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A FUNDAÇÃO DA SOBES E A REGULAMENTAÇÃO<br />

DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA NO BRASIL<br />

Uma visão histórica das origens da segurança do trabalho<br />

. VOLUME I .


Diretoria SOBES 2010/2012<br />

Marlise de Matosinhos Vasconcellos | Presidenta<br />

harold Stoessel Sadalla | Vice-Presidente<br />

Maria christina Felix | 1ª Secretária<br />

Silvio costa Santos | 2º Secretário<br />

Fernando Paulo ribeiro Mostardeiro | Tesoureiro<br />

Conselho Diretor<br />

Membros Efetivos<br />

carlos Soares Queiroz<br />

gracio Paulo Pessoa Serra<br />

José Francisco a. de Miranda ramalho<br />

Maria cristina dias dos reis<br />

Mário hamilton Vilela<br />

Santelmo Xavier F°<br />

Ficha TÉcnica<br />

Sociedade BraSileira de engenharia de Segurança<br />

Membros Suplentes<br />

antônio rodrigues Junior<br />

guilherme emanuel costa laux<br />

José luiz de Souza<br />

Paulo roberto Sad da Silva<br />

Mauro Torres Ferreira gomes<br />

ricardo alberto de Jesus<br />

Conselho Consultivo<br />

andré lopes netto<br />

cesar Vianna Moreira<br />

Josevan ursine Fudoli<br />

reynaldo rocha Barros<br />

Sérgio costa dacorso<br />

coordenação do Projeto: carmen lucia evangelho lopes<br />

organização documental e Pesquisa: carmen lucia evangelho lopes<br />

Texto: carmen lucia evangelho lopes<br />

revisão do texto: aurea donizete alves dos Santos<br />

apoio institucional: daniela Bernardo de Figueiredo | Priscila Bernardo de Figueiredo | Selma regina de Moraes<br />

capa e Projeto gráfico: Mariana rodrigues<br />

evangelho lopes, carmen lucia<br />

Ficha caTalográFica<br />

a Fundação da SoBeS e a regulamentação da engenharia de Segurança no Brasil: uma visão<br />

histórica das origens da segurança do trabalho/ carmen lucia evangelho lopes - rio de Janeiro,<br />

SoBeS, 2012.<br />

177 páginas, 21x21cm<br />

1. SoBeS – Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança – história. 2. história.<br />

3. Tecnologia, ciências aplicadas. 4. Segurança do Trabalho.<br />

i. carmen lucia evangelho lopes<br />

iSBn 978-85-65536-00-4


SOBES<br />

Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança<br />

A FUNDAÇÃO DA SOBES E A REGULAMENTAÇÃO<br />

DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA NO BRASIL<br />

Uma visão histórica das origens da segurança do trabalho<br />

. VOLUME I .<br />

1ª edição<br />

rio de Janeiro<br />

2012


Índice<br />

Apresentação 9<br />

Capítulo I | Como foi a História 17<br />

I.1. A Pré-História e a Antiguidade 19<br />

I.2. A Idade Média 27<br />

I.3. A Revolução Industrial 37<br />

Capítulo II | No Brasil 59<br />

II.1. Brasil República 73<br />

II.2. A Revolução de 30 89<br />

II.3. O Estado Novo 95<br />

II.4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 107<br />

II.5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 127<br />

II.6. A Fundação da SOBES 135<br />

II.7. O Patrono da Engenharia de Segurança: Eng. Antonio<br />

Carlos Barbosa Teixeira<br />

Bibliografia e Legislação 167<br />

161


8<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade


APRESENTAÇãO Marlise de Matosinhos Vasconcellos<br />

a prevenção de acidentes no trabalho vem sendo negligenciada, ao longo dos séculos até os dias<br />

atuais. o primeiro capítulo deste livro faz um resgate das condições de trabalho, nas diversas fases<br />

da história e da legislação trabalhista até o início do século XiX. no primeiro capítulo, verificamos<br />

que muitos dos ambientes de trabalho dos séculos passados são análogos aos que alguns<br />

trabalhadores estão exercendo suas atividades, no momento atual. ainda encontramos, no século<br />

XXi, trabalhadores explorados, exercendo suas atividades em condições subumanas, das formas<br />

mais degradantes possíveis, como trabalho infantil e escravo, apesar dos avanços tecnológicos.<br />

o crescente aumento nos acidentes, adoecimento e mortes no trabalho, no momento atual, nos<br />

remete aos anos 70, onde a forma de crescimento desordenado no Brasil trouxe, também, aumento<br />

dos acidentes, doenças e morte no trabalho, época esta que a Sociedade Brasileira de engenharia<br />

de Segurança - SoBeS foi criada, em julho de 1971. no entanto, desde a década de 60, profissionais<br />

interessados na área de segurança já se mobilizaram, e tendo à frente o engº antônio carlos Barbosa<br />

Teixeira, patrono da engenharia de Segurança, no Brasil e na américa latina.<br />

a SoBeS, desde a sua fundação, participou da discussão da futura Portaria 3.227/72 do Ministério<br />

do Trabalho, buscando, sempre, a melhoria das normas relativas à engenharia de Segurança.<br />

a Portaria 3.227 veio obedecer a recomendação 112/1959 da oiT - organização internacional do<br />

Trabalho, da qual o Brasil é signatário. Tornou-se, então, obrigatória a existência de Serviços de<br />

Segurança e Medicina do Trabalho- SeSMT nas empresas, de acordo com o número de empregados<br />

e o grau de risco em que se enquadram. neste ano, faremos 40 anos da obrigatoriedade dos<br />

SeSMT nas empresas.<br />

cabe destacar que a SoBeS participou ativamente na formulação da Portaria 3.214/78 do Ministério<br />

do Trabalho e, posteriormente, a mais importante de todas as contribuições foi a de ter sido o berço<br />

do Projeto de lei apresentado pelo Senador Saturnino Braga e do qual resultou a lei 7.410/85,<br />

que foi regulamentada, em seguida, pelo decreto nº. 92.530, de 9 de abril de 1986, criando<br />

a especialização da engenharia de Segurança, no Sistema conFea/crea.<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 9


10<br />

com o patrocínio do conFea, tanto através do ex-presidente, engº civil Marco Túlio de Melo,<br />

quanto do atual presidente, engº civil José Tadeu da Silva, e do cden - colégio de Presidente das<br />

entidades regionais, através do coordenador, engº eletricista ricardo do nascimento, tornou-se<br />

viável a publicação do livro “a Fundação da Sobes e a regulamentação da engenharia no Brasil” -<br />

Volume i, que contribuirá para o fortalecimento da profissão e com a fiscalização do exercício da<br />

engenharia de Segurança e, com certeza, auxiliará todos os profissionais da área de Segurança do<br />

Trabalho, no desempenho de suas atribuições e na melhoria de condições de trabalho.<br />

Marlise de Matosinhos Vasconcellos<br />

Engª Civil e de Segurança do Trabalho.<br />

Presidenta da Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança - SoBeS<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade


APRESENTAÇãO José Tadeu da Silva<br />

como a mais antiga entidade de profissionais da engenharia de Segurança de nosso País, a<br />

SoBeS teve papel destacado na formulação da lei nº 7.410, de 27/11/1985, que dispõe sobre<br />

a especialização de engenheiros e arquitetos em engenharia de Segurança do Trabalho e a profissão<br />

de Técnico de Segurança do Trabalho.<br />

Vivemos um momento de notório desenvolvimento, em que a engenharia cada vez mais se<br />

engrandece e, dentro deste contexto, devemos ter especial atenção para o aspecto da segurança,<br />

que deve ser prioritário, visando à proteção dos trabalhadores e da sociedade, que usufrui das<br />

obras e produtos que a ela são ofertados e disponibilizados.<br />

devemos intensificar esforços, no que tange à fiscalização do exercício de nossa profissão, no<br />

sentido de que os trabalhos sejam desenvolvidos dentro das normas e especificações exigidas<br />

pela engenharia e de que os responsáveis pelos projetos e suas execuções estejam devidamente<br />

habilitados ao exercício de suas funções e atividades.<br />

hoje, ao editar esta importante obra, a SoBeS novamente ratifica seu compromisso com a área<br />

tecnológica brasileira, em busca de uma engenharia cada vez mais forte e respeitada por nossa<br />

sociedade.<br />

Eng. Civil José Tadeu da Silva<br />

Presidente do conselho Federal de engenharia e agronomia - conFea<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 11


APRESENTAÇãO Marcos Túlio de Melo<br />

resgatar a história das nossas entidades é fundamental para o fortalecimento das nossas<br />

organizações. Por isso, em 2010, iniciamos o projeto de fortalecimento das 28 entidades integrantes<br />

do colégio de entidades nacionais (cden). esse fortalecimento, sem dúvida, passa pelo resgate da<br />

memória de cada uma delas!<br />

Para todos nós do Sistema conFea/crea e Mútua, seja nos estados ou nacionalmente, ter<br />

organizações atuantes, com participação nas discussões de interesse dos profissionais e da<br />

sociedade é primordial para que cumpramos a nossa Missão: “atuar eficiente e eficazmente como<br />

instância superior da verificação, da fiscalização e do aperfeiçoamento do exercício e das atividades<br />

profissionais, orientando seus esforços de agente público para a defesa da cidadania e a promoção<br />

do desenvolvimento sustentável”.<br />

a Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança - SoBeS, com suas lideranças que se mobilizam<br />

desde a década de 60, continua o processo de construção de uma entidade forte e atuante e muito<br />

tem contribuído para a melhoria das condições de trabalho dos brasileiros. uma articulação, em<br />

defesa do bem-estar coletivo, que já rendeu grandes conquistas, como a regulamentação do exercício<br />

profissional do engenheiro de Segurança, através da lei nº 7.410, de 27 de novembro de 1985.<br />

essa conquista, resultado do trabalho de entidades fortes, com capilaridade e poder de articulação,<br />

confirma que devemos sempre aprimorar nossa legislação, fortalecer as nossas profissões,<br />

protegendo os trabalhadores e a sociedade brasileira.<br />

outro exemplo importante para os profissionais do nosso Sistema é a resolução nº 1.010/2005, que<br />

permitiu a <strong>aqui</strong>sição de novas atribuições através dos cursos que os profissionais vão realizando.<br />

Para a engenharia de Segurança do Trabalho, esta resolução é relevante, pelo disciplinamento<br />

especifico da área, que tem como principal característica ser transversal a todas as modalidades,<br />

pela atribuição ocorrer em nível de pós-graduação.<br />

Parabenizo a SoBeS pelo livro “a Fundação da SoBeS e a regulamentação da engenharia<br />

de Segurança – volume i”. uma publicação que vem fortalecer o papel das várias instâncias<br />

organizacionais do nosso Sistema.<br />

Marcos Túlio de Melo<br />

Presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia - ConFEA<br />

gestão 2006 - 2008 e 2009 - 2011


MEMÓRIA DA SOBES<br />

o termo memória nos remete a algumas análises que merecem destaque.<br />

a palavra memória “solta” pode levar-nos a ter a ideia de pensamento e depois de esquecimento<br />

(“o mal dos idosos”).<br />

Podemos, ainda, analisar a memória “raM” random access Memory, ou seja, memória de acesso<br />

aleatório.<br />

a “raM” é a memória dos computadores. É através dessa memória que podemos utilizar<br />

os programas multitarefas, fazer as nossas planilhas, digitar os textos, etc. Portanto, a memória<br />

raM é de grande utilidade, mas também de muitos dissabores. ao realizarmos as nossas tarefas<br />

na memória “raM”, algumas vezes não as gravamos na memória permanente, que é o winchester<br />

(hd - disco rígido), então, tudo que digitamos será perdido, pois raM é uma memória volátil (apaga<br />

quando desligamos).<br />

ao assumirmos a coordenação do colégio de entidades nacionais - cden, tivemos como plataforma<br />

valorizar as entidades nacionais e regionais e essa valorização passa também pelo resgate da<br />

história.<br />

a Sociedade Brasileira de engenharia de Segurança - SoBeS, ao lançar o livro: “a Fundação da<br />

SoBeS e a regulamentação da engenharia de Segurança – Volume i”, com o apoio do cden,<br />

contribui com o nosso projeto, pois grava, no winchester, as ações, as histórias e os projetos, para que<br />

o Sistema conFea/crea utilize os dados apresentados para valorizar as suas entidades.<br />

Muito orgulho terão os seus dirigentes e associados, ao folhear este livro e ver que valeu a pena<br />

realizar um trabalho social como a engenharia de Segurança nacional, que tem o dever e a obrigação<br />

de preservar a vida.<br />

Parabéns aos dirigentes da SoBeS, pelo trabalho apresentado!<br />

Ricardo Nascimento<br />

Coordenador do Colégio de Entidades nacionais - CDEn


“Engenharia de Segurança é o conjunto<br />

de conhecimentos técnico-científicos,<br />

dedicados à preservação da integridade<br />

física, da segurança e da saúde do<br />

trabalhador, realizando a prevenção<br />

de acidentes, através da análise dos<br />

riscos de trabalho e das operações nele<br />

realizadas.”


Capítulo I<br />

Como foi a História<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 17


18<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade


(1)<br />

Nougler, J. (1974): in Menegasso, M.Ester:<br />

“O Resgate Histórico da Evolução do Trabalho,<br />

Ocupação e Emprego” in O Declínio do<br />

Emprego e a Ascensão da Empregabilidade,<br />

tese de doutoramento, no Programa de Pós-<br />

Graduação em Engenharia de Produção da<br />

Universidade Federal de Santa Catarina<br />

(UFSC), 1998.<br />

I.1. A Pré-História e a Antiguidade<br />

É possível admitir que a história da engenharia e a história da própria humanidade<br />

caminharam juntas, ao longo desses milhões de anos. a necessidade de<br />

alimentação e de abrigo levou o “homo habilis” a desenvolver as ferramentas<br />

necessárias, para que pudesse lograr êxito em seus objetivos. inicialmente,<br />

eram pedaços de pedra, osso e madeira que se tornavam pontiagudos e<br />

cortantes. era a sobrevivência incentivando o “desenvolvimento tecnológico”.<br />

esse processo se desenvolveu e se acelerou a partir do “homo sapiens”, que<br />

foi aprimorando suas habilidades para o desenvolvimento de instrumentos,<br />

ferramentas e técnicas que pudessem lhe proporcionar um modo de vida mais<br />

confortável. É impossível compreender a evolução histórica do homem sem<br />

relacionar as “questões do trabalho” que ocorreram durante o processo de<br />

civilização da humanidade.<br />

o Período Pré-histórico abrange toda a época anterior a 4000 a. c., desde<br />

o aparecimento dos primeiros seres humanos, como resultado da evolução<br />

dos hominídeos, na era cenozóica. no Período neolítico, são encontrados<br />

os primeiros vestígios do que definimos hoje como “trabalho”, nas chamadas<br />

“comunidades tribais”, consideradas como a última etapa das sociedades<br />

sem classes, dotadas de formas primitivas de economia (caça, pesca, criação,<br />

procedimentos rudimentares de agricultura).<br />

o trabalho sempre foi uma atividade própria do ser humano e suas primeiras<br />

formas (1) apareceram milênios antes do Período neolítico, com formas de<br />

execução diferenciadas. autores sustentam que há milhões de anos, no começo<br />

do Pleistoceno, viveram os australopitecos, os primeiros e mais antigos tipos<br />

de “homo faber” conhecidos. Foram os desenhos encontrados em grutas da<br />

áfrica austral, associados aos mais antigos utensílios e às mais antigas formas<br />

de trabalho, que embasaram essa teoria. esses autores argumentam que a<br />

transição da fase de “animalidade” para a de homem ocorreu no momento em<br />

que o australopiteco atritou duas pedras entre si, para romper uma delas e a<br />

fez mais afiada e cortante.<br />

cada período da história da humanidade corresponde a uma forma de trabalho,<br />

resultado da maneira como os homens se organizam pra viver em sociedade<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 19


e produzir sua subsistência. e, embora os acidentes sejam inerentes à condição<br />

humana, o tipo de risco que o ser humano enfrenta foi evoluindo no decorrer<br />

de sua existência e da transformação das condições de trabalho.<br />

a descoberta do fogo, há cerca de 800 mil anos, deu um salto de qualidade<br />

no desenvolvimento da capacidade humana de proteger-se do frio e vencer<br />

a escuridão. Se nos perguntarmos os riscos que o homem pré-histórico<br />

enfrentava, a primeira coisa que pensamos é nos ataques animais e nas<br />

intempéries da natureza.<br />

o fogo, a pedra (100000 a.c.), o cobre (8000 a.c.), a roda (4000 a.c.),<br />

a escrita (3500 a.c.), o bronze (3300 a.c.), o ferro (1500 a.c.) foram<br />

sendo introduzidos no cotidiano da sociedade humana, à medida que<br />

o “homo sapiens” foi abandonando o hábito de viver em cavernas<br />

e passou a construir seus abrigos, deixou de ser nômade e passou a se fixar na<br />

terra, desenvolvendo a agricultura e a pecuária. a primeira grande revolução<br />

econômica ocorreu com a descoberta da agricultura e a domesticação de<br />

animais. logo após, vieram a aragem da terra e as primeiras colheitas de<br />

cereais.<br />

20<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade


(2) Tell es-Sultan (Jericó) é considerada uma<br />

das mais antigas cidades continuamente<br />

habitadas do mundo, com evidência de<br />

assentamentos datados de antes de 9000<br />

a.C. O primeiro assentamento permanente<br />

foi construído próximo a Ein as-Sultan, entre<br />

8000 e 7000 a.C., por um povo desconhecido.<br />

Eram alguns muros, um santuário e uma torre<br />

de sete metros de altura com uma escadaria<br />

interna. Após alguns séculos, foi abandonado<br />

para um segundo assentamento, estabelecido<br />

em 6800 a.C, talvez pela invasão de um povo<br />

que absorveu os habitantes originais pela sua<br />

cultura dominante. Artefatos datados desse<br />

período incluem dez crânios, engessados e<br />

pintados como para reconstituir as feituras<br />

individuais. Este foi seguido por uma sucessão<br />

de assentamentos, a partir de 4500 a.C., tendo<br />

o maior destes sido construído<br />

em 2600 a.C.<br />

(3) A Suméria é considerada a civilização<br />

mais antiga da humanidade. Localizava-se<br />

na parte sul da Mesopotâmia, em terrenos<br />

conhecidos por sua fertilidade, entre os rios<br />

Tigre e Eufrates. Evidências arqueológicas<br />

marcam a civilização suméria em meados do<br />

quarto milênio a.C. Entre 3500 e 3000 a.C.,<br />

houve um florescimento cultural e a Suméria<br />

exerceu influência sobre as áreas circunvizinhas.<br />

Depois de 2000 a.C., a Suméria entrou em<br />

declínio, sendo absorvida pela Babilônia e pela<br />

Assíria. São atribuídas aos sumérios: a escrita<br />

cuneiforme, que provavelmente antecede<br />

todas as outras formas de escrita, tendo sido<br />

originalmente usada por volta de 3500 a.C.; as<br />

cidades-estado, sendo a cidade de Ur a mais<br />

conhecida delas, e a cerveja.<br />

Fundações de uma<br />

residência desenterrada<br />

em Tell es-Sultan (Jericó)<br />

o processo de domesticação dos animais e o uso dos produtos agrícolas<br />

e animais para a sobrevivência fixaram o homem à terra, permitindo que se<br />

desenvolvessem agrupamentos humanos com construções em pedra e tijolos.<br />

considera-se Tell es-Sultan (2) , no oriente Próximo, como a mais antiga delas.<br />

a fabricação de objetos metálicos, fase seguinte à descoberta do fogo, quando<br />

ocorreu a introdução ao uso dos metais, permitiu mais rapidez e maior qualidade<br />

na caça, pesca e agricultura. há referências da utilização de objetos em cobre<br />

que datam de 8000 anos a.c. Podemos pensar nos acidentes decorrentes do<br />

uso do fogo, da extração e utilização dos metais e da construção de refúgios,<br />

para servir de abrigo, a que o homem estava exposto nessa época da história.<br />

dois fatores contribuíram para facilitar a transmissão dos conhecimentos ao<br />

longo da história. o primeiro deles ocorreu com os sumérios (3) e os egípcios:<br />

o surgimento da escrita (3500 a.c.). e o segundo foi o paulatino envelhecimento<br />

das gerações, que permitiu o repasse do conhecimento e das experiências<br />

através da história oral, possibilitando que o acervo cultural e técnico passasse<br />

de geração para geração.<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 21


egistros interessantes de como a sociedade da época alertava para os<br />

acidentes de trabalho e suas consequências são o Papiro anastacius V (4) , que<br />

assinalou a necessidade da preservação da saúde e da vida do trabalhador,<br />

incitando os pedreiros para a proteção durante a execução de tarefas: “Se<br />

trabalhares sem vestimenta, teus braços se gastam e tu te devoras a ti mesmo,<br />

pois não tens outro pão que não teus dedos...” (sic) (5) . o outro é o código<br />

de hamurabi (6) , que estabeleceu punições para os eventos da vida cotidiana.<br />

entre essas punições estavam: “Se um arquiteto constrói para alguém e não o<br />

faz solidamente e a casa que ele construiu cai e fere de morte o proprietário,<br />

esse arquiteto deverá ser morto” (Seção 229) e “Se uma casa mal construída<br />

causa a morte de um filho do dono da casa, então o filho do construtor será<br />

condenado à morte” (Seção 230). o terceiro data de 2360 a.c., e foi encontrado<br />

num papiro egípcio, o “Papiro Seller ii”, que diz: “Eu jamais vi ferreiros em<br />

embaixadas e fundidores em missões. O que vejo sempre é o operário em<br />

seu trabalho; ele se consome nas goelas de seus fornos. O pedreiro, exposto<br />

a todos os ventos, enquanto a doença o espreita, constrói sem agasalho; seus<br />

dois braços se gastam no trabalho; seus alimentos vivem misturados com os<br />

detritos; ele se come a si mesmo, porque só tem como pão os seus dedos. O<br />

barbeiro cansa os seus braços para encher o ventre. O tecelão vive encolhido<br />

- joelho ao estômago - ele não respira. As lavadeiras sobre as bordas do rio,<br />

são vizinhas do crocodilo. O tintureiro fede a morrinha de peixe, seus olhos são<br />

abatidos de fadiga, suas mãos não param e suas vestes vivem em desalinho” (7) .<br />

essas são as referências mais antigas encontradas até agora.<br />

22<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade<br />

(4) Documento egípcio de cerca de 2550 A.C.<br />

(5) Enciclopédia Mirador Internacional – Ed. Em<br />

São Paulo - 1975.<br />

(6) O Código de Hamurabi é um conjunto de<br />

281 leis criadas pelo rei sumério Hamurabi, na<br />

Mesopotâmia, por volta de 1789 A.C., baseado<br />

na lei de talião, “olho por olho, dente por<br />

dente”. Talhado numa rocha de diorito de cor<br />

escura com escrita em caracteres cuneiformes,<br />

o monólito do Código de Hamurabi, medindo<br />

2,25 m de altura, 1,50 m de circunferência na<br />

parte superior e 1,90 na base, foi encontrado<br />

no ano de 1901, na região do atual Irã.<br />

Hamurabi foi o rei que uniu semitas e sumérios<br />

e levou a Babilônia ao seu esplendor.<br />

(7) Citado em Alberton, Anete:” Uma<br />

Metodologia para Auxiliar no Gerenciamento<br />

de Riscos e na Seleção de Alternativas de<br />

Investimentos em Segurança”, dissertação de<br />

mestrado, Programa de Pós Graduação de<br />

Engenharia de Produção, Universidade Federal<br />

de Santa Catarina, 1996.<br />

(8) Hipócrates —(Cós 460 a.C.– Tessália, 377<br />

a.C.) era um asclepíade, isto é, membro de uma<br />

família que durante várias gerações praticara os<br />

cuidados em saúde.<br />

(9) Estanhose: intoxicação pelo estanho,<br />

afecção rara produzida pelo contato com o<br />

pó do estanho ou pela inalação de vapores<br />

de estanho.<br />

Código de Hamurabi in:<br />

blog.travelpod.com


(10) Platão (Atenas, 428/427 a.C – Atenas,<br />

348/347 a.C.), filósofo e matemático do<br />

período clássico da Grécia Antiga, fundador<br />

da Academia, primeira instituição de educação<br />

superior do mundo ocidental.<br />

(11) Aristóteles, (Macedônia 384 – Atenas<br />

322 a.C), filósofo grego, aluno de Platão e<br />

considerado um dos fundadores da filosofia<br />

ocidental.<br />

(12) Plínio, o Velho, Caio Plínio Segundo<br />

(Como, 23 - Stabia, 79), naturalista romano,<br />

faleceu ao tentar observar, como estudioso, a<br />

erupção do vulcão Vesúvio, em 79, e tentando<br />

salvar os habitantes de Stabia.<br />

(13) “Naturalis Historia”, um vasto compêndio<br />

das ciências antigas, distribuído em trinta e<br />

sete volumes, dedicado a Tito Flávio, futuro<br />

imperador de Roma, veio a publico no ano<br />

77 d.C.<br />

(14) Cláudio Galeno ou Élio Galeno, em latim<br />

Claudius Galenus e grego (Pérgamo, 129 d.C -<br />

provavelmente Sicília, 217 d.C), mais conhecido<br />

como Galeno de Pérgamo. Seus relatos de<br />

anatomia médica eram baseados em macacos,<br />

pois a dissecção humana não era permitida, é<br />

também um precursor da prática da Vivissecção<br />

e experimentação com animais e o primeiro<br />

que conduziu pesquisas fisiológicas. Saturno<br />

em alquimia significa chumbo.<br />

(15) Conhecido no Ocidente como Avicena,<br />

Ibn Sina, Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn<br />

Sina, (Bucara, 980 — Hamadã, 1037), filósofo e<br />

médico persa da Idade Média, era um polímata,<br />

com contribuições na astronomia, química,<br />

geologia, lógica, paleontologia.<br />

(16) Saturnismo: intoxicação por chumbo.<br />

na antiguidade greco-romana, o trabalho já era visto como gerador<br />

e modificador das condições de viver, adoecer e morrer dos homens. na grécia<br />

antiga, o médico hipócrates (8) , considerado o Pai da Medicina, revelou a<br />

origem das doenças profissionais que acometiam aqueles que trabalhavam nas<br />

minas de estanho (9) e aconselhou o banho após as atividades, como maneira<br />

de minimizar os problemas.<br />

algumas escavações arqueológicas localizaram fósseis de esqueletos humanos<br />

em galerias de minas com dimensões muito reduzidas: 1m de altura por 0,80m<br />

de largura e o filósofo e matemático grego Platão (10) chegou a expor ideias<br />

sobre a deformação dos esqueletos humanos, provocadas pelo exercício de<br />

determinadas profissões.<br />

o filósofo aristóteles (11) estudou o atendimento e a prevenção das enfermidades<br />

dos trabalhadores nos ambientes das minas.<br />

caio Plínio Segundo (12) , naturalista romano, conhecido também como Plínio,<br />

o Velho, escreveu um vasto compêndio das ciências antigas, chamado “naturalis<br />

historia” (13) , onde relatou todo o conhecimento científico existente até<br />

o inicio do cristianismo. a sua obra é considerada a primeira referência sobre<br />

segurança do trabalho, pois ele, tendo visitado galerias de minas, descreveu<br />

o aspecto dos trabalhadores expostos ao chumbo, mercúrio, cobre, zinco<br />

e poeiras, mencionando que os escravos, por livre iniciativa, usavam no rosto<br />

panos ou membranas de bexiga de carneiro, como se fossem máscaras, com<br />

o objetivo de diminuir a ação das poeiras minerais.<br />

cláudio galeno (14) , médico e filósofo romano de origem grega, e o filósofo<br />

e médico persa, avicena (15) , em seus estudos, alertaram sobre o saturnismo (16) ,<br />

proveniente do trabalho de pinturas com tintas à base de chumbo.<br />

os trabalhos de hipócrates, Platão, Plínio, galeno, avicena, entre outros,<br />

apontavam para a importância do ambiente, da sazonalidade, do tipo<br />

de trabalho e da posição social como fatores determinantes na produção de<br />

doenças.<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 23


Hipócrates – médico grego (460 a. C – 377 a. C.) Aristóteles<br />

Platão Galeno<br />

24<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade


Plínio, o Velho Avicena<br />

Capítulo I | 1. A Pré-História e a Antiguidade 25


(17) A Idade Média é um período da história<br />

da humanidade que começa em torno do<br />

Sec.V e que tem como modo de produção<br />

predominante o feudalismo.<br />

I.2. A Idade Média<br />

a idade Média (17) é um período de fortes transformações, em relação às<br />

épocas anteriores, notadamente no que se refere ao predomínio da vida rural.<br />

o modo de produção feudal sucedeu ao modo de produção escravagista da<br />

antiguidade. os servos passaram a ser os trabalhadores típicos desse período.<br />

não detinham a posse da terra, estabeleciam uma relação servil de trabalho,<br />

recebiam um pedaço de terra (gleba), que arrendavam e onde produziam para<br />

si e para os senhores do feudo.<br />

no início do feudalismo, as relações econômicas eram simples, praticamente<br />

de troca. a aldeia era autossuficiente. os servos e suas famílias cultivavam seus<br />

alimentos, fabricavam com as próprias mãos tudo o que lhes era necessário<br />

à sobrevivência. os servos mais habilidosos eram chamados à casa do senhor,<br />

para fabricarem os objetos necessários. não havia incentivo à produção de<br />

excedentes. a troca era feita pela necessidade de consumo de um determinado<br />

produto, no mercado semanal que acontecia, geralmente, ao redor dos<br />

mosteiros e castelo. os mercadores estavam sob o controle do senhor feudal ou<br />

do bispo. esses também trocavam suas mercadorias produzidas por seus servos<br />

e artesãos. dentro dessa realidade, os acidentes e as doenças profissionais<br />

eram ainda muito similares aos dos séculos anteriores.<br />

a partir do século X, registrou-se um significativo aumento da população<br />

que, com o movimento religioso das cruzadas, contribuiu para incentivar<br />

a prática do comércio. as dezenas de milhares de europeus, que atravessaram<br />

o continente para conquistar a “Terra Prometida”, foram acompanhadas por<br />

mercadores, com o objetivo de fornecer as provisões necessárias para a viagem.<br />

no regresso, os cruzados procuravam pelas mercadorias que conheceram na<br />

viagem, criando novos hábitos de consumo e exigindo novos produtos.<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média 27


28<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média


A nova relação do “homem com a instrumentação lançou<br />

raízes durante a revolução industrial, tal como, por sua vez,<br />

o capitalismo, no século XVI, reclamou novas fontes de<br />

energia. A máquina a vapor é mais um efeito desta sede<br />

de energia do que uma causa da revolução industrial”.<br />

(18) Gilles, 1981 in http://www.eps.ufsc.br/<br />

teses98/ester/cap2.html<br />

nos séculos Xi e Xii, ocorreu a chamada “revolução técnica”, que se estendeu<br />

até o século XV. a humanidade passou do “reino da ferramenta para o reino da<br />

máquina”, e gradativamente ocorreu uma evolução tecnológica do trabalho,<br />

onde o homem foi sendo substituído pela máquina . Sem dúvida, foi o<br />

surgimento e aprimoramento das máquinas, nos séculos Xi e Xii, que<br />

proporcionaram a “revolução técnica”: a expansão do moinho, o aperfeiçoamento<br />

do torno, o aparecimento da roda d’água e das prensas e parafusos, isto é, todo<br />

o automatismo mecânico que se desenvolveu gradualmente, permitindo<br />

substituir o homem pela máquina.<br />

a nova relação do “homem com a instrumentação lançou raízes durante<br />

a revolução industrial, tal como, por sua vez, o capitalismo, no século XVI,<br />

reclamou novas fontes de energia. A máquina a vapor é mais um efeito desta<br />

sede de energia do que uma causa da revolução industrial” (18) .<br />

Paulatinamente, a população das cidades que surgiam começou a perceber<br />

e questionar os costumes feudais. a atividade comercial precisava superar<br />

as barreiras da sociedade feudal para se desenvolver e crescer. e, com<br />

o desenvolvimento do comércio e das cidades, paralelamente, novos<br />

hábitos e costumes iam se proliferando, resultado da forma como os<br />

comerciantes organizavam seu trabalho. um exemplo relevante dessa<br />

organização, para superar as limitações feudais e proporcionar a expansão<br />

continua do comércio, foram as “corporações” ou “ligas”, criadas com<br />

o objetivo de controlar os mercados.<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média 29


as dificuldades existentes no processo de troca simples, que restringiam<br />

a circulação das mercadorias a pequenos espaços geográficos, acabaram<br />

sendo superadas pelo processo de transação dupla, com a inclusão da moeda<br />

para agilizar a troca de mercadorias.<br />

o progresso das cidades e o incremento da circulação e do uso do dinheiro<br />

incentivaram os artesãos a abandonar o trabalho servil na agricultura para<br />

passar a viver de suas habilidades e do seu ofício. não se tratava mais de<br />

satisfazer apenas suas necessidades, mas de atender a crescente demanda.<br />

a partir desse momento, estabeleceu-se a relação entre trabalho e comércio,<br />

estreitamente ligada ao excedente de produção.<br />

Por outro lado, o aumento do fluxo comercial permitiu aglutinar produtos e<br />

produtores em locais onde as cidades haviam crescido. as feiras periódicas na<br />

inglaterra, França, Bélgica, alemanha e itália foram o primeiro passo na direção<br />

de um comércio estável e permanente. as feiras, ao contrário dos pequenos<br />

mercados do início da idade Média, eram centros distribuidores, onde os<br />

grandes mercadores e artesãos locais compravam e vendiam as mercadorias<br />

estrangeiras, procedentes do oriente e do ocidente, do norte e do Sul (19) .<br />

30<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média<br />

(19) Huberman, Leo: “A História da Riqueza do<br />

Homem”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1974.


Artesanato<br />

(20) Havia dois tipos de ajudantes: o aprendiz<br />

e o jornaleiro. O aprendiz era o que vivia e<br />

trabalhava com o artesão principal, durante<br />

o processo de aprendizagem, que podia<br />

levar de 2 a 7 anos. Os jornaleiros eram<br />

os aprendizes que não haviam passado<br />

no exame final do processo de aprendizagem<br />

e continuavam a trabalhar em troca de<br />

um salário.<br />

aos poucos, os artesãos foram organizando o trabalho urbano: eram sapateiros,<br />

ferreiros, ourives, padeiros, tecelões, etc. e passaram, também, a se organizar<br />

em corporações de ofícios ou guildas, associações profissionais de defesa<br />

mútua, destinadas a proteger seus interesses e lutar contra a aristocracia,<br />

preservando o monopólio do mercado de trabalho de cada ofício. além de<br />

proteger o mercado de trabalho, as corporações se destinavam a garantir<br />

a ajuda mútua a seus membros, em caso de doenças, acidentes, invalidez<br />

ou morte.<br />

Guilda<br />

embora a unidade produtora típica do final da idade Média fosse a<br />

pequena oficina, tendo um mestre como empregador em pequena escala,<br />

trabalhando lado a lado com seus ajudantes (20) , havia algumas atividades que<br />

recorriam à divisão técnica do trabalho. a forjaria era uma delas e dividia o<br />

processo produtivo em várias etapas, realizadas por trabalhadores distintos<br />

e especializados. a idade Média enfatizou o papel da máquina no processo<br />

produtivo, ao mesmo tempo em que valorizou a habilidade técnica. isso criou<br />

as condições necessárias para o florescimento da ciência e da técnica no<br />

período seguinte, o renascimento.<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média 31


a descoberta e o uso de novas fontes de energia e técnicas de fabricação<br />

modificaram o trabalho na idade Média. assim, a ciência, a tecnologia e a<br />

indústria, que davam os primeiros passos, tinham ainda um papel atrelado à<br />

agricultura. a partir do Século XVi, com um forte desenvolvimento da ciência<br />

e da técnica e as manufaturas se espalharam, aparecendo novos ofícios,<br />

trazendo fortes alterações na vida cotidiana e constituindo novos modos de<br />

organização do trabalho. entre os séculos XVi e XViii, há um declínio dos<br />

artesãos independentes típicos da idade Média e, em seu lugar, surgiram<br />

os assalariados, cada vez mais dependentes do capitalista – mercador –<br />

intermediário - empreendedor (21) .<br />

os artesãos da idade Média, no Século XV, já realizavam tarefas, reunidos sob<br />

um mesmo teto, para trabalharem para o comerciante que trazia especiarias<br />

do oriente para a europa ocidental e controlava os burgos. assim, pode-se<br />

afirmar que a cooperação simples com o capitalismo foi a primeira relação do<br />

trabalho.<br />

o advento da manufatura, no Século XVii, impulsionou a adoção da divisão<br />

do trabalho em vários ofícios. a unidade técnica de produção era a mesma<br />

proveniente da cooperação simples: vários artesãos reunidos sob o mesmo<br />

teto e, era ainda o artesão que dominava o processo de confecção.<br />

essa nova maneira de organizar o trabalho provocou novos problemas de<br />

saúde nos trabalhadores, fomentando estudos que vieram a embasar o que<br />

hoje chamamos de medicina do trabalho e que serviu de parâmetro para<br />

futuros estudos sobre segurança e higiene do trabalho.<br />

a europa vivenciou, durante o período do renascimento (séculos XV<br />

e XVi), vários avanços no campo técnico-científico. Foi o momento em que<br />

copérnico (22) chegou à Teoria heliocêntrica; leonardo da Vinci (23) criou vários<br />

projetos que só se tornaram possíveis mais tarde com o desenvolvimento<br />

tecnológico; Kepler (24) demonstrou que os astros se movimentam em elipse<br />

no espaço; galileu (25) , com suas observações do espaço celeste, ratificou a<br />

tese heliocêntrica de copérnico e, newton (26) trouxe a teoria da gravitação<br />

universal.<br />

32<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média<br />

(21) Huberman, Leo;apud.<br />

(22) Nicolau Copérnico (1473 – 1543),<br />

astrônomo e matemático polaco, desenvolveu<br />

a teoria heliocêntrica do Sistema Solar,<br />

contrariando a então vigente teoria<br />

geocêntrica (que tratava a Terra como o<br />

centro), considerada como uma das mais<br />

importantes hipóteses científicas de todos os<br />

tempos, tendo constituído o ponto de partida<br />

da astronomia moderna.<br />

(23) Leonardo di Ser Piero da Vinci, Leonardo<br />

da Vinci, ( 1452 - 1519), polímata italiano,<br />

foi uma das figuras mais importantes do Alto<br />

Renascimento, se destacou como cientista,<br />

matemático, engenheiro, inventor, anatomista,<br />

pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta<br />

e músico. É ainda conhecido como o<br />

precursor da aviação e da balística. Leonardo<br />

frequentemente foi descrito como o arquétipo<br />

do homem do Renascimento, alguém cuja<br />

curiosidade insaciável era igualada apenas pela<br />

sua capacidade de invenção.<br />

(24) Johannes Kepler (1571 – 1630), astrônomo<br />

e matemático alemão, formulou as três leis<br />

fundamentais da mecânica celeste, conhecidas<br />

como ”Leis de Kepler”: Astronomia Nova,<br />

Harmonices Mundi e Epítome da Astronomia<br />

de Copérnico, que forneceram uma das bases<br />

para a teoria da gravitação universal de Isaac<br />

Newton.<br />

(25) Sir Isaac Newton (Woolsthorpe-by-<br />

Colsterworth, 4 de janeiro de 1643 — Londres,<br />

31 de março de 1727), cientista inglês, físico,<br />

matemático, astrônomo, alquimista, filósofo<br />

natural e teólogo. Sua obra, Philosophiae<br />

Naturalis Principia Mathematica (1687),<br />

descreve a lei da gravitação universal e as<br />

três leis de Newton, que fundamentaram a<br />

mecânica clássica.


