A Maria do cangaço - Revista Algomais

revistaalgomais.com.br

A Maria do cangaço - Revista Algomais

Ano 5 | n o . 59 | Fevereiro 2011

R$ 9,00

www.revistaalgomais.com.br

A Maria

do cangaço

2011 fevereiro >

> 1


2 > >

fevereiro 2011


2011 fevereiro >

>

3


Carta do

Editor

Maria era linda

Aprendi, ainda no ginásio, que a Maria Bonita do Cangaço era,

na verdade, feia por ser baixa e ter pernas grossas demais.

Acreditava nisso, mas agora, no centenário da cangaceira mais

ilustre, surge a versão contrária: Maria Bonita era baixa, mas de

uma beleza que encantou Lampião, o rei do Cangaço. Jornalista e

pesquisadora, Wanessa Campos, que prepara um livro sobre a cangaceira,

assevera a nossa repórter Mirela Soane que Maria Bonita,

além de ser bonita mesmo era fina e meiga e gostava de bordar e

costurar como qualquer jovem prendada do seu tempo. Teriam os

adversários da época disseminado histórias grotescas sobre a beleza

da cangaceira? Vi, em certa época, no museu da antiga estação

ferroviária de Piranhas (Alagoas) uma foto das cabeças cortadas de

Lampião e seus companheiros depois de mortos na grota de Angicos,

em Sergipe. Deformada, a imagem de Maria Bonita desmentia

a que foi tirada na década de trinta e que ilustra a Capa desta edição.

Confira na página 30 a matéria de Capa sobre como Maria Bonita

virou grife nacional e internacional depois de morrer. E mais:

O historiador e jornalista Leonardo Dantas Silva fala de Carnaval

na entrevista mensal. Inventor da Frevioca e responsável por

várias iniciativas vitoriosas da folia de Pernambuco, Leonardo relembra

Capiba, o Baile da Saudade, os grandes desfiles do Galo da

Madrugada e critica o modelo adotado pela Prefeitura do Recife

para o próximo Carnaval.

Em Política, uma análise sobre as consequências, para o Partido

Verde, de sua adesão ao governo Eduardo Campos. O PV tentará

manter compromissos de campanha e solucionar contradições

sobretudo do discurso de campanha eleitoral do ex-adversário

Sérgio Xavier.

Por que o mercado de executivos está em alta em Pernambuco.

Jorge Jatobá testemunha a degradação das praias estaduais.

O exemplo típico do desmando é a praia de Pontas de Pedra, em

Goiana. O escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras

Abdias Moura escreve sobre sua criação literária. O cartunista Bione,

criador do Papa-Figo, o jornal mais escrachado de Pernambuco, revela

que a publicação, de 25 anos, vai virar filme. Na página 43, o perfil

impressionante do compositor erudito e maestro pernambucano

Marlos Nobre, apontado pela crítica especializada como o autor

brasileiro mais executado no mundo depois de Heitor Villa Lobos.E

em Última Página, Francisco Cunha denuncia o desaparecimento da

placa que lembrava o local de existência do Primeiro Observatório

Astronômico do Hemisfério Sul e das Américas.

Algomais, caro leitor, comemorará em março próximo cinco

anos de circulação ininterrupta. Faremos festa com edição especial

dedicada à data, cuja capa será escolhida através de concurso.

Antes, teremos o lançamento do blog Algom@is (confiram os detalhes

na estreia da coluna do blog, assinada por Ivo Dantas). Nela

o jornalista informa que a coluna terá a missão de integrar os mundos

online e ofline, com análise dos fatos mais importantes que

ocorreram ao longo do mês. Boa leitura. Roberto Tavares

Editor Geral

4 > > fevereiro 2011

Sumário

Ano 5 | n o . 59 | Fevereiro 2011

R$ 9,00

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A Maria

do cangaço

2011 fevereiro >

> 1

Edição 59

Circulação

4.fevereiro.2010

Criação

Adrianna Coutinho

Tiragem

18.000 exemplares

Seções

Carta do Leitor ........................................................... 6

Entrevista ................................................................... 10

Fuxicos Literários ......................................................... 14

De Olho ....................................................................... 16

Francamente .............................................................. 16

Pensando Bem ............................................................ 18

João Alberto ................................................................ 20

Economia .................................................................... 28

Palavra do ibef-pe ......................................................... 29

Gestão Mais ................................................................. 36

Algom@is ..................................................................... 39

Comer Bem ................................................................. 45

Memória Pernambucana ............................................ 48

Última Página .............................................................. 50

CAPA................................................ 30

A marca da sertaneja

Reportagens

Da oposição ao governo .............................................. 23

Mercado de executivos em alta ................................... 25

ARTIGO | O alijamento do Nordeste das Políticas de

garantia de preços mínimos ...................................... 27

ARTIGO | O meu livro preferido ................................ 37

Papa-Figo quer atacar Pernambuco em filme.............. 40

PERFIL | Marlos Nobre cidadão do mundo.................... 43

O Capitão e o Capitão

capítulo 2 - Manuel Clemente e .................. 46

capítulo 3 - Chumbinho ............................... 47


2011 fevereiro >

>

5


Cartas

do

Leitor

Volta do Mundo

Em dezembro de 2000, em

conversa ocasional com Roberto

Magalhães, então prefeito do

Recife, solicitei uma espécie de

up grade para a estrada da Volta

do Mundo, em Dois Irmãos. Disse

ao burgomestre que por ali circula

grande fluxo veículos de carga

e passageiros para os bairros da

Várzea, Caxangá, Cidade Universitária,

Camaragibe, São Lourenço

e outras cidades da Mata Norte.

Na ocasião, Magalhães mostrou-se

solicito, mas nada fez. Hoje, janeiro

de 2011, depois de duas gestões

de João Paulo e mais esse tempo

do atual de João da Costa, a situação

está pior. Para quem não conhece

o local, especialmente aos

dois últimos prefeitos da cidade,

cabe dizer que a via liga a praça

de Dois Irmãos, ao fim da Avenida

Caxangá, passando pela UFRPE e a

localidade de Sítio dos Pintos. Ali

não tem sequer meio fio e muito

menos calçadas. Sobram buracos

e ainda existem lombadas, quase

todas gastas pelo tempo. O esgoto

escorre ao largo da estrada e a iluminação

é de péssima qualidade.

Paulo Caldas – Parnamirim – Recife

Entrevista I

A entrevista concedida por dr.

Marcos Alencar foi extremamente

Expediente

Av. Domingos Ferreira, 890, sala 803

Boa Viagem | 51110-050 | Recife/PE

Fone: (81) 3327.3944

Fax: (81) 3466.1308

www.revistaalgomais.com.br

sensata, objetiva e de uma clareza

espetacular, contribuindo enormemente

para o debate sobre a melhora

do Judiciário brasileiro. Se alguns

dos pontos abordados fossem

colocados em prática, com certeza

iriam prover ganhos para toda a sociedade.

Gustavo I. Passos Lima

Algomais I

Caro Roberto Tavares, quero

parabenizar você e toda equipe pelo

sucesso da Algomais – um empreendimento

ousado, que mostrou que

Pernambuco tinha espaço para uma

publicação de qualidade. Vida longa

a Algomais! Jarbas Vasconcelos

Algomais II

Algomais continua com sua trajetória

vitoriosa, vide o testemunho de

pernambucana-alemã. O Parque dos

Manguezais continua na ordem do

dia. Lula e agora Dilma já tiveram em

mãos a caneta para doarem ao Recife

esta área natural. A Marinha ocupou

por anos e ao não mais necessitar,

quer fazer dinheiro de um local onde

nunca pagou um centavo, para usálo.

As questões ambientais cada vez

ganham mais espaço editorial, e

Francisco Cunha fechou a edição de

janeiro com chave de ouro. Boa Viagem

deve ter por justiça o Josué de

Castro, e, Dois Irmãos o Vasconcelos

Sobrinho. Carlos Tigre

Diretoria Executiva

Sérgio Moury Fernandes

sergiomoury@revistaalgomais.com.br

Francisco Carneiro da Cunha

franciscocunha@revistaalgomais.com.br

Diretoria Comercial

Luciano Moura

lucianomoura@revistaalgomais.com.br

Conselho Editorial

Francisco Carneiro da Cunha

presidente

Luciano Moura

Ricardo de Almeida

Sérgio Moury Fernandes

Doryan Bessa

Bruno Queiroz

Redação

Fone: (81) 3327.3944/4348

Fax: (81) 3466.1308

redacao@revistaalgomais.com.br

Editor-geral

Roberto Tavares

robertotavares@revistaalgomais.com.br

Editor-executivo

José Neves Cabral

zeneves@revistaalgomais.com.br

Reportagens

Ivo Dantas

ivodantas@revistaalgomais.com.br

Mirela Soane

mirela@revistaalgomais.com.br

Camila Lindoso

camila@revistaalgomais.com.br

Algomais III

Roberto, escrevo-lhe apenas

para parabenizá-lo pela revista

Algomais. Tenho acompanhado

as edições e o trabalho está muito

bacana. É admirável a maneira

como resgatam nossos valores e

àqueles que fazem a nossa história.

Tenho uma pequena revista de

bairro, bimestral, que circula em

alguns bairros da zona norte do

Recife e meu intuito, apesar do pouco

espaço, é valorizar cada pedacinho

que possa contar a história da

nossa cidade e lembrar dos nossos

artistas e personagens. Talvez por

isso admire tanto sua revista que,

tenho certeza, agrada a todos os

pernambucanos. Taciana Valença

Memória I

Marcelo, emocionada, agradeço

juntamente com meus filhos

seu artigo “Um grão-duque chamado

Zé” que tão bem retrata o nosso

querido Zé. Iolanda Dantas

viúva de Zé Dantas

Memória II

Parabéns Marcelo Alcoforado e

à Redação Algomais pela sóbria e

sucinta reportagem em homenagem

a Barbosa Lima Sobrinho, que ressaltou

suas vitoriosas trajetórias destacando

o grande homem e caráter

que foi/teve, orgulho do Brasil.

Delmiro Dantas Campos Neto

Fotografia

Alexandre Albuquerque (81) 9212.9423

Editoria de Arte

Adrianna Coutinho

adrianna@revistaalgomais.com.br

Rivaldo Neto

rneto@revistaalgomais.com.br

Assinatura

assinatura@revistaalgomais.com.br

Fone: (81) 3325.5636

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Publicidade

Engenho de Mídia Comunicação Ltda.

Av. Domingos Ferreira, 890, sala 808

Boa Viagem 51110-050 | Recife/PE

Fone/Fax: (81) 3466.1308

engenhodemidia@engenhodemidia.com.br

Reparo à

edição 58

Na matéria sobre

perspectivas

2011, saiu grafado

no texto do sr.

Carlos Aurélio de

Carvalho “descontinuação

do PAC”

em vez de “continuação

do PAC”,

o que causou um

mal estar terrível.

Sendo assim se

possível solicito

uma correção do

mesmo na próxima

edição.

Neide Alves

Recife

Filiada ao

Auditada por

Os artigos publicados são de inteira e única responsabilidade de seus respectivos autores, não refletindo obrigatoriamente a opinião da revista.

6 > > fevereiro 2011

u


2011 fevereiro >

>

7


Cartas

do

Leitor

Ano 5 | n o . 53 | Agosto 2010

R$ 9,00

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Polo Jurídico

Setor enfrenta o desafio

de preparar profissionais

para o futuro

Mestres do Frevo

Documentário sobre

os velhos maestros fica

pronto em 2011

A salada ideológica

Ano 5 | n o . 54 | Setembro 2010

R$ 9,00

www.revistaalgomais.com.br

Balanço

Empresarial

2010

Angelo Bellelis

Presidente do Estaleiro

Atlântico Sul

O gigante

de Suape

Ano 5 | n o . 55 | outubro 2010

Ano 5 | n o . 57 | Dezembro 2010

R$ 9,00

Ano 5 | n o . 58 | janeiro 2011

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Ano 5 | n o . 56 | novembro 2010

R$ 9,00

www.revistaalgomais.com.br

Mobilidade

Como convencer a

classe média recifense

utilizar o transporte público

R$ 9,00

R$ 9,00

Andarilhos

Caminhar pelo Recife

é uma oportunidade de

conhecer a nossa história

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Arte

2010 agosto > 1

Eleições

Polarização da

campanha tem

novo capítulo

Centenário Lula

Cardoso Ayres ainda

é pouco lembrado

2010 setembro > 1

Rio Oil and Gas

Pernambuco é destaque em

evento no Rio de Janeiro

Praia

de Porto

de Galinhas

Ipojuca PE

A REVISTA ALGOMAIS

GARANTE O SEU DIREITO DE TER

DIFERENTES OPINIÕES.

A REVISTA ALGOMAIS

É A FAVOR DA LIBERDADE

DE IMPRENSA.

Polo médico

amplia o turismo

www.revistaalgomais.com.br

Salame é salame

A força de

Pernambuco

Cultura

Patrimônio do folclore

pernambucano será mantido,

pela família Salu, em museu

O avanço

da consciência

ecológica

A preservação do Parque dos Manguezais

representa um passo decisivo

na luta pela conservação da ecologia

2011 janeiro >

> 1

8 > > fevereiro 2011

>

>

>

2010 outubro > 1

2010 novembro > 1

>

Litoral Sul

Reportagem especial

sobre a Região que mais

cresce no Estado

Eleições

Sérgio Buarque e

o DNA dos políticos

74 anos depois

O executivo pernambucano

Marcelo Silva explica o livro

“Gente Não É Salame” que

escreveu sobre os recursos

humanos das empresas

Artigo de Antonio Falcão

Diretores da Algomais, Sérgio

Moury Fernandes e Luciano Moura

receberam de leitores e amigos dezenas

de manifestações de aplausos

ao conteúdo de artigo escrito

pelo escritor Antônio Falcão sobre

a revista e publicado no Jornal do

Commercio em 31 de dezembro

de 2010. Em “A Revista de Pernambuco”,

Falcão descreve a Algomais

como “revista mensal compatível

com nossa tradição jornalística, de

texto leve, de bem com a vida e talhada

para cobrir – além de outros

assuntos essenciais, tipo política,

cultura, sociedade, esporte..., o notável

boom econômico vivido pelo

estado”. Para o escritor, “Algomais

é maravilhosa e profissionalmente

feita por uma redação enxuta, porém

composta de talentosos repórteres”

Os jornalistas Sofia Graciano e

César Rocha foram bem enfáticos

em seu entusiasmo. “A revista é um

exemplo vitorioso de um produto

editorial sério, feito com muito profissionalismo,

apuro e competência

técnica”, diz Sofia. “Sabem que torço

por vocês, sou fã da revista e me

orgulho de ter escrito algumas vezes

pra vocês”, afirma César. Para o também

jornalista José Paulo Kupfer, titular

do blog econômico de O Estado

de São Paulo, “a Algomais se firmou

e vai de vento em popa”. Consultor

respeitado de jornais em todo o país,

Kupfer dá um parecer técnico sobre

a revista: “Está cada vez mais pesada,

no sentido literal, que é como

seu Victor Civita, da Abril, media se

uma revista estava indo bem, colocando

na mão, como se fosse uma

balança e sentindo o peso (mais páginas

de publicidade e mais páginas

editoriais). Sem falar nos filhotes,

outra prova de sucesso”.

O senador Armando Monteiro

Neto não deixa por menos. “Sinto-

me, inclusive, honrado de, em vários

momentos”, escreveu ele, “ter

sido procurado para emitir opiniões

sobre a conjuntura política e econômica

do Brasil e, especificamente,

de Pernambuco. Torço por vida longa

a esta que já é reconhecida como

a revista dos pernambucanos”.

Na opinião do escritor Alexandre

Santos, “o JC disse o que muita

gente boa quer dizer”, o que é reforçado

por Alberto Lopes Júnior:

“É, sem sombra de dúvida, a melhor

revista do estado, com matérias

que interessam aos que aqui residem,

analisando todos os aspectos

da cultura, da política, da economia,

do turismo etc.”. O presidente dos

Diários Associados, Joezil Barros,

se admira do arrojo do empreendimento:

“Vocês são, realmente, uns

heróis no comando da Algomais”,

enfatiza.

Uma opinião que é compartilhada

por outros profissionais assinantes

como o secretário de Imprensa

do estado, Evaldo Costa, Sérgio

Kano, Henrique Salvador Menezes,

Soninha Lopes, Toni Azevedo, Júlio

Paschoal, José Emílio Calado, Augusto

Campos, Alexandre Almeida,

André Vieira, Alano Vaz, Alessandro

Rodrigues, Aníbal Gaudêncio (“me

atualizo com a revista”), Aderbal

Barros (“Fiquei muito orgulhoso”),

Heuler Santos, César Silveira, Fernando

Ítalo, Ingrid Dornel, Rosina

Bernardes, Álvaro Rocha, Lyane

Cyreno, Múcio Novaes, Natália Tavares,

Armando Lemos, Eduardo

Lemos, Ágata Gioia, Rodrigo Aguiar

da Costa Pinto, Renata Ozores, Ivana

Montemurro, Kássia Araújo, Carolina

Tigre Viriato, Bruno Perreli,

Sérgio Costa, Alberto Lopes Peres

Júnior, Cláudio Zorzett, Alexandre

Grimancelos, Jaime Prado, Fernando

de Queiroz Galvão (“o conteúdo

do artigo reflete exatamente

o que os pernambucanos pensam

da revista”), Sérgio Laonth Leite,

Madalena Areias (“é um reconhecimento

público da qualidade da

Algomais”), Luiz Otávio Cavalcanti,

Queiroz Filho (“é a revista dos pernambucanos

que começa a desbravar

o Nordeste”), Fred Leal, Joaquim

Edinílson, Luiz Montenegro (“O empreendimento

certo, na hora certa,

no foco certo, Pernambuco”), Antonio

Augusto Moreira, Eliane Aguiar,

Patrícia Raposo, Henrique Arruda,

Marcelo Braga, Theophilo Freitas,

Márcio Waked de Moraes Rêgo, Elder

Lins Teixeira, Magno Trindade,

Nelson da Franca Ribeiro dos Anjos,

Clementina Duarte, Gustavo Cavalcanti

Costa, Rosalvo Mafra (“Não há

como ser diferente com a qualidade

que você tem apresentado ao longo

da vida desta publicação”.

