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A FUNDAÇÃO DA SOBES E A REGULAMENTAÇÃO<br />
DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA NO BRASIL<br />
Uma visão histórica das origens da segurança do trabalho<br />
. VOLUME I .
Diretoria SOBES 2010/2012<br />
Marlise de Matosinhos Vasconcellos | Presidenta<br />
harold Stoessel Sadalla | Vice-Presidente<br />
Maria christina Felix | 1ª Secretária<br />
Silvio costa Santos | 2º Secretário<br />
Fernando Paulo ribeiro Mostardeiro | Tesoureiro<br />
Conselho Diretor<br />
Membros Efetivos<br />
carlos Soares Queiroz<br />
gracio Paulo Pessoa Serra<br />
José Francisco a. de Miranda ramalho<br />
Maria cristina dias dos reis<br />
Mário hamilton Vilela<br />
Santelmo Xavier F°<br />
Ficha TÉcnica<br />
Sociedade BraSileira de engenharia de Segurança<br />
Membros Suplentes<br />
antônio rodrigues Junior<br />
guilherme emanuel costa laux<br />
José luiz de Souza<br />
Paulo roberto Sad da Silva<br />
Mauro Torres Ferreira gomes<br />
ricardo alberto de Jesus<br />
Conselho Consultivo<br />
andré lopes netto<br />
cesar Vianna Moreira<br />
Josevan ursine Fudoli<br />
reynaldo rocha Barros<br />
Sérgio costa dacorso<br />
coordenação do Projeto: carmen lucia evangelho lopes<br />
organização documental e Pesquisa: carmen lucia evangelho lopes<br />
Texto: carmen lucia evangelho lopes<br />
revisão do texto: aurea donizete alves dos Santos<br />
apoio institucional: daniela Bernardo de Figueiredo | Priscila Bernardo de Figueiredo | Selma regina de Moraes<br />
capa e Projeto gráfico: Mariana rodrigues<br />
evangelho lopes, carmen lucia<br />
Ficha caTalográFica<br />
a Fundação da SoBeS e a regulamentação da engenharia de Segurança no Brasil: uma visão<br />
histórica das origens da segurança do trabalho/ carmen lucia evangelho lopes - rio de Janeiro,<br />
SoBeS, 2012.<br />
177 páginas, 21x21cm<br />
1. SoBeS – Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança – história. 2. história.<br />
3. Tecnologia, ciências aplicadas. 4. Segurança do Trabalho.<br />
i. carmen lucia evangelho lopes<br />
iSBn 978-85-65536-00-4
SOBES<br />
Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança<br />
A FUNDAÇÃO DA SOBES E A REGULAMENTAÇÃO<br />
DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA NO BRASIL<br />
Uma visão histórica das origens da segurança do trabalho<br />
. VOLUME I .<br />
1ª edição<br />
rio de Janeiro<br />
2012
Índice<br />
Apresentação 9<br />
Capítulo I | Como foi a História 17<br />
I.1. A Pré-História e a Antiguidade 19<br />
I.2. A Idade Média 27<br />
I.3. A Revolução Industrial 37<br />
Capítulo II | No Brasil 59<br />
II.1. Brasil República 73<br />
II.2. A Revolução de 30 89<br />
II.3. O Estado Novo 95<br />
II.4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 107<br />
II.5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 127<br />
II.6. A Fundação da SOBES 135<br />
II.7. O Patrono da Engenharia de Segurança: Eng. Antonio<br />
Carlos Barbosa Teixeira<br />
Bibliografia e Legislação 167<br />
161
8<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade
APRESENTAÇãO Marlise de Matosinhos Vasconcellos<br />
a prevenção de acidentes no trabalho vem sendo negligenciada, ao longo dos séculos até os dias<br />
atuais. o primeiro capítulo deste livro faz um resgate das condições de trabalho, nas diversas fases<br />
da história e da legislação trabalhista até o início do século XiX. no primeiro capítulo, verificamos<br />
que muitos dos ambientes de trabalho dos séculos passados são análogos aos que alguns<br />
trabalhadores estão exercendo suas atividades, no momento atual. ainda encontramos, no século<br />
XXi, trabalhadores explorados, exercendo suas atividades em condições subumanas, das formas<br />
mais degradantes possíveis, como trabalho infantil e escravo, apesar dos avanços tecnológicos.<br />
o crescente aumento nos acidentes, adoecimento e mortes no trabalho, no momento atual, nos<br />
remete aos anos 70, onde a forma de crescimento desordenado no Brasil trouxe, também, aumento<br />
dos acidentes, doenças e morte no trabalho, época esta que a Sociedade Brasileira de engenharia<br />
de Segurança - SoBeS foi criada, em julho de 1971. no entanto, desde a década de 60, profissionais<br />
interessados na área de segurança já se mobilizaram, e tendo à frente o engº antônio carlos Barbosa<br />
Teixeira, patrono da engenharia de Segurança, no Brasil e na américa latina.<br />
a SoBeS, desde a sua fundação, participou da discussão da futura Portaria 3.227/72 do Ministério<br />
do Trabalho, buscando, sempre, a melhoria das normas relativas à engenharia de Segurança.<br />
a Portaria 3.227 veio obedecer a recomendação 112/1959 da oiT - organização internacional do<br />
Trabalho, da qual o Brasil é signatário. Tornou-se, então, obrigatória a existência de Serviços de<br />
Segurança e Medicina do Trabalho- SeSMT nas empresas, de acordo com o número de empregados<br />
e o grau de risco em que se enquadram. neste ano, faremos 40 anos da obrigatoriedade dos<br />
SeSMT nas empresas.<br />
cabe destacar que a SoBeS participou ativamente na formulação da Portaria 3.214/78 do Ministério<br />
do Trabalho e, posteriormente, a mais importante de todas as contribuições foi a de ter sido o berço<br />
do Projeto de lei apresentado pelo Senador Saturnino Braga e do qual resultou a lei 7.410/85,<br />
que foi regulamentada, em seguida, pelo decreto nº. 92.530, de 9 de abril de 1986, criando<br />
a especialização da engenharia de Segurança, no Sistema conFea/crea.<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 9
10<br />
com o patrocínio do conFea, tanto através do ex-presidente, engº civil Marco Túlio de Melo,<br />
quanto do atual presidente, engº civil José Tadeu da Silva, e do cden - colégio de Presidente das<br />
entidades regionais, através do coordenador, engº eletricista ricardo do nascimento, tornou-se<br />
viável a publicação do livro “a Fundação da Sobes e a regulamentação da engenharia no Brasil” -<br />
Volume i, que contribuirá para o fortalecimento da profissão e com a fiscalização do exercício da<br />
engenharia de Segurança e, com certeza, auxiliará todos os profissionais da área de Segurança do<br />
Trabalho, no desempenho de suas atribuições e na melhoria de condições de trabalho.<br />
Marlise de Matosinhos Vasconcellos<br />
Engª Civil e de Segurança do Trabalho.<br />
Presidenta da Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança - SoBeS<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade
APRESENTAÇãO José Tadeu da Silva<br />
como a mais antiga entidade de profissionais da engenharia de Segurança de nosso País, a<br />
SoBeS teve papel destacado na formulação da lei nº 7.410, de 27/11/1985, que dispõe sobre<br />
a especialização de engenheiros e arquitetos em engenharia de Segurança do Trabalho e a profissão<br />
de Técnico de Segurança do Trabalho.<br />
Vivemos um momento de notório desenvolvimento, em que a engenharia cada vez mais se<br />
engrandece e, dentro deste contexto, devemos ter especial atenção para o aspecto da segurança,<br />
que deve ser prioritário, visando à proteção dos trabalhadores e da sociedade, que usufrui das<br />
obras e produtos que a ela são ofertados e disponibilizados.<br />
devemos intensificar esforços, no que tange à fiscalização do exercício de nossa profissão, no<br />
sentido de que os trabalhos sejam desenvolvidos dentro das normas e especificações exigidas<br />
pela engenharia e de que os responsáveis pelos projetos e suas execuções estejam devidamente<br />
habilitados ao exercício de suas funções e atividades.<br />
hoje, ao editar esta importante obra, a SoBeS novamente ratifica seu compromisso com a área<br />
tecnológica brasileira, em busca de uma engenharia cada vez mais forte e respeitada por nossa<br />
sociedade.<br />
Eng. Civil José Tadeu da Silva<br />
Presidente do conselho Federal de engenharia e agronomia - conFea<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 11
APRESENTAÇãO Marcos Túlio de Melo<br />
resgatar a história das nossas entidades é fundamental para o fortalecimento das nossas<br />
organizações. Por isso, em 2010, iniciamos o projeto de fortalecimento das 28 entidades integrantes<br />
do colégio de entidades nacionais (cden). esse fortalecimento, sem dúvida, passa pelo resgate da<br />
memória de cada uma delas!<br />
Para todos nós do Sistema conFea/crea e Mútua, seja nos estados ou nacionalmente, ter<br />
organizações atuantes, com participação nas discussões de interesse dos profissionais e da<br />
sociedade é primordial para que cumpramos a nossa Missão: “atuar eficiente e eficazmente como<br />
instância superior da verificação, da fiscalização e do aperfeiçoamento do exercício e das atividades<br />
profissionais, orientando seus esforços de agente público para a defesa da cidadania e a promoção<br />
do desenvolvimento sustentável”.<br />
a Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança - SoBeS, com suas lideranças que se mobilizam<br />
desde a década de 60, continua o processo de construção de uma entidade forte e atuante e muito<br />
tem contribuído para a melhoria das condições de trabalho dos brasileiros. uma articulação, em<br />
defesa do bem-estar coletivo, que já rendeu grandes conquistas, como a regulamentação do exercício<br />
profissional do engenheiro de Segurança, através da lei nº 7.410, de 27 de novembro de 1985.<br />
essa conquista, resultado do trabalho de entidades fortes, com capilaridade e poder de articulação,<br />
confirma que devemos sempre aprimorar nossa legislação, fortalecer as nossas profissões,<br />
protegendo os trabalhadores e a sociedade brasileira.<br />
outro exemplo importante para os profissionais do nosso Sistema é a resolução nº 1.010/2005, que<br />
permitiu a <strong>aqui</strong>sição de novas atribuições através dos cursos que os profissionais vão realizando.<br />
Para a engenharia de Segurança do Trabalho, esta resolução é relevante, pelo disciplinamento<br />
especifico da área, que tem como principal característica ser transversal a todas as modalidades,<br />
pela atribuição ocorrer em nível de pós-graduação.<br />
Parabenizo a SoBeS pelo livro “a Fundação da SoBeS e a regulamentação da engenharia<br />
de Segurança – volume i”. uma publicação que vem fortalecer o papel das várias instâncias<br />
organizacionais do nosso Sistema.<br />
Marcos Túlio de Melo<br />
Presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia - ConFEA<br />
gestão 2006 - 2008 e 2009 - 2011
MEMÓRIA DA SOBES<br />
o termo memória nos remete a algumas análises que merecem destaque.<br />
a palavra memória “solta” pode levar-nos a ter a ideia de pensamento e depois de esquecimento<br />
(“o mal dos idosos”).<br />
Podemos, ainda, analisar a memória “raM” random access Memory, ou seja, memória de acesso<br />
aleatório.<br />
a “raM” é a memória dos computadores. É através dessa memória que podemos utilizar<br />
os programas multitarefas, fazer as nossas planilhas, digitar os textos, etc. Portanto, a memória<br />
raM é de grande utilidade, mas também de muitos dissabores. ao realizarmos as nossas tarefas<br />
na memória “raM”, algumas vezes não as gravamos na memória permanente, que é o winchester<br />
(hd - disco rígido), então, tudo que digitamos será perdido, pois raM é uma memória volátil (apaga<br />
quando desligamos).<br />
ao assumirmos a coordenação do colégio de entidades nacionais - cden, tivemos como plataforma<br />
valorizar as entidades nacionais e regionais e essa valorização passa também pelo resgate da<br />
história.<br />
a Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança - SoBeS, ao lançar o livro: “a Fundação da<br />
SoBeS e a regulamentação da engenharia de Segurança – Volume i”, com o apoio do cden,<br />
contribui com o nosso projeto, pois grava, no winchester, as ações, as histórias e os projetos, para que<br />
o Sistema conFea/crea utilize os dados apresentados para valorizar as suas entidades.<br />
Muito orgulho terão os seus dirigentes e associados, ao folhear este livro e ver que valeu a pena<br />
realizar um trabalho social como a engenharia de Segurança nacional, que tem o dever e a obrigação<br />
de preservar a vida.<br />
Parabéns aos dirigentes da SoBeS, pelo trabalho apresentado!<br />
Ricardo Nascimento<br />
Coordenador do Colégio de Entidades nacionais - CDEn
“Engenharia de Segurança é o conjunto<br />
de conhecimentos técnico-científicos,<br />
dedicados à preservação da integridade<br />
física, da segurança e da saúde do<br />
trabalhador, realizando a prevenção<br />
de acidentes, através da análise dos<br />
riscos de trabalho e das operações nele<br />
realizadas.”
Capítulo I<br />
Como foi a História<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 17
18<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade
(1)<br />
Nougler, J. (1974): in Menegasso, M.Ester:<br />
“O Resgate Histórico da Evolução do Trabalho,<br />
Ocupação e Emprego” in O Declínio do<br />
Emprego e a Ascensão da Empregabilidade,<br />
tese de doutoramento, no Programa de Pós-<br />
Graduação em Engenharia de Produção da<br />
Universidade Federal de Santa Catarina<br />
(UFSC), 1998.<br />
I.1. A Pré-História e a Antiguidade<br />
É possível admitir que a história da engenharia e a história da própria humanidade<br />
caminharam juntas, ao longo desses milhões de anos. a necessidade de<br />
alimentação e de abrigo levou o “homo habilis” a desenvolver as ferramentas<br />
necessárias, para que pudesse lograr êxito em seus objetivos. inicialmente,<br />
eram pedaços de pedra, osso e madeira que se tornavam pontiagudos e<br />
cortantes. era a sobrevivência incentivando o “desenvolvimento tecnológico”.<br />
esse processo se desenvolveu e se acelerou a partir do “homo sapiens”, que<br />
foi aprimorando suas habilidades para o desenvolvimento de instrumentos,<br />
ferramentas e técnicas que pudessem lhe proporcionar um modo de vida mais<br />
confortável. É impossível compreender a evolução histórica do homem sem<br />
relacionar as “questões do trabalho” que ocorreram durante o processo de<br />
civilização da humanidade.<br />
o Período Pré-histórico abrange toda a época anterior a 4000 a. c., desde<br />
o aparecimento dos primeiros seres humanos, como resultado da evolução<br />
dos hominídeos, na era cenozóica. no Período neolítico, são encontrados<br />
os primeiros vestígios do que definimos hoje como “trabalho”, nas chamadas<br />
“comunidades tribais”, consideradas como a última etapa das sociedades<br />
sem classes, dotadas de formas primitivas de economia (caça, pesca, criação,<br />
procedimentos rudimentares de agricultura).<br />
o trabalho sempre foi uma atividade própria do ser humano e suas primeiras<br />
formas (1) apareceram milênios antes do Período neolítico, com formas de<br />
execução diferenciadas. autores sustentam que há milhões de anos, no começo<br />
do Pleistoceno, viveram os australopitecos, os primeiros e mais antigos tipos<br />
de “homo faber” conhecidos. Foram os desenhos encontrados em grutas da<br />
áfrica austral, associados aos mais antigos utensílios e às mais antigas formas<br />
de trabalho, que embasaram essa teoria. esses autores argumentam que a<br />
transição da fase de “animalidade” para a de homem ocorreu no momento em<br />
que o australopiteco atritou duas pedras entre si, para romper uma delas e a<br />
fez mais afiada e cortante.<br />
cada período da história da humanidade corresponde a uma forma de trabalho,<br />
resultado da maneira como os homens se organizam pra viver em sociedade<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 19
e produzir sua subsistência. e, embora os acidentes sejam inerentes à condição<br />
humana, o tipo de risco que o ser humano enfrenta foi evoluindo no decorrer<br />
de sua existência e da transformação das condições de trabalho.<br />
a descoberta do fogo, há cerca de 800 mil anos, deu um salto de qualidade<br />
no desenvolvimento da capacidade humana de proteger-se do frio e vencer<br />
a escuridão. Se nos perguntarmos os riscos que o homem pré-histórico<br />
enfrentava, a primeira coisa que pensamos é nos ataques animais e nas<br />
intempéries da natureza.<br />
o fogo, a pedra (100000 a.c.), o cobre (8000 a.c.), a roda (4000 a.c.),<br />
a escrita (3500 a.c.), o bronze (3300 a.c.), o ferro (1500 a.c.) foram<br />
sendo introduzidos no cotidiano da sociedade humana, à medida que<br />
o “homo sapiens” foi abandonando o hábito de viver em cavernas<br />
e passou a construir seus abrigos, deixou de ser nômade e passou a se fixar na<br />
terra, desenvolvendo a agricultura e a pecuária. a primeira grande revolução<br />
econômica ocorreu com a descoberta da agricultura e a domesticação de<br />
animais. logo após, vieram a aragem da terra e as primeiras colheitas de<br />
cereais.<br />
20<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade
(2) Tell es-Sultan (Jericó) é considerada uma<br />
das mais antigas cidades continuamente<br />
habitadas do mundo, com evidência de<br />
assentamentos datados de antes de 9000<br />
a.C. O primeiro assentamento permanente<br />
foi construído próximo a Ein as-Sultan, entre<br />
8000 e 7000 a.C., por um povo desconhecido.<br />
Eram alguns muros, um santuário e uma torre<br />
de sete metros de altura com uma escadaria<br />
interna. Após alguns séculos, foi abandonado<br />
para um segundo assentamento, estabelecido<br />
em 6800 a.C, talvez pela invasão de um povo<br />
que absorveu os habitantes originais pela sua<br />
cultura dominante. Artefatos datados desse<br />
período incluem dez crânios, engessados e<br />
pintados como para reconstituir as feituras<br />
individuais. Este foi seguido por uma sucessão<br />
de assentamentos, a partir de 4500 a.C., tendo<br />
o maior destes sido construído<br />
em 2600 a.C.<br />
(3) A Suméria é considerada a civilização<br />
mais antiga da humanidade. Localizava-se<br />
na parte sul da Mesopotâmia, em terrenos<br />
conhecidos por sua fertilidade, entre os rios<br />
Tigre e Eufrates. Evidências arqueológicas<br />
marcam a civilização suméria em meados do<br />
quarto milênio a.C. Entre 3500 e 3000 a.C.,<br />
houve um florescimento cultural e a Suméria<br />
exerceu influência sobre as áreas circunvizinhas.<br />
Depois de 2000 a.C., a Suméria entrou em<br />
declínio, sendo absorvida pela Babilônia e pela<br />
Assíria. São atribuídas aos sumérios: a escrita<br />
cuneiforme, que provavelmente antecede<br />
todas as outras formas de escrita, tendo sido<br />
originalmente usada por volta de 3500 a.C.; as<br />
cidades-estado, sendo a cidade de Ur a mais<br />
conhecida delas, e a cerveja.<br />
Fundações de uma<br />
residência desenterrada<br />
em Tell es-Sultan (Jericó)<br />
o processo de domesticação dos animais e o uso dos produtos agrícolas<br />
e animais para a sobrevivência fixaram o homem à terra, permitindo que se<br />
desenvolvessem agrupamentos humanos com construções em pedra e tijolos.<br />
considera-se Tell es-Sultan (2) , no oriente Próximo, como a mais antiga delas.<br />
a fabricação de objetos metálicos, fase seguinte à descoberta do fogo, quando<br />
ocorreu a introdução ao uso dos metais, permitiu mais rapidez e maior qualidade<br />
na caça, pesca e agricultura. há referências da utilização de objetos em cobre<br />
que datam de 8000 anos a.c. Podemos pensar nos acidentes decorrentes do<br />
uso do fogo, da extração e utilização dos metais e da construção de refúgios,<br />
para servir de abrigo, a que o homem estava exposto nessa época da história.<br />
dois fatores contribuíram para facilitar a transmissão dos conhecimentos ao<br />
longo da história. o primeiro deles ocorreu com os sumérios (3) e os egípcios:<br />
o surgimento da escrita (3500 a.c.). e o segundo foi o paulatino envelhecimento<br />
das gerações, que permitiu o repasse do conhecimento e das experiências<br />
através da história oral, possibilitando que o acervo cultural e técnico passasse<br />
de geração para geração.<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 21
egistros interessantes de como a sociedade da época alertava para os<br />
acidentes de trabalho e suas consequências são o Papiro anastacius V (4) , que<br />
assinalou a necessidade da preservação da saúde e da vida do trabalhador,<br />
incitando os pedreiros para a proteção durante a execução de tarefas: “Se<br />
trabalhares sem vestimenta, teus braços se gastam e tu te devoras a ti mesmo,<br />
pois não tens outro pão que não teus dedos...” (sic) (5) . o outro é o código<br />
de hamurabi (6) , que estabeleceu punições para os eventos da vida cotidiana.<br />
entre essas punições estavam: “Se um arquiteto constrói para alguém e não o<br />
faz solidamente e a casa que ele construiu cai e fere de morte o proprietário,<br />
esse arquiteto deverá ser morto” (Seção 229) e “Se uma casa mal construída<br />
causa a morte de um filho do dono da casa, então o filho do construtor será<br />
condenado à morte” (Seção 230). o terceiro data de 2360 a.c., e foi encontrado<br />
num papiro egípcio, o “Papiro Seller ii”, que diz: “Eu jamais vi ferreiros em<br />
embaixadas e fundidores em missões. O que vejo sempre é o operário em<br />
seu trabalho; ele se consome nas goelas de seus fornos. O pedreiro, exposto<br />
a todos os ventos, enquanto a doença o espreita, constrói sem agasalho; seus<br />
dois braços se gastam no trabalho; seus alimentos vivem misturados com os<br />
detritos; ele se come a si mesmo, porque só tem como pão os seus dedos. O<br />
barbeiro cansa os seus braços para encher o ventre. O tecelão vive encolhido<br />
- joelho ao estômago - ele não respira. As lavadeiras sobre as bordas do rio,<br />
são vizinhas do crocodilo. O tintureiro fede a morrinha de peixe, seus olhos são<br />
abatidos de fadiga, suas mãos não param e suas vestes vivem em desalinho” (7) .<br />
essas são as referências mais antigas encontradas até agora.<br />
22<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade<br />
(4) Documento egípcio de cerca de 2550 A.C.<br />
(5) Enciclopédia Mirador Internacional – Ed. Em<br />
São Paulo - 1975.<br />
(6) O Código de Hamurabi é um conjunto de<br />
281 leis criadas pelo rei sumério Hamurabi, na<br />
Mesopotâmia, por volta de 1789 A.C., baseado<br />
na lei de talião, “olho por olho, dente por<br />
dente”. Talhado numa rocha de diorito de cor<br />
escura com escrita em caracteres cuneiformes,<br />
o monólito do Código de Hamurabi, medindo<br />
2,25 m de altura, 1,50 m de circunferência na<br />
parte superior e 1,90 na base, foi encontrado<br />
no ano de 1901, na região do atual Irã.<br />
Hamurabi foi o rei que uniu semitas e sumérios<br />
e levou a Babilônia ao seu esplendor.<br />
(7) Citado em Alberton, Anete:” Uma<br />
Metodologia para Auxiliar no Gerenciamento<br />
de Riscos e na Seleção de Alternativas de<br />
Investimentos em Segurança”, dissertação de<br />
mestrado, Programa de Pós Graduação de<br />
Engenharia de Produção, Universidade Federal<br />
de Santa Catarina, 1996.<br />
(8) Hipócrates —(Cós 460 a.C.– Tessália, 377<br />
a.C.) era um asclepíade, isto é, membro de uma<br />
família que durante várias gerações praticara os<br />
cuidados em saúde.<br />
(9) Estanhose: intoxicação pelo estanho,<br />
afecção rara produzida pelo contato com o<br />
pó do estanho ou pela inalação de vapores<br />
de estanho.<br />
Código de Hamurabi in:<br />
blog.travelpod.com
(10) Platão (Atenas, 428/427 a.C – Atenas,<br />
348/347 a.C.), filósofo e matemático do<br />
período clássico da Grécia Antiga, fundador<br />
da Academia, primeira instituição de educação<br />
superior do mundo ocidental.<br />
(11) Aristóteles, (Macedônia 384 – Atenas<br />
322 a.C), filósofo grego, aluno de Platão e<br />
considerado um dos fundadores da filosofia<br />
ocidental.<br />
(12) Plínio, o Velho, Caio Plínio Segundo<br />
(Como, 23 - Stabia, 79), naturalista romano,<br />
faleceu ao tentar observar, como estudioso, a<br />
erupção do vulcão Vesúvio, em 79, e tentando<br />
salvar os habitantes de Stabia.<br />
(13) “Naturalis Historia”, um vasto compêndio<br />
das ciências antigas, distribuído em trinta e<br />
sete volumes, dedicado a Tito Flávio, futuro<br />
imperador de Roma, veio a publico no ano<br />
77 d.C.<br />
(14) Cláudio Galeno ou Élio Galeno, em latim<br />
Claudius Galenus e grego (Pérgamo, 129 d.C -<br />
provavelmente Sicília, 217 d.C), mais conhecido<br />
como Galeno de Pérgamo. Seus relatos de<br />
anatomia médica eram baseados em macacos,<br />
pois a dissecção humana não era permitida, é<br />
também um precursor da prática da Vivissecção<br />
e experimentação com animais e o primeiro<br />
que conduziu pesquisas fisiológicas. Saturno<br />
em alquimia significa chumbo.<br />
(15) Conhecido no Ocidente como Avicena,<br />
Ibn Sina, Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn<br />
Sina, (Bucara, 980 — Hamadã, 1037), filósofo e<br />
médico persa da Idade Média, era um polímata,<br />
com contribuições na astronomia, química,<br />
geologia, lógica, paleontologia.<br />
(16) Saturnismo: intoxicação por chumbo.<br />
na antiguidade greco-romana, o trabalho já era visto como gerador<br />
e modificador das condições de viver, adoecer e morrer dos homens. na grécia<br />
antiga, o médico hipócrates (8) , considerado o Pai da Medicina, revelou a<br />
origem das doenças profissionais que acometiam aqueles que trabalhavam nas<br />
minas de estanho (9) e aconselhou o banho após as atividades, como maneira<br />
de minimizar os problemas.<br />
algumas escavações arqueológicas localizaram fósseis de esqueletos humanos<br />
em galerias de minas com dimensões muito reduzidas: 1m de altura por 0,80m<br />
de largura e o filósofo e matemático grego Platão (10) chegou a expor ideias<br />
sobre a deformação dos esqueletos humanos, provocadas pelo exercício de<br />
determinadas profissões.<br />
o filósofo aristóteles (11) estudou o atendimento e a prevenção das enfermidades<br />
dos trabalhadores nos ambientes das minas.<br />
caio Plínio Segundo (12) , naturalista romano, conhecido também como Plínio,<br />
o Velho, escreveu um vasto compêndio das ciências antigas, chamado “naturalis<br />
historia” (13) , onde relatou todo o conhecimento científico existente até<br />
o inicio do cristianismo. a sua obra é considerada a primeira referência sobre<br />
segurança do trabalho, pois ele, tendo visitado galerias de minas, descreveu<br />
o aspecto dos trabalhadores expostos ao chumbo, mercúrio, cobre, zinco<br />
e poeiras, mencionando que os escravos, por livre iniciativa, usavam no rosto<br />
panos ou membranas de bexiga de carneiro, como se fossem máscaras, com<br />
o objetivo de diminuir a ação das poeiras minerais.<br />
cláudio galeno (14) , médico e filósofo romano de origem grega, e o filósofo<br />
e médico persa, avicena (15) , em seus estudos, alertaram sobre o saturnismo (16) ,<br />
proveniente do trabalho de pinturas com tintas à base de chumbo.<br />
os trabalhos de hipócrates, Platão, Plínio, galeno, avicena, entre outros,<br />
apontavam para a importância do ambiente, da sazonalidade, do tipo<br />
de trabalho e da posição social como fatores determinantes na produção de<br />
doenças.<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 23
Hipócrates – médico grego (460 a. C – 377 a. C.) Aristóteles<br />
Platão Galeno<br />
24<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade
Plínio, o Velho Avicena<br />
Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 25
(17) A Idade Média é um período da história<br />
da humanidade que começa em torno do<br />
Sec.V e que tem como modo de produção<br />
predominante o feudalismo.<br />
I.2. A Idade Média<br />
a idade Média (17) é um período de fortes transformações, em relação às<br />
épocas anteriores, notadamente no que se refere ao predomínio da vida rural.<br />
o modo de produção feudal sucedeu ao modo de produção escravagista da<br />
antiguidade. os servos passaram a ser os trabalhadores típicos desse período.<br />
não detinham a posse da terra, estabeleciam uma relação servil de trabalho,<br />
recebiam um pedaço de terra (gleba), que arrendavam e onde produziam para<br />
si e para os senhores do feudo.<br />
no início do feudalismo, as relações econômicas eram simples, praticamente<br />
de troca. a aldeia era autossuficiente. os servos e suas famílias cultivavam seus<br />
alimentos, fabricavam com as próprias mãos tudo o que lhes era necessário<br />
à sobrevivência. os servos mais habilidosos eram chamados à casa do senhor,<br />
para fabricarem os objetos necessários. não havia incentivo à produção de<br />
excedentes. a troca era feita pela necessidade de consumo de um determinado<br />
produto, no mercado semanal que acontecia, geralmente, ao redor dos<br />
mosteiros e castelo. os mercadores estavam sob o controle do senhor feudal ou<br />
do bispo. esses também trocavam suas mercadorias produzidas por seus servos<br />
e artesãos. dentro dessa realidade, os acidentes e as doenças profissionais<br />
eram ainda muito similares aos dos séculos anteriores.<br />
a partir do século X, registrou-se um significativo aumento da população<br />
que, com o movimento religioso das cruzadas, contribuiu para incentivar<br />
a prática do comércio. as dezenas de milhares de europeus, que atravessaram<br />
o continente para conquistar a “Terra Prometida”, foram acompanhadas por<br />
mercadores, com o objetivo de fornecer as provisões necessárias para a viagem.<br />
no regresso, os cruzados procuravam pelas mercadorias que conheceram na<br />
viagem, criando novos hábitos de consumo e exigindo novos produtos.<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média 27
28<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média
A nova relação do “homem com a instrumentação lançou<br />
raízes durante a revolução industrial, tal como, por sua vez,<br />
o capitalismo, no século XVI, reclamou novas fontes de<br />
energia. A máquina a vapor é mais um efeito desta sede<br />
de energia do que uma causa da revolução industrial”.<br />
(18) Gilles, 1981 in http://www.eps.ufsc.br/<br />
teses98/ester/cap2.html<br />
nos séculos Xi e Xii, ocorreu a chamada “revolução técnica”, que se estendeu<br />
até o século XV. a humanidade passou do “reino da ferramenta para o reino da<br />
máquina”, e gradativamente ocorreu uma evolução tecnológica do trabalho,<br />
onde o homem foi sendo substituído pela máquina . Sem dúvida, foi o<br />
surgimento e aprimoramento das máquinas, nos séculos Xi e Xii, que<br />
proporcionaram a “revolução técnica”: a expansão do moinho, o aperfeiçoamento<br />
do torno, o aparecimento da roda d’água e das prensas e parafusos, isto é, todo<br />
o automatismo mecânico que se desenvolveu gradualmente, permitindo<br />
substituir o homem pela máquina.<br />
a nova relação do “homem com a instrumentação lançou raízes durante<br />
a revolução industrial, tal como, por sua vez, o capitalismo, no século XVI,<br />
reclamou novas fontes de energia. A máquina a vapor é mais um efeito desta<br />
sede de energia do que uma causa da revolução industrial” (18) .<br />
Paulatinamente, a população das cidades que surgiam começou a perceber<br />
e questionar os costumes feudais. a atividade comercial precisava superar<br />
as barreiras da sociedade feudal para se desenvolver e crescer. e, com<br />
o desenvolvimento do comércio e das cidades, paralelamente, novos<br />
hábitos e costumes iam se proliferando, resultado da forma como os<br />
comerciantes organizavam seu trabalho. um exemplo relevante dessa<br />
organização, para superar as limitações feudais e proporcionar a expansão<br />
continua do comércio, foram as “corporações” ou “ligas”, criadas com<br />
o objetivo de controlar os mercados.<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média 29
as dificuldades existentes no processo de troca simples, que restringiam<br />
a circulação das mercadorias a pequenos espaços geográficos, acabaram<br />
sendo superadas pelo processo de transação dupla, com a inclusão da moeda<br />
para agilizar a troca de mercadorias.<br />
o progresso das cidades e o incremento da circulação e do uso do dinheiro<br />
incentivaram os artesãos a abandonar o trabalho servil na agricultura para<br />
passar a viver de suas habilidades e do seu ofício. não se tratava mais de<br />
satisfazer apenas suas necessidades, mas de atender a crescente demanda.<br />
a partir desse momento, estabeleceu-se a relação entre trabalho e comércio,<br />
estreitamente ligada ao excedente de produção.<br />
Por outro lado, o aumento do fluxo comercial permitiu aglutinar produtos e<br />
produtores em locais onde as cidades haviam crescido. as feiras periódicas na<br />
inglaterra, França, Bélgica, alemanha e itália foram o primeiro passo na direção<br />
de um comércio estável e permanente. as feiras, ao contrário dos pequenos<br />
mercados do início da idade Média, eram centros distribuidores, onde os<br />
grandes mercadores e artesãos locais compravam e vendiam as mercadorias<br />
estrangeiras, procedentes do oriente e do ocidente, do norte e do Sul (19) .<br />
30<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média<br />
(19) Huberman, Leo: “A História da Riqueza do<br />
Homem”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1974.
Artesanato<br />
(20) Havia dois tipos de ajudantes: o aprendiz<br />
e o jornaleiro. O aprendiz era o que vivia e<br />
trabalhava com o artesão principal, durante<br />
o processo de aprendizagem, que podia<br />
levar de 2 a 7 anos. Os jornaleiros eram<br />
os aprendizes que não haviam passado<br />
no exame final do processo de aprendizagem<br />
e continuavam a trabalhar em troca de<br />
um salário.<br />
aos poucos, os artesãos foram organizando o trabalho urbano: eram sapateiros,<br />
ferreiros, ourives, padeiros, tecelões, etc. e passaram, também, a se organizar<br />
em corporações de ofícios ou guildas, associações profissionais de defesa<br />
mútua, destinadas a proteger seus interesses e lutar contra a aristocracia,<br />
preservando o monopólio do mercado de trabalho de cada ofício. além de<br />
proteger o mercado de trabalho, as corporações se destinavam a garantir<br />
a ajuda mútua a seus membros, em caso de doenças, acidentes, invalidez<br />
ou morte.<br />
Guilda<br />
embora a unidade produtora típica do final da idade Média fosse a<br />
pequena oficina, tendo um mestre como empregador em pequena escala,<br />
trabalhando lado a lado com seus ajudantes (20) , havia algumas atividades que<br />
recorriam à divisão técnica do trabalho. a forjaria era uma delas e dividia o<br />
processo produtivo em várias etapas, realizadas por trabalhadores distintos<br />
e especializados. a idade Média enfatizou o papel da máquina no processo<br />
produtivo, ao mesmo tempo em que valorizou a habilidade técnica. isso criou<br />
as condições necessárias para o florescimento da ciência e da técnica no<br />
período seguinte, o renascimento.<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média 31
a descoberta e o uso de novas fontes de energia e técnicas de fabricação<br />
modificaram o trabalho na idade Média. assim, a ciência, a tecnologia e a<br />
indústria, que davam os primeiros passos, tinham ainda um papel atrelado à<br />
agricultura. a partir do Século XVi, com um forte desenvolvimento da ciência<br />
e da técnica e as manufaturas se espalharam, aparecendo novos ofícios,<br />
trazendo fortes alterações na vida cotidiana e constituindo novos modos de<br />
organização do trabalho. entre os séculos XVi e XViii, há um declínio dos<br />
artesãos independentes típicos da idade Média e, em seu lugar, surgiram<br />
os assalariados, cada vez mais dependentes do capitalista – mercador –<br />
intermediário - empreendedor (21) .<br />
os artesãos da idade Média, no Século XV, já realizavam tarefas, reunidos sob<br />
um mesmo teto, para trabalharem para o comerciante que trazia especiarias<br />
do oriente para a europa ocidental e controlava os burgos. assim, pode-se<br />
afirmar que a cooperação simples com o capitalismo foi a primeira relação do<br />
trabalho.<br />
o advento da manufatura, no Século XVii, impulsionou a adoção da divisão<br />
do trabalho em vários ofícios. a unidade técnica de produção era a mesma<br />
proveniente da cooperação simples: vários artesãos reunidos sob o mesmo<br />
teto e, era ainda o artesão que dominava o processo de confecção.<br />
essa nova maneira de organizar o trabalho provocou novos problemas de<br />
saúde nos trabalhadores, fomentando estudos que vieram a embasar o que<br />
hoje chamamos de medicina do trabalho e que serviu de parâmetro para<br />
futuros estudos sobre segurança e higiene do trabalho.<br />
a europa vivenciou, durante o período do renascimento (séculos XV<br />
e XVi), vários avanços no campo técnico-científico. Foi o momento em que<br />
copérnico (22) chegou à Teoria heliocêntrica; leonardo da Vinci (23) criou vários<br />
projetos que só se tornaram possíveis mais tarde com o desenvolvimento<br />
tecnológico; Kepler (24) demonstrou que os astros se movimentam em elipse<br />
no espaço; galileu (25) , com suas observações do espaço celeste, ratificou a<br />
tese heliocêntrica de copérnico e, newton (26) trouxe a teoria da gravitação<br />
universal.<br />
32<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média<br />
(21) Huberman, Leo;apud.<br />
(22) Nicolau Copérnico (1473 – 1543),<br />
astrônomo e matemático polaco, desenvolveu<br />
a teoria heliocêntrica do Sistema Solar,<br />
contrariando a então vigente teoria<br />
geocêntrica (que tratava a Terra como o<br />
centro), considerada como uma das mais<br />
importantes hipóteses científicas de todos os<br />
tempos, tendo constituído o ponto de partida<br />
da astronomia moderna.<br />
(23) Leonardo di Ser Piero da Vinci, Leonardo<br />
da Vinci, ( 1452 - 1519), polímata italiano,<br />
foi uma das figuras mais importantes do Alto<br />
Renascimento, se destacou como cientista,<br />
matemático, engenheiro, inventor, anatomista,<br />
pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta<br />
e músico. É ainda conhecido como o<br />
precursor da aviação e da balística. Leonardo<br />
frequentemente foi descrito como o arquétipo<br />
do homem do Renascimento, alguém cuja<br />
curiosidade insaciável era igualada apenas pela<br />
sua capacidade de invenção.<br />
(24) Johannes Kepler (1571 – 1630), astrônomo<br />
e matemático alemão, formulou as três leis<br />
fundamentais da mecânica celeste, conhecidas<br />
como ”Leis de Kepler”: Astronomia Nova,<br />
Harmonices Mundi e Epítome da Astronomia<br />
de Copérnico, que forneceram uma das bases<br />
para a teoria da gravitação universal de Isaac<br />
Newton.<br />
(25) Sir Isaac Newton (Woolsthorpe-by-<br />
Colsterworth, 4 de janeiro de 1643 — Londres,<br />
31 de março de 1727), cientista inglês, físico,<br />
matemático, astrônomo, alquimista, filósofo<br />
natural e teólogo. Sua obra, Philosophiae<br />
Naturalis Principia Mathematica (1687),<br />
descreve a lei da gravitação universal e as<br />
três leis de Newton, que fundamentaram a<br />
mecânica clássica.