(26) Galileu Galilei, em italiano: Galileo<br />

Galilei (Pisa, 1564 - Florença, 1642), físico,<br />

matemático, astrônomo e filósofo italiano.<br />

Desenvolveu a lei dos corpos, enunciou o<br />

princípio da inércia e o conceito de referencial<br />

inercial, ideias precursoras da mecânica<br />

newtoniana. É considerado o<br />

“pai da ciência moderna”.<br />

Em 1556, Georgius Agricola (27) , escreveu “De Re Metallica”, onde fez<br />

referências às doenças pulmonares nos mineiros, com uma descrição de<br />

sintomas que hoje atribuímos à silicose, e que agrícola denominou “asma dos<br />

mineiros”. em 1567, Paracelso (28) , também descreveu doenças de mineiros da<br />

região da Boêmia e a intoxicação pelo mercúrio.<br />

Leonardo da Vinci<br />

Galileu Galilei<br />

Usina de súlfur (De Re Metallica)<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média 33


Georgius Agricola Paracelso<br />

Ramazzini Morbis Artificum<br />

34<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média


(27) Georgius Agricola ou Georg Bauer (1494-<br />

1555), geólogo, alquimista e metalurgista<br />

alemão, dedicou-se ao estudo dos minerais<br />

e das doenças adquiridas pelos mineradores.<br />

Sua principal obra, considerada o primeiro<br />

tratado de mineralogia, foi De Re Metallica<br />

(1555), publicada quatro meses após sua<br />

morte, na Basiléia.<br />

(28) Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus<br />

von Hohenheim, Paracelso (1493 - 1541),<br />

médico, alquimista, físico e astrólogo suíço.<br />

(29) Bernardino Ramazzini, (1633 - 1714),<br />

médico da região da Modena (Itália), foi<br />

o precursor da Medicina do Trabalho.<br />

o trabalho de Morbis artificum diatriba (doenças do Trabalho) do médico<br />

italiano Bernardino ramazzini (29) , escrito em 1700 e que relacionou os riscos e<br />

os danos à saúde ocasionados por produtos químicos, poeira, metais e outros<br />

agentes encontrados em 52 ocupações, estabeleceu as bases para a definição<br />

das doenças ocupacionais. Foi o primeiro a estudar profundadamente as<br />

doenças profissionais, descrevendo os riscos específicos de cada uma delas.<br />

realizou valiosas pesquisas sobre os danos à saúde do trabalhador, causados<br />

pela falta de ventilação e desconforto térmico. alertou sobre a importância das<br />

pausas e dos exercícios e postura correta para prevenção de fadiga. defendeu,<br />

também, a realização do ensino de Medicina do Trabalho no próprio ambiente<br />

do trabalhador.<br />

ramazzini associou o estado de saúde de uma determinada população com<br />

as condições de vida decorrentes da situação social em que se encontrava<br />

essa população. a partir de seu enfoque, o ambiente de trabalho começou<br />

a ser estudado, a fim de permitir modificações que objetivavam proteger a<br />

integridade física do trabalhador, abrindo as condições para a construção da<br />

base da engenharia de segurança do trabalho. o médico italiano inseriu uma<br />

importante pergunta nos exames médicos: “Qual é a sua ocupação”?<br />

Capítulo I | 2. A Idade Média 35


36<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial


(30) In http://www.fundec.edu.br/cipa/<br />

seguranca_trabalho.php.<br />

(31) Charles Turner Thackrah (Leeds 1795 -<br />

1833), médico inglês, muito contribuiu para<br />

definir a idade mínima do trabalho no Factory<br />

Act de 1833.<br />

I.3. A Revolução Industrial<br />

no século XVi, já havia na europa alguma familiaridade com as máquinas e com<br />

a arte de construí-las. no entanto, é apenas no final do século XViii, quando<br />

a revolução industrial se consolidou na maioria dos países, que as mudanças<br />

econômicas permitiram as transformações sociais e políticas. e a europa havia<br />

se preparado para “receber” as novas tecnologias que permitiriam a revolução<br />

industrial, no século XViii.<br />

em 1779, foi registrado, nos anais da academia de Medicina da França, um<br />

trabalho sobre as causas e prevenção de acidentes. no mesmo ano, em Milão,<br />

Pietro Verri fundou a primeira sociedade filantrópica, visando o bem-estar do<br />

trabalhador (30) .<br />

charles Thackrah (31) , médico de leeds, publicou a primeira obra original, em<br />

inglês, sobre as doenças relacionadas com o trabalho, em 1830. Seu livro, The<br />

Effects of the Principal Arts, Trades and Professions, and of Civic States and<br />

Habits of Living, on Health and Longevity with Suggestions for the Removal<br />

of Many of The Agents which Produce Disease and Shorten the Duration of<br />

Life (os efeitos das Principais artes, ofícios e Profissões, bem como do<br />

estado civil e dos hábitos de Vida, na Saúde e longevidade, com Sugestões<br />

para a eliminação de Muitas das causas que Produzem doença e reduzem<br />

a esperança de Vida) continha importantes observações clínicas, propostas de<br />

melhoria do ambiente laboral e fore dele promovendo estilos de vida mais<br />

saudáveis.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 37


É importante relembrar que todo o desenvolvimento técnico-científico<br />

sempre está relacionado com outros aspectos da história da humanidade.<br />

o desenvolvimento de novas tecnologias que permitiram a revolução<br />

industrial foi acompanhado das rápidas e importantes transformações políticas<br />

e econômicas na europa. a declaração de independência dos eua (1776) e<br />

a declaração dos direitos do homem e do cidadão (revolução Francesa-1789)<br />

tiveram enorme influência na mentalidade e no comportamento dos homens<br />

daquela época.<br />

em toda a europa, principalmente na alemanha, França e inglaterra, passou<br />

a existir a preocupação com a crescente urbanização, com as questões de<br />

alimentação para a população em expansão e com as grandes epidemias que<br />

exigiam saneamento. naquele momento, a inglaterra ainda vivia um modelo<br />

feudal da idade Média, mas já com um significativo movimento populacional<br />

em direção às cidades iniciando um processo de inovação tecnológica, cuja<br />

aplicação iria mudar as relações sociais de produção até então existentes.<br />

a introdução das máquinas para substituir o esforço humano e a tração animal;<br />

a substituição de fontes animadas de energia por fontes inanimadas, em<br />

especial a conversão do calor em trabalho; a substituição de substâncias<br />

vegetais ou animais por substâncias minerais muito mais abundantes (carvão,<br />

ferro e hulha) caracterizam as inovações tecnológicas ocorridas.<br />

a introdução da roda d’água, como principal fonte geradora de energia<br />

primária para a automação de um processo de produção, viria abolir o trabalho<br />

artesanal, herança da primeira revolução industrial, onde o detinha todo o<br />

processo da manufatura.<br />

a revolução industrial foi uma das maiores transformações da história humana<br />

e provocou grandes mudanças: o sistema produtivo se organizou para produzir<br />

excedentes e oferecê-los à sociedade; a máquina-ferramenta substituiu<br />

o trabalho manual; a fábrica substituiu a manufatura; a atividade industrial<br />

substituiu a atividade agrícola como centro da vida econômica; o capital foi<br />

empregado para formar grandes empresas industriais; o trabalho assalariado<br />

passou a predominar; surgiram novos ofícios e profissões. e a mentalidade<br />

das pessoas, a cultura, a maneira de se viver em sociedade, enfim, toda<br />

a organização sócio-econômica se transformou.<br />

a combinação de princípios mecânicos básicos (alavancas, catracas, polias,<br />

engrenagens e roldanas), com a introdução de novos equipamentos e processos<br />

produtivos, resultou em incrementos na produção. ocorreu a introdução<br />

38<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

Charles Turner Thackrah


(32) Entre os séculos XVI a XVIII.<br />

(33) James Watt, (Escócia,1736 - Inglaterra,<br />

1819), matemático e engenheiro escocês,<br />

construtor de instrumentos científicos,<br />

destacou-se pelos melhoramentos que<br />

introduziu no motor a vapor, que se<br />

constituíram num passo fundamental para<br />

a Revolução Industrial.<br />

da máquina, da divisão do trabalho e da economia de tempo. a principal<br />

mola propulsora das inovações foi a aceleração do processo produtivo para<br />

economizar tempo. e a substituição dos teares manuais por mecânicos permitiu<br />

o declínio dos preços.<br />

a organização industrial, que pouco a pouco superará o sistema familiar<br />

cooperativo, assumiu as características do sistema doméstico (32) , considerado<br />

o primeiro momento da acumulação capitalista. na produção doméstica, o<br />

artesão e seus ajudantes produziam em casa, detinham o conhecimento de<br />

como produzir, eram na maioria das vezes proprietários das máquinas, recebiam<br />

a matéria-prima para trabalhar e não se apropriavam do excedente produzido,<br />

entregando ao negociante ou ao intermediário o fruto de seu trabalho.<br />

a máquina a vapor foi o divisor de águas entre a manufatura e a m<strong>aqui</strong>nofatura.<br />

as primeiras máquinas a vapor (33) foram construídas na inglaterra, durante<br />

o século XViii. ao retirar a água acumulada nas minas de ferro e de carvão<br />

e aproveitá-la na fabricação de tecidos, a máquina a vapor provocou um<br />

significativo incremento na produção de mercadorias, proporcionando<br />

considerável aumento nos lucros dos donos das fábricas.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 39


a sociedade foi profundamente afetada por um forte êxodo rural, por<br />

mudanças demográficas com grande crescimento populacional e inchaço das<br />

cidades, ocorrendo a transformação da força de trabalho agrícola em força de<br />

trabalho industrial.<br />

adaptar uma sociedade agrária para a produção industrial foi um processo<br />

difícil e, na sociedade rural da época, significou romper o tecido tradicional que<br />

servia de pano de fundo para a organização social. o trabalho precisou deixar<br />

de ser doméstico para ser industrial; os velhos armazéns, os antigos galpões<br />

e estábulos foram transformados em fábricas com um grande número de<br />

máquinas de fiação e tecelagem; não existia horário de trabalho e as jornadas<br />

eram longas; a escassez de mão de obra levava a utilização do trabalho de<br />

mulheres e de menores, normalmente egressos de orfanatos e que recebiam<br />

menores salários; o volume de acidentes de trabalho era grande, decorrência<br />

do funcionamento das máquinas sem proteção, improvisadas para atender à<br />

forte demanda industrial, de uma organização precária do processo produtivo<br />

e da pouca qualificação dos trabalhadores empregados.<br />

as sucessivas leis de “assistência aos pobres” reduziam os salários, em muitos<br />

casos, abaixo do nível de subsistência, limitavam demasiadamente a mobilidade<br />

dos trabalhadores e a crise agrícola impunha a fome nas cidades.<br />

na vida política, ocorreu a queda do estado absolutista; a disputa entre<br />

países europeus pelo domínio das colônias na áfrica e na ásia, com o objetivo<br />

de obter matérias-primas para a indústria e consumidores para os produtos<br />

manufaturados; começaram a aparecer ideias políticas, sociais e econômicas,<br />

tentando explicar a nova situação e solucionar os novos problemas. o ritmo<br />

das mudanças sociais e econômicas acelerou-se visível e rapidamente.<br />

o surgimento da grande indústria na inglaterra, nas últimas três décadas do<br />

Século XViii, exigiu uma jornada de trabalho que excedia os limites do dia<br />

natural de 12 horas, sendo comum a jornada diária de 14 ou mais horas,<br />

durante 6 dias por semana. isso significava um retrocesso em relação à jornada<br />

dos antigos artesões e a regulamentação determinada pelas corporações<br />

de ofícios. na França, durante o antigo regime, “as leis da igreja garantiam<br />

ao trabalhador 90 dias de descanso”, por ano (52 domingos e 38 feriados)<br />

“durante os quais era estritamente proibido trabalhar” (34) .<br />

40<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial


(34) Lafargue, Paul: O Direito a Preguiça, São<br />

Paulo, Editora Kairós, 1977.<br />

(35) Daí a designação de mills ou moinhos.<br />

(36) Também conhecidas como pauper<br />

children, local onde as crianças pobres iam<br />

viver e trabalhar, comum na história inglesa,<br />

desde 1631.<br />

até aquele momento, as manufaturas se estabeleciam junto às fontes de<br />

água, espalhadas por montes e colinas, ou junto às margens dos rios (35) e<br />

absorviam abundante mão de obra infantil, que era recrutada majoritariamente<br />

nas workhouses (36) .<br />

a grande aplicação da máquina a vapor e do tear mecânico permitiu que a<br />

indústria, em especial, a tecelagem, se instalasse nas proximidades dos centros<br />

mais povoados, facilitando absorver a mão de obra infantil das free children,<br />

assim chamadas por oposição às pauper children, que viviam nas imediações<br />

das fábricas, em bairros mais populares, e que passaram a ser duplamente<br />

exploradas, pelos pais e pelos empregadores.<br />

esse quadro trouxe grandes dificuldades para a população inglesa.<br />

as fábricas eram ambientes fechados, na maior parte adaptados do meio<br />

rural, sem ventilação, com pouca iluminação, muitas vezes quase confinados,<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 41


proporcionando péssimos ambientes de trabalho que, aliados as precárias<br />

condições físicas dos trabalhadores, decorrentes da má alimentação, da falta de<br />

orientações básicas de higiene para viver nas cidades e a agressão de diversos<br />

agentes, oriundos do processo e/ou ambiente de trabalho, provocavam novas<br />

doenças e epidemias. o tifo se proliferou nas cidades inglesas industriais e era<br />

chamado de “febre das fábricas”.<br />

essa realidade levantou a preocupação governamental com a situação das<br />

epidemias que assolavam a força de trabalho e que provocavam perdas<br />

42<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial


(37) Nesse caso, a lei se referia aos<br />

trabalhadores aprendizes e não ao conjunto<br />

dos trabalhadores que continuaram sem<br />

regulamentação.<br />

(38) Estabelecimentos fabris da indústria têxtil<br />

algodoeira com as primeiras máquinas movidas<br />

à energia hidráulica.<br />

(39) Herança do sistema das corporações<br />

de ofícios medievais, abolido pela Revolução<br />

Francesa, mas ainda em vigor na Grã-Bretanha.<br />

(40) Combinations Acts, 1780, 1799, 1825.<br />

econômicas, resultando na intervenção dos governos na regulamentação da<br />

realidade fabril. em 1802, o Parlamento Britânico aprovou a primeira lei de<br />

proteção dos trabalhadores (37) : a “lei de Saúde e Moral dos aprendizes”,<br />

estabelecendo o limite de 12 horas de trabalho por dia, proibindo o trabalho<br />

noturno, obrigando empregadores a lavar as paredes das fábricas duas vezes<br />

por ano e tornando obrigatória a ventilação do ambiente produtivo e dos<br />

dormitórios. Foi a primeira medida legal, depois do advento da indústria, de<br />

melhoria das condições de trabalho que se tem notícia.<br />

a intervenção do poder legislativo da grã-Bretanha na realidade fabril e,<br />

em particular, no que afetava a proteção social dos trabalhadores (incluindo<br />

a segurança, higiene e saúde no trabalho, abreviadamente, Sh&ST), foi<br />

resultado, sobretudo, da influência de reformadores sociais, empregadores<br />

filantrópicos, médicos humanistas, escritores e políticos liberais, segmentos<br />

da opinião pública mais esclarecidos e socialmente influentes, preocupados<br />

com as condições de trabalho, em especial das mulheres e das crianças nas<br />

mills (38) do nordeste da inglaterra e nas minas de carvão dos País de gales e<br />

chocados com os eventuais riscos de epidemia e de propagação de doenças<br />

que a proximidade das fábricas e dos alojamentos operários poderiam trazer<br />

às comunidades locais.<br />

a lei de 1802 pouco afetou os empregadores, proprietários de terras<br />

(landlords), minas ou mills, pois ela se referia apenas aos aprendizes (39) , do<br />

seu âmbito ficavam de fora as chamadas free children. no entanto, ela trazia<br />

embutida, a figura do inspetor do trabalho, prevendo a criação de um sistema<br />

local de inspeção voluntária das fábricas e oficinas, integrado por magistrados<br />

e clérigos (the visitors).<br />

embora esse sistema nunca tenha verdadeiramente funcionado, por falta de<br />

instrumentos que viabilizassem sua aplicação efetiva, foi a primeira tentativa de<br />

intervenção do estado no domínio da proteção dos trabalhadores, quebrando<br />

o tabu do laissez faire, laissez passer e questionando o mito do livre contrato<br />

de trabalho, num período em que era negado aos trabalhadores assalariados o<br />

direito de associação (40) .<br />

cresciam as reclamações contra as máquinas que poupavam trabalho, quando<br />

um grupo indignado com as péssimas condições de trabalho e, acreditando<br />

que as máquinas eram as responsáveis pelas precárias condições de vida dos<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 43


trabalhadores, liderados por ned ludd, em 1811, adotou uma maneira mais<br />

radical de protesto: invadiram as fábricas e destruíram as máquinas (41) .<br />

Três décadas depois, em 1833, o Parlamento Britânico aprovou o “Factory<br />

act”, considerado a primeira legislação realmente eficiente no campo da<br />

proteção ao trabalhador: proibia o trabalho noturno aos menores de 18 anos,<br />

restringindo a jornada destes a, no máximo, 12 horas diárias e a 69 horas<br />

semanais; determinava que as fábricas mantivessem escolas para menores de<br />

13 anos; estipulava a idade mínima para o trabalho em 9 anos e um médico<br />

deveria atestar que o desenvolvimento mental e físico da criança correspondia<br />

à sua idade cronológica.<br />

entre 1802 e 1833, o Parlamento inglês promulgou nada menos do que cinco<br />

Ludismo<br />

Ned Ludd<br />

44<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

(41) Esse grupo ficou conhecido como<br />

ludistas. Os manifestantes sofreram uma<br />

violenta repressão, foram condenados à<br />

prisão, à deportação e até à forca. Os luditas<br />

ficaram lembrados como “os quebradores de<br />

máquinas”.


(42) Aos Cotton Mills.<br />

(43) Robert Owen (1771 –1858), empresário<br />

do setor têxtil, reformista social galês,<br />

considerado um dos fundadores do socialismo<br />

e do cooperativismo. Diretor de importantes<br />

indústrias escocesas de fiação. Em New Lanark,<br />

reduziu a jornada de trabalho para 10,5 horas<br />

diárias, quando a jornada de trabalho de um<br />

típico operário têxtil era de 14 a 16 horas<br />

diárias. Preocupou-se ainda com a qualidade de<br />

vida dos seus empregados, construindo casas<br />

para as famílias dos operários, o primeiro jardim<br />

de infância e a primeira cooperativa.<br />

(44) O direito de livre associação era impedido<br />

na Inglaterra pelos Combinations Acts, 1780,<br />

1799 e 1825.<br />

(45) Movimento Cartista (People’s Charter ),<br />

(1837-1848).<br />

leis sobre o trabalho fabril, que não foram respeitadas. O Factory Act of 1819 foi<br />

uma tímida tentativa de regulamentar o trabalho infantil, estipulando a idade<br />

mínima de admissão ao trabalho teoricamente em 9 anos e determinando<br />

que a jornada de trabalho de crianças e adolescentes, entre 9 e 16 anos, não<br />

poderia exceder as 9 horas diárias, com meia hora de intervalo para uma<br />

refeição. essa lei só era aplicável ao setor algodoeiro (42) .<br />

além das máquinas existentes serem bastante rudimentares, perigosas e fáceis<br />

de provocar acidentes, deve-se considerar ainda a inexistência de uma legislação<br />

disciplinadora da jornada de trabalho, das condições de periculosidade<br />

e insalubridade e do trabalho do menor e da mulher, a pouca formação dos<br />

trabalhadores e as dificuldades de se transformar os trabalhadores agrícolas e/<br />

ou infantis em um contingente de trabalhadores industriais.<br />

o ano de 1819 é uma data importante na história do movimento operário inglês, com<br />

as Manifestações populares em Manchester que reivindicavam direitos políticos<br />

e sociais aos trabalhadores e provocaram a criação das primeiras associações<br />

de defesa dos direitos dos operários ingleses, ainda sob a influência do<br />

pensamento cooperativista de robert owen (43) (Report to the Country of<br />

Lanark, 1820): Grand Union of Spiners (1829); National Association for the<br />

Protection of Labour (1830);Grand National Consolidated Trades Union<br />

1834) (44) .<br />

decorrência ainda dessas primeiras associações de trabalhadores, surgiu<br />

o “Movimento cartista” (45) , organizado pela “Associação dos Operários”, cuja<br />

principal bandeira era a defesa de melhores condições de trabalho:<br />

• a limitação de oito horas para a jornada de trabalho<br />

• a regulamentação do trabalho feminino<br />

• a extinção do trabalho infantil<br />

• a folga semanal<br />

• o salário mínimo<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 45


o cartismo, movimento dos liberais radicais, defendia a ampliação dos<br />

direitos políticos, o sufrágio universal masculino, a extinção da exigência<br />

de propriedade para integrar o parlamento e o fim do voto censitário. esse<br />

movimento se destacou por sua organização e por sua forma de atuação,<br />

chegando a conquistar diversos direitos políticos para os trabalhadores. no<br />

entanto, o cartismo não era apenas a defesa dos direitos políticos, nas palavras<br />

do pastor metodista Stephens: “... o cartismo é uma questão de garfo e faca,<br />

a carta significa boa moradia, comer bem e beber bem, bons salários e uma<br />

jornada de trabalho curta”. (46)<br />

o Factory Act of 1833 regulamentou a jornada de trabalho, inicialmente<br />

visando às manufaturas de algodão, lã, linho e seda. os itens mais importantes<br />

constantes deste Factory act, que ficou conhecido como a “lei das Fábricas”,<br />

foram:<br />

• o dia normal de trabalho nas fábricas devia começar às cinco e meia da<br />

manhã e acabar oito e meia da tarde;<br />

• dentro dos limites deste período de quinze horas, estava autorizado<br />

o emprego de adolescentes (isto é, indivíduos entre os 13 e os 18 anos),<br />

durante o dia;<br />

• exceto em certos casos especiais e previstos na lei, os adolescentes não<br />

poderiam trabalhar mais de 12 horas por dia;<br />

• o emprego de menores abaixo dos 9 anos ficou proibido;<br />

• o trabalho de menores entre 9 e 13 anos ficou limitado a oito horas por<br />

dia;<br />

• o trabalho noturno (ou seja, entre as oito e meia da noite e às cinco e meia<br />

da manhã) ficou proibido a todos os menores, entre os 13 e 18 anos;<br />

• cada adolescente passou a ter, diariamente, pelo menos, hora e meia para<br />

as refeições.<br />

a “lei das Fábricas” previa a criação do Factory inspectorate (inspetor de<br />

Fábrica), com a atribuição de controlar a idade de admissão de crianças nas<br />

fábricas no ano seguinte (1834), o governo inglês nomeou o primeiro inspetor<br />

de fábricas para certificar a idade das crianças empregadas. (47)<br />

46<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

(46) Engels, Fredecick: F.: ”A Situação das<br />

Classes trabalhadoras na Inglaterra”, Global<br />

Editora, São Paulo, 1986, pág , 258.<br />

(47) Foi nomeado o médico inglês médico<br />

Robert Baker, que recomendou, a várias<br />

indústrias, a contratação de um médico para<br />

visitar os locais de trabalho diariamente.


a legislação inglesa de regulamentação do trabalho, de 1833, não se aplicava<br />

às minas de carvão, onde era bastante frequente o emprego de crianças com<br />

menos de sete anos. O Children’s Employment Commission, First Report, 1842,<br />

teve um grande impacto na sociedade inglesa. O Mines Act of 1842 marcou o<br />

início de uma legislação para regulamentar o trabalho em um setor econômico<br />

fundamental para o processo de industrialização inglês. o trabalho nas minas<br />

era altamente danoso para a saúde e a segurança dos trabalhadores, desde a<br />

antiguidade, como demonstram os trabalhos mencionados anteriormente e,<br />

depois da revolução industrial, passou a empregar mulheres e crianças. com<br />

o Mines Act, o trabalho de mulheres foi legalmente proibido e a idade mínima<br />

exigida para crianças passou a ser de 10 anos.<br />

curiosamente, foi a obrigação legal de certificação da idade mínima para o<br />

trabalho fabril que abriu, mais tarde, as portas das fábricas aos médicos. na<br />

escócia, em 1842, a tecelagem administrada por James Smith contratou um<br />

médico que, antes da admissão, deveria examinar os trabalhadores menores,<br />

além de realizar exames periódicos, visitar o local de trabalho diariamente e<br />

fornecer orientações sobre problemas de saúde. iniciava-se aí o que viria a ser<br />

conhecido posteriormente como as funções do médico do trabalho.<br />

a partir de 1830, a produção industrial se expandiu muito rapidamente e<br />

ultrapassou as fronteiras inglesas. entretanto, em cada país, o desenvolvimento<br />

industrial adquiriu uma feição diferenciada, de acordo com as condições<br />

econômicas, sociais e culturais de cada região. essas diferenças provocavam,<br />

contudo, conflitos similares, em todas as regiões, entre trabalhadores e<br />

empresários, forçando o aprimoramento e a melhoria das relações de trabalho<br />

e das condições nas quais o mesmo era realizado. com o objetivo de diminuir<br />

os danos provocados pelas atividades fabris, começaram a surgir, nos países<br />

mais industrializados, legislações para prevenir e/ou indenizar os acidentes de<br />

trabalho.<br />

esse movimento só ocorreu por pressões econômicas e sociais. Pelo enfoque<br />

econômico, as pressões visavam garantir maior competitividade entre as<br />

empresas, interessadas em diminuir o afastamento dos trabalhadores, por<br />

acidentes ou doenças de trabalho. as maiores preocupações se referiam a<br />

eventuais riscos de doenças infecto-contagiosas (tifo, tuberculose e cólera);<br />

à exploração do trabalho infantil e feminino e à frequência, à gravidade e à<br />

letalidade dos acidentes de trabalho nas minas e nos estabelecimentos fabris.<br />

Sob o ponto de vista social, existiam as aspirações dos trabalhadores no sentido<br />

de obter em uma legislação mais protetora, seja no que se refere às relações de<br />

trabalho, às de segurança e à previdência social.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 47


o Factory Act de 1844 limitou a 12 horas a jornada de trabalho das mulheres<br />

com menos de 18 anos e proibiu o trabalho feminino noturno até essa faixa<br />

etária. e, para evitar abusos, introduziu o relógio nas fábricas (48) e regulamentou<br />

a jornada diária de trabalho dos menores de 13 anos a 6 horas e meia.<br />

neste período, intensificaram-se as reivindicações dos trabalhadores nos<br />

terrenos ideológicos e político-sociais, culminando com a conquista do voto<br />

secreto e do sufrágio universal, permitindo a eleição de representantes dos<br />

trabalhadores nas casas legislativas, assim como as votações de atos que<br />

interferiam direta ou indiretamente no cotidiano fabril. a associação geral<br />

dos operários de londres (London Working Men’s Association) publicou, em<br />

1838, a carta do Povo, contendo entre seus seis pontos principais: o sufrágio<br />

universal para todos os homens adultos, sãos de espírito e não condenados<br />

por crime, e o voto secreto (49) . São desta fase: a análise dos acidentes de<br />

trabalho e os exames de admissão (50) ; o primeiro contrato coletivo de trabalho<br />

dos operários ingleses, assinado em 1862; a lei de acidentes do Trabalho; a<br />

regulamentação da jornada máxima; o descanso semanal; a assistência médica<br />

de urgência; a obrigatoriedade da higiene nos estabelecimentos industriais e<br />

criação de jurisdição especial para resolver os conflitos individuais do trabalho.<br />

após uma longa luta encabeçada pelo Ten Hour Mouvement, para redução da<br />

jornada de trabalho, a rainha Vitória (51) promulgou, em 1847, o Ten hour act,<br />

adotando a jornada de 10 horas na inglaterra.<br />

a alemanha enfrentava um processo de industrialização similar ao da inglaterra,<br />

porém com menor intensidade do desenvolvimento tecnológico. nessa época,<br />

a alemanha não havia sido unificada (52) e era constituída por 39 pequenos<br />

reinos, ducados e cidades livres, dentre esses a Prússia, que liderava a revolução<br />

industrial. as regiões mineradoras alemãs dos vales de ruhr e Wupper já eram<br />

bastante desenvolvidas. colônia e Frankfurt am Main eram centros urbanos<br />

importantes; hamburgo, Bremen e roterdã já eram portos com grandes<br />

movimentos comerciais e a região do ruhr e Barmen-elberfeld (Wuppertal),<br />

pólos têxteis significativos. as condições de trabalho (53) eram bastante<br />

parecidas às da inglaterra e os acidentes de trabalho corriqueiros. este quadro<br />

econômico convivia com importantes movimentos de trabalhadores . em<br />

1865, no meio de turbulentas manifestações contra as condições de trabalho,<br />

o governo da alemanha (Prússia) aprova a “Lei de Indenização Obrigatória<br />

dos Trabalhadores”, definindo a responsabilidade dos empregadores pelo<br />

pagamento dos acidentes, ocorridos durante a jornada de trabalho. a França<br />

já havia regulamentado, desde 1862, as questões de higiene e a segurança do<br />

trabalho.<br />

48<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

(48) Os relógios da fábrica deveriam ser<br />

regulados pela hora de um relógio público<br />

(por exemplo, o da estação ferroviária mais<br />

próxima).<br />

(49) Engels,F.: ‘”A Situação das Classes<br />

trabalhadoras na Inglaterra”, Global Editora,<br />

São Paulo, 1986, pág 27.<br />

(50) Atribuídas ao industrial medical officers,<br />

a partir de 1855.<br />

(51) Rainha Vitória, coroada em 1837 e reinou<br />

até 1901.<br />

(52) A Alemanha se unificou em 1871, quando<br />

a Prússia venceu a Guerra Franco-Prussiana, por<br />

Otto Bismarck.<br />

(53) Frederick Engels, publica em 1844, o<br />

trabalho Die Lage der Arbeitenden Klasse in<br />

England (A Situação das Classes trabalhadoras<br />

na Inglaterra) e Karl Marx, em 1848, publica,<br />

também em alemão, Das Kommunistische<br />

Manifest (O Manifesto Comunista).


(54) Louis .René.Villermé (Paris 1782 – Paris<br />

1863), médico francês que escreveu: Quadro<br />

do Estado Físico e Moral dos Operários<br />

Empregados nas Indústrias de Algodão, Lã<br />

e Seda, um estudo sobre as condições de<br />

trabalho . Foi um dos fundadores dos Annales<br />

d’Hygiène Publique , em 1829.<br />

a conquista dos direitos civis, a liberdade de livre associação e as manifestações<br />

representativas contra as péssimas condições de trabalho provocaram uma<br />

série de iniciativas governamentais e empresariais, para diminuir os problemas<br />

enfrentados nas fábricas. em 1873, na alemanha (Molhause), foi criada a<br />

primeira associação de higiene e Prevenção de acidentes, cujo objetivo<br />

principal era evitar o acidente e amparar o trabalhador acidentado. dez anos<br />

depois, em 1883, emílio Muller fundou em Paris a associação de industriais<br />

contra os acidentes de Trabalho. e, na inglaterra, em 1897, foi fundado o<br />

comitê Britânico de Prevenção, que iniciou uma série de pesquisas relativas a<br />

materiais aplicados em construções.<br />

É inegável o papel dos estudos sobre as condições de trabalho em diferentes<br />

setores, especialmente no setor têxtil, para sensibilizar a opinião pública quanto<br />

às reivindicações sobre melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.<br />

em 1840, teve grande impacto o estudo do médico fancês louis rené<br />

Villermé: “Tableau de l’état physique et moral des ouvriers employés dans les<br />

manufactures de coton, de laine et de soie” (54) , cuja apresentação na academia<br />

Francesa das ciências Morais e Políticas sensibilizou a opinião pública e levou<br />

à promulgação da primeira lei francesa, limitando a 8 anos a idade mínima para<br />

o trabalho nas fábricas francesas (1841), mas somente naquelas com mais de<br />

20 empregados. embasou, ainda, a primeira lei de urbanismo francesa que<br />

proibiu, em 1859, a locação de imóveis insalubres.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 49


na segunda metade do século XiX, as questões de saúde pública ocuparam<br />

lugar de destaque. os governos passaram a preconizar e a implantar, de<br />

maneira mais sistemática, medidas para garantir a queda das doenças infectocontagiosas.<br />

Edwin Chadwick (55) produziu importantes relatórios sobre as<br />

condições sanitárias da classe trabalhadora na inglaterra. no seu relatório<br />

“Enquiry into the Sanitary Condition of the Labouring Population of Great<br />

Britain” (1842), chamou a atenção sobre a total ausência de hábitos de<br />

higiene pessoal e de saneamento básico na nova família operária, alertando<br />

a necessidade premente de controle e prevenção das frequentes epidemias<br />

de tifo, varíola e cólera, assim como da adoção de medidas para melhoria<br />

das condições sanitárias da população em geral, sugerindo medidas como<br />

o abastecimento de água potável, a rede de saneamento básico, a utilização<br />

de desinfetantes, a coleta do lixo nas grandes aglomerações urbanas,<br />

a vacinação, a criação da inspeção do trabalho e da autoridade de saúde a nível<br />

local, a proteção da saúde materno-infantil, a educação sanitária, a luta contra<br />

a tuberculose, etc.<br />

a obrigatoriedade da notificação das doenças profissionais foi instituída pela<br />

primeira vez, na inglaterra, através da Factory and Workshop Act of 1895,<br />

que determinava exames médicos periódicos aos trabalhadores expostos<br />

ao chumbo, ao fósforo e outras substâncias perigosas. dois anos depois, o<br />

Workmen’s Compensation Act (56) institucionalizou a indenização ao trabalhador<br />

em caso de incapacidade por acidente de trabalho, embora só mencionasse<br />

um conjunto reduzido de ocupações. essa lei foi ampliada em 1906, passando<br />

a considerar, também, algumas doenças profissionais como passíveis de<br />

indenização, embora fossem bastante reduzidos os fatores de risco aceitos<br />

como agentes das doenças: antraz, chumbo, mercúrio, fósforo e arsênio.<br />

a alemanha de Bismarck foi o primeiro país a adotar uma proteção social mais<br />

ampla para seus trabalhadores, promulgando os primeiros seguros sociais<br />

obrigatórios, para doença (1883), acidentes de trabalho (1884), invalidez e<br />

velhice (1889), e uma legislação mais específica sobre condições de trabalho<br />

(1889-91).<br />

as medidas de legislação de proteção social dos trabalhadores, adotadas pelos<br />

diferentes países europeus, foram claramente motivadas por razões tanto<br />

ideológicas quanto políticas e econômicas: pressão da organização operária e<br />

sindical de um lado e da ação autorreguladora do sistema econômico, político<br />

e ideológico vigente, preocupada em assegurar uma certa estabilidade social,<br />

face às brutais transformações operadas pela industrialização - decadência<br />

da aristocracia e emergência da burguesia financeira, comercial e industrial;<br />

50<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

(55) Louis .René.Villermé (Paris 1782 – Paris<br />

1863), médico francês que escreveu: Quadro<br />

do Estado Físico e Moral dos Operários<br />

Empregados nas Indústrias de Algodão, Lã<br />

e Seda, um estudo sobre as condições de<br />

trabalho . Foi um dos fundadores dos Annales<br />

d’Hygiène Publique , em 1829.<br />

(56) 1897.


