O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE - INTG

intg.org.br

O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE - INTG

SEGUNDA PARTE

O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE

IV. DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

V. A C ONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE

VI. A IDENTIDADE CULTURAL

|45


46|


PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

|47

IV

DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO

ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

EXPERIÊNCIA HISTÓRICA E IDENTIDADE

Ao longo da vida, vivenciamos determinadas experiências

que preferimos esquecer e outras que fazemos questão de

lembrar. É a partir desse jogo de lembrança e esquecimento —

componentes daquilo que chamamos de “memória” — que a

nossa identidade vai sendo construída. Grosso modo, o mesmo

pode ser dito em relação às sociedades humanas, que, ao longo

de sua experiência histórica, fazem de determinados momentos

dessa experiência os “marcos fundadores” daquilo que são.

Momentos que, como tais, são coletivamente lembrados ou, em

português mais claro, “comemorados”.

Na história de Pernambuco, um dos momentos fundantes

de sua identidade é o da Restauração Pernambucana (1645-1654),

durante o período de finalização e logo após a dominação

holandesa. Isso pode ser facilmente constatado num passeio pela

cidade do Recife, onde os nomes de João Fernandes Vieira, André

Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Felipe Camarão — a chamada

“tetrarquia dos restauradores” — surgem em monumentos, ruas

e travessas, para citar apenas alguns exemplos. Nesse mesmo

passeio, encontraríamos ainda referências aos “Guararapes” e,

em tempos passados, às “Trincheiras” e à própria “Restauração”.

Essa memória da Restauração tornou-se, por meio de seus

narradores, o alicerce da identidade pernambucana, dando origem

ao nativismo. O movimento restaurador de Pernambuco aos seus

“verdadeiros donos”, segundo esses narradores, forjou o ser

pernambucano, imprimindo-lhe no caráter o amor à “pátria”

(conceito que, no Brasil Colônia, possuía um sentido estritamente

local), o zelo pela liberdade e o senso de vanguarda. Ao mesmo

tempo, a luta contra um inimigo comum teria irmanado brancos,

índios e negros, inaugurando o espírito de “brasilidade”.

O discurso nativista também inspirou o sentimento de

autonomia que embalou a Guerra dos Mascates, no século XVIII,

apesar de seu caráter interno, e os Movimentos Revolucionários


48|

Os nomes das ruas evocam a

Restauração Pernambucana,

assim como o principal

hospital público da capital

(Hospital da Restauração).

PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

do século XIX, sobretudo os de 1817, 1824 e 1848. Na verdade,

tantas foram as utilizações do nativismo ao longo da história

de Pernambuco que talvez seja mais apropriado falar de

“nativismos”, no plural. Foi a partir dessas leituras e releituras

do significado da Restauração que a “alma pernambucana” foi

sendo forjada, consolidando a imagem de um Pernambuco

heróico, revolucionário, indomável.

GUERRA E RELIGIÃO NA RESTAURAÇÃO

PERNAMBUCANA

Areligião é uma das principais determinantes de uma História

do Saber. Em torno da fé e nela própria, diversos saberes

constelam e fazem história. Na Idade Moderna ocidental, período

marcado por grandes conflitos, Pernambuco foi a única região do

País a vivenciar a disputa — e um certo convívio — entre dois

conjuntos de saberes religiosos que se imaginavam, então, opostos

para sempre: um advindo da Reforma Protestante e outro da

Contra-Reforma Católica. Uma harmonia rara e frágil se impôs

entre católicos, protestantes e até judeus. Sabe-se hoje que a

oposição entre essas variáveis do cristianismo não foi tão profunda

quanto imaginavam alguns dos seus próprios contemporâneos

(Fernández-Armesto e Wilson, 1996), mas o nível de convívio e a

tipificação do conflito em Pernambuco foram singulares.

A Era Moderna foi marcada por conflitos sangrentos entre

católicos e protestantes, fruto de um clima de mútua intolerância,

no qual o amor à própria religião se traduzia, muitas vezes, no

combate à de outrem. A cristandade católica encarou o advento

da Reforma Protestante como uma ameaça à unidade cristã,

colocando-se — sobretudo a partir do Concílio de Trento (1545-

1563) — na defensiva contra o avanço do protestantismo na

Europa e no Novo Mundo.

