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O

REVISTA N.º 15 · PUBLICAÇÃO PERIÓDICA · MARÇO 2013

DESEMBAR UE


índice ficha técnica

Editorial

A Sede está sempre à disposição dos Associados 3

Cooperação

Visita do Comandante do Corpo de Fuzileiros de Portugal

aos Fuzileiros de Angola 4

Notícias

O Chefe do Estado-Maior da Armada almoça

na Associação de Fuzileiros 5

Fuzileiros visitam o Comando Territorial da GNR

de Santarém 6

Em memória de Jaime Neves 7

Cultura e Memória

Salpicos de Vida – SPM 0468 N.º 8 – Fuzileiros na piscina… 8

Opinião

Aproveitar Recursos 9

O Direito de Dizer – O Advogado, o Dever de servir a Justiça

e o seu Direito/Dever de Protestar 10

Convívios

Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 4 – Guiné 1965/67 13

XXXI Encontro de Marinheiros da Beira Alta 14

Companhia de Fuzileiros N.º 3 – Guiné 1963/65 15

Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 12 – Guiné 1967/69 16

Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 8 – Guiné 1969/71 18

“Escola” de 98 20

Companhia de Fuzileiros N.º 2 – Angola 1966/69 e Angola 1970/72 21

Corpo de Fuzileiros

Museu do Fuzileiro 22

Homenagens

A Associação Nacional de Fuzileiros

presta homenagem ao seu antigo Presidente, Dr. Ilídio das Neves Luís 24

Homenagem a Rebordão de Brito 26

Entrevista

Almirante Nuno Gonçalo Vieira Matias 27

Divisões

Divisão do Mar e das Actividades Lúdicas e Desportivas 34

Crónicas

Breves estórias da Guiné 36

Crónicas de Outros Tempos – Ponte Aérea Nova Lisboa (Huambo) – Lisboa 37

Orlando de Sousa Cristina

Um herói a quem os Fuzileiros muito ficaram a dever em Moçambique 39

Cartas ao Director

A história de um Fuzileiro e da sua namorada Fernanda 42

Almoço de Natal

O Almoço/Convívio de Natal – 16 de Dezembro de 2012 43

Delegações

Delegação do Algarve 46

Delegação de Juromenha/Elvas 48

Delegação de Vila Nova de Gaia 49

Reportagem

Timor-Leste: entre as lembranças do passado e a realidade presente 51

Obituário 55

Diversos 55

Publicação Periódica da

Associação de Fuzileiros

Revista n.º 15 • Março 2013

Propriedade

Associação de Fuzileiros

Rua Miguel Pais, n.º 25, 1.º Esq.

2830-356 Barreiro

Tel.: 212 060 079 • Telem.: 927 979 461

email: afuzileiros@netvisao.pt

www.associacaofuzileiros.pt

Edição e Redacção

Direcção da Associação de Fuzileiros

Director

Lhano Preto

Directores Adjuntos

Cardoso Moniz e Marques Pinto

Colaborações

Delegações da AFZ

LP, MP, CM, Ribeiro Ramos,

Miranda Neto, CMP, CCFZ, EFZ, BFZ,

Fotografia: Ribeiro, Afonso Brandão, Pedro

Gonçalves

Coordenação gráfica

e paginação electrónica

Manuel Lema Santos

mlema@mlemasantos.com

Impressão e acabamento

Gazela - Artes Gráficas, Lda.

Rua Sebastião e SIlva, n.º 79 - Massamá

2745-838 Queluz

Tel.: 214 389 750 • Fax: 214 371 931

www.gazela.pt

Tiragem

2.000 exemplares

Exceptuando-se os artigos assinalados e da

responsabilidade dos respectivos autores,

a redacção desta revista não está adaptada

às regras de novo acordo ortográfico

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Francisco Lhano Preto

Nos últimos tempos a Sede da Associação de

Fuzileiros, por uma razão ou por outra, não foi

chamariz suficiente para que, sempre, os seus

sócios e mesmo as Unidades e ex-Unidades de Fuzileiros

fizessem os seus encontros de confraternização e diversão

neste lugar tão agradável, acolhedor e tão nosso.

Foi sempre uma das situações que me preocupou, já que

muitos destes convívios eram realizados quase sempre no

município do Barreiro, devido à nossa ligação à Escola-

-mãe, e talvez só metade eram concretizados no local,

para nós tão místico “A nossa Sede”.

Até porque para além de ser nossa, possui todos os ingredientes

que um Fuzileiro possa sonhar; um rio Coina

com muito lodo e uma praia em frente, onde quase por

certo desembarcou durante o dia e muitas vezes à noite.

Mais, quem não quer relembrar um pôr-do-sol africano

ou um reembarque em Pinheiro da Cruz, na explanada da

Associação, no fim do dia?

Por tal, decidiu a Direcção tentar alterar a situação,

mudando até a gerência do restaurante, dando assim

mais um passo para que se possa iniciar uma nova era de

convívios dos Fuzileiros. A sala também foi restaurada e

terá dentro em breve um alto-relevo dedicado ao Fuzileiro.

Esta nova fase já foi iniciada, tendo tido como teste, um

jantar no dia dos namorados, porque “Fuzileiro que não

está enamorado, não é certamente um bom Fuzileiro”.

Para quem não esteve presente, adianto que neste serão

houve muito convívio, muita animação e não faltou a bela

música ao vivo. Este primeiro evento foi muito agradável e

penso que toda a nossa gente saiu satisfeita.”

Está de parabéns o senhor Cabrita e a esposa (Dona

Alzira), tendo todos nós muito a esperar.

Porque o número de telefone do Snack-Bar foi alterado,

deixo o novo contacto para marcação de algum evento:

210 853 030.

Termino concluindo “caro sócio a sede é tua, usa-a nos

teus eventos para teu proveito, dos teus familiares e

dos amigos”.

“Fuzileiro uma vez, Fuzileiro para sempre

Lhano Preto

Presidente da Direcção

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

editorial

A Sede está sempre

à disposição

dos Associados

3


cooperação

Visita do Comandante do

Corpo de Fuzileiros de Portugal

aos Fuzileiros de Angola

No âmbito do programa da 1.ª Reunião

Formal entre os Estados-maiores das

Marinhas de Angola e de Portugal,

realizada em Angola de 17 a 23 de Novembro

de 2012, e em que o Comandante

do Corpo de Fuzileiros, Contra-almirante

Cortes Picciochi, foi nomeado como chefe

da delegação da Marinha Portuguesa, foi

incluída uma deslocação ao Ambriz, onde

se encontram instaladas a Brigada de Fuzileiros

Navais (BFN) e a Escola de Fuzileiros

Navais de Angola (EFN).

A deslocação da delegação da Marinha

portuguesa, que incluiu dois oficiais superiores

da Divisão de Relações Externas

do EMA, foi acompanhada pelo Diretor

Técnico do Projeto 8 (Marinha) da CTM

em Angola, CMG Xavier da Cunha, e por

uma importante comitiva da Marinha de

Guerra Angolana, que integrou o Vice-almirante

Jorge Correia da Silva, Chefe da

Direção de Preparação Combativa e Ensino,

o Contra-almirante Ferreira de Jesus,

Chefe Adjunto da Direção de Operações, e

o Contra-almirante João Cambole, Chefe

Adjunto da Direção de Pessoal e Quadros.

Após uma viagem por estrada, que requereu

cerca de quatro horas para se percorrer

os cerca de 170 quilómetros de distância,

e que inclui um exigente troço de

picada em terra batida, a comitiva chegou

às instalações da BFN, cerca das 10h30m,

onde foi recebida pelo Contra-almirante

Bamba Castro, ilustre comandante daquela

unidade de fuzileiros, e pelo assessor

técnico permanente, CMG FZ Ova Correia.

Depois das honras militares garbosamente

prestadas por um pelotão da Polícia Naval,

no exterior da unidade, deu-se início ao

programa da visita com um briefing sobre

a organização, missão e dispositivo das

unidades operacionais que constituem a

estrutura operacional da BFN, seguida de

uma breve visita às instalações, tendo sido

no final oferecido um serviço de refrigerantes

e café.

De seguida, a comitiva e acompanhantes

militares dirigiram-se para a praia da

Kinfuca, situada a 14 kms a sul da vila do

Ambriz, onde o Contra-almirante Cortes

Picciochi assistiu a um “static display” dos

equipamentos de C2 e do armamento orgânico

das unidades de fuzileiros, e ainda

a uma demonstração de capacidades anfíbias

em que elementos do destacamento

de ações especiais realizaram uma incursão

em terra a partir do mar, enquadrado

num ambiente de combate à pirataria.

Apesar de algum atraso, a segunda parte

do programa da visita à EFN teve início

com uma guarda de honra à entrada

daquela unidade, localizada na zona litoral

norte da vila, e após os cumprimentos

protocolares foi realizada uma apresentação

pelo Comandante da EFN, CMG FZ

Vaz Gonçalves, onde foram salientados os

aspetos organizativos e funcionais daquela

unidade de ensino militar, e enaltecida

a importância das sucessivas equipas de

assessores fuzileiros portugueses, desde

o ano da criação da primeira Escola de Fuzileiros

em 1994, na ilha de S. João da Cazanga,

a sul de Luanda. Posteriormente,

as entidades visitantes percorreram o espaço

interior da unidade, onde assistiram

a demonstrações das atividades práticas

de instrução militar básica dos cursos de

NOTA: Este texto foi escrito segundo o novo acordo ortográfico

cadetes, sargentos e praças que ali decorrem

atualmente, assim como foram conhecidas

algumas instalações essenciais

ao apoio sanitário da guarnição, e outras

recentemente inauguradas de apoio à formação.

O almoço servido na messe de oficiais, de

ementa recheada com pratos e acepipes

típicos constituiu um momento de franco

convívio, onde se reviveram histórias da

formação de alguns dos oficiais presentes

nos cursos em Vale de Zebro, e de outros

fuzileiros portugueses enquanto assessores

em Angola, ressaltando sempre um

forte espirito de trabalho e de partilha de

conhecimentos e experiências, de respeito

mútuo, e de amizade sempre renovada

entre os elementos dos fuzileiros de Angola

e de Portugal.

Em ambas as visitas, foram efetuadas

trocas de presentes institucionais e foi

assinado o livro de honra destas duas

unidades de fuzileiros angolanos, onde

o Contra-almirante Cortes Picciochi

deixou missivas de reconhecimento pelo

excelente acolhimento, profissionalismo

na ação e relevância das nobres missões

atribuídas à Escola de Fuzileiros Navais

e da Brigada de Fuzileiros Navais, quer

na formação de novos marinheiros e

fuzileiros, quer na defesa dos interesses

nacionais e da soberania nacional, nos

diversos pontos do território onde se

encontram posicionadas as forças e

unidades de fuzileiros de Angola.

Fuzileiro uma vez, Fuzileiro para sempre!

Ova Correia

CMG FZE/ATP

4 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

notícias

O Chefe do Estado-Maior da Armada almoça

na Associação de Fuzileiros

A

convite da Direcção Nacional, o

Chefe do Estado-Maior da Armada,

Almirante Saldanha Lopes, almoçou

no Snack-Bar da Associação de Fuzileiros,

no passado dia 25 de Fevereiro.

Participaram também no que foi qualificado

como um “almoço de amizade”, o

Comandante do Corpo de Fuzileiros, Contra-Almirante

Cortes Picciochi, o Chefe

de Gabinete do CEMA, Contra-Almirante

Seabra de Melo, e o Capitão-Tenente

Afonso e o 1.º Tenente Silva Ângelo, oficiais

que integram o Gabinete do CEMA.

Fizeram as honras da casa, o Contra-

-Almirante Leiria Pinto, Presidente da

Assembleia-Geral da AFZ, o Comandante

Lhano Preto, o Comandante Cardoso Moniz

e o Doutor Marques Pinto, Presidente

e Vice-Presidentes da Direcção, respectivamente.

No final do almoço, o CEMA percorreu

o Salão Polivalente da AFZ e esteve

na esplanada do nosso Snack-Bar

contemplando a vista sobre o rio Tejo e

observou, particularmente, os “Moinhos

de Maré” que dali se vislumbram em

pequenas ilhotas.

Um mundo de soluções para o seu lar...

Estrada das Palmeiras, 55 | Queluz de Baixo 1004 | 2734-504 Barcarena | Portugal | T.(+351) 214 349 700 | F. (+351) 214 349 754 | www.mjm.pt

Durante o almoço, que também foi de

trabalho, trataram-se vários temas rela-

cionados com a AFZ e com a sua impor-

tância para a Marinha, no quadro da sua

influência e unidade nacional e, também,

na colaboração que poderemos prestar,

na semana da Marinha e Dia da Marinha,

cujas comemorações decorrerão na se-

mana de 20 de Maio próximo, no Barreiro.

“O Desembarque” cumprimenta o CEMA

e, particularmente, o Almirante Saldanha

Lopes, a quem convidou para ser um

próximo entrevistado da nossa Revista.

5


notícias

6

Fuzileiros visitam

o Comando Territorial

da GNR de Santarém

Os movimentos de Fuzileiros para

Santarém estão normalmente associados

a missões de apoio às populações

ciclicamente atingidas pelas cheias

do Rio Tejo que, de tempos a tempos,

galgando as margens, transforma estradas

em perigosos canais e a Lezíria num

grande lago onde os botes de borracha ou

as lanchas de pequeno calado se tornam

imprescindíveis.

Neste 7 de Dezembro de 2012 a missão

foi de cariz diferente e obedeceu a um plano

traçado pelo Comandante do Comando

Territorial de Santarém, o senhor Coronel

Corte-Real Figueiredo que com muita honra,

como fez questão de referir, continua

ligado aos Fuzileiros pela mística da boina

FZ que em determinada e talvez determinante

fase da sua vida, envergou.

Estavam assim reunidas as condições

para que o convite que dirigiu a vários oficiais

fuzileiros que com ele mais de perto

privaram, fosse aceite por quase todos e

se transformasse num dia de confraternização

entre fuzileiros e militares da GNR

sob seu comando.

Muitos outros oficiais desse Corpo Militar

que, tal como o Coronel Figueiredo, passaram

pelos Fuzileiros e agora ocupam funções

de destaque na GNR, também aceitaram

o convite e estiveram presentes.

Talvez aqui se deva referir que este transvaze

de oficiais fuzileiros para a GNR, segundo

julgamos, teve a sua maior expressão

na década de oitenta mas continuou

deste então e continua, sendo uma excelente

forma de adaptação e rentabilização

de recursos humanos qualificados com

vantagens para ambas as organizações.

Mas voltando ao evento versado nesta

pequena nota, salienta-se ainda que a

delegação” dos Fuzileiros que se deslocou

a Santarém que, como se disse, era

constituída por oficiais Fuzileiros que estiveram

mais directamente relacionados

com o nosso anfitrião, foi encabeçada pelo

senhor Contra-Almirante Cortes Picciochi,

actual comandante do CCF, o que muito

nos honrou.

O dia correu depressa preenchido com um

excelente “briefing” sobre a actividade

da GNR no Distrito de Santarém, um jogo

de futebol disputado a muito bom ritmo e

com excelentes exibições dos suspeitos

do costume e um almoço de nota dez onde

os produtos regionais pontuaram alto e

estiveram ao nível do acontecimento.

Ao nível do acontecimento esteve também

a fidalguia e o ambiente camarada e amigo

com que o Coronel Figueiredo e os seus

oficiais nos receberam.

Estamos-lhe gratos por nos ter proporcionado

estes momentos tal como ele

se manifestou grato pela compreensão e

apoio que lhe foram dados aquando da

sua difícil decisão de sair dos Fuzileiros e

abraçar um outro Corpo de Tropas que tão

bem o recebeu e enquadrou. Nessa altura

o oficial em questão desempenhava precisamente

as funções de Oficial Imediato da

CF 22 companhia da qual o signatário era

então o comandante.

Quanto ao resultado do futebol… não me

lembro bem mas julgo que foi um empate.

Benjamim Correia

Sóc. Orig. n.º 1351

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


O voto de pesar votado pela morte

do major-general Jaime Neves no

Parlamento resultou num episódio

ruidoso nas galerias.

Depois de os partidos do PS, PSD

e CDS terem aprovado o voto de

pesar, apesar dos votos contra do

PCP, BE e Verdes, um grupo na assistência

– alguns deles com boinas

militares – levantou-se para

verbalizar o grito dos comandos,

unidade que Jaime Neves chefiava

durante o período da revolução e

consequente “Verão Quente”.

Em memória de

Jaime Neves

A

Direcção da Associação Nacional de Fuzileiros, reunida em 5 de Fevereiro de

2013, na sua Sede Social, no Barreiro, em sessão n.º 187/03/13 deliberou por

unanimidade:

“Prestar sentida e patriótica homenagem ao Major-General, Jaime Neves que se considera

herói da verdadeira democracia e acompanhar a Sua Família e a Associação de Comandos

no pesar que todos os Portugueses sentem pelo seu recente desaparecimento”.

A Direcção decidiu, após um minuto de silêncio, transcrever em Acta o seguinte texto:

General Jaime Neves (1936-2013)

1 de Fevereiro de 2013

Gritou-se “Mama Sume” no Parlamento

O plenário foi surpreendido com o

grito “Mama Sume!” que deixou a

mesa da Assembleia da República

(AR) sem reacção.

A expressão foi adoptada pela

unidade militar a partir do grito

de uma tribo Banto do Sul do

continente africano na cerimónia

que precedia a caça ao leão.

Traduzida significa “Aqui estamos

prontos para o sacrifício”.

Ao contrário de outros momentos,

a presidente da AR não solicitou

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

notícias

aos agentes da autoridade que

evacuasse as galerias. Quem

assiste às sessões do plenário não

pode manifestar-se enquanto os

trabalhos decorrem. E Assunção

Esteves já deu no passado ordens

para evacuar a assistência depois

de algumas manifestações.

De qualquer maneira, os cidadãos

em causa abandonaram as galerias

logo após o incidente.

A Associação Nacional de Fuzileiros junta-se à Associação de Comandos e ao seu grito “Mama Sume” e, do Barreiro e de Portugal,

responde com o grito dos fuzileiros:

“Fuzos: prontos. do mar: p’ra terra. desembarcar: ao assalto. desembarcar: ao assalto”

7


cultura e memória

Na operação “Altair”, em 26 Outubro

de 1966, o DFE 4 desembarcou

”a nadar” na Pt a Canabém, no rio

Cacine, com apoio de fogo de duas LFG’s,

a Hidra e a Lira. Como todos os locais na

zona sul da Guiné esta era uma área de

real perigo, onde corríamos o risco de

sermos atacados no momento crítico do

desembarque, que ia acontecer de dia.

O baú das memórias, às vezes já difícil de

abrir, recorda-nos os momentos difíceis

que o nosso grupo, tão jovem, viveu com

muita intensidade e generosidade em

terras de África.