(57) O estado de New Jersey foi o primeiro a<br />

aprovar em 1911.<br />

(58) Alemanha (1884); Inglaterra (1897 - 1898);<br />

Suécia (1901); Estados Unidos(1911); Portugal<br />

(1913).<br />

urbanização crescente e explosão demográfica; miséria, ausência de condições<br />

de higiene, saneamento básico e habitação; incidência de doenças infectocontagiosas<br />

e riscos ligados ao trabalho fabril; conflitos sociais e políticos; crises<br />

econômicas; competição internacional, criação do estado-nação, expansão<br />

colonial e imperialismo.<br />

nos demais países europeus, as disposições legais sobre inspeção do trabalho<br />

começam a ser adotadas, na segunda metade do século XiX ou no início do século<br />

XX: dinamarca (1873), França (1874), alemanha (1878), Suíça (1878), áustria<br />

(1887), Bélgica (1888), holanda (1888), Suécia (1889), Portugal (1895/1897),<br />

rússia Soviética (1918). a workmen’s compensation Law dos estados unidos é<br />

de 1908, embora a sua aplicação fosse limitada aos trabalhadores do governo<br />

federal e, somente paulatinamente, os diferentes estados tenham aprovado<br />

legislação nesta área (57) .<br />

É importante ressaltar que, durante várias décadas, tanto a legislação<br />

quanto a inspeção do trabalho e a própria organização dos trabalhadores<br />

encaravam a prevenção dos acidentes de trabalho e as indenizações das<br />

doenças profissionais, como uma reparação (médico-legal) dos riscos a que os<br />

trabalhadores estavam sujeitos durante o trabalho fabril diário.<br />

o desenvolvimento da área científica e profissional que conhecemos,<br />

atualmente, por Segurança e Saúde do Trabalho, está diretamente ligado tanto<br />

à criação da inspeção do trabalho quanto à regulamentação das indenizações<br />

dos acidentes e das doenças profissionais (58) .<br />

nesse período, a chamada Segunda revolução industrial, baseada na<br />

eletricidade, na química, no automóvel, na refinação do petróleo e na produção<br />

em série, colocou a inglaterra em desvantagem industrial em relação a países<br />

como França, alemanha e estados unidos.<br />

os estudos sobre o campo magnético e a corrente elétrica, no início do Século<br />

XiX, permitiram, a partir de 1840, as descobertas do telégrafo elétrico, do<br />

dínamo, do motor elétrico, e da lâmpada incandescente. Foi necessário quase<br />

um século para que a eletricidade fosse empregada como a principal fonte de<br />

energia industrial, pois sua utilização exigia um sistema de geração, transmissão<br />

e distribuição com custos de implantação bastante elevados. a difusão da<br />

eletricidade contribuiu para a concentração industrial, tanto permitindo<br />

a ampla exploração da economia de escala, quanto a criação de grandes<br />

empresas inovadoras que monopolizaram o recente setor de equipamentos<br />

para geração, transmissão e distribuição da energia elétrica.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 51


o avião, o automóvel, o caminhão e o trator tiveram origem a partir do motor<br />

à combustão interna. o grande sucesso do motor à gasolina colocou em cena<br />

as empresas petrolíferas, com atividades integradas de exploração, transporte,<br />

refino e distribuição. o motor de combustão interna que trabalha com os<br />

princípios da termodinâmica e com os conceitos de compressão e expansão de<br />

fluídos gasosos, para gerar força e movimento rotativo, foi criado e patenteado<br />

por nikolau august otto, em 1866.<br />

a itália desempenhou um importante papel na formulação de conceitos e nas<br />

ações práticas que permitiriam o desenvolvimento da segurança e medicina e<br />

da segurança do trabalho. o médico genovês luigi devoto (59) criou, em 1901,<br />

a primeira revista dedicada à segurança e saúde no trabalho: Il Lavoro - Revista<br />

di fisiologia, clínica ed igiene del lavoro (Hoje, La Medicina del Lavoro). Foi,<br />

também, a itália que sediou, em 1906, o primeiro Congresso Internacional das<br />

Doenças do Trabalho, que fundou a Commissione Internazionale per le Malattie<br />

Professionali, embrião da atual International Commission on Occupational<br />

Health (ICOH) e a Clinica del Lavoro, em Milão (1910), ambas fruto do trabalho<br />

de luigi devoto. em 1920, foi fundada a Società tragli Amici della Clinica del<br />

Lavoro, com o objetivo principal de promover o estudo e a prática da medicina<br />

do trabalho. durante um longo período, a preocupação médica em relação<br />

aos trabalhadores era muito mais direcionada para os problemas de reparação<br />

de lesões ou doenças específicas do que para a prevenção dos riscos e fatores<br />

de risco no local de trabalho e da fadiga, devido às longas horas de trabalho<br />

diário (60) .<br />

52<br />

Luigi Devoto<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

(59) Médico italiano (Genova 1894 – Milão<br />

1936). Dedicou seus estudos e sua prática<br />

profissional à higiene e à medicina do trabalho,<br />

tendo fundado a primeira revista e o primeiro<br />

instituto dedicados à saúde e à segurança dos<br />

trabalhadores.<br />

(60) In Graça, Luiz: Europa: Uma<br />

Tradição Histórica de Protecção Social dos<br />

Trabalhadores. II Parte: O Nascimento da<br />

Medicina do Trabalho, 2000, Sociedade<br />

Portuguesa de Medicina do Trabalho, Lisboa.


(61) Louis Auguste Blanqui (Nice 1805 – Paris<br />

1881), teórico, republicano, socialista francês.<br />

(62) Édouard Antoine Ducpétiaux, (Bruxelas<br />

1804 – Bruxelas 1868), journalista belga, autor<br />

do trabalho « De la Peine de Mort « (1827).<br />

(63) Rerum Novarum : sobre a condição dos<br />

operários (Reum Novarum - “Das Coisas<br />

Novas”), encíclica do Papa Leão XIII, de<br />

1891, debatendo as condições das classes<br />

trabalhadoras. Trata de questões da revolução<br />

industrial e das sociedades democráticas no<br />

final do século XIX. Apoiava o direito dos<br />

trabalhadores organizarem sindicatos, rejeitava<br />

o socialismo e defendia o direito à propriedade<br />

privada. Discutia, ainda, as relações entre o<br />

governo, os negócios, o trabalho e a Igreja.<br />

(64) Essa Associação seria o embrião da futura<br />

Organização Internacional do Trabalho, fundada<br />

em 1919.<br />

(65) As duas primeiras convenções<br />

internacionais de trabalho regulavam o trabalho<br />

noturno feminino e proibiam o fósforo branco<br />

na indústria de fabrico de máquinas.<br />

(66) A Conferência foi realizada em 1913.<br />

com a expansão da indústria para toda a europa e para os estados unidos,<br />

cresceram os movimentos para a adoção de convenções internacionais<br />

que regulamentassem o trabalho. no início do século 19, robert owen, na<br />

inglaterra, louis auguste Blanqui (61) e louis rené Villermé, na França, e<br />

Édouard antoine ducpétiaux (62) , na Bélgica, foram os precursores da defesa<br />

da regulamentação internacional do trabalho. a defesa da adoção das<br />

convenções internacionais está diretamente relacionada ao período histórico<br />

em que prevalecia a tese de que o estado tinha por finalidade assegurar um<br />

mínimo de direitos irrenunciáveis.<br />

a revolução Francesa de 1789 implantou o princípio da igualdade jurídico<br />

política de todos os cidadãos, valorizando a liberdade de contratar. essa<br />

realidade facilitou a defesa de uma intervenção efetiva do estado nas relações<br />

de trabalho, como uma tentativa de garantir direitos básicos aos cidadãos. o<br />

sentimento de que, na prática, o trabalhador era a parte menos favorecida<br />

no contrato de trabalho, muitas vezes sem qualquer direito, provocou um<br />

movimento de juristas e filósofos da época, conhecido como a “Questão<br />

Social”, que procurava implantar soluções para os problemas decorrentes das<br />

relações de trabalho.<br />

nesse contexto, a partir da segunda metade do século XiX, ganharam eco<br />

as propostas de internacionalização dos direitos trabalhistas. Surgidas através<br />

de robert owen e dos precursores franceses e belgas, repercutiram até a<br />

internacional comunista. iniciativas de defesa da regulamentação internacional,<br />

entre as quais se inclui a do Papa leão Xiii (encíclica rerum novarum) (63) ,<br />

ganharam força com a proposta do governo da Suíça para a convocação de<br />

uma conferência sobre o assunto. essa conferência foi realizada em Berna,<br />

em 1890, e acabou culminando na criação da associação internacional para<br />

a Proteção legal dos Trabalhadores (64) , com sede em Basiléia (Suíça), que<br />

foi responsável pelo primeiro tratado bilateral entre a França e a itália (1909),<br />

pela realização das conferências de Berna, a partir de 1905, e pelas primeiras<br />

convenções internacionais (1906) (65) .<br />

a conferência (66) seguinte, também realizada em Berna, aprovou dois projetos<br />

de convenções internacionais: um, proibindo o trabalho noturno aos menores e<br />

o segundo, limitando em 10 horas a jornada diária das mulheres e dos menores.<br />

estas convenções deveriam ser assinadas no ano seguinte, o que não ocorreu,<br />

por ter eclodido a iª guerra Mundial.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 53


a chegada do século XX alterou o cenário da produção<br />

e do comércio mundial, com a crescente industrialização<br />

americana, refletindo-se na importância internacional dos<br />

países.<br />

em 1913, henry Ford inaugurou sua linha de montagem<br />

de automóveis, nos estados unidos. os carros eram<br />

todos do mesmo modelo e cor (preta). a padronização<br />

adotada tinha o objetivo de facilitar a montagem e limitar<br />

a diversidade de estoque dos componentes. a linha de<br />

montagem implantada, segundo os princípios tayloristas,<br />

reduziu de 12½ horas para 93 min a montagem de um<br />

chassi pelo trabalhador.<br />

estava instalado o fordismo e o taylorismo (67) , formas<br />

de organização da produção em série, que dominaram<br />

durante décadas o sistema produtivo mundial. o controle<br />

do tempo e as tarefas repetitivas foram objeto de sátira<br />

do grande charles chaplin, no filme ‘Tempos Modernos”.<br />

Foram, também, responsáveis por novos fatores de risco<br />

e doenças profissionais. o avanço tecnológico não foi<br />

seguido por formas de organização e gestão da produção,<br />

capazes de preservar com mais intensidade a integridade<br />

humana.<br />

os estados unidos integraram as negociações para<br />

o estabelecimento da paz, após a 1a guerra. dentre<br />

os temas relevantes, estava a universalização do trabalho.<br />

a conferência de Paz criou a comissão de legislação<br />

internacional do Trabalho, com o objetivo de iniciar<br />

estudos para viabilizar essa proposta. esta comissão foi<br />

integrada por representantes dos estados unidos, França,<br />

inglaterra, Japão, Bélgica, itália, checoslováquia, Polônia<br />

e cuba, tendo sido presidida por Samuel gompers, dos<br />

estados unidos.<br />

54<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial<br />

máscara mortuária de Blanqui


(67) Fordismo/taylorismo: forma de organização<br />

e controle da produção adotada por Henri Ford<br />

e Frederick Taylor.<br />

inglaterra, França, itália, e estados unidos apresentaram diferentes projetos<br />

para o funcionamento da organização. as diferenças tinham como base a<br />

visão do papel do estado nas relações de trabalho: França e itália ressaltaram<br />

o papel dos governos no funcionamento do organismo e na conseqüente<br />

evolução das leis de proteção ao trabalho; estados unidos defenderam<br />

a livre negociação entre patrões e empregados, na solução dos problemas e na<br />

melhoria das condições de trabalho; a inglaterra apresentou o projeto adotado<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 55


pela comissão, de um organismo tripartite, composto por representantes<br />

governamentais, patronais e dos trabalhadores, que votariam individual e<br />

independentemente.<br />

o Tratado de Versalhes, nos artigos 387 a 399 da Parte Xiii, adotou a proposta<br />

e determinou a criação da organização internacional do Trabalho, autorizada<br />

a elaborar convenções e recomendações na área do trabalho. em outubro de<br />

1919, foi realizada a 1a conferência internacional do Trabalho, em Washington,<br />

que adotou as primeiras convenções e recomendações, que deveriam ser<br />

ratificadas pelos países membros da Sociedade das nações.<br />

o preâmbulo da Parte Xiii do Tratado de Versalhes afirmava: “Considerando<br />

que a Sociedade das Nações tem por objetivo estabelecer a paz universal e que<br />

tal paz não pode ser fundada senão sobre a base da justiça social; em atenção<br />

a que existem condições de trabalho que implicam para um grande número de<br />

pessoas em injustiça, miséria e privações, e que origina tal descontentamento<br />

que a paz e a harmonia universais correm perigo; em vista de que é urgente<br />

melhorar essas condições (por exemplo, no que concerne à regulamentação<br />

das horas de trabalho, à fixação de uma duração máxima da jornada e da<br />

semana de trabalho, ao aproveitamento da mão-de-obra, à luta contra o<br />

desemprego, à garantia de um salário que assegure condições convenientes<br />

de existência, à proteção dos trabalhadores contra as enfermidades gerais ou<br />

profissionais e os acidentes resultantes do trabalho, à proteção das crianças,<br />

dos adolescentes e das mulheres, às pensões de velhice e de invalidez, à defesa<br />

dos interesses dos trabalhadores ocupados no estrangeiro, à afirmação do<br />

princípio da liberdade sindical, à organização do ensino profissional e técnico<br />

e outras medidas análogas); tendo presente que a não adoção por uma nação<br />

qualquer de um regime de trabalho realmente humanitário é um obstáculo<br />

aos esforços das demais desejosas de melhorar a sorte dos trabalhadores nos<br />

seus próprios países; as Altas Partes Contratantes, movidas por sentimentos de<br />

justiça e humanidade, assim como pelo desejo de assegurar uma paz duradoura<br />

e mundial, convencionaram o que segue ...” e, em seguida, apresentava a<br />

composição, a estrutura e as finalidades organização.<br />

56<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial


Assinatura do Tratado de Versalhes, na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes.<br />

com o advento da indústria, surgiram problemas humanos e sociais que não<br />

encontravam soluções nas ciências, nem na tecnologia, nem na medicina. Foi<br />

um momento de criação do arcabouço teórico do direito Trabalho, da Medicina<br />

do Trabalho e da engenharia de Segurança. cada conjunto de conhecimentos<br />

contribuiu e contribui, à sua maneira, para melhorar as condições de trabalho<br />

e de vida da sociedade.<br />

Capítulo I | 3. A Revolução Industrial 57


Capítulo II<br />

No Brasil


II. No Brasil<br />

enquanto, na europa e nos estados unidos, avançavam as aplicações do<br />

desenvolvimento tecnológico e a revolução industrial se consolidava, no Brasil,<br />

as relações de trabalho ainda eram majoritariamente baseadas no trabalho<br />

escravo.<br />

com uma economia colonial, agrária exportadora, monocultora e produção<br />

baseada em latifúndios, o Brasil – colonial e imperial – pouca ou quase nenhuma<br />

preocupação dedicou às condições de trabalho e de vida daqueles que não<br />

integravam a corte.<br />

a principal atividade econômica durante os primeiros séculos era agrícolaextrativa,<br />

seguida da mineração, utilizando a mão de obra escrava. os escravos<br />

viviam nas senzalas, amontoados em bandos, em péssimas condições de<br />

higiene e salubridade. Trabalhando principalmente em canaviais e engenhos,<br />

realizavam o trabalho físico pesado e não exigiam de seus proprietários<br />

nenhuma iniciativa que lhes assegurasse melhores condições de trabalho.<br />

a preocupação com a saúde dos escravos só surgia em épocas de epidemias<br />

de febre amarela que costumava assolar os estados produtores de açúcar.<br />

a seleção dos escravos era feita pelos próprios interessados nos entrepostos<br />

de recebimento de negros capturados na áfrica. as condições de transporte<br />

eram extremamente rudimentares, objetivando apenas transportar o maior<br />

número de escravos possível dentro dos navios.<br />

Quando os negros chegavam ao Brasil, o exame físico mais detalhado era<br />

o dentário, seguido de uma inspeção para detectar eventuais possibilidades<br />

de doenças contagiosas ou não. o tratamento dispensado aos escravos estava<br />

condicionado a três variáveis:<br />

• o preço pago por ele;<br />

• a capacidade individual de trabalho de cada escravo;<br />

• a rentabilidade da produção escravista no mercado.<br />

Capítulo II | No Brasil 61


o trabalho escravo tinha a duração de até 18 horas por dia e estava relacionado<br />

à capacidade de produção no menor período de tempo. os donos de escravos<br />

tinham o direito de lhes aplicar castigo físico, com o objetivo de caracterizar<br />

sua submissão ao trabalho e aos proprietários, não havendo interferência do<br />

poder público.<br />

as atividades de controle sanitário no Brasil iniciaram-se no século XVi, de<br />

acordo com o modelo adotado em Portugal, que priorizava o controle dos<br />

ofícios de físico, cirurgião e boticário e a arrecadação de emolumentos (1) .<br />

a limpeza das cidades, controle da água e do esgoto, comércio de alimentos,<br />

abate de animais e controle das regiões portuárias eram de atribuição das<br />

câmaras Municipais.<br />

Quando se iniciaram as restrições ao tráfico negreiro, o Príncipe regente<br />

d.João Vi, assinou em 24 de novembro de 1813, o “Alvará com força de lei pelo<br />

qual Vossa Alteza Real ha por bem regular a arqueação dos navios, empregados<br />

na conducção dos negros que dos portos de Africa se exportam para os do<br />

Brazil; dando Vossa Alteza Real, por effeito dos seus incomparaveis sentimentos<br />

de humanidade e beneficência as mais saudáveis e benignas providencias em<br />

beneficio daquelles indivíduos ... (..) ... tendo-me sido presente o tratamento<br />

duro e inhumano, que no transito dos portos africanos para os do Brazil soffrem<br />

os negros que delles se extrahem; chegando a tal extremo a barbaridade e<br />

sordida avareza de muitos dos Mestres das embarcações que os conduzem,<br />

que, seduzidos pela fatal ambição de adquirir fretes e de fazer maiores ganhos,<br />

sobregarregam os navios, admittindo nelles muito maior número de negros do<br />

que podem convenientemente conter; faltando-lhes com alimentos necessarios<br />

para a subsistencia delles, não só na quantidade, mas até na qualidade, por<br />

lhes fornecerem generos avariados e corruptos, que podem haver mais em<br />

conta; resultando de um tão abominavel trafico, que se não pode encarar sem<br />

horror e indignaçao, manifestarem-se enfermidades, que, por falta de curativo e<br />

conveniente tratamento, não tardam a fazerem-se epidemicas e mortaes, como<br />

a experiencia infelizmente tem mostrado: não podendo os meus constantes<br />

e naturaes sentimentos de humanidade e beneficencia tolerar a continuação<br />

de taes actos de barbaridade, commettidos com manifesta transgressão dos<br />

direitos divino e natural, e régias disposições dos Senhores Reis meus Augustos<br />

Progenitores, transcriptas nos Alvarás de 18 de Março de 1684 e na Carta de Lei<br />

do 1° de Julho de 1730, que mando observar em todas aquellas partes que por<br />

este meu alvará não forem derogadas ou substituidas por outras disposições<br />

mais conformes ao presente estado das cousas, e ao adiantamento e perfeição<br />

a que tem chegado os conhecimentos physicos e novas descobertas chimicas,<br />

62<br />

Capítulo II | No Brasil<br />

(1) Gomes, M.F dos Santos e all:<br />

“O Planejamento do Processo de<br />

Descentralização das Ações da Vigilância<br />

Sanitária de Medicamentos no Estado do Rio<br />

de Janeiro” in http://bvsms.saude.gov.br/<br />

bvs/publicacoes/premio2004/especializacao/<br />

MonografiaMicheleRamos.<strong>pdf</strong>


maiormente na parte que respeita ao importante objecto da saude publica: sou<br />

servido determinar e prescrever as seguintes providencias, que inviolavelmente<br />

se deverão observar e cumprir.<br />

I. Convindo para a saude e vida dos negros que dos portos de Africa se<br />

conduzem para os deste Estado do Brazil, que elles tenham, durante a<br />

passagem, logar sufficiente em que possam recostar, e gozar daquelle descaço<br />

indispensavel para a consevação delles, não devendo as dimensões do espaço<br />

necessário para aquelle fim depender do arbitrio ou capricho dos Mestres<br />

das embarcações, supppostos os motivos que já ficam referidos: hei por bem<br />

determinar, conformando-me às proporções que outros Estados illuminados<br />

estabeleceram relativamente a este objecto, e que a experiencia constante<br />

manifestou corresponder aos fins que tenho em vista; que os navios que se<br />

empregarem no transporte dos negros, não hajam de receber maior número<br />

delles, do que aquelle que corresponder à proporção de cinco negros por cada<br />

duas toneladas; e esta proporção só terá logar até a quantia de 201 toneladas;<br />

porque a respeito das toneladas addicionaes, além das 201 que acima ficam<br />

mencionadas, permitto que sómente se admitta um negro por cada tonelada<br />

addicional. E para prevenir fraudes que se poderiam praticar conduzindo maior<br />

número de individuos do que os que ficam regulados pelas estabelecidas<br />

disposições, e acautelar semelhantemente os extravios dos meus reaes direitos,<br />

e enganos que commettem alguns Mestres de embarcações que conduzindo<br />

negros por sua conta e por conta de particulares, costumam supprir a falta dos<br />

seus proprios negros, quando esta acontece por molestia ou outro qualquer<br />

infortunio, apropriando-se dos negros de outros proprietarios, e fazendo iniqua<br />

e dolosamente soffrer a estes a perda, quando só devia recahir sobre mesmo<br />

Mestre: determino que cada embarcação haja de ter um livro carga, distribuido<br />

da mesma forma dos que servem as fazendas: que na margem esquerda deste<br />

livro de carregue o número dos Africanos que embarcaram, com a distincção<br />

do sexo; declarando-se se são adultos ou crianças; a quem veem consignados,<br />

e indicando-se a marca distinctiva que o denote; devendo ser na columna ou<br />

margem do lado direito que se faça em frente a descarga do individuo que<br />

fallecer, declarando-se a sua qualidade, marca e o consignatario a quem era<br />

remettido.<br />

E repugnando altamente aos sentimentos de humanidade que se permitta que<br />

taes marcas se imprimam com ferro quente: determino que tão barbaro invento<br />

mais se não pratique, devendo substituir-se por uma manilha ou colleira, em<br />

que se grave a marca que haja de servir de distinctivo; ficando sujeitos os que<br />

o contrario praticarem à pena da Ordenação do liv. 5°, tit.36, § 1° in principio.<br />

Capítulo II | No Brasil 63


Para a devida legalidade da escripturação acima indicada, mando que o livro<br />

em que ella se fizer, seja rubricado pelo Juiz da Alfândega ou quem seu logar<br />

fizer no porto de que sahir a embarcação; devendo os Mestres, logo que derem<br />

entrada nos portos deste Estado do Bazil, apresentar este livro às inspecções<br />

e autoridades, que eu para isso houver de estabelecer: e succedendo, que, em<br />

transgressão do que tenho determinado, se introduza maior número de negros<br />

a bordo do que aquelle que fica estabelecido, incorrerão os transgressores nas<br />

penas declaradas pela Carta de Lei do 1° de julho de 1730, que nesta parte<br />

mando que se observe como nellas se contém: e para que possa legalmente<br />

constar se observa esta minha real determinação, mando que as embarcações<br />

empregadas nesta conducção e transporte sejam visitadas ao tempo da sahida<br />

do porto em que carregaram, e o da chegada áquelle a que se destinam, pelos<br />

respectivos Juizes da Alfandega, Intendencia ou daquella autoridade que seu<br />

houver de destinar para aquelle effeito.<br />

II. Importando semelhantemente para a consevação da saude, e para<br />

a precaução e curativo das molestias a assistencia de um hábil Cirurgião: ordeno<br />

que todas as embarcações destinadas para a condução dos negros, levem<br />

um Cirurgião perito; e faltando este, se lhes permittirá a sahida. E convindo<br />

premiar aquelles que pela sua perícia, desvelo e humanidade contribuirem<br />

para a conservação da saude, e para o curativo e restabelecimento dos negros<br />

que se conduzirem para estes portos do Brazil: sou servido determinar, que<br />

succedendo não excedes de dous por cento o número dos que morrerem na<br />

passagem dos portos de África para os do Brazil, haja de se premiar o Mestre<br />

da embarcação com a gratificação de 240$000, e de 120$000 o Cirurgião;<br />

e não excedendo o números de mortos de três por cento, se concederá assim<br />

ao mestre como ao Cirurgião metadade da gratificação qe acima fica indicada,<br />

a qual será paga pelo Cofre da Saúde: e quando succeda que o número dos<br />

mortos seja tal que faça suspeitar descuido, ou na execução das providencias<br />

destinadas para a salubridade dos passageiros, ou no curativo dos enfermos:<br />

determino que o Ouvidor do Crime, a quem mando se apresentem os mappas<br />

necroogicos de cada embarcação, haja e proceder a uma rigorosa devassa,<br />

afim de serem punidos severamenre, na conformidade das leis, aquelles que<br />

se provar terem deicaxo de executar as minhas reaes ordens relativas ao<br />

cumprimento das obrigações que lhes são impostas sobre um tão importante<br />

objecto.<br />

III. Para melhor e mais regular tratamento dos enfermos, e para acautelar<br />

a communicação das moléstias, que por falta de convenientes precauções,<br />

e podem constituir epidemicas, ou tornarem-se mais graves por se prescindir<br />

64<br />

Capítulo II | No Brasil


do preciso trato, aceio e fornecimento de alimentos proprios: determino que<br />

no castello de prôa, ou em outra qualquer parte do navio que se julgar mais<br />

própria, se estabeleça uma enfermaria, para onde hajam de ser conduzidos<br />

os doentes para nella serem tratados, na forma que tenho mandado praticar<br />

a bordo dos navios de guerra; e não sendo possivel que o cuidado e tratamento<br />

dos enfermos se entreguem a pessoas que, incumbidas de outros serviços, não<br />

põem assistir na enfermaria com aquella assiduidade que convém: determino,<br />

ampliando o capitulo 10 da lei de 18 de março de 1684, que se destinem duas,<br />

três ou mais pessoas, segundo o número dos doentes, para que hajam de se<br />

occupar do tratamento delles, e que para isso sejam dispensadas de todo<br />

e qualquer outro serviço.<br />

IV. Para acautelar semelhantemente a introdução de molestias a bordo:<br />

determino que se não admitta a embarque pessoa alguma que padecer<br />

molestia contagiosa, para cujo effeito se deverão fazer os competentes exames<br />

pelo Delegado do Physico-Mór do Reino, quando o haja, e seja da profissão<br />

pelo Cirurgião do navio.<br />

V. Concorrendo essencialmente para a conservação e existência dos indivíduos<br />

que se exportam dos portos de Africa, que os comestiveis que os Mestres das<br />

embarcações devem fornecer á guarnição e passageiros sejam de boa qualidade,<br />

e que na distribuição delles se forneça a cada uma a sufficiente quantidade:<br />

ordeno que os mantimentos que os Mestres se propuzerem a embarcar, hajam<br />

de ser primeiro approvados e examinados em terra na presença do Delegado<br />

do Physico-Mór do Reino, havendo-o, do Medico ou Cirurgião que houver no<br />

logar do porto de embarque, e do Cirurgião do navio; e sendo approvados<br />

os mantimentos, assim pelo que respeita à qualidade como à quantidade,<br />

se requererá ao Governador a competente licença para os embarcar; e por<br />

taes exames, visitas e licenças não pagarão os Mestres emolumentos algns.<br />

E repugnando aos sentimentos de humanidade que se tolere, emquanto a<br />

esta parte, o mais leve desvio e negligencia, e mais ainda que fiquem impunes<br />

taes condescendencias na approvação dos comestiveis, que de ordinario<br />

procede de principios de venalidade, peitas e ganhos illicitos, approvando-se<br />

os que deveriam se rejeitados como nocivos; ordeno mui positivamente aos<br />

Governadores e Capitães Generaes, Governadores, ou aos que suas vezes<br />

fizerem, não concedam licenças para que embarquem taes mantimentos,<br />

constando-lhes que a approvação não fora feita coma devida sinceridade; mas<br />

antes façam proceder a novo exame, participando-me o resultado, afim de que<br />

sejam punidos na conformidade das leis os transgressores dellas: e recommendo<br />

aos Governadores mui efficazmente, que hajam de comparecer, todas as vezes<br />

Capítulo II | No Brasil 65


que as suas occupações lh’o permittirem, a taes averiguações, visitas e exames,<br />

afim de que os empregados subalternos hajam de ser mais exactos e pontuaes<br />

no cumprimento das obrigações que lhe são impostas, na execução das quaes<br />

tanto interessam a humanidade e o bem do meu real serviço.<br />

VI. Posto que o feijão seja o principal alimento que a bordo das embarcações<br />

se fornece aos Africanos, tendo-se reconhecido,pela experiencia, que estes o<br />

repugnam e rejeitam passados, os primeiros dias da viagem, convém que se<br />

reveze, dando-lhes uma porção de arroz, ao menos uma vez por semana, e<br />

misturando o feijão com o milho, alimento que os negros preferem a qualquer<br />

outro, não sendo o mendoby, que entre elles tem primeiro logar, e que portanto<br />

se lhes deve facilitar; fornecendo-se a competente porção de peixe e carne<br />

secca, que igualmente deverá ser de boa qualidade; e para preparo da comida<br />

se empregarão caldeirões de ferro, ficando reprovados os de cobre.<br />

VII. Sendo a falta de uma sufficiente porção de água a que mais custa a supportar,<br />

principalmente a bordo dos navios sobrecarregados de passageiros, e emquanto<br />

se não afastam das adustas Costas de Africa; e tendo-se reconhecido que de uma<br />

tal falta resultam ordinariamente as molestias e a morte de um grande número<br />

de negros, victimas da inhumanidade e avidez dos Mestres das embarcações;<br />

determino que a aguada haja de regurlar-se na razão de duas canadas por<br />

cabeça em cada um dia, assim para beber como para a cosinha, regulandose<br />

as viagens dos portos de Angola, Banguela e Cabinda para este do Rio de<br />

Janeiro a 50 dias, daquelles mesmos portos para a Bahia e Pernambuco de 35<br />

a 40 dias, e três mezes quando o navio venha de Moçambique; e da sobredita<br />

porção de água se deverá fornecer a cada individuo impreterivelmente uma<br />

canada por dia para beber; a saber, meia canada ao jantar e meia canada à ceia:<br />

e querendo que mais se não pratique a barbaridade com que se procedia na<br />

distribuição da água, chegando a inhumanidade ao ponto de espancar aquelles<br />

que, mais afflictos pela sêde, vinham mui apressadamente saciar-se: determino<br />

que, conservando-se a pratica estabelecida para a comida dos negros,<br />

dividindo-se estes em ranchos de 10 cada um, se forneça semelhantemente<br />

a cada rancho a porção da agua que lhe toca, á razão de meia Canadá por<br />

cabeça, assim ao jantar como à ceia; fornedendo-se a cada rancho um vaso de<br />

madeira ou cassengos, que contenha cinco canadas de água.<br />

VIII. Depedendo a conservação da agua, assim pelo que respeita à sua<br />

quantidade, como à sua qualidade, de que as vasilhas, pipas ou toneis, estejam<br />

perfeitamente rebatidas e vedadas, e perfeitamente limpas: determino que<br />

se não se admittam para aguada cascos, que não tenham aquelles requisitos,<br />

devendo excluir-se todos aquelles que tenham servido para vinho, vinagre,<br />

66<br />

Capítulo II | No Brasil


aguardente, ou para qualquer outro uso, que possa contribuir para a corrupção<br />

da agua: e no exame do estado de taes vasilhas, ordeno que se proceda com<br />

a mais rigorosa indagação.<br />

IX. Tendo a experiencia feito reconhecer, que do maior cuidado e vigilancia no<br />

aceio e limpeza das embarcações, e da frequente renovação do ar depende<br />

da manutenção da saude dos navegantes, e ainda mesmo o pessoal interesse<br />

dos proprietarios dos navios, por isso que não recebem frete pelo transporte<br />

dos negros, que morrem na travessia da Conta Leste para os portos deste<br />

Continente: determino que o navio nenhum destinado para a conducção de<br />

negros, haja de sahir dos portos dos meus domínios na Costa da África, sem<br />

que se proceda a um severo exame sobre o estado de aceio em que se achar;<br />

negando-se as competentes licenças de sahida áquelles que não estiverem em<br />

conveniente estado de limpeza; e um semelhante exame se deverá praticar<br />

nos portos onde o navio ou embarcação vier descarregar; ficando sujeitos<br />

ao mesmo exame os Capitães, que transportarem para os portos do Brazil<br />

negros conduzidos de outros portos; pois que não executando as providencias<br />

ordenadas neste alvará, ficarão sujeitos à penas por elle declaradas quanto aos<br />

transgressores.<br />

X. Deverá o Capitão ou Mestre do navio ter particular cuidado e fazer<br />

amiudadamente renovar o ar, por meio de ventiladores, que será obrigado a<br />

levar para aquelle effeito; e deverá semelhantemente o Mestre ou Capitão do<br />

navio ou embarcação fazer conduzir de manhão e de tarde ao tombadilho os<br />

negros que trouxer a bordo, afim de respirarem um ar livre; facilitando-lhes<br />

todos os dias de manhã que forem de nevoa, uma conveniente porção de<br />

aguardente para beberem; obrigando-os a banharm-se pelo meio dia em agua<br />

salgada.<br />

XI. Com o mesmo saudavel intendo de prevenir que as molestias se propaguem<br />

a bordo, e se tornem contagiosas; determino que na ultima visita que se fizer<br />

a bordo antes da sahida do navio que transportar negros dos meus dominios<br />

na Costad’ África, se examine o estado em que se acham aquelles negros;<br />

eque succedendo achar-se algum ou alguns enfermos de molestia que possa<br />

communicar-se ou exigir mais cuidadoso curativo, devam desembarcar para<br />

serem curados em terra: e quando a minha Real Fazenda tenha recebido os<br />

direitos de exportação: mando que o Escrivão da Alfandega ou quem suas vezes<br />

fizer, haja de passar as cautelas necessarias, para que se abonem a quem tocar<br />

os direitos que tiver pago pelo negro ou negros que tiverem desembarcado<br />

depois de os haver pago; descontando-se-lhes taes direitos na sahida de iqual<br />

número de negros que embarcarem nas subsequentes embarcações, bem<br />

Capítulo II | No Brasil 67


entendido que a esta última visita e decisão deverão assistir o Physico-Mór<br />

do Districto, onde o houver, na falta delle o Cirurgião da terra, o do navio o e<br />

Delegado do Physico-Mór do Reino; e por estes Facultativos se passará uma<br />

attestação jurada, em que se declare a enfermidade e mais signaes distinstivos<br />

do negro que mandaram desembarcar, e o número dos que proseguem viagem;<br />

e chegando ao porto a que forem destinados taes navios, deverá o Mestre<br />

ou Capitão apresentar aquella attestação ao Governador e Capitão General,<br />

Governador que alli residir, ou a quem duas vezes fizer, para que este haja<br />

de a enviar à minha real presença pela secretaria de Estado dos Negocios da<br />

Marinha e Domínios Ultramarinos, e deverá o Mestre ou Capitão entregar um<br />

duplicado da mesma attestação ao Delegado do Physico-Mór do Reino, que<br />

se achar no Porto do desembarque, ou a quem suas vezes fizer; e entretanto<br />

o navio no porto desta Cidade e Côrte do Rio de Janeiro, deverá o Mestre ou<br />

Capitão entregar a tal attestação na mesma Secretaria de Estado dos Negocios<br />

da Marinha e Domínios Ulramarinos, e um duplicado della ao Physico-Mór do<br />

Reino ou a seus Delegados.<br />

XII. Não sendo menos importante ocorrer e prevenir que não soffra a saude<br />

publica, por falta das necessarias cautelas no exame do estado em que chegam<br />

os negros ao porto do desembarque: e convindo que este se não permitta antes<br />

das competentes visitas da saude, e de se reconhecer que não há molestias a<br />

bordo que sejam contagiosas: ordeno que em todos os portos deste continete,<br />

e outros em que for permittido o desembarque de individuos esportados da<br />

Costa de Africa, haja de estabelerce-se um Lazareto separado da Cidade,<br />

escolhendo-se um logar elevado e sadio em que deva edificar-se, e naquelle<br />

Lazareto deverão ser recebidos os negros enfermos, para alli serem tratados e<br />

curados, até que os Facultativos a que forem commetidas as visitas do Lazareto,<br />

e o curativo dos doentes, os julguem em estado de poderem sahir para casa<br />

das pessoas, a quem vierem consignados; devendo estas concorrer com os<br />

meios necessarios para a subsistencia dos doentes, mediante uma consignação<br />

diaria, que mando seja arbitrada pela minha Real Junta do Commercio: e<br />

para que não aconteça que se commetam peitas, fraudes e prevaricações na<br />

execução de tão necessarias precauções, difficultando-se ou demorando-se o<br />

desembarque por capciosos pretextos com o reprovado intento de extorquir<br />

dos interessados gratificações illicitas, para obterem mais prompto despacho:<br />

hei por mui recommendado ao Physico-Mór do Reino que haja de proceder com<br />

a mais escrupulosa indagação na escolha das pessoas que se destinarem para<br />

semelhantes empregos; vigiando se cumprem com a fidelidade e desinteresse<br />

que devem, as suas importates obrigações; e representando-me as extorsões<br />

e venalidades que se commetterem, afim d que os delinqüentes hajam de ser<br />

68<br />

Capítulo II | No Brasil


Capítulo II | No Brasil 69


castigados com todo o rigor das leis. E para que me seja constante a exacção<br />

com que se praticam estas minhas saudaveis e paternaes providencias, e os<br />

effeitos que dellas resultam em beneficios da saude publica: determino que<br />

o dito Physico-Mór do Reino, por si ou por seu Delegado, haja de passar uma<br />

attestação jurada que declare o número de fallecidos e doentes que se acharam<br />

a bordo no momento da chegada da embarcação; e que esta seja remettida<br />

à minha real presença pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha<br />

e Domínios Ultramarinos..”.<br />

a instalação de unidades fabris em território colonial brasileiro havia sido<br />

proibida pelo alvará (2) de d. Maria i, rainha de Portugal: “... hei por bem<br />

ordenar que todas as fábricas, manufaturas ou teares de galões, de tecidos, de<br />

bordados de ouro e prata, de veludos, brilhantes, cetins, tafetás, ou qualquer<br />

outra espécie de seda; de belbuts, chitas, bombazinas, fustões, ou de qualquer<br />

outra fazenda de linho, branca ou de cores; e de panos, droguetes, baetas,<br />

ou de qualquer outra espécie de tecido de lã; ou que os ditos tecidos sejam<br />

fabricados de um só dos referidos gêneros ou misturados, e tecidos uns com<br />

os outros; excetuando-se tão-somente aqueles ditos teares ou manufaturas<br />

em que se tecem, ou manufaturam, fazendas grossas de algodão, que servem<br />

para o uso e vestuário de negros, para enfardar, para empacotar, e para outros<br />

ministérios semelhantes; todas as mais sejam extintas e abolidas por qualquer<br />

parte em que se acharem em meus domínios do Brasil, debaixo de pena de<br />

perdimento, em tresdobro, do valor de cada uma das ditas manufaturas, ou<br />

teares, e das fazendas que nelas houver e que se acharem existentes dois meses<br />

depois da publicação deste;...”. este alvará só foi revogado com a chegada da<br />

Familia real (3) , que isentou de impostos alfandegários toda a mercadoria que<br />

fosse necessária à implantação de fábricas no território brasileiro.<br />

70<br />

Capítulo II | No Brasil<br />

(2) Alvará datado de 5 de janeiro de 1785,<br />

sobre a indústria no Brasil.<br />

(3) O Alvará foi revogado por D. João VI,<br />

em 1° de abril de 1808.