Na Península Ibérica, a oposição ao protestantismo

demonstrou-se ainda mais intensa, uma vez que a fé católica

estava arraigada às identidades portuguesa e espanhola — ou

seja, ser português ou espanhol significava ser católico. Desse

modo, contrapunham-se, os ibéricos, às nações do norte, que

haviam aderido à “heresia protestante”. É nesse contexto que se

situam as guerras entre a Espanha e os Países Baixos — à época

da União Ibérica — e as guerras de reconquista das possessões

coloniais lusitanas após a Restauração de Portugal, em 1640.


PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

Em Pernambuco, a presença holandesa fez com que católicos

e protestantes passassem a conviver numa atmosfera de frágil

harmonia. A “liberdade de consciência” instituída pelos

conquistadores teve como contrapartida a imposição de restrições

ao culto católico. No Recife, as missas deveriam ser celebradas

a portas fechadas, e as procissões — tão típicas de devoção

ibérica — foram proibidas. Não fosse o “jogo de cintura” de

Nassau, que, visando à pacificação dos ânimos luso-brasileiros,

implementou uma administração mais tolerante — contrariando,

inclusive, as exigências do clero calvinista —, as tensões teriam

sido maiores.

Além das restrições mencionadas, contribuíram, para o

acirramento do antiprotestantismo local, os sermões inflamados

dos eclesiásticos — muitos dos quais foram expulsos de

Pernambuco como conspiradores — e as notícias de atos sacrílegos

cometidos por soldados da Companhia das Índias Ocidentais

contra templos e imagens religiosas. Em tais circunstâncias, o

combate armado em defesa da fé católica contra as “feras

setentrionais” — como foram chamados os holandeses — era

virtualmente inevitável.

A Guerra de Restauração se apresenta, desse modo, como

um conflito de feições acentuadamente religiosas. Não por acaso,

o movimento restaurador foi batizado de “guerra pela liberdade

divina” e definido como “terrena obra, mas celeste empresa”.

De acordo com um dos narradores do conflito, o próprio João

Fernandes Vieira teria expressado o propósito de fazer guerra

contra os “hereges” pela libertação dos fiéis católicos, sem

qualquer interesse em “glórias mundanas”.

Curiosas, a esse respeito, são as manifestações

sobrenaturais que acompanharam a Restauração, interpretadas,

na época, como sinais da aprovação e do auxílio divinos à

campanha restauradora. Citaremos, como exemplo, a participação

da Virgem Maria em uma das batalhas dos Guararapes, segundo

um relato do início do século XVIII, “animando os pernambucanos

por entre seus esquadrões, com pasmo, horror, assombro e

confusão dos hereges”.

Foram as tradições em torno dessa aparição da Virgem em

pleno campo de batalha que deram origem à devoção a Nossa

Senhora dos Prazeres, sendo-lhe erigida uma igreja nos Montes

Guararapes. Ali foi posta uma placa comemorativa com a seguinte

inscrição:

|49

1656: O mestre-de-campo general do Estado do Brasil Francisco

Barreto mandou, em ação de graças, edificar, à sua custa, esta capela

à Virgem Senhora Nossa dos Prazeres, com cujo favor alcançou,

neste lugar, as duas memoráveis vitórias contra o inimigo holandês.

A primeira, em 18 de abril de 1648, em domingo de Pascoela, véspera

da dita Senhora. A segunda, em 18 de fevereiro de 1649, em uma

sexta-feira. E, ultimamente, em 27 de janeiro de 1654. Ganhou o

Recife com todas as suas praças, que o inimigo possuiu vinte e

quatro anos.

Hoornaert, 1991, p. 39.

A Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres é apenas um dos

marcos simbólicos do triunfo da fé católica. Expulsos os

holandeses, a restauração do catolicismo se fez também

representar no nome da principal rua do Recife: de Rua dos Judeus

passou a se chamar Rua da Cruz. A partir de então, Pernambuco

se afirmaria, conforme referido no próprio hino do Estado, como

“Terra da Cruz”.