(26) Galileu Galilei, em italiano: Galileo<br />
Galilei (Pisa, 1564 - Florença, 1642), físico,<br />
matemático, astrônomo e filósofo italiano.<br />
Desenvolveu a lei dos corpos, enunciou o<br />
princípio da inércia e o conceito de referencial<br />
inercial, ideias precursoras da mecânica<br />
newtoniana. É considerado o<br />
“pai da ciência moderna”.<br />
Em 1556, Georgius Agricola (27) , escreveu “De Re Metallica”, onde fez<br />
referências às doenças pulmonares nos mineiros, com uma descrição de<br />
sintomas que hoje atribuímos à silicose, e que agrícola denominou “asma dos<br />
mineiros”. em 1567, Paracelso (28) , também descreveu doenças de mineiros da<br />
região da Boêmia e a intoxicação pelo mercúrio.<br />
Leonardo da Vinci<br />
Galileu Galilei<br />
Usina de súlfur (De Re Metallica)<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média 33
Georgius Agricola Paracelso<br />
Ramazzini Morbis Artificum<br />
34<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média
(27) Georgius Agricola ou Georg Bauer (1494-<br />
1555), geólogo, alquimista e metalurgista<br />
alemão, dedicou-se ao estudo dos minerais<br />
e das doenças adquiridas pelos mineradores.<br />
Sua principal obra, considerada o primeiro<br />
tratado de mineralogia, foi De Re Metallica<br />
(1555), publicada quatro meses após sua<br />
morte, na Basiléia.<br />
(28) Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus<br />
von Hohenheim, Paracelso (1493 - 1541),<br />
médico, alquimista, físico e astrólogo suíço.<br />
(29) Bernardino Ramazzini, (1633 - 1714),<br />
médico da região da Modena (Itália), foi<br />
o precursor da Medicina do Trabalho.<br />
o trabalho de Morbis artificum diatriba (doenças do Trabalho) do médico<br />
italiano Bernardino ramazzini (29) , escrito em 1700 e que relacionou os riscos e<br />
os danos à saúde ocasionados por produtos químicos, poeira, metais e outros<br />
agentes encontrados em 52 ocupações, estabeleceu as bases para a definição<br />
das doenças ocupacionais. Foi o primeiro a estudar profundadamente as<br />
doenças profissionais, descrevendo os riscos específicos de cada uma delas.<br />
realizou valiosas pesquisas sobre os danos à saúde do trabalhador, causados<br />
pela falta de ventilação e desconforto térmico. alertou sobre a importância das<br />
pausas e dos exercícios e postura correta para prevenção de fadiga. defendeu,<br />
também, a realização do ensino de Medicina do Trabalho no próprio ambiente<br />
do trabalhador.<br />
ramazzini associou o estado de saúde de uma determinada população com<br />
as condições de vida decorrentes da situação social em que se encontrava<br />
essa população. a partir de seu enfoque, o ambiente de trabalho começou<br />
a ser estudado, a fim de permitir modificações que objetivavam proteger a<br />
integridade física do trabalhador, abrindo as condições para a construção da<br />
base da engenharia de segurança do trabalho. o médico italiano inseriu uma<br />
importante pergunta nos exames médicos: “Qual é a sua ocupação”?<br />
Capítulo I | 2. A Idade Média 35
36<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial
(30) In http://www.fundec.edu.br/cipa/<br />
seguranca_trabalho.php.<br />
(31) Charles Turner Thackrah (Leeds 1795 -<br />
1833), médico inglês, muito contribuiu para<br />
definir a idade mínima do trabalho no Factory<br />
Act de 1833.<br />
I.3. A Revolução Industrial<br />
no século XVi, já havia na europa alguma familiaridade com as máquinas e com<br />
a arte de construí-las. no entanto, é apenas no final do século XViii, quando<br />
a revolução industrial se consolidou na maioria dos países, que as mudanças<br />
econômicas permitiram as transformações sociais e políticas. e a europa havia<br />
se preparado para “receber” as novas tecnologias que permitiriam a revolução<br />
industrial, no século XViii.<br />
em 1779, foi registrado, nos anais da academia de Medicina da França, um<br />
trabalho sobre as causas e prevenção de acidentes. no mesmo ano, em Milão,<br />
Pietro Verri fundou a primeira sociedade filantrópica, visando o bem-estar do<br />
trabalhador (30) .<br />
charles Thackrah (31) , médico de leeds, publicou a primeira obra original, em<br />
inglês, sobre as doenças relacionadas com o trabalho, em 1830. Seu livro, The<br />
Effects of the Principal Arts, Trades and Professions, and of Civic States and<br />
Habits of Living, on Health and Longevity with Suggestions for the Removal<br />
of Many of The Agents which Produce Disease and Shorten the Duration of<br />
Life (os efeitos das Principais artes, ofícios e Profissões, bem como do<br />
estado civil e dos hábitos de Vida, na Saúde e longevidade, com Sugestões<br />
para a eliminação de Muitas das causas que Produzem doença e reduzem<br />
a esperança de Vida) continha importantes observações clínicas, propostas de<br />
melhoria do ambiente laboral e fore dele promovendo estilos de vida mais<br />
saudáveis.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 37
É importante relembrar que todo o desenvolvimento técnico-científico<br />
sempre está relacionado com outros aspectos da história da humanidade.<br />
o desenvolvimento de novas tecnologias que permitiram a revolução<br />
industrial foi acompanhado das rápidas e importantes transformações políticas<br />
e econômicas na europa. a declaração de independência dos eua (1776) e<br />
a declaração dos direitos do homem e do cidadão (revolução Francesa-1789)<br />
tiveram enorme influência na mentalidade e no comportamento dos homens<br />
daquela época.<br />
em toda a europa, principalmente na alemanha, França e inglaterra, passou<br />
a existir a preocupação com a crescente urbanização, com as questões de<br />
alimentação para a população em expansão e com as grandes epidemias que<br />
exigiam saneamento. naquele momento, a inglaterra ainda vivia um modelo<br />
feudal da idade Média, mas já com um significativo movimento populacional<br />
em direção às cidades iniciando um processo de inovação tecnológica, cuja<br />
aplicação iria mudar as relações sociais de produção até então existentes.<br />
a introdução das máquinas para substituir o esforço humano e a tração animal;<br />
a substituição de fontes animadas de energia por fontes inanimadas, em<br />
especial a conversão do calor em trabalho; a substituição de substâncias<br />
vegetais ou animais por substâncias minerais muito mais abundantes (carvão,<br />
ferro e hulha) caracterizam as inovações tecnológicas ocorridas.<br />
a introdução da roda d’água, como principal fonte geradora de energia<br />
primária para a automação de um processo de produção, viria abolir o trabalho<br />
artesanal, herança da primeira revolução industrial, onde o detinha todo o<br />
processo da manufatura.<br />
a revolução industrial foi uma das maiores transformações da história humana<br />
e provocou grandes mudanças: o sistema produtivo se organizou para produzir<br />
excedentes e oferecê-los à sociedade; a máquina-ferramenta substituiu<br />
o trabalho manual; a fábrica substituiu a manufatura; a atividade industrial<br />
substituiu a atividade agrícola como centro da vida econômica; o capital foi<br />
empregado para formar grandes empresas industriais; o trabalho assalariado<br />
passou a predominar; surgiram novos ofícios e profissões. e a mentalidade<br />
das pessoas, a cultura, a maneira de se viver em sociedade, enfim, toda<br />
a organização sócio-econômica se transformou.<br />
a combinação de princípios mecânicos básicos (alavancas, catracas, polias,<br />
engrenagens e roldanas), com a introdução de novos equipamentos e processos<br />
produtivos, resultou em incrementos na produção. ocorreu a introdução<br />
38<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
Charles Turner Thackrah
(32) Entre os séculos XVI a XVIII.<br />
(33) James Watt, (Escócia,1736 - Inglaterra,<br />
1819), matemático e engenheiro escocês,<br />
construtor de instrumentos científicos,<br />
destacou-se pelos melhoramentos que<br />
introduziu no motor a vapor, que se<br />
constituíram num passo fundamental para<br />
a Revolução Industrial.<br />
da máquina, da divisão do trabalho e da economia de tempo. a principal<br />
mola propulsora das inovações foi a aceleração do processo produtivo para<br />
economizar tempo. e a substituição dos teares manuais por mecânicos permitiu<br />
o declínio dos preços.<br />
a organização industrial, que pouco a pouco superará o sistema familiar<br />
cooperativo, assumiu as características do sistema doméstico (32) , considerado<br />
o primeiro momento da acumulação capitalista. na produção doméstica, o<br />
artesão e seus ajudantes produziam em casa, detinham o conhecimento de<br />
como produzir, eram na maioria das vezes proprietários das máquinas, recebiam<br />
a matéria-prima para trabalhar e não se apropriavam do excedente produzido,<br />
entregando ao negociante ou ao intermediário o fruto de seu trabalho.<br />
a máquina a vapor foi o divisor de águas entre a manufatura e a m<strong>aqui</strong>nofatura.<br />
as primeiras máquinas a vapor (33) foram construídas na inglaterra, durante<br />
o século XViii. ao retirar a água acumulada nas minas de ferro e de carvão<br />
e aproveitá-la na fabricação de tecidos, a máquina a vapor provocou um<br />
significativo incremento na produção de mercadorias, proporcionando<br />
considerável aumento nos lucros dos donos das fábricas.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 39
a sociedade foi profundamente afetada por um forte êxodo rural, por<br />
mudanças demográficas com grande crescimento populacional e inchaço das<br />
cidades, ocorrendo a transformação da força de trabalho agrícola em força de<br />
trabalho industrial.<br />
adaptar uma sociedade agrária para a produção industrial foi um processo<br />
difícil e, na sociedade rural da época, significou romper o tecido tradicional que<br />
servia de pano de fundo para a organização social. o trabalho precisou deixar<br />
de ser doméstico para ser industrial; os velhos armazéns, os antigos galpões<br />
e estábulos foram transformados em fábricas com um grande número de<br />
máquinas de fiação e tecelagem; não existia horário de trabalho e as jornadas<br />
eram longas; a escassez de mão de obra levava a utilização do trabalho de<br />
mulheres e de menores, normalmente egressos de orfanatos e que recebiam<br />
menores salários; o volume de acidentes de trabalho era grande, decorrência<br />
do funcionamento das máquinas sem proteção, improvisadas para atender à<br />
forte demanda industrial, de uma organização precária do processo produtivo<br />
e da pouca qualificação dos trabalhadores empregados.<br />
as sucessivas leis de “assistência aos pobres” reduziam os salários, em muitos<br />
casos, abaixo do nível de subsistência, limitavam demasiadamente a mobilidade<br />
dos trabalhadores e a crise agrícola impunha a fome nas cidades.<br />
na vida política, ocorreu a queda do estado absolutista; a disputa entre<br />
países europeus pelo domínio das colônias na áfrica e na ásia, com o objetivo<br />
de obter matérias-primas para a indústria e consumidores para os produtos<br />
manufaturados; começaram a aparecer ideias políticas, sociais e econômicas,<br />
tentando explicar a nova situação e solucionar os novos problemas. o ritmo<br />
das mudanças sociais e econômicas acelerou-se visível e rapidamente.<br />
o surgimento da grande indústria na inglaterra, nas últimas três décadas do<br />
Século XViii, exigiu uma jornada de trabalho que excedia os limites do dia<br />
natural de 12 horas, sendo comum a jornada diária de 14 ou mais horas,<br />
durante 6 dias por semana. isso significava um retrocesso em relação à jornada<br />
dos antigos artesões e a regulamentação determinada pelas corporações<br />
de ofícios. na França, durante o antigo regime, “as leis da igreja garantiam<br />
ao trabalhador 90 dias de descanso”, por ano (52 domingos e 38 feriados)<br />
“durante os quais era estritamente proibido trabalhar” (34) .<br />
40<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial
(34) Lafargue, Paul: O Direito a Preguiça, São<br />
Paulo, Editora Kairós, 1977.<br />
(35) Daí a designação de mills ou moinhos.<br />
(36) Também conhecidas como pauper<br />
children, local onde as crianças pobres iam<br />
viver e trabalhar, comum na história inglesa,<br />
desde 1631.<br />
até aquele momento, as manufaturas se estabeleciam junto às fontes de<br />
água, espalhadas por montes e colinas, ou junto às margens dos rios (35) e<br />
absorviam abundante mão de obra infantil, que era recrutada majoritariamente<br />
nas workhouses (36) .<br />
a grande aplicação da máquina a vapor e do tear mecânico permitiu que a<br />
indústria, em especial, a tecelagem, se instalasse nas proximidades dos centros<br />
mais povoados, facilitando absorver a mão de obra infantil das free children,<br />
assim chamadas por oposição às pauper children, que viviam nas imediações<br />
das fábricas, em bairros mais populares, e que passaram a ser duplamente<br />
exploradas, pelos pais e pelos empregadores.<br />
esse quadro trouxe grandes dificuldades para a população inglesa.<br />
as fábricas eram ambientes fechados, na maior parte adaptados do meio<br />
rural, sem ventilação, com pouca iluminação, muitas vezes quase confinados,<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 41
proporcionando péssimos ambientes de trabalho que, aliados as precárias<br />
condições físicas dos trabalhadores, decorrentes da má alimentação, da falta de<br />
orientações básicas de higiene para viver nas cidades e a agressão de diversos<br />
agentes, oriundos do processo e/ou ambiente de trabalho, provocavam novas<br />
doenças e epidemias. o tifo se proliferou nas cidades inglesas industriais e era<br />
chamado de “febre das fábricas”.<br />
essa realidade levantou a preocupação governamental com a situação das<br />
epidemias que assolavam a força de trabalho e que provocavam perdas<br />
42<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial
(37) Nesse caso, a lei se referia aos<br />
trabalhadores aprendizes e não ao conjunto<br />
dos trabalhadores que continuaram sem<br />
regulamentação.<br />
(38) Estabelecimentos fabris da indústria têxtil<br />
algodoeira com as primeiras máquinas movidas<br />
à energia hidráulica.<br />
(39) Herança do sistema das corporações<br />
de ofícios medievais, abolido pela Revolução<br />
Francesa, mas ainda em vigor na Grã-Bretanha.<br />
(40) Combinations Acts, 1780, 1799, 1825.<br />
econômicas, resultando na intervenção dos governos na regulamentação da<br />
realidade fabril. em 1802, o Parlamento Britânico aprovou a primeira lei de<br />
proteção dos trabalhadores (37) : a “lei de Saúde e Moral dos aprendizes”,<br />
estabelecendo o limite de 12 horas de trabalho por dia, proibindo o trabalho<br />
noturno, obrigando empregadores a lavar as paredes das fábricas duas vezes<br />
por ano e tornando obrigatória a ventilação do ambiente produtivo e dos<br />
dormitórios. Foi a primeira medida legal, depois do advento da indústria, de<br />
melhoria das condições de trabalho que se tem notícia.<br />
a intervenção do poder legislativo da grã-Bretanha na realidade fabril e,<br />
em particular, no que afetava a proteção social dos trabalhadores (incluindo<br />
a segurança, higiene e saúde no trabalho, abreviadamente, Sh&ST), foi<br />
resultado, sobretudo, da influência de reformadores sociais, empregadores<br />
filantrópicos, médicos humanistas, escritores e políticos liberais, segmentos<br />
da opinião pública mais esclarecidos e socialmente influentes, preocupados<br />
com as condições de trabalho, em especial das mulheres e das crianças nas<br />
mills (38) do nordeste da inglaterra e nas minas de carvão dos País de gales e<br />
chocados com os eventuais riscos de epidemia e de propagação de doenças<br />
que a proximidade das fábricas e dos alojamentos operários poderiam trazer<br />
às comunidades locais.<br />
a lei de 1802 pouco afetou os empregadores, proprietários de terras<br />
(landlords), minas ou mills, pois ela se referia apenas aos aprendizes (39) , do<br />
seu âmbito ficavam de fora as chamadas free children. no entanto, ela trazia<br />
embutida, a figura do inspetor do trabalho, prevendo a criação de um sistema<br />
local de inspeção voluntária das fábricas e oficinas, integrado por magistrados<br />
e clérigos (the visitors).<br />
embora esse sistema nunca tenha verdadeiramente funcionado, por falta de<br />
instrumentos que viabilizassem sua aplicação efetiva, foi a primeira tentativa de<br />
intervenção do estado no domínio da proteção dos trabalhadores, quebrando<br />
o tabu do laissez faire, laissez passer e questionando o mito do livre contrato<br />
de trabalho, num período em que era negado aos trabalhadores assalariados o<br />
direito de associação (40) .<br />
cresciam as reclamações contra as máquinas que poupavam trabalho, quando<br />
um grupo indignado com as péssimas condições de trabalho e, acreditando<br />
que as máquinas eram as responsáveis pelas precárias condições de vida dos<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 43
trabalhadores, liderados por ned ludd, em 1811, adotou uma maneira mais<br />
radical de protesto: invadiram as fábricas e destruíram as máquinas (41) .<br />
Três décadas depois, em 1833, o Parlamento Britânico aprovou o “Factory<br />
act”, considerado a primeira legislação realmente eficiente no campo da<br />
proteção ao trabalhador: proibia o trabalho noturno aos menores de 18 anos,<br />
restringindo a jornada destes a, no máximo, 12 horas diárias e a 69 horas<br />
semanais; determinava que as fábricas mantivessem escolas para menores de<br />
13 anos; estipulava a idade mínima para o trabalho em 9 anos e um médico<br />
deveria atestar que o desenvolvimento mental e físico da criança correspondia<br />
à sua idade cronológica.<br />
entre 1802 e 1833, o Parlamento inglês promulgou nada menos do que cinco<br />
Ludismo<br />
Ned Ludd<br />
44<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
(41) Esse grupo ficou conhecido como<br />
ludistas. Os manifestantes sofreram uma<br />
violenta repressão, foram condenados à<br />
prisão, à deportação e até à forca. Os luditas<br />
ficaram lembrados como “os quebradores de<br />
máquinas”.
(42) Aos Cotton Mills.<br />
(43) Robert Owen (1771 –1858), empresário<br />
do setor têxtil, reformista social galês,<br />
considerado um dos fundadores do socialismo<br />
e do cooperativismo. Diretor de importantes<br />
indústrias escocesas de fiação. Em New Lanark,<br />
reduziu a jornada de trabalho para 10,5 horas<br />
diárias, quando a jornada de trabalho de um<br />
típico operário têxtil era de 14 a 16 horas<br />
diárias. Preocupou-se ainda com a qualidade de<br />
vida dos seus empregados, construindo casas<br />
para as famílias dos operários, o primeiro jardim<br />
de infância e a primeira cooperativa.<br />
(44) O direito de livre associação era impedido<br />
na Inglaterra pelos Combinations Acts, 1780,<br />
1799 e 1825.<br />
(45) Movimento Cartista (People’s Charter ),<br />
(1837-1848).<br />
leis sobre o trabalho fabril, que não foram respeitadas. O Factory Act of 1819 foi<br />
uma tímida tentativa de regulamentar o trabalho infantil, estipulando a idade<br />
mínima de admissão ao trabalho teoricamente em 9 anos e determinando<br />
que a jornada de trabalho de crianças e adolescentes, entre 9 e 16 anos, não<br />
poderia exceder as 9 horas diárias, com meia hora de intervalo para uma<br />
refeição. essa lei só era aplicável ao setor algodoeiro (42) .<br />
além das máquinas existentes serem bastante rudimentares, perigosas e fáceis<br />
de provocar acidentes, deve-se considerar ainda a inexistência de uma legislação<br />
disciplinadora da jornada de trabalho, das condições de periculosidade<br />
e insalubridade e do trabalho do menor e da mulher, a pouca formação dos<br />
trabalhadores e as dificuldades de se transformar os trabalhadores agrícolas e/<br />
ou infantis em um contingente de trabalhadores industriais.<br />
o ano de 1819 é uma data importante na história do movimento operário inglês, com<br />
as Manifestações populares em Manchester que reivindicavam direitos políticos<br />
e sociais aos trabalhadores e provocaram a criação das primeiras associações<br />
de defesa dos direitos dos operários ingleses, ainda sob a influência do<br />
pensamento cooperativista de robert owen (43) (Report to the Country of<br />
Lanark, 1820): Grand Union of Spiners (1829); National Association for the<br />
Protection of Labour (1830);Grand National Consolidated Trades Union<br />
1834) (44) .<br />
decorrência ainda dessas primeiras associações de trabalhadores, surgiu<br />
o “Movimento cartista” (45) , organizado pela “Associação dos Operários”, cuja<br />
principal bandeira era a defesa de melhores condições de trabalho:<br />
• a limitação de oito horas para a jornada de trabalho<br />
• a regulamentação do trabalho feminino<br />
• a extinção do trabalho infantil<br />
• a folga semanal<br />
• o salário mínimo<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 45
o cartismo, movimento dos liberais radicais, defendia a ampliação dos<br />
direitos políticos, o sufrágio universal masculino, a extinção da exigência<br />
de propriedade para integrar o parlamento e o fim do voto censitário. esse<br />
movimento se destacou por sua organização e por sua forma de atuação,<br />
chegando a conquistar diversos direitos políticos para os trabalhadores. no<br />
entanto, o cartismo não era apenas a defesa dos direitos políticos, nas palavras<br />
do pastor metodista Stephens: “... o cartismo é uma questão de garfo e faca,<br />
a carta significa boa moradia, comer bem e beber bem, bons salários e uma<br />
jornada de trabalho curta”. (46)<br />
o Factory Act of 1833 regulamentou a jornada de trabalho, inicialmente<br />
visando às manufaturas de algodão, lã, linho e seda. os itens mais importantes<br />
constantes deste Factory act, que ficou conhecido como a “lei das Fábricas”,<br />
foram:<br />
• o dia normal de trabalho nas fábricas devia começar às cinco e meia da<br />
manhã e acabar oito e meia da tarde;<br />
• dentro dos limites deste período de quinze horas, estava autorizado<br />
o emprego de adolescentes (isto é, indivíduos entre os 13 e os 18 anos),<br />
durante o dia;<br />
• exceto em certos casos especiais e previstos na lei, os adolescentes não<br />
poderiam trabalhar mais de 12 horas por dia;<br />
• o emprego de menores abaixo dos 9 anos ficou proibido;<br />
• o trabalho de menores entre 9 e 13 anos ficou limitado a oito horas por<br />
dia;<br />
• o trabalho noturno (ou seja, entre as oito e meia da noite e às cinco e meia<br />
da manhã) ficou proibido a todos os menores, entre os 13 e 18 anos;<br />
• cada adolescente passou a ter, diariamente, pelo menos, hora e meia para<br />
as refeições.<br />
a “lei das Fábricas” previa a criação do Factory inspectorate (inspetor de<br />
Fábrica), com a atribuição de controlar a idade de admissão de crianças nas<br />
fábricas no ano seguinte (1834), o governo inglês nomeou o primeiro inspetor<br />
de fábricas para certificar a idade das crianças empregadas. (47)<br />
46<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
(46) Engels, Fredecick: F.: ”A Situação das<br />
Classes trabalhadoras na Inglaterra”, Global<br />
Editora, São Paulo, 1986, pág , 258.<br />
(47) Foi nomeado o médico inglês médico<br />
Robert Baker, que recomendou, a várias<br />
indústrias, a contratação de um médico para<br />
visitar os locais de trabalho diariamente.
a legislação inglesa de regulamentação do trabalho, de 1833, não se aplicava<br />
às minas de carvão, onde era bastante frequente o emprego de crianças com<br />
menos de sete anos. O Children’s Employment Commission, First Report, 1842,<br />
teve um grande impacto na sociedade inglesa. O Mines Act of 1842 marcou o<br />
início de uma legislação para regulamentar o trabalho em um setor econômico<br />
fundamental para o processo de industrialização inglês. o trabalho nas minas<br />
era altamente danoso para a saúde e a segurança dos trabalhadores, desde a<br />
antiguidade, como demonstram os trabalhos mencionados anteriormente e,<br />
depois da revolução industrial, passou a empregar mulheres e crianças. com<br />
o Mines Act, o trabalho de mulheres foi legalmente proibido e a idade mínima<br />
exigida para crianças passou a ser de 10 anos.<br />
curiosamente, foi a obrigação legal de certificação da idade mínima para o<br />
trabalho fabril que abriu, mais tarde, as portas das fábricas aos médicos. na<br />
escócia, em 1842, a tecelagem administrada por James Smith contratou um<br />
médico que, antes da admissão, deveria examinar os trabalhadores menores,<br />
além de realizar exames periódicos, visitar o local de trabalho diariamente e<br />
fornecer orientações sobre problemas de saúde. iniciava-se aí o que viria a ser<br />
conhecido posteriormente como as funções do médico do trabalho.<br />
a partir de 1830, a produção industrial se expandiu muito rapidamente e<br />
ultrapassou as fronteiras inglesas. entretanto, em cada país, o desenvolvimento<br />
industrial adquiriu uma feição diferenciada, de acordo com as condições<br />
econômicas, sociais e culturais de cada região. essas diferenças provocavam,<br />
contudo, conflitos similares, em todas as regiões, entre trabalhadores e<br />
empresários, forçando o aprimoramento e a melhoria das relações de trabalho<br />
e das condições nas quais o mesmo era realizado. com o objetivo de diminuir<br />
os danos provocados pelas atividades fabris, começaram a surgir, nos países<br />
mais industrializados, legislações para prevenir e/ou indenizar os acidentes de<br />
trabalho.<br />
esse movimento só ocorreu por pressões econômicas e sociais. Pelo enfoque<br />
econômico, as pressões visavam garantir maior competitividade entre as<br />
empresas, interessadas em diminuir o afastamento dos trabalhadores, por<br />
acidentes ou doenças de trabalho. as maiores preocupações se referiam a<br />
eventuais riscos de doenças infecto-contagiosas (tifo, tuberculose e cólera);<br />
à exploração do trabalho infantil e feminino e à frequência, à gravidade e à<br />
letalidade dos acidentes de trabalho nas minas e nos estabelecimentos fabris.<br />
Sob o ponto de vista social, existiam as aspirações dos trabalhadores no sentido<br />
de obter em uma legislação mais protetora, seja no que se refere às relações de<br />
trabalho, às de segurança e à previdência social.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 47
o Factory Act de 1844 limitou a 12 horas a jornada de trabalho das mulheres<br />
com menos de 18 anos e proibiu o trabalho feminino noturno até essa faixa<br />
etária. e, para evitar abusos, introduziu o relógio nas fábricas (48) e regulamentou<br />
a jornada diária de trabalho dos menores de 13 anos a 6 horas e meia.<br />
neste período, intensificaram-se as reivindicações dos trabalhadores nos<br />
terrenos ideológicos e político-sociais, culminando com a conquista do voto<br />
secreto e do sufrágio universal, permitindo a eleição de representantes dos<br />
trabalhadores nas casas legislativas, assim como as votações de atos que<br />
interferiam direta ou indiretamente no cotidiano fabril. a associação geral<br />
dos operários de londres (London Working Men’s Association) publicou, em<br />
1838, a carta do Povo, contendo entre seus seis pontos principais: o sufrágio<br />
universal para todos os homens adultos, sãos de espírito e não condenados<br />
por crime, e o voto secreto (49) . São desta fase: a análise dos acidentes de<br />
trabalho e os exames de admissão (50) ; o primeiro contrato coletivo de trabalho<br />
dos operários ingleses, assinado em 1862; a lei de acidentes do Trabalho; a<br />
regulamentação da jornada máxima; o descanso semanal; a assistência médica<br />
de urgência; a obrigatoriedade da higiene nos estabelecimentos industriais e<br />
criação de jurisdição especial para resolver os conflitos individuais do trabalho.<br />
após uma longa luta encabeçada pelo Ten Hour Mouvement, para redução da<br />
jornada de trabalho, a rainha Vitória (51) promulgou, em 1847, o Ten hour act,<br />
adotando a jornada de 10 horas na inglaterra.<br />
a alemanha enfrentava um processo de industrialização similar ao da inglaterra,<br />
porém com menor intensidade do desenvolvimento tecnológico. nessa época,<br />
a alemanha não havia sido unificada (52) e era constituída por 39 pequenos<br />
reinos, ducados e cidades livres, dentre esses a Prússia, que liderava a revolução<br />
industrial. as regiões mineradoras alemãs dos vales de ruhr e Wupper já eram<br />
bastante desenvolvidas. colônia e Frankfurt am Main eram centros urbanos<br />
importantes; hamburgo, Bremen e roterdã já eram portos com grandes<br />
movimentos comerciais e a região do ruhr e Barmen-elberfeld (Wuppertal),<br />
pólos têxteis significativos. as condições de trabalho (53) eram bastante<br />
parecidas às da inglaterra e os acidentes de trabalho corriqueiros. este quadro<br />
econômico convivia com importantes movimentos de trabalhadores . em<br />
1865, no meio de turbulentas manifestações contra as condições de trabalho,<br />
o governo da alemanha (Prússia) aprova a “Lei de Indenização Obrigatória<br />
dos Trabalhadores”, definindo a responsabilidade dos empregadores pelo<br />
pagamento dos acidentes, ocorridos durante a jornada de trabalho. a França<br />
já havia regulamentado, desde 1862, as questões de higiene e a segurança do<br />
trabalho.<br />
48<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
(48) Os relógios da fábrica deveriam ser<br />
regulados pela hora de um relógio público<br />
(por exemplo, o da estação ferroviária mais<br />
próxima).<br />
(49) Engels,F.: ‘”A Situação das Classes<br />
trabalhadoras na Inglaterra”, Global Editora,<br />
São Paulo, 1986, pág 27.<br />
(50) Atribuídas ao industrial medical officers,<br />
a partir de 1855.<br />
(51) Rainha Vitória, coroada em 1837 e reinou<br />
até 1901.<br />
(52) A Alemanha se unificou em 1871, quando<br />
a Prússia venceu a Guerra Franco-Prussiana, por<br />
Otto Bismarck.<br />
(53) Frederick Engels, publica em 1844, o<br />
trabalho Die Lage der Arbeitenden Klasse in<br />
England (A Situação das Classes trabalhadoras<br />
na Inglaterra) e Karl Marx, em 1848, publica,<br />
também em alemão, Das Kommunistische<br />
Manifest (O Manifesto Comunista).
(54) Louis .René.Villermé (Paris 1782 – Paris<br />
1863), médico francês que escreveu: Quadro<br />
do Estado Físico e Moral dos Operários<br />
Empregados nas Indústrias de Algodão, Lã<br />
e Seda, um estudo sobre as condições de<br />
trabalho . Foi um dos fundadores dos Annales<br />
d’Hygiène Publique , em 1829.<br />
a conquista dos direitos civis, a liberdade de livre associação e as manifestações<br />
representativas contra as péssimas condições de trabalho provocaram uma<br />
série de iniciativas governamentais e empresariais, para diminuir os problemas<br />
enfrentados nas fábricas. em 1873, na alemanha (Molhause), foi criada a<br />
primeira associação de higiene e Prevenção de acidentes, cujo objetivo<br />
principal era evitar o acidente e amparar o trabalhador acidentado. dez anos<br />
depois, em 1883, emílio Muller fundou em Paris a associação de industriais<br />
contra os acidentes de Trabalho. e, na inglaterra, em 1897, foi fundado o<br />
comitê Britânico de Prevenção, que iniciou uma série de pesquisas relativas a<br />
materiais aplicados em construções.<br />
É inegável o papel dos estudos sobre as condições de trabalho em diferentes<br />
setores, especialmente no setor têxtil, para sensibilizar a opinião pública quanto<br />
às reivindicações sobre melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.<br />
em 1840, teve grande impacto o estudo do médico fancês louis rené<br />
Villermé: “Tableau de l’état physique et moral des ouvriers employés dans les<br />
manufactures de coton, de laine et de soie” (54) , cuja apresentação na academia<br />
Francesa das ciências Morais e Políticas sensibilizou a opinião pública e levou<br />
à promulgação da primeira lei francesa, limitando a 8 anos a idade mínima para<br />
o trabalho nas fábricas francesas (1841), mas somente naquelas com mais de<br />
20 empregados. embasou, ainda, a primeira lei de urbanismo francesa que<br />
proibiu, em 1859, a locação de imóveis insalubres.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 49
na segunda metade do século XiX, as questões de saúde pública ocuparam<br />
lugar de destaque. os governos passaram a preconizar e a implantar, de<br />
maneira mais sistemática, medidas para garantir a queda das doenças infectocontagiosas.<br />
Edwin Chadwick (55) produziu importantes relatórios sobre as<br />
condições sanitárias da classe trabalhadora na inglaterra. no seu relatório<br />
“Enquiry into the Sanitary Condition of the Labouring Population of Great<br />
Britain” (1842), chamou a atenção sobre a total ausência de hábitos de<br />
higiene pessoal e de saneamento básico na nova família operária, alertando<br />
a necessidade premente de controle e prevenção das frequentes epidemias<br />
de tifo, varíola e cólera, assim como da adoção de medidas para melhoria<br />
das condições sanitárias da população em geral, sugerindo medidas como<br />
o abastecimento de água potável, a rede de saneamento básico, a utilização<br />
de desinfetantes, a coleta do lixo nas grandes aglomerações urbanas,<br />
a vacinação, a criação da inspeção do trabalho e da autoridade de saúde a nível<br />
local, a proteção da saúde materno-infantil, a educação sanitária, a luta contra<br />
a tuberculose, etc.<br />
a obrigatoriedade da notificação das doenças profissionais foi instituída pela<br />
primeira vez, na inglaterra, através da Factory and Workshop Act of 1895,<br />
que determinava exames médicos periódicos aos trabalhadores expostos<br />
ao chumbo, ao fósforo e outras substâncias perigosas. dois anos depois, o<br />
Workmen’s Compensation Act (56) institucionalizou a indenização ao trabalhador<br />
em caso de incapacidade por acidente de trabalho, embora só mencionasse<br />
um conjunto reduzido de ocupações. essa lei foi ampliada em 1906, passando<br />
a considerar, também, algumas doenças profissionais como passíveis de<br />
indenização, embora fossem bastante reduzidos os fatores de risco aceitos<br />
como agentes das doenças: antraz, chumbo, mercúrio, fósforo e arsênio.<br />
a alemanha de Bismarck foi o primeiro país a adotar uma proteção social mais<br />
ampla para seus trabalhadores, promulgando os primeiros seguros sociais<br />
obrigatórios, para doença (1883), acidentes de trabalho (1884), invalidez e<br />
velhice (1889), e uma legislação mais específica sobre condições de trabalho<br />
(1889-91).<br />
as medidas de legislação de proteção social dos trabalhadores, adotadas pelos<br />
diferentes países europeus, foram claramente motivadas por razões tanto<br />
ideológicas quanto políticas e econômicas: pressão da organização operária e<br />
sindical de um lado e da ação autorreguladora do sistema econômico, político<br />
e ideológico vigente, preocupada em assegurar uma certa estabilidade social,<br />
face às brutais transformações operadas pela industrialização - decadência<br />
da aristocracia e emergência da burguesia financeira, comercial e industrial;<br />
50<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
(55) Louis .René.Villermé (Paris 1782 – Paris<br />
1863), médico francês que escreveu: Quadro<br />
do Estado Físico e Moral dos Operários<br />
Empregados nas Indústrias de Algodão, Lã<br />
e Seda, um estudo sobre as condições de<br />
trabalho . Foi um dos fundadores dos Annales<br />
d’Hygiène Publique , em 1829.<br />
(56) 1897.