Uma mensagem pessoal, de

Marcelo H. Silva, dirigida a Sérgio

Moury Fernandes, comoveu particularmente

a equipe da revista:

“Lembro que quando o senhor

me falou que iria lançar uma

revista em paralelo ao trabalho

da Engenho de Mídia, que estava

apenas começando, questionei o

por que de entrar em um negócio

tão complicado. Afinal de contas,

a Engenho de Mídia, além de estar

só começando, era um negócio que

tinha tudo para dar certo. Então o

senhor me respondeu: “Henrique,

a Engenho de Mídia está consolidada

e por isso pouco me desafia,

preciso de um projeto que me desafie!!!”.

Realmente fazer uma revista

dar certo em Pernambuco há cinco

anos, um estado com perspectivas

bem diferentes do que vemos hoje,

era realmente um desafio monstruoso.

Quando alguém vem hoje me

elogiar a Algomais, tenho muito orgulho

em dizer que ela foi idealizada

pelo meu tio!!!”.


2011 fevereiro >

>

9


Entrevista

Leonardo Dantas

“Antes era uma paixão,

hoje é negócio”

SAudoSiSMo | Amigo de Capiba, escritor fala sobre a paixão

pelo carnaval e critica o modelo adotado pela Prefeitura

Jornalista e escritor, Leonardo

Dantas é um verdadeiro

apaixonado pelo carnaval.

Próximo de Capiba, ele teve o

privilégio de brincar carnaval

ao lado de grandes nomes da

música pernambucana. Como

administrador público, organizou

carnavais do Recife e criou a

Frevioca para animar os foliões

pelas ruas do Centro. Sentado

em um dos antigos quartos da

casa em que Capiba viveu - hoje

conservada por um projeto da TGI

Consultoria em Gestão -, Leonardo

Dantas falou para Algomais sobre

seu amor pelo carnaval e analisou

as mudanças que ocorreram

ao longo dos anos na festa de

Momo. No fim, um sentimento:

“Antes era uma paixão, hoje é

negócio. E gosto muito das coisas

apaixonadas, ainda mais se forem

feitas com profissionalismo”.

Algomais | Como o senhor

vê o carnaval de ontem, e o de

hoje?

Leonardo dantas | É difícil fazer

essa comparação porque é preciso

levar em conta a idade e a saúde

quando fala de carnaval. Mas

pensando sem paixão, o carnaval

de hoje diminuiu. Brinca-se menos

carnaval. Saíamos pela manhã e íamos

para o desfile de troça, fazia

passo na rua. Pela tarde continua-

10 > > fevereiro 2011

Alexandre Albuquerque

va, às vezes dava uma descansada.

No final da tarde, emendava com

a noite até umas 11 horas. No fim,

era carnaval de clube, que ia até as

sete da manhã.

AM | E quanto ao estilo do carnaval.

Muita coisa mudou?

Ld | Acredito que o estilo está

muito parado. Virou um grande

Rap, onde se traz Zeca Baleiro,


Martinho da Vila, Maria Rita. O que

esse povo tem a ver com o carnaval

pernambucano? É melhor quando

Caetano Veloso vem, sem ser chamado,

e fica na rua conversando.

AM | O Frevo perdeu espaço pelo

poder público ou a culpa é da população?

Ld | Temos a mania de culpar o

poder público por tudo, mas nos

esquecemos de que os meios de

comunicação também têm sua

parcela, por dizer que frevo é uma

coisa descartável. O Multicultural

é tudo contra o frevo. Nas outras

épocas do ano, não temos manifestação

de frevo, mas no carnaval,

vem tudo.

AM | O que o senhor mudaria no

carnaval de hoje?

Ld | Acabaria com o palco do

Marco Zero. Para que um palco tão

grande? Só pode ser para fazer dinheiro.

Faria dois, com orquestras

tocando e as atrações entrariam

no meio, como era feito antigamente.

Entre uma atração e outra,

às vezes, leva uma hora e quarenta

minutos para subir alguém no palco.

Isso não pode acontecer.

AM | Se essas mudanças ocorressem,

o público não se afastaria?

Estão desacostumados a gostar de

frevo?

Ld | Não. Quando você bota a

Frevioca na rua, existe uma grande

quantidade de pessoas logo atrás.

O problema é colocar a Frevioca

nos subúrbios. Tem que ser no

centro da cidade. Nos subúrbios,

a Frevioca gasta mais tempo se

deslocando do que tocando. Existe

uma mania de espalhar o carnaval,

mas acho que é uma festa que tem

o centro como base, como todos

os grandes eventos.

AM | Os compositores estão

compondo menos, já que quase

não se ouve música nova?

Ld | Há muito tempo que se faz

o carnaval e o disco do ano não é

publicado. É preciso ter organiza-

Alexandre Albuquerque

O Galo da

Madrugada

deixou

de ser um

clube de

máscaras

para ser um

verdadeiro

rap. Não

tem nem

mais

orquestra,

só trios

elétricos

ção, começando em maio do ano

anterior para, em outubro, produzir

o cd e fazer um trabalho junto

às rádios.

AM | As mudanças passam pelo

fato do carnaval ter virado um

grande negócio?

Ld | Antes era uma paixão, hoje é

negócio. E gosto muito das coisas

apaixonadas, ainda mais se forem

feitas com profissionalismo. Por

exemplo, não acredito que um grupo

de paulistas possa escrever a

memória do frevo, como está sendo

realizado para o novo centro

“Passo do Frevo”.

AM | O Galo da Madrugada anunciou

mudanças. O que o senhor

acha disso?

Ld | Deixou de ser um clube de

máscaras para ser um verdadeiro

Rap. Não tem nem mais orquestra,

são apenas os trios elétricos.

A Rua da Concórdia realmente não

tem condições. O Galo era um bom

exemplo do que é carnaval. No

desfile era proibido qualquer música

que não fosse frevo. Em 1983,

criaram-se os primeiros carros alegóricos.

Deixou de ser um clube de

máscaras para ser um clube de alegorias.

Quem saiu nos carros não

queria mais ir no chão. Depois, vieram

os trios elétricos e o costume

de juntar os vizinhos para irem fantasiados

foi esmorecendo. Hoje, se

pergunta para que camarote a pessoa

vai. Virou um negócio. Agora, é

o maior evento carnavalesco, sem

dúvidas.

AM | Na disputa Pernambuco-

Bahia. Os baianos são mais competentes

para organizar e divulgar

o carnaval?

Ld | A Bahia é o estado mais rico

em recursos naturais do Brasil. Começou

a ser divulgada por Dorival

Caymmi, depois Ari Barroso. Depois,

seguiu com Carmem Miranda, que

pegou carona em Hollywood. Agora,

o baiano é muito desorganizado.

Pega as coisas que copia dos outros

e não dá continuidade. Porque todo

ano tem que ter novidade.

AM | Como foi criada a Frevioca?

Ld | Da necessidade de ter orquestra

no Centro, e não ter dinheiro. Na

administração de Gustavo Krause, o

dinheiro era pouco para fazer o carnaval.

Na época, fui o executivo da

Fundação de Cultura da Cidade do

Recife, então era praticamente responsável

pelo carnaval. Primeira coisa

que fizemos foi tirar a decoração.

Passaram-se quatro anos e ninguém

reclamou que não tinha decoração.

AM | Como foi feito?

Ld | Usamos a criatividade. Tiramos

os refletores de Boa Viagem e

da Prefeitura para colocar no centro.

A Frevioca passava pelas principais

ruas para ocupar os espaços

que eram deixados pelas agremiações.

Precisávamos de mais agremiações.

Fizemos concursos para

estimular as agremiações.

AM | Por que o carnaval saiu do

centro?

2011 fevereiro >

>

11

u


Alexandre Albuquerque

Ld | A primeira administração de

Jarbas Vasconcelos levou o carnaval

para o bairro do Recife, onde só

existia o encontro de blocos.

AM | De onde vem o nome Frevioca?

Ld | Havia a sugestão de chamar

de Volantes do Frevo, mas ficava

muito militar. Assim, peguei o

nome Frevioca, que era utilizado

para denominar uma pequena troça.

AM | O frevo possui uma dinâmica

própria?

Ld | Sim. Até o baile tem uma

circulação no sentido anti-horário.

Todo o carnaval é funcional. Até

os maiores sucessos carnavalescos

têm uma funcionalidade que

é a respiração. A parada em certas

músicas é fundamental.

AM | O senhor era muito próximo

à Capiba. Como era o homem

12 > > fevereiro 2011

por detrás do mito?

Ld | Era profundamente vaidoso.

Movido a elogios. O salão todo

cantando suas músicas, ele ia quase

a um orgasmo. Lembro-me que

quando abri o Baile da Saudade

tinha a trilha e o primeiro frevocanção

era “Ai, se eu tivesse”, ele

virava para mim e dizia: “Agora,

todo mundo vai cantar”. Curtia o

carnaval até os últimos dias. Capiba,

mesmo com 68 anos, ficava até

as 7h, porque não aceitava chegar

antes do sol. Hoje, as pessoas voltam

para casa ainda de madrugada.

AM | Como era a relação com ele?

Ld | Até o último dia eu estava

com ele. Passei a noite de anonovo

junto ao caixão dele. Tínhamos

um grande carinho recíproco.

Capiba era uma pessoa pura, que

acreditava em tudo o que se dizia.

Teve uma época em que fui fazer

cirurgia de ponte de safena e exis-

Alexandre Albuquerque

tia um boato de que o meu plano

de saúde não iria cobrir os valores.

Ele tirou todo o dinheiro da poupança

e guardou em casa para pagar,

caso precisasse. Cheguei até a

editar dois livros dele e, a pedido

dele, fiz a festa dos seus 80 anos.

AM | Capiba é autor do principal

hino tricolor. Ele era apaixonado

pelo Santa Cruz?

Ld | Era tricolor doente, e chegou

a ser tesoureiro do clube. Capiba

ainda ocupava o cargo quando o

Santa Cruz foi despejado, na Estrada

de Belém, por falta de pagamento.

Depois, compraram o espaço na

Avenida Beberibe. Capiba tinha até

duas cadeiras no Santa Cruz, apesar

de não ir a jogo.

AM | Falta reconhecimento para

Capiba?

Ld | Poderia ter sido o maior compositor

da sua época se tivesse morado

no Rio de Janeiro. Ele compôs

de tudo. Capiba tinha uma base

para compositor impressionante,

pois fazia música e poesia. Se comparar

com a obra de Tom Jobim,

Capiba vai ganhar, desde a música

orquestrada ao maracatu.

AM | E Claudionor Germano?

Ld | Ele começou a despontar

como menino prodígio logo depois

da guerra. Depois, entrou no rastro

de Nelson Ferreira. Ele tem uma

das melhores dicções do Brasil e

uma memória exemplar. Hoje, está

com mais de 78 anos e fez todos os

nossos carnavais. Só me lembro de

carnaval com ele. Foram 18 Bailes

da Saudade.

* Participaram da

entrevista: Camila

Lindoso, José Neves

Cabral, Mirela Soane, Ivo

Dantas e RobertoTavares


2011 fevereiro >

>

13


Fuxicos

Literários

Embaraço

Um antigo professor de

nossa Faculdade de Medicina

gostava, vez por outra, de dirigir

perguntas embaraçosas às

poucas alunas que, naqueles

tempos, ousavam tentar a carreira

médica.

Qual é o órgão do corpo

humano que mais aumenta de

tamanho?

E com a estudante enrubescida

ao extremo:

Não é nada disso que a senhorita

está pensando, S-U-A

G-U-L-O-S-A: trata-se do útero

que, durante a gravidez, é

capaz de crescer muitas vezes

seu volume original...

Certa vez, uma aluna,

observando que o capítulo

concernente à próstata não

havia sido incluído nos assuntos

relacionados para a

prova final, ingenuamente,

perguntara:

E próstata, professor, não

entra?

Ele, não perdendo a ocasião:

Não entra, minha filha,

mas ajuda bastante...

Na guerra

Uma historieta dos tempos da II

Guerra Mundial. Dizia-se que Winston

Churchill tinha como hábito ficar

andando, enrolado numa toalha

ou, às vezes, completamente nu – e

com um charuto aceso na boca –,

em seu gabinete, na 10 Downing

Street, a ditar seus discursos, memorandos

e ordens de serviço para

uma atarantada secretária que não

sabia para onde olhar.

14 > > fevereiro 2011

Cocheira

Getúlio Vargas, cujos discursos

eram, provavelmente, de autoria de

seus assessores e que começavam

invariavelmente com o famoso Trabalhadores

do Brasiiiilll..., é eleito

para a Academia Brasileira de Letras.

O escritor Aparício Torelly, que se

auto-intitulava Sua Graça Barão de

Agripino Grieco era famoso pelas

suas irreverências e mordazes

ironias, dirigidas principalmente aos

literatos em geral. Sobre a obra-prima

de Gilberto Freyre, Casa Grande e

Senzala, ele disse:

É um livro bem pensado e mal

escrito: pensado na casa-grande e

escrito na senzala...

Referindo-se a Ataulfo de Paiva,

membro da Academia Brasileira de

Letras, a quem considerava dono de

um enorme vazio intelectual, disse

ele, certa vez:

Se de manhã cedo, logo ao saltar

da cama, alguém abrir a cabeça de

Ataulfo e comer seus miolos, pode-se

considerar ainda em jejum e poderá

até comungar!

Rostand Paraíso

rparaiso@rhp.com.br

Itararé, é tido como o autor do seguinte

soneto:

No banco trinta e sete, ei-lo sentado,

com o fardão dos grandes imortais:

escárnio atroz à Casa de Machado,

de Humberto, Rui Barbosa, e outros mais.

Ironias Pela honra

Confessando-se um admirador

da natureza, o poeta pernambucano

Bastos Tigre, disse,

certa vez:

Só por ser Gegê Vargas, foi votado.

naquelas condições puxa-sacais,

estando o Lar da Luz abarrotado,

de escribas cavalares, ou asnais.

A hora é triste e só de analfabetos,

bagagens literárias são decretos:

que bela academia de muares!

É de pasmar, meu Deus, tanta sujeira,

só falta ver também nessa cocheira

Gas’Dutra, Capanema e Valadares...

Por motivos literários, o sergipano

Gilberto Amado era antigo

desafeto do poeta mato-grossense

Aníbal Teófilo. Na noite de 19

de junho de 1915, durante uma

festividade no prédio do Jornal

do Commercio, no Rio, Amado,

acompanhado da esposa grávida,

e Teófilo cruzam caminhos. Automaticamente,

tiram os chapéus.

Teófilo diz:

Não foi você que eu cumprimentei,

seu corno! Foi sua mulher.

Amaro dispara três tiros de sua

Mauser, à queima-roupa, e sai calmamente,

sendo, apesar de alegar

impunidade parlamentar, detido e

preso.

Vai a julgamento e é absolvido.

Do que não presta Sim, adoro a floresta!

Contanto que não fique longe

dos teatros, dos cafés,

de tudo que não presta...


2011 fevereiro >

>

15


De

olho

Segurança

no shopping

Através de e-mail, o Shopping

Center Recife esclarece sobre a

nota intitulada “Segurança no shopping”,

publicada na edição 57. O

Shopping diz que a informação não

procede, acrescentando que “não

existe nenhuma queixa ou registro

oficial de tal ocorrência. Inclusive,

na saída 3, citada na nota, há um

posto de vigilância armada posicionado

de forma estratégica, o que

possibilita visão privilegiada do

local. O Shopping Recife aproveita

para reforçar que possui um efetivo

de segurança dimensionado,

muito bem equipado e preparado,

que recebe treinamento contínuo

a fim de oferecer um serviço de

qualidade aos clientes. Além disso,

o Shopping conta com um moderno

circuito fechado de televisão,

que monitora, 24 horas, o empreendimento

– inclusive as cancelas

de entrada e saída.”

Francamente

Aniversário

A Di Cavalcanti Consultoria Empresarial

completa 18 anos e lança

um novo site que vale a pena visitar.

Ela atua com financiamentos do

BNDES e BNB, além de incentivos

estaduais e os concedidos pela Sudene.

Recentemente, num consórcio

com a Enerbio Consultoria, a Di

Cavalcanti foi contratada pela Chesf

para desenvolver o Projeto de Crédito

de Carbono para a Usina Eólica

Casa Nova, que será o maior parque

eólico do Brasil, em termos de potência

instalada. Os 18 anos estão

bem comemorados. Parabéns.

16 > > fevereiro 2011

Polícia

e Polícia

Os 26 coroneis da Polícia Militar

de Pernambuco estão irritados

porque ganham menos do que os

548 delegados da Secretaria de

Defesa Social. Este seria, segundo

um oficial PM, um dos motivos do

atual “clima azedo” existente na

corporação. E ainda mais quando

se mede o grau de responsabilidade

de cada um. Enquanto um

delegado pode chefiar apenas

dois subordinados, um coronel comanda

um efetivo de mais de mil

homens. Além disso, os militares

estão perdendo as esperanças na

aprovação da PEC 300 pelo Congresso.

Pombo educado

Dia desses, na faixa de pedestre

da Padre Carapuceiro com Conselheiro

Aguiar, um pombo, acreditem,

um pombo branco esperava

educadamente o sinal de pedestre

para atravessar a rua andando pela

faixa, sequer voando. Minha sócia

Stella Beltrão estava comigo e não

me deixa mentir. Será que é mais

fácil ensinar a um animal irracional

que aos racionais?

Júlia Costa

Ela é uma artista plástica

com peças muito bonitas,

usando aplicações

de imagens de tela em

agendas, caneca e camisetas.

Seu trabalho inspira-se

principalmente na natureza,

e na busca de uma tendência

contemporânea e

pop. Para conhecer melhor

o trabalho de Júlia Costa

visite o site www.juliacosta.com.

Ela não é minha

parente, apenas uma boa

artista da nossa terra.

Bombeiros

Tudo bem que o sucateamento

dos equipamentos do Corpo de

Bombeiros do Recife seja reconhecido

pelo governo do estado, mas é

preciso explicar bem o que foi feito

do dinheiro arrecadado pela imposição

da taxa de bombeiros aos

proprietários de imóveis. No boleto

que envia aos contribuintes, o

Corpo de Bombeiros informa que a

taxa tem proporcionado a aquisição

de diversas viaturas, embarcações,

aeronave, equipamentos, materiais

e a “manutenção dos serviços existentes

com qualidade e eficiência”.

Imprensa

A jornalista Flávia Filipini (ex-

Jornal do Commercio) é a presença

pernambucana na comunicação social

da Presidência da República. A

ministra Helena Chagas a escolheu

para a seção Imprensa Regional.

