I CO - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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I CO - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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trabalhadores

sições sindicais metalúrgicas.

1. Outras propostas aprovadas:

Que a CUT providencie a realização de um Encontro de oposlções

metalúrgicas para planejar a tomada de sindicatos que náo foram

ganhos.

2. Congresso ou Encontro Nacional dos Metalúrgicos da CUT

Foi aprovada a proposta de uma nova reunião nacional dos metalúr-

gicos para janeiro/87, tendo em vista o encaminhamento da organi-

zação do setor e a campanha salarial unificada.

O caráter da reunião: congresso ou encontro, será definido pela coor-

denação nacional dos metalúrgicos, tendo em vista as deliberações

do II Congresso Nacional. Sendo aprovada a organização por ramo

em federação, será convocado um congresso; sendo aprovada a or-

ganização por ramo em departamento, será convocado um encontro.

III • DELIBERAÇÕES DE CARÁTER GERAL

1. Foi proposto e aprovado que a data indicativa para a realização do

seminário nacional dos metalúrgicos sobre novas tecnologias e au-

tomação será da 1í quinzena de dezembro de 1986.

2. Foi aprovada a participação da CUT na convocação e realização do

Encontro Latino-Americano de Metalúrgicos que está sendo propos-

to pela União Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos e Ramos Afins

do Uruguai-UNTMRA, ligada ao PIT/CNT. A proposta dos companhei-

ros uruguaios é que o encontro seja realizado no final de 1986 ou prin-

cípio de 1987, com ampla convocação, sem distinção de nenhuma

central ou tendência, para discutir os problemas afins dos metalúr-

gicos latino-americanos; a divida externa; e a solidariedade com o

Chile, Paraguai, Nicarágua e El Salvador.

3. Foi aprovado o envio de uma moção de solidariedade aos professo-

res da rede particular e estadual do ensino em Pernambuco, pela greve

que estão fazendo.

4. Frente às denúncias apresentadas pelos companheiros de Betim/MG

de que a FIAT demitiu e puniu 7 diretores do sindicato, foi aprovado

o envio de um telegrama de protesto ^o Ministro do Trabalho e à dire-

ção da empresa.

NOVA DIREÇRO EXECUTIVA NACIONAL DA CUT

EFETIVOS

Bresidente: Jair A. Meneguelli - presidente

do Sind. Metalúrgicos de S. B. Campo

Vice-presidente: Avelino Ganzer - diretoria

do Sindicato do Trab. Rurais de Santarém

Secretário Geral: Paulo R. Paim - presidente

do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas

Tesoureiro: Abdias José dos Santos - presideri

te do Sind. dos Metalúrgicos de Niterói

1^ Tesoureiro - Paulo César Funghi Alberto -

presidente do Sind. dos Metalúrgicos de Belo

Horizonte e Contagem

Secretário de Relações Internacionais: Jacó

Bittar - Presidente cassado'do "Sind. Petrole_l

ros de Campinas

Secretaria Rural: Paulo Roberto Farina - pre-

sidente do Sindicato dos Trab. Rurais Erechim

Secretaria de impressa: Gilmar C. dos Santos

tesoureiro dos Sind. dos Bancários S. Paulo

Secretaria de Política Sindicai: Delúbio Soa-

res de Castro - tesoureiro do Centro dos Pro-

fessores de Goiás

Secretaria de Formação: Jorge Lorenzetti -

diretor da Associação Brás. de Enfermagem-SC

VICE-PRESIDÊNCIAS

sindicalismo

SUL: José Alb erto Réus Fortunato

- pres. Sind. Bancários

Rio Grande do Sul

SUDESTE: Mart isalém Covas Pontes

- preside nte do Sindicato

dos Plásticos de S. Paulo

CENTRO-OESTE: Ana Lúcia da Silva

- base da Assoc. dos Docentes

da Univ. Federal de Goiás

NORDESTE: Jos é Gomes Novaes -

base do Sind. Trab. Rurais de

Barra do Choç a - Bahia

NORTE: Antoni o Carlos de Andrade

- presiden te da FENASPb-RJ

SUPLENTES:

Paulo Roberto Galvão da Rocha

pres. do Sind. dos Gráficos

de Belém

Osvaldo Martines Bargas - dire

tor do Sind. dos Metalúrgicos

de S. B. do Campo

Antônio Pereira da Silva Filho

diretor do Sind. dos Bancários

Rio de Janeiro

Vera Lúcia F. Gomes - base do

Sind. dos Professores de Recife

Cyro Garcia - vice-presidente

do Sind. dos Bancários do RJ


' íí ■: rabalhadores sindicalismo

Do Reportagem Local

O presidente do 2' Grupo de

Turmas do Tribunal Regional do

Trabalho (THT), José Henrique

Marcondes Machado, prendeu, às

I7h30 de ontem por "desacato ao

Poder Judiciário", o presidente e um

diretor do Sindicato dos Trabalhado-

res na Indústria de Papel, Papelão e

Cortiça de Mogi das Cruzes e cinco

memores da comissão de fábrica da

Klabin - Indústria de Papel Ltda. O

juiz considerou ofensiva uma atitude

dos sindicalistas que, segundo funci-

onários do TRT, amarraram panos

pretos nas becas, sugerindo morda-

ças, logo após a sessão em que o 2*

Grupo de Turmas julgou ilegal a

greve dos 553 trabalhadores da Kla-

bimj que iniciaram o movimento "no

último dia 30, reivindicando aumento

real de 140% entre outros itens.

A ordem de prisão foi dada na

própria sala de sessões do TRT, na

iua da Consolaçfio, X272, região

0 ESTADO DE SP

12/8/86

Invasão da GM:

sentença,

só em 1 ano

VAl,E DO PARAÍBA

AGENCIA ESTADO

Continua em São José dos Cam-

pos a fase de produção de provas no

processo referente à ocupaiâo da íá-r

br}ca da General Motors por 33 slndl-'

calistas em 26 e 27 de abril do ano

passado, quando mantiveram em,

cárcere privado 280 colegas de traba-

lho que não aderiram à greve da ca-

tegoria. Vinte e cinco vitimas foram

arroladas no processo e a fase de ins-

trução deverá levar 12 meses para a

conclusão. •. :

O processo possui quatro volu-

mes e 800 páginas, levando o juiz da

2* Vara. Criminal dp Município, Luiz

Gonzaga Parahiba Campos Fiüio, a

desmembrá-lo em 11 apensos. Os

réus negaram, durante os Interroga-

tórios, as acusações contidas no in-

quérito policial'presidido pelo dele-

gado Alfredo Augusto. O promotor

José Sllvlno Perantoni pediu o en-

quadramento dos sindicalistas em

cinco arügbs do Código PenaL" " -

Juiz do TRT prende sindicalistas

alegando desacato ao Judiciário FOLHA DE S

14/8/86

central, e comunicada pelo tribunal à

Delegacia de Ordem Política e Social

(DOPS) da superintendência da Poli-

cia Federal em Sá o Paulo (rua Piauí,

521, Higienópolis, região central),

para onde os sindicalistas, foram

levados . por policiais ;, federais,' A

Policia Federal lavrou auto de prisão

em flagrante e abriu inquérito com

base no artigo 331 do Código Penal,

mas até às 20h os cinco sindicalistas

presos ainda não haviam sido ouvi-

dos, pois estavam sendo tomados os

depoimentos de quatro testemunhas,

funcionários do TRT.

Foram presos o presidente do

sindicato, Marcos António, o diretor

Walter António e Silva e. Camilo

Fernandes dos Santos, José Roberto

Sbegen, Regina Aparecida de Jesus,

Adir José dos Santos e Ilson Carneiro

de Mello que, segundo a Polícia

Federal, seriam liberados logo após

prestarem depoimentos e pagarem a

fiança, arbitrada em Cz* 20 por

pessoa. O advogado do sindicato.

PAULO

Edvaldo de Jesus Teixeira, 28, colo-

cou em dúvida a competência da

Policia Federal para atuar no caso (a

seu ver o episódio deveria ser tratado

pela Policia Civil Estadual) e disse

que, Com o gesto da mordaça os

sindicalistas não queriam ofender o

TRT, mas sim manifestar sua con-

trariedade em relação à Lei 4.330/64

(Lei de Greve), que "amordaça os

trabalhadores". O inquérito será

encaminhado à Justiça Federal e, se

for transformado em processo, o

artigo 331 do Código Penal ("Desaca-

tar funcionário público no exercício

da função ou em razão dela") prevê,

em caso de condenação, penas de seis

meses a dois anos de detenção, ou

multa de mil a trinta mil cruzados.

Dirigentes da Central Única dos

Trabalhadores (CUT), à qual o sindi-

cato está filiado, e o advogado do

Partido dos Trabalhadores, Luis

Eduardo Greenhalg, compareceram

à Polícia Federal para acompanhar o

caso.

Mesmo sendo declarada ilegal, a greve dos

metalúrgicos de Manaus paralizou 52 fábricas.

Os patrões iniciaram o processo

de demissão e até o dia 5 de agosto 400

trabalhadores já haviam sido dispensados.

No dia 12 de agosto o tesoureiro

do sindicato, Elias Sereno, foi preso

e parmaneceu detido por um dia.

As reivindicações principais :

CZ$ 3.618,00 de piso salarial, redução

da jornada de trabalho para 40 horas semanais,

aumento real de 2435 e estabilidade

no emprego.

LIÇÕES DE

UMA DERROTA

CONVERGÊNCIA

SOCIALISTA

21/8/86

Ao fim de dez dias de uma greve muito dura, os metalúrgicos

de Manaus voltaram ao trabalho com um pesado balanço: cerca

de 3.400 demissões, o que representa quase dez por cento de

toda a categoria, epraticamente toda a vanguarda.

A greve paralisou 34 fábricas, com cer-

ca de 22.000 metalúrgicos parados. Nu-

ma decisão iriédi.la, ao fim de 5 dias de

greve, o Tribunal Regional do Trabalho,

resolveu declarar a "extinção" da greve

— o que não foi acatado pela categoria.

Mas, alguns dias depois, a greve foi de-

clarada ilegal e começaram as demissões

em massa, que obrigaram os trabalhado-

res a voltar ao trabalho.

As reivindicações obtidas foram as que

o Tribunal julgou: 5% de aumento real,


trabalhadores sindicalismo

redução da jornada de Irabalho para 45

horas e 60% do 1PCA do período (de

acordo com o que estabelece o "pacote").

Tudo muito aquém das reivindicações da

categoria. Mas as demissões em massa,

no final da greve, foram sem dúvida um

resultado negativo e derrotaram os meta-

lúrgicos amazonenses.

Faltou democracia

hm nossa opinião, essa derrota pode-

ria ler sido evitada, e é isso que queremos^

iliscuür, fraiernalmente, com os compa-

nheiros da diretoria do Sindicato dos Me-

laiúrgicos de Manaus, o sindicato mais

importanle da CUT na região. Para nós,

ü primeiro erro de condução da greve

loi a falia de democracia e organização

do movimenlo.Antes da decretação da greve,

não houve uma discussão ampla, em to-

da a base, para a sua preparação. Não

houve reuniões por fábrica para preparar

a paralisação. Nas assembléias, a direto-

ria do sindicato não se esforçava para

que iodos pudessem falar e apresentar

suas opiniões, principalmente se fossem

divergentes. Isso aconteceu na assem-

bléia que decretou a greve, quando seto-

res queriam propor que não se fizesse

uma greve geral da categoria, por acha-

rem que não havia condições para isso, c

sim greves fábrica por fábrica, começan-

do pelas mais organizadas. Assim, as as-

sembléias se transformaram em grandes

lestas, com música, cantores, que não

prepararam a categoria devidamente.

Faltou preparação

For outro lado, a diretoria do sindicato

em nenhum momento preparou os traba-

lhadores para uma greve que iria enfren-

tar uma grande dureza dos patrões. Essa

dureza patronal leve dois motivos. Por

um lado, os patrões estão na ofensiva e

sentem-se apoiados pelo governo, depois

da aplicação do Plano Cruzado. Além

disso, a patronal fazia questão de derro-

tar especialmente esta greve, porque no

ano que vem serão realizadas as eleições

para a nova diretoria do Sindicato dos

Metalúrgicos. Para os patrões, era fun-

damental derrotar a categoria para des-

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DEU GUT NOS BANCÁRIOS DE CA-

TANDUVA EM SAO PAULO

Em eleições realizadas

este mês a Chapa 2 apoiada

pela CUT venceu os pelegos

da Chapa 1 por 556 a 324 vo-

tos.

moralizar o sindicato, e tentar provocar

uma derroia da CUT nas próximas elei-

ções, jusiamenle no sindicato que c u

principal base da nossa central na região.

Organizar a solidanedade

H importante discutir amplamente o

balanço da greve, para evitar erros nas

próximas lutas. Mas agora existem mais

de 3.000 companheiros desempregados", e

o mais importanle é organizar a solida-

riedade. Argumentando com o fato de

que não existe qualquer registro ou ata

da decisão do Tribunal declarando a gre-

ve ilegal, a diretoria do sindicato está

tentando judicialmente anular as demis-

sões, ou pelo menos a justa causa. Na da-

ta em que fechávamos esta edição, estava

sendo realizada uma passeata em frente

à Assembléia Legislativa, com o mesmo

objetivo, tsse é o caminho agora: fazer

uma ampla campanha de mobilização e

solidariedade com os companheiros de-

mitidos, ajudando a categoria a dar a

volta por cima.

Solidariedade

cornos

metalúrgicos

de Manaus!

Os companheiros metalúrgicos

de Manaus precisam mais do que.

nunca de nossa solidariedade, h,

uma das formas mais importantes

de demonstrar essa solidariedade,

principalmente para os que estão

distantes, é enviando dinheiro para

ajudar os companheiros demitidos,

tnvie sua contribuição para: Conta

059792-2, Banco do Estado do

Amazonas, Agência Ceasa, em no-

me de José Magno Lopes Brazão.

ASSASSINOS DO PE. JOSIMO A-

C0BERTAD0S PELA POLICIA

Em carta datada de 4 de

agosto e assinada pelas Comu

nidades do Bico do Papagaio,

chegou-nos uma denúncia de

que mesmo depois de anuncia-

pelo Del. Romeu Tuma que os

assassinos do Pe Josimo se-

riam presos, nada foi feito.

Nesta carta os companheiros

lavradores voltam a exigir

a prisão e a punição : de to-

dos os envolvidos, executo-

res e mandantes. Eles pro -

testam ainda contra a falsa


trabalhadores

conexão que a imprensa e o Go

verno tentaram fazer envolveri

do as Irmãs Madalena e Bea -

triz num trafico de crianças.

POLICIA FEDERAL ABRE INQUÉRI-

TO CONTRA TRABALHADORES

Por causa da greve dos

Trabalhadores da Construção

Civil de Londrina a Procurad£

ria Geral da República no Pa-

raná determinou que a PF de

Londrina instaurasse inqueri

to contra trabalhadores e o

advogado trabalhista que par-

ticiparam da greve, comandada

pela Oposição Sindical. A gre

ve foi deflagrada em 11 de de

zembro passado por reivindica

ção de 60% de reposição sala-

rial e antecipação de 50%. A

PF impediu que o advogado Re-

ginalda Melhado vistoriassem

os autos do processo.

PAST. OPERÁRIA DE LONDRINA

TRINTA MORTES NO CAKFO APÓS O

ASSASINATO DO PE JOSIMO

Somente neste perído que

seguiu à morte do Pe Josimo

já foram cometidos mais 30 as_

sassinatos na área rural. Ao

todo a morte no campo já che-

ga a 153 desde janeiro de 86

até julho deste ano, contra

216 mortes em 1985. Ao que tu-

do indica, até ao final do ano

vamos bater mais um record de

violência. Por outro lado, prqs

-segue lentamente a a aplicação

do Plano Nacional de Reforma A

grária onde a meta anunciada

pelo Governo era de 4,6 milhoãs

de hectares e que até agora

não atingiou nem 15%.

AGENCIA ECUMÊNICA DE NOTICIAS

Boletim 15 Agosto 86

DRT CONFIRMA QUATRO MIL ES -

CRAVOS BRANCOS EM RONDÔNIA

Crescem as denuncias de

escravidão branca em Rondôni

nia e Mato Grosso. De acordo

com a DRT são cerca de 4 mil

pessoas com maior incidência

no município de";Vilhena. Com

o plano cruzado e a implemeji

tação da reforma agrária os

proprietários de terra neces

sitaram cada vez mais de mão

de obra e passaram a lançar

cada vez mais o uso de 'tjatos"

que arregimentam os trabalha

dores rurais. Um projeto de

combate à escravidão branca

necessitaria da liberação de

maiores recursos, o que evi-

dentemente não será feito pe

Io governo.

AGÊNCIA ECUMÊNICA DE NOTICIAS

Boletim 15 - Agosto 1986

POSSEIROS DE LUCIARA DENUN-

CIAM INJUSTIÇAS PRATICADAS.

0 S. PAULO 15 a 21 de AGOSTO

Subemprego: um emprego

mal remunerado

Uma pesquisa do Ibope

encomendada pelo jornal O

Globo, do Rio de Janeiro, e

divulgada esta semana, re-

vela que a maior preocupa-

ção dos brasileiros — 44%

dos entrevistados* — é o de-

semprego. Em segundo lugar

vem o custo de vida, com

34% e em terceiro a saúde,

com 30%.

A pesquisa revela, por-

tanto, que quatro entre dez

brasileiros têm medo de per-

der seu emprego ou de não

arranjar outro caso esteja

desempregado, em todo o

País. Na Grande São Paulo,

o problema do desemprego,

que tira o sono de milhões

de brasileiros, é medido men-

salmente pela Fundação Sea-

de — Fundagão Sistema Es-

tadual de Análise de Dados

— e pelo Dieese — Departa-

mento Intersindical de Esta-

tísticas e Estudos Sócio Eco-

nômicos.

Na Pesquisa de Emprego

c Desemprego na Grande São

Paulo, em junho de 1986,

a .última divulgada pelo Sea-

de-Dieese, encontra-se que

"em junho, o nível de ocupa-

ção manteve-se crescente e,

mais uma vez, a taxa e o es-

toque de desempregados re-

gistram redução". A pesqui-

sa revela, ainda, que "toman-

do-se por base o período com-

preendido entre janeiro e ju-

nho de 1986, verifica-se que

o nível de ocupação cresceu

2,5% (equivalente a 164 mil

postos de trabalho), enquan-

to no mesmo período de 1985

expandiu-se a uma taxa su-

perior, ou seja, 4,5% (cor-

respondendo a 265 mil. no-

vos empregos)".

O SUBEMPREGO NA

GRANDE SAO PAULO

O estudo especial sob o

subemprego na Grande São

Paulo foi dividido em três en-

foques: a jornada de traba-

lho reduzida (subemprego

visível) e baixa produtivida-

de (subemprego invisível) e

a pobreza através de baixos

rendimentos.

Na jornada de trabalho

reduzida, verifica-se que 468

mil pessoas se encontram su-

butilizados em sua força de

trabalho por trabalharem

menos que 40 horas sema-

nais, por falta de mais ser-

viço. Jâ a baixa produtivi-

dade (subemprego invisí-

vel), ou seja, os ocupados

que vêm exercendo umá jor-

sindicalismo

Os posseiros de São Jo-

sé do Xingu, MT denunciam ar

bitrariedades praticadas pe-

lo filho do Fazendeiro Valte

ne da Fazenda Cajarana que ar

mado de revolver e acompanha

do por um "gato" espancou um

peão obrigando-o a voltar a

trabalhar numa gleba onde' é-

le é mantido como escravo.

Como já vem se tornando co -

mum, a polícia nada faz para

coibir essas violações dos

Direitos Humanos. E, quando

chega a interferir é sempre

do lado dos fazendeiros.

SERVIÇO DE INTERCAKCIO NACIO

NAL Petropolis 07/08/86

EXERCITO MOBILIZA TROPA CON-

TRA POSSEIROS EM CAÇADOR SC.

Uma verdadeira operação

de guerra foi preparada pelo

glorioso Exército Nacional,

no melhor estilo da ditadura,

Para conter 300 homens, mu -

lheres e crianças foram mobi

lizados 160 elementos portan

do metralhadoras, pistolas e

fuzis, seis jipes e três via

turas blindadas que lançam

jatos dágua; dessas usadas

pelo Pinochet no Chile. 0 pa

trono do Exército, Duque de

Caxias está voltando a se vi

rar em sua tumba !'. Isso tu-

ido ocorreu em Caçador no Es-

itado de Santa Catarina.

halho ocupada.