(57) O estado de New Jersey foi o primeiro a<br />
aprovar em 1911.<br />
(58) Alemanha (1884); Inglaterra (1897 - 1898);<br />
Suécia (1901); Estados Unidos(1911); Portugal<br />
(1913).<br />
urbanização crescente e explosão demográfica; miséria, ausência de condições<br />
de higiene, saneamento básico e habitação; incidência de doenças infectocontagiosas<br />
e riscos ligados ao trabalho fabril; conflitos sociais e políticos; crises<br />
econômicas; competição internacional, criação do estado-nação, expansão<br />
colonial e imperialismo.<br />
nos demais países europeus, as disposições legais sobre inspeção do trabalho<br />
começam a ser adotadas, na segunda metade do século XiX ou no início do século<br />
XX: dinamarca (1873), França (1874), alemanha (1878), Suíça (1878), áustria<br />
(1887), Bélgica (1888), holanda (1888), Suécia (1889), Portugal (1895/1897),<br />
rússia Soviética (1918). a workmen’s compensation Law dos estados unidos é<br />
de 1908, embora a sua aplicação fosse limitada aos trabalhadores do governo<br />
federal e, somente paulatinamente, os diferentes estados tenham aprovado<br />
legislação nesta área (57) .<br />
É importante ressaltar que, durante várias décadas, tanto a legislação<br />
quanto a inspeção do trabalho e a própria organização dos trabalhadores<br />
encaravam a prevenção dos acidentes de trabalho e as indenizações das<br />
doenças profissionais, como uma reparação (médico-legal) dos riscos a que os<br />
trabalhadores estavam sujeitos durante o trabalho fabril diário.<br />
o desenvolvimento da área científica e profissional que conhecemos,<br />
atualmente, por Segurança e Saúde do Trabalho, está diretamente ligado tanto<br />
à criação da inspeção do trabalho quanto à regulamentação das indenizações<br />
dos acidentes e das doenças profissionais (58) .<br />
nesse período, a chamada Segunda revolução industrial, baseada na<br />
eletricidade, na química, no automóvel, na refinação do petróleo e na produção<br />
em série, colocou a inglaterra em desvantagem industrial em relação a países<br />
como França, alemanha e estados unidos.<br />
os estudos sobre o campo magnético e a corrente elétrica, no início do Século<br />
XiX, permitiram, a partir de 1840, as descobertas do telégrafo elétrico, do<br />
dínamo, do motor elétrico, e da lâmpada incandescente. Foi necessário quase<br />
um século para que a eletricidade fosse empregada como a principal fonte de<br />
energia industrial, pois sua utilização exigia um sistema de geração, transmissão<br />
e distribuição com custos de implantação bastante elevados. a difusão da<br />
eletricidade contribuiu para a concentração industrial, tanto permitindo<br />
a ampla exploração da economia de escala, quanto a criação de grandes<br />
empresas inovadoras que monopolizaram o recente setor de equipamentos<br />
para geração, transmissão e distribuição da energia elétrica.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 51
o avião, o automóvel, o caminhão e o trator tiveram origem a partir do motor<br />
à combustão interna. o grande sucesso do motor à gasolina colocou em cena<br />
as empresas petrolíferas, com atividades integradas de exploração, transporte,<br />
refino e distribuição. o motor de combustão interna que trabalha com os<br />
princípios da termodinâmica e com os conceitos de compressão e expansão de<br />
fluídos gasosos, para gerar força e movimento rotativo, foi criado e patenteado<br />
por nikolau august otto, em 1866.<br />
a itália desempenhou um importante papel na formulação de conceitos e nas<br />
ações práticas que permitiriam o desenvolvimento da segurança e medicina e<br />
da segurança do trabalho. o médico genovês luigi devoto (59) criou, em 1901,<br />
a primeira revista dedicada à segurança e saúde no trabalho: Il Lavoro - Revista<br />
di fisiologia, clínica ed igiene del lavoro (Hoje, La Medicina del Lavoro). Foi,<br />
também, a itália que sediou, em 1906, o primeiro Congresso Internacional das<br />
Doenças do Trabalho, que fundou a Commissione Internazionale per le Malattie<br />
Professionali, embrião da atual International Commission on Occupational<br />
Health (ICOH) e a Clinica del Lavoro, em Milão (1910), ambas fruto do trabalho<br />
de luigi devoto. em 1920, foi fundada a Società tragli Amici della Clinica del<br />
Lavoro, com o objetivo principal de promover o estudo e a prática da medicina<br />
do trabalho. durante um longo período, a preocupação médica em relação<br />
aos trabalhadores era muito mais direcionada para os problemas de reparação<br />
de lesões ou doenças específicas do que para a prevenção dos riscos e fatores<br />
de risco no local de trabalho e da fadiga, devido às longas horas de trabalho<br />
diário (60) .<br />
52<br />
Luigi Devoto<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
(59) Médico italiano (Genova 1894 – Milão<br />
1936). Dedicou seus estudos e sua prática<br />
profissional à higiene e à medicina do trabalho,<br />
tendo fundado a primeira revista e o primeiro<br />
instituto dedicados à saúde e à segurança dos<br />
trabalhadores.<br />
(60) In Graça, Luiz: Europa: Uma<br />
Tradição Histórica de Protecção Social dos<br />
Trabalhadores. II Parte: O Nascimento da<br />
Medicina do Trabalho, 2000, Sociedade<br />
Portuguesa de Medicina do Trabalho, Lisboa.
(61) Louis Auguste Blanqui (Nice 1805 – Paris<br />
1881), teórico, republicano, socialista francês.<br />
(62) Édouard Antoine Ducpétiaux, (Bruxelas<br />
1804 – Bruxelas 1868), journalista belga, autor<br />
do trabalho « De la Peine de Mort « (1827).<br />
(63) Rerum Novarum : sobre a condição dos<br />
operários (Reum Novarum - “Das Coisas<br />
Novas”), encíclica do Papa Leão XIII, de<br />
1891, debatendo as condições das classes<br />
trabalhadoras. Trata de questões da revolução<br />
industrial e das sociedades democráticas no<br />
final do século XIX. Apoiava o direito dos<br />
trabalhadores organizarem sindicatos, rejeitava<br />
o socialismo e defendia o direito à propriedade<br />
privada. Discutia, ainda, as relações entre o<br />
governo, os negócios, o trabalho e a Igreja.<br />
(64) Essa Associação seria o embrião da futura<br />
Organização Internacional do Trabalho, fundada<br />
em 1919.<br />
(65) As duas primeiras convenções<br />
internacionais de trabalho regulavam o trabalho<br />
noturno feminino e proibiam o fósforo branco<br />
na indústria de fabrico de máquinas.<br />
(66) A Conferência foi realizada em 1913.<br />
com a expansão da indústria para toda a europa e para os estados unidos,<br />
cresceram os movimentos para a adoção de convenções internacionais<br />
que regulamentassem o trabalho. no início do século 19, robert owen, na<br />
inglaterra, louis auguste Blanqui (61) e louis rené Villermé, na França, e<br />
Édouard antoine ducpétiaux (62) , na Bélgica, foram os precursores da defesa<br />
da regulamentação internacional do trabalho. a defesa da adoção das<br />
convenções internacionais está diretamente relacionada ao período histórico<br />
em que prevalecia a tese de que o estado tinha por finalidade assegurar um<br />
mínimo de direitos irrenunciáveis.<br />
a revolução Francesa de 1789 implantou o princípio da igualdade jurídico<br />
política de todos os cidadãos, valorizando a liberdade de contratar. essa<br />
realidade facilitou a defesa de uma intervenção efetiva do estado nas relações<br />
de trabalho, como uma tentativa de garantir direitos básicos aos cidadãos. o<br />
sentimento de que, na prática, o trabalhador era a parte menos favorecida<br />
no contrato de trabalho, muitas vezes sem qualquer direito, provocou um<br />
movimento de juristas e filósofos da época, conhecido como a “Questão<br />
Social”, que procurava implantar soluções para os problemas decorrentes das<br />
relações de trabalho.<br />
nesse contexto, a partir da segunda metade do século XiX, ganharam eco<br />
as propostas de internacionalização dos direitos trabalhistas. Surgidas através<br />
de robert owen e dos precursores franceses e belgas, repercutiram até a<br />
internacional comunista. iniciativas de defesa da regulamentação internacional,<br />
entre as quais se inclui a do Papa leão Xiii (encíclica rerum novarum) (63) ,<br />
ganharam força com a proposta do governo da Suíça para a convocação de<br />
uma conferência sobre o assunto. essa conferência foi realizada em Berna,<br />
em 1890, e acabou culminando na criação da associação internacional para<br />
a Proteção legal dos Trabalhadores (64) , com sede em Basiléia (Suíça), que<br />
foi responsável pelo primeiro tratado bilateral entre a França e a itália (1909),<br />
pela realização das conferências de Berna, a partir de 1905, e pelas primeiras<br />
convenções internacionais (1906) (65) .<br />
a conferência (66) seguinte, também realizada em Berna, aprovou dois projetos<br />
de convenções internacionais: um, proibindo o trabalho noturno aos menores e<br />
o segundo, limitando em 10 horas a jornada diária das mulheres e dos menores.<br />
estas convenções deveriam ser assinadas no ano seguinte, o que não ocorreu,<br />
por ter eclodido a iª guerra Mundial.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 53
a chegada do século XX alterou o cenário da produção<br />
e do comércio mundial, com a crescente industrialização<br />
americana, refletindo-se na importância internacional dos<br />
países.<br />
em 1913, henry Ford inaugurou sua linha de montagem<br />
de automóveis, nos estados unidos. os carros eram<br />
todos do mesmo modelo e cor (preta). a padronização<br />
adotada tinha o objetivo de facilitar a montagem e limitar<br />
a diversidade de estoque dos componentes. a linha de<br />
montagem implantada, segundo os princípios tayloristas,<br />
reduziu de 12½ horas para 93 min a montagem de um<br />
chassi pelo trabalhador.<br />
estava instalado o fordismo e o taylorismo (67) , formas<br />
de organização da produção em série, que dominaram<br />
durante décadas o sistema produtivo mundial. o controle<br />
do tempo e as tarefas repetitivas foram objeto de sátira<br />
do grande charles chaplin, no filme ‘Tempos Modernos”.<br />
Foram, também, responsáveis por novos fatores de risco<br />
e doenças profissionais. o avanço tecnológico não foi<br />
seguido por formas de organização e gestão da produção,<br />
capazes de preservar com mais intensidade a integridade<br />
humana.<br />
os estados unidos integraram as negociações para<br />
o estabelecimento da paz, após a 1a guerra. dentre<br />
os temas relevantes, estava a universalização do trabalho.<br />
a conferência de Paz criou a comissão de legislação<br />
internacional do Trabalho, com o objetivo de iniciar<br />
estudos para viabilizar essa proposta. esta comissão foi<br />
integrada por representantes dos estados unidos, França,<br />
inglaterra, Japão, Bélgica, itália, checoslováquia, Polônia<br />
e cuba, tendo sido presidida por Samuel gompers, dos<br />
estados unidos.<br />
54<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />
máscara mortuária de Blanqui
(67) Fordismo/taylorismo: forma de organização<br />
e controle da produção adotada por Henri Ford<br />
e Frederick Taylor.<br />
inglaterra, França, itália, e estados unidos apresentaram diferentes projetos<br />
para o funcionamento da organização. as diferenças tinham como base a<br />
visão do papel do estado nas relações de trabalho: França e itália ressaltaram<br />
o papel dos governos no funcionamento do organismo e na conseqüente<br />
evolução das leis de proteção ao trabalho; estados unidos defenderam<br />
a livre negociação entre patrões e empregados, na solução dos problemas e na<br />
melhoria das condições de trabalho; a inglaterra apresentou o projeto adotado<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 55
pela comissão, de um organismo tripartite, composto por representantes<br />
governamentais, patronais e dos trabalhadores, que votariam individual e<br />
independentemente.<br />
o Tratado de Versalhes, nos artigos 387 a 399 da Parte Xiii, adotou a proposta<br />
e determinou a criação da organização internacional do Trabalho, autorizada<br />
a elaborar convenções e recomendações na área do trabalho. em outubro de<br />
1919, foi realizada a 1a conferência internacional do Trabalho, em Washington,<br />
que adotou as primeiras convenções e recomendações, que deveriam ser<br />
ratificadas pelos países membros da Sociedade das nações.<br />
o preâmbulo da Parte Xiii do Tratado de Versalhes afirmava: “Considerando<br />
que a Sociedade das Nações tem por objetivo estabelecer a paz universal e que<br />
tal paz não pode ser fundada senão sobre a base da justiça social; em atenção<br />
a que existem condições de trabalho que implicam para um grande número de<br />
pessoas em injustiça, miséria e privações, e que origina tal descontentamento<br />
que a paz e a harmonia universais correm perigo; em vista de que é urgente<br />
melhorar essas condições (por exemplo, no que concerne à regulamentação<br />
das horas de trabalho, à fixação de uma duração máxima da jornada e da<br />
semana de trabalho, ao aproveitamento da mão-de-obra, à luta contra o<br />
desemprego, à garantia de um salário que assegure condições convenientes<br />
de existência, à proteção dos trabalhadores contra as enfermidades gerais ou<br />
profissionais e os acidentes resultantes do trabalho, à proteção das crianças,<br />
dos adolescentes e das mulheres, às pensões de velhice e de invalidez, à defesa<br />
dos interesses dos trabalhadores ocupados no estrangeiro, à afirmação do<br />
princípio da liberdade sindical, à organização do ensino profissional e técnico<br />
e outras medidas análogas); tendo presente que a não adoção por uma nação<br />
qualquer de um regime de trabalho realmente humanitário é um obstáculo<br />
aos esforços das demais desejosas de melhorar a sorte dos trabalhadores nos<br />
seus próprios países; as Altas Partes Contratantes, movidas por sentimentos de<br />
justiça e humanidade, assim como pelo desejo de assegurar uma paz duradoura<br />
e mundial, convencionaram o que segue ...” e, em seguida, apresentava a<br />
composição, a estrutura e as finalidades organização.<br />
56<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial
Assinatura do Tratado de Versalhes, na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes.<br />
com o advento da indústria, surgiram problemas humanos e sociais que não<br />
encontravam soluções nas ciências, nem na tecnologia, nem na medicina. Foi<br />
um momento de criação do arcabouço teórico do direito Trabalho, da Medicina<br />
do Trabalho e da engenharia de Segurança. cada conjunto de conhecimentos<br />
contribuiu e contribui, à sua maneira, para melhorar as condições de trabalho<br />
e de vida da sociedade.<br />
Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 57
Capítulo II<br />
No Brasil
II. No Brasil<br />
enquanto, na europa e nos estados unidos, avançavam as aplicações do<br />
desenvolvimento tecnológico e a revolução industrial se consolidava, no Brasil,<br />
as relações de trabalho ainda eram majoritariamente baseadas no trabalho<br />
escravo.<br />
com uma economia colonial, agrária exportadora, monocultora e produção<br />
baseada em latifúndios, o Brasil – colonial e imperial – pouca ou quase nenhuma<br />
preocupação dedicou às condições de trabalho e de vida daqueles que não<br />
integravam a corte.<br />
a principal atividade econômica durante os primeiros séculos era agrícolaextrativa,<br />
seguida da mineração, utilizando a mão de obra escrava. os escravos<br />
viviam nas senzalas, amontoados em bandos, em péssimas condições de<br />
higiene e salubridade. Trabalhando principalmente em canaviais e engenhos,<br />
realizavam o trabalho físico pesado e não exigiam de seus proprietários<br />
nenhuma iniciativa que lhes assegurasse melhores condições de trabalho.<br />
a preocupação com a saúde dos escravos só surgia em épocas de epidemias<br />
de febre amarela que costumava assolar os estados produtores de açúcar.<br />
a seleção dos escravos era feita pelos próprios interessados nos entrepostos<br />
de recebimento de negros capturados na áfrica. as condições de transporte<br />
eram extremamente rudimentares, objetivando apenas transportar o maior<br />
número de escravos possível dentro dos navios.<br />
Quando os negros chegavam ao Brasil, o exame físico mais detalhado era<br />
o dentário, seguido de uma inspeção para detectar eventuais possibilidades<br />
de doenças contagiosas ou não. o tratamento dispensado aos escravos estava<br />
condicionado a três variáveis:<br />
• o preço pago por ele;<br />
• a capacidade individual de trabalho de cada escravo;<br />
• a rentabilidade da produção escravista no mercado.<br />
Capítulo II | No Brasil 61
o trabalho escravo tinha a duração de até 18 horas por dia e estava relacionado<br />
à capacidade de produção no menor período de tempo. os donos de escravos<br />
tinham o direito de lhes aplicar castigo físico, com o objetivo de caracterizar<br />
sua submissão ao trabalho e aos proprietários, não havendo interferência do<br />
poder público.<br />
as atividades de controle sanitário no Brasil iniciaram-se no século XVi, de<br />
acordo com o modelo adotado em Portugal, que priorizava o controle dos<br />
ofícios de físico, cirurgião e boticário e a arrecadação de emolumentos (1) .<br />
a limpeza das cidades, controle da água e do esgoto, comércio de alimentos,<br />
abate de animais e controle das regiões portuárias eram de atribuição das<br />
câmaras Municipais.<br />
Quando se iniciaram as restrições ao tráfico negreiro, o Príncipe regente<br />
d.João Vi, assinou em 24 de novembro de 1813, o “Alvará com força de lei pelo<br />
qual Vossa Alteza Real ha por bem regular a arqueação dos navios, empregados<br />
na conducção dos negros que dos portos de Africa se exportam para os do<br />
Brazil; dando Vossa Alteza Real, por effeito dos seus incomparaveis sentimentos<br />
de humanidade e beneficência as mais saudáveis e benignas providencias em<br />
beneficio daquelles indivíduos ... (..) ... tendo-me sido presente o tratamento<br />
duro e inhumano, que no transito dos portos africanos para os do Brazil soffrem<br />
os negros que delles se extrahem; chegando a tal extremo a barbaridade e<br />
sordida avareza de muitos dos Mestres das embarcações que os conduzem,<br />
que, seduzidos pela fatal ambição de adquirir fretes e de fazer maiores ganhos,<br />
sobregarregam os navios, admittindo nelles muito maior número de negros do<br />
que podem convenientemente conter; faltando-lhes com alimentos necessarios<br />
para a subsistencia delles, não só na quantidade, mas até na qualidade, por<br />
lhes fornecerem generos avariados e corruptos, que podem haver mais em<br />
conta; resultando de um tão abominavel trafico, que se não pode encarar sem<br />
horror e indignaçao, manifestarem-se enfermidades, que, por falta de curativo e<br />
conveniente tratamento, não tardam a fazerem-se epidemicas e mortaes, como<br />
a experiencia infelizmente tem mostrado: não podendo os meus constantes<br />
e naturaes sentimentos de humanidade e beneficencia tolerar a continuação<br />
de taes actos de barbaridade, commettidos com manifesta transgressão dos<br />
direitos divino e natural, e régias disposições dos Senhores Reis meus Augustos<br />
Progenitores, transcriptas nos Alvarás de 18 de Março de 1684 e na Carta de Lei<br />
do 1° de Julho de 1730, que mando observar em todas aquellas partes que por<br />
este meu alvará não forem derogadas ou substituidas por outras disposições<br />
mais conformes ao presente estado das cousas, e ao adiantamento e perfeição<br />
a que tem chegado os conhecimentos physicos e novas descobertas chimicas,<br />
62<br />
Capítulo II | No Brasil<br />
(1) Gomes, M.F dos Santos e all:<br />
“O Planejamento do Processo de<br />
Descentralização das Ações da Vigilância<br />
Sanitária de Medicamentos no Estado do Rio<br />
de Janeiro” in http://bvsms.saude.gov.br/<br />
bvs/publicacoes/premio2004/especializacao/<br />
MonografiaMicheleRamos.<strong>pdf</strong>
maiormente na parte que respeita ao importante objecto da saude publica: sou<br />
servido determinar e prescrever as seguintes providencias, que inviolavelmente<br />
se deverão observar e cumprir.<br />
I. Convindo para a saude e vida dos negros que dos portos de Africa se<br />
conduzem para os deste Estado do Brazil, que elles tenham, durante a<br />
passagem, logar sufficiente em que possam recostar, e gozar daquelle descaço<br />
indispensavel para a consevação delles, não devendo as dimensões do espaço<br />
necessário para aquelle fim depender do arbitrio ou capricho dos Mestres<br />
das embarcações, supppostos os motivos que já ficam referidos: hei por bem<br />
determinar, conformando-me às proporções que outros Estados illuminados<br />
estabeleceram relativamente a este objecto, e que a experiencia constante<br />
manifestou corresponder aos fins que tenho em vista; que os navios que se<br />
empregarem no transporte dos negros, não hajam de receber maior número<br />
delles, do que aquelle que corresponder à proporção de cinco negros por cada<br />
duas toneladas; e esta proporção só terá logar até a quantia de 201 toneladas;<br />
porque a respeito das toneladas addicionaes, além das 201 que acima ficam<br />
mencionadas, permitto que sómente se admitta um negro por cada tonelada<br />
addicional. E para prevenir fraudes que se poderiam praticar conduzindo maior<br />
número de individuos do que os que ficam regulados pelas estabelecidas<br />
disposições, e acautelar semelhantemente os extravios dos meus reaes direitos,<br />
e enganos que commettem alguns Mestres de embarcações que conduzindo<br />
negros por sua conta e por conta de particulares, costumam supprir a falta dos<br />
seus proprios negros, quando esta acontece por molestia ou outro qualquer<br />
infortunio, apropriando-se dos negros de outros proprietarios, e fazendo iniqua<br />
e dolosamente soffrer a estes a perda, quando só devia recahir sobre mesmo<br />
Mestre: determino que cada embarcação haja de ter um livro carga, distribuido<br />
da mesma forma dos que servem as fazendas: que na margem esquerda deste<br />
livro de carregue o número dos Africanos que embarcaram, com a distincção<br />
do sexo; declarando-se se são adultos ou crianças; a quem veem consignados,<br />
e indicando-se a marca distinctiva que o denote; devendo ser na columna ou<br />
margem do lado direito que se faça em frente a descarga do individuo que<br />
fallecer, declarando-se a sua qualidade, marca e o consignatario a quem era<br />
remettido.<br />
E repugnando altamente aos sentimentos de humanidade que se permitta que<br />
taes marcas se imprimam com ferro quente: determino que tão barbaro invento<br />
mais se não pratique, devendo substituir-se por uma manilha ou colleira, em<br />
que se grave a marca que haja de servir de distinctivo; ficando sujeitos os que<br />
o contrario praticarem à pena da Ordenação do liv. 5°, tit.36, § 1° in principio.<br />
Capítulo II | No Brasil 63
Para a devida legalidade da escripturação acima indicada, mando que o livro<br />
em que ella se fizer, seja rubricado pelo Juiz da Alfândega ou quem seu logar<br />
fizer no porto de que sahir a embarcação; devendo os Mestres, logo que derem<br />
entrada nos portos deste Estado do Bazil, apresentar este livro às inspecções<br />
e autoridades, que eu para isso houver de estabelecer: e succedendo, que, em<br />
transgressão do que tenho determinado, se introduza maior número de negros<br />
a bordo do que aquelle que fica estabelecido, incorrerão os transgressores nas<br />
penas declaradas pela Carta de Lei do 1° de julho de 1730, que nesta parte<br />
mando que se observe como nellas se contém: e para que possa legalmente<br />
constar se observa esta minha real determinação, mando que as embarcações<br />
empregadas nesta conducção e transporte sejam visitadas ao tempo da sahida<br />
do porto em que carregaram, e o da chegada áquelle a que se destinam, pelos<br />
respectivos Juizes da Alfandega, Intendencia ou daquella autoridade que seu<br />
houver de destinar para aquelle effeito.<br />
II. Importando semelhantemente para a consevação da saude, e para<br />
a precaução e curativo das molestias a assistencia de um hábil Cirurgião: ordeno<br />
que todas as embarcações destinadas para a condução dos negros, levem<br />
um Cirurgião perito; e faltando este, se lhes permittirá a sahida. E convindo<br />
premiar aquelles que pela sua perícia, desvelo e humanidade contribuirem<br />
para a conservação da saude, e para o curativo e restabelecimento dos negros<br />
que se conduzirem para estes portos do Brazil: sou servido determinar, que<br />
succedendo não excedes de dous por cento o número dos que morrerem na<br />
passagem dos portos de África para os do Brazil, haja de se premiar o Mestre<br />
da embarcação com a gratificação de 240$000, e de 120$000 o Cirurgião;<br />
e não excedendo o números de mortos de três por cento, se concederá assim<br />
ao mestre como ao Cirurgião metadade da gratificação qe acima fica indicada,<br />
a qual será paga pelo Cofre da Saúde: e quando succeda que o número dos<br />
mortos seja tal que faça suspeitar descuido, ou na execução das providencias<br />
destinadas para a salubridade dos passageiros, ou no curativo dos enfermos:<br />
determino que o Ouvidor do Crime, a quem mando se apresentem os mappas<br />
necroogicos de cada embarcação, haja e proceder a uma rigorosa devassa,<br />
afim de serem punidos severamenre, na conformidade das leis, aquelles que<br />
se provar terem deicaxo de executar as minhas reaes ordens relativas ao<br />
cumprimento das obrigações que lhes são impostas sobre um tão importante<br />
objecto.<br />
III. Para melhor e mais regular tratamento dos enfermos, e para acautelar<br />
a communicação das moléstias, que por falta de convenientes precauções,<br />
e podem constituir epidemicas, ou tornarem-se mais graves por se prescindir<br />
64<br />
Capítulo II | No Brasil
do preciso trato, aceio e fornecimento de alimentos proprios: determino que<br />
no castello de prôa, ou em outra qualquer parte do navio que se julgar mais<br />
própria, se estabeleça uma enfermaria, para onde hajam de ser conduzidos<br />
os doentes para nella serem tratados, na forma que tenho mandado praticar<br />
a bordo dos navios de guerra; e não sendo possivel que o cuidado e tratamento<br />
dos enfermos se entreguem a pessoas que, incumbidas de outros serviços, não<br />
põem assistir na enfermaria com aquella assiduidade que convém: determino,<br />
ampliando o capitulo 10 da lei de 18 de março de 1684, que se destinem duas,<br />
três ou mais pessoas, segundo o número dos doentes, para que hajam de se<br />
occupar do tratamento delles, e que para isso sejam dispensadas de todo<br />
e qualquer outro serviço.<br />
IV. Para acautelar semelhantemente a introdução de molestias a bordo:<br />
determino que se não admitta a embarque pessoa alguma que padecer<br />
molestia contagiosa, para cujo effeito se deverão fazer os competentes exames<br />
pelo Delegado do Physico-Mór do Reino, quando o haja, e seja da profissão<br />
pelo Cirurgião do navio.<br />
V. Concorrendo essencialmente para a conservação e existência dos indivíduos<br />
que se exportam dos portos de Africa, que os comestiveis que os Mestres das<br />
embarcações devem fornecer á guarnição e passageiros sejam de boa qualidade,<br />
e que na distribuição delles se forneça a cada uma a sufficiente quantidade:<br />
ordeno que os mantimentos que os Mestres se propuzerem a embarcar, hajam<br />
de ser primeiro approvados e examinados em terra na presença do Delegado<br />
do Physico-Mór do Reino, havendo-o, do Medico ou Cirurgião que houver no<br />
logar do porto de embarque, e do Cirurgião do navio; e sendo approvados<br />
os mantimentos, assim pelo que respeita à qualidade como à quantidade,<br />
se requererá ao Governador a competente licença para os embarcar; e por<br />
taes exames, visitas e licenças não pagarão os Mestres emolumentos algns.<br />
E repugnando aos sentimentos de humanidade que se tolere, emquanto a<br />
esta parte, o mais leve desvio e negligencia, e mais ainda que fiquem impunes<br />
taes condescendencias na approvação dos comestiveis, que de ordinario<br />
procede de principios de venalidade, peitas e ganhos illicitos, approvando-se<br />
os que deveriam se rejeitados como nocivos; ordeno mui positivamente aos<br />
Governadores e Capitães Generaes, Governadores, ou aos que suas vezes<br />
fizerem, não concedam licenças para que embarquem taes mantimentos,<br />
constando-lhes que a approvação não fora feita coma devida sinceridade; mas<br />
antes façam proceder a novo exame, participando-me o resultado, afim de que<br />
sejam punidos na conformidade das leis os transgressores dellas: e recommendo<br />
aos Governadores mui efficazmente, que hajam de comparecer, todas as vezes<br />
Capítulo II | No Brasil 65
que as suas occupações lh’o permittirem, a taes averiguações, visitas e exames,<br />
afim de que os empregados subalternos hajam de ser mais exactos e pontuaes<br />
no cumprimento das obrigações que lhe são impostas, na execução das quaes<br />
tanto interessam a humanidade e o bem do meu real serviço.<br />
VI. Posto que o feijão seja o principal alimento que a bordo das embarcações<br />
se fornece aos Africanos, tendo-se reconhecido,pela experiencia, que estes o<br />
repugnam e rejeitam passados, os primeiros dias da viagem, convém que se<br />
reveze, dando-lhes uma porção de arroz, ao menos uma vez por semana, e<br />
misturando o feijão com o milho, alimento que os negros preferem a qualquer<br />
outro, não sendo o mendoby, que entre elles tem primeiro logar, e que portanto<br />
se lhes deve facilitar; fornecendo-se a competente porção de peixe e carne<br />
secca, que igualmente deverá ser de boa qualidade; e para preparo da comida<br />
se empregarão caldeirões de ferro, ficando reprovados os de cobre.<br />
VII. Sendo a falta de uma sufficiente porção de água a que mais custa a supportar,<br />
principalmente a bordo dos navios sobrecarregados de passageiros, e emquanto<br />
se não afastam das adustas Costas de Africa; e tendo-se reconhecido que de uma<br />
tal falta resultam ordinariamente as molestias e a morte de um grande número<br />
de negros, victimas da inhumanidade e avidez dos Mestres das embarcações;<br />
determino que a aguada haja de regurlar-se na razão de duas canadas por<br />
cabeça em cada um dia, assim para beber como para a cosinha, regulandose<br />
as viagens dos portos de Angola, Banguela e Cabinda para este do Rio de<br />
Janeiro a 50 dias, daquelles mesmos portos para a Bahia e Pernambuco de 35<br />
a 40 dias, e três mezes quando o navio venha de Moçambique; e da sobredita<br />
porção de água se deverá fornecer a cada individuo impreterivelmente uma<br />
canada por dia para beber; a saber, meia canada ao jantar e meia canada à ceia:<br />
e querendo que mais se não pratique a barbaridade com que se procedia na<br />
distribuição da água, chegando a inhumanidade ao ponto de espancar aquelles<br />
que, mais afflictos pela sêde, vinham mui apressadamente saciar-se: determino<br />
que, conservando-se a pratica estabelecida para a comida dos negros,<br />
dividindo-se estes em ranchos de 10 cada um, se forneça semelhantemente<br />
a cada rancho a porção da agua que lhe toca, á razão de meia Canadá por<br />
cabeça, assim ao jantar como à ceia; fornedendo-se a cada rancho um vaso de<br />
madeira ou cassengos, que contenha cinco canadas de água.<br />
VIII. Depedendo a conservação da agua, assim pelo que respeita à sua<br />
quantidade, como à sua qualidade, de que as vasilhas, pipas ou toneis, estejam<br />
perfeitamente rebatidas e vedadas, e perfeitamente limpas: determino que<br />
se não se admittam para aguada cascos, que não tenham aquelles requisitos,<br />
devendo excluir-se todos aquelles que tenham servido para vinho, vinagre,<br />
66<br />
Capítulo II | No Brasil
aguardente, ou para qualquer outro uso, que possa contribuir para a corrupção<br />
da agua: e no exame do estado de taes vasilhas, ordeno que se proceda com<br />
a mais rigorosa indagação.<br />
IX. Tendo a experiencia feito reconhecer, que do maior cuidado e vigilancia no<br />
aceio e limpeza das embarcações, e da frequente renovação do ar depende<br />
da manutenção da saude dos navegantes, e ainda mesmo o pessoal interesse<br />
dos proprietarios dos navios, por isso que não recebem frete pelo transporte<br />
dos negros, que morrem na travessia da Conta Leste para os portos deste<br />
Continente: determino que o navio nenhum destinado para a conducção de<br />
negros, haja de sahir dos portos dos meus domínios na Costa da África, sem<br />
que se proceda a um severo exame sobre o estado de aceio em que se achar;<br />
negando-se as competentes licenças de sahida áquelles que não estiverem em<br />
conveniente estado de limpeza; e um semelhante exame se deverá praticar<br />
nos portos onde o navio ou embarcação vier descarregar; ficando sujeitos<br />
ao mesmo exame os Capitães, que transportarem para os portos do Brazil<br />
negros conduzidos de outros portos; pois que não executando as providencias<br />
ordenadas neste alvará, ficarão sujeitos à penas por elle declaradas quanto aos<br />
transgressores.<br />
X. Deverá o Capitão ou Mestre do navio ter particular cuidado e fazer<br />
amiudadamente renovar o ar, por meio de ventiladores, que será obrigado a<br />
levar para aquelle effeito; e deverá semelhantemente o Mestre ou Capitão do<br />
navio ou embarcação fazer conduzir de manhão e de tarde ao tombadilho os<br />
negros que trouxer a bordo, afim de respirarem um ar livre; facilitando-lhes<br />
todos os dias de manhã que forem de nevoa, uma conveniente porção de<br />
aguardente para beberem; obrigando-os a banharm-se pelo meio dia em agua<br />
salgada.<br />
XI. Com o mesmo saudavel intendo de prevenir que as molestias se propaguem<br />
a bordo, e se tornem contagiosas; determino que na ultima visita que se fizer<br />
a bordo antes da sahida do navio que transportar negros dos meus dominios<br />
na Costad’ África, se examine o estado em que se acham aquelles negros;<br />
eque succedendo achar-se algum ou alguns enfermos de molestia que possa<br />
communicar-se ou exigir mais cuidadoso curativo, devam desembarcar para<br />
serem curados em terra: e quando a minha Real Fazenda tenha recebido os<br />
direitos de exportação: mando que o Escrivão da Alfandega ou quem suas vezes<br />
fizer, haja de passar as cautelas necessarias, para que se abonem a quem tocar<br />
os direitos que tiver pago pelo negro ou negros que tiverem desembarcado<br />
depois de os haver pago; descontando-se-lhes taes direitos na sahida de iqual<br />
número de negros que embarcarem nas subsequentes embarcações, bem<br />
Capítulo II | No Brasil 67
entendido que a esta última visita e decisão deverão assistir o Physico-Mór<br />
do Districto, onde o houver, na falta delle o Cirurgião da terra, o do navio o e<br />
Delegado do Physico-Mór do Reino; e por estes Facultativos se passará uma<br />
attestação jurada, em que se declare a enfermidade e mais signaes distinstivos<br />
do negro que mandaram desembarcar, e o número dos que proseguem viagem;<br />
e chegando ao porto a que forem destinados taes navios, deverá o Mestre<br />
ou Capitão apresentar aquella attestação ao Governador e Capitão General,<br />
Governador que alli residir, ou a quem duas vezes fizer, para que este haja<br />
de a enviar à minha real presença pela secretaria de Estado dos Negocios da<br />
Marinha e Domínios Ultramarinos, e deverá o Mestre ou Capitão entregar um<br />
duplicado da mesma attestação ao Delegado do Physico-Mór do Reino, que<br />
se achar no Porto do desembarque, ou a quem suas vezes fizer; e entretanto<br />
o navio no porto desta Cidade e Côrte do Rio de Janeiro, deverá o Mestre ou<br />
Capitão entregar a tal attestação na mesma Secretaria de Estado dos Negocios<br />
da Marinha e Domínios Ulramarinos, e um duplicado della ao Physico-Mór do<br />
Reino ou a seus Delegados.<br />
XII. Não sendo menos importante ocorrer e prevenir que não soffra a saude<br />
publica, por falta das necessarias cautelas no exame do estado em que chegam<br />
os negros ao porto do desembarque: e convindo que este se não permitta antes<br />
das competentes visitas da saude, e de se reconhecer que não há molestias a<br />
bordo que sejam contagiosas: ordeno que em todos os portos deste continete,<br />
e outros em que for permittido o desembarque de individuos esportados da<br />
Costa de Africa, haja de estabelerce-se um Lazareto separado da Cidade,<br />
escolhendo-se um logar elevado e sadio em que deva edificar-se, e naquelle<br />
Lazareto deverão ser recebidos os negros enfermos, para alli serem tratados e<br />
curados, até que os Facultativos a que forem commetidas as visitas do Lazareto,<br />
e o curativo dos doentes, os julguem em estado de poderem sahir para casa<br />
das pessoas, a quem vierem consignados; devendo estas concorrer com os<br />
meios necessarios para a subsistencia dos doentes, mediante uma consignação<br />
diaria, que mando seja arbitrada pela minha Real Junta do Commercio: e<br />
para que não aconteça que se commetam peitas, fraudes e prevaricações na<br />
execução de tão necessarias precauções, difficultando-se ou demorando-se o<br />
desembarque por capciosos pretextos com o reprovado intento de extorquir<br />
dos interessados gratificações illicitas, para obterem mais prompto despacho:<br />
hei por mui recommendado ao Physico-Mór do Reino que haja de proceder com<br />
a mais escrupulosa indagação na escolha das pessoas que se destinarem para<br />
semelhantes empregos; vigiando se cumprem com a fidelidade e desinteresse<br />
que devem, as suas importates obrigações; e representando-me as extorsões<br />
e venalidades que se commetterem, afim d que os delinqüentes hajam de ser<br />
68<br />
Capítulo II | No Brasil
Capítulo II | No Brasil 69
castigados com todo o rigor das leis. E para que me seja constante a exacção<br />
com que se praticam estas minhas saudaveis e paternaes providencias, e os<br />
effeitos que dellas resultam em beneficios da saude publica: determino que<br />
o dito Physico-Mór do Reino, por si ou por seu Delegado, haja de passar uma<br />
attestação jurada que declare o número de fallecidos e doentes que se acharam<br />
a bordo no momento da chegada da embarcação; e que esta seja remettida<br />
à minha real presença pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha<br />
e Domínios Ultramarinos..”.<br />
a instalação de unidades fabris em território colonial brasileiro havia sido<br />
proibida pelo alvará (2) de d. Maria i, rainha de Portugal: “... hei por bem<br />
ordenar que todas as fábricas, manufaturas ou teares de galões, de tecidos, de<br />
bordados de ouro e prata, de veludos, brilhantes, cetins, tafetás, ou qualquer<br />
outra espécie de seda; de belbuts, chitas, bombazinas, fustões, ou de qualquer<br />
outra fazenda de linho, branca ou de cores; e de panos, droguetes, baetas,<br />
ou de qualquer outra espécie de tecido de lã; ou que os ditos tecidos sejam<br />
fabricados de um só dos referidos gêneros ou misturados, e tecidos uns com<br />
os outros; excetuando-se tão-somente aqueles ditos teares ou manufaturas<br />
em que se tecem, ou manufaturam, fazendas grossas de algodão, que servem<br />
para o uso e vestuário de negros, para enfardar, para empacotar, e para outros<br />
ministérios semelhantes; todas as mais sejam extintas e abolidas por qualquer<br />
parte em que se acharem em meus domínios do Brasil, debaixo de pena de<br />
perdimento, em tresdobro, do valor de cada uma das ditas manufaturas, ou<br />
teares, e das fazendas que nelas houver e que se acharem existentes dois meses<br />
depois da publicação deste;...”. este alvará só foi revogado com a chegada da<br />
Familia real (3) , que isentou de impostos alfandegários toda a mercadoria que<br />
fosse necessária à implantação de fábricas no território brasileiro.<br />
70<br />
Capítulo II | No Brasil<br />
(2) Alvará datado de 5 de janeiro de 1785,<br />
sobre a indústria no Brasil.<br />
(3) O Alvará foi revogado por D. João VI,<br />
em 1° de abril de 1808.