(4) Lei Euzébio de Queiróz (1850), Lei do Ventre<br />

Livre (1871), Lei do Sexagenário (1885).<br />

entretanto, as contradições existentes entre o trabalho escravo e<br />

o desenvolvimento do capitalismo no país, que exigia um contingente de<br />

trabalhadores livres, fez com que, paulatinamente, fossem adotadas leis<br />

restringindo a escravidão (4) e incentivando o processo imigratório, como<br />

maneira de substituir o trabalho escravo.<br />

Diário Oficial de 14 de maio<br />

de 1888, com a Lei Áurea.<br />

Já em 1819, o governo colonial autorizou a criação de uma colônia agrícola no<br />

rio de Janeiro, destinada a 2.000 imigrantes suecos. e, em 1842, o conselho<br />

governamental autorizou a entrada de “colonos agrícolas assalariados”, no<br />

Brasil. as relações eram ainda muito impregnadas pela prática escravista e,<br />

reproduziam, <strong>aqui</strong>, as péssimas condições de trabalho e de vida quedescrevemos<br />

na europa, quando do início da revolução industrial.<br />

depois da independência brasileira, em função da municipalização dos serviços<br />

sanitários da capital, a câmara Municipal adotou um código de Posturas (1832),<br />

onde estabeleceu uma normatização para vários procedimentos, entre eles:<br />

doenças contagiosas, águas infectadas, hospitais, casas de saúde e fábricas,<br />

instituindo a prática da licença para o controle fabril.<br />

Capítulo II | No Brasil 71


II.1. Brasil República<br />

Surgia um novo cenário social no país, marcado pela abolição da escravatura<br />

(1888) e pela proclamação da república (1889). nessa época, no final do<br />

século XiX, o processo imigratório, que ocorria principalmente através dos<br />

portos do rio de Janeiro (capital federal) e de Santos, em São Paulo, deflagrou<br />

um quadro preocupante de saúde pública e de crescimento desordenado<br />

dos centros urbanos, pois, além de desempenhar um importante papel no<br />

desenvolvimento do trabalho assalariado no Brasil, a imigração também<br />

representou um fator importante no processo de urbanização em nosso<br />

país. Vivendo em precárias condições, recebendo baixíssimos salários, com<br />

jornadasextenuantes e, desabrigados de qualquer legislação de proteção<br />

social, formou-se um importante contingente de trabalhadores que contribuiu<br />

com oposterior processo de industrialização brasileiro e também trouxe<br />

para o nossopaís experiência e conhecimento do processo de organização e<br />

reivindicações por melhores condições de trabalho e de vida.<br />

era rara a legislação social no país, no final do século XiX. entretanto, a lei<br />

nº 3.397, de 24 de novembro de 1888, que fixou a despesa geral do império<br />

para o exercício de 1889, autorizou ao governo a criação de “uma caixa de<br />

soccorros para o pessoal de cada uma das estradas de ferro do Estado, sobre<br />

as seguintes bases:<br />

I. O fundo desta caixa será formado: a) pela contribuição mensal de 1% dos<br />

vencimentos de todo o pessoal, quer do quadro, quer jornaleiro; b) Pela<br />

renda proveniente das multas impostas ao mesmo pessoal e das que forem<br />

arrecadadas por infracção dos regulamentos da estrada e contractos com ella<br />

celebrados; c) Pela renda proveniente das armazenagens cobradas; d) Pelos<br />

donativos feitos á caixa.<br />

II. Esta caixa se comporá de dous fundos, um destinado a soccorrer o pessoal<br />

durante as suas enfermidade e outro para soccorrer a invalidez, estabelecendo<br />

pensão para o pessoal inutilisado para o serviço, e bem assim para as familias<br />

dos empregados do quadro, que fallecerem. O Governo expedirá os necessarios<br />

regulamentos.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 73


A matrícula dos empregados para as caixas de soccorros das estradas de ferro<br />

do Estado será facultativa e não obrigatória”.<br />

essa deferência aos empregados das empresas ferroviárias denotava: primeiro,<br />

a importância dessas empresas para a economia agrário–exportadora; e além<br />

disso expressava, também, que a organização dos trabalhadores deste setor<br />

já tinha condições de exigir soluções para atenuar as condições de trabalho,<br />

ao longo das linhas férreas, em função dos altos índices de acidentes e de<br />

invalidez.<br />

74<br />

Capítulo II | 1. Brasil República<br />

Porto de Santos 1870


(5) Jornal “A Voz do Trabalhador, Rio de<br />

Janeiro, n° 12, 1908.<br />

na realidade, altos índices de acidentes de trabalho e de doenças profissionais<br />

caracterizaram o período inicial da implantação industrial em nosso país.<br />

<strong>aqui</strong>, igualmente, as fábricas eram instaladas em galpões sem condições<br />

de luz, ventilação, higiene, nem mesmo com instalações sanitárias, com<br />

jornadas de mais de 16 horas diárias. o trabalho da mulher e do menor não<br />

eram regulamentados e não raro as jornadas se alongavam pela noite. “Na<br />

Fabrica Confiança, em Vila Isabel, fazem serão até as 10 horas da noite algumas<br />

secções, entre as quais as da fiação, onde trabalham crianças de 8 a 14 anos”;<br />

“Na Fábrica Corcovado, onde tinha sido suprimido o serão, devido à atitude<br />

dos operários, começou a ser feito 3 dias por semana, mas somente na fiação,<br />

onde trabalham apenas crianças”. (5)<br />

a passagem do Brasil agrário para o Brasil industrial foi lenta e deixou<br />

inúmeros resquícios na sociedade, dificultando a adoção de medidas que<br />

incentivassem uma mentalidade prevencionista. com a extinção do trabalho<br />

escravo, foi preciso, como no exemplo europeu, que o estado começasse a<br />

definir parâmetros legais para as relações capital-trabalho, em especial, no<br />

que se refere às condições de trabalho. esse foi um processo ainda mais lento<br />

na sociedade brasileira.<br />

logo após a Proclamação da república, foi constituído o conselho de Saúde<br />

Pública (1890), definindo que a inspetoria geral de higiene ocupar-se-ia da<br />

inspeção das habitações populares, do Serviço de Vacinação, alimentação<br />

pública e do consumo e fabrico de bebidas nacionais. iniciava-se, ainda<br />

que timidamente, uma legislação sobre as condições do incipiente trabalho<br />

industrial no Brasil.<br />

a primeira iniciativa de regulamentação do trabalho na república foi o<br />

decreto nº 1.313, de 17 de janeiro de 1891, que estabeleceu providências<br />

para regularizar o trabalho dos menores empregados nas fábricas da capital<br />

Federal. o decreto que proibiu a admissão de menores de 12 anos no trabalho<br />

fabril, permitia a aprendizagem entre 8 e 12 anos, nas fábricas de tecido, e<br />

instituiu a fiscalização permanente, em todos os estabelecimentos fabris, onde<br />

trabalhassem menores, a cargo de um inspetor geral, subordinado ao Ministro<br />

do interior e autorizado a requerer a presença de um engenheiro ou de uma<br />

autoridade sanitária, no ato de fiscalização. os artigos seguintes desse decreto<br />

estipulavam que:<br />

Art. 5º E’ prohibido qualquer trabalho, comprehendido o da limpeza das<br />

officinas, aos domingos e dias de festa nacional, bem assim das 6 horas da tarde<br />

ás 6 da manhã, em qualquer dia, aos menores de ambos os sexos até 15 annos.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 75


Art. 6º As officinas destinadas ao trabalho serão sufficientemente espaçosas<br />

e sua cubagem tal que cada operario tenha, pelo menos, 20 metros cubicos de<br />

ar respirável.<br />

Art. 7º A ventilação das officinas será franca e completa, a juizo do inspector,<br />

o qual poderá obrigar o dono da fabrica, quando for preciso, a empregar<br />

qualquer dos differentes processos de ventilação artificial, de modo que nunca<br />

haja risco de confinamento e impurificação do meio respiratorio.<br />

Art. 8º O solo das officinas será perfeitamente secco e impermeavel, os detritos<br />

inconvenientes promptamente removidos e as aguas servidas esgotadas.<br />

Art. 9º O inspector geral aconselhará, conforme a qualidade da fabrica, as<br />

demais condições que convenha observar no interesse da hygiene.<br />

Art. 10. Aos menores não poderá ser commettida qualquer operação que,<br />

dada sua inexperiencia, os exponha a risco de vida, taes como: a limpeza e<br />

direcção de machinas em movimento, o trabalho ao lado de volantes, rodas,<br />

engrenagens, correias em acção, em summa, qualquer trabalho que exija da<br />

parte delles esforço excessivo.<br />

Art. 11. Não poderão os menores ser empregados em deposito de carvão<br />

vegetal ou animal, em quaesquer manipulações directas sobre fumo, petroleo,<br />

benzina, acidos corrosivos, preparados de chumbo, sulphureto de carbono,<br />

phosphoros, nitro-glycerina, algodão-polvora, fulminatos, polvora e outros<br />

misteres prejudiciaes, a juizo do inspector.<br />

assim como na inglaterra, o acelerado processo brasileiro de urbanização, sem<br />

planejamento, onde prevaleciam as piores condições de moradia e higiene,<br />

acarretou graves problemas de saúde pública. epidemias atingiam a população<br />

das cidades e se propagavam pelo campo. a peste bubônica, a varíola e a<br />

febre amarela vitimaram centenas de cidadãos. o auge dessa crise sanitária<br />

ocorreu no início da primeira década do século XX, quando as autoridades<br />

públicas deram início a políticas polêmicas de saneamento e prevenção vacinal.<br />

a república não provocou mudanças na estrutura produtiva, que continuou<br />

baseada no latifúndio e na economia monocultora, voltada para a exportação.<br />

as modificações que foram se processando na organização social possibilitaram<br />

novas formas de pensar a sociedade e sua organização econômica. Foi um<br />

lento e conflituoso processo, também, para que a proposta da industrialização<br />

tomasse corpo no nosso País. o século XX encontrou, no Brasil, um cenário<br />

76<br />

Capítulo II | 1. Brasil República


(6) Simonsen Roberto: Evolução Industrial do<br />

Brasil São Paulo,,Brasiliense,Coleção Brasiliana,<br />

vol.345, 1973.<br />

(7) Basbaum, Leôncio: Histórico Sincera da<br />

República: Editora Fulgor, São Paulo, 1966,<br />

vol.1.<br />

(8) Embora essa política tenha ficado conhecida<br />

como “café com leite”, pro girar em torno<br />

dos estados de São Paulo e Minas Gerais,na<br />

realidade era a política do café,pois Minas se<br />

fazia representar pelos cafeicultores da Zona<br />

da Mata.<br />

(9) Barbosa Rui: Obras Completas: Rio de<br />

Janeiro, Casa Rui Barbosa,vol XVIII, Tomo III,<br />

página 143.<br />

(10) Sodré, Nelson W.: História da Burguesia<br />

Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,<br />

1969.<br />

(11) Tabela montada pela Autora.<br />

industrial ainda bastante incipiente, mas com sinais de que o capital agrário,<br />

investido nas plantações de café e na mão de obra escrava, iria se deslocar para<br />

a cidade e para a indústria. estudos econômicos revelam que, em 1889, havia<br />

636 empresas industriais em todo território, empregando 54.000 operários (6) .<br />

a república teve, em seus primeiros momentos, duas fases bem delimitadas<br />

e com características específicas: a “Primeira república”, que vai desde a<br />

instalação do governo Provisório até a eleição de Prudente de Morais (7) , e a<br />

“república do café com leite”, que implantou a política dos governadores,<br />

baseada na produção do café, em São Paulo, e na Zona da Mata, em Minas<br />

gerais (8) .<br />

na primeira fase ocorreram dois marcos importantes: a constituição de 1891 e<br />

a reforma econômica de rui Barbosa, então Ministro da Fazenda. industrialista,<br />

rui Barbosa expressou a linha de seu trabalho, no “relatório do Ministro da<br />

Fazenda”: “A República só se consolidará entre nós, sobre alicerces seguros,<br />

quando suas funções se firmarem na democracia do trabalho industrial, peça<br />

necessária no mecanismo do regime, que lhe trará o equilíbrio conveniente... O<br />

desenvolvimento industrial não é somente para o Estado, questão econômica;<br />

é, ao mesmo tempo, uma questão política” (9) . realizou a reforma bancária,<br />

com o objetivo de estimular empreendimentos privados, em especial, as<br />

manufaturas; adotou uma reforma tarifária, cobrando em ouro o imposto<br />

alfandegário, para desestimular as importações e fomentar a produção interna,<br />

facilitando a importação de matérias primas e máquinas.<br />

o objetivo do conjunto dessas medidas foi o de promover a industrialização<br />

brasileira e de estimular a atividade econômica do País, com a adoção<br />

de uma série de medidas reformadoras - que atingiram principalmente<br />

o crédito hipotecário e o crédito à lavoura e à indústria, para possibilitar o<br />

desenvolvimento das forças produtivas “entravadas por um aparelho estatal<br />

obsoleto e por um retrógrado sistema econômico e financeiro” (10) , entre eles<br />

a “Lei de Terras” (1850) e “Lei dos Entraves” (1860). a primeira dificultava o<br />

acesso à posse de terras e imóveis, por parte de ex-escravos e imigrantes,<br />

numa economia onde a agricultura era predominante no país; enquanto a<br />

segunda amarrava o desenvolvimento do mercado de capitais. o resultado foi<br />

um dos maiores surtos inflacionários do Brasil, que contribuiu para acentuar a<br />

deterioração da qualidade de vida da população. esse processo passou a ser<br />

conhecido na história econômica como “encilhamento”.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 77


as medidas econômicas de incentivo à industrialização, adotadas pelo Ministro<br />

da Fazenda, nos primeiros anos da república, ocorreram em um período em<br />

que havia uma crise mundial cíclica, de especulação desenfreada, que atingiu<br />

a Bolsa de nova York, a inglaterra, a austrália e a argentina. o aumento da<br />

emissão monetária brasileira foi necessário para o pagamento dos escravos<br />

recém libertos, para o pagamento dos salários dos imigrantes recém chegados,<br />

para substituir a mão de obra escrava e para socorrer as necessidades do surto<br />

empresarial, decorrentes da abolição e da república e que necessitavam de<br />

capital de giro.<br />

78<br />

Capítulo II | 1. Brasil República<br />

Populares em frente a Bolsa de Valores do Rio<br />

de Janeiro, durante a crise do encilhamento


(11) Tabela montada pela autora.<br />

Brasil 1885 -1907 (11)<br />

1885 - 1889 1890 - 1894 1907<br />

estabelecimentos industriais 248 452 3.410<br />

capital empregado (contos) 203.404 213.714 679.806<br />

Total de operários 24.369 31.123 156.250<br />

Valor da Produção (contos) 247.121 278.575 766.482<br />

Fonte: lima, heitor Ferreira: “a história do Pensamento econômico do Brasil”, São Paulo, ed.<br />

Brasiliana, vol 360, 1976.<br />

a tabela acima mostra um crescimento decorrente da proposta industrial,<br />

embora a economia ainda girasse no eixo agrário-exportador.<br />

Período N° de Imigrantes<br />

1884 – 1893 883.668<br />

1894 - 1903 862.110<br />

1904 - 1913 1.006.617<br />

1914 - 1923 503.981<br />

1924 - 1933 737.223<br />

Fonte: carone, edgar: o estado novo (1937 -1945), São Paulo, difel, 1977, pag. 6.<br />

a tabela acima mostra que, nos primeiros anos da república, a entrada de<br />

imigrantes foi significativa, tanto em volume quanto na qualidade de participação<br />

social desses imigrantes. Parte importante da imigração constituía-se de<br />

trabalhadores que já conheciam as formas de organização operária existentes<br />

na europa e contribuíram para construir a organização social brasileira. essa<br />

realidade vai intensificar as reivindicações operárias, por melhores condições<br />

de trabalho e de vida.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 79


em decorrência do agravamento da situação sócio-econômica e da crise que o<br />

país enfrentava, as questões da saúde e das condições de trabalho começaram<br />

a aparecer como reivindicações no nascente movimento operário. no Brasil,<br />

a intervenção estatal na área da saúde e higiene pública só vai ocorrer no<br />

século XX, com mais ênfase a partir da década de 30. desde o século XViii, a<br />

assistência era pautada pela filantropia, com poucas ações de responsabilidade<br />

do estado. as transformações econômicas e políticas, ocorridas no século XiX,<br />

entretanto, colocaram as questões da saúde, da higiene e das condições de<br />

trabalho na pauta da “questão social” brasileira, exigindo algumas iniciativas,<br />

como a vigilância do exercício profissional, a realização de campanhas<br />

específicas e iniciativas do setor público, com o objetivo de atender a situações<br />

emergenciais como a peste bubônica, a varíola e a febre amarela.<br />

naquela época, o rio de Janeiro era uma cidade de ruas estreitas e sujas,<br />

saneamento precário, foco de doenças infecciosas e, desde o final do século<br />

XiX, sofria um processo de urbanização descontrolado, tendo ficado conhecida<br />

internacionalmente como o “tumulo dos estrangeiros”. os imigrantes recémchegados<br />

da europa morriam às dezenas, em decorrência de doenças<br />

infecciosas e as companhias de navegação marítima faziam questão de divulgar<br />

que seus navios não atracariam no porto carioca.<br />

“Muita gente que havia combatido em Canudos foi morar no Morro da<br />

Providência (um dos primeiros a ser ocupado na cidade). Existia uma quantidade<br />

grande de cortiços, famílias morando em poucos cômodos e praticamente não<br />

havia iluminação. As pessoas adoeciam em decorrência da febre amarela, da<br />

peste bubônica, da varíola, da tuberculose. Essas doenças se propagavam<br />

devido à umidade e à deficiência sanitária.” (12)<br />

80<br />

Capítulo II | 1. Brasil República<br />

Cortiços no Rio de Janeiro<br />

(12) Resk, Sucena S.: Combate as pragas<br />

urbanas, in HTTP:// leituras das história. UOL.<br />

com.br- ESLH- Edições- 16-artigo 123021-1.asp


(13) Declaração do Presidente eleito Rodrigues<br />

Alves pouco antes de sua posse. in http://www.<br />

ccs.saude.gov.br/revolta/revolta.html<br />

(14) Ministro da Industrial, Comércio, Viação,<br />

Obras Públicas<br />

Rua Direita, Rio de Janeiro<br />

no seu discurso de posse, o presidente rodrigues alves anunciou uma grande<br />

reforma urbanística para melhorar a imagem, a sanidade e a economia da<br />

capital federal, com o objetivo de atrair imigrantes para o Brasil, a fim de<br />

atender a cafeicultura que enfrentava uma grave crise de mão de obra, desde<br />

a abolição da escravatura. “Meu programa de governo vai ser muito simples.<br />

Vou limitar-me quase exclusivamente ao saneamento e melhoramento do porto<br />

do Rio de Janeiro.” (13)<br />

a ampla reforma urbana pretendida não poderia se restringir somente ao<br />

Porto e à região portuária da cidade, obras sob a responsabilidade do governo<br />

federal, devendo ser objeto de ações municipais, para atingir a estrutura<br />

viária da cidade. com essa perspectiva, o presidente rodrigues alves indicou<br />

Francisco Pereira Passos, para prefeito do rio de Janeiro, e o engenheiro<br />

Francisco Bicalho, como responsável por realizar a ampla reforma projetada<br />

pelo ministro lauro Muller (14) para a cidade portuária, a fim de permitir uma<br />

melhor circulação das mercadorias que chegavam à capital federal. estratégia<br />

adotada para o equilíbrio e saneamento da economia nacional, uma vez que os<br />

impostos de importação eram recolhidos e gerenciados pelo governo federal.<br />

o rio de Janeiro era o principal centro consumidor de produtos importados,<br />

o que tornava as reformas portuárias e viárias imprescindíveis para facilitar o<br />

escoamento dos produtos pela cidade. a mensagem presidencial enviada ao<br />

congresso nacional expressava essas decisões:<br />

As condições gerais de salubridade da capital, além de urgentes melhoramentos<br />

materiais reclamados, dependem de um bom serviço de abastecimento de<br />

águas, de um sistema regular de esgoto, da drenagem do solo, da limpeza<br />

pública e do asseio domiciliar.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 81


Parece-me, porém, que o serviço deve começar pelas obras de saneamento<br />

do porto, que têm de constituir a base do sistema e hão de concorrer não só<br />

para aquele fim utilíssimo, como evidentemente para melhorar as condições do<br />

trabalho, as do comércio e o que não deve ser esquecido, as da arrecadação<br />

de nossas rendas. (15)<br />

as reformas foram definidas como a “base do sistema”, capazes de provocar,<br />

além do “saneamento”, o aumento do “comércio”, a “arrecadação das nossas<br />

rendas”, bem como melhorar as “condições de trabalho”, de maneira a permitir<br />

o resgate da imagem da cidade, para atrair a mão de obra imigrante.<br />

Pereira Passos imediatamente implantou uma ampla reforma viária e a cidade<br />

sofreu profundas mudanças, com a derrubada de casarões e cortiços e despejo<br />

de seus moradores, que foram empurrados para bairros mais distantes.<br />

a população logo apelidou o movimento que tinha o objetivo de abrir grandes<br />

e largas avenidas de “bota-abaixo”.<br />

no governo de rodrigues alves (16) , o sanitarista oswaldo cruz assumiu<br />

o cargo de diretor-geral da saúde pública, com a principal tarefa de controlar<br />

e erradicar as epidemias no país e implantar, na capital federal, condições<br />

sanitárias adequadas. as medidas adotadas, especialmente a campanha da<br />

Vacina e as Brigadas Mata-Mosquitos, causaram alvoroço na cidade, com<br />

grande repercussão na imprensa da época.<br />

82<br />

Capítulo II | 1. Brasil República<br />

(15) Mensagem presidencial de 03 de maio de<br />

1903. In Azevedo, André Nunes de: A reforma<br />

Pereira Passos: uma tentativa de integração<br />

urbana, Revista Rio de Janeiro, n. 10, maio-ago<br />

2003.<br />

(16) Governo de Rodrigues Alves (1902-1906).<br />

Campanha<br />

Mata Mosquito


(18) Inicialmente, contra a carestia e a escassez<br />

de gêneros de primeira necessidade e logo<br />

depois incorporando reivindicações de<br />

regulamentação das condições de trabalho.<br />

Charges publicadas sobre a Revolta da Vacina – 1904<br />

com as Brigadas Mata-Mosquitos, cujo modelo de combate à doença foi<br />

copiado do adotado pelo exército americano em cuba, os funcionários do<br />

serviço sanitário visitavam as residências para verificar a existência ou não de<br />

poças d’água, onde poderiam procriar as larvas dos mosquitos (18) ; no caso da<br />

visita não ser autorizada pelos moradores, as casas eram invadidas com o aval<br />

dos policiais, o que causou muita reação na cidade.<br />

desde 1837, havia uma obrigatoriedade legal de vacinação na cidade, que<br />

nunca havia sido colocada em prática. com a reformulação do código Sanitário<br />

em 1904, oswaldo cruz a tornou obrigatória, o que desencadeou uma reação<br />

em massa, que ficou conhecida como a revolta da Vacina.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 83


as duas primeiras décadas do século XX foram de grande mobilização social no<br />

país, especialmente no rio de Janeiro e em São Paulo, reivindicando direitos<br />

sociais e melhores condições de trabalho. a situação se agravou nas grandes<br />

cidades, depois do início da 1a grande guerra, e as manifestações eclodiam<br />

com frequência. a questão social era tida como questão de polícia e, quando<br />

estourou a greve de 1917 (18) , as repercussões da paralisação e da violenta<br />

repressão que se sucedeu encontraram algum eco nas questões que vieram à<br />

tona com o fim da guerra, entre elas, as condições do trabalho industrial.<br />

a conferência de Paris, que coordenava os acordos do fim da 1a guerra, tomou<br />

importantes decisões no terreno da legislação trabalhista, que repercutiram<br />

amplamente no Brasil. essas questões eram tão significativas que polarizaram<br />

a campanha presidencial de 1919, entre epitácio Pessoa e rui Barbosa. as<br />

principais questões sociais defendidas por rui Barbosa, na sua plataforma<br />

eleitoral, foram: construção de casas para operários; proteção ao trabalho dos<br />

menores; limitação das jornadas de trabalho, em especial as jornadas noturnas;<br />

igualdade salarial para ambos os sexos; amparo à mãe operária e à gestante;<br />

licença maternidade; indenização para acidentes de trabalho; legalização<br />

para o trabalho agrícola; seguro previdenciário (19) , refletindo as idéias que já<br />

estavam circulando na europa e nos estados unidos.<br />

84<br />

Capítulo II | 1. Brasil República<br />

(18) Inicialmente contra a carestia e escassez de<br />

gêneros de primeira necessidade e logo depois<br />

incorporando reivindicações de condições de<br />

trabalho.<br />

(19) Htpp: /// WWW. Projeto memoria.art.br<br />

RuiBarbosa /período/ lamina 30/ index. htm


(20) Tabela montada pela autora.<br />

a lei nº 3724, de 15 de janeiro de 1919, regulamentada pelo decreto nº 13. 498,<br />

de 12 de março de 1919, foi a primeira legislação sobre responsabilidades e<br />

indenizações nos acidentes de trabalho. continha a definição de acidentes, de<br />

doenças profissionais, de patrão e empregado, os setores de aplicação da lei,<br />

a indenização de acidentes ocorridos e, pela primeira vez no país, uma tabela<br />

com os valores dessa indenização, proporcionais às sequelas sofridas.<br />

a iª guerra produziu dois importantes efeitos na economia nacional:<br />

a consolidação das indústrias existentes, com significativo acréscimo do número<br />

de estabelecimentos fabris e a crescente participação industrial na formação da<br />

receita pública. esses efeitos trouxeram à tona a crise da economia baseada na<br />

cafeicultura, que perdurou durante todos os anos 20.<br />

Brasil - Indústria - 1914 - 1918 (20)<br />

1914 1918<br />

impostos internos de consumo (contos) 52.223 93.514<br />

impostos de importação (contos) 150.548 91.980<br />

Fonte: lima, h.F.: história Político-econômica e industrial do Brasil – São Paulo, cia editora nacional,<br />

col. Brasiliana, vol 347<br />

apesar dessa expansão, a acumulação na economia brasileira era ainda muito<br />

frágil. não havia um mercado de capital organizado e sólido, e a acumulação<br />

era feita através dos lucros com a lavoura do café, da expansão de algumas<br />

atividades artesanais estabelecidas basicamente por estrangeiros e da poupança<br />

de pequenos comerciantes prósperos que resolviam estender suas atividades<br />

para a produção. os lucros com a cafeicultura não podiam ser reinvestidos,<br />

pois havia super produção. as crescentes emissões monetárias dentro desse<br />

quadro serviram para incentivar um processo inflacionário, durante todo o<br />

conflito mundial que só veio a se estabilizar por volta de 1924.<br />

Mas, a partir de 1928, a crise do café se acentua. havia um aumento das<br />

importações, desde a estabilização de 1924, que se refletiu negativamente na<br />

produção industrial. a economia entrou num período de recessão. Já pairavam<br />

as inquietações da crise Mundial de ’29!<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 85


a saúde pública e as condições de trabalho adquiriram, na década de 1920,<br />

maior relevância advinda das crescentes reivindicações dos trabalhadores e<br />

passaram a integrar algumas das propostas de modernização apresentadas<br />

pelo estado. a reforma carlos chagas, de 1923, tentou ampliar o atendimento<br />

à saúde, por parte do poder central, constituindo uma das estratégias de<br />

ampliação do poder nacional, no bojo da crise política sinalizada pela revolta<br />

dos Tenentes, em 1922 (21) .<br />

algumas das medidas adotadas se constituíram no embrião do nosso atual<br />

sistema previdenciário, sendo a mais relevante delas o decreto nº 4.682, de<br />

24 de janeiro de 1923, também conhecido como lei eloy chaves, que criou<br />

as caixas de aposentadoria e Pensões (caPs), nas empresas de estrada de<br />

ferro. essas caixas eram financiadas pela união, pelas empresas empregadoras<br />

e pelos empregados, cabendo a sua organização às empresas. assim, só os<br />

grandes estabelecimentos tinham condições de mantê-las. os presidentes<br />

das mesmas eram nomeados pelo presidente da república e tanto patrões<br />

quanto empregados participavam paritáriamente da administração. os<br />

benefícios eram proporcionais às contribuições: assistência médica-curativa<br />

e medicamentos; aposentadoria por tempo de serviço, velhice e invalidez;<br />

pensão para os dependentes e auxílio funeral (22) , delegando a um futuro<br />

departamento nacional do Trabalho (a ser criado), a atribuição de arbitrar<br />

sobre os julgamentos dos conselhos de administração das caixas.<br />

esse departamento, que viria a ser criado pelo decreto nº 16.027, de 30 de<br />

abril de 1923, se chamou conselho nacional do Trabalho e, com composição<br />

tripartite (23) , tinha como objetivo principal ser um órgão consultivo dos<br />

poderes públicos para assuntos referentes à organização do trabalho e<br />

previdência social, ocupando-se ainda do “dia normal de trabalho nas principais<br />

indústrias”, sistemas de remuneração do trabalho, contratos coletivos, sistemas<br />

de conciliação e arbitragem, para prevenir e resolver as greves, trabalho<br />

de menores e de mulheres, aprendizagem e ensino técnico, acidentes de<br />

trabalho, seguros sociais, caixas de aposentadorias e pensões dos ferroviários,<br />

instituições de créditos populares e caixas de créditos agrícolas.<br />

ainda dentro desse quadro de ações políticas para a área do trabalho, em 31<br />

de dezembro de 1923, o decreto nº 16.300 criou o departamento nacional<br />

de Saúde Pública, a inspetoria de higiene industrial e Profissional e definiu o<br />

regulamento Sanitário Federal para regulamentar e fiscalizar as condições de<br />

trabalho.<br />

86<br />

Capítulo II | 1. Brasil República<br />

(21) Lima, H. F:apud pág. 344.<br />

(22) Os trabalhadores urbanos ligados ao setor<br />

exportador foram os que primeiro conquistaram<br />

as Caixas de Aposentadoria e Pensões, nas suas<br />

empresas: ferroviários (1923), estivadores e<br />

marítimos (1926).<br />

(23) Pela primeira vez, foi criado no Brasil um<br />

órgão para tratar das questões do trabalho,<br />

seguramente, sob a influência da recém<br />

criada Organização Internacional do Trabalho.<br />

A composição previa 2 representantes dos<br />

operários, 2 representantes dos empresários e<br />

2 dentre os altos funcionários do Ministério da<br />

Agricultura, Indústria e Comércio e 6 “ pessoas<br />

de reconhecida competência”, nos assuntos do<br />

trabalho.


(24) A Constituição vigente era a de 1891.<br />

em função de uma série de decretos, atingindo as mais variadas áreas e setores,<br />

a emenda constitucional, de 3 de setembro de 1926 (24) , estabeleceu, no §<br />

29 do art. 54, que o congresso nacional estava autorizado a “legislar sobre<br />

licença, aposentadoria e reformas, não se podendo conceder, nem alterar, por<br />

leis especiais”.<br />

Capítulo II | 1. Brasil República 87


(25) Sodré, Nelson, W.: História da Burguesia<br />

Brasileira, Rio de Janeiro, Ed. Civilização<br />

Brasileira, 1967, pág.285.<br />

II.2. A Revolução de 30<br />

“ As oscilações mundiais atingiram o Brasil tão rapidamente que o ano de 1929<br />

– em que se registra a crise de Wall Street, foi o ano oficial da transformação<br />

da crise crônica brasileira em crise aguda. Ela foi o resultado do cruzamento<br />

das oscilações nacionais e mundiais e da coincidência das oscilações curtas e<br />

longas do ciclo comercial. ” (25) a crise atingiu a economia brasileira agrárioexportadora<br />

com rápidas consequências políticas.<br />

Capítulo II | 2. A Revolução de 30 89


exportações<br />

(libras)<br />

Saldo em ouro<br />

(contos de reis)<br />

déficit papel<br />

(contos de reis)<br />

Fonte: lima, heitor F. :apud, pág. 349.<br />

90<br />

Brasil 1929/1930 (26)<br />

1929 1930 (previsto) 1930 (realizado)<br />

95.000.000 65.000.000<br />

Capítulo II | 2. A Revolução de 30<br />

64.000 - 6.000<br />

268.000 746.000<br />

a revolução de ’30 é um marco importante na historiografia brasileira.<br />

a crise do café atingiu toda a agricultura e o comércio exterior, atingindo<br />

a indústria e o comércio interno, gerando desemprego em massa. esse quadro<br />

de insatisfação geral culminou com a revolta armada e a posse de Vargas,<br />

no Palácio do catete, em 03 de novembro de 1930. a Plataforma da aliança<br />

liberal, lida por getúlio Vargas na esplanada do castelo (rJ), enunciava: “...<br />

pode-se resumir numa palavra – produzir, produzir muito e produzir barato o<br />

maior número aconselhável de artigos para abastecer os mercados internos<br />

e exportar o excedente de nossas necessidades” (27) .<br />

a preocupação de Vargas foi industrializar o país. Para produzir o que ele<br />

prometia, era necessário fortalecer o parque industrial e o operariado. uma<br />

das primeiras iniciativas foi a criação do Ministério do Trabalho, indústria<br />

e comércio. o decreto nº 19.433, de 26 de novembro de 1930, do governo<br />

Provisório, subordinou o conselho nacional do Trabalho, as questões de<br />

higiene e segurança do trabalho e as caixas de Previdência a esse Ministério.<br />

a partir daí, ocorreu a regulamentação das relações de trabalho, englobando,<br />

também, as das condições de trabalho, inclusive as aposentadorias e a<br />

invalidez. o decreto nº 20.465, de 1º de outubro de 1931, regulamentou as<br />

caixas de aposentadoria e pensões, para os serviços públicos executados<br />

pelo estado ou por concessionárias: “Os serviços públicos de transporte, de<br />

luz, força, telégrafos, telefones, portos, água, esgotos ou outros que venham<br />

a ser considerados como tais, quando explorados diretamente pela União,<br />

pêlos Estados, Municípios ou pôr empresas, agrupamentos de empresas ou<br />

particulares, terão, obrigatoriamente, para os empregados de diferentes classes<br />

ou categorias, Caixas de Aposentadoria e Pensões (28) , com personalidade<br />

(26) Tabela montada pela autora.<br />

(27) Vargas, Getúlio: “A nova política do Brasil”,<br />

in Lima, H.F.:apud, pág. 351.<br />

(28) O Decreto nº 22.872, de 29/06/1933,<br />

criou o Instituto de Aposentadoria e Pensões<br />

dos Marítimos (IAPM); o Decreto nº 3.832,<br />

de 18/11/1934, regulamentou a situação<br />

dos armadores de pesca e dos pescadores e<br />

indivíduos empregados em profissões conexas<br />

com a indústria da pesca, pertencendo estas<br />

pessoas também, para efeito de benefícios<br />

previdenciários, ao IAPM.; o Decretonº<br />

24.273, de 22/05/1934, criou o Instituto de<br />

Aposentadoria e Pensões dos Comerciários<br />

(IAPC); o Decreto nº 24.615, de 9/6/1934 criou<br />

o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos<br />

Bancários (IAPB), destinado aos empregados de<br />

bancos ou de casas bancárias; a Lei nº 367, de<br />

31/12/1936, criou o Instituto de Aposentadoria<br />

e Pensões dos Industriários (IAPI); o Decreto<br />

nº 775, de 7/10/1938 criou o Instituto de<br />

Aposentadoria e Pensões dos Empregados em<br />

Transportes de Cargas (IAPETC) .