Nessa pesquisa do Seade-

Dieese sobre o subemprego

na Grande São Paulo, cons-

tatou-se que cerca de 856

mil pessoas encontram-se de-

sempregadas. Assim, para su-

perar o desemprego e o su-

bemprego seriam necessários,

a grosso modo, segundo a

pesquisa, gerar entre 1.500

mil a 1.800 mil novos pos-

tos de trabalho, o que eqüi-

vale a mais de 25% do total

de empregos na Grande São

Paulo. A pesquisa Ibope, en-

comendada pelo jornal o Glo-

bo, portanto, não está sem

razão quando afirma que a

principal preocupação dos

brasileiros é com o tão difí-

cil e instável emprego, ge-

ralmente mal remunerado.


trabalhadores

nada de trabalho superior a

40 horas semanais, apresen-

ta rendimentos muito bai-

xos Segundo este critério,

27,4^ da mão de obra ocu-

pada — 1.688 mil pessoas

— trabalha mais do que 40

horas semanais com rendi-

mento inferior ao salário mí-

nimo não é o de 800 cruza-

dos, mas o determinado pela

lei e calculado pelo Dieese,

que é de 3.693,12 cruzados, o

necessário para o sustento

da familia do trabalhador

(dois adultos e duas crian-

ças).

A pobreza através dos

baixos rendimentos indica

que 40,79!- da mão-de-obra

ou seja, 2.508 mil pessoas,

recebem um rendimento me-

nor que o salário minimo ne-

cessário per capita; 28,4% —

1.750 mil pessoas — tem

rendimento menor que o sa-

lário mínimo real de 1985 —

e 1.140 mil pessoas têm ren-

dimentos menores que o sa-

lário mínimo nominal de

1985.

O conceito tradicional de

subemprego, enquanto for-

ma de subutilização de for-

ça de trabalho, foi desenvol-

vido no início dos anos 60

pela Organização Internacio-

nal do Trabalho, a partir da

consideração da mão-de-

obra como fator produtivo,

preocupando-se em medir a

diferença que existira entre

o pleno emprego desse fator

e sua efetiva utilização na

economia. Desta maneira, o

subemprego procuraria refle-

tir a ociosidade involuntária

ou a baixa produtividade de

uma parcela da força de tra-

greves greves greves

FALKENBURG

Contra a redução salarial

provocada pelo pacote do gover-

no, 80 trabalhadores dessa

indústria de alimentos paralisa-

ram suas atividades, em Diade-

ma- SP. A prosseguia no dia

6 de agosto.

ULTRAFERTIL

Cerca de 700 trabalhadores da

Ultrafértil, Araucária-PR, conti-

nuaram em greve apesar da sua

ilegalidade ter sido decretada em

15 de agosto. Prometem voltar

ao trabalho tão logo recomecem

as negociações.

ÓLEOS MENU

Na fábrica situada em Guarara-

pes, SP, no dia 5 de agosto os

trabalhadores completavam 8

dias de greve. Lutam por 70%

de aumento salarial, piso de 3

salários mínimos, índice de 15%

de produtividade, lanche noturno.

Se a greve for julgada ilegal,

os trabalhadores ameaçam com

pedido de demissão em massa.

MARCENEIROS DE SP

Os 706 trabalhadores daCCiroflex

entraram em greve dia ^ de a-

gosto, reivindicando 20% de au-

ment real, equiparação salarial,

adicional de insalubridade, melho

res condições de trabalho. Os

patrões oferecem 10% de anteci_

pação salarial.

MÉDICOS DO SUL

Em greve parcial, pararam cerca

de 1500 médicos gaúchos do

INAMPS, em * de agosto. Eles

protestam contra a sistemática

de remuneração.

MOVELHEIROS DE GUARULHOS

Mais de 800 trabalhadores da Ber

gamo entraram em greve reivindj^

candoaumento variado de 15 a ^0

por cento. A contra-proposta pa-

tronal é de ^ a 15% de aumento.

PHILLIP MORRIS DE CURITIBA

Nesta fábrica de cigarros, 900

trabalhadores entraram em gre-

ve em 12 de agosto por aumen-

to de 50%, equiparação de fun-

ção, direito de portar talão de

cheques e nã mais utilizar che-

ques avulsos. Eles acamparam

em frente da fábrica.

PERSIANAS COLUMBIA

Voltaram ao trabalho 2300 meta

lúrgicos dessa empresa, depois

de conquistarem 5 a 10% de

aumento escalonados, classifi-

cação em carteira e equipara-

ção salarial.

PAPEL E PAPELÃO

Em greve que já durava, 15 dj_

as 550 trabalhadores da Kla-

bin reivindicam 1^% de aumen

to. Em 1^ de agosto o juiz do

TRT mandou prender o presi-

dente do sindicato e cinco mem

bros da Comissão de Fábrica

por desacato ao tribunal. No

mesmo dia chegaram a um a-

acordo que grantiu aumento de

10 a 14% escalonados, equipara

greves" greves greves

cão salarial com outras empre

sas da regia, desconto dos dias

parados e 2 avisos prévios nas

demissões.

MOTORISTAS DE CAMPINAS

Os tf mil motoristas e co-

bradores entraram em greve v

a prefeitura requisitou os ôni-

bus colocando motoristas da

própria prefeitura, declarando

estado de calamidade públua.

A principal reivindicação é de

aumento médio de 40%.

AEROVIÁRIOS DE CUMBK A

Conforme a Quinzena ní? 8,

os aeroviáros - trabalhadores

em terra - entraram em gre-

ve que terminou em 14 de a

agosto. Aceitaram o piso sala-

rial de CZ$ 1.451,00, forneci-

mento de refeições e agasa

lhos- Ainda no dia 8 de agosto

aderiram à paralisação o pcs

soai da limpeza, 300 funciona

rios, que exigiam aumento re

ai. Após 3 dia de greve con-

quistaram 53,3%, não descon-

to dos dias parados, forneci

mento de uniformes e reco-

nheciment da comissão de ne

gociação com estabilidade no

emprego.

LATICÍNIOS

Até o dia 18 de agosto, os

1640 trabalhadores da Coope-

rativa Central de Laticínios

estavam em greve já há 25

dias. Reivindicavam 35% de

aumento, piso salarial de CZ

2.100,00, adicional de insalu-

bridade e acréscimo de 100%

nas horas extras dos feriados.

PORTUÁRIOS DE SANTOS

Os portuáros avulsos pararam

por 12 horas, reivindicando paga

mento de descanso semanal re-

munerado, São 12 mil doqueiros

sem vínculo empregatício com

a empresa.

CONSTRUÇÃO CIVIL DE PA

No dia 18 de agosto completaram

7 dias de greve em Porto Alegre,

enquanto os patrões se recusam

a negociar 20% de reajuste, jor-

nada de 40 horas, estabilidade c

20% de insalubridade.


f,-trabalhadores

INAMPS

Os hospitais e postos de atendi-

mentos do Inamps pararam em

diversas cidades, conseqüência da

greve dos previdenciários iniciada

em 6 de agosto. Estes pedem ex-

tensão da gratificação de 80%,

aumento de 12 referências, oficia

lização da jornada de 6 horas

diárias.

MÉDICOS DE SP

Os médicos servidores públicos

entraram em greve em 1^ de

agosto. Sete dos oito mil méd_i_

cos paraliz'aram as atividades.,

GREVE NA ANDALITE-SP

Os 100 químicos dessa empresa

esta em greve desde o dià 7

reivindicando aumento real de

23%;

GOODYEAR PÁRA A FORD

Devido à greve na Goodyear,

a Ford de S. Bernardo foi o-

brigada a dar férias coletivas

de 15 dias, pôr falta de pne-

us para os carros montados.

A greve da Goodyear só se

encerrou no dia 18, com au-

mento de 5%.

CADERNO DO CEAS N° 104

0 NEGRO NA FORÇA

DE TRABALHO

Luiza Bairros*

O tratamento de questões relativas

à força de trabalho e emprego reme-

te a uma reflexão sobre as condi-

ções específicas de inserção da

população trabalhadora na estrutu-

ra produtiva, a depender de atri-

butos tais como idade, sexo e etnia.

Neste artigo,** são discutidos ele-

mentos importantes para caracte-

rizar a participação diferenciada dos

trabalhadores negros na produção

social.

A constatação de que o negro sofre

n ("tidas desvantagens em relação ao

branco no mercado de traball\o já

constava de pesquisas e estudos da

década de 50. E aqueles elaborados

em períodos mais recentes não

indicam ^mudanças substanciais no

que se refere ao lugar do negro:

posição de baixo reconhecimento

social, baixa especialização e nível

de rendimento.

WALITA TERMINA A GREVE

.Os 1300 trabalhadores da Wa-

lita retornaram ao trabalho

no dia 13 de agosto, mesmo

sem acordo, com o compro-

misso de continuarem as ne-

gociações em torno das rei-

vindicações e não demitir

ninguém.

LUXALUM - GUARULHOS

Entraram em greve - 60 fun-

cionários - em 12 de agosto

por 23% de aumeno real-

ENGECT

Fizeram acordo - 200 traba-

lhadores - e conquistaram

20% de aumeatorteàl.

OUTRAS EMPRESAS '

MECÂNICA MORCEGO_ - *00

empegados - acordo de 10%

de aumento real.

SEMKROM (OSASCO) - 5*0

trabalhaores - em greve em

15 de agosto por 10% de

aumeto.

PIROTEC - 115 trabalhadores

retornaram ao trabalho para

retomar negociações

■A manutenção deste padrSo não é

mera sobrevivência do período

escravista, mas fruto de uma recria-

ção de práticas discriminatórias que

se mantêm, mesmo não sendo

essenciais ao desenvolvimento das

relações capitalistas de produção. O

processo de acumulação, em eco-

greves greves greves

PRENSAS SCHULER - 1300

e THYSSEN HULLER - 500

trabalhadores continuam em

greve por 20% de aumento,

Comissão de Fábrica, jorna-

da de 40 horas.

BLINDEX - 55 - encerraram

greve de uma semana, sem

acordo algum.

TENGE - Encerraram parali-

zação de um dia em 14 de

agosto. A empresa concedeu

aumento de 6%, estabilidade

de 60 dias e uniformes.

SITELTRA = 750 trabalhado-

res. Tiveram aumento de 5%

mais antecipação de 5% e

equiparação salarial.

LUZALITE - Estiveram em

greve por 5 dias e conquis-

taram 10% de aumento adi-

cional de insalubridade, ma-

is pagamento dos dias para-

dos.

AEROMECÂICA, DARMA,

IBRATEC, STROMAG, PA

LUDO são outras fábricas

de porte pequeno que para-

lisaram suas atividades.

nomias dependentes como a brasi-

leira-, efetiva-se às custas da superex-

ploração de ponderáveis segmentos

da força de trabalho. Nesse sentido,

o racismo atua como um instrumen-

to de dominação social, determi-

nando a participação subordinada

de grupos não-brancos na estrutura

de poder e riqueza da sociedade.

1. A discriminação racial e o processo de exploração

capitalista no Brasil

Em momentos importantes da

história econômica do Brasil, foi

preciso recorrer a contingentes de

trabalhadores de diferentes grupos

étnicos.

Primeiramente, fracassadas as tenta-

tivas de escravização do índio e

diante da possibilidade mais lucrati-

va e eficente de escravizar povos

africanos, o negro é trazido também

para o Brasil. Os africanos foram

dominados principalmente por cau-

sa das diferenças culturais que os

tornavam mais vulneráveis frente

aos europeus. Entretantp, a passa-

gem do reconhecimento da existên-

cia de diferenças culturais para a

construção do mito da inferioridade

racial foi quase automática. Não

há como separar esta dimensão

ideológica das circunstâncias histó-

ricas que envolvem a gênese da

escravidão negra, pois formavam-se,

desde então, representações do

negro que o definiam como: tão

bom trabalhador sob o sol dos

trópicos quanto um jumento, dócil

e facilmente adptável à escravidão.

Como afirma Eric Willians, as

diferenças raciais tornavam mais


abalhadores

fácil justificar e racionalizar a

escravidão negra, impor a obediên-

cia mecânica de um boi de arado

ou um cavalo de carroça, exigir

aquela resignação e aquela completa

submissão moral e intelectual que

tornavam possível o trabalho escra-

vo. 1

Na segunda metade do século XIX,

o escravismo agoniza por exigência

do desenvolvimento do capitalismo

europeu, e internamente também já

estava definida a sua superação. A

nova sociedade que surgia nada

tinha a ver com a proposta do

quilombola ou do negr© revoltado.»

mas, contnaditoriamente, podia

emergir devido em grande parte às

brechas que se abriram após os

duros golpes que o escravo desfe-

chara sobre o sistema que o opri-

mia. Esta fase é marcada interna-

mente p^la expansão da lavoura

cafeeira e a necessidade de mSo-

de-obra para sua manutenção. Ex-

ternamente, é influenciada por

transformações econômicas, sociais

e políticas na Europa, que propi-

ciaram a liberação de força de

trabalho ocupada na agricultura.

Começa, então, a ser incenti-

vada a vinda de trabalhadores

europeus.

A definição pela mão-de-obra es-

trangeira, mais uma vez, não estava

isenta de preconceitos étnicos, que

atuaram no sentido de favorecer o

trabalhador branco. Um decreto de

1890 concede que é inteiramente

livre a entrada, nos portos da

República, os indivíduos validos e

aptos para o trabalho (...) Excetua-

dos os indígenas da Ásia ou da

África, que somente mediante auto-

rização do Congresso Nacional

poderão ser admitidos. Muito mais

tarde, ainda permanecia a preocupa-

ção de evitar a entrada de trabalha-

dores não brancos no país. Em 18

de setembro de 1945, Getúlio

Vargas assina um decreto regulando

a imigração, de acordo com a

necessidade de preservar e desenvol-

ver, na composição étnica da

população, as características mais

convenientes da sua ascendência

européia. 2

Sofrendo a concorrência de traba-

lhadores nacionais e estrangeiros, o

negro ex-escravo é marginalizado

pelo sistema econômico vigente.

Uma situação reforçada pelos este-

reótipos que o marcavam desde o

tempo da escravidão: ignorante,

preguiçoso, etc. Os que possuiam

um ofício — alfaiates, sapateiros,

ferreiros, marceneiros, etc. —, em

geral, mantiveram suas ocupações.

Os que deixavam as zonas rurais so-

friam o impacto da adaptação à

realidade urbana, passando a formar

o exército de desempregados ou en-

grossando o contingente de pessoas

em ocupações qüe exigem pouca

qualificação: carregadores e vende-

dores ambulantes, por exemplo. A

mulher negra atuava numa versão

atualizada da mucama ou da mãe-

preta: absoluta maioria da mão-de-

obra empregada na prestação de ser-

viços domésticos.

Os estudos que buscaram analisar a

situação do negro no período pós-

escravista atribuíam as diferenças

raciais apenas ao nível de desenvol-

vimento atingido pelo capitalismo

no Brasil. Por outro lado, também

creditavam a situação subordinada

de ponderável parcela não-branca

da população às limitações próprias

das sociedades estruturadas em clas-

ses, e ainda fortemente marcadas

por "arcaísmos" herdados do escra-

vismo.

No dizer de Otávio lanni. Antes de

ser um fenômeno étnico ou racial,

demográfico ou cultural, a questão

'racial é uma expressão das tendên-

cias de acomodação, rea/ustamento

ou expressão dos mercados de força

de trabalho, em escala regional ou

nacional. (...) são certas transforma-

ções em curso nos setores primá-

rio, secundário e terciário da eco-

nomia de países em industrialização

que estão na base do "problema

racial" (...). 3 De acordo com esta

perspectiva, a questão racial seria

apenas a aparência de um fenômeno

que, em essência, só poderia ser

explicado pela incapacidade do

negro vencer as barreiras impostas a

qualquer grupo social., no seu pro-

cesso de integração efetiva à socie-

dade de classes.

Para Florestan Fernandes, a expan-

são econômica verificada a partir

do final dos anos 30, ainda que

mantivesse as desigualdades entre

brancos e negros, acabaria por ate-

nuá-las. O surgimento de oportuni-

dades de emprego em massa e a

conseqüente preocupação das em-

presas em selecionar trabalhadores

em função da qualidade seriam

alguns dos fatores que impulsiona-

riam a integração social do negro.

Nas grandes organizações, privadas

ou oficiais, as técnicas racionais de

seleção, de supervisão e de promo-

ção do pessoal põem ênfase nas

qualificações dos candidatos e na

produtividade do trabalho. A cor

fica em segundo plano ou passa,

para muitos efeitos, a ser pura e

simplesmente ignorada. 4

Destaco dois aspectos importantes

nas colocações desses autores. Em

primeiro lugar, o capitalismo cria,

por um lado, força de trabalho

ativa e, por outro, uma população

excedente para o capital que integra

a dinâmica própria do desenvolvi-

mento capitalista. Entretanto, a

composição deste excedente tem

sido fortemente influenciada por

fatores ideológicos, que dificultam

a participação de determinados seg-

mentos da população em idade

ativa na produção social. Os casos

da mulher e do negro ilustram mui-

to bem este aspecto. Os estereóti-

pos que reforçam a "inferioridade"

destes segmentos sempre atuam no

sentido de justificar sua exclusão ou

sua participação subordinada na es-

trutura produtiva. Nesse sentido,

entendemos que o aspecto econô-

mico não esgota as relações possí-

veis entre raça e classe. È preciso

levar em conta o peso da ideologia,

embora não esquecendo que, na

estrutura da sociedade, o fenômeno

assume sua dimensão mais concreta.

Sendo assim, a permanência da

subordinação social dos não-bran-

cos deve ser procurada além dos

efeitos do escravismo, e a perpetua-

ção dos preconceitos e discrimina-

ção sociais deveria ser interpretada

como função dos interesses mate-

riais e simbólicos do grupo domi-

nante branco durante o período

posterior ao escravismo (...) a socie-

dade de classes confere uma nova

configuração ao preconceito e dis-

criminação raciais: as práticas racis-

tas, sejam ou não legalmente sancio-

nadas, tendem a desqualificar os

não-brancos na competição pelas

posições mais almejadas que resul-

tam do desenvolvimento capitalista

e da diferenciação da estrutura de

classes 5 .

O segundo aspecto a destacar diz

respeito à suposição implícita nas

afirmações de lanni e Fernandes: no

capitalismo maduro, onde os seto-

res da economia relacionam-se de

forma mais equilibrada, seria possí-

vel por fim às práticas discriminató-

rias na absorção da força de traba-

lho. Entretanto, em economias cen-

trais, como a norte-americana, onde

o capitalismo alcançou altos níveis

de desenvolvimento, a "racionalida-

de" que lhe seria inerente não elimi-

nou a forte discriminação exercida

sobre o negro e outras minorias

étnicas.


trabalhadores

2. No Estado da Bahia

Existe um grande vazio na produ-

ção do conhecimento sobre a situa-

ção sócio-econômica do negro baia-

no. Além dos estudos historiográfi-

cos, encontramos uma vasta lista de

trabalhos que se ocupam de aspec-

tos da cultura afro-baiana, especial-

mente o candomblé. Por um lado,

isto evidencia a importância desta

cultura enquanto elemento vivo e

atuante na sociedade. Por outro,

indica, pelo menos em termos da

produção do conhecimento, que o

negro só tem existência socialmente

reconhecida como legítima a nfvei

da cultura popular. A culinária, a

religião e os folguedos são os ele-

mentos sistematicamente lembrados

para se falar do negro baiano.

Estes assuntos ganham dimensão de

mero folclore quando -apropriados

pelo discurso oficial, particularmen-

te aquele ligado à propaganda e ao

turismo. E importante observar que

a circunscrição do negro a essa esfe-

ra tem representado uma forma

nem sempre sutil de discriminação.

Determinados elementos da cultura

popular são erigidos em símbolos

válidos para o conjunto da socieda-

de; no entanto, não se reconhecem

seus criadores fora desse contexto.

Peter Fry sugere uma análise impor-

tante sobre a adoção dos símbolos

negros como marcas da cultura

nacional. Para ele, isto era e é politi-

camente conveniente para assegurar

a dominação, mascarando-a sob

outros nomes. Portanto, a troca

aparentemente livre de traços cultu-

rais entre vários grupos étnicos é in-

suficiente para deduzir a natureza

democrática da estrutura social. O

fato da sociedade usar a cultura

negra em seu benefício oculta, en-

tre outras violências, um estado

de dominação e preconceito ra-

ciais. 6

Os trabalhos que tentam esboçar

um quadro sobre a situação sócio-

econômica do negro na Bahia

datam de pelo menos 30 anos! O

primeiro deles, escrito no final da

década de 30 por Donald Pierson,

resulta de investigações sobre rela-

ções raciais. Segundo esse autor,

nem a raça nem a cor determinam

o status, mas sim as características

sociais relacionadas com a classe.

Embora identificando desigualda-

des, conclui, contra as evidências

por ele próprio apresentadas, pela

existência de relações raciais demo-

cráticas, com base principalmente

na incidência de uniões inter-raciais,

facilitadoras da ascenção do negro e

do mestiço.

Nos anos 50, é publicado um livro

de Thales de Azevedo - Às Elites

de Cor na Bahia — onde sSo reforça-

das as conclusões de Pierson. Rea-

firma a crença nas possibilidades de.

ascensão do negro, a partir do estu-

do de uma amostra de indivíduos

de cor pertencentes a grupos sociais

e profissionais de prestígio - asso-

ciações científicas, clubes recreati-

vos, profissionais liberais, professo-

res, estudantes universitários. Os

poucos que conseguiram furar a

barreira dos preconceitos, provavel-

mente às custas de sua própria iden-

tidade racial, servem erroneamente

de parâmetro para a população

negra como um todo. Em livro

escrito posteriormente, o autor re-

coloca a questSo em outras bases,

reconhecendo que a "democracia

racial" não garante condições efeti-

vas de igualdade de oportunidades

entre brancos e negros.