(4) Lei Euzébio de Queiróz (1850), Lei do Ventre<br />
Livre (1871), Lei do Sexagenário (1885).<br />
entretanto, as contradições existentes entre o trabalho escravo e<br />
o desenvolvimento do capitalismo no país, que exigia um contingente de<br />
trabalhadores livres, fez com que, paulatinamente, fossem adotadas leis<br />
restringindo a escravidão (4) e incentivando o processo imigratório, como<br />
maneira de substituir o trabalho escravo.<br />
Diário Oficial de 14 de maio<br />
de 1888, com a Lei Áurea.<br />
Já em 1819, o governo colonial autorizou a criação de uma colônia agrícola no<br />
rio de Janeiro, destinada a 2.000 imigrantes suecos. e, em 1842, o conselho<br />
governamental autorizou a entrada de “colonos agrícolas assalariados”, no<br />
Brasil. as relações eram ainda muito impregnadas pela prática escravista e,<br />
reproduziam, <strong>aqui</strong>, as péssimas condições de trabalho e de vida quedescrevemos<br />
na europa, quando do início da revolução industrial.<br />
depois da independência brasileira, em função da municipalização dos serviços<br />
sanitários da capital, a câmara Municipal adotou um código de Posturas (1832),<br />
onde estabeleceu uma normatização para vários procedimentos, entre eles:<br />
doenças contagiosas, águas infectadas, hospitais, casas de saúde e fábricas,<br />
instituindo a prática da licença para o controle fabril.<br />
Capítulo II | No Brasil 71
II.1. Brasil República<br />
Surgia um novo cenário social no país, marcado pela abolição da escravatura<br />
(1888) e pela proclamação da república (1889). nessa época, no final do<br />
século XiX, o processo imigratório, que ocorria principalmente através dos<br />
portos do rio de Janeiro (capital federal) e de Santos, em São Paulo, deflagrou<br />
um quadro preocupante de saúde pública e de crescimento desordenado<br />
dos centros urbanos, pois, além de desempenhar um importante papel no<br />
desenvolvimento do trabalho assalariado no Brasil, a imigração também<br />
representou um fator importante no processo de urbanização em nosso<br />
país. Vivendo em precárias condições, recebendo baixíssimos salários, com<br />
jornadasextenuantes e, desabrigados de qualquer legislação de proteção<br />
social, formou-se um importante contingente de trabalhadores que contribuiu<br />
com oposterior processo de industrialização brasileiro e também trouxe<br />
para o nossopaís experiência e conhecimento do processo de organização e<br />
reivindicações por melhores condições de trabalho e de vida.<br />
era rara a legislação social no país, no final do século XiX. entretanto, a lei<br />
nº 3.397, de 24 de novembro de 1888, que fixou a despesa geral do império<br />
para o exercício de 1889, autorizou ao governo a criação de “uma caixa de<br />
soccorros para o pessoal de cada uma das estradas de ferro do Estado, sobre<br />
as seguintes bases:<br />
I. O fundo desta caixa será formado: a) pela contribuição mensal de 1% dos<br />
vencimentos de todo o pessoal, quer do quadro, quer jornaleiro; b) Pela<br />
renda proveniente das multas impostas ao mesmo pessoal e das que forem<br />
arrecadadas por infracção dos regulamentos da estrada e contractos com ella<br />
celebrados; c) Pela renda proveniente das armazenagens cobradas; d) Pelos<br />
donativos feitos á caixa.<br />
II. Esta caixa se comporá de dous fundos, um destinado a soccorrer o pessoal<br />
durante as suas enfermidade e outro para soccorrer a invalidez, estabelecendo<br />
pensão para o pessoal inutilisado para o serviço, e bem assim para as familias<br />
dos empregados do quadro, que fallecerem. O Governo expedirá os necessarios<br />
regulamentos.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 73
A matrícula dos empregados para as caixas de soccorros das estradas de ferro<br />
do Estado será facultativa e não obrigatória”.<br />
essa deferência aos empregados das empresas ferroviárias denotava: primeiro,<br />
a importância dessas empresas para a economia agrário–exportadora; e além<br />
disso expressava, também, que a organização dos trabalhadores deste setor<br />
já tinha condições de exigir soluções para atenuar as condições de trabalho,<br />
ao longo das linhas férreas, em função dos altos índices de acidentes e de<br />
invalidez.<br />
74<br />
Capítulo II | 1. Brasil República<br />
Porto de Santos 1870
(5) Jornal “A Voz do Trabalhador, Rio de<br />
Janeiro, n° 12, 1908.<br />
na realidade, altos índices de acidentes de trabalho e de doenças profissionais<br />
caracterizaram o período inicial da implantação industrial em nosso país.<br />
<strong>aqui</strong>, igualmente, as fábricas eram instaladas em galpões sem condições<br />
de luz, ventilação, higiene, nem mesmo com instalações sanitárias, com<br />
jornadas de mais de 16 horas diárias. o trabalho da mulher e do menor não<br />
eram regulamentados e não raro as jornadas se alongavam pela noite. “Na<br />
Fabrica Confiança, em Vila Isabel, fazem serão até as 10 horas da noite algumas<br />
secções, entre as quais as da fiação, onde trabalham crianças de 8 a 14 anos”;<br />
“Na Fábrica Corcovado, onde tinha sido suprimido o serão, devido à atitude<br />
dos operários, começou a ser feito 3 dias por semana, mas somente na fiação,<br />
onde trabalham apenas crianças”. (5)<br />
a passagem do Brasil agrário para o Brasil industrial foi lenta e deixou<br />
inúmeros resquícios na sociedade, dificultando a adoção de medidas que<br />
incentivassem uma mentalidade prevencionista. com a extinção do trabalho<br />
escravo, foi preciso, como no exemplo europeu, que o estado começasse a<br />
definir parâmetros legais para as relações capital-trabalho, em especial, no<br />
que se refere às condições de trabalho. esse foi um processo ainda mais lento<br />
na sociedade brasileira.<br />
logo após a Proclamação da república, foi constituído o conselho de Saúde<br />
Pública (1890), definindo que a inspetoria geral de higiene ocupar-se-ia da<br />
inspeção das habitações populares, do Serviço de Vacinação, alimentação<br />
pública e do consumo e fabrico de bebidas nacionais. iniciava-se, ainda<br />
que timidamente, uma legislação sobre as condições do incipiente trabalho<br />
industrial no Brasil.<br />
a primeira iniciativa de regulamentação do trabalho na república foi o<br />
decreto nº 1.313, de 17 de janeiro de 1891, que estabeleceu providências<br />
para regularizar o trabalho dos menores empregados nas fábricas da capital<br />
Federal. o decreto que proibiu a admissão de menores de 12 anos no trabalho<br />
fabril, permitia a aprendizagem entre 8 e 12 anos, nas fábricas de tecido, e<br />
instituiu a fiscalização permanente, em todos os estabelecimentos fabris, onde<br />
trabalhassem menores, a cargo de um inspetor geral, subordinado ao Ministro<br />
do interior e autorizado a requerer a presença de um engenheiro ou de uma<br />
autoridade sanitária, no ato de fiscalização. os artigos seguintes desse decreto<br />
estipulavam que:<br />
Art. 5º E’ prohibido qualquer trabalho, comprehendido o da limpeza das<br />
officinas, aos domingos e dias de festa nacional, bem assim das 6 horas da tarde<br />
ás 6 da manhã, em qualquer dia, aos menores de ambos os sexos até 15 annos.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 75
Art. 6º As officinas destinadas ao trabalho serão sufficientemente espaçosas<br />
e sua cubagem tal que cada operario tenha, pelo menos, 20 metros cubicos de<br />
ar respirável.<br />
Art. 7º A ventilação das officinas será franca e completa, a juizo do inspector,<br />
o qual poderá obrigar o dono da fabrica, quando for preciso, a empregar<br />
qualquer dos differentes processos de ventilação artificial, de modo que nunca<br />
haja risco de confinamento e impurificação do meio respiratorio.<br />
Art. 8º O solo das officinas será perfeitamente secco e impermeavel, os detritos<br />
inconvenientes promptamente removidos e as aguas servidas esgotadas.<br />
Art. 9º O inspector geral aconselhará, conforme a qualidade da fabrica, as<br />
demais condições que convenha observar no interesse da hygiene.<br />
Art. 10. Aos menores não poderá ser commettida qualquer operação que,<br />
dada sua inexperiencia, os exponha a risco de vida, taes como: a limpeza e<br />
direcção de machinas em movimento, o trabalho ao lado de volantes, rodas,<br />
engrenagens, correias em acção, em summa, qualquer trabalho que exija da<br />
parte delles esforço excessivo.<br />
Art. 11. Não poderão os menores ser empregados em deposito de carvão<br />
vegetal ou animal, em quaesquer manipulações directas sobre fumo, petroleo,<br />
benzina, acidos corrosivos, preparados de chumbo, sulphureto de carbono,<br />
phosphoros, nitro-glycerina, algodão-polvora, fulminatos, polvora e outros<br />
misteres prejudiciaes, a juizo do inspector.<br />
assim como na inglaterra, o acelerado processo brasileiro de urbanização, sem<br />
planejamento, onde prevaleciam as piores condições de moradia e higiene,<br />
acarretou graves problemas de saúde pública. epidemias atingiam a população<br />
das cidades e se propagavam pelo campo. a peste bubônica, a varíola e a<br />
febre amarela vitimaram centenas de cidadãos. o auge dessa crise sanitária<br />
ocorreu no início da primeira década do século XX, quando as autoridades<br />
públicas deram início a políticas polêmicas de saneamento e prevenção vacinal.<br />
a república não provocou mudanças na estrutura produtiva, que continuou<br />
baseada no latifúndio e na economia monocultora, voltada para a exportação.<br />
as modificações que foram se processando na organização social possibilitaram<br />
novas formas de pensar a sociedade e sua organização econômica. Foi um<br />
lento e conflituoso processo, também, para que a proposta da industrialização<br />
tomasse corpo no nosso País. o século XX encontrou, no Brasil, um cenário<br />
76<br />
Capítulo II | 1. Brasil República
(6) Simonsen Roberto: Evolução Industrial do<br />
Brasil São Paulo,,Brasiliense,Coleção Brasiliana,<br />
vol.345, 1973.<br />
(7) Basbaum, Leôncio: Histórico Sincera da<br />
República: Editora Fulgor, São Paulo, 1966,<br />
vol.1.<br />
(8) Embora essa política tenha ficado conhecida<br />
como “café com leite”, pro girar em torno<br />
dos estados de São Paulo e Minas Gerais,na<br />
realidade era a política do café,pois Minas se<br />
fazia representar pelos cafeicultores da Zona<br />
da Mata.<br />
(9) Barbosa Rui: Obras Completas: Rio de<br />
Janeiro, Casa Rui Barbosa,vol XVIII, Tomo III,<br />
página 143.<br />
(10) Sodré, Nelson W.: História da Burguesia<br />
Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,<br />
1969.<br />
(11) Tabela montada pela Autora.<br />
industrial ainda bastante incipiente, mas com sinais de que o capital agrário,<br />
investido nas plantações de café e na mão de obra escrava, iria se deslocar para<br />
a cidade e para a indústria. estudos econômicos revelam que, em 1889, havia<br />
636 empresas industriais em todo território, empregando 54.000 operários (6) .<br />
a república teve, em seus primeiros momentos, duas fases bem delimitadas<br />
e com características específicas: a “Primeira república”, que vai desde a<br />
instalação do governo Provisório até a eleição de Prudente de Morais (7) , e a<br />
“república do café com leite”, que implantou a política dos governadores,<br />
baseada na produção do café, em São Paulo, e na Zona da Mata, em Minas<br />
gerais (8) .<br />
na primeira fase ocorreram dois marcos importantes: a constituição de 1891 e<br />
a reforma econômica de rui Barbosa, então Ministro da Fazenda. industrialista,<br />
rui Barbosa expressou a linha de seu trabalho, no “relatório do Ministro da<br />
Fazenda”: “A República só se consolidará entre nós, sobre alicerces seguros,<br />
quando suas funções se firmarem na democracia do trabalho industrial, peça<br />
necessária no mecanismo do regime, que lhe trará o equilíbrio conveniente... O<br />
desenvolvimento industrial não é somente para o Estado, questão econômica;<br />
é, ao mesmo tempo, uma questão política” (9) . realizou a reforma bancária,<br />
com o objetivo de estimular empreendimentos privados, em especial, as<br />
manufaturas; adotou uma reforma tarifária, cobrando em ouro o imposto<br />
alfandegário, para desestimular as importações e fomentar a produção interna,<br />
facilitando a importação de matérias primas e máquinas.<br />
o objetivo do conjunto dessas medidas foi o de promover a industrialização<br />
brasileira e de estimular a atividade econômica do País, com a adoção<br />
de uma série de medidas reformadoras - que atingiram principalmente<br />
o crédito hipotecário e o crédito à lavoura e à indústria, para possibilitar o<br />
desenvolvimento das forças produtivas “entravadas por um aparelho estatal<br />
obsoleto e por um retrógrado sistema econômico e financeiro” (10) , entre eles<br />
a “Lei de Terras” (1850) e “Lei dos Entraves” (1860). a primeira dificultava o<br />
acesso à posse de terras e imóveis, por parte de ex-escravos e imigrantes,<br />
numa economia onde a agricultura era predominante no país; enquanto a<br />
segunda amarrava o desenvolvimento do mercado de capitais. o resultado foi<br />
um dos maiores surtos inflacionários do Brasil, que contribuiu para acentuar a<br />
deterioração da qualidade de vida da população. esse processo passou a ser<br />
conhecido na história econômica como “encilhamento”.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 77
as medidas econômicas de incentivo à industrialização, adotadas pelo Ministro<br />
da Fazenda, nos primeiros anos da república, ocorreram em um período em<br />
que havia uma crise mundial cíclica, de especulação desenfreada, que atingiu<br />
a Bolsa de nova York, a inglaterra, a austrália e a argentina. o aumento da<br />
emissão monetária brasileira foi necessário para o pagamento dos escravos<br />
recém libertos, para o pagamento dos salários dos imigrantes recém chegados,<br />
para substituir a mão de obra escrava e para socorrer as necessidades do surto<br />
empresarial, decorrentes da abolição e da república e que necessitavam de<br />
capital de giro.<br />
78<br />
Capítulo II | 1. Brasil República<br />
Populares em frente a Bolsa de Valores do Rio<br />
de Janeiro, durante a crise do encilhamento
(11) Tabela montada pela autora.<br />
Brasil 1885 -1907 (11)<br />
1885 - 1889 1890 - 1894 1907<br />
estabelecimentos industriais 248 452 3.410<br />
capital empregado (contos) 203.404 213.714 679.806<br />
Total de operários 24.369 31.123 156.250<br />
Valor da Produção (contos) 247.121 278.575 766.482<br />
Fonte: lima, heitor Ferreira: “a história do Pensamento econômico do Brasil”, São Paulo, ed.<br />
Brasiliana, vol 360, 1976.<br />
a tabela acima mostra um crescimento decorrente da proposta industrial,<br />
embora a economia ainda girasse no eixo agrário-exportador.<br />
Período N° de Imigrantes<br />
1884 – 1893 883.668<br />
1894 - 1903 862.110<br />
1904 - 1913 1.006.617<br />
1914 - 1923 503.981<br />
1924 - 1933 737.223<br />
Fonte: carone, edgar: o estado novo (1937 -1945), São Paulo, difel, 1977, pag. 6.<br />
a tabela acima mostra que, nos primeiros anos da república, a entrada de<br />
imigrantes foi significativa, tanto em volume quanto na qualidade de participação<br />
social desses imigrantes. Parte importante da imigração constituía-se de<br />
trabalhadores que já conheciam as formas de organização operária existentes<br />
na europa e contribuíram para construir a organização social brasileira. essa<br />
realidade vai intensificar as reivindicações operárias, por melhores condições<br />
de trabalho e de vida.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 79
em decorrência do agravamento da situação sócio-econômica e da crise que o<br />
país enfrentava, as questões da saúde e das condições de trabalho começaram<br />
a aparecer como reivindicações no nascente movimento operário. no Brasil,<br />
a intervenção estatal na área da saúde e higiene pública só vai ocorrer no<br />
século XX, com mais ênfase a partir da década de 30. desde o século XViii, a<br />
assistência era pautada pela filantropia, com poucas ações de responsabilidade<br />
do estado. as transformações econômicas e políticas, ocorridas no século XiX,<br />
entretanto, colocaram as questões da saúde, da higiene e das condições de<br />
trabalho na pauta da “questão social” brasileira, exigindo algumas iniciativas,<br />
como a vigilância do exercício profissional, a realização de campanhas<br />
específicas e iniciativas do setor público, com o objetivo de atender a situações<br />
emergenciais como a peste bubônica, a varíola e a febre amarela.<br />
naquela época, o rio de Janeiro era uma cidade de ruas estreitas e sujas,<br />
saneamento precário, foco de doenças infecciosas e, desde o final do século<br />
XiX, sofria um processo de urbanização descontrolado, tendo ficado conhecida<br />
internacionalmente como o “tumulo dos estrangeiros”. os imigrantes recémchegados<br />
da europa morriam às dezenas, em decorrência de doenças<br />
infecciosas e as companhias de navegação marítima faziam questão de divulgar<br />
que seus navios não atracariam no porto carioca.<br />
“Muita gente que havia combatido em Canudos foi morar no Morro da<br />
Providência (um dos primeiros a ser ocupado na cidade). Existia uma quantidade<br />
grande de cortiços, famílias morando em poucos cômodos e praticamente não<br />
havia iluminação. As pessoas adoeciam em decorrência da febre amarela, da<br />
peste bubônica, da varíola, da tuberculose. Essas doenças se propagavam<br />
devido à umidade e à deficiência sanitária.” (12)<br />
80<br />
Capítulo II | 1. Brasil República<br />
Cortiços no Rio de Janeiro<br />
(12) Resk, Sucena S.: Combate as pragas<br />
urbanas, in HTTP:// leituras das história. UOL.<br />
com.br- ESLH- Edições- 16-artigo 123021-1.asp
(13) Declaração do Presidente eleito Rodrigues<br />
Alves pouco antes de sua posse. in http://www.<br />
ccs.saude.gov.br/revolta/revolta.html<br />
(14) Ministro da Industrial, Comércio, Viação,<br />
Obras Públicas<br />
Rua Direita, Rio de Janeiro<br />
no seu discurso de posse, o presidente rodrigues alves anunciou uma grande<br />
reforma urbanística para melhorar a imagem, a sanidade e a economia da<br />
capital federal, com o objetivo de atrair imigrantes para o Brasil, a fim de<br />
atender a cafeicultura que enfrentava uma grave crise de mão de obra, desde<br />
a abolição da escravatura. “Meu programa de governo vai ser muito simples.<br />
Vou limitar-me quase exclusivamente ao saneamento e melhoramento do porto<br />
do Rio de Janeiro.” (13)<br />
a ampla reforma urbana pretendida não poderia se restringir somente ao<br />
Porto e à região portuária da cidade, obras sob a responsabilidade do governo<br />
federal, devendo ser objeto de ações municipais, para atingir a estrutura<br />
viária da cidade. com essa perspectiva, o presidente rodrigues alves indicou<br />
Francisco Pereira Passos, para prefeito do rio de Janeiro, e o engenheiro<br />
Francisco Bicalho, como responsável por realizar a ampla reforma projetada<br />
pelo ministro lauro Muller (14) para a cidade portuária, a fim de permitir uma<br />
melhor circulação das mercadorias que chegavam à capital federal. estratégia<br />
adotada para o equilíbrio e saneamento da economia nacional, uma vez que os<br />
impostos de importação eram recolhidos e gerenciados pelo governo federal.<br />
o rio de Janeiro era o principal centro consumidor de produtos importados,<br />
o que tornava as reformas portuárias e viárias imprescindíveis para facilitar o<br />
escoamento dos produtos pela cidade. a mensagem presidencial enviada ao<br />
congresso nacional expressava essas decisões:<br />
As condições gerais de salubridade da capital, além de urgentes melhoramentos<br />
materiais reclamados, dependem de um bom serviço de abastecimento de<br />
águas, de um sistema regular de esgoto, da drenagem do solo, da limpeza<br />
pública e do asseio domiciliar.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 81
Parece-me, porém, que o serviço deve começar pelas obras de saneamento<br />
do porto, que têm de constituir a base do sistema e hão de concorrer não só<br />
para aquele fim utilíssimo, como evidentemente para melhorar as condições do<br />
trabalho, as do comércio e o que não deve ser esquecido, as da arrecadação<br />
de nossas rendas. (15)<br />
as reformas foram definidas como a “base do sistema”, capazes de provocar,<br />
além do “saneamento”, o aumento do “comércio”, a “arrecadação das nossas<br />
rendas”, bem como melhorar as “condições de trabalho”, de maneira a permitir<br />
o resgate da imagem da cidade, para atrair a mão de obra imigrante.<br />
Pereira Passos imediatamente implantou uma ampla reforma viária e a cidade<br />
sofreu profundas mudanças, com a derrubada de casarões e cortiços e despejo<br />
de seus moradores, que foram empurrados para bairros mais distantes.<br />
a população logo apelidou o movimento que tinha o objetivo de abrir grandes<br />
e largas avenidas de “bota-abaixo”.<br />
no governo de rodrigues alves (16) , o sanitarista oswaldo cruz assumiu<br />
o cargo de diretor-geral da saúde pública, com a principal tarefa de controlar<br />
e erradicar as epidemias no país e implantar, na capital federal, condições<br />
sanitárias adequadas. as medidas adotadas, especialmente a campanha da<br />
Vacina e as Brigadas Mata-Mosquitos, causaram alvoroço na cidade, com<br />
grande repercussão na imprensa da época.<br />
82<br />
Capítulo II | 1. Brasil República<br />
(15) Mensagem presidencial de 03 de maio de<br />
1903. In Azevedo, André Nunes de: A reforma<br />
Pereira Passos: uma tentativa de integração<br />
urbana, Revista Rio de Janeiro, n. 10, maio-ago<br />
2003.<br />
(16) Governo de Rodrigues Alves (1902-1906).<br />
Campanha<br />
Mata Mosquito
(18) Inicialmente, contra a carestia e a escassez<br />
de gêneros de primeira necessidade e logo<br />
depois incorporando reivindicações de<br />
regulamentação das condições de trabalho.<br />
Charges publicadas sobre a Revolta da Vacina – 1904<br />
com as Brigadas Mata-Mosquitos, cujo modelo de combate à doença foi<br />
copiado do adotado pelo exército americano em cuba, os funcionários do<br />
serviço sanitário visitavam as residências para verificar a existência ou não de<br />
poças d’água, onde poderiam procriar as larvas dos mosquitos (18) ; no caso da<br />
visita não ser autorizada pelos moradores, as casas eram invadidas com o aval<br />
dos policiais, o que causou muita reação na cidade.<br />
desde 1837, havia uma obrigatoriedade legal de vacinação na cidade, que<br />
nunca havia sido colocada em prática. com a reformulação do código Sanitário<br />
em 1904, oswaldo cruz a tornou obrigatória, o que desencadeou uma reação<br />
em massa, que ficou conhecida como a revolta da Vacina.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 83
as duas primeiras décadas do século XX foram de grande mobilização social no<br />
país, especialmente no rio de Janeiro e em São Paulo, reivindicando direitos<br />
sociais e melhores condições de trabalho. a situação se agravou nas grandes<br />
cidades, depois do início da 1a grande guerra, e as manifestações eclodiam<br />
com frequência. a questão social era tida como questão de polícia e, quando<br />
estourou a greve de 1917 (18) , as repercussões da paralisação e da violenta<br />
repressão que se sucedeu encontraram algum eco nas questões que vieram à<br />
tona com o fim da guerra, entre elas, as condições do trabalho industrial.<br />
a conferência de Paris, que coordenava os acordos do fim da 1a guerra, tomou<br />
importantes decisões no terreno da legislação trabalhista, que repercutiram<br />
amplamente no Brasil. essas questões eram tão significativas que polarizaram<br />
a campanha presidencial de 1919, entre epitácio Pessoa e rui Barbosa. as<br />
principais questões sociais defendidas por rui Barbosa, na sua plataforma<br />
eleitoral, foram: construção de casas para operários; proteção ao trabalho dos<br />
menores; limitação das jornadas de trabalho, em especial as jornadas noturnas;<br />
igualdade salarial para ambos os sexos; amparo à mãe operária e à gestante;<br />
licença maternidade; indenização para acidentes de trabalho; legalização<br />
para o trabalho agrícola; seguro previdenciário (19) , refletindo as idéias que já<br />
estavam circulando na europa e nos estados unidos.<br />
84<br />
Capítulo II | 1. Brasil República<br />
(18) Inicialmente contra a carestia e escassez de<br />
gêneros de primeira necessidade e logo depois<br />
incorporando reivindicações de condições de<br />
trabalho.<br />
(19) Htpp: /// WWW. Projeto memoria.art.br<br />
RuiBarbosa /período/ lamina 30/ index. htm
(20) Tabela montada pela autora.<br />
a lei nº 3724, de 15 de janeiro de 1919, regulamentada pelo decreto nº 13. 498,<br />
de 12 de março de 1919, foi a primeira legislação sobre responsabilidades e<br />
indenizações nos acidentes de trabalho. continha a definição de acidentes, de<br />
doenças profissionais, de patrão e empregado, os setores de aplicação da lei,<br />
a indenização de acidentes ocorridos e, pela primeira vez no país, uma tabela<br />
com os valores dessa indenização, proporcionais às sequelas sofridas.<br />
a iª guerra produziu dois importantes efeitos na economia nacional:<br />
a consolidação das indústrias existentes, com significativo acréscimo do número<br />
de estabelecimentos fabris e a crescente participação industrial na formação da<br />
receita pública. esses efeitos trouxeram à tona a crise da economia baseada na<br />
cafeicultura, que perdurou durante todos os anos 20.<br />
Brasil - Indústria - 1914 - 1918 (20)<br />
1914 1918<br />
impostos internos de consumo (contos) 52.223 93.514<br />
impostos de importação (contos) 150.548 91.980<br />
Fonte: lima, h.F.: história Político-econômica e industrial do Brasil – São Paulo, cia editora nacional,<br />
col. Brasiliana, vol 347<br />
apesar dessa expansão, a acumulação na economia brasileira era ainda muito<br />
frágil. não havia um mercado de capital organizado e sólido, e a acumulação<br />
era feita através dos lucros com a lavoura do café, da expansão de algumas<br />
atividades artesanais estabelecidas basicamente por estrangeiros e da poupança<br />
de pequenos comerciantes prósperos que resolviam estender suas atividades<br />
para a produção. os lucros com a cafeicultura não podiam ser reinvestidos,<br />
pois havia super produção. as crescentes emissões monetárias dentro desse<br />
quadro serviram para incentivar um processo inflacionário, durante todo o<br />
conflito mundial que só veio a se estabilizar por volta de 1924.<br />
Mas, a partir de 1928, a crise do café se acentua. havia um aumento das<br />
importações, desde a estabilização de 1924, que se refletiu negativamente na<br />
produção industrial. a economia entrou num período de recessão. Já pairavam<br />
as inquietações da crise Mundial de ’29!<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 85
a saúde pública e as condições de trabalho adquiriram, na década de 1920,<br />
maior relevância advinda das crescentes reivindicações dos trabalhadores e<br />
passaram a integrar algumas das propostas de modernização apresentadas<br />
pelo estado. a reforma carlos chagas, de 1923, tentou ampliar o atendimento<br />
à saúde, por parte do poder central, constituindo uma das estratégias de<br />
ampliação do poder nacional, no bojo da crise política sinalizada pela revolta<br />
dos Tenentes, em 1922 (21) .<br />
algumas das medidas adotadas se constituíram no embrião do nosso atual<br />
sistema previdenciário, sendo a mais relevante delas o decreto nº 4.682, de<br />
24 de janeiro de 1923, também conhecido como lei eloy chaves, que criou<br />
as caixas de aposentadoria e Pensões (caPs), nas empresas de estrada de<br />
ferro. essas caixas eram financiadas pela união, pelas empresas empregadoras<br />
e pelos empregados, cabendo a sua organização às empresas. assim, só os<br />
grandes estabelecimentos tinham condições de mantê-las. os presidentes<br />
das mesmas eram nomeados pelo presidente da república e tanto patrões<br />
quanto empregados participavam paritáriamente da administração. os<br />
benefícios eram proporcionais às contribuições: assistência médica-curativa<br />
e medicamentos; aposentadoria por tempo de serviço, velhice e invalidez;<br />
pensão para os dependentes e auxílio funeral (22) , delegando a um futuro<br />
departamento nacional do Trabalho (a ser criado), a atribuição de arbitrar<br />
sobre os julgamentos dos conselhos de administração das caixas.<br />
esse departamento, que viria a ser criado pelo decreto nº 16.027, de 30 de<br />
abril de 1923, se chamou conselho nacional do Trabalho e, com composição<br />
tripartite (23) , tinha como objetivo principal ser um órgão consultivo dos<br />
poderes públicos para assuntos referentes à organização do trabalho e<br />
previdência social, ocupando-se ainda do “dia normal de trabalho nas principais<br />
indústrias”, sistemas de remuneração do trabalho, contratos coletivos, sistemas<br />
de conciliação e arbitragem, para prevenir e resolver as greves, trabalho<br />
de menores e de mulheres, aprendizagem e ensino técnico, acidentes de<br />
trabalho, seguros sociais, caixas de aposentadorias e pensões dos ferroviários,<br />
instituições de créditos populares e caixas de créditos agrícolas.<br />
ainda dentro desse quadro de ações políticas para a área do trabalho, em 31<br />
de dezembro de 1923, o decreto nº 16.300 criou o departamento nacional<br />
de Saúde Pública, a inspetoria de higiene industrial e Profissional e definiu o<br />
regulamento Sanitário Federal para regulamentar e fiscalizar as condições de<br />
trabalho.<br />
86<br />
Capítulo II | 1. Brasil República<br />
(21) Lima, H. F:apud pág. 344.<br />
(22) Os trabalhadores urbanos ligados ao setor<br />
exportador foram os que primeiro conquistaram<br />
as Caixas de Aposentadoria e Pensões, nas suas<br />
empresas: ferroviários (1923), estivadores e<br />
marítimos (1926).<br />
(23) Pela primeira vez, foi criado no Brasil um<br />
órgão para tratar das questões do trabalho,<br />
seguramente, sob a influência da recém<br />
criada Organização Internacional do Trabalho.<br />
A composição previa 2 representantes dos<br />
operários, 2 representantes dos empresários e<br />
2 dentre os altos funcionários do Ministério da<br />
Agricultura, Indústria e Comércio e 6 “ pessoas<br />
de reconhecida competência”, nos assuntos do<br />
trabalho.
(24) A Constituição vigente era a de 1891.<br />
em função de uma série de decretos, atingindo as mais variadas áreas e setores,<br />
a emenda constitucional, de 3 de setembro de 1926 (24) , estabeleceu, no §<br />
29 do art. 54, que o congresso nacional estava autorizado a “legislar sobre<br />
licença, aposentadoria e reformas, não se podendo conceder, nem alterar, por<br />
leis especiais”.<br />
Capítulo II | 1. Brasil República 87
(25) Sodré, Nelson, W.: História da Burguesia<br />
Brasileira, Rio de Janeiro, Ed. Civilização<br />
Brasileira, 1967, pág.285.<br />
II.2. A Revolução de 30<br />
“ As oscilações mundiais atingiram o Brasil tão rapidamente que o ano de 1929<br />
– em que se registra a crise de Wall Street, foi o ano oficial da transformação<br />
da crise crônica brasileira em crise aguda. Ela foi o resultado do cruzamento<br />
das oscilações nacionais e mundiais e da coincidência das oscilações curtas e<br />
longas do ciclo comercial. ” (25) a crise atingiu a economia brasileira agrárioexportadora<br />
com rápidas consequências políticas.<br />
Capítulo II | 2. A Revolução de 30 89
exportações<br />
(libras)<br />
Saldo em ouro<br />
(contos de reis)<br />
déficit papel<br />
(contos de reis)<br />
Fonte: lima, heitor F. :apud, pág. 349.<br />
90<br />
Brasil 1929/1930 (26)<br />
1929 1930 (previsto) 1930 (realizado)<br />
95.000.000 65.000.000<br />
Capítulo II | 2. A Revolução de 30<br />
64.000 - 6.000<br />
268.000 746.000<br />
a revolução de ’30 é um marco importante na historiografia brasileira.<br />
a crise do café atingiu toda a agricultura e o comércio exterior, atingindo<br />
a indústria e o comércio interno, gerando desemprego em massa. esse quadro<br />
de insatisfação geral culminou com a revolta armada e a posse de Vargas,<br />
no Palácio do catete, em 03 de novembro de 1930. a Plataforma da aliança<br />
liberal, lida por getúlio Vargas na esplanada do castelo (rJ), enunciava: “...<br />
pode-se resumir numa palavra – produzir, produzir muito e produzir barato o<br />
maior número aconselhável de artigos para abastecer os mercados internos<br />
e exportar o excedente de nossas necessidades” (27) .<br />
a preocupação de Vargas foi industrializar o país. Para produzir o que ele<br />
prometia, era necessário fortalecer o parque industrial e o operariado. uma<br />
das primeiras iniciativas foi a criação do Ministério do Trabalho, indústria<br />
e comércio. o decreto nº 19.433, de 26 de novembro de 1930, do governo<br />
Provisório, subordinou o conselho nacional do Trabalho, as questões de<br />
higiene e segurança do trabalho e as caixas de Previdência a esse Ministério.<br />
a partir daí, ocorreu a regulamentação das relações de trabalho, englobando,<br />
também, as das condições de trabalho, inclusive as aposentadorias e a<br />
invalidez. o decreto nº 20.465, de 1º de outubro de 1931, regulamentou as<br />
caixas de aposentadoria e pensões, para os serviços públicos executados<br />
pelo estado ou por concessionárias: “Os serviços públicos de transporte, de<br />
luz, força, telégrafos, telefones, portos, água, esgotos ou outros que venham<br />
a ser considerados como tais, quando explorados diretamente pela União,<br />
pêlos Estados, Municípios ou pôr empresas, agrupamentos de empresas ou<br />
particulares, terão, obrigatoriamente, para os empregados de diferentes classes<br />
ou categorias, Caixas de Aposentadoria e Pensões (28) , com personalidade<br />
(26) Tabela montada pela autora.<br />
(27) Vargas, Getúlio: “A nova política do Brasil”,<br />
in Lima, H.F.:apud, pág. 351.<br />
(28) O Decreto nº 22.872, de 29/06/1933,<br />
criou o Instituto de Aposentadoria e Pensões<br />
dos Marítimos (IAPM); o Decreto nº 3.832,<br />
de 18/11/1934, regulamentou a situação<br />
dos armadores de pesca e dos pescadores e<br />
indivíduos empregados em profissões conexas<br />
com a indústria da pesca, pertencendo estas<br />
pessoas também, para efeito de benefícios<br />
previdenciários, ao IAPM.; o Decretonº<br />
24.273, de 22/05/1934, criou o Instituto de<br />
Aposentadoria e Pensões dos Comerciários<br />
(IAPC); o Decreto nº 24.615, de 9/6/1934 criou<br />
o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos<br />
Bancários (IAPB), destinado aos empregados de<br />
bancos ou de casas bancárias; a Lei nº 367, de<br />
31/12/1936, criou o Instituto de Aposentadoria<br />
e Pensões dos Industriários (IAPI); o Decreto<br />
nº 775, de 7/10/1938 criou o Instituto de<br />
Aposentadoria e Pensões dos Empregados em<br />
Transportes de Cargas (IAPETC) .
