CHAPEUZINHO LILÁS: UM OLHAR PEDAGÓGICO ... - Itaporanga.net
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<strong>CHAPEUZINHO</strong> <strong>LILÁS</strong>: <strong>UM</strong> <strong>OLHAR</strong> <strong>PEDAGÓGICO</strong> DE GÊNERO NA<br />
EDUCAÇÃO INFANTIL<br />
JULIANA TEIXEIRA ARAÚJO<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA – UEPB<br />
As reflexões que direcionam a pesquisa sobre a temática do conto infantil e gênero na<br />
educação da criança são oriundas das discussões sobre gênero e sexualidade na formação<br />
docente, realizadas no Grupo de Estudos de Gênero do Curso de Pedagogia da UEPB,<br />
coordenado pela Profª. Drª. Ligia Pereira dos Santos.<br />
O presente estudo tem por objetivo fomentar questionamentos pertinentes à<br />
corporeidade, refletindo sobre o conto infantil no universo da construção dos papéis sociais.<br />
No intuito de melhor compreender tal problemática, aplicamos o Projeto Chapeuzinho Lilás<br />
numa turma da educação infantil de uma creche municipal.<br />
Este trabalho pretende contribuir para ampliar o conhecimento empírico sobre as<br />
construções de gênero em campos insuficientemente explorados, como a educação infantil na<br />
creche-escola.<br />
A metodologia da pesquisa tem cunho qualitativo. Para coletar os dados foi aplicado<br />
um roteiro de aproximações empíricas, entrevistas semi-estruturadas, além da observação<br />
livre do cotidiano escolar na creche-escola. A análise dos dados foi construída à luz do<br />
referencial teórico feminista (ALVES; PITANGUY, 1985), buscando a problematização em<br />
favor de uma educação não-sexista (SOUZA; CARVALHO, 2000), referendados pela<br />
teorização psicanalítica da literatura infantil (BETTELHEIM, 2006) e reconstrução do conto<br />
Chapeuzinho Vermelho versus Chapeuzinho Lilás.<br />
A literatura infantil, por iniciar o ser humano no mundo literário, deve ser utilizada<br />
como instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade e<br />
interesse de analisar o mundo. Sendo fundamental mostrar que a literatura deve ser encarada,<br />
sempre, de modo global e complexo em sua ambigüidade e pluralidade.<br />
Durante muitos séculos, a criança foi vista como um adulto em miniatura, participando<br />
de vários aspectos da vida, de uma forma que nossos contemporâneos classificariam de<br />
imorais. Não existia a diferença entre coisas de adulto e de crianças, não havia sequer uma<br />
palavra que designasse o que chamamos de infância.<br />
Na Idade Média, a criança em torno dos sete anos de idade, era encaminhada para o<br />
aprendizado de alguma profissão. Sabemos que a criança dessa época adquiria seus<br />
conhecimentos, principalmente, através do aprendizado prático e pela convivência social. A<br />
escola medieval era uma instituição precária, bastante desorganizada e pouco comparável com<br />
a que conhecemos em nossos dias. Além das escolas eclesiásticas, estabelecidas, em<br />
princípio, para formar religiosos, existiam cursos avulsos, mantidos por professores e mestresescolas.<br />
Com o tempo, e o declínio do feudalismo, foram surgindo posições inovadoras neste<br />
aspecto, geradas por pedagogos e moralistas. Aos poucos vai se formando o conceito de<br />
infância, baseado na idéia cristã de inocência e numa nova perspectiva de valorização da<br />
mulher como mãe.<br />
A partir da Idade Moderna a criança passa a ser vista como um ser humano que precisa<br />
de atenção especial, sendo o conceito das fases do desenvolvimento humano demarcado pela<br />
idade. O adulto passa a idealizar a infância. A infância passa a ser destacada por ser a fase da<br />
inocência e dependência do adulto devido à sua falta de experiência da realidade.<br />
1
2<br />
A existência da Literatura Infantil foi uma necessidade criada com o surgimento da<br />
família burguesa e a conseqüente transformação na forma tradicional de encarar a infância. A<br />