De qualquer modo, falava-se sobre

relações raciais. Mas permanece a

pergunta: como se dá, no berço da

democracia racial, a inserção dos

ditos fazedores de cultura na estru-

tura produtiva?

Um esforço no sentido de respon-

der esta questão assume especial sig-

nificado para um Estado como a

Bahia, onde os negros participam

com cerca de 78% na população

total, segundo o Censo Demográfi-

co de 1980.

Os estudos sobre a integração da

Bahia — e de Salvador em particular

— aos novos padrões de acumulação

capitalista indicam como as trans-

formações na estrutura produtiva,'

especialmente as verificadas a partir

dos anos 50, afetaram a vida do

trabalhador baiano. A implantação

da PETROBRAS, a criação do Cen-

tro Industrial de Aratu e posterior-

mente do Pólo Petroquímico de

Camaçari são marcos significativos

no processo de mudanças na estru-

tura do emprego.

Entretanto, a crescente generaliza-

ção das relações capitalistas teve

efeitos diferenciados nos diversos

grupos étnicos. Não há evidências

de que o fato do negro constituir

a maioria da força de trabalho sua-

vize üS efeitos da existência de prá-

ticas discriminatórias no recruta-

mento e seleção de trabalhadores.-

Ao contrário do que muitos ainda

imaginam, a preferência por traba-

lhadores brancos atravessa vertical-

mente os diferentes grupos ocupa

cionais. Como exemplo, mostramos

alguns casos de discriminação no

trabalho.

— 29 anos, química industrial, res-

pondeu ao anúncio de uma usina de

álcool de mandioca no interior do

Estado, que oferecia vaga para Téc-

nico Industrial. Aprovada nos testes

em outubro de 1984, passou a diri-

gir o laboratório da indústria. As

pressões sobre ela foram iniciadas

pelos próprios funcionários, que a

provocavam constantemente pelo

fato de ser negra. Recusavam-se, in-

clusive, a dividir com ela a moradia

oferecida pela empresa e a aceitá-la

em reuniões sociais. Em 2 de feve-

reiro de 1985, foi demitida por con-

tenção de despesas, segundo a justi-

ficativa da empresa (Jornal Afro-

Brasil -Zz 14/05/1985).

— 21 anos, professora primária,

estudante de Pedagogia, com expe-

riência em cursos de alfabetização.

No 1? semestre de 1985, apresen-

tou-se para estágio numa escola

para crianças localizada num bairro

de classe média em Salvador. De-

pois de algumas semanas trabalhan-

do sem remuneração, sentiu que

tinha conseguido o lugar que pre-

tendia. A coordenadora e as colegas

deixavam transparecer satisfação

com seu trabalho. Só que não hou-

ve contrato. Explicaram-lhe que a

decisão não era dos donos da esco-

la, mas uma imposição dos pais dos

alunos. Ela não fazia um "tipo" que

os agradasse. Foi substituída por

uma professora loura, de olhos

azuis, sem nenhuma experiência. A

escola, entretanto, empregava vá-

rias negras como serventes. (Jornal

da Bahia - 22 a 23/09/1985).

— Jovem morador do bairro da Fa-

zenda Grande (Salvador) candida-

tou-se a uma vaga de Vendedor

num grande estabelecimento comer-

cial. Passou por três entrevistas. Na

última, foi informado da inexistên-

cia de vagas e que deveria aguardar

alguns dias quando talvez fossu cha-


liÜBàlhadores

mado. Quase um mês após, consta-

tou ter sido contratado um amigo

seu, branco, que se apresentava para

emprego quatro dias após ele ter

sido recusado por falta de vagas

(Denúncia veiculada pelo Movimen-

to Negro Unificado, em dezembro

de 1982).

— "Infelizmente eu vou lhe ser sin-

cero: Preto, aqui, só pode trabalhar

escondido". Esta foi a afirmação

ouvida por um cozinheiro formado

pelo SEN AC, e por esse estabeleci-

mento indicado para trabalhar num

café situado no Shopping Center

Itaigara — Salvador (Jornal da Ba-

hia, 17/12/1981).

Estes casos ilustram o grau de difi-.

culdade que os trabalhadores negros

enfrentam para ter acesso ao mer-

cado de trabalho.

Nem sempre a maior ou menor

escolaridade ou a especialização

para o desempenho de uma deter-

minada função, aumenta as chances

dos negros na competição com tra-

balhadores brancos, é como se a

condição racial do trabalhador assu-

misse vida própria, passando a pre-

valecer sobre quaisquer outras con-

dições. Em todos os casos exempli-

ficados, aparece de forma mais ou

menos explícita a necessidade de

ocultamento do negro, justificada

por possíveis perdas do emprega-

dor, provocadas por reações negati-

vas de uma clientela branca. Desta

maneira, fixa-se um determinado

"lugar" para o negro na força de

trabalho, um lugar necessariamente

subordinado, necessariamente asso-

ciado às ocupações socialmente des-

valorizadas.

Para a mulher negra, tal situação

tende a assumir contornos mais

dramáticos, à medida que sexismo e

racismo se articulam. Mesmo nas

ocupações ditas "femininas", como

é o caso do ensino primário, a tra-

balhadora negra está em desvanta-

gem em relação à branca: servente

negra pode, mas professora, não!

0 que temos até o momento são

indicadores de um processo discri-

minatório que vem se recriando ao

longo de muitos anos. No entanto,

são eloqüentes o bastante para

apontar a necessidade de um maior

aprofundamento dos estudos e pes-

quisas na linha das preocupações

levantadas neste artigo.

O redimensionamento da discussão

sobre a força de trabalho e empre-

go, conforme já afirmamos, tam-

bém passa pela compreensão de que

a inserção da população trabalha-

dora na estrutura produtiva sofre

influência decisiva de fatores exter-

nos à dinâmica própria do relacio-

namento dos setores da economia.

1 WILLIAMS, Eric: Capitalismo e Escravidão, s.

1, p.. Americana, 1975. p. 4

2 NASCIMENTO, Abdiis: O genocídio do ne-

gro brasileiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra,

1978,p.71.

3 IANN1, Otávio: Raças e classes sociais no

Brasil, Rio de Janeiro, Civilização nrasilcira,

1972,p.44.

4 FERNANDES, riorestan: A imegraçãp do

negro na sociedade de classes. S Paulo Atica.

1978,p. 154

5HASENBALG, Carlos Discriminando c ./


trabalhadores

PESSOAS DE 10 ANOS OU MAIS, POR COR, SEGUNDO O SEXO E

O RENDIMENTO MÉDIO MENSAL - BRASIL - 1980

Sexo e

rendimento % sobre % sobre % sobre % sobre

médio mensal % sobre total cor total cor total cor total cor

(s-vUrio mínimo) Total o total Branca branca Preta preta Amarela amarela Parda parda

Homeni 43.454.590 100.0 24.029.845 100.0 2.681.874 100.0 332.619 100.0 16.305.496 100.0

Até 1/2 3.601.325 8,3 1.406.248 5.8 281.942 10.5 11.667 3,5 1.893.670 11,6

Mais de 1/2 a 1 6.941.396 15.9 2.890.091 12.0 604.978 22.5 18.118 5,4 3.414.127 20,9

Mais de 1 a 2 9.455.992 21.7 5.093.664 21,6 715.777 26.6 28.271 8.4 3.601.179 22,0

Mais de 2a 3 4.334.612 9,9 2.715.606 11.3 246.513 9,2 21.443 6.4 1.344525 8,2

Mais de 3a S 3.829.195 8,8 2.673.864 11.1 152.321 5.6 42.511 12.7 956.970 5,8

Mais de 5 a 10 2.616.448 6,0 2.026.380 8.4 61.102 2.2 56.704 17.0 469.242 2,8

Mais de 10 a 20 1.198.547 2.7 1.010.979. 4,2 11.822 0.4 34.499 10.3 139.181 0.8

Mais de 20 618.313 1.4 551.928 2,3 1.154 0.04 22.965 6.9 41.611 0.2

Sem rendimento 10.746.443 24.7 604.116 23.3 598.216 22.3 96.021 28.8 4.410.323 27.0

Sem declaraçío 112.319 0.2 56.969 0.2 8.049 0.3 420 0,1 34.268 0.2

Mulheres 44.695.358 100,0 25.439.647 100.0 2.685.782 100.0 306.202 100.0 16.150.272 100,0

Até 1/2 4.109.209 9,2 1.787.111 7.0 426548 15.9 10.168 3.3 1.873.091 11,6

Mais de 1/2 a 1 3.628.920 8.1 1544.648 7,6 338.526 12.6 10.906 34 1.328.149 8,3

Mais de 1 a 2 3.748.521 8,3 2.479513 9,7 247.537 9,2 18.533 6,0 997.636 6,1

Mais de 2a 3 1.204.708 2.7 890.780 3,5 45.525 1.7 12.862 4,2 252.368 1,5

Mais de 3a 5 1.022534 2.2 828.884 32 22.016 0.8 14.712 4,8 155.223 05

Mais de 5 a 10 628.887 1,4 535.607 2,1 12.538 0.4 11.354 3.7 68.661 0,4

Maitde 10 a 20 186.153 0.4 167.423 0,6 866 0.03 2.962 05 ■ 14.497 0,08

Mais de 20 41.127 0.09 39.626 0,1 41 0.001 159 0.05 1.301 0,008

Sem rendimento 29599.574 67.1 16.696.921 65,6 1.582.528 585 223.345 72.9 11.416.597 70,6

Sem dccUxaçio 125.325 0,2 68.734 0.3 9.257 0.3 1.201 0.3 42.749 0Í

FONTE.IBCE. Cavo de 1930.

Operário bom

é operário

desunido

Pela importância de suas lutas, a classe operária está sempre na

berlinda. Mas nem sempre é vista como ela é. A imagem de uma classe

composta de trabalhadores em situação absolutamente semelhante se

sobrepõe à realidade. Não é bem assim. Sexo, idade, religião, etnia,

origem geográfica, entre outros fatores, dividem a classe operária.

Os patrões sabem muito bem disso, e desenvolvem sofisticadas

políticas de pessoal que reforçam estas tendências. Selecionam seus

trabalhadores levando mais em conta sua capacidade de se acostumar à

disciplina industrial e o grau de compromissos dos trabalhadores —

como o de sustentar esposa e filhos — que sua qualificação técnica.

É isto o que nos revela uma pesquisa em uma fábrica de adubos da

Grande São Paulo, realizada por pesquisadores do CEDEC. Lembra

também que na política, no sindicato e na "cultura operária" criam-se

vínculos de solidariedade que podem trazer união para os

trabalhadores.

Robert Cabannes e

Marie Agnès Chauvel*

Costuma-se pensar em "classe

operária" como um grupo

homogêneo. Porém, se a classe

operária assalariada compartilha

fundamentalmente a mesma posi-

ção na produção, no sentido em

que é separada dos meios de produ-

ção, esta separação não é idêntica

para todos esses elementos. A esca-

la das qualificações, por exemplo,

determina vários segmentos dife-

Cor

renciados dentro do conjunto dos

assalariados. Mas a posição na pro-

dução não é o único fator de seg-

mentação. A idade, o sexo, os

aspectos culturais, em suma socia-

lização global dos indivíduos —

trabalho incluído — constituem

outros tantos fatores segmentado-

res. Ao mesmo tempo que uma pes-

soa faz parte do proletariado, den-

tro do qual tem uma determinada

profissão numa determinada em-

presa, ela também vive um sistema

familiar, social, cultural, etc, Tudo

isso pode influir na segmentação

ou unificação da classe operária.

É, portanto, necessário realizar

estudos concretos, dentro e fora do

local de trabalho, que permitam

evidenciar mecanismos ou proces-

sos de segmentação e de unificação,

dentro do mundo operário. Entre

outros, coloca-se a política de ges-

tão da mão-de-obra das empresas.

Vejamos os efeitos segmentadores

de tal política dentro de uma em-

presa do setor químico da Grande

São Paulo.

O recrutamento

Os critérios adotados para o

recrutamento não obedecem pro-

priamente a uma lógica de qualifi-

cação profissional, mas sim ao que

poderíamos chamar de uma lógica

de qualificação "social". O primei-

ro deles é o da "disciplina indus-

trial": o candidato deve ter traba-

lhado no mínimo um ano completo

dentro de uma mesma empresa de

qualquer ramo. Assim, não impor-

ta propriamente a experiência em

alguma atividade e sim a experiên-

cia prévia da disciplina industrial.

O segundo critério é o da disciplina

de fábrica: o recrutamento efetua-

se sistematicamente no posto e no

nível mais baixo da escala de quali-


alhadores

ficações e salários. Quaisquer que

sejam o nível escolar e a experiência

anterior do candidato, este deverá

iniciar no posto de ajudante. Seu

recrutamento fica, assim, condicio-

nado a aceitar previamente a lógica

imposta pela fábrica. Estabelece-se

claramente, desde o início, que a

bagagem profissional do indivíduo

não é relevante frente às normas da

empresa.

O terceiro critério, finalmente,

é o da estabilidade pessoal e social

do candidato, avaliada por testes e

pelo nível de "responsabilidade

social": é preferível ser casado, ler

filhos ou estar pagando uma casa

própria; é também apreciado que a

esposa não trabalhe ou que seu

salário seja apenas complementar.

Em suma, os critérios que defi-

nem a qualificação ao nível do re-

crutamento são mais sociais que

profissionais. A aptidão é julgada

através das características pessoais

e sociais do candidato. O nível de

formação e experiência profissional

anterior, ou seja, os dados que apa-

rentemente deveriam determinar a

qualificação propriamente dita

para o emprego, têm pouca ou ne-

nhuma relevância.

A trajetória

na empresa

Entre os já recrutados a empresa

fará também sua escolha para as

promoções e demissões, definindo

assim quatro tipos de itinerários ou

três mercados de trabalho:

1) a primeira trajetória possível

é curta: o operário admitido como

ajudante no período de alta da de-

manda de adubo: trabalhará de três

a seis meses antes de ser .demitido

ao final do pique de demanda. Tra-

ta-se, na realidade, de um trabalha-

dor sazonal;

2) uma parte desies ajudantes,

no entanto, escapar?, das demissões

e será mantida pela empresa a fim

de assegurar a renovação dos efeti-

vos. Estes poderão iniciar uma tra-

jetória na empresa, permanecendo,

em geral, menos de três anos no,

posto de ajudante, e começam em

seguida a "subir" na empresa. Esta

ascensão será porém logo interrom-

pida para boa parte deles, demiti-

dos ao alcançar o nível dos postos

de operários qualificados, após um

tempo médio de casa variável de

acordo com as seções (de 3,9 a 4,3

anos). Os motivos de demissão são

de três tipos: o mais alegado (38%

dos casos) é o comportamento no

trabalho: faltas, desinteresse em

relação ao trabalho, falta de disci-

plina com os chefes, etc. Alguns

operários que não foram objeto das

apreciações acima, chegaram su-

postamente no seu nível máximo de

competência e são julgados incapa-

zes de progredir. Eles são então

"selecionados" pela demissão. Este

é o motivo de 23% dos casos. Os

outros, 39% dos casos, eram objeto

de apreciações positivas e julgados

aptos a continuar na trajetória

ascendente. Aqui entra em jogo a

política da empresa, de um recruta-

mento sempre superior às necessi-

dades que lhe seriam impostas pelas

únicas "perdas técnicas" de seus

efetivos. Ela poderia renovar seus

efetivos ao nível de ajudante e

demitir, seja nesse nível, por moti-

vos de "comportamento no traba-

lho", seja no nível de operário

semiqualificado, para os considera-

dos inaptos a progredir, evitando

dessa fôrma a perda de operários

julgados capazes de progredir. Po-

rém, isso acarretaria um "bloqueio"

na escala hierárquica, pois os ope-

rários dos postos mais elevados

nunca liberariam suas vagas. Tal

empecilho à progressão alteraria o

ambiente interno das relações de

trabalho. É, obviamente, vantajoso

para a empresa que todos se sintam

estimulados pela perspectiva; mes-

mo longínqua, de possíveis promo-

ções. Além disso, é também conve-

niente abastecer-se regularmente de

nova mão-de-obra.

Os operários desta categoria —

semi-qualificados em vias de quali-

ficação — estão sem dúvida — so-

bretudo em período de crise de de-

semprego — destinados a reiniciar

uma trajetória semelhante em uma

outra empresa, onde deverão come-

çar "de baixo" novamente, até

serem dispensados. É, pelo menos,

o que indicam os recrutamentos dos

anos 1981 a 1984, durante os quais

foram admitidos — sempre no nível

de ajudante — operários que ti-

nham em 1984 uma média de idade

de 43 anos e uma larga experiência

profissional na indústria;

3) passada a barreira' desta últi-

ma seleção, oferece-se uma segunda

possibilidade de trajetória menos

decepcionante. Os operários desta

categoria — operários qualificados

— estão, nessa empresa, pratica-

mente assegurados de sua estabili-

dade. Os casos de demissão nesse

nível são raríssimos. Sua idade mé-

dia varia de acordo com as seções,

de 45 a 50 anos, e eles têm em média

14 a 17 anos de empresa. Sua quali-

ficação é, ao mesmo tempo, técnica

e social. Eles são considerados con-

formes às normas ideológicas da

empresa e, ao mesmo tempo, deposi-

tários da memória técnica de sua

seção. Diferentemente da fração dos

operários semiqualificados, julga-

dos aptos a progredir, mas que fo-

ram demitidos e que deviam ser

depositários apenas da memória

técnica.

Dentro deste último grupo dos

operários qualificados, há uma sub-

categoria constituída de operários

cujo percurso profissional na empre-

sa foi nitidamente mais rápido. Eles

atendem, é claro, aos dois critérios

de qualificação (técnica e social)

definidos pela empresa, e sua pro-

gressão mais rápida poderia expli-

car-se pelo fato de que eles pos-

suíam, mais que outros na empresa,

um nível de qualificação relativa-

mente alto (semiqualificado) e um

nível escolar de 1? grau completo.

Essa categoria é minoritária dentre

os operários qualificados (27%).

Podemos dizer, no entanto, que

dessa forma — que permanece mui-

to marginal — a empresa ameniza

os efeitos de seu sistema de seleção

inicial. Uma vez tendo demonstra-

do sua adequação ao comporta-

mento desejado pela empresa, a

qualificação profissional anterior

do funcionário (grau de escolarida-

de e experiência profissional) pode

ser levada em conta, acelerando

eventualmente a trajetória ascen-

dente do operário. Esses aspectos

de qualificação técnica tornam-se

porém irrelevantes se o funcionário

não atender às exigências e normas

de comportamento definidas pela

empresa. A qualificação "social"

é, portanto, prioritária face à quali-

ficação profissional propriamente

dita.

Vimos aqui um exemplo de ges-

tão de mão-de-obra de uma empre-

sa como fator de segmentação do

mercado de trabalho. Vale a pena

ressaltar que, embora se trate de

uma política de empresa, isto é,

com objetivos essencialmente pro-

dutivos, e que, assim sendo, deveria

selecionar — segmentar — seguin-

do critérios ■ de produtividade e,

portanto, de profissionalidade, o

que se dá, na realidade, é uma sele-

ção, inicial e interna, baseada es-

sencialmente em critérios sociais.

Isto confirma a importância de não


trabalhadores

se deixar de lado aspectos aparente-

mente exteriores a critérios estri-

tamente técnicos de qualificação,

como, por exemplo, disciplina in-

dustrial, disciplina de fábrica e qua-

lificação "social".

Essa empresa representa apenas

um acaso, porém revelador, ao nos-

so ver, do que ocorre num período

de crise, quando o mercado de tra-

balho é reduzido e o desemprego

elevado.

Finalmente, o fato de a empresa

procurar "dividir para reinar",

atendendo às necessidades de sua

própria política, não significa que

os operários serão de fato separa-

No futuro: que sindicalismo?

dos e divididos entre si. Se as for-

mas de solidariedade entre operá-

rios são restritas a cada uma das ca-

tegorias, cada uma delas fica então

separada das outras: pode-se falar

em cooperativismos. As formas de

solidariedade podem também, pelo

contrário, estender-se a várias cate-

gorias, seja devido a fatores pró-

prios do mundo de trabalho (em es-

pecial, a atividade sindical), seja

por razões externas, seja devido a

fatores próprios do mundo do tra-

balho (em especial, a atividade sin-

dical), seja por razões externas ao

trabalho: cultura operária, função

da classe operária no sistema políti-

Os sindicatos face à crise capitalista

e à revolução científica e técnica

A crise actual que atinge

os paises dominados pelo

grande capital t produto

de três factores convergen-

tes, ou seja:

— uma aceleração do

progresso cientifico e técni-

co tal que, se não conse-

guirmos uma diminuição

do tempo diário de traba-

lho proporcional ao acrés-

cimo da produtividade, es-

ta nova revolução indus-

trial arrisca-se a destruir

bem mais empregos do que

aqueles que criou;

— enfim, uma crise do

sistema monetário e finan-

ceiro do mundo capitalista

traduzindo-se por um agra-

vamento do endividamento

dos países em vias de de-

senvolvimento (cuja divida

é da ordem de 1 milhão de

milhões de dólares) e um

aumento dos défices orça-

mentais públicos, ligado

essencialmente ao relança-

mento da corrida aos ar-

mamentos.