(29) Sendo 18 representantes dos<br />
empregadores, 17 dos empregados, 3 dos<br />
profissionais liberais e 2 dos funcionários<br />
públicos, só foram considerados delegados<br />
eleitores aqueles sindicalizados nos sindicatos<br />
reconhecidos até 20 de maio de 1933.<br />
(30) Título IV, da ordem econômica e social, art.<br />
122. Era uma justiça especial, dividida em três<br />
instâncias: Juntas de Conciliação e Julgamento,<br />
Conselhos Regionais e Conselho Nacional do<br />
Trabalho.<br />
jurídica, regidas pelas disposições desta lei e diretamente subordinadas ao<br />
Conselho Nacional do Trabalho”. e, a partir dessa regulamentação, o sistema<br />
previdenciário passou a ser estruturado por categorias profissionais e não mais<br />
por empresas, com sucessivos decretos criando especificamente cada instituto<br />
de aposentadoria e Pensões e regulamentando a concessão dos auxílios, de<br />
acordo com tabelas previamente definidas.<br />
o código eleitoral, de 1932, introduziu o voto secreto, o voto feminino e a<br />
Justiça eleitoral. o governo Provisório emitiu uma série de decretos regulando<br />
a convocação da assembleia nacional constituinte, de 1933. dentre eles,<br />
a criação da bancada classista, composta por quarenta representantes das<br />
associações profissionais na assembleia nacional constituinte (29) .<br />
entre a decretação do código eleitoral e a instalação da assembleia nacional<br />
constituinte de ’34, o governo emitiu o decreto-lei 23.569 de 11 de dezembro<br />
de 1933, criando o Sistema confea/crea e regulamentando as profissões de<br />
engenheiros, arquitetos e agrônomos.<br />
É interessante ressaltar que este decreto, na alínea “b” do seu artigo 29, diz<br />
que: “Os engenheiros civis diplomados segundo a lei vigente deverão ter : .....<br />
b) aprovação na cadeira de “Saneamento e Arquitetura” para exercerem as<br />
funções de Engenheiro Sanitário; ...”<br />
a assembleia nacional constituinte, elaborou a constituição dentro de um<br />
quadro de crise do estado oligárquico, com o fim da chamada república<br />
Velha. a terceira constituição brasileira foi promulgada dia 16 de julho de<br />
1934, instituindo a Justiça do Trabalho, diretamente ligada ao Ministério<br />
do Trabalho, indústria e comércio, com a finalidade de julgar e conciliar os<br />
dissídios individuais ou coletivos entre patrões e empregados, assim como<br />
demais controvérsias surgidas no âmbito das relações de trabalho, entre elas<br />
as questões relacionadas às condições de trabalho (30) .<br />
e, pela primeira vez, a constituição de 1934, em seu capítulo iV da ordem<br />
econômica e Social, estabeleceu no artigo 121: “A lei promoverá o amparo da<br />
produção e estabelecerá as condições do trabalho, na cidade e nos campos,<br />
tendo em vista a proteção social do trabalhador e os interesses econômicos<br />
do País”, definindo no parágrafo primeiro desse artigo os preceitos a serem<br />
observados pela legislação do trabalho, entre eles: “jornada de trabalho<br />
diário não excedente de oito horas, reduzíveis, mas só prorrogáveis nos casos<br />
previstos em lei; proibição de trabalho a menores de 14 anos e de trabalho<br />
Capítulo II | 2. A Revolução de 30 91
noturno a menores de 16 e, em indústrias insalubres, a menores de 18 anos<br />
e as mulheres; assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante,<br />
assegurando a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário<br />
e do emprego; e instituição de previdência, mediante contribuição igual da<br />
União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da<br />
maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte”.<br />
até esse momento, as responsabilidades dos acidentes de trabalho eram<br />
definidas pelo decreto de 1919. o instrumento legal que o substituiu foi o<br />
decreto nº 24.637, de 10 de setembro de1934, que também ampliou o conceito<br />
de acidente de trabalho: “Art. 1º Considera-se acidente do trabalho, para os<br />
fins da presente lei, toda lesão corporal, perturbação funcional, ou doença<br />
produzida pelo exercício do trabalho ou em consequência dele, que determine<br />
a morte, ou a suspensão ou limitação, permanente ou temporária, total ou<br />
parcial, da capacidade para o trabalho” e, embora não tenha estabelecido a<br />
responsabilidade do empregador, expressou o conceito de acidente “in itinere”,<br />
ou de percurso, no § 2º do artigo 2º, abrindo a perspectiva de responsabilidade<br />
do empregador, quando este fornecesse condução ao trabalhador.: § 2º”. A<br />
responsabilidade do empregador deriva somente de acidentes ocorridos pelo<br />
fato do trabalho, e não dos que se verificarem na ida do empregado para o<br />
local da sua ocupação ou na sua volta dali, salvo havendo condição especial<br />
fornecida pelo empregador”.<br />
no seu artigo 36, o decreto de 1934 exigiu que o empregador fizesse contrato<br />
de seguro acidentário, em favor de seus empregados: “Para garantir a execução<br />
da presente lei, os empregadores sujeitos ao seu regime, que não mantiverem<br />
contrato de seguro contra acidentes, cobrindo todos os riscos relativos às várias<br />
atividades, ficam obrigados a fazer um depósito, nas repartições arrecadadoras<br />
federais, nas Caixas Econômicas da União, ou no Banco do Brasil, em moeda<br />
corrente ou em títulos da dívida pública federal, na proporção de 20:000$000<br />
(vinte contos de réis), para cada grupo de 50 (cincoenta) empregados ou<br />
fração, até ao máximo de 200:000$000 (duzentos contos de réis), podendo<br />
a importância do depósito, a juízo das autoridades competentes, ser elevada<br />
92<br />
Capítulo II | 2. A Revolução de 30
Sessão plenária Assembleia<br />
Nacional Constituinte de<br />
1933/34<br />
até ao triplo, si se tratar de risco excepcional ou coletivamente perigoso” e, no<br />
artigo 39, definiu a responsabilidade do Ministério do Trabalho na fiscalização<br />
dessas ações: “As operações de seguro contra acidentes de trabalho serão<br />
exclusivamente fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio<br />
e subordinadas ao regulamento e instruções que forem expedidas”. esse<br />
decreto criou, também, a inspetoria de higiene e Segurança do Trabalho, hoje<br />
departamento de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério do Trabalho<br />
e emprego.<br />
Capítulo II | 2. A Revolução de 30 93
II.3. O Estado Novo<br />
desde o levante de 1935, o país vivia momentos de agitação política.<br />
a decretação do estado novo, em novembro de 1937, motivou o fechamento<br />
do congresso, a extinção dos partidos e das liberdades políticas e a outorga<br />
de uma nova constituição.<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo 95
a carta Magna de ‘37, elaborada no clima de ascensão do nazi-fascismo na<br />
europa, incorporou o termo “seguro social”, instituiu a Justiça do Trabalho,<br />
criada pela constituição de 1934, mas que ainda não havia saído do papel<br />
e declarou o trabalho “um dever social”, “com direito a proteção e solicitude<br />
especiais do Estado”. definiu, ainda, que “as associações de trabalhadores<br />
têm o dever de prestar aos seus associados, auxílio ou assistência, no referente<br />
às práticas administrativas ou judiciais relativas aos seguros de acidentes do<br />
trabalho e aos seguros sociais”.<br />
o mundo estava à beira da Segunda guerra Mundial. a crise agravada no<br />
final dos anos ’20 ainda repercutia e, embora não existam dados sobre<br />
o desemprego urbano e rural desse período, era comum a redução do trabalho<br />
fabril a somente algumas horas do dia ou alguns dias por semana (31) . a crise<br />
econômica persistiu durante os primeiros anos do estado novo e só foi<br />
superada pela demanda interna e externa provocada pela guerra.<br />
96<br />
BRASIL – Pessoal Ocupado – Indústria – 1920/1940<br />
N° Trabalhadores 1920 1940<br />
293.673 781.185<br />
Setor têxtil 216.477 (27,71%)<br />
Setor alimentício 125.736 (16,08%)<br />
Fonte: carone, edgar:apud, pag. 120 (tabela montada pela autora)<br />
“Entre 1930 e 1937, a maior parte da legislação trabalhista já estava codificada.<br />
O Estado Novo lhe dá não só continuidade, mas tenta incorporar o direito<br />
operário à Constituição, tornando-o um elemento – naturalmente que passivo<br />
– de responsabilidade do Estado.” no entanto, o estado adotou algumas<br />
medidas importantes, baseadas no princípio da constituição de ’37, que<br />
definia “A economia da produção será organizada em corporações, e estas,<br />
como entidades representativas das forças de trabalho nacional, colocadas sob<br />
a assistência e a proteção do Estado, são órgãos deste e exercem funções do<br />
Poder Público” (32) . entre 1937 e 1944, foram emitidos cerca de 90 decretos-lei<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />
(31) Carone, Edgar:apud, pág.119.<br />
(32) Constituição de 1937, Capítulo da Ordem<br />
Econômica, artigo 140.
(33) Lopes Netto, A. e Madureira Azevedo,<br />
M.A.:”O adicional de insalubridade e suas<br />
raízes” inapud pag. 140.<br />
com referência à regulamentação da organização sindical: a estrutura sindical<br />
(unicidade, a arrecadação das contribuições, o enquadramento sindical), da<br />
Justiça do Trabalho e do salário mínimo, entre eles.<br />
o decreto-lei 3991 de 30 de abril de 1938, que “Aprova o regulamento para<br />
execução da lei n. 185, de 14 de janeiro de 1936, que institui as Comissões de<br />
Salário Mínimo”, com competência para fixar os salários mínimos regionais.<br />
além de fixar os critérios a serem considerados na definição dos salários mínimos<br />
regionais (habitação, transporte, alimentação, etc.), “estendeu seu campo de<br />
aplicação também para o trabalho de menores e para condições especiais<br />
de trabalho que implicassem em agravos aos obreiros. Essas condições,<br />
denominadas insalubres, mereceram do legislador (no caso o próprio Poder<br />
Executivo) um tratamento específico, conforme se constata na leitura do art. 4°<br />
e seu parágrafo 1°, a saber:<br />
Art. 4º Quando se tratar da fixação de salário mínimo para trabalhadores ocupados<br />
em serviços insalubres, poderão as Comissões de Salário Mínimo aumentá-lo até<br />
de metade do salário mínimo normal da região, zona ou sub-zona.<br />
§ 1º O Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio organizará, dentro do<br />
prazo de 120 dias, contados da publicação deste regulamento, o quadro das<br />
indústrias insalubres que, pela sua própria natureza ou método de trabalho,<br />
forem susceptíveis de determinar intoxicações, doenças ou infecções.<br />
Do texto legal, resta evidenciado que o salário mínimo do trabalhador que<br />
laborasse em indústrias consideradas insalubres, no quadro elaborado pelo<br />
MTb poderia ser majorado em até 50%, a critérios das Comissões de Salário<br />
Mínimo e que estas teriam que se ater ao citado no quadro no que se refere ao<br />
plus salarial” (33) .<br />
a Justiça do Trabalho, regulamentada pelo decreto nº 1.237, de 1939, havia<br />
sido precedida pelas comissões Mistas de conciliação, que se transformaram<br />
em Juntas de conciliação e Julgamento, e entrou em funcionamento em 1° de<br />
maio de 1941. composta por Juntas de conciliação e Julgamento, conselhos<br />
regionais do Trabalho (divididos em 8 regiões brasileiras), câmara da Justiça<br />
do Trabalho e conselho nacional do Trabalho, a Justiça do Trabalho é, desde<br />
então, o órgão decisório sobre as relações e condições de trabalho no Brasil.<br />
a guerra intensificou a produção, ampliou o número de indústrias e de<br />
operários existentes, quando as dificuldades de importação e a alta de<br />
preços e a escassez dos produtos importados forçaram a nossa indústria a<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo 97
substituir as importações. o governo acenou com uma série de incentivos para<br />
a produção, pois o desaparecimento ou a alta de preços de alguns produtos,<br />
como ferro, juta, aço e grafite, provocavam problemas na produção. nesse<br />
período, ocorreu a fundação de um grande número de importantes empresas:<br />
companhia nacional de Papel e celulose (1943), usina de Material Ferroviário<br />
(1943), de alumínio (1945), de Máquinas de costura (1942), Fábrica de Vidro<br />
Plano (1943), e centenas de outras fábricas nos setores de cimento e mármore,<br />
juta e corá. ampliou-se e diversificou-se o parque industrial brasileiro.<br />
98<br />
BRASIL - Pessoal Ocupado - Indústria 1939/1949<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />
1939 1949<br />
Indústria Geral 851.755 (100%) 1.346.423 (100%)<br />
Têxtil 233.443 (27,4%) 338.035 (25,1%)<br />
Alimentício 173.535 (20,4%) 234.311 (17,4%)<br />
Metalúrgico 61.338 (7,2%) 102.826 (7,6%)<br />
Minerais Não Metálicos 57.416 (6,7%) 128.328 (9,5%)<br />
Fonte: iBge, estatísticas do Século XX, estatísticas econômicas (tabela montada pela autora)<br />
a expansão do parque industrial e o crescimento do número de pessoal<br />
ocupado na indústria incentivaram as ações de prevenção dos acidentes de<br />
trabalho. a proximidade do fim do conflito bélico sinalizava que a capacidade<br />
industrial dos países em guerra seria uma variável importante na definição da<br />
vitória. e a capacidade industrial estava diretamente vinculada a um maior nú<br />
mero de trabalhadores em produção ativa em um determinado período.<br />
com essa perspectiva, a higiene e segurança do trabalho passaram a ser<br />
fatores importantes no processo produtivo. e duas preocupações passaram a<br />
coexistir. a primeira delas era sob o aspecto humano: a integridade física é<br />
um direito inalienável do trabalhador. a outra: sob o aspecto da produção,<br />
os acidentes, provocando ou não lesão no trabalhador, ocasionavam perda<br />
de tempo, podendo ainda resultar em eventuais perdas materiais, obrigando
(34) Herbert William Heinrich ( 1886 -1962),<br />
(35) Barbosa Teixeira, A.C.”A Engenharia de<br />
Segurança no Brasil”, in www.areaseg.com.br<br />
a renovação do quadro de pessoal e contribuindo para o desgaste moral do<br />
corpo de funcionários, além de elevar os preços dos seguros de acidentes de<br />
trabalho, influenciando, também, na qualidade do produto.<br />
os estudos de h.W. heinrich foram os primeiros a apontar que a reparação<br />
pura e simples dos danos causados aos trabalhadores através das indenizações<br />
não seria suficiente e que outras ações tão ou mais importantes seriam<br />
necessárias para assegurar o controle dos riscos de acidentes ou preveni-los,<br />
quando possível. (34)<br />
Essa discussão começou a ganhar corpo, também no Brasil. “É então que o<br />
empresariado começa a despertar para o aspecto econômico dessa prevenção<br />
e espalha-se a idea de que a prevenção pode ser um bom negócio. A aceitação<br />
dessa assertiva muito contribuiu, sem dúvida, para a fundação, em 1941, da<br />
ABPA, a Associação Brasileira para Prevenção de Acidentes. Uniam-se, aí, os<br />
esforços de empresários, sensibilizados pelo papel negativo dos acidentes na<br />
economia, com a ação de técnicos interessados em contribuir para a prevenção<br />
de acidentes. Mas, depois de Heinrich, em 1929, pesquisando consequências de<br />
acidentes, haver concluído que de 330 acidentes estudados apenas 30 tinham<br />
dado origem a lesões pessoais, dos quais só uma de maior gravidade, não seria<br />
razoável continuar abandonando mais de 90% de informações provenientes<br />
de acidentes sem lesão. E contra a ideia de buscar a prevenção dos acidentes<br />
no estudo de suas consequências havia a inexistência de proporcionalidade<br />
entre a gravidade das lesões pessoais decorrentes de acidentes e a gravidade<br />
potencial desses acidentes. Não se tratava, pois, de agir, à semelhança do que<br />
se sugere nos contos policiais, onde por vezes o autor do delito é investigado<br />
através da pesquisa da lesão da vítima. O caminho seria outro e isso tornava-se<br />
mais claro à medida que se desenvolvia, no País, a grande indústria. A indústria<br />
do petróleo, a siderurgia e tantas outras que começavam a funcionar, exigindo<br />
capacidade técnica, que não contava com a ajuda de tradição. Impunha-se<br />
novo enfoque para enfrentar as novas técnicas. Não seria lógico, pois, continuar<br />
a abandonar a análise dos acidentes sem lesão. E era necessário passar a<br />
estudar a problemática do acidente a partir de suas causas. Nessa altura<br />
tornou-se possível sensibilizar a área da engenharia, até então preocupada<br />
principalmente com os assuntos ligados diretamente à produção, para a análise<br />
das causas do acidente. Mas até que a engenharia, preocupada com o que se<br />
referia diretamente à produção, passasse a interessar-se profissionalmente pela<br />
pesquisa das causas do acidente havia um longo caminho a percorrer.” (35)<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo 99
como resultado dessa linha de ação, foi fundada em 21 de maio de 1941,<br />
a aBPa – associação Brasileira de Prevenção de acidentes, uma associação<br />
privada criada por um grupo de indústrias lideradas pela light and Power, sem<br />
ajuda governamental, com o objetivo de: educar trabalhadores e empresários<br />
para a prevenção de acidentes e segurança no trabalho em todos os setores<br />
das atividades econômicas, dentro da perspectiva que a redução de acidentes<br />
“significa redução de gastos com médicos, hospitais, licenças médicas,<br />
aposentadorias precoces por invalidez permanente, mortes, aliviando os cofres<br />
da Previdência Social para permitir a melhoria dos serviços sociais em outras<br />
áreas”.<br />
e, no 1° de maio de 1943, entrou em vigor a consolidação das leis do Trabalho<br />
(clT), anunciada por getúlio Vargas desde 1939. o conjunto de leis, decretos<br />
e portarias existentes, que regulamentavam as relações e as condições de<br />
trabalho, era tão confuso que foi necessário um arcabouço próprio para<br />
ordená-las. os juristas arnaldo Sussekind, dorval de lacerda e Segadas Viana<br />
foram encarregados de dar corpo ao ante-projeto da clT. “A Consolidação<br />
corresponde a um estágio no desenvolvimento do processo jurídico. Entre<br />
compilação ou coleção de leis e um código – que são respectivamente, os<br />
momentos extremos de um processo de corporificação do Direito – existe a<br />
consolidação, que é a fase própria da concatenação dos textos e da coordenação<br />
dos princípios, quando já se denuncia primeiro o pensamento do sistema depois<br />
de haverem sido reguladas, de modo amplo, relações sociais em determinado<br />
plano da vida política.” (37) desde então, a clT rege as relações e as condições<br />
de trabalho no Brasil e institucionalizou as atividades destinadas a prevenir<br />
acidentes de trabalho e doenças profissionais.<br />
no bojo das regulamentações das relações e condições de trabalho,<br />
necessárias para o desenvolvimento das forças produtivas, acompanhando<br />
o que estava ocorrendo no resto do mundo, o decreto-lei nº 6.479, de 09<br />
de abril de 1944, criou, no âmbito do Ministério do Trabalho, as carreiras de<br />
engenheiro de Segurança do Trabalho, inspetor do Trabalho e Médico do<br />
Trabalho.”Art. 1º Ficam criadas, no Quadro Único do Ministério do Trabalho,<br />
Indústria e Comércio, de conformidade com as tabelas anexas, as carreiras de<br />
Dactiloscopista-auxiliar, Engenheiro de Segurança do Trabalho, Inspetor do<br />
Trabalho e Médico do Trabalho”.<br />
no entanto, somente depois da ratificação da convenção 81 da oiT, pelo<br />
decreto legislativo 24, de 29 de maio de 1956, e pelo decreto-lei nº 41.721,<br />
de 25 de junho de 1957, é que foi instituído o regulamento da inspeção do<br />
Trabalho, através do decreto nº 55.841 de 15 de março de 1965, estruturando<br />
100<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />
(36) Barbosa Teixeira, A.C.”A Engenharia de<br />
Segurança no Brasil”, in www.areaseg.com.br
(37) Artigo 1 do Regulamento de Inspeção do<br />
Trabalho, Decreto 55.841 de 1965<br />
(38) Souto, D.F. : Saúde no trabalho: uma<br />
revolução em andamento, 2ª edição, Rio de<br />
Janeiro, SENAC NACIONAL, 2007, pag157<br />
as carreiras dos agentes de inspeção do Trabalho. “Art. 1º O sistema federal de<br />
inspeção do trabalho, a cargo do Ministério do Trabalho e Previdência Social,<br />
sob a supervisão do Ministro de Estado, tem por finalidade assegurar, em todo<br />
o território nacional, a aplicação das disposições legais e regulamentares,<br />
incluindo as convenções, internacionais ratificadas, dos atos e decisões das<br />
autoridades competentes e das convenções coletivas de trabalho, no que<br />
concerne à duração e às condições de trabalho bem como à proteção dos<br />
trabalhadores no exercício da profissão.” (37)<br />
a criação das carreiras de inspetor do trabalho, engenheiro de segurança e<br />
médico do trabalho pelo Ministério do Trabalho lançava os contornos para<br />
delimitar o exercício profissional dessas especialidades. em 14 de dezembro<br />
de 1944, no auditório do Ministério do Trabalho, indústria e comércio, no<br />
rio de Janeiro, reuniu-se um grupo de médicos e engenheiros, para discutir e<br />
aprovar os estatutos da aBMT – associação Brasileira de Medicina do Trabalho<br />
e eleger sua primeira diretoria. o objetivo da entidade era “difundir, entre os<br />
profissionais interessados, conhecimentos sobre saúde dos trabalhadores e<br />
sobre as condições ambientais em que o trabalho era executado” (38) .<br />
o decreto-lei nº 7.036, de 10.11.1944, ampliou o conceito de acidente de<br />
trabalho e no seu artigo 3° estabeleceu que: “Considera-se caracterizado o<br />
acidente, ainda quando não seja ele a causa única e exclusiva da morte ou<br />
da perda ou redução da capacidade do empregado, bastando que entre o<br />
evento e a morte ou incapacidade haja uma relação de causa e efeito”, além<br />
de equiparar a lesão típica à doença do trabalho, distinguindo as doenças<br />
profissionais (tecnopatias) e as doenças resultantes das condições de trabalho<br />
(mesopatias)“Art. 2º Como doença, para os efeitos desta lei, entendem-se, além<br />
das chamadas profissionais, - inerentes ou peculiares a determinados ramos de<br />
atividades, - as resultantes das condições especiais ou excepcionais em que<br />
o trabalho for realizado”. Manteve as restrições para o acidente “in itinere”<br />
que dependia tanto do fornecimento de condução pelo empregador quanto<br />
do percurso a ser executado pelo trabalhador. e, no seu artigo 82, previu a<br />
criação de comissões internas para incentivar a prática de prevenir acidentes:<br />
“Os empregadores, cujo número de empregados seja superior a 100, deverão<br />
providenciar a organização, em seus estabelecimentos de comissões internas,<br />
com representantes dos empregados, para o fim de estimular o interesse pelas<br />
questões de prevenção de acidentes, apresentar sugestões quanto à orientação<br />
e fiscalização das medidas de proteção ao trabalho, realizar palestras instrutivas,<br />
propor a instituição de concursos e prêmios e tomar outras providências<br />
tendentes a educar o empregado na prática de prevenir acidentes.”<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo 101
essas comissões, que posteriormente ficaram conhecidas como ciPaS, foram<br />
regulamentadas pela primeira vez, pela Portaria 229 do Ministério do Trabalho,<br />
de 19 de junho de 1945 que: “Recomenda a adoção das instruções que se<br />
seguem e que visem orientar a criação e a atuação das Comissões Internas<br />
de Prevenção de Acidentes, instituídas pelo Decreto-Lei n.º 7.036, de 10 de<br />
novembro de 1944, com caráter obrigatório nas empresas com mais de 100<br />
empregados” (39) .<br />
além das finalidades previstas no decreto de 1944, esta primeira regulamentação<br />
atribuiu às comissões as responsabilidades de:<br />
1. “promover o cumprimento da legislação em vigor referente à segurança<br />
e higiene do trabalho”;<br />
2. “realizar o estudo das condições de segurança da m<strong>aqui</strong>naria e higiene<br />
dos locais de trabalho, com a finalidade de sua melhoria”;<br />
3. “a redação de normas e instruções convenientes para prevenir possíveis<br />
acidentes e doenças profissionais”;<br />
4. “investigar as causas de acidentes e doenças profissionais, mantendo em<br />
dia a estatística de acidentes, com seus índices de frequência e gravidade”;<br />
5. “promover a adaptação e seleção profissional do trabalhador”;<br />
6. “observar a instalação e funcionamento dos serviços de assistência aos<br />
acidentados”;<br />
7. “desenvolver ensino, divulgação e propaganda, por conferências, palestras,<br />
cartazes, filmes, cartilhas, acerca de prevenção de acidentes e doenças<br />
profissionais”;<br />
8. “promover competições, concursos, feitos, menções honoríficas para<br />
distinguir o trabalho ou o profissional que mais se tenha feito notar na<br />
campanha de prevenção”;<br />
9. “propor penalidades para o trabalhador que se recusar submeter às<br />
instruções previstas no art. 79, do Decreto-lei n.º 7.036” (40) ;<br />
10. “sugerir à gerência as medidas julgadas necessárias para o bom êxito dos<br />
trabalhos da Comissão”; “reunir-se, pelo menos, uma vez por mês, redigindo<br />
ata de cada sessão realizada”;<br />
102<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />
(39) “ ... (...) ... estruturada pela ABMT e<br />
levada por Décio Parreiras à consideração do<br />
Ministério do Trabalho, é aprovada Portaria que<br />
criou as Comissões Internas de Prevenção de<br />
Acidentes (CIPAs) nas empresas com mais de<br />
100 empregados ...” Souto, D.F.:apud, pag158
(40) Disposições legais referentes à prevenção<br />
contra acidentes do trabalho.<br />
11. “fornecer esclarecimentos e facilitar a atuação da Divisão de Higiene<br />
e Segurança do Trabalho e das Delegacias Regionais do Trabalho”.<br />
as ciPas eram formadas por membros da empresa que fixava o número<br />
de participantes e, inicialmente deveriam ser constituída por: “presidente;<br />
secretário; médico da fábrica; engenheiro da fábrica; membros representantes<br />
dos empregados, em número não inferior a três, indicados pelo sindicato<br />
respectivo, quando existente”. no entanto, o artigo 7° desta Portaria estipulava<br />
que “todo qualquer trabalhador poderá dirigir-se à Comissão Interna de<br />
Prevenção de Acidentes para preveni-la da execução de serviços perigosos em<br />
sua seção ou outra qualquer; para sugerir medidas de proteção individual ou<br />
coletiva e para salientar a transgressão de ordens, regras e regulamentos que<br />
visam à defesa do próprio trabalhador”.<br />
normalmente, o presidente da comissão era um dos diretores da empresa<br />
ou pessoa indicada pelo mesmo; o secretário era escolhido pelo presidente;<br />
não havia uma proporcionalidade na representação dos trabalhadores segundo<br />
o número de empregados da empresa, nem eleição para esses representantes.<br />
nessa regulamentação, a preocupação envolvia a segurança das máquinas e a<br />
higiene do local de trabalho. ainda não havia uma preocupação sistêmica com<br />
a totalidade da segurança e do ambiente de trabalho.<br />
regra geral, as ciPaS eram instaladas e ficavam sob a responsabilidade do<br />
departamento de Pessoal ou da assistência Social da empresa, não havendo<br />
um envolvimento do conjunto da empresa na prevenção de acidentes<br />
e melhoria das condições de trabalho.<br />
algumas empresas já haviam instalado suas comissões antes do decreto 7.036,<br />
atendendo a uma recomendação da organização internacional do Trabalho<br />
(oiT), que, em 1921, organizou um comitê para estudos de segurança e higiene<br />
do trabalho e, para divulgação de recomendações de medidas preventivas<br />
de acidentes e doenças do trabalho. dessa recomendação da oiT constava<br />
o seguinte texto: “Os empregadores, cujo número de empregados seja<br />
superior a 100, deverão providenciar a organização, em seus estabelecimentos,<br />
de comissões internas, com representantes dos empregados, para a fim de<br />
estimular o interesse pelas questões de prevenção de acidentes, apresentar<br />
sugestões quanto à orientação e fiscalização das medidas de proteção ao<br />
trabalho, realizar palestras instrutivas, propor a instituição de concursos<br />
e prêmios e tomar outras providências tendentes a educar o empregado na<br />
prática de prevenir acidentes”, bastante similar ao texto do decreto de 1944.<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo 103
a light and Power, empresa inglesa de geração e distribuição de energia, com<br />
sede no rio de Janeiro e São Paulo, foi uma das que instalaram a comissão<br />
antes da sua regulamentação (41) . na área portuária, a companhia docas de<br />
Santos foi a primeira a instalar sua ciPa, em 1949 (42) .<br />
dentre as Forças armadas, o exército é a que possuía maior número<br />
de unidades fabris, obrigando-se por isso, a dedicar especial atenção às<br />
questões de segurança industrial e prevenção de acidentes, isso não só pela<br />
diversificação do seu parque industrial, que vai da indústria química (produção<br />
de explosivos, cloro, soda cáustica, etc.), à indústria metalúrgica (fundição,<br />
tratamento de metais, etc.), mas, também, por estarem esses estabelecimentos<br />
espalhados por todo território nacional. assim, “... a Fábrica de Bonsucesso<br />
criou sua Comissão em 18 de dezembro de 1944, ou seja um mês e oito dias<br />
após a data do Decreto-Lei 7.036 (10 de novembro) de 1944, que determinou<br />
a criação das CIPAS, enquanto a da Fábrica do Andaraí foi organizada em 6 de<br />
dezembro de 1950 ... (...) ... Assim, entre 22 de novembro de 1950 (Fábrica de<br />
Estrela) e 2 de março de 1951 (Fabrica de Material de Comunicações) todas<br />
as fábricas e arsenais passaram a contar dentro de suas organizações com<br />
CIPAS que, em suas linhas gerais obedeciam ao Decreto-Lei 7.036, adaptado,<br />
em pequeníssimas particularidades, a estrutura que caracteriza a fábrica do<br />
Exército” (43) .<br />
durante os últimos anos do estado novo, Vargas adotou uma política consciente<br />
de intervenção estatal. “A intervenção do governo federal na economia<br />
brasileira, se bem que já estivesse explicada em termos de nacionalismo<br />
econômico e defesa militar, foi grandemente acelerada pela Segunda Guerra<br />
Mundial. A entrada formal do Brasil na guerra, em 1942, deu oportunidade a<br />
um esforço de mobilização econômica em escala total ... (...) A necessidade<br />
obvia de matérias primas e bens manufaturados, vitais para o esforço de<br />
guerra, deu nova importância ao programa do governo Vargas, de empresas<br />
financiadas pelo Estado.” (44 a intervenção direta do estado ocorria através de<br />
investimentos públicos nos setores de ferrovias, navegação, serviços públicos e<br />
indústrias de base, como aço e petróleo.<br />
104<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />
(41) More, L. F.: A CIPA Analisada sob a Ótica<br />
da Ergonomia e Organização do Trabalho<br />
- Proposta de Criação da Comissão de Estudos<br />
do Trabalho – CET, Programa de Engenharia<br />
de Produção, UFSC, dissertação de mestrado,<br />
capitulo 6, 1997, in http://www.eps.ufsc.br/<br />
disserta97/more/index.html.<br />
(42) Barbosa Teixeira, A.C.:apud , cronologia.<br />
(43) Lopes Netto, A.: ‘Contribuições a<br />
Construção da Engenharia de Segurança no<br />
Brasil”, Editora CIPA, São Paulo, 2010, 2ª<br />
edição, pags.17-19.
(44) Skidmore, T: Brasil: de Getúlio a Castelo,<br />
Rio de Janeiro, Editora Saga, 1969, pag. 67<br />
(45) Skidmore, T.:apud, pag. 68-69.<br />
“Vargas usou a ocasião do esforço de guerra para elaborar uma política de<br />
industrialização, objetivo para o qual se encaminhava desde 1937, se bem que<br />
até 1940 ele ainda não se houvesse empenhado a fundo no desenvolvimento<br />
industrial sistemático. Em 1943, Vargas anunciou com orgulho que, com<br />
empresas como usinas de ferro e aço, fábricas de alumínio e cobre e a<br />
exportação de minérios, o Brasil estava caldeando “os elementos básicos para<br />
a transformação de uma vasta e esparsa comunidade agrícola em uma nação<br />
capaz de prover as suas necessidades fundamentais.” (45)<br />
Vargas e Roosevelt, 1943<br />
Capítulo II | 3. O Estado Novo 105
Cia Siderúrgica Nacional
nal<br />
II.4. O Fim da Guerra e a Constituição<br />
de 1946<br />
a partir de 1942, o Brasil declarou guerra ao nazi-fascismo, integrando<br />
o corpo de países aliados, ao lado dos estados unidos, grã-Bretanha e França.<br />
internamente, a declaração de guerra teve grandes repercussões, uma vez que<br />
passamos a receber apoios, financiamentos e assistência técnica dos países<br />
aliados, em troca de matérias-primas e da instalação de bases militares na costa<br />
brasileira, como garantia de defesa do atlântico Sul.<br />
a partir da entrada no Brasil na guerra, intensificaram-se as contradições<br />
da ditadura do estado novo. a constituição que fora outorgada em 1937<br />
estabelecia que, em novembro de 1943, deveria ocorrer um plebiscito para<br />
validar a carta Magna. com a justificativa de que o país estava em guerra o<br />
plebiscito foi adiado. as pressões para uma nova constituição e para a volta ao<br />
estado de direito eram fortes.<br />
cedendo às pressões políticas, Vargas assinou a lei constitucional n° 9 de<br />
28 de fevereiro de 1945, que “Dá nova redação a artigos da Constituição”<br />
e considera que “... se criaram as condições necessárias para que entre em<br />
funcionamento o sistema dos órgãos representativos previstos na Constituição”.<br />
assinou, também, o decreto-lei 7.474 de 18 de abril de 1945, concedendo<br />
anistia “a todos quantos tenham cometido crimes políticos desde 16 de julho<br />
de 1934 até a data da publicação deste decreto-lei”.<br />
Finalmente, o decreto 7.586 de 28 de maio de 1945, “Regula, em todo país, o<br />
alistamento eleitoral e a eleições a que se refere o artigo 4º da Lei Constitucional<br />
n.9, de 28 de fevereiro de 1945”, definindo para o dia 02 de dezembro de<br />
1945, as eleições para Presidente, recriando a Justiça eleitoral e o Tribunal<br />
Superior eleitoral e, a lei constitucional n°15 de 26 de dezembro de 1945,<br />
no seu artigo 1º, definiu que: “Em sua função constituinte terá o Congresso<br />
Nacional, eleito a 2 de dezembro próximo, poderes ilimitados para elaborar<br />
e promulgar a Constituição do País, ressalvada a legitimidade da eleição, do<br />
Presidente da República”.<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 107
em 2 de setembro, o Japão se rendeu e colocou fim nos conflitos da Segunda<br />
grande guerra. desgastado politicamente, Vargas renunciou ao cargo de<br />
Presidente da república em 29 de outubro de 1945, assumindo em seu lugar<br />
o presidente do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior eleitoral,<br />
Ministro José linhares (46) .<br />
elaborada no contexto sócio-econômico de um setor industrial emergente,<br />
embora limitado a algumas das grandes cidades, ainda dependente do setor<br />
agrário exportador, com uma classe operária em expansão e no contexto<br />
político de derrota do estado novo, anistia geral e vitória dos aliados na<br />
Segunda guerra, a quarta constituição foi promulgada em 18 de setembro de<br />
1946.<br />
no capitulo V, da ordem econômica e Social, considerou-se o trabalho como<br />
uma “obrigação social” (47) , substituindo-se, no seu artigo 157, o termo<br />
“seguro social” por “previdência social” e, estipulando os seguintes preceitos<br />
para a legislação do trabalho e da previdência social:<br />
108<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />
(46) José Linhares permaneceu no cargo de 30<br />
de outubro de 1945 a 31 de janeiro de 1946.<br />
(47) Constituição Federal de 1946 , artigo<br />
145 § 1.
Vargas e Roosevelt, 1943<br />
Sessão Plenária da Assembléia<br />
Constituinte de 1946<br />
“Art.157 - A legislação do trabalho e a da previdência social obedecerão nos<br />
seguintes preceitos, além de outros que visem a melhoria da condição dos<br />
trabalhadores:<br />
I.<br />
II .<br />
salário mínimo capaz de satisfazer, conforme as condições de cada<br />
região, as necessidades normais do trabalhador e de sua família;<br />
proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho por motivo<br />
de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil;<br />
III . salário do trabalho noturno superior ao do diurno;<br />
IV.<br />
participação obrigatória e direta do trabalhador nos lucros da<br />
empresa, nos termos e pela forma que a lei determinar;<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 109
V.<br />
VI.<br />
110<br />
duração diária do trabalho não excedente a oito horas, exceto nos<br />
casos e condições previstos em lei;<br />
repouso semanal remunerado, preferentemente aos domingos e, no<br />
limite das exigências técnicas das empresas, nos feriados civis e<br />
religiosos, de acordo com a tradição local;<br />
VII. férias anuais remuneradas;<br />
VIII. higiene e segurança do trabalho;<br />
IX. proibição de trabalho a menores de quatorze anos; em indústrias<br />
insalubres, a mulheres e a menores, de dezoito anos; e de trabalho<br />
noturno a menores de dezoito anos, respeitadas, em qualquer caso,<br />
as condições estabelecidas em lei e as exceções admitidas pelo Juiz<br />
competente;<br />
X.<br />
direito da gestante a descanso antes e depois do parto, sem prejuízo<br />
do emprego nem do salário;<br />
XI . fixação das percentagens de empregados brasileiros nos serviços<br />
públicos dados em concessão e nos estabelecimentos de determinados<br />
ramos do comércio e da indústria;<br />
XII. estabilidade, na empresa ou na exploração rural, e indenização ao<br />
trabalhador despedido, nos casos e nas condições que a lei estatuir;<br />
XIII. reconhecimento das convenções coletivas de trabalho;<br />
XIV. assistência sanitária, inclusive hospitalar e médica preventiva, ao<br />
trabalhador e à gestante;<br />
XV. assistência aos desempregados;<br />
XVI. previdência, mediante contribuição da União, do empregador e do<br />
empregado, em favor da maternidade e contra as consequências da<br />
doença, da velhice, da invalidez e da morte;<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946
XVII. obrigatoriedade da instituição do seguro pelo empregador contra os<br />
acidentes do trabalho.<br />
Parágrafo único - Não se admitirá distinção entre o trabalho manual ou<br />
técnico e o trabalho intelectual, nem entre os profissionais respectivos, no<br />
que concerne a direitos, garantias e benefícios.”<br />
os impactos da Segunda guerra na economia brasileira haviam sido<br />
fortíssimos. o efeito mais rápido e de maior significado, como era de se<br />
esperar, foi registrado no nosso comércio exterior e se refletiu tanto no volume<br />
das importações e exportações, quanto no eixo comercial delas. nos dois<br />
primeiros anos do conflito, as importações europeias que representavam 46%<br />
do total caíram para 13% e as exportações que também representavam 46% das<br />
nossas exportações caíram para 17%. no entanto, as relações comerciais com<br />
os estados unidos, que em 1939 haviam representado 34% das importações,<br />
subiram para 60% em 1941; sendo que, em 1944, as exportações representaram<br />
53% das exportações realizadas e as importações corresponderam a 61%<br />
das nossas importações. houve um enorme deslocamento do eixo comercial<br />
brasileiro.<br />
durante o período da Segunda guerra Mundial, nosso quadro de comércio<br />
exterior mostrou um saldo favorável para as exportações, embora as<br />
importações tenham crescido em 161% no período.<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 111
BRASIL - Balança Comercial – 1940/1944 (milhares de cruzeiros) (48)<br />
Anos Importações Exportações Saldo<br />
1940 4.964 4.461 - 3<br />
1941 5.514 6.726 +1.212<br />
1942 4.693 7.500 +2.857<br />
1943 6.092 8.729 +2.567<br />
1944 7.997 10.727 +2.730<br />
Fonte: relatório do Banco do Brasil, 1945 in Ferreira lima, h:apud pag 361<br />
VALOR MÉDIO DA TONELADA (em cruzeiros)<br />
Anos Exportada Importada<br />
1938 1.295 1.057<br />
1942 2.818 1.547<br />
1943 3.237 1.824<br />
1944 4.015 2.108<br />
Fonte: Ferreira lima, h.: Fisionomia do nosso comércio exterior, revista do<br />
comércio, janeiro de 1946, rio de Janeiro inapud pag 361<br />
112<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />
(48) Os saldos favoráveis das exportações é<br />
resultado do acréscimo do valor das toneladas<br />
das mercadorias vendidas e não do volume de<br />
mercadorias comercializadas.