Literatura Infantil surgiu somente no século XII, com a descoberta da prensa. As histórias<br />
infantis e os contos populares, no entanto, existem desde que o ser humano adquiriu a fala. A<br />
fantasia é um mecanismo inventado pelo homem na era medieval para superar as dificuldades<br />
da vida real.<br />
No século XVII, o francês Charles Perrault coleta contos e lendas da Idade Média<br />
como: Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e adapta-os, constituindo os chamados contos de<br />
fadas, construindo o paradigma do gênero infantil (CADERMATORI, 2006). Seu trabalho<br />
destacou os relatos orais populares, ou seja, ao escutar comentários sobre o que estava<br />
acontecendo na sociedade, fazia uma reflexão e construía os contos.<br />
Charles Perrault foi considerado o iniciador da Literatura Infantil, se preocupando com<br />
o didático e a relação com o popular. “A coleção dos textos de Perrault constitui-se em um<br />
dos textos mais célebres da Literatura Francesa e, também, um dos textos mais referidos e<br />
menos comentados pela crítica literária, quer na sua dimensão de arte, quer como documento”<br />
(CADERMATORI, 2006, p. 340).<br />
Até bem pouco tempo, em nosso século, a literatura infantil era considerada como um<br />
gênero secundário, e vista pelo adulto como algo pueril (nivelado ao brinquedo) ou útil<br />
(forma de entretenimento). A valorização da literatura infantil, como formadora de<br />
consciência dentro da vida cultural das sociedades, representa um fato recente.<br />
A partir da década de setenta, a Literatura Infantil sofre uma virada temática e passa a<br />
se sustentar em novos dogmas da educação: a valorização da criatividade, da independência e<br />
da emoção infantil, o chamado pensamento crítico.<br />
A Literatura Infantil, como uma das formas de comunicação, participa assim, do<br />
âmbito maior da cultura, relacionando-se com outros objetos culturais, mas possui<br />
características que a diferem desses. A mais evidente é o uso não utilitário da linguagem. No<br />
circuito da comunicação, o texto literário não se refere diretamente ao contexto, não precisa<br />
apontar para o objeto real de que ele é signo, possuindo autonomia de significação. Uma<br />
história infantil ou um romance criam suas próprias regras comunicativas, criando um pacto<br />
entre autor e leitor, em que a presença do contexto é indispensável. Ao ler o texto o leitor<br />
entra nesse jogo, pondo de lado sua realidade momentânea, e passa a viver imaginativamente,<br />
todas as experiências das personagens da ficção. Dessa forma aceita o mundo criado a partir<br />
da palavra como um mundo possível para si.<br />
O conto em debate, Chapeuzinho Lilás(já no prelo) representa uma outra versão do<br />
conto Chapeuzinho Vermelho. Negando a ingenuidade e fragilidade, Chapeuzinho Lilás se<br />
apresenta como uma garota que enfrenta as adversidades do universo fora de seu lar, na selva<br />
de pedra atual - a cidade, considerando as advertências de sua mãe, uma mulher feminista e<br />
atuante no movimento, que luta contra a violência.<br />
O conto foi compreendido na sua heterogeneidade, perpassado por valores culturais,<br />
sobretudo, como construtor histórico de uma cultura conflitante. Foi utilizado o modelo de<br />
análise de corporeidade (FERNANDEZ, 1994) em que as situações de aprendizagem<br />
delimitam os diferentes vínculos corpo ensinante (mãe) versus corpo aprendente (filha). O<br />
referencial teórico segue a proposta feminista, por isso a cor escolhida para a personagem<br />
principal foi aquela que representa o Movimento Feminista - Lilás.<br />
O novo conto apresenta uma menina esperta atenta que não aceita o caminho sugerido<br />
pelo lobo. Juntamente com sua avó promove um desfecho bem diferente para o conto<br />
Chapeuzinho Vermelho.