Eram 7h00 quando a LDM 307 nos

tentou desembarcar na Pt a Canabém. Por

infortúnio do destino, surgiu de repente o

chamado “imprevisto nunca previsto”: a

LDM encalhou em fundo baixo, a cerca de

100 m de uma margem cheia de tarrafo,

ficando ao alcance das armas do IN.

Nesse momento crítico havia que tomar

uma decisão urgente, e executá-la muito

rapidamente: ou desembarcar ou abortar a

operação. A escolha feita pelo Comandante

foi fácil. A LDM estava mesmo encalhada

e não mexia.

Assim, era urgente aliviar a carga para

que ela ganhasse flutuabilidade e pudesse

navegar. De facto naquela posição, a lancha

seria um alvo muito fácil, e diria até

que estávamos a oferecer a “lotaria” ao

IN, pois podíamos ser atacados sem termos

a possibilidade de responder. O nosso

Comandante não teve portanto outra

alternativa que não fosse gritar a ordem

“todos para a água”, para desembarcar

rapidamente a nado, acontecesse o que

acontecesse.

8

Salpicos de Vida

SPM 0468

N.º 8

Fuzileiros na piscina…

Felizmente, beneficiávamos da ajuda das

peças de 40 mm das LFG’s Hidra e Lira,

que se reposicionaram e nos deram a

protecção possível nestes momentos de

aflição.

As fotografias juntas evidenciam bem as

dificuldades por que passámos e recordo

que nas nossas mentes todos os pensamentos

negativos nos surgiram. Saberíamos

todos nadar o suficiente para chegar

a terra com todo o pesado equipamento?

Conseguiríamos evitar molhar as armas e

as munições? Iriam funcionar os RPG’s e

os rockets? Conseguiríamos manter a disciplina,

a nadar em fila indiana? Haveria

algum erro dos artilheiros das LFG’s que

nos acertariam com alguns tiros? Estaria o

IN à nossa espera no tarrafo ainda connosco

dentro de água? etc…

Resumindo, a nossa moral naqueles momentos

não era propriamente das mais

elevadas, pois na verdade, quer quiséssemos

quer não, estávamos a fazer um

desembarque dando todas as vantagens

ao IN. Recordo que esta operação se efectuava

de dia e o factor surpresa há muito

que desaparecera.

A 1.ª secção avançou com muita determinação,

“não propriamente num crawl

perfeito”, mas tentando que as coisas

importantes não se molhassem. Refiro-

-me ao material vital para andar no mato,

armas, munições, cartas e equipamentos

de comunicações.

Lá fomos vencendo todas as dificuldades

com um esforço titânico tanto no plano

físico como emocional. Recordo-me que

após nadarmos aquele primeiro troço visível

até a uma curva, fomos então surpreendidos

com um grande percurso de

água que nos separava ainda do início do

tarrafo e das primeiras árvores que nos

proporcionariam abrigo.

É nesse momento que nos assalta a velha

pergunta “mas isto está a acontecer-me

mesmo a mim ou é tudo um sonho do qual

ainda não acordei?”. Infelizmente, tudo era

mesmo real e nós tínhamos mesmo que resolver

aquela “papeleta”, fosse de que maneira

fosse, e a única solução era ganhar a

orla da mata tão cedo quanto possível.

Neste ultimo canal, as LFG’s já não nos

viam e estávamos portanto totalmente entregues

a nós próprios.

Quando atingimos o meio do tarrafo, com

a vontade imensa que desaparecesse o

cansaço acumulado no desembarque,

sentimos com intensidade, o enorme desconforto

de ainda não termos ninguém na

orla das primeiras árvores, o que simplesmente

significava estarmos ainda à mercê

do IN.

Finalmente a 1.ª secção “agarrou” a orla

da mata, e a tranquilidade começou a

confortar os nossos espíritos. Os restantes

homens do DFE 4 já poderiam desembarcar

com alguma tranquilidade pois o

nosso pessoal já lhes podia dar protecção

na situação imprevisível que o destino nos

criou.

Assim, esta operação ficou conhecida

para a história pela situação inesperada e

imprevisível, do desembarque de um DFE

nadando num dos sítios de maiores riscos

operacionais da antiga Guiné.

Por incrível que pareça, as fotos que

acompanham este SPM deram volta aos

três TO’s, Guiné, Angola e Moçambique,

e apareceram em revistas de outros ramos

das Forças Armadas, ligadas a outras

unidades que não o nosso DFE 4. Não ficámos

zangados que outros se tivessem

apropriado das nossas imagens, mas é

tempo de repormos a verdade dos factos e

dar o seu a seu dono, principalmente por

se tratar de momentos tão intensamente

vividos na nossa juventude, e permanecendo

bem vivos na nossa memória.

Nunca é demais recordar a inscrição que

depois de tantos anos, deixámos gravada

na placa do DFE 4 na Escola de Fuzileiros:

“Pelo que somos e pelo que fomos”.

CMG Francisco Rosado

Sócio Originário N.º 1900

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António Ribeiro Ramos

A

ausência da guerra, sabemo-lo bem, não é só por si

suficiente para que uma nação possa viver em Paz. Se

prevalecer a insegurança resultante da sua fragilidade

tanto externa como interna, esta pode levar, e inevitávelmente

leva, à perda da estabilidade necessária ao desenvolvimento

de capacidades de valoração justa, de organização eficiente,

de coesão nacional e de vontade generalizada, fácilmente se

instalam formas subtis de violência, tanto no plano material como

no plano moral, perdendo-se irremediávelmente os benefícios

da Paz.

Fragilizar primeiro é aliás, desde sempre e por razões óbvias,

uma preocupação essencial para qualquer potencial opositor. Em

“A Arte da Guerra”, o mais antigo tratado militar que se conhece,

escrito há mais de dois mil anos, falando de estratégia ofensiva, já

Sun Tzu afirmava; “os habilidosos na arte de guerrear dominam o

exército inimigo sem lhe dar batalha. Conquistam-lhe as cidades

sem ter que as assaltar, derrubam-lhe o Estado sem operações

prolongadas”.

Por outro lado, a fragilidade diminui quando a segurança aumenta.

Etimológicamente, a palavra segurança resulta da junção de duas

outras palavras. “Se”, que significa “sem”. E “cura” que significa

“cuidado”. Portanto “sem cuidado”, ou seja, “sem ansiedade

ou ainda, “sem medo” (Prof. Carvalho Rodrigues – Seminário

no Instituto de Altos Estudos Militares em Dez. 1999). Mas, sem

medo de quê? Eu diria que, sem medo de enfrentar dificuldades,

tanto na estabilidade como na mudança. Não pela via irracional

da desvalorização das suas potenciais consequências, mas

pela certeza de se poder contar com as capacidades e meios

suficientes para que, quando aquelas não possam ser evitadas,

sejam enfrentadas com elevada coesão, agilidade, e com

garantidas probabilidades de êxito.

Mas a segurança é também complexa e multifacetada, porque

se alarga a todos os sectores da actividade social, e precisa de

recursos para se manter, que são sempre limitados. Daí que,

algumas ajudas viáveis e reconhecidamente úteis, possam ter

aproveitamento na prática.

Particularizando, e até porque muitos elementos militares, militarizados

e civis que hoje zelam pela nossa segurança interna,

ganharam e ostentaram anteriormente a bóina azul ferrete de

Fuzileiro, e levando em conta que não é possível aumentar ilimitadamente

o numero destes profissionais, vejamos dois exemplos

curiosos de aproveitamento de recursos.

Tanto nas minhas numerosas estadias nos portos, como na navegação

em águas americanas, em face da necessidade que tinha

de conhecer em pormenor a legislação aplicável naquele país,

consultei vezes sem conta o CFR (Code of Federal Regulations),

publicação que se compõe de vários volumes, que regulamenta

de forma exaustiva tudo o que diz respeito aos navios e à navegação

nos Estados Unidos, e que pode óbviamente também, ser

consultado via Internet. Por vezes, alargava a minha leitura para

além daquilo que procurava e, em 33 CFR, Chapter I, Subchapter

A, Part 5, encontrei desde sempre uma curiosa organização de

voluntários dentro da USCG (United States Coast Guard), designada

por “Auxiliary”. Não obstante a sua poderosa Guarda Costeira,

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

Aproveitar Recursos

opinião

os Estados Unidos contam com 361 portos comerciais (revista

“Proceedings”, U.S. Naval Institute, Abril 2007), com 200 milhas

de Zona Económica Exclusiva tanto no Atlântico como no Pacífico,

e ainda com uma enorme área oceânica de responsabilidade SAR

(Search and Rescue – Busca e Salvamento) que, curiosamente no

Atlântico e para Leste, confina com a que está atribuída a Portugal

e que é igualmente vastíssima.

Fundado em 23 de Junho de 1939, o United States Coast Guard

Auxiliary, conta actualmente com 32000 voluntários que sob a

divisa “Always Ready” (“Sempre Prontos”) efectuam: Patrulhas,

tanto de “safety” (segurança de navegação), como de “security”

(contra actividades ilícitas e terrorismo); Missões de busca e salvamento

(SAR); Assistência a feridos ou em acidentes marítimos;

Patrulhas e combate à poluição marítima; Promoção da eficiência

da condução e assistência à segurança das embarcações de recreio;

Exames para as diversas cartas da navegação de recreio, e

ainda apoio às missões da Guarda Costeira, nas funções que lhes

forem superiormente atribuídas.

O “Auxiliary”, encontra-se distribuído por áreas, distritos e regiões,

e frequentemente utilizou, e utiliza, embarcações, meios

aéreos e estações de rádio, que são propriedade dos seu próprios

elementos. Daí que as condições de admissão envolvem; ser óbviamente

de nacionalidade norte americana, ter idade superior a

17 anos, ser proprietário de não menos de 25% de uma embarcação,

de uma aeronave ou de uma estação de rádio, ou, possuir

treino anterior adequado e reconhecido. No entanto, os elementos

do “Auxiliary” não podem ser simultâneamente membros de outra

instituição de natureza militar. Em caso de necessidade, podem

ser ainda integrados na Coast Guard Reserve, na perspectiva

do reforço das capacidades operacionais da USCG.

O uso do uniforme da USCG é autorizado, com as características

e nas condições superiormente determinadas.

De um outro modo e de forma mais discreta, também no Reino

Unido, é possível estabelecer uma relação, de maior proximidade

e de colaboração com a Polícia local, por meio da constituição de

“Neighbourhood Watch” ou de “Home Watch Groups”, equipas

de vigilância a partir das próprias residências, que promovem,

segundo a orientação da Polícia, o controle regular das suas áreas

vizinhas. Estes cidadãos britânicos voluntários não usam uniforme,

mas participam ainda assim em acções préveamente definidas

e promovidas sob a tutela das autoridades policiais.

Os membros do “Auxiliary” ou até mesmo destas equipas de

colaboração com a Polícia, podem a seu tempo beneficiar de algum

prestígio, e até de formas de reconhecimento social como a

facilitação da procura e da obtenção de emprego na sociedade

civil, por exemplo. Mas não se lhes atribui qualquer privilégio em

relação ao normal funcionamento das próprias instituições que

apoiam e que valorizam. Trata-se apenas, o que não é pouco, de

aproveitar recursos patrióticos e motivações vocacionais específicas.

E de simplesmente os colocar com dignidade ao serviço da

nação.

António Ribeiro Ramos

Sócio Aderente n.º 1053

9


opiniao

Carla Marques Pinto

(Advogada)

No final do artigo anterior, publicado na “O Desembarque”

N.º 14, de Novembro de 2012, escrevemos: “Para a próxima

cá estaremos, se os homens e a Providência deixarem

com um tema particularmente interessante, qual seja «O

Advogado, o Dever de Servir a Justiça e o seu Direito/Dever de

Protestar»”.

De facto, mesmo a feroz e alucinante velocidade da vida de

hoje, que cada vez mais tritura e condiciona, aliada ao início

do ano judicial, não foram suficientes para desajudar a minha

Providência. E os homens deixaram…

Mas vamos ao tema que nos parece particularmente interessante

e actual, nesta fase em que o Advogado e a Justiça parecem ser

os bodes expiatórios da incapacidade de o poder político mudar,

mas de mudar bem.

Parece óbvio que, no rol dos muitos e diversificados deveres – e,

porventura, dos poucos direitos – e das muitíssimas e “apertadas”

incompatibilidades que o actual Estatuto da Ordem impõe ao

Advogado estará implícito o dever de servir a Justiça, embora a

afirmação não tenha ficado expressamente declarada.

Porém, e porque só assim entendemos a nossa profissão e missão,

perante a Comunidade e o Estado de Direito, não resistimos

à tentação de citar, na integra, o n.º 1 do artigo 76.º do anterior

estatuto da OA pelo que tem de força histórica e intrínseca:

«O advogado deve, no exercício da profissão e fora dela,

considerar-se um servidor da justiça e do direito e, como tal,

mostrar-se digno da honra e das responsabilidades que lhe

são inerentes».

O Código de Deontologia dos Advogados da União Europeia, no

seu ponto 1.1., já anteriormente referenciado, na “Advocacia

como Profissão de Interesse Público”, pretende, em nossa opinião,

transmitir a mesma ideia, porventura ampliando-a sem contudo

conseguir uma fórmula mais forte, clara e incisiva.

Mas, o Dr. António Arnaut, no seu “Estatuto anotado” (Fora do Texto

– Coimbra – 1992) ao desenhar de forma relevante “a função ético-

-social da advocacia” afirma que do Advogado se exige “um comportamento

moral e irrepreensível tanto no exercício da profissão

como fora dela” chegando mesmo a adiantar que “o advogado

serve a justiça e o direito mais do que a lei, ao contrário do juiz

que lhe deve estrita obediência”.

De facto, enquanto o actual Estatuto reclama a independência

do Advogado afirmando que, “no exercício da profissão, mantém

sempre em quaisquer circunstâncias a sua independência,

devendo agir livre de qualquer pressão, especialmente a que

resulte dos seus próprios interesses ou de influências exteriores,

abstendo-se de negligenciar a deontologia profissional no intuito

de agradar ao seu cliente, aos colegas, ao tribunal ou a terceiros”

(art.º 84) – e isto é, sem dúvida, servir a justiça – o texto do anterior,

de forma clara, impunha-lhe “recusar o patrocínio a questões que

considere injustas” (art.º 78, alínea c-).

A justiça é, por isso mesmo, um dos seus valores e – seguramente

o determinante – que para o Advogado, o direito deverá

prosseguir.

O Direito de Dizer

O Advogado, o Dever de servir a Justiça

e o seu Direito/Dever de Protestar

Como refere Guedes da Costa, “não foi certamente por acaso que

a lei passou a referir-se ao Advogado como servidor da justiça

e do direito, quando anteriormente apenas falava de servidor do

direito” (570.º do E.J.).

Temos assim o Advogado como servidor da lei e do direito

mas, acima de todos os valores, da justiça sendo que, o dever

de obediência à lei, de não advogar contra lei expressa, de não

litigar de má-fé, de não promover diligências reconhecidamente

dilatórias ou prejudiciais à descoberta da verdade – não são mais

do que obrigações tacitamente subordinadas ao primordial dever

de servir a justiça, dando corpo à nobre e inalienável missão de

intervir na defesa dos direitos liberdades e garantias e na busca

da salvaguarda dos direitos humanos.

O Advogado ganhou ao longo dos anos e dos séculos, por mérito

próprio, o estatuto de meio indispensável para se atingir o objectivo

de uma sociedade democrática e justa.

A abolição da escravatura e da pena de morte e a igualdade de

todos os cidadãos perante a lei (nas Ordenações distinguiam-se

nobres e plebeus para aplicação de determinadas penas) “nasceram

da oposição de muitos advogados ao direito positivo e à

justiça legal em determinado momento histórico” (Guedes da Costa

– obr. cit.).

Ao dever de servir a justiça – e por isso mesmo – soma-se o

direito/dever, do Advogado, protestar.

Para além do direito de protesto mesmo em audiência de

julgamento (art.º 75.º do EOA) é seu dever para com a Comunidade

defender os direitos, liberdades e garantias” e “pugnar pela boa

aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo

aperfeiçoamento da cultura e instituições jurídicas” (art.º 85.º).

Mas visando uma abordagem, por via mais pragmática, de

protestar, de lutar contra as violações de direitos humanos e de

salvaguardar as liberdades e as garantias dos cidadãos, vejamos

o que nos dizia o anterior estatuto da OA (art.º 78, alínea e-) cujo estilo

frontal nos toca particularmente:

«É dever do Advogado para com a comunidade:

e)- Protestar contra as violações dos direitos humanos e

combater as arbitrariedades de que tiver conhecimento no

exercício da profissão».

Sabido como é que esses direitos e garantias que estão hoje consagrados

na Constituição e nas leis, ao nível da execução da justiça,

são muitas vezes desrespeitados, não apenas pelos órgãos

de polícia criminal que, sob a pressão da opinião pública e da hierarquia

e fruto as mais das vezes das suas juventudes se revelam

impantes de mostrar serviço e arrecadar troféus mas, algumas

vezes, pelas próprias Magistraturas. Uns e outras cometem o erro

de se avaliarem pela quantidade de acusações formuladas e de

processos despachados e julgados e não pela sua qualidade!

É claro que a postura dos Advogados ao longo dos anos e, sobretudo,

no regime anterior de ditadura, foi seguramente determinante

para que algumas situações mudassem.

10 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Outrossim, a organização da actual advocacia em muitos dos países

evoluídos do Planeta e, nomeadamente, ao nível da Europa –

utilizando o modelo da advocacia colegiada, em contraposição

com a advocacia livre (EUA, Suíça, Finlândia e Noruega) e com a

advocacia de Estado (que vigorou nas republicas socialistas da

ex-União Soviética) em que o princípio da independência não foi

sacrificado e com o interesse público se estabeleceu um rigoroso

equilíbrio – foi factor determinante para se abolir o anátema dos

estados centralistas e todos poderosos, se arrogarem o exclusivo

da administração da justiça sendo também óbvio que a consolidação

legal na prática da independência da profissão contribuíram

para se reafirmarem as garantias individuais.

Porém, em nossa opinião tudo isto ainda é pouco. E também não

basta que se afirme o direito/dever do Advogado protestar e defender

os direitos, liberdades e garantias, apenas no âmbito da

profissão.

Acreditamos que ser advogado constitui um estado de alma inteiro

não se sabendo onde se encontra a sua ética pessoal com a

fronteira da deontologia profissional.

E tudo isto para dizer que os quadros normativos e jurídicos podem

assegurar, na teoria, a possibilidade de protesto mas, se eles

próprios, os advogados, ou a sua Ordem, não dispuserem dos

meios práticos para ultrapassar resistências, autismos e mentalidades,

restam-se como vozes pregando no deserto dos ouvidos

moucos do sistema e dos Políticos.