(49) Ferreira Lima, H:apud pag 366.<br />
BRASIL - Volume Fisico da Produção 1939/1944<br />
Indústria de Transformações - Índice: 1939 =100<br />
Indústria 1939 1940 1941 1942 1943 1944<br />
Metalúrgicas 100 127 141 145 158 177<br />
Mat. de Transp. 100 121 139 48 16 17<br />
Minerais ñ metal. 100 103 160 153 185 207<br />
Papel 100 108 115 120 113 125<br />
Borracha 100 159 258 282 343 341<br />
Óleo/ graxa veg. 100 123 165 112 125 164<br />
couros e Peles 100 100 102 105 44 80<br />
Têxteis 100 96 111 120 153 151<br />
calçados 100 103 107 108 122 140<br />
Prod. alimentares 100 107 107 109 106 105<br />
Bebidas e estimul. 100 191 98 97 102 127<br />
editorial/gráficas 100 99 106 83 95 104<br />
Média aumento 100 105 117 112 124 130<br />
Fonte:revista Brasileira de economia, março de 1953 in Ferreira lima, h.:apud pag 363<br />
o significativo crescimento econômico trouxe um desgaste a todos os fatores<br />
de produção que não podiam ser facilmente repostos em função da guerra,<br />
tornando insuficientes os componentes de base da nossa infra-estrutura para<br />
atender a expansão industrial que se verificava.<br />
“Assim, o volume físico do comércio nacional de cabotagem que era de 2.725<br />
toneladas em 1939, elevou-se para 3.030 em 1944 ... (...)... Quanto a extensão<br />
das linhas férreas permaneceu praticamente a mesma, pois evoluiu apenas de<br />
34.204 quilômetros em 1934 para 34.602 quilômetros em 1943. Referente a<br />
energia elétrica, a situação apresentava-se mais grave ainda, porque de um<br />
total de 1.172.000 KW em 1939, houve um aumento para 1.334.000KW em<br />
1944, equivalente, em termos percentuais, a apenas 14%.” (49)<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 113
É importante lembrar que embora alguns setores, como: borracha, metalurgia,<br />
minerais não metálicos e material de transporte, tenham tido um crescimento<br />
realmente significativo, o fato mais importante do período foi a instalação da<br />
companhia Siderúrgica nacional, em 1941, que entrou em funcionamento<br />
em 1946. a comissão nacional de Siderurgia havia sido nomeada em agosto<br />
de 1931 e, desde então, vinha estabelecendo contatos na europa e, depois<br />
que eclodiu a guerra, nos estados unidos, para a execução de um programa<br />
concreto de siderurgia no país, que culminou com instalação da usina de Volta<br />
redonda.<br />
a necessidade de modernização do aparelho do estado, a expansão das<br />
funções governamentais e o crescimento do número dos funcionários públicos<br />
com perfil técnico evidenciavam uma preocupação do governo de envidar<br />
esforços para garantir o êxito do processo de expansão industrial desenhado<br />
para o país.<br />
Vargas escolheu alguns interlocutores para ajudá-lo a definir as estratégias<br />
para o desenvolvimento brasileiro. roberto Simonsen, engenheiro, industrial,<br />
administrador, professor, historiador e político foi um dos escolhidos, defendia<br />
o planejamento da industrialização pela intervenção do estado, com estimulos<br />
e barreiras alfandegárias. os outros dois foram euvaldo lodi, empresário,<br />
engenheiro e político e horácio lafer, empresário, diplomata e político. esses<br />
interlocutores ajudaram a desenhar o modelo de representação sindical<br />
empresarial que perdura até hoje. horacio lafer, representante brasileiro na<br />
liga das nações, foi o primeiro presidente da cni, fundou, com apoio de<br />
roberto Simonsen e acordo com o governo federal, o Senai e o SeSi, que<br />
serviram de modelo para o atual Sistema “S”.<br />
a criação do Senai e, posteriormente do Senac, fazia parte de uma estratégia<br />
de suprir a necessidade de formação de mão de obra exigida pelo processo de<br />
industrialização planejado por Vargas.<br />
a produção de aço de Volta redonda permitiu o crescimento das indústrias<br />
mecânicas e metalúrgicas, a posterior implantação da indústria automotiva e a<br />
expansão da indústria pesada. Mas, o país não estava preparado para enfrentar<br />
essa nova realidade, não só pelos gargalos na infra-estrutura instalada, mas,<br />
também, porque não possuía conhecimento técnico acumulado para enfrentar<br />
os problemas decorrentes da expansão industrial, tanto em termos dos<br />
acidentes de trabalho quanto em termos de doenças profissionais resultantes<br />
desse processo.<br />
114<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946
BRASIL - Produção Siderúrgica 1945/1951 (em toneladas)<br />
Indústria 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951<br />
Ferro gusa 259.909 370.722 480.929 551.813 511.715 728.979 750.000<br />
aço 205.613 342.613 386.971 483.185 615.069 788.557 850.000<br />
laminados 165.805 230.229 296.686 403.457 505.540 623.285 700.000<br />
Fonte: Ferreira lima, h.:apud, pag. 376<br />
Companhia Siderúrgica<br />
Nacional<br />
Mas, o parque industrial havia crescido e se diversificado, permitindo<br />
o surgimento de um leque mais variado de situações provocadas pela variedade<br />
de máquinas, produtos químicos, engrenagens, gases e outras substâncias que,<br />
cada vez mais, exigiam dos trabalhadores cautela e qualificação na execução<br />
das atividades laborais, pois a qualquer momento poderiam sofrer uma lesão<br />
irreparável.<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 115
116<br />
BRASIL - Volume Fisico da Produção 1945/1950<br />
Indústria de Transformação - Índice: 1939 = 100<br />
Indústria 1945 1946 1947 1948 1949 1950<br />
Metalúrgicas 168 248 308 391 463 594<br />
Mat. de Transp. 49 139 219 291 363 367<br />
Minerais ñ metal. 221 255 257 304 351 379<br />
Papel 127 140 153 168 194 222<br />
Borracha 492 549 538 623 761 902<br />
Óleo/ graxa veg. 147 123 123 168 171 190<br />
couros e Peles 85 98 105 114 117 119<br />
Têxteis 143 152 143 153 160 175<br />
calçados 157 163 129 160 176 170<br />
Prod. alimentares 105 122 130 139 146 149<br />
Bebidas e estimul. 155 183 182 196 188 215<br />
editorial/gráficas 114 134 139 144 163 162<br />
Média aumento 135 157 162 184 201 218<br />
Fonte:revista Brasileira de economia, março de 1953 in Ferreira lima, h.:apud pag 374<br />
entretanto, após a posse de eurico gaspar dutra a “economia sofreu um<br />
rápido esgotamento das reservas brasileiras de divisas e do resultante déficit<br />
no balanço de pagamentos ... (...)... a reintrodução de controles cambiais, em<br />
junho de 1947, ...(...)... com o aceleramento da “industrialização espontânea”<br />
... (...) ... A resposta do novo governo à inflação oriunda dos tempos da guerra<br />
foi abrir o país a importação de bens manufaturados no exterior. Isso parecia<br />
ainda mais lógico, em vista das grandes reservas de divisas acumuladas durante<br />
a guerra. Os Ministros da Fazenda, em 1946 e 1947, procuraram, portanto,<br />
satisfazer a procura em suspenso e combater o aumento de preços através de<br />
uma generosa política de importação. ... (...)... Preocupado com o aumento<br />
do nível de preços, o governo Dutra, em 1946, não empreendeu medidas<br />
efetivas para expandir a capacidade industrial interna... (...) ... O Ministro da<br />
Fazenda Correia e Castro, .... (...) ... foi franco: Qualificou o Brasil como um “país<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946
(50) Skimore, T.:apud, pags.96-98.<br />
essencialmente agrícola” e acrescentou: “É da essência da economia latinoamericana,<br />
e o Brasil nesse conjunto está integrado, certa concentração de<br />
esforços na exportação de matéria-prima e de gêneros alimentícios, bem como<br />
a importação de ampla variedade de artigos manufaturados e de comestíveis<br />
industrializados ... (...) ... Os controles cambiais de 1947 agiram de modo<br />
semelhante à política de apoio ao café da década de ’30... (...) Nenhuma das<br />
duas políticas se destinava a promover a industrialização, mas ambas tiveram<br />
esse efeito” (50) .<br />
ao reassumir o governo, em 1951, Vargas se deparou com um duplo processo<br />
de industrialização e urbanização que se ampliara e fortalecera. Mas, que<br />
apresentava ainda grandes gargalos que impediam o crescimento da economia<br />
e as deficiências em setores da infra-estrutura, especialmente transporte<br />
e energia elétrica precisavam ser superadas: “houve um longo período de<br />
estudos sobre os problemas e as perspectivas da economia brasileira, a<br />
natureza das transformações estruturais que se deveria introduzir no sistema<br />
produtivo e o papel a ser reservado à iniciativa estatal e à iniciativa privada<br />
(nacional e estrangeira). Esse debate, que se estendeu da segunda metade da<br />
década de 1930 até o final da década de 1940, envolveu órgãos e instituições<br />
governamentais, notadamente os ministérios da Fazenda e das Relações<br />
Exteriores e o Conselho Federal de Comércio Exterior e também entidades<br />
privadas, como a Confederação Nacional da Indústria e a Fundação Getulio<br />
Vargas. A pedido do governo brasileiro, duas missões americanas - a Missão<br />
Cooke (1942) e a Missão Abbink (1948) - igualmente contribuíram para o<br />
diagnóstico das causas do baixo nível de progresso da economia brasileira” ...<br />
(...) ... “Os antecedentes diretos do BNDE podem ser situados nas atividades<br />
desenvolvidas pela Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. Organizada no Brasil<br />
em dezembro de 1950, ainda no mandato presidencial do general Eurico Gaspar<br />
Dutra, mas efetivamente instalada em julho de 1951, já no segundo governo<br />
Vargas, a comissão era integrada por técnicos brasileiros e americanos e tinha por<br />
missão analisar projetos que seriam objeto de financiamento, direcionados para<br />
o crescimento da economia e para a superação das deficiências em setores da<br />
infra-estrutura, especialmente transporte e energia elétrica ... (...)... Em setembro<br />
de 1951, as diretorias do Banco Mundial e do Export-Import Bank (Eximbank)<br />
anunciaram estar dispostas a financiar os projetos de investimento propostos<br />
pela Comissão Mista Brasil - Estados Unidos. A expectativa das autoridades<br />
brasileiras era que os recursos liberados a serem por essas duas agências para<br />
o programa de investimento da comissão mista chegariam a quinhentos milhões<br />
de dólares. Nos meses seguintes, aprovou-se uma série de leis que criavam as<br />
bases legais para a constituição de um Fundo de Reaparelhamento Econômico,<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 117
cuja principal fonte era uma taxa adicional sobre o imposto de renda devido por<br />
pessoa física e jurídica. Para administrar esse fundo, e mais os recursos oriundos<br />
do Ministério da Fazenda (em moeda nacional) e os montantes externos dirigidos<br />
ao país (em moeda estrangeira), foi proposta a criação de um banco especial,<br />
cuja tarefa seria criar condições para a superação dos entraves ao fluxo de<br />
investimentos - públicos e particulares, nacionais e estrangeiros -, necessárias<br />
ao desenvolvimento da economia brasileira ... (...) ... O Banco Nacional de<br />
Desenvolvimento Econômico (BNDE) foi criado em 20 de junho de 1952, pela Lei<br />
nº 1.628, durante o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954). Entidade<br />
autárquica, com autonomia administrativa e personalidade jurídica própria, o<br />
BNDE inicialmente esteve sob a jurisdição do Ministério da Fazenda ... (...) ... O<br />
BNDE nascia com a dupla incumbência de elaborar análises de projetos e de<br />
atuar como o braço do governo na implementação das políticas consideradas<br />
fundamentais para o avanço da industrialização. Em síntese, o Banco seria<br />
o principal formulador e executor da política nacional de desenvolvimento<br />
econômico. Mesmo após a criação do BNDE, a Comissão Mista Brasil - Estados<br />
Unidos continuou funcionando, encerrando oficialmente suas atividades em 31<br />
de janeiro de 1953. Seu relatório final concluía que as deficiências nas áreas<br />
de energia e transporte eram os maiores nós do crescimento do país ... (...)<br />
... Seguindo as indicações do relatório, o BNDE determinou que os primeiros<br />
investimentos estariam voltados para o reaparelhamento de portos e ferrovias,<br />
o aumento da capacidade de armazenamento e a ampliação do potencial<br />
elétrico. Nessa fase inicial, o Banco firmou um acordo de cooperação com<br />
a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) para formar<br />
um grupo misto de estudos, cujo objetivo seria auxiliar o BNDE na obtenção<br />
e análise de dados macroeconômicos. A instituição também se associou ao<br />
Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, que passou a lhe<br />
fornecer, periodicamente, dados sobe a evolução da renda nacional.” (51)<br />
a criação do Bnde (52) , a decisão de investimentos voltados para<br />
o “reaparelhamento” dos portos e ferrovias e aumento da capacidade de<br />
armazenamento e ampliação do potencial elétrico, além da instalação de Volta<br />
redonda e da criação da Petrobrás mudaram o perfil do parque industrial.<br />
essas mudanças trouxeram, também, um conjunto de novos problemas nas<br />
condições de trabalho, no volume de acidentes industriais e nas doenças<br />
profissionais. era preciso reorganizar o processo produtivo com o enfoque de<br />
garantir melhores condições de vida e de trabalho no país.<br />
não dispomos de informações sobre o volume de acidentes ocorridos no<br />
país nesse período, entretanto, na tabela abaixo podemos observar, nas 13<br />
118<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />
(51) Esse texto é um extrato do verbete Getúlio<br />
Vargas da obra: Dicionário Histórico Biográfico<br />
Brasileiro pós 1930. 2. ed. ver. atual. Rio de<br />
Janeiro: Ed. FGV,2001.5v.il e do site www.<br />
bndes.gov.br/conhecimento/publicacoes/<br />
catalogo/livro50anos.asp<br />
(52) Mais tarde, foi adicionado um “S”<br />
na sigla do Banco que passou a se chamar<br />
BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento<br />
Econômico e Social.
(53) Observar a coincidência da data<br />
com a data da Lei 7.410 de 1985.<br />
unidades fabris do exército, os casos de acidentes e o tempo perdido no<br />
período de 1950 a 1954, sendo que, desde, março de 1951, todas as unidades<br />
possuíam ciPas organizadas.<br />
BRASIL - EXÉRCITO<br />
Total de Acidentes e Tempo Perdido – Unidades Fabris – 1950/1954<br />
Anos N° Acidentes Tempo Perdido (h)<br />
1950 1.819 22.414<br />
1951 1.677 38.600<br />
1952 1.387 38.780<br />
1953 1.259 26.031<br />
1954 1.221 24.693<br />
Fonte: lopes netto, a.:apud, pag.20<br />
uma nova regulamentação das ciPaS, a Portaria 155 do MTb, de 27 de<br />
novembro de 1953 (53) , manteve a obrigatoriedade da comissão nas empresas<br />
com mais de 100 empregados e recomendou, no seu art.2°, que as empresas<br />
com menos de 100 empregados adotassem espontaneamente a comissão, por<br />
ser de interesse para empregados e empregadores. ampliou as atribuições das<br />
comissões, determinando que a ciPa deveria:<br />
1 . “proceder a inquéritos para averiguação das circunstâncias e das causas<br />
de todos os acidentes ocorridos na fábrica”;<br />
2 . “proceder periodicamente as inspeções de todas as instalações<br />
da fábrica e de todo seu material, verificando o cumprimento das<br />
determinações legais e o estado de conservação dos dispositivos de<br />
segurança”;<br />
3. “organizar a instrução de equipes encarregadas de serviço de incêndio<br />
e primeiros socorros”;<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 119
Podemos observar que no item 2, esta Portaria aumentou o campo de atuação<br />
das ciPas, que na Portaria anterior deveria “realizar o estudo das condições da<br />
m<strong>aqui</strong>naria e higiene dos locais de trabalho” e nesta “proceder periodicamente<br />
as inspeções de todas as instalações da fábrica e de todo seu material, verificando<br />
o cumprimento das determinações legais e o estado de conservação dos<br />
dispositivos de segurança”; ou seja, a atenção saiu da m<strong>aqui</strong>naria e da higiene<br />
no local de trabalho para o conjunto de fatores do processo produtivo. além<br />
disso, no item 1, averiguar “as circunstâncias e causas de todos os acidentes<br />
ocorridos na fábrica”, permite entender averiguar mesmo aqueles acidentes<br />
sem lesões físicas, apenas com danos materiais, conforme a tendência<br />
mencionada no artigo do dr. Barbosa Teixeira que reproduzimos acima.<br />
no que concerne à organização da comissão, os representantes dos<br />
trabalhadores passaram a ser eleitos pelos trabalhadores da empresa ao invés<br />
de indicados pelos sindicatos da categoria.<br />
a legislação sobre comissão interna de Prevenção de acidentes já sofreu<br />
quatro reformulações posteriores, através das seguintes Portarias que tratavam<br />
tanto da finalidade e objetivos destas comissões, quanto de sua organização<br />
e atribuições, são elas: Portaria n.º 32 de 29 de novembro de 1968; Portaria n.º<br />
3.456, de 3 de agosto de 1977; Portaria n.º 3.214, de 8 de junho de 1978 (54)<br />
e Portaria n.º 5, de 18 de abril de 1994. Sendo que em 22 de dezembro de<br />
1977, o governo aprovou a lei nº 6.514 que “Altera o Capítulo V do Titulo II da<br />
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), relativo a Segurança e Medicina do<br />
Trabalho ...”, e, nos artigos 162 a 165, da Seção iii, “Dos órgãos de Segurança<br />
e de Medicina do Trabalho nas Empresas” determinou que:<br />
“Art 162 - As empresas, de acordo com normas a serem expedidas pelo<br />
Ministério do Trabalho, estarão obrigadas a manter serviços especializados em<br />
segurança e em medicina do trabalho.<br />
Parágrafo único - As normas a que se refere este artigo estabelecerão:<br />
a) classificação das empresas segundo o número de empregados e a natureza<br />
do risco de suas atividades;<br />
b) o número mínimo de profissionais especializados exigido de cada empresa,<br />
segundo o grupo em que se classifique, na forma da alínea anterior;<br />
c) a qualificação exigida para os profissionais em questão e o seu regime de<br />
trabalho;<br />
120<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />
(54) Através desta Portaria, foram revogadas<br />
todas as portarias baixadas anteriormente e<br />
aprovadas as 28 Normas Reguladoras – NR,<br />
de acordo com a Lei n.º 6.514, de 22 de<br />
dezembro de 1977. A Norma Regulamentadora<br />
que passou a regulamentar a Comissão<br />
Interna de Prevenção de Acidentes - CIPA<br />
foi a NR-5, com o objetivo de: “observar e<br />
relatar condições de riscos nos ambientes de<br />
trabalho e solicitar medidas para reduzir ou até<br />
eliminar os riscos existentes e/ou neutralizar<br />
os mesmos, discutir os acidentes ocorridos,<br />
encaminhando aos Serviços Especializados<br />
em Engenharia de Segurança e em Medicina<br />
do Trabalho e ao empregador o resultado da<br />
discussão, solicitando medidas que previnam<br />
acidentes semelhantes e, ainda, orientar os<br />
demais trabalhadores quanto à prevenção de<br />
acidentes”.
d) as demais características e atribuições dos serviços especializados em<br />
segurança e em medicina do trabalho, nas empresas.<br />
Art 163 - Será obrigatória a constituição de Comissão Interna de Prevenção de<br />
Acidentes (CIPA), de conformidade com instruções expedidas pelo Ministério<br />
do Trabalho, nos estabelecimentos ou locais de obra nelas especificadas.<br />
Parágrafo único - O Ministério do Trabalho regulamentará as atribuições,<br />
a composição e o funcionamento das CIPA (s).<br />
Art 164 - Cada CIPA será composta de representantes da empresa e dos<br />
empregados, de acordo com os critérios que vierem a ser adotados na<br />
regulamentação de que trata o parágrafo único do artigo anterior.<br />
§ 1º - Os representantes dos empregadores, titulares e suplentes, serão por eles<br />
designados.<br />
§ 2º - Os representantes dos empregados, titulares e suplentes, serão eleitos<br />
em escrutínio secreto, do qual participem, independentemente de filiação<br />
sindical, exclusivamente os empregados interessados.<br />
§ 3º - O mandato dos membros eleitos da CIPA terá a duração de 1 (um) ano,<br />
permitida uma reeleição.<br />
§ 4º - O disposto no parágrafo anterior não se aplicará ao membro suplente que,<br />
durante o seu mandato, tenha participado de menos da metade do número de<br />
reuniões da CIPA.<br />
§ 5º - O empregador designará, anualmente, dentre os seus representantes, o<br />
Presidente da CIPA e os empregados elegerão, dentre eles, o Vice-Presidente.<br />
Art 165 - Os titulares da representação dos empregados nas CIPA (s) não<br />
poderão sofrer despedida arbitrária, entendendo-se como tal a que não se<br />
fundar em motivo disciplinar, técnico, econômico ou financeiro.<br />
Parágrafo único - Ocorrendo a despedida, caberá ao empregador, em caso<br />
de reclamação à Justiça do Trabalho, comprovar a existência de qualquer dos<br />
motivos mencionados neste artigo, sob pena de ser condenado a reintegrar o<br />
empregado.”<br />
Se a primeira metade dos anos ’50 padeceu pelo crescimento desordenado,<br />
enormes gargalos no sistema produtivo e na indústria de base, grandes<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 121
desigualdades regionais e um desequilíbrio entre vários setores econômicos,<br />
algumas propostas surgiram no cenário produtivo e governamental. Tentando<br />
sanar parte dos problemas existentes, Juscelino Kubitschek de oliveira<br />
apresentou sua plataforma para a Presidência da república baseada num Plano<br />
de desenvolvimento econômico que ficou conhecido como o Plano de Metas<br />
de 1956/1960. Para a elaboração do Plano de Metas, JK teve o apoio do grupo<br />
Misto Bnde-cePal, que atuou na fundação do Bnde e elaborou projeções e<br />
estimativas para a nossa expansão, publicadas em 1955 sob o título de “Esbôço<br />
de um Programa de Desenvolvimento para a Economia Brasileira”.<br />
“a segunda metade da década de ’50, transcorreu toda ela sob o signo<br />
do Programa de Metas, que deu notável impulso à nossa industrialização,<br />
implantando uma série de atividades novas e incrementando outras já<br />
existentes, de modo a incentivar a era das indústrias de base entre nós.” (55)<br />
com o slogan de “cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”,<br />
Juscelino Kubitschek implantou seu programa de governo, incentivando a<br />
construção da infra-estrutura necessária ao apoio industrial, a entrada tanto de<br />
capital estrangeiro quanto de novas tecnologias. Privilegiou investimentos na<br />
geração de energia, incentivos fiscais, transportes e construção de rodovias,<br />
facilitando a entrada das montadoras de veículos. além das montadoras,<br />
vieram indústrias de aparelhos eletroeletrônicos e de alimentos.<br />
os investimentos externos estimularam a diversificação da economia,<br />
aumentando a produção nacional de insumos, máquinas e equipamentos<br />
pesados para mecanização agrícola. Também cresceu a fabricação de<br />
fertilizantes, a produção dos frigoríficos e de material de transporte ferroviário<br />
e de construção naval.<br />
apoiado tanto na companhia Siderúrgica nacional quanto na Petrobrás,<br />
que desempenharam papel preponderante no processo de industrialização,<br />
na execução do Plano de Metas e, infelizmente, na diversificação dos tipos<br />
de acidentes e doenças profissionais, o governo implantou suas metas para<br />
ampliar a produção industrial que, no conjunto, cresceu 80% nos cinco anos<br />
do governo Juscelino. as duas empresas desenvolveram suas estratégias na<br />
tentativa de enfrentar os problemas dos acidentes e das doenças profissionais.<br />
a Siderúrgica nacional criou, em 1957, “um laboratório especializado para<br />
avaliação permanente de salubridade ambiental, após o resultado de um<br />
minucioso estudo ... (...) ..., sobre as condições de trabalho na CSN. Nesse<br />
estudo ficou evidente, pela primeira vez no Brasil, em siderúrgicas, casos de<br />
silicose e benzenismo, decorrentes das condições ambientais de trabalho” (56)<br />
122<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />
(55) Ferreira Lima, H.:apud pag 388.<br />
(56) Souto, D.F.:apud, pg. 189
(57) Contratado pela Petrobras em 27 de abril<br />
de 1956<br />
Campanha “O Petróleo<br />
é Nosso”<br />
Já a Petrobrás foi buscar, no Ministério do Trabalho, o eng. antonio carlos<br />
Barbosa Teixeira, (57) para chefiar o recém criado Setor de Segurança industrial.<br />
criada pela lei nº 2.004 de 3 de outubro de 1953, com o objetivo de executar<br />
as atividades petrolíferas em nome da união, a Petrobrás foi resultado de<br />
uma forte campanha popular, iniciada em 1946, com o slogan “o Petróleo é<br />
nosso”. Suas atividades só iniciaram em 1954, ao herdar do conselho nacional<br />
do Petróleo as refinarias landulpho alves em Mataripe (Ba) e Presidente<br />
Bernardes em cubatão (SP), primeiro patrimônio da empresa.<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 123
Campanha “O Petróleo é Nosso”<br />
no final da década de 50, quando enfrentávamos uma série de problemas no<br />
volume de acidentes e de doenças profissionais decorrentes do crescimento do<br />
nosso parque industrial, sem um corpo de profissionais técnicos para enfrentálos,<br />
a organização internacional do Trabalho – oiT – aprovou na sua 43ª reunião,<br />
a recomendação 112 – Sobre os Serviços de Medicina do Trabalho. Por essa<br />
recomendação, definiu-se Serviço de Medicina do Trabalho como “um serviço<br />
organizado nos locais de trabalho ou em suas imediações, destinados a:<br />
a. assegurar a proteção dos trabalhadores contra todo risco que prejudique a<br />
sua saúde e que possa resultar do seu trabalho ou das condições em que esse<br />
se realize;<br />
124<br />
Refinaria Landulpho Alves – Mataripe/ Bahia<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946
(58) Recomendación 112 OIT, 1959 – tradução<br />
livre pela autora<br />
(59) SOUTO, D.F.:Apud, pag.188<br />
b. contribuir para a adaptação física e mental dos trabalhadores, em particular<br />
pela adequação do trabalho aos trabalhadores e pela colocação dos<br />
trabalhadores nos postos de trabalho correspondentes a suas aptidões;<br />
c. contribuir para o estabelecimento e a manutenção do nível mais elevado<br />
possível, do bem estar físico e mental dos trabalhadores.” (58)<br />
“Assim, a prática da Medicina do Trabalho seria exercida diretamente nas<br />
indústrias. Tal diretriz iria dar ao médico do trabalho uma grande força,<br />
própria da concepção positivista inerente ao exercício da medicina nos países<br />
ocidentais. Posteriormente, isso vai ser motivo de bastante contestação.” (59)<br />
no entanto, o item 4 desta recomendação aconselha que: “Para que todos<br />
os trabalhadores possam aproveitar os benefícios da medicina do trabalho,<br />
deveriam ser organizados serviços de medicina do trabalho nas empresas<br />
industriais, não industriais e agrícolas, assim como nos serviços públicos.<br />
entretanto, quando os serviços de medicina do trabalho não puderem se<br />
estabelecer imediatamente em todas as empresas, estes serviços deveriam<br />
organizar-se em primeiro lugar:<br />
a. nas empresas onde os riscos são geralmente mais importantes;<br />
b. nas empresas onde a saúde dos trabalhadores esteja exposta a riscos<br />
especiais e,<br />
c. nas empresas que empreguem um número de trabalhadores superior a um<br />
mínino fixado.”<br />
embora oficialmente o Brasil não tenha adotado esta recomendação, ela serviu<br />
de norte para o trabalho de várias equipes técnicas, que foram adotando seus<br />
parâmetros em seus trabalhos cotidianos.<br />
Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 125
(60 ) Souto, D.F.:apud, pag.172.<br />
II.5. Os Profissionais da Segurança do<br />
Trabalho<br />
atendendo ao convite do Serviço especial de Saúde Pública (SeSP), para<br />
que avaliasse a realidade da questão ambiental da indústria brasileira e<br />
estabelecesse diretrizes gerais no campo da saúde pública, esteve no Brasil<br />
o eng. J.J. Bloomfield, chefe da divisão de higiene industrial do Serviço de<br />
Saúde Pública dos estados unidos. “Durante 4 meses – de junho a setembro<br />
de 1949 – Bloomfield teve a oportunidade de visitar e estudar grande número<br />
de estabelecimentos industriais, manter consultas freqüentes com membros<br />
do Ministério do Trabalho e realizar várias conferências ... Como resultado<br />
... (...) apresentou um farto relatório que incluiu uma série de observações e<br />
recomendações intituladas Problemas da higiene industrial no Brasil ... (...) ...<br />
Esse foi o primeiro relatório que se fez sobre a relação saúde e ambiente do<br />
trabalho no Brasil.<br />
Esse estudo deu margem a sérias considerações a respeito do desenvolvimento<br />
dos serviços de saúde e salubridade ambiental... (...) ... E mais, dele veio a<br />
constatação de que, embora houvesse uma legislação para assistir o<br />
trabalhador acidentado e incapacitado, pouco se fazia no sentido da prevenção<br />
das ocorrências ocupacionais, fosse originadas da falta de equipamentos<br />
adequados para avaliação de riscos, fossem por deficiência de preparo de<br />
recursos humanos. Também ressaltava a necessidade de criação de um serviço<br />
de higiene industrial acoplado a um órgão de saúde pública.” (60)<br />
diante da expansão do parque industrial, era grande a necessidade de<br />
profissionais aptos a responderem pelas questões próprias da engenharia<br />
de Segurança e da Medicina do Trabalho. embora, desde maio de 1944, o<br />
Ministério do Trabalho tenha criado os cargos de médico do trabalho e<br />
engenheiro de segurança, ainda não havia um curso que qualificasse esses<br />
profissionais. “Dizer que vivemos hoje no Brasil, as consequências de uma<br />
renovação industrial é repetir lugar comum, ... (...) ... a indústria desenvolve-se<br />
no país em ritmo incontrolável e para fazer face a esse crescimento não nos<br />
podemos socorrer de experiência que, por ventura, se houvesse acumulado<br />
Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 127
durante anos seguidos. Ao contrário, debatemo-nos a cada passo contra<br />
o espectro da inexperiência. A maioria daqueles que hoje dirigem as nossas<br />
indústrias, é forçoso confessar, poucos anos atrás, dedicavam-se a tarefas<br />
diversas daquelas de que hoje ocupam, E a nossa capacidade de improvisação<br />
dando os seus mais belos frutos.” (61)<br />
a necessidade de formação de pessoal técnico levou ao Ministério da Saúde<br />
a criar, junto a escola nacional de Saúde Pública, através do decreto nº 46.259,<br />
de 23 de junho de 1959, os seguintes cursos:<br />
i - cursos Básicos de Saúde Pública;<br />
ii - cursos de aperfeiçoamento e de especialização;<br />
iii - cursos para Técnicos auxiliares.<br />
o art. 3º deste decreto definia que “Os Cursos de que trata o item I, do<br />
art. anterior, destinam-se à formação profissional em higiene e saúde pública,<br />
compreendido:<br />
128<br />
a. Curso Básico de Saúde Pública para Médicos;<br />
b. Curso Básico de Saúde Pública para Engenheiros;<br />
c. Curso Básico de Saúde Pública para Enfermeiros.<br />
e, no seu art.18, definia o conteúdo programático desse curso, que “espelha<br />
a visão dominante, naquela ocasião, fruto da semente plantada no Brasil pelo<br />
Engenheiro J.J.Bloomfield – assistente chefe da Divisão de Higiene Industrial<br />
do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos e cultivada pela equipe do<br />
SESP (Serviço Especial de Saúde Pública)” (62) .<br />
a carga horária do curso Básico de Saúde Pública para engenheiros, realizado<br />
pela primeira vez em 1960, foi de 1.202 horas, assim divididas:<br />
Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho<br />
(61) Entrevista do Dr. Barbosa Teixeira ao Jornal<br />
do Commercio, Rio de janeiro, 20 de dezembro<br />
de 1959.<br />
(62) Lopes Netto, A.:apud pags 191-192
Curso Básico de Saúde Pública para Engenheiros<br />
Especialização: H I G I E N E I N D U S T R I A L<br />
Tópicos N° Horas Aula<br />
Química 98<br />
Microbiologia 73<br />
Biologia aplicada 52<br />
estatística aplicada 53<br />
Físico química 54<br />
Parasitologia 43<br />
epidemiologia e profilaxia 48<br />
Fisiologia humana 44<br />
Saneamento geral 70<br />
higiene das construções 29<br />
Fundamentos sócio-econômicos 17<br />
iluminação, ruído, ventilação e<br />
condicionamento de ar<br />
Prevenção de acidentes<br />
de trabalho<br />
educação sanitária 21<br />
administração geral<br />
e pública<br />
administração sanitária 37<br />
Toxicologia industrial 29<br />
analise do ar 51<br />
Poluição atmosférica 43<br />
controle de radiações 32<br />
estágio final 180<br />
CARGA HORáRIA TOTAl 1.202<br />
Fonte: lopes netto, a.:apud, pag.192<br />
Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 129<br />
133<br />
60<br />
35
“Preliminarmente, buscava-se nivelar os conhecimentos básicos dos engenheiros<br />
através da revisão de química, físico-química, biologia aplicada, microbiologia<br />
e estatística (num total de 330 horas).<br />
Observa-se pela leitura da grade transcrita que o enfoque principal do curso<br />
estava direcionado aos riscos inerentes ao trabalho e ao tratamento que lhes<br />
deveria ser conferido por profissionais qualificados(num total de 259 horas),<br />
conquanto não abordasse enfaticamente análise de riscos, nem tocasse<br />
em gerenciamento de risco, embora esse assunto fosse visto pela ótica da<br />
Administração Sanitária.<br />
O currículo do curso não objetivava atender à área de Prevenção e Combate<br />
a Incêndio, vez que, entendia o Ministério da Saúde, tal assunto fugiria aos<br />
objetivos do curso.” (63)<br />
esse curso, ministrado pela escola nacional de Saúde Pública, foi o início do<br />
processo formativo de profissionais para atuarem na área de saúde e segurança<br />
do trabalho.<br />
em 1961, o decreto 49.974, regulamentou,”sob a denominação de Código<br />
Nacional de Saúde, a Lei nº 2.312, de 3 de setembro de 1954, de normas gerais<br />
sobre defesa e proteção da saúde” e, definiu no art. 9° do capítulo 1 - notificação<br />
compulsória que “ art. 9º São objeto de notificação compulsória dos casos<br />
confirmados ou suspeitos das seguintes doenças: ... (...) .... e os infortúnios<br />
do trabalho”. e, no artigo 30° do capitulo iii: doenças não transmissíveis<br />
e acidentes pessoais, o decreto determinou que: “Art.30. O Ministério da<br />
Saúde estimulará, por todos os meios ao seu alcance, o desenvolvimento<br />
de atividades de saúde pública, paralelamente ao progresso da ciência e da<br />
técnica sanitária, visando ao controle de acidentes pessoais e de doenças que,<br />
por sua elevada incidência constituam problemas de interesse coletivo, (...)”.<br />
Desde 1949, o Ministério do Trabalho patrocinava os Congressos Nacionais de<br />
CIPAs. A partir de 1962, o Ministério do Trabalho transformou esses eventos<br />
nos Congressos Nacionais de Prevenção de Acidentes – CONPAT, reunindo<br />
profissionais e interessados nos temas de segurança do trabalho, salubridade<br />
ambiental e saúde do trabalhador.<br />
130<br />
Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho<br />
(63) Lopes Netto, A.:apud,pag.192.