3<br />
Após o relato do conto, questionamos os valores transmitidos tais como os limites e<br />
marcas culturais, lugares das imposições, e os papéis masculinos – do lobo, do lenhador, bem<br />
como, os papéis femininos – da mamãe, da vovó e da filha. O objetivo foi reformular os<br />
papéis de gênero e reestruturar padrões comportamentais dos personagens masculinos e<br />
femininos.<br />
A criança constrói sua identidade, ouvindo modelos de comportamentos a partir<br />
também, dos contos de literatura infantil uma vez que elas se envolvem com uma rede de<br />
construção identificatória prefiguradas pelas personagens. Para a criança, o processo de<br />
socialização é conflituoso indo do estabelecimento de padrões femininos e masculinos até a<br />
frustração no que diz respeito à aceitação ou modificação de valores pré–determinados<br />
socialmente, como tem sido a forjada condição de passividade do sexo feminino.<br />
Assim, quando a identidade da criança se confronta com um modelo novo de conto,<br />
não “aquele (que a) elaborado historicamente”, acontece, de início, uma possível rejeição,<br />
para talvez com novos projetos propostos às crianças, possam surgir posteriormente outras<br />
possibilidades de uma nova interpretação do texto. Portanto a re-construção do conto passa<br />
por um processo que requer da criança: aceitação e entendimento das condições culturais<br />
(ÁRIES, 1981). A importância do projeto reside além da aprendizagem, pois nesta proposta a<br />
criança vai refletindo sobre modelos de conduta, valores, expectativas e construções grupais<br />
que fazem a cultura das relações de gênero, de acordo com a proposta da reflexão feminista.<br />
No olhar das educadoras infantis, elas não consideram a possibilidade de suas práticas<br />
pedagógicas reproduzirem, reforçarem, discriminarem ou separarem por sexo e gênero, ou<br />
outra categoria de desigualdade. As educadoras apontaram que no espaço da educação infantil<br />
praticada na instituição pública da qual fazem parte, o foco é na educação como um todo, sem<br />
diferença entre meninos e meninas. Para as professoras, as diferenças são produzidas apenas<br />
na socialização da criança na família e na sociedade. Na família, o universo binário é visível<br />
quando os meninos vão ao campo de futebol com o pai enquanto que as meninas vão ao<br />
supermercado com a mãe; na sociedade, as meninas são menos hábeis e os meninos mais<br />
hábeis, entre outros.<br />
No entanto, as instituições escolares parecem realizar a escolha de comportamentos<br />
por gênero, ou seja, reforçam e tendem a segregar inteligências e habilidades segundo os<br />
sexos, produzindo trajetórias escolares diferenciadas e perdas pessoais irreparáveis para<br />
meninos e meninas.<br />
Para compreendermos melhor as questões de gênero na creche-escola questionamos a<br />
educadora do Pré-I sobre o que seria sexualidade, corpo e gênero. As repostas foram:<br />
[...] as crianças ainda não se despertaram para a isso (sexualidade), o corpo<br />
é trabalhado com atividades lúdicas, brincadeiras, jogos, bonecos, quebracabeça,<br />
uso também músicas e dança, e por fim gênero é a questão do<br />
menino e da menina. (Professora do pré-I- Grifo nosso).<br />
Diante da situação exposta, percebemos que a educadora ainda não tem uma<br />
compreensão do que seja gênero, corpo, e também não têm percebido as curiosidades sobre a<br />
sexualidade que as crianças estão apresentando.<br />
Torna-se urgente, pois, combater os estereótipos nos contos infantis, prover meios para<br />
a aceitação, compreensão e acolhida das diferentes formas de masculinidade e de feminilidade<br />
que se constituem socialmente como um dos fatores essenciais para que possamos<br />
“estabelecer os fundamentos sobre os quais poderemos construir a paz” (MONTESSORI, p.<br />
45).
4<br />
A escola deve favorecer soluções possíveis para a curiosidade que começa a surgir na<br />
criança, proporcionando a ela um desenvolvimento sadio, especialmente está atenta a meninos<br />
e meninas para mostrar conhecimentos sobre seu corpo e o desenvolvimento do mesmo<br />
através dos contos infantis.<br />
Devemos admitir que como educadoras e educadores, em muitas circunstâncias<br />
revigoramos de forma inconsciente os estereótipos sexuais tradicionais e que não é fácil nos<br />
desembaraçarmos das arbitrariedades androcêntrica a que fomos e somos dominados, para<br />
assim, partirmos inclusive, para a reconstrução da nossa auto-imagem.<br />
Durante a aplicação do projeto de leitura na creche infantil constatamos que um grupo<br />