Essa proximidade entre o maravilhoso e o cotidiano, que

pode parecer, aos olhos contemporâneos, estranha ou mesmo

engraçada, era típica da visão de mundo compartilhada por

aqueles que viveram nos primeiros séculos da Era Moderna.

Não se tinha, então, o nosso “senso do impossível”. A oposição

que fazemos hoje entre o “natural” e o “sobrenatural” inexistia

para os homens dos séculos XVI e XVII. Por esse indispensável

fator cultural, entende-se para aqueles atores históricos que

“causas” religiosas eram tão importantes quanto as econômicas.

Além do mais, vivendo numa sociedade de etiquetas

nobiliárquicas, ainda que não tivessem — supostamente — uma

fé sedimentada interiormente, tais homens e mulheres sabiam

que seu posicionamento social dependia tanto do que se tinha

quanto do que se era.

O TRIUNFO DA “GUERRA BRASÍLICA”

As guerras contra os holandeses — primeiro, a de resistência;

depois, a de restauração — constituíram um curioso cenário

para um embate entre dois modos de guerrear. De um lado, a

guerra européia — conhecida como “guerra de Flandres” — e,

de outro, a “guerra brasílica” (referida anteriormente como

“guerra de guerrilha”). O sucesso do movimento restaurador

deveu-se, em grande parte, à aplicação consciente do segundo

modelo.


50|

Igreja de Nossa Sra. dos

Prazeres, nos Montes

Guararapes, cenário de célebres

batalhas. Município de

Jaboatão dos Guararapes,

Região Metropolitana do Recife.


PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

A guerra de Flandres consolidou-se na Europa no contexto das

guerras entre os Países Baixos e a Espanha, entre os séculos XVI e

XVII. Pressupunha o estabelecimento de posições fortificadas e o cerco

às praças-fortes inimigas, recorrendo, sobretudo, à artilharia. Nas

batalhas campais, preponderava a predefinição dos papéis, o

alinhamento dos batalhões em manobras ordenadas. Representou,

dessa forma, um movimento em direção a uma racionalização da

guerra, visando discipliná-la por meio de determinadas regras,

processo que o sociólogo alemão Norbert Elias, autor de O Processo

Civilizador, chamaria “civilização da agressividade”.

Acontece que, em terras coloniais, a guerra de Flandres se

demonstrava estrategicamente inadequada. Ao longo da guerra

de resistência, a manutenção de sítios fortificados — a exemplo

do Arraial do Bom Jesus — e o assédio ao Recife — onde os

holandeses haviam se encastelado — não lograram êxito. Contra

a utilização de emboscadas, tática que rendeu alguns sucessos à

resistência, prevaleceram os brios dos militares europeus enviados

a Pernambuco, para os quais a guerrilha se constituía uma negação

do “comportamento profissional”. Um deles, D. Luís de Rojas e

Borja, teria dito que “não era macaco para andar pelo mato”.

Longe de obedecer às regras da guerra européia, a “guerra

brasílica” era tributária da maneira como os indígenas

combatiam, refletindo, ao mesmo tempo, a pouca teorização da

arte militar pelos portugueses. Tirando proveito do conhecimento

da terra, recorria ao elemento surpresa por meio de emboscadas,

caracterizando-se ainda por uma grande mobilidade — razão

pela qual também era chamada de “guerra volante”. O aparente

desordenamento da “guerra brasílica” e a confusão que causava

aos holandeses quando surpreendidos pelos “guerrilheiros” da

restauração renderam, para estes últimos, importantes conquistas.

Esses elementos, bem como o contraste com a guerra de Flandres,

se encontram presentes no valioso relatório de Van Goch sobre a

segunda Batalha dos Guararapes (1649):

As tropas do inimigo, saindo das matas e de detrás dos mangues e de

outros lugares onde têm a vantagem da posição, atacam sem ordem e em

completa dispersão e se aplicam em desbaratar diferentes setores. (...)