Eis o seu endereço eletrônico: regional.imprensa@planalto.gov.br


Cadê o Plano

Diretor?

Impressiona a quantidade de

prédios a partir de 14 andares da

rua Antônio de Castro, em Casa

Amarela. Embora a rua tenha aproximadamente

300 metros está

sendo construído mais um edifício

com 28 andares e já existem placas

para construção de mais dois edifícios

de grande porte na mesma

rua. Conclusão: esgotos com capacidade

máxima de vazão, estacionamento

dos dois lados ao longo

de toda a rua, além de todos os

problemas dessa superocupação.

Questionada sobre essa situação a

Prefeitura do Recife jamais se pronunciou.

Concorrência 1

Sábado, dia 22 de janeiro, uma

jovem com um alto falante tipo

cone, roupa vermelha e marca da

Claro anunciava uma promoção. Só

que ela estava ao lado do orelhão

da Oi. Os cuidados nesse tipo de

ação devem ser enormes.

Concorrência 2

Também no mesmo sábado, meu

exemplar de assinante do JC veio com

o encarte Gastrô, um produto do Diario

de Pernambuco. Como consultor em

marketing e sabendo que a concorrência

é grande, fiquei boquiaberto.

Luiz Carlos Costa

luizcarloscosta1@hotmail.com

Redação Algomais

deolho@revistaalgomais.com.br

A grande

chance da

oposição

As dificuldades encontradas

por João da Costa para alavancar

sua gestão deram início à campanha

para a sucessão em 2012.

De um lado, a situação se debate

com muitos nomes competitivos

para uma possível substituição,

caso o atual prefeito não recupere

sua popularidade. Do outro, assim

como nas últimas eleições, a

oposição sofre para encontrar um

político com densidade para o embate.

O discurso da renovação das

lideranças continua no papel, e o

adiantamento da disputa prejudica

ainda mais os opositores, pois terão

menos tempo para se unir em

torno de um nome de consenso.

Caso contrário, perderão a melhor

chance de voltar ao poder desde

a reeleição de João Paulo para a

PCR.

Rapidinhas

l É impressionante a semelhança

física do cantor e compositor Xico Bizerra

(é com i mesmo) com o ex- presidente

Lula.

l Boa sorte ao secretário do Meio

Ambiente, Sérgio Xavier. O estado

precisa se “esverdear”.

l Boa sorte, também, ao novo secretário

de Turismo do Recife, André

Campos, que recebe um bom produto

para oferecer ao Brasil e ao mundo.

l A revista Algomais vai completar

cinco anos. Quem acompanhou a sua

história desde a criação, sabe que são

muitos os motivos de comemoração.

O mundo não é mais o mesmo, a

economia não é mais a mesma. Há

oportunidades de negócios em muitas

frentes e você precisa de um aliado para

ampliar a visão de futuro.

A Deloitte coloca todo o seu

conhecimento para estender os

horizontes da sua empresa nesta

nova realidade do mercado. É possível

encontrar inúmeras formas diferenciadas

para trilhar a estrada do crescimento,

adaptando-se sempre.

Com criatividade, orientação,

planejamento, pensamento estratégico

e soluções ousadas, o momento atual,

de profunda adaptação, poderá ser um

caminho mais rápido para a conquista do

sucesso. Com a Deloitte sempre ao seu

lado.

A Deloitte refere-se a uma ou mais Deloitte Touche Tohmatsu,

uma verein (associação) estabelecida na Suíça, e sua rede de

firmas-membro, sendo cada uma delas uma entidade

independente e legalmente separada. Acesse

www.deloitte.com/about para a descrição detalhada da

estrutura legal da Deloitte Touche Tohmatsu e de suas firmasmembro

© 2010 Deloitte Touche Tohmatsu

2011 fevereiro >

>

17

u


Pensando

bem

Chegaram os tablets, isto é, os

leitores eletrônicos para os livros

digitais. O comércio anuncia

a novidade de diferentes formas,

nos cadernos especializados da imprensa.

Está se tornando mais comum

encontrar uma pessoa com

esses equipamentos nos lugares.

Dia desses vi um orador subir à tribuna

e falar a partir de um texto,

cuja construção, como notei, parecia

ter sido finalizada ali, naquele

plenário repleto. Em certo domingo,

em lanchonete do Rosarinho,

um casal manuseava a invenção

moderna, mas o fazia como se

fora um notebook, navegando pela

rede mundial. É possível também

contar com essa possibilidade.

Mas, há uma discussão nos

ares do mundo: a do fim do livro.

O livro impresso fenecerá, depois

de mais de cinco séculos da invenção

de Gutenberg? É o que se tem

debatido, sem uma conclusão definitiva!

É impossível prever o futuro,

mas o mercado do livro digital

cresceu em 2010 cerca de 460%,

passando de 160 milhões para

um bilhão de dólares, enquanto a

queda na venda de livros impressos

chegou a 2%. Na expectativa

de Silvio Meira, o encontro dessas

duas curvas, uma em ascensão rápida

e outra em declínio lento, levará

ao fim do livro tradicional, em

20 anos. Não sei!

Melhor comungar das ideias de

Antônio Campos, escritor, membro

da Academia Pernambucana de Letras,

autor de um Blog, que propõe

a convivência entre as duas formas,

como apresentações complementares,

nunca excludentes. Ou

comungar das opiniões de Humberto

Eco, que nega a condenação

18 > > fevereiro 2011

Geraldo Pereira*

pereira.gj@gmail.com

A leitura em movimento

do livro, argumentando a partir da

fragilidade do substrato. Diz que o

disquete, no qual se armazenavam

as informações todas, sequer dispõe

de espaço para ser lido hoje.

O CD, também, é efêmero e se desgasta

em pouco tempo. O mesmo

se diga do DVD. E ninguém sabe a

segurança das memórias espalhadas

pelo mundo. De toda parte, o

computador se desatualiza em dois

anos e com frequência se tem perda

de arquivos.

O livro digital, mesmo, será

aquele produzido com os recursos

do hipertexto, isto é, aquele que

pode remeter a palavra a outro texto,

permitindo nova conexão. Assim,

quando o autor escrever, por

exemplo, o vocábulo Recife, o termo

estará aceso e ao simples clique o

leitor terá uma descrição da cidade,

o mapa ou coisa parecida. Isso será

extraordinário, mas se adaptará

com facilidade a uma enciclopédia

ou a um livro similar, que permita e

até solicite essa passagem rápida de

uma para outra leitura. No que toca

ao comum – ao romance, à poesia,

aos ensaios e às crônicas – o costume

do livro tradicional atrai mais,

pelo menos por enquanto e a facilidade

do manuseio, do dobrar do

volume e do riscar das frases seduz

melhor o leitor.

De mais a mais, é preciso universalizar

o acesso, promovendo a

inclusão social de todos, nos variados

países do mundo. Só assim será

possível expandir a informática e

permitir que a globalização inclua

os menos aquinhoados, tirando

das elites esse privilégio. No Brasil

de hoje 54% das pessoas, acima

de 12 anos de idade, têm conexão

com a Internet. Sucede que dessas

81,3 milhões de criaturas, a maioria

tem acesso nas lan houses (31%),

enquanto 21% em casa. O equipamento

doméstico vem caindo em

termos de custo mais e mais, o que

anima e traz a esperança de que a

disponibilidade seja, com certa rapidez,

universalizada.

Entende-se que a leitura especializada,

aquela dos periódicos

científicos, será mais e mais digital.

Quando eu era jovem médico

e trabalhava em saúde pública,

uma revista muito importante, do

Center for Disease Control, vinha

pelos correios para o meu chefe,

mas nunca às minhas mãos. Hoje,

os artigos chegam à caixa postal

eletrônica todas as semanas e agora

em espanhol, uma língua mais

fácil. Pena esteja com uma atividade

mais literária e menos médica!

Mas, a página da Sociedade Brasileira

de História da Medicina tem

sido um nicho no qual venho publicando

sobre o pretérito médico em

Pernambuco.

Eis a leitura em movimento!

* Geraldo Pereira é escritor


2011 fevereiro >

>

19


João

Alberto

Invadindo o Sul

Julião Konrad, dono de uma grande

rede de restaurantes no Recife,

está ampliando sua ação no sul.

Depois dos Spettus de Buenos

Aires e Chapecó, unaugura este

mês um Spettus e um Nikko em

Florianópolis. Sua esposa Marlene

também entrou no circuito: é ela

quem está comandando a nova fase

do Famiglia Giuliano, que aumentou

a frequência no almoço em 200%.

Julião Konrad

Os santos

do senador

A coleção de artesanato de Jarbas

Vasconcelos tem muitos santos de

madeira, especialmente de artistas

do Piauí e Minas Gerais, estados

com maior tradição na área. Eles

vão ganhar espaço especial no novo

apartamento do senador sem uma

das Torres do Cais de Santa Rita.

Jarbas Vasconcelos

20 > > fevereiro 2011

Raquel Lyra

Supervisão

no ar

César Santos é quem

supervisiona os pratos servidos

na classe executiva dos vôos da

TAP do Recife para Lisboa, que

são assinados pelo chef Dânio

Braga. Não se trata de uma

experiência nova para o dono

da Oficina do Sabor: durante um

bom período assinou o cardápio

da primeira classe nos voos da

antiga Varig.

Revelação

Política

Raquel Lyra surge como uma

das maiores revelações da

política pernambucana. Depois

de aprovada em concursos para

delegada da Polícia Federal e

procuradora, ela resolveu seguir

os passos da família e disputou

mandato de deputada estadual.

Foi eleita, sendo a mais votada

em Caruaru. Com designação

garantida para a presidência da

Comissão de Constituição e Justiça

da Assembleia Legislativa, acabou

sendo convocada por Eduardo

Campos para ser secretária da

Criança e da Juventude.

Farmácia

na ilha

Os moradores de Fernando de

Noronha comemoram a abertura de

uma farmácia do Lafepe na ilha. É que

até agora havia apenas um espaço

que vendia medicamentos e que, sem

concorrência ou fiscalização, cobrava

preços muito altos, justificando que

era em função do frete aéreo. Quando

os Ilhéus vinham ao Recife podiam

comparar e descobrir a disparidade

entre os preços daqui e de lá.

u


HORA DA SAÚDE SANTA JOANA

TRAUMAS EXIGEM

ATENDIMENTO IMEDIATO.

Sejam causados por uma queda em casa, durante uma

partida de futebol, ou após um acidente automobilístico,

a procura por uma emergência médica é o caminho

adequado.

Algumas enfermidades podem atingir pessoas em qualquer

estágio da vida. Os traumas são o maior exemplo. Traumas

leves, como as escoriações ou contusões, até traumas

severos, como fraturas ou danos complexos, podem

acometer indivíduos de qualquer idade e com diferentes

graus de gravidade.

Nas crianças os traumas com fraturas acometem com maior

frequência braços e pernas, decorrentes da exposição em

brincadeiras (responsável por quase 60% das fraturas

nessa faixa etária) no ambiente domiciliar ou na escola.

Já nos idosos, a frequência maior é de fraturas no colo do

fêmur, que geralmente deixam sequelas, sobretudo para a

locomoção, e levam mais tempo para a recuperação.

Os jovens e adultos estão mais expostos aos traumatismos

decorrentes de acidentes no trânsito. Com a introdução

cada vez maior de motos nas

vias públicas e a direção muitas

vezes irresponsável por parte

dos motoristas, esse tipo de

acidente tem crescido e se

tornado um problema de saúde

pública. Entre 1998 e 2009, o

registro de casos envolvendo

acidentes com moto aumentou

cerca de 200% nos dados oficiais

das redes pública e privada de

atendimento médico de emergência.

Os traumas ocasionados por acidentes no trânsito

costumam ser os mais graves, pois geralmente acometem

mais de um órgão ou membro (politraumatismos). O

grande desafio no tratamento de pessoas envolvidas

nesses tipos de trauma é o pronto atendimento, visando

reduzir o tempo de recuperação e evitar ao máximo as

sequelas. É fundamental que o atendimento seja realizado

por uma equipe multidisciplinar de forma integrada e

em uma estrutura hospitalar capacitada com os mais

modernos recursos.

Os traumas ocasionados por acidentes

no trânsito costumam ser os mais

graves. O grande desafio nesses casos é

o pronto atendimento visando reduzir o

tempo de recuperação e evitar ao máximo

as sequelas.

Primeiros socorros em casos de traumas.

- Nunca tente encaixar o osso quando houver

deslocamento.

- Imobilize a parte fraturada e não

ofereça alimento, pois a pessoa

pode vir a necessitar de um

procedimento cirúrgico.

- Em casos de hemorragia, faça

uma compressão no local com

toalhas ou panos limpos e

conduza o paciente ao hospital.

- Quedas em idosos podem

ocasionar sequelas funcionais

e até mesmo morte. O paciente

deve ser encaminhado para uma emergência e tratado por

equipe especializada.

- O paciente politraumatizado precisa do suporte de

uma equipe multidisciplinar que inclui clínico, cirurgião,

ortopedista e neurologista.

- Dê preferência aos hospitais que possuem uma equipe

multidisciplinar no atendimento da emergência e o suporte

de um centro de diagnóstico para realizar os exames

necessários com rapidez.

Responsável Técnico:

Dr. Abimael Arnaud - Coordenador da Equipe de Ortopedia - CRM 4221

Você encontra este conteúdo e muito mais no www.santajoana.com.br

Colabore com o tema das próximas edições do Hora da Saúde. Envie sua sugestão para: horadasaude@santajoana.com.br

2011 fevereiro >

> 21


22 > > fevereiro 2011

A segunda

João da Costa gosta de lembrar

que o Recife é a segunda cidade

do Brasil onde é maior a diferença

entre pobres e ricos. Só perde para

Brasília. Esta é a principal razão da

prefeitura priorizar sempre ações

para as populações mais carentes

da nossa cidade.

Hotelaria

em alta

A Equipotel, maior feira de

hotelaria e gastronomia da

América Latina, é realizada

todos os anos em São Paulo. Em

2011, pela primeira vez terá uma

versão Nordeste, que acontecerá

entre os dias 25 e 27 de maio

no Centro de Convenções de

Pernambuco.

Apenas dois

A lista dos cem melhores vinhos

do ano da revista americana Wine

Spectator tem dois chilenos - o

Viña Montes 2005, que custa R$

50 e o Viña Santa Rita, Reserva

2004, que custa R$ 40 - e dois

argentinos - Bodega Catana

Zapata Malbec Mendoza 2004,

que custa R$ 90, e Altos Las

Hormigas Malbec Mendoza 2005,

que custa R$ 44.

João da Costa

Pinturas

Um dos maiores pintores de

Pernambuco, Paulo Neves foi

praticamente esquecido depois

da sua morte. Agora, alguns

dos seus trabalhos, guardados

por colecionadores, começam

a aparecer no mercado e

já conquistando uma boa

valorização.

Segurança

Novidade na imigração americana

para aumentar a segurança.

Turistas de países que necessitam

de visto são obrigados a colocar

numa máquina não apenas os

indicadores, mas os 10 dedos das

mãos.

O QUE SE COMENTA...

QUE O secretário Alberto Feitosa vai privilegiar campanhas de divulgação

do turismo de Pernambuco nos principais mercados emissores do país.

l QUE Cecília Amado, filha de Paloma Amado, está dirigindo a versão

cinematográfica de “Capitães de Areia”, um dos maiores sucessos do seu

avô, Jorge Amado. l QUE Raul Jungamann, enquanto pensa na disputa

pela Prefeitura do Recife, vai se dedicar à reorganizar o PPS no estado.

l QUE É de comer ajoelhado a torta de doce de leite argentino com

massa de amendoim que o chef Kiko Amaral incrementou no cardápio

do restaurante It, na Dona Santa. l QUE Rodrigo Novaes surge como

uma das grandes esperanças entre os novos deputados da Assembleia

Legislativa.

joaoalberto@revistaalgomais.com.br

Big Mac

Carro chefe do cardápio da

McDonald’s, o Big Mac é usado

como um parâmetro do custo

de vida pelo mundo. No Brasil,

está custando R$ 8,70, o que

corresponde a US$ 4,91. Nos

Estados Unidos, custa US$ 3,73. O

sanduíche que é feito da mesma

forma em toda parte, só custa

mais do que no Brasil em três

países: Noruega (US$ 7,20), Suécia

(US$ 6,56) e Suíça (US$ 6,19)

Cafezinho

A partir deste ano,

todo café torrado consumido

no Brasil não poderá ter mais

de 1% de impurezas.

A instrução normativa baixada

pelo governo federal define

um padrão básico de sabor,

aroma e fragância do café,

de acordo com pesquisa

da Associação Brasileira

da Indústria de Café.


da oposição

ao governo

ALiANÇA | Entrada do PV no governo traz desafios para a sigla, que

tenta manter compromissos de campanha e solucionar contradições

Por Ivo Dantas

Poucos partidos tiveram uma ascensão

tão meteórica quanto o

Partido Verde (PV). Desde o lançamento

da candidatura de Marina

Silva para disputar a Presidência da

República, a sigla ganhou densidade

eleitoral e apareceu, pela primeira

vez, como uma alternativa à dualidade

PT X PSDB. Em Pernambuco,

o partido se recusou a escolher um

lado na disputa entre Eduardo Campos

e Jarbas Vasconcelos e alçou o

nome do presidente estadual do PV,

Sérgio Xavier, como candidato independente,

com a missão de ser uma

terceira via e servir de palanque para

Marina no estado.

Passados alguns meses da eleição,

a criação da nova Secretaria

de Meio Ambiente acabou gerando

uma verdadeira sinuca para o partido.

Enquanto a pasta dará aos verdes

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a condição de colocar em prática o

discurso repetido exaustivamente ao

longo da campanha, também expõe

desafios e controvérsias.

Para o novo secretário de Eduardo

Campos, Sérgio Xavier, que continuará

à frente da sigla no estado, o

processo de aproximação não significa

a perda da independência do partido,

e só ocorreu porque foi tratado

de forma ampla junto às bases. “Foi

uma longa caminhada até chegarmos

2011 fevereiro >

>

23

u


à decisão de aceitar o convite. Desde

a escolha do posicionamento político,

que ocorreu pelo fato de que grande

parte do partido tem relação com o

PSB, até o compromisso com quinze

pontos defendidos ao longo da

campanha para o governo”, justifica

lembrando que a decisão passou ainda

pelo crivo de Marina. “Conversei

algumas vezes com ela sobre a possibilidade

e recebi a resposta de que

confiava na nossa decisão, pois seria

uma chance de implementar as políticas

que defendemos”, completa.