de crianças rejeitou o novo conto e formularam opiniões contrárias ao novo modelo, enquanto<br />
que outras crianças gostaram e até recontaram o conto destacando a coragem de Chapeuzinho<br />
Lilás e a fuga do Lobo.<br />
O primeiro grupo de crianças solicitou o momento do ato de devorar a vovó e a<br />
menina, enquanto que o segundo gostou do novo final pelo fato do Lobo não morrer. Esse<br />
desfecho para o projeto não representa a invalidade da proposta, e sim, aponta para a<br />
necessidade de reflexão sobre os estereótipos de gênero (LOURO, 1997) arraigados no<br />
inconsciente coletivo e fomenta a necessidade de discutir questões de agressividade no<br />
universo infantil.<br />
Ao contar a história de Chapeuzinho Lilás, percebemos que as crianças ficaram<br />
bastante atentas a cada parte apresentada. Em todo o decorrer do conto, mostraram-se<br />
interessadas, mas também curiosas sobre os acontecimentos diferentes da história de<br />
Chapeuzinho Vermelho.<br />
As crianças ficaram bastante satisfeitas em saber que tanto a Vovó como Chapeuzinho<br />
Lilás eram corajosas e que não tiveram medo de enfrentar o lobo, mandando-o ir embora.<br />
Fica claro quando uma das meninas diz: “Eu gostei da mãe e de Lilás ser corajosa”. As<br />
crianças também afirmaram que gostaram do conto porque em vez de morrer, o lobo foge<br />
com medo da multidão de mulheres que chegam à casa da Vovó.<br />
Ao terminar de contar a história de Chapeuzinho Lilás, questionamos as crianças<br />
perguntando-lhes que outra história parecia com a que acabaram de ouvir. Responderam:<br />
“Chapeuzinho Vermelho”. Juntamente com os alunos e alunas, refletimos sobre a conduta de<br />
Chapeuzinho Lilás em ser uma menina esperta, que não se deixa enganar pelas astúcias do<br />
lobo.<br />
Em seguida realizamos uma atividade onde as crianças deveriam construir a história<br />
que ouviram através de desenhos e logo depois recontar o que construíram. Os desenhos<br />
feitos foram de Chapeuzinho Lilás, da Vovó e do Lobo. Apenas uma das crianças pintou a<br />
menina com o chapéu na cor lilás. Algumas crianças não quiseram recontar a história, no<br />
entanto uma criança recontou-o da seguinte forma:<br />
A menina ganhou um chapéu lilás da Vovó, depois foi levar livros e<br />
revistas, o lobo quis que ela entrasse no carro, mas ela não entrou. Quando<br />
chegou na casa da Vovó, entregou os livros e as revistas e deu um abraço na<br />
Vovó. O lobo chegou bateu na porta, mas não entrou. Muitas mulheres<br />
chegaram e ele correu com medo.<br />
Na vivência do conto, procuramos analisar questões de gênero relacionadas ao<br />
comportamento dos personagens, e mostrar que pessoas do sexo feminino também podem ter<br />
atitudes diferentes das que já conhecidas; atitudes estas que podem expressar coragem, força,<br />
iniciativa, esperteza, comportamentos presentes nas atitudes de Chapeuzinho Lilás.
5<br />
Para Carvalho (2000, p. 21) “educadores e educadoras, devem ser críticas e críticos em<br />
relação à nossa própria fala no cotidiano da sala de aula, atentas e atentos para não<br />
discriminarmos meninos e meninas, reforçando umas ou uns e coibindo outras ou outros”.<br />
Assim o espaço da hora do conto mostra a importância que a linguagem da literatura infantil<br />
tem na vida de cada pessoa, como campo forte por atravessar o tempo e parecer sempre<br />
natural.<br />
O conto Chapeuzinho Lilás ocorre nos dias atuais, permeado de poderes institucionais<br />
e representa os conflitos a respeito da corporeidade de uma garota do século XXI, que<br />
convive com os conflitos citadinos da presente geração. O fato de ser filha e <strong>net</strong>a de<br />
educadoras possibilita a apresentação de uma visão histórica diferenciada a respeito da reação<br />
corporal de como agir frente ao possível agressor disfarçado de bom moço.<br />
A proposta feminista apresentada no conto contesta a estrutura política e social<br />
hierárquica dominada pelos homens, e aponta caminhos para a revisão e construção de novas<br />
relações sociais entre homens e mulheres, promovendo a inquietação feminina em relação às<br />
causas da opressão da mulher. Vale destacar que o movimento feminista foi decisivo para<br />
uma série de transformações dos valores e das práticas sociais nas relações entre gêneros.<br />
Dessa forma, o impacto do feminismo em discutir as relações sociais entre os sexos,<br />
firmou o antagonismo e a diferença entre as mulheres e os homens e contribuiu para ocupação<br />