Ficam uns poucos – os Homens e as Mulheres de boa vontade

que vão fazendo ouvir-se pelos lugares que ocupam na estrutura

da Ordem ou pelos seus próprios prestígios pessoais.

Mas não chegam.

Quedam-se, a esmagadora maioria, pelo silêncio quase mórbido

e as mais das vezes revoltante, dos seus anonimatos.

E são estes que são esmagados pelas tradicionais e algo

frequentes prepotências dos tribunais e pela embriaguez dos

poderes constituídos, muito ao jeito corporativista porque são,

de facto estes, os anónimos, os que se confrontam, no seu diaa-dia,

com as defesas dos direitos e das liberdades dos mais

“pequenos”, isto é, dos menos poderosos, não estando eles

próprios, ainda, em condições de idade, de prestígio, de saber e

de poder, para lançarem – sem grave prejuízo – os seus gritos de

“protesto” e de “combate”.

Parece-nos pacífico que a intervenção ao nível dos Direitos

Humanos não se pode reduzir ao cidadão que, quando da

detenção, foi eventualmente agredido pela polícia. Porventura

começará aqui alguma parte da acção. Mas a missão terá de ser,

seguramente, mais ampla.

Porque a angústia e o desafio serão comuns, os mais jovens que

por vocação abraçaram a Advocacia poderão questionar-se,

assim:

– Como poderemos continuar a permitir que cidadãos sejam

detidos com tamanha leveza permanecendo em prisão

preventiva ao abrigo de uma lei que, mais por interpretação

cómoda e abusiva do que por ela própria, pode consentir que

lhes não seja comunicado o onde, o como, o quem e o porquê,

sem a mínima possibilidade de exercerem o contraditório e

de o tempo e os prazos de prisão preventiva se prolongarem

para além do que, Francisco Salgado Zenha, antes do 25 de

Abril criticava por o prazo de seis meses ser demasiadamente

alargado e a que chamava “o regime prisional de detenção

policial”!?

– Ficamos pelo recurso?

opinião

– Não intervimos para além do burocratizado mecanismo judicial?

– Não protestamos?

– Não exigimos que – se a lei é demasiado perfeita para os juízes

que temos, no fundo, para o Povo que somos – se mude e se

adapte às mentalidades, ao contrário de se conceber uma lei

para o século XXII que não somos capazes de bem aplicar no

século XXI?

– Como poderemos continuar a conviver com esta realidade de

cidadãos presumíveis inocentes serem “linchados” e destruídos

em praça pública em acesas fogueiras mediáticas, por via de

um estafado segredo de justiça que todos os dias é violado,

desde logo, pelas investigações, em descaradas cumplicidades

com agentes da comunicação social?

– E será legítimo pedir ao Advogado que tem o seu cliente preso,

muito mais para ser investigado do que por o ter sido já,

que sem “armas” para esgrimir, se mantenha disciplinada e

humildemente amordaçado por o recomendarem as melhores

normas deontológicas?

– E será possível ficarmos indiferentes ao nosso elevadíssimo

rácio de prisão incluindo a preventiva (cerca de 130 presos

por 1000.000 habitantes), dos maiores da Europa Comunitária

(que mantém, há muitos anos, médias estabilizadas de 80) em

contraposição com as mais baixas taxas de criminalidade e,

sobretudo, de criminalidade violenta?

– E no que respeita às prisões?

– Quando é que lá chegamos?

– Quando poderemos furar a cortina e alcançar aqueles que, já

condenados e sob tutelado Estado (que ao contrário do que

desejaríamos tem tido alguma dificuldade em demonstrar que

é uma pessoa de bem) se encontram numa posição altamente

fragilizada e muitas vezes impossibilitados de flexibilizarem as

suas penas porque esperam por cúmulos jurídicos que nunca

mais chegam?

– Poderemos nós, Advogados, continuar a conviver com o

colossal atropelo dos direitos dos arguidos, em processo penal

e com a ditadura do direito penitenciário e da execução das

penas, onde se mudam leis e “as moscas” continuam?

– E a efectiva reparação das vítimas?

– E as vítimas das vítimas?

Perguntas incómodas que revelarão verdades incómodas e que,

os mais jovens poderão questionar-se!

Mas ainda com algum alento, o que vale por dizer com alguma

ponta de esperança apetece-nos, também, perguntar:

– Contra quê ou contra quem devemos “protestar” e “combater”

como na tradição portuguesa, e não apenas na nossa, tantos

Advogados o fizeram ao longo dos anos, designadamente, nos

mais difíceis da 1.ª República e do Estado Novo?

– Contra a lei que o Prof. Doutor Jorge Figueiredo Dias afirma ser

uma das mais evoluídas da Europa?

– Contra o poder Politico/Administrativo que, em todas as

democracias ocidentais é cada vez mais fraco e conformado

com os despotismos dos Poderes Judicial (e Económico) e

que, em Portugal, se vem revelando receoso de estabelecer

o “equilíbrio equilibrado” (perdoe-se-nos o pleonasmo) de

poderes, indispensável ao verdadeiro Estado de Direito?

– Ou contra a independência “de facto” que não “de jure” do

Ministério Público?

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 11


opiniao

– Ou contra as independências, inamovibilidades e irresponsabilidades

das Magistraturas Judiciais, sem dúvida, indispensáveis

aos desempenhos livres da função mas, não valores absolutos e

inquestionáveis, ainda mais quando são conhecidos erros grosseiros

ou corrosivos comprometimentos políticos ou corporativos

que induzem ao dramático erro em cadeia?

– Contra as cumplicidades das Magistraturas, munidas de

estruturas sindicais que se alternam nos respectivos Conselhos

Superiores, ou as partilhas dos mesmos espaços funcionais?

– Ou contra os corporativismos por dentro dos quais a Revolução

não passou?

– E poderemos nós, Advogados “da regra” que não “da excepção”

intervir sozinhos?

– E será minimamente eficaz qualquer eventual intervenção?

Seguramente não nos parece.

Parece-nos, isso sim, possível intervir como Classe forte, combativa,

credível e prestigiada.

Parece-nos possível através da estrutura da Ordem dos Advogados

(que cada vez mais gostaríamos de ver mais consistente, coesa e

solidária) e especificamente por via da sua Comissão de Direitos

Humanos, em acções dirigidas com espírito equivalente ao dos

verdadeiros grupos de pressão (preferimos a expressão francesa

A Direcção Nacional informa que já foram assinados os seguintes

protocolos que proporcionam várias vantagens e benefícios aos

nossos Associados:

– Universidade Lusófona;

– Instituto Superior de Segurança da Universidade Lusófona;

– Grupo de Amigos do Museu de Marinha (GAMMA);

– Motricidade Humana - Associação de Formação Desportiva;

– KANGAROO - Gimnoparque;

– Casa de Repouso “Quinta da Relva”;

– Casa de Repouso “Villa Pinhal Novo”;

– Casa de Repouso “S. João de Deus”;

– ARISTON Termo Grupo;

– ANASP - Associação Nacional de Agentes de Segurança Privada;

– Manuel J. Monteiro & Cª., Lda. - Equipamentos Electródomésticos;

Informamos os nossos Associados que o encerramento do Snack-

-Bar da AFZ nos dias 4 e 5 de Fevereiro p.p. ficou a dever-se

às obras de conservação e manutenção que decorrem na nossa

Sede Social.

A sua actividade normal reiniciou-se no dia 6 de Fevereiro,

abrindo com novo concessionário, novas ementas e novos

preços, esperando-se uma maior dinâmica para que possamos

servir melhor os Sócios.

Daqui os exortamos a que frequentem a nossa/Vossa Sede e o

Bar e o Salão polivalente e de refeições e a que os Camaradas

INFORMAÇÕES

por mais genuína) rigorosamente coordenadas e sujeitas a um

planeamento e a uma programação institucionalmente definidos

e apoiados.

De facto, só nos parece possível empenhar os advogados na luta

dos direitos, liberdades e garantias, enquanto integrantes de um

corpo profissionalizado e historicamente responsável quando

cada um, no seu “terreno”, tiver força e apoio, necessariamente

advindos de estruturas descentralizadas, ao nível distrital e

concelhio, que permitam aproximarmo-nos das realidades e

especificidades locais.

Como agora se usa dizer: funcionando em rede.

Teríamos, assim, o Advogado mais próximo do cidadão e,

consequentemente, uma Ordem ainda mais credibilizada e

reconhecida.

E para a próxima, caros consócios fuzileiros, famílias, não fuzileiros

mas Amigos desta grande “família”, enfim, a todo o universo

da AFZ incomodar-vos-ei e terminarei esta temática genérica sobre

deontologia, propondo-vos como tema específico, «A Advocacia

e o Direito dos Cidadãos ao Acesso à Justiça».

Até lá, fiquem bem e … “Fuzileiros para sempre”.

– Revista de Marinha.

Snack-Bar/Salão polivalente e de refeições

Carla Marques Pinto

Sócia Descendente n.º 1870

Email: carlamarquespinto@msn.com

Continuamos em negociações com quatro Companhias de Seguros,

embora nos pareça que estas apenas estão interessadas se a AFZ

lhes garantir um número mínimo de sócios tomadores de seguros,

a que a Associação, como é óbvio, não poderá obrigar-se.

Estamos também a negociar um Protocolo com empresa de

turismo.

Os Protocolos estão publicados no site da AFZ e foram remetidos

para todos os sócios de que conhecemos o respectivo endereço

electrónico.

Aconselhamos os nossos Sócios a consultarem o site, na Internet

– www.associacaofuzileiros.pt – ou a informarem-se através de

email: afuzileiros@netvisao.pt, do tel.: 212 060 079 ou do telem.:

927 979 461.

Aconselhamos também os nossos associados a remeterem-nos os

seus endereços de correio electrónico para facilitar as comunicações

que esta direcção pretende estabelecer em tempo real.

organizadores dos habituais Almoços/Convívios, consultem

sempre a AFZ e/ou o respectivo concessionário do Snack-Bar,

porque encontrarão, por certo, condições de relação qualidade/

/preço muito favoráveis, para além de um ambiente agradável e

muito propício à realização de eventos desta natureza, em que

as nostálgicas saudades, as alegrias, a amizade, a solidariedade,

as nossas histórias e o espírito do fuzileiro se podem revelar em

toda a sua plenitude.

Saudações a todos os Sócios e suas Famílias.

A Direcção Nacional da AFZ

12 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


convívios

Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 4

Guiné 1965/67

6 de Outubro de 2012

Decorreu no passado dia 6 de Outubro de 2012, na cidade

de Peniche, um convívio de partilha de emoções, de ex-

Fuzileiros que integraram o Destacamento de Fuzileiros

Especiais n.º 4 (DFE 4) para comemorarem o seu 47.º Aniversário

da partida para a Guiné, em 11 de Outubro de 1965, a bordo do

N.R.P. Vouga, onde experimentaram as agruras da guerra durante

aproximadamente dois anos, regressando o DFE 4 a Portugal

sem baixas, o que é de realçar, apesar dos 20% de feridos em

combate.

Para esse convívio, foi programada uma visita guiada à fortaleza

e Museu Municipal. Aí tomaram conhecimento dos muitos episódios

ali passados e de como eram tratados os presos políticos

pela PIDE, durante o governo de Salazar, realçando-se a fuga do

Dr. Álvaro Cunhal e de mais nove prisioneiros. Histórias que, para

aqueles que não sabiam, nem conheciam por dentro aquela fortaleza,

os admirou e até mesmo angustiou.

No final da visita, rumamos pela marginal Sul da cidade, junto à

costa, até ao Cabo Carvoeiro, de onde pudemos ver, à distância de

6 milhas marítimas da costa, o Arquipélago das Ilhas Berlengas,

(Berlenga Grande, Farilhões, à excepção das Estelas que não

eram visíveis pelo facto de permanecer sobre elas nevoeiro).

Viajando pela marginal Norte da Cidade, dirigimo-nos para Sul,

até à Consolação, Freguesia da Atouguia da Baleia, “acampando”

no Restaurante Maresol para aí degustar uma deliciosa caldeirada

de peixe à moda de Peniche.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 13


convívios

A determinada altura, o ex-Comandante do DFE 4, usando

da palavra, realçou o espírito de camaradagem, respeito pela

hierarquia, espírito de coragem e de grande solidariedade, entre

os Homens do DFE 4, passados que são 47 anos.

A seguir, o promotor deste evento recordou os Fuzileiros que já

partiram, e ao anunciar o nome de cada um, de viva voz, os outros

respondiam,”SEMPRE PRESENTE”.

Seguiu-se o toque do Hino da Associação de Fuzileiros, que todos

emocionalmente cantaram, não escondendo algumas lágrimas

que corriam pelo rosto de muitos dos presentes.

E o autor destas linhas, como promotor do evento tem de recordar,

com emoção, as palavras do Autor do Hino: “Só tem Pátria quem

sabe lutar, só tem Pátria quem sabe morrer”.

Para acalmar as emoções, o Comandante do Destacamento,

Comt Santos Paiva foi convidado a partir o Bolo de Aniversário

que ele próprio ofereceu como, aliás, tem vindo a ser seu hábito,

em todos os convívios do DFE 4.

E no brinde que fez, o Comt do Destacamento prometeu que ,no

aniversário dos 50 anos, haverá uma grande festa. Esperamos lá

chegar se Deus quiser.

O convívio continuou com música ao vivo, até “ao desembarque”

do último elemento

Nota da Redacção: Ao camarada Comt Lopes Henriques agradecemos as suas iniciativas e

formulamos votos de que, este ano, comemoremos, todos, com saúde,

o 48.º Almoço/Convívio do DFE4-Guiné-65/67, na Sede da AFZ, para

cujo evento daremos todo o apoio.

Realizou-se em Tondela, no passado

dia 8 de Dezembro de 2012 mais um

convívio de Marinheiros e ex-Marinheiros

da Beira Alta, onde estiveram representadas

as Associações de Tondela,

Arganil, Carregal do Sal, Nelas, Viseu,

Aveiro etc.

Do programa constou a visita, liderada

pelo Camarada Carlos Borges, ao Museu

de Tondela com salas recheadas de loiças

de barro preto, artefactos de agricultura,

rochas graníticas de outros tempos e

representações históricas dos usos e

costumes das populações.

Seguiu-se um cortejo automóvel, via

Ferreira do Dão, aonde se prosseguiu o

“ataque ao inimigo”, sendo que, já com a

barriga a dar horas, lá conseguimos atingir

o objectivo: o almoço convívio.

Depois do repasto cada um regressou à

sua “Base” com a habitual determinação

e com os objectivos delineados cumpridos

e, o que foi mais importante, sem baixas

no asfalto.

Lopes Henriques

Sócio Originário n.º 938

XXXI Encontro de Marinheiros da

Beira Alta

8 de Dezembro de 2012

Para o próximo ano, haverá novamente outras “acções” semelhantes a desenvolver. Neste evento, tivemos a colaboração do nosso

Sócio e Membro Suplente da Direcção da Associação de Fuzileiros.

José de Oliveira Pinto

Sócio nº 1049

14 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Aconteceu no dia 27 de Outubro

último, o 4.º Almoço/Convívio da

Companhia de Fuzileiros N.º 3 que

serviu na Guiné nos anos 1963/1965.

O Convívio decorreu com muita alegria e

camaradagem.

Para o ano vamos comemorar os 50 anos

da nossa partida para a Guiné.

Fernando Maudslay

Sóc. Orig. n.º 1772

Nota da Redacção: Formulamos votos de saúde para todos

e de que, para o ano, se comemorem

os vossos 50 anos de operacionais, no

Snack-Bar da Sede Nacional da nossa

Associação de Fuzileiros, no Barreiro.

Companhia de Fuzileiros N.º 3

Guiné 1963/65

27 de Outubro de 2012

convívios

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 15


convívios

Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 12

Guiné 1967/69

Também uma história de querer e de solidariedade

3 de Novembro de 2012

Comemorou-se, no passado dia 3 de Novembro, na Quinta da

Alegria, o 45.º aniversário do DFE N.º 12 – Guiné 1967/69 e

o seu 35.º Almoço/Convívio.

Estiveram presentes cerca de 70 pessoas entre fuzileiros e famílias.

Os nossos Oficiais eram:

Comandante – Fernando A. Pedrosa; Imediato – Serradas Duarte;

3.º Oficial – Rebordão de Brito; 4.º Oficial – Benjamim Lopes

Abreu.

O Convívio, como sempre, foi muito agradável mas, este ano, tivemos

a presença de um Camarada a respeito do qual vale a pena

contar uma pequena história e por isso é dela que vou falar.

O Frederico Boia, para nós conhecido desde sempre pelo “Bebé”

saiu da Marinha depois de termos terminado a comissão na Guiné

e emigrou para a Inglaterra mas manteve-se sempre em contacto

com o que se passava com os Fuzileiros e, em especial, com o

nosso DFE 12, embora estivéssemos cerca de 10 anos um pouco

desligados porque ainda havia a guerra e, naturalmente, as pessoas

estavam, ainda, sem paradeiro certo.

Porém, em 1977, houve alguém que se lembrou de começar a

procurar onde paravam os elementos de DFE 12 e, a partir dessa

iniciativa, foi possível realizar este ano o 35.º Almoço/Convívio

sem interrupções!

O nosso “Bebé” – que tem uma Alma do “fuzileiro uma vez,

fuzileiro para sempre” – vinha todos os anos de Inglaterra para

confraternizar com os seus camaradas!

Frederico Boia “Bebé”

16 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


convívios

Até que, em 2004, depois de ter vindo ao almoço que, por minha

iniciativa, organizamos, há mais de 20 anos, no 1.º Sábado de Novembro,

recebi a triste notícia de que o nosso Camarada “Bebé”

tinha sofrido um AVC.

Em Setembro deste ano, foi obrigado a regressar a Portugal para

viver num Lar de idosos na sua Terra Natal, Trancoso; com sérios

problemas de locomoção é obrigado a deslocar-se numa cadeira

de rodas.

Mas temos que louvar e honrar o Espírito de Fuzileiro, a força de

vontade e a solidariedade que o “Bebé” ainda conserva!

Este ano, decidiu conversar com a Direcção do Lar, agora a sua

casa, que decidiu trazê-lo ao nosso convívio, dando-nos uma

enorme satisfação.

O “Bebé” comprovou ser também um gigante, dando uma grande

lição a alguns Camaradas que, por vezes, se “esquivam” a marcar

presença, sem motivo aparente.

Um grande abraço de apoio e de solidariedade de todos nós para

o “Bebé”.

Força! Vai em frente.

Manuel Ramos (Porto)

Sócio Originário n.º 90

Nota da Redacção: A Direcção Nacional da Associação de Fuzileiros envia um grande

abraço de solidariedade ao Camarada Federico José de Almeida Boia

– Sócio Originário n.º 643 – (com quem entraremos em contacto)

disponibilizando-se para eventual apoio necessário) e releva, louvando,

a atitude do Lar Santa Catarina, sito na Av.ª da Ribeirinha – Reboleiro

– 6420-592 Trancoso, (Tel: 271 829 800), com cuja instituição

desejaríamos subscrever um Protocolo de Colaboração.