(29) Sendo 18 representantes dos<br />

empregadores, 17 dos empregados, 3 dos<br />

profissionais liberais e 2 dos funcionários<br />

públicos, só foram considerados delegados<br />

eleitores aqueles sindicalizados nos sindicatos<br />

reconhecidos até 20 de maio de 1933.<br />

(30) Título IV, da ordem econômica e social, art.<br />

122. Era uma justiça especial, dividida em três<br />

instâncias: Juntas de Conciliação e Julgamento,<br />

Conselhos Regionais e Conselho Nacional do<br />

Trabalho.<br />

jurídica, regidas pelas disposições desta lei e diretamente subordinadas ao<br />

Conselho Nacional do Trabalho”. e, a partir dessa regulamentação, o sistema<br />

previdenciário passou a ser estruturado por categorias profissionais e não mais<br />

por empresas, com sucessivos decretos criando especificamente cada instituto<br />

de aposentadoria e Pensões e regulamentando a concessão dos auxílios, de<br />

acordo com tabelas previamente definidas.<br />

o código eleitoral, de 1932, introduziu o voto secreto, o voto feminino e a<br />

Justiça eleitoral. o governo Provisório emitiu uma série de decretos regulando<br />

a convocação da assembleia nacional constituinte, de 1933. dentre eles,<br />

a criação da bancada classista, composta por quarenta representantes das<br />

associações profissionais na assembleia nacional constituinte (29) .<br />

entre a decretação do código eleitoral e a instalação da assembleia nacional<br />

constituinte de ’34, o governo emitiu o decreto-lei 23.569 de 11 de dezembro<br />

de 1933, criando o Sistema confea/crea e regulamentando as profissões de<br />

engenheiros, arquitetos e agrônomos.<br />

É interessante ressaltar que este decreto, na alínea “b” do seu artigo 29, diz<br />

que: “Os engenheiros civis diplomados segundo a lei vigente deverão ter : .....<br />

b) aprovação na cadeira de “Saneamento e Arquitetura” para exercerem as<br />

funções de Engenheiro Sanitário; ...”<br />

a assembleia nacional constituinte, elaborou a constituição dentro de um<br />

quadro de crise do estado oligárquico, com o fim da chamada república<br />

Velha. a terceira constituição brasileira foi promulgada dia 16 de julho de<br />

1934, instituindo a Justiça do Trabalho, diretamente ligada ao Ministério<br />

do Trabalho, indústria e comércio, com a finalidade de julgar e conciliar os<br />

dissídios individuais ou coletivos entre patrões e empregados, assim como<br />

demais controvérsias surgidas no âmbito das relações de trabalho, entre elas<br />

as questões relacionadas às condições de trabalho (30) .<br />

e, pela primeira vez, a constituição de 1934, em seu capítulo iV da ordem<br />

econômica e Social, estabeleceu no artigo 121: “A lei promoverá o amparo da<br />

produção e estabelecerá as condições do trabalho, na cidade e nos campos,<br />

tendo em vista a proteção social do trabalhador e os interesses econômicos<br />

do País”, definindo no parágrafo primeiro desse artigo os preceitos a serem<br />

observados pela legislação do trabalho, entre eles: “jornada de trabalho<br />

diário não excedente de oito horas, reduzíveis, mas só prorrogáveis nos casos<br />

previstos em lei; proibição de trabalho a menores de 14 anos e de trabalho<br />

Capítulo II | 2. A Revolução de 30 91


noturno a menores de 16 e, em indústrias insalubres, a menores de 18 anos<br />

e as mulheres; assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante,<br />

assegurando a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário<br />

e do emprego; e instituição de previdência, mediante contribuição igual da<br />

União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da<br />

maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte”.<br />

até esse momento, as responsabilidades dos acidentes de trabalho eram<br />

definidas pelo decreto de 1919. o instrumento legal que o substituiu foi o<br />

decreto nº 24.637, de 10 de setembro de1934, que também ampliou o conceito<br />

de acidente de trabalho: “Art. 1º Considera-se acidente do trabalho, para os<br />

fins da presente lei, toda lesão corporal, perturbação funcional, ou doença<br />

produzida pelo exercício do trabalho ou em consequência dele, que determine<br />

a morte, ou a suspensão ou limitação, permanente ou temporária, total ou<br />

parcial, da capacidade para o trabalho” e, embora não tenha estabelecido a<br />

responsabilidade do empregador, expressou o conceito de acidente “in itinere”,<br />

ou de percurso, no § 2º do artigo 2º, abrindo a perspectiva de responsabilidade<br />

do empregador, quando este fornecesse condução ao trabalhador.: § 2º”. A<br />

responsabilidade do empregador deriva somente de acidentes ocorridos pelo<br />

fato do trabalho, e não dos que se verificarem na ida do empregado para o<br />

local da sua ocupação ou na sua volta dali, salvo havendo condição especial<br />

fornecida pelo empregador”.<br />

no seu artigo 36, o decreto de 1934 exigiu que o empregador fizesse contrato<br />

de seguro acidentário, em favor de seus empregados: “Para garantir a execução<br />

da presente lei, os empregadores sujeitos ao seu regime, que não mantiverem<br />

contrato de seguro contra acidentes, cobrindo todos os riscos relativos às várias<br />

atividades, ficam obrigados a fazer um depósito, nas repartições arrecadadoras<br />

federais, nas Caixas Econômicas da União, ou no Banco do Brasil, em moeda<br />

corrente ou em títulos da dívida pública federal, na proporção de 20:000$000<br />

(vinte contos de réis), para cada grupo de 50 (cincoenta) empregados ou<br />

fração, até ao máximo de 200:000$000 (duzentos contos de réis), podendo<br />

a importância do depósito, a juízo das autoridades competentes, ser elevada<br />

92<br />

Capítulo II | 2. A Revolução de 30


Sessão plenária Assembleia<br />

Nacional Constituinte de<br />

1933/34<br />

até ao triplo, si se tratar de risco excepcional ou coletivamente perigoso” e, no<br />

artigo 39, definiu a responsabilidade do Ministério do Trabalho na fiscalização<br />

dessas ações: “As operações de seguro contra acidentes de trabalho serão<br />

exclusivamente fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio<br />

e subordinadas ao regulamento e instruções que forem expedidas”. esse<br />

decreto criou, também, a inspetoria de higiene e Segurança do Trabalho, hoje<br />

departamento de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério do Trabalho<br />

e emprego.<br />

Capítulo II | 2. A Revolução de 30 93


II.3. O Estado Novo<br />

desde o levante de 1935, o país vivia momentos de agitação política.<br />

a decretação do estado novo, em novembro de 1937, motivou o fechamento<br />

do congresso, a extinção dos partidos e das liberdades políticas e a outorga<br />

de uma nova constituição.<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo 95


a carta Magna de ‘37, elaborada no clima de ascensão do nazi-fascismo na<br />

europa, incorporou o termo “seguro social”, instituiu a Justiça do Trabalho,<br />

criada pela constituição de 1934, mas que ainda não havia saído do papel<br />

e declarou o trabalho “um dever social”, “com direito a proteção e solicitude<br />

especiais do Estado”. definiu, ainda, que “as associações de trabalhadores<br />

têm o dever de prestar aos seus associados, auxílio ou assistência, no referente<br />

às práticas administrativas ou judiciais relativas aos seguros de acidentes do<br />

trabalho e aos seguros sociais”.<br />

o mundo estava à beira da Segunda guerra Mundial. a crise agravada no<br />

final dos anos ’20 ainda repercutia e, embora não existam dados sobre<br />

o desemprego urbano e rural desse período, era comum a redução do trabalho<br />

fabril a somente algumas horas do dia ou alguns dias por semana (31) . a crise<br />

econômica persistiu durante os primeiros anos do estado novo e só foi<br />

superada pela demanda interna e externa provocada pela guerra.<br />

96<br />

BRASIL – Pessoal Ocupado – Indústria – 1920/1940<br />

N° Trabalhadores 1920 1940<br />

293.673 781.185<br />

Setor têxtil 216.477 (27,71%)<br />

Setor alimentício 125.736 (16,08%)<br />

Fonte: carone, edgar:apud, pag. 120 (tabela montada pela autora)<br />

“Entre 1930 e 1937, a maior parte da legislação trabalhista já estava codificada.<br />

O Estado Novo lhe dá não só continuidade, mas tenta incorporar o direito<br />

operário à Constituição, tornando-o um elemento – naturalmente que passivo<br />

– de responsabilidade do Estado.” no entanto, o estado adotou algumas<br />

medidas importantes, baseadas no princípio da constituição de ’37, que<br />

definia “A economia da produção será organizada em corporações, e estas,<br />

como entidades representativas das forças de trabalho nacional, colocadas sob<br />

a assistência e a proteção do Estado, são órgãos deste e exercem funções do<br />

Poder Público” (32) . entre 1937 e 1944, foram emitidos cerca de 90 decretos-lei<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />

(31) Carone, Edgar:apud, pág.119.<br />

(32) Constituição de 1937, Capítulo da Ordem<br />

Econômica, artigo 140.


(33) Lopes Netto, A. e Madureira Azevedo,<br />

M.A.:”O adicional de insalubridade e suas<br />

raízes” inapud pag. 140.<br />

com referência à regulamentação da organização sindical: a estrutura sindical<br />

(unicidade, a arrecadação das contribuições, o enquadramento sindical), da<br />

Justiça do Trabalho e do salário mínimo, entre eles.<br />

o decreto-lei 3991 de 30 de abril de 1938, que “Aprova o regulamento para<br />

execução da lei n. 185, de 14 de janeiro de 1936, que institui as Comissões de<br />

Salário Mínimo”, com competência para fixar os salários mínimos regionais.<br />

além de fixar os critérios a serem considerados na definição dos salários mínimos<br />

regionais (habitação, transporte, alimentação, etc.), “estendeu seu campo de<br />

aplicação também para o trabalho de menores e para condições especiais<br />

de trabalho que implicassem em agravos aos obreiros. Essas condições,<br />

denominadas insalubres, mereceram do legislador (no caso o próprio Poder<br />

Executivo) um tratamento específico, conforme se constata na leitura do art. 4°<br />

e seu parágrafo 1°, a saber:<br />

Art. 4º Quando se tratar da fixação de salário mínimo para trabalhadores ocupados<br />

em serviços insalubres, poderão as Comissões de Salário Mínimo aumentá-lo até<br />

de metade do salário mínimo normal da região, zona ou sub-zona.<br />

§ 1º O Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio organizará, dentro do<br />

prazo de 120 dias, contados da publicação deste regulamento, o quadro das<br />

indústrias insalubres que, pela sua própria natureza ou método de trabalho,<br />

forem susceptíveis de determinar intoxicações, doenças ou infecções.<br />

Do texto legal, resta evidenciado que o salário mínimo do trabalhador que<br />

laborasse em indústrias consideradas insalubres, no quadro elaborado pelo<br />

MTb poderia ser majorado em até 50%, a critérios das Comissões de Salário<br />

Mínimo e que estas teriam que se ater ao citado no quadro no que se refere ao<br />

plus salarial” (33) .<br />

a Justiça do Trabalho, regulamentada pelo decreto nº 1.237, de 1939, havia<br />

sido precedida pelas comissões Mistas de conciliação, que se transformaram<br />

em Juntas de conciliação e Julgamento, e entrou em funcionamento em 1° de<br />

maio de 1941. composta por Juntas de conciliação e Julgamento, conselhos<br />

regionais do Trabalho (divididos em 8 regiões brasileiras), câmara da Justiça<br />

do Trabalho e conselho nacional do Trabalho, a Justiça do Trabalho é, desde<br />

então, o órgão decisório sobre as relações e condições de trabalho no Brasil.<br />

a guerra intensificou a produção, ampliou o número de indústrias e de<br />

operários existentes, quando as dificuldades de importação e a alta de<br />

preços e a escassez dos produtos importados forçaram a nossa indústria a<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo 97


substituir as importações. o governo acenou com uma série de incentivos para<br />

a produção, pois o desaparecimento ou a alta de preços de alguns produtos,<br />

como ferro, juta, aço e grafite, provocavam problemas na produção. nesse<br />

período, ocorreu a fundação de um grande número de importantes empresas:<br />

companhia nacional de Papel e celulose (1943), usina de Material Ferroviário<br />

(1943), de alumínio (1945), de Máquinas de costura (1942), Fábrica de Vidro<br />

Plano (1943), e centenas de outras fábricas nos setores de cimento e mármore,<br />

juta e corá. ampliou-se e diversificou-se o parque industrial brasileiro.<br />

98<br />

BRASIL - Pessoal Ocupado - Indústria 1939/1949<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />

1939 1949<br />

Indústria Geral 851.755 (100%) 1.346.423 (100%)<br />

Têxtil 233.443 (27,4%) 338.035 (25,1%)<br />

Alimentício 173.535 (20,4%) 234.311 (17,4%)<br />

Metalúrgico 61.338 (7,2%) 102.826 (7,6%)<br />

Minerais Não Metálicos 57.416 (6,7%) 128.328 (9,5%)<br />

Fonte: iBge, estatísticas do Século XX, estatísticas econômicas (tabela montada pela autora)<br />

a expansão do parque industrial e o crescimento do número de pessoal<br />

ocupado na indústria incentivaram as ações de prevenção dos acidentes de<br />

trabalho. a proximidade do fim do conflito bélico sinalizava que a capacidade<br />

industrial dos países em guerra seria uma variável importante na definição da<br />

vitória. e a capacidade industrial estava diretamente vinculada a um maior nú<br />

mero de trabalhadores em produção ativa em um determinado período.<br />

com essa perspectiva, a higiene e segurança do trabalho passaram a ser<br />

fatores importantes no processo produtivo. e duas preocupações passaram a<br />

coexistir. a primeira delas era sob o aspecto humano: a integridade física é<br />

um direito inalienável do trabalhador. a outra: sob o aspecto da produção,<br />

os acidentes, provocando ou não lesão no trabalhador, ocasionavam perda<br />

de tempo, podendo ainda resultar em eventuais perdas materiais, obrigando


(34) Herbert William Heinrich ( 1886 -1962),<br />

(35) Barbosa Teixeira, A.C.”A Engenharia de<br />

Segurança no Brasil”, in www.areaseg.com.br<br />

a renovação do quadro de pessoal e contribuindo para o desgaste moral do<br />

corpo de funcionários, além de elevar os preços dos seguros de acidentes de<br />

trabalho, influenciando, também, na qualidade do produto.<br />

os estudos de h.W. heinrich foram os primeiros a apontar que a reparação<br />

pura e simples dos danos causados aos trabalhadores através das indenizações<br />

não seria suficiente e que outras ações tão ou mais importantes seriam<br />

necessárias para assegurar o controle dos riscos de acidentes ou preveni-los,<br />

quando possível. (34)<br />

Essa discussão começou a ganhar corpo, também no Brasil. “É então que o<br />

empresariado começa a despertar para o aspecto econômico dessa prevenção<br />

e espalha-se a idea de que a prevenção pode ser um bom negócio. A aceitação<br />

dessa assertiva muito contribuiu, sem dúvida, para a fundação, em 1941, da<br />

ABPA, a Associação Brasileira para Prevenção de Acidentes. Uniam-se, aí, os<br />

esforços de empresários, sensibilizados pelo papel negativo dos acidentes na<br />

economia, com a ação de técnicos interessados em contribuir para a prevenção<br />

de acidentes. Mas, depois de Heinrich, em 1929, pesquisando consequências de<br />

acidentes, haver concluído que de 330 acidentes estudados apenas 30 tinham<br />

dado origem a lesões pessoais, dos quais só uma de maior gravidade, não seria<br />

razoável continuar abandonando mais de 90% de informações provenientes<br />

de acidentes sem lesão. E contra a ideia de buscar a prevenção dos acidentes<br />

no estudo de suas consequências havia a inexistência de proporcionalidade<br />

entre a gravidade das lesões pessoais decorrentes de acidentes e a gravidade<br />

potencial desses acidentes. Não se tratava, pois, de agir, à semelhança do que<br />

se sugere nos contos policiais, onde por vezes o autor do delito é investigado<br />

através da pesquisa da lesão da vítima. O caminho seria outro e isso tornava-se<br />

mais claro à medida que se desenvolvia, no País, a grande indústria. A indústria<br />

do petróleo, a siderurgia e tantas outras que começavam a funcionar, exigindo<br />

capacidade técnica, que não contava com a ajuda de tradição. Impunha-se<br />

novo enfoque para enfrentar as novas técnicas. Não seria lógico, pois, continuar<br />

a abandonar a análise dos acidentes sem lesão. E era necessário passar a<br />

estudar a problemática do acidente a partir de suas causas. Nessa altura<br />

tornou-se possível sensibilizar a área da engenharia, até então preocupada<br />

principalmente com os assuntos ligados diretamente à produção, para a análise<br />

das causas do acidente. Mas até que a engenharia, preocupada com o que se<br />

referia diretamente à produção, passasse a interessar-se profissionalmente pela<br />

pesquisa das causas do acidente havia um longo caminho a percorrer.” (35)<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo 99


como resultado dessa linha de ação, foi fundada em 21 de maio de 1941,<br />

a aBPa – associação Brasileira de Prevenção de acidentes, uma associação<br />

privada criada por um grupo de indústrias lideradas pela light and Power, sem<br />

ajuda governamental, com o objetivo de: educar trabalhadores e empresários<br />

para a prevenção de acidentes e segurança no trabalho em todos os setores<br />

das atividades econômicas, dentro da perspectiva que a redução de acidentes<br />

“significa redução de gastos com médicos, hospitais, licenças médicas,<br />

aposentadorias precoces por invalidez permanente, mortes, aliviando os cofres<br />

da Previdência Social para permitir a melhoria dos serviços sociais em outras<br />

áreas”.<br />

e, no 1° de maio de 1943, entrou em vigor a consolidação das leis do Trabalho<br />

(clT), anunciada por getúlio Vargas desde 1939. o conjunto de leis, decretos<br />

e portarias existentes, que regulamentavam as relações e as condições de<br />

trabalho, era tão confuso que foi necessário um arcabouço próprio para<br />

ordená-las. os juristas arnaldo Sussekind, dorval de lacerda e Segadas Viana<br />

foram encarregados de dar corpo ao ante-projeto da clT. “A Consolidação<br />

corresponde a um estágio no desenvolvimento do processo jurídico. Entre<br />

compilação ou coleção de leis e um código – que são respectivamente, os<br />

momentos extremos de um processo de corporificação do Direito – existe a<br />

consolidação, que é a fase própria da concatenação dos textos e da coordenação<br />

dos princípios, quando já se denuncia primeiro o pensamento do sistema depois<br />

de haverem sido reguladas, de modo amplo, relações sociais em determinado<br />

plano da vida política.” (37) desde então, a clT rege as relações e as condições<br />

de trabalho no Brasil e institucionalizou as atividades destinadas a prevenir<br />

acidentes de trabalho e doenças profissionais.<br />

no bojo das regulamentações das relações e condições de trabalho,<br />

necessárias para o desenvolvimento das forças produtivas, acompanhando<br />

o que estava ocorrendo no resto do mundo, o decreto-lei nº 6.479, de 09<br />

de abril de 1944, criou, no âmbito do Ministério do Trabalho, as carreiras de<br />

engenheiro de Segurança do Trabalho, inspetor do Trabalho e Médico do<br />

Trabalho.”Art. 1º Ficam criadas, no Quadro Único do Ministério do Trabalho,<br />

Indústria e Comércio, de conformidade com as tabelas anexas, as carreiras de<br />

Dactiloscopista-auxiliar, Engenheiro de Segurança do Trabalho, Inspetor do<br />

Trabalho e Médico do Trabalho”.<br />

no entanto, somente depois da ratificação da convenção 81 da oiT, pelo<br />

decreto legislativo 24, de 29 de maio de 1956, e pelo decreto-lei nº 41.721,<br />

de 25 de junho de 1957, é que foi instituído o regulamento da inspeção do<br />

Trabalho, através do decreto nº 55.841 de 15 de março de 1965, estruturando<br />

100<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />

(36) Barbosa Teixeira, A.C.”A Engenharia de<br />

Segurança no Brasil”, in www.areaseg.com.br


(37) Artigo 1 do Regulamento de Inspeção do<br />

Trabalho, Decreto 55.841 de 1965<br />

(38) Souto, D.F. : Saúde no trabalho: uma<br />

revolução em andamento, 2ª edição, Rio de<br />

Janeiro, SENAC NACIONAL, 2007, pag157<br />

as carreiras dos agentes de inspeção do Trabalho. “Art. 1º O sistema federal de<br />

inspeção do trabalho, a cargo do Ministério do Trabalho e Previdência Social,<br />

sob a supervisão do Ministro de Estado, tem por finalidade assegurar, em todo<br />

o território nacional, a aplicação das disposições legais e regulamentares,<br />

incluindo as convenções, internacionais ratificadas, dos atos e decisões das<br />

autoridades competentes e das convenções coletivas de trabalho, no que<br />

concerne à duração e às condições de trabalho bem como à proteção dos<br />

trabalhadores no exercício da profissão.” (37)<br />

a criação das carreiras de inspetor do trabalho, engenheiro de segurança e<br />

médico do trabalho pelo Ministério do Trabalho lançava os contornos para<br />

delimitar o exercício profissional dessas especialidades. em 14 de dezembro<br />

de 1944, no auditório do Ministério do Trabalho, indústria e comércio, no<br />

rio de Janeiro, reuniu-se um grupo de médicos e engenheiros, para discutir e<br />

aprovar os estatutos da aBMT – associação Brasileira de Medicina do Trabalho<br />

e eleger sua primeira diretoria. o objetivo da entidade era “difundir, entre os<br />

profissionais interessados, conhecimentos sobre saúde dos trabalhadores e<br />

sobre as condições ambientais em que o trabalho era executado” (38) .<br />

o decreto-lei nº 7.036, de 10.11.1944, ampliou o conceito de acidente de<br />

trabalho e no seu artigo 3° estabeleceu que: “Considera-se caracterizado o<br />

acidente, ainda quando não seja ele a causa única e exclusiva da morte ou<br />

da perda ou redução da capacidade do empregado, bastando que entre o<br />

evento e a morte ou incapacidade haja uma relação de causa e efeito”, além<br />

de equiparar a lesão típica à doença do trabalho, distinguindo as doenças<br />

profissionais (tecnopatias) e as doenças resultantes das condições de trabalho<br />

(mesopatias)“Art. 2º Como doença, para os efeitos desta lei, entendem-se, além<br />

das chamadas profissionais, - inerentes ou peculiares a determinados ramos de<br />

atividades, - as resultantes das condições especiais ou excepcionais em que<br />

o trabalho for realizado”. Manteve as restrições para o acidente “in itinere”<br />

que dependia tanto do fornecimento de condução pelo empregador quanto<br />

do percurso a ser executado pelo trabalhador. e, no seu artigo 82, previu a<br />

criação de comissões internas para incentivar a prática de prevenir acidentes:<br />

“Os empregadores, cujo número de empregados seja superior a 100, deverão<br />

providenciar a organização, em seus estabelecimentos de comissões internas,<br />

com representantes dos empregados, para o fim de estimular o interesse pelas<br />

questões de prevenção de acidentes, apresentar sugestões quanto à orientação<br />

e fiscalização das medidas de proteção ao trabalho, realizar palestras instrutivas,<br />

propor a instituição de concursos e prêmios e tomar outras providências<br />

tendentes a educar o empregado na prática de prevenir acidentes.”<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo 101


essas comissões, que posteriormente ficaram conhecidas como ciPaS, foram<br />

regulamentadas pela primeira vez, pela Portaria 229 do Ministério do Trabalho,<br />

de 19 de junho de 1945 que: “Recomenda a adoção das instruções que se<br />

seguem e que visem orientar a criação e a atuação das Comissões Internas<br />

de Prevenção de Acidentes, instituídas pelo Decreto-Lei n.º 7.036, de 10 de<br />

novembro de 1944, com caráter obrigatório nas empresas com mais de 100<br />

empregados” (39) .<br />

além das finalidades previstas no decreto de 1944, esta primeira regulamentação<br />

atribuiu às comissões as responsabilidades de:<br />

1. “promover o cumprimento da legislação em vigor referente à segurança<br />

e higiene do trabalho”;<br />

2. “realizar o estudo das condições de segurança da m<strong>aqui</strong>naria e higiene<br />

dos locais de trabalho, com a finalidade de sua melhoria”;<br />

3. “a redação de normas e instruções convenientes para prevenir possíveis<br />

acidentes e doenças profissionais”;<br />

4. “investigar as causas de acidentes e doenças profissionais, mantendo em<br />

dia a estatística de acidentes, com seus índices de frequência e gravidade”;<br />

5. “promover a adaptação e seleção profissional do trabalhador”;<br />

6. “observar a instalação e funcionamento dos serviços de assistência aos<br />

acidentados”;<br />

7. “desenvolver ensino, divulgação e propaganda, por conferências, palestras,<br />

cartazes, filmes, cartilhas, acerca de prevenção de acidentes e doenças<br />

profissionais”;<br />

8. “promover competições, concursos, feitos, menções honoríficas para<br />

distinguir o trabalho ou o profissional que mais se tenha feito notar na<br />

campanha de prevenção”;<br />

9. “propor penalidades para o trabalhador que se recusar submeter às<br />

instruções previstas no art. 79, do Decreto-lei n.º 7.036” (40) ;<br />

10. “sugerir à gerência as medidas julgadas necessárias para o bom êxito dos<br />

trabalhos da Comissão”; “reunir-se, pelo menos, uma vez por mês, redigindo<br />

ata de cada sessão realizada”;<br />

102<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />

(39) “ ... (...) ... estruturada pela ABMT e<br />

levada por Décio Parreiras à consideração do<br />

Ministério do Trabalho, é aprovada Portaria que<br />

criou as Comissões Internas de Prevenção de<br />

Acidentes (CIPAs) nas empresas com mais de<br />

100 empregados ...” Souto, D.F.:apud, pag158


(40) Disposições legais referentes à prevenção<br />

contra acidentes do trabalho.<br />

11. “fornecer esclarecimentos e facilitar a atuação da Divisão de Higiene<br />

e Segurança do Trabalho e das Delegacias Regionais do Trabalho”.<br />

as ciPas eram formadas por membros da empresa que fixava o número<br />

de participantes e, inicialmente deveriam ser constituída por: “presidente;<br />

secretário; médico da fábrica; engenheiro da fábrica; membros representantes<br />

dos empregados, em número não inferior a três, indicados pelo sindicato<br />

respectivo, quando existente”. no entanto, o artigo 7° desta Portaria estipulava<br />

que “todo qualquer trabalhador poderá dirigir-se à Comissão Interna de<br />

Prevenção de Acidentes para preveni-la da execução de serviços perigosos em<br />

sua seção ou outra qualquer; para sugerir medidas de proteção individual ou<br />

coletiva e para salientar a transgressão de ordens, regras e regulamentos que<br />

visam à defesa do próprio trabalhador”.<br />

normalmente, o presidente da comissão era um dos diretores da empresa<br />

ou pessoa indicada pelo mesmo; o secretário era escolhido pelo presidente;<br />

não havia uma proporcionalidade na representação dos trabalhadores segundo<br />

o número de empregados da empresa, nem eleição para esses representantes.<br />

nessa regulamentação, a preocupação envolvia a segurança das máquinas e a<br />

higiene do local de trabalho. ainda não havia uma preocupação sistêmica com<br />

a totalidade da segurança e do ambiente de trabalho.<br />

regra geral, as ciPaS eram instaladas e ficavam sob a responsabilidade do<br />

departamento de Pessoal ou da assistência Social da empresa, não havendo<br />

um envolvimento do conjunto da empresa na prevenção de acidentes<br />

e melhoria das condições de trabalho.<br />

algumas empresas já haviam instalado suas comissões antes do decreto 7.036,<br />

atendendo a uma recomendação da organização internacional do Trabalho<br />

(oiT), que, em 1921, organizou um comitê para estudos de segurança e higiene<br />

do trabalho e, para divulgação de recomendações de medidas preventivas<br />

de acidentes e doenças do trabalho. dessa recomendação da oiT constava<br />

o seguinte texto: “Os empregadores, cujo número de empregados seja<br />

superior a 100, deverão providenciar a organização, em seus estabelecimentos,<br />

de comissões internas, com representantes dos empregados, para a fim de<br />

estimular o interesse pelas questões de prevenção de acidentes, apresentar<br />

sugestões quanto à orientação e fiscalização das medidas de proteção ao<br />

trabalho, realizar palestras instrutivas, propor a instituição de concursos<br />

e prêmios e tomar outras providências tendentes a educar o empregado na<br />

prática de prevenir acidentes”, bastante similar ao texto do decreto de 1944.<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo 103


a light and Power, empresa inglesa de geração e distribuição de energia, com<br />

sede no rio de Janeiro e São Paulo, foi uma das que instalaram a comissão<br />

antes da sua regulamentação (41) . na área portuária, a companhia docas de<br />

Santos foi a primeira a instalar sua ciPa, em 1949 (42) .<br />

dentre as Forças armadas, o exército é a que possuía maior número<br />

de unidades fabris, obrigando-se por isso, a dedicar especial atenção às<br />

questões de segurança industrial e prevenção de acidentes, isso não só pela<br />

diversificação do seu parque industrial, que vai da indústria química (produção<br />

de explosivos, cloro, soda cáustica, etc.), à indústria metalúrgica (fundição,<br />

tratamento de metais, etc.), mas, também, por estarem esses estabelecimentos<br />

espalhados por todo território nacional. assim, “... a Fábrica de Bonsucesso<br />

criou sua Comissão em 18 de dezembro de 1944, ou seja um mês e oito dias<br />

após a data do Decreto-Lei 7.036 (10 de novembro) de 1944, que determinou<br />

a criação das CIPAS, enquanto a da Fábrica do Andaraí foi organizada em 6 de<br />

dezembro de 1950 ... (...) ... Assim, entre 22 de novembro de 1950 (Fábrica de<br />

Estrela) e 2 de março de 1951 (Fabrica de Material de Comunicações) todas<br />

as fábricas e arsenais passaram a contar dentro de suas organizações com<br />

CIPAS que, em suas linhas gerais obedeciam ao Decreto-Lei 7.036, adaptado,<br />

em pequeníssimas particularidades, a estrutura que caracteriza a fábrica do<br />

Exército” (43) .<br />

durante os últimos anos do estado novo, Vargas adotou uma política consciente<br />

de intervenção estatal. “A intervenção do governo federal na economia<br />

brasileira, se bem que já estivesse explicada em termos de nacionalismo<br />

econômico e defesa militar, foi grandemente acelerada pela Segunda Guerra<br />

Mundial. A entrada formal do Brasil na guerra, em 1942, deu oportunidade a<br />

um esforço de mobilização econômica em escala total ... (...) A necessidade<br />

obvia de matérias primas e bens manufaturados, vitais para o esforço de<br />

guerra, deu nova importância ao programa do governo Vargas, de empresas<br />

financiadas pelo Estado.” (44 a intervenção direta do estado ocorria através de<br />

investimentos públicos nos setores de ferrovias, navegação, serviços públicos e<br />

indústrias de base, como aço e petróleo.<br />

104<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo<br />

(41) More, L. F.: A CIPA Analisada sob a Ótica<br />

da Ergonomia e Organização do Trabalho<br />

- Proposta de Criação da Comissão de Estudos<br />

do Trabalho – CET, Programa de Engenharia<br />

de Produção, UFSC, dissertação de mestrado,<br />

capitulo 6, 1997, in http://www.eps.ufsc.br/<br />

disserta97/more/index.html.<br />

(42) Barbosa Teixeira, A.C.:apud , cronologia.<br />

(43) Lopes Netto, A.: ‘Contribuições a<br />

Construção da Engenharia de Segurança no<br />

Brasil”, Editora CIPA, São Paulo, 2010, 2ª<br />

edição, pags.17-19.


(44) Skidmore, T: Brasil: de Getúlio a Castelo,<br />

Rio de Janeiro, Editora Saga, 1969, pag. 67<br />

(45) Skidmore, T.:apud, pag. 68-69.<br />

“Vargas usou a ocasião do esforço de guerra para elaborar uma política de<br />

industrialização, objetivo para o qual se encaminhava desde 1937, se bem que<br />

até 1940 ele ainda não se houvesse empenhado a fundo no desenvolvimento<br />

industrial sistemático. Em 1943, Vargas anunciou com orgulho que, com<br />

empresas como usinas de ferro e aço, fábricas de alumínio e cobre e a<br />

exportação de minérios, o Brasil estava caldeando “os elementos básicos para<br />

a transformação de uma vasta e esparsa comunidade agrícola em uma nação<br />

capaz de prover as suas necessidades fundamentais.” (45)<br />

Vargas e Roosevelt, 1943<br />

Capítulo II | 3. O Estado Novo 105


Cia Siderúrgica Nacional


nal<br />

II.4. O Fim da Guerra e a Constituição<br />

de 1946<br />

a partir de 1942, o Brasil declarou guerra ao nazi-fascismo, integrando<br />

o corpo de países aliados, ao lado dos estados unidos, grã-Bretanha e França.<br />

internamente, a declaração de guerra teve grandes repercussões, uma vez que<br />

passamos a receber apoios, financiamentos e assistência técnica dos países<br />

aliados, em troca de matérias-primas e da instalação de bases militares na costa<br />

brasileira, como garantia de defesa do atlântico Sul.<br />

a partir da entrada no Brasil na guerra, intensificaram-se as contradições<br />

da ditadura do estado novo. a constituição que fora outorgada em 1937<br />

estabelecia que, em novembro de 1943, deveria ocorrer um plebiscito para<br />

validar a carta Magna. com a justificativa de que o país estava em guerra o<br />

plebiscito foi adiado. as pressões para uma nova constituição e para a volta ao<br />

estado de direito eram fortes.<br />

cedendo às pressões políticas, Vargas assinou a lei constitucional n° 9 de<br />

28 de fevereiro de 1945, que “Dá nova redação a artigos da Constituição”<br />

e considera que “... se criaram as condições necessárias para que entre em<br />

funcionamento o sistema dos órgãos representativos previstos na Constituição”.<br />

assinou, também, o decreto-lei 7.474 de 18 de abril de 1945, concedendo<br />

anistia “a todos quantos tenham cometido crimes políticos desde 16 de julho<br />

de 1934 até a data da publicação deste decreto-lei”.<br />

Finalmente, o decreto 7.586 de 28 de maio de 1945, “Regula, em todo país, o<br />

alistamento eleitoral e a eleições a que se refere o artigo 4º da Lei Constitucional<br />

n.9, de 28 de fevereiro de 1945”, definindo para o dia 02 de dezembro de<br />

1945, as eleições para Presidente, recriando a Justiça eleitoral e o Tribunal<br />

Superior eleitoral e, a lei constitucional n°15 de 26 de dezembro de 1945,<br />

no seu artigo 1º, definiu que: “Em sua função constituinte terá o Congresso<br />

Nacional, eleito a 2 de dezembro próximo, poderes ilimitados para elaborar<br />

e promulgar a Constituição do País, ressalvada a legitimidade da eleição, do<br />

Presidente da República”.<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 107


em 2 de setembro, o Japão se rendeu e colocou fim nos conflitos da Segunda<br />

grande guerra. desgastado politicamente, Vargas renunciou ao cargo de<br />

Presidente da república em 29 de outubro de 1945, assumindo em seu lugar<br />

o presidente do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior eleitoral,<br />

Ministro José linhares (46) .<br />

elaborada no contexto sócio-econômico de um setor industrial emergente,<br />

embora limitado a algumas das grandes cidades, ainda dependente do setor<br />

agrário exportador, com uma classe operária em expansão e no contexto<br />

político de derrota do estado novo, anistia geral e vitória dos aliados na<br />

Segunda guerra, a quarta constituição foi promulgada em 18 de setembro de<br />

1946.<br />

no capitulo V, da ordem econômica e Social, considerou-se o trabalho como<br />

uma “obrigação social” (47) , substituindo-se, no seu artigo 157, o termo<br />

“seguro social” por “previdência social” e, estipulando os seguintes preceitos<br />

para a legislação do trabalho e da previdência social:<br />

108<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />

(46) José Linhares permaneceu no cargo de 30<br />

de outubro de 1945 a 31 de janeiro de 1946.<br />

(47) Constituição Federal de 1946 , artigo<br />

145 § 1.


Vargas e Roosevelt, 1943<br />

Sessão Plenária da Assembléia<br />

Constituinte de 1946<br />

“Art.157 - A legislação do trabalho e a da previdência social obedecerão nos<br />

seguintes preceitos, além de outros que visem a melhoria da condição dos<br />

trabalhadores:<br />

I.<br />

II .<br />

salário mínimo capaz de satisfazer, conforme as condições de cada<br />

região, as necessidades normais do trabalhador e de sua família;<br />

proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho por motivo<br />

de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil;<br />

III . salário do trabalho noturno superior ao do diurno;<br />

IV.<br />

participação obrigatória e direta do trabalhador nos lucros da<br />

empresa, nos termos e pela forma que a lei determinar;<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 109


V.<br />

VI.<br />

110<br />

duração diária do trabalho não excedente a oito horas, exceto nos<br />

casos e condições previstos em lei;<br />

repouso semanal remunerado, preferentemente aos domingos e, no<br />

limite das exigências técnicas das empresas, nos feriados civis e<br />

religiosos, de acordo com a tradição local;<br />

VII. férias anuais remuneradas;<br />

VIII. higiene e segurança do trabalho;<br />

IX. proibição de trabalho a menores de quatorze anos; em indústrias<br />

insalubres, a mulheres e a menores, de dezoito anos; e de trabalho<br />

noturno a menores de dezoito anos, respeitadas, em qualquer caso,<br />

as condições estabelecidas em lei e as exceções admitidas pelo Juiz<br />

competente;<br />

X.<br />

direito da gestante a descanso antes e depois do parto, sem prejuízo<br />

do emprego nem do salário;<br />

XI . fixação das percentagens de empregados brasileiros nos serviços<br />

públicos dados em concessão e nos estabelecimentos de determinados<br />

ramos do comércio e da indústria;<br />

XII. estabilidade, na empresa ou na exploração rural, e indenização ao<br />

trabalhador despedido, nos casos e nas condições que a lei estatuir;<br />

XIII. reconhecimento das convenções coletivas de trabalho;<br />

XIV. assistência sanitária, inclusive hospitalar e médica preventiva, ao<br />

trabalhador e à gestante;<br />

XV. assistência aos desempregados;<br />

XVI. previdência, mediante contribuição da União, do empregador e do<br />

empregado, em favor da maternidade e contra as consequências da<br />

doença, da velhice, da invalidez e da morte;<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946


XVII. obrigatoriedade da instituição do seguro pelo empregador contra os<br />

acidentes do trabalho.<br />

Parágrafo único - Não se admitirá distinção entre o trabalho manual ou<br />

técnico e o trabalho intelectual, nem entre os profissionais respectivos, no<br />

que concerne a direitos, garantias e benefícios.”<br />

os impactos da Segunda guerra na economia brasileira haviam sido<br />

fortíssimos. o efeito mais rápido e de maior significado, como era de se<br />

esperar, foi registrado no nosso comércio exterior e se refletiu tanto no volume<br />

das importações e exportações, quanto no eixo comercial delas. nos dois<br />

primeiros anos do conflito, as importações europeias que representavam 46%<br />

do total caíram para 13% e as exportações que também representavam 46% das<br />

nossas exportações caíram para 17%. no entanto, as relações comerciais com<br />

os estados unidos, que em 1939 haviam representado 34% das importações,<br />

subiram para 60% em 1941; sendo que, em 1944, as exportações representaram<br />

53% das exportações realizadas e as importações corresponderam a 61%<br />

das nossas importações. houve um enorme deslocamento do eixo comercial<br />

brasileiro.<br />

durante o período da Segunda guerra Mundial, nosso quadro de comércio<br />

exterior mostrou um saldo favorável para as exportações, embora as<br />

importações tenham crescido em 161% no período.<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 111


BRASIL - Balança Comercial – 1940/1944 (milhares de cruzeiros) (48)<br />

Anos Importações Exportações Saldo<br />

1940 4.964 4.461 - 3<br />

1941 5.514 6.726 +1.212<br />

1942 4.693 7.500 +2.857<br />

1943 6.092 8.729 +2.567<br />

1944 7.997 10.727 +2.730<br />

Fonte: relatório do Banco do Brasil, 1945 in Ferreira lima, h:apud pag 361<br />

VALOR MÉDIO DA TONELADA (em cruzeiros)<br />

Anos Exportada Importada<br />

1938 1.295 1.057<br />

1942 2.818 1.547<br />

1943 3.237 1.824<br />

1944 4.015 2.108<br />

Fonte: Ferreira lima, h.: Fisionomia do nosso comércio exterior, revista do<br />

comércio, janeiro de 1946, rio de Janeiro inapud pag 361<br />

112<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />

(48) Os saldos favoráveis das exportações é<br />

resultado do acréscimo do valor das toneladas<br />

das mercadorias vendidas e não do volume de<br />

mercadorias comercializadas.