Por outro lado, a escolha de se

aliar ao governo bate de frente com

a decisão do Diretório Nacional de se

manter neutro no Governo Federal,

preservando a independência diante

do PT ou da oposição. “Continuamos

sendo independentes. É possível ter

alianças com diversos partidos em

cada local. Faz parte da complexidade

democrática. Veja o PMDB, por

exemplo, é aliado de Dilma, mas faz

oposição a Eduardo Campos”, defende

Xavier.

O discurso de que já existia uma

aproximação contradiz com o discurso

utilizado durante a campanha. Em

nota oficial emitida durante as eleições

estaduais (24 de setembro), a

assessoria de imprensa do PV chegou

a desmentir a informação de que poderia

existir uma aliança entre o partido

e o, então candidato à reeleição,

Eduardo Campos. “Em entrevista

após o debate, Sérgio Xavier defendeu

que o PV mantenha-se independente

no cenário político estadual

e siga fortalecendo sua identidade

ideológica”, dizia um trecho da nota.

Em outro momento, durante debate

na TV Clube, Sérgio Xavier questionou

Eduardo Campos sobre o que

seria mais importante, o mangue ou

o estaleiro, criticando a resposta do

governador.

Enquanto isso, o único deputado

estadual eleito pelo PV, o ex-vereador

Daniel Coelho, adotava um duro

discurso de oposição, prometendo

levar adiante o trabalho que vinha

sendo feito na bancada opositora

da Câmara de Vereadores do Recife.

Posicionamento que, naquela época,

24 > > fevereiro 2011

Muito além

da simples

adesão ao

Governo,

a decisão

do Partido

Verde

mexeu com

todo o

sistema

político

estadual

Sérgio Xavier: faz parte da complexidade democrática

parecia contar com todo apoio da

Executiva Estadual do partido.

Muito além da simples adesão ao

governo, a decisão do PV mexeu com

todo o sistema político estadual. A

manutenção de Daniel Coelho como

opositor, chegando a ser forte candidato

à liderança da oposição criou

um racha interno na pequena bancada

formada pelo PMN, PSDB, PMDB e

DEM. Para o deputado estadual Gustavo

Negromonte (PMDB), os verdes

devem desistir da secretaria ou

desistir de fazer oposição. “Vemos a

criação da nova pasta como uma forma

de cooptação, sim, nos mesmos

moldes das ações que ocorreram ao

longo da campanha eleitoral. Mas

não cabe a nós julgarmos, já que não

temos conhecimentos dos termos do

acordo. O que não pode é um partido

ser da oposição e situação ao mesmo

tempo”, reclama. Para ele, apesar do

discurso do PV de que não iria correr

atrás de vagas no governo, na prática,

o partido está disputando cargos nas

duas frentes. “É estranho o PV, que se

dizia um partido diferente, com essas

atitudes. Quer secretaria e ainda tem

um deputado atrás da vaga de liderança

da oposição. Todo mundo tem

que escolher um lado. Se tiver uma

crise ambiental, como se comportaria

Daniel Coelho diante do fato de que a

secretaria é do seu partido”, diz.

Através de sua assessoria de imprensa,

o PV divulgou informativo

sobre o posicionamento do partido

diante da polêmica estabelecida na

Assembleia Legislativa e da escolha

de formalizar uma aliança com o PSB.

“Mesmo sendo esta decisão da grande

maioria, o PV reconhece o direito

de discordância das minorias e defende

a liberdade de pensamento individual.

Assim, qualquer filiado tem

o direito democrático de expressar

e defender suas posições contrárias,

desde que o faça de forma respeitosa,

cumprindo o estatuto e deixando

claro que é uma posição pessoal”, diz

um trecho da nota.

Se é verdade que o Partido Verde

aderiu à base de sustentação de Eduardo

Campos, o mesmo não acontece

na Prefeitura do Recife. Após encontro

do partido, Sérgio Xavier revelou

que não estuda a possibilidade de

ingressar na gestão de João da Costa

(PT) por ter projeto de lançar uma

candidatura própria. Da mesma forma,

2014 ainda não está na pauta. Ou

seja, apesar de assumir a secretaria,

não está descartada a candidatura

isolada do PV, novamente. “Discutimos

uma aliança administrativa e não

exatamente eleitoral. As duas próximas

eleições não estão definidas. É

lógico que aproxima, mas ainda existe

a possibilidade”, adianta Xavier.


Mercado de

executivos em alta

ECoNoMiA | Com várias empresas chegando para se instalar em

Pernambuco, cargos de alta gerência estão sendo bastante procurados

Por José Neves Cabral

Economistas apontam o crescimento

do PIB de Pernambuco a

taxas chinesas nos próximos 20 anos.

Com as obras estruturadoras, como o

canal do Sertão e a Transnordestina,

além da consolidação do Complexo

de Suape, vislumbra-se a chegada

de centenas de empresas. Junto com

os empregos vêm as exigências de

melhor qualificação profissional em

todos os níveis. E no alto desta pirâmide,

principalmente. Atualmente,

bons executivos já são muito disputados

pelas empresas e quem se qualificar

certamente vai ter opções para

crescer profissionalmente sem sair da

região.

O crescimento do mercado de

executivos em Pernambuco também

atrai empresas especializadas

neste segmento. A inglesa Michael

Page instalou uma filial no Recife

no ano passado. A escolha da capital

pernambucana foi motivada

pelo potencial do mercado local e

também por uma questão geográfica,

pois fica a 800 km de outros

grandes centros nordestinos, como

Salvador e Fortaleza.

Os executivos já representam

10% de todas as ofertas de emprego

disponíveis no Estado, segundo análise

do gerente regional para o Norte-

Nordeste da Michael Page, Felipe

Minniti Mançano. “Logisticamente,

Recife está bem localizada, pois estamos

a 1 hora de vôo de outras grandes

capitais”, explica.

Em sua análise sobre o mercado

da região, Felipe Mançano diz que há

dois movimentos de crescimento: as

Alexandre Albuquerque

Alexandre Albuquerque

Calado, da deloitte: maturidade das empresas

empresas familiares buscando a profissionalização;

e o potencial que a

região apresenta para ser explorada.

Ele identifica o setor de engenharia

como um dos mais requisitados no

momento.

A Michael Page está atuando no

Brasil há dez anos e coordena mais

de 3 mil contratações, todos os anos.

Hoje, o mercado brasileiro já responde

por 12% do faturamento do grupo

Marcelo Silva: Nordeste exige mais executivos

que está presente em 28 países. Em

seu banco de dados a empresa conta

com 1 milhão de cadastros, sendo

que metade dos candidatos já participou

de entrevistas.

O gerente da Michael Page, porém,

orienta os profissionais que é

preciso ter muito cuidado para não ficar

trocando de empresa, pois o que

é uma vantagem hoje pode não ser

amanhã. “De repente, a pessoa fica

com um salário acima da realidade e

qualquer soluço da economia pode

levá-la a perder o emprego, pois

numa reavaliação diante da nova realidade

se verá que este profissional

está com o salário inchado.”

O sócio e diretor da Consultoria

Deloitte no Recife, José Calado, também

observa o movimento das empresas

familiares em busca da contratações

de profissionais para cargos de

alta gerência. “Com o crescimento do

mercado, essas empresas também

cresceram, o que acaba obrigando os

donos a procurar profissionais qualificados

no mercado para dividir as

responsabilidades e tarefas que aumentaram

muito. A família, às vezes,

não tem tantos braços para tocar a

empresa”, comenta.

Para Calado, esse novo movimento

revela a maturidade econômica

que algumas empresas familiares

estão atingindo.

Em palestra realizada recentemente

no JCPM Trade Center, o

superintendente do Magazine Luiza,

uma das maiores empresas de varejo

do Brasil, Marcelo Silva, também

alertou para o forte crescimento do

mercado de executivos no Nordeste

nos próximos anos. “O Brasil vai se

2011 fevereiro >

>

25

u


manter em crescimento nas próximas

décadas e as empresas vão

querer profissionais cada vez mais

qualificados para os cargos de comando”,

afirmou. O próprio Marcelo

é um dos exemplos de sucesso desse

mercado. Começou como auditor da

Artur Andersen, depois seguiu para

o Bompreço, Casas José Araújo e

agora Magazine Luiza.

Com o mercado aberto, os

profissionais que buscam o aperfeiçoamento

e almejam crescer na

carreira não precisam mais deixar

o estado em busca de novos horizontes

no Sul ou no Exterior. O pernambucano

Flávio Cezar Simões

Camacho, controller do Grupo Via

Sul, vê o mercado muito aquecido, Mançano, da Michael Page: Recife está bem localizada

Alexandre Albuquerque

depoimentos

Empresários

ivan Martins

Executivo da Ferreira Costa

41 anos

“O mercado é bastante promissor

para os executivos de

finanças e exige profissionais

qualificados e com maior visão

de negócios e de futuro. Este

mercado está em ascendência

no Brasil e aqui em Pernambuco

há uma tendência de forte

crescimento devido aos investimentos

que estão sendo feitos

no Estado”.

26 > > fevereiro 2011

Alexandre Albuquerque

Alexandre Albuquerque

Luís Gustavo Bosco

diretor do Cerpe, 35 anos

Formado em Ciências

Contábeis com

especialização em finanças

“Eu faço parte deste momento de

crescimento da economia pernambucana.

A fusão entre o Cerpe e a Dasa,

se originou a quarta maior empresa

de medicina diagnóstica do mundo.

Já estou completando sete anos como

executivo. Antes, víamos executivos

formados em Pernambuco deixando

o Estado, indo para o Sul e até para o

exterior em busca de crescimento profissional.

Hoje, observamos que é possível

crescer trabalhando no próprio

estado. As empresas que estão chegando

valorizam o profissional daqui

por este conhecer o mercado e também

os valores culturais da região.”

Alexandre Albuquerque

mas se considera satisfeito em fazer

carreira numa empresa instalada

na própria região.

“Sou muito ligado às minhas raízes,

antes via profissionais deixando

o estado para buscar oportunidades

em outras regiões, hoje as oportunidades

estão aqui e as empresas que

estão chegando valorizam bastante

àqueles que conhecem não só a realidade

econômica da região, mas a cultura

também”, declara. Flávio lembra

ainda que só a chegada de uma montadora

da Fiat a Pernambuco atrairá

mais 40 ou 50 empresas que fazem

parte da cadeia produtiva. “Isso, naturalmente,

vai gerar uma demanda

maior ainda por pessoas que atuam

em cargos de gerência.”

Flávio Cézar

Simões Carvalho

Controller do grupo Via Sul

41 anos

“Pernambuco vive um momento

de escassez de executivos,

pois o mercado está aquecido.

Só com a chegada da Fiat

ao estado virão para cá mais

40 ou 50 empresas que fazem

parte da cadeia produtiva. Para

quem nasceu aqui, como eu, é

importante estar preparado

para esse mercado. Como sou

muito ligado às raízes pernambucanas,

é bom saber que

podemos crescer profissionalmente

no próprio estado, pois

o mercado está atendendo às

nossas expectativas de crescimento

profissional.”


ARTiGo

* Presidente do Sindicato

da Indústria do Açúcar

de Pernambuco

O debate

precisa ser

reintroduzido

sem

superficialidade

no

Congresso

e nos

ministérios,

de forma

construtiva,

mas com

vistas ao

reestabelecimento

do

equilíbrio

sócioeconômico

o Alijamento do Nordeste

das Políticas de garantia

de preços mínimos

Por Renato A. Pontes Cunha*

Está em formatação no governo

federal, principalmente no ministério

da agricultura e Conab, um

injusto e perverso arcabouço de políticas

públicas, direcionadas sobretudos

a grandes corporações, que em

nosso país, usufruem sem cerimônia

alguma de pepros, pep´s e outros

mecanismos de equalização, ou sejam;

subvenções e subsídios que perpetuam

a produção agrícola, apenas,

no centro-oeste com essas dotações

a fundo perdido.

Funcionam na ótica federal, para

diminuírem os custos de produção

e de frete, quando por exemplo, o

milho, a soja, etc são transferidos

para outras regiões,mecanismo que

ocorre, rotineiramente, notadamente

com o milho que empresas do

Centro-Oeste mandam para nossa

região.(Norte-Nordeste)

Atualmente, á luz de um orçamento

em discussão no Congresso

de R$ 5,2 bilhões (cinco bilhões e

duzentos milhões) para 2011 ,no

mínimo R$ 1 bilhão será destinado

aos pep’s-fretes (outra modalidade),

contemplando as gigantes: Bunge,

Cargill, Louis Dreyfus, Multigrain,

Nidera sementes, Amaggi, Adm do

Brasil, e menos de 10% para pequenos

produtores, cerealistas, granjas e

cooperativas.

- E a agricultura do Nordeste? A

cana de açúcar destinada ao popular

açúcar e a energia do etanol?

O milho, o feijão, e outros cereais

com produção nativa no nordeste,

devem mudar de ramo?

Devem desempregar, esfacelar

seus clusters de fornecedores, etc,

passando a fomentar esse distorcido

modelo de transferência de renda

para o centro-sul?

E a classe média agrícola de nossa

região com sua cadeia produtiva será,

paulatinamente, descartada ou não

merece, sequer, existir?

Qual a espinha dorsal da política

agrícola nacional? O que ela de fato

pretende?

Será privilegiar as cadeias produtivas

em diversas regiões do país ou

incentivar a importação e abastecimento

vindos do centro-oeste,hoje

dominado pelas grandes corporações

agrícola?

Esse debate precisa ser reintroduzido

sem superficialidade no congresso

e nos ministérios, de forma construtiva,

mas com vistas ao restabelecimento

do equilíbrio socioeconômico.

Estamos dispostos a cooperar

para que essas distorções sejam sanadas

e que esse fosso inter-regional

não se agrave.

Em matéria recente de 7 do corrente,

em jornal nacional especializado

em negócios, está evidenciado,

o que a Conab informa que “Bunge,

Cargill, Louis Dreyfus Commodities,

Multigrain, Amaggi, Adm e Noble,

abocanharam impiedosamente quase

69% do total de 7,5 milhões de toneladas

até julho de 2010.

São concentrações clássicas de

subsídios nas mãos, ou melhor,no

caixa de poucos e grandes, e,mais impiedoso,

naqueles que implementam

agricultura mecanizada, não somos

contra subsídios, afinal no mundo

todo estão presentes na agricultura,

mas têm que observar rígidos critérios,

por exemplo:

l devem ser por épocas certas, sem

serem automáticos, tendo começo,

meio e fim.

l os custos x benefícios têm que ser

avaliados com regular frequência.

l devem obedecer aos limites máximos

da cláusula de minimis da omc.

l devem se liberados as regiões onde

ocorrerão a produção e sobretudo o

consumo, no todo ou em grande percentual.

l devem ter caráter estruturante

combinado com caráter operacional.

l devem estar atrelados a uma base

tecnológica que estude a cultura-alvo,

em termos de inovação com vistas a

aumentos de produtividade.

A questão precisa ser desmistificada,

com o norte-nordeste passando

a integrar, não figurativamente,

uma política agrícola que se preocupe

em não só investir em culturas já consolidadas,

até em regiões plenas em

diversos tipos de gargalos.

É preciso um plano agrícola com

convergência de esforços para o soerguimento

em novas bases da cultura

canavieira do nordeste, que responde

por cerca de 12% da produção sucroenergética

nacional,no entanto equivalendo

e suportando mais de 30% dos

empregos que a atividade gera no pais.

Afinal a cultura canavieira e sua

cadeia produtiva não apresentaram

sucedâneas em seu desempenho

por 400 anos, sendo imprescindíveis

o espectro sócio econômico, a democratização

espacial da atividade

na produção brasileira, a fixação dos

nordestinos em sua região, envolvendo

agricultura familiar e as médias e

grandes escalas em agricultura.

Confiamos na articulação que o

congresso nacional possa realizar para

reequilibrar o placar dessa situação.

São essas e outras questões que

confiamos irão vencer pré-conceitos

tão nocivos a livre competitividade.

2011 fevereiro >

>

27


Economia

28 > > fevereiro 2011

Jorge Jatobá

jorgejatoba@revistaalgomais.com.br

A degradação das praias pernambucanas

Um dos ativos turísticos e paisagísticos

de Pernambuco é a

praia onde quer que ela esteja, ao

norte ou ao sul do Recife. Essa riqueza

natural é também fonte de

lazer para as famílias pernambucanas,

especialmente durante o

verão. É tradição que em dezembro-janeiro

muitos jovens e seus

familiares sigam para as praias e

nos meses de junho-julho dirijamse

para o interior. Na primeira se

aplaca o calor em meio a muito banho

de mar, conversa e gastronomia.

Na segunda busca-se esquentar

o corpo em meio às festas da

época e as comidas e bebidas típicas

da estação mais fria do ano.

Ocorre que está havendo uma

crescente degradação das nossas

praias e do ambiente que as abriga.

Sobra culpa para todos, mas principalmente

para os poderes públicos,

estadual e municipal. A lista de

desmandos é grande: trânsito desordenado,

ocupação irregular por

parte de gente de alta e de baixa

renda, muito lixo, poluição sonora

originada de bares e carros com

potentes caixas de som, ausência

da polícia (ou quando presente,

ausente pela omissão), mau cheiro

oriundo de esgotos que correm

a céu aberto e desaguam no oceano

com possíveis danos à saúde

daqueles que se banham na área

contaminada, drogas, venda de bebida

alcoólica a menores, direção

embriagada e irresponsável de carros,

motos, triciclos e jet-skis que

disputam espaços mortais com os

veranistas. Essa lista significa que

o poder público está ausente, fracassando

nas tarefas essenciais de

prover ordem, segurança, saneamento

e limpeza para os cidadãos.

Ao poder estadual cabe perguntar

onde estão os zoneamentos

econômico-ecológicos, os planos

de gerenciamento da costa, a segurança

dos cidadãos, os projetos

de desenvolvimento turístico do

nosso litoral? Ao poder municipal

cabe, todavia, a maior responsabilidade,

pela omissão no trânsito,

pela falta de fiscalização ambiental

e sanitária, pelo desleixo e pela desproteção

ao meio- ambiente. Sobra

culpa também para parte da população

residente e também para os

visitantes pela falta de educação

ambiental e de respeito à segurança

alheia. Muitos poluem as praias

com plásticos, garrafas, resíduos de

comida e toda sorte de materiais.