da mulher em territórios eminentemente masculinos e reforçou a inexistência de uma<br />
identidade única e cristalina. Enfim, não há uma única e absoluta categoria de mulher.<br />
Portanto, importa que educadoras e educadores do ensino infantil trabalhem na hora do conto,<br />
valores que provoquem o repensar das construções sociais.<br />
Assim, a atividade de recontar o conto de Chapeuzinho Vermelho apresentando<br />
Chapeuzinho Lilás representa um dos momentos de constituição de identidades e<br />
subjetividades que tem caráter contínuo, sutil e quase imperceptível.<br />
Neste sentido, considera-se necessário introduzir a discussão das questões de gênero<br />
na formação de professores e professoras, na possibilidade de formar profissionais reflexivos<br />
que possam pensar e repensar sua prática. Profissionais da educação que reconheçam a<br />
importância crescente que se encontra na linguagem, no poder da palavra, na formação das<br />
identidades de gênero e na transmissão ou não dos estereótipos sexuais.<br />
As relações e as interações vão construindo pessoas singulares ou múltiplas, sobre a<br />
ambivalência dos conceitos de sexo e de gênero. As crianças contêm dentro de si múltiplas<br />
identidades, que em qualquer momento podem ser ativadas. Essas respostas dependem do<br />
gênero como categoria de análise, o que indicaria as construções sociais, a criação<br />
inteiramente social das idéias sobre os papéis próprios dos homens e das mulheres.<br />
A pesquisa revelou que essas diferenças são iniciadas na família, sedimentadas na<br />
escola e na sociedade. Os indivíduos aprendem como devem ser e agir. O homem não pode<br />
pensar da mesma forma que a mulher e geralmente não tem o mesmo comportamento,<br />
pensamento e atitude. Essa divisão de papéis sexuais faz parte do dia-a-dia das pessoas e<br />
acaba sendo aceito com naturalidade.<br />
O comportamento tanto do homem como da mulher não são determinados pela<br />
natureza, mas pela cultura em que vivem, e mudam de acordo com a época e com o tempo,<br />
bem como, pelas histórias infantis que são repassadas de geração à geração.<br />
Este tipo de educação forma seres humanos incapazes de reconhecer a contribuição<br />
feminina, fazendo com que a mulher seja discriminada e rejeitada em tudo que exerce. Seu<br />
trabalho e esforço não têm importância e nem reconhecimento.<br />
A creche-escola como instituição responsável pelo ensino e educação, deveria preparar<br />
alunos e alunas para serem seres humanos reflexivos, responsáveis e solidários, com os
6<br />
mesmos direitos independentes de sexo, cor ou raça. Entretanto, no decorrer da pesquisa ficou<br />
visível a separação por muitos mecanismos baseados no gênero.<br />
Essas desigualdades aparentemente inofensivas fazem com que o sexo masculino seja<br />
favorecido e suas relações de poder aumentem, ainda que no espaço da formação infantil. Há<br />
na educação um reforço do modelo do patriarcalismo que durante muitos séculos impediu as<br />
mulheres de usufruírem os direitos humanos, como, direito à escola, posses de terra e bens,<br />
participação política, emprego, remuneração e atendimento à saúde.<br />
Um dos instrumentos mais usados como reforço ou mudança de significado, valores e<br />
sentimentos tem sido a linguagem; ela é um turbilhão e nos usa mais do que nós a usamos. De<br />
acordo com o modo que for empregada, a linguagem nos carrega, molda, fixa, modifica e/ou<br />
esmaga. Portanto, a escola deve rever sua forma de falar, educar e interagir com alunos e<br />
alunas, através também da hora do conto infantil, por ser um momento de construção da<br />
pessoa.<br />
Além da linguagem como formadora de opinião, o livro de literatura infantil tem<br />
inserido no seu interior ilustrações, que não só representam o conteúdo da história, mas<br />
também pode reforçar a superioridade do homem sobre a mulher.<br />
Faz-se necessário acabar com os estereótipos que cercam as mulheres e os homens,<br />
fazendo com que o mundo seja dividido em dois, mundo este cheio de discriminações.<br />
Para que se possa pensar em qualquer estratégia de intervenção é necessário então,<br />
reconhecer as formas de instituição das desigualdades sociais, presentes em contos infantis. A<br />
literatura infantil pode transformar pessoas em verdadeiros cidadãos e cidadãs, capazes de<br />
refletirem sobre sua conduta e agirem conscientes de que existe apenas um mundo, onde<br />
vivem pessoas diferentes, mas com direitos iguais.<br />
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