São por natureza leves e ágeis para avançar ou recuar e, graças a sua

crueldade inata, são também temíveis. (...)Atravessam os bosques e os

mangues em todos os sentidos, sobem e montam os oiteiros, tão numerosos

aqui, com uma rapidez e uma agilidade verdadeiramente notáveis. Nós,

ao contrário, combatemos em batalhões formados e enfileirados segundo

a maneira usada na pátria-mãe, e nossos soldados são indolentes,

inadaptados à natureza do país, donde resulta que (...), desbaratando

nossos batalhões e pondo-nos em fuga, eles nos matam um maior número

de soldados na perseguição do que no próprio combate .

Mello, 1998, p. 371-372.

|51

“Cruzeiro” do Arraial Novo do Bom

Jesus, bairro do Cordeiro, no

logradouro de nome mais extenso do

Recife: Avenida Estrada do Forte do

Arraial Novo do Bom Jesus.


52|

Painel cerâmico de

Francisco Brennand em

homenagem à Batalha dos

Guararapes, na Rua das

Flores, centro do Recife.

PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

Percebe-se o quanto o fator adaptação foi decisivo contra

os holandeses. Impedidos de confrontá-los em campo aberto,

confinados no interior pelo bloqueio dos navios inimigos no

litoral, os “pernambucanos” se valeram do conhecimento e da

malícia, otimizando os recursos de que dispunham.

Para se ter uma idéia de quão limitados eram esses recursos,

basta mencionar que, segundo nos informa Evaldo Cabral de

Mello, na Batalha das Tabocas (1645), quando alcançou sua

primeira vitória, o exército luso-brasileiro dispunha de “apenas

300 espingardas, estando, na sua grande maioria, equipado de

espadas, estoques, facões, dardos e, sobretudo, paus tostados“

(Mello, 1998, 343).

A vitória dos restauradores foi orientada pela percepção

de que, nas circunstâncias em que se encontravam, era preciso

abdicar da guerra convencional e lançar mão do que lhes fosse

mais factível — daí a opção pela “guerra brasílica”. Foram as

divergências em torno da maneira como a guerra deveria ser

feita que entravaram a resistência nos primeiros anos da ocupação

holandesa. Quando, anos depois, eclode o movimento de

restauração, essas divergências haviam, em grande parte, sido

superadas, passando-se à busca por soluções originais para os

desafios impostos pela guerra. Exemplo disso foi a utilização

dos mangues nas emboscadas ou como fortificações naturais.

Dessa forma, contra o mais poderoso exército da época e contra

a guerra de Flandres, prevaleceram a “arte” e o “desconcerto militar”

— nos termos do Padre Antonio Vieira — da “guerra brasílica”.


PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

UMA GUERRA MOVIDA A AÇÚCAR

A

invasão holandesa redefiniu o quadro de proprietários

dos engenhos nas capitanias de Pernambuco, de Itamaracá,

da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Aqueles que haviam sido

abandonados foram confiscados pela Companhia das Índias

Orientais e vendidos a novos proprietários, entre holandeses,

judeus e luso-brasileiros colaboracionistas. Os antigos donos

desses engenhos, a maioria dos quais emigrou para a Bahia,

permaneceriam interessados na reconquista daquilo que, por

doação real, lhes pertencia.

A situação desses novos proprietários, no entanto, ia se

tornando precária, em função das grandes dívidas contraídas com

a Companhia e com comerciantes da Praça do Recife. O proveito

(correspondente colonial do nosso conceito de lucro) que eles

passaram a tirar da produção de açúcar se tornava bastante

reduzido, dada a avidez dos credores — que vinham cobrar as

caixas de açúcar nos próprios engenhos — e as elevadas taxas

que lhes eram impostas. Acrescente-se a isso, uma série de revezes

naturais, de enchentes a epidemias, e, sobretudo, a queda do preço

do açúcar na Europa devido à superprodução — ironia do mercado.

O princípio que havia orientado a Companhia das Índias

Orientais — a saber, a busca pelo máximo proveito no mais

curto espaço de tempo para compensar o investimento feito para

a conquista — revelou-se, por fim, autodestrutivo.