(49) Ferreira Lima, H:apud pag 366.<br />

BRASIL - Volume Fisico da Produção 1939/1944<br />

Indústria de Transformações - Índice: 1939 =100<br />

Indústria 1939 1940 1941 1942 1943 1944<br />

Metalúrgicas 100 127 141 145 158 177<br />

Mat. de Transp. 100 121 139 48 16 17<br />

Minerais ñ metal. 100 103 160 153 185 207<br />

Papel 100 108 115 120 113 125<br />

Borracha 100 159 258 282 343 341<br />

Óleo/ graxa veg. 100 123 165 112 125 164<br />

couros e Peles 100 100 102 105 44 80<br />

Têxteis 100 96 111 120 153 151<br />

calçados 100 103 107 108 122 140<br />

Prod. alimentares 100 107 107 109 106 105<br />

Bebidas e estimul. 100 191 98 97 102 127<br />

editorial/gráficas 100 99 106 83 95 104<br />

Média aumento 100 105 117 112 124 130<br />

Fonte:revista Brasileira de economia, março de 1953 in Ferreira lima, h.:apud pag 363<br />

o significativo crescimento econômico trouxe um desgaste a todos os fatores<br />

de produção que não podiam ser facilmente repostos em função da guerra,<br />

tornando insuficientes os componentes de base da nossa infra-estrutura para<br />

atender a expansão industrial que se verificava.<br />

“Assim, o volume físico do comércio nacional de cabotagem que era de 2.725<br />

toneladas em 1939, elevou-se para 3.030 em 1944 ... (...)... Quanto a extensão<br />

das linhas férreas permaneceu praticamente a mesma, pois evoluiu apenas de<br />

34.204 quilômetros em 1934 para 34.602 quilômetros em 1943. Referente a<br />

energia elétrica, a situação apresentava-se mais grave ainda, porque de um<br />

total de 1.172.000 KW em 1939, houve um aumento para 1.334.000KW em<br />

1944, equivalente, em termos percentuais, a apenas 14%.” (49)<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 113


É importante lembrar que embora alguns setores, como: borracha, metalurgia,<br />

minerais não metálicos e material de transporte, tenham tido um crescimento<br />

realmente significativo, o fato mais importante do período foi a instalação da<br />

companhia Siderúrgica nacional, em 1941, que entrou em funcionamento<br />

em 1946. a comissão nacional de Siderurgia havia sido nomeada em agosto<br />

de 1931 e, desde então, vinha estabelecendo contatos na europa e, depois<br />

que eclodiu a guerra, nos estados unidos, para a execução de um programa<br />

concreto de siderurgia no país, que culminou com instalação da usina de Volta<br />

redonda.<br />

a necessidade de modernização do aparelho do estado, a expansão das<br />

funções governamentais e o crescimento do número dos funcionários públicos<br />

com perfil técnico evidenciavam uma preocupação do governo de envidar<br />

esforços para garantir o êxito do processo de expansão industrial desenhado<br />

para o país.<br />

Vargas escolheu alguns interlocutores para ajudá-lo a definir as estratégias<br />

para o desenvolvimento brasileiro. roberto Simonsen, engenheiro, industrial,<br />

administrador, professor, historiador e político foi um dos escolhidos, defendia<br />

o planejamento da industrialização pela intervenção do estado, com estimulos<br />

e barreiras alfandegárias. os outros dois foram euvaldo lodi, empresário,<br />

engenheiro e político e horácio lafer, empresário, diplomata e político. esses<br />

interlocutores ajudaram a desenhar o modelo de representação sindical<br />

empresarial que perdura até hoje. horacio lafer, representante brasileiro na<br />

liga das nações, foi o primeiro presidente da cni, fundou, com apoio de<br />

roberto Simonsen e acordo com o governo federal, o Senai e o SeSi, que<br />

serviram de modelo para o atual Sistema “S”.<br />

a criação do Senai e, posteriormente do Senac, fazia parte de uma estratégia<br />

de suprir a necessidade de formação de mão de obra exigida pelo processo de<br />

industrialização planejado por Vargas.<br />

a produção de aço de Volta redonda permitiu o crescimento das indústrias<br />

mecânicas e metalúrgicas, a posterior implantação da indústria automotiva e a<br />

expansão da indústria pesada. Mas, o país não estava preparado para enfrentar<br />

essa nova realidade, não só pelos gargalos na infra-estrutura instalada, mas,<br />

também, porque não possuía conhecimento técnico acumulado para enfrentar<br />

os problemas decorrentes da expansão industrial, tanto em termos dos<br />

acidentes de trabalho quanto em termos de doenças profissionais resultantes<br />

desse processo.<br />

114<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946


BRASIL - Produção Siderúrgica 1945/1951 (em toneladas)<br />

Indústria 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951<br />

Ferro gusa 259.909 370.722 480.929 551.813 511.715 728.979 750.000<br />

aço 205.613 342.613 386.971 483.185 615.069 788.557 850.000<br />

laminados 165.805 230.229 296.686 403.457 505.540 623.285 700.000<br />

Fonte: Ferreira lima, h.:apud, pag. 376<br />

Companhia Siderúrgica<br />

Nacional<br />

Mas, o parque industrial havia crescido e se diversificado, permitindo<br />

o surgimento de um leque mais variado de situações provocadas pela variedade<br />

de máquinas, produtos químicos, engrenagens, gases e outras substâncias que,<br />

cada vez mais, exigiam dos trabalhadores cautela e qualificação na execução<br />

das atividades laborais, pois a qualquer momento poderiam sofrer uma lesão<br />

irreparável.<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 115


116<br />

BRASIL - Volume Fisico da Produção 1945/1950<br />

Indústria de Transformação - Índice: 1939 = 100<br />

Indústria 1945 1946 1947 1948 1949 1950<br />

Metalúrgicas 168 248 308 391 463 594<br />

Mat. de Transp. 49 139 219 291 363 367<br />

Minerais ñ metal. 221 255 257 304 351 379<br />

Papel 127 140 153 168 194 222<br />

Borracha 492 549 538 623 761 902<br />

Óleo/ graxa veg. 147 123 123 168 171 190<br />

couros e Peles 85 98 105 114 117 119<br />

Têxteis 143 152 143 153 160 175<br />

calçados 157 163 129 160 176 170<br />

Prod. alimentares 105 122 130 139 146 149<br />

Bebidas e estimul. 155 183 182 196 188 215<br />

editorial/gráficas 114 134 139 144 163 162<br />

Média aumento 135 157 162 184 201 218<br />

Fonte:revista Brasileira de economia, março de 1953 in Ferreira lima, h.:apud pag 374<br />

entretanto, após a posse de eurico gaspar dutra a “economia sofreu um<br />

rápido esgotamento das reservas brasileiras de divisas e do resultante déficit<br />

no balanço de pagamentos ... (...)... a reintrodução de controles cambiais, em<br />

junho de 1947, ...(...)... com o aceleramento da “industrialização espontânea”<br />

... (...) ... A resposta do novo governo à inflação oriunda dos tempos da guerra<br />

foi abrir o país a importação de bens manufaturados no exterior. Isso parecia<br />

ainda mais lógico, em vista das grandes reservas de divisas acumuladas durante<br />

a guerra. Os Ministros da Fazenda, em 1946 e 1947, procuraram, portanto,<br />

satisfazer a procura em suspenso e combater o aumento de preços através de<br />

uma generosa política de importação. ... (...)... Preocupado com o aumento<br />

do nível de preços, o governo Dutra, em 1946, não empreendeu medidas<br />

efetivas para expandir a capacidade industrial interna... (...) ... O Ministro da<br />

Fazenda Correia e Castro, .... (...) ... foi franco: Qualificou o Brasil como um “país<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946


(50) Skimore, T.:apud, pags.96-98.<br />

essencialmente agrícola” e acrescentou: “É da essência da economia latinoamericana,<br />

e o Brasil nesse conjunto está integrado, certa concentração de<br />

esforços na exportação de matéria-prima e de gêneros alimentícios, bem como<br />

a importação de ampla variedade de artigos manufaturados e de comestíveis<br />

industrializados ... (...) ... Os controles cambiais de 1947 agiram de modo<br />

semelhante à política de apoio ao café da década de ’30... (...) Nenhuma das<br />

duas políticas se destinava a promover a industrialização, mas ambas tiveram<br />

esse efeito” (50) .<br />

ao reassumir o governo, em 1951, Vargas se deparou com um duplo processo<br />

de industrialização e urbanização que se ampliara e fortalecera. Mas, que<br />

apresentava ainda grandes gargalos que impediam o crescimento da economia<br />

e as deficiências em setores da infra-estrutura, especialmente transporte<br />

e energia elétrica precisavam ser superadas: “houve um longo período de<br />

estudos sobre os problemas e as perspectivas da economia brasileira, a<br />

natureza das transformações estruturais que se deveria introduzir no sistema<br />

produtivo e o papel a ser reservado à iniciativa estatal e à iniciativa privada<br />

(nacional e estrangeira). Esse debate, que se estendeu da segunda metade da<br />

década de 1930 até o final da década de 1940, envolveu órgãos e instituições<br />

governamentais, notadamente os ministérios da Fazenda e das Relações<br />

Exteriores e o Conselho Federal de Comércio Exterior e também entidades<br />

privadas, como a Confederação Nacional da Indústria e a Fundação Getulio<br />

Vargas. A pedido do governo brasileiro, duas missões americanas - a Missão<br />

Cooke (1942) e a Missão Abbink (1948) - igualmente contribuíram para o<br />

diagnóstico das causas do baixo nível de progresso da economia brasileira” ...<br />

(...) ... “Os antecedentes diretos do BNDE podem ser situados nas atividades<br />

desenvolvidas pela Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. Organizada no Brasil<br />

em dezembro de 1950, ainda no mandato presidencial do general Eurico Gaspar<br />

Dutra, mas efetivamente instalada em julho de 1951, já no segundo governo<br />

Vargas, a comissão era integrada por técnicos brasileiros e americanos e tinha por<br />

missão analisar projetos que seriam objeto de financiamento, direcionados para<br />

o crescimento da economia e para a superação das deficiências em setores da<br />

infra-estrutura, especialmente transporte e energia elétrica ... (...)... Em setembro<br />

de 1951, as diretorias do Banco Mundial e do Export-Import Bank (Eximbank)<br />

anunciaram estar dispostas a financiar os projetos de investimento propostos<br />

pela Comissão Mista Brasil - Estados Unidos. A expectativa das autoridades<br />

brasileiras era que os recursos liberados a serem por essas duas agências para<br />

o programa de investimento da comissão mista chegariam a quinhentos milhões<br />

de dólares. Nos meses seguintes, aprovou-se uma série de leis que criavam as<br />

bases legais para a constituição de um Fundo de Reaparelhamento Econômico,<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 117


cuja principal fonte era uma taxa adicional sobre o imposto de renda devido por<br />

pessoa física e jurídica. Para administrar esse fundo, e mais os recursos oriundos<br />

do Ministério da Fazenda (em moeda nacional) e os montantes externos dirigidos<br />

ao país (em moeda estrangeira), foi proposta a criação de um banco especial,<br />

cuja tarefa seria criar condições para a superação dos entraves ao fluxo de<br />

investimentos - públicos e particulares, nacionais e estrangeiros -, necessárias<br />

ao desenvolvimento da economia brasileira ... (...) ... O Banco Nacional de<br />

Desenvolvimento Econômico (BNDE) foi criado em 20 de junho de 1952, pela Lei<br />

nº 1.628, durante o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954). Entidade<br />

autárquica, com autonomia administrativa e personalidade jurídica própria, o<br />

BNDE inicialmente esteve sob a jurisdição do Ministério da Fazenda ... (...) ... O<br />

BNDE nascia com a dupla incumbência de elaborar análises de projetos e de<br />

atuar como o braço do governo na implementação das políticas consideradas<br />

fundamentais para o avanço da industrialização. Em síntese, o Banco seria<br />

o principal formulador e executor da política nacional de desenvolvimento<br />

econômico. Mesmo após a criação do BNDE, a Comissão Mista Brasil - Estados<br />

Unidos continuou funcionando, encerrando oficialmente suas atividades em 31<br />

de janeiro de 1953. Seu relatório final concluía que as deficiências nas áreas<br />

de energia e transporte eram os maiores nós do crescimento do país ... (...)<br />

... Seguindo as indicações do relatório, o BNDE determinou que os primeiros<br />

investimentos estariam voltados para o reaparelhamento de portos e ferrovias,<br />

o aumento da capacidade de armazenamento e a ampliação do potencial<br />

elétrico. Nessa fase inicial, o Banco firmou um acordo de cooperação com<br />

a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) para formar<br />

um grupo misto de estudos, cujo objetivo seria auxiliar o BNDE na obtenção<br />

e análise de dados macroeconômicos. A instituição também se associou ao<br />

Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, que passou a lhe<br />

fornecer, periodicamente, dados sobe a evolução da renda nacional.” (51)<br />

a criação do Bnde (52) , a decisão de investimentos voltados para<br />

o “reaparelhamento” dos portos e ferrovias e aumento da capacidade de<br />

armazenamento e ampliação do potencial elétrico, além da instalação de Volta<br />

redonda e da criação da Petrobrás mudaram o perfil do parque industrial.<br />

essas mudanças trouxeram, também, um conjunto de novos problemas nas<br />

condições de trabalho, no volume de acidentes industriais e nas doenças<br />

profissionais. era preciso reorganizar o processo produtivo com o enfoque de<br />

garantir melhores condições de vida e de trabalho no país.<br />

não dispomos de informações sobre o volume de acidentes ocorridos no<br />

país nesse período, entretanto, na tabela abaixo podemos observar, nas 13<br />

118<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />

(51) Esse texto é um extrato do verbete Getúlio<br />

Vargas da obra: Dicionário Histórico Biográfico<br />

Brasileiro pós 1930. 2. ed. ver. atual. Rio de<br />

Janeiro: Ed. FGV,2001.5v.il e do site www.<br />

bndes.gov.br/conhecimento/publicacoes/<br />

catalogo/livro50anos.asp<br />

(52) Mais tarde, foi adicionado um “S”<br />

na sigla do Banco que passou a se chamar<br />

BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento<br />

Econômico e Social.


(53) Observar a coincidência da data<br />

com a data da Lei 7.410 de 1985.<br />

unidades fabris do exército, os casos de acidentes e o tempo perdido no<br />

período de 1950 a 1954, sendo que, desde, março de 1951, todas as unidades<br />

possuíam ciPas organizadas.<br />

BRASIL - EXÉRCITO<br />

Total de Acidentes e Tempo Perdido – Unidades Fabris – 1950/1954<br />

Anos N° Acidentes Tempo Perdido (h)<br />

1950 1.819 22.414<br />

1951 1.677 38.600<br />

1952 1.387 38.780<br />

1953 1.259 26.031<br />

1954 1.221 24.693<br />

Fonte: lopes netto, a.:apud, pag.20<br />

uma nova regulamentação das ciPaS, a Portaria 155 do MTb, de 27 de<br />

novembro de 1953 (53) , manteve a obrigatoriedade da comissão nas empresas<br />

com mais de 100 empregados e recomendou, no seu art.2°, que as empresas<br />

com menos de 100 empregados adotassem espontaneamente a comissão, por<br />

ser de interesse para empregados e empregadores. ampliou as atribuições das<br />

comissões, determinando que a ciPa deveria:<br />

1 . “proceder a inquéritos para averiguação das circunstâncias e das causas<br />

de todos os acidentes ocorridos na fábrica”;<br />

2 . “proceder periodicamente as inspeções de todas as instalações<br />

da fábrica e de todo seu material, verificando o cumprimento das<br />

determinações legais e o estado de conservação dos dispositivos de<br />

segurança”;<br />

3. “organizar a instrução de equipes encarregadas de serviço de incêndio<br />

e primeiros socorros”;<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 119


Podemos observar que no item 2, esta Portaria aumentou o campo de atuação<br />

das ciPas, que na Portaria anterior deveria “realizar o estudo das condições da<br />

m<strong>aqui</strong>naria e higiene dos locais de trabalho” e nesta “proceder periodicamente<br />

as inspeções de todas as instalações da fábrica e de todo seu material, verificando<br />

o cumprimento das determinações legais e o estado de conservação dos<br />

dispositivos de segurança”; ou seja, a atenção saiu da m<strong>aqui</strong>naria e da higiene<br />

no local de trabalho para o conjunto de fatores do processo produtivo. além<br />

disso, no item 1, averiguar “as circunstâncias e causas de todos os acidentes<br />

ocorridos na fábrica”, permite entender averiguar mesmo aqueles acidentes<br />

sem lesões físicas, apenas com danos materiais, conforme a tendência<br />

mencionada no artigo do dr. Barbosa Teixeira que reproduzimos acima.<br />

no que concerne à organização da comissão, os representantes dos<br />

trabalhadores passaram a ser eleitos pelos trabalhadores da empresa ao invés<br />

de indicados pelos sindicatos da categoria.<br />

a legislação sobre comissão interna de Prevenção de acidentes já sofreu<br />

quatro reformulações posteriores, através das seguintes Portarias que tratavam<br />

tanto da finalidade e objetivos destas comissões, quanto de sua organização<br />

e atribuições, são elas: Portaria n.º 32 de 29 de novembro de 1968; Portaria n.º<br />

3.456, de 3 de agosto de 1977; Portaria n.º 3.214, de 8 de junho de 1978 (54)<br />

e Portaria n.º 5, de 18 de abril de 1994. Sendo que em 22 de dezembro de<br />

1977, o governo aprovou a lei nº 6.514 que “Altera o Capítulo V do Titulo II da<br />

Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), relativo a Segurança e Medicina do<br />

Trabalho ...”, e, nos artigos 162 a 165, da Seção iii, “Dos órgãos de Segurança<br />

e de Medicina do Trabalho nas Empresas” determinou que:<br />

“Art 162 - As empresas, de acordo com normas a serem expedidas pelo<br />

Ministério do Trabalho, estarão obrigadas a manter serviços especializados em<br />

segurança e em medicina do trabalho.<br />

Parágrafo único - As normas a que se refere este artigo estabelecerão:<br />

a) classificação das empresas segundo o número de empregados e a natureza<br />

do risco de suas atividades;<br />

b) o número mínimo de profissionais especializados exigido de cada empresa,<br />

segundo o grupo em que se classifique, na forma da alínea anterior;<br />

c) a qualificação exigida para os profissionais em questão e o seu regime de<br />

trabalho;<br />

120<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />

(54) Através desta Portaria, foram revogadas<br />

todas as portarias baixadas anteriormente e<br />

aprovadas as 28 Normas Reguladoras – NR,<br />

de acordo com a Lei n.º 6.514, de 22 de<br />

dezembro de 1977. A Norma Regulamentadora<br />

que passou a regulamentar a Comissão<br />

Interna de Prevenção de Acidentes - CIPA<br />

foi a NR-5, com o objetivo de: “observar e<br />

relatar condições de riscos nos ambientes de<br />

trabalho e solicitar medidas para reduzir ou até<br />

eliminar os riscos existentes e/ou neutralizar<br />

os mesmos, discutir os acidentes ocorridos,<br />

encaminhando aos Serviços Especializados<br />

em Engenharia de Segurança e em Medicina<br />

do Trabalho e ao empregador o resultado da<br />

discussão, solicitando medidas que previnam<br />

acidentes semelhantes e, ainda, orientar os<br />

demais trabalhadores quanto à prevenção de<br />

acidentes”.


d) as demais características e atribuições dos serviços especializados em<br />

segurança e em medicina do trabalho, nas empresas.<br />

Art 163 - Será obrigatória a constituição de Comissão Interna de Prevenção de<br />

Acidentes (CIPA), de conformidade com instruções expedidas pelo Ministério<br />

do Trabalho, nos estabelecimentos ou locais de obra nelas especificadas.<br />

Parágrafo único - O Ministério do Trabalho regulamentará as atribuições,<br />

a composição e o funcionamento das CIPA (s).<br />

Art 164 - Cada CIPA será composta de representantes da empresa e dos<br />

empregados, de acordo com os critérios que vierem a ser adotados na<br />

regulamentação de que trata o parágrafo único do artigo anterior.<br />

§ 1º - Os representantes dos empregadores, titulares e suplentes, serão por eles<br />

designados.<br />

§ 2º - Os representantes dos empregados, titulares e suplentes, serão eleitos<br />

em escrutínio secreto, do qual participem, independentemente de filiação<br />

sindical, exclusivamente os empregados interessados.<br />

§ 3º - O mandato dos membros eleitos da CIPA terá a duração de 1 (um) ano,<br />

permitida uma reeleição.<br />

§ 4º - O disposto no parágrafo anterior não se aplicará ao membro suplente que,<br />

durante o seu mandato, tenha participado de menos da metade do número de<br />

reuniões da CIPA.<br />

§ 5º - O empregador designará, anualmente, dentre os seus representantes, o<br />

Presidente da CIPA e os empregados elegerão, dentre eles, o Vice-Presidente.<br />

Art 165 - Os titulares da representação dos empregados nas CIPA (s) não<br />

poderão sofrer despedida arbitrária, entendendo-se como tal a que não se<br />

fundar em motivo disciplinar, técnico, econômico ou financeiro.<br />

Parágrafo único - Ocorrendo a despedida, caberá ao empregador, em caso<br />

de reclamação à Justiça do Trabalho, comprovar a existência de qualquer dos<br />

motivos mencionados neste artigo, sob pena de ser condenado a reintegrar o<br />

empregado.”<br />

Se a primeira metade dos anos ’50 padeceu pelo crescimento desordenado,<br />

enormes gargalos no sistema produtivo e na indústria de base, grandes<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 121


desigualdades regionais e um desequilíbrio entre vários setores econômicos,<br />

algumas propostas surgiram no cenário produtivo e governamental. Tentando<br />

sanar parte dos problemas existentes, Juscelino Kubitschek de oliveira<br />

apresentou sua plataforma para a Presidência da república baseada num Plano<br />

de desenvolvimento econômico que ficou conhecido como o Plano de Metas<br />

de 1956/1960. Para a elaboração do Plano de Metas, JK teve o apoio do grupo<br />

Misto Bnde-cePal, que atuou na fundação do Bnde e elaborou projeções e<br />

estimativas para a nossa expansão, publicadas em 1955 sob o título de “Esbôço<br />

de um Programa de Desenvolvimento para a Economia Brasileira”.<br />

“a segunda metade da década de ’50, transcorreu toda ela sob o signo<br />

do Programa de Metas, que deu notável impulso à nossa industrialização,<br />

implantando uma série de atividades novas e incrementando outras já<br />

existentes, de modo a incentivar a era das indústrias de base entre nós.” (55)<br />

com o slogan de “cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”,<br />

Juscelino Kubitschek implantou seu programa de governo, incentivando a<br />

construção da infra-estrutura necessária ao apoio industrial, a entrada tanto de<br />

capital estrangeiro quanto de novas tecnologias. Privilegiou investimentos na<br />

geração de energia, incentivos fiscais, transportes e construção de rodovias,<br />

facilitando a entrada das montadoras de veículos. além das montadoras,<br />

vieram indústrias de aparelhos eletroeletrônicos e de alimentos.<br />

os investimentos externos estimularam a diversificação da economia,<br />

aumentando a produção nacional de insumos, máquinas e equipamentos<br />

pesados para mecanização agrícola. Também cresceu a fabricação de<br />

fertilizantes, a produção dos frigoríficos e de material de transporte ferroviário<br />

e de construção naval.<br />

apoiado tanto na companhia Siderúrgica nacional quanto na Petrobrás,<br />

que desempenharam papel preponderante no processo de industrialização,<br />

na execução do Plano de Metas e, infelizmente, na diversificação dos tipos<br />

de acidentes e doenças profissionais, o governo implantou suas metas para<br />

ampliar a produção industrial que, no conjunto, cresceu 80% nos cinco anos<br />

do governo Juscelino. as duas empresas desenvolveram suas estratégias na<br />

tentativa de enfrentar os problemas dos acidentes e das doenças profissionais.<br />

a Siderúrgica nacional criou, em 1957, “um laboratório especializado para<br />

avaliação permanente de salubridade ambiental, após o resultado de um<br />

minucioso estudo ... (...) ..., sobre as condições de trabalho na CSN. Nesse<br />

estudo ficou evidente, pela primeira vez no Brasil, em siderúrgicas, casos de<br />

silicose e benzenismo, decorrentes das condições ambientais de trabalho” (56)<br />

122<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946<br />

(55) Ferreira Lima, H.:apud pag 388.<br />

(56) Souto, D.F.:apud, pg. 189


(57) Contratado pela Petrobras em 27 de abril<br />

de 1956<br />

Campanha “O Petróleo<br />

é Nosso”<br />

Já a Petrobrás foi buscar, no Ministério do Trabalho, o eng. antonio carlos<br />

Barbosa Teixeira, (57) para chefiar o recém criado Setor de Segurança industrial.<br />

criada pela lei nº 2.004 de 3 de outubro de 1953, com o objetivo de executar<br />

as atividades petrolíferas em nome da união, a Petrobrás foi resultado de<br />

uma forte campanha popular, iniciada em 1946, com o slogan “o Petróleo é<br />

nosso”. Suas atividades só iniciaram em 1954, ao herdar do conselho nacional<br />

do Petróleo as refinarias landulpho alves em Mataripe (Ba) e Presidente<br />

Bernardes em cubatão (SP), primeiro patrimônio da empresa.<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 123


Campanha “O Petróleo é Nosso”<br />

no final da década de 50, quando enfrentávamos uma série de problemas no<br />

volume de acidentes e de doenças profissionais decorrentes do crescimento do<br />

nosso parque industrial, sem um corpo de profissionais técnicos para enfrentálos,<br />

a organização internacional do Trabalho – oiT – aprovou na sua 43ª reunião,<br />

a recomendação 112 – Sobre os Serviços de Medicina do Trabalho. Por essa<br />

recomendação, definiu-se Serviço de Medicina do Trabalho como “um serviço<br />

organizado nos locais de trabalho ou em suas imediações, destinados a:<br />

a. assegurar a proteção dos trabalhadores contra todo risco que prejudique a<br />

sua saúde e que possa resultar do seu trabalho ou das condições em que esse<br />

se realize;<br />

124<br />

Refinaria Landulpho Alves – Mataripe/ Bahia<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946


(58) Recomendación 112 OIT, 1959 – tradução<br />

livre pela autora<br />

(59) SOUTO, D.F.:Apud, pag.188<br />

b. contribuir para a adaptação física e mental dos trabalhadores, em particular<br />

pela adequação do trabalho aos trabalhadores e pela colocação dos<br />

trabalhadores nos postos de trabalho correspondentes a suas aptidões;<br />

c. contribuir para o estabelecimento e a manutenção do nível mais elevado<br />

possível, do bem estar físico e mental dos trabalhadores.” (58)<br />

“Assim, a prática da Medicina do Trabalho seria exercida diretamente nas<br />

indústrias. Tal diretriz iria dar ao médico do trabalho uma grande força,<br />

própria da concepção positivista inerente ao exercício da medicina nos países<br />

ocidentais. Posteriormente, isso vai ser motivo de bastante contestação.” (59)<br />

no entanto, o item 4 desta recomendação aconselha que: “Para que todos<br />

os trabalhadores possam aproveitar os benefícios da medicina do trabalho,<br />

deveriam ser organizados serviços de medicina do trabalho nas empresas<br />

industriais, não industriais e agrícolas, assim como nos serviços públicos.<br />

entretanto, quando os serviços de medicina do trabalho não puderem se<br />

estabelecer imediatamente em todas as empresas, estes serviços deveriam<br />

organizar-se em primeiro lugar:<br />

a. nas empresas onde os riscos são geralmente mais importantes;<br />

b. nas empresas onde a saúde dos trabalhadores esteja exposta a riscos<br />

especiais e,<br />

c. nas empresas que empreguem um número de trabalhadores superior a um<br />

mínino fixado.”<br />

embora oficialmente o Brasil não tenha adotado esta recomendação, ela serviu<br />

de norte para o trabalho de várias equipes técnicas, que foram adotando seus<br />

parâmetros em seus trabalhos cotidianos.<br />

Capítulo II | 4. O Fim da Guerra e a Constituição de 1946 125


(60 ) Souto, D.F.:apud, pag.172.<br />

II.5. Os Profissionais da Segurança do<br />

Trabalho<br />

atendendo ao convite do Serviço especial de Saúde Pública (SeSP), para<br />

que avaliasse a realidade da questão ambiental da indústria brasileira e<br />

estabelecesse diretrizes gerais no campo da saúde pública, esteve no Brasil<br />

o eng. J.J. Bloomfield, chefe da divisão de higiene industrial do Serviço de<br />

Saúde Pública dos estados unidos. “Durante 4 meses – de junho a setembro<br />

de 1949 – Bloomfield teve a oportunidade de visitar e estudar grande número<br />

de estabelecimentos industriais, manter consultas freqüentes com membros<br />

do Ministério do Trabalho e realizar várias conferências ... Como resultado<br />

... (...) apresentou um farto relatório que incluiu uma série de observações e<br />

recomendações intituladas Problemas da higiene industrial no Brasil ... (...) ...<br />

Esse foi o primeiro relatório que se fez sobre a relação saúde e ambiente do<br />

trabalho no Brasil.<br />

Esse estudo deu margem a sérias considerações a respeito do desenvolvimento<br />

dos serviços de saúde e salubridade ambiental... (...) ... E mais, dele veio a<br />

constatação de que, embora houvesse uma legislação para assistir o<br />

trabalhador acidentado e incapacitado, pouco se fazia no sentido da prevenção<br />

das ocorrências ocupacionais, fosse originadas da falta de equipamentos<br />

adequados para avaliação de riscos, fossem por deficiência de preparo de<br />

recursos humanos. Também ressaltava a necessidade de criação de um serviço<br />

de higiene industrial acoplado a um órgão de saúde pública.” (60)<br />

diante da expansão do parque industrial, era grande a necessidade de<br />

profissionais aptos a responderem pelas questões próprias da engenharia<br />

de Segurança e da Medicina do Trabalho. embora, desde maio de 1944, o<br />

Ministério do Trabalho tenha criado os cargos de médico do trabalho e<br />

engenheiro de segurança, ainda não havia um curso que qualificasse esses<br />

profissionais. “Dizer que vivemos hoje no Brasil, as consequências de uma<br />

renovação industrial é repetir lugar comum, ... (...) ... a indústria desenvolve-se<br />

no país em ritmo incontrolável e para fazer face a esse crescimento não nos<br />

podemos socorrer de experiência que, por ventura, se houvesse acumulado<br />

Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 127


durante anos seguidos. Ao contrário, debatemo-nos a cada passo contra<br />

o espectro da inexperiência. A maioria daqueles que hoje dirigem as nossas<br />

indústrias, é forçoso confessar, poucos anos atrás, dedicavam-se a tarefas<br />

diversas daquelas de que hoje ocupam, E a nossa capacidade de improvisação<br />

dando os seus mais belos frutos.” (61)<br />

a necessidade de formação de pessoal técnico levou ao Ministério da Saúde<br />

a criar, junto a escola nacional de Saúde Pública, através do decreto nº 46.259,<br />

de 23 de junho de 1959, os seguintes cursos:<br />

i - cursos Básicos de Saúde Pública;<br />

ii - cursos de aperfeiçoamento e de especialização;<br />

iii - cursos para Técnicos auxiliares.<br />

o art. 3º deste decreto definia que “Os Cursos de que trata o item I, do<br />

art. anterior, destinam-se à formação profissional em higiene e saúde pública,<br />

compreendido:<br />

128<br />

a. Curso Básico de Saúde Pública para Médicos;<br />

b. Curso Básico de Saúde Pública para Engenheiros;<br />

c. Curso Básico de Saúde Pública para Enfermeiros.<br />

e, no seu art.18, definia o conteúdo programático desse curso, que “espelha<br />

a visão dominante, naquela ocasião, fruto da semente plantada no Brasil pelo<br />

Engenheiro J.J.Bloomfield – assistente chefe da Divisão de Higiene Industrial<br />

do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos e cultivada pela equipe do<br />

SESP (Serviço Especial de Saúde Pública)” (62) .<br />

a carga horária do curso Básico de Saúde Pública para engenheiros, realizado<br />

pela primeira vez em 1960, foi de 1.202 horas, assim divididas:<br />

Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho<br />

(61) Entrevista do Dr. Barbosa Teixeira ao Jornal<br />

do Commercio, Rio de janeiro, 20 de dezembro<br />

de 1959.<br />

(62) Lopes Netto, A.:apud pags 191-192


Curso Básico de Saúde Pública para Engenheiros<br />

Especialização: H I G I E N E I N D U S T R I A L<br />

Tópicos N° Horas Aula<br />

Química 98<br />

Microbiologia 73<br />

Biologia aplicada 52<br />

estatística aplicada 53<br />

Físico química 54<br />

Parasitologia 43<br />

epidemiologia e profilaxia 48<br />

Fisiologia humana 44<br />

Saneamento geral 70<br />

higiene das construções 29<br />

Fundamentos sócio-econômicos 17<br />

iluminação, ruído, ventilação e<br />

condicionamento de ar<br />

Prevenção de acidentes<br />

de trabalho<br />

educação sanitária 21<br />

administração geral<br />

e pública<br />

administração sanitária 37<br />

Toxicologia industrial 29<br />

analise do ar 51<br />

Poluição atmosférica 43<br />

controle de radiações 32<br />

estágio final 180<br />

CARGA HORáRIA TOTAl 1.202<br />

Fonte: lopes netto, a.:apud, pag.192<br />

Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 129<br />

133<br />

60<br />

35


“Preliminarmente, buscava-se nivelar os conhecimentos básicos dos engenheiros<br />

através da revisão de química, físico-química, biologia aplicada, microbiologia<br />

e estatística (num total de 330 horas).<br />

Observa-se pela leitura da grade transcrita que o enfoque principal do curso<br />

estava direcionado aos riscos inerentes ao trabalho e ao tratamento que lhes<br />

deveria ser conferido por profissionais qualificados(num total de 259 horas),<br />

conquanto não abordasse enfaticamente análise de riscos, nem tocasse<br />

em gerenciamento de risco, embora esse assunto fosse visto pela ótica da<br />

Administração Sanitária.<br />

O currículo do curso não objetivava atender à área de Prevenção e Combate<br />

a Incêndio, vez que, entendia o Ministério da Saúde, tal assunto fugiria aos<br />

objetivos do curso.” (63)<br />

esse curso, ministrado pela escola nacional de Saúde Pública, foi o início do<br />

processo formativo de profissionais para atuarem na área de saúde e segurança<br />

do trabalho.<br />

em 1961, o decreto 49.974, regulamentou,”sob a denominação de Código<br />

Nacional de Saúde, a Lei nº 2.312, de 3 de setembro de 1954, de normas gerais<br />

sobre defesa e proteção da saúde” e, definiu no art. 9° do capítulo 1 - notificação<br />

compulsória que “ art. 9º São objeto de notificação compulsória dos casos<br />

confirmados ou suspeitos das seguintes doenças: ... (...) .... e os infortúnios<br />

do trabalho”. e, no artigo 30° do capitulo iii: doenças não transmissíveis<br />

e acidentes pessoais, o decreto determinou que: “Art.30. O Ministério da<br />

Saúde estimulará, por todos os meios ao seu alcance, o desenvolvimento<br />

de atividades de saúde pública, paralelamente ao progresso da ciência e da<br />

técnica sanitária, visando ao controle de acidentes pessoais e de doenças que,<br />

por sua elevada incidência constituam problemas de interesse coletivo, (...)”.<br />

Desde 1949, o Ministério do Trabalho patrocinava os Congressos Nacionais de<br />

CIPAs. A partir de 1962, o Ministério do Trabalho transformou esses eventos<br />

nos Congressos Nacionais de Prevenção de Acidentes – CONPAT, reunindo<br />

profissionais e interessados nos temas de segurança do trabalho, salubridade<br />

ambiental e saúde do trabalhador.<br />

130<br />

Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho<br />

(63) Lopes Netto, A.:apud,pag.192.


(64) Souto, D.:apud, pags 215 e 216.<br />

Foi durante o V Congresso Nacional de Prevenção de Acidentes, realizado<br />

em São Paulo em 1966, que o Ministério do Trabalho anunciou a criação<br />

da FUNDACENTRO. “As iniciativas que nesse sentido já vinham desde<br />

1952, tomaram corpo, através das démarches encetadas pelo Dr. Bernanrdo<br />

Bedrikov, do SESI. Ele obteve a <strong>aqui</strong>escência da OIT para uma visita técnica<br />

ao Brasil, do engenheiro Isaac Cabrera, da Divisão de Segurança e Higiene<br />

do Trabalho daquela instituição, a fim de realizar estudos e levantamentos<br />

sobre as condições de trabalho nas indústrias paulistas. ... (...) ... A idéia<br />

básica era contar com uma entidade de direito privado, que teria por objetivo<br />

principal e genérico realizar estudos e pesquisas relacionados com problemas<br />

de Segurança, Salubridade Ambiental e Medicina do Trabalho de todas as<br />

categorias profissionais e, no seu mais amplo sentido, desaenvolver programas<br />

de treinamento de pessoal técnico. Sua manutenção viria de um percentual<br />

(1%) sobre o montante arrecadado pela contribuição ao seguro de acidente do<br />

trabalho. ... (...) ... Mas tarde, em abril de 1965, numa promoção do SESI, veio a<br />

Sâo Paulo, o Dr. Livio Costa – diretor do Centro Regional da OIT para a América<br />

Latina, com sede em Lima, Perú, encarregado de preparar os trabalhos a serem<br />

desenvolvidos pelo diretor da Divisão de Segurança e Higiene do Trabalho da<br />

OIT, Dr. Luigi Parmeggiani. Este fora convidado a vir ao Brasil, face o desejo<br />

do governo brasileiro ver <strong>aqui</strong> instalada uma organização dedicada ao estudo<br />

e à proposição de medidas que levassem a soluções nas questões de saúde e<br />

segurança do trabalho.<br />

Em maio de 1965, chegava a São Paulo a Missão Luigi Parmeggiani com<br />

a finalidade de avaliar as possibilidades de se instalar tal instituição. ... (...) ...<br />

Após várias reuniões das comissões ficou decidido que ... (...) ... fosse redigido<br />

um anteprojeto de Lei para que o Presidente da República pudesse encaminhar<br />

ao Congresso com a solicitação da necessária autorização para participar<br />

do empreendimento. Em 21 de outubro de 1966, o Congresso autorizou<br />

a instituição da FUNDACENTRO.” (64)<br />

“Desde 1960, o Governo Brasileiro mostrou-se interessado na vinda de um<br />

técnico da Organização Internacional do Trabalho – OIT, para estudar as<br />

condições de segurança e higiene do trabalho no país. Isso ocorreu e, em<br />

1962, foi recomendado pela OIT a criação de um Centro de investigação<br />

sobre Segurança e Saúde no Trabalho, que resultou no projeto de idealização<br />

da FUNDACENTRO, anunciado em 1966, durante o V Congresso Nacional de<br />

Prevenção de Acidentes. E, pela Lei 5.161, de 21 de outubro desse mesmo ano<br />

era criada a Fundação Centro Nacional de Segurançã, Higiene e Medicina (65)<br />

do Trabalho.” “Datam dessa fase inicial da entidade os primeiros estudos<br />

Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho 131


e pesquisas no País sobre os efeitos de inseticidas organoclorados na saúde; da<br />

bissinose (doença ocupacional respiratória que atinge trabalhadores do setor<br />

de fiação, expostos a poeira de algodão e juta); sobre as consequências das<br />

vibrações e ruídos em trabalhadores que operam marteletes; sobre o teor da<br />

sílica nos ambientes de trabalho na indústria cerâmica e ainda sobre os riscos<br />

da exposição ocupacional ao chumbo.” (66)<br />

a constituição, aprovada em 24 de janeiro de 1967, definiu as bases para<br />

a nova organização do estado governado pelos militares, centralizando na<br />

união os poderes e recursos do estado. o decreto 200, de 25 de fevereiro<br />

de 1967, que dispunha “... sobre a organização da Administração Federal,<br />

estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências”,<br />

no seu art. 35° do Título Vii – dos Ministérios e respectivas áreas de<br />

competência, unificou o Ministério do Trabalho e Previdência Social: “Art.<br />

35. Os Ministérios, de que são titulares Ministros de Estado (Art. 20), são os<br />

seguintes: ... (...) SETOR SOCIAL: ... (...) ... Ministério do Trabalho e Previdência<br />

Social ... (...) ...” e o decreto nº 69.014, de 4 de agosto de 1971, “Dispõe sobre<br />

a reorganização preliminar do Ministério do Trabalho e Previdência Social e dá<br />

outras providências, reestruturando o Ministério do Trabalho para assumir as<br />

funções exigidas pelo acelerado crescimento econômico do período.<br />

Um mês depois da promulgação da Carta Magna, em 28 de fevereiro de 1967<br />

foi emitido o Decreto 293, que dispunha “sobre os seguros de acidentes de<br />

trabalho” e sobre o Serviço de higiene do Trabalho, estabelecendo no Paragrafo<br />

Primeiro do seu artigo 3°, que: “§ 1º O INPS poderá operar o seguro contra os<br />

riscos de acidentes do trabalho, em regime de concorrência com as sociedades<br />

Seguradoras”. esse decreto vigorou por alguns meses e foi revogado pela lei<br />

5.316 de 14 de setembro de 1967 que integrou “... o seguro de acidentes do<br />

trabalho na previdência social, ...”, retirando-o da iniciativa privada, de acordo<br />

com o seu “Art. 1º O seguro obrigatório de acidentes do trabalho, de que trata<br />

o artigo 158, item XVII, da Constituição Federal, será realizado na previdência<br />

social”, restringiu o conceito de doença do trabalho, retirando desse, as<br />

doenças degenerativas e as inerentes a grupos etários. na alínea “d” do item<br />

“ii” do seu artigo 3°, introduziu o conceito de acidente de percurso: “Art. 3º<br />

132<br />

Capítulo II | 5. Os Profissionais da Segurança do Trabalho<br />

(65) http://www.fundacentro.gov.br/<br />

dominios/ctn/anexos/SemanaDaPesquisa/<br />

TrabalhosApresentadosNaFormaDePoster/<br />

Maria%20Margarida%20T%20M%20Lima_<br />

Resgate%20historico%20do%20papel%20<br />

da%20Fundacentro.<strong>pdf</strong>.<br />

(66) FUNDACENTRO, in http://www.<br />

fundacentro.gov.br/conteudoasp?D=CTN&C=<br />

23&menuAberto=1


Será também considerado acidente do trabalho: ... (...) ... II - o acidente sofrido<br />

pelo empregado, ainda que fora do local e horário de trabalho: ... (...) ... d)<br />

no percurso da residência para o trabalho ou deste para aquela”. determinou<br />

ainda, no seu artigo 13° que: “Art. 13. A previdência social manterá programas<br />

de prevenção de acidentes e de reabilitação profissional dos acidentados, e<br />

poderá auxiliar entidades não lucrativas que desenvolvam atividades dessa<br />

natureza, bem como de segurança, higiene e medicina do trabalho”.