Ao camarada Manuel Ramos agradecemos as suas iniciativas e

formulamos votos de que, para o próximo ano, comemoremos, todos,

com saúde, o 36.º Almoço/Convívio, na Sede da AFZ, para cujo evento

daremos todo o apoio.

A VOSSA ASSOCIAÇÃO DE FUZILEIROS VIVE DAS VOSSAS QUOTAS

Prezados Camaradas:

Pela estima que temos por todos os Sócios, Fuzileiros ou não, aqui estamos de novo, a dizer-vos quanto é importante, a Vossa

participação.

Todos somos herdeiros de um património de que nos orgulhamos. Mas, para que tenhamos condições de levar em frente a tarefa a que

nos propusemos é determinante podermos contar com a quotização de todos nós, desta grande Família que, à volta da sua Associação

se vai juntando.

Temos a consciência de que o atraso no pagamento de quotas podem ter várias leituras, quiçá “razões” diversas, algumas das quais

evidentemente ponderosas. Porém, para todas elas haverá uma solução desde que, em conjunto, nos dispusemos a resolver o problema.

Esperamos pela vontade e disponibilidade desta família de Fuzileiros no sentido de ultrapassarmos esta dificuldade já que as portas da

Associação e dos membros da sua Direcção estão permanentemente franqueadas.

Pensamos que uma das razões, de menor importância, porque alguns sócios têm as suas quotas em atraso será por puro esquecimento.

Para obstar a isto aconselhamos e incentivamos a que optem pelo débito, em conta bancária, de 6 em 6 ou de 12 em 12 meses.

Já pensaram que o valor de um ano de quotas representa apenas cerca de quatro cafés por mês?

Por razões de custos – e desta vez será em definitivo – vamos suspender o envio da revista “O Desembarque”, que custa muito dinheiro

à Associação, para os camaradas sócios com quotas em atraso por período superior a um ano.

Consideramos ser este um acto de justiça, uma vez que os que assiduamente pagam não devem suportar as despesas dos que não

pagam.

Cordiais e amigas saudações associativas.

A Direcção

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 17


convívios

Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 8

Guiné 1969/71

4 de Dezembro de 2012

O

8.º Destacamento de Fuzileiros Especiais

– Guiné 1969/1971 levou a

efeito mais um momento de confraternização

com um almoço/convívio nas

instalações da Associação de Fuzileiros,

no dia 4 de Dezembro de 2012, evento

este onde as saudades foram bem patentes

nos abraços sentidos a toda esta “ família”

que foi e será sempre o DFE 8.

Estiveram presentes 23 ex-militares,

16 familiares e convidados, embora o

mesmo tivesse tido lugar num dia de

semana por imperativos pessoais da

sempre carismática figura do Comandante

Teixeira da Silva, a viver na Região

Autónoma dos Açores que nos honrou com

a sua presença.

Por esta razão, não foi possível a presença

de mais elementos, o que lamentamos.

Constituição do DFE 8 e embarque

O 8.º DFE comandado pelo saudoso Comandante,

1TEN João Eduardo da Costa

Xavier e pelo Imediato 2TEN Fernando

Sanches Oliveira, e por 2STEN RN Carlos

Manuel Pacheco Teixeira da Silva e António

José Jorge Barreira – e composto

por 5 Sargentos e 1 Sargento H, 2 Cabos,

22 Marinheiros, 22 Primeiros Grumetes

e 24 Segundos Grumetes – embarcou a

14 de Abril de 1969, no NRP S. Gabriel

e chegou à Provincia da Guiné em 19 de

Abril de 1969, dando inicio à sua actividade

operacional (P.T.O.) em 2 de Maio

de 1969, sob a coordenação táctica do

DFE13 e sob o Comando Operacional da

TG 27.3, Comandada pelo CTEN Guilherme

Almôr de Alpoim Galvão.

18 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Algumas curiosidades que fazem parte do historial

do 8º DFE

1 – 1.º Contacto com o IN, em 7 de Maio de 1969: baixas ao IN

e capturada a 1.ª arma;

2 – Em 2 de Maio de 1970, o 8.º DFE, destacou para a Vila

do Cacheu, com um registo de 35 acções e operações

em terra, 5.700 horas em emboscadas e 119 horas em

patrulhas de botes.

3. – Na Vila do Cacheu, sob o Comando Operacional do

CAOP1, totalizou 11 acções e operações e 109 horas em

emboscadas em botes;

4 – Em 6 de Julho de 1970, o 8.º DFE destacou para a cidade de

Teixeira Pinto, ficando sob o Comando Operacional CAOP1,

onde realizou, até 7 de Outubro de 1969, 10 operações e

acções, 72 horas em emboscadas em botes e cerca de 156

horas de patrulhas

5 – Em 7 de Outubro de 1969, o 8.º DFE destacou para Buba,

com uma breve passagem por Bissau e até 26 de Novembro

realizou 6 reconhecimentos, 480 horas em patrulhas e 427

horas em emboscadas em botes;

6 – Em 26 de Novembro de 1970 destacámos para a cidade

de Teixeira Pinto, onde permanecemos até 6 de Janeiro

de 1971, tendo efectuado 5 acções e operações em terra,

12 horas em emboscadas e patrulhas em botes e cerca de

282 horas em protecção aos trabalhos da estrada Teixeira

Pinto-Cacheu;

7 – O DFE 8 sofreu as seguintes baixas em combate: 5 mortos,

6 feridos graves, 20 feridos ligeiros;

8 – Muitas baixas infligidas ao IN, nem sempre identificadas;

9 – Armamento, munições e equipamento apreendido ao IN:

3 espingardas MOSIN NAGANT; 1 espingarda MAUSER; 1

carabina SIMONOV; 1 P/M PPSM; 1 M/L MG-34; 1 KALASH-

NIKOV; 1 P/M M-25; 2 granadas de Morteiro 60; 2 granadas

RPG-2; 5 Gr/m Defensivas; 5 Gr/m Ofensivas; 2 Gr/m Defensivas

montadas em armadilhas; 48 Detonadores; 3 disparadores

mecânicos; 300 cartuchos impulsores de morteiro 82;

1.700 munições de armas ligeiras; 1 Base de Metralhadora

pesada; etc., etc.

10 – Foram efectuadas 22 detenções em zona de operações e

destruídas: 49 canoas, 35 casas de mato, duas pontes de

madeira e outros, etc., etc.

Prémios, Louvores e Recompensas

convívios

Foram atribuídas as seguintes condecorações: 1 Medalha de

Valor Militar/cobre; 1 Medalha da Cruz de Guerra de 1.ª classe; 1

Medalha de Cruz de Guerra de 2.ª classe; 2 Medalhas de Cruz de

Guerra de 3.ª classe; 1 Medalha de Cruz de Guerra de 4.ª classe;

1 Medalha de Serviços Distintos Prata; 4 Medalhas de Serviços

Distintos Cobre; 1 Medalha de Mérito Militar de 3.ª classe; 16

Medalhas de Mérito Militar de 4.ª classe; 23 louvores individuais;

2 Premios Governador da Guiné; 5 Prémios Movimento Nacional

Feminino; 2 Menções de Apreço; 4 louvores colectivos conferidos

pelas seguintes Entidades: GEN Comandante Chefe das Forças

Armadas da Guiné (2) COR de Artilharia Freitas do Amaral, CTEN

FZE Gilherme Almôr de Alpoim Galvão.

O historial que aqui se procurou fazer, modo abreviado, do nosso

DFE 8 faz justiça a um punhado de HOMENS que souberam estar

sempre com orgulho e prontos nas mais diferentes e exigentes

missões a que foram chamados, defendendo, com muita honra a

Pátria, a Marinha e elevando bem alto os FUZILEIROS.

Que o País reconheça todo o empenho, sofrimento, que os

HOMENS não sejam esquecidos e que a Pátria nos abençoe.

Afinal, somos os seus filhos.

Para terminar é justo referenciar e dar o merecido valor à

“comissão”, que sempre soube, com elevado empenho, organizar

os Almoços/Convívios da “família” do 8.º DFE.

Para todos os que a integraram o nosso muito obrigado.

Comt J. S. Batista

Sócio Originário n.º 2138

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 19


convívios

A

fraternidade que se adquire nos Fuzileiros exige que,

pelo meno, um convívio anual se não dispense. É pois

nessa senda, que os Filhos da Escola de 98, mais uma

vez estiveram reunidos para darem satisfação, ao espirito de

camaradagem que, dia após dia, se foi conquistando, enquanto

se dispuseram enfrentar as muitas dificuldades de que se reveste

o Curso de Fuzileiro, para obtenção da boina azul ferrete.

Estiveram presentes, mais de 50 elementos. E foi assim que uma

vez mais, iniciámos o dia que iremos lembrar até ao próximo ano.

Responderam à chamada camaradas do activo, reserva e, ainda,

dois fuzileiros que muito estimamos que nos honraram com a sua

presença, e que são a prova mais que provada, de terem sido

como todos os presentes, infectados por uma invisível bactéria,

que contagia a maioria dos que passam pelas agruras, que resultam

das muitas dificuldades que a todos impõe, uma universidade,

que se chama Escola de Fuzileiros.

Rever os camaradas desta família, que um dia, por vontade

própria decidimos abraçar, é como satisfazer uma necessidade

intrínseca ao bem-estar emocional do ser humano.

E porque assim é, sentida e vivida, é digno de resisto a eufórica

alegria que em pequenos grupos se fez sentir. Em quase todos os

eles emergiam as conversas que retractavam momentos vividos,

cuja intensidade, nos marcou para todo o sempre.

Por iniciativa de alguns elementos, resolvemos pedir ao camarada

Mário Manso que aceitasse ser o patrono da “nossa Escola”.

O ilustre camarada, logo nos disse que aceitaria participar

no convívio, apenas como se de um elemento da “Escola de 98”

“Escola” de 98

2 de Fevereiro de 2013

se tratasse e sem quaisquer mordomias. Sugerimos que falasse

com o Parreira, por quem também referenciamos muita estima.

Foi assim que, em “família, estivemos mais uma vez juntos cultivando

os nossos valores, enraizando o nosso espírito de corpo

e sustentando a nossa camaradagem, que é para cada um de

nós importante que envelheça connosco, a exemplo dos nossos

amigos Mário Manso e Parreira, cuja amizade já tem décadas.

Honrámos os camaradas mortos, com um minuto de silêncio, antes

de iniciarmos a refeição.

20 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


E chegada a hora de partir o bolo e por razões de ordem vária,

quase metade dos camaradas já se tinham despedido, mas a sua

falta, não se fez sentir no grito que todos os presentes deram,

como sinal do nosso orgulho de fuzileiro.

Sendo um dos organizadores, coube-me impor a disciplina que

o momento seguinte exigia. O silêncio impôs-se de imediato, o

que nem sempre é fácil! Nunca tantos me tiveram tanto respeito.

Sentindo-me senhor da situação, solicitei aos nossos mais veteranos

que nos premiassem com algumas palavras. E foi num

silêncio absoluto que os camaradas Mário Manso e José Parreira

preencheram os minutos que se seguiram, em que a atenção dispensada

aprovava o interesse de todos, no que pelos dois camaradas

foi dito.

convívios

A fechar este momento muito especial, que nos transportou a

uma época, em que alguns de nós, ainda saltávamos entre pernas,

o amigo Parreira ofereceu-nos como sobremesa especial:

um poema, “Os medronhos na serra da Arrábida”.

Mais um a vez, uma prática já conhecida não faltou e todos os

ainda não sócios da Associação de Fuzileiros, foram convidados,

pelo nosso Mário Manso, a inscreverem-se, dispondo-se desde

logo para assinar as propostas, como sócio proponente. Só

unidos, jovens e veteranos faremos jus ao porquê, de porque

somos diferentes!

«Fuzileiro uma vez, Fuzileiro para sempre».

Fernando Jorge Monteiro

1.º MAR FZ

Sóc. proposto da AFZ

Nota da Redacção: Com os nossos parabéns aos “Escolas 98” desejamos muita saúde para todos e propomos que, para o ano, organizem o vosso “almoço/convívio” na sede da AFZ, a

vossa “Casa”, onde encontrarão com certeza, espaço, ambiente amigo e qualidade/preço adequados, às descargas das vossas saudades e nostalgias.

Companhias de Fuzileiros N.º 2

Angola 1966/69 - 3 de Novembro de 2012

Angola 1970/72 - 17 de Novembro de 2012

No passado dia 3 Novembro, reuniu em

almoço/convívio no Restaurante da nossa

Associação, a CF N.º 2 - guarnição de Angola

em 1966/69 e, no dia 17 Novembro,

reuniu a CF N.º 2 - guarnição de Angola em

1970/72.

Em cada um deles, estiveram presentes

cerca de 40 pessoas, camaradas d’Armas

e familiares.

Solicita-se aos Camaradas que não têm

sido contactados porque não sabemos o

seu paradeiro que contactem o Sequeira

(1622/65) através da Associação.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 21


corpo de fuzileiros

O

Museu do Fuzileiro está situado na

Escola de Fuzileiros em Vale de Zebro,

Barreiro. A ideia da obra foi-se

colocando no início da década de oitenta,

quando após o fecho do ciclo ultramarino,

uma quantidade significativa de peças-

-memória foi oferecida à Escola de Fuzileiros,

por personalidades militares e civis,

sobretudo antigos e atuais fuzileiros e para

a preservação e apreciação das quais não

havia espaço adequado.

Após um notável e raro trabalho de restauro

no piso térreo do edifício em que se

encontra localizado, pondo «a descoberto

os apontamentos [de alguns] dos antigos

Fornos do Biscoito e as respectivas saídas

de ar», por dedicação e conhecimento de

alguns fuzileiros foi em 1984 inaugurada a

“Sala-museu” do Fuzileiro.

Museu do Fuzileiro

O seu interior dá-nos uma imagem singular

da sólida traça pombalina, onde domina o

tijolo a cutelo e os tetos se organizam em

abóbadas de “barrete” e de “berço”. Nele

se encontra exposto algum do acervo que

ilustra o historial dos fuzileiros.

No atual itinerário do museu expõem-

-se ainda alguns dos bens museológicos

alusivos ao fabrico do biscoito, “ração” de

400 gramas diários a que na época dos

Descobrimentos cada tripulante tinha direito

assim como os que garantiam serviço

nas “Fortalezas do Reino”.

Os fornos reais do Vale de Zebro, só entre

1505 e 1507, fabricariam 300 toneladas

de biscoito por ano, tendo sido o motor

da “história das navegações». Neste contexto

encontra-se também aqui a muito

apreciada “Sala do Biscoito” patrocinada

NOTA: Este texto foi escrito segundo o novo acordo ortográfico

pela Câmara Municipal do Barreiro, com

objetos cerâmicos encontrados no campo

arqueológico da Mata Nacional da Machada,

datados dos séculos XV e XVI.

Como valor simbólico e afetivo, o Museu

dos Fuzileiros é local de visita obrigatória

dos fuzileiros, extensiva às suas famílias e

amigos, que frequentemente se reencontram

nesta Escola, em datas comemorativas,

para recordarem momentos transatos

e manterem vivas as referências.

As visitas constantes, quase diárias, são

vastíssimas, como se pode constatar pelos

números dos gráficos em anexo onde

realça que a maioria provém de escolas e

de outras instituições da área educativa,

sobretudo do Concelho do Barreiro e da

Área Metropolitana de Lisboa. Têm também

passagem obrigatória pelo Museu do

22 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Fuzileiro os formandos de todos os cursos

que anualmente passam pela Escola de

Fuzileiros, incluindo centenas de “civis”,

pertencentes a instituições com as quais

a Marinha tem protocolos de formação,

merecendo uma particular referência os

alunos do ISCTE/INDEG e os quadros superiores

do BPI.

Têm ainda passado por esta tão nobre

referência do Fuzileiro uma multiplicidade

de investigadores, professores e estudiosos

de diversas áreas do conhecimento.

Todas estas razões levaram a equacionar

uma beneficiação e remodelação dos

espaços e do património do museu, cuja

primeira fase terminou em 29 de julho

de 2005. Uma nova fase de ampliação,

abrindo mais uma ala ao Museu, foi

iniciada em julho de 2006.

20

15

10

5

0

2 3 3

50

13

9

100 Visitas

14

18

5

14

13

Janeiro

Fevereiro Março

Abril Maio

Junho Julho

Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro

Período das Visitas

50

5

Dias Úteis

Fins-de-semana/Feriados

1

O Museu do Fuzileiro está incluído nas

visitas guiadas no âmbito do programa

dos Itinerários Culturais da Comissão

Cultural da Marinha, inseridos no Plano de

Ação Cultural da Margem Sul.

Aguçamos assim o interesse daqueles

que porventura ainda desconhecem este

Museu e uma vez que “olhos que não vêm

coração que não sente”, venham senti-lo

numa próxima visita.

Lembramos que o Museu do Fuzileiro

pode ser visitado diariamente, por qualquer

pessoa, durante a hora de expediente,

individual ou coletivamente. Poderão

também fazê-lo aos fins-de-semana e

feriados, desde que previamente calendarizado

na Seção de Protocolo da Escola de

Fuzileiros, através dos seguintes contatos:

VISITAS EM 2012*

N.º Visitas

corpo de fuzileiros

– Telefs: 210 927 288 / 910 410 298;

– Email: m8a22651@marinha.pt;

– Fax: 211 938 542

O Museu pode ainda ser visitado

virtualmente nos sítios:

http://fuzileiros.marinha.pt/PT/Sala%20

Museu%20do%20Fuzileiro/Pages/

Sala%20Museu%20do%20Fuzileiro.aspx

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 23

600

500

400

300

200

100 88 70

0

215

e,

http://www.marinha.pt/conteudos_

externos/visitas_virtuais/museufuzileiros/

entrada/e/index.html

Visitantes: 3225

525

500

428 442

* Visitas externas. Não se incluem os cursos internos da Escola de Fuzileiros

140

Janeiro

Fevereiro Março

Abril Maio

Junho Julho

Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro

Colaboração da Escola de Fuzileiros

Vale de Zebro

399

318

97

Visitas/Entidades = 100

41

35

24

G.Escolares

G.Escolares

G.Escolares

3

Visitantes


homenagens

Prestando homenagem ao Sócio, ao Homem e ao Dirigente

damos à estampa alguns dos textos que tivemos oportunidade

de elaborar e/ou registar, após o desaparecimento do nosso

Sócio e antigo Dirigente:

24

COMUNICADO FÚNEBRE

Falecimento do Antigo Presidente da Direcção Nacional da

Associação de Fuzileiros, Sócio n.º 155, Sr. Dr. Ilídio das

Neves Luís

A Associação de Fuzileiros cumpre o doloroso dever de

comunicar o falecimento do seu antigo Vice-Presidente e

Presidente da Direcção Nacional, sócio n.º 155, Sr. Dr. Ilídio

das Neves Luís, ocorrido ontem, dia 19 do corrente mês de

Novembro, informando que o nosso Camarada ficará em

camara ardente, a partir das 17h00 horas de hoje, dia 20, na

Igreja de N.ª Srª. da Assunção (Av.ª D. João I – junto ao antigo

Tribunal) em Almada.