Fruto de uma situação de crise e descontentamento, a guerra

|53

de restauração seria, portanto, encabeçada por senhores de

engenho — tanto pelos “novos endividados” como pelos “antigos

emigrados”. Aos primeiros, interessava livrar-se das dívidas

que haviam contraído e assegurar, pelo mérito de haverem lutado

contra o invasor, a posse dos engenhos. Quanto aos últimos, é

óbvio que intencionavam reaver o que lhes havia sido confiscado.

Interesses conflitantes que, após a Restauração, darão origem à

chamada “querela dos engenhos”.

Sob esse prisma, é possível perceber algo da complexidade

do movimento restaurador. A Restauração Pernambucana, longe

de opor, esquematicamente, de um lado, holandeses, e, de outro,

luso-brasileiros, foi empreendida por agentes em conflito entre

si mesmos, defendendo interesses privados em nome da “pátria”

e da “religião” — daí a necessidade de contextualizar o

“nativismo” para não considerá-lo um idealismo tolo e dadivoso.

Todas as nações modernas ocidentais nasceram desse misto entre

sentimento nativista (depois, nacional) e interesses materialmente

definidos dos agentes históricos envolvidos. É uma escolha

estratégica dos pernambucanos se querem ressaltar mais, para

o conhecimento da história dos conflitos na formação da

identidade própria, o seu caráter nacional, o seu caráter econômico

ou um misto de ambos os fatores.

Usurpados que foram dos engenhos e do proveito que a

produção açucareira lhes conferia, era hora de reagir, de reassumir o

controle da economia local. Nesse sentido, é possível ver, no açúcar,

o combustível da Restauração — uma guerra movida a açúcar! Não

por acaso, “açúcar” era a senha secreta dos restauradores.


54|

MASCATE

A palavra mascate, designação dada pelos

brasileiros de Olinda aos portugueses do Recife

nos séculos XVII e XVIII, vem de Mascate,

cidade da Arábia de onde vieram árabes para o

Brasil, a partir do século XVII, que exerceram

atividade de comércio.

Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:

Objetiva, 2001.

PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

TEMPOS REVOLUCIONÁRIOS

Na trilha da tradição libertária, desdobram-se diversos

conflitos que tiveram Pernambuco como epicentro. A Guerra

dos Mascates foi o primeiro desses conflitos, só que interno. Os

movimentos revolucionários pernambucanos se inscrevem num

quadro mais amplo de agitações que marcaram a história do

Ocidente no período compreendido entre os anos de 1789 e 1848,

batizado pelo historiador Eric Hobsbawm de “a Era das

Revoluções”. A expressão procura caracterizar um momento na

história no qual profundas transformações intelectuais, políticas,

econômicas e sociais confluíram para o que Hobsbawm chama

de uma “dupla revolução”: a Francesa e a Industrial.

Essa atmosfera revolucionária foi, em larga medida, fruto

de questionamentos sobre os fundamentos do poder político, os

direitos humanos e os valores que organizam a vida em sociedade.

Estes fizeram parte do que conhecemos hoje como Iluminismo,

ou Ilustração, movimento intelectual e cultural que — sobretudo

a partir da França — sacudiu a Europa entre os séculos XVII e

XVIII, repercutindo também no Novo Mundo.

A etimologia dos termos Iluminismo e Ilustração nos remete

à idéia de luzes que se lançam sobre as trevas. As “trevas” em

questão são aquelas que foram atribuídas pelos pensadores

iluministas à mentalidade e à sociedade medievais, como a

primazia da fé sobre a razão, o poder absoluto dos reis com

base no direito divino, os privilégios inerentes à nobreza e a

clivagem social que resultava desses privilégios. Para os

ilustrados, esses e outros valores do Antigo Regime deveriam

ser superados, uma vez submetidos à crítica racional.

Antes de alimentar o espírito revolucionário francês, os ideais

iluministas já haviam inspirado a Revolução Americana. A

Declaração de Independência dos Estados Unidos, assinada em 4

de julho de 1776, alicerçou-se na idéia de que todos os homens

possuem direitos inalienáveis e de que compete aos governos

instituídos assegurá-los, de modo que, se alguma forma de governo

se desvia dessa finalidade, “é direito do povo alterá-la ou aboli-la

e instituir uma nova forma de governo baseada nesses princípios”.