(67) Souto, D.F.: apud, pag.172.<br />

(68) Em seu primeiro discurso depois de ser<br />

escolhido pelos militares, o próprio Médici<br />

disse que fora escolhido pelo Alto Comando<br />

porque era “capaz de manter as forças armadas<br />

unidas e trabalhando juntas em nome dos<br />

ideiais da Revolução de Março de 1964” in<br />

Skidmore:T.:apud, pag 211<br />

(69) Skidmore:apud pag 276. “(embora o<br />

número oficial de 15, 7% para 1973, como se<br />

admitiu depois, tenha sido uma atenuação da<br />

verdade) O Banco Mundial logo reagiu aos<br />

números manipulados da inflação oficial de<br />

1973 e fez sua própria estimativa de 22,5%, que<br />

se tornou amplamente usada no Brasil, embora<br />

a censura impedisse sua divulgação” Folha de<br />

São Paulo, 31 de julho de 1977 in Skidmore,<br />

T.:apud pag. 276<br />

II.6. A Fundação da SOBES<br />

no começo dos anos 70, os militares haviam buscado conter a inflação,<br />

com forte controle salarial e do déficit público, somado à regularização das<br />

relações financeiras internacionais. com um crescimento industrial estimulado<br />

pelos financiamentos externos, o estado brasileiro consolidava-se como uma<br />

superestrutura centralizada, complexa, procurando atuar de maneira sistêmica<br />

e hierarquizada sob o comando do Presidente da república (indicado pelos<br />

militares), e financiado pela elevação da poupança interna, tanto voluntária<br />

quanto compulsória (FgTS e PiS-PaSeP), pelo crédito externo facilitado, pelo<br />

rápido crescimento do Produto interno Bruto, com uma reforma tributária<br />

e maior eficiência e eficácia na arrecadação fiscal. a reorganização dos<br />

instrumentos fiscais foi acelerada pelo ato institucional n° 1, que havia dado ao<br />

Presidente da república a autorização exclusiva para propor leis aumentando<br />

as despesas. (67)<br />

emilio garrastazu Médici assumiu a presidência em outubro de 1969 (68) .<br />

a economia foi entregue a antonio delfim neto que, na primeira reunião<br />

ministerial de Médici, anunciou as 3 metas econômicas:<br />

1. de 8 a 9% de crescimento do PIB<br />

2. inflação abaixo de 20%<br />

3. acrescentar, pelo menos, US$ 100 milhões às reservas estrangeiras.<br />

“As três metas de Delfim foram amplamente alcançadas ... (...) ... O PIB subiu a<br />

média anual de 10,9% de 1968 a 1974. O setor líder foi a indústria, com 12,6%<br />

ao ano ... (...) ... a inflação ficou na média de 17% ... (...) ... Quanto as reservas<br />

subiram de US$ 656 milhões em 1969. para US$ 6.417 bilhões em 1973” (69) .<br />

esse cenário perdurou por todo o governo Médici e ficou conhecido como o<br />

Milagre Brasileiro. o setor industrial mais dinâmico foi o de veículos motorizados<br />

que cresceu à uma taxa anual de 34,5%. não foram pequenos os custos<br />

sociais decorrentes do rápido crescimento do PiB. a adoção desse modelo<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 135


econômico trouxe uma quantidade significativa de novos empreendimentos<br />

industriais para o país, sem maiores seleções quanto a qualidade dos<br />

investimentos que estavam ocorrendo e, se a economia cresceu de maneira<br />

inquestionável, ao mesmo tempo, as doenças profissionais e os acidentes de<br />

trabalho se agravaram. “Esse crescimento econômico, sem o concomitante<br />

desenvolvimento, teve como conseqüência uma crescente deterioração das<br />

condições de vida da maioria da população e uma concentração de renda<br />

para uma minoria... (...) ... Assim é que se formaram as grandes periferias<br />

urbanas, locais de moradia do trabalhador industrial. Era a contradição social.<br />

Havia trabalho, mas as condições de vida eram precárias.Um dos indicadores<br />

mais evidentes dessa deterioração da situação de vida dos trabalhadores era<br />

o aumento das doenças infecto-contagiosas e o aumento dos acidentes do<br />

trabalho ...” (70)<br />

nesse momento, o estado brasileiro consolidava-se como um importante<br />

agente de crescimento com a implantação da infra-estrutura necessária<br />

para o desenvolvimento do país. o crescimento industrial, estimulado pelos<br />

investimentos estrangeiros e pelo crédito facilitado, elevou o nível salarial na<br />

indústria aumentando o desnível com os outros setores produtivos, estimulou<br />

a migração rural para as cidades enfatizando a diferença entre as regiões. este<br />

quadro provocou um acentuado aumento das taxas de acidentes de trabalho.<br />

há citações de dados de quase 2 milhões de acidentes de trabalho anuais, para<br />

uma força de trabalho, inscrita no inPS, de 15 milhões.<br />

“Os prejuízos que os acidentes causavam à coletividade eram das mais variadas<br />

ordens, destacando-se em primeiro plano a redução do potencial humano em<br />

condições de produzir, a eventual perda de mão de obra especializada e escassa<br />

numa incipiente indústria dela carente, isso tudo concorrendo para o aumento<br />

do custo da produção e dos produtos exportáveis e, conseqüentemente, do<br />

custo de vida. Por sua vez. A partir de 1970, ia se generalizando, cada vem mais,<br />

a compreensão de que os problemas de saúde do trabalhador não podiam<br />

se ater unicamente aos locais de trabalho, e que o estilo e as condições de<br />

vida (habitação distante e precária, baixo nível de renda, padrões insuficientes<br />

de higiene pessoal e saneamento, alimentação inadequada, abuso de álcool<br />

e fumo, meios de transportes insuficientes ou mal planejados) podiam afetar,<br />

de modo imprevisível, tanto a resistência física como as respostas biológicas<br />

aos riscos profissionais representados pela enorme gama de situações<br />

anormais devidas aos agentes físicos, químicos e biológicos que contaminavam<br />

e tornavam inseguros os locais de trabalho, por condições originadas pelos<br />

processos de produção.” (71)<br />

136<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />

(70) Souto, D.: apud, pag. 202<br />

(71) Souto, D.:apud, pags 213 e 214.


(72) Souto, D.:apud, pags 213 e 214.<br />

BRASIL - ACIDENTES E DOENÇAS DO TRABALHO – 1970/1974<br />

ANO TRABAlHADORES<br />

SEGuRADOS<br />

ACIDENTES<br />

Típicos Trajetos<br />

DOENÇAS<br />

TOTAl DE<br />

ACIDENTES<br />

TOTAl DE<br />

ÓBITOS<br />

1970 7.284.022 1.199.672 14.502 5.937 1.220.111 2.232<br />

1971 7.553.472 1.308.335 18.138 4.050 1.330.523 2.587<br />

1972 8.148.987 1.479.318 23.389 2.016 1.504.723 2.854<br />

1973 10.956.956 1.602.517 28.395 1.784 1.632.696 3.173<br />

1974 11.537.024 1.756.649 38.273 1.839 1.796.761 3.883<br />

Fonte: Ministério da Previdência Social in Souto, d.: apud, pag.215<br />

nesse contexto, foi fundada, em 12 de julho de 1971, a Sociedade Brasileira de<br />

engenharia de Segurança, a SoBeS. a assembleia de fundação da entidade,<br />

realizada no auditório do vigésimo segundo andar do clube de engenharia,<br />

no centro da cidade do rio de Janeiro, foi presidida pelo eng. Plinio reis<br />

cantanhede, Presidente da associação Brasileira de normas Técnicas – aBnT.<br />

a Mesa dos trabalhos foi coordenada pelo eng. antonio carlos Barbosa Teixeira,<br />

chefe da assessoria de Segurança industrial da Petrobrás e presidente da<br />

comissão Permanente de Proteção contra incêndios da aBnT, acompanhado<br />

dos representantes do conselho Federal de engenharia, arquitetura<br />

e agronomia – conFea, eng. artur lopes da costa e eng. durval lobo, que<br />

representava, também, o clube de engenharia; do eng. eryx albert Sholl, vicepresidente<br />

da comissão Permanente de Proteção contra incêndios da aBnT.<br />

“A SOBES veio como uma ideia de dentro da Associação Brasileira de Normas<br />

Técnicas (ABNT), que percebia a necessidade de se criar uma entidade<br />

associativa que batalhasse pela defesa da integridade do elemento humano<br />

no trabalho e como garantia de continuidade do processo produtivo face aos<br />

acidentes e também de defesa dos interesses comuns dos engenheiros de<br />

segurança.” (72)<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 137


na assembleia de Fundação da entidade, foram debatidos os seguintes<br />

assuntos:<br />

1. “Para a integridade do elemento humano e como garantia da<br />

continuidade da produção, existem técnicos das mais variadas áreas<br />

profissionais, realizando trabalhos de Engenharia de Segurança.<br />

Tal situação reclama congraçamento de todos os que se dedicam as<br />

atividades deste (sic) campo de Engenharia. Certa falta de objetividade<br />

tem vencido os esforços até o momento para a criação de uma entidade<br />

que trate dos interesses comuns;<br />

2. Vindo ao encontro dos anseios desta iniciativa, membros da<br />

subcomissão de instalações fixas da CPPI, da ABNT, levantaram<br />

problemas relativos as consequências de seu trabalho, indagavam a<br />

respeito de quem garantiria as indústrias, inclusive as participantes da<br />

referida subcomissão , que o preço de seus serviços, computadas as<br />

despesas com a obediência a normalização, não seria vencido pelos<br />

concorrentes menos escrupulosos, despreocupados com a observância<br />

de tais normas;<br />

3.<br />

4.<br />

138<br />

Outro aspecto mais antigo deste problema de fiscalização diz respeito<br />

aos projetos de engenharia que até hoje são submetidos a entidades<br />

estrangeiras para serem examinados na parte relativa a segurança. Tais<br />

entidades, por vezes, transferem este trabalho a engenheiros brasileiros.<br />

Estas organizações, assumindo a responsabilidade da aprovação,<br />

recebem o pagamento destes serviços, acarretando prejuízo para<br />

a Engenharia Nacional e perda de interesse para os nossos profissionais;<br />

A convocação dos presentes à reunião visou a obtenção de apoio<br />

e da colaboração das entidades mais representativas em seu setor de<br />

atividades e buscou atender aos maiores interessados nos problemas<br />

em discussão. O comparecimento, por exemplo, de alguns dos mais<br />

importantes órgãos da classe dos engenheiros, deve-se ao trato de<br />

problemas profissionais; no caso dos institutos de tecnologia, será de<br />

alta valia a utilização de seus laboratórios, enquanto a entidade que se<br />

pretende criar não puder dispor de recursos suficientes. Torna-se fácil<br />

deduzir-se, enfim, quais as razões consideradas na convocação de cada<br />

um dos participantes;<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES


5.<br />

Na caracterização do interesse comum, caso se chegue a uma<br />

conclusão positiva, o caminho a propor será, talvez, o de constituir um<br />

Grupo de Trabalho para elaborar um projeto de Estatutos que, uma<br />

vez preparado, seria discutido em nova reunião plenária. Para o debate<br />

desta proposição, o coordenador e expositor, consulta (sic) o plenário<br />

e, por meio da presidência faz apelo no sentido de que todos se<br />

empenhem na busca do denominador comum, esquecendo problemas<br />

de menor significado para o momento;<br />

6. Atendendo às manifestações ... (...) ... que, louvando e apoiando a<br />

iniciativa pediram maiores esclarecimentos, o Eng. A. C. Barbosa<br />

Teixeira leu algumas notas a respeito das origens e do desenvolvimento<br />

da idéia de congregar os que trabalham em Engenharia de Segurança....<br />

(...) ... Entre as especialidades surgidas no campo da Engenharia, em<br />

decorrência da revolução industrial, é de destacar-se a do Engenheiro<br />

de Segurança ou como preferem outros, o Engenheiro de Segurança<br />

Industrial. Acontece que, embora sejam as tarefas porque se<br />

responsabilizam os técnicos do campo da Engenharia de Segurança<br />

de extensão e complexidade que não só se justificam, como também<br />

exigem regulamentação e formação adequadas, até hoje, a legislação<br />

nacional não tratou o assunto como o devido interesse , a despeito<br />

de iniciativas diversas, mostrando equacionar-se o problema em termos<br />

de uma situação de fato merecedora de cobertura legal apropriada.<br />

Assim é que, em novembro de 1959, já recomendava o (sic) Seminário<br />

Universidade Indústria, reunido em Quitandinha, a criação de cursos<br />

de pós-graduação para engenheiros de segurança. Em 1967, oito<br />

anos depois, portanto, realizava a PETROBRÀS o seu primeiro curso<br />

de formação complementar, com duração de onze meses seguidos,<br />

estando os engenheiros aprovados, desempenhando desde aquela<br />

época e de maneira exclusiva, funções de engenheiro de segurança.<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 139


140<br />

Aliás, já é grande o número de empresas do país que não poderiam<br />

dispensar os engenheiros que nelas se dedicam à engenharia de<br />

segurança sem alterar significativamente a sua produtividade.<br />

Conscientes da importância das tarefas que desempenham, após<br />

reunirem-se em 1969, na Comissão de Engenharia de Segurança da<br />

ABPA, estão, no momento, pensando na criação de uma Sociedade<br />

Brasileira de Engenharia de Segurança, que tem (sic) por uma de suas<br />

finalidades (uma, não apenas esta) difundir os problemas de Engenharia<br />

de Segurança, tornando clara a área de sua competência. Cabe <strong>aqui</strong><br />

lembrar que a falta de tal definição sente-se até na legislação especifica,<br />

uma vez que o Decreto Lei 389/68, que atribui funções a engenheiros<br />

devidamente habilitados em questões de segurança do trabalho, não<br />

define, contudo a forma pela qual se realizaria tal habilitação. É de<br />

considerar-se que as múltiplas atribuições distribuídas a engenheiros<br />

que funcionam de fato em atividades de engenharia de segurança<br />

industrial justificam plenamente a criação da profissão de Engenheiro<br />

de Segurança Industrial, primeiro passo para a criação de sistema<br />

de formação apropriado e não se pode esquecer, nessa altura, que<br />

a figura do Engenheiro de Segurança existe há mais de 20 (vinte) anos<br />

no Ministério do Trabalho. Cumpre finalmente, assinalar a necessidade<br />

de atribuir-se especificamente a profissionais filiados (sic) aos Conselhos<br />

Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia o exercício das<br />

atribuições de Engenheiro de Segurança, para que sobre ela se exerça<br />

a necessária fiscalização do órgão profissional. ... (...) ...;<br />

7. Por último, são (sic) enumerados alguns exemplos das atividades que<br />

poderão definir o campo de Engenharia de Segurança: instalações de<br />

sistemas de proteção industrial, obras relativas ao controle de ruído<br />

e vibrações (evidentemente, não se pretende <strong>aqui</strong> ficar com o privilégio<br />

das obras relativas a ruídos e vibrações), instalações de sistemas de<br />

ventilação industrial, destinadas ao controle do ambiente de trabalho<br />

e de poluição atmosférica, instalações dos sistemas de iluminação dos<br />

ambientes de trabalho, obras de instalação de controle de conforto<br />

térmico nos locais de trabalho, obras de instalação de tratamento<br />

de despejos industriais, obras e instalações de sistema de proteção<br />

contra incêndios, obras e instalações para controle de dispersóides<br />

atmosféricos, estudos, projetos, especificações de equipamentos de<br />

proteção industrial e coletiva, estudos, projetos e especificações de<br />

instalações para manipulação e armazenagem de substâncias perigosas<br />

e funcionamento de equipamentos que apresentem riscos especiais.<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES


(73) Livro de Atas da SOBES, Ata de Fundação.,<br />

pags 2 a 7. A Ata de Fundação foi lavrada<br />

pelo Secretário “ad hoc” da Assembléia,<br />

Júlio Rogério Rodrigues de Souza e pelo Eng.<br />

Antonio Carlos Barbosa Teixeira.<br />

Assim, também, estudos dessa natureza com relação a controle de<br />

radiações perigosas, estudos de planos de ação para emergências<br />

ou catástrofes e delimitação de áreas de periculosidade. Estudos de<br />

planos e especificações de equipamentos industriais, do ponto de<br />

vista da ergonomia, direção de órgãos de segurança de empresas<br />

industriais de grande porte, com atividades enquadradas nas atividades<br />

anteriores, pericias, vistorias, exames, inspeções, pareceres, etc. ... (...)<br />

.... Terminados os debates são (sic) formulados os termos definitivos<br />

as propostas a serem votadas: a criação da entidade e a constituição<br />

de um grupo de trabalho a ser composto por representantes das áreas<br />

que detêm a maior responsabilidade em opinar sobre a Engenharia de<br />

Segurança. Tal Grupo será incumbido de elaborar, no prazo de vinte<br />

dias, o projeto de estatutos da referida entidade. Em votação os órgãos<br />

seguintes: ABNT, CONFEA, Clube de Engenharia, INT, IRB, Corpo de<br />

Bombeiros, ABIEX, FENASEG e Eng. Sholl como representante da área<br />

de engenharia de incêndio. ...(...)...” (73)<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 141


em 18 de novembro de 1971, foi realizada a reunião Plenária de aprovação<br />

dos estatutos da SoBeS, no auditório do vigésimo segundo andar do clube<br />

de engenharia, sob a presidência do eng. antonio carlos Barbosa Teixeira.<br />

na pauta, além da discussão e aprovação dos estatutos da entidade, havia<br />

a eleição da diretoria Provisória, “para reger os destinos da SoBeS até<br />

a aprovação do mencionado regimento”, tendo como atribuições:<br />

a. Elaborar, no prazo de cento e oitenta dias, o projeto de Regimento Interno, a ser<br />

aprovado pelo Conselho Diretor, na forma do artigo 41;<br />

b. Convocar, findo o prazo acima, a Assembléia Geral Extraordinária, para eleição<br />

e posse da nova Diretoria e do Conselho Diretor;<br />

c. Reger os destinos da Sociedade até a posse prevista na alínea “b” do artigo<br />

46 (75) ;<br />

o técnico de Segurança romeu oscar Pretz, do grupo industrial itaú propôs<br />

a seguinte chapa: Presidente: eng. antonio carlos Barbosa Teixeira (75) ; Vice-<br />

Presidente: eng. durval lobo (76) ; 1° Secretário: eng. eryx albert Sholl (77) ; 2°<br />

Secretário: arquiteto ary Bolsas (78) ; Tesoureiro: eng. loris de Souza (79) .<br />

o eng. Barbosa Teixeira sugeriu que outro nome menos comprometido com<br />

a ideia inicial deveria ser indicado para o cargo de Presidente. não havendo<br />

outra indicação, a Mesa declarou aberto o processo de votação. a chapa<br />

indicada foi eleita por unanimidade, com abstenção dos indicados para os<br />

diferentes cargos.<br />

durante a reunião Plenária, ainda foram abordados alguns pontos que<br />

precisavam da aprovação do Plenário, dos quais destacamos (80) :<br />

1. Proposta do eng. roberto nogueira de gusmão (81) : diante da possibilidade<br />

de ser firmado um convênio entre a SoBeS e a aBnT, para a elaboração de<br />

normas de Segurança, coloca a disposição da SoBeS os recursos técnicos<br />

do irB e da Fundação escola nacional de Seguros, entidade recentemente<br />

criada, mas já em funcionamento;<br />

2. Pedido de esclarecimentos do almirante luiz antonio Medeiros (82) : sobre<br />

a participação de sócios não registrados nos conselhos de engenharia,<br />

arquitetura e agronomia (83) ;<br />

142<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />

(74) Ata da Reunião Plenária para aprovação<br />

dos Estatutos<br />

(75) Da Petrobrás, ABNT e ABPA<br />

(76) Do CONFEA e do Clube de Engenharia<br />

(77) Consultor de Engenharia de incêndio<br />

(78) Do DNSHT do Ministério do Trabalho<br />

e Previdência Social.<br />

(79) Eletrobrás e da ABPA.<br />

(80) A redação desses pontos foi retirada da<br />

Ata e adaptada ao texto, sem perda do seu<br />

sentido, pela autora.<br />

(81) Representando o Instituto de Resseguros<br />

do Brasil - IRB<br />

(82) Representante da Walter Nidde<br />

(83) A Mesa informou que a fórmula encontrada<br />

para a participação de sócios não registrados<br />

nos CREAs atesta o interesse em congregar<br />

todos os que se dedicam as atividades ligadas a<br />

Engenharia de Segurança.


(84) “A Presidência da Mesa definiu a<br />

expressão Engenharia de Segurança,<br />

englobando toda a atividade de Engenharia<br />

que vise à preservação do elemento humano e<br />

à continuidade da produção.”<br />

(85) Representante do Sindicato das Indústrias<br />

Automobilísticas., o segundo, representando<br />

também a Wolkswagen e o terceiro a Ford<br />

Willys.<br />

(86) A Mesa fez uma retrospectiva da<br />

correspondência expedida pelo GT através da<br />

qual a proposta de Estatutos foi submetida<br />

duas vezes a consulta para as necessárias<br />

sugestões.<br />

3. Proposta do eng. claus Matrowitz: no sentido de se incluir a palavra<br />

“industrial” no título da Sociedade, ficando Sociedade Brasileira de<br />

engenharia de Segurança industrial (84) ;<br />

4. Pedido de adiamento da votação do Sr. adalberto Matias Beck, eng. claus<br />

Matrowitz e Sr. Paulo Salomão (85) : alegando insuficiência de tempo para<br />

que suas entidades pudessem emitir opinião (86) .<br />

5. Proposta do eng. loris de Souza, após sua eleição para o cargo de<br />

Tesoureiro: seja instituída uma contribuição destinada ao custeio de<br />

pequenas despesas que correrão no período.Foi aprovada uma contribuição<br />

inicial, apenas para pessoas físicas, no valor de cr$ 100,00 (cem cruzeiros);<br />

a ata dessa reunião Plenária foi lavrada pelo 1° Secretário eleito, eng. eryx<br />

Sholl, e pelo Presidente, eng. Barbosa Teixeira.<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 143


a primeira diretoria efetiva da SoBeS foi eleita pela assembleia geral<br />

extraordinária, realizada as nove horas do dia 15 de setembro de mil<br />

novecentos e setenta e dois, no auditório do vigésimo segundo andar do clube<br />

de engenharia. convocada segundo a alínea “b” do artigo 46 dos estatutos,<br />

a assembleia deveria eleger a diretoria e o conselho diretor e dar posse aos<br />

novos dirigentes. após abrir os trabalhos, o eng. Barbosa Teixeira, na qualidade<br />

de Presidente da diretoria Provisória, fez um balanço das atividades realizadas,<br />

solicitando que a assembleia aprovasse a extensão do prazo de cento<br />

e oitenta dias, previsto nas disposições transitórias dos estatutos, uma vez que<br />

o mesmo havia ocorrido independente dos esforços e a “despeito da diligência<br />

com que todos os membros da Diretoria procuraram desincumbir-se de suas<br />

obrigações”. a prorrogação desses cento e oitenta dias, se refletiria no início<br />

do mandato da nova diretoria e por esse motivo deveria ser homologada pela<br />

assembleia afim de não prejudicar o tempo de mandato dos novos eleitos.<br />

a assembleia aprovou a prorrogação do prazo e o mandato que se iniciaria<br />

naquele dia seria de setembro/72 a agosto/74.<br />

constavam do relatório as seguintes atividades:<br />

1. registro dos estatutos no registro civil de Pessoas Jurídicas<br />

e publicação no diário oficial de 8 de janeiro de 1972;<br />

2. elaboração do regimento interno;<br />

3. emissão de cento e vinte e duas cartas e quatro circulares;<br />

4. Solicitação de afiliação a Federação de associações de engenharia<br />

– FeBrae;<br />

5. colaboração da SoBeS com o dnhST na elaboração do Projeto<br />

Ministerial que estabelecia a obrigatoriedade dos Serviços<br />

especializados em higiene, Segurança e Medicina do Trabalho;<br />

6. realização de contatos com o dnhST, FundacenTro, aBPa,<br />

instituto Brasileiro de Segurança e liga Brasileira contra os acidentes<br />

do Trabalho, no sentido de contribuir para estabelecer as bases de<br />

formação do pessoal especializado no campo da engenharia de<br />

Segurança;<br />

144<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES


7. colaboração com a aBnT na reformulação da norma Brasileira de<br />

cadastro de acidentes (nB-18);<br />

8. encaminhamento de contatos com a aBnT, visando à assinatura de<br />

um convênio para a normalização em assuntos da engenharia de<br />

Segurança;<br />

9. colaboração com o conFea, oferecendo subsídios para o<br />

anteprojeto de resolução que trata do registro de entidades<br />

profissionais;<br />

10. contatos com os corpos de Bombeiros da guanabara, São Paulo,<br />

aBc (SP) e Belo horizonte no sentido de assegurar a colaboração<br />

da SoBeS a essas entidades no que se refere à engenharia de<br />

Segurança;<br />

11. contato com a national Fire Protection association para colaboração;<br />

12. Fundação dos dois primeiros departamentos regionais da SoBeS: o<br />

primeiro no rio grande do Sul e o segundo no Paraná;<br />

13. Parceria com a Sociedade de engenharia do rio grande do Sul para<br />

utilizar suas instalações;<br />

14. realizou contatos com São Paulo, Minas gerais e espirito Santo para<br />

instalar departamentos regionais;<br />

15. Participação na 7ª convenção nacional de engenharia, em curitiba,<br />

dias 12 a 18 de agosto de 1972;<br />

16. Participação na 31ª convenção dos Presidentes de ciPas, realizada<br />

em Taubaté, dia 25 de maio de 1972;<br />

17. elaboração de cadastro contendo mais de 500 interessados em<br />

engenharia de Segurança;<br />

18. impressão e distribuição de dois mil exemplares da Portaria 3237/72;<br />

19. distribuição do “informativo SoBeS”, em 12 de setembro de 1972;<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 145


20. exibição, em parceria com o departamento Técnico do clube de<br />

engenharia do filme do incêndio do edifício andraus, em São Paulo,<br />

com debate sobre o acidente;<br />

após a apresentação do relatório de atividades, iniciou-se o processo de<br />

votação. Foram designados como escrutinadores: os engenheiros Jacy<br />

Palmeira e Suemi Soares Mascaranhas. realizada a apuração dos votos, foram<br />

eleitos para a 1ª diretoria da entidade:<br />

Presidente: eng. antonio carlos Barbosa Teixeira;<br />

Vice-Presidente: eng. durval lobo;<br />

1° Secretário: eng. eryx albert Sholl,<br />

2° Secretário: arquiteto ary Bolsas;<br />

Tesoureiro: eng. loris de Souza<br />

e para o conselho diretor:<br />

efetivos: aimone camardella, herrmann Wellisch neto, l.a.Palhano Pedroso<br />

e José Silvério Barbosa.<br />

Suplentes: armando Flores cabral, nelson Baraúna Moreira, décio germano<br />

Pereira e Thomé ignácio Botelho.<br />

os eleitos presentes foram empossados e lavraram a ata o 1° Secretário eleito,<br />

eng. eryx albert Sholl e o Presidente eng.antonio carlos Barbosa Teixeira.<br />

<strong>aqui</strong>, cabe uma menção especial a participação da SoBeS na elaboração<br />

da Portaria 3237/72.<br />

o decreto nº 229, de 28 de dezembro de 1967, considerando “a necessidade<br />

imperiosa da adaptação de diversos dispositivos da Consolidação das Leis<br />

do Trabalho às alterações decorrentes de recentes modificações de ordem<br />

administrativa no Ministério do Trabalho e Previdência Social; considerando o<br />

mesmo imperativo com relação a outros dispositivos de ordem processual ou<br />

atinentes à matéria de interesse da Segurança Nacional, seja pela sua própria<br />

natureza, seja pelas suas repercussões econômico-sociais, ... Altera dispositivos<br />

146<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES


da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-lei nº 5.452, de<br />

1º de maio de 1943, e dá outras providencias “ e determina no seu artigo 164:<br />

“Art. 164. As empresas que, a critério da autoridade competente em matéria<br />

de segurança e higiene do trabalho, estiverem enquadradas em condições<br />

estabelecidas nas normas expedidas pelo Departamento de Segurança<br />

e Higiene do Trabalho, deverão manter, obrigatóriamente, serviço especializado<br />

em segurança e em higiene do trabalho e constituir Comissões Internas de<br />

Prevenção de Acidentes (CIPAs).<br />

§ 1º O Departamento Nacional de Segurança e Higiene do Trabalho<br />

definirá as características do pessoal especializado em segurança e higiene<br />

do trabalho, quanto às atribuições, à qualificação e à proporção relacionada<br />

ao número de empregados das empresas compreendidas no presente<br />

artigo ...”<br />

Para consensuar qual seria a melhor estrutura a ser adotada para a implantação<br />

desses Serviços, reuniram-se no departamento nacional de Saúde e higiene<br />

do Trabalho (dnShT), empresários, lideranças sindicais, representantes<br />

de entidades técnicas. o dnShT coordenou os trabalhos e consolidou as<br />

propostas existentes, inclusive as provenientes da FundacenTro, o que<br />

permitiu que no início dos anos ’70, o Ministério do Trabalho tivesse uma idéia<br />

do que poderiam vir a se constituir esses Serviços.<br />

em 11 de julho de 1972, o eng. antonio carlos Barbosa Teixeira, em nome da<br />

SoBeS, apresentou ao dnShT, através de correspondência ao seu diretor, eng.<br />

José de Faria Pereira de Souza, o Parecer em que dimensionava os Serviços<br />

determinados pelo decreto 229/67, vinculando o número de trabalhadores da<br />

empresa com o grau de risco de suas atividades. esse Parecer serviu de base<br />

para o texto da Portaria 3237 do Ministério do Trabalho, de 17 de julho de 1972,<br />

que estabeleceu a obrigatoriedade da existência do Serviço especializado em<br />

Segurança, higiene e Medicina do Trabalho, cujo dimensionamento atendeu<br />

a proposta da SoBeS.<br />

essa Portaria estabeleceu, ainda, que:<br />

“Compete a esse Ministério através do Departamento Nacional de Higiene<br />

e Saúde do Trabalho (DNHST) definir a característica do pessoal especializado<br />

em segurança, higiene e medicina do trabalho quanto as atribuições,<br />

a qualificação e a proporção relacionada ao número de empregados ... (...) ...<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 147


Art. 1. Os estabelecimentos que se enquadrem nas condições determinadas<br />

nessa Portaria deverão manter obrigatoriamente, além das Comissões Internas<br />

de Prevenção de Acidentes - CIPAS, serviço especializado em segurança,<br />

higiene e medicina do trabalho.<br />

Art. 5º:. São considerados Engenheiros de Segurança do Trabalho ... (...) ...<br />

I. conclusão do curso de especialização em Engenharia de Segurança do<br />

Trabalho ou Higiene Industrial ministrado por universidade ou instituição<br />

especializada, reconhecida e autorizada com currículos aprovados pelo<br />

Ministério do Trabalho e Previdência Social.<br />

Art. 7°: São considerados Inspetores de Segurança do Trabalho, para os fins<br />

dessa Portaria, aqueles que comprovem uma das seguintes condições:<br />

I. conclusão do curso de habilitação profissional (ensino de 2º grau) de<br />

inspetor de segurança do trabalho, realizado em entidades nacionais<br />

especializadas, reconhecidas e autorizadas com currículos aprovados pelo<br />

Ministério do Trabalho e Previdência Social;<br />

II. conclusão, até 31 de dezembro de 1974, do ensino de primeiro grau<br />

e de curso intensivo de qualificação profissional para Inspetor de Segurança<br />

do Trabalho com carga horário mínima de 120hs, com currículo aprovado<br />

pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social, até 30 de junho de 1974;<br />

III. exercício na data da publicação dessa Portaria de cinco ou mais anos<br />

de atividades na área de segurança do trabalho ou segurança industrial;”<br />

Por essa Portaria, o Ministério do Trabalho e Previdência Social era<br />

o responsável pela formação e pelo registro dos profissionais que atuavam na<br />

área de segurança do trabalho, bem como pela fiscalização do seu exercício<br />

profissional.<br />

“Para o enquadramento do grau de risco foi adotada a Classificação Nacional<br />

de Atividades Econômicas (CNAE), que era empregada pelo Ministério da<br />

Fazenda para o estabelecimento das taxas de seguro nas transações comerciais<br />

148<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />

(87) Souto, D.F.: apud, pag 222


(88) Barbosa Teixeira, A.C.: apud<br />

(89) Souto, D.F.: apud, pag222 e 223<br />

e alfandegárias. ...(...) ... a premência do tempo não permitia a confecção de uma<br />

mais adaptada à situação que se apresentava. Confeccionar uma listagem de<br />

graus de risco era um trabalho técnico demorado, que envolvia uma cuidadosa<br />

pesquisa epidemiológica e um apurado estudo atuarial e não se podia perder<br />

essa oportunidade de fazer as mudanças que eram necessárias. ...” (87)<br />

“ O SERVIÇO ESPECIAlIZADO<br />

Passaremos a tratar da legislação que surgiu em decorrência do estabelecido<br />

na Portaria nº 3237/72 do então Ministério do Trabalho e Previdência Social.<br />

Inicialmente, gostaríamos de lembrar que, em outubro de 1972, durante<br />

a realização do 11º CONPAT, em Curitiba, representantes das entidades<br />

e empresas abaixo relacionadas discutiram a necessidade de elevar a carga<br />

horária prevista para os cursos de especialização em engenharia de segurança<br />

e em medicina do trabalho, fixando-a em um mínimo de 360 horas, com o que<br />

concordaram os representantes do DNSHT e da FUNDACENTRO. Estiveram<br />

presentes as seguintes entidades e empresas: DNSHT, FUNDACENTRO,<br />

SOBES, ABPA, INPS, UFP, SENAI, COHISI DO SESI, PETROBRÁS, IBM, GM, VW,<br />

ANTARCTICA e FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO PARANÁ. Foi um primeiro<br />

passo para o aperfeiçoamento do preparo dos profissionais a serem utilizados.<br />

Logo depois o assunto foi reestudado, como veremos adiante, sendo fixado, no<br />

caso da engenharia de segurança, a carga horária mínima de 600 horas (Parecer<br />