O cortejo fúnebre partirá, amanhã, dia 21, pelas 9h30 horas

para o Cemitério da sua terra natal – Ansião – Pombal –

Coimbra.

A AFZ far-se-á representar por significativa delegação.

A Direcção da AFZ apresenta à Família enlutada, do nosso

Ilustre Camarada, os mais sentidos pêsames.

Barreiro, 20 de Novembro de 2012.

O ACOMPANHAMENTO

O Sr. Dr. Ilídio Neves Luís, por quem nos reclinamos em derradeira

homenagem, era figura altamente considerada e exerceu as

funções de Vice-Presidente e de Presidente da AFZ, com grande

dignidade e competência, dando o melhor de si próprio à sua

Associação e tendo sido também o fundador da nossa revista

“O Desembarque”, então denominada boletim.

A Direcção Nacional da AFZ teve conhecimento do seu falecimento

na noite de 19 de Novembro p.p. e, logo na manhã do dia

seguinte, ainda mal se sabiam dos pormenores das cerimónias

fúnebres, publicou no seu site um comunicado e remeteu-o, via

correio electrónico, a todos sócios que dispõem deste meio de

comunicação;

Imediatamente foram dadas instruções ao Secretariado Nacional

para encomendar uma coroa de flores com a dignidade merecida

e o próprio Presidente da Direcção pediu que se constituísse uma

delegação para estar presente na Capela, no decurso do velório,

local onde se deveria colocar o Guião da AFZ e, a mesma ou outra

delegação deveria acompanhar o cortejo fúnebre, se tal fosse da

vontade da Família enlutada.

Imediatamente a seguir à chegada da urna à Igreja, em Almada,

apresentaram-se a acompanhar a Família vários elementos

dos Órgãos Sociais, designadamente: da Direcção Nacional: os

dois Vice-Presidentes, o 2.º Vogal Efectivo, o 4.º Vogal Efectivo

e o 1.º Vogal Suplente; da Assembleia-Geral: o 1.º Secretário

da Mesa; do Conselho Fiscal: o Presidente e o Vice-Presidente.

A Associação Nacional de Fuzileiros

presta homenagem ao seu antigo Presidente,

Dr. Ilídio das Neves Luís

Muitos sócios fuzileiros e não fuzileiros, militares, ex-militares e

civis também estiveram presentes.

Um dos Vice-Presidentes, após autorização da Família, depositou

a coroa de flores, colocou o Guião da AFZ, em local adequado e

depositou uma Boina Azul Ferrete, com âncora, sobre a urna, ainda

aberta. Pediu-se ao 2.º Vogal da Direcção Nacional, elemento

que sempre foi mantendo muito próximo contacto com o nosso

Ilustre Camarada Ilídio e com a sua Família, que estabelecesse as

comunicações e tomasse as iniciativas que considerasse convenientes,

em nome da Direcção Nacional da AFZ.

A Missa de Corpo Presente foi rezada pelo Capelão do Corpo de

Fuzileiros, Capitão-Tenente Licínio Silva.

Dado que o cortejo fúnebre seguia, no dia seguinte, para Ansião

– Pombal, a AFZ enviou a sua viatura de nove lugares com elementos

dos seus Órgãos Sociais (2.º Vogal da Direcção, 4.º Vogal

e 6.º Vogal, 1.º Vogal Supl. – gente prestigiada na AFZ) na qual

também viajaram o Presidente da Delegação de Fuzileiros de Juromenha/Elvas

e mais dois elementos desta Delegação e ainda o

Capelão do Corpo de Fuzileiros.

Deslocados do Norte para Ansião estiveram, também presentes,

na última cerimónia fúnebre, o Presidente da Direcção da Delegação

de Fuzileiros de Vila Nova de Gaia e ainda outro camarada

daquela direcção.

Infelizmente, por impossibilidade absoluta, que foram explicadas,

à Família por um dos Vice-Presidentes, nem o Presidente da Direcção

nem os dois Vice-Presidentes puderam deslocar-se a Ansião,

acompanhando o cortejo que integrou, aliás, várias viaturas.

A Memória do nosso Ilustre Camarada Ilídio Neves Luís foi tratada,

pelos Dirigente Nacionais e Regionais, sublinhe-se, com a

máxima dignidade e, sobretudo, com elevado espírito ético, e de

solidariedade, camaradagem e amizade, mas também de humildade

e do necessário recato, sendo que a sua imagem figurará

nos escaparates de quem serviu com excepcional dedicação e

alta competência a Associação de Fuzileiros.

Quando o corpo desceu à terra, com autorização da Família, ouviu-se

o “Grito do Fuzileiro”.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


VOTO DE PESAR

A AFZ recebeu, da Assembleia Municipal de Almada, um Voto

de Pesar aprovado por unanimidade, pelo falecimento do nosso

antigo Presidente da Direcção, Dr. Ilídio Neves Luís.

Pela iniciativa da AMA nos congratulamos, já que o Dr. Ilídio

constituiu, para a nossa Instituição, motivo de particular orgulho,

representando o que de melhor teve a AFZ, sendo que a sua

memória continuará sempre viva e a sua obra preservada com

a maior dignidade, a mesma com que o acompanhámos e à sua

Família, em momentos que apenas considerámos um “até já,

Caro Ilídio”.

É pois com particular interesse que publicamos, na íntegra, o Voto

de Pesar da Assembleia Municipal de Almada, Concelho em que o

nosso malogrado Amigo residia há muitos anos.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

homenagens

25


homenagens

Manuel dos Reis Florindo

(1.º S H FZE)

Sócio nº. 2074

Tinha terminado o meu curso de

Enfermagem Geral no HM (Hospital da

Marinha) havia meses. Era espectável

que em qualquer momento seria colocado

em uma qualquer unidade naval. Mas,

contra todas as minhas espectativa, e

recebi guia de marcha para a Escola de

Fuzileiros para frequentar o curso de

Fuzileiros Especiais.

Terminado este e com aproveitamento fui

convidado a integrar o DFE 12 que mais

tarde seguiria para a Guiné-Bissau em

missão de soberania. Essa mítica unidade

de elite que naquelas paragens tão bem

soube honrar as características genuínas

e guerrilheiras dos Fuzileiros Especiais,

integrava um Homem com o qual já antes

iniciara uma relação de amizade, alicerçada

em muitas horas de convívio durante e

após o curso de fuzileiros e até, em algumas

delas, em minha casa. Esta amizade,

este relacionamento, pautou-se sempre

por uma inegável reciprocidade de respeito

e senso comuns, norteando-se por uma

comunhão de ideais convergentes que

cimentaram um entendimento amistoso,

onde imperava a consideração e respeito

mútuo que haviam de se perpetuar ao

longo do tempo que juntos tivemos (tive)

a felicidade de partilhar antes, durante e

depois da nossa missão daquela unidade

militar na Guiné. Já no INAB passávamos

longas horas em amena cavaqueira onde

se ventilavam os assuntos mais variados,

não só relacionados com o DFE12 mas

também com os que se relacionavam com

aspectos disciplinares do pessoal da forma

como os militares se alimentavam, com o

que faziam nas horas de ócio, com o seu

estado sanitário, matéria para a qual eu

tinha particular responsabilidade. Eram

normais as conversas sobre a guerrilha na

qual estávamos envolvidos, o porquê da

nossa presença naquele território ultramarino,

do êxito ou fracasso do nosso esforço

bélico, da política local e nacional, etc. etc.

Este Homem, que sempre confiou nos

meus conhecimentos técnicos como

Enfermeiro ao serviço do DFE12 (Obrigado

Comandante Rebordão de Brito) senhor de

um espírito fortemente solidário, abnegado,

criterioso, de profunda sensibilidade

humana, foi sempre visto pela comunidade

militar do DFE12 e não só, como um

ídolo, um mentor, um estratega, com uma

visão subtil e discernida no T.O. (teatro

Homenagem a Rebordão de Brito

operacional) interagindo de uma forma

peculiar com a “maralha” que sempre,

mas sempre, o acompanhava sem hesitar

na preparação e execução dos “golpes de

mão”, quaisquer que fossem os obectivos

traçados e os riscos previsíveis daí

resultantes.

Terminada a comissão de serviço o DFE12

regresso a Lisboa mas, logo aseguir, por

opção pessoal regresso à Guiné na Companhia

N.º 11 de Fuzileiros. Dois anos depois

passo a integrar o serviço de saúde do

CDMG. Meses mais tarde, por exigências

estratégicas do CDMG sou enviado para

Bolama. Tive aí a sorte de encontrar novamente

o Comt Rebordão de Brito. Foi mais

uma oportunidade para podermos dissecar

temas já nossos conhecidos, acrescidos

agora de situações militares e pessoais diferentes

que culminaria com a entrega do

espólio das existências de material bélico,

infraestruturas e material de saúde aos

militares do PAIGC. Mais uma vez constato

que aquele Homem mantinha integro

o carácter que conheci nos primeiros dias

do curso de fuzileiros mantendo incólume

a sua personalidade e atitude cívica, nunca

ostentando os “galões” para a resolução

de quaisquer problemas disciplinares

inerentes à sua condição de Comandante

mas, nunca se inibindo de imprimir no seu

discurso, a sua posição de oficial competente

e responsável pela defesa e condução

dos militares ali instalados. Aquando

do regresso definitivo à Metrópole os nossos

contactos pessoais diminuíram drasticamente.

De quando em quando, num encontro

casual ou nos tradicionais almoços

anuais do DFE12 era pretexto para longos

minutos de conversa, rememorando-se

episódios e factos vividos e sofridos, naquela

terra distante onde tantos homens

derramaram sangue suor e lágrimas e outros,

infelizmente, perderam a vida.

Um dia... Inesperadamente ou talvez não,

soube que o Comandante dera entrada no

HM por patologia clínica desfavorável complicando-se

o seu estado de saúde. Com

prognóstico bastante reservado fiquei com

a nítida sensação de que a evolução da sua

doença iria progressiva e vertiginosamente

diminuir a sua presença entre nós. Fui

visitá-lo várias vezes ao HM e sempre que

o abraçava para me despedir tinha a noção

de que não era viável voltar a fazê-lo

muitas mais vezes. Apesar de todo o seu

optimismo contagiante, era evidente que a

oportunidade de disfrutar da sua companhia

estava cada vez mais comprometida.

O fatídico desenlace era, infelizmente, previsível.

Volvidos anos após a sua morte,

não quero deixar de prestar publicamente

a minha sincera homenagem de gratidão e

respeito para com este Homem que moldou

subtilmente o meu ego, impregnando-

-o de uma maior clarividência nas formas

e conteúdos de como se deve estar e viver

na vida.

A forma como fui recebido e tratado no

seio dos fuzileiros Especiais do DFE12 com

especial relevância para o Comandante

Rebordão de Brito, foi e será sempre um

traço indelével na minha conduta como

homem, militar e, com muito orgulho,

como FUZILEIRO.

Obrigado comandante por ter permitido

partilhar consigo tantos momentos de

camaradagem militar, pessoal e familiar.

Paz à sua alma...

26 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Almirante Nuno Gonçalo

Vieira Matias

NOTA: Entrevista conduzida pelos Vice-Presidentes da AFZ Cardoso Moniz e Marques Pinto

e conversão para texto escrito de Maria Cecília e Marques Pinto

O

Almirante Nuno Vieira Matias é o Socio Originário, n.º 1590, da Associação Nacional

de Fuzileiros, tendo sido distinguido pela respectiva Assembleia-Geral, com a

designação honorífica de Sócio Honorário. Atingiu o posto de Almirante, o mais alto

da carreira da Marinha de Guerra Portuguesa e, simultaneamente, o cargo máximo da

Marinha, de Chefe do Estado-Maior da Armada, funções que exerceu entre 1997 e 2002.

O Almirante Vieira Matias concluiu a sua licenciatura na Escola Naval em 1961, tendo-se

oferecido como voluntário para embarcar na então Fragata “Vasco da Gama” para uma

comissão de serviço em Angola (1961/1963).

Especializou-se em artilharia e em fuzileiro, tendo combatido na Guiné, como Comandante

do Destacamento N.º 13 de Fuzileiros Especiais (1968/1970).

entrevista

Desempenhou sucessivamente as seguintes funções: Professor da Escola Naval em acu-

O Almirante Vieira Matias enquanto CEMA

mulação com Director do Laboratório de Explosivos, comandante da Força de Fuzileiros

do Continente (1976/1978), Capitão dos Portos de Portimão e de Lagos, Comandante do N.R.P. “João Belo”, Chefe de Divisão do

Estado-Maior da Armada e Professor do Instituto Superior Naval de Guerra.

Além da sua formação em Escolas Nacionais frequentou, em países NATO, uma dezena de cursos de que se destaca o “Naval Command

College” nos EUA (1988/89).

Nos postos de Almirante desempenhou ainda os seguintes cargos: Subchefe do Estado-Maior da Armada, Superintendente dos Serviços

de Material, Comandante Naval em acumulação com o cargo NATO “Comander-in-Chief Iberian Atlantic Área” (1995-1997).

Depois de desligado do serviço (2002) foi membro da Comissão Estratégica dos Oceanos e do “European Security Research Advisory

Board” da Comissão Europeia e é: Presidente da Academia de Marinha, Vice-Presidente da Direcção da Sociedade de Geografia de

Lisboa, Membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, membro de Mérito da Academia Portuguesa da História e do Conselho de

Honra do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, Presidente do Conselho Supremo da Liga dos Combatentes

e Membro do Conselho Nacional de Educação, em representação da ACL e Professor Convidado do Instituto de Estudos Políticos da

Universidade Católica Portuguesa.

É, ainda, autor de diversos trabalhos e artigos sobre estratégia marítima, segurança nacional e economia do mar.

Foi agraciado com 16 condecorações nacionais (incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo e a Grã-Cruz de Aviz) e com 10 condecorações

estrangeiras (Brasil, Espanha, Estados Unidos da América, França e Itália).

De personalidade serena, de extrema simplicidade, mas de arguta inteligência, homem de cultura que conjuga um pragmatismo

executivo notável com um inato perfil de liderança, o Almirante Nuno Gonçalo Vieira Matias é do melhor que já teve e têm, a Marinha

de Guerra, as Forças Armadas Portuguesas e Portugal.

Tê-lo como consócio, entrevistado da revista “O Desembarque” e como camarada de armas é subida honra para a Instituição que ora

servimos e para quem teve a dita de o entrevistar.

Marques Pinto (MP): O que levou o Sr. Almirante a optar pela Marinha de Guerra? Foi por tradição familiar? Por vocação? Faça-nos, por

favor, um pouco da sua história de vida, até ingressar na Escola Naval.

Almirante Vieira Matias (VM): É como muito gosto que falo para a revista da Associação de Fuzileiros – a nossa Associação – e começo

por dizer que conheci o Mar, que vi o Mar pela primeira vez com os meus 3 anos, na Nazaré. E não gostei, provavelmente porque a areia

me entrava pelas sandálias… Mais tarde, o meu Pai que era funcionário público foi colocado em Portimão. Eu tinha 11 anos e então o

Mar foi para mim uma revelação extraordinária. O porto de Portimão tinha um enorme movimento de embarcações e tudo aquilo foi um

verdadeiro paraíso que se me abriu. Aprendi a nadar nesse Verão e, em Outubro, estava inscrito na Vela da Mocidade Portuguesa, onde

comecei a aprender a “arte de velejar”. Gostei imenso da Vela. Gostava sobretudo daquelas saídas de Portimão. Ir para o Mar, passar

pelo meio das pedras do molhe, limpar a embarcação era para mim de um supremo bem-estar e, adolescente que era, constituiria

também um desafio. É curioso que não gostava das regatas: a competição e até uma certa confusão retiravam à vela – pensava eu – a

serenidade do Mar… Mas, a certa altura disseram-me que iria disputar-se um Campeonato Nacional, em Lisboa, cidade capital que eu

não conhecia e que, quem ganhasse as regatas, em Portimão, seria selecionado para ir a Lisboa. Percebi, então, que era altura de me

aplicar. Fiz as regatas e vim a Lisboa. Foi quando o “bicho” do Mar tomou conta de mim. Conhecer as embarcações e tentar perceber

o que seria a vida do mar despertou-me especial encanto. A somar às minhas motivações, o facto de o meu Pai ter sido uma pessoa

extremamente culta, gostando muito de ler a História. Nos fins-de-semana – não havia televisão nessa época em casa – liam-se os

cronistas e, por vezes, o Pai punha-me a ouvi-lo ler o Zurara ou as viagens de Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig. Enfim, tudo isso

“ia entrando em mim” como uma ideia de hipótese de grande satisfação de vida. E foi assim que – embora tendo outras opções pelas

notas que tinha no Liceu e tendo pensado mesmo em medicina e engenharia – decidi concorrer à Escola do Exército, para fazer os

preparatórios, e poder ingressar na Escola Naval.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 27


entrevista

Cardoso Moniz (CM): Então, és natural de Leiria?

VM: Não, de Porto de Mós… Sou da terra de um Almirante da

lenda da Praia do Sítio, D. Fuas Roupinho.

Mas, continuando: fiz o primeiro ano dos preparatórios na Escola

do Exército, concorri (com imensos concorrentes) à Escola Naval,

mas fui apurado porque só tinha 19 anos, era dos mais novos, e

as notas também eram boas.

CM: Eu estava a tentar perceber como é que tu foste da Nazaré

para Portimão sem passar por Lisboa.

VM: Como já disse, o meu Pai era funcionário público e naquele

tempo os funcionários do Estado tinham mobilidade, por várias

razões e quase sempre quando eram promovidos. De facto, não

passei por Lisboa. Só vim a Lisboa, pela primeira vez, às regatas

da Mocidade Portuguesa.

CM: Então, ficaste apurado…

VM: Exactamente. Fiquei apurado. Vim às regatas e depois entrei para a Escola Naval (1958).