De facto, o aumento das

despesas militares mun-

diais, impulsionado pelo

complexo militar-industrial

dos Estados Unidos da

América, atingiu o número

de 900 mil milhOes de dó-

lares anuais, impeditivo de

qualquer recuperação eco-

nômica.

UMA ACELERAÇÃO

DA REVOLUÇÃO

CIENTÍFICA E TÉCNICA

Há pouco mais de 70

M.rccllno CAMACHO (*)

Movimento Sindical Mundial, N." 7/86

anos, para passar da inves-

tigação fundamental à pes-

quisa aplicada, e depois ao

fabrico em série, era preci-

so em média um período

de pelo menos 50 anos.

Hoje, sobretudo no domí-

nio das técnicas espaciais,

alguns materiais novos são

criados em três anos,

quando não menos; a mé-

dia ejtá em nove anos. As-

sim, num pouco mais de

meio século, o prazo ne-

cessário para encontrar

aplicações industriais para

a pesquisa fundamental

passou pois de 50 anos pa-

ra 9. É o que se chama a

aceleração da revolução

cientifica e técnica.

Que incidência tem a re-

volução cinetífica e técnica

na estrutura interna do

movimento operário? A

primeira é que aparecera

novas profissões ligadas às

tecnologias avançadas, que

podemos resumir esquema-

ticamente à micro-electró-

nica e aos seus derivados:

à informática, à telemáti-

ca, à robótica e à engenha-

ria genética ou bioengenha-

ria. Convém acrescentar

que nas próximas gerações

será freqüente que os tra-

balhadores devam mudar

de profissão várias vezes

na sua vida.

A revolução científica e

técnica em curso cria no-

vos materiais; ela automa-

tiza e robotiza, reduzindo

fortemente (ou quase) a ze-

ro o número dos trabalha-

dores empregados nas li-

nhas de montagem. Os tra-

balhadores deixaram de es-

tar concentrados em imen-

sas oficinas ou escritórios,

mas sim, distribuídos em

pequenas equipas em cen-

tros de programação onde

eles garantem o controlo

da produção.

A partir do começo dos

Anos 80, assistimos a uma

transformação rápida da

estrutura das qualificações

que estão orientadas cada

vez mais para tarefas de

concepção, de realização e

de conservação dos equipa-

mentos automatizados. Em

1985, 20% da mão-de-obra

empregada nas linhas de

montagem na indústria au :

tomóvel foi substituída por

sistemas automatizados ou

robotizados.

Como faria notar um re-

cente estudo realizado por

pesquisadores da Universi-

dade de Michigan, 20% do

conjunto dos empregos in-

dustriais nos Estados Uni-

dos da América (não só no

sector automóvel) serão re-

modelados em profundida-

de daqui a 1987; 25% das

linhas de montagem (que

são as mais difíceis de au-

tomatizar) serão robotiza-

das; 50% da mão-de-obra

empregada na montagem

de componentes electróni-

cos terá sido substituída

em 1988 por máquinas.

co nacional (ditadura ou regimes

democráticos). É este vaivém entre

corporativismo e unificação que

merece ser estudado, especialmente

neste momento em que as mudan-

ças tecnológicas levam a novas for-

mas de organização do trabalho nas

i empresas. *

■ Robert Cabannes e Marie Agnès Chauvn! são

pesquisadores do Instituto Francês da Pesquiti

Cientifica a Técnica para o Desenvolvimento vm

Cooperação — ORSTOM e pesquisadores

visistantes do CE DEC.

O MOVIMENTO

OPERÁRIO EM PLENA

MUTAÇÃO

A revolução cientifica e

técnica tem numerosas re-

percussões na estrutura in-

terna do movimento operá-

rio e origina profundas

mutações nás relações en-

tre os diversos elementos

que a compõem. Em Espa-

nha', por exemplo, 45%

dos empregados da empre-

sa FEMSA - Robert Bosch

são hoje, técnicos perten-

centes a um vasto leque de

qualificações. E a empresa

da ITT .Espanha, em Três

Cantos, possui 150 técnicos

superiores e 450 técnicos

num total de 674 trabalha-

dores.

Os grandes centros in-

dustriais — fortaleza do

sindicalismo da era

industrial — esfarelam-sc.

A classe operária clássica

continua ainda a ser uma

força numericamente muito

importante, combativa e

organizada, mas já não é

maioritária. O peso numé-

rico dos trabalhadores in-

dustriais tende a reduzir-se

comparativamente com o

dos trabalhadores dos ou-

tros ramos, cujo número

cresce com a multiplicação

das pequenas unidades de

produção disseminadas em

todo o país. E esta nova

classe operária caracteriza-

-se por uma muito grande


trabalhadores

mobilidade das profissões e

dos empregos.

Paralelamente, observa-

-se um desenvolvimento do

trabalho negro e de uma

"economia subterrânea",

do trabalho em casa, que

são conseqüências da dege-

nerescência do sistema eco-

nômico dominado pelo

grande capital. Este, para

preservar as suas margens

de lucros, transforma os

empregos fixos em empre-

gos precários e suprime as

conquistas arrancadas du-

rante a última metade des-

te século. Estas novas ca-

madas de trabalhadores

precários nâo vêem de for-

ma alguma aumentar as fi-

leiras da classe operária

clássica organizada e com-

bativa; trata-se mais de

uma espécie de "sub-prole-

tariado" moderno, cortado

das empresas e que não

participa nas lutas, em vir-

tude da ausência total de

organização.

OS SINDICATOS

DEVEM ADAPTAR-SE

ÀS NOVAS

CONDIÇÕES

Tudo isto constitui para

o nosso movimento sindi-

cal graves desafios, pois tal

como há um século, a or-

ganização dos trabalhado-

res, a coordenação das

suas lutas e a sua unidade

são tão necessárias como

em Maio de 1886, em Chi-

cago.^O papel e a eficácia

da acçSo do nosso movi-

mento sindical de classe

dependerão em larga medi-

da da sua capacidade de

concentrar os trabalhado-

res, de uni-los e de coorde-

nar as suas lutas a fim de

criar a correlação de forças

necessária para fazer evo-

luir a situação econômica

num sentido favorável aos

seus interesses. Isto exige

dos sindicatos que sejam

capazes de elaborar respos-

tas à crise e propor alter-

nativas aceitáveis e concre-

tas- que lhes permitam ga-

nhar o apoio da maior

parte do movimento operá-

rio e a simpatia dos seus

aliados (empregados, etc.)

o que é essencial para a

defesa dos serviços públi-

cos. -

As mutaçOes actuais do

mundo do trabalho e o de-

semprego engendrados pela

introdução das novas tec-

nologias exigem formas

novas de organização dos

sindicatos. A revolução

científica e técnica e a crise

capitalista provocam pro-

fundas transformações na

estrutura interna da classe

operária e exigem uma

adaptação do movimento

sindical às novas condi-

çOes, uma adaptação con-

firmando o seu caracter de

classe e correspondente às

tradições nacionais.

PROCURAR NOVAS

FORMAS

DE ORGANIZAÇÃO

Um sindicalismo de clas-

se, maleável nas suas for-

mas de organização, capaz

de se apoiar na classe ope-

rária "clássica" e de repre-

sentar uma força atractiva

para as novas categorias de

trabalhadores (mas tam-

bém para todos os traba-

lhadores marginalizados,

os desempregados, a juven-

tude, as mulheres, etc): tal

é o imperativo da nossa

época. Isto implica o alar-

gamento da democracia

sindical; o desenvolvimento

dá prática de realizar con-

sultas aos trabalhadores

sobre as questões vitais

que lhes dizem directamen-

te- respeito; uma larga par-

ticipação das massas não

organizadas sem se deixar

ní 24 CIÊNCIA HOJE

CRUZADO

X

AUSTRAL

Nos últimos dez anos, a Argenti-

na converteu-se numa espécie

de laboratório de experiências

econômicas cujos resultados, diferentes en-

tre si, sempre puderam ser utilizados co-

mo exemplo — positivo ou negativo — no

Brasil. Entre 1976 e 1981, aquele país foi

vítima de uma política econômica liberal

destinada, segundo seus autores, a elimi-

nar as "distorções do estatismo", condi-

ção considerada necessária para a supera-

ção dos obstáculos que se antepunham à

retomada do crescimento. A experiência,

que redundou na pior crise de toda a his-

tória argentina, logo se converteu em ex-

celente exemplo de como não deve ser tra-

çada uma política econômica.

A restauração democrática de 1983 veio

acompanhada das promessas do presiden-

te Raul Alfonsín de promover o combate

simultâneo à inflação e à estagnação. Com

isso, a Argentina voltou a receber atenção

dos brasileiros, seja dos que acreditavam

na exeqüibilidade da combinação dessas

metas, seja dos que pretendiam utilizar um

eventual fracasso da nova política como

prova da ingenuidade de seus pressupostos.

Em junho de 1985, em meio a um des-

controle inflacionário, o presidente Alfon-

sín decidiu adotar um plano de estabiliza-

ção — conhecido como Plano Austral —

cair no espontanelsmo. O

nosso movimento sindical

deve portanto ser capaz de

agarrar e assimilar o que é

novo, e também de apreen-

der o que é marginal, para

além dos problemas funda-

mentais.

Só nesta base podemos

defender eficazmente os in-

teresses dos trabalhadores

activos, os reformados, e

também aqueles que a crise

capitalista marginalizou.

Podemos e devemos de-

fender eficazmente a paz e

a vida. Podemos, dentro

das melhores tradições do

sindicalismo de classe, con-

tribuir para a emancipação

dos trabalhadores e das

trabalhadoras, o favorecer

o nascimento de uma so-

ciedade socialista, baseada

nos princípios da autoges-

tão e onde sejam garanti-

das a todos os trabalhado-

res liberdades sem prece-

dentes.

A melhor maneira de co-

memorar o centenário da

luta heróica dos trabalha-

dores de Chicago, em

1886, é a de mostrar a

nossa capacidade de orga-

nização, a nossa capacida-

de de unir os trabalhadores

na luta pelas suas reivindi-

cações fundamentais: o

trabalho e a paz. A reivin-

dicação em 1986 das 35

horas de trabalho por se-

mana eqüivale — guardan-

do as devidas propor-

ções — às 48 horas exigi-

das em 1886, há um sé-

culo.

Na sua luta pela vitória

destas reivindicações, as

Comissões Operárias

(CC.OO), que constituem

üm poderoso movimenio

na vida social e política de

Espanha, continuarão a

basear a sua acção nos

princípios de um sindicalis-

mo de classe e de massas,

pluralista e unitário, demo-

crático e independente.

C) Secretário-geral ria Confede-

ração Sindical das Comissões Ope-

rárias de Espanha (CC.OO).

A experiência argentina mostra que o controle da

inflação não é suficiente para garantir um crescimento

econômico sustentado. Mas o Brasil, que também

experimentou recentemente a indigesta combinação de

recessão e arbítrio, parece estar em situação

privilegiada para retomar, a um só tempo,

desenvolvimento e democracia. Resta o desafio de

acoplar a esses processos uma distribuição de renda.

Fábio Giamblagi

Ftculdadt de Economii e Adminillraçío, Univtnidadc Fcdcrjl do Rio de Janeiro

destinado a reduzir drasticamente a esca-

lada dos preços. Por seu impacto e pelo su-

cesso que logrou a curto prazo, a medida

se transformou, aos olhos de muitos eco-

nomistas brasileiros, num exemplo a ser se-

guido. Posteriormente, porém, diante do

agravamento da recessão argentina, mui-

tas opiniões se modificaram, e esse tipo de

tratamento de choque passou a ser desa-

conselhado pelos que temiam que se pro-

duzissem aqui as mesmas conseqüências.

Uma vez que um plano de estabilização

econômica com semelhanças evidentes com

o Plano Austral foi finalmente adotado no

Brasil, cabe analisar em que aspectos os

dois programas se assemelham e se diferen-

ciam, para evitar incorrer em avaliações

equivocadas, porque superficiais, das me-

didas decretadas no dia 28 de fevereiro pe-

lo governo José Sarney.

Embora pouco originais nas polí-

ticas econômicas que prescrevem,

os economistas conservadores cos-

tumam ser criativos ao formular imagens

para o que escolhem tradicionalmente co-

mo inimigo número um: a inflação. Uma

das figuras que mais utilizam é a que asso-

cia a in Oação a um câncer que destrói o te-


economia

cido social de um país. Quando seus auto-

res são ministros da economia, esse diag-

nóstico costuma ter dois tipos de conse-

qüência. Confundindo-se com leucemia

uma simples gripe, atribui-se extrema gra-

vidade a níveis inflacionários a que a eco-

nomia pode perfeitamente se adaptar. Tam-

bém com freqüência, na tentativa de apli-

car uma terapia de choque, recomendam-

se remédios que, piores do que a própria

doença, agravam o estado do paciente, is-

to é, conduzem o país a séria recessão, com

a agravante de que a inflação, mostrando-

se imune ao tratamento, muitas vezes pre-

valece.

Nos casos recentes da Argentina e do

Brasil, porém, a imagem do câncer reflete

com precisão o estado de espírito reinan-

te. Tanto lá como aqui, processos de rede-

mocratização incipientes encontravam-se

potencialmente ameaçados por uma esca-

lada dos preços que corroía a confiança da

população no governo e na própria eficá-

cia do sistema democrático, estimulando

nos dois países uma crise moral sem pre-

cedentes. Em ambos, a crescente especu-

lação financeira e o sentimento de impo-

tência diante da constatação de que pou-

cas possibilidades se tinha de sobreviver fo-

ra desse circuito criaram um clima propí-

cio a tratamentos ousados de combate à

inflação.

A situação caracterizava-se pela perda

generalizada da percepção da dimensão de

preço real. Quando os níveis de inflação

não ultrapassam determinado limiar — que

aliás é difícil definir —, as pessoas, obri-

gadas a considerar minimamente a evolu-

ção dos preços para calcular seus gastos,

encaram a inflação futura como algo rela-

tivamente tolerável, porque são capazes de

prevê-la com certa margem de segurança.

Quando a taxa é muito alta, porém, a mar-

gem de variação das taxas potenciais tam-

bém se eleva. O resultado é que as tensões

tendem a se exacerbar, e a maioria dos

agentes econômicos, querendo se precaver

contra as perspectivas mais negativas, pro-

cura aumentar seus rendimentos a taxas

crescentes e superiores às da inflação pas-

sada, o que provoca inevitavelmente a ace-

leração inflacionária.

Na análise desse tipo de situação, costu-

ma vir à baila o exemplo da hiperinflação

alemã de 1923, em que o processo adqui-

riu tal velocidade que os preços eram re-

marcados várias vezes por dia. Tomando

o índice de julho como base 100, o nível

dos preços atingiu em novembro o valor de

quase 971 milhões, sendo que em outubro,

quando chegou ao pico, a inflação foi de

29,536%. Por outro lado, o caos fiscal c

tributário era completo, tendo o déficit go-

vernamental — que já em 1922 correspon-

dera a 627o das despesas — atingido em

1923 a inacreditável proporção de 89% das

despesas (ver "A hiperinflação alemã de

1923", nesta edição).

Ainda que sumárias, estas in r >rmaçfies

provam que a situação recente do Brasil di-

fere muito daquela vivida pela Alemanha

seis décadas atrás. É difícil traçar analo-

gias entre os planos de combate A inflação

adotados nos dois países, embora ambos

tenham promovido o súbito estancamento

do processo inflacionário: em janeiro de

1924, a inflação na Alemanha caiu a 7%

negativos e, no Brasil, tivemos em março,

pela primeira vez em 27 anos, deflação.

O paralelo com a Argentina é mais

evidente, a despeito de diferenças

que ressaltaremos adiante. Nesse

país, os meses que precederam o choque

(anunciado em 14 de junho de 1985) ha-

viam sido marcados por taxas de inflação

extremamente elevadas, como se pode ob-

servar na figura 1, que mostra sua evolu-

ção antes e depois do lançamento do Pla-

no Austral.

Ao decidir combater a inflação por meio

de uma nova terapia, o governo Alfonsín

tomou uma série de medidas, entre as quais

merecem destaque: o congelamento de pre-

ços e salários, mantido o reajuste destes em

aproximadamente 22,6%, correspondentes

a 90% da inflação ocorrida em maio; a

criação de nova moeda, o austral, com pa-

ridade fixa de 0,80 por dólar e igual a mil

unidades da moeda antiga, o peso; o esta-

belecimento de uma tabela de conversão

para as dívidas passadas, com uma taxa de

desvalorização diária do peso em relação

ao austral (correspondendo a aproximada-

mente 30% ao mês); a decisão de não emi-

tir moeda para financiar o déficit fiscal e

o crédito; a regulação das taxas nominais

de juros entre 4 a 6% ao mês.

Cabe, entretanto, explicar algumas ca-

racterísticas adicionais que delineavam o

contexto do surgimento do Plano Austral

c da sua evolução posterior. Em primeiro

lugar, poucos dias antes da decretação das

medidas, o governo aumentara drastica-

mente as tarifas dos serviços públicos, que

sofreram em média, entre dezembro de

1984 e julho de 1985, uma elevação real de

17,9%. Da mesma forma, a taxa de câm-

bio real fora incrementada em 18% pou-

cos dias antes do choque, fato que se so-

mou a uma minidesvalorização real de qua-

se 5% observada no mês anterior.

O plano tinha como objetivo exclusivo

reduzir drasticamente o nível de inflação.

Nesse sentido, seus resultados foram ine-

quivocamente positivos. Fundava-se na

idéia central de que, em meio a uma corri-

da de preços e salários, ninguém saía ga-

nhando. Assim, o congelamento não teria

porque ser prejudicial para ninguém, isto

é, os resultados seriam neutros do ponto

de vista distributivo.

—r —r-,—7 . t'.1 ,... . ■ l "i l ■.;;.;'.. ■ ., 1

1985

30 ^

25 / [s N /

20 \ / \

15 \

10 \

No que diz respeito aos resuliados do

plano, chama a atenção, na evolução das

variáveis, o descolamento entre as taxas de

aumento do custo de vida c as de aumento

dos preços no atacado, mostrado ha figu-

ra 2. Aparentemente, foi impossível con

trolar os preços de uma série de bens, t em

especial de serviços, e estes acabaram ' pi»

xando" o índice de custo de vida para c-

ma, sem que entretanto os empresários pu

dessem suportar uma eventual reposição s.i-

larial, porque seus preços não aumeniavain

na mesma proporção. Os dados relativos

a fevereiro deste ano, por exemplo, são sin

tomáticos a esse respeito: enquanto os pre

ços no atacado aumentaram 0,8%. o eus

to de vida aumentou 1,7%, pressionado pc

Ia alta dos preços dos alimentos c bebidas

(2,l%)e de serviços que fogem ao contro-

le oficial, como os de saúde, que se eleva

ram em 6,5%.

Nos últimos tempos, a maioria dos ana

listas tem apontado a existência de elemen

tos recessivos no Plano Austral. Essa cr.

tica ignora o fato de que este foi aplicado

quando a Argentina já vivia há muito um

processo recessivo: 1985 foi o quinto ano

consecutivo de queda do nível de mvesn

mento. Em 1984, embora o produto mter

no bruto (PIB) tivesse crescido 2%, a lot

mação bruta de capital fixo caíra 18%,

situando-se 57 pontos percentuais abaixo

do nível observado em 1980. E, se o presi

dente Alfonsín impulsionara o crcscinien

to no início de sua gestão, nos primeiros

meses de 1985 sua política econômica já era

claramente contracionista, o que explica,

muito mais que o Plano Austral cm si, a

queda de 3% registrada no PIB do ano pas-

sado. Entre 1973 e 1985 — período duran-

te o qual a renda no Brasil aumentou 75%

— o PIB argentino caiu 2%, o que, em ter-

mos de renda per capita, significa queda

ainda maior.

Embora o presidente Sarney tenha

afirmado, no discurso em que

anunciou as recentes medidas eco-

nômicas, que o plano de estabilização não

foi copiado de nenhum país, sua matri/

teórica é inegavelmente a mesma que deu

origem ao Plano Austral. Ambos os pla-

nos têm em seus fundamentos a idém de

que a distribuição de renda pode ser a mes

ma, sejam as taxas de inflação nultts ou de

1.000%. Assim sendo, o importante par;'

1986

5 L

V

0

—- -* —■ ^

J FMAMJJASONDJF

Flg.I. Custo de vldi m Argentlm (%).

1

»


25

1985

1986

20 S Custo

de vida

15 /

1

10 1-^^ y

5 /

0

-5

i^^

^ —

^' 1 1

Preços no .

iiacado

J A S 0 N D J F

Fig.2. Taxas acumuladas desde o Início do Plano Aus-

tral (i/o).

a determinação dos valores de remunera-

ção dos agentes econômicos não seriam os

valores nominais, nem o valor real vigente

em determinado momento, e sim os valo-

res reais médios verificados entre as datas

de reajuste. Daí o princípio da correção de

todos os valores contratuais pela média real

do período passado, com o que se elimi-

naria o elemento de inercialidade embuti-

do nas taxas de aumento de preços.