19/87, do Conselho Federal de Educação). Acontece que a Portaria 3237 previa<br />

a existência de especialistas, dava a competência das áreas em que agiriam,<br />

mas não fixava a forma pela qual seriam especializados.” (88)<br />

“... (...) ... as atribuições dos profissionais ficariam divididas em duas áreas<br />

distintas, uma relativa aos assuntos referentes à agressividade do ambiente<br />

e seus equipamentos e outra aos assuntos relacionados com os efeitos dessa<br />

agressividade sobre o organismo humano. o cuidado com que foi redigida<br />

a Portaria (sob a supervisão do presidente da SoBeS, engenheiro antonio<br />

carlos Barbosa Teixeira) resultou, sem dúvida, em benefícios para aceitação<br />

das novas diretrizes.... (...) ... Por meio da fixação das atribuições das áreas de<br />

engenharia e da medicina criaram-se as condições para a obrigatoriedade dos<br />

serviços especializados na empresas, a qualificação dos profissionais tanto de<br />

nível superior como de nível médio e, o que era a diretriz reinante na época,<br />

a proibição da utilização de serviços terceirizados para o atendimentos dessas<br />

atividades. essa Portaria foi a base para a elaboração e a promulgação da lei<br />

n° 6.514 em 1977, que criou toda a estrutura até hoje vigente sobre a prática<br />

da Segurança e da Medicina do Trabalho.” (89)<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 149


a SoBeS promoveu um intenso debate sobre a qualificação necessária para<br />

que os profissionais pudessem exercer com qualidade suas atribuições.<br />

“Promoveu, então, a SOBES, no Clube de Engenharia, a reunião das entidades<br />

ligadas à Prevenção de Acidentes, com o fim de estabelecer as bases da<br />

especialização desejada. Era a primeira vez que essas entidades se reuniam<br />

para discutir problemas de interesse comum. Além de cuidar do preparo dos<br />

profissionais previstos na Portaria que analisamos, caberia realizar estudos para<br />

homogenizar os seus ditames com a legislação regulamentadora do exercício<br />

da engenharia, arquitetura e agronomia. Esses estudos foram realizados pela<br />

SOBES e serviram de base ao projeto de lei que, apresentado no Senado pelo<br />

Eng.º Saturnino Braga dispunha a respeito da especialização de Engenheiros<br />

e Arquitetos em Engenharia de Segurança do Trabalho e da profissão de Técnico<br />

de Segurança do Trabalho.... (...) ... Antes de entrar no comentário dessas<br />

e outras medidas regulamentadoras que se seguiram é importante lembrar que,<br />

em julho de 1977, a SOBES, a convite do Ministério do Trabalho compareceu<br />

ao Departamento de Assuntos Universitários do MEC, com o fim de discutir<br />

o ensino de tópicos relativos à Engenharia de Segurança nos currículos plenos<br />

de Engenharia. O programa então proposto, aprovado pelo Conselho Federal<br />

de Educação, contribuiu de maneira muito positiva para esclarecer concluintes<br />

de cursos das várias modalidades de engenharia a respeito dos objetivos dessa<br />

especialização. Nunca é demais insistir na importância de tal providência, uma<br />

vez que, devendo a engenharia de segurança desenvolver suas atividades pelo<br />

contato com engenheiros de diversas modalidades e faltando-lhe tradição para<br />

ser aceita com entusiasmo pelas áreas que deve assessorar do ponto de vista<br />

da defesa do elemento humano, é de aplaudir qualquer iniciativa que viesse<br />

a esclarecer a importância de sua contribuição.” (90)<br />

em 28 de março de mil novecentos e setenta e três, realizou-se a assembleia<br />

geral extraordinária “a fim de serem submetidas aos associados presentes,<br />

alterações a serem feitas nesse Estatuto, com a finalidade de aprovação do<br />

Regimento Interno. Tais alterações constaram, principalmente, da modificação<br />

de denominação dos órgãos regionais e técnicos, de modo a melhor distinguilos,<br />

da alteração do número de componentes da Diretoria e de dar ao 2°<br />

Secretário a atribuição de substituir o Tesoureiro nos seus impedimentos legais,<br />

sendo as seguintes ...(...)... Art.13° “ ... na sede e Departamentos Regionais ...”<br />

por “ ... na sede e Escritórios Regionais ...” (91)<br />

na assembleia geral ordinária, de 14 de agosto de mil novecentos e setenta<br />

e quatro, a SoBeS elegeu sua 2ª diretoria. encontramos nas atas das<br />

assembleias ordinárias, o tema da regulamentação profissional recorrente<br />

150<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />

(90) Barbosa Teixeira, A.C.: apud<br />

(91) Livro de Atas da SOBES pags. 014 a 017


(92) Skidmore, T.: Brasil: de Castelo a Tancredo,<br />

São Paulo, Paz e Terra, 4ª Ed., 1992, pag. 195<br />

e 196.<br />

(93) III° Plano Nacional de Desenvolvimento:<br />

1980-1986, elaborado na segunda metade de<br />

1979 e aprovado pelo Congresso em maio de<br />

1980.<br />

como item de debate do Plenário nesse período. era preocupação, também,<br />

a definição do logo da entidade e a constituição de um grupo de trabalho para<br />

a criação dos departamentos Técnicos.<br />

a terceira diretoria da entidade foi eleita na assembleia geral ordinária do dia<br />

16 de agosto de mil novecentos e setenta e seis, tendo sido eleita, também,<br />

a diretoria do escritório regional do rio de Janeiro.<br />

Tomava corpo, entre os profissionais que atuavam na área, a necessidade<br />

da regulamentação da profissão. a SoBeS promovia esse debate em todos<br />

os espaços onde havia a oportunidade. a sociedade brasileira vivia uma<br />

reorganização social e política, com a desativação dos elementos básicos<br />

da estrutura autoritária e a revogação do ato institucional n°5 de 1968,<br />

que extinguiu “... (...)... a autoridade presidencial de declarar o congresso<br />

em recesso, cassar parlamentares e/ou privar os cidadãos de seus direitos<br />

políticos. o habeas corpus foi restabelecido para as pessoas detidas por<br />

motivos políticos, a censura prévia suspensa para o rádio e a televisão e as<br />

penas de morte e prisão perpétua abolidas. a independência do Judiciário<br />

foi restaurada (92) ...(...)...”o processo de anistia respondia a uma reivindicação<br />

popular, o comitê Brasileiro pela anistia, apresentou ao governo e a sociedade<br />

um “Programa Mínimo de ação” para restaurar as condições básicas para o<br />

exercício da democracia.<br />

no plano econômico, o principal ministro era Mario henrique Simonsen e, em<br />

seu discurso de posse, o novo presidente João Batista Figueiredo comprometeuse<br />

a dar continuidade ao processo de “abertura”, prometendo “garantir a cada<br />

trabalhador a remuneração justa” e o “financiamento por nós mesmos, dos<br />

custos do nosso desenvolvimento”. as greves de ’78/’79 evidenciaram que a<br />

sociedade precisava se reorganizar em outras bases políticas e econômicas. o<br />

Brasil mantivera “... seu alto crescimento econômico desde o choque do petróleo<br />

de 1973 somente porque passou a tomar mais empréstimos no exterior ...(...)<br />

... O III° Plano (93) era um documento curioso, pois virtualmente não continha<br />

números. O capitulo inicial o descrevia como acima de tudo um documento<br />

qualitativo que evitaria a fixação de metas rígidas. Os principais problemas<br />

do momento eram devidamente mencionados, como a crise de energia, as<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 151


condições embaraçosas do balanço de pagamentos, os custos crescentes da<br />

dívida externa e a pressão inflacionária cada vez maior ... (...) No fim de 1979<br />

a resposta veio parcialmente, os indicadores econômicos eram mistos, O PIB<br />

BRASIL - ACIDENTES DE TRABALHO E DOENÇAS PROFISSIONAIS 1979/1985<br />

ANO TRABAlHADORES<br />

ASEGuRADOS<br />

crescera a 6,8 por cento, a melhor taxa desde 1976. Mas, a inflação dispara<br />

para as alturas dos 77 por cento, quase o dobro da taxa de 1978 e a mais alta<br />

de qualquer ano desde 1964 ... (...) a economia brasileira estava sendo atingida<br />

pelos dois problemas tão conhecidos desde 1945 – aceleração da inflação<br />

e emagrecimento das divisas cambiais... ”<br />

em termos de acidentes do trabalho e de doenças profissionais, essa era a<br />

realidade oficial brasileira, entre a data do Projeto de lei 300/79 e a aprovação<br />

da lei nº 7.410/85.<br />

152<br />

ACIDENTES DOENÇAS<br />

Típicos Trajetos PROfISS.<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />

TOTAl DE<br />

ACIDENTES<br />

TOTAl DE<br />

ÓBITOS<br />

1979 18.134.731 1.338.525 52.279 3.823 1.394.627 4.673<br />

1980 19.222.815 1.404.531 55.967 3.713 1.464.211 4.824<br />

1981 19.761.954 1.215.539 51.722 3.204 1.270.465 4.808<br />

1982 20.057.468 1.117.832 57.874 2.766 1.178.472 4.496<br />

1983 20.258.045 943.110 56.989 3.016 1.003.115 4.214<br />

1984 20.260.438 901.238 57.054 3.283 961.575 4.508<br />

1985 20.452.109 1.010.340 63.515 4.006 1.077.861 4.384<br />

FonTe: Boletim estatístico de acidentes do Trabalho – divisão de Planejamento e estudos estratégicos, inSS


os participantes do XViii conPaT, realizado em Salvador em 23 a 25 de outubro<br />

de 1979, apresentaram uma Moção de apoio a imediata regulamentação<br />

da especialização de engenharia de Segurança e da criação da profissão de<br />

Técnico de Segurança do Trabalho encaminhando, em anexo, a proposta de<br />

retificação do Projeto de lei PlS 300 de 05 de outubro de 1979, de autoria do<br />

Senador roberto Saturnino Braga.<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 153


esse Projeto de lei foi retirado pelo Senador Saturnino Braga para as alterações<br />

necessárias e, posteriormente, reapresentado como Projeto de lei do Senado<br />

351 de 21 de novembro de 1979, dispondo “a respeito da especialização<br />

de engenheiros e arquitetos em engenharia de Segurança do Trabalho e da<br />

Profissão de Técnico de Segurança do Trabalho e estabelece Providências.”.<br />

reunidos no i° Seminário de Segurança industrial, promovido pelo instituto<br />

Brasileiro do Petróleo, em recife, no período de 1 a 3 de outubro de 1980,<br />

os profissionais presentes endossaram as iniciativas da SoBeS e reiteraram<br />

a necessidade da regulamentação da especialização de engenheiro de<br />

Segurança e a criação da profissão de Técnico de Segurança do Trabalho.<br />

Finalmente, em 27 de novembro de 1985 foi sancionada a lei nº 7.410 que<br />

“Dispõe sobre a especialização de Engenheiros e Arquitetos em Engenharia<br />

de Segurança do Trabalho, a profissão de Técnico de Segurança do Trabalho<br />

e dá outras providências”, e em seguida regulamentada pelo Decreto nº<br />

92.530, de 9 de abril de 1986 que determinou: “ ... (...) ... Art. 3º O Ministério da<br />

Educação, dentro de 120 dias, por proposta do Ministério do Trabalho, fixará os<br />

currículos básicos do curso de especialização em Engenharia de Segurança do<br />

Trabalho, e do curso de Técnico de Segurança do Trabalho, previstos no item I<br />

do artigo 1º e no item I do artigo 2º.<br />

§ 1º O funcionamento dos cursos referidos neste artigo determinará a<br />

extinção dos cursos de que tratam o item II do artigo 1º e o item Il do<br />

artigo 2º.<br />

154<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES


§ 2º Até que os cursos previstos neste artigo entrem em funcionamento,<br />

o Ministro do Trabalho poderá autorizar, em caráter excepcional, que<br />

tenham continuidade os cursos mencionados no parágrafo precedente,<br />

os quais deverão adaptar-se aos currículos aprovados pelo Ministério da<br />

Educação.<br />

Art. 4º As atividades dos Engenheiros e Arquitetos especializados em<br />

Engenharia de Segurança do Trabalho serão definidas pelo Conselho<br />

Federal de Engenharia e Agronomia - CONFEA, no prazo de 60 dias após a<br />

fixação dos currículos de que trata o artigo 3º pelo Ministério da Educação,<br />

ouvida a Secretaria de Segurança do Trabalho - SSMT.<br />

Art. 5º O exercício da atividade de Engenheiros e Arquitetos na<br />

especialidade de Engenharia de Segurança do Trabalho, depende de<br />

registro no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia -<br />

CREA.<br />

Art. 6º As atividades de Técnico de Segurança do Trabalho serão definidas<br />

pelo Ministério do Trabalho, no prazo de 60 dias, após a fixação do<br />

respectivo currículo escolar pelo Ministério da Educação, na forma do<br />

artigo 3º.”’<br />

Art. 7º O exercício da profissão de Técnico de Segurança do Trabalho<br />

depende de registro no Ministério do Trabalho. ... (...)...”<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 155


“Após a promulgação da Lei 7.410/85, a especialização em Engenharia<br />

de Segurança passou do âmbito do Ministério do Trabalho para o Sistema<br />

CONFEA/CREA e o curso assumiu status de pós-graduação, sendo ministrado<br />

em universidades, sujeito a orientação do Ministério da Educação, com o<br />

currículo conforme o Parecer 19/87 do SESU, aprovado pelo Conselho Federal<br />

de Educação:<br />

CURSO DE ESPECIALIZAÇãO EM<br />

ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO<br />

DISCIPlINA<br />

1. inTroduçÃo À engenharia de Segurança do<br />

TraBalho<br />

2.PreVençÃo e conTrole de riScoS eM<br />

MáQuinaS, eQuiPaMenToS e inSTalaçÕeS<br />

156<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES<br />

CARGA<br />

HORáRIA (H)<br />

3. higiene do TraBalho 140<br />

4.ProTeçÃo do Meio aMBienTe 45<br />

5.ProTeçÃo conTra incÊndioS e eXPloSÕeS 60<br />

6. gerÊncia de riScoS 60<br />

7.PSicologia na engenharia de Segurança,<br />

coMunicaçao e TreinaMenTo<br />

8.adMiniSTraçÃo aPlicada À engenharia de<br />

Segurança<br />

9. o aMBienTe e aS doençaS do TraBalho 50<br />

10. ergonoMia 30<br />

11. legiSlaçÃo e norMaS TÉcnicaS 20<br />

12. oPTaTiVaS ( coMPleMenTareS) 50<br />

TOTAl 600<br />

Essa nova grade acrescenta tópicos importantes, tais como: Prevenção<br />

e Controle de Riscos em Máquinas, Equipamentos e Instalações, Proteção<br />

contra Incêndio e Explosões e Ergonomia. Porém restringe, drasticamente,<br />

20<br />

80<br />

15<br />

30<br />

(94) Lopes Netto, A.: apud, pag. 194.


o estudo dos riscos ambientais. O que nos chama de imediato a atenção é a<br />

diferença de carga horária entre as duas grades” (94) .<br />

o conselho Federal de engenharia, arquitetura e agronomia, conFea,<br />

através da resolução 325 de 27 de novembro de 1987, que “dispõe sobre o<br />

exercício profissional, o registro e as atividades do engenheiro de Segurança<br />

do Trabalho, e dá outras providências”, posteriormente substituída pela<br />

resolução 359 de 31 de julho de 1991, estabeleceu como atividades especificas<br />

dos engenheiros de Segurança:<br />

Art. 4º - As atividades dos Engenheiros e Arquitetos, na especialidade de<br />

Engenharia de Segurança do Trabalho, são as seguintes:<br />

1 - Supervisionar, coordenar e orientar tecnicamente os serviços de Engenharia<br />

de Segurança do Trabaho;<br />

2 - Estudar as condições de segurança dos locais de trabalho e das instalações<br />

e equipamentos, com vistas especialmente aos problemas de controle de risco,<br />

controle de poluição, higiene do trabalho, ergonomia, proteção contra incêndio<br />

e saneamento;<br />

3 - Planejar e desenvolver a implantação de técnicas relativas a gerenciamento<br />

e controle de riscos;<br />

4 - Vistoriar, avaliar, realizar perícias, arbitrar, emitir parecer, laudos técnicos e<br />

indicar medidas de controle sobre grau de exposição a agentes agressivos de<br />

riscos físicos, químicos e biológicos, tais como poluentes atmosféricos, ruídos,<br />

calor, radiação em geral e pressões anormais, caracterizando as atividades,<br />

operações e locais insalubres e perigosos;<br />

5 - Analisar riscos, acidentes e falhas, investigando causas, propondo medidas<br />

preventivas e corretivas e orientando trabalhos estatísticos, inclusive com<br />

respeito a custo;<br />

6 - Propor políticas, programas, normas e regulamentos de Segurança do<br />

Trabalho, zelando pela sua observância;<br />

7 - Elaborar projetos de sistemas de segurança e assessorar a elaboração de<br />

projetos de obras, instalação e equipamentos, opinando do ponto de vista da<br />

Engenharia de Segurança;<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES 157


8 - Estudar instalações, máquinas e equipamentos, identificando seus pontos<br />

de risco e projetando dispositivos de segurança;<br />

9 - Projetar sistemas de proteção contra incêndios, coordenar atividades de<br />

combate a incêndio e de salvamento e elaborar planos para emergência e<br />

catástrofes;<br />

10 - Inspecionar locais de trabalho no que se relaciona com a segurança do<br />

Trabalho, delimitando áreas de periculosidade;<br />

11 - Especificar, controlar e fiscalizar sistemas de proteção coletiva<br />

e equipamentos de segurança, inclusive os de proteção individual e os de<br />

proteção contra incêndio, assegurando-se de sua qualidade e eficiência;<br />

12 - Opinar e participar da especificação para <strong>aqui</strong>sição de substâncias<br />

e equipamentos cuja manipulação, armazenamento, transporte ou<br />

funcionamento possam apresentar riscos, acompanhando o controle do<br />

recebimento e da expedição;<br />

13 - Elaborar planos destinados a criar e desenvolver a prevenção de acidentes,<br />

promovendo a instalação de comissões e assessorando-lhes o funcionamento;<br />

14 - Orientar o treinamento específico de Segurança do Trabalho e assessorar<br />

a elaboração de programas de treinamento geral, no que diz respeito<br />

à Segurança do Trabalho;<br />

15 - Acompanhar a execução de obras e serviços decorrentes da adoção de<br />

medidas de segurança, quando a complexidade dos trabalhos a executar assim<br />

o exigir;<br />

16 - Colaborar na fixação de requisitos de aptidão para o exercício de funções,<br />

apontando os riscos decorrentes desses exercícios;<br />

17 - Propor medidas preventivas no campo da Segurança do Trabalho, em face<br />

do conhecimento da natureza e gravidade das lesões provenientes do acidente<br />

de trabalho, incluídas as doenças do trabalho;<br />

18 - Informar aos trabalhadores e à comunidade, diretamente ou por meio de<br />

seus representantes, as condições que possam trazer danos a sua integridade e<br />

as medidas que eliminam ou atenuam estes riscos e que deverão ser tomadas.<br />

158<br />

Capítulo II | 6. A Fundação da SOBES


Eng. Antonio Carlos Barbosa Teixeira, Patrono da<br />

Engenharia de Segurança.


II.7. O Patrono da Engenharia de Segurança:<br />

Eng. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />

o eng. antonio carlos Barbosa Teixeira tornou-se o Patrono da engenharia<br />

de Segurança do Trabalho no Brasil por resolução da Plenária do iV coBeS –<br />

congresso Brasileiro de engenharia de Segurança, realizado em Porto alegre<br />

de 22 a 27 de novembro de 1987. antes havia sido considerado Patrono da<br />

engenharia de Segurança da américa latina por aprovação do 2° congresso<br />

latino-americano de engenharia de Segurança, realizado em Buenos aires, em<br />

23 de outubro de 1987.<br />

Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />

161


carioca, nascido em 08 de junho de 1915, formou-se em engenharia civil<br />

e engenharia industrial, modalidade Química, pela antiga escola nacional de<br />

engenharia da universidade do Brasil (95) , em janeiro de 1951.<br />

iniciou suas atividades profissionais, ainda como estudante, como professor<br />

secundarista, lecionando química, física e matemática.<br />

em 1936, ingressou como concursado no quadro de funcionários do Ministério<br />

do Trabalho. e, em meados da década de ’40, dedicou-se a pesquisa científica<br />

na área da fotografia, tendo revelado as emulsões nucleares, que chegaram ao<br />

rio de Janeiro trazidas pelo físico cesar lattes.<br />

Foi um dos fundadores do centro Brasileiro de Pesquisas Físicas em 15 de<br />

janeiro de 1949 junto com cientistas brasileiros e pessoas interessadas no<br />

desenvolvimento científico do país, como: césar lattes, José leite lopes<br />

e Jayme Tiomno, tendo exercido o cargo de Vice-Presidente da instituição.<br />

Foi co-inventor do processo Viscolor, produtor de cópias fotográficas coloridas,<br />

tendo desenvolvido estudos sobre a cor na área de segurança industrial.<br />

“Quando se pesquisam motivos que podem contribuir para a prevenção de<br />

acidentes, parece-nos perfeitamente cabível indagar do papel que possa<br />

desempenhar a cor na segurança do trabalho. Se levarmos em conta que a<br />

segurança do trabalhador depende não só do perfeito funcionamento das<br />

ferramentas que utiliza, mas também, e principalmente, do preparo técnico das<br />

condições psicofisiologicas em que se encontra, facilmente compreenderemos<br />

a importância de um elemento que, como a cor, é capaz de influenciá-lo, de<br />

alterar o seu estado de espírito em diferentes sentidos ...” (96) . Foi professor<br />

de Teoria da cor nos cursos de desenho da Fundação getúlio Vargas de 1950<br />

a 1976.<br />

Participou, em 1941, da fundação da associação Brasileira de Prevenção de<br />

acidentes – aBPa, tendo sido membro do conselho diretor durante várias<br />

gestões e Vice-Presidente.<br />

em 1950, participou da fundação da revista Fotografia, arte, ciência e Técnica.<br />

ainda na década de 50, participou da elaboração de uma serie de decretos<br />

que regulamentaram as condições de trabalho, em especial a lei 2.573 de 15<br />

de agosto de 1955, que “instituiu o salário adicional para os trabalhadores que<br />

prestavam serviços em contato permanente com inflamáveis em condições de<br />

162<br />

Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />

(95) Hoje Universidade Federal do Rio de<br />

Janeiro - UFRJ<br />

(96) Palestra proferida na VI Semana de<br />

Prevenção de Acidentes e Higiene do Trabalho<br />

de 23 a 28 de novembro de 1953.


(97) O Diploma, concedido conforme a Lei<br />

34.714 de 27 de novembro de 1953, que<br />

diz: Art. 1º Fica criada a Menção Honrosa<br />

da Segurança do Trabalho nos graus abaixo<br />

mencionados, a ser conferida pelo Ministro do<br />

Trabalho, Indústria e Comércio, aos que, pelos<br />

seus esfôrços, dedicação, e realizações em prol<br />

da Prevenção de Acidentes do Trabalho, se<br />

tornarem merecedores desta distinção.<br />

Art. 2º Os graus de Menção Honrosa da<br />

Segurança do Trabalho serão os seguintes:<br />

Pioneiro - conferido aos que foram os primeiros<br />

a cuidar da Prevenção de Acidentes do<br />

Trabalho, no País; Colaborador - conferido aos<br />

continuadores da obra dos primeiros e que vêm<br />

prestigiando, com seu entusiasmo, esforços<br />

e realizações, a Campanha de Prevenção e<br />

Acidentes do Trabalho.<br />

periculosidade”, adicional de periculosidade. Sua atuação na formulação da<br />

legislação de proteção do trabalhador, foi reconhecida pela divisão de higiene<br />

e Segurança do Trabalho, do departamento nacional do Trabalho que, em<br />

nome do Ministério do Trabalho, indústria e comércio lhe concedeu, em 27 de<br />

novembro de 1954, o diploma de Mérito, grau colaborador, “pelos relevantes<br />

serviços prestados a causa da Prevenção de Acidentes do Trabalho”. e, em<br />

28 de março de 1956, concedeu-lhe a Medalha do Mérito na Segurança do<br />

Trabalho (97) .<br />

Foi professor da disciplina higiene e Segurança do Trabalho da Pontifícia<br />

universidade católica do rio de Janeiro de 1954 a 1962 e depois coordenador<br />

do curso de engenharia de Segurança da mesma universidade.<br />

em função do trabalho realizado na divisão de higiene e Segurança do<br />

Ministério do Trabalho, foi requisitado pela Petrobrás para, inicialmente,<br />

organizar a assessoria de Segurança industrial e, posteriormente, chefiar essa<br />

assessoria até sua aposentadoria em 1974, depois de participar da 8ª reunião<br />

da comissão de Petróleo da organização internacional do Trabalho – oiT, em<br />

genebra. como chefe dessa assessoria, criou e organizou os cadernos de<br />

Segurança industrial da Petrobrás – caSiPeS.<br />

em 1960, o Ministério da Saúde realizou, através da escola nacional de<br />

Saúde Pública, o curso Básico de Saúde Pública para médicos, engenheiros e<br />

enfermeiros. a Portaria 119 de 25 de março de 1960, do Ministério da Saúde,<br />

designou o engenheiro Antonio Carlos Barbosa Teixeira, professor do tópico<br />

Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />

163


– Prevenção de acidentes de Trabalho do curso Básico para engenheiros da<br />

escola nacional de Saúde Pública; pela Portaria 46 de 13 de junho de 1960,<br />

ele foi designado Presidente da banca examinadora do mesmo curso no tópico<br />

que ministrava; e, pela Portaria 455 de 13 de setembro de 1960, designado<br />

professor do tópico de Prevenção de acidentes do curso Básico de Saúde<br />

Pública para Médicos da mesma escola.<br />

esse curso, ministrado pela escola nacional de Saúde Pública, foi o inicio do<br />

processo formativo de profissionais para atuarem na área de saúde e segurança<br />

do trabalho. Posteriormente, o Ministério do Trabalho, pela Portaria 153 de<br />

21 de maio de 1962, instituiu o i° curso de legislação, higiene e Segurança<br />

do Trabalho, no qual o engenheiro Antonio Carlos Barbosa Teixeira ficou<br />

responsável pelo tema: Prevenção de acidentes do Trabalho na indústria do<br />

Petróleo.<br />

em 1967, o eng. Barbosa Teixeira organizou e coordenou o primeiro curso<br />

realizado, especificamente, para a especialização de engenheiros de Segurança<br />

no Brasil, na Petrobrás.<br />

coordenou a comissão de Segurança industrial e a comissão de Proteção ao<br />

Meio ambiente do instituto Brasileiro do Petróleo.<br />

Presidiu as comissões de “revisão de normas de cadastro de acidentes”,<br />

“Segurança em obras” e “comissão de cor” da associação Brasileira de<br />

normas Técnicas – aBnT.<br />

Foi conselheiro do conselho de reconstrução do Museu de arte Moderna do<br />

rio de Janeiro, após o incêndio que no dia 8 de julho de 1978, destruiu 90%<br />

de seu acervo, principalmente obras de Picasso, Miró, Salvador dalí, Max ernst,<br />

rené Magritte, ivan Serpa, Manabu Mabe.<br />

Participou ativamente do fortalecimento do clube de engenharia, tendo sido<br />

conselheiro por dois mandatos. a primeira vez entre 1976 a 1979 e a segunda<br />

vez de 1999 a 2002.<br />

É extensa sua participação de destaque em Fóruns, Simpósios, congressos,<br />

cursos e Seminários e propostas de regulamentação das condições de trabalho.<br />

no entanto, sua atuação, merece destaque em algumas regulamentações que<br />

viriam a definir o caminho da engenharia de Segurança no Brasil:<br />

164<br />

Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira


1. Na elaboração da Portaria 3237 de 27 de julho de 1972, que resultou na criação dos<br />

Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho. O<br />

trabalho do Eng. Barbosa Teixeira foi inovador ao relacionar, no texto da Portaria,<br />

o número de trabalhadores expostos e o grau de risco das atividades das empresas<br />

para definir o dimensionamento desses Serviços;<br />

2. Como autor da Moção apresentada no XVIII CONPAT – Congresso Nacional de<br />

Prevenção de Acidentes do Trabalho, realizado em Salvador em outubro de 1979,<br />

que fundamentou a proposta do Projeto de Lei 351 do Senado Federal, de autoria do<br />

Senador Roberto Saturnino Braga. Esse Projeto de Lei originou a disposição legal<br />

“Sobre a Especialização de Engenheiros e Arquitetos em Engenharia de Segurança<br />

do Trabalho, a Profissão de Técnico de Segurança do Trabalho”, contida na Lei 7.410<br />

de 27 de novembro de 1985.<br />

3. Como relator da proposta dos Engenheiros de Segurança ao CONFEA, que<br />

resultou na Resolução 325 de 1986, posteriormente modificada pela Resolução 359<br />

de 31 de julho de 1991 do Conselho Federal de Engenharia – CONFEA, que “Dispõe<br />

sobre o exercício profissional, o registro e as atividades do Engenheiro de Segurança<br />

do Trabalho e dá outras providências”.<br />

o eng. antonio carlos Barbosa Teixeira, faleceu em 18 de maio de 2003. e, a<br />

SoBeS, em 27 de novembro de 2006, com o objetivo de preservar a memória<br />

e contribuir para a continuidade da realização e fortalecimento dos sonhos do<br />

Patrono da engenharia de Segurança, inaugurou na sua sede o espaço Técnico<br />

cultural antonio carlos Barbosa Teixeira.<br />

Capítulo II | 7. Antonio Carlos Barbosa Teixeira<br />

165


Bibliografia e<br />

Legislação


Bibliografia<br />

1. alberton, anete:” uma Metodologia para auxiliar no gerenciamento de<br />

riscos e na Seleção de alternativas de investimentos em Segurança”,<br />

dissertação de mestrado, Programa de Pós graduação de engenharia de<br />

Produção, uFSc, 1996<br />

in http://www.eps.ufsc.br/disserta96/anete/cap2/cap2_ane.htm<br />

2. azevedo, andré nunes de: a reforma Pereira Passos: uma tentativa de<br />

integração urbana, revista rio de Janeiro, n. 10, maio-ago 2003. Mensagem<br />

presidencial de 03 de maio de 1903<br />

in http://www.ccs.saude.gov.br/revolta/revolta.html<br />

3. Basbaum, leôncio: história Sincera da república, editora Fulgor, São Paulo,<br />

1966. Vol. 1.<br />

4. Bezerra, l. a. de h.: o estudo da Biografia de uma empresa como<br />

apoio à intervenção ergonômica – um estudo de caso: Proposta para<br />

implementação da ergonomia em uma empresa de Saneamento,<br />

dissertação de Mestrado, Programa de Pós-graduação em engenharia de<br />

Produção, uFSc, Florianópolis, 1998<br />

in http://www.eps.ufsc.br/disserta98/bezerra/cap3.htm<br />

5. Barbosa Teixeira, a.c.”a engenharia de Segurança no Brasil”,<br />

in http://www.areaseg.com.br<br />

6. Barbosa Teixeira, a.c.:Jornal do commércio, rio de janeiro, 20 de dezembro<br />

de 1959.<br />

7. Barbosa, rui, obras completas, vol. XViii, tomo iii, pág. 143.<br />

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Bibliografia e Legislação<br />

169


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9. crea-rJ, conselho regional de engenharia, arquitetura e agronomia do<br />

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170<br />

Bibliografia e Legislação


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Monografia<br />

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22. hobsbawn, eric J.: a era do capital: 1848-1875, São Paulo, Paz e Terra,<br />

2009.<br />

23. hobsbawn, eric J.: a era dos impérios: 1875-1914, São Paulo, Paz e<br />

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Bibliografia e Legislação<br />

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engenharia de Segurança no Brasil, editora ciPa, São Paulo, 2010, 2ª<br />

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Trabalho, ocupação e emprego” in o declínio do emprego e a ascensão<br />

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35. Sodré, nelson, W.: história da Burguesia Brasileira, rio de Janeiro, ed.<br />

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37. Skidmore, T.: Brasil: de castelo a Tancredo, rio de Janeiro, Paz e Terra,<br />

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38. Souto, d.F.: Saúde no Trabalho: uma revolução em andamento, 2ª edição,<br />

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39. Telles, Pedro carlos da Silva: história da engenharia no Brasil: Séculos XVi<br />

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40. Thompson, e.P.: a Formação da classe operária inglesa, rio de Janeiro,<br />

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coleção Brasiliana, vol.347, 1970, pág. 351.<br />

172<br />

Bibliografia e Legislação


Legislação<br />

lEGISlAÇãO NúMERO DATA ASSuNTO<br />

alvará 05/01/1785 Sobre as fábricas e manufaturas no Brasil<br />

alvará 24/11/1813<br />

decreto 1313 17/01/1891<br />

decreto 1637 1/5/1907<br />

decreto 3724 1/15/1919<br />

decreto 13498 3/12/1919<br />

decreto 4682 1/24/1923<br />

regula a arqueação dos navios empregados na<br />

conducção dos negros que dos portos da áfrica<br />

se exportam p os do Brazil<br />

estabelece providencias para regularizar o<br />

trabalho dos menores empregados nas fabricas<br />

da capital Federal.<br />

crea syndicatos profissionaes e sociedade<br />

cooperativas<br />

regula as obrigações resultantes dos accidentes<br />

no trabalho<br />

approva o regulamento para a execução da<br />

lei 3.724 de 15/01/1919, sobre as obrigações<br />

resultantes dos accidentes no trab<br />

crea, em cada uma das emprezas de estradas<br />

de ferro existentes no paiz, uma caixa de<br />

aposentadoria e pensões para os respectivos<br />

empregados.<br />

decreto 16027 4/30/1923 crea o conselho nacional do Trabalho<br />

decreto 19433 11/26/1930<br />

decreto 19770 3/1/1931<br />

crea uma Secretaria de estado com a<br />

denominação de Ministério do Trabalho,<br />

indústria e comércio<br />

regula a sidicalisação das classes patronaes e<br />

operarias e dá outras providências<br />

Bibliografia e Legislação<br />

173


decreto 21076 2/24/1932 criação da Justiça eleitoral<br />

decreto 22696 5/11/1933<br />

decreto 23569 12/11/1933<br />

decreto 24637 7/10/1934<br />

decreto 399 4/30/1938<br />

174<br />

Bibliografia e Legislação<br />

aprova as instruções para a exrcução do decreto<br />

22.653 de 20/04/1933, que fixa o némero e<br />

estabelece o modo de escolha representantes<br />

de associações profissionais que participarão da<br />

assembléia nacional constituinte.<br />

regula o exercício das profissões de engenheiro,<br />

de arquiteto e de agrimensor e cria o conFea<br />

e os creas<br />

estabelece sob novos moldes as obrigações<br />

resultantes dos accidentes do trabalho e dá<br />

outras providências<br />

aprova o regulamento para execução da lei 185<br />

de 14/01/1936 , que institui as comissões de<br />

Salário Minimo<br />

decreto 1237 5/2/1939 organiza a Justiça do Trabalho<br />

lei 5452 5/1/1943<br />

decreto 6479 5/9/1944<br />

aprova a consolidação das leis do Trabalho -<br />

clT<br />

cria carreiras no Quadro Único do MTb, indústria<br />

e comércio e dá outras providências<br />

decreto 7036 11/10/1944 reforma a lei de acidentes de Trabalho<br />

decreto 7474 4/18/1945 concede anistia<br />

decreto 8063 10/10/194<br />

decreto 8620 1/10/1946<br />

decreto 34715 11/27/1953<br />

dispõe sôbre as eleições para governadores e<br />

assembléias legislativas dos estados e dá outras<br />

providências<br />

dispões sobre a regulamentação do exercício<br />

de profissões de engenheiro, de arquiteto e de<br />

agrimensor, redigida pelo decreto n° 23.569 de<br />

11/12/1933, e dá outras providências<br />

institui a Semana de Prevenção de acidentes do<br />

Trabalho;


lEGISlAÇãO NúMERO DATA ASSuNTO<br />

lei 2573 8/15/1955<br />

lei 46258 6/23/1959<br />

decreto 46259 6/23/1959<br />

decreto 92530 4/9/1986<br />

decreto 93412 10/14/1986<br />

lei 5161 10/21/196<br />

Bibliografia e Legislação<br />

institui salário adicional<br />

para os trabalhadores<br />

que prestem serviços em<br />

contato permanente com<br />

inflamáveis em condições de<br />

periculosidade<br />

aprova o regulamento da<br />

escola nacional de Saúde<br />

Pública, do Ministério da<br />

Saúde<br />

aprova o regulamento da<br />

escola nacional de Saúde<br />

Pública, do Ministério da<br />

Saúde<br />

regulamenta a lei 7.410 de<br />

27/11/1985, que dispões<br />

sobre a especialização de<br />

engenheiros e arquitetos<br />

em engenharia de<br />

Segurança do Trabalho e<br />

a profissão de Técnico de<br />

Segurança do Trabalho e dá<br />

outras providências<br />

revoga o decreto 92.212<br />

de 26/12/1985, que institui<br />

salário adicional para<br />

empregados do setor de<br />

energia, em condições de<br />

periculosidade e dá outras<br />

providências<br />

autoriza a instituição da<br />

Fundação centro nacional<br />

de Segurança, higiene e<br />

Medicina do Trabalho e dá<br />

outras providências.<br />

175


decreto 229 2/28/1967<br />

decreto 49.974-a 1/21/1961<br />

decreto 811 3/30/1962<br />

decreto 55841 3/15/1965<br />

decreto 4860 11/26/1965<br />

lei 5316 9/14/1967<br />

lei 6514 12/22/1977<br />

176<br />

Bibliografia e Legislação<br />

altera dispositivos das leis<br />

do Trabalho, aprovada<br />

pelo decreto-lei 5.452 de<br />

01/05/1943 e dá outras<br />

providências<br />

regulamenta, sob a<br />

denominação de código<br />

nacional de Saúde, a lei<br />

nº 2.312, de 3 de setembro<br />

de 1954, de normas gerais<br />

sobre a defesa e proteção<br />

da saúde<br />

institui a campanha<br />

nacional de Prevenção de<br />

acidentes<br />

aprova o regulamento da<br />

inspeção do Trabalho<br />

dispõe sobre o regime<br />

de trabalho nos portos<br />

organizados, e dá outras<br />

providências.<br />

integra o seguro de<br />

acidentes do trabalho na<br />

previdência social, e dá<br />

outras providências<br />

altera o cap. V do Titulo ii<br />

da clT, relativo a segurança<br />

e medicina do trabalho e dá<br />

outras providências


lei 7410 11/27/1985<br />

resolução<br />

conFea<br />

resolução<br />

conFea<br />

325 11/27/1987<br />

359 7/31/1991<br />

Bibliografia e Legislação<br />

dispõe sobre a<br />

especialização de<br />

engenheiros e arquitetos<br />

em engenharia de<br />

Segurança do Trabalho,<br />

a profissão de Técnico de<br />

Segurança do Trabalho e dá<br />

outras providências.<br />

dispõe sobre o exercício<br />

profissional, registro e<br />

atividades do engenheiro de<br />

Segurança do Trabalho, e dá<br />

outras providências<br />

dispõe sobre o exercício<br />

profissional, registro e<br />

atividades do engenheiro de<br />

Segurança do Trabalho, e dá<br />

outras providências<br />

177

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