Como já tenho, algumas vezes, referido a Marinha já nessa altura estaria a prever ou tinha mesmo previsto que poderia haver problemas

nos nossos territórios ultramarinos, porque as independências dos territórios africanos (ingleses, belgas, franceses) estavam a ocorrer

a um ritmo impressionante, em zonas de fronteira com os territórios portugueses. Isto para dizer que entrei para a Escola Naval com o

1.º Curso da Reserva Naval, que integrava uma reforma da Marinha que considero brilhante e que previa aumentar os efectivos, com

gente especializada com formação superior, ao nível de oficiais, recrutados do serviço militar obrigatório. É também deste ano (1958)

a proposta do Estado-Maior da Armada para que fossem formados fuzileiros, uma espécie de organização de comandos, semelhante

aos “marines” da Royal Navy, mandando especializar como monitores/formadores em Inglaterra, os primeiros 4 elementos que, depois

viriam a ser instrutores dos cursos de fuzileiros: um Oficial (Pascoal Rodrigues) e quatro praças, das quais ainda vive o célebre (ora

sargento reformado) Santos Silva o “Piçarra”. Resumindo: foi esta perspectiva, esta previsão de grande alcance que considero brilhante

na Marinha dessa época. A tudo isto juntou-se a aquisição de navios para a tradicional Marinha (missões em África, da NATO e de

soberania, no nosso território, aqui, na Europa)…

MP: E portanto é assim, Sr. Almirante, que depois de promovido a Guarda-Marinha o seu percurso decorre nos navios, até que foi

chamado a frequentar o Curso de Fuzileiros.

VM: Exactamente. Quando começa o terrorismo, em Março de 1961, em Angola (sim, porque aquilo foi um verdadeiro terrorismo,

uma selvajaria) eu estava quase no fim do curso da Escola Naval. Então a Marinha antecipou-nos o final do curso e mandou-nos, imediatamente

em viagem de instrução de guardas-marinhas, na então Fragata “Pêro Escobar” (navio que ficou conhecido como “Gina

Lollobrigida” pela beleza das suas linhas). Chegados a Angola, o navio foi integrado no dispositivo naval de contra penetração, de apoio

às operações em terra e de apoio logístico. Acabado o tempo de instrução, fomos mandados regressar a Lisboa de avião. Logo que me

apresentei na Direcção do Serviço de Pessoal ofereci-me como voluntário para qualquer comissão de serviço em Angola.

MP: Como Fuzileiro?

VM: Não, ainda como Oficial da Classe de Marinha. Tinha ficado tão impressionado com o que se tinha passado em Angola, que me

ofereci imediatamente para voltar. Quinze dias depois, estava a sair a barra como Oficial de Navegação da Fragata “Vasco da Gama”

que, entretanto, tinha chegado de Inglaterra. Desempenhei as funções de Oficial de Navegação e Chefe do Serviço de Informações

de Combate. Cheguei novamente a Angola, em Dezembro de 1961. Dois dias antes de chegar a Luanda, a 18 de Dezembro, ocorreu

a invasão da Índia, o que nos marcou profundamente, para toda a vida. Cumpri, pois, a comissão em Angola de dois anos, (1961/63)

tendo desembarcado por 3 vezes, para patrulha do rio Chiloango, em Cabinda, por períodos de dez dias, onde pela primeira vez tive

oportunidade de comandar Fuzileiros, embarcado nas lanchas “Lué Grande e “Lué Pequeno” e também em botes. A primeira vez

que desembarquei, foi só com pessoal do navio, da segunda e da

terceira já levei uma secção de Fuzileiros. Foi, por assim dizer,

o meu primeiro contacto com os fuzileiros, fuzileiros que tinham

sido formados há pouco tempo, que eram constantemente solicitados

e que estavam em fase de adaptação àquele conjunto

diversificado de missões, com exigências muito grandes, talvez

excessivas, pelas condições adversas onde tinham de actuar.

No âmbito da estratégia da Marinha, ao nível da contenção, e da

contra penetração, nos rios e no mar, os fuzileiros eram também

necessários para operações em terra. A minha percepção foi que

talvez tivessem nessa altura (embora como oficial muito jovem)

exigências excessivas. Mas, mesmo assim, os fuzileiros cumpriram

e desempenharam muito bem as suas missões.

Vestido de mandinga - Bissau

Em operação na Guiné, Rio Cacheu - Concolim - 16/08/1968

Terminada a comissão de serviço, não tive direito a férias. Cheguei

no navio a Lisboa, e dois ou três dias depois fui mandado

frequentar o curso de especialização em artilharia que já estava a

decorrer. Para me casar tive que aproveitar, no período de Natal,

28 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


entrevista

o intervalo entre duas divisões de serviço diário no Grupo N.º 2 de Escolas da Armada. Terminado o curso fui servir na Direcção dos

Serviços de Material de Guerra e Tiro Naval, onde fiquei quase três anos, tendo sido, a partir de certa altura, inscrito numa lista de

indisponíveis para ir para África, face à importância que era dada à Secção que eu chefiava, de munições de artilharia e de armamento

portátil. Só que, a determinada altura, havia necessidade de oficiais de Marinha para o curso de fuzileiros especiais e… deixei de ser

indispensável.

CM: Mobilizaram-te …

VM: Exactamente. Em 1967, fui tirar o curso de Fuzileiro Especial, com as dificuldades próprias de quem estava há três anos em

lugar de secretária. Tive, porém, a noção de que tinha de me empenhar ao máximo, já que o que estaria em causa era a segurança

dos homens que eu fosse comandar e a minha própria segurança. No fim do curso fui

escolhido para ir comandar o Destacamento N.º 13 de Fuzileiros Especiais, para a Guiné.

E lá estivemos durante dois anos (Abril de 1968/ Fevereiro de 1970).

MP: Diga-nos alguma coisa sobre o comando do seu DFE. E conte-nos o que foi a sua

Comissão de Serviço na Guiné. Como viu a guerra do Ultramar ao tempo e como a vê

hoje, à distância de mais de trinta anos?

VM: Sim, senhor. Eu tenho uma visão, que venho comunicando em várias conferências,

em estudos superiores militares, em actividade civil, etc.

Começando pelo aspecto mais geral: a África Portuguesa era muito cobiçada e aquilo

a que chamam os “ventos da história”, não eram ventos da história. Eram “ventos da

cobiça”. África era cobiçada pelas grandes potências: Estados Unidos de um lado, União

Soviética do outro, para falar só de duas. Em Angola, por exemplo, a guerrilha começou

sob influência dos Estados Unidos. A sua Igreja Baptista tinha particular influência na

UPA, (União dos Povos de Angola) o movimento que lançou o terror em Angola, a partir

de 1961. Alguns dos nossos territórios ultramarinos eram muito ricos, pelo que não

ficaram imunes ao movimento de cobiça dos países que tinham sido colonizadores

ou ditos “colonizadores” e também de outros que o não tinham sido, mas com claras

apetências para essa área do Mundo. O que se gerou foi um movimento no sentido

de dar a independência ou promover a independência desses territórios, atribuindo-se

aos povos locais a responsabilidade de se governarem, mas continuando, os países

promotores a ter a possibilidade da exploração das suas matérias-primas. Houve um

grande cinismo da comunidade internacional. Pretendeu-se obter o melhor de dois

Guiné, no Rio Buba - Dezembro de 1969

mundos, isto é, apoiavam, promoviam as independências, mas continuavam a obter as

mais valias da economia… e, depois “eles” que se governassem . Não tinham responsabilidades de governação, de apoiar o povo, mas

iam tirar partido das mais valias desses territórios. Foi um pouco o que aconteceu. E eu já o disse a oficiais superiores africanos que,

numa conferência, levantaram o dedo e referiram: - “O Sr. Almirante está cheio de razão”.

MP: Passemos ao seu percurso no seu Destacamento de Fuzileiros, na Guiné. E depois? Como foi a sua vida? Um homem que, inicialmente

não tinha como projecto ir para os fuzileiros e que se vê de repente, a comandar 75 homens, numas condições como eram as

da Guiné… Como encarou tudo isso?

VM: A questão é importante. Vi “tudo isso” como vi tudo na minha carreira. Era uma imposição de serviço. Eu estava na Marinha

para servir e portanto teria que servir o melhor que pudesse e soubesse. E por isso, da mesma forma como assumi outras funções

empenhei-me, também, no comando da actividade do meu Destacamento até ao limite das minhas capacidades, apesar das difíceis

condições operacionais, logísticas e humanas em que nos encontramos a maior parte do tempo. Claramente, o Comando da Defesa

Marítima da Guiné não estava preparado para apoiar os DFE’s fora da base, em Bissau, e nem sempre fez o esforço necessário para se

adaptar. Havia até quem pensasse que para os Fuzileiros qualquer coisa servia!!! Mas assumi a missão com toda a energia, procurando

mesmo suprir lacunas, lançando mão da enorme capacidade de adaptação e da sagacidade do nosso pessoal. Se não nos apoiavam

com “intelligence” nós tratávamos disso na zona, se não nos mandavam alimentação, nós caçávamos ou pescávamos à granada, etc .

Na verdade a comissão de serviço na Guiné teve duas fases: numa primeira, muito curta, tínhamos base em Bissau, com instalações

muito bem estruturadas e organizadas, na sequência do emprego operacional dos Fuzileiros que estava a ser feito, desde há anos.

CM: Ainda lá estava o Ferrer?

VM: Já não estava. Teria saído havia relativamente pouco tempo.

Portanto, como estava a dizer, nessa primeira fase saíamos nas lanchas – e também aconteceu algumas vezes, sairmos de helicóptero,

em operações helitransportadas – mas, sobretudo, saíamos nas lanchas para vários locais. Também fazíamos operações de vigilância

e contra penetração, destacando Secções ou partes dos Grupos de Combate do Destacamento para os rios, como Mansoa, Cacheu,

Grande de Buba, etc

Apenas como exemplo, refiro que, nas vésperas do Natal de 1968, tivemos de ocupar uma ilha, durante dois dias, de onde os morteiros

82, russos, podiam atingir o aeroporto de Bissau como, aliás, tinha acontecido no Natal de 1967.

Com a chegada do General Spínola, desenha-se uma segunda fase fruto de ele ter tido, na minha perspectiva, uma boa visão estratégica

do conflito. É que a guerrilha não se alimenta exclusivamente da população, contrariamente ao pensamento de Mao-tse-tung que

pretendia ensinar que “a população está para o guerrilheiro como a água está para o peixe”. Isso é parcialmente verdade. A água dá

oxigénio ao peixe. A população dá comida aos guerrilheiros mas não lhe dá munições nem armamento.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 29


entrevista

Percebeu-se então – com base nas nossas informações – onde se situavam os corredores de infiltração: um no Norte, a partir do

Senegal, sobretudo pela península de Sambuiá, e outro no Sul. O Comando-Chefe atribuiu à Marinha uma zona de operações em

permanência no Norte, no rio Cacheu. Aqui, a nossa Marinha desenhou uma excelente operação que foi a “Via Láctea” que demorou

meses, com pessoal no terreno, e no rio, 24 horas sobre 24 horas, com lanchas dos vários tipos e com fuzileiros emboscados em botes

e com pontuadas nas margens. Ora, durante esse tempo, a penetração de armamento foi reduzida de tal maneira que a flagelação dos

quartéis, do lado Sul do Cacheu, que era da ordem das 60 a 70 vezes por mês, passou para 3, 4, ou pouco mais, exactamente porque

a guerrilha não tinha munições nem renovação de armamento.

Só que, como não havia meios para permanecer naqueles locais, tendo a base em Bissau, mandaram-nos instalar em Ganturé. Ficámos

em péssimas condições. Os primeiros DFE’s a iniciar tal prática foram o 12 (Cte Pedrosa) e o 13 (o meu) aproveitando 3 barracões em

ruínas que tinham servido para armazenar mancarra (amendoim), junto ao rio e aos campos de arroz, as bolanhas. Nem sequer levámos

mosquiteiros…! É interessante relembrar a imagem de um camarada nosso da Marinha que escreveu – referindo-se ao tempo em que

tinha permanecido num sítio semelhante – que “os mosquitos eram tantos que deitava-se a mão ao ar, espremia-se e escorria sangue”.

CM: Uma pergunta que vem na sequência da minha experiência em Angola. Junto à fronteira nos locais de penetração, seria possível

fazer patrulhamento com viaturas de tracção às quatro rodas, a corta mato?

Com Oficiais e cadetes na EFZ

VM: Não. O terreno da Guiné é extremamente ensopado, cortado por inúmeras linhas de

água. E os rios que correm no sentido Norte/Sul têm nas margens, quantidades brutais

de “mangal” selvagem, aquele mangal densíssimo, só penetrável por forças anfíbias

muito bem preparadas, no fundo, pelos Fuzileiros. Quando acaba o “mangal” não começa

abruptamente a mata, isto é, há a “bolanha” de permeio até à mata encharcada. Trata-se

de terrenos quase impossíveis de serem trilhados por quaisquer viaturas. A maior eficácia

era conseguida pela patrulha dos rios com lanchas e botes dos Fuzileiros e pela acção

destes também em terra, com aconteceu na longa operação “Via Láctea”.

A propósito: em consequência dos resultados que se obtiveram, entretanto, o General

Spínola mandou 3 ou 4 companhias do exército entrarem na península de Sambuiá

limitada a Sul pelo Cacheu, e no sentido Norte/Sul pelos rios Talicó e Sambuiá. A coisa

não correu bem. Uma companhia teve uns mortos, outras não conseguiram entrar nos

rios e, então, o General Spínola deu ordens (de uma quinta-feira para segunda-feira)

que avançassem os fuzileiros. Foi o DFE 12, do Pedrosa e fui eu (DFE 13). Levámos

cada um só meio Destacamento, ficando os outros meios em “stand-by”, nos rios para

desembarcarem, em manobra, onde fosse necessário. Fomos, penetrámos e tivemos

sucesso. Eu trouxe cerca de 20 prisioneiros e algumas armas.

Apenas depois de capturados esses prisioneiros, se veio a saber da existência de

arrecadações, depósitos de armamento que os guerrilheiros traziam em colunas do

Senegal e que, naquela altura, deveriam estar a chegar ao Cacheu.

Presumo que os guerrilheiros e as suas chefias pensassem que nós não teríamos a

persistência suficiente para continuar no terreno em condições extremamente hostis.

De facto, lanchas e fuzileiros permanecemos nos locais de emboscada e de patrulha 24 horas por dia fazendo abortar as tentativas de

“cambança” do IN, ou interceptando mesmo as travessias do Cacheu.

Depois, acabei por fazer uma operação helitransportada sobre a Península do Sambuiá, próximo do Senegal com apenas 30 homens.

Foi a operação “Grande Colheita”. Apanhámos cerca de 200 armas entre ligeiras e pesadas e 150.000 munições. Para recuperar o

armamento, conduzindo-o para Bigene, foram empregues cinco helicópteros que andaram uma tarde inteira a carregar e descarregar

armamento.

Foi uma operação para que me ofereci directamente ao General Spínola, quando ele foi a Bigene indagar como tinha corrido uma

operação do Comando Operacional 3 nessa zona, mas sem grandes resultados. Pretendia mandar lá Paraquedistas, mas eu apesar de

ter chegado do mato horas antes fiz prssão para ir lá com os meus Fuzileiros. Aceitou, mas que fosse só uma vaga de helicópteros com

30 homens! Preparei o meu grupo para essa emergência e determinei que se levasse o máximo de munições, que ninguém levasse

água (eram só uma horas. Eu próprio levava uma ou duas granadas de bazooka. Fizemos essa apreensão, e cheguei ao fim do dia para

reembarcar e dizem-me: “Não, fica para o dia seguinte.” Fiquei no mato para o dia seguinte, próximo do Senegal, com cerca de 30

homens, onde eles tinham umas centenas largas de guerrilheiros. E o General Spínola (pelo piloto do helicóptero da última vaga que

levou o material) manda-me dizer para ficar ali, no sítio onde eu estava e que, num raio de 3 quilómetros iria mandar fazer fogo de

artilharia batendo o terreno desde o ponto onde eu estava, de noite. E eu disse ao piloto: “Diga ao Sr. General que eu não quero fogo

de artilharia (eu sabia como era… sou artilheiro) e que não vou ficar aqui “. Assinalei na carta do piloto o local (eu já tinha identificado

aquilo, segundo a boa táctica de fuzileiro). Então, eu que tinha estado ali um dia inteiro …toda a “gente” (os guerrilheiros) sabia… Era

óbvio que caíam em cima de nós – ainda por cima, numa zona junto ao rio, com terreno aberto de lado –aquilo seria um morticínio

completo, era um massacre, se ficasse lá. De facto, tive a coragem de dizer: “Diga ao Sr. General que eu não fico aqui”. E disse ao

piloto onde iria ficar.

CM: E nessa noite bombardearam-te ou não?

VM: Fizeram fogo de morteiros e Foram lá. E eu fiquei na mata, num sítio que tinha identificado, segundo a boa táctica que aprendemos

na Escola de Fuzileiros, à noite e tudo caladinho. E fiz outra coisa: mandei retirar as pilhas todas aos rádios, para o pessoal não ter a

tentação de comunicar. Do outro lado da fronteira havia cubanos e guerrilheiros que nos poderiam detectar. No dia seguinte continuei,

por ali acima, numa operação típica dos fuzileiros.

30 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


MP: Depois da Guiné…

Imposição de distintivo pelo Comt Bacharel na EFZ

entrevista

MP: À distância de mais de 30 anos como vê a situação de Portugal

e esta guerra que nós fizemos?

VM: Foi uma guerra que demonstrou aquilo que de melhor os

portugueses têm que é capacidade enorme de sacrifício, uma

capacidade de ultrapassar dificuldades inopinadas e por vezes

muito grandes. Foi aquilo que o português sempre demonstrou

ao longo da história. Demonstrou também outra coisa: a capacidade

de nos relacionarmos com povos distantes e diferentes e a

nossa capacidade de aceitar a diferença e isso às vezes é muito

esquecido.

MP: Nessa medida, terá valido a pena…

VM: Valeu a pena com certeza. Demonstrámos que não eram os

outros a determinar aquilo que devíamos fazer. Tínhamos independência

no País e tínhamos independência nas nossas linhas

de acção e na nossa vontade. Tivemos sempre essa determinação

ao longo da história. Foi uma lição a tirar para o presente.

VM: Depois da Guiné, cheguei a Portugal e também não tive direito a licença. (risos e umas gargalhadas)

Mandaram-me imediatamente para a Escola Naval, para professor de artilharia onde até já tinha pontos para ver. Enfim… E aí fiquei,

durante cinco anos e tal, a leccionar a disciplina de artilharia acumulando com o cargo de Director do Laboratório de Explosivos. Entretanto

dá-se o “25 de Abril”, há o período do “PREC” e depois do “25 de Novembro” sou chamado ao CEMA para ir comandar a Força

de Fuzileiros do Continente. Disse ao CEMA: “Mas eu sou Capitão-Tenente e o comando da “Força” é de Capitão de Mar-e-Guerra.