(64) Souto, D.:apud, pags 215 e 216.<br />
Foi durante o V Congresso Nacional de Prevenção de Acidentes, realizado<br />
em São Paulo em 1966, que o Ministério do Trabalho anunciou a criação<br />
da FUNDACENTRO. “As iniciativas que nesse sentido já vinham desde<br />
1952, tomaram corpo, através das démarches encetadas pelo Dr. Bernanrdo<br />
Bedrikov, do SESI. Ele obteve a <strong>aqui</strong>escência da OIT para uma visita técnica<br />
ao Brasil, do engenheiro Isaac Cabrera, da Divisão de Segurança e Higiene<br />
do Trabalho daquela instituição, a fim de realizar estudos e levantamentos<br />
sobre as condições de trabalho nas indústrias paulistas. ... (...) ... A idéia<br />
básica era contar com uma entidade de direito privado, que teria por objetivo<br />
principal e genérico realizar estudos e pesquisas relacionados com problemas<br />
de Segurança, Salubridade Ambiental e Medicina do Trabalho de todas as<br />
categorias profissionais e, no seu mais amplo sentido, desaenvolver programas<br />
de treinamento de pessoal técnico. Sua manutenção viria de um percentual<br />
(1%) sobre o montante arrecadado pela contribuição ao seguro de acidente do<br />
trabalho. ... (...) ... Mas tarde, em abril de 1965, numa promoção do SESI, veio a<br />
Sâo Paulo, o Dr. Livio Costa – diretor do Centro Regional da OIT para a América<br />
Latina, com sede em Lima, Perú, encarregado de preparar os trabalhos a serem<br />
desenvolvidos pelo diretor da Divisão de Segurança e Higiene do Trabalho da<br />
OIT, Dr. Luigi Parmeggiani. Este fora convidado a vir ao Brasil, face o desejo<br />
do governo brasileiro ver <strong>aqui</strong> instalada uma organização dedicada ao estudo<br />
e à proposição de medidas que levassem a soluções nas questões de saúde e<br />
segurança do trabalho.<br />
Em maio de 1965, chegava a São Paulo a Missão Luigi Parmeggiani com<br />
a finalidade de avaliar as possibilidades de se instalar tal instituição. ... (...) ...<br />
Após várias reuniões das comissões ficou decidido que ... (...) ... fosse redigido<br />
um anteprojeto de Lei para que o Presidente da República pudesse encaminhar<br />
ao Congresso com a solicitação da necessária autorização para participar<br />
do empreendimento. Em 21 de outubro de 1966, o Congresso autorizou<br />
a instituição da FUNDACENTRO.” (64)<br />
“Desde 1960, o Governo Brasileiro mostrou-se interessado na vinda de um<br />
técnico da Organização Internacional do Trabalho – OIT, para estudar as<br />
condições de segurança e higiene do trabalho no país. Isso ocorreu e, em<br />
1962, foi recomendado pela OIT a criação de um Centro de investigação<br />
sobre Segurança e Saúde no Trabalho, que resultou no projeto de idealização<br />
da FUNDACENTRO, anunciado em 1966, durante o V Congresso Nacional de<br />
Prevenção de Acidentes. E, pela Lei 5.161, de 21 de outubro desse mesmo ano<br />
era criada a Fundação Centro Nacional de Segurançã, Higiene e Medicina (65)<br />
do Trabalho.” “Datam dessa fase inicial da entidade os primeiros estudos<br />
Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 131
e pesquisas no País sobre os efeitos de inseticidas organoclorados na saúde; da<br />
bissinose (doença ocupacional respiratória que atinge trabalhadores do setor<br />
de fiação, expostos a poeira de algodão e juta); sobre as consequências das<br />
vibrações e ruídos em trabalhadores que operam marteletes; sobre o teor da<br />
sílica nos ambientes de trabalho na indústria cerâmica e ainda sobre os riscos<br />
da exposição ocupacional ao chumbo.” (66)<br />
a constituição, aprovada em 24 de janeiro de 1967, definiu as bases para<br />
a nova organização do estado governado pelos militares, centralizando na<br />
união os poderes e recursos do estado. o decreto 200, de 25 de fevereiro<br />
de 1967, que dispunha “... sobre a organização da Administração Federal,<br />
estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências”,<br />
no seu art. 35° do Título Vii – dos Ministérios e respectivas áreas de<br />
competência, unificou o Ministério do Trabalho e Previdência Social: “Art.<br />
35. Os Ministérios, de que são titulares Ministros de Estado (Art. 20), são os<br />
seguintes: ... (...) SETOR SOCIAL: ... (...) ... Ministério do Trabalho e Previdência<br />
Social ... (...) ...” e o decreto nº 69.014, de 4 de agosto de 1971, “Dispõe sobre<br />
a reorganização preliminar do Ministério do Trabalho e Previdência Social e dá<br />
outras providências, reestruturando o Ministério do Trabalho para assumir as<br />
funções exigidas pelo acelerado crescimento econômico do período.<br />
Um mês depois da promulgação da Carta Magna, em 28 de fevereiro de 1967<br />
foi emitido o Decreto 293, que dispunha “sobre os seguros de acidentes de<br />
trabalho” e sobre o Serviço de higiene do Trabalho, estabelecendo no Paragrafo<br />
Primeiro do seu artigo 3°, que: “§ 1º O INPS poderá operar o seguro contra os<br />
riscos de acidentes do trabalho, em regime de concorrência com as sociedades<br />
Seguradoras”. esse decreto vigorou por alguns meses e foi revogado pela lei<br />
5.316 de 14 de setembro de 1967 que integrou “... o seguro de acidentes do<br />
trabalho na previdência social, ...”, retirando-o da iniciativa privada, de acordo<br />
com o seu “Art. 1º O seguro obrigatório de acidentes do trabalho, de que trata<br />
o artigo 158, item XVII, da Constituição Federal, será realizado na previdência<br />
social”, restringiu o conceito de doença do trabalho, retirando desse, as<br />
doenças degenerativas e as inerentes a grupos etários. na alínea “d” do item<br />
“ii” do seu artigo 3°, introduziu o conceito de acidente de percurso: “Art. 3º<br />
132<br />
Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho<br />
(65) http://www.fundacentro.gov.br/<br />
dominios/ctn/anexos/SemanaDaPesquisa/<br />
TrabalhosApresentadosNaFormaDePoster/<br />
Maria%20Margarida%20T%20M%20Lima_<br />
Resgate%20historico%20do%20papel%20<br />
da%20Fundacentro.<strong>pdf</strong>.<br />
(66) FUNDACENTRO, in http://www.<br />
fundacentro.gov.br/conteudoasp?D=CTN&C=<br />
23&menuAberto=1
Será também considerado acidente do trabalho: ... (...) ... II - o acidente sofrido<br />
pelo empregado, ainda que fora do local e horário de trabalho: ... (...) ... d)<br />
no percurso da residência para o trabalho ou deste para aquela”. determinou<br />
ainda, no seu artigo 13° que: “Art. 13. A previdência social manterá programas<br />
de prevenção de acidentes e de reabilitação profissional dos acidentados, e<br />
poderá auxiliar entidades não lucrativas que desenvolvam atividades dessa<br />
natureza, bem como de segurança, higiene e medicina do trabalho”.
(67) Souto, D.F.: apud, pag.172.<br />
(68) Em seu primeiro discurso depois de ser<br />
escolhido pelos militares, o próprio Médici<br />
disse que fora escolhido pelo Alto Comando<br />
porque era “capaz de manter as forças armadas<br />
unidas e trabalhando juntas em nome dos<br />
ideiais da Revolução de Março de 1964” in<br />
Skidmore:T.:apud, pag 211<br />
(69) Skidmore:apud pag 276. “(embora o<br />
número oficial de 15, 7% para 1973, como se<br />
admitiu depois, tenha sido uma atenuação da<br />
verdade) O Banco Mundial logo reagiu aos<br />
números manipulados da inflação oficial de<br />
1973 e fez sua própria estimativa de 22,5%, que<br />
se tornou amplamente usada no Brasil, embora<br />
a censura impedisse sua divulgação” Folha de<br />
São Paulo, 31 de julho de 1977 in Skidmore,<br />
T.:apud pag. 276<br />
II.6. A Fundação da SOBES<br />
no começo dos anos 70, os militares haviam buscado conter a inflação,<br />
com forte controle salarial e do déficit público, somado à regularização das<br />
relações financeiras internacionais. com um crescimento industrial estimulado<br />
pelos financiamentos externos, o estado brasileiro consolidava-se como uma<br />
superestrutura centralizada, complexa, procurando atuar de maneira sistêmica<br />
e hierarquizada sob o comando do Presidente da república (indicado pelos<br />
militares), e financiado pela elevação da poupança interna, tanto voluntária<br />
quanto compulsória (FgTS e PiS-PaSeP), pelo crédito externo facilitado, pelo<br />
rápido crescimento do Produto interno Bruto, com uma reforma tributária<br />
e maior eficiência e eficácia na arrecadação fiscal. a reorganização dos<br />
instrumentos fiscais foi acelerada pelo ato institucional n° 1, que havia dado ao<br />
Presidente da república a autorização exclusiva para propor leis aumentando<br />
as despesas. (67)<br />
emilio garrastazu Médici assumiu a presidência em outubro de 1969 (68) .<br />
a economia foi entregue a antonio delfim neto que, na primeira reunião<br />
ministerial de Médici, anunciou as 3 metas econômicas:<br />
1. de 8 a 9% de crescimento do PIB<br />
2. inflação abaixo de 20%<br />
3. acrescentar, pelo menos, US$ 100 milhões às reservas estrangeiras.<br />
“As três metas de Delfim foram amplamente alcançadas ... (...) ... O PIB subiu a<br />
média anual de 10,9% de 1968 a 1974. O setor líder foi a indústria, com 12,6%<br />
ao ano ... (...) ... a inflação ficou na média de 17% ... (...) ... Quanto as reservas<br />
subiram de US$ 656 milhões em 1969. para US$ 6.417 bilhões em 1973” (69) .<br />
esse cenário perdurou por todo o governo Médici e ficou conhecido como o<br />
Milagre Brasileiro. o setor industrial mais dinâmico foi o de veículos motorizados<br />
que cresceu à uma taxa anual de 34,5%. não foram pequenos os custos<br />
sociais decorrentes do rápido crescimento do PiB. a adoção desse modelo<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 135
econômico trouxe uma quantidade significativa de novos empreendimentos<br />
industriais para o país, sem maiores seleções quanto a qualidade dos<br />
investimentos que estavam ocorrendo e, se a economia cresceu de maneira<br />
inquestionável, ao mesmo tempo, as doenças profissionais e os acidentes de<br />
trabalho se agravaram. “Esse crescimento econômico, sem o concomitante<br />
desenvolvimento, teve como conseqüência uma crescente deterioração das<br />
condições de vida da maioria da população e uma concentração de renda<br />
para uma minoria... (...) ... Assim é que se formaram as grandes periferias<br />
urbanas, locais de moradia do trabalhador industrial. Era a contradição social.<br />
Havia trabalho, mas as condições de vida eram precárias.Um dos indicadores<br />
mais evidentes dessa deterioração da situação de vida dos trabalhadores era<br />
o aumento das doenças infecto-contagiosas e o aumento dos acidentes do<br />
trabalho ...” (70)<br />
nesse momento, o estado brasileiro consolidava-se como um importante<br />
agente de crescimento com a implantação da infra-estrutura necessária<br />
para o desenvolvimento do país. o crescimento industrial, estimulado pelos<br />
investimentos estrangeiros e pelo crédito facilitado, elevou o nível salarial na<br />
indústria aumentando o desnível com os outros setores produtivos, estimulou<br />
a migração rural para as cidades enfatizando a diferença entre as regiões. este<br />
quadro provocou um acentuado aumento das taxas de acidentes de trabalho.<br />
há citações de dados de quase 2 milhões de acidentes de trabalho anuais, para<br />
uma força de trabalho, inscrita no inPS, de 15 milhões.<br />
“Os prejuízos que os acidentes causavam à coletividade eram das mais variadas<br />
ordens, destacando-se em primeiro plano a redução do potencial humano em<br />
condições de produzir, a eventual perda de mão de obra especializada e escassa<br />
numa incipiente indústria dela carente, isso tudo concorrendo para o aumento<br />
do custo da produção e dos produtos exportáveis e, conseqüentemente, do<br />
custo de vida. Por sua vez. A partir de 1970, ia se generalizando, cada vem mais,<br />
a compreensão de que os problemas de saúde do trabalhador não podiam<br />
se ater unicamente aos locais de trabalho, e que o estilo e as condições de<br />
vida (habitação distante e precária, baixo nível de renda, padrões insuficientes<br />
de higiene pessoal e saneamento, alimentação inadequada, abuso de álcool<br />
e fumo, meios de transportes insuficientes ou mal planejados) podiam afetar,<br />
de modo imprevisível, tanto a resistência física como as respostas biológicas<br />
aos riscos profissionais representados pela enorme gama de situações<br />
anormais devidas aos agentes físicos, químicos e biológicos que contaminavam<br />
e tornavam inseguros os locais de trabalho, por condições originadas pelos<br />
processos de produção.” (71)<br />
136<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />
(70) Souto, D.: apud, pag. 202<br />
(71) Souto, D.:apud, pags 213 e 214.
(72) Souto, D.:apud, pags 213 e 214.<br />
BRASIL - ACIDENTES E DOENÇAS DO TRABALHO – 1970/1974<br />
ANO TRABAlHADORES<br />
SEGuRADOS<br />
ACIDENTES<br />
Típicos Trajetos<br />
DOENÇAS<br />
TOTAl DE<br />
ACIDENTES<br />
TOTAl DE<br />
ÓBITOS<br />
1970 7.284.022 1.199.672 14.502 5.937 1.220.111 2.232<br />
1971 7.553.472 1.308.335 18.138 4.050 1.330.523 2.587<br />
1972 8.148.987 1.479.318 23.389 2.016 1.504.723 2.854<br />
1973 10.956.956 1.602.517 28.395 1.784 1.632.696 3.173<br />
1974 11.537.024 1.756.649 38.273 1.839 1.796.761 3.883<br />
Fonte: Ministério da Previdência Social in Souto, d.: apud, pag.215<br />
nesse contexto, foi fundada, em 12 de julho de 1971, a Sociedade Brasileira de<br />
engenharia de Segurança, a SoBeS. a assembleia de fundação da entidade,<br />
realizada no auditório do vigésimo segundo andar do clube de engenharia,<br />
no centro da cidade do rio de Janeiro, foi presidida pelo eng. Plinio reis<br />
cantanhede, Presidente da associação Brasileira de normas Técnicas – aBnT.<br />
a Mesa dos trabalhos foi coordenada pelo eng. antonio carlos Barbosa Teixeira,<br />
chefe da assessoria de Segurança industrial da Petrobrás e presidente da<br />
comissão Permanente de Proteção contra incêndios da aBnT, acompanhado<br />
dos representantes do conselho Federal de engenharia, arquitetura<br />
e agronomia – conFea, eng. artur lopes da costa e eng. durval lobo, que<br />
representava, também, o clube de engenharia; do eng. eryx albert Sholl, vicepresidente<br />
da comissão Permanente de Proteção contra incêndios da aBnT.<br />
“A SOBES veio como uma ideia de dentro da Associação Brasileira de Normas<br />
Técnicas (ABNT), que percebia a necessidade de se criar uma entidade<br />
associativa que batalhasse pela defesa da integridade do elemento humano<br />
no trabalho e como garantia de continuidade do processo produtivo face aos<br />
acidentes e também de defesa dos interesses comuns dos engenheiros de<br />
segurança.” (72)<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 137
na assembleia de Fundação da entidade, foram debatidos os seguintes<br />
assuntos:<br />
1. “Para a integridade do elemento humano e como garantia da<br />
continuidade da produção, existem técnicos das mais variadas áreas<br />
profissionais, realizando trabalhos de Engenharia de Segurança.<br />
Tal situação reclama congraçamento de todos os que se dedicam as<br />
atividades deste (sic) campo de Engenharia. Certa falta de objetividade<br />
tem vencido os esforços até o momento para a criação de uma entidade<br />
que trate dos interesses comuns;<br />
2. Vindo ao encontro dos anseios desta iniciativa, membros da<br />
subcomissão de instalações fixas da CPPI, da ABNT, levantaram<br />
problemas relativos as consequências de seu trabalho, indagavam a<br />
respeito de quem garantiria as indústrias, inclusive as participantes da<br />
referida subcomissão , que o preço de seus serviços, computadas as<br />
despesas com a obediência a normalização, não seria vencido pelos<br />
concorrentes menos escrupulosos, despreocupados com a observância<br />
de tais normas;<br />
3.<br />
4.<br />
138<br />
Outro aspecto mais antigo deste problema de fiscalização diz respeito<br />
aos projetos de engenharia que até hoje são submetidos a entidades<br />
estrangeiras para serem examinados na parte relativa a segurança. Tais<br />
entidades, por vezes, transferem este trabalho a engenheiros brasileiros.<br />
Estas organizações, assumindo a responsabilidade da aprovação,<br />
recebem o pagamento destes serviços, acarretando prejuízo para<br />
a Engenharia Nacional e perda de interesse para os nossos profissionais;<br />
A convocação dos presentes à reunião visou a obtenção de apoio<br />
e da colaboração das entidades mais representativas em seu setor de<br />
atividades e buscou atender aos maiores interessados nos problemas<br />
em discussão. O comparecimento, por exemplo, de alguns dos mais<br />
importantes órgãos da classe dos engenheiros, deve-se ao trato de<br />
problemas profissionais; no caso dos institutos de tecnologia, será de<br />
alta valia a utilização de seus laboratórios, enquanto a entidade que se<br />
pretende criar não puder dispor de recursos suficientes. Torna-se fácil<br />
deduzir-se, enfim, quais as razões consideradas na convocação de cada<br />
um dos participantes;<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES
5.<br />
Na caracterização do interesse comum, caso se chegue a uma<br />
conclusão positiva, o caminho a propor será, talvez, o de constituir um<br />
Grupo de Trabalho para elaborar um projeto de Estatutos que, uma<br />
vez preparado, seria discutido em nova reunião plenária. Para o debate<br />
desta proposição, o coordenador e expositor, consulta (sic) o plenário<br />
e, por meio da presidência faz apelo no sentido de que todos se<br />
empenhem na busca do denominador comum, esquecendo problemas<br />
de menor significado para o momento;<br />
6. Atendendo às manifestações ... (...) ... que, louvando e apoiando a<br />
iniciativa pediram maiores esclarecimentos, o Eng. A. C. Barbosa<br />
Teixeira leu algumas notas a respeito das origens e do desenvolvimento<br />
da idéia de congregar os que trabalham em Engenharia de Segurança....<br />
(...) ... Entre as especialidades surgidas no campo da Engenharia, em<br />
decorrência da revolução industrial, é de destacar-se a do Engenheiro<br />
de Segurança ou como preferem outros, o Engenheiro de Segurança<br />
Industrial. Acontece que, embora sejam as tarefas porque se<br />
responsabilizam os técnicos do campo da Engenharia de Segurança<br />
de extensão e complexidade que não só se justificam, como também<br />
exigem regulamentação e formação adequadas, até hoje, a legislação<br />
nacional não tratou o assunto como o devido interesse , a despeito<br />
de iniciativas diversas, mostrando equacionar-se o problema em termos<br />
de uma situação de fato merecedora de cobertura legal apropriada.<br />
Assim é que, em novembro de 1959, já recomendava o (sic) Seminário<br />
Universidade Indústria, reunido em Quitandinha, a criação de cursos<br />
de pós-graduação para engenheiros de segurança. Em 1967, oito<br />
anos depois, portanto, realizava a PETROBRÀS o seu primeiro curso<br />
de formação complementar, com duração de onze meses seguidos,<br />
estando os engenheiros aprovados, desempenhando desde aquela<br />
época e de maneira exclusiva, funções de engenheiro de segurança.<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 139
140<br />
Aliás, já é grande o número de empresas do país que não poderiam<br />
dispensar os engenheiros que nelas se dedicam à engenharia de<br />
segurança sem alterar significativamente a sua produtividade.<br />
Conscientes da importância das tarefas que desempenham, após<br />
reunirem-se em 1969, na Comissão de Engenharia de Segurança da<br />
ABPA, estão, no momento, pensando na criação de uma Sociedade<br />
Brasileira de Engenharia de Segurança, que tem (sic) por uma de suas<br />
finalidades (uma, não apenas esta) difundir os problemas de Engenharia<br />
de Segurança, tornando clara a área de sua competência. Cabe <strong>aqui</strong><br />
lembrar que a falta de tal definição sente-se até na legislação especifica,<br />
uma vez que o Decreto Lei 389/68, que atribui funções a engenheiros<br />
devidamente habilitados em questões de segurança do trabalho, não<br />
define, contudo a forma pela qual se realizaria tal habilitação. É de<br />
considerar-se que as múltiplas atribuições distribuídas a engenheiros<br />
que funcionam de fato em atividades de engenharia de segurança<br />
industrial justificam plenamente a criação da profissão de Engenheiro<br />
de Segurança Industrial, primeiro passo para a criação de sistema<br />
de formação apropriado e não se pode esquecer, nessa altura, que<br />
a figura do Engenheiro de Segurança existe há mais de 20 (vinte) anos<br />
no Ministério do Trabalho. Cumpre finalmente, assinalar a necessidade<br />
de atribuir-se especificamente a profissionais filiados (sic) aos Conselhos<br />
Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia o exercício das<br />
atribuições de Engenheiro de Segurança, para que sobre ela se exerça<br />
a necessária fiscalização do órgão profissional. ... (...) ...;<br />
7. Por último, são (sic) enumerados alguns exemplos das atividades que<br />
poderão definir o campo de Engenharia de Segurança: instalações de<br />
sistemas de proteção industrial, obras relativas ao controle de ruído<br />
e vibrações (evidentemente, não se pretende <strong>aqui</strong> ficar com o privilégio<br />
das obras relativas a ruídos e vibrações), instalações de sistemas de<br />
ventilação industrial, destinadas ao controle do ambiente de trabalho<br />
e de poluição atmosférica, instalações dos sistemas de iluminação dos<br />
ambientes de trabalho, obras de instalação de controle de conforto<br />
térmico nos locais de trabalho, obras de instalação de tratamento<br />
de despejos industriais, obras e instalações de sistema de proteção<br />
contra incêndios, obras e instalações para controle de dispersóides<br />
atmosféricos, estudos, projetos, especificações de equipamentos de<br />
proteção industrial e coletiva, estudos, projetos e especificações de<br />
instalações para manipulação e armazenagem de substâncias perigosas<br />
e funcionamento de equipamentos que apresentem riscos especiais.<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES
(73) Livro de Atas da SOBES, Ata de Fundação.,<br />
pags 2 a 7. A Ata de Fundação foi lavrada<br />
pelo Secretário “ad hoc” da Assembléia,<br />
Júlio Rogério Rodrigues de Souza e pelo Eng.<br />
Antonio Carlos Barbosa Teixeira.<br />
Assim, também, estudos dessa natureza com relação a controle de<br />
radiações perigosas, estudos de planos de ação para emergências<br />
ou catástrofes e delimitação de áreas de periculosidade. Estudos de<br />
planos e especificações de equipamentos industriais, do ponto de<br />
vista da ergonomia, direção de órgãos de segurança de empresas<br />
industriais de grande porte, com atividades enquadradas nas atividades<br />
anteriores, pericias, vistorias, exames, inspeções, pareceres, etc. ... (...)<br />
.... Terminados os debates são (sic) formulados os termos definitivos<br />
as propostas a serem votadas: a criação da entidade e a constituição<br />
de um grupo de trabalho a ser composto por representantes das áreas<br />
que detêm a maior responsabilidade em opinar sobre a Engenharia de<br />
Segurança. Tal Grupo será incumbido de elaborar, no prazo de vinte<br />
dias, o projeto de estatutos da referida entidade. Em votação os órgãos<br />
seguintes: ABNT, CONFEA, Clube de Engenharia, INT, IRB, Corpo de<br />
Bombeiros, ABIEX, FENASEG e Eng. Sholl como representante da área<br />
de engenharia de incêndio. ...(...)...” (73)<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 141
em 18 de novembro de 1971, foi realizada a reunião Plenária de aprovação<br />
dos estatutos da SoBeS, no auditório do vigésimo segundo andar do clube<br />
de engenharia, sob a presidência do eng. antonio carlos Barbosa Teixeira.<br />
na pauta, além da discussão e aprovação dos estatutos da entidade, havia<br />
a eleição da diretoria Provisória, “para reger os destinos da SoBeS até<br />
a aprovação do mencionado regimento”, tendo como atribuições:<br />
a. Elaborar, no prazo de cento e oitenta dias, o projeto de Regimento Interno, a ser<br />
aprovado pelo Conselho Diretor, na forma do artigo 41;<br />
b. Convocar, findo o prazo acima, a Assembléia Geral Extraordinária, para eleição<br />
e posse da nova Diretoria e do Conselho Diretor;<br />
c. Reger os destinos da Sociedade até a posse prevista na alínea “b” do artigo<br />
46 (75) ;<br />
o técnico de Segurança romeu oscar Pretz, do grupo industrial itaú propôs<br />
a seguinte chapa: Presidente: eng. antonio carlos Barbosa Teixeira (75) ; Vice-<br />
Presidente: eng. durval lobo (76) ; 1° Secretário: eng. eryx albert Sholl (77) ; 2°<br />
Secretário: arquiteto ary Bolsas (78) ; Tesoureiro: eng. loris de Souza (79) .<br />
o eng. Barbosa Teixeira sugeriu que outro nome menos comprometido com<br />
a ideia inicial deveria ser indicado para o cargo de Presidente. não havendo<br />
outra indicação, a Mesa declarou aberto o processo de votação. a chapa<br />
indicada foi eleita por unanimidade, com abstenção dos indicados para os<br />
diferentes cargos.<br />
durante a reunião Plenária, ainda foram abordados alguns pontos que<br />
precisavam da aprovação do Plenário, dos quais destacamos (80) :<br />
1. Proposta do eng. roberto nogueira de gusmão (81) : diante da possibilidade<br />
de ser firmado um convênio entre a SoBeS e a aBnT, para a elaboração de<br />
normas de Segurança, coloca a disposição da SoBeS os recursos técnicos<br />
do irB e da Fundação escola nacional de Seguros, entidade recentemente<br />
criada, mas já em funcionamento;<br />
2. Pedido de esclarecimentos do almirante luiz antonio Medeiros (82) : sobre<br />
a participação de sócios não registrados nos conselhos de engenharia,<br />
arquitetura e agronomia (83) ;<br />
142<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />
(74) Ata da Reunião Plenária para aprovação<br />
dos Estatutos<br />
(75) Da Petrobrás, ABNT e ABPA<br />
(76) Do CONFEA e do Clube de Engenharia<br />
(77) Consultor de Engenharia de incêndio<br />
(78) Do DNSHT do Ministério do Trabalho<br />
e Previdência Social.<br />
(79) Eletrobrás e da ABPA.<br />
(80) A redação desses pontos foi retirada da<br />
Ata e adaptada ao texto, sem perda do seu<br />
sentido, pela autora.<br />
(81) Representando o Instituto de Resseguros<br />
do Brasil - IRB<br />
(82) Representante da Walter Nidde<br />
(83) A Mesa informou que a fórmula encontrada<br />
para a participação de sócios não registrados<br />
nos CREAs atesta o interesse em congregar<br />
todos os que se dedicam as atividades ligadas a<br />
Engenharia de Segurança.
(84) “A Presidência da Mesa definiu a<br />
expressão Engenharia de Segurança,<br />
englobando toda a atividade de Engenharia<br />
que vise à preservação do elemento humano e<br />
à continuidade da produção.”<br />
(85) Representante do Sindicato das Indústrias<br />
Automobilísticas., o segundo, representando<br />
também a Wolkswagen e o terceiro a Ford<br />
Willys.<br />
(86) A Mesa fez uma retrospectiva da<br />
correspondência expedida pelo GT através da<br />
qual a proposta de Estatutos foi submetida<br />
duas vezes a consulta para as necessárias<br />
sugestões.<br />
3. Proposta do eng. claus Matrowitz: no sentido de se incluir a palavra<br />
“industrial” no título da Sociedade, ficando Sociedade Brasileira de<br />
engenharia de Segurança industrial (84) ;<br />
4. Pedido de adiamento da votação do Sr. adalberto Matias Beck, eng. claus<br />
Matrowitz e Sr. Paulo Salomão (85) : alegando insuficiência de tempo para<br />
que suas entidades pudessem emitir opinião (86) .<br />
5. Proposta do eng. loris de Souza, após sua eleição para o cargo de<br />
Tesoureiro: seja instituída uma contribuição destinada ao custeio de<br />
pequenas despesas que correrão no período.Foi aprovada uma contribuição<br />
inicial, apenas para pessoas físicas, no valor de cr$ 100,00 (cem cruzeiros);<br />
a ata dessa reunião Plenária foi lavrada pelo 1° Secretário eleito, eng. eryx<br />
Sholl, e pelo Presidente, eng. Barbosa Teixeira.<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 143
a primeira diretoria efetiva da SoBeS foi eleita pela assembleia geral<br />
extraordinária, realizada as nove horas do dia 15 de setembro de mil<br />
novecentos e setenta e dois, no auditório do vigésimo segundo andar do clube<br />
de engenharia. convocada segundo a alínea “b” do artigo 46 dos estatutos,<br />
a assembleia deveria eleger a diretoria e o conselho diretor e dar posse aos<br />
novos dirigentes. após abrir os trabalhos, o eng. Barbosa Teixeira, na qualidade<br />
de Presidente da diretoria Provisória, fez um balanço das atividades realizadas,<br />
solicitando que a assembleia aprovasse a extensão do prazo de cento<br />
e oitenta dias, previsto nas disposições transitórias dos estatutos, uma vez que<br />
o mesmo havia ocorrido independente dos esforços e a “despeito da diligência<br />
com que todos os membros da Diretoria procuraram desincumbir-se de suas<br />
obrigações”. a prorrogação desses cento e oitenta dias, se refletiria no início<br />
do mandato da nova diretoria e por esse motivo deveria ser homologada pela<br />
assembleia afim de não prejudicar o tempo de mandato dos novos eleitos.<br />
a assembleia aprovou a prorrogação do prazo e o mandato que se iniciaria<br />
naquele dia seria de setembro/72 a agosto/74.<br />
constavam do relatório as seguintes atividades:<br />
1. registro dos estatutos no registro civil de Pessoas Jurídicas<br />
e publicação no diário oficial de 8 de janeiro de 1972;<br />
2. elaboração do regimento interno;<br />
3. emissão de cento e vinte e duas cartas e quatro circulares;<br />
4. Solicitação de afiliação a Federação de associações de engenharia<br />
– FeBrae;<br />
5. colaboração da SoBeS com o dnhST na elaboração do Projeto<br />
Ministerial que estabelecia a obrigatoriedade dos Serviços<br />
especializados em higiene, Segurança e Medicina do Trabalho;<br />
6. realização de contatos com o dnhST, FundacenTro, aBPa,<br />
instituto Brasileiro de Segurança e liga Brasileira contra os acidentes<br />
do Trabalho, no sentido de contribuir para estabelecer as bases de<br />
formação do pessoal especializado no campo da engenharia de<br />
Segurança;<br />
144<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES
7. colaboração com a aBnT na reformulação da norma Brasileira de<br />
cadastro de acidentes (nB-18);<br />
8. encaminhamento de contatos com a aBnT, visando à assinatura de<br />
um convênio para a normalização em assuntos da engenharia de<br />
Segurança;<br />
9. colaboração com o conFea, oferecendo subsídios para o<br />
anteprojeto de resolução que trata do registro de entidades<br />
profissionais;<br />
10. contatos com os corpos de Bombeiros da guanabara, São Paulo,<br />
aBc (SP) e Belo horizonte no sentido de assegurar a colaboração<br />
da SoBeS a essas entidades no que se refere à engenharia de<br />
Segurança;<br />
11. contato com a national Fire Protection association para colaboração;<br />
12. Fundação dos dois primeiros departamentos regionais da SoBeS: o<br />
primeiro no rio grande do Sul e o segundo no Paraná;<br />
13. Parceria com a Sociedade de engenharia do rio grande do Sul para<br />
utilizar suas instalações;<br />
14. realizou contatos com São Paulo, Minas gerais e espirito Santo para<br />
instalar departamentos regionais;<br />
15. Participação na 7ª convenção nacional de engenharia, em curitiba,<br />
dias 12 a 18 de agosto de 1972;<br />
16. Participação na 31ª convenção dos Presidentes de ciPas, realizada<br />
em Taubaté, dia 25 de maio de 1972;<br />
17. elaboração de cadastro contendo mais de 500 interessados em<br />
engenharia de Segurança;<br />
18. impressão e distribuição de dois mil exemplares da Portaria 3237/72;<br />
19. distribuição do “informativo SoBeS”, em 12 de setembro de 1972;<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 145
20. exibição, em parceria com o departamento Técnico do clube de<br />
engenharia do filme do incêndio do edifício andraus, em São Paulo,<br />
com debate sobre o acidente;<br />
após a apresentação do relatório de atividades, iniciou-se o processo de<br />
votação. Foram designados como escrutinadores: os engenheiros Jacy<br />
Palmeira e Suemi Soares Mascaranhas. realizada a apuração dos votos, foram<br />
eleitos para a 1ª diretoria da entidade:<br />
Presidente: eng. antonio carlos Barbosa Teixeira;<br />
Vice-Presidente: eng. durval lobo;<br />
1° Secretário: eng. eryx albert Sholl,<br />
2° Secretário: arquiteto ary Bolsas;<br />
Tesoureiro: eng. loris de Souza<br />
e para o conselho diretor:<br />
efetivos: aimone camardella, herrmann Wellisch neto, l.a.Palhano Pedroso<br />
e José Silvério Barbosa.<br />
Suplentes: armando Flores cabral, nelson Baraúna Moreira, décio germano<br />
Pereira e Thomé ignácio Botelho.<br />
os eleitos presentes foram empossados e lavraram a ata o 1° Secretário eleito,<br />
eng. eryx albert Sholl e o Presidente eng.antonio carlos Barbosa Teixeira.<br />
<strong>aqui</strong>, cabe uma menção especial a participação da SoBeS na elaboração<br />
da Portaria 3237/72.<br />
o decreto nº 229, de 28 de dezembro de 1967, considerando “a necessidade<br />
imperiosa da adaptação de diversos dispositivos da Consolidação das Leis<br />
do Trabalho às alterações decorrentes de recentes modificações de ordem<br />
administrativa no Ministério do Trabalho e Previdência Social; considerando o<br />
mesmo imperativo com relação a outros dispositivos de ordem processual ou<br />
atinentes à matéria de interesse da Segurança Nacional, seja pela sua própria<br />
natureza, seja pelas suas repercussões econômico-sociais, ... Altera dispositivos<br />
146<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES
da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-lei nº 5.452, de<br />
1º de maio de 1943, e dá outras providencias “ e determina no seu artigo 164:<br />
“Art. 164. As empresas que, a critério da autoridade competente em matéria<br />
de segurança e higiene do trabalho, estiverem enquadradas em condições<br />
estabelecidas nas normas expedidas pelo Departamento de Segurança<br />
e Higiene do Trabalho, deverão manter, obrigatóriamente, serviço especializado<br />
em segurança e em higiene do trabalho e constituir Comissões Internas de<br />
Prevenção de Acidentes (CIPAs).<br />
§ 1º O Departamento Nacional de Segurança e Higiene do Trabalho<br />
definirá as características do pessoal especializado em segurança e higiene<br />
do trabalho, quanto às atribuições, à qualificação e à proporção relacionada<br />
ao número de empregados das empresas compreendidas no presente<br />
artigo ...”<br />
Para consensuar qual seria a melhor estrutura a ser adotada para a implantação<br />
desses Serviços, reuniram-se no departamento nacional de Saúde e higiene<br />
do Trabalho (dnShT), empresários, lideranças sindicais, representantes<br />
de entidades técnicas. o dnShT coordenou os trabalhos e consolidou as<br />
propostas existentes, inclusive as provenientes da FundacenTro, o que<br />
permitiu que no início dos anos ’70, o Ministério do Trabalho tivesse uma idéia<br />
do que poderiam vir a se constituir esses Serviços.<br />
em 11 de julho de 1972, o eng. antonio carlos Barbosa Teixeira, em nome da<br />
SoBeS, apresentou ao dnShT, através de correspondência ao seu diretor, eng.<br />
José de Faria Pereira de Souza, o Parecer em que dimensionava os Serviços<br />
determinados pelo decreto 229/67, vinculando o número de trabalhadores da<br />
empresa com o grau de risco de suas atividades. esse Parecer serviu de base<br />
para o texto da Portaria 3237 do Ministério do Trabalho, de 17 de julho de 1972,<br />
que estabeleceu a obrigatoriedade da existência do Serviço especializado em<br />
Segurança, higiene e Medicina do Trabalho, cujo dimensionamento atendeu<br />
a proposta da SoBeS.<br />
essa Portaria estabeleceu, ainda, que:<br />
“Compete a esse Ministério através do Departamento Nacional de Higiene<br />
e Saúde do Trabalho (DNHST) definir a característica do pessoal especializado<br />
em segurança, higiene e medicina do trabalho quanto as atribuições,<br />
a qualificação e a proporção relacionada ao número de empregados ... (...) ...<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 147
Art. 1. Os estabelecimentos que se enquadrem nas condições determinadas<br />
nessa Portaria deverão manter obrigatoriamente, além das Comissões Internas<br />
de Prevenção de Acidentes - CIPAS, serviço especializado em segurança,<br />
higiene e medicina do trabalho.<br />
Art. 5º:. São considerados Engenheiros de Segurança do Trabalho ... (...) ...<br />
I. conclusão do curso de especialização em Engenharia de Segurança do<br />
Trabalho ou Higiene Industrial ministrado por universidade ou instituição<br />
especializada, reconhecida e autorizada com currículos aprovados pelo<br />
Ministério do Trabalho e Previdência Social.<br />
Art. 7°: São considerados Inspetores de Segurança do Trabalho, para os fins<br />
dessa Portaria, aqueles que comprovem uma das seguintes condições:<br />
I. conclusão do curso de habilitação profissional (ensino de 2º grau) de<br />
inspetor de segurança do trabalho, realizado em entidades nacionais<br />
especializadas, reconhecidas e autorizadas com currículos aprovados pelo<br />
Ministério do Trabalho e Previdência Social;<br />
II. conclusão, até 31 de dezembro de 1974, do ensino de primeiro grau<br />
e de curso intensivo de qualificação profissional para Inspetor de Segurança<br />
do Trabalho com carga horário mínima de 120hs, com currículo aprovado<br />
pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social, até 30 de junho de 1974;<br />
III. exercício na data da publicação dessa Portaria de cinco ou mais anos<br />
de atividades na área de segurança do trabalho ou segurança industrial;”<br />
Por essa Portaria, o Ministério do Trabalho e Previdência Social era<br />
o responsável pela formação e pelo registro dos profissionais que atuavam na<br />