Exemplo típico desse desmando

é a praia de Pontas de Pedra

situada no município de Goiana, litoral

norte do estado. Ali se encontra

de tudo do que se falou acima

um pouco. Com agravantes. Bares

clandestinos e insalubres instalamse

a beira mar. Casas são construídas

para moradia em frente às

residências já existentes, tirandolhes

a visão do mar e contaminando

a areia com dejetos humanos

e materiais inorgânicos. Esgotos

fluem para o mar com serenidade

e mau cheiro. Motoristas ligam os

alto-falantes dos seus veículos sem

que a polícia que os ouve e os vê

não interfira, jet-skis e lanchas disputam

velozmente espaço com banhistas

indefesos. Há lixo nos acessos,

na praia, nos terrenos vazios,

nos quintais, nos telhados...

A esse conjunto de fatores nós

denominamos de externalidades

negativas. Geram mal estar, danos

à saúde e ao meio ambiente, provocam

acidentes, alguns fatais, geram

violência pelo desrespeito ao

direito do cidadão ao descanso e a

sua mobilidade com segurança. Enfim,

produzem custos sociais assim

denominados porque são indivisíveis

e não podem ser apropriados

individualmente. Por isso cabe ao

Estado –ente governante- eliminálos

através da provisão de bens

públicos tais como segurança, ordenamento

do território costeiro e

saúde, por exemplo.

Há danos também ao patrimônio

particular das pessoas e das famílias.

Nesse tipo de ambiente, as

propriedades perdem valor, a localidade

perde a sua reputação como

balneário de qualidade, o turista

não volta nem divulga o sitio como

destino agradável. Daí a localidade

perde emprego e renda já que os

veranistas a abandonam, os turistas

pernambucanos a evitam e os

turistas de fora nem sequer a escolhem

porque está fora dos circuitos

do trade. Com isso perde força

a economia local pela degradação

da praia, um ativo doado pela natureza

e espaço de convivência

de grande valor e tradição para os

pernambucanos.


Palavra

do

ibef-pe

Fernando Mendonça Filho *

Contabilidade e contabilistas,

o grande avanço da profissão

Muito se diz que a Contabilidade

é uma linguagem dos negócios.

Há os que afirmam que ela é uma ciência,

outros que seria uma técnica.

Há inclusive que a acham meramente

mais um departamento dentro de

uma estrutura empresarial.

A Contabilidade é o grande instrumento

no auxilio a tomada de decisões.

Na verdade, ela coleta todos

os dados econômicos, mensurandoos

monetariamente, registrando-os e

sumarizando-os em forma de relatórios

ou de comunicados, que contribuem

sobremaneira para a tomada

de decisões.

Várias empresas, principalmente

as pequenas, têm falido ou enfrentam

sérios problemas de sobrevivência.

Empresários criticam a carga tributária,

os encargos sociais, a falta de

recursos, os juros altos etc., fatores

estes que, sem dúvida, contribuem

para debilitar a empresa. Entretanto,

descendo a fundo nas investigações os

Auditores e os Consultores constatam

que a “célula cancerosa” não repousa

naquelas críticas, mas na má gerência

e nas decisões tomadas sem respaldo

e sem dados confiáveis.

Infelizmente algumas empresas

têm uma contabilidade irreal, dis-

torcida, em conseqüência de ter sido

elaborada única e exclusivamente

para atender às exigências fiscais.

Atualmente, “aplicar os recursos

escassos disponíveis com a máxima

eficiência” tornou-se uma tarefa

nada fácil. A experiência e o feeling

do administrador não são mais fatores

decisivos no quadro atual; exigese

um elenco de informações reais,

que norteiam tais decisões.

Com o advento da globalização da

economia, a Contabilidade ficou com

uma responsabilidade ainda maior.

Com o advento da Lei 11.638/07,

que modificou a Lei das Sociedades

Anônimas, o Brasil passou a seguir os

padrões internacionais. As normas

expedidas pela Comissão de Valores

Mobiliários - CVM passaram a ser elaboradas

em consonância com os padrões

internacionais de contabilidade

(IFRS – International Financial Reporting

Standards). Mais tarde vieram a

lei 11.941/09, com o intúito de harmonizar

o padrão contábil brasileiro,

e a Resolução do CFC nº 1.159/09 que

estendeu essas adequações a todas as

demais empresas, inclusive as constituidas

sobre a forma de limitadas.

Embora considerada por alguns

profissionais como imperfeita, a lei

Existe uma coisa no setor financeiro que sempre

está em alta: o conhecimento.

Associe-se ao IBEF.

Sua participação faz parte do crescimento de todos.

e-mail: fernando.filho@venezanet.com

11.638/07 é um avanço, pois facilita

o ingresso de investimento estrangeiro

no país ao obrigar as empresas

brasileiras a adotarem a “linguagem”

internacional para a elaboração de

demonstrações financeiras. Confere

uma maior competitividade às empresas

nacionais, em um cenário no

qual os mercados são cada vez mais

interdependentes.

Acredito que para alguns dos leitores

dessa matéria, principalmente

profissionais da área de Contabilidade,

a adaptação às novas regras não

esta sendo fácil. Porém, acredito

que essas mudanças elevarão ainda

mais a qualificação dos profissionais

Contadores e consequentemente

de suas remunerações. Lembro-lhes

que nos EUA a figura do Contador é

extremamente importante, aonde

mesmo após um curso superior de

Contabilidade os profissionais devem

obter suas certificações através

de exame bastante complexo. As

certificações do profissional contábil

nos EUA podem ocorrer em duas

áreas, o CPA certifica contadores

públicos e o CMA que certifica os

contadores gerenciais. Acredito que

essa será uma tendência a ser adotada

aqui no Brasil.

Fernando Mendonça Filho é diretor de Controladoria do Grupo Veneza e vice-presidente de Relações com Governos do IBEF - PE

Instituto Brasileiro

de Executivos de Finanças

de Pernambuco

Participe. Fale com Lucilene Carvalho:

(81) 3464.8110. ibefpe@hotmail.com

2011 fevereiro >

> 29


Alexandre Albuquerque

A marca de

uma sertaneja

MARiA BoNiTA | A mais ilustre cancaceira, de porte elegante

e amiga carinhosa, completa centenário de nascimento

Por Mirela Soane

Ícone feminino do Cangaço, Maria

Bonita completa centenário de

nascimento em 8 de março, data

em que se comemora o Dia Internacional

da Mulher. A jovem ousada,

que rompeu preconceitos e

tradições para ingressar no bando

de Cangaceiros como companheira

do líder Virgulino Ferreira da Silva

(Lampião), hoje é sinônimo de sofisticação.

Maria Bonita empresta

seu nome para grifes famosas, ho-

Pernambucano de Mello: Lampião bordava

melhor do que Maria Bonita

30 > > fevereiro 2011

teis, SPA’s, clínicas de estética e salões

de beleza. Maria Bonita virou

marca.

“Isso se deve ao fato dela ter

sido uma sertaneja de porte fino,

elegante e a ideia que se tinha de

um sertanejo era de uma figura

relaxada com a aparência. Os cangaceiros

gostavam de se embelezar

e isso desperta a atenção das

pessoas já há algum tempo. Zuzu

Angel, por exemplo, abordou a temática

Cangaço no seu desfile de

1969, em Nova York”, relata Vera

Alexandre Albuquerque

Ferreira, neta de Lampião e Maria

Bonita.

Na moda, talvez, Maria Bonita

tem sua mais conceituada representante

desde 1975, quando

Maria Cândida Sarmento e Malba

Pimentel de Paiva criaram a grife

que leva o nome da cangaceira. O

objetivo da dupla era atender às

mulheres modernas que desejavam

uma marca forte, à frente de

seu tempo; vesti-las com estilo e

elegância, sem condicioná-las a padrões

de mercado.

Wanessa Campos: livro será dedicado à historia

da rainha do Cangaço


Em 1990, as empresárias criaram

a Maria Bonita Extra com a

proposta de apresentar peças jovens

e girlie. Hoje, as marcas são

sinônimo de bom acabamento,

despojamento e refinamento,

além de serem consideradas “escolas

da moda” devido a quantidade

de renomados profissionais que

passaram pela grife como Isabela

Capeto, Antonia Bernardes, Maria

Fernanda Lucena e Naná Paranaguá.

A Maria Bonita tornou-se

referência no

mundo fashionista e

participa ativamente

dos principais desfiles

de moda do país. Recife

conta com uma

unidade da versão

jovem da marca,

que, assim como

a pioneira, também

pode ser

e n c o n t r a d a

em cidades

como Rio de

Janeiro, São

Paulo, Campinas,

Belo Horizonte,

Ribeirão Preto,

Porto Alegre.

Segundo a jornalista e

pesquisadora sobre Cangaço

há 15 anos, Wanessa

Campos, a companheira de

Lampião era um exemplo de

beleza para a época. “Baixinha,

de pernas grossas roliças,

seios pequenos, cabelos

finos e olhos claros”, afirma

Campos, baseada nos estudos

e entrevistas realizadas

para a produção de um livro

que será dedicado a história da

rainha do Cangaço.

“Certamente será algo inédito,

já que muitas obras retratam

Maria Bonita apenas como coadjuvante.

No meu livro, ela será a

personagem principal. O trabalho

é difícil, mas prazeroso. Tenho viajado

muito por cidades de Sergipe

e da Bahia conversando com historiadores,

ex-volantes e familiares

Maria era

baixinha,

de pernas

grossas

roliças,

seios

pequenos,

cabelos

finos e

olhos

claros”

Wanessa Campos

dos Reis do Cangaço, como Expedita

(filha) e Vera (neta)”, revela.

Maria Bonita foi a primeira

mulher a entrar para o Cangaço. A

partir daí, outros integrantes passaram

a agregar as companheiras ao

bando. Para o historiador e pesquisador,

Frederico Pernambucano de

Mello, outras duas situações propiciaram

a entrada das mulheres no

Cangaço: a proximidade do grupo

do Baixo São Francisco, possibilitando

uma melhor higiene pessoal devido

a abundância de água; e o fato

de Lampião ter se deparado com

a Coluna Prestes e percebido que

a presença de mulheres entre eles

não influenciava no desempenho

dos combatentes.

Maria possibilitou a entrada

de mais 40 mulheres no Cangaço,

agregando melhores hábitos de higiene

e mudanças nas vestimentas.

“Dadá, companheira de Corisco,

era a responsável pelos desenhos

das roupas. Nas cidades que percorriam,

os cangaceiros já tinham

suas costureiras e periodicamente

levavam os desenhos e os tecidos

para que as roupas fossem feitas”,

afirma Campos.

Vera Ferreira, a neta: Lampião não tinha apreço por

costurar

2011 fevereiro >

>

31

u


Por outro lado, Mello garante

que as roupas encomendadas eram

exceção à rotina dos cangaceiros. Ele

afirma que todas as vestimentas, tanto

em tecido como em couro, eram

feitas no leito do próprio grupo. “A

maioria dos cangaceiros sabia costurar

e bordar. Apenas quando não tinham

tempo disponível, as encomendas

eram feitas. Inclusive, Dadá não

tinha liderança nenhuma para ditar

moda”, garante.

Segundo o historiador e autor do

livro “Estrelas de Couro - A Estética do

Cangaço”, Lampião bordava de maneira

exímia e tinha habilidade na costura

do couro e do tecido. “O bordado

de Lampião era melhor do que o de

Maria Bonita. O bando possuía uma

máquina de costura portátil, inclusive

registrada em várias fotos, sendo

utilizada tanto por Lampião como por

outros cangaceiros”, afirma.

Mello relata que em conversa

com o cangaceiro conhecido por

Candieiro, ele garantiu que Lampião

tinha desenvoltura com a costura.

“Candieiro contou-me que Lampião

fez um jogo de bornais para ele. O rei

do Cangaço teria colocado um papel

sobre a coxa, desenhado flores e posteriormente

bordado a peça na máquina

para presentear o colega”.

Já Ferreira afirma que o avô não

tinha apreço por costurar. “Falam

que Lampião gostava muito de costurar.

Ele realmente era muito habilidoso

com o couro, mas esta é uma habilidade

característica dos vaqueiros,

dos sertanejos de maneira geral. Por

vezes eles precisavam fazer reparos

nas roupas rasgadas pela vegetação

seca do sertão”, explica Ferreira.

Embora existam discordâncias

quanto aos “responsáveis” pela

moda do Cangaço, não se pode negar

o curioso. Homens e mulheres

vistos como salteadores sanguinários

usavam bornais bordados com flores

coloridas ou desenhos simétricos,

cantis decorados, perneiras de couro

com ilhoses e fivelas, chapeus com

bordados de estrelas, lenços de seda

e tafetá envoltos no pescoço. “Talvez

isso tudo venha da alma colorida do

brasileiro”, comenta Mello.

32 > > fevereiro 2011

Parte do bando retratado na caatinga: Maria Bonita aparece de frente

A presença

do feminino

também

passava

segurança

aos que se

deparavam

com os

cangaceiros

De Maria Bonita, hoje, restam

dois vestidos que retratam bem a

maneira das cangaceiras se vestirem.

O chamado vestido de batalha (não

no sentido de luta, mas de cotidiano;

dia a dia) que faz parte do acervo de

Mello é feito em brim grosso, cor de

goiaba, enfeitado com galões e com

os punhos revestidos em vermelho.

O segundo está no Museu Histórico

Nacional, no Rio de Janeiro. O modelo

cinza, com riscas de giz e enfeitado

com sinhaninha vermelha era mais

utilizado aos domingos ou em comemorações

especiais.

No bando, as mulheres desempenhavam

o papel de companheiras

e não tinham, por exemplo, a obrigação

de cozinhar. Esta tarefa ficava

mais com os homens. A presença do

feminino também passava segurança

para as pessoas que se deparavam

com os cangaceiros. Por vezes Maria

Bonita evitou a morte de crianças e

idosos. “Além disso, os crimes contra

os costumes, como o estupro, também

diminuíram”, afirma Mello.

Outro mito é a participação feminina

nos combates. As mulheres

eram treinadas e aprendiam a atirar

apenas para uma possível necessidade

de defesa. Elas não participavam

ativamente dos tiroteios, exceto Dadá

quando substituiu o marido que teve

os braços feridos em batalha.

Para Ferreira, o imaginário popu-

lar acerca da personalidade de Maria

Bonita se confunde com a realidade.

“Pouca gente sabe que de brava ela

não tinha nada. Minha avó era uma

moleca, bem humorada e fazia brincadeira

com todo mundo. Ela era amiga,

agradável, carinhosa, generosa e cuidava

bem das pessoas”, revela. Campos

reforça o argumento sobre as lendas

que permeiam o universo do Cangaço:

“Lampião não inventou o Cangaço,

mas foi o cangaceiro mais conhecido.

Nem tampouco inventou o Xaxado,

mas foi seu grande divulgador”.

O desejo de ser mãe – inerente à

maioria das mulheres – também estava

presente entre as cangaceiras,

embora o estilo de vida do bando não

lhes dessem condições de permanecer

com os filhos. “Diziam que as

mulheres eram muito crueis porque

abandonavam seus filhos. Mas, na

verdade, elas faziam isso porque não

tinham escolha. Se ficassem com a

criança, o choro entregaria a localização

do grupo; e se retornassem para

seus lares certamente seriam entregues

e mortas pelas autoridades”,

argumenta Campos.

A companheira de Lampião teve

quatro gestações, mas apenas a última

delas vingou. O bebê recebeu o

nome de Expedita e passou somente

21 dias na companhia da mãe até

ser entregue para ser criada por um

casal que já dispunha de 11 filhos. A


“Minha avó

apaixonouse

por

Lampião.

Eles

namoraram

até o final

de 1930,

quando ela

decidiu se

juntar a ele

no bando

Vera Ferreira

criança sabia sua verdadeira origem e

poucas vezes encontrou com os pais

que a visitavam sempre que podiam.

“Os bebês das mulheres do Cangaço

eram entregues a pessoas de confiança,

padres, fazendeiros, vaqueiros,

autoridades e até mesmo policiais”,

conta Ferreira.

O romance de Maria Bonita e

Lampião durou nove anos. No dia 28

de julho de 1938, na Grota do Angico,

na margem sergipana do Rio São Francisco,

o bando de Lampião foi atacado

de surpresa por soldados da polícia

alagoana. No combate, entre os onze

mortos estavam os reis do Cangaço.

BoNiTA

Lampião chamava Maria Bonita

de Santinha e os outros integrantes

do grupo a chamavam de Maria do

Capitão. No entanto, Maria Gomes de

Oliveira também era conhecida como

Maria Déa, que faz alusão a maneira

como sua mãe era conhecida: Dona

Déa. Ferreira revela que o nome Maria

Bonita foi dado por um ex-volante

apaixonado por sua avó. O apelido

então foi perpetuado pelos cordeis e

pela imprensa.

GRANdE AMoR

“Sem dúvidas, Maria Bonita viveu

um grande amor por Lampião”.

Quem garante a afirmativa é a neta

dos reis do Cangaço. Vera Ferreira

acredita que apenas um amor verdadeiro

faria a jovem Maria Gomes de

Oliveira romper preconceitos e tradições

da época.

Maria nasceu na fazenda Malhada

da Caiçara, em Paulo Afonso, e casou-se

muito jovem com um sapateiro

chamado José Miguel da Silva. De

Lampião, ela apenas ouvia histórias

de que um “tal” bandoleiro circulava

do outro lado do São Francisco. “Ela

primeiro conheceu o mito, depois o

Cangaço Fashion: cangaceiro lê para Maria Bonita detalhe em

revista de moda

homem”, comenta Mello.

Até que em agosto de 1928 os

cangaceiros foram perseguidos em

Pernambuco e o bando, em número

reduzido pela batalha, atravessou o

Rio São Francisco e adentrou as terras

baianas. Na tentativa de compor

uma rede de protetores, “coiteros”

que favoreciam os cangaceiros com

informações e serviços, Lampião conheceu

a família de Maria Bonita.

Ao conquistar a confiança e simpatia

de Dona Déa, soube da admiração

de Maria Bonita pelo Cangaço.

No final de 1929, quando teve a

oportunidade de conhecer a jovem,

pediu que ela bordasse uns lenços

e garantiu que voltaria para buscar.

“Minha avó, que já estava separada

do marido, apaixonou-se por Lampião.

Eles namoraram até o final de

1930, quando ela decidiu juntar-se a

ele, no bando”, revela Ferreira.