Outro ideal iluminista que assumiu conotações revolucionárias

— tanto na América do Norte quanto na França —


PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

era a afirmação de que a única base legítima para o exercício do

poder político era o consentimento “popular”, minando o

absolutismo e fomentando, em contrapartida, o estabelecimento

de governos constitucionais republicanos.

Na esteira dessa revolução das idéias, ocorria, entre os

séculos XVIII e XIX, uma revolução no comércio internacional,

tendo a Inglaterra como carro-chefe. Na vanguarda da

industrialização, os ingleses expandiram o fabrico de bens de

consumo e de produção, vislumbrando, no Novo Mundo, um

mercado consumidor em potencial. Na disputa pelo mesmo mercado,

despontava também a França, sob o comando de Napoleão

Bonaparte, e, de forma ainda incipiente, os Estados Unidos.

No Brasil, a difusão do ideário revolucionário e as pressões

internacionais, sobretudo inglesas, contribuíram para a

configuração de um quadro de crise do sistema colonial. A leitura

dos pensadores ilustrados, o impacto das revoluções Americana

e Francesa na colônia e a intensificação dos contatos com a Europa

a partir da transferência da corte portuguesa para o Brasil criaram

um ambiente propício para a contestação do absolutismo e do

regime de monopólios e privilégios comerciais — elementos

constitutivos do sistema colonial tradicional. Semeava-se a

pólvora que alimentaria explosões revolucionárias como as que

tiveram Pernambuco como palco ao longo do século XIX.

|55

PERNAMBUCO NA CONTRAMÃO DO IMPÉRIO

A

instalação da corte portuguesa no Brasil, em 1808, seguida

da elevação da antiga colônia à categoria de Reino Unido

a Portugal, em 1815, teve como pressuposto a formação de um

poderoso império luso-brasileiro — antiga utopia acalentada,

entre outros, pelo Padre Antônio Vieira. A concretização desse

projeto implicava não apenas conservação do sistema colonial

— com o domínio metropolitano exercido agora a partir do Rio

de Janeiro —, como uma maior centralização política e

administrativa, tendo em vista preservar a unidade territorial.

Um projeto dessa magnitude envolveria grandes despesas,

a começar com a manutenção da corte enraizada no Centro-Sul e

da rede de funcionários imperiais. Para financiar tais despesas,

D. João VI recorreu a uma pesada tributação sobre as exportações,

que incidiu, principalmente, sobre as capitanias do Norte, entre

as quais Pernambuco ocupava uma posição dominante, como

escoadouro da produção regional através do porto do Recife.

A elevação da carga de impostos coincidiu com um período de

recessão generalizada, resultante da queda dos preços do açúcar e do

algodão no mercado internacional. Ao mesmo tempo, aumentava,

em Pernambuco, o descontentamento com o controle exercido pelos

Painel em azulejo d

Corbiniano Lins,

próximo ao Cemitér

dos Ingleses, no bai

de Santo Amaro.


56|

FREI CANECA

César Leal

Patriarca de uma República

cuja semente secou dentro do

fruto tua voz ergueu-se

do

oceano em direção ao

cume da colina

os pássaros te ouviam em silêncio

enquanto desenhavas a bandeira

azul e branca como se fora

uma grande asa de seda molhada

por relâmpagos.

Ao longe, bem próximo

ao Sol,

a Morte, sob a sombra dos cílios

do Imperador,

fitava o teu

coração...

marcando o instante

da queda

de teu corpo

e quando o sangue irrompeu da carne

frágil

desenhou teu nome em terras do

Recife

e nunca mais secou...

BANDEIRA DE PERNAMBUCO

Idealizada durante o movimento revolucionário de 1817, a

bandeira de Pernambuco foi oficializada, cem anos depois,

pelo então governador Manuel Antônio Pereira Borba. Nela,

o azul simboliza a grandeza do céu pernambucano; o branco,

a paz; o arco-íris, a união de todos os pernambucanos; a estrela,

o Estado na Federação brasileira; o sol, a força e a energia de

Pernambuco; e a cruz, a fé na justiça e no entendimento.

PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

portugueses sobre o comércio, em detrimento do lucro auferido pelos

produtores. Ganhava vulto um sentimento antilusitano, que não

demoraria a ganhar contornos anticolonialistas.

Acrescente-se ainda a fermentação de idéias revolucionárias

em Pernambuco em encontros e reuniões domésticas, nas

sociedades secretas e no próprio Seminário de Olinda. A influência

das revoluções Americana e Francesa, em consonância com a

tradição nativista pernambucana, inspirou a concepção de um

novo projeto de organização política em moldes republicanos,

que veio à tona com o movimento deflagrado em 1817.

A nova ordem instaurada em Pernambuco, no entanto, se

colocava em rota de colisão com o já referido ideal de um grande

império luso-brasileiro. Insinuava-se, no Nordeste, o “perigo

republicano”, que estava dissolvendo as possessões espanholas

na América do Sul naquela mesma época. A repressão dos

revolucionários se deu em nome da segurança do Império; a

punição violenta e infamante de alguns deles representou uma

demonstração pública de força:

Depois de mortos, as suas cabeças e mãos foram distribuídas em vários

lugares, suspensa (sic) em altos postes, e patentes ao público em estado

de putrefação. Itamaracá viu a do seu infeliz pároco, que, depois de

morto, foi ligado à cauda de um cavalo e arrastado pelas ruas do Recife.

Tavares, 1969, p. 208.

Apesar da repressão imperial ao projeto revolucionário de

1817, os ideais autonomistas, separatistas e republicanos

sobreviveriam em Pernambuco, tomando vulto na Convenção de

Beberibe, de 1821, e, sobretudo, na Confederação do Equador,

proclamada em 2 de julho de 1824.

No processo de emancipação política do Brasil, o regime

monárquico foi preservado na forma de uma monarquia

constitucional. Aclamado “Imperador Constitucional e Defensor

Perpétuo do Brasil”, D. Pedro I assumiu o trono imperial oscilando

entre as novas idéias liberais e a tradição absolutista. Foi assim

que, em 1823, decretou o fechamento da Assembléia Constituinte

e, um ano depois, outorgou uma Constituição que ampliava suas

prerrogativas com a criação do Poder Moderador, reservando-lhe

o direito de nomear ou remover os presidentes das províncias,

por exemplo.

Tal concentração de poderes nas mãos do Imperador e a

centralização política e administrativa a partir do Rio de Janeiro

tornaram-se uma fonte permanente de insatisfação entre as

províncias mais ciosas de sua autonomia. Em Pernambuco, a


PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

nomeação um presidente de província indesejado foi a gota

d’água para uma nova explosão de nativismo e de verve

revolucionária, perceptível na conclamação de Frei Caneca

publicada no Typhis Pernambucano:

Eia, Pernambucanos! A nau da pátria está em perigo, cada um a seu

posto, unano-mos com as províncias limítrofes. Escolhamos um piloto,

que mareie a nau ameaçada de iminente e desfechada tempestade; elejamos

um governo supremo, que nos conduza à salvação e à glória.

Neves; Machado, 1999, p. 107.

Constitui-se, então, um governo federativo e republicano,

congregando as províncias de Pernambuco, do Ceará, da Paraíba,

do Rio Grande do Norte, do Piauí e do Pará, com direito à eleição

de um Governo Provisório e à convocação de uma Assembléia

Legislativa e Constituinte.

Com a unidade do Estado Imperial novamente ameaçada,

não tardou para que as forças de repressão se mobilizassem,

contando, inclusive, com a participação de tropas mercenárias

estrangeiras. A resposta do Império — à semelhança de 1817 —

foi, mais uma vez, contundente: os principais representantes do

movimento de 1824 foram condenados à morte.

Embora, em um primeiro momento, a derrota da

Confederação do Equador tenha contribuído para a paralisação

do discurso liberal “radical”, a hegemonia do governo do Império

estava longe de ser estabelecida. A pretendida pacificação do

País, com a ascensão de D. Pedro II ao trono, em 1840, após as

agitações do Período Regencial, não foi alcançada.