A reforma econômica brasileira preten-

deu portanto, como a argentina, provocar

a queda drástica e imediata da taxa de au-

mento dos preços, pondo fim tanto à ilu-

são monetária — representada pela ocor-

rência de aumentos nominais constantes

que apenas recompunham valores reais pré-

vios e passavam a ser imediatamente cor-

roídos pela continuidade da inflação — co-

mo à exacerbação especulativa provocada

por taxas mensais de inflação da ordem de

dois dígitos.

Ressaltadas as semelhanças, cabe agora

discernir, por temas, as diferenças que se-

param os dois planos.

Tomemos em primeiro lugar os salários.

Enquanto na Argentina os salários foram

reajustados em torno da média real do pe-

ríodo anterior, mas sem cláusula de prote-

ção contra a inflação futura, no Brasil,

além do abono inicial de S^o sobre essa mé-

dia, adotou-se a escala móvel. Esta, que

prevê reposição salarial automática toda

vez que a inflação chegar a 20%, tende a

preservar o valor real dos salários.

No que diz respeito aos preços, embora

o Brasil possa a princípio sofrer problemas

semelhantes aos que a Argentina está en-

frentando com relação a bens e serviços que

escapam ao controle oficial, não há moti-

vos para se prever o repasse de custos de-

cretados imediatamente antes do choque.

Foi isso, no entanto, o que aconteceu na

Argentina, onde os aumentos reais de ta-

rifas e do câmbio ocorridos em junho aca-

baram por influenciar os custos e os pre-

ços nos meses subseqüentes. Além disso,

no Brasil os preços foram congelados após

um choque agrícola, ao passo que na Ar-

gentina eles sofreram, depois de lançado o

Plano Austral, pressões provocadas por

problemas de entressafra e por enchentes.

Finalmente, enquanto o Brasil dispõe de

margem de manobra para garantir o abas-

tecimento com importações adicionais, a

Argentina não tem como evitar aumentos

de preços de produtos afetados por quedas

da produção interna, dada a precária situa-

ção das suas contas externas, que tende a

impedir o incremento das importações.

Outro aspecto a considerar é o das ta-

xas de juros e da capacidade de manobra

da política econômica. Um dos elementos

críticos da situação argentina, que indepen-

de da vigência do Plano Austral, é que a

permissividade oficial no tocante ao ingres-

so de capitais no país entre 1977 e 1981 mo-

dificou completamente o perfil do sistema

financeiro local. O valor dos ativos em dó-

lar assumiu um peso formidável. O mer-

cado paralelo, portanto, adquiriu ali im-

portância muito maior que no Brasil, ao

mesmo tempo em que, por causa da reces-

são, há poucas oportunidades de investi-

mento no circuito produtivo. Em conse-

qüência, as autoridades econômicas são

obrigadas a manter as taxas de juro altas

para evitar tanto uma corrida ao dólar pa-

ralelo (caso a remuneração dos outros pa-

péis deixe de ser atraente) como o aumen-

to da especulação com estoques de merca-

dorias. A situação é inteiramente diversa

no Brasil, onde o mercado paralelo é pe-

queno, o controle oficial sobre o sistema

financeiro é maior e há possibilidades in-

teressantes de investimento.

Acima de tudo, o que torna as pers-

pectivas de um e outro plano di-

ferentes, para não dizer antagô-

nicas, é a situação do balanço de pagamen-

tos dps respectivos países. Ao tempo em

que a Argentina era governada pelos mili-

tares, Jorge Luis Borges fez uma vez,

referindo-se à situação política, um confis-

são amarga: "Anteriormente, por causa da

situação do país, eu estava preocupado.

Agora, estou desesperado." Embora, do

ponto de vista político, o restabelecimen-

to da democracia tenha negado a posteriori

as razões do ceticismo do escritor, a frase

permanece rigorosamente aplicável à atual

situação econômica argentina.

Com uma pauta de exportação compos-

ta em mais de 70% por produtos de ori-

gem agropecuária, enfrentando problemas

de preço com as cotações desses produtos

no mercado internacional, com um parque

industrial obsoleto e extremamente depen-

dente de importações, asfixiada pelo pe-

so dos encargos da dívida externa crescen-

te, a Argentina, nas atuais circunstâncias,

simplesmente não pode crescer. Se o fizer,

corroerá ainda mais seu superávit comer-

cial, que no ano passado — em que pesem

0Si enormes sacrifícios feitos pelo país —

só foi suficiente para o pagamento de 70%

dos juros da dívida externa.

Em contrapartida, o Brasil — que reali-

zou a partir de 1973, com sucesso, um am-

bicioso plano de substituição de importa-

ções e tem hoje considerável potencial ex-

portador — paga os juros da dívida exter-

na, sem ter tido para isso que renunciar ao

crescimento. Chegou assim a ser, em 1985,

o único país da América Latina, além da

Venezuela, a ver sua dívida externa cair

Conclui-se portanto que a redução da in-

flação, se foi nos dois países uma condi-

ção necessária para o crescimento econô-

mico sustentado — pois com taxas de in-

flação de 300% ou mais ao ano a econo-

mia tende ao colapso —, não é condição

suficiente para assegurá-lo. A grande dife-

rença é esta: enquanto na Argentina as de-

mais condições necessárias para esse cres-

cimento estão ausentes, no Brasil a infla-

ção era o último entrave que faltava ven-

cer para garantir o futuro da retomada eco-

nômica. Isto porque, aqui, a balança de pa-

gamentos apresenta uma situação confor-

tável e perspectivas favoráveis, e o "pa-

cote" tributário de dezembro permitiu,

aparentemente, o ordenamento das contas

públicas.

Depois de ter passado por uma fase de

descontrole econômico durante a experiên-

cia democrática pré-1964, para viver mais

tarde o crescimento com ditadura entre

1968 e 1973, o Brasil chegou em anos re-

centes à indigesta combinação de recessão

e arbítrio. Agora, está em situação privile-

giada para viver a feliz experiência do de-

senvolvimento em liberdade. Seria sem dú-

vida desejável que esse crescimento se des-

se em paralelo com uma distribuição de

renda que pelo menos atenuasse as desi-

gualdades hoje existentes. Este é o grande

desafio que será necessário encarar. Paro-

diando Clemenceau, caberia dizer, nesse

sentido, que a economia é assunto sério de-

mais para ser deixado nas mãos dos eco-

nomistas. De fato, o engajamento de toda

a sociedade nessa discussão é fundamen-

tal para que o Brasil do futuro seja melhor,

e não apenas maior que o aluai, Sempre c

preferível, porém, sentar à mesa para dis-

cutir tais coisas com 15% de Inflação ao

ano do que com 15% de inflação ao mês.

A tranqüilidade que daí resulta é talvez, o

principal mérito do "plano tropical".


RELATÓRIO RESERVACO 18 a 24/8/86

Na Coppe, crítica à 'pressa' do plano de metas

Um plano bem intencionado, devido à

prioridade que concede àos investimen-

tos na área social, porém precário e super-

ficial. Uma verdadeira colcha de retalhos,

em que foram costuradas de maneira

apressada uma série de informações desi-

guais fornecidas pelos ministérios, que

nfo dá possibilidade sequer de avaliar a

coerência das metas globais com os pla-

nos setoriais. Essa a avaliação que os pro-

fessores Carlos Alberto Nunes Cosenza

e_José Guilherme Cortes, da Coordena-

ção dos Programas de Pós-Graduação em

Engenharia (Coppe), da Universidade Fe-

deral do Rio de Janeiro (UFRJ), fazem

do plano de metas (1986-1989).

Cosenza observa que o documento da

Nova República representa um enorme re-

trocesso em relação ao plano trienal ela-

borado, sob a coordenação de Celso Fur-

tado, no governo João Goulart e ao plano

decenal preparado na gestão de Roberto

Campos no Ministério do Planejamento.

- O plano trienal representou um

avanço extraordinário em matéria de me-

todologia de planejamento e o decenal

exigiu a preparação de planos setoriais

elaboradíssimos que deram sustentação às

metas globais. Além disso, o plano de me-

tas está atrasadíssimo, pois muitas idéias,

meramente anunciadas, já deveriam ter se

transformado em projetos, especialmente

no que diz respeito à política industrial.

José Guilherme atribui a inconsistência

do plano de metas à pressa com que foi

elaborado e ao fato de que, nos últimos

anos, com Delfim Netto à frente da Se-

plan, a "máquina de planejamento foi se

dissolvendo".

Falsas hipóteses. José Guilherme consi-

dera, também, que o plano de metas parte

de hipóteses falsas, de grande irrealismo,

que poderão impossibilitar que sejam al-

cançadas as metas estabelecidas. Ele con-

testa especialmente a pressuposição da

Seplan de que com um pequeno esforço

adicional de poupança será possível fazer

frente aos pesados investimentos previstos

na área de infra-estrutura e no setor social.

De acordo com o plano, o incremento da

poupança teria que ser de 2% em 1987

2,3%em 1988 e 2,5%em 1989.

- A necessidade de investimento evo-

luiria de 17,6% do PIB em 1986 para

21,2% em 1989. Ora, dificilmente as me-

tas propostas poderffo ser atingidas com

taxa de poupança inferior a 27% do PIB.

Basta examinar as prioridades estabeleci-

das no plano. Elas envolvem os setores de

energia elétrica, transportes, telecomuni-

cações, armazenagem etc, Sffo todos in-

vestimentos pesadíssimos, de retomo len-

to e com uma relaçffo capital-produto das

mais elevadas, Além disso, os indispensá-

veis e maciços investimentos previstos na

área social nffo têm retorno em termos 1

monetários e nao contribuirão, portanto,

para reforçar mais à frente a capacidade

de poupança.

Diante disso, José Guilherme não con-

sidera razoável a hipótese do plano de me-

tas de que em 1986 serão necessárias 2,5

unidades de capital para gerar uma unida-

de de produto. Essa, diz ele, é a relação ca-

pital-produto da década de 1950. quando

os investimentos eram feitos em unidades

produtivas mais simples, mais baratas, que

exigiam para sua implantação máquinas e

equipamentos menos sofisticados do que

agora.

- Sendo realista, pode-se trabalhar

com uma relação capital-produto de no

mínimo três a partir deste ano. Isso exigi-

ria já em 1986 um esforço adicionai de

poupança de 3,4% do PIB, e não de l r ;.

como prevê o plano de metas.

Padrão asiático. Carlos Alberto Cosen-

za concorda com esse racciocínio e observa

que, para viabilizar o auimento da taxa de

poupança e a meta de crescimento de l''Á

ao ano estabelecida pela> plano de metas,

será preciso estancar a ssangria representa-

da pelo pagamento dos juuros da dívida ex-

terna. Transferindo 5% ddo PIB para o ex-

terior, o Brasil poderá aaté mergulhar de

novo numa fase recessiva,1, diz ele.

- Com a transferénciaa de 5%, o cresci-

mento efetivo do PIB poDderá ficar em no

máximo 2% ao ano. Desccontando-se a de-

preciação dos equipamemtos, poderemos

não ter crescimento algum.' Isso seria um

desastre, pois chegam anualmente ao mer-

cado de trabalho 2,6 milhões de pessoas

e não 1,4 milhão, como estima o plano de

metas. ■

Cosenza observa, também, que as me-

tas estabelecidas pelo plano para a área

agrícola, por exemplo, podem ser seria-

mente comprometidas pelos padrões sala-

riais asiáticos, que predominam na econo-

mia brasileira. O governo fala em aumen-

tar rapidamente a produção de alimentos.

Mas, como o mercado brasileiro é muito

restrito, há em sua opinião o sério risco

de assistirmos nos próximos anos ao triste

espetáculo de alimentos jogados fora por

falta de mercado.

O que preocupa Cosenza é que a polí-

tica salarial vigente nío levará ao aumento

do poder aquisitivo da grande massa de

trabalhadores, mantendo portanto os pa-

drões asiáticos predominantes.

- O mercado no Brasil é representado

na verdade por apenas 10% da população,

O salário-mínimo é deprimente e a polí-

tica de reajustar os salários pela média

provocará um violenta perda de poder

aquisitivo. A média virou o pico e com u

evoluçffo da inflaçffo a próxima média sa-

larial será Inferior à atual. Assim, com o

passar do tempo, de média em média os

salários chegarío ao fundo do poço.

Á

/


VOZ DA UNIDADE—22/8/&6

Renegociar a dívida

para viabilizar

o Plano de Metad

Edmilson Costa

O Planpíde Metas, reccntsmentc anunciado pejo governo,

sinaliza posshivamente no sentidojçje um ripvò Tcor^cnaimenlo

industrial do país, uma ; vez que reqrienta oTmpdelo ecpiiôrníçò,

ao incentivar os ramos estratégicos de ponta cmjdetrimchtòaps

setores de bens de consumo de luxo, c põe sòbVcpritrole.nüCJO;*

nal a futura indústria; v. . •; -

É bem verdade que o governo admite a formaçãode^o/wZ-Vc/j-

tures. mas o país terá o controle sobre a gestão,_a tecnologia e o

capital das novásempresas. Alcmdiçso, o governo também se

cpmprometeu em. proteger esse novo ciclo industrial.mediánle

a reserva de mercado nas áreas em que for necessário.'Es'sa

reserva tanto pode se dar através dos mecanismos clássicos,

como barreiras alfandegárias," privilégios à empresa nacional

■com relação.ao crédito, etc, como também na forma compre

viabilizou'qa área de informática. :. ■"'.■ ^ -•

Ao que parece, o Plano de Metas está intimamente ligado às

últimas negociações entre Brasil e Argentina e a um. futuro

Mercado Comum Latino-americano, pois as autoridades brasi-

leiras sabem que num mundo controlado pelo imperialismo as

soluções isoladas podem ser fatais para qualquer iniciativa.

Se avaliarmos mais conjunturalmçnte, a nível internacional,

verificaremos que, diante-da crise geral do capitalismo c das pres

soes do Fundo Monetário Internacional, a opção pelo desen-

volvimento ecoaômico, anunciada por Sarney, e positiva c

aponta na direção de um modelo econômico mais soberano.

Crescer as taxas de 7°/ ao ano no período de 86r89, como foi

anunciado, criar 6,6 milhões de empregos, modernizaro parque

industrial, estimular o surgimento de ramos estratégicos de

ponta, sob ò controle nacional, ampliar o sistema de transporte

e de telecomunicações, aumentar a capacidade de geração de

energia, a prodoçào agrícola, o sistema de saneamento e assen-;

tar 1,4 milhão de famílias no campo, bem como realizar investi-

mentos de peso na área social, significa (caso isso seja concreti-

zado) uma revolução dentro da revolução burguesa no. Brasil.

A experiência tem nos ensinado que o imperialismo procura

sabotar todos os projetos de desenvolvimento-na parle capita-

lista do mundo que'não esteja:sob seu tacão^Por issomèsmp.

acreditamos que tentará de todas as maneiras.jmpedir que uma

nação do Terceiro Mundo construa sob seu controle um parque

industrial moderno e dinâmico.

Entretanto, ao anunciar as medidas, o governo também cria

um paradoxo histórico: se não realizar essas mudanças, perde o

apoio popular que herdou com o. cruzado. Para que isso seja

viabilizado é necessário o rompimento com a lógica estrutural

do imperialismo, que tem na divida externa o seu ponto maior

de exploração. Afinal, todos sabem quie o país não pode conti-

nuar pagando anualmente mais de USS 10 bilhões aos banquei-

ros internacionais e ainda criar um Fundo Nacional de Desen-

volvimento para financiar um Plano de Metas ousado. .

Por isso mesmo, - repetimos ; o governo não será capaz de

realizar nenhuma grande mudança estrutural no pais, nem aca-

bar com a miséria, como vem prometendo, se não enfrentar

cr- iosamente a questão central da economia • brasileira hoje:

o pagamento extorsivo da dívida externa.,Ou seja, a melhor

maneira de viabilizar o Plano de Metas é reduzir drasticamente

a sangria de recursos do Brasil para o exterior. Nesse sentido - e

mais uma vez repetimos-- a nossa proposta de suspensão do

pagamento de juros e amortizações por cinco anosc, nesse

período, pagar apenas um quantum de 20% referente ao saldo

comercial, cada vez se torna a mais viávele menos traumática

para o país.

20/8/86 EXAME

GRANDES GRUPOS

08 NACIONAIS SOBEM

Os grupos privados

brasileiros conquistam posições

entre os 50 maiores

Primeiro ano completo de economia aqueci-

da, depois de uma recessão iniciada em

1981, 1985 fez mais que multiplicar os ne-

gócios e restabelecer, de forma generaliza-

da, o crescimento das empresas. Marcou ni-

tidamente o avanço dos grupos privados na-

cionais, como mostra o levantamento feito

por EXAME sobre o desempenho dos maio-

res conglomerados do país, excluídos os financeiros. E nâo só

pelo ingresso de novas estrelas na lista, como Moinho Santista,

Cotia, Belgo Mineira e Alpargatas — este último voltando, de-

pois da ausência no último ranking. Mas, também, por vários

indicadores extraídos da relação. ,

Do levantamento anterior constavam 22 grupos privados na-

cionais, 8 estatais e 20 estrangeiros. Do atual fazem parte 8 es-

tatais, 24 privados nacionais e 18 estrangeiros. Além de nume-

ricamente mais fortes, os nacionais registraram, proporcional-

mente, um maior movimento de ascensões na classificação dos .

50 maiores grupos em operação no país: 13, contra 5 dos es-

trangeiros e 2 dos estatais. E apresentaram um menor saldo de

quedas: 9, em comparação com 14 dos estrangeiros e 3 dos es-

tatais. O deslanche fica ainda mais evidente quando colocado

em termos de participação de cada segmento no total de resultados

gerados (ver o gráfico "A divisão do bolo"). Os nacionais au-

mentaram sua participação nas receitas para 29,2% contra

25,8% em 1984. Estatais e estrangeiros tiveram redução, res-

pectivamente, de 43,3% e 30,9%'para 41,9% e 28,9%.

Assim foi cm todos os outros itens analisados, embora os es-

trangeiros ainda sejam os maiores arrecadadores de impostos —

têtn atividades concentradas em indústrias altamente taxadas,

como a automobilística e a de fumo. Considerados apenas na-

cionais e estrangeiros, pois os estatais tiveram um prejuízo con-

junto de 5,1 bilhões de cruzados, os primeiros conquistaram

70,2% dos Lucros e os segundos 29,8%.

As empreesas privadas brasileiras conseguiram, enfim, puxar

os resultadoos dos 50 maiores grupos: o conjunto de receitas desse

poderoso coontingente cresceu 9,5%, num período cm que o Pro-

duto Intemoo Bruto (PIB) evoluiu 8,3% e a produção industrial,

8,5%. E esssa pujança, por sua vez, acaba por influir decisiva-

mente num. outro importante ranking preparado por EXAME: o

dos 20 maiiores grupos privados nacionais. Aqui, levam-se cm

conta não apenas as receitas, mas também o patri-

mônio líquido, ativos totais e número de emprega-

dos. Muitas vezes, a saída deste ranking — como

aconteceu com Brahma e Alpargatas — não signifi-

ca necessariamente um mau desempenho. Mas,

sirn, que outros conseguiram resultados até excep-

cionais em alguns daqueles, itens — o que é normal

em fases de crescimento econômico acelerado.

Num e noutro ranking, porém, as áreas de atua-

ção, obviamente, nâo recuaram em função da ori-

gem do capital, embora os investimentos externos

diretos tenham caído de 1,07 bilhão de dólares em

1984 para 710 milhões cm 1985 — no segundo se-

mestre, por sinal, entraram apenas 178 milhões.

Acontece, isso sim, que os pesos-pesados estran-

geiros atuam em áreas cujos preços são tradicional-

mente controlados pelo governo. É o caso, por

exemplo, das distribuidoras de petróleo (Shell,

Atlantic e Texaco) e dos fabricantes, de cigarros

(caso específico da Souza Cruz). Todos amarga-

ram perda real de receitas.


"AGORA ESTÁ DANDO APENAS PARA BOIAR"

"O congelamento de preços dos derivados de

petróleo e do álcool hidratado, de março a meados

de julho, quando a inflação bateu 45%, sem dúvi-

'a foi o grande responsável pela queda de receitas

do setor", queixa-se Abel Carparelli, presidente da

Shell, o maior grupo estrangeiro do ranking. No

ano todo, para uma inflação de 235,1%, medida

pelo índice Geral de Preços, álcool e gasolina fo-

ram reajustados em 147%. Pouco resolveu, por is-

so, o aumento de 4% no consumo em relação a

1984. Mesmo porque, alega Carparelli, a margem

de comercialização dos produtos é reduzida — no

caso da gasolina, por exemplo, 11 centavos de cru-

zado por litro vendido. "Nunca tivemos um ano

tão ruim como o de 1985", diz ele.