Mello analisa a união de outra

forma. O historiador garante que ao

seguir com o bando, Maria Bonita ainda

estava casada. “Lampião deixou,

inclusive, um bilhete para José Miguel

avisando que ele estava levando Maria

Bonita consigo, mas que ela seguia

por vontade própria”, afirma.

Ainda há muitas divergências entre

historiadores e pesquisadores do

Cangaço que geram dúvidas sobre as

verdadeiras versões dos fatos. Será

que ainda há muito a ser revelado?

Depois de um centenário, parece que

a história do Cangaço ainda ganhará o

interesse de muitos curiosos.

CENTENÁRio

Em comemoração ao centenário

de nascimento de Maria Bonita, Vera

Ferreira está organizando uma exposição

itinerante que percorrerá todo

o país com fotos, objetos, textos e o

lançamento do livro “Bonita, Maria

do Capitão”. A iniciativa conta com o

apoio do Banco de Sergipe (Banese) e

da Universidade do Estado da Bahia

(Baneb). “Recebemos, inclusive, o

convite para levar a exposição para

a Casa Cultural Brasil-França”, comemora

Ferreira, que assina a autoria do

livro, em parceria com a pesquisadora

Germana de Araújo.

2011 fevereiro >

>

33

u


Renascimento

do sertão

Por Luiz Otavio Cavalcanti

que é capaz de juntar Portinari,

O José Lins do Rego, Glauber Rocha

e Ariano Suassuna ? E mais o cinzento

da caatinga e o colorido da

cidade ? E, ainda, a economia de

vestuário no Nordeste ?

No Brasil recém descoberto,

o europeu via

a terra do pau Brasil

como um paraíso virgem,

nativos nus, liberdade

absoluta, sensação de viver

sem lei nem rei, à margem

de remorsos. Esplendor natural.

A visão do nativo era o inverso:

chegaram a ele o mando,

a ordem, a vestimenta, o estupro, a

ocupação. Daí, nasceram insurgência,

irredentismo, repúdio. Natureza

contra civilização. Sertão contra

litoral. Arcaico e moderno.

Ao longo do tempo, consolidouse

o cangaço, como insubmissão social.

E praticou-se imprevisível aliança

política entre cangaço e setores

da elite rural. Na prática, aliança

do arcaico contra o moderno, do

mundo sertanejo contra o universo

litorâneo. Da crendice no Império

contra a República anti religiosa.

O cangaço foi fato social e político

que passou pelas páginas policiais.

E, um século depois, virou

moda, vestuário, passarela, comércio,

tema. Símbolo e inspiração. Os

insurgentes deixaram de ser bandidos

para serem modelos temáticos

de designers e estilistas de moda.

O temor a Lampião, Corisco, Jitirana,

Mourão, Sereno, virou marca

de roupa. O que era pipoco de

arma virou faturamento. O binário

tac tac do winchester transformou-

34 > > fevereiro 2011

Lenço

de seda

se em dígito de calculadora. O quaternário

prá prá prá prá da Mauser

corporificou-se em nota fiscal.

Há inimaginável precedente:

Lampião usava perfume Fleurs

d’Amour, de Roger Gallet. Tomava

uísque White Horse. E vestia lenço

de seda pura.

O embornal, por exemplo, carregando

desde balas até dinheiro,

pesava mais de dez quilos. Servindo

inclusive de travesseiro e colocando

a cabeça dos cangaceiros

entre as estrelas no céu e os bordados

nele aplicados, como anotou

Frederico Pernambucano.

Os bordados formavam profusão

de cores: amarelo sobre azul,

azul claro sobre azul escuro, vermelho

sobre roxo, cromatismo vivo

Fred Jordão

sobre o cáqui. Cores sobre o cinzento

da caatinga. Floral sobre o mandacaru.

Carnaval oculto nas dobras

de tecidos. O embornal de Maria

Bonita era um arco iris, bordado

cuidadosamente a duas linhas, pelo

próprio Lampião, tinha monograma

e botões em casas embutidas.

E o punhal, onipresente na cintura,

na luta, nas fotografias ?

João Cabral de Melo Neto o

descreveu muito bem:

“Esse punhal do Pajeú, faca de

ponta só ponta, nada possui de peixeira,

ela é esguia e lacônica.

Se a peixeira corta e conta, o punhal

do Pajeú, reto, quase mais bala

que faca, fala em objeto direto”.

O cangaço tornou-se referência,

mesmo arcaico. Mas foi além do me-

Mochila

bornal

de Maria

Bonita

Um século

depois, o

cangaço

virou moda,

vestuário,

passarela,

comércio,

tema,

símbolo e

inspiração


Vestido de

batalha que

pertenceu a

Maria Bonita

Valentino Fialdini

O cangaço agora

é roupa, moda,

software, design,

estilo. Sem deixar

de ser o que

sempre foi

ramente popular. Porque incorporou,

na fonética do poder, o tom do

fazendeiro. E mais: enraizou-se no

inconsciente coletivo do nordestino.

Virou marca, símbolo atemporal.

Mostrou orgulho. E exibiu a estética

própria da insurgência.

O cangaço nunca foi utopia.

Não tinha doutrina política. Nem

ideologia. Embora assumisse, quase

sempre, papel de Robin Hood. Mas

não bancava projeto de poder. Exercia

certo naturalismo social. Não se

ocupava do futuro, não tinha plano

nem programa de ação.

E, não mais que de repente, no

ocaso do século 20, na esquina do

devir tecnológico, mais que lógico,

José Caldas

ressurge o cangaço, renasce o sertão.

Vem macio como a roupa que

vestimos. É completamente soft

como o silente reino virtual. Está

nas páginas das revistas, é fashion.

O cangaço agora é roupa,

moda, software, designe, estilo.

Sem deixar de ser o que sempre

foi. Marca de uma região, símbolo

de insubmissão, signo de cultura,

cor que ressalta, sal que tempera.

Ora, viva ! O cangaço não é

mais perseguido, é exaltado. Não

é mais proscrito, é declarado. Sua

beleza não é mais oculta, avulta,

cresce. Não é mais lua, noturna. É

sol, quente, forte, escol. Saiu da caatinga.

Foi parar nas passarelas.

Modelo usado

por Maria

Bonita

em ocasiões

especiais

SERViÇo

Título:

Estrelas de Couro:

A Estetica do Cangaço

ISBN: 9788575313244

Encadernação: Brochura

Formato: 23 X 30 | 258 Págs.

Ano Edição: 2010

Edição: 1ª

Preço: R$ 150,00

2011 fevereiro >

>

35


Gestão

Mais

Carnaval, criatividade e gestão

“O Carnaval [do Brasil] representa a empresa do futuro: aquela na qual

convivem, de forma sinérgica, o trabalho, o conhecimento e o divertimento.”

domenico de Masi, sociólogo italiano

No Brasil, todo mundo gosta

de dizer que o ano só começa

mesmo depois do Carnaval.

Exageros à parte, vale a pena

refletir sobre como esses quatro

dias de festa — que na prática se

transformam, muitas vezes, em

sete dias sem trabalho — impactam

os profissionais, empresas e

o próprio País.

Comparada à realidade

de outras economias

emergentes, como China,

por exemplo, a ideia

de um país inteiro

parar uma semana

para brincar o Carnaval

é certamente

uma aberração. Isso

sem falar nos feriados,

imprensados, Semana Santa,

São João, entre outros recessos

já tradicionais.

O fato é que não temos a

mesma cultura da dedicação ao

trabalho dos asiáticos. Logo, nosso

progresso tem que se dar considerando

que não somos e nunca

seremos “caxias” como nossos

colegas japoneses, por exemplo.

Então, melhor a fazer é transformar

essa singularidade cultural

em vantagem competitiva nos

negócios, entendendo que nosso

desenvolvimento não se fará

“apesar” do Carnaval, mas com

ele.

Um aspecto que merece

atenção do ponto de vista da

gestão é a incrível explosão de

criatividade que ocorre durante

o Carnaval — nos blocos, fanta-

36 > > fevereiro 2011

sias, brincadeiras, enredos e músicas.

E uma pergunta relevante

é: Por que essa criatividade não

se expressa de forma similar no

trabalho? Por que as mesmas

pessoas que durante esses dias

de “liberdade” esbanjam criatividade,

não são também tão inventivas

no dia a dia da empresa?

No atual cenário de competitividade,

é impossível dissociar

criatividade de trabalho. E a responsabilidade

por demolir essa

linha divisória é, primordialmente,

do gestor. O trabalho pode e

deve ser também lúdico, criativo,

estimulador e, como conseqüência,

mais produtivo. Cabe ao gerente

criar as condições para que

isto aconteça, sem esquecer que

qualquer relação é de mão dupla.

Se tem gente pouco criativa no

trabalho, possivelmente há um

gerente, no mínimo, pouco incentivador

da criatividade.

Nesses tempos de economia

do conhecimento e da inovação,

profissionais e empresas só têm

a ganhar se conseguirem conciliar

criatividade, prazer e trabalho.

Bom Carnaval!

O conteúdo desta página

é de responsabilidade da

TGI Consultoria em

Gestão. (www.tgi.com.br)


ARTiGo

o meu

livro preferido

LiTERATuRA | Escritor diz que “O Recife dos Romanistas” foi

o seu livro mais trabalhoso e opina francamente sobre sua obra

Por Abdias Moura

Livros, para autores prolíferos,

é como filhos para as mães de

família grande: cada uma tem os

seus rebentos preferidos, mas preferem

dizer que todos são amados

igualmente. No caso das crianças,

as que se sentem menos estimadas

sofrem com isso, algumas protestam:

“Você sempre dá razão a fulano.

Eu sou o culpado por tudo e

ruim que acontece nesta casa”. Já

o livro, sempre silencioso, nada

pode fazer. E, assim, alguns terminam

mesmo esquecidos, às vezes

até injustamente.

O prestígio da obra publicada

se mede pelos artigos de louvação,

a quantidade de exemplares vendidos,

ou a simples lembrança do

nome - galardão fundamental, em

meio à grande quantidade de títulos

publicados desde que o mundo

é mundo, mesmo antes da difusão

da imprensa e do milagre (ou desastre

da banalização) do computador.

Mas, nem sempre a declaração

de preferência, que se dá

excepcionalmente, corresponde à

alegria tida pelo autor em produzir

as suas obras.

Quando publiquei “O sumidouro

do São Francisco”, em 1985,

depois de seis anos seguidos de

pesquisas feitas nas horas vagas

(e, às vezes, até em meio ao tra-

“Cheguei a pensar que ia enlouquecer com a pesquisa de O Recife dos Romancistas”

balho profissional), foram tantos

os artigos de louvação que fiquei

espantado. Mas, na época, ele era

o meu único livro. não havendo assim

comparações a fazer.

Saíram mais três edições, a última

em espanhol, e o livro continua

agradando. Um quarto de século

depois, já autor de 13 títulos, lancei

“O Recife dos romancistas”, muito

mais trabalhoso do que o primeiro,

ainda que lhe tenha dado apenas

nove meses de dedicação inte-

gral - o tempo de uma gestação

humana - o que talvez me tenha

levado a iniciar este comentário

comparando livros com crianças.

Penso que, desta vez, espantados

ficaram os meus leitores. Muitos

me telefonaram para falar da dimensão

da pesquisa, outros me

têm dito que precisarão de tempo

para dizer alguma coisa sobre

o conjunto dos textos selecionados.

Noto certa perplexidade

quanto ao fato de que fiz tanto

2011 fevereiro >

>

37

u


em tão pouco tempo. Afinal, a edição

tem 687 páginas, em tamanho

duplo. Ora, por que estou a falar

disso em público? Não pretendia,

neste artigo, referir-me ao julgamento

dos outros, mas apenas ao

que eu próprio penso a respeito do

que tenho escrito na idade adulta.

Alguém poderá dizer que o

autor não é a pessoa mais indicada

para falar da própria obra. Concordo

em parte. Um bom exemplo de

discordância entre a opinião do leitor

e a do escritor pode ser encontrada

em João Cabral de Melo Neto,

que disse não gostar particularmente

de “Morte e vida Severina”,

enquanto, para o público em geral,

esse belo e profundo poema continuará

a ser, pelo tempo afora, sua

obra mais festejada. Quem está

certo, o poeta ou os que leram seu

livro ou viram no palco a peça de

teatro dele resultante, com música

de Chico Buarque de Holanda?

Penso que estes últimos.

Pois bem, como autor de mais

de dez livros, gostaria de falar como

uma mãe convencional: gosto de

todos eles. Mas não posso negar

que um me tem dado maiores satisfações:

“O sumidouro...”, nome

respeitado até pelo tradutor Jorge

Ariel Madrazo, apesar de não ser

esta uma palavra de uso corrente

em castelhano. Um outro livro, mais

recente, merece também um mimo

especial, ainda que por outra razão:

“Como a guerra chegou à floresta

amazônica”. Nele, resgatei a memória

do meu próprio pai e, assim, temi

que não pudesse agradar às pessoas

estranhas à família. Mas José E. Kameiecki,

o meu editor argentino, gostou

tanto, ao ler os originais, que se

propôs a fazer imediatamente uma

edição em espanhol, concluída um

mês depois do lançamento da brasileira.

O tradutor Martín Palacio, um

uruguaio que agora mora no Recife,

substituiu “floresta” por “selva” - o

que me parece perfeito - e teve o cuidado

de acrescentar um glossário

de termos pouco conhecidos fora

do Brasil, inclusive a biografia das

personalidades citadas. “De como

38 > > fevereiro 2011

la guerra chegou a la selva...” não

é certamente meu “melhor” livro,

mas o que escrevi com maior satisfação

(em apenas dois meses).

Menos tempo ainda gastei

para concluir “O segredo da ilha de

pedra” (ficção), feito durante minhas

férias de 1995, sob encomenda,

para uma editora pernambucana;

mas que terminou recebendo

as bênçãos da Tempo Brasileiro,

do Rio de Janeiro, na época administrada

pelo admirável Franco

Portella, infelizmente falecido durante

o Carnaval do ano passado.

Desse pequeno romance saiu uma

segunda edição (com outros dois

textos ficcionais) pela Facform, do

Recife, e finalmente a versão contratada

pela Bagaço, a mesma que

me havia encomendado uma história

para adolescentes. Não vou

falar de todos os meus livros. Mas,

pelo menos um merece um parágrafo.

“O Evangelho do subdesenvolvimento”,

lançado (sem festas)

em 1990, transformou-se nesses

vinte anos de existência numa es-

pécie de personagem de conhecida

história infantil: um cisne nascido

entre patinhos, pouco querido por

ser diferente, só reconhecido por

algumas pessoas com bom nível de

escolaridade. De fato, resultou de

uma tese de livre docência na Universidade

Federal de Pernambuco

e, assim, ficou um pouco fora do

circuito dos leitores comuns.

Pulando por cima de vários

outros, volto ao já referido “O Recife

dos romancistas”, o mais trabalhoso

de todos. Cheguei a pensar

que ia enlouquecer (minha mulher

também pensou isso), às voltas

com quase cem livros que serviram

de subsídio básico para preparar a

coletânea. E a obra parecia não ter

fim, pois sempre aparecia mais um

volume falando de minha cidade, o

que me trazia sempre grande prazer

mas, também, uma nova dose de

aflição. Não sabia como finalizar o

livro, pois a cada dia tomava conhecimento

de mais um texto romanceado,

tratando do tema que eu

havia escolhido. Tanto isso é verdade,

que na primeira notícia sobre

minha obra, publicada na Algomais

de julho de 2010, eu falara em 62

romances selecionados, quando na

época de lançamento já havia pulado

para 72, sem falar nos dois que

chegaram às minhas mãos quando

os originais se encontravam na gráfica.

Foi uma angústia que imagino

parecida com os últimos dias de

gestação, nos tempos (e lugares)

em que somente uma velha parteira

acompanhava o nascimento das

novas crianças que vinham à luz.

“Dores de parto”, como diz o Velho

Testamento. O que não impedia

a mãe de gostar cada vez mais de

seus novos rebentos - de uns, mais

do que de outros.

SERViÇo

Título:

O Recife dos Romancistas

ISBN: 8598896446

Encadernação: Brochura

688 Págs.

Ano Edição: 2010

Edição: 1ª


@

Um novo jornalismo para os novos tempos

Os tempos estão mudando, e

a imprensa precisa seguir o

mesmo caminho. A dinâmica da

sociedade pautada pela velocidade

da internet pede um novo tipo

de jornalismo, capaz de acompanhar

as constantes mudanças e

reviravoltas que ocorrem todos

os dias. O que antes era estático,

e uma via de mão única com o leitor,

pode passar a ser dinâmico e

colaborativo. É com esse espírito

que, às vésperas de completar

cinco anos como a Revista de Pernambuco,

renovamos nossa presença

online com o lançamento

do Blog Algomais, a partir do dia

15 deste mês.

Reafirmando a proposta de

levar Pernambuco a sério, contribuindo

com o seu desenvolvimento,

o novo espaço será uma ferramenta

de contato diário com você,

caro leitor, na tentativa de formar

uma consciência cada vez mais

crítica quanto aos rumos da economia,

política e cultura do Estado.

Com a ajuda das redes sociais,

como Twitter, e dos comentários

dispostos no blog, abrimos espaço

para a construção de um diálogo

crítico e permanente.

Na edição impressa, esta coluna

terá a missão de integrar os

mundos online e offline, com análises

dos fatos mais importantes

que ocorreram ao longo do mês. O

formato será inovador, com a participação

dos leitores, através dos

melhores comentários que forem

ao ar, construindo um verdadeiro

texto colaborativo. Por isso, é essencial

sua participação, com críticas

e sugestões.

E o momento não poderia ser

mais oportuno. Em meio a evolução

da economia local, Algomais

não poderia ficar parada. Para

nos auxiliar nesta difícil empreita-

TWiTTER

As últimas

informações, em

primeira-mão, serão

disponibilizadas

através da conta

@revistaalgomais.

Já as últimas

atualizações serão

publicadas na

homepage do site.

dESTAQuES

As principais

matérias da edição

do mês serão

disponibilizadas

nesta área. Além

disso, o destaque

principal trará,

ainda, matérias do

blog.