E o que eu gostava era de ir embarcar”. E o CEMA disse-me: “pois é mas, depois, no fim, talvez lhe arranje uma Fragata”. E estive

dois anos como comandante da FFC, entretanto promovido a Capitão-de-Fragata. Tive oportunidade de trabalhar com o Comandante do

Corpo de Fuzileiros e com os outros Oficiais naquilo que estávamos a perceber tinha de ser a nova a reorientação da actividade dos fuzileiros

e uma nova orgânica, de batalhões, companhias, unidades de apoio de desembarque etc., uma nova estrutura visando as missões

que fossem necessárias para os fuzileiros. Começámos inclusivamente a fazer exercícios, primeiro ao nível de companhia, e depois, ao

nível de batalhão. Foi mais simples do que eu pensava, face ao período de agitação política que íamos vivendo. Conseguimos, de certa

forma, estabilização e eliminar a política da área militar dos fuzileiros. Planeámos um grande exercício que foi o “Albatroz”, realizado

em Sagres. Houve uma grande adesão da Força Aérea Portuguesa e do Comando Naval. Fez-se uma verdadeira operação anfíbia, onde

esteve o então Presidente da República, General Ramalho Eanes, a assistir aos desembarques. Estivemos lá durante quinze dias, nos

exercícios preparatórios. O Comando Naval aplicou as regras das operações anfíbias da NATO. Tentámos, pois, uma reorientação dos

fuzileiros, em termos operacionais e mesmo de mentalidades e começámos, também, a pedir a reformulação de equipamento. Fiz dois

anos de comissão na “Força” e depois “disse que era altura dos Oficiais da Classe de Fuzileiros” assumirem. E fui substituído pelo

Oliveira Monteiro. (Não me deram o comando de nenhuma fragata, “porque ainda era muito novo”, mas não o tinha sido para ocupar

um cargo de capitão-de mar-e-guerra sendo capitão-tenente!)

MP: - E dali até ao seu cargo de Chefe do Estado-Maior?

VM: Tive a oportunidade de continuar a acompanhar a evolução dos fuzileiros e tanto quanto possível de a motivar, como foi o caso de

quando fui Subchefe do Estado-Maior da Armada, Comandante Naval ou Subintendente dos Serviços do Material. A compreensão que

tinha dos fuzileiros ajudou-me a incentivar o seu reequipamento, a evolução do treino e a frequência de alguns cursos no estrangeiro

com outras forças congéneres.

Como Chefe do Estado-Maior tive duas preocupações enormes: o reequipamento dos fuzileiros com a Lei de Programação Militar e a

sua inserção em forças expedicionárias no estrangeiro. Que me lembre, tivemos, simultaneamente, fuzileiros nos Balcãs, em Timor

(tive a oportunidade de os visitar) e até em Moçambique, em apoio humanitário às cheias, e fuzileiros integrados numa força que teve

um papel notável na Guiné, no conflito entre Nino Vieira e Assumane Mané, em 1998.

A propósito deste conflito ocorre-me dizer que mandei, então, preparar uma força da Armada para sair. Assumi porque o poder político,

da altura, não estava sensibilizado para essas “danças” (risos) mas eu, pelas informações que ia tendo, achei que devia preparar

uma força com o navio o “Bérrio”, uma Fragata da classse “Vasco da Gama”, duas Corvetas, helicópteros e uma força de fuzileiros

e mandei-a sair para o mar. Quando fui questionado sobre porque tinha mandado sair a força, respondi que tinha decidido mandá-la

para exercícios, decisão que era da competência do CEMA. “Se decidirem que ela deve ir para a Guiné, ela já lá estará perto” (risos).

Mas tive de apanhar o Primeiro-Ministro Guterres numa cerimónia, nos Jerónimos, e disse-lhe que aquilo podia ser um morticínio de

portugueses a viverem, na Guiné, assim como de muitos estrangeiros, se não procedêssemos à sua exfiltração.

MP: Os Fuzileiros também andaram pela ponte de Entre-os-Rios e ouviu-se falar num sonar “de varrimento” lateral que teria sido

mandado vir do estrangeiro…

VM: Nós tomámos essa iniciativa. Mas já agora, aqui vai essa história da tragédia da ponte de Entre-os-Rios:

Eu estava no Porto, numa reunião dos Chefes Militares portugueses com os Chefes espanhóis, e lembra-me de ter visto o rio Douro

com uma corrente brutal. Ao fim da tarde, vim de avião para Lisboa e às três da manhã sou acordado porque tinha havido um desastre

enorme em Entre-os-Rios. Mandei aprontar imediatamente fuzileiros com botes para seguirem lá para cima e mandei accionar

vários meios, designadamente, do Instituto Hidrográfico e mergulhadores, mesmo antes de haver orientação politica. Estivemos lá

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 31


entrevista

muito tempo, como é conhecido, e a certa altura depois do Instituto Hidrográfico analisar a situação, verificou-se que ao fundo do rio,

faltavam 15 metros, isto é, tinham sido levados 15 metros de areia, que descalçaram os pilares da ponte… Concluímos então que

era necessário ter um sonar lateral, para encontrar os automóveis e o autocarro que tinham caído ao rio, porque a água era impenetrável,

barrenta, cheia de detritos e com uma corrente da ordem dos 10 quilómetros hora, o que inviabilizava o mergulho autónomo.

A solução era “arranjar” um sonar lateral para fazer essa pesquisa. Soube que havia um na Escócia e conseguimos que, de um dia

para o outro, ele chegasse a Portugal, alugado. Depois, a Marinha até teve de pagar o IVA do seu orçamento… (risos). Os fuzileiros

fizeram um trabalho notável, de resto reconhecido pela própria população e até houve um grupo de Senhoras que se organizou para

lhes arranjar refeições quentes. Não parava de chover e os fuzileiros, com a sua experiência, lá conseguiram não parar com as buscas.

Houve bombeiros que tentaram ajudar porque a “Protecção Civil” também queria aparecer na televisão e, a certa altura, houve até

um incidente infeliz, que não teve consequências, com um bote dos Bombeiros que se virou e os fuzileiros ainda tiveram que andar a

“pescar” Bombeiros lá pelo meio.

Houve uma fase de pressão da Comunicação Social, mas nós conseguimos controlar a situação. Tive até um telefonema do Embaixador

americano que me perguntava como é que nós conseguíamos coordenar tão bem aquelas operações e relação com a comunicação

social. Eu tinha um Oficial para cada televisão que falava directamente comigo e o então Comandante (hoje Almirante) Ezequiel falava,

também directamente comigo para não haver equívocos. Até que um dia, de manhã, já tínhamos levantado oito ou nove automóveis,

faltava o autocarro, sou confrontado com o “Diário de Notícias” com um título, perfeitamente caricato, a toda a largura da capa:

“Marinha só tem andado a gastar tempo e dinheiro”. Um Senhor professor “não sei quantos” do Instituto Superior Técnico dizia

que, pelas contas que fez, o autocarro estava a meia dúzia de quilómetros do local. Eu não pude dizer nada porque não tínhamos

encontrado o autocarro mas, pela nossa análise, com referência aos pontos onde os automóveis tinham estado, tudo apontava para

que o autocarro estivesse próximo. Não se via nada lá debaixo,

era preciso fundear poitas com umas toneladas de cimento para

os mergulhadores estarem agarrados, para não serem levados

pela corrente e só tacteando é que se conseguia detectar alguma

coisa. Um dia depois, encontrámos o autocarro, a cerca de 40

metros dos pontos onde tínhamos estado a pesquisar. Então,

nessa altura, telefonei para o Sr. Director do “Diário de Notícias”,

o Sr. Dr Bettencourt Resende (já falecido - tenho a melhor das

memórias dele) que conhecia muito bem e disse-lhe: “Então qual

vai ser a capa amanhã? Porventura que o Sr. professor “tal” é

uma besta”. E dizia-me ele: “Oh, Sr. Almirante não pode ser…”

(risos). O Dr. Resende arranjou-me depois uma entrevista, na

televisão, de 25 minutos.

MP: Tudo isto me faz presumir que na sua brilhante carreira terá

sido determinante a passagem pelos fuzileiros.

VM: Eu acho que foi uma experiência única, uma experiência

notável e usava-a, muitas vezes, para dizer que toda a Marinha

Com Brazão e Metello de Nápoles na EFZ

precisava de ter uma “coisa” que os fuzileiros tinham: o brio e a

vontade de bem cumprir, um brio inabalável. Faltava-lhes, nessa altura, a componente tecnológica. Procurei sempre fazer sentir à outra

parte da Marinha esse brio, essa vontade de bem cumprir e a determinação dos fuzileiros. O que lhes faltava era, de facto, o equipamento

adequado para que eles sejam bem empregues nas forças expedicionárias. E, hoje, é com muita pena que vejo que raras vezes

os fuzileiros são empregues no exterior.

MP: Bom. Sabemos que “isto de ser reformado dá muito trabalho”. Já ouvi alguém dizer isto …(risos). Quer dizer-nos que trabalho é

esse, Sr. Almirante?

VM: Como sabe sou aqui Presidente da Academia de Marinha, o que me dá algum trabalho; sou Membro da Academia das Ciências,

sou membro da Academia Portuguesa da História, da Sociedade de Geografia, sou Professor Convidado da Universidade Católica, sou

Presidente do Conselho Supremo da Liga dos Combatentes, sou Membro do Conselho Nacional da Educação etc. Mas, eu dei-lhe o meu

currículo e está lá tudo. Para além das solicitações que tenho para conferências e palestras, em vários locais do País e no Estrangeiro.

Neste momento tenho previsto uma ida ao Brasil para o Congresso dos Mares da Lusofonia, em Maio, e outra a Moçambique, em Junho,

para dar umas aulas na Universidade de Moçambique – donde se pode concluir que não há falta de trabalho.

Mas devo dizer que quase toda esta actividade é “pro-bono”.

MP: A nossa revista “O Desembarque” tem sofrido algumas alterações, particularmente nos últimos dois ou três números, pensamos

nós que para melhor. Permita-nos, Sr. Almirante, o seu olhar crítico.

VM: Oiça, Marques Pinto. É difícil ter um olhar crítico quando vejo qualquer coisa que é construída e feita com tão boa intenção e que

é chegar aos fuzileiros dispersos por esse mundo. E eles merecem que cheguemos até eles. Eu reúno todos os anos com parte dos

homens do meu Destacamento e estamos agora a planear nova reunião. É que uma das coisas que os fuzileiros sentem – sobretudo

aqueles que estiveram em África – é, muitas vezes, a incompreensão da Sociedade pelos sacrifícios que eles fizeram. Eu quando

chamei traidor a um senhor político da nossa praça, estava a pensar no enorme esforço que aqueles rapazes, marinheiros e grumetes,

fizeram vivendo em condições extremas que, se calhar, só os portugueses eram capazes de suportar, sem quase nenhuma compensação,

para depois serem incompreendidos e mal tratados. Isto dói no coração.

E, por isso, é muito bom, tudo o que seja feito pela Liga dos Combatentes, pela Associação de Fuzileiros e pelo seu “O Desembarque”

no sentido de chegar ao coração dos combatentes para lhes dizer: – Vocês cumpriram e cumprem as obrigações perante a Pátria –

32 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


como poucos seriam ou são capazes de fazer. Estamos unidos, estamos convosco. Tudo

o que digam a essa gente é muito positivo. É que eles dão e deram tudo, alguns até a

própria vida e os fuzileiros foram, talvez, daqueles que mais sacrifícios fizeram. Temos

que homenagear os que morreram em combate, como, por exemplo faz um grupo a que

pertenço, da sociedade civil, todos os anos, no Dia de Portugal, 10 de Junho, junto ao

Monumento ao Combatente, em Belém. E comigo, no meu Destacamento, foram quatro,

os que caíram no Campo da Honra… (fez-se um silêncio). E, portanto, chegar aos que

vivem lembrando os que partiram e que também pensam na preservação dos valores de

cidadania, como é apanágio dos fuzileiro, penso que é uma obra extraordinária. Se puder

ser melhor, com certeza. Porém, o que está feito já é muito bom.

MP: O Sr. Almirante é Sócio Originário da AFZ e também seu Sócio Honorário, tendo sido

um dos Mandatários da Lista candidata, em 2011, aos Órgãos Sociais da AFZ, cujos

titulares terminam o seu mandato em Dezembro de 2013. Diga-nos, por favor, como

vê a nossa/Sua Associação, a sua gestão e que palavras lhe ocorre dirigir aos Sócios,

nossos camaradas.

VM: Eu acho, como aliás já disse há pouco, que a obra que têm desenvolvido é notável

e estou muito feliz por fazer parte de uma Associação que tem pessoas tão generosas

como aquelas que estão à frente da nossa Associação. Estou certo que esse exemplo

frutificará e que mais pessoas serão motivadas a contribuir para as finalidades da

Associação. O agradecimento será, certamente de natureza moral feito à distância, por

aqueles que recebem a Revista, ou que têm contacto com a Associação de Fuzileiros.

Operações:

Emboscada 11

Patrulhas 6

Reconhecimentos armados 12

Golpes de Mão 6

Total 35

Resultados positivos:

Inimigos mortos 40

Prisioneiros 43

Total 83

Acampamentos destruídos 282

Embarcações apreendidas/destruídas 25

Armamento Apreendido:

Canhão s/r 82 mm 1

Morteiro 82 mm 1

Lança-Granadas Foguete 7

Metralhadoras pesadas 2

Metralhadoras ligeiras 20

Espingardas autom., não-automáticas e nativas 9

Pistolas-metralhadoras 91

Espingarda caçadeira 1

Total 216

Resumo da Actividade Operacional do DFE 13

Guiné (21/Abr/68 a 25/Jan/1970)

entrevista

Devo dizer que, ainda hoje, me reúno, com os marinheiros que foram do meu Destacamento, umas vezes em grupos grandes, outras

apenas com os da zona onde vivemos, mas sempre pensamos também nos outros e, porventura, em algum com um certo tipo de dificuldades,

sem nunca esquecer os que partiram, em combate, ou depois dele, mas quantas vezes em consequência dele.

Portanto, este sentido de solidariedade é muito português, é muito marinheiro e, agora, diria que é muito fuzileiro.

CM e MP: Muito obrigado Sr. Almirante.

XXXXXXXXXXX

Munições:

Vários calibres 109.390

Granadas de mão 5

Granadas de Morteiro 82 mm 113

Granadas de Canhão s/r 394

Granadas de LGF 240

Minas 38

Total 1.102.062

Outro Material:

Explosivos plásticos 30 kg

TNT 41 kg

Total 71 kg

Disparadores 380

Armadilhas 2

Aparelhos de pontaria de morteiro 60 mm 3

Canos de Metralhadoras 21

Pratos de Morteiros 60 mm 1

Carregadores de diversas espingardas 146

Total 553

Tempos de patrulha e emboscadas

(em LDM e botes) 4.257 h

Contactos de fogo com o inimigo 32

Resultados negativos:

Homens evacuados para Portugal 3

Feridos em combate 12

Mortos em combate 4

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 33


divisões

Divisão do Mar

e das Actividades Lúdicas e Desportivas

Caminhada dos Castelos 2012

A

Secção de Pedestrianismo levou a cabo no passado dia 5 de Outubro a 1.ª “Caminhada

dos Castelos” destinada a sócios, familiares e amigos. Tratou-se de um

percurso com características muito específicas, que teve como ponto de partida

o Castelo de Palmela e como ponto de chegada o Castelo de Sesimbra.

A actividade foi efectuada em dois dias, teve uma distância de 34 km, que foram percorridos

em duas fases: 16 km no primeiro dia e 18 km no segundo dia!

O percurso foi sempre muito animado e relembraram-se as marchas feitas por todos

nós, Fuzileiros, na EFZ.

Tivemos como ponto de paragem e pernoita o Parque de Campismo dos Picheleiros no

sopé da Serra da Arrábida.

A noite foi memorável, aquecida ao lume de uma fogueira e guarnecida de uma saudável

“ração de combate”.

Já a noite ia longa, quando os participantes recolheram às tendas para o descanso

necessário, para se encarar a jornada final.

Por trilhos e vales, sempre acompanhados da beleza natural da nossa Serra concluiu-

-se mais uma actividade em plena Natureza.

Apesar do reduzido número de participantes, ficou-nos a esperança de que em 2013

os mesmos estarão presentes para guiarem novos aventureiros.

34 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Campeonato Regional Sul Pistola Livre a 50 m

Taça ARTS

em Carabina de Cano Articulado

Disputada em quatro provas, realizadas durante o ano de

2012, a Taça Associação Regional de Tiro do Sul (ARTS)

decorreu em vários locais da zona sul do País, tendo sido a

última prova realizada em Évora!

divisões

Durante o ano de 2012 realizaram-se cinco provas para o Troféu “Federação Portuguesa

de Tiro” – Pistola de Recreio a 25m. Contando para a classificação final

as três melhores provas das cinco realizadas, a Associação de Fuzileiros obteve,

no passado dia 09 de Dezembro, o 3.º lugar em Equipas, sendo o prémio recebido pelo

Chefe de Divisão, Espada Pereira.

O empenho de todos os atletas que constituíram as equipas foi fundamental para a

obtenção deste galardão que, como sempre é de todos nós mas, principalmente, dos

atletas que deram o seu melhor para que a AFZ visse, mais uma vez o seu nome subir

ao pódio. Citam-se os nossos atletas, como é de toda a justiça: João Pereira, João Luz,

António Ramos, Miguel Correia, Paulo Samuel, Comt Semedo de Matos e Henrique Matos.

2013 será de progresso.

Esta prova, realizada a 20 de

Outubro, a Associação de Fuzileiros

obteve 2.º lugar em

equipas, sendo o prémio recebido

pelo Chefe de Divisão, Espada

Pereira, na cerimónia de

entrega de prémios organizada

pela ARTS, cerimónia que teve

lugar na ARDBA, no Montijo.

O empenho e dedicação de todos os atletas que integraram as

equipas, foi fundamental para a obtenção deste galardão que é

de todos nós mas, acima de tudo, dos atletas que tornaram este

objectivo possível.

Foram os seguintes os nossos atletas: Manuel Luís, Miguel Luís,

Jorge Nunes e Luís Piedade.

Parabéns a todos.

Troféu Federação Portuguesa de Tiro

com Pistola de Recreio a 25 m

Nesta modalidade, com um nível

competitivo muito elevado, face à

distância, conquistou o 1.º lugar

o nosso atleta Rui Rodrigues, em HS 2,

com 484 pontos.

Os nossos parabéns, acima de tudo por

ter sido o Atleta que mais representou a

Associação de Fuzileiros, durante 2012,

com um total de 20 competições realizadas!

Saudações e parabéns ao Rui Rodrigues.

Textos do espaço “Divisões” da autoria de Espada Pereira – Chefe da Divisão das Actividades Lúdicas e Desportivas

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 35


crónicas

Breves estórias da Guiné

Torrão (1964), Porto (1965) e Sedas (1964) - Esquadra “BRAVO”

A

minha esquadra, em meados de 1968, fez uma pequena

paragem para assentar ideias, pois estávamos numa zona

no norte da Guiné, onde dominava o famoso Grupo do Nino

Vieira, que mais tarde viria a ser o Presidente da Guiné Bissau.