O Plano Cruzado amenizou um pouco a situa-

ção, pelo brutal aumento no consumo: 15% de ja-

neiro a junho em relação ao mesmo período de

1985. Tal pressão, informa Carparelli, não foi con-

tida pelo depósito compulsório recém-criado. Ape-

sar disso, as distribuidoras dificilmente terão lucro

este ano. "Estávamos nadando numa piscina va-

zia. Agora, encheram um pouco a piscina, mas es-

tá dando apenas para boiar", observa ele.

Para os fabricantes de cigarros o represamento de

preços foi igualmente indigesto. Entre eles está a Sou- /

za Cruz, principal integrante do 10.° maior grupo do

país e que, além da área de fumo, tem importantes ra-

mificações no setor agroindustrial. Contudo, certa-

mente o setor de cigarros contribuiu sobremaneira pa-

ra o recuo de 4,4% das receitas e para a perda da 7."

posição no ranking. Isso, apesar de o volume total de

cigarros vendidos no país ter crescido de 128 bilhões

de unidades em 1984 para 146,3 bilhões em 1985,

superando o recorde de 1980 (142,7 bilhões). Desse

total, a Souza Cruz, segundo sua direção, vendeu

118,3 bilhões de unidades.

Mas os estrangeiros, embora mais duramente

atingidos, não são os únicos a enfrentar o proble-

ma, que alcançou ainda um grupo estatal e um pri-

vado. A Telebrás, por exemplo, acusou uma retra-

ção de 6,7% nas receitas — as tarifas de telecomu-

nicações tiveram reajuste de apenas 171,2% em

1985. E a Brahma acabou alijada da relação dos 20

maiores grupos privados nacionais. No ranking an-

terior, era a 18." colocada. Apesar disso, manteve

o 41.° posto entre os 50 maiores do país, graças à

evolução de 15,9% nas receitas.

Na verdade, a Brahma vinha perdendo posições

entre os 20 privados nacionais. Foi o 11.° em

1983, o 13.» em 1984 e o 18.° em 1985. Primeiro

foram os efeitos da recessão que, para a empresa,

persistiram até o início do ano passado. Depois fo-

ram os preços. "O controle do CIP nos afetou di-

retamente", diz o presidente Karl Hubert Gregg.

Em abril, maio e junho não houve reajustes, apesar

da inflação. As coisas só melhoraram no segundo

semestre: "O aumento do poder aquisitivo da po-

pulação, combinado com a forte ajuda do calor,

"O MELHOR DESEMPENHO DESDE 1981-

permitiu o aumento da produção e das vendas, me-

lhorando sensivelmente nosso desempenho", ob-

serva Gregg. De quebra, o CIP permitiu reajustes

em agosto. Graças a isso tudo, mais o início do en-

garrafamento da Pepsi Cola, pela Brahma, as,re-

ceitas tiveram um crescimento até superior aos

13,1% do setor de bebidas como um todo. Gregg

mostra-se otimista e promete: "Em 1986 estare-

mos de novo entre os 20 primeiros. Já temos 18'.

mil empregados. O patrimônio, o ativo e as recei-

tas vão aumentar muito também".

A Alpargatas, por razões diversas, deixou de fi-

gurar entre os 20 maiores grupos privados nacio-

nais. Em compensação, voltou a participar da rela-

ção dos-50 maiores, de onde havia saído em 1984,

graças à expansão real, no ano passado, de 25,1%

das receitas. A ausência num e a presença noutro

ranking tem explicação no avanço — excepcionai

às vezes — de outros grupos privados nacionais.

Na medida em que a economia e os negócios cres-

cem, fica mais difícil conseguir uma boa classifi-

cação para chegar aos 20 maiores. Em 1983, auge

da recessão, era necessário um mínimo de 21 pon-

tos para entrar nesse ranking; em 1984, 19; e em

1985, 16. A Alpargatas conseguiu, nesta última

rodada, 14. Chegou entre os 20 apenas quanto ao

número de empregados (7.° lugar), embora, nesse

item, estivesse mais bem colocada em 1984 (5.'').

Tudo seria perfeitamente normal se, de um ano para

outro, o contingente de funcionários não tivesse

crescido de 26,5 mil para 29,4 mil.

Nem sempre, porém, mostra a Pesquisa EXA-

ME, o melhor é o maior — e vice-versa. A Alpar-

gatas, por sinal, alcançou, em 1985, o 6.° lugar en-

tre os mais rentáveis. Em 1984, era o 16.°. O ano

passado, confirma David Reeves, presidente do

grupo, foi o de melhor desempenho da Alpargatas

desde 1981. "A reativação do consumo interno de

têxteis e calçados compensou a queda de 1,3 mi-

lhões de dólares em nossas exportações", diz Ree-

ves. Além disso, dona de um dos maiores índices

de capitalização do ranking (66,8%), a Alpargatas

beneficiou-se com a alta rentabilidade das aplica-

ções financeiras, incluindo aí o financiamento a

clientes. Essa posição privilegiada, conseguida"

através de uma "férrea disciplina" nos tempos de

recessão, permite pensar, agora, em ampliar os in-

vestimentos. As dotações para isso, de 20 milhões

de dólares por ano em 1982 e 1984, chegaram a 40

milhões de dólares no ano passado e devem alcan-

çar 70 milhões este ano.

A mesma reativação do mercado interno, que fa-

voreceu a Alpargatas, acabou alçando à constela-

ção dos grandes grupos privados nacionais duas

novas estrelas: Belgo Mineira e Moinho Santista.

E mostra a quebra, ano passado, da dependência

das exportações, principal área de crescimento nos

anos anteriores (as exportações brasileiras, convém

lembrar, caíram de 27 bilhões de dólares em 1984

.para 25,6 bilhões em 1985). A Siderúrgica Belgo

Mineira é a principal de um conglomerado de mais

19 empresas coligadas ou por ela controladas. Seu

faturamento eqüivale a mais da metade do conse-

guido pelas outras — chegou, em 1985, a beirar 2

bilhões de cruzados. Mas suas exportações caíram

de 50 milhões de dólares em 1984 para 35 milhões

de dólares em 1985, pela retração das vendas de

arames, fios e ferro-gusa. Motivo: barreiras impos-

tas pelos países desenvolvidos e aumento da de-

manda no mercado interno. O crescimento das re-

ceitas — 2%, dos mais baixos do ranking, é verda-

de — foi suficiente para colocar a Belgo em 46."

lugar entre os 50 maiores grupos. E a colocação

por ativos (7.') e por patrimônio líquido (6.') de-

ram a ela o 13.° posto na lista dos 20 maiores gru-

pos privados nacionais.

A outra nova estrela — Moinho Santista — também

teve redução de exportações. A queda, de 62,6 mi-

lhões para 59,4 milhões de dólares, entre junho de

1984 e junho de 1985, período que compreende o

exercício social do grupo, aconteceu por duas razões,

segundo o presidente Esmeril Stocco Vieira. A pri-

meira foi a necessidade de atender a demanda no mer-


economia

cado interno. A segunda residiu no acirramento da

competição no mercado internacional. As vendas do-

mésticas, contudo, permitiram que o grupo — que

tem na área têxtil seu carro-chefe — estreasse na rela-

ção dos 50 maiores do país já em 31.° lugar. Mais ain-

da, as pontuações em todos os outros itens-chave (ati-

vos, receitas, patrimônio e empregados) fez com que o

grupo aparecesse como o 12.'' dos 20 maiores privados

nacionais. ■»

E impossível, contudo, generalizar-se — e estabe-

lecer a regra de que, em 1985, subiu quem voltou-se

para o mercado interno, deixando a exportação em se-

gundo plano. O grupo Cotia, criação do maior pecua-

rista individual do país, Ovídio Miranda Brito, está

entre os grandes exportadores do país. Teve, em 1985,

o maior crescimento real de receitas entre todos os

conglomerados selecionados por EXAME: nada me-

nos do que 147,1%. A trading Cotia, na verdade, co-

lheu os frutos de uma estratégia diferenciada, âdotSdã

em meados da década passada, de voltar suas baterias

para países do Terceiro Mundo. A África (excluindo a

do Sul, por motivos políticos), por exemplo, respon-

deu, ano passado, por perto de 80% dos negócios da

empresa.

O meio-termo, de outro lado, também é motivo pa-

ra êxitos. Graças à dosagem certa de negócios no exte-

rior e no país, bons resultados podem ser conseguidos.

Nesse caso se enquadram as grandes empreiteiras, que

formam, nos dois rankings, uma constelação à parte.

Camargo Corrêa, Mendes Júnior, Odebrecht e Andra-

de Gutierrez fizeram suas receitas crescer entre 13,5%

r 08 MAIORES GRUPOS PRIVADOS NACIONAIS

(«xcluldat os Initítulfòcs financeiras)

1985 1984 GRUPO

1 ÉSg 1

^Í^ÍVOTORÀNTIM

CAMARGO CORRÊA

>*«hlMENDíS JÚNIOR

YARIG

5 ^pl^PÃODE AÇÚCAR

14 ODEBRECHT

7 l^l^OP^El

8 IPIRANGA

9 ^Í3^1;:ANDRADE GUTIERREZ

PONTOS

10 KLABIN 38

n •7- ! ;y HERING O 35

12 — MOINHO SANTISTA

13 B'—M BEIGO-MINEIRA

14 10 GERDAU

15 Jfr2;k| ANTARCTICA

16 17 -l LUNDGREN'

17

SADIA

18 C0PERSUCAR

19 •.: 20 ^ . MESBLA

20 CAEMl

Cfitirioi: A

^ ->'.

Con*id»ivm-$4 O wtro. a patrimônio liquido, oi oilvos lotoli

» O númtfo d* «mprrjTodoj. O númofo d*ponto$ ot>ró*c* à eloitlficoçôo

•m cada it»m. Oprimoiro coheodo mbe 20 poniot. o i»çunóo í 9. o

Oíi/m tucttttvomonli. «m ordtm docmettftt, até o óithna, QW# rtctb* I ponto.

l(V)B«ISO

QKMInelr»

29

29

28

23

Lnitrtm

21

Ç^) -1.21

21

19

* EitlmoHva

dtlXtMl

16

e 62,5%. "Sl^todo o processo de desenvolvimento,

em todos os países, o setor de construção é acionado

em primeiro lugar, dada a sua íntima correlação com a

implantação da infra-estrutura básica e com a expan-

são dos demais setores", afirma Murillo Valle Men-

des, presidente do grupo Mendes Júnior. O setor de

construção respondeu por 85% do faturamento do gru-

po Mendes Júnior, do qual faz parte, ainda, uma side-

rúrgica (iniciou as operações em 1985 e só este ano ai-

ESTATAIS

A DIVISÃO DO BOLO

(participação de nacionais,

estatais e estrangeiros - em %)

ESTRANGEIROS

XS^iJátiXi.

ESTATAIS

^otriniânio líquido i0 ^:

mmmmsiíim

ESTRANGEIROS

mmmmm

ESTATAIS

ESTRANGEIROS

NACIONAIS

NACIONAIS

NACIONAIS

NACIONAIS

NACIONAIS

NACIONAIS

ESTRANGEIROS

* Obs.: As estotois tiverem prejuízo de 5,1 bilhões de cruzados


economia política nacional

cangará seu ponto de equilíbrio). Além disso, atesta

Sebastião Camargo, presidente do grupo Camargo

Corrêa, o mercado de construção, no Brasil, "é fabu-

loso" — o melhor do mundo, segundo ele, fora dos

Estados Unidos.

O grupo Camargo Corrêa, por sinal, chegou ao

segundo lugar fintre os grupos privados nacionais,

ficando atrás apenas do Votorantim. O segredo da

ascensão, segundo Camargo, está na % diversifica-

ção. O grupo tem interesses nas áreas têxtil, de ci-

mento, pecuária, de reflorestamento e detém, ain-

da, participações importantes em duas outras gran-

des empresas, a Alcoa e a Alpargatas. Afora isso,

revela Camargo, a diversificação é feita levando-se

em conta setores exportadores. Assim, é possível

conduzir os negócios com maior segurança, pois

um eventual arrefecimento no mercado interno po-

de ser compensado com o aumento das vendas ao

exterior. E importante notar, também, que, entre

as empreiteiras, a Camargo Corrêa apresenta o se-

gundo menor índice de endividamento. Uma cons-

'tataçáo, aliás, extensiva a todo o conjunto dos 50

maiores grupos, que reduziu o endividamento de

61,6% em 1983 para 50,2% em 1984 e 44,6% em

1985. Trata-se, enfim, de um indício de que o cres-

cimento não foi perseguido a qualquer custo. ■

As maiores receitas

(receitas brutas)

Cz$ milhões

|IT03 IYM üKurw

Sti

1

,•■•'-.'■■••

■? 11.509,4 •

Pfio de Açúcar !• .>:■.';;:

10.947,0

k\ú Ipiranga

^8.966,3


i

CopersucafV ■ ^■ ->>;v'-''?:.: y ! >;

8.800,6

;(4);'í- Votorantim

£7.604,7 :

; #f,Ut%'-'

0 (12)^ Camargo Corria

7.529,0

5(8)^ Mendes Júnior'■.: v.f;»-> % ;"■• 7.462,3 •

m% Hering '?'! 6.702,7

iwl Sadia'Üí*^ m f 5.988,8

d?)'; Odebrecht '$ 5.716,9

1] wm Copene ■>■» ê '5.123,1

(14)'í Mesbla ' ; T;:

5.052,8

(13)*^ ' Antarctied , -: , v^ "r', ; :' ; .' v:?í ^4.901,2.

(16). Gerdau «2

4.732,8

í-Ãsfe Moinho Santista '''i'"- ié:

4.719,5

(18) Andrade Gutierrez

'•:',■ 4.568,7

(15)% Coop.Agric.Cotia "1 T

4.188,5

(17),. Brahmo

4.120,9

()1)W Caemi "■;'

4.063,3

—■ ,'■ Lundgren *

,'549,4

463,2 .

RELATÓRIO RESERVADO 19/8/86

Estratégia nuclear provoca guerra de informações

É intensa a reação de setores militares

brasileiros ao acordo de cooperação nu-

clear com a Argentina. TaJ programa, de-

fendido, no entanto, pela atual cúpula das

Forças Armadas e sustentado pela maioria

do oficialato, tem profunda repercussão

na definição das ambições estratégicas dos

dois países, sepultando, por exemplo, a

perspectiva do emprego militar de tecno-

logias nucleares para afirmação de posi-

ções hegemônicas no continente.

No final da semana passada, tal disputa

entre opiniões divergentes - o Brasil per-

segue a capacidade para construir a bom-

ba atômica e a usa como arma estratégica

de dominação no continente ou abre mão

dela em favor de programa conjunto com

a Argentina para o desenvolvimento pací-

fico da tecnologia nuclear? — multiplicou

versões sobre o tema recolhidas pelo Rela-

tório Reservado.

Na quinta-feira à noite, bem funda-

mentada informação dava conta de que o

retorno ao noticiário das atividades do Es-

tado Maior das Forças Armadas (Emfa)

na Serra do Cachimbo, sul do Pará, era

obra dos grupos que defendiam a coope-

ração nuclear com a Argentina - especifi-

camente, setores ligados ao Exército. Co-

mo tais atividades já haviam sido noticia-

das três anos atrás, dar, como novo, fato

antigo constituía expediente dos segmen-

tos militares pró-acordo para revelar a di-

mensão da oposição à cooperação, expon-

do-a, tornando-a mais vulnerável e espe-

rando, como conseqüência — o que real-


política nacional

mente aconteceu -, consistente reafirma-

ção, por parte dos dois governos, dos pro-

pósitos de ajuda no campo nuclear.

Os duros, defensores do desenvolvi-

mento nuclear autônomo - isso é confir-

mado por todas as informações disponí-

veis -, tiveram muita força no governo

Figueiredo, mas hoje a maioria deles está

na reserva ou sem posto de comando. Pe-

la versão referida, atingi-los seria o objetivo

de quem fez a notícia sobre o campo de

Cachimbo vazar, plantando-ü primeira-

mente no jornal Folha de São Paulo.

Pelo telefone. Quase ao mesmo tempo

em que essa primeira versão dos aconteci-

mentos era apurada, pelo telefone alguém,

que se identificava como homem de infor-

mação da Aeronáutica, dava relato opos-

to, antecipando o que, no dia seguinte, o

Jornal do Brasil noticiaria na primeira pá-

gina; teriam sido os duros os responsáveis

pelo vazamento da notícia sobre Cachim-

bo, com o objetivo de criar, entre Brasil e

Argentina, terreno de desconfiança, difi-

cultando o acordo "de cooperação.

Diante do choque entre as duas versões,

oficial do Exército que teve acesso a dis-

cussões importantes sobre o tema bilate-

ral, revelou, em caráter especulativo, dar

crédito à versão de que convinha mais aos

liberais divulgar as experiências de Ca-

chimbo, observando, com cautela, porém,

que a questão se assemelhava mais a um

jogo de xadrez do que ao pôquer: o que

está em jogo é a questão estratégica, o pa-

pel do Brasil no continente, na defesa do

Atlântico Sul. No Exército - disse o ofi-

cial — evolui-se para uma posição que ad-

mite prescindir da bomba, abrir-se à coo-

peração. Assim, divulgar a experiência do

Pará poderia ser meio para tentar imobili-

zar a reação dos duros.

A mesma linha de argumentação foi

defendida por atento e qualificado obser-

vador da área militar que, no entanto, não

se atreveu a identificar a origem do vaza-

mento. Considerou isso menos importan-

te e observou que relevante era dimensio-

nar a reação dos duros que, no governo

Figueiredo, estavam no poder.

Traidores! Nos gabinetes militares de

Brasília, um clima de revolta contra os

que divulgaram a notícia publicada na Fo-

lha. Aí, um traço comum: foram oficiais

ligados ao antigo regime que tentaram de-

sestabilizar o acordo com a Argentina.

Exaltado, oficial próximo ao ministro da

Aeronáutica dizia ter fortes indícios de

que a iniciativa partira "do pessoal do Ci-

dade de São Paulo", alusão ao banco no

qual trabalham o general Golbery do Cou-

to e Silva e o brigadeiro Délio Jardim de

Mattos. E completou:

- Antes, a prática era manter os âni-

mos acirrados com nossos vizinhos. Hoje,

a estratégia é de aproximação, o que fere

muitos interesses pessoais. Foi uma trai-

ção ao país! - disse a fonte, que garantiu

não haver, no momento, possibilidade de

uso de tecnologia nuclear na área, mas

não descartou o exame dessa idéia de acor-

do com as circunstâncias futuras.

Sobre o episódio e a guerra de infor-

mações que se seguiu, uma conclusão co-

mum a todas as fontes ouvidas: se partiu

mesmo dos duros a divulgação original da

notícia, a operação fracassou pela reafir-

mação, em Brasília e Buenos Aires, das

metas de cooperação. A reação ao acordo

com a Argentina é, no entanto, fato polí-

tico-militar que ainda terá desdobramen-

tos. Aqui e lá.

VOZ DA UNIDADE 24/8/86

A questão

da energia

nuclear

Voltou à tona, nesta últimd semana, especialmente

na ireprensa^ tema da questão nuclear. Relegada há

algum tempo a,plano secundário, a problemática foi

novamente trazida para as manchetes dos jornais.

É evidente aue esta súbita ênfase não é inocente

em termos políticos. É sintomático, por exemplo,

que o tema seja levantado exatamente quando se dis-

tendem, positivamente, as nossas relações com a

Argentina - e é notório o quanto a questão nuclear

foi utilizada para cavar um fosso entre nossos dois

países. Também é significativo que o tema venha à

superfície quando há lobbies brasileiros c estrangei-

ros jogando na reativação do programa nuclear con-

certado com a Alemanha Federal (programa, aliás,

repudiado pela comunidade científica nacional).

Nada disto, porém, retira a relevância do proble-

ma. Ao contrario, realça a importância dos seus

corretos debate e cquacionamento, que devem

desenvolver, democraticamente, todos os segmentos

da sociedade brasileira.

Os comunistas entendem que o controle de todas

as fases, etapas e processos científicos e tecnológicos

do ciclo da energia nuclear é condição fundamental

para que o Brasil garanta a sua soberania no tempo

da revolução científica c técnica. Está claro para

todos que a utilização do potencial contido no domí-

nio do átomo é indispensável para a vida social da

humanidade.

O maciço investimento na criação de uma massa

crítica e de uma infra-estrutura que permitam ao

Brasil beneficiar-se deste potencial é defendido pelos

comunistas, desde que submetido a duas condições

de princípio.

A primeira está relacionada à clara restrição do

desenvolvimento nuclear aos limites da sua utiliza-

ção pacífica. É preciso, desde já, jque as autoridades

brasileiras excluam de seus objetivos a constituição

de um arsenal atômico. Uma grande contribuição

que o Brasil pode ofçrccr à luta pela defesa da vida

consiste precisamente em recusar-se a entrar no

funesto "clube da bomba*'. A recusa em produzir e

armazenar armas nucleares deve constituir um com-

ponente nítido, central e transparente da estratégia

brasileira do domínio do átomo.

. Esta seria uma garantia básica para manter e insti-

tucionalizar a América Latina e o Atlântico Sul com

áreas belicamente desnuclearizadas. Sem ela, nin-

guém pode prever até quando, no continente, será

possível conter a corrida atômica.