área de segurança do trabalho, bem como pela fiscalização do seu exercício<br />
profissional.<br />
“Para o enquadramento do grau de risco foi adotada a Classificação Nacional<br />
de Atividades Econômicas (CNAE), que era empregada pelo Ministério da<br />
Fazenda para o estabelecimento das taxas de seguro nas transações comerciais<br />
148<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />
(87) Souto, D.F.: apud, pag 222
(88) Barbosa Teixeira, A.C.: apud<br />
(89) Souto, D.F.: apud, pag222 e 223<br />
e alfandegárias. ...(...) ... a premência do tempo não permitia a confecção de uma<br />
mais adaptada à situação que se apresentava. Confeccionar uma listagem de<br />
graus de risco era um trabalho técnico demorado, que envolvia uma cuidadosa<br />
pesquisa epidemiológica e um apurado estudo atuarial e não se podia perder<br />
essa oportunidade de fazer as mudanças que eram necessárias. ...” (87)<br />
“ O SERVIÇO ESPECIAlIZADO<br />
Passaremos a tratar da legislação que surgiu em decorrência do estabelecido<br />
na Portaria nº 3237/72 do então Ministério do Trabalho e Previdência Social.<br />
Inicialmente, gostaríamos de lembrar que, em outubro de 1972, durante<br />
a realização do 11º CONPAT, em Curitiba, representantes das entidades<br />
e empresas abaixo relacionadas discutiram a necessidade de elevar a carga<br />
horária prevista para os cursos de especialização em engenharia de segurança<br />
e em medicina do trabalho, fixando-a em um mínimo de 360 horas, com o que<br />
concordaram os representantes do DNSHT e da FUNDACENTRO. Estiveram<br />
presentes as seguintes entidades e empresas: DNSHT, FUNDACENTRO,<br />
SOBES, ABPA, INPS, UFP, SENAI, COHISI DO SESI, PETROBRÁS, IBM, GM, VW,<br />
ANTARCTICA e FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO PARANÁ. Foi um primeiro<br />
passo para o aperfeiçoamento do preparo dos profissionais a serem utilizados.<br />
Logo depois o assunto foi reestudado, como veremos adiante, sendo fixado, no<br />
caso da engenharia de segurança, a carga horária mínima de 600 horas (Parecer<br />
19/87, do Conselho Federal de Educação). Acontece que a Portaria 3237 previa<br />
a existência de especialistas, dava a competência das áreas em que agiriam,<br />
mas não fixava a forma pela qual seriam especializados.” (88)<br />
“... (...) ... as atribuições dos profissionais ficariam divididas em duas áreas<br />
distintas, uma relativa aos assuntos referentes à agressividade do ambiente<br />
e seus equipamentos e outra aos assuntos relacionados com os efeitos dessa<br />
agressividade sobre o organismo humano. o cuidado com que foi redigida<br />
a Portaria (sob a supervisão do presidente da SoBeS, engenheiro antonio<br />
carlos Barbosa Teixeira) resultou, sem dúvida, em benefícios para aceitação<br />
das novas diretrizes.... (...) ... Por meio da fixação das atribuições das áreas de<br />
engenharia e da medicina criaram-se as condições para a obrigatoriedade dos<br />
serviços especializados na empresas, a qualificação dos profissionais tanto de<br />
nível superior como de nível médio e, o que era a diretriz reinante na época,<br />
a proibição da utilização de serviços terceirizados para o atendimentos dessas<br />
atividades. essa Portaria foi a base para a elaboração e a promulgação da lei<br />
n° 6.514 em 1977, que criou toda a estrutura até hoje vigente sobre a prática<br />
da Segurança e da Medicina do Trabalho.” (89)<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 149
a SoBeS promoveu um intenso debate sobre a qualificação necessária para<br />
que os profissionais pudessem exercer com qualidade suas atribuições.<br />
“Promoveu, então, a SOBES, no Clube de Engenharia, a reunião das entidades<br />
ligadas à Prevenção de Acidentes, com o fim de estabelecer as bases da<br />
especialização desejada. Era a primeira vez que essas entidades se reuniam<br />
para discutir problemas de interesse comum. Além de cuidar do preparo dos<br />
profissionais previstos na Portaria que analisamos, caberia realizar estudos para<br />
homogenizar os seus ditames com a legislação regulamentadora do exercício<br />
da engenharia, arquitetura e agronomia. Esses estudos foram realizados pela<br />
SOBES e serviram de base ao projeto de lei que, apresentado no Senado pelo<br />
Eng.º Saturnino Braga dispunha a respeito da especialização de Engenheiros<br />
e Arquitetos em Engenharia de Segurança do Trabalho e da profissão de Técnico<br />
de Segurança do Trabalho.... (...) ... Antes de entrar no comentário dessas<br />
e outras medidas regulamentadoras que se seguiram é importante lembrar que,<br />
em julho de 1977, a SOBES, a convite do Ministério do Trabalho compareceu<br />
ao Departamento de Assuntos Universitários do MEC, com o fim de discutir<br />
o ensino de tópicos relativos à Engenharia de Segurança nos currículos plenos<br />
de Engenharia. O programa então proposto, aprovado pelo Conselho Federal<br />
de Educação, contribuiu de maneira muito positiva para esclarecer concluintes<br />
de cursos das várias modalidades de engenharia a respeito dos objetivos dessa<br />
especialização. Nunca é demais insistir na importância de tal providência, uma<br />
vez que, devendo a engenharia de segurança desenvolver suas atividades pelo<br />
contato com engenheiros de diversas modalidades e faltando-lhe tradição para<br />
ser aceita com entusiasmo pelas áreas que deve assessorar do ponto de vista<br />
da defesa do elemento humano, é de aplaudir qualquer iniciativa que viesse<br />
a esclarecer a importância de sua contribuição.” (90)<br />
em 28 de março de mil novecentos e setenta e três, realizou-se a assembleia<br />
geral extraordinária “a fim de serem submetidas aos associados presentes,<br />
alterações a serem feitas nesse Estatuto, com a finalidade de aprovação do<br />
Regimento Interno. Tais alterações constaram, principalmente, da modificação<br />
de denominação dos órgãos regionais e técnicos, de modo a melhor distinguilos,<br />
da alteração do número de componentes da Diretoria e de dar ao 2°<br />
Secretário a atribuição de substituir o Tesoureiro nos seus impedimentos legais,<br />
sendo as seguintes ...(...)... Art.13° “ ... na sede e Departamentos Regionais ...”<br />
por “ ... na sede e Escritórios Regionais ...” (91)<br />
na assembleia geral ordinária, de 14 de agosto de mil novecentos e setenta<br />
e quatro, a SoBeS elegeu sua 2ª diretoria. encontramos nas atas das<br />
assembleias ordinárias, o tema da regulamentação profissional recorrente<br />
150<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />
(90) Barbosa Teixeira, A.C.: apud<br />
(91) Livro de Atas da SOBES pags. 014 a 017
(92) Skidmore, T.: Brasil: de Castelo a Tancredo,<br />
São Paulo, Paz e Terra, 4ª Ed., 1992, pag. 195<br />
e 196.<br />
(93) III° Plano Nacional de Desenvolvimento:<br />
1980-1986, elaborado na segunda metade de<br />
1979 e aprovado pelo Congresso em maio de<br />
1980.<br />
como item de debate do Plenário nesse período. era preocupação, também,<br />
a definição do logo da entidade e a constituição de um grupo de trabalho para<br />
a criação dos departamentos Técnicos.<br />
a terceira diretoria da entidade foi eleita na assembleia geral ordinária do dia<br />
16 de agosto de mil novecentos e setenta e seis, tendo sido eleita, também,<br />
a diretoria do escritório regional do rio de Janeiro.<br />
Tomava corpo, entre os profissionais que atuavam na área, a necessidade<br />
da regulamentação da profissão. a SoBeS promovia esse debate em todos<br />
os espaços onde havia a oportunidade. a sociedade brasileira vivia uma<br />
reorganização social e política, com a desativação dos elementos básicos<br />
da estrutura autoritária e a revogação do ato institucional n°5 de 1968,<br />
que extinguiu “... (...)... a autoridade presidencial de declarar o congresso<br />
em recesso, cassar parlamentares e/ou privar os cidadãos de seus direitos<br />
políticos. o habeas corpus foi restabelecido para as pessoas detidas por<br />
motivos políticos, a censura prévia suspensa para o rádio e a televisão e as<br />
penas de morte e prisão perpétua abolidas. a independência do Judiciário<br />
foi restaurada (92) ...(...)...”o processo de anistia respondia a uma reivindicação<br />
popular, o comitê Brasileiro pela anistia, apresentou ao governo e a sociedade<br />
um “Programa Mínimo de ação” para restaurar as condições básicas para o<br />
exercício da democracia.<br />
no plano econômico, o principal ministro era Mario henrique Simonsen e, em<br />
seu discurso de posse, o novo presidente João Batista Figueiredo comprometeuse<br />
a dar continuidade ao processo de “abertura”, prometendo “garantir a cada<br />
trabalhador a remuneração justa” e o “financiamento por nós mesmos, dos<br />
custos do nosso desenvolvimento”. as greves de ’78/’79 evidenciaram que a<br />
sociedade precisava se reorganizar em outras bases políticas e econômicas. o<br />
Brasil mantivera “... seu alto crescimento econômico desde o choque do petróleo<br />
de 1973 somente porque passou a tomar mais empréstimos no exterior ...(...)<br />
... O III° Plano (93) era um documento curioso, pois virtualmente não continha<br />
números. O capitulo inicial o descrevia como acima de tudo um documento<br />
qualitativo que evitaria a fixação de metas rígidas. Os principais problemas<br />
do momento eram devidamente mencionados, como a crise de energia, as<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 151
condições embaraçosas do balanço de pagamentos, os custos crescentes da<br />
dívida externa e a pressão inflacionária cada vez maior ... (...) No fim de 1979<br />
a resposta veio parcialmente, os indicadores econômicos eram mistos, O PIB<br />
BRASIL - ACIDENTES DE TRABALHO E DOENÇAS PROFISSIONAIS 1979/1985<br />
ANO TRABAlHADORES<br />
ASEGuRADOS<br />
crescera a 6,8 por cento, a melhor taxa desde 1976. Mas, a inflação dispara<br />
para as alturas dos 77 por cento, quase o dobro da taxa de 1978 e a mais alta<br />
de qualquer ano desde 1964 ... (...) a economia brasileira estava sendo atingida<br />
pelos dois problemas tão conhecidos desde 1945 – aceleração da inflação<br />
e emagrecimento das divisas cambiais... ”<br />
em termos de acidentes do trabalho e de doenças profissionais, essa era a<br />
realidade oficial brasileira, entre a data do Projeto de lei 300/79 e a aprovação<br />
da lei nº 7.410/85.<br />
152<br />
ACIDENTES DOENÇAS<br />
Típicos Trajetos PROfISS.<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />
TOTAl DE<br />
ACIDENTES<br />
TOTAl DE<br />
ÓBITOS<br />
1979 18.134.731 1.338.525 52.279 3.823 1.394.627 4.673<br />
1980 19.222.815 1.404.531 55.967 3.713 1.464.211 4.824<br />
1981 19.761.954 1.215.539 51.722 3.204 1.270.465 4.808<br />
1982 20.057.468 1.117.832 57.874 2.766 1.178.472 4.496<br />
1983 20.258.045 943.110 56.989 3.016 1.003.115 4.214<br />
1984 20.260.438 901.238 57.054 3.283 961.575 4.508<br />
1985 20.452.109 1.010.340 63.515 4.006 1.077.861 4.384<br />
FonTe: Boletim estatístico de acidentes do Trabalho – divisão de Planejamento e estudos estratégicos, inSS
os participantes do XViii conPaT, realizado em Salvador em 23 a 25 de outubro<br />
de 1979, apresentaram uma Moção de apoio a imediata regulamentação<br />
da especialização de engenharia de Segurança e da criação da profissão de<br />
Técnico de Segurança do Trabalho encaminhando, em anexo, a proposta de<br />
retificação do Projeto de lei PlS 300 de 05 de outubro de 1979, de autoria do<br />
Senador roberto Saturnino Braga.<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 153
esse Projeto de lei foi retirado pelo Senador Saturnino Braga para as alterações<br />
necessárias e, posteriormente, reapresentado como Projeto de lei do Senado<br />
351 de 21 de novembro de 1979, dispondo “a respeito da especialização<br />
de engenheiros e arquitetos em engenharia de Segurança do Trabalho e da<br />
Profissão de Técnico de Segurança do Trabalho e estabelece Providências.”.<br />
reunidos no i° Seminário de Segurança industrial, promovido pelo instituto<br />
Brasileiro do Petróleo, em recife, no período de 1 a 3 de outubro de 1980,<br />
os profissionais presentes endossaram as iniciativas da SoBeS e reiteraram<br />
a necessidade da regulamentação da especialização de engenheiro de<br />
Segurança e a criação da profissão de Técnico de Segurança do Trabalho.<br />
Finalmente, em 27 de novembro de 1985 foi sancionada a lei nº 7.410 que<br />
“Dispõe sobre a especialização de Engenheiros e Arquitetos em Engenharia<br />
de Segurança do Trabalho, a profissão de Técnico de Segurança do Trabalho<br />
e dá outras providências”, e em seguida regulamentada pelo Decreto nº<br />
92.530, de 9 de abril de 1986 que determinou: “ ... (...) ... Art. 3º O Ministério da<br />
Educação, dentro de 120 dias, por proposta do Ministério do Trabalho, fixará os<br />
currículos básicos do curso de especialização em Engenharia de Segurança do<br />
Trabalho, e do curso de Técnico de Segurança do Trabalho, previstos no item I<br />
do artigo 1º e no item I do artigo 2º.<br />
§ 1º O funcionamento dos cursos referidos neste artigo determinará a<br />
extinção dos cursos de que tratam o item II do artigo 1º e o item Il do<br />
artigo 2º.<br />
154<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES
§ 2º Até que os cursos previstos neste artigo entrem em funcionamento,<br />
o Ministro do Trabalho poderá autorizar, em caráter excepcional, que<br />
tenham continuidade os cursos mencionados no parágrafo precedente,<br />
os quais deverão adaptar-se aos currículos aprovados pelo Ministério da<br />
Educação.<br />
Art. 4º As atividades dos Engenheiros e Arquitetos especializados em<br />
Engenharia de Segurança do Trabalho serão definidas pelo Conselho<br />
Federal de Engenharia e Agronomia - CONFEA, no prazo de 60 dias após a<br />
fixação dos currículos de que trata o artigo 3º pelo Ministério da Educação,<br />
ouvida a Secretaria de Segurança do Trabalho - SSMT.<br />
Art. 5º O exercício da atividade de Engenheiros e Arquitetos na<br />
especialidade de Engenharia de Segurança do Trabalho, depende de<br />
registro no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia -<br />
CREA.<br />
Art. 6º As atividades de Técnico de Segurança do Trabalho serão definidas<br />
pelo Ministério do Trabalho, no prazo de 60 dias, após a fixação do<br />
respectivo currículo escolar pelo Ministério da Educação, na forma do<br />
artigo 3º.”’<br />
Art. 7º O exercício da profissão de Técnico de Segurança do Trabalho<br />
depende de registro no Ministério do Trabalho. ... (...)...”<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 155
“Após a promulgação da Lei 7.410/85, a especialização em Engenharia<br />
de Segurança passou do âmbito do Ministério do Trabalho para o Sistema<br />
CONFEA/CREA e o curso assumiu status de pós-graduação, sendo ministrado<br />
em universidades, sujeito a orientação do Ministério da Educação, com o<br />
currículo conforme o Parecer 19/87 do SESU, aprovado pelo Conselho Federal<br />
de Educação:<br />
CURSO DE ESPECIALIZAÇãO EM<br />
ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO<br />
DISCIPlINA<br />
1. inTroduçÃo À engenharia de Segurança do<br />
TraBalho<br />
2.PreVençÃo e conTrole de riScoS eM<br />
MáQuinaS, eQuiPaMenToS e inSTalaçÕeS<br />
156<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />
CARGA<br />
HORáRIA (H)<br />
3. higiene do TraBalho 140<br />
4.ProTeçÃo do Meio aMBienTe 45<br />
5.ProTeçÃo conTra incÊndioS e eXPloSÕeS 60<br />
6. gerÊncia de riScoS 60<br />
7.PSicologia na engenharia de Segurança,<br />
coMunicaçao e TreinaMenTo<br />
8.adMiniSTraçÃo aPlicada À engenharia de<br />
Segurança<br />
9. o aMBienTe e aS doençaS do TraBalho 50<br />
10. ergonoMia 30<br />
11. legiSlaçÃo e norMaS TÉcnicaS 20<br />
12. oPTaTiVaS ( coMPleMenTareS) 50<br />
TOTAl 600<br />
Essa nova grade acrescenta tópicos importantes, tais como: Prevenção<br />
e Controle de Riscos em Máquinas, Equipamentos e Instalações, Proteção<br />
contra Incêndio e Explosões e Ergonomia. Porém restringe, drasticamente,<br />
20<br />
80<br />
15<br />
30<br />
(94) Lopes Netto, A.: apud, pag. 194.
o estudo dos riscos ambientais. O que nos chama de imediato a atenção é a<br />
diferença de carga horária entre as duas grades” (94) .<br />
o conselho Federal de engenharia, arquitetura e agronomia, conFea,<br />
através da resolução 325 de 27 de novembro de 1987, que “dispõe sobre o<br />
exercício profissional, o registro e as atividades do engenheiro de Segurança<br />
do Trabalho, e dá outras providências”, posteriormente substituída pela<br />
resolução 359 de 31 de julho de 1991, estabeleceu como atividades especificas<br />
dos engenheiros de Segurança:<br />
Art. 4º - As atividades dos Engenheiros e Arquitetos, na especialidade de<br />
Engenharia de Segurança do Trabalho, são as seguintes:<br />
1 - Supervisionar, coordenar e orientar tecnicamente os serviços de Engenharia<br />
de Segurança do Trabaho;<br />
2 - Estudar as condições de segurança dos locais de trabalho e das instalações<br />
e equipamentos, com vistas especialmente aos problemas de controle de risco,<br />
controle de poluição, higiene do trabalho, ergonomia, proteção contra incêndio<br />
e saneamento;<br />
3 - Planejar e desenvolver a implantação de técnicas relativas a gerenciamento<br />
e controle de riscos;<br />
4 - Vistoriar, avaliar, realizar perícias, arbitrar, emitir parecer, laudos técnicos e<br />
indicar medidas de controle sobre grau de exposição a agentes agressivos de<br />
riscos físicos, químicos e biológicos, tais como poluentes atmosféricos, ruídos,<br />
calor, radiação em geral e pressões anormais, caracterizando as atividades,<br />
operações e locais insalubres e perigosos;<br />
5 - Analisar riscos, acidentes e falhas, investigando causas, propondo medidas<br />
preventivas e corretivas e orientando trabalhos estatísticos, inclusive com<br />
respeito a custo;<br />
6 - Propor políticas, programas, normas e regulamentos de Segurança do<br />
Trabalho, zelando pela sua observância;<br />
7 - Elaborar projetos de sistemas de segurança e assessorar a elaboração de<br />
projetos de obras, instalação e equipamentos, opinando do ponto de vista da<br />
Engenharia de Segurança;<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 157
8 - Estudar instalações, máquinas e equipamentos, identificando seus pontos<br />
de risco e projetando dispositivos de segurança;<br />
9 - Projetar sistemas de proteção contra incêndios, coordenar atividades de<br />
combate a incêndio e de salvamento e elaborar planos para emergência e<br />
catástrofes;<br />
10 - Inspecionar locais de trabalho no que se relaciona com a segurança do<br />
Trabalho, delimitando áreas de periculosidade;<br />
11 - Especificar, controlar e fiscalizar sistemas de proteção coletiva<br />
e equipamentos de segurança, inclusive os de proteção individual e os de<br />
proteção contra incêndio, assegurando-se de sua qualidade e eficiência;<br />
12 - Opinar e participar da especificação para <strong>aqui</strong>sição de substâncias<br />
e equipamentos cuja manipulação, armazenamento, transporte ou<br />
funcionamento possam apresentar riscos, acompanhando o controle do<br />
recebimento e da expedição;<br />
13 - Elaborar planos destinados a criar e desenvolver a prevenção de acidentes,<br />
promovendo a instalação de comissões e assessorando-lhes o funcionamento;<br />
14 - Orientar o treinamento específico de Segurança do Trabalho e assessorar<br />
a elaboração de programas de treinamento geral, no que diz respeito<br />
à Segurança do Trabalho;<br />
15 - Acompanhar a execução de obras e serviços decorrentes da adoção de<br />
medidas de segurança, quando a complexidade dos trabalhos a executar assim<br />
o exigir;<br />
16 - Colaborar na fixação de requisitos de aptidão para o exercício de funções,<br />
apontando os riscos decorrentes desses exercícios;<br />
17 - Propor medidas preventivas no campo da Segurança do Trabalho, em face<br />
do conhecimento da natureza e gravidade das lesões provenientes do acidente<br />
de trabalho, incluídas as doenças do trabalho;<br />
18 - Informar aos trabalhadores e à comunidade, diretamente ou por meio de<br />
seus representantes, as condições que possam trazer danos a sua integridade e<br />
as medidas que eliminam ou atenuam estes riscos e que deverão ser tomadas.<br />
158<br />
Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES
Eng. Antonio Carlos Barbosa Teixeira, Patrono da<br />
Engenharia de Segurança.
II.7. O Patrono da Engenharia de Segurança:<br />
Eng. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />
o eng. antonio carlos Barbosa Teixeira tornou-se o Patrono da engenharia<br />
de Segurança do Trabalho no Brasil por resolução da Plenária do iV coBeS –<br />
congresso Brasileiro de engenharia de Segurança, realizado em Porto alegre<br />
de 22 a 27 de novembro de 1987. antes havia sido considerado Patrono da<br />
engenharia de Segurança da américa latina por aprovação do 2° congresso<br />
latino-americano de engenharia de Segurança, realizado em Buenos aires, em<br />
23 de outubro de 1987.<br />
Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />
161
carioca, nascido em 08 de junho de 1915, formou-se em engenharia civil<br />
e engenharia industrial, modalidade Química, pela antiga escola nacional de<br />
engenharia da universidade do Brasil (95) , em janeiro de 1951.<br />
iniciou suas atividades profissionais, ainda como estudante, como professor<br />
secundarista, lecionando química, física e matemática.<br />
em 1936, ingressou como concursado no quadro de funcionários do Ministério<br />
do Trabalho. e, em meados da década de ’40, dedicou-se a pesquisa científica<br />
na área da fotografia, tendo revelado as emulsões nucleares, que chegaram ao<br />
rio de Janeiro trazidas pelo físico cesar lattes.<br />
Foi um dos fundadores do centro Brasileiro de Pesquisas Físicas em 15 de<br />
janeiro de 1949 junto com cientistas brasileiros e pessoas interessadas no<br />
desenvolvimento científico do país, como: césar lattes, José leite lopes<br />
e Jayme Tiomno, tendo exercido o cargo de Vice-Presidente da instituição.<br />
Foi co-inventor do processo Viscolor, produtor de cópias fotográficas coloridas,<br />
tendo desenvolvido estudos sobre a cor na área de segurança industrial.<br />
“Quando se pesquisam motivos que podem contribuir para a prevenção de<br />
acidentes, parece-nos perfeitamente cabível indagar do papel que possa<br />
desempenhar a cor na segurança do trabalho. Se levarmos em conta que a<br />
segurança do trabalhador depende não só do perfeito funcionamento das<br />
ferramentas que utiliza, mas também, e principalmente, do preparo técnico das<br />
condições psicofisiologicas em que se encontra, facilmente compreenderemos<br />
a importância de um elemento que, como a cor, é capaz de influenciá-lo, de<br />
alterar o seu estado de espírito em diferentes sentidos ...” (96) . Foi professor<br />
de Teoria da cor nos cursos de desenho da Fundação getúlio Vargas de 1950<br />
a 1976.<br />
Participou, em 1941, da fundação da associação Brasileira de Prevenção de<br />
acidentes – aBPa, tendo sido membro do conselho diretor durante várias<br />
gestões e Vice-Presidente.<br />
em 1950, participou da fundação da revista Fotografia, arte, ciência e Técnica.<br />
ainda na década de 50, participou da elaboração de uma serie de decretos<br />
que regulamentaram as condições de trabalho, em especial a lei 2.573 de 15<br />
de agosto de 1955, que “instituiu o salário adicional para os trabalhadores que<br />
prestavam serviços em contato permanente com inflamáveis em condições de<br />
162<br />
Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />
(95) Hoje Universidade Federal do Rio de<br />
Janeiro - UFRJ<br />
(96) Palestra proferida na VI Semana de<br />
Prevenção de Acidentes e Higiene do Trabalho<br />
de 23 a 28 de novembro de 1953.
(97) O Diploma, concedido conforme a Lei<br />
34.714 de 27 de novembro de 1953, que<br />
diz: Art. 1º Fica criada a Menção Honrosa<br />
da Segurança do Trabalho nos graus abaixo<br />
mencionados, a ser conferida pelo Ministro do<br />
Trabalho, Indústria e Comércio, aos que, pelos<br />
seus esfôrços, dedicação, e realizações em prol<br />
da Prevenção de Acidentes do Trabalho, se<br />
tornarem merecedores desta distinção.<br />
Art. 2º Os graus de Menção Honrosa da<br />
Segurança do Trabalho serão os seguintes:<br />
Pioneiro - conferido aos que foram os primeiros<br />
a cuidar da Prevenção de Acidentes do<br />
Trabalho, no País; Colaborador - conferido aos<br />
continuadores da obra dos primeiros e que vêm<br />
prestigiando, com seu entusiasmo, esforços<br />
e realizações, a Campanha de Prevenção e<br />
Acidentes do Trabalho.<br />
periculosidade”, adicional de periculosidade. Sua atuação na formulação da<br />
legislação de proteção do trabalhador, foi reconhecida pela divisão de higiene<br />
e Segurança do Trabalho, do departamento nacional do Trabalho que, em<br />
nome do Ministério do Trabalho, indústria e comércio lhe concedeu, em 27 de<br />
novembro de 1954, o diploma de Mérito, grau colaborador, “pelos relevantes<br />
serviços prestados a causa da Prevenção de Acidentes do Trabalho”. e, em<br />
28 de março de 1956, concedeu-lhe a Medalha do Mérito na Segurança do<br />
Trabalho (97) .<br />
Foi professor da disciplina higiene e Segurança do Trabalho da Pontifícia<br />
universidade católica do rio de Janeiro de 1954 a 1962 e depois coordenador<br />
do curso de engenharia de Segurança da mesma universidade.<br />
em função do trabalho realizado na divisão de higiene e Segurança do<br />
Ministério do Trabalho, foi requisitado pela Petrobrás para, inicialmente,<br />
organizar a assessoria de Segurança industrial e, posteriormente, chefiar essa<br />
assessoria até sua aposentadoria em 1974, depois de participar da 8ª reunião<br />
da comissão de Petróleo da organização internacional do Trabalho – oiT, em<br />
genebra. como chefe dessa assessoria, criou e organizou os cadernos de<br />
Segurança industrial da Petrobrás – caSiPeS.<br />
em 1960, o Ministério da Saúde realizou, através da escola nacional de<br />
Saúde Pública, o curso Básico de Saúde Pública para médicos, engenheiros e<br />
enfermeiros. a Portaria 119 de 25 de março de 1960, do Ministério da Saúde,<br />
designou o engenheiro Antonio Carlos Barbosa Teixeira, professor do tópico<br />
Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />
163
– Prevenção de acidentes de Trabalho do curso Básico para engenheiros da<br />
escola nacional de Saúde Pública; pela Portaria 46 de 13 de junho de 1960,<br />
ele foi designado Presidente da banca examinadora do mesmo curso no tópico<br />
que ministrava; e, pela Portaria 455 de 13 de setembro de 1960, designado<br />
professor do tópico de Prevenção de acidentes do curso Básico de Saúde<br />
Pública para Médicos da mesma escola.<br />
esse curso, ministrado pela escola nacional de Saúde Pública, foi o inicio do<br />
processo formativo de profissionais para atuarem na área de saúde e segurança<br />
do trabalho. Posteriormente, o Ministério do Trabalho, pela Portaria 153 de<br />
21 de maio de 1962, instituiu o i° curso de legislação, higiene e Segurança<br />
do Trabalho, no qual o engenheiro Antonio Carlos Barbosa Teixeira ficou<br />
responsável pelo tema: Prevenção de acidentes do Trabalho na indústria do<br />
Petróleo.<br />
em 1967, o eng. Barbosa Teixeira organizou e coordenou o primeiro curso<br />
realizado, especificamente, para a especialização de engenheiros de Segurança<br />
no Brasil, na Petrobrás.<br />
coordenou a comissão de Segurança industrial e a comissão de Proteção ao<br />
Meio ambiente do instituto Brasileiro do Petróleo.<br />
Presidiu as comissões de “revisão de normas de cadastro de acidentes”,<br />
“Segurança em obras” e “comissão de cor” da associação Brasileira de<br />
normas Técnicas – aBnT.<br />
Foi conselheiro do conselho de reconstrução do Museu de arte Moderna do<br />
rio de Janeiro, após o incêndio que no dia 8 de julho de 1978, destruiu 90%<br />
de seu acervo, principalmente obras de Picasso, Miró, Salvador dalí, Max ernst,<br />
rené Magritte, ivan Serpa, Manabu Mabe.<br />
Participou ativamente do fortalecimento do clube de engenharia, tendo sido<br />
conselheiro por dois mandatos. a primeira vez entre 1976 a 1979 e a segunda<br />
vez de 1999 a 2002.<br />
É extensa sua participação de destaque em Fóruns, Simpósios, congressos,<br />
cursos e Seminários e propostas de regulamentação das condições de trabalho.<br />
no entanto, sua atuação, merece destaque em algumas regulamentações que<br />
viriam a definir o caminho da engenharia de Segurança no Brasil:<br />
164<br />
Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira
1. Na elaboração da Portaria 3237 de 27 de julho de 1972, que resultou na criação dos<br />
Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho. O<br />
trabalho do Eng. Barbosa Teixeira foi inovador ao relacionar, no texto da Portaria,<br />
o número de trabalhadores expostos e o grau de risco das atividades das empresas<br />
para definir o dimensionamento desses Serviços;<br />
2. Como autor da Moção apresentada no XVIII CONPAT – Congresso Nacional de<br />
Prevenção de Acidentes do Trabalho, realizado em Salvador em outubro de 1979,<br />
que fundamentou a proposta do Projeto de Lei 351 do Senado Federal, de autoria do<br />
Senador Roberto Saturnino Braga. Esse Projeto de Lei originou a disposição legal<br />
“Sobre a Especialização de Engenheiros e Arquitetos em Engenharia de Segurança<br />
do Trabalho, a Profissão de Técnico de Segurança do Trabalho”, contida na Lei 7.410<br />
de 27 de novembro de 1985.<br />
3. Como relator da proposta dos Engenheiros de Segurança ao CONFEA, que<br />
resultou na Resolução 325 de 1986, posteriormente modificada pela Resolução 359<br />
de 31 de julho de 1991 do Conselho Federal de Engenharia – CONFEA, que “Dispõe<br />
sobre o exercício profissional, o registro e as atividades do Engenheiro de Segurança<br />
do Trabalho e dá outras providências”.<br />
o eng. antonio carlos Barbosa Teixeira, faleceu em 18 de maio de 2003. e, a<br />
SoBeS, em 27 de novembro de 2006, com o objetivo de preservar a memória<br />
e contribuir para a continuidade da realização e fortalecimento dos sonhos do<br />
Patrono da engenharia de Segurança, inaugurou na sua sede o espaço Técnico<br />
cultural antonio carlos Barbosa Teixeira.<br />
Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />
165
Bibliografia e<br />
Legislação
Bibliografia<br />
1. alberton, anete:” uma Metodologia para auxiliar no gerenciamento de<br />
riscos e na Seleção de alternativas de investimentos em Segurança”,<br />
dissertação de mestrado, Programa de Pós graduação de engenharia de<br />
Produção, uFSc, 1996<br />
in http://www.eps.ufsc.br/disserta96/anete/cap2/cap2_ane.htm<br />
2. azevedo, andré nunes de: a reforma Pereira Passos: uma tentativa de<br />
integração urbana, revista rio de Janeiro, n. 10, maio-ago 2003. Mensagem<br />
presidencial de 03 de maio de 1903<br />
in http://www.ccs.saude.gov.br/revolta/revolta.html<br />
3. Basbaum, leôncio: história Sincera da república, editora Fulgor, São Paulo,<br />
1966. Vol. 1.<br />
4. Bezerra, l. a. de h.: o estudo da Biografia de uma empresa como<br />
apoio à intervenção ergonômica – um estudo de caso: Proposta para<br />
implementação da ergonomia em uma empresa de Saneamento,<br />
dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em engenharia de<br />
Produção, uFSc, Florianópolis, 1998<br />
in http://www.eps.ufsc.br/disserta98/bezerra/cap3.htm<br />
5. Barbosa Teixeira, a.c.”a engenharia de Segurança no Brasil”,<br />
in http://www.areaseg.com.br<br />
6. Barbosa Teixeira, a.c.:Jornal do commércio, rio de janeiro, 20 de dezembro<br />
de 1959.<br />
7. Barbosa, rui, obras completas, vol. XViii, tomo iii, pág. 143.<br />
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172<br />
Bibliografia e Legislação
Legislação<br />
lEGISlAÇãO NúMERO DATA ASSuNTO<br />
alvará 05/01/1785 Sobre as fábricas e manufaturas no Brasil<br />
alvará 24/11/1813<br />
decreto 1313 17/01/1891<br />
decreto 1637 1/5/1907<br />
decreto 3724 1/15/1919<br />
decreto 13498 3/12/1919<br />
decreto 4682 1/24/1923<br />
regula a arqueação dos navios empregados na<br />
conducção dos negros que dos portos da áfrica<br />
se exportam p os do Brazil<br />
estabelece providencias para regularizar o<br />
trabalho dos menores empregados nas fabricas<br />
da capital Federal.<br />
crea syndicatos profissionaes e sociedade<br />
cooperativas<br />
regula as obrigações resultantes dos accidentes<br />
no trabalho<br />
approva o regulamento para a execução da<br />
lei 3.724 de 15/01/1919, sobre as obrigações<br />
resultantes dos accidentes no trab<br />
crea, em cada uma das emprezas de estradas<br />
de ferro existentes no paiz, uma caixa de<br />
aposentadoria e pensões para os respectivos<br />
empregados.<br />
decreto 16027 4/30/1923 crea o conselho nacional do Trabalho<br />
decreto 19433 11/26/1930<br />
decreto 19770 3/1/1931<br />
crea uma Secretaria de estado com a<br />
denominação de Ministério do Trabalho,<br />
indústria e comércio<br />
regula a sidicalisação das classes patronaes e<br />
operarias e dá outras providências<br />
Bibliografia e Legislação<br />
173
decreto 21076 2/24/1932 criação da Justiça eleitoral<br />
decreto 22696 5/11/1933<br />
decreto 23569 12/11/1933<br />
decreto 24637 7/10/1934<br />
decreto 399 4/30/1938<br />
174<br />
Bibliografia e Legislação<br />
aprova as instruções para a exrcução do decreto<br />
22.653 de 20/04/1933, que fixa o némero e<br />
estabelece o modo de escolha representantes<br />
de associações profissionais que participarão da<br />
assembléia nacional constituinte.<br />
regula o exercício das profissões de engenheiro,<br />
de arquiteto e de agrimensor e cria o conFea<br />
e os creas<br />
estabelece sob novos moldes as obrigações<br />
resultantes dos accidentes do trabalho e dá<br />
outras providências<br />
aprova o regulamento para execução da lei 185<br />
de 14/01/1936 , que institui as comissões de<br />
Salário Minimo<br />
decreto 1237 5/2/1939 organiza a Justiça do Trabalho<br />
lei 5452 5/1/1943<br />
decreto 6479 5/9/1944<br />
aprova a consolidação das leis do Trabalho -<br />
clT<br />
cria carreiras no Quadro Único do MTb, indústria<br />
e comércio e dá outras providências<br />
decreto 7036 11/10/1944 reforma a lei de acidentes de Trabalho<br />
decreto 7474 4/18/1945 concede anistia<br />
decreto 8063 10/10/194<br />
decreto 8620 1/10/1946<br />
decreto 34715 11/27/1953<br />
dispõe sôbre as eleições para governadores e<br />
assembléias legislativas dos estados e dá outras<br />
providências<br />
dispões sobre a regulamentação do exercício<br />
de profissões de engenheiro, de arquiteto e de<br />
agrimensor, redigida pelo decreto n° 23.569 de<br />
11/12/1933, e dá outras providências<br />
institui a Semana de Prevenção de acidentes do<br />
Trabalho;
lEGISlAÇãO NúMERO DATA ASSuNTO<br />
lei 2573 8/15/1955<br />
lei 46258 6/23/1959<br />
decreto 46259 6/23/1959<br />
decreto 92530 4/9/1986<br />
decreto 93412 10/14/1986<br />
lei 5161 10/21/196<br />
Bibliografia e Legislação<br />
institui salário adicional<br />
para os trabalhadores<br />
que prestem serviços em<br />
contato permanente com<br />
inflamáveis em condições de<br />
periculosidade<br />
aprova o regulamento da<br />
escola nacional de Saúde<br />
Pública, do Ministério da<br />
Saúde<br />
aprova o regulamento da<br />
escola nacional de Saúde<br />
Pública, do Ministério da<br />
Saúde<br />
regulamenta a lei 7.410 de<br />
27/11/1985, que dispões<br />
sobre a especialização de<br />
engenheiros e arquitetos<br />
em engenharia de<br />
Segurança do Trabalho e<br />
a profissão de Técnico de<br />
Segurança do Trabalho e dá<br />
outras providências<br />
revoga o decreto 92.212<br />
de 26/12/1985, que institui<br />
salário adicional para<br />
empregados do setor de<br />
energia, em condições de<br />
periculosidade e dá outras<br />
providências<br />
autoriza a instituição da<br />
Fundação centro nacional<br />
de Segurança, higiene e<br />
Medicina do Trabalho e dá<br />
outras providências.<br />
175
decreto 229 2/28/1967<br />
decreto 49.974-a 1/21/1961<br />
decreto 811 3/30/1962<br />
decreto 55841 3/15/1965<br />
decreto 4860 11/26/1965<br />
lei 5316 9/14/1967<br />
lei 6514 12/22/1977<br />
176<br />
Bibliografia e Legislação<br />
altera dispositivos das leis<br />
do Trabalho, aprovada<br />
pelo decreto-lei 5.452 de<br />
01/05/1943 e dá outras<br />
providências<br />
regulamenta, sob a<br />
denominação de código<br />
nacional de Saúde, a lei<br />
nº 2.312, de 3 de setembro<br />
de 1954, de normas gerais<br />
sobre a defesa e proteção<br />
da saúde<br />
institui a campanha<br />
nacional de Prevenção de<br />
acidentes<br />
aprova o regulamento da<br />
inspeção do Trabalho<br />
dispõe sobre o regime<br />
de trabalho nos portos<br />
organizados, e dá outras<br />
providências.<br />
integra o seguro de<br />
acidentes do trabalho na<br />
previdência social, e dá<br />
outras providências<br />
altera o cap. V do Titulo ii<br />
da clT, relativo a segurança<br />
e medicina do trabalho e dá<br />
outras providências
lei 7410 11/27/1985<br />
resolução<br />
conFea<br />
resolução<br />
conFea<br />
325 11/27/1987<br />
359 7/31/1991<br />
Bibliografia e Legislação<br />
dispõe sobre a<br />
especialização de<br />
engenheiros e arquitetos<br />
em engenharia de<br />
Segurança do Trabalho,<br />
a profissão de Técnico de<br />
Segurança do Trabalho e dá<br />
outras providências.<br />
dispõe sobre o exercício<br />
profissional, registro e<br />
atividades do engenheiro de<br />
Segurança do Trabalho, e dá<br />
outras providências<br />
dispõe sobre o exercício<br />
profissional, registro e<br />
atividades do engenheiro de<br />
Segurança do Trabalho, e dá<br />
outras providências<br />
177