Nesta zona fazíamos quase sempre os desembarques entre as 2 e

as 4 horas da manhã. O tarrafo era muito denso e nós deveríamos

chegar à orla da mata antes do dia nascer.

Esta zona Chamava-se Tancroal perto de Canjája, onde o Grupo

do Nino mais actuava.

Nesse dia o inimigo não nos deu descanso. Foi um dia muito “preenchido”

em relação às outras operações já que - apesar de se

caracterizarem quase sempre por contactos e emboscadas – esta

teve de tudo. Além de contactos consecutivos de fogo tivemos

que ser reabastecidos por duas vezes de munições, coisa que era

impensável numa operação normal. Mas felizmente saímo-nos

bem, apesar de um camarada ferido por duas vezes(!), “o Amália”

(era a sua alcunha) que, mesmo ferido não quis ser evacuado,

pois atendendo à situação de grande pressão ele preferiu estar

com o Destacamento (Grande Fuzileiro!). Felizmente os ferimentos

foram ligeiros.

Teremos que agradecer os bons serviços da Força Aérea pela

prontidão das respostas aos pedidos de intervenção do nosso

Manuel Ramos

Destacamento para reabastecimento de munições e comida…

Entretanto, depois de todo um dia cheio de atividades (de que hoje

tenho saudades!) lá conseguimos chegar ao tão desejado ponto

de reembarque.

Este foi mais um dia menos bom mas, no essencial igual a tantos

outros menos bons valendo-nos, sempre, o apoio da nossa “família”

de Fuzileiros.

As patrulhas que fazíamos, no Rio Cacheu eram quase sempre

em zonas perigosas:

Era frequente que, de vez em quando e quando mais era necessário,

fazermos Patrulhas em botes de Borracha.

E na zona mais perigosa por onde os Botes e Lanchas (LDM)

quase sempre eram atacados, o IN até tinha a ousadia de atacar

os navios-patrulha (“Sagitário, “Lira”, “Hidra” ou “Cassiopeia”)

protegido por abrigos subterrâneos nessa tal “Clareira” do Rio

Cacheu e na zona do Tancroal, a caminho de Binta/Farim.

Conforme estas fotos documentam tivemos que utilizar táticas

com grande imaginação. Antes de chegar à “maldita Clareira”,

onde era suposto o In estar quase sempre à nossa espera, os dois

ou três botes das patrulhas, encostavam-se à margem opostas

e começavam a fazer fogo, de cobertura, com a nossa “amiga e

famosa” MG42; varrendo a margem toda, permitindo-nos assim

passar, os restantes botes, sem problemas.

Nós, DFE 12, felizmente, não tivemos graves problemas.

Fomos vivendo com “este problema”…

Porém, mais tarde, na minha segunda comissão, que fiz também

na Guiné, no DFE 13 - 1971/1972, houve, que me lembre, botes

de Camaradas nossos que foram atacados, houvendo duas baixas

mortais.

Era assim a Guiné-Bissau dos nossos tempos. Desejaria que hoje,

por lá, não fosse tão mau. Contudo, não me parece…

Manuel Ramos (“O Porto”)

MAR. FZE. n.º 1205/65

Sóc. Orig. n.º 90

Patrulhas no rio Cacheu Em primeiro plano, Torrão e Porto a caminho do reembarque (rio Cacheu)

36 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Marques Pinto

É

esta a quarta crónica que dou à estampa na revista “O Desembarque”.

E por isso, para que se não perca o fio da narrativa,

aconselho a consulta das edições números 12, 13 e

14. Tratando-se de episódios de uma longa história, só assim se

poderá acompanhar o drama que centenas de milhares de portugueses

e angolanos ou de angolanos portugueses viveram, na

nossa descolonização “exemplar”.

Iniciadas estas “Crónicas de Outros Tempos” na edição n.º 12 da

nossa revista (de páginas 17 a 20) aí escrevi para os sócios, familiares

e amigos da Associação de Fuzileiros e para todos quantos nos

queiram ler, as “Primeiras Palavras”; procurei fazer o respectivo

“Enquadramento” e explicar, para os muitos que a não conheceram,

o que foi a Ponte Aérea de Nova Lisboa (Huambo) /Lisboa,

nessa “Cidade Acampamento” do Planalto Central de Angola que,

de Junho a Outubro de 1975, se viu cercada de guerra e para

onde convergiram, fugindo aos tiros, muitas dezenas de milhares

de pessoas, transformando a segunda maior cidade daquele território

então português, num verdadeiro caos.

Tentei também transmitir aos nossos leitores o que foi uma Ponte

Aérea (segundo já se disse, a maior ponte aérea civil do Mundo)

com origem numa cidade que já não tinha aviões comerciais, está

a cerca de 300 quilómetros do mar, e que duplicou a sua população,

sendo que os últimos a chegar tiveram de ser alojados

nas instalações da Feira de Nova Lisboa e, designadamente, em

pavilhões de gado.

Tentei também explicar quais são os problemas de uma ponte

aérea e, particularmente desta, sobretudo, o seu principal drama:

“Quem vai primeiro? As mulheres que, eventualmente com

as crianças, estão mais fragilizadas? Os velhos e os doentes? Os

jovens com mais esperança de vida? E os homens ficam para o

fim? E as famílias? Separam-se? E se não há aviões para todos?

E os política e militarmente ameaçados de morte (pelos Movimentos

de Libertação que controlavam pelas armas o terreno)

mesmo sendo pretos angolanos, deixam-se morrer, já que não há

poder que os proteja? E as famílias extensas, multirraciais e multinacionais?

Separam-se? Ficam os pretos e os de pele escura

e vão, apenas, os brancos? Quem são os nacionais portugueses

que têm o direito a ser repatriados? Só os brancos? Ou também

os pretos e mestiços que nasceram sob a Bandeira das Quinas?

Então, como será? Vão todos os que quiserem ir? E Portugal suporta?

E quem define tudo isto, quando o poder está na rua ou

para lá caminha?”

Pois é: tem de ser alguém e é seguramente quem está no terreno

e não ao longe, nos gabinetes ainda com ar condicionado.

E quando há dúvidas como no caso desta crónica? Quem decide

em última análise?

De facto, o Coordenador, este pobre homem – como dizia um Tio

meu – nascido em Várzea de Cavalos, num lugar de uma Freguesia

de nome Lobão da Beira, do Concelho de Tondela, distrito de

Viseu, que foi escolhido por um Alto-Comissário que nem sequer

o conhecia e, quiçá, o não conheceu e, ironia do destino, por exclusão

de partes. Calhou. Foi a dita ou a desdita do fado.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

crónicas

Crónicas de Outros Tempos

Ponte Aérea Nova Lisboa (Huambo) – Lisboa

Evacuação de uma Família Extensa e

Multirracial

Mas que não há ninguém em Portugal que tenha vivido esta experiência,

é verdade. E que isso me serviu na vida e nos meus

sucessos profissionais, também é.

Mas então, vamos à história:

À porta das instalações da Comissão Executiva de Repatriamento

(CER) da Comissão Nacional de Apoio aos Desalojados (CNAD),

instalações cedidas pelo Exército Português do que fora o seu

Distrito de Recrutamento e Mobilização de Nova Lisboa – estas

siglas destas comissões só tinham expressão real em algumas

cabecinhas de Luanda, porque na prática, o que realmente contava

eram as pessoas que voluntariamente se entregaram à organização

desta Ponte Aérea – o Coordenador da CER – este escriba

que procura adaptar o que tem escrito às crónicas da revista “O

Desembarque” – é confrontado com o seguinte quadro:

Um grupo de desalojados, chamados a embarcar nessa noite (os

aviões aterravam sempre à noite, com ocultação de luzes) constituído

por cerca de 15 pessoas, discutia com elementos da minha

Comissão de voluntários.

Discussão acesa, quase crispada.

Ao passar, pergunto o que se passa. E um dos meus colaboradores

diz-me:

– Estamos na presença, doutor, de um problema grave e de difícil

solução: esta família tal como se apresenta, não pode embarcar.

Quem o dizia era um dos Coordenadores Adjunto a quem o problema

já tinha chegado.

Tratava-se de uma família extensa, constituída por um conjunto

de pessoas tal que, alguns dos seus membros, não teriam direito

a “retornar” a Portugal por serem negros e sem qualquer ligação

a Portugal.

Eram estas as “regras” mais ou menos instituídas por Luanda – na

circunstância ninguém sabia, concretamente, quem as instituía e

com que critérios, para não se falar já de legitimidade – para

evitar que, no calor dos recontros armados, entre os movimentos

ditos de libertação de Angola (MPLA, FNLA e UNITA) os naturais

Foto actual de José Luís Pinto (retornado então evacuado pela ponte aérea) e filho

37


crónicas

não brancos viessem em massa para Portugal, ocupando lugares

nos aviões cujo número e respectivos voos, também ninguém

sabia se seriam suficientes para quantos, portugueses e naturais

de Angola, de matizes mais ou menos claros, pretendiam fugir da

quase total balcanização daquele território de África que ainda

era nosso.

Desde logo vislumbro o cenário:

Uma Senhora negra, com bem mais de 80 anos, de idade indefinida,

seguramente muito velha, alta, magríssima, quase pele

e osso, carapinha branca de neve. Vestia os seus “quimonos”

(panos escuros e compridos) traçados, no seu corpo esguio e encarquilhado,

quase até aos pés.

A Senhora, com aspecto de meio tribalizada, meio aculturada estava

sentada, quase de cócoras, num pequeno degrau de pedra

que dava acesso a uma das portas, com uma mão segurando os

panos entre as pernas, em jeito púdico e a outra, sustentando a

sua cabeça já cansada. O olhar longínquo e indefinido visava o

chão.

De vez em quando, levantava os seus olhos velhos e vagos varrendo,

com súbita e inesperada expressão, o seu grupo, a família

que lhe restava, e os outros, os intrusos que discutiam o seu

destino.

Observo o grupo familiar de que a velha Senhora era, nitidamente,

a Matriarca: Pretos, casados ou juntos com mestiças claras;

brancos, casados ou juntos com mulatas quase negras; mulatos,

com brancas loiras; brancos com cabritas; jovens de 14/15 anos,

rapazes e raparigas, claros e escuros, crianças louras, quase

arianas e outras escuras de 7/8 anos. Um espanto!

Aqui tinhamos verdadeiramente representado um protótipo de

família multirracial que vinha fugida de Malange e que havia integrado

a “Última Coluna de Desalojados” (vidé “O Desembarque” n.º 13 –

página 17) com quatro gerações nascidas em Angola que de Portugal

conheciam um nome:”o Puto”!

O problema que aqui se gerava era o de saber quem autorizava a

evacuação para Portugal daquele “conjunto” à revelia dos “cânones”

e das “regras” que aliás, como já disse, ninguém sabia de

onde dimanavam, já que o Poder já estava, nitidamente, na rua.

É que, a lógica era “simples”: Em princípio, quem devia fugir e

utilizar os aviões da Ponte Aérea eram os brancos, aqueles que

tinham ido de Portugal para Angola e agora retornavam. Era a

lógica do “retorno” de um “ilustre” Governo de Portugal que, em

Decreto-Lei, de Março de 1975, criara o IARN (Instituto de Apoio

ao Retorno de Nacionais).

E desta família Angolana – (de pretos, cafuzos, mulatos, cabritos,

mestiços de todas as tonalidades e até crianças completamente

brancas e loirinhas, todos fugidos a tiro da total balcanização do

Centro/Norte e aqui chegados na esperança de que um avião os

levasse para “o Puto”, onde não ouvissem mais as gargalhadas

sarcásticas das armas automáticas e o ribombar dos morteiros e

dos canhões sem recuo – que fazer?

A “minha” velha negra com os seus olhos húmidos porque não

tinha mais lágrimas para verter, percebendo, enfim, a dúvida

balbuciou palavras quase ininteligíveis, híbridas de português e

quimbundo, com um misto de pânico e de dignidade:

– Olha lá… A velha não fica. A velha não presta. A velha vai fazer

“uafa” (morrer).Mas ainda não. Velha só fazer “uafa” quando

“N’Zambi” mandar. Primeiro, “N’Zambi” mandou para eu tratar

dos meus neto. Velha não é vossa. É dos neto. Não pode deixar

morrer aqui.

38

Encostadita à velha negra, uma criança de cerca de 7 anos (branca,

loira, de olhos azuis) chorava soluçando e dizia:

– Se a Avó (seria tetravó?) fica, eu também fico.

A posição do grupo, daquele grupo, de coloração de pele tão heterogénea,

era a mesma.

Um homem mestiço de idade madura, dos seus 40 anos, vislumbrando

que eu seria “O Chefe”, transmitia-me a posição de todos:

– Ou vamos todos ou deixem-nos morrer aqui. Ficámos sem nada.

Tudo o que nos resta é esta parte da família. Os outros morreram

em Malange com a guerra que veio ter connosco e com a qual

nada tínhamos. A nossa Avó é tudo o que nos resta para unir a

família. É a nossa velha sábia que, com o poder do seu “N’Zambi”

nos há-de guiar e abençoar a todos.

Havia que decidir e, como noutras circunstâncias ainda mais difíceis

e muito complexas, a decisão era minha:

– Embarcam, todos. No mesmo avião. Hoje. Aqui, a mais de

350 quilómetros de Malange, e depois de terem perdido tudo,

família e haveres, não ficam.

Estou-me borrifando para as normas.

Em Portugal que se arranjem. Não andam, há 500 anos, a dizer-

-lhes que Angola é Portugal?

E lá embarcou aquela família extensa, exemplo de Portugal no

Mundo, que as “regras” não permitiam salvar.

Marques Pinto

Sóc. Orig. n.º 221

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


José Cardoso Moniz

CHEGADA A MOÇAMBIQUE

Estávamos em 1967, primeiros dias de

Novembro. O imponente paquete “Príncipe

Perfeito” atracou no cais comercial de

Lourenço Marques. Eram cerca das 8h00

dum sábado.

O DFE 4, sob meu comando, fez nele a

viagem para realizar naquela Província de

Moçambique uma Comissão de Serviço.

Logo que atracado, a minha preocupação

foi para a eventualidade de haver alguém

do Comando Naval para nos transmitir

as instruções necessárias. A “guia de

marcha” especificava que a partir daquele

momento, ficaria na dependência do

Comando Naval.

O tempo foi passando, até que, pela

10h00, estabelecidas as ligações telefónicas,

decidi telefonar para o Oficial de Serviço

ao C.N.M., para perguntar se deveria

apresentar-me, se mandavam buscar-me,

ou se… outra coisa qualquer.

Estava de serviço o Tenente Canto Moniz,

filho do Eng.º responsável pela construção

da ponte sobre o Tejo! Aquela obra,

grandiosa para época, em que não houve

derrapagens orçamentais, nem temporais,

nem… corrupções. Ao tempo tais desvios

seriam inadmissíveis!

O Tenente Canto Moniz, que eu não

conhecia, ficou muito admirado por não

saber que havia uma unidade de fuzileiros

a chegar a Lourenço Marques. Feitas as

apresentações através da rede, preveniume

que só na 2.ª feira daria conhecimento

ao Comando da minha chegada! Tinha

instruções para não perturbar ninguém

durante o fim-de-semana. Ainda tentei

argumentar, mas não me valeu de nada.

A minha dúvida era pertinente. Estava

previsto que o navio largaria 2.ª feira com

destino à Beira! Desembarcar ou seguir

viagem até à Beira? As dúvidas eram

preocupantes. Para mim!

Decidi dar licença ao pessoal até domingo

à noite. Às 21h00 de domingo queria toda

a gente a bordo. Toda esta “lenga-lenga”

é para dizer que na 2.ª feira de manhã

fui recebido pelo CMG Braga da Silva,

2.º Comte do C.N.M. um homem que me

impressionou pela frontalidade, aprumo,

deferência e educação. Na exposição que

fez acerca da guerra que travávamos em

Moçambique, deu especial ênfase às minas

e ao Sr. Orlando Cristina, de quem eu

nunca ouvira falar.

Sem me querer assustar muito, foi-me

dizendo que o Niassa era conhecido pelo

“estado de minas gerais”. Quanto ao Sr.

Orlando Cristina, era uma espécie de “Anjo

da Guarda” cujos ensinamentos deveríamos

receber e cumprir porque o dito Sr.

conhecia o terreno a passo e as gentes,

(os seus habitantes). Conhecia guerrilheiros

e não guerrilheiros. Falava as línguas

todas do Niassa, Cabo Delgado e Tete.

DA TEORIA À PRÁTICA

Efectivamente desembarcamos na Beira.

O navio regressou a Lisboa trazendo

o DFE 5 que o DFE 4 rendeu. Fomos

transportados num “North Atlas” (barriga

d e ginguba) da B e i r a a t é … M e t a n g u l a .

A aterragem foi uma temeridade. O avião

ia demasiadamente carregado para uma

pista de 700 m. Por pouco não fomos

amarar nas águas do Lago!

À nossa espera estavam o Imediato e o

Quartel Mestre do DFE 4 que foram de

avião para receber os materiais que herdámos

do DFE 5. Fomos recebidos pelo 2.º

Comandante da Base Naval e o Chefe do

Estado-Maior, respectivamente Comtes.

Conceição e Silva e Manuel da Silva (Manecas),

aviador.

Instalámo-nos. Posteriormente conhecemos

o Sr. Orlando Cristina que nos fez

uma exposição muito ligeira do que era

a guerra, chamando a atenção para as

minas. O princípio era o seguinte: onde

houvesse indícios de passagem de pessoas,

havia minas. Portanto só podíamos

deslocarmo-nos a corta mato. Mostrou

encarar a guerra de guerrilha com “desportivismo”,

avisando que devíamos evitar

usar as armas. Os prisioneiros faziam-se,

agarrando-os. Era preferível poupar um

criminoso do que matar um inocente. E no

mato havia muita gente que se opunha à

guerra mas era obrigada a apoiar os guerrilheiros.

Com ele fizemos 4 operações. Duas de formação/preparação

e mais duas para além

das fronteiras, para capturar elementos da

Frelimo que ele sabia onde estavam.

Homem com cerca de 1,70 m, menos de

60 kg, extremamente frugal, fazia uma

crónicas

Orlando de Sousa Cristina

Um herói a quem os Fuzileiros muito

ficaram a dever em Moçambique

refeição ligeira por dia. Um cantil com

1 litro de água dava-lhe para três dias.

Falava muito pouco, fumava muitíssimo.

Conhecia o mato como as suas mãos. Sabia

onde havia poças de água. Por vezes

as poças tinham secado. Sempre bem

disposto, sem grandes manifