se até 1540. Este bispo humanista, protector

de Vasco Fernandes, é o responsável

pelo ímpeto renovador que levou a velha

cidade beirã a assumir-se como cenário de

eleição para um desenvolvimento arquitectónico

e urbanístico e para círculos de práticas

de reflexão e debate humanístico,

como o que se reunia nos jardins do palácio

de Fontelo, sob inspiração do cultíssimo

bispo, ele mesmo um amigo de Baldassare

Castiglione, que não por acaso lhe

dedicou o célebre Il Cortegiano. No âmbito

da reforma que promove na Sé, D. Miguel

da Silva levou a cabo a construção do novo

claustro renacentista, em 1528, empregando

um arquitecto por ele trazido de Itália,

que pudera escolher quando assumira o

cargo de embaixador de Portugal junto da

Cúria romana. Francesco da Cremona, o

autor do projecto, foi, de acordo com

Rafael Moreira, muito inspirado na traça

deste claustro da Sé de Viseu pelo famoso

cortile do Palácio Ducal de Urbino, de Laurana

e Francesco di Giorgio Martini.

Obra de contradições e intensidades

fulgurosas, o Calvário do Grão Vasco reúne

em si o melhor do catecismo directo da tradição

medieval, violenta e apocalíptica, que

se revela na crueza com que é representado

o suicídio de Judas e no pormenor em que a

sua alma é tomada pelo demónio, e a força

da novidade humanística no modo como o

índio brasileiro incorpora, pleno da bondade

e fraternidade cristãs, a figura do Bom

Ladrão. Públicos distintos entendiam uma e

outra mensagem e, por certo, as integravam

nos seus discursos, debates e reflexões. Era

um tempo em que o Humanismo cristão

ainda tinha espaço para usar suportes figurativos

de renovação nas práticas litúrgicas, ao

contrário do que os ventos da Contra-Reforma

iriam, a breve trecho, trazer. É por isso

que o Calvário é uma das mais fortes peças da

pintura portuguesa de todos os tempos: a

expressividade das poses e o patetismo da

expressão do sentimento religioso concorrem

para captar uma dimensão de arrebatamento

cósmico cheia de referências humanizadoras

e de traços de tolerância. O pintor

quis que a sua obra servisse como modelo

para uma reflexão profunda sobre os mistérios

da criação à luz da boa prática cristã.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:

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«Do Mito do Homem

Selvagem à Descoberta

do “Homem Novo”:

a representação do negro

e do índio na escultura

manuelina», Portugal

e Espanha entre a

Europa e Além-Mar,

Actas do IV Simpósio

Luso-Espanhol de

História da Arte,

Coimbra, 1988.

-- Sylvie DESWARTE-ROSA,

Imagens e Ideias em

Portugal na Época dos

Descobrimentos,

Lisboa, Difel, 1992.

-- Joaquim Veríssimo

SERRÃO (intr.), Carta de

Pero Vaz de Caminha,

ed. Mar de Letras e ICEA

(Instituto de Cultura

Europeia e Atlântica),

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-- Manuel BATORÉO,

«O índio na arte portuguesa

do Renascimento»,

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Da Visão do Paraíso

à Construção

do Brasil,

II Curso de Verão da

Ericeira, Mar de Letras,

2001, pp. 123-133.

-- Dalila RODRIGUES,

Grão Vasco. Pintura

portuguesa del

Renacimiento

(c. 1500-1540),

Salamanca Ciudad

Europea de Cultura, 2002.

-- Vitor SERRÃO,

O Renascimento e o

Maneirismo, vol. 3

da História da Arte em

Portugal, Ed. Presença,

Lisboa, 2002.


CEM ANOS DE SOLIDÃO 74 75

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Doriselma. San Marcos, Guatemala (2006)

Doriselma

fotografia de Grau Sierra Espriu

texto de Roger Sogues Marco

Doriselma tem nove anos e passa parte do seu tempo livre a brincar no interior de uma velha casa, da qual

apenas restam as paredes, correndo de um lado para o outro com os seus irmãos ou desenhando as coisas

que a rodeiam: a sua família, a sua casa ou os campos em redor, mas grande parte do seu tempo é dedicado

a ajudar a mãe nos trabalhos domésticos.

Telma é a mãe de Doriselma e dos seus três irmãos e uma irmã. Sozinha, tem a seu cargo toda a família.

Desde que o marido a deixou há três anos, teve de se desenvencilhar sozinha para poder alimentar e criar os

filhos. Na comunidade onde vive, La Grandeza, no interior da Guatemala, as oportunidades de encontrar trabalho

para sobreviver eram bastante escassas e, durante algum tempo, vendeu os pêssegos que as pessoas da

aldeia lhe deixavam apanhar.

Como Telma, muitas mulheres têm dificuldades em encontrar um trabalho que as ajude a sustentar as suas

famílias. São poucas as oportunidades que surgem e são ainda menores para pessoas sem formação e com

escassos recursos para obtê-la. Muitas destas mulheres, tal como Telma, foram abandonadas à sua sorte pelos

maridos e todos os dias têm de fazer um enorme esforço para sustentarem os seus familiares.

Os filhos de Telma passaram grandes dificuldades após a saída do pai. A família teve de se mudar para um

outro sítio e construir uma pequena casa para albergar os cinco miúdos. Foram os seus filhos e a vontade de

lhes dar uma vida melhor que levaram Telma a participar no programa de produção de alimentos da ONG espanhola

Intervida, que actua na zona.


Douro

José Manuel Fajardo

Uma viagem que é também a descida de um rio paralelo de

vinho, ao longo de quase mil quilómetros, onde se oferece ao

paladar o carácter dos néctares da Ribera del Duero, Rueda,Toro,

Tierra de Vinos, Los Arribes, Douro e Porto. Vinhos e gastronomia

das terras de dois países unidos pela corrente do Douro, em torno

da qual se enlaça também a vida dos seus habitantes.

Rio Douro. Fotografia de Paulo Barata

RIOS PROFUNDOS 76

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77


RIOS PROFUNDOS 78

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79

Há um silêncio de igreja no bosque. A

furgoneta branca, amparada pelos ramos

de um pinheiro majestoso, confunde-se

com a neve que cobre as ladeiras dos Picos

de Urbião. Não se pode avançar mais, o

caminho é intransitável e à frente do carro

só se vêem as pegadas do fotógrafo e

outras mais pequenas, à beira do caminho,

que parecem de casco de corço. Que procuram

dois jornalistas e um cozinheiro em

plena serra de Sória, debaixo de neve, nesta

manhã cinzenta do primeiro frio invernal?

A resposta parece simples: a nascente do

rio Douro.

É um velho projecto. Há muito tempo

que Mitxel Vega, um palentino robusto

radicado há mais de trinta anos na Biscaia,

proprietário e cozinheiro do restaurante

Mas como todos os desejos,

ao tornar-se realidade,

este sonho viajante

tem as suas surpresas

e dificuldades

Egoki, sonha descer o rio Douro, desde os

picos onde nasce até à foz, no Porto.

Essa viagem é também a descida de

um rio paralelo de vinho, ao longo de

quase mil quilómetros, onde se oferece ao

paladar o carácter dos néctares da Ribera

del Duero, Rueda,Toro,Tierra de Vinos, Los

Arribes, Douro e Porto.Vinhos e gastronomia

das terras de dois países unidos pela

corrente do Douro, em torno da qual se

enlaça também a vida dos seus habitantes.

Mas como todos os desejos, ao tornar-

-se realidade, este sonho viajante tem as

suas surpresas e dificuldades. A primeira

está aqui, no meio desta paisagem coberta

de neve: é impossível encontrar a nascente

do rio. A pequena bacia dos Picos de

Urbião alimenta-se de uma infinidade de

riachos, arroios e cascatas que acabam por

formar um leito, sem que se possa determinar

qual deles é o principal.

Como um desafio, o Douro anuncia,

assim, que não está disposto a facilitar-nos

a vida. Não foi em vão que o seu curso foi,

outrora, fronteira, separando as terras cristãs

das muçulmanas durante a Reconquista,

sendo-o ainda hoje entre Espanha e

Portugal. Na serra, o vinho ainda não está

presente; é o bosque com os seus carvalhais

e pinheirais que alimenta a indústria

madeireira de vilas como Doruelo de la

Sierra. E um pouco mais abaixo, antes de

empreender a descida até às planícies do sul

de Sória, Mitxel Vega recolhe na margem do

rio uma estaca pintada de vermelho na

ponta e atira-a à corrente a partir de uma

das pedras que fazem de ponte rústica, na

zona de Salduero. Enquanto a vê afastar-se,

rio abaixo, murmura: «Recolho-a no Porto.»

Desafio aceite.

Depois de traçar uma ampla curva,

para contornar a serra de Hinodejo, e passando

a cidade de Sória, o Douro dirige,

então, as suas águas para poente, pela planície

que conduz aos vinhedos de El Burgo

de Osma. Ali, no restaurante Virrey Palafox,

uns feijões de El Burgo e um prato de

lombo de cerdalí em escabeche («um cruzamento

de porca e javali», como explica o

criado de mesa) protegem os ossos do frio

das neves dos Picos de Urbião. Um tinto de

Penafiel, Ciancas crianza 1989, vem completar

o trabalho calefactor e serve de breve

apresentação dos vinhos da terra.

Poucos quilómetros depois, a «buena

ciudad» de San Esteban de Gormaz, como

foi apelidada no Cantar del Mío Cid, emerge

da névoa, à beira do Douro. Junto à ponte,

um canal do século XII, o primeiro de

Castela, acalma as suas águas perante o que

parece ser um velho moinho, mas o ruído

de maquinaria que dele emana revela que

continua activo. Jaime García de Cárdenas,

um economista descontraído e conversador,

moleiro por tradição familiar, conta-

-nos que o moinho é fábrica de farinha

desde 1916 e mostra-nos como o rio alimenta

a turbina eléctrica da empresa.

Falámos da Primeira Guerra Mundial, «que

foi muito boa para a fábrica», das máquinas

alemãs que utiliza e, claro, dos vinhos

da Ribera del Duero: «Antes não tinham

muita fama porque eram demasiado áspe-


os, mas isso mudou. O único mal é que os

preços subiram um pouco.»

Não muito longe do moinho, abre as

suas portas a Adega San José, a cooperativa

da terra que é a primeira com denominação

de origem Ribera del Duero que se

encontra na província de Sória. Uma adega

com vinte anos de idade, «a grande desconhecida»,

como lamenta o seu gerente,

Carlos de la Rica. Nela se oferece um cenário

que a partir daqui irá acompanhar-nos

em quase toda a viagem: o espectáculo dos

grandes e modernos depósitos metálicos

onde se fermenta a uva da última colheita,

e os barris de carvalho americano onde o

vinho forma o seu carácter, pacientemente,

à espera de se converter «em vinho de

crianza, de reserva ou grande reserva, consoante

o tempo que passe guardado no

barril e na garrafa antes de ser posto à

venda», segundo explica Jerónimo Saez, o

presidente da cooperativa.

Um processo útil, pelo qual o vinho

envelhece graças à lenta oxidação através

da porosidade da madeira de carvalho. A

produção desta cooperativa são os vinhos

comercializados com o nome de Doce

Linajes: crianzas e um reserva de 1991.

Seguir o curso do rio é mergulhar

num vasto reino vinícola que submerge as

suas raízes no tempo. Do século XIII ao

século XVI, Ribera del Duero abasteceu de

vinho todo o reino de Castela, e o seu vestígio

preserva-se, ainda, nas entranhas das

suas cidades. Assim se passa em Aranda del

Duero, sob cujas ruas e edifícios existe um

labirinto de adegas antigas, verdadeiras catacumbas

do vinho.

Uma delas estende-se por baixo do

restaurante El Lagar, e Carlos, o empregado

de mesa, acede mostrá-la depois de termos

ajustado contas com uma espetada de rins

de cordeiro, uma salada de pimentos assados

com atum e anchovas, uns enchidos

ibéricos e duas garrafas de tinto: um

Emílio Moro, crianza 1992, e um Tierra de

Aranda, crianza 1989, este último tocado

pela mão generosa da colheita de um ano

que recebeu a classificação de Excelente na

Ribera del Duero.

A adega que se retorce por baixo do El

Lagar é, na realidade, a antiga adega de um

dos vinhos veteranos da região, El Torremilanos,

de D. Pablo Peñalba, um dos adegueiros

que, com mais insistência, defende

a necessária irmandade entre todos os

vinhos do Douro, particularmente entre os

da Ribera e os do Porto. Corredores estreitíssimos,

escadas abismais, antigos depósitos

de pedra para a fermentação, tudo nesta

adega, agora desactivada, evoca outros

tempos em que os operários arrastavam os

pesados odres cheios de vinho até àquelas

profundezas, em busca da sua conversão

alquímica em delícia. E, à superfície, a con-

Corredores estreitíssimos,

escadas abismais,

antigos depósitos de pedra

para a fermentação,

tudo nesta adega,

agora desactivada,

evoca outros tempos

em que os operários

arrastavam

os pesados odres

cheios de vinho

até àquelas profundezas,

em busca da sua conversão

alquímica em delícia.

tinuação da história leva-nos, esta noite, ao

moderno pub El Bulevar, onde, também, o

vinho é tema de conversa, e Mitxel Vega

recorda, desta vez à volta de umas taças de

crianza de Torremón de 1992, as excelências

de outro vinho que fez história na região e

que hoje é raro encontrar: o crianza Callejo

de 1989, elaborado em Sotillo de la Ribera.

No dia seguinte, saímos a caminho de

La Horra, passando pelas casas de adobe de

Villalba del Duero, tão características da

região. Sucedem-se vastos vinhedos em

ambos os lados da estrada. São os «domínios»

de D.Alejandro Fernández, o produtor


RIOS PROFUNDOS 80

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

81

do tinto Pesquera que, conjuntamente com

o clássico Vega Sicilia e o veterano Protos,

formam o triunvirato que deu fama à

Ribera del Duero. Boa parte da uva

Pesquera é oriunda destes vinhedos.

Mesmo antes de chegar a La Horra,

um cartaz anuncia a propriedade La

Ventosilla. Por detrás do seu discreto

nome, esconde-se uma das mais prósperas

explorações agrárias da região, exemplarmente

alimentada pelas águas do Pai

Douro, como familiarmente lhes chamam

alguns moradores. O seu administrador,

Alfonso Velasco, um engenheiro de «montes»,

alto e musculado, de rosto definido e

curtido pelo vento, propõe-nos que troquemos

a nossa furgoneta pelo seu todo-o-

-terreno para visitar a propriedade. Sábia

decisão porque a água formou uma pista

deslizante que faz avançar o veículo, de

escorregão em escorregão, como sobre

uma pista de gelo.

Nos mais de mil hectares da propriedade

há de tudo. Desde os altos choupais,

que alguns trabalhadores podam com a

ajuda de braços mecânicos, até às colinas

onde «se esconde o javali, que depois se

mete nos milheirais e não há quem o faça

sair deles, por mais cães que lhes aticem»,

queixa-se Velasco. Nada se desperdiça na

Ventosilla: onde se plantou milho, agora há

forragem para as três mil ovelhas da propriedade;

e, na época de caça, soltam-se

perdizes de criação, para organizar batidas.

Junto à estrada podem ver-se os estábulos

de 450 vacas leiteiras. E, no mesmo rio, lá

em baixo, uma central eléctrica aproveita a

água retida por uma pequena represa

(«construiu-a o meu avô, que era delegado

régio da Confederação do Douro»,

explica Velasco), alimenta a propriedade de

energia e ainda sobra para vender à

Iberdrola.

E o vinho, claro. Quatrocentos e cinquenta

hectares de vinhedos plantados

segundo a moderna técnica de espaldeira,

em filas sustentadas por dois cabos, o que

permite maior exposição ao sol e facilita a

colheita mecânica de uvas Tinta del País, a

uva utilizada tradicionalmente na elaboração

do Ribera del Duero, e algumas outras

uvas para experimentar, como as francesas

Merlot e Cabernet Sauvignon, rainhas dos

vinhos de Bordéus. «Este ano, vendi meio

milhão de quilos de uva ao Alejandro através

do Pesquera), mas fiquei com um

milhão porque vamos fazer o nosso próprio

vinho», explica Alfonso Velasco,

enquanto nos mostra a moderna adega de

Real Sitio de la Ventosilla, onde se trabalha

na elaboração do vinho, sob a vigilância de

Javier, um enólogo riojano que deve assistir

ao parto deste primeiro néctar.

A outra face desta aventura encontramo-la

em La Horra, cuja velha cooperativa

comercializa os vinhos Viña Valera.

Fundada em 1957, é um expoente do cooperativismo

vinícola da região, que coexiste

com florescentes adegas privadas, como

Viñedos e Bodegas, de Valbuena de Duero,

onde a cantora Rocío Jurado e o toureiro

Ortega Cano têm interesses, e cujo vinho

Matarromera obteve os maiores galardões

internacionais, segundo nos conta Pedro

Ronda, vice-presidente da cooperativa de

La Horra.

Mas existe também uma terceira

dimensão do vinho, da qual Pedro Ronda é

também o expoente: a particular. A boa

recordação da cozinha de Mitxel Vega faz

com que Ronda abra as portas da sua

”bodeguita” «como a de Felipe González,

mas mais modesta», sorri. Nela, Pedro

Ronda guarda o vinho que ele mesmo produz

em casa, artesanalmente: um vinho

jovem com uma leve cintilação carbónica

que o torna vivo e alegre na boca e que

provamos com alguns enchidos, rodelas de

morcela frita e um salmão que ele mesmo

defuma. É a irmandade do vinho, a que

ultrapassa marcas e prestígios, a mesma

que permite que se desfrute de um grande

vinho ainda que não ostente o selo de

denominação de origem, como acontece

com o Mauro, elaborado por ele, em Tudela

de Duero, ele que fora enólogo de Vega

Sicilia, mas cuja localização se encontra

fora do território demarcado para a denominação

Ribera del Duero; uma irmandade

que se prolongou no almoço que fizemos

em Roa de Duero, no estupendo restaurante

El Chuleta, cujo filho do proprietário

é distribuidor de um clube de vinhos

da Ribera.


Em Roa del Duero encontra-se precisamente

a sede do Conselho Regulador da

Denominação de Origem Ribera del

Duero, um edifício moderno que abriga a

instituição que mais tem contribuído para

a modernização dos vinhos da região. Aqui

se provam os vinhos das diferentes adegas,

se classificam as colheitas segundo a sua

qualidade, se autorizam as variedades de

uva que podem ser utilizadas para conservar

o carácter dos vinhos da região e se

controla a produção. É o coração da Ribera

del Duero, um coração que controlará e

dará garantia de qualidade à torrente de

litros de vinho que os quarenta milhões de

quilos de uva colhidos este ano, na região,

haverão de produzir.

A cidade de Tordesilhas, que se situa

já fora da Ribera, em terras de Valladolid,

é um bom lugar para pernoitar e começar

a perceber a presença portuguesa que presidirá

ao último troço do trajecto do

Douro. Aqui, em 1494, os reis de Portugal

e de Castela dividiram o mundo, depois

dos Descobrimentos, mediante um célebre

tratado; tal como hoje, os dois países

dividem os vinhos do rio que os separa e

os une.

Castronuño, pouco antes de chegar a

Toro, ergue-se sobre a penha de La Muela,

na majestosa curva do Douro, tudo choupais

e patos. E a seus pés, precisamente

sobre um toco de choupo, Mitxel Vega

encontra uma colónia de cogumelos cuja

colheita se dispõe a saltear na cozinha de

um qualquer bar condescendente. O Pai

Douro sabe mostrar-se generoso, embora

os farelhões da cidade de Toro já anunciem,

também, a violenta mudança do seu leito

que nos espera.

Se, outrora, os vinhos do Douro tiveram

fama de ser duros e ásperos, essa fama

continua, ainda hoje, a perseguir os vinhos

de Toro. Contra ela lutam adegueiros como

Manuel Fariña, homem inquieto e aberto

às novidades do mundo do vinho, que

coloca sobre a mesa o seu melhor argumento

para acabar com a lenda de «vinhos

para dar esfregas»: o seu jovem vinho

«Fariña», um vinho que, por milagre climático

raro, é o primeiro vinho de 96 que já

se pode degustar.

«Aqui utilizamos as variedades de uva

Tinta de Toro, que é uma variedade da

Tempranillo e da Garnacha, mas o terreno é

muito quente, com muita pedra que conserva

o calor», explica Fariña. «Isso faz

com que a uva amadureça muito cedo, mas

como a colheita se fazia ao mesmo tempo

que no resto da Espanha, no final de

Setembro, a uva chegava já com um elevado

grau de álcool e por isso saíam uns

vinhos tão fortes. Nós adiantámos a colheita

um mês, de modo que a colhemos agora

em plena maturação, mas mais suave. Além

disso, ganhamos tempo, o que nos permite

obter, em Novembro, o primeiro vinho

do ano, um vinho jovem que entre nós se

chama «Beaujolais de Toro». Apelido profético

porque precisamente o ano passado,

com o boicote internacional aos produtos

O Pai Douro sabe mostrar-se

generoso, embora os

farelhões da cidade de Toro

já anunciem, também,

a violenta mudança

do seu leito que nos espera.

franceses pelos testes nucleares em Muroroa,

Fariñas recebeu encomendas da Holanda

para fazer chegar quantas garrafas pudesse

de «beaujolais de Toro», em substituição

do boicotado beaujolais francês. O resultado

foi cem mil garrafas vendidas o ano

passado e um bom gosto nas bocas holandesas,

o que implicou o pedido de 200 mil

garrafas para este ano.

Apenas sete adegas têm a denominação

de origem de Toro, mas na região produzem-se

também outros vinhos chamados

«Tierra del Vino», onde os adegueiros

(inclusive alguns dos que fazem os vinhos

de Toro, como Fariñas) se permitem experimentar

outras variedades de uvas, como

moscatel e albillo, para vinhos brancos doces.

Para lá de Zamora e acrescentado pelas

sucessivas barragens, o rio Douro colide


RIOS PROFUNDOS 82 83

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

com a serra do Mogadouro e desvia-se

para sul, convertendo-se, durante cem quilómetros,

em fronteira natural entre

Portugal, situado na sua margem direita, e

as terras espanholas que se estendem à sua

esquerda. O terreno torna-se abrupto e,

pouco a pouco, o rio interna-se num desfiladeiro

sem fim que o acompanhará até à

foz. Assim avança, encaixado e distante,

fundido na paisagem e rodeado de solidões

vertiginosas.

Nessa fronteira, do lado espanhol e por

entre as províncias de Zamora e Salamanca,

produzem-se os vinhos de Los Arribes

(Fermosella e a chamada Ribera de

Salamanca), duros e agressivos. Pernoitámos

em Vitigudino, onde um vinho de

Valladolid, um Yllera de 1992, acompanha

um leitão assado, e Mitxel Vega propõe

abandonar a estrada de Portugal para nos

aproximarmos do desfiladeiro do rio, em

busca dos vinhedos que geram os violentos

néctares da região.

Não há maneira de ver o rio. Para lá

das pastagens, é só barrancos, em cujas

encostas e cumes se alinham vinhedos, varridos

pelo vento, entre oliveiras e inesperadas

laranjeiras, porque o microclima da

região possibilita uma insuspeitada variedade

de culturas. Nas imediações de

Corporario, um cartaz que diz «A la playa»

fez-nos seguir uma estrada infernal que

termina num alto penhasco onde se vêem

os restos do que deve ter sido um posto

militar com troneiras. Ao lado, a base de

um mastro de bandeira e um vinhedo já

abandonado. Duas galinholas escapam de

uma moita, com voo atordoado, para

desespero de Mitxel, em cujo olhar brilha,

por um instante, a cobiça do caçador veterano.

E ali em baixo vê-se, por fim, o

Douro serpenteante que espelha o sol frio

da manhã. Do outro lado do abismo, as terras

de Portugal.

Quando, por fim, encontramos o desvio

de «la playa», um caminho ziguezagueante

conduz-nos directamente até à margem do

rio, um retiro silencioso e imponente, ocasionalmente

sobrevoado por cormorões,

onde há uma minúscula praia de areia, amarelada

de choupos, e um pequeno cais, promessa

dos verões na fronteira.

Mais a sul, na confluência com o rio

Águeda, o Douro torna-se navegável e, em

território espanhol, erguem-se as instalações

desertas do porto de Vega de Terrón,

que estão há um ano e meio à espera de

serem inauguradas. Na margem portuguesa

vêem-se tangerineiras e vinhedos vermelhos,

mas não se vê vivalma. Falso.

Vemos agora um homem apeado na berma

da estrada. É o guarda do porto, Gabriel

Hernández Berrocal, um antigo trabalhador

da Iberduero que viveu, durante

alguns anos, em Basauri e que ficou coxo e

famoso porque uma árvore lhe caiu em

cima («apareci no programa de televisão

“Valor e Coragem”», explica com naturalidade).

De momento, é o único beneficiário

deste porto, chamado a facilitar o tráfego

fluvial de mercadorias no dia em que as

autoridades decidirem dar-se conta da sua

existência. Mas semelhante privilégio não

parece afectá-lo: «No Verão, vêm aqui os

de Madrid e dizem-me: que bonito! Bom,

mas eu não gosto!» E a paisagem, imponente

e silenciosa, não parece ter nada a

objectar à indiferença do seu guardião.

No outro lado do rio, a povoação de

Barca de Alva dá-nos as boas-vindas a

Portugal, com um vinho da terra, um

Vinha Lamedo rosado de 1992, que não

tem nada que invejar, em virulência, os

seus irmãos salamanquinos. Aqui começa

uma tremenda viagem, uma espécie de

montanha-russa interminável onde só ocasionalmente

conseguimos avistar o Douro

(assim se chama el Duero, em português),

comprimido entre as inúmeras montanhas

do Norte de Portugal. Os vinhedos galgam

alturas inconcebíveis, assomam-se em terraços

laboriosamente trabalhados para formar

as quintas que haverão de alimentar as

adegas dos vinhos do Douro e do Porto.

Nesta região acontece um raro fenómeno.

Entre Freixo de Espada à Cinta e

Mesão Frio estende-se uma região vinícola,

que tem o Douro como espinha dorsal,

dividida em três partes: Baixo Corgo (a mais

ocidental, de clima mais temperado e

húmido), Douro superior (a mais oriental,

mais quente, menos húmida e com vinhedos

de maior altura) e Cima Corgo (a parte

central, mais equilibrada em humidade e


temperatura). Nela se produzem ambos os

tipos de vinho, porque os vinhedos do

vinho do Porto não estão no Porto mas a

cem quilómetros para o interior, nesta

terra do Douro que tem a cidade de Peso

da Régua como capital do vinho.

Nela encontramos o enólogo da Casa

do Douro (equivalente ao Conselho

Regulador da Ribera del Duero), Eduardo

Abade, um português de quarenta anos,

nascido em Angola, que nos mostra as instalações

da Casa enquanto nos fala dos

vinhos da terra: «Os vinhos do Douro são

vinhos normais, brancos e tintos, enquanto

os do Porto são os vinhos con solera,envelhecidos,

dulcificados e misturados com

aguardente.» A região produz 10% dos

vinhos portugueses e, desses 10%, 50%

destina-se a «portos», cerca de 30% a

vinhos do Douro e 20% ao que se chama

vinhos da região, o equivalente aos vinhos

sem denominação de origem que se fazem

em Zamora ou em Valladolid. No total: 130

milhões de litros de vinho de produção em

1996. Todo um império, o que não é de

estranhar se se pensar que esta região vinícola

foi a primeira do mundo, delimitada e

regulamentada no ano de 1756.

Da sua valia, registe-se, durante o jantar

no restaurante Varanda da Régua (sobranceiro

à cidade), dois excelentes vinhos brancos

frutados: um Quinta de Santa Júlia de

1995 e um Quinta da Gaivosa do mesmo

ano, mistura de uvas Malvasia e Códega, o

primeiro,Vio Sinho e Ravigato, o segundo,

que acompanham uma clássica caçarola de

arroz de marisco.

Por fim, sexta-feira pela manhã chegamos

à cidade do Porto, empoleirada labirinticamente

nas colinas que tutelam o

Douro. Abaixo, na margem do rio, as

velhas adegas dos vinhos do Porto alinham-se

com solenidade britânica (não foi

em vão o comércio destes vinhos com

Inglaterra, a origem de tão frutífera indústria).

Numa delas, governada no século

passado pela chamada Rainha do Douro, a

Senhora D. Antónia Ferreira, e que tem

uma exótica avestruz como símbolo, recebe-nos

Fernando Xavier, chefe de serviços

da adega, homem baixo, magro, com um

pequeno bigode e elegantemente vestido,

que caminha com uma mão no bolso do

casaco, como se se tratasse de um diligente

funcionário da Coroa britânica na Índia,

circunspecto e amável, anfitrião oportuno

e preciso da visita às suas adegas frescas e

formosas, onde os vinhos aprendem definitivamente

o significado do verbo envelhecer.

«Quando Felipe González era presidente,

veio visitar-nos e demos-lhe a provar

um vinho de 1815, em memória da

Constituição de Cádis», comenta, sem que

o abismo do tempo pareça incomodá-lo.

Da adega, os vinhos do Porto saem

como Tawny, a sua versão menos envelhecida,

Ruby, com mais anos no barril, e portanto

mais amadeirados, ou Vintage: aqueles

vinhos de colheitas especialmente boas

que são engarrafados aos dois anos e guardam,

com o tempo, o seu primeiro e frutado

aroma.

À saída, à beira-rio, Mitxel Vega parece

ter esquecido a estaca que lançou à água

em Salduero, certamente vencido pela prodigalidade

sábia do Douro, enquanto a

recordação do Porto de 1937, que provámos

à noite, ainda me fala no paladar das

delícias de um tempo em que eu ainda não

tinha nascido. É o milagre do vinho.

Rio Douro. Fotografia de Paulo Barata


Aconcágua,

a Rainha das Américas

João Garcia

ALTAS SOLIDÕES 84 85

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ALTAS SOLIDÕES 86

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

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Já foi há muito tempo, mas, pela quantidade

de vezes que repeti esta viagem,

parece-me que foi apenas ontem que de lá

cheguei. É assim que me acontece com os

destinos de que gosto muito. Quem corre

por gosto não cansa, diz o ditado. Com o

Aconcágua acontece-me isso. E, sempre que

lá volto, aprofundo mais um pouco, acrescento

histórias e marcos à minha memória.

Já escalei tanto na Patagónia argentina,

como na Cordilheira Branca, no Peru.Volto

sempre ao Aconcágua, o ponto mais perto

do céu em que se pode estar no Continente

Americano.

Esta ascensão efectua-se durante o

Verão local, Inverno na Europa. Nem sequer

faz frio, mas a época natalícia ajuda a criar

ambiente e quase nos faz crer que está frio.

Enfim, chegamos a uma terra onde as

pessoas vivem e se vestem de forma diferente

e, assim, nos ajudam a despirmo-nos

de preconceitos e a ser abraçados por uma

cultura diferente. Bem podem dizer que

somos «latinos», mas este nosso modo de

estar quase fatalista, que o fado tão bem

sabe retratar, faz-me admirar quem simplesmente

canta canções alegres, apenas

por ser alegre…

Visto do ar, o Aconcágua sobressai

como um monólito imponente. É a Rainha

das Américas, tem mais de 6946 m de altitude,

uma montanha de quase 7000 m,

Visto do ar, o Aconcágua sobressai

como um monólito imponente.

É a Rainha das Américas, uma montanha

de quase 7000 metros, mais alta do que

qualquer outra no continente americano.

mais alta do que qualquer outra no

Continente Americano.

A viagem propriamente dita começa

em Santiago do Chile, onde após um breve

período para descanso e aprovisionamentos

nos deslocamos a La Parva, 50 km a norte da

capital. É uma estação de esqui e, neste

Verão tórrido, o nosso pedido de transporte

espanta o motorista de táxi.

A 50 km a norte de Santiago, já avistamos

neves eternas. Aqui, a um dia de distância

desta estância de esqui, escalamos o

Cerro Plomo, de mais de 5000 m de altitude.

São cinco dias que servem de aclimatação,

em que damos tempo ao organismo para

se adaptar ao ar rarefeito, devido à baixa de

pressão atmosférica, ao frio, ao chão duro

e ao desconforto de uma mochila pesada.

Ao chegarmos ao seu cume, compreendemos

o sentido do nome da montanha: plomo,

chumbo, é o que sentimos nas pernas…

Regressamos a Santiago, que agora já

não nos é estranha e nos acolhe numa passagem

de ano um pouco tardia, e apanhamos

depois um autocarro para Mendonza,

na Argentina. Embora o monte Aconcágua

esteja praticamente na fronteira entre estes

dois países, o acesso à montanha faz-se pelo

lado argentino. É aqui que temos de pagar

para entrarmos no seu Parque Nacional.

Na viagem podemos admirar vales áridos,

céu azul-escuro e, com sorte, talvez o


voo de um condor-de-colarinho-branco.

No final das tortuosas curvas e contracurvas

dos caracoles, podemos ver por breves

momentos a majestosa face Sul do Aconcágua,

desde a estrada que iremos refazer.

Se Santiago é quente, então Mendonza

está a escaldar em todos os sentidos… Na

rua faz muito calor e toda a gente procura

as sombras para passear à tarde. Aqui tratamos

da logística e da burocracia para

seguirmos viagem.

Este intervalo na viagem também vale

pelo repouso mental pois, ao contrário do

que se pensa, escalar montanhas faz-se não

só com as pernas, mas também com a força

da mente. Se a mente não está bem, as pernas

não correspondem…

Seguem-se mais umas horas de viagem

nos autocarros locais, económicos e pitorescos,

e voltamos às grandes paisagens áridas

e belas das montanhas. O grosso da

bagagem é transportado por mulas e controlado

por muleiros que seguram uma

faca atrás das costas, presa numa faixa de

tecido na cintura. O chicote que usam

impõe respeito, e o seu chapéu típico protege

do sol tórrido.

Ao chegarmos ao Campo-Base, revejo

amigos de todos os anos, alpinistas profissionais

que, tal como eu, fazem regularmente

expedições ao Aconcágua. Revejo a

montanha, naturalmente bela, e sinto a

Subimos com João Garcia

ao tecto das Américas

e como Neruda avistámos o mundo.

refrescante temperatura da altitude. Os ventos

da montanha nem sempre são amigos,

mas a perseverança do homem ultrapassa as

dificuldades e os elementos.A força de vontade

para subir, mas também para descer.

Porque o cume é apenas um ponto de

retorno, a descida é o mais importante.

Os ventos têm de estar connosco, as

frágeis tendas onde pernoitamos são a

nossa salvação em caso de mau tempo, de

intempérie e instabilidade meteorológica,

factores próprios das montanhas com os

quais temos de estar preparados para lidar.

Chegar lá acima é uma sensação incrível!

Tenho casa em todas as montanhas

deste Planeta e, quanto mais alto, mais belo

é o pôr do Sol visto de minha casa.

O regresso ao vale, esse, é a felicidade.

Podemos respirar fundo, descansar e

gozar em pleno. Temos ainda tempo,

vamos ver o Pacífico, Valparaíso, Viñas del

Mar… A suavidade do mar contrasta com

a agressividade da montanha, a viagem

está assim completa!


BESTIÁRIO 88 89

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

O Ovo do Pinguim

ou Crónica

de um Amor Maior

Maria Adelina Amorim

Oi filhote! Esse aí não é o Erich? Ilustração de Daniel Barraco


BESTIÁRIO

Meu filhote,

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

90

91

Agora que te vais iniciar na grande viagem das

neves eternas, ao lugar em que só os nossos casacos

pretos polvilham de negro a brancura primacial

dos tempos, quero contar-te uma história, a

nossa história.

Há muito, muito tempo, olhei para um grupo

de pinguinas – era assim que carinhosamente tratávamos

as mulheres da nossa tribo – e dei de

caras, que é como quem diz, de bicos, com um

pestanejar de olhos meio envergonhado, com um

rosto discretamente inclinado sobre os ombros.

Fiquei petrificado naquele corpo luzidio, fusiforme,

naquelas penas sedosas, naquelas asas-barbatanas

perfeitas. Finalmente, vi-a afastando-se com

as amigas pinguinas, sob o poente coado do Pólo.

Que porte, que elegância e que bom gosto: um

vestido branco com um fraque negro, que lhe

dava um ar de ambiguidade sedutora… Hoje

todos querem copiá-la, e até vieram cá das terras

quentes do Norte para tirar fotografias ao modelo.

Dizem que nas capitais da moda é muito chique

vestir à pinguim, uma espécie de ton sur ton, tão ao

jeito da capital parisiense (sim, que por cá vemos

o National Geographic, que sintonizamos directamente

dos satélites com que resolveram poluir os nossos

gelos, e sabemos muito bem onde ficam essas

terras de selvagens, animais estranhos metidos em

gaiolas de cimento e a correr de um lado para o

outro dentro de máquinas que deitam muito

fumo, umas bestas… a que chamam homens,

parece).

Contava-te eu que fiquei completamente congelado

com aquele olhar. Naquele momento, congelei

também uma ideia: aquela era a pinguina da

minha vida, e andaria milhas atrás dela até a convencer

a darmos as asas. E assim foi, anos depois

casámos numa madrugada brilhante junto às

águas frias onde nos conhecêramos e partimos de

lua-de-mel para a Antárctida profunda. Foi assim

que começámos a pensar em ti, a acalentar a ideia

de pormos um ovo para nele depositarmos uma

cria, que seria o espelho daquele amor austral.

Nem sabes como eram lindas as noites consteladas

em que caminhávamos, de barbatanas dadas,

ouvindo o silêncio das estrelas. Um dia ela, a tua

mãe, tornou a olhar para mim como da primeira

vez e disse-me «estamos grávidos». Senti um

arrepio na coluna – nunca devemos dizer espinha

para não nos confundirem com os peixes – e dei-

-lhe um beijo no bico. Abraçando-nos muito ternamente,

fomos sentar-nos nas rochas a observar

os leões-marinhos que tinham acabado de ter

filhotes.

Foi aí que começou a grande aventura, tínhamos

de nos preparar para te levar para longe dos

predadores e, numa espécie de peregrinação

colectiva, iniciámos a longa viagem até ao interior

gélido do continente. Eras um belo ovo, e era preciso

levar-te cuidadosamente ao colo para não caíres,

para te manteres quentinho junto às nossas

penas e aos nossos corações. Assim andámos quilómetros

adentrando os desertos das lonjuras infinitas.

A meio da marcha, a tua mãe, com as outras

pinguinas, tiveram de regressar aos mares para se

alimentarem, e aí foi o momento crucial desta

cruzada: era preciso trocarmos o ovo de um colo

para o outro, mantendo-te sempre apoiado nas

nossas asas-barbatanas. Finalmente, tinha-te agarradinho

ao meu peito para continuarmos a jornada.

Eu e os outros pais caminhávamos incessantemente

em longas filas até ao sítio onde os nossos

pais, avós, trisavós, enfim, tinham poisado os seus

próprios ovos. Ao mesmo tempo, tu ias crescendo

e ganhando força para quebrares a casca num dia

dourado e róseo. Foi assim que, numa madrugada,

aquele ovo, que eu e a tua mãe tanto cuidámos,

abriu-se para deixar ver um pequeno pinguim

preto todo dobradinho. Que susto quando te vi

naquele aspecto: onde estavam as penas sedosas

da tua mãe, o claro-escuro que nos identifica e dá

carácter no meio daquela brancura sempre igual,

as vestes elegantes que nos distinguem dos vulgares

leões-marinhos, das focas, ou até das orcas

que vemos passar ao longe, e das outras primas

baleias que nos cumprimentam sempre com um

jorro de água?

Lentamente, enquanto te ensinávamos os

elementares princípios da sobrevivência, foste

ganhando cores e tomando o porte nobre e incon-


fundível da nossa espécie: repara como nas passereles

da moda nos tentam imitar, pata aqui, pata

acolá, tira casaco, põe casaco… e nas cerimónias

que os homens fazem nos salões de festas, elas

todas de preto comprido, eles vestimentando-se

com casacas negras e camisas brancas… uma

beleza.

Era preciso avisar toda a família espalhada

pelo mundo, o ramo hispânico que vive nas

Galápagos (da ilha de San Cristóbal a Santa Cruz,

da Genovesa à Fernandina, de Santa Fé a Santa

Maria), o ramo australiano que se instalou na

Nova Zelândia, e até o grupo mais exótico que

vive na Namíbia, a sul de Angola. Eu e a tua mãe

recorremos a toda a parafernália de técnicas de

comunicação marítima, aérea, terrestre, e todos os

amigos se disponibilizaram a levar os telegramas,

das gaivotas aos albatrozes, dos ursos polares às

tartarugas (não sorrias porque elas são verdadeiras

campeãs de natação e conhecem os mares como

ninguém, senão como teríamos avisado os primos

africanos?), e até o tubarão-martelo participou

fazendo sinais de morse.

Foi assim que todos ficaram convidados para

o grande dia do teu registo no mapa austral. Eras

então um descendente do grande Reino da Animalia,

Filo da Chordata, da Classe das Aves, da Ordem dos

Ciconiiformes, da Família dos Spheniscidiae, e eras,

como os orgulhosos dos teus pais, um pinguim-

-imperador, ou seja, um Aptenodytes forsteri. Sim,

porque para além do nosso Género, ainda há o

pinguim-rei ou, mais propriamente, o Aptenodytes

patagonicus e outros, como o pinguim-de-barbicha,

o pinguim-saltador-da-rocha, o macaro, o das

barbatanas, o real, o azul... e outros com nomes

daquelas pessoas que não deviam ter mais nada

para fazer e vieram dividir-nos, subdividir-nos,

catalogar-nos, seleccionar-nos, como aquele Darwin

ou o Humboldt. Imagina um pinguim chamado

Sphenicus Magellanicus ou Sphenicus Humboldti, ou até o

mendiculus e o demersus, que ficaram com estes

nomes por viverem ali para o lado do Equador, e

os outros no Continente Africano. Mas quem deu

ordem àqueles mamíferos hominídeos para nos

desenharem em árvores genealógicas (nem vejo

quem foi o génio) cheias de ramos onde penduram

os nossos retratos? Antigamente, só havia o

avô e a avó pinguins, a mãe e o pai pinguins, os

irmãos, filhos, tios e por aí adiante. Agora, a confusão

é tão grande que já nem sabemos se perten-

cemos à mesma família ou se somos parentes afastados.

O que vale é que sabemos falar uma língua

que eles, por mais estelas que descodifiquem,

jamais conseguirão aprender. Pensam que sabem

tudo, os vaidosos.

Na verdade, não precisamos deles para nos

ensinarem a nadar, a caminhar, a comer, a ficar

grávidos e a pôr ovos. Por causa disso é que fugimos

para muito longe daqui quando as pinguinas

acham que os ovos que têm nas bolsas estão prontos

(até nisso eles nos imitaram com aqueles cestos

onde põem os filhos às costas, que compram

naquelas lojas de instrumentos estranhíssimos

onde deitam os filhos, que abanam, que têm rodinhas,

chapéus de chuva, plásticos, cobertores,

biberões, fraldas descartáveis, leite postiço, chuchas

para calarem as crias… eu sei lá, têm-me

contado coisas muito esquisitas daqueles animais

humanos). Nós, ao menos, não precisamos de

nada para além de amor, de vontade e de peixe no

mar para vivermos e criarmos os nossos bebés-

-pinguins. Até o que nós comemos tiveram de

nomear, sim, porque têm a terrível obsessão de

pôr nomes às coisas, aos lugares, aos bichos… não

deixam nada sossegado com aqueles latinismos,

que agora com a mania da era informática transformaram

em inglesismos: à nossa comidinha

chamam Kril, imagina bem. O que é que eles

sabem daquela mistura que só nós conseguimos

preparar tão bem, para lhe chamarem aquele

nome feio? Vá lá a pinguinada entendê-los.

Bom, filhote, agora que já fechei o guarda-jóias

da família onde guardamos as nossas

memórias, fico à espera do neto que hás-de trazer

caminhando ao teu lado, quando regressares

da grande viagem. Que os bons ventos protejam

o teu ovo para o veres transmudado em pinguim.

Mais um imperador para continuar a

nossa história.

Dá cá essas asas…


Erotismo e gula

na América,

desde o tempo colonial - I

Virginia Vidal

SABORES PRINCIPAIS 92 93

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Aqui, no Novo Continente, nesta terra minha sem nome,

sem América, como lhe chamava Neruda, achava-se a mais

esplêndida reserva de aves, peixes e animais desconhecidos,

de frutas, hortaliça e especiarias, não só para saciar a fome,

mas também como ritual amoroso e oferenda às divindades.

Morning Grace, óleo de Martin Maddox, 1991 © Todos os direitos reservados ao autor


SABORES PRINCIPAIS 94

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

95

Como os cozinheiros devem bater, coar e

pisar, para transformarem a substância em

deleitoso acidente para que assim satisfaça a

vossa gulosa degustação! Dos duros ossos

extraem o tutano e não desperdiçam nada que

possa ser doce e suave para a garganta. De

casca e picantes, de raízes e folhas se compõe o

delicioso molho para o glutão,para lhe despertar

um fresco apetite.

[Chaucer, El cuento del perdonador]

As receitas ou os segredos de cozinha

dão o seu pequeno contributo para a felicidade

humana, como proclama Pablo

Neruda:

Procuremos no mundo a mesa feliz.

Procuremos a mesa onde se aprenda a comer.

Onde se aprenda a comer, a beber, a cantar!

A mesa feliz.

A qualquer momento, a azáfama de

Eros com as panelas permite inferir que

erotismo e gula são caminhos de sabedoria,

e não hesito em afirmar que boa parte

do engenho humano se esmerou para

encontrar elementos – alimentos – que

outorguem juventude e poderes afrodisíacos

a quem os ingerir.A procura da rota das

especiarias não foi outra coisa senão isso,

por exemplo, o cravinho ou giroflé, a

pimenta em todas as suas fases, a noz-moscada

com a sua delicada casca, para citar

apenas algumas que conservariam as carnes

nos longos invernos e animariam o

corpo.

Aqui no Novo Continente, nesta «terra

minha sem nome, sem América», como lhe

chama Neruda, havia a mais esplêndida

reserva de aves, peixes e animais desconhecidos,

de frutas, hortaliças e especiarias,

não só para saciar a fome, mas também

como ritual amoroso e oferenda às divindades.

Semelhante sentido religioso estava

incorporado no trigo para a farinha das

hóstias e na videira para fabricar o vinho de

consagração que os sacerdotes recém-chegados

usavam na missa.Também traziam o

azeite de oliveira, só para manter a luz,

que, além de se usar para acender as lamparinas

votivas e como santo óleo na admi-

nistração dos sacramentos do baptismo,

confirmação e extrema-unção, permitia

temperar as saladas e dar-lhes um aroma

celestial.

Ah!, também traziam os citrinos que

os árabes lhes ensinaram a cultivar, de

modo que as saladas foram temperadas

com limão e se acalmou a sede com sumo

de laranja, e plantaram as amendoeiras a

cuja semente o poeta cubano Lezama Lima

prestou homenagem:

Encanecida e escultórica serenidade da amêndoa

Que recebe a embriaguez do mel feito escarcha

de ambrosia.

Os conquistadores – os senhores – da

arte culinária tinham uma tradição que

remontava ao grego Entidimo. Eles trouxeram,

além dos cavalos, reses, porcos e aves

de capoeira com a galinha como rainha,

porque os ovos se converteram de imediato

num alimento delicioso. Com o afã de

cuidar das poedeiras, raramente se matava

uma ave, de modo que este acontecimento

só ocorria em ocasiões memoráveis e a sua

canja era reservada para as mulheres depois

de darem à luz, os convalescentes, os doentes

com gripe, para festas de aniversário e

outros acontecimentos especiais.

Os naturais pescavam em mares e rios,

caçavam na selva aves e mamíferos e obtinham

as necessárias proteínas, mas os conquistadores

trouxeram algo de novo: os

animais domésticos que podiam ser criados

pelos homens e estar ao alcance da

mão. Assim proliferam as reses, os caprinos,

os cordeiros, os porcos e as aves de

capoeira, então as galinhas foram criadas e

tratadas com muito amor, evitando matá-

-las, para poderem dispor dos seus ovos.

Também os escravos africanos contribuíram

grandemente para a rica cozinha

mágica americana com uma grande audácia

para combinar produtos diversos e a

incorporação de frutos que, sem serem

necessariamente originários de África, ali

tinham proliferado, como diversas espécies

de bananas. Algo semelhante aconteceu

com os cocos e o café. Este delicioso grão

converteu-se na indispensável matéria que

se serve à sobremesa. A poetisa mexicana


Rosario Castellanos soube evocar magistralmente

esses tempos idos:

Depois de comerem ainda ficam

À volta da mesa. E ali fumam

Os homens o seu charuto; as mulheres

Prosseguem um labor paciente, cuja origem

Mal se recorda. Un negro café fumega

Em chávenas amiúde requeridas

…………

para sua plenitude este instante mais não quer

que ser e passar.

Quanto à cana-de-açúcar indiana, o seu

cultivo viria a desenvolver-se apenas aqui.

Dizer cana é dizer açúcar escuro, papelón,

panela, chancaca. Quer dizer, uma infinidade

de doces e geleias que vão desde os figos

recheados ao manjar branco, do maçapão às

amêndoas, e amendoins carapinhados, da

doce marmelada aos chocolates de todas as

formas e com todos os recheios possíveis.

Isto é, guarapo e sumo doce destilado e envelhecido

para convertê-lo em rum.

Com razão, Brillat Savarin, o mestre da

gastronomia, afirma na sua Fisiología del

Gusto: «É precisamente nas colónias do Novo Mundo

que o açúcar tem a sua origem.»

DANÇA DO FOGO

Não é exagerado afirmar que apetites

nutritivos e venéreos andam de mãos dadas.

Para despertá-los, procuram-se desde tempos

imemoráveis fórmulas mágicas que se

vão transmitindo de mães para filhas. No

que concerne a cozer os alimentos, uma

parte da humanidade descobriu que em terras

americanas se conservavam todas as formas

inventadas desde a descoberta do fogo.

Não há homem que não goste de assar

carne, entranhas e enchidos, aves e peixe na

grelha (barbaboa, que é uma palavra taína, tal

como tomate).

Sobre um budare, que primeiro foi uma

placa de argila para assar as tortilhas de cassabe

e com o tempo se fundiu em ferro, cozem-

-se as arepas do pequeno-almoço caribenho,

amazónico e venezuelano.

Nos campos chilenos, assa-se a tortilha

de borralho, depois de amassada com farinha

de trigo, salmoura, levedura e manteiga,

entre cinzas resultantes do cisco de carvões

vegetais queimados. Um pano alvo limpá-

-la-á do seu véu cinzento antes de ser partida

em fatias suculentas.

Em Aysen, espeta-se um bom pedaço de

rês num assador com forma de espada e

põe-se num quincho 1 . Esta é uma tarefa de

homens e cada aysenino cuida com desvelo

do seu espeto e regula a distância do seu

assado plantado para que não chegue a tocar a

chama da lenha. Se é cordeiro plantado, o cachaço

vai ora para baixo ora para cima, para que

asse de forma igual e não se queime a pele.

Dentro de um buraco com pedras a

escaldar cozem-se mariscos, carnes e peixe

no curanto 2 chilote.

Al-Garib, o califa de Pirque, segue as

indicações da sua esposa Lenka e traz

pedras redondas e bem lavadas do rio Clarillo

e aquece-as ao rubro num buraco

cavado no chão. Depois, vão-se colocando

sobre as pedras os pedaços de diversas carnes,

as presas de ave, as linguiças, as prietas,

até que a sua pele dourada sue. Entretanto,

ela colocou sobre a mesa uma infinidade

de saladas de todas as cores, aromas e sabores

inimagináveis.

Nas margens do lago Maracaibo, assam-

-se sobre uma grelha os peixes recheados,

bem envoltos em folhas de bananeira.

Um forno de barro, montado tijolo a

tijolo, com forma de iglô, por cuja pequena

boca entra a lenha que arde até se converter

em cinza para depois ser varrida e na

obscura e ardente cavidade se ir assando

nas minas a galleta minera; nos campos,

assam-se a galleta camponesa, empadas, pães

amassados, pastéis de milho e, no final,

alfajores [doce típico feito de uma pasta de

mel e amêndoas], biscoitos e outras delícias.

Os melhores feijões 3 guisam-se numa

panela de barro, e o pastel de milho assa-se

em recipiente do mesmo material. Convém

lembrar que as caçarolas, as bacias, as panelas

e as platas de barro têm um efeito especial

por serem amassadas, sobretudo por

mão de mulher, com a mesma terra, de

modo que fiquem impregnadas de energia,

sonhos e aura.

Nestas terras, tal como na longínqua

China, ainda se assam os frangos no barro

1 «Quincha», palavra quechua

que designa quer um

entramado de juncos

com que se reforça um tecto

ou parede de canas,

quer uma parede feita

de canas ou outro material

semelhante que se costuma

cobrir de barro.

2 Na Argentina e no Chile,

comida à base de legumes,

marisco ou carne, cozida

sobre pedras muito quentes

num buraco que se cobre

com folhas.

3 «Poroto», do quechua

purutu, designa uma

espécie de feijão

ou o seu guisado.


4 «Mazamorra»: doce de

milho, na América do Sul.

5 «Coyacucho», do quechua

kocha, alga marinha

comestível cujo talo pode

atingir mais de três metros

de comprimento e dois

decímetros de largura.

6 «Huesillo»: pêssego seco

ao sol.

7 «Mote», do quechua mutti,

milho cozido com sal.

SABORES PRINCIPAIS 96

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

envolvidos em penas, e tudo numa armadura

de espessa lama que se ressequirá

como couraça ao calor do lume e, quando

for quebrada, deixará ver a ave cheirosa,

bem cozida e sem penas e pele.

Não faltam os pescadores que colocam

sobre as brasas o seu peixe envolto em

folhas de jornal bem molhadas em água do

mar, ficando, depois, pegada ao papel a

pele com escamas, enquanto brilha em

todo o seu esplendor o excelente pitéu.

A incorporação do azeite de oliveira e

da banha de porco deu origem à fritura e às

correspondentes fritadas. Esta forma de cozimento

obriga o peixe a mergulhar e a chiar

no líquido a ferver para cobrir-se de crosta

crocante. De igual modo, fritam-se empadas,

diversas frutas de sertã [pasta de farinha à

qual se junta ovos e açúcar ou sal, feita de

diferentes formas e frita depois em manteiga

ou azeite], couve-flor e outras verduras

panadas, diversas tortilhas e sopaipillas [massa

que, bem amassada, frita e emelada, forma

uma espécie de holueja grossa] amassadas

com abóbora dourada e farinha de trigo.

Antes da chegada dos espanhóis, existiam

na nossa terra óleos excelentes que se

destinavam a uso ritual, como o de uma ave

chamada guácharo na Venezuela.

OS DESTERRADOS

97

Entre os sucessivos exílios que nos foi

dado viver, não esqueçamos o dos jesuítas.

Essas ausências, às vezes, consolavam-se

por vezes sentindo saudades das maravilhas

perdidas, entre as quais sabores e cheiros.

Isto consta na obra de frei Juan Ignacio

Molina que evoca intensas algas marinhas:

luche e cochachuyo, sem esquecer peixes e

mariscos como os piures, o sempre americano

milho para as humitas [no Chile, guisado

feito com milho tenro], chuchoca e ulpo [no

Chile, espécie de mazamorra 4 feita com farinha

tostada e água fria] nem frutas como a

murtilla [fruto chileno] para licor, mel de

palma e lúcumas. Também o padre Manuel

Lacunza, quando se distrai da escrita de La

Venida del Mesías en Gloria y Majestad, sente uma

intensa nostalgia e imagina-se numa viagem

imaginária de retorno: após a chegada

a Valparaíso onde se enfarta de peixes-rei e

caranguejos, de ouriços e loucos, galopa

até Santiago.Visita a sua avó, Dona Rafaela,

e, enquanto conta as suas aventuras em Itália

e fascina parentes e conhecidos com feitos

reais e imaginários, come frangos, charquicán,

caixinhas de doce, pão-de-ló e

outras sobremesas que as suas tias freiras

preparam nos respectivos conventos. Esse

ensopado também está presente nas recordações

de frei Molina: essa saborosa combinação

de charqui [carne seca] ou tasajo [pedaço

de qualquer carne] torrado e picado com

batatas, abóbora, verduras da época, orégãos,

cominho, ají de color.

Não é, pois, de estranhar que, no

decurso dos anos setenta e oitenta do século

XX, os chilenos desterrados clamassem

por esses mesmos condimentos, sem

esquecer cochayuyo 5 , huesillo 6 , mote 7 , maçãs

autênticas, sem faltar o utensílio de cobre

para estrelar os ovos do pequeno-almoço,

que dificilmente se en-contra em lojas de

ferragens estrangeiras.

SORTILÉGIOS ERÓTICOS

À beira-mar ou nas faldas andinas, em

vales e quebradas, homens e mulheres

procuram, afanosos, os elementos para as

nutrições de amor.Todo-poderoso e digno

das mil e uma noites é o alajú no qual se

combinam, em iguais proporções, amêndoas,

nozes, pistáchios, pinhões, mel e pão

ralado e torrado, como também os torrões

de sésamo ou gergelim e o amendoim ou

cacahuate, o caju, merey ou anacárdio que,

juntamente com os pistáchios e as amêndoas,

contribuirão com a sua secreta

potência, incitando com as suas cores e

sabores, sem esquecer as sementes de abóbora,

nozes e amêndoas, favas e outros

legumes torrados para renovar as capacidades

amatórias.

Todo o caraquenho que se preze toma

o pequeno-almoço com um olho-de-boi, o

cristalino, diluído em sumo de laranja e

suco de beterraba crua; e é surrealista a

imagem da caçarola cheia de olhos-de-boi

entre parchitas leitosas, rodelas de ananás e

outras delícias frutais dos trópicos.


Para os mesmos efeitos, bebem-se

tanto o inocente vinho de missa com gema

de ovo, como a urina de víboras embebida

em conhaque: esta mistela é acompanhada

com pedacitos de víbora crua, numa espécie

de guisado, receita com a qual alguma

cidade da China se celebrizou.

O fervor afrodisíaco unido à ânsia de

conseguir inextinguível potência não hesitou

em extrair a bílis dos ursos malaios, em

comer, directamente do crânio, os miolos

de macacos vivos, em engolir um coração

verdadeiro de cobra num copo de vinho,

em beber como sopa o sangue de búfalo.

Nem sequer o pão-nosso de cada dia,

símbolo da comunhão e da partilha, do

próprio alimento, se livra de aplicações

eróticas; tanto assim é que, durante a Idade

Média, em Inglaterra, havia mulheres que

amassavam o seu pão, e o destinado ao seu

amante passavam-no pela sua fonte venérea

antes de o meterem no forno…

Mas são os habitantes do Novo Mundo

os possuidores da máxima sabedoria luxuriante,

os conhecedores das subtis propriedades

de plantas, flores, frutos e sementes e

deram esse presente a todo o mundo.

Frutas perfumadas e gloriosas como a

anona, a parchita e a papaia.

O que é que é mais usado para despertar

os apetites e exprimir o amor? Os bombons!

Sim, de cacau, originário das terras

dos caracas que se implantou no México,

cuja amêndoa torrada, triturada e misturada

com açúcar e especiarias proporciona o

estranho chocolate, a mais popular oferenda

de amor, seguido pelo incomparável aroma

da baunilha da orquídea que se utiliza em

sobremesas, gelados e até em perfumes de

mulher.

Não vale a pena falar das propriedades

do saboroso abacate nem do tomate que os

sábios de Itália baptizaram de poma de oro e

que, devido às suas espantosas propriedades,

decidiram utilizar em todos os molhos imagináveis

para acompanhar não só pastas, mas

também frutos do mar e da terra.

A abóbora, calabaza ou auyama, nas suas

inúmeras variedades, cresce opulenta em

todas as hortas do continente e esbanja

cores na sua atractiva e dura casca para

encobrir a tenra e abundante polpa de

veludo amarela, famosa porque «engorda

as pernas» às meninas e é o alimento mais

são para os recém-nascidos que, depois do

leite materno, começam por comer bananas

e continuam com a sopinha de abóbora,

outras verduras bem cozidas em caldo

de posta ou peixe.

O milho, dourado filho do Sol, é aproveitado

tenro, tanto cozido para «o fecundo

ofertório das maçarocas», no dizer de

César Vallejo, com barbas e tudo, como sob

a forma da infinita variedade de tamales, as

hallacas, as humitas, e do incomparável pastel

de milho à chilena. O grão seco serve para a

chuchoca que engrossará o guisado de peru

ou para a farinha que fará a massa das arepas

ou a variedade incomparável da polenta.

A batata 8 , originária de Chiloé, o território

da magia, com as suas quatrocentas

variedades começou por estender-se a toda

a região andina, onde também se foi desidratando

devido ao gelo para se transformar

em chuño altiplânico, ainda que também

se chame chuño à alva e fina fécula de

batata que substitui a do milho. Depois

partiu para o ultramar e apoderou-se do

território europeu, tornando-se indispensável,

quer fosse cozida, assada nas brasas

ou no forno, frita, amassada com farinha

ou convertida em matéria-prima para inúmeros

pratinhos. Para os chilenos, a batata

(papa) é o alimento por excelência, a tal

ponto que a mãe diz ao seu filho, antes de

amamentá-lo, «vou dar-te a papa», enquanto

os homens que gostam de dizer piropos

fazem corar uma mulher dizendo-lhe: «Qué

papa!». Então, o fruto subterrâneo converte-

-se em sinónimo de feminidade.

O ají, com as suas inúmeras variedades,

é o símbolo do picante e exaltante.

Erótico por excelência, em tempos foi mais

caro e apreciado que o sal.Todas as variedades

deste luxurioso descarado têm por

pátria os países da América, e no México

chamam-lhe chile, nome de país. Seja verde,

roxo, vermelho deslumbrante, amarelo,

azulado, é sempre fonte de vitamina C. Há-

-os pequenos, mas terrivelmente picantes,

como o famoso ají de Cayena ou a variedade

peruana de nome impublicável a que as

vendedoras do mercado chamam colita de

mono; vermelhos com sementes negras,

8 Papa, do quechua, designa

batata. Papa, em português,

deriva do latim pappa

e designa comida

(para crianças).


9 Virginia Vidal, Oro,

Veneno, Puñal, Brosquil

Ediciones, Valência, 2002.

SABORES PRINCIPAIS 98

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

como o rocoto; largos, estreitos, chatos, sempre

saborosos, mais ou menos picantes.

Existem chireles, pasillas, cachos de cabra, nomes

que nunca mais acabam.

Com o tempo, veio a constatar-se que

os habitantes das diversas regiões americanas

conferiam poderes afrodisíacos tanto às

formigas culonas, apanhadas com um palito

untado com mel e fritas, como à cobra-

-cega macerada em rum.

É claro que também se recorre a elementos

menos drásticos e se atribui grande

poder à sopa dourada, à pisca andina, às aboborinhas

italianas com cebola, às bananasmacho

fritas ou assadas, à salada de agriões

e cebolas. São indiscutíveis os méritos do

propoleo ou borra de favos de abelhas, ingerido

em jejum.

BRUXARIA

99

Em questões de bruxaria, era sábia a

Quintrala, uma cruel personagem feminina

exaltada pela sua imagem de erotismo

superlativo: «A Quintrala transformava

todas as suas comezainas no cúmulo do

conduto erótico: desde as pantrucas servidas

em alguidar de barro preto aos famosos

feijões em travessa de prata das monjas

dominicanas, passando pelos testículos

rebuçados e por umas olorosas costeletas

de cordeiro polvilhadas com salsa, menta,

tomillo, alecrim e uma infinidade de ervas

de cheiro, acompanhadas com batatas douradas

e saladas de alface, Feijão verde, favas

descascadas, aipos com abacate e nozes e

outras frutas e outra guarnição de rodelas

de tomate e corações de alcachofra envolvimos

em folhas de agrião. 9 »

Quando a Quintrala, a cruel feudatária

colonial que entre os seus mortos conta

uns quantos amantes, encostava ao seu

peito de pele cor de canela a tortilha de rescoldo

e começava a cortá-la em fatias e a oferecê-las

a cada um dos seus admiradores,

estes quase desmaiavam. Enquanto comia,

«todos a olhavam deleitando-se com a

visão dessa mão delicada no movimento de

três dedos para pegar em cada pedaço de

alimento e levá-lo à boca sem pressa. Ela,

de vez em quando, deslumbrava-o com um

cintilar dos seus olhos faladores e continuava

muito comedida, preocupada em dar

atenção a todos os seus hóspedes. Depois

de saborearem uns deliciosos peixes-rei, a

criada oferecia a cada um, para lavarem os

dedos, uma tigela de barro preto cheia de

água onde flutuavam rosas».

A sacerdotisa crioula de Eros e Thanatos

era fanática do afrodisíaco ají, grande

consumidora de mistelas confeccionadas

pelas freiras, às quais fornecia a sua própria

aguardente, e não se coibia à hora das

sobremesas, pois oferecia aos seus admiradores

anonas que encobriam a sua alva

polpa com um inquietante veludo verde,

manjar dos deuses cujo nome índio quer

dizer teta de mulher.

Se de poderes revitalizantes se trata, por

estas terras americanas também se enaltecem

os poderes dos ovos crus de coruja, tão

bons para manter um homem como para

conservar a pureza da cútis, da tortilha de

ovos de pomba, dos órgãos genitais de

raposa, das iguanas e da pata de veado.

Para conquistar e manter o ser amado,

não se hesita em utilizar o coração da

andorinha e o fígado de coelho, o sangue

de novilho, diluído em aguardente, os testículos

assados e a sopa de rabo de boi

negro, os miolos e os testículos, o olho-de-boi

cru cujo cristalino se dissolve em suco de

frutas, em rum ou em vinho, o leite de ají,

as tartarugas de mar e rio guisadas com

alho, ají e cebola.

CRUELDADE?

E isto não é nada, pois se de paixão se

trata, não há limites e não se sabe se por

magia simpatética, aplica-se ao ser comestível

o tratamento que se quereria dar ao objecto

do desejo. Não se poderá afirmar que é

mera crueldade, mas nisto das artes culinárias

dá-se a transmutação da morte para a

vida a fim de fortalecer debilidades, reparar

energias, saciar a fome, tal como é indispensável

sacrificar a rês, degolar o cordeiro,

torcer o pescoço à galinha ou embebedar

o peru ou guajolote (considerado por Brillat

Savarin «um dos mais bonitos presentes


que o Novo Mundo ofereceu ao Velho Continente»),

para que aquele adquira o seu

máximo poder, sendo mantido sem comer

nem beber durante um dia inteiro e dando-

-se-lhe, finalmente, nozes e conhaque na

véspera do seu sacrifício.

O pato da ñusta apaixonada, de acordo com

a antiga tradição de Huánuco, deve ser

enterrado vivo, com a cabeça de fora, em

pleno sol, para que a sua carne fique muito

tenra e seja mais fácil depená-lo. Depois é

degolado, esquartejado e fritam-se as presas

em muita manteiga, temperam-se com

um refogado consistente com muito ají

rocoto, alhos, pimenta e cebolinhas picadas,

deixando-o suar durante meia hora, antes

de o servir com batatinhas cozidas.

Mas no sul do sul do mundo, onde se

ergue a selva sombria em torno dos lagos,

na zona de Futrono ou Chihuío ou na ilha

grande de Chiloé, preparam-se em misterioso

ritual os guisados proibidos, a degustar

só por homens. Em primeiro lugar, o

ñachi. Escolhe-se o cordeiro, corta-se a

jugular. Brota o sangue e vai a coalhar no

picado de cebola, coentros e ají picado no

alguidar. Mexe-se esse sangue temperado,

ainda morno e já coalhado. Para preparar o

apol, escolhe-se outro cordeirinho novo, de

leite; dá-se-lhe um golpe no gasganete,

abrindo a traqueia, e deitam-se pela abertura

temperos idênticos, sem esquecer o ají.

O animalzinho está vivo e pareciam não

cessar esses estertores quase humanos que

facilitam o tempero dos seus pulmões, e

também do coração. Depois, abre-se a vítima

de cima a baixo e arrancam-se-lhe os

bofes, o fígado e o coração que se colocam

sobre uma tábua de cortar ou sobre uma

bancada rústica, saem as facas das suas bainhas

e vão-se cortando as entranhas sanguinolentas

em fatias e provando-as. Em

alguns lugares existe uma ligeira variante:

quando a água com sal já está a borbulhar

numa caldeira, submergem-se e escaldam-

-se as entranhas, sem soltá-las, na água a

ferver, por uns instantes, sendo cortadas e

comidas de imediato.

Não se pense que se trata de uma

crueldade do Novo Mundo, pois antes de

sacrificarem, ao terceiro mês de vida, o

famoso pato de Pequim, pregam-lhe as

membranas das patas numa tábua e alimentam-no

enfiando-lhe a comida pelo

bico, para que o seu fígado se desenvolva e

se torne um delicioso petisco e a sua carne

fique muito tenra porque a imobilidade

impede o seu endurecimento. Só se lhe dá

de beber água da Fonte de Jade da Colina

Perfumada. Depois de sacrificado e depenado,

tiram-se-lhe as vísceras, cuidadosamente,

sem o abrir, enche-se da mesma

água e tapa-se o buraco com um pau, pincela-se

com água açucarada, o que lhe dará

o magnífico lacado e vai ao forno onde

arde a madeira de uma árvore chinesa aromática

que lhe dará um aroma subtil.

Quando o chefe de cozinha leva a obra

de arte à mesa, primeiro oferece-se ao ser

predilecto o melhor pitéu, os miolos do

pato; depois, o fígado hipertrofiado serve-

-se assado e envolto em pimenta triturada

(esta receita foi-nos dada no Restaurante El

Pato de Pekín, pelo último cozinheiro da

Imperatriz Viúva, homem idoso mas que

em plena infância se tinha iniciado como

ajudante na cozinha imperial).

Para já não falar da sopa de tartaruga

em que o animal é metido em água fria

para ser cozinhado em fogo lento e, quando

estica o focinho clamando por ar, frescura

e água, vai sendo saciado com colheradas

frescas do líquido elemento…


ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM 100

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Portugal, sempre

Luís Antônio de Assis Brasil

101

Quando o avião da TAP aterrou no aeroporto

de Ponta Delgada, na primeira de minhas tantas

viagens aos Açores, senti-me voltando

para minha outra casa, depois de 250 anos

de ausência. É este o sentimento do escritor brasileiro

Luís Antônio de Assis Brasil que, neste texto, respira

algum cheirinho a alecrim.

Lisboa. Fotografia de Paulo Barata


ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM 102

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

103

Por que Portugal tanto interessa a nós, brasileiros,

em meio à Babel da Europa? Por que não Bósnia

ou Andorra? «Porque ali se fala português», é

uma resposta. No entanto, essa língua portuguesa,

com a qual mantemos identidade, não é rigorosamente

a falada nas ruas de Lisboa ou de Évora. Identificamo-nos

com uma língua mítica, fixada e enobrecida

por Camões, romantizada por Eça e elevada

ao mais expressivo patamar poético por Fernando

Pessoa. Mesmo quem ignora os primeiros versos de

Os Lusíadas sabe que a sedução linguística faz com

tenhamos um vínculo extra-nacional e supra-étnico

com Portugal.

Há algo, porém, menos tangível, mas muito

mais intenso, que edifica essa ponte de cumplicidade

transoceânica. Refiro-me à História. País de raras

instituições duradouras, em que os restaurantes

morrem na adolescência e as revistas literárias

sofrem da peste do sétimo número, o Brasil experimenta

uma inegável nostalgia pelo passado. Necessitamos

de mais séculos para além desses escassos

500 anos de História escrita. É certo que temos os

índios, que poderiam substancializar alguma estrutura

arquetípica respeitável em nosso imaginário,

mas a rarefação de seu legado material – ocorrida

por culpa dos não-índios, diga-se – faz-nos sonhar

com fortalezas, castelos e palácios. Nossas representações

simbólicas mais eloquentes reiteram

bordões principescos que chegam ao disparate de

ungirmos mais de um rei para um único reino. Pelé

e Roberto Carlos são os mais notáveis de uma série

sem fim.

Se o gaúcho que descende de alemães

sonha em viajar ao Hunsrück,

sua escala obrigatória e sentimental

será Lisboa.

Lisboa. Fotografia de Paulo Barata

Essa saudade inata, saudade daquilo que não

tivemos, nos faz voltar os olhos para o passado

épico português, incorporando-o à nossa própria

História coletiva e, por que não, à nossa minúscula

história individual: quando o avião da TAP aterrou

no aeroporto de Ponta Delgada, na primeira de

minhas tantas viagens aos Açores, senti-me voltando

para minha outra casa, depois de 250 anos de

ausência. E esse é um sentimento comum a todos os

brasileiros que visitam Portugal. Estando-se em Lisboa,

na Praça da Figueira, o primeiro olhar vai para

o Castelo de São Jorge, lá em cima, vigiando as eras.

E respiramos, aliviados, porque ele existe e nos vincula

a uma tradição que não é de hoje.

Afirmei que esse sentimento é superior às

etnias; é-o porque pertence a uma instância maior,

relativa à cultura. Se o gaúcho que descende de alemães

sonha em viajar ao Hunsrück, sua escala obrigatória

e sentimental será Lisboa. Foi Regis Conte,

um gaúcho ítalo-brasileiro, quem, com a sua Flávia,

me apresentou, e à Valesca, os melhores vinhos do

Alentejo, num memorável almoço no Solar dos Presuntos,

às Portas de Santo Antão.

Milton Nascimento, sem abdicar de suas generosas

raízes afro-brasileiras, vai sempre a Lisboa e

tem ali um imenso público.

Assim, ao lembrarmos Portugal, estamos saudando

não apenas a cultura sólida, não apenas a terra

de nossos avós genéticos ou afetivos, mas estaremos

comemorando também a nós mesmos, por possuirmos

uma imaginação tão rica e criadora em relação a

nosso passado – e nem por isso menos verdadeira.


Cuiabá

José Luís Peixoto

O QUE FAÇO EU AQUI 104 105

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Aqui não é o escritor que quer

desaparecer, mas antes os outros

que o dão como desaparecido numa

pequena cidade perdida à beira

do Pantanal. Ou como uma viagem

de José Luís Peixoto não o levou

a lado nenhum.


Eram os últimos dias de setembro. Ainda

estava calor de verão em Lisboa, quando subi as

escadas do avião que me iria levar a Cuiabá. No

Rio de Janeiro, mudança de aeroporto, táxi,

malas e, à noite, num avião pequeno, cheguei a

Cuiabá. Fui levado ao hotel. Tudo perfeito? Tudo

perfeito. Chegava para duas semanas de Brasil,

das quais passaria uma em Cuiabá e a outra seria

repartida entre Brasília e Rio de Janeiro. Da janela

do meu quarto, olhava a avenida nocturna, de

carros permanentes, e tentava recordar-me do

pouco que tinha conseguido aprender sobre

Cuiabá na internet, não muito. Apesar de toda a

incerteza sobre aquele que poderia ser o meu

destino na semana que começava, tinha um bom

pressentimento, uma vez que vinha para participar

num evento de literatura latino-americana, e

o melhor lugar para encontrar literatura latino-

-americana é, até prova em contrário, na América

Latina. Acreditava que deveria existir alguma

razão para Cuiabá ter o mesmo valor de Brasília

somada ao Rio de Janeiro. Aquilo que eu ainda

não podia saber era que os organizadores do

evento, apesar de me terem comprado bilhete de

avião e reservado quarto no hotel, não contavam

com a minha presença, não me tinham colocado

como participante de nenhum debate ou palestra

e comportavam-se como se nunca me tivessem

visto, lido ou imaginado.

Admiro-me por estar a falar de Cuiabá há já

várias linhas e ainda não ter referido que Cuiabá

é, hiperbolicamente, o lugar mais quente do

mundo. Nas suas ruas de cimento, o calor escorre

através da pele em gotas grossas de óleo. A

humidade vê-se no ar.A distância é menos nítida,

os contornos da paisagem são esbatidos e a respiração

é mais difícil. O ar é espesso, como se alimentasse.

A gastar duas ou três T-shirts por dia,

fiquei em Cuiabá, Mato Grosso, durante sete dias

demasiado longos. Aquilo que me incomodava

não era o calor ou a cidade, à qual dei poucas

oportunidades. Aquilo que me incomodava era

não ter conseguido continuar o trabalho que

aqueles dias tinham vindo interromper, um

romance. Incomodava-me também o ter de viajar

quase clandestino, olhado de lado, conversando

com ninguém, nos autocarros que transportavam

pessoas do hotel para a feira do livro, única distracção.

Era também assim na ocasião das refeições.

Para chegar à hora e ao lugar correcto, tinha

de andar sempre a ouvir conversas porque, ao

contrário do que acontecia com os outros escri-

tores, ninguém me informava de nada. Assisti a

dois debates dos escritores presentes. Todos eles

eram publicados exclusivamente na internet e

anunciam, para os vinte desinteressados que se

juntavam ali, que todos os grandes escritores

actuais, os mais ousados, os mais vanguardistas,

apenas publicavam na internet. Esses eram os

escritores que estavam sempre – nos pequenos-

-almoços, nos autocarros entre o hotel e a feira

do livro, nos jantares. Além desses, houve dois

que chegaram num dia e que partiram no outro.

Tinham palestras em nome individual. Eram

especiais. Um deles foi o escritor Milton Hatoum

que tive a alegria de reencontrar e que, comigo,

também não conseguiu compreender o que estava

eu a fazer ali. A ele devo um passeio pela Chapada

do Guimarães, depois de ter sido necessário

convencer o distribuidor dos seus livros no Mato

Grosso a levar-me com eles. Tirando isso, durante

uma semana, assisti a programas sobre crimes

na televisão do quarto de hotel, reparei nos chuveiros

que esguichavam água do tecto da Feira do

Livro de maneira a refrescar o ambiente e, finalmente,

tive tempo para realinhar a minha posição

no mundo. Até hoje, ainda não sei ao certo quem

foi que me convidou e para quê.


Pancho regressa ao mar

(Coloane, o mais anfíbio

escritor chileno)

Volodia Teitelboim

CRUZEIRO DO SUL 106 107

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Nasceu na fronteira da terra e do mar, na ilha de Quemchi,

lugar musical e húmido no sul do mundo. Por isso, era um

escritor anfíbio. Na sua geografia austral tão bem mapeada

nos seus livros, entre o silêncio e a natureza, entre a vida

e a morte, entre a amplitude e a finitude, entre a tempestade

e a calma, nessa fronteira do mundo e da alma,

Francisco Coloane nasceu, morreu e regressa em cada maré.

Francisco Coloane. Fotografia de Eric Facon – Le bar Floréal


CRUZEIRO DO SUL 108

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

109

Da sua ilha natal de Quemchi,

até Cabo de Hornos

e à Antárctida, contemplava

o coirón, o pasto

das estepes magalhânicas,

mas também

fixava os olhos

nos astros.

Seu pai, capitão de baleeiro, afirmou no

momento da sua morte: «Voltemos ao mar.».

Quando chegou a hora do filho, este utilizou a

mesma expressão paterna: «Voltemos ao mar.»

Numa segunda-feira, 5 de Agosto de 2002,

despediu-se secretamente de sua mulher Eliana.

Transmitiu-lhe também a sua última vontade: não

digas a ninguém que morri, espera dois dias.

Então, cremem-me discretamente. Em seguida, tal

como meu pai, regressarei ao mar.

Sempre regressou ao mar o mais anfíbio dos

escritores chilenos, com um pé na terra e outro na

água. Renova-se o ciclo da natureza que esse autodidacta

amava e que converteu, muitas vezes, em

alegorias espantosas. Da sua ilha natal de

Quemchi, até Cabo de Hornos e à Antárctida contemplava

o coirón 1 , o pasto das estepes magalhânicas,

mas também fixava os olhos nos astros.

É um dos homens a quem mais ouvi falar das

estrelas. No meio das borrascas da Terra do Fogo,

sempre observou e amou a paisagem interminável

e selvagem. Sabia que, para que este fosse um tema

literário e se revestisse de uma grandeza trágica,

era necessário que o ser humano a percorresse.

Redescobre a aliança entre o homem e a natureza,

mas também navega por dentro do caminhante

dos últimos confins. Realiza a viagem interior,

aventura-se nos nevadas e nos golfos misteriosos,

às vezes inarráveis, na psicologia dos tristes, dos

ternos, dos cruéis e dos solitários.

Francisco Coloane incorporou nas letras universais

as terras do fim-do-mundo. E fê-lo com

uma das prosas mais precisas e cristalinas da literatura

contemporânea. Completou o mapa íntimo

dessas latitudes austrais, como Jack London o fez

com os extremos setentrionais. Ali entraçou também

o nó dramático: não a febre do ouro, mas a

quimera do ouro, como um Chaplin trágico, não

cómico, que concebe a desesperada busca da

riqueza como uma missão titânica quase sempre

infortunada.

É, com Baldomero Lillo, o maior contista chileno

do século XX. Coloane não é um observador

ou recriador fotográfico, mas um homem que em

cada palavra introduz uma entranha, certo estremecimento

que se transmite aos leitores de muitas

línguas. É eloquente e sintomático que, de repente,

em França, quando fez oitenta anos, tenha sido

descoberto como «o milagre Coloane». E que o

saúdem e o façam seu em terras remotas. No futuro,

quem ler as suas páginas sentirá, também, que

está a descobrir algum ângulo desconhecido na


história do coração humano. O que escreveu continua

a ser válido para todos os tempos, e as suas

obras são traduzíveis para todos os idiomas porque

ele falou numa linguagem única e insuperável: a

da verdade, da sinceridade e também da esperança

e da desolação do homem que procura a felicidade

sem a encontrar.

OS PIANOS DO OCEANO

Neruda chamou-lhe «o filho da baleia branca»,

em alusão ao livro de Melville, que Coloane

leu apaixonadamente. Mas a verdade é que ele falava

pouco de literatura. Quando citava livros, tratava-se

de páginas trespassadas pelo sentido, pela

tristeza, pela aventura arriscada, às vezes sombria,

que chocava com o triunfo impossível.

Procurava os amigos para partilhar, falar da vida.

Naquelas conversas surpreendíamo-lo indignado

perante as injustiças do mundo. Era um homem puro

e correcto, ávido de amor.

A sua vontade final de morrer em silêncio e

de ocultar a notícia da sua morte durante quarenta

e oito horas pareceu a muitos estranha. Creio

que nunca antes houve um caso assim na literatura

chilena. Seu pai, o inolvidável capitão de

baleeiro, era desconhecido do grande público, um

anónimo cuja morte quiçá fora registada em poucas

linhas num diário de Magalhães. Ele quis morrer

da mesma forma, em silêncio. Não necessitava

de discursos no seu túmulo a recordar quão extraordinário

escritor ele era. Sempre se sentiu incomodado

com os elogios. Era homem de mar e de

estepe que sempre quis estar em contacto com a

água e dormir finalmente nas suas profundezas,

como mais uma gota ou um grão de sal.

Coincidência das coincidências, a primeira coisa

que viu quando nasceu foi o oceano. Quando chegasse

a sua hora, desejava regressar às suas origens

insondáveis.

Em França, vi-o num desses tormentosos festivais

dedicados aos escritores navegantes. Contava, perante

o deslumbramento do auditório, a história desse

barco cheio de pianos que ia da Europa para o Chile e

naufragou no Estreito de Magalhães.

Com o tempo, o mar tornou-se músico porque

os pianos começaram a falar e a cantar. Era uma

melodia trespassada pelo enigma, executada no

teclado, accionando as cordas interiores sacudidas

pelo movimento oceânico. Ouviam-se sonatas,

patéticas, como lamentos de afogados; allegros,tem-

pestuosos ou insólitos harpejos, ressonâncias inauditas

que cativavam os viajantes que cruzavam essas

paragens de vida ou morte. Ao que parece, o relato

de Coloane é verídico. Não me restam dúvidas de

que, para ele, não era apenas real, considerava-o

também uma expressão da beleza cósmica.

Recordo Coloane como um ser comovido.

Não esqueço o seu pranto incontido quando a sua

esposa Eliana se encontrava na China e ele não

podia viajar para a ver. Fisicamente, tinha traços de

gigante harmonioso. Alguém o comparou a um

touro, mas, na realidade, usava a sua força física

para enfrentar o injusto, o prepotente, o que atropelava

a dignidade das pessoas. Desde muito cedo

que se definiu politicamente, entrando, primeiro,

para o Partido Socialista e, depois, para o Partido

Comunista. Nunca quis ser dirigente nem ocupar

cargos. Considerava-se uma pessoa das bases. Queria

viver, viver em plenitude, escrever, seduzido pela

beleza e animado pela bondade. E há que usar a

palavra bondade porque o define bem.

Para Pancho, não há lugar para um adeus, mas

sim para um até sempre. Nobre Irmão. Incomparável.

Um dos homens mais puros que passaram

entre a terra e os vendavais, para instalar-se agora

na sua morada ancestral, a do pai: o mar de todas

as tormentas e dos mais rasgados horizontes.

1 No Peru e no Chile, designa uma planta gramínea, de folhas duras, muito utilizada para

tectos de cabanas. (N. da T.)

Um dos homens

mais puros

que passaram

entre a terra e os vendavais.


111

Com o coração na boca

(La Bombonera)

Maria Mansilla

ESTÁDIO DE SÍTIO 110

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Há um lugar neste planeta onde, quando se diz boca, não se fala

de anatomia, nem de fome, nem de beijos. No paralelo 56 e abaixo

do Trópico de Capricórnio, a palavra começa com maiúscula.

Pronunciá-la é nomear um bairro de Buenos Aires e, simultaneamente,

um clube de futebol argentino.

La Bombonera. Fotografia de João Ventura


ESTADO DE SÍTIO 112 113

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

[…] Boca revela

a outra face:

boémia, operária,

anarquista,

popular, parecida

à Pequena Itália

que os exilados da

Europa oitocentista

geraram.

Há um lugar neste planeta

onde, quando se diz «boca»,

não se fala de anatomia, nem de

fome, nem de beijos. No paralelo

56 e abaixo do Trópico de

Capricórnio, a palavra começa

com maiúscula. Pronunciá-la é

nomear um bairro de Buenos

Aires e, simultaneamente, um

clube de futebol argentino. Mas

não se trata de um bairro qualquer,

nem de uma equipa qualquer.

A história que os une tem

mais de 100 anos e é necessário

contá-la porque já não a reconhecemos

nas suas ruas.

Da sua rambla é difícil imaginar

que este porto de barcos oxi-

dados fosse outrora um porto

internacional; e que este rio

imóvel, o Riachuelo, tivesse alimentado

a sua gente. Mas quando

alguém se submerge nos seus

«becos», a Boca revela a outra

face: boémia, operária, anarquista,

popular, parecida à Pequena

Itália que os exilados da Europa

oitocentista criaram. As casas de

chapa e madeira são o seu património.

Mas não o único. Hoje, a

popa é o rio, como fonte de trabalho

e horizonte, a sua proa é o

gigante de cimento que a Boca

abraça: o estádio. Boca Juniors é a

sua paixão e, ao mesmo tempo, a

sua anestesia: acelera o pulso dos

43.413 habitantes, cada vez que

joga em casa.

O clube, fundado em 1905

por iniciativa de cinco italianos,

pode contar com Maradona entre

os seus adeptos e ter a celebridade

do Manchester United, mas

existe um segredo que o torna

único: os seus seguidores conservam

um valor de outros tempos,

a incondicionalidade. «Estamos

acostumados a sofrer», é o

seu orgulhoso argumento. Como

poderiam ter outro carácter, se

foram esses estrangeiros determinados

que impuseram o estilo?!

Na Argentina, em cada 10

adeptos de futebol, 4 são do Boca.

Por isso os boquenses agem

como se estivessem num mundo

à parte. Como se vivessem em

Roma na época do Império.

«Ninguém pode morrer sem

ter visto um superclássico entre o

Boca e o River (o seu eterno

rival). Claro que esse último e

necessário acto da existência não

deve concretizar-se em qualquer

cenário, mas sim, infalivelmente,

na Bombonera», sentenciou o

diário inglês The Observer. Ficar no

«peão» deste estádio, em forma

de caixa de chocolates, é uma

experiência inesquecível: os asso-

bios dos fanáticos parecem uma

invasão de gafanhotos. Como eles

explicam melhor: «o estádio não

palpita, vibra». Todos querem

estar ali. Até a Coca-Cola teve de

trocar a camisola vermelha e

branca, coincidente com as cores

do River, por uma preta e branca,

para entrar.

O clube que foi campeão do

mundo tem uma infra-estrutura

à altura das suas circunstâncias.

Como «Shock room» e equipa de

socorristas própria. Habitualmente,

os guardiães da saúde curam

entorses de tornozelo e quedas.

Excepcionalmente… sim: aconteceu.

Uma vez, deram assistência a

um homem a quem tanta emoção

tinha atacado o coração.

«Todos têm medo de vir à

Bombonera», disse o jogador

Martín Palermo, em jeito de

metáfora. É que a Boca é constituída

por bancadas dispostas

frente a frente. À volta de Caminito,

os 100 metros mais turísticos

de Buenos Aires, cortiços restaurados

for export assemelham-se

aos autênticos, que resistem

como podem à ameaça de desmoronamento.

A velha ponte de

ferro une a Capital Federal, o

distrito mais rico, com a província

de Buenos Aires, uma das

mais pobres. O clube brilha com

murais de artistas famosos enquanto,

em frente, pode ver-se

outro mural estampado com

fuligem. Por isso, nos dias de

semana, a realidade do bairro,

declarado, há anos, em emergência

habitacional, suspende-se

e emula dentro da Bombonera:

nas aulas de alfabetização para

adultos, de apoio escolar para

meninos e meninas, de inglês,

de guitarra, de fotografia, de

xadrez. Mundos paralelos convivem

no Boca e gritam, atraem-se,

repelem-se. Mas nem sempre.

Sempre, excepto aos domingos.


Mundos paralelos convivem no Boca

e gritam, atraem-se, repelem-se.

Mas nem sempre.

Sempre, excepto aos domingos.


La Boca. Fotografia de João Ventura

ESTÁDIO DE SÍTIO 114 115

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007


Mar absoluto

António Ramos Rosa

Fotografia de João Mariano

A MARESIA DO MUNDO 116 117

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Que força admirável nos move e nos comove

de puro instinto e de redonda força

tão suave na sua descida de desejo

de que nascente veio e sem história é o mar absoluto

oh gravitação de delícia oh afluência marinha

de vogais deliciosas de lascivos sorrisos

e de melodias de uma só oferenda

oh suave maravilha de que divino vigor

oh mar sem máscaras de tantas bolhas suaves

oh mar sequioso como um rei ébrio

oh mar tão lento e tão lentamente imperador


Mário Cesariny

Duarte Belo

RESIDÊNCIAS NA TERRA 118 119

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

O objectivo era fotografar o universo criado por Mário Cesariny, e por si

habitado, em Lisboa. Num lugar confinado, que pouco excedia um quarto

pequeno, cabiam o espaço e o tempo infinitos. Por todo o lado existiam

objectos que se abriam a uma pluridimensionalidade, que nos transportavam.

Eram como janelas para espaços maiores e mais vastos. Retrato de uma vida

e face de um homem.

Fotografias de Duarte Belo de um trabalho encomendado por João Pinharanda para a Fundação EDP


RESIDÊNCIAS NA TERRA 120

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RESIDÊNCIAS NA TERRA 122

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N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Pertença e contradição

Lídia Jorge

OUTRAS INQUIRIÇÕES 124 125

Terão os escritores um lugar de pertença? Poderão eles,

simultaneamente, pertencer ao mundo, mas também a uma terra,

a um lugar? Lídia Jorge transporta a herança de um lugar

que olha o Sul a partir de Sagres. Mas transporta-se também

na literatura onde se funde o segredo do mundo que se derrama

nas páginas da sua escrita.Talvez, por isso, não haja aí

qualquer contradição, antes uma dupla pertença.


1.

Discorrer sobre a noção de pertença, como

sobre a noção de cisma, traição ou singularidade,

significa invocar um estado de lucidez

e exercitar uma capacidade de raciocínio demonstrativo

que, em geral, estão ausentes no

processo que transforma o sujeito num escritor

de ficção. No que me diz respeito, a simples

invocação do tema transporta-me directamente

até aos lugares ambíguos da Literatura, e a ideia

de partilha da pessoa entre si e si mesma, como

ser criador e como criatura, expressão de pertença

para a qual os gregos encontraram definitivamente

a palavra ethos, põe-me diante dos

olhos, em vez de raciocínios, a última página

da Ilíada na qual vejo o enterro de Heitor, o

corpo cremado de Heitor, os seus restos mortais

reunidos dentro duma urna de ouro, amortalhado

sob o olhar dos Aqueus, como anúncio

do enterro inevitável de Tróia. É assim, indo

beber demasiado longe, que me chega a noção

de corpo como metáfora da terra donde se vem

e para onde se vai, porém, terra, porção de

poeira nomeada com letra maiúscula, a que

cada um chama de sua pátria. Como noutras

situações se chama família, comunidade, mito

ou língua.

Contudo, a noção de pertença nem sempre

é servida por imagem tão unívoca nem tão

heróica como a representação do domador de

cavalos, em prol da sua pátria, por mais brilhantes

e rumorosas que sejam essas últimas

viagens. Pelo contrário, este é um território

sem caminhos direitos nem simplicidades

fáceis.

Começa pelo facto de que pertencer pressupõe

antes de mais um génesis, o que significa, à

Antes que nos cubra a pedra

por lavrar

antes que o lavrador perca

a partilha

Um monumento exacto há

que erigir

entre a Batalha e a Bastilha.

Luiza Neto Jorge

partida, que fazemos parte de alguma coisa que

estava feita antes de nós e nos proporcionou o

ser antes da existência. Significa sermos do

mundo dos outros, termos nascido da vontade

ou do desejo dos outros e não podermos ser

independentes deles. A pertença ou, pelo menos,

os grandes mitos da pertença começam aí e, por

isso, para falar deles é inevitável percorrermos o

território involuntário da infância.

Aliás, para quem suspeita que a existência

se desenvolve segundo um panorama de «regiões»

sucessivas que se vão dando-à-luz umas

às outras, a ideia de se descortinar nas vivências

iniciais o indício de todas as metáforas da vida

proporciona, no âmbito de questões como as da

pertença, um munus inestimável de efeitos e causas

legíveis – o nosso corpo como pertença de

vários regaços, entre eles o da família. A segurança

da paisagem como alimento para a concepção

da terra, onde está a pátria. O discurso materno

como alimento da fala onde está a língua. A permanência

dos saberes iniciais transitáveis de

geração em geração, como construção dos mitos.

Ou a magia da vida sincrética, indistinção entre

nome e coisa, relato e facto, como mãe inaugural

da literatura. Tudo isso se pode encontrar a

residir na infância, como lugar fundador onde

as raízes mais fundas estão.

Diz o senso comum que a pertença se fundamenta

na configuração dos primeiros abraços,

nas primeiras viagens através da terra, nas

primeiras ligações ao mundo e à multidão, esse

feixe de actos que nos atam aos outros e às coisas

para sempre. Por isso pertencer, independentemente

do lugar que aí se ocupa, significa

ser do outro, de outra coisa, ser do mundo. E a


OUTRAS INQUIRIÇÕES 126 127

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

escrita vive disso, dessa sopa mágica indistinta

que alimenta a Arte como interpretação do

mundo.

Mas o movimento da escrita, o impulso

que revela o escritor não apenas como transmissor

de heranças, antes como criador de

novas paisagens da alma, bem como a energia

que o pressupõe, é na metáfora da adolescência,

essa outra região mental onde se desenha

em todo o indivíduo a traição à sua tribo, que

se deve procurar. Tenho para mim que é na

repulsa pelo conhecido, repulsa contra a família,

contra a terra natal, os mitos locais, a língua

materna, os livros dos seus avós e da sua

nação, que se faz o adolescente que deseja ser

outro, ser diferente, fundar o seu próprio horizonte

e o seu próprio tempo, ser pai de um

novo mundo, ser patriarca duma nova tribo. À

semelhança do escritor, e vice-versa, o adolescente

quer conhecer os limites do universo

para se auto-avaliar como aquele que deseja

transpor o portal do desconhecido. Aliás, à

imagem do adolescente, todo o escritor deseja

inaugurar um olhar inovador sobre a realidade

e a fantasia, e em geral, confessada ou inconfessadamente,

é corrente vislumbrar o futuro

da sua própria obra não como descendente

mas como fundador. Por isso, em relação à

noção de pertença, a Literatura aparece como

um território armadilhado pela contradição de

nela se negar o que não se pode alienar nem se

consegue perder.

2.

É à luz desse duplo movimento de sedução

pelos territórios da pertença e simultânea

repulsa pelos mesmos que melhor entendo

escritores cuja emoção literária me faz com

frequência revisitar os seus livros. É assim, por

exemplo, que entendo Curzio Malaparte, seu

amor e aborrecimento pelo seu país, seu envolvimento

e ódio pela Europa da sua época, a

que chamou com desespero derradeiro de

«Mãe Apodrecida». Ou Faulkner, do outro lado

do Atlântico, ao mesmo tempo tão adverso e

tão no âmago do seu Sul conservador norte-

-americano, contra o seu meio contemporâneo

ainda meio esclavagista, e em simultâneo rente

à autopunição colectiva de que era parte e com

a qual se confundia. Ou o contemporâneo

Milan Kundera, inseparável do mundo checo

de que se fez crítico, fugitivo e ao mesmo

tempo, na força da sua dissensão, exímio

porta-voz da afasia de um povo dominado de

que na altura se auto-excluía. É assim que

entendo Virginia Woolf, em cuja personalidade

as correntes culturais que agitavam o Ocidente

no princípio do século XX encontraram ressonâncias

extraordinárias. Mas a impetuosidade

criadora mais genial dessa figura singular

parece ter-se formado contra outro tipo de

pertenças – as próximas, as domésticas, as

familiares, as nacionais, as do mundo íntimo

contra o qual se forjou a elite de Bloomsbury.

Antes de mais, uma fuga e um corte com a

convenção inglesa. Aliás, em Portugal, o exemplo

mais eloquente desse cisma continua a corporizar-se

na figura de Eça de Queirós, escritor

realista do século XIX que concretizou toda

uma obra de carácter irónico excepcional, em

torno da contradição entre a pertença negada e

a espectacular fuga fingida em relação ao seu

país. Distantes ou próximos, em todos vislumbro

o mesmo movimento de dissidência, o

mesmo desejo do caminhante incorrigível de

ganhar o largo, ainda que carregando às costas,

sem saber, a soleira da porta donde saiu para

não mais voltar. Em relação à questão da pertença,

é no meio desse tipo de contradição que

me vejo.

Contradição que é feita de múltiplos elementos,

tecida de infidelidades várias e dissidências

complexas em torno do que é a questão

central entre ser e não ser, ou ser e não se

conhecer a natureza do que se é.

Como explicar a pertença, ou mesmo descrevê-la,

se pertencer é uma questão central, e

no entanto cada um começa por não saber definir-se

enquanto pertencido? As próprias áreas da

pertença se cruzam e mesclam indefinindo-se

mutuamente. Muitas vezes tenho a ideia de

que, mais do que à sociedade, pertenço às

ideias. Mais do que à família, pertenço aos que

amo. Mais do que à Língua, pertenço à Literatura.

E, mais do que a mim mesma, pertenço à

dúvida. O que significa que eleger campos de

demonstração simplificados implica torná-los

visíveis, mas ao mesmo tempo traí-los e, na

complexidade da sua raiz, perturbá-los. Mas

não resta outro caminho senão o das simples

evidências.


3.

Assim, a minha primeira ideia, antes de

mais, é que acima de tudo pertenço ao

mundo, ao mundo contemporâneo que me é

dado viver, sendo aí, no seu campo de metamorfose

contínua, que encontro o território

adequado para perguntar e responder, suster e

transformar, acções que mais faço coincidir

com a vida.

Ela própria me diz que pertencer significa,

como primeiro dado, fazer parte do

devir imparável que é o presente, que cada

dia amanhece mais adiante e a cada momento

funda uma nova era, como disse Musil, e cuja

delimitação em termos geográficos não

tem significado, ou pelo menos parece não ter.

O meu campo de pertença, existência e observação

coincide com um novo «admirável

mundo novo», dele fazendo parte e dele aproveitando

os benefícios de comunicação e

conhecimento nunca antes imaginados, mas

também contra ele reagindo no seu excesso

de desumanidades várias. O meu sentido de

pertença e sentimento de ser palpável, antes

de tudo, define-se em função dos obstáculos à

utopia para que aponta o progresso do

tempo, como são os objectos inúteis, os

objectos de fogo, os detritos, os efluentes ou

a imparável pavimentação da terra, sabendo

que lhes pertenço, mas que os combato como

a castelos inimigos inexpugnáveis e ocupo

grande parte dos meus dias em contenda com

isso. Julgo mesmo que, em parte, escrevo

sobre a ansiedade por uma espécie de harmonia

imaginada e integro esses elementos

como partes de um território de incursão e

contenda, perante o mundo que se constrói a

uma velocidade incontrolável e com uma

opacidade ameaçadora. Uma espécie de pertença

contenciosa, gerida sob a iminência do

futuro, em torno duma globalidade genérica

que contém homens lá dentro. Homens que

não sei se vão ser livres. Então surge-me a

ideia de que o território primeiro a que pertenço

é o dos homens, na abstracção do conceito

maiúsculo de Humanidade e na generalidade

do Tempo.

Mas isso não é verdade, ou pelo menos é

apenas uma parte da verdade, no que diz respeito

à profunda pertença.

4.

Quando ocorre ler o que escrevo, percebo

até que ponto, de mistura com os elementos

duma utopia dirigida ao futuro, de carácter

pretensamente universal, transporto comigo o

lastro dum passado histórico determinado e a

raiz duma nação concreta. A própria avaliação

que faço do presente e do futuro não está isenta

dessa informação à qual, de forma involuntária,

pertenço. A escrita, pelos actos involuntários

que envolve, pelos gestos apelativos que

não acautela, revela faces ocultas e indistintas

de que nos julgamos destituídos. Na sequência

da primeira imagem ocorrida, eu diria que,

através dela, o ethos, ou os rostos dos Heitores

que existem amortalhados, desfigurados, ou

mesmo invertidos, dentro de cada um, falam

por si sem auxílio de qualquer voluntariosa

pertença. Ao lado de gestos displicentes ou até

de desprezo propositado contra a nação, sem

querermos,Tróias, na iminência de desaparecerem

sob várias camadas de areia, reluzem dentro

da nossa cabeça, na sua importância de

cidadelas mentais. A escrita revela isso, como se

não pudesse deixar de ser um espelho de faces

que não conhecemos ou que, existindo, não

gostamos de desvendar. Só assim entendo que,

de mistura com o confronto que mantenho

com o presente enquanto sua parte, me encontre

envolvida com os mitos profundos que

governam o imaginário dos portugueses e justaponha

o enigma do tempo que passa ao enigma

que empurra a configuração particular do

meu país.

Percebo, por exemplo, que transporto

desde a infância a notícia duma espécie de

proeza acontecida no dealbar do século XVI, de

que os portugueses foram autores principais

indiscutíveis. Concretamente, transporto um

sentimento próximo da estupefacção, pelo

facto de um pequeno país, na altura com pouco

mais de um milhão de habitantes, ter sido

capaz de entregar à Europa dois continentes até

então desconhecidos e ter aberto por mar caminhos

alternativos para se atingir os outros dois.

Em suma, ter entregue a Terra redonda ao

Mundo tal como ficou para sempre e com tudo

o que se lhe seguiu. Embora rente aos mitos de

grandeza também estejam as perplexidades e os

mitos que lhe são opostos. Dificilmente consi-


OUTRAS INQUIRIÇÕES 128

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

129

go ultrapassar imagens controversas desse tempo

e sempre imagino, quando as nomeio, figuras

como as de António Faria assaltando e pilhando

barbaramente, segundo as páginas da Peregrinação,

ou como as do seu vice-rei,Afonso de Albuquerque,

conhecido pelos orientais como o

«leão dos roubos do mar».Vejo, com a ajuda de

Pessoa, «dedos decepados sobre amuradas» de

barcos portugueses, imagens de crueldade infinita

desencadeadas à sombra da bandeira de

Cristo, abençoadas pela mitologia da época

como uma luta limpa em favor da Fé e da fraternidade

no céu, matéria formidável para a

interminável continuação da «História Universal

da Infâmia». Lados tenebrosos sobre os

quais se estava a construir então uma futura

modernidade saída em simultâneo da coragem

e do abominável. De qualquer modo, mesmo

quando só para visitar os seus lados escuros e

os desdizer, vou lá, vou aos mitos do passado

do meu país, como se eles concorressem de

longe para a compreensão deste presente inapreensível

onde me movo e contra o qual disputo,

porque lhe pertenço.

5.

Então fico a pensar que o enigma dum

tempo e duma nação se assemelha também ao

enigma pessoal como partes infinitamente assimétricas

mas da mesma espécie, e julgo que

afinal, mais do que à questão do território e da

História, pertenço ao enigma da natureza,

sobretudo a comummente designada por natureza

humana.

De facto, interessa-me a pessoa, mais do

que tudo, pertenço ao dilema da pessoa, ao território

da sua intimidade, ocupo-me da sua

composição, suspeitando que a divisão entre

corpo e espírito é uma complexa equação sem

resolução possível. E talvez seja esse o meu território

de incursão e confronto, logo de existência

e de pertença, que mais privilegio. A pessoa

como contra-destino e destino. Nesse

domínio, há muito que me encosto aos olhos

alucinados de Emily Dickinson, proferindo

com a ajuda dos seus lábios vivos palavras de

sedição – «Poeira quieta, tu que foste damas e

cavalheiros» (Cette paisible poussière fut messieurs et

dames). Digo em voz alta. Eu mesma fico quieta

e muda, à espera que a poeira se mova e se

revele. Não revela. As próprias palavras na surpresa

do seu encontro são a revelação. Não há

outra. Então socorro-me dos escatológicos,

aqueles que, desesperados pela ausência de um

nome justo para o habitante do corpo, invectivam

o corpo, o anatomizam e o descrevem

como órfão de uma paternidade inominável, e

o vêem ligado à terra e ao estrume como a

ficha se liga à tomada. O biodegradável corpo

exposto, na expectativa de nomeação, à espera

de um princípio que o salve de ser nada. Ou

penso, com a ajuda do austríaco Ernest Jandl, as

suas próprias palavras – «la machine à merde est pour

l’essentiel en toi/ miracle de la création, merveille chancelante/

tu n’es ni son ingénieur ni son inventeur/ mais son

propriétaire, gardien et profiteur». Pronuncio assim

mesmo essas exactas palavras de abjecção, porque

elas traduzem o sentimento dos que se sentem

sem-terra de tudo ser só terra, se sentem sem-

-corpo, de tudo ser só corpo, a ligação cortada

entre o céu e a matéria. Cortada, como um estado

decepado, um trauma. Eu própria acho que

nunca escrevi nenhuma página que não tivesse

essa inquietação implícita, mesmo quando não

expressa. Mais do que a um lugar ou a uma viagem,

pertenço à região desse ferimento e à

inquietação que o sustenta.

6.

Só que, de novo, atrás do homem está a

História, mesmo quando reduzido ao papel

fantasioso de personagem comum. Na verdade,

mesmo quando julgo o contrário, descubro

que jamais escrevi apenas sobre a fotografia da

mãe antiga colocada sobre a aba da mesa

moderna. Sem o desejar, o mundo donde a mãe

e a mesa procedem arrastam rios de tempo significativo

e lugares habitados por gente histórica,

fazendo confluir atrás de si todos os outros

elementos de pertença. Em ficção, a espera de

um laço salvador que una as metades do corpo,

com a outra parte que o nomeie, toma a forma

de personagens comuns que devem viver só por

si e, em simultâneo, entroncam no destino de

personagens herdadas de há séculos, por estranho

que pareça. Talvez porque dos mitos – aos

quais de novo voltamos – sobejem partes

móveis que caminham activas ao encontro do


presente, desde que o presente ainda os continue

a entender como traumas e coincidam consigo.

É o caso do sebastianismo, entre nós, por

exemplo.

Trata-se da história dum jovem rei lunático,

sem filhos, que desapareceu em luta contra

cinco reis mouros, nos areias do Norte de África,

no final do século XVI, e donde nunca mais

voltou nem vivo nem morto, dando origem a

uma expectativa de regresso salvador que foi

passando de século em século. Figura real

enlouquecida, misto de Quixote e Godot, foi

permanecendo até hoje, no meu país, confundindo-se

com a noção corrente de que o bem e

o bom estão do lado de fora, que tudo o que há

a fazer é deixar a porta aberta para que aquele

que vem possa entrar. O mito é terrível pelo

imobilismo que arrasta. Diria mesmo, aparentemente,

desajustado à realidade actual. No

entanto, como muitos outros, através de algumas

personagens, percebo que eu própria o

transporto, mesmo que deseje fugir do país que

o contém e o renegue por deliberação tomada.

Pois por que razão o não transportaria eu como

os outros, como cada um? O universo duma

população é feito por acaso de números abstractos?

E não é quem escreve uma pessoa

comum? Então por que razão, quando me pergunto

sobre o destino do corpo e a natureza do

seu habitante invisível, hei-de estar a salvo

desse terrível fantasma que habita os cantos do

meu país, alma sem corpo, fantasma no corpo

de gerações e gerações sucessivas de gente que

o perdeu e nunca o encontrou? É vergonha

dizê-lo? – Quando menos me dou conta, percebo

que, esgotado o vocabulário da dúvida, eu

mesma pertenço aos fantasmas.

Mas há mais.

Por exemplo, durante séculos, o corpo geográfico

do império funcionou como uma realidade

descomunal. Desde o século XVI que os

portugueses se gabavam, com a ajuda dos versos

de Camões, de jamais se pôr o Sol nas terras

de Portugal, aquém e além-mar, sendo África,

depois da independência do Brasil, a jóia mais

preciosa da coroa, destino transcendental da

pátria. Mas no final do século XIX, estabelecida

a disputa entre as potências europeias pelos

domínios africanos, Portugal foi vencido pelos

ingleses na contenda da partilha de África.

Ainda hoje o hino nacional português, nascido

na sequência do célebre mapa cor-de-rosa,

mantém os vestígios desse terrível momento de

perturbação. Acaso não se reconhece no refrão

do hino nacional, «Heróis do Mar», a letra primitiva

«Contra os bretões, marchar, marchar...»?

Na altura, uma das formas encontradas

para reagir à perda? Não admira que o ridículo

e a perda sejam comportamentos que passam

para os domínios próprios da Literatura,

mesmo que ela seja, por natureza, muito mais

transfiguração do que retrato.

E setenta anos depois, em relação a esses

mesmos domínios em África, não ficaria envolvido

o país numa Guerra Colonial fora de

horas, tão dolorosa que ameaçava fazer apodrecer

todo o tecido social, e que viria a terminar,

fora de horas também, por uma perda tão grande

que ainda hoje não se consegue gerir com

decência, nem do lado de cá nem do lado de lá?

Pois talvez seja difícil a qualquer escritor da

minha geração falar do corpo e do fluido que o

anima, sem que a referência ao esfacelamento

inglório de contingentes inteiros ocupe um

lugar de destaque. É mesmo capaz de ser difícil,

para uma pessoa que fez a guerra de África ou a

acompanhou, e teve o seu primeiro embate

com a morte desse modo e nessas paragens, de

não perguntar pelo sentido do corpo, vendo

diante de si gente esmigalhada, entregando o

corpo à terra no meio do mato, por uma causa

de nada. E quem diz o sentido do corpo diz o

sentido do dever e do desejo, e do amor, talvez

o da morte em primeiro lugar. A prova de que

uma parcela de nós mergulha no terreno colectivo

de que faz parte, sobretudo se parte das

narrativas que o constroem ainda não estão

fechadas.

7.

No caso do tempo presente, porém, todas

as narrativas se encontram abertas, dispostas à

transfiguração, sobretudo quando o presente

que testemunhamos e vivemos se afigura

enquanto problema. Há momentos e países que

pela sua situação de aceleração histórica, ou

por confluência de factos, se encontram mais

disponíveis à transfiguração do que outros. No

caso português, a própria natureza das mudanças

ocorridas durante os últimos vinte cinco

anos torna inevitável, ou pelo menos propicia


OUTRAS INQUIRIÇÕES 130

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

131

fortemente, a criação do outro relato, o ficcional,

aquele que Carlos Fuentes designa por

«criação de uma segunda história que cega e

diminui a dos historiadores de arquivo», baseada

apenas na memória e nos projectos pessoais.

A propósito da Literatura portuguesa recente, é

corrente referir-se essa coincidência.

Mas aí também, como em tudo o mais,

sempre se pertence às conjunturas históricas

por círculos concêntricos, de intensidade diferente

e de vária natureza. Nesse domínio, mais

do que ao meu país de há vinte cinco anos

atrás, pertenço à determinação e ao acontecimento

que lhe mudou o rumo. Pertenço à

matéria palpável da alegria que aconteceu na

sequência duma revolução que pôs termo à

ditadura de meio século que se havia abatido

sobre a sociedade portuguesa desde os longínquos

anos vinte, até aos anos setenta, ditadura

sustentada por elites sem qualquer noção de

partilha e por um povo iletrado e supersticioso

destituído, na sua generalidade, de qualquer

noção de revolta. Pertenço ao dia em que essa

cadeia de equilíbrio recíproco se quebrou, em

que fui testemunha de como é possível inverter

a marcha do que parece inevitável, pela

força da coragem pessoal de um grupo. Pertenço

a esse momento como a um ponto de

encontro entre a justiça e a inversão do destino,

em forma de gente, milhares de fotografias

a preto e branco, com flores vermelhas. E porque

essa certeza foi adquirida quando a juventude

ainda se assemelhava à adolescência, ela

incorporou-se no sangue, ou no genoma, ou

seja onde for, e transformou-se numa espécie

de segurança que me sustenta o ser. Ou

melhor, esse momento habita comigo como

um ente querido, tem corpo e ocupa espaço e

reivindica gestos, como uma pessoa de família.

Pertenço a esse momento como se pertence a

uma geração, e penso mesmo que a minha

geração, se existe enquanto consciência, está

concentrada em torno desse acontecimento.

Assim como pertenço à sociedade que daí saiu,

a braços com a redefinição dos seus vizinhos,

seus aliados, seus novos valores e duros percursos,

suas metas demasiado altas para serem

atingidas demasiado rápido. Uma sociedade na

generalidade constituída por gente muito pobre

que rapidamente deseja ser muito rica. Mais do

que ser democrática ou estimar os valores da

partilha, do saber e do discorrer livre. Porque

uma parte dela, muito mais do que era suposto

imaginar, continua a desejar prolongar

estruturas mentais que faziam o mundo antigo.

Nesse domínio, pertenço-lhe por repulsa e por

mágoa. Pertenço-lhe por inevitabilidade de lhe

pertencer. Por isso, mais do que à sociedade

dentro da qual sou número e tenho um nome

civil, pertenço ao mundo dos meios que a

reproduzem por palavras, a lêem em termos

críticos ou mais propriamente a alteram e a

transfiguram. Pertenço-lhe com a mesma contradição

com que pertenço ao tempo contemporâneo.

8.

Pertenças várias e inúmeras que funcionam

como laços mas também como destinos e condenações,

ou como matérias-primas, no caso

de se encontrar o veículo que as transporta para

o lugar do não-destino. Por exemplo, a Literatura,

que em si mesma é um espaço de corte e

liberdade. E que dizer sobre isso?

Que pertenço à Literatura, campo das palavras

libertas do real, e dentro dela à ficção, o

terreno da transfiguração dos factos em actos

simulados. Na verdade, a sua natureza e função

consistem em escolher, inverter, desfigurar o

que está dentro da matéria das pertenças, de

modo a produzir-se uma nova realidade verdadeira,

que não se opõe à realidade falsa, e nesse

salto de qualidade e espécie consiste a criação,

isto é, o acrescento de alguma coisa ao mundo

que antes lá não estava. Naturalmente que se

pertence à Literatura e à ficção sem a noção

dessa importância. Começa-se por se pertencer

porque sim, porque acontece, porque se tem a

ideia, como leitor, de que se pode sonhar.

Depois é que se entende que se pertence a uma

matéria que se desprende da prisão do real,

para dizer que ele não é suficiente, impondo-

-lhe uma nova lógica, ou tornando-o visível nas

suas partes vivas, lá onde havia um limbo amalgamado.

E na participação dessa acção de liberdade

consiste nascer o criador que é o leitor e é

o escritor, diferentes, mas irmãos. Nascer e

crescer no espaço de liberdade que permite

abrir uma nova possibilidade entre as outras e,

desse modo, à reprodução de qualquer dilúvio


terrível que esteja em nossa mente, sempre se

pode juntar uma barca. Pelo menos, se outra

não for, que seja a própria barca das palavras, a

que melhor une um a outro.

Ou, por outras palavras, a Literatura, e dentro

dela a ficção, permite que a corrente falada

em todas as direcções como uma matéria optativa

permanente transforme o outro num igual a

mim mesmo e se crie um corpo de afinidades

consentidas, responsabilidades cruzadas e culpas

divididas, já que procura atingir, através de

cada personagem, simulacro de gente, o coração

profundo do homem, esse local onde as

diferenças se esbatem em torno daquilo que faz

cada um dos implicados pertencer a um todo.

Determinada noção profunda de comunidade

só se aprende na Literatura. Nesse sentido, para

alguns leitores da minha geração, o romance Por

Quem os Sinos Dobram acabou por ser muito mais

importante pela epígrafe que permitiu o título

do que pela longa narrativa em si mesma.

Hemingway apenas copiou, como portal da

primeira página desse livro admirável, a invectiva

de John Donne – «Nenhum homem é uma

Ilha isolada; cada homem é uma partícula do

Continente, uma parte da Terra; se um Torrão é

arrastado para o Mar, a Europa fica diminuída,

como se fosse um Promontório, como se fosse

a Casa dos teus Amigos ou a Tua Própria; a

Morte de qualquer homem diminui-me, porque

sou parte do Género Humano. E por isso

não perguntes por quem os sinos dobram; eles

dobram por Ti».

Pertenço à Literatura e dentro dela à ficção,

por esse serviço que presta à totalidade, em

torno dos desejos que nos são comuns, traduzidos

em imaginação pela palavra liberta. Em

Literatura, não há imobilização nem morte de

Heitor. O monumento de pedra que não se

ergueu entre a Batalha e a Bastilha está sempre

a erguer-se. Um e outro são válidos sem a fronteira

das palavras das línguas, agarradas à circunstância

geográfica. Aliás, na contradição

entre pertencermos e libertarmo-nos daquilo

que pertence à Língua, que sempre escreve o

modo do nosso pensamento antes de nós próprios

podermos escrever, e connosco se confunde

como parte do nosso corpo, a língua

materna é uma liberdade e ao mesmo tempo

uma condição insuficiente.

Neste campo, seria mesmo uma falta não

dizer que pertenço à Língua portuguesa. É com

ela que estabeleço a minha luta e o meu confronto

e os meus actos mais livres que são os de

dizer. A exaltação das suas virtudes e possibilidades

não pode ser regateada. Existem monumentos

infindáveis de elogio à minha língua e

concordo com todos eles. Mas por vezes dou

por mim à procura de nuances que não apresenta,

modos que impõe, liberdades que me tira ao

lados das liberdades que dá. Talvez, como em

todos os outros idiomas, faltem nela palavras

para traduzir sentimentos complexos onde os

vocabulários são simples. Faltam chaves. Faltam,

por exemplo, termos para traduzir a voz

dos seres que se movem e nos imitam nos actos

do sono e do amor, mas não falam nenhuma

linguagem que se entenda. Faltam as palavras

para traduzir o que diríamos se fôssemos seres

inanimados que não nos dizem nada e nos

quais julgamos existir uma natureza significativa.

Uma vez que somos pouco e o mundo da

expressão é vasto, por que razão as línguas não

são tão vastas, nem tão dúcteis, nem tão universais

quanto sonhamos para que a Literatura seja

um campo sem barreiras? De facto, a vocação

da Literatura é fundir-se com o próprio segredo

do mundo que permanentemente questiona,

como se antes de nós tivesse havido um acto

interrompido e as palavras acima das fronteiras

das línguas ainda pudessem ligar o mundo ao

seu sentido. Estar aí, saber que não posso sair

desse dilema nem o posso resolver, é a minha

pertença.


A MUDANÇA DA TERRA

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

132 133

O retratista de corações

Luísa Monteiro

Praia da Rocha, anos 50. Arquivo Museu Municipal de Portimão


Pareciam sempre velhos, sempre branca

a barba rala, ramela ao canto do olho

cansado de tanto azul, sentados nas areias.

Finas. Sul.

Permanentes nos seus rolos de espuma,

as ondas cantavam nas madrugadas

molhadas a saudade da ternura das mulheres

– e elas secando, secando na enxerga

do desejo: como medusas lançadas ao sol.

Tal gaivota alada, surgia então o acenar

de uma grossa e calejada mão de remo e

era a riso de feno que cheirava o mar; bafo

molhado de pão. Chegavam sem amarras,

embriagados de mar, oscilando, lembrando

que não devia tardar a manhã para

sonhar. (Amar).

Depois, o arrieiro enchia as duas

canastras de empreita, feitas de paciência e

paixão num serão de sono e calafrios femininos.

Enchiam-se de sardinhas, carapaus,

safios, cheias ficavam como seios redondos

prontos a amamentar, prontos a parir,

era hora de partir.

Como se de uma loucura se tratasse, o

velho arrieiro enlaçava com um baraço as

duas taças de vida, quais laços de cetim

em roda de cinturas virgens, entrançava,

cobiçava a forma fresca daquele festim

(que embaraço pensar em coisa alguma

que não fosse fincar os pés descalços na

areia fina).

Cada canastra na margem da vara,

varada a testa de suor, toca a levantar, elevar

aos magros ombros e carregar, toca a

andar, do mar à lota, nunca afrouxar até

arrear, gritar, propagandear, o preço baixar

até que alguém o braço levante, «chui!»,

era a forma de assinalar negócio tão marinheiro,

incerto, matreiro... (Quanto

menos malandro, mais o pão é traiçoeiro).

Fazia-se então manhã ante os olhos,

fria ante os dedos dos pés. A praia enchia-

-se dos primeiros banhistas às riscas, risonhos,

redondos, rosados, rolantes. E logo

lá em cima no passeio, imponente, mágico

(nada vale a pena se não for mágico), surgia

o retratista, com o cavalo de madeira

ao ombro (tentador) e uma senhora pernalta

de saia preta na mão (assustadora).

Todos sabiam o quanto ele mentia.

Dizia-se dono do tempo. Entre a taberna e

o barbeiro, o cigarro e o pano preto, o

retratista prometia um passarinho em

troca de 25 tostões. E a praia ficava deserta

de crianças. Todas queriam chegar ao

cavalo do tamanho de trazer pelo primeiro

sono.

E quando as mandava ficarem quietas,

de laços brancos a penderem-lhe da testa

sombria, parecia que o cavalo de madeira

de cor esbatida pelo sol ganhava vida. (E se

o cavalo agora voasse, se galopasse pelas

ruas? Não haveria retrato com tons de

espuma, madrugada e luas).

O retratista mandava no tempo, até o

mandava parar – para poder espreitar pelo

grande e negro olho mágico os corações

nervosos das crianças.

Conta-se a história que houve um

arrieiro velho que aguardou toda a manhã

pelo passarinho, imaginando-o a esvoaçar

a partir dos olhos azuis dos meninos que

montavam o cavalinho de madeira pintado

de branco, com uma sela amarela, ou

então da saia preta em que o retratista

mergulhava a cabeça, ou talvez da sua boca

vermelha.

Mas, à medida que as caixas metálicas

de retratos instantâneos foram crescendo

nas esquinas acolhedoras de maresia, o

cavalinho foi apodrecendo na praia; há

algas ainda a fazerem das farpas jangadas

de saudade, porque já não há retratos com

as cores da alma e laços brancos enfunados

sobre a testa. Nem canastras, nem canastras...

Os retratos de agora já não têm a aragem

vinda do bater de asas do passarinho,

aquele que renascia sempre que uma

criança se sentava no dorso do cavalinho

de sela amarela, com brisa de mar nos

rolos de cabelo.

Era assim há meio século. Agora, o

retratista encontra-se escondido atrás da

lua, com o manto da noite inteira sobre a

cabeça; está a fotografar as ondas azuis, as

que se levantam mais alto por causa da

bater d’asas da alma do passarinho... e

cada retrato, ainda pelo preço de 25 tostões.

Sabe a modernidade que o velho

arrieiro trocou o coração de mar por um

retrato. Sem cavalo de madeira, nem sela

amarela. E, talvez por timidez ou incerteza,

ocultou o olhar com óculos de sol

importados.


A COMPANHIA DOS LIVROS 134 135

N.5 OUTONO INVERNO 2006 2007

Gastão Cruz A moeda do tempo ASSÍRIO & ALVIM

O poeta derrama o corpo e as emoções na praia do poema, onde se espraiam as coisas contemporâneas e se escuta

como num búzio o som do mundo que ecoa nos versos que escreve e na recordação dos versos de outros poetas.

A infância, a memória, os amigos, a perda, a eternidade da morte. A experiência do tempo como experiência do

mundo e da linguagem sujeita a um tratamento reflexivo que reconstrói o passado no presente. O mar, os barcos, as

aves, as árvores como fulgurações de instantes do passado irrompendo no presente, coisas contemporâneas de uma

vida/ que excede a minha vida e se confrontam com as ameaças de um mundo que um dia irá apagar [os versos]

e a incerta esperança que o próprio mundo original seja a casa dos escritos [e] dos poetas que emudecem. Um livro

de ondulações verbais onde se renovam as sonoridades do correr da água/ anterior à água das palavras.

Joaquim Mestre O perfumista OFICINA DO LIVRO

Romance atravessado por uma espécie de sopro de realismo mágico alentejano, cuja acção decorre, no primeiro quartel

do século XX, num território particularmente pobre das margens do Guadiana, conta-nos a história de Manuel Gasparim,

um perfumista apaixonado que cria aromas, faz misturas, inventa subtis olores que levam as mulheres à perdição, chegando

mesmo, nas últimas páginas, a soltar-se um clima de loucura inebriante quando o intenso cheiro a benjoim percorre

a vila inteira perante a perplexidade de todos. É um Alentejo profundo, atravessado pelas várias dimensões da vida,

aquele que se derrama na planície e no silêncio deste livro, que retoma a melhor tradição dos escritores alentejanos, de

que Manuel da Fonseca é o expoente máximo.

Teolinda Gersão A mulher que prendeu a chuva SUDOESTE

Uma nova editora, a Sudoeste [Sextante]. Um editor com a paixão dos livros, João Rodrigues. Um livro de contos de

Teolinda Gersão. Pequenas histórias que são como mundos interiores, mundos de figuras erráticas, deslizantes, de

mulheres cuja interioridade enigmática a autora persegue através de geografias distintas – Nova Iorque, Berlim,

Florença, Lisboa – atravessadas pela morte e pela solidão. Um resto de memória atravessando a cortina do tempo para,

numa fulguração do passado no presente, a realidade nos chegar como uma revelação, uma epifania profana que se

abre à experiência quotidiana transfigurada. Gente em ruínas. Cidades a ruírem. Lisboa, como uma premonição.

Lídia Jorge Combateremos a sombra DOM QUIXOTE

Do outro lado da sombra é um país inteiro que se esconde. Um país que se afunda dentro de um autocarro que cai a um

rio. Gente enredada numa teia pantanosa de mesquinhez, de mentira, de toda a espécie de tráficos silenciados. Uma

omertà à portuguesa. Uma teia que não mostra os fios, apenas os nós. Um livro político? Nem tanto. Lídia Jorge prefere-o

como uma ficção com um assomo político, em que Portugal se deita no divã. Psicanálise de um país à procura de uma pele

nova. Um livro escrito num impulso de melancolia, mas também de raiva contra o nosso processo de revisão cíclica de marcar

passo. Assombros: Osvaldo Campos, o meu Dom Quixote de estimação, as três mulheres, Maria London, a paciente magnífica,

Rossiana, Ana Fausto, vidas de papel que se assemelham à vida de pessoas, um consultório de um psicanalista,

um onirismo revelador, um país fantasmal, uma ficção com um assomo político. Um livro para combater a sombra.

Enrique Vila-Matas Doutor Pasavento TEOREMA

Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, é um meta-romance-ensaio onde se respira a mesma ironia shandiana dos

livros anteriores do autor, agora utilizando um estilo mais sóbrio, menos impertinente, mas sempre com uma escrita

culta, lúdica, provocatória quanto baste, que propõe uma desconstrução da figura do autor, concluindo, assim, a sua trilogia

metaliterária (O mal de Montano, Bartlebly & Companhia e Doutor Pasavento). Ao mesmo tempo, trata-se de uma

viagem às regiões inferiores de Robert Walser, que escrevia a lápis para estar mais perto do desaparecimento, do eclipse; de

Emmanuel Bove, que parecia estar sempre à espera que o esquecessem; de Thomas Pynchon, que se esconde em Nova Iorque;

de Kafka, que queria era continuar a existir sem ser incomodado; de Salinger, o escritor que vive em paz, oculto; de W. G.

Sebald, para quem o desaparecimento sempre existiu; de Joseph Roth, que narra a viagem errática de um desaparecido. Uma

poética da extinção.


Nuno Júdice As coisas mais simples DOM QUIXOTE

Na casa do poeta cresce o deslumbramento diante de coisas tão simples como os figos ou a mulher da fotografia – o quotidiano

irrompendo furtivamente no poema para logo ser desfocado, transfigurado, através da alegoria, do devaneio. O

tronco da figueira/ (é agora um) corpo de mulher nua; (…) e o figo que o poeta tem na mão (fá-lo) sentir os seus seios macios;

há também a intertextualidade que o poeta convoca desde a sua biblioteca numa busca da essencialidade poética – D. H.

Lawrence, Shelley, os poetas gregos –. Há um trabalho sobre a história; há navegações errantes, partidas e chegadas,

regressos, há um conceito de paisagem e uma imagem da cidade por entre as ruas cheias de gente; na casa da Mexilhoeira

Grande, Nuno Júdice escreve um livro à luz do apocalipse,/ as primeiras linhas do ocaso: descrições, narrações, personagens,

memórias, odes, uma carta. O livro chama-se As Coisas Mais Simples e foi escrito com os cinco sentidos mais um,

aquele que só os verdadeiros poetas têm.

Urbano Tavares Rodrigues Ao contrário das ondas DOM QUIXOTE

A ele se deve a recuperação de Manuel Teixeira-Gomes. A ele se deve, também, uma obra ficcional de enorme fôlego

com mais de 40 títulos publicados desde 1952, indispensável para compreender o universo social do Portugal contemporâneo.

Em Ao Contrário das Ondas tudo se passa numa Lisboa, entre a Lapa e as Avenidas Novas, num quadro mental

que convoca referências culturais de uma burguesia de esquerda aí retratada com a agilidade e o desembaraço da

escrita que se conhece em Urbano Tavares Rodrigues. Um olhar lúcido sobre as representações urbanas do país, com

um misto de espanto e desencantamento face ao paradigma político actual. Uma crónica realista do tempo que passa.


INSTITUTO DE CULTURA IBERO-ATLÂNTICA

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1995-2007

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PROCEDIMENTOS DA ARBITRAGEM CIENTÍFICA

Ponto 1.

Da selecção de autores de textos e de imagens para publicação na Revista Atlântica

1.1. Os textos e as imagens podem ser solicitados a autores pelo Conselho Editorial ou pelo Director da Revista, de acordo com

o seu mérito científico, artístico, literário ou cultural.

1.2. As propostas formuladas pelos autores serão sujeitas a apreciação pelo Conselho Editorial, mediante os critérios definidos.

Ponto 2.

Dos critérios de selecção dos textos e imagens

2.1. Os textos de natureza científica apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios:

2.1.1. Rigor científico, aparato crítico.

2.1.2. Clareza do discurso e correcção linguística.

2.1.3. Dimensão adequada a cada rubrica ou secção.

2.2. Os textos de natureza literária apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios:

2.2.1. Estética da linguagem.

2.2.2. Clareza do discurso e correcção linguística.

2.2.3. Coerência com a rubrica ou secção em que se integram.

2.2.4. Dimensão adequada a cada rubrica ou secção.

2.3. Os textos de natureza cultural apresentados ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios:

2.3.1. Actualidade do tema.

2.3.2. Clareza do discurso e correcção linguística.

2.3.3. Coerência com a rubrica ou secção em que se integram.

2.3.4. Dimensão adequada a cada rubrica ou secção.

2.4. As imagens apresentadas ao Conselho Editorial para publicação deverão obedecer aos seguintes critérios:

2.4.1. A iconografia de arquivo deve mencionar adequadamente a fonte, de acordo com a norma.

2.4.2. As fotografias, os desenhos ou as gravuras originais devem adequar-se esteticamente à concepção artística global

da Revista, podendo ser reduzidas, ampliadas ou fragmentadas de forma a integrar-se nos textos que pretendem ilustrar.

2.4.3. Todas as imagens deverão integrar-se com coerência nos conteúdos da Revista.

2.5. Das antologias ou excertos de obras já publicadas:

2.5.1. Todos os textos ou imagens já publicados, na totalidade ou em parte, só poderão ser reproduzidos com autorização

escrita dos autores, editores ou arquivos, conforme o caso.

2.6. Dos direitos de autor:

2.6.1. Todos os textos ou imagens são da responsabilidade dos autores, em respeito absoluto pela apreciação vinculativa

do Conselho Editorial.

2.6.2. Todos os textos ou imagens terão a menção da autoria.

2.6.3. Os textos traduzidos serão sempre sujeitos a concordância dos autores.

2.6.4. Todos os textos ou imagens publicados são propriedade da Revista Atlântica por cedência de direitos dos respectivos

autores.

2.7. Da apreciação do Conselho Editorial:

2.7.1. Eventuais propostas de alteração, correcção ou reformulação dos textos formuladas pelo Conselho Editorial terão de

ser aceites pelos autores, sob pena de não publicação.


PUBLICAÇÃO SEMESTRAL

EDIÇÃO

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(Associação Cultural, Pessoa

Colectiva de Utilidade Pública,

DR n.º 8, II Série, 11 de Janeiro

de 2006)

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REDACÇÃO

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ASSISTENTE EDITORIAL

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- Portugal)

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Santander - Colômbia)

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- Brasil)

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de la República, Montevideu

- Uruguai)

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Porres, Lima - Peru)

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Revista atlântica de cultura ibero-americana | Número 05 Outono Inverno 2006 2007

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