EdiÇÕES iMPRESSAS

Todas as edições da Algomais

ficarão disponíveis para

download via PDF (Portable

Document Format). Assim, você

terá acesso a todo o conteúdo

da versão impressa para ler,

inclusive em e-Readers, como o

iPad.

da pelo meio online, contaremos

com a presença de importantes

nomes dos diversos setores da

sociedade. O deputado estadual

do PC do B, Luciano Siqueira,

dará sua contribuição semanal,

assim como a cena cultural contará

com textos de Lula Cardoso

Ayres Filho. Tecnologia será tema

da coluna assinada pelo jornalista

e empresário da Cartello, Bruno

Ivo Dantas

blog@revistaalgomais.com.br

BLoG

Nesta área, você terá acesso a

todo o conteúdo publicado no

Blog Algomais, como notícias,

entrevistas exclusivas, artigos

e vídeos. Além da área de

comentários e a possibilidade de

compartilhar o conteúdo através

das redes sociais.

Queiroz. Juntam-se a eles, ainda,

o presidente do Conselho Estadual

de Educação, José Antônio

Gonçalves, a psicanalista e sócia

da Trajeto Consultoria, Sílvia Gusmão,

o escritor André Rezende,

dentre outros políticos, economistas

e cientistas.

Seja bem vindo à nova Algom@is.

Sinta-se em casa, o espaço

é seu.

2011 fevereiro >

>

39


Papa-Figo quer

atacar Pernambuco

em filme

HuMoR | Nas ruas, encarte com 300 números do jornal mais

escrachado de Pernambuco

Anos 90. O cartunista Bione, entre

uma charge e outra, resolve

deixar a Redação do JC, na Rua do

Imperador, para relaxar um pouco

no Dom Pedro, tradicional reduto

de jornalistas, políticos e intelectuais

quase ao lado do jornal. Ao

entrar no restaurante, o deputado

Artur Lima Cavalcanti levanta , vai

ao seu encontro e, em tom ameaçador,

pergunta:

- Bione, o que você tem contra

mim?

- Nada, responde o cartunista,

surpreso e assustado.

-Seu interlocutor arremata:

- Então, por que você nunca falou

mal de mim no Papa-Figo?

Os demais freqüentadores da

casa caíram na gargalhada e Bione

acabou na mesa de Artur Lima Cavalcanti

num animado papo.

“As pessoas gostam de aparecer

no Papa-Figo”, diz Bione. Naturalmente,

há as exceções. No programa

de tevê que fazia inspirado

no jornal já chegou a sofrer com um

político que não aceitou a gozação.

Esses são apenas exemplos das

muitas histórias vividas pelo criador

do jornal mais politicamente incorreto

de Pernambuco, que completou

25 anos este ano e ganhou

uma reedição especial com os 300

números publicados no período.

Pela Redação do Papa-Figo já

passaram alguns nomes de peso

40 > > fevereiro 2011

“Estamos

participando

do processo

de seleção

do Minc com

um roteiro

para o longa

Papa-Figo

ataca

Pernambuco

com a

história do

nosso Estado

sendo

recontada

sob a ótica

Papafigal” Bione: as pessoas gostam de aparecer no Papa-Figo


da imprensa pernambucana, como

o crítico de música José Teles e o

cartunista Cleriston. Em meio às

comemorações pelos 26 anos do

período, Bione está buscando a

aprovação de um projeto junto

com o cineasta Antônio de Souza

Leão para fazer um filme. “Estamos

participando do processo de seleção

do Minc com um roteiro para o

longa Papa-Figo ataca Pernambuco

com a história do nosso Estado

sendo recontada sob a ótica Papafigal”,

explica.

Recentemente, Bione lançou

uma edição especial retrospectiva,

com praticamente todos os 300

números do Papa-Figo foram encadernados

em dois livros, dez pôsteres

do cartunista Miguel e um DVD

com depoimentos de fundadores,

admiradores e colaboradores como

Jaguar, Nani, RAL, Samuca, Paulo

Bruscky, Tarcísio Sete, Jomard Muniz

de Brito e o cantor Falcão.

Tarcísio, que era proprietário

da Livro 7, foi quem bancou as pri-

meiras edições do jornal. Desta vez,

porém, foi o próprio dono do jornal

que resolveu a questão financeira.

Manoel Bione de Souza é psiquiatra

e médico do trabalho, tendo iniciado

a carreira como cartunista no

Jornal do Commercio, na década de

70, quando o editor-geral era Esmaragdo

Marroquim. “Mesmo numa

época de censura, eu conseguiu

fazer charges e cartuns que incomodavam,

embora Esmaragdo, às

vezes, avisasse que os homens estavam

de olho em mim”, comenta.

Ao sair do Jornal do Commercio,

Bione mudou-se para São Paulo

onde trabalhou exerceu a medicina,

mas continuou atuando no meio

jornalístico, em Santos. Ao voltar ao

Recife, na década de 80, resolveu

criar o periódico.

Dos escrachos do Papa-Figo, alguns

acabaram marcando. Durante

a candidatura de Fernando Collor,

em 1989, o jornal saiu com uma

manchete: “Collor, o candidato

que cheira bem”. Nas entrelinhas,

dos escrachos do Papa-Figo, alguns marcaram,

como “Collor, o candidato que cheira bem”

2011 fevereiro >

>

41

u


claro, entendia-se o por que

da ironia. Bione diz que começou a

receber telefonemas ameaçadores

de pessoas que se diziam ligadas

ao PRN, partido do pretendente à

Presidência da República.

Também são fundadores do Papa-Figo

o cartunista Ral e José Teles.

Antes, Bione participou da criação

do jornal O Rei da Notícia, com Amin

Stepple, Geneton Moraes Neto, Manuel

Costa, Clériston e Paulo Santos.

Ele lembra, porém, que a publicação

só durou três edições. “Era muita estrela

pra pouca constelação.”

Ral e Teles saíram do Papa-Figo

anos depois e Bione continuou na

labuta. Surgiram, então, alguns

“colaboradores” de nomes pouco

usuais, como Ivan Pé de Mesa e

Eva Gina dos Prazeres, que tocam

o barco “ao lado” de Bione. A edição

comemorativa está à venda

nas Bancas Globo.

Depois de ter sido lançada no

Recife (Restaurantes Biruta e Empório

Sertanejo), São Paulo (Livraria

HQMix), Brasí¬lia (Restaurante Carpe

Diem), a coleção do Papa-Figo

estará sendo lançado no Rio, neste

mês de janeiro. Bione informa que

a retrospectiva pode ser encontrada

na Livraria Cultura, Banca Globo

(Trianon) e Jornalmagazine (Sete de

Setembro com Cd. da Boa Vista) ou

pelo email papa-figo@uol.com.br.

O criador do Papa-Figo já foi

homenageado pelo conjunto da

obra, no projeto Memória das Artes

Grá¡ficas, na Biblioteca Municipal

de SP e Instituto HQMix. “Fui o

único pernambucano a ser homenageado

até agora. A cerimônia

consta de um depoimento de duas

horas, que será transformado em

livro, e a aposição da mão na “Calçada

da Fama”, na realidade uma

laje, onde o homenageado grava

sua mão e deposita seu objeto predileto

de trabalho - no meu caso,

uma lapiseira de estimação. Na cerimônia

final do projeto essas lajes

formarão um “totem” gigante que

será colocado na entrada do complexo

cultural do Carandiru, onde

funciona a imensa biblioteca.”

42 > > fevereiro 2011


PERFiL

Marlos Nobre

cidadão do mundo

MÚSiCA | Compositor erudito pernambucano é o brasileiro

mais executado no mundo e só perde para Villa Lobos

Por Airton Cavalcanti

Especial para Algomais

Aos 72 anos e apontado pela critica

especializada como o autor

brasileiro mais executado no mundo,

depois de Heitor Villa Lobos, o

compositor, regente e pianista pernambucano

Marlos Nobre é também

o mais assediado. O maestro

tem agenda lotada por todo este

ano com trabalhos no Brasil, na Argentina,

em Cuba e na Europa.

Já no próximo dia 27 de março,

a Petrobras patrocina a estreia

mundial de “Movimentos Sinfônicos”,

no Teatro Municipal do

Rio de Janeiro, com regência do

maestro Isaac Karabtchevesky. A

obra, encomendada pela empresa

a Marlos Nobre, é em três partes

interligadas e sem interrupção.

“Nela eu exploro minhas novas

descobertas e concepções na estrutura

e escritura sinfônica”, disse

o maestro a Algomais, “ampliando

para uma linguagem cada vez mais

direta e comunicativa”.

O maestro também explicou

como se deu o processo de criação

o pianista Marlos Nobre em concerto: mais de 250 gravações em 52 anos de carreira

de “Movimentos Sinfônicos”: “A

obra me saiu com uma tremenda

energia rítmica e impulso constante,

terminando com uma grande

surpresa, uma espécie de coral nos

metais circundado por toda a explosão

sonora da orquestra”.

Depois da estreia, a obra será

repetida pela OSB e Karabtchevesky

na Sala São Paulo e no Festival

Internacional de Campos do

Jordão em julho deste ano e também

será gravada em CD.

Marlos Nobre revelou detalhes

de sua movimentada agenda para

2011 fevereiro >

>

43

u


2011. Ele recebeu encomenda da

FH Records da Bélgica, para quem

está escrevendo uma nova sonata

para violão solo que integrará em

primeira audição mundial o segundo

CD solo do violonista Odair

Assad, a quem a composição é dedicada.

O mesmo CD conterá outra

encomenda da Records, o “Concerto

Para Violão e Orquestra”.

Marlos Nobre disse que por

encomenda do 9º Simpósio Mundial

de Música Coral da Federação

Internacional de Corais escreveu

uma nova obra para Côro misto,

“Maracatu Para Côro”, que será

estreada pelo Coral do Simposium

Mundial por ocasião da solenidade

inaugural, em 3 de agosto próximo,

em Buenos Aires, na Argentina. O

maestro planeja atender convite

da Casa de Las Américas, de Havana

(Cuba), para concertos de suas

obras e participação no Júri Internacional

do Concurso de Jovens

Compositores das Américas.

A pianista Clélia Iruzun lança

ainda este ano um CD integralmente

dedicado à obra de Marlos Nobre,

pelo selo inglês Lorelt. O disco

foi gravado em Londres em estúdio,

segundo o compositor, “com

piano de excepcional qualidade”.

Este ano, o maestro completa 52

anos de carreira artística contabilizando

mais de 250 obras divididas entre

orquestra, música de câmara, instrumental

e vocal, peças para viola, piano,

cello e instrumentos de percussão

solos, que estão catalogadas no livro

“Marlos Nobre – El Sonido Del Realismo

Mágico”, do escritor espanhol

Tomás Marco. O livro foi editado por

ocasião do Prêmio Tomás Luís de Victoria,

ganho pelo maestro por unanimidade

na Espanha em 2005.

Toda a obra de Marlos Nobre

foi editada na Alemanha, com mais

de 60 Cds lançados fora do Brasil

por algumas das maiores orquestras

do mundo como a Royal Filarmônica

de Londres, Orquestra

de Paris, a Suisse Romande e a Orquestra

da Ópera de Nice.

Afora a composição, Marlos Nobre

exerceu cargos importantes e

44 > > fevereiro 2011

Marlos Nobre em foto clássica: agenda lotada para 2011

“A obra

me saiu

com uma

tremenda

energia

rítmica

e impulso

constante,

terminando

com uma

grande

surpresa,

uma espécie

de coral nos

metais

circundado

por toda a

explosão

sonora da

orquestra.”

recebeu mais de 40 encomendas das

mais importantes instituições culturais

e musicais do planeta. Foi diretor

musical da Rádio MEC, dos Concertos

Para a Juventude (TV Globo), do

Instituto Nacional de Música (Funarte)

– organizou os concursos Jovens

Solistas, Corais Universitários, Bandas

de Música etc. Também foi eleito

por aclamação, em 1985, presidente

do Conselho Internacional de Música

da Unesco. É Oficial da Ordem

das Letras e Artes da França, Oficial

da Ordem Rio Branco, Grande Oficial

da Ordem ao Mérito de Brasília, professor

convidado das Universidades

de Yale, Juilliar School, Indiana e Texas

(USA), do Conservatório Real de

Bruxelas (Bélgica) e Gaudeamus (Holanda).

Recebeu diversas condecorações

em países ibero-americanos

como Cuba, México e Venezuela.

É membro de honra dos Concursos

Rubinstein, em Israel; Santander, na

Espanha; Alberto Ginastera (seu exprofessor),

na Suíça e do Comitê de

Artes Olímpicas de Paris.

No Recife, em maio de 2009,

o Festival Virtuosi (consórcio artístico-musical

de Rafael e Ana Lúcia

Garcia), único no Brasil a apresentar

uma semana de música erudita

em dezembro, dedicou-lhe três

noites no Teatro Santa Isabel com

músicos e solistas internacionais.

Em novembro, a Orquestra Sinfônica

de São Paulo fez o mesmo, com

peças inéditas, na Sala São Paulo.

Em 2010, tornou-se Doutor Honoris

Causa pela Universidade Federal

de Pernambuco.

Cinco anos antes, porém, em

2005, o “Ano Brasill-França” mostrou

peças exclusivas de Marlos Nobre e

Villa Lobos, concertos registrados em

CD importado da “Channel Classics”.

Da obra de Marlos Nobre os

destaques ficam por conta de “Divertimento”,

“Concerto Breve”, “Concertante

do Imaginário” (para piano

e orquestra), “Convergências”, Mosaico”,

“In Memoriam”, “Passacalia”,

“kabbalah” (para orquestra), “Cantata

do Chimborazo (para coro, solistas

e orquestra), “Canto a Garcia Lorca”

(para voz e instrumentos), “Biosfera

e Concerto para Cordas” (para orquestra

de cordas), “Momentos I a

IV”, “Reminiscências (para violão),

“Rhythmetron” (para percussão),

“Variações Rítmicas” (para piano e

percussão). Além de “O Quarteto de

Cordas”, “O Quinteto de Sopros”, “2

Frevos para Piano Solo” (o segundo,

dedicado a Ariano Suassuna, inédito

em CD), “Amazônia Ignota (para 4

flautas, percussão e piano), “Mandala”

(para violino, clarinete e piano),

“Cantoria Concertante” (para

orquestra de câmara).


Comer

Bem

Bacalhau à moda do Chef

Ingredientes

250 gramas de lombo de

bacalhau dessalgado

02 cebolas

02 batatas médias cozidas al dente

1/2 pimentão vermelho, sem pele,

cortado em 3 ou 4 tiras

05 azeitonas Palmeiron

Azeite

Sal a gosto

Alho

Preparo

Pincelar todos os ingredientes

com azeite, alho espremido e sal.

Colocar o bacalhau na grelha quente

e virar várias vezes até dourar

os dois lados (cerca de 8 minutos).

Na metade deste tempo, colocar o

pimentão, as cebolas e as batatas

(por último). Numa travessa disponha

os grelhados quentes, as

azeitonas Palmeiron e regue com

bastante azeite.

Porção

4 pessoa

Alexandre Albuquerque

Chef Bigode

Com 25 anos de

experiência na

área gastronômica,

o chef Edmilson

Araújo, Bigode,

começou sua

carreira em São

Paulo, onde

trabalhou na

Cantina Leão de

Louro. Depois de

um ano na cidade,

Bigode assumiu a

cozinha de uma

churrascaria em

Salvador, morando

pouco mais de um

ano na Bahia. No

Recife, trabalhou no

restaurante Costa

Brava, na filial do

restaurante Leite,

em Boa viagem, e,

há 21 anos, trabalha

na matriz do Leite,

no bairro de Santo

Antônio. Entre

suas especialidades

gastronômicas,

receitas com frutos

do mar fazem o

estilo próprio de

culinária.

2011 fevereiro >

>

45


• REPORTAGEM-FICÇÃO •

capítulo 2

Manuel Clemente

Tem umas coisa que você aprende,

num é? Uma forma de ser,

te ensinam; você nem se pergunta

o porquê—quando se é menino

novo, a gente nem se pergunta,

num é?—só vai fazendo. E sendo.

Lá em casa, eu escutava do velho

Antenor, meu pai, que me dizia

que era pra eu nunca trazer desaforo

pra casa. Isso era assim mesmo,

era o costume: se apanhava

na rua, entrava na chibata em casa.

Ou na peia, como também se diz.

Mas eu não era de briga, não. Gostava

de fazer arapuca e quando tinha

umas cinco prontinha, eu levava

pra seu Nicomedes e ficava com

ele, ajudando na barraca, as vez só

saía de lá no fim da feira, com meu

dinheirinho no bolso que eu num

era besta.

Peguei passarinho pra vender,

também. Concriz, galo de campina,

curió, tordo, esses era os que

eu mais pegava. E foi assim que fui

ficando na feira, criando freguesia,

até chegar a ter minha própria barraca,

com minhas arapuca; meus

passarinho; gaiola, que aprendi

a fazer; fui me instalando nesse

ramo, como se diz. Nessa parte da

feira ficava também as barraca de

46 > > fevereiro 2011

O CAPITÃO E O CAPITÃO

A história

nunca antes

contada

o encontro do Capitão Virgulino

Lampião com o Capitão Luís

Carlos Prestes e outras histórias

do mundo do Sertão

QuEM É

MANuEL

CLEMENTE

Feirante em

Serra Talhada,

amigo de Levino,

um dos irmãos

Ferreira, com

quem começou

ainda menino

a fabricar

arapucas para

vender na feira.

Ajudou Lampião

a conseguir

esconderijo

nas terras de

fazendeiros e em

algumas outras

ocasiões de

risco, guardando

sempre segredo e

anonimato.

petrechos de couro, arreios pras

montaria, selas, gibão, perneira…

Os jagunço, vaqueiro, tangerino,

chegava ali pra comprar e tome

conversa…

Uma vez ouvi uma história

que me impressionou até demais

da conta… era de dois filho de um

fazendeiro do Cariri, os dois menino

era gême, desses gême que

nasce pegado… siameses, é, é esse

o nome; os dois estava unido pelo

tronco, chega dava pena—dizia o

home contando—, mas o pior nem

era isso; o pior é que quando os

menino começaro a ficar rapaz, um

foi ficando com o corpo coberto de

pelo que nem bicho; de primeiro,

o pai chamava o barbeiro em casa

pra cortar aquele pelo todo que

crescia, depois foi vendo que não

resolvia nada e terminou deixando

de chamar.

O povo começou a dizer que

o menino estava fadado a virar

lobisomem e podia ser de uma

hora pra outra. Falou-se em separar

os dois pra que o que estava

bom não terminasse atacado

ou pegasse a doença do outro. A

mãe aflita fazia novena atrás de

novena; o pai aí foi buscar um

dotô no Recife e o médico chegou

e disse que separar era impossível,

mas, depois de examinar

o menino peludo na fazenda,

passou uma receita e disse que

com aqueles remédio em poucos

dias os pelo ia começar a cair,

aquilo podia ter cura. A receita

foi de boticário em boticário, mas

num teve um que acertasse o

preparo dos diabo dos remédio, e

o pobre do rapazinho continuou

com aquela aparência medonha,

melhora nenhuma.

Aí foi quando esse caso chegou

aos ouvido do capitão Virgulino, ele

mesmo, Lampião, ele passava com

o bando pelo lugar… Capitão Virgulino

então resolveu visitar o fazendeiro

e pediu pra ver os gême e pra

ficar sozinho com eles… do lado de

fora do quarto o que se ouvia era o

zum-zum-zum da ladainha, o capitão

puxava uma reza e os menino

repetia… Mais ou menos com duas

horas o capitão se retirou e no que

saía disse pro fazendeiro: “Tenha

fé.”

Pra terminar: num chegou a

inteirar uma semana pra que os

pelo do menino caísse tudinho,

do primeiro ao último…! E o fazendeiro

agradecido mandou dois

bezerro de presente pra Lampião,

os bezerro simbolizava os

dois filho que o capitão ajudou…

Eu—depois fiquei pensando comigo—acho

que não foi só reza que

curou o rapaz, não; pra mim que o

capitão Virgulino—de quem, aliás,


se dizia que era prático dentista e

inclusive parteiro—na certa tinha

traquejo no preparo de loção, elixir,

ungüento, e usou seus conhecimento…

aí sim, fica mais bem

contada a história, agora, sem

deixar de se dar graças a Deus, a

final de contas foi Ele quem botou

no caminho daquela família o capitão,

homem de bom tino e de

boa natureza, como se diz.

Mas eu num vou tapar o sol

com a peneira… ói, eu sei que tem

coisa que o capitão fez e faz que

é maldade que não tem nome, é

de se ficar abismado de escutar

as atrocidade que ele é capaz de

cometer quando o diabo entra na

cabeça dele… mas, aí é que eu

digo: por mais que alguém seje

de boa natureza, nunca se está

completamente a salvo das influência

maligna do príncipe das treva…

nem mesmo esse que o povo

chama de rei do cangaço! Eu num

digo isso pra fazer graça, não;

pode parecer, mas é no sério…

o mal, quando menos se espera,

vai se chegando, domina você,

carcome teus nervo, perverte teu

sentimento, se aproveita de tua

inteligência… tanto é assim que

nem vigário escapa…

O caso do padre Vito deixou

muita gente revoltada, foi três

menina que engravidaro e se soube

que aconteceu no mesmo mês

em que elas se preparava para

a primeira comunhão; o padre

passava a conversa nas inocente

depois da aula de catecismo e

se aproveitava delas ali mesmo,

na sacristia, com os santo vendo

tudo…! Ôxe…! Em que deu esse

nopró…? Em três bruguelo e uma

igreja sem sacerdote até a chegada

do substituto do padre fujão.

Pouca vergonha.

capítulo 3

Chumbinho

QuEM É

CHuMBiNHo

Desde muito

jovem entrou

para o cangaço;

por ocasião

da visita de

Virgulino

Lampião e

seu bando a

Juazeiro do

Norte, a convite

do padre Cícero,

para integrar

a campanha

fomentada pelo

Governo da

República de

dar combate à

coluna Prestes,

tinha apenas

18 anos de

idade e já era

considerado

por Lampião

como um de

seus homens de

confiança.

De noite já bem tarde, a fogueira

quase braseiro, ele me chamou,

e bem do jeito dele, aos pouquinhos,

começou me dizendo que Luís Pedro

tinha um conhecido na coluna essa

que falou o padre Ciço. Era um dos

que escapuliro da cadeia de Piancó,

no meio da balaceira, no dia em que

os home da coluna enfrentaro os jagunço

do padre Aristides; deu certo

pro tal sujeito, ele correu pra ficar do

lado do capitão Prestes que foi quem

no fim saiu vencedor, a notícia desse

combate correu pelas caatingas, foi

sangue muito!

Capitão Virgulino me disse que

tinha me escolhido mode eu acompanhar

a Luís Pedro, que era pra nós

ir atrás do cabra, que era pra levar um

recado: Virgulino queria ter uma conversa

só ele e aquele capitão Prestes,

mais ninguém do bando sabia, nem

tinha porque ficar sabendo de nada,

coisa de guardar segredo; o que se sabia

era que as arma e as munição que

as autoridade dero pra nós deviam ser

usadas contra a coluna de revoltosos

que desde lá de baixo vinha subindo

o Brasil, isso dizia o padre Ciço no Juazeiro.

O governo queria acabar com a

coluna essa e precisava de Virgulino e

de nós, isso dizia o padre Ciço.

No dia seguinte, quando a gente

já vortava de patrulhar lá pelas banda

do riacho barrento, deixei que Jararaca

e Criança se adiantasse, aí chamei

Luís Pedro, um assobio e ele, que já

estava meio sabedor do assunto,

segurou o passo. Eu cheguei perto e

fui logo perguntando se ele já tinha

pensado em quando nós ia partir, eu

disse que tava pronto e só esperando.

Luís Pedro era um cabra bom, era o

No próximo número depoimento de dona Pichita

Pihba Cavalcanti*

pihbacavalcanti@gmail.com

braço direito do capitão Virgulino mas

nem se gabava disso, ordem dele eu

seguia de olho fechado até. “Apronte

tudo que amanhã cedinho nós sai por

esse mundo”, me disse ele.

O conhecido dele era um tal

Arlindo, sujeito que carregava duas

mortes nas costas. Nisso, eu pensei:

não é tanto como diziam, a coluna

podia ser uma tropa de gente letrada,

de fala diferente, oficiais das armas

nacionais, mas, pelo jeito, começava

a se misturar aqui por essas bandas.

Olhe, os coronel é que eu sei que não

gostava nadinha daquele movimento.

Nem as volante. O inimigo deles

agora era a coluna, que era quem

tava dando trabalho ao coronel João

Nunes da polícia de Pernambuco, daí

que nós tava mais sossegado da vida.

E eu só gostando dessa história toda.

Mas, Luís Pedro, com um olho

no padre e outro na missa, foi falar

pra Virgulino não se fiar nas conversa

das autoridade… Se a coluna

era contra o governo, e o governo

sempre foi contra nós, então, não

custava nada ter uma conversa com

aquela gente, num é?, me explicava.

A pois: eu tava conforme. E era melhor

que fosse antes que nós tivesse

outra refrega com eles, lhe digo, faltou

pouco prum estrago dos grande,

quando o bando nosso se estranhou

com o deles achando que era os macaco

da volante de João Nunes; teve

tiro!, ali, olhe, o alvoroço só não foi

maior porque Luís Pedro de repente

deu de cara com esse Arlindo que

era o cabra que a gente ia pra se encontrar

agora, por ordem do capitão

Virgulino. Aqueles home parecia penitentes,

foi o primeiro que pensei

nesse dia, mas era todos eles treinado

em quartel… Muita gente corria

de medo deles.

*Pihba Cavalcanti é arquiteto e escritor,

autor de “A Cidadela Inventada”

2011 fevereiro >

>

47


Memória

pernambucana

o nome da moda

MARCÍLIO CAMPOS | Muitas de suas criações passaram de mãe

para filha. O artista costurou sua vida com agulha, linha e talento

Nestes tempos de novela Ti-ti-ti,

a moda, mais do que nunca,

está presente no cotidiano das pessoas,

especialmente das mulheres.

Na ficção global, com suas criações

os estilistas Victor Valentim e Jacques

Leclair operam milagres na

vaidade das clientes, ainda que com

exageros, todavia sem grande distanciamento

da verdade. A moda

adequada, disso não há dúvida, imprime

um estilo à mulher, disfarçalhe

as imperfeições, salienta-lhe as

seduções. Com muita razão, pois,

ensinava a estilista Coco Chanel:

Vista-se mal e notarão o vestido.

Vista-se bem e notarão a mulher.

Beleza à parte, moda, da haute

couture ao prêt-à-porter, é, sobretudo,

uma indústria pujante que

envolve muitíssimos milhões de

dólares, bastando lembrar, como

um mero indicador, os contratos

de valores astronômicos assinados

pela brasileira Gisele Bündchen.

A indústria da moda, contudo,

não se limita a alguns metros de

tecido, agulha, linha e uma linda

mulher a ser envolvida pelo vestido.

Embora também o seja, inclui

inúmeras atividades econômicas

que transitam da criação dos trajes

ao seu acabamento, fazendo da

moda um segmento em constante

ascensão. Na França, moda é cultura

desde a criação das primeiras

maisons, no século XVIII, tanto que

a roupa como identidade nacional

chegou a ser discurso do governo

François Mitterrand.

48 > > fevereiro 2011

A moda é

a transmissão

da civilização

Pierre Cardin

Por aqui, os empresários sempre

estiveram atentos a isso, tanto

que a moda do Brasil é bem conceituada

em todo o planeta, e não

somente pela beleza e desempenho

das nossas modelos. Conhecida,

que sempre foi, pela criati-

vidade, pela originalidade, hoje é

acatada também pela qualidade

e pela competitividade. Registrese,

no entanto, que até chegar ao

ponto de merecerem respeito, as

profissões ligadas à moda trilharam

um pedregoso caminho, a

trilha dos que tiveram a disposição

de ousar, de pagar o preço do

pioneirismo.

No Recife, houve um tempo em

que as mulheres elegantes passavam

– ou será que desfilavam? – na

Rua Nova. Era lá, especialmente na

Casa Matos, que elas compravam

seus vestidos com que mais tarde

embelezariam as tardes recifenses.

Naquela loja, o nome de um

jovem e talentoso costureiro começava

a alcançar a notoriedade:

Marcílio Campos. Seu talento era

tão evidente, sua criatividade tão

borbulhante, que em 1959, ao estagiar

na Maison Christian Dior, em

Paris, ganhou o prêmio Agulha de

Ouro, na categoria Revelação. Ao

regressar ao Recife, inevitavelmente

a loja da Rua Nova ficaria para

trás, enquanto o estilismo pernambucano

daria um gigantesco passo

à frente.

Um mundo sem a

moda seria cinza e

triste, e milhões de

pessoas não teriam

do que viver

Pierre Cardin


Após oito meses na capital francesa,

Marcílio Campos instalou na

Rua José de Alencar o seu próprio

ateliê, de onde saíam elegantes peças

de estilo clássico que logo passaram

a fazer sucesso. A maison logo

se transformou no centro da moda

nordestina e o estilista no preferido

das mulheres da sociedade pernambucana.

Estava consolidada a carreira

do figurinista que passaria a vestir

muitas noivas, mães de noivas, madrinhas,

debutantes, e as socialites

pernambucanas em geral. Mais ainda,

que extrapolando limites, divisas

e fronteiras, se tornaria um nome

consagrado no Brasil e no exterior,

com clientes do porte de Nancy Reagan,

primeira-dama dos Estados Unidos,

e Marly Sarney, primeira-dama

brasileira.

Marcelo Alcoforado

marceloalcoforado@surfix.com.br

Sou contra a

moda que não

dure. É o meu

lado masculino.

Não consigo

imaginar que se

jogue uma roupa

fora, só porque é

primavera

Coco Chanel

Um anúncio dos cobiçados relógios

Patek Philippe mostra um pai e

seu filho ainda criança, enquanto o

texto diz que, em verdade, ninguém

é dono de um Patek Philippe e, sim,

o guarda para a próxima geração.

De certa forma, a moda de Marcílio

Campos era tão diferenciada, tão

especial, que a ela aconteceu o que

preconizava a mensagem publicitária

dos sofisticados relógios. Muitas

de suas criações passaram de mãe

para filha. É só consultar as colunas

sociais da época, para ver notícias

como esta, publicada na coluna de

João Alberto, no Diario de Pernambuco:

“Nupcial - A jornalista Karla

Barbosa oficializa sua união de sete

anos com Byron Fontes, hoje, em

cerimônia apenas para os amigos

mais íntimos, no seu apartamento

do Parnamirim. Cerimônia será

oficiada pela juíza Patrícia Galvão.

Um detalhe: a noiva usará o mesmo

modelo que sua mãe, que já foi

miss, usou no seu nupcial, assinado

por Marcílio Campos. Será às 8h do

dia 8 do 8 de 2008.”

Lembra-se de que no início desta

conversa falou-se de qualidade?

Veja o que disse a pernambucana

Sônia Maria Campos, primeira representante

brasileira no concurso

Miss Mundo. Perguntou o repórter

que a entrevistava: Na época o que

chamou muito atenção na sua viagem

foi o seu guarda-roupa. O que

você pode comentar conosco sobre

o guarda-roupa que a senhora levou

para Londres?

Resposta: Tinha um costureiro,

o Marcílio Campos, que fez minhas

roupas. Era um guarda-roupa realmente

muito bonito e cheio de opções.

Saí do calor e apesar de que

não era época de muito frio em

Londres, era outono, a temperatura

estava abaixo do normal, a que

eu não estava acostumada. Havia

roupas de inverno, tudo muito elegante

e de bom gosto. Meu guardaroupa

era sempre muito elogiado.

Marcílio Campos, não há como

ter dúvida, foi um vencedor. Tanto

que, anos após sua morte, é lembrado.

E homenageado. Em uma dessas

homenagens, um desfile no Mar Hotel,

na passarela senhoras da nossa

sociedade mostraram roupas de

autoria do estilista, autênticos troféus,

destacando-se a fantasia Maria

Tereza, Rainha da França com que

Violeta Botelho ganhou, em 1961,

o primeiro lugar no desfile do Copacabana

Palace e no do Municipal

do Rio de Janeiro. No ano seguinte,

aliás, depois de vencer os desfiles de

fantasias do Copacabana Palace e do

Quitandinha com sua fantasia Isabel,

a Rainha de Portugal, vestida por

Denise Zelaquette, Marcílio Campos

venceu também o concurso do Baile

Municipal do Rio de Janeiro.

Marcílio Campos, pernambucano

nascido na Paraíba, costurou sua

vida com agulha, linha e, principalmente,

com talento, muito talento.

Mas como todos os tecidos um dia

se esgarçam, sua vida, iniciada a 25

de janeiro de1930, rompeu-se em

26 de abril de 1991.

Vinte anos são passados, mas

Marcílio Campos nunca saiu de

moda.

2011 fevereiro >

>

49


Última

página

No fim de semana seguinte ao

meu retorno da viagem à Indochina,

retomei as caminhadas

domingueiras e parti em direção ao

centro do Recife para matar a saudade.

Qual não foi minha surpresa

quando, ao passar pela Rua do Imperador,

a caminho do Mercado de São

José, no cruzamento com a Rua 1º.

de Março, do lado direito, vi estarrecido

que um placa que havia sido

afixada pela prefeitura na parede do

prédio da esquina tinha desaparecido

sem deixar nenhum vestígio.

Dizia a placa desaparecida: “Primeiro

Observatório Astronômico

do Hemisfério Sul e das Américas.

Neste local, onde foi edificada a

primeira residência do Conde Maurício

de Nassau-Siegen, no século

XVII, foram realizadas as primeiras

observações astronômicas do

hemisfério sul e das américas, em

1638, pelo naturalista, médico, cartógrafo

e astrônomo alemão, oficial

do Príncipe de Nassau em Pernambuco,

Georg Marcgrave. Aqui Marcgrave

construiu o observatório

em 1639 e realizou observações.

Também utilizou pela primeira vez

a luneta (tubus) para fins astronômicos

no Novo Mundo em 1640. A

Sociedade Astronômica do Recife, a

Câmara Municipal e a Prefeitura do

Recife perpetuam o acontecimento

em comemoração aos 500 anos de

50 > > fevereiro 2011

Francisco Cunha

franciscocunha@revistaalgomais.com.br

twitter.com/cunha_francisco

Menos uma Placa

Do jeito

como as

coisas estão

caminhando

na nossa

combalida

cidade,

parece que

nos restam

cada vez

menos

alternativas

do que isso:

vigiar e orar

descobrimento do Brasil e 361 anos

do observatório de Marcgrave.”

Sei do que dizia a placa porque

já tinha feito seu levantamento para

constar do livro “Recife Passo a Passo”

que eu e Plínio Santos-Filho estamos

finalizando com os sete principais

grandes roteiros de visitação do

Recife, em continuação ao nosso guia

“Um Dia no Recife” que trata só do

centro da cidade.

Crime de natureza semelhante

já havia sido praticado tempos atrás

quando, do outro lado do rio, Bairro

do Recife, no Shopping Paço Alfândega,

foi sumariamente fechado,

sem que absolutamente nada fosse

comunicado ao público, o pequeno

mas encantador museu sobre a história

do bairro que existia no andar

da praça de alimentação daquele estabelecimento.

Até hoje não se sabe

o que foi feito do acervo de excelente

qualidade, boa parte dele prospectado

na pesquisa arqueológica realizada

quando da reforma do centro

de compras que passou a ocupar o

prédio originalmente construído em

1732 para abrigar os padres da Ordem

de São Felipe Neri do Convento

dos Oratorianos, anexo à Igreja da

Madre de Deus, depois readequado,

em 1820, para ser a Alfândega do Porto

do Recife. Inclusive é desconhecido

o padeiro do excelente conjunto de

maquetes e pôsteres explicativos da

evolução urbana do bairro desde que

nele se instalou, na primeira metade

dos anos 1500, a pequena população

de marujos e pescadores que viria

dar origem à cidade do Recife.

Se eu tivesse o dom da ficção já

teria começado a escrever uma novela

de mistério e suspense sobre

uma organização criminosa secreta

chamada “Exterminadores do Passado

do Recife”, participante de uma

rede nacional, cuja missão local é

destruir silenciosa e paulatinamente,

na calada da noite, todos os vestígios

da história da cidade para que seus

habitantes passem a venerar apenas

o presente e permaneçam convictos

de que o que se está fazendo com

a cidade é o melhor para ela. Como

não tenho esse dom, só me resta lamentar

profunda e indignadamente,

da forma mais pública que puder...

Embora não tenha o dom literário,

nutro ainda uma parcela vital de

otimismo que me impede de resvalar

para o puro cinismo e ainda me permite

considerar a hipótese de que,

como o prédio onde estava afixada

a placa está passando por reformas

para abrigar uma instituição financeira,

a retirada tenha sido apenas

temporária. Oremos. Porque do jeito

como as coisas estão caminhando na

nossa combalida cidade, parece que

nos restam cada vez menos alternativas

do que isso: vigiar e orar.


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