A segunda refere-se à igual atenção a ser concedi-

da à pesquisa de fontes energéticas e tecnologias


política nacional

alternativas. Se o controle do átomo parece indescar-

tável para a sociedade do futuro, também é legítima

e válida a investigação que privilegie a obtenção de

energia mediante vias tecnológicas e recursos isentos

de risco c que operam a baixo custo (como o aprovei-

tamento da energia solar).

Asseguradas estas condições, entendem os comu-

nistas que o Brasil poderá responder com êxito aos

desafios do mundo contemporâneo, tendo no contro-

le do átomo um instrumento de progresso social e de

tranqüilidade.

Voltou à tona, nesta última semana, especialmente

na imprensa,o tema da questão nuclear. Relegada há

algum tempo a plano secundário, a problemática foi

novamente trazida para as manchetes dos jornais.

É evidente que esta súbita ênfase não é inocente

em termos políticos. É sintomático, por exemplo,

que o tema seja levantado exatamente quando se dis-

tendem, positivamente, as nossas relações com a

Argentina - e é notório o quanto a questão nuclear

foi utilizada para cavar um fosso entre nossos dois

países. Também é significativo que o tema venha à

superfície quando há. lobbies brasileiros e estrangei-

ros jogando na reativação do programa nuclear con-

certado com a Alemanha Federal (programa, aliás,

repudiado pela comunidade científica nacional).

Nada disto, porém, retira a relevância do proble-

ma. Ao contrario, realça a importância dos seus

corretos debate e cquacionamento, que devem

desenvolver, democraticamente, todos os segmentos

da sociedade brasileira.

Os comunistas entendem guc o controle de todas

as fases, etapas e processos científicos e tecnológicos

do ciclo da energia nuclear é condição fundamental

para que o Brasil garanta a sua soberania no tempo

da revolução científica e técnica. Está claro para

todos que a utilização do potencial contido no domí-

FOLHA DE S. PAULO 19/8/86

Base do Cachimbo provoca

inquietação na Argentina

FLAVIO TAVARES

D« Bu*no« Air»,

Há uma profunda inquietação no

governo argentino em torno de episó-

dio díi serra do Cachimbo, apesar das

palavras formais de diplomatas e

altos funcionários procurando mini-

mizar publicamente o Impacto de um

problema que começa a repercutir

nas Forças Armadas c nos setores

científicos. Pela primeira vez nestes

dois anos e oito meses de retorno à

democracia, ouvem-se vozes civis e

militares defendendo em surdina a

necessidade de a Argentina prepa-

rar-se para o que qualificam de "a

inevitabilidade da bomba nuclear".

O mais importante fisico nuclear

argentino, Mario Mariscotti, diretor

de pesquisa da Comissão Nacional de

Energia Atômica, iniciou ontem uma

inspeção pessoal ao hiper-secreto

centro atômico de Pilcaniyeu, escon-

dido nos contrafortes da Cordilheira

dos Andes, a 2.300 km a sudoeste de

Buenos Aires. Em Pilcaniyeu, a

Argentina desenvolveu a sua própria

tecnologia de enriquecimento de urâ-

nio, passo prévio e necessário para a

fabricação de armas nucleares, lo-

grando chegar à sua última etapa em

novembro de 1983, ainda no final do

governo militar do general Keynaldo

Bignone.

Uno pacifico

Daí em diante, quando o programa

nuclear argentino assume um com-

promisso único e exclusivo de finali-

dades pacificas, Pilcaniyeu foi parci-

almente "desativado", deixando de

ser prioritário como nos tempos do

governo militar. Aparentemente, po-

rém, teme-se agora que Pilcaniyeu

fuja ao controle estrito dos civis que

dirigem o programa nuclear. Em

Buenos Aires, tanto o governo de

Alfonsin, quanto especialmente a

Comissão de Energia Atômica procu-

ram evitar que a distância geográfi-

ca e o caráter sigiloso daquele centro

de pesquisas, tornem possível que os

trabalhos ou pesquisas de enriqueci-

mento de urânio se desdobrem em

função de armas nucleares.

Uma bomba atômica nfio se cons-

truiria nos Andes, explicam físicos

nucleares, mas poderia acontecer

que tudo em Pilcaniyeu se encami-

nhasse de tal forma que, em poucos

anos, a fabricação de uma bomba

atômica Argentina se resumisse ape-

nas a problemas de engenharia

mecânica, como o tipo de ogivas e de

aço. Em física nuclear, náo se

nio do átomo é indispensável para a vida social da

humanidade.

O maciço investimento na criação de uma massa

crítica e de uma infra-estrutura que permitam ao

Brasil beneficiar-se deste potencial é defendido pelos

comunistas, desde que submetido a duas condições,

de princípio.

A primeira está relacionada à clara restrição do

desenvolvimento nuclear aos limites da sua utiliza-

ção pacífica. É preciso, desde já, que as autoridades

brasileiras excluam de seus objetivos a constituição

de um arsenal atômico. Uma grande contribuição

que o Brasil pode ofercer à luta pela defesa da vida

consiste precisamente em recusar-se a entrar no

funesto "clube da bomba". A recusa em produzir e

armazenar armas nucleares deve constituir um com-

ponente nítido, central e transparente da estratégia

orasileira do domínio do átomo.

. Esta seria uma garantia básica para manter c insti-

tucionalizar a América Latina e o Atlântico Sul com

áreas belicamente desnuclearizadas. Sem ela, nin-

guém pode prever até quando, no continente, será

possível conter a corrida atômica.

A segunda refere-se à igual atenção a ser concedi-

da à pesquisa de fontes energéticas e tecnologias

alternativas. Se o controle do átomo parece indescar-

tável para a sociedade do futuro, também é legítima

e válida a investigação que privilegie a obtenção de

energia mediante vias tecnológicas e recursos isentos

de risco e que operam a baixo custo (como o aprovei-

tamento da energia solar).

Asseguradas estas condições, entendem os comu-

nistas que o Brasil poderá responder com êxito aos

desafios do mundo contemporâneo, tendo no contro-

le do átomo um instrumento de progresso social e de

tranqüilidade.

paraliza jamais uma pesquisa, lem-

bram os físicos, e portanto a tecnolo-

gia de enriquecimento do urânio

continua a ser desenvolvida na Ar

gentina.

Mudou a intenção e destinaçflo do

programa, só isto, náo os trabalhos

em si do programa nuclear argenti-

no. Ou seja: modificou-se a decisão

política que, no governo democrático,

passou a negar a necessidade da

bomba nuclear. ,

"Inevitabilidade"

O episódio brasileiro da serra do

Cachimbo, sob certos aspectos, ser-

viu de exemplo á Argentina para não

ser surpreendida, num futuro próxi-

mo, pela eventual "inevitabilidade"

da bomba nuclear. A Influência da

Marinha e do almirante José Castro

Madera na Comissão de Energia

Atômica continua sendo enorme. A

estrutura básica do programa atômi-

co foi implantada por esse flsico-al-

mirante, que até hoje ainda é ouvido

cm algumas questões, mesmo estan-

do afastado do organismo nuclear

Nas Forças Armadas, os comentá-

rios contra o atual programa nuclear

argentino vêem sendo abafados do

público, não chügam aos jornais.

Generais e coronéis reformados que

integram o Centro de Militares para

a Democracia (Cemide), quo agrupa

os ''berais das Forças Armadas,

sublinham, ho entanto, que o governo

atual "nada fez" para resolver a


política nacional

visão revanchista que domina espe-

cialmente a oficialidade da Marinha

e do Exército. "Muitos deles, sonham

com uma bomba atômica, para fazer

íusquinha aos ingleses nas Malvi-

nas", disse-nos um coronel do Cemi-

de, ao lembrar que, neste momento, o

"revanchismo" náo é contra o Brasil,

como um século ou meio século atrás,

mas contra a Grá Bretanha. Mas a

bomba é uma só, contra os ingleses

ou contra quem for...

Nos cassinos de oficiais, na semana

passada, no Exército e na Marinha j

argentina, o episódio da serra do |

Cachimbo "foi assunto mais comen-1

tado" entre os oficiais do que a Copa !

Libertadores ou os processos judiei-!

ais contra militares pela "guerra

suja", disse outro coronel integrante

do Cemide, preocupado com a "idéia

fixa" em torno da bomba nuclear,

que se apossou repentinamente de

alguns setores fardados na Argenti-

na.

O influente vespertino "La Razón",

tradicionalmente vinculado ao pen-

samento do Exército, estampou on-

tem em primeira página uma ampla

informação, redatada em Buenos

Aires, sobre o episódio da serra do

Cachimbo, sob o título chamativo:

"O desenvolvimento nuclear do Bra-

sil comprometeria os acordos com a

Argentina".

A noticia não é atribuída a nenhu-

ma agência de notícias e, depois de

um sucinto relato das diferentes

versões sobre as instalações da

Amazônia, o jornal afirma que a

notícia divulgada pela Folha, depois

de uma série de desmentidos, "foi

crescendo até aculminar com uma

generalizada polêmica que —segundo

se sabe— é observada com preocupa-

ção pelas autoridades argentinas".

Visita

U oferecimento do brigadeiro Mo-

reira Lima, que os militares argenti-

nos tenham acesso às instalações da

serra do Cachimbo, não foi comenta-j

da oficialmente em Buenos Aires. No!

Estado-Maior conjunto das Forças'

Armadas, no entanto, informou-se

que "muito dificilmente" os militares

argentinos poderiam comprometer-

se em visitas de inspeção a instala-

ções desse tipo, já que o problema

nuclear na Argentina está concentra-

do na Comissão Nacional de Energia

Atômica, que é de fato o único

organismo com poder de decisão

nesse assunto.

Eventuais inspeções mútuas só

poderiam ser realizadas, segundo o

pensamento dominante na Comissão

de Energia Atômica argentina, por

físicos e cientistas de ambos países,

até mesmo para evitar mal-entendi-

dos militares.

De qualquer forma, se o brigadeiro

Moreira Lima acenou com um enten-

dimento aberto, acertou com a ofer-

ta, apesar de ter-se, talvez, equivo-

cado com os protagonistas. Os argen-

tinos continuam esperando uma ati-

tude de aproximação da diplomacia

brasileira, depois do breve comuni-

cado de desmentido sobre as instala-

ções nucleares da serra do Cachim-

bo, entregue em Buenos Aires onze

dias atrás.

Guiné-Bissau privatiza

comércio e tenta atrair

capital estrangeiro

DERMI AZEVEDO

Do Reportagem Local

Primeira colônia portuguesa na

África a se tornar independente de

oo Lisboa, em 1973, depois de mais de

^ uma década de luta armada condu-

^ zida pelo líder nacionalista Amíl-

i^ car Cabral, a República da Gui-

— né-Bissau, na costa oeste africana,

_ enfrenta o seu crônico subdesen-

^ volvi mente, herdado do período

Ou colonial. E tenta dar uma guinada

radical em sua economia planifi-

cada, de inspiração socialista. Ao

constatar que "o Estado é mau

empresário", segundo afirma o

ex-guerrilheiro e ministro do Co-

mércio, Manuel dos Santos, o

governo do general Joào Bernardo

Vieira, o presidente "Nino", deci-

diu privatizar o comércio, fechando

os tradicionais "armazéns do po-

vo" —onde prolifera uma perma-

nente corrupção por parte de qua-

dros dirigentes intermediários—,

chamando os antigos comerciantes

o abrindo as portas do país para os

investimentos estrangeiros.

No plano político. Nino Vieira

consolida sua hegemonia interna e

acaba de sufocar a terceira tenta-

tiva de golpe contra seu governo,

que tem apoio do PAIGC (Partido

Africano pela Independência da

Guiné e Cabo Verde) e pelas

Forças Armadas de seis mil solda-

dos. Esta consolidação adotou, no

mês passado, o drástico caminho

da pena de morte contra antigos

dirigentes do partido e do governo.

Entre os seis fuzilados em um

quartel da capital, Bissau (cerca

de duzentos mil habitantes), estava

Paulo Correia, antigo vice-presi-

dente do Conselho de Estado,

ex-ministro da Justiça e das For-

ças Armadas, além de membro do

birô político do PAIGC. Eles foram

acusados de planejar um golpe de

Estado de tendência pró-Estados

Unidos, além de favorecer o "triba-

lismo" (brigas entre as etnias

nacionais) e a' volta de dirigentes

considerados corruptos.

No plano externo, porém, a pena

de morte contra o grupo de Paulo

Correia provocou uma reação de

protestos em cadeia, com o corte

de ajudas externas, sobretudo da

Europa Ocidental. E dificultou ain-

da mais as relações de Guiné-Bis-

sau com Portugal, onde o governo

do PAIGC identifica uma central

de desestabilização e onde vive o

antigo presidente, Luís Cabral,

deposto em 1980 por Nino Vieira.

Com aproximadamente um mi-

lhão de habitantes, num território

de 36.125 km2, cheio de rios e

florestas, a Guiné-Bissau ó uma

espécie de corpo estranho na costa

oeste da África, onde a França

—com Mitterrand ou com Chirac—

mantém intacta a sua presença,

praticamente determinando os ru-

mos políticos e econômicos de

países como o Senegal, o Mali, a

Guiné-Conakry e a Costa do Mar-

política internacional

fim. Paralelamente, Bissau man-

tém uma pragmática política de

não-alinhamento. Ao lado da estra-

da entre o aeroporto e o centro da

capital, funcionam, quase gomina

das, as embaixadas dos Estados

Unidos e da União Soviética.

Cconomiu ugrirolu

País essencialmente agrícola, a

Guiné-Bissau ocupa no setor pri-

mário 90% de sua população eco-

nomicamente ativa. Além da pecu-

ária e da venda de madeiras

tropicais, os camponeses exploram

o amendoim e, principalmente, o

arroz. Praticamente não existem

indústrias e a expectativa do go-

verno é que volte a ser dinâmico

um comércio que, na época da

independência, era mantido por

cerca de quinze mil libaneses O

porto de Bissau está sendo readap-

tado com financiamento de 16

milhões de dólares, concedido em

1983 pelo Banco Mundial.

No novo Plano de Desenvol-

vimento do país, a ser discutido

proximamente pelo PAIGC, o ponto

central é a liberalização da econo-

mia. De acordo com o ministro do

Comércio, Manuel dos Santos, as

empresas públicas de comércio só

trabalharão a partir de agora com

a venda a grosso de arroz, açúcar e

óleos.

Pela primeira vez na história do

país, o Estado fará o cadastramen-

to dos comerciantes. Com isto,

atingirá diretamente o forte e

subterrâneo mercado paralelo,

comandado por ricos muçulmanos,

entre os quais senegaleses e ma-

lienses. "O comércio estatal na

Guiné-Bissau falhou porque não

soube dar respostas às demandas

concretas da população e as expe-

riências de outros países indicam

que o comerciante particular é

mais eficiente e mais organizado",

diz, convicto, o ministro do Comér-

cio.

AnalftibetiHiiio

A religião na Guiné-Bissau é

amplamente marcada pelo ani-

mismo e pelo islamismo. O culto

aos espíritos é quase uma unani-

midade nacional e até mesmo

ministros de Estado, de formação

marxista-leninista, recorrem aos

serviços dos "balobeiros" (versão

original dos "babalorixás" da

Bahia) e procuram os "balobos",

locais de culto, em busca de

orientação. A presença da Igreja

Católica e dos evangélicos é pouco

significativa, limitada praticamen-

te ao trabalho assistencial.

Já no setõFeducacional, sente-se

a influência de Paulo Freire na

formação dos jovens dirigentes da

educação nacional, sobretudo na

área da alfabetização de adultos

As idéias do educador pernambu-

cano —que escreveu as "Cartas a.

Guiné-Bissau"— são vistas, porém,

por alguns professores é animado-

res culturais como muito distantes

da situação real do país, que tinha

99,7% de analfabetos na fase colo-

nial mas que continua com 80% da

população sem saber ler e escre-

ver.


Internacional

FSP

24/8/86

Intransigência de

Pinochet estimula

a oposição armada

NEWTON CARLOS

Da equipe de onalistos da Folha

Esta semana apareceu no Chile um

novo grupo disposto a executar ações

armadas contra o regime do general

Augusto Pinochet. São as Brigadas

Populares 5 de Abril. Os anúncios do

regime sobre a descoberta de gran-

des quantidades de armas pertencen-

tes a grupos clandestinos colocaram

em primeiro plano a questão da luta

armada no Chile. Essa questão per-

turba a oposição chilena, dificulta a

sua unidade e é explorada por

Pinochet com o objetivo de espantar

a classe média e aliviar pressões dos

Estados Unidos contra ele.

O maior partido do Chile, o Demo-

crata Cristão (PDC), se esmera em

condenações. "Pregar a luta armada

é fazer o jogo da ditadura", diz o

ex-ministro Gabriel Valdés, presiden-

te do PDC, o partido da classe média.

O Partido Comunista é acusado de

pregá-la, o que resulta na perturba-

ção maior. O PC conseguiu refazer

seus quadros na clandestinidade e é

hoje a segunda mais importante

organização política chilena, logo

atrás do PDC. Para andar, qualquer

fórmula de "transição" terá de ter o

seu a vai.

História

Os comunistas chilenos já ensaia-

ram ações de guerrilha. Em novem-

bro de 1980, militantes da Juventude

Comunista explodiram uma torre de

eletricidade. "Ê resposta à instituci-

onalização do fascismo", declarou

Luís Corvalán, secretário-geral do

partido, em entrevista à revista

soviética "Tempos Novos". Corvalán

se referia ao plebiscito do mesmo ano

que aprovou a Constituição feita sob

controle pessoal de Pinochet. Parece

que a vitória dos sandinistas na

Nicarágua, em 1979, foi tomada como

exemplo de que a luta armada é

eficaz contra ditaduras.

O PC chileno foi sempre "legalis-

ta". A própria longevidade da demo-

cracia no Chile estimulou esse "lega-

lismo", que é parte da história do PC.

Por isso espantou a "opção pela luta

armada". A oposição "moderada"

descarregou sua ira cm cima dos

comunistas, embora eles não estives-

sem sozinhos nesse barco e os termos

da opção falassem em "sublevação

nacional".

Em setembro de 1981, vários parti-

dos de esquerda, incluindo facções de

esquerda cristã dissidentes do PDC,

se reuniram no México e decidiram

que "o implacável empenho da dita-

dura em consolidar seu domínio por

meio da institucionalização do terror

(Constituição de,1980) legitima ple-

namente o direito do povo à rebelião,

consagrado na própria Declaração

Universal dos Direitos do Homem".

Atentado*

O PC tratou de retrair-se. Em abril

' de 1984 apareceu a Frente Patriótica

Manuel Rodrigues (FPMR) explo-

dindo ferrovias, torres elétricas e

pontes. E jogando bombas em ban-

cos, empresas multinacionais, consu-

lado dos Estados Unidos e até em

instalações da Central Nacional de

Informações (CND, a polícia secreta

de Pinochet. Num vídeo de meia

hora, por meio do qual se lançou, a

FPMR (nome tirado de um herói das

lutas de independência) afirmou que

não é partido político, nem quer

tornar-se alternativa de poder. "So-

mos homens e mulheres de todas as

ideologias agrupados em frente para

formar a primeira linha de comba-

tentes contra o regime", disse um de

seus comandantes, encapuzado.

Exclusão

O regime chileno acusa o PC de ser

mandante da FPMR. Partidos "mo-

derados" de modo geral acreditam

nisso. Ê citada a entrevista de um

dirigente comunista à revista clan-

destina "Princípios", do partido, na

qual ele afirma que "estamos na fase

preparatória de um confronto arma-

do". Em 1984, as informações sobre

uma conferência nacional do PC

falavam da "reafirmação da legiti-

midade das mais variadas formas de

luta contra o regime, pacíficas ou

violentas, de acordo com cada mo-

mento, e os recursos dos quais o povo

possa dispor".

Os comunistas foram excluídos do

Acordo Nacional para a Transição à

Democracia, assinado em 1985 pelo

PDC, grupos de direita e facções

socialistas. "Não estamos pela luta

armada e sim pela sublevação nacio-

nal", reagiram os comunistas. 0

acordo murchou. Pinochet não quis

saber de diálogo ou negociações. A

oposição chilena continuou dividida,

com o PC se negando a atender

exigências de condenação da violên-

cia "venha ela de onde vier". Num

documento intitulado "Direito do

povo à legítima defesa", o PC

declara que não cabe condenar a

violência "venha de onde vier", mas

de "ir às suas origens".

Sublevaçflo

O imobilismo político do Chile abre

mais espaços à violência. A do

regime já produz tofchas humanas.

Um jovem foi queimado vivo. Elei-

ções estudantis mostram que a estra-

tégia de "sublevação nacional" do

PC ganha apoio "considerável" entre

jovens estudantes. A CNI calcula que

o FPMR tem mais de mil militantes

armados e organizados militarmente.

Surgem as Brigadas Populares 5 de

Abril. E ressurge o mais antigo grupo

de guerrilha do Chile, o Movimento

de Esquerda Revolucionária (MÍR),

destroçado depois do golpe de 1973.