De acordo com Emília Viotti da Costa, entre 1837 e 1848,

uma nova onda revolucionária varreu o Norte e o Nordeste.

Para além das razões ideológicas, a maioria dos que aderiram

aos movimentos revolucionários o fizeram por motivos bastante

“pragmáticos e concretos”: a ingerência política e administrativa

do governo central nas províncias, a criação de novos impostos,

o controle exercido sobre a iniciativa privada, os tratados

comerciais que favoreciam o monopólio estrangeiro sobre o

comércio, o recrutamento militar forçado, dentre outros. Foi nesse

contexto que se deu, em Pernambuco, a chamada Revolução

Praieira (1848).

Fundado em 1842, o Partido da Praia (assim chamado

porque sua sede ficava na Rua da Praia), de orientação liberaldemocrática-radical

e com influências do socialismo utópico

europeu, fortaleceu-se em Pernambuco durante o governo de

|57

O grande pintor

pernambucano Cícero

Dias celebrou Frei

Caneca em painel que se

encontra instalado na

Casa da Cultura, no Recife.

Local do arcabuzamento

de Frei Caneca, próximo

ao Forte das Cinco Pontas.

Uma placa registra a data

do martírio.


58|

Rua da Praia, no bairro de

São José, onde foi fundado e

teve sede o Partido da Praia,

importante ator da Revolução

Praieira de 1848.

PARTE II | O RUGIDO DO LEÃO DO NORTE | DO ORGULHO DA RESTAURAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES LIBERTÁRIAS

Antônio Pinto Chichorro da Gama, alcançando grande

popularidade. A nomeação, em 1848, de um conservador mineiro

para o governo de Pernambuco, apoiado por alguns setores

ligados à oligarquia latifundiária pernambucana, levou os

“praieiros” a deflagrarem a revolução.

O projeto político praieiro foi explicitado no Manifesto ao

Mundo, de 1° de janeiro de 1849. Nele são defendidas teses como

o voto livre e universal, liberdade de imprensa, nacionalização

do comércio, extinção do Poder Moderador, reforma do Poder

Judicial visando a garantia dos direitos individuais e o

federalismo como forma de governo. Nem todos os liberais

concordavam com todas essas teses.

A instabilidade política causada pela sobrevivência desse

liberalismo radical justificou o combate aos praieiros. Derrotados

em Pernambuco, os insurretos se refugiaram na vizinha província

da Paraíba, onde não lograram apoio suficiente, sucumbindo

diante das forças legalistas. Seguiu-se, na história política do

Brasil Imperial, uma fase conhecida como Conciliação (1852-

1862), marcada pela descaracterização ideológica de liberais e

conservadores.

Conforme já assinalado, os acontecimentos de 1817, 1824

e 1848 integraram uma tradição revolucionária que, por meio

de seus agentes e narradores, reivindica suas raízes nas lutas

de Restauração do século XVII. A imagem de um Pernambuco

heróico é fruto de um processo de sedimentação, no qual

sucessivas “camadas históricas” vão se sobrepondo umas às

outras. O discurso sobre o passado fez do pernambucano um

povo predestinado ao “culto dos ideais”, nos termos de Barbosa

Lima Sobrinho:

Nem as prisões, nem as masmorras, a que não podia chegar a luz do

sol, nem os ferros colocados nos pés e no pescoço dos prisioneiros,

nem o fuzilamento, nem o garrote ultrajante, nem os corpos

despedaçados, com a cabeça e os membros decepados e expostos em

praças públicas, nem o seqüestro dos bens, nem a infâmia e a miséria

que alcançavam os descendentes, nada conseguia apagar, nesses

corações pernambucanos, a flama eterna do culto dos ideais.

Chegaram a criar, contra nós, o castigo das mutilações territoriais,

que fomos nós, em todo o Brasil, os únicos brasileiros designados

para suportá-lo e sofrê-lo. Tudo, afinal, em pura perda: os sonhos

continuaram vivos nas almas indomáveis, como os sacrifícios se

transformaram em estímulos e como se os patíbulos se confundissem

com o pódio, destinado à glorificação dos triunfos .

Sobrinho, 1998, p. 109.

More magazines by this user
Similar magazines