LUA N(

JULHÜ 86

EUA:

a guinada

à direita *

Scott Mainwaring*

Passo a maior parte de meu

tempo pensando ou escreven-

do sobre a América Latina, parti-

cularmente sobre o Brasil, onde vivi

por dois anos e meio, e espero con-

tinuar fazendo isso no futuro. Nos

Estados Unidos uma de minhas fun-

ções é tentar explicar alguns aspec-

tos da realidade da América Latina

aos norte-americanos. No Brasil,

entretanto, eu freqüentemente faço

o contrário e é isso que pretendo

aqui: escrever sobre a política dos

Estados Unidos, para os brasileiros.

Muitos aspectos de mudança no

governo norte-americano são bem

captados pela imprensa brasileira.

Com exceção dos países da América

Central, ninguém está mais a par

do caráter belicoso da política exter-

na de Reagán do que os brasileiros.

Desde que subiu ao poder, Reagan

tem representado a volta a um estilo

clássico de imperialismo na tentiva

de dominar o resto do mundo. A

intolerância, o desinteresse por ins-

tituições democráticas e pela justi-

ça, a virulenta reafirmação de força

dos Estados Unidos aparecem numa

ampla fusão de áreas incluindo o

manuseio da divida. Outras mudan-


Internacional

ças políticas nos Estados Unidos

são, no entanto, menos claras para

os brasileiros. A imprensa capta

geralmente as mudanças institucio-

nais, enquanto as mudanças na socie-

dade civil não são percebidas.

O que quero mostrar é justamen-

te a importância de se conhecer os

movimentos da sociedade civil para

maior compreensão da natureza

da mudança da política norte-ame-

ricana.

Quando Nixon foi forçado a

renunciar em 1974 e quanto a oposi-

ção finalmente forçou o fim da

guerra no Vietnã, muitos america-

nos tiveram esperança de que come-

çaria uma nova era na política do

país, combinando o melhor da he-

rança americana com uma nova

preocupação com a injustiça no

mundo. O otimismo se mostrou

infundado, apesar de alguns sinais

que demonstravam ser este otimis-

mo mais que mera fé. A prolife-

ração progressiva de movimentos

sociais (movimento feminino, movi-

mento negro, movimento contra a

guerra, movimento ecológico) tem-

peram fortemente o final dos anos

60 e início dos anos 70. Os republi-

canos ganharam o controle da pre-

sidência em 1968, mas os democra-

tas mantinham uma larga maioria na

Câmara e no Senado. O mais impor-

tante talvez tenha sido a vitória que

obtiveram quando conseguiram pôr

fim à guerra no Vietnã.

A busca de mudança, acoplada

aos primeiros efeitos da crise eco-

nômica mundial conseqüente à crise

do petróleo de 1973, dão os elemen-

tos necessários para a compreen-

são da política de Carter. Parte da

esquerda latino-americana enten-

deu a política de direitos humanos

de Carter como a última cartada do

imperialismo. Esta leitura não po-

deria estar muito além da verdade,

e hoje, com a volta da política beli-

gerante, o fato parece evidente.

Quando terminou a guerra do

Vietnã, grupos ou indivíduos que se

opunham à guerra se encontravam

frente a uma oportunidade históri-

ca de ajudar a redefinir a política

externa do país. A política de direi-

tos humanos, que se originou destes

grupos progressistas da sociedade

e não da Comissão Trilateral, foi

direcionada a redefinir o papel dos

Estados Unidos no mundo.

Quando Carter assumiu a presi-

dência, apesar de seu discurso ser

coerente com a política dos direitos

humanos, a sua prática parecia um

tanto contraditória. A política de

direitos humanos não era exata-

mente o que os movimentos sociais

progressistas desejavam, trope-

çando em alguns aspectos. Toda-

via, em termos de política exter-

na, os primeiros dois anos e meio

da administração Carter repre-

sentaram uma ruptura com o pas-

sado.

Desde que os Estados Unidos

emergiram como potência mundial

na última década do século passa-

do, sua política externa foi imperia-

lista. Neste século, os três presi-

dentes mais progressistas foram

Woodrow Wilson, Franklin Delano

Roosevelt e Lyndon Johnson, todos

promovendo mudanças positivas na

esfera doméstica. Porém, mesmo

estes líderes progressistas não esca-

param de um impulso imperialista.

Wilson continuou a política agres-

siva na América Central, que havia

começado en 1890. Roosevelt certa

vez declarou que "Somoza é um fi-

lho da puta, mas é nosso filho da

puta". Johnson foi o responsável

pela escalada americana no Vietnã,

pela invasão da República Domini-

cana, e foi quem deu apoio para o

golpe no Brasil.

Não obstante fosse relativamen-

te fraco em termos de lidar com o

Congresso e em projetar uma ima-

gem pública consumível, Carter foi

o presidente deste século que mais

seriamente questionou a aborda-

gem militarista para defender os

interesses nacionais. Neste tempo a

esquerda criticava as contradições

de sua política de direitos humanos,

ao apoiar governos repressivos como

o da Coréia do Sul, Filipinas e Áfri-

ca do Sul, para citar alguns. Ainda

assim é importante reconhecer que

o discurso e a política de Carter re-

presentaram uma tentativa de lidar

com o Terceiro Mundo de uma ma-

neira nova.

A posição explícita de que os

Estados Unidos não poderiam sim-

plesmente impor sua vontade ao

Terceiro Mundo através da força

militar trouxe uma mudança impor-

tante. A política de direitos huma-,

nos teve efeitos positivos em países

como o Brasil e a Argentina, apesar

das atrocidades que continuaram a

ser cometidas nos dois países. Car-

ter teve também um admirável

papel nas negociações de paz do

Oriente Médio.

Entretanto, o impulso para uma

mudança progressista representou

apenas um lado da resposta dada

pela sociedade civil à derrota no

Vietnã. Na Segunda metade dos

anos 70 uma "nova" direita emer-

gia, uma direita que interpretava

o grande erro no Vietnã como um

enfraquecimento do compromisso

de derrotar o desafio comunista. A

nova direita diferia dos republica-

nos moderados, que dominavam o

partido na era pós-60, tanto na

política externa quanto interna.

Para a nova direita, figuras como

Nixon ou Kissinger eram concilia-

tórias demais com relação à União

Soviética.

A política de direitos humanos

foi repudiada ostensivamente por-

que representava interferência ex-

terna nos negócios de outros países,

ainda que na prática a administra-

ção de Reagan não tenha sido repu-

diada por invadir outros países

(Granada) ou tenha se engajado em

.guerras encobertas (Nicarágua).

Falando de um modo geral, a nova

direita apoiou e praticou uma polí-

tica de conduzir abertamente o po-

derio militar norte-americano para

o Terceiro Mundo.

Exatamente como no caso de

Carter e da implementação de uma

política de direitos humanos, a vol-

ta de Reagan a uma política de bigs-

tick respondeu a um movimento

significativo da sociedade civil. Es-

pecialmente depois do desastre no

Irã, da vitória sandinista na Nicará-

gua e da divulgação das atrocidades

cometidas pelos regimes comunistas

de Cambodja e Vietnã, os meios

de comunicação começaram a acu-

sar Carter de ter sido um presiden-

te fraco. Movimentos sociais or-

ganizados pela nova direita exi-

giam uma presença mais agressiva

dos Estados Unidos no Terceiro

Mundo.

A nova direita cristã desempe-

nhou um grande papel na articula-

ção de uma imagem dos Estados

Unidos personificando as virtudes

cristãs e empregando todos os meios

disponíveis para derrotar o comu-

nismo, representando-o como a

força do mal que destrói os valo-

res cristãos. O fenômeno Reagan

em geral e a volta a uma política

externa beligerante em particular

não podem ser entendidos sem uma

referência ao largo apoio da socie-

dade civil a uma política imperialis-

ta mais ruidosa.

Esta oposição social á política

de direitos humanos de Carter e a


internacional

exigência de maior agressividade na

política externa são elementos

indispensáveis para explicar por

que Carter se voltou para a direita

depois do fiasco no Irã. Um dos si-

nais mais visíveis deste movimento

à direita veio quando Cyrus Vance

renunciou ao posto de secretário de

Estado, deixando Zbigniew Brze-

zinski como o homem forte em ter-

mos de política externa.

Menos visível, mas possivelmente

mais importante, foi a mudança na

política da América Central. Carter

nunca apoiou os sandinistas, mas

quando eles subiram ao poder ele

buscou meios para uma coexistên-

cia pacífica. Além disso, ao mesmo

tempo que ele nunca apoiou a revo-

lução, ele se opôs a Somoza. Em

contraste, quando a extrema direita

depôs do poder os coronéis mais

progressistas de El Salvador, no

final de 1979, Carter não fez nada.

Quando começou a escalada das

atrocidades, a política de direitos

humanos foi atirada pela janela,

vítima da exigência de uma política

mais agressiva.

Carter representou uma tentativa

para chegar a um acordo com o

mundo moderno — especialmente

com o Terceiro Mundo e a União

Soviética — de maneira mais escla-

recida. Uma de suas maiores falhas

foi a incapacidade de comunicar ao

público americano o que significava

esse esforço. Os meios de comuni-

cação e o público interpretaram a

renúncia a uma política externa

mais agressiva como sendo fraque-

za. Reagan foi eficiente na explora-

ção dessa imagem e em contrapor

uma imagem contrária, de uma

América forte que não se deixará

"encurralar" em outra, parte do

mundo.

A imagem evocada por Reagan

foi parcialmente apócrifa. Como

mostraram as "derrotas" na Co-'

réia, em Cuba e na China, os Esta-

dos Unidos nunca foram capazes de

dominar o mundo completamente,

como Reagan sugeria. Todavia, a

imagem de uma América forte, com

renovada força militar, foi eficien-

te como suporte vitorioso para a

direita.

A direita também foi capaz

de capitalizar eficientemente símbo-

los e mitos, ao criticar a política

interna de Carter e ao propor alter-

nativas. Reagan desencadeou um

ataque popular ás instituições da

Previdência Social, retratando-as

como anátema da tradição america-

na do trabalho árduo. O discurso

antiestatal acompanhado da real

redução de impostos para a classe

média e da prosperidade se mostra-

ram igualmente populares. Apelos

ao patriotismo, moralismo e valo-

res tradicionais da família também

encontraram um forte eco na socie-

dade.

Considerando que Carter repre-

sentou uma tentativa (freqüente-

mente malograda) de responder

prospectivamente aos problemas

dos anos 70, o discurso e a política

de Reagan representaram exata-

mente o contrário: uma volta aos

valores e á política tradicionais. É

irrelevante que o passado seja uma

quimera, o que importa é o suporte

significativo para estes valores no

momento atual. , .

O perigo que Reagan representa

para o mundo tem sido claro para

muitos, mas os perigos que a nova

direita representarem termos das

instituições democráticas nos Esta-

dos Unidos têm sido geralmente su-

bestimados. Enquanto sustenta o

ponto de vista de que a intervenção

estatal é o mal que ataca a socieda-

de americana, a nova direita pro-

moveu a expansão da capacidade de

o Estado atuar fora da esfera dos

políticos democráticos e até de

regular a vida individual. A expan-

são dos poderes da CIA e do FBI

são exemplos claros. Neste sentido

houve uma tentativa de reformar a

natureza da política americana de

maneira a ir além das práticas repu-

blicanas convencionais.

Todavia, a distância entre a

administração Reagan, que inclui

muitas características individuais

da nova direita e os tradicionais

deres republicanos, explica o des-

dém da primeira com relação aos

•últimos.

A administração Reagan tem

incomodado indivíduos que se têm

oposto à sua política. Em 1982 a

Agência de Informações dos Esta-

dos Unidos (CIA) colocou na lista

negra inúmeras personalidades emi-

nentes da oposição, incluindo o

senador Gary Hart e, por mais sur-

preendente que possa parecer, um

dos diretores anteriores da própria

CIA. A alfândega tem molestado

pessoas que voltam da Nicarágua,

conhecidas por sua oposição à

intervenção na América Central.

O "Serviço de Renda Interna" (im-

postos federais) envolveu em intri-

gas desonrosas o nome de institui-

ções progressistas (como o Institu-

to de Estudos Políticos), publica-

ções (Mother Jones, por exemplo) e

indivíduos. A Fundação Inter-

Americana, apoiada financeira-

mente pelo Congresso, depois de al-

guns excelentes trabalhos de apoio

aos movimentos de base da Améri-

ca Latina, foi submetida, pela pri-

meira vez em sua história, a um cri-

tério político. O novo diretor, um

velho amigo de Reagan, da Califór-

nia, não sabe nada sobre a América

Latina e começou a tomar provi-

dências para o desmantelamento do

caráter progressista da organiza-

ção. Pela primeira vez, os aponta-

mentos do Departamento de Estado

se viram submetidos a um critério

ideológico e não de méritos. O pior

de tudo talvez tenha sido o uso, sem

precedente (mesmo se comparado a

Nixon'). de mentiras ao lidar com o

público americano, especialmen-

te no que diz respeito à América

Central.

O que é notável é a indiferença,

ou pior, o apoio que estas práticas

encontram no público americano. A

intolerância à diversidade, o nacio-

nalismo e o militarismo, o provin-

cialismo e a hostilidade a idéias

diferentes encontram-se por toda

parte e se chocam quando alguém

considera a criatividade produzida

na segunda metade dos anos 60 e

parte dos anos 70. Foi a combina-

ção do autoritarismo social e esta-

tal que sugeriu a Bertrand Gross o

título exagerado porém não menos

sugestivo de seu livro: Fascismo

Amávell

Também não foi detectada por

muitos a erosão que sofreram algu-

mas conquistas sociais. Desde um

programa federal conhecido como

"Ação Afirmativa", durante as

décadas de 60 e 70, corporações e

universidades foram encorajadas a

contratar mulheres e membros das

minorias. Hoje, esta tendência se

reverteu, novamente sob o estan-

darte de se evitar a intervenção do

Estado. À Corte Suprema reverteu

algumas das decisões mais liberais

dos anos anteriores. Desde que é

praticamente certo que Reagan no-

meará novos juizes para a Corte Su-

prema, é provável que no futuro a

Corte se curve numa direção ainda

mais conservadora. Assim como as

conquistas legais dos anos 60 e 70

foram importantes para o cresci-

mento do espaço para uma socie-

dade mais progressista, assim as

reversões legais dos anos 80 serão


internacional

importantes para criar espaço para

direita.

Qualquer discussão sobre a

administração Reagan será incom-

pleta sem alguma referência à com-

binação da personalidade popular

do presidente e à ausência de quali-

ficação para o cargo executivo. Os

meios de comunicação têm chama-

do Reagan de "O grande comuni-

cador", por causa de seu apelo

carismático. Ao mesmo tempo sua

ignorância a respeito do mundo

contemporâneo é evidente em todas

as suas gafes. Seu desprezo pelo tra-

balho duro e as freqüentes férias no

seu rancho na Califórnia são tam-

bém largamente conhecidos. O pre-

sidente tem conseguido projetar

uma imagem de um líder efetivo a

despeito desses traços. Entretanto,

é preciso reconhecer que ninguém

no recente passado político dos

Estados Unidos tem efetivamente

trabalhado o aspecto simbólico da

vida política.

Os avanços da direita têm coloca-

do questões difíceis para o Parti-

do Democrata e para os movimen-

tos sociais progressistas. Os movi-

mentos inovadores que floresceram

na segunda metade dos anos 60 não

desapareceram, mas se fragmenta-

ram e sua capacidade de promover

mudanças entrou em declínio. A

oposição à guerra do Vietná serviu

como um ponto de união destes

movimentos progressisstas, mas

desde 1975 eles se tornaram mais

dispersos. Entre eles somente o mo-

vimento das mulheres e dos negros

tiveram saldo significativo. Nos

anos recentes os líderes negros se

concentraram na política eleitoral e

têm tido sucesso na eleição de maio-

rias negras em cidades como Chica-

go, Filadélfia, Los Angeles e Atlan-

ta. A campanha para a presidência

de Jesse Jackson em 1984, que re-

sultou numa surpreendente démos-

tração de força, foi um dos pontos

mais visíveis desse movimento. In-

felizmente, um dos seus efeitos co-

laterais foi levar os democratas con-

servadores do Sul a se unirem ao

Partido Republicano. Estados suli-

nos, que costumavam ser solida-

mente democráticos, mudaram de

lado, com graves conseqüências em

termos de política nacional. Ao

mesmo tempo, os democratas con-

tinuaram a controlar a grande

maioria dos governos estaduais (35

dos 50), indicando um abismo sig-

nificativo entre os padrões eleito-

rais estaduais e nacional.

O Partido Democrata se dividiu

sobre o que fazer com o movimen-

to direitista. A maioria dos líderes

sente que o partido deve seguir a

tendência nacional e se mover na

mesma direção. A campanha de

Mondale refletiu isso claramente:

um liberal clássico adotou um dis-

curso que em alguns casos era tão

conservador como o de Reagan,

aparentemente acreditando que era

a única maneira de ganhar. Particu-

larmente no Sul, os líderes brancos

do partido insistem na necessidade

de se mover para o centro. O coor-

denador da campanha de um candi-

dato democrata a um cargo federal,

derrotado nas últimas eleições, re-

sumiu este ponto de vista quando

disse, meio brincando, que o parti-

do deveria indicar Jeanne Kirkpa-

trik e Sam Nun (um congressista

conservador da Geórgia) para presi-

dente e vice-presidente em 1988. Ao

mesmo tempo, a maioria dos ativis-

tas continua a apoiar causas classi-

camente liberais ou radicais e aceita

menos o movimento para a direita.

O resultado ê que o partido está

mais fragmentado do que em algu-

mas décadas passadas.

De um ponto de vista ético e polí-

tico estou convencido que a visão

progressista deve prevalecer. Em

certos momentos são necessários

compromissos estratégicos, porém,

alguns desses compromissos são

moralmente dúbios e estrategica-

mente questionáveis. Por exemplo,

a promessa de caráter eleitoral de

Mondale de impor a quarentena

à Nicarágua não foi repreensível

só por razões éticas, também per-

deu a oportunidade de destruir uma

administração cuja política foi con-

denada unanimemente por todo o

mundo.

Por causa de sua inabilidade em

responder ao movimento direitista

com maior criatividade, o Partido

Democrata não pode ser o líder

favorito da esperança no futuro.

Nem a juventude suprirá essa espe-

rança. O grupo compreendido entre

18 e 25 anos votou maciçamente em

Reagan, dando a ele uma propor-

ção de votos maior que a população

como um todo.

De fato, é difícil, num primeiro

relance, encontrar sinais significati-

vos de esperança no cenário político

da América, com exceção da cres-

cente oposição á sua política na

América Central.

Paradoxalmente, a maior espe-

rança está provavelmente nos pro-

blemas da administração Reagan e

no Partido Republicano. Conside-

rando a administração, durante, o

primeiro trimestre de 1985 a econo-

mia entrou em declínio. O desem-

penho econômico de 1983-1984 se

baseava não somente na políti-

ca exclusionária que mais adiante

empobreceu os grupos mais pobres

do país, mas também numa fantás-

tica dívida interna (aproximada-

mente U$ 200 bilhões por ano) e

uma dívida comercial (por volta de

U$ 120 bilhões por ano). Neste sen-

tido, o crescimento foi desigual e

frágil como o que Brasil experimen-

tou durante os anos 70. Os limites

deste tipo de crescimento são cla-

ros; o que não está claro é se será

Reagan a pagar os custos dessa po-

lítica econômica, ou se o seu suces-

sor será forçado a isso. De qualquer

modo, por causa do fracasso da

política econômica de Reagan, o

Partido Democrata tem chances de

ganhar a maioria para o Senado em

1986. Atualmente os republicanos

detêm 53 contra 47, porém, em

1986 vinte republicanos e treze de-

mocratas poderão se candidatar á

reeleição. Na Câmara dos Depu-

tados, os democratas detêm a maio-

ria com 252 contra 183, o que não é

grande coisa, já que um número

significativo (no mínimo 30) de

democratas conservadores sempre

vota com Reagan.

O Partido Republicano, a despei-

to de seu sucesso, enfrenta proble-

memas de unidade quase tão sig-

nificativos quanto os do Partido

Democrata. Reagan foi provavel-

mente o único indivíduo capaz de

manter as várias facções do parti-

do unidas. A luta entre a extrema

direita e as facções republicanas

mais tradicionais estava clara para

todos na ccnvençüo do partido em

1984. A extrema direita, que às

vezes se opôs a Reagan por achá-lo

moderado demais, chegou a propor

a expulsão de alguns liberais do

partido.

Entrementes, a esquerda conti-

nua a trabalhar na criação de novas

alternativas. Contra todas as posi-

bilidades e em face da significativa

fragmentação e divisão internas, a

esquerda continua a levantar a ban-

deira que defende desde 1960. Em

benefício dos Estados Unidos e

do mundo nós só podemos esperar

que essas vozes solitárias de agora

se tornem as bases de um crescente

coro. *

* Tradução de Gila Eitelberg Azevedo.

• Scoti Mainwaring é professor de Ciêncie —

Política, pesquisador do Kellogg Inslilute ÍEUAI e

foipesquisador-visilante do C£0£C durante o ano

de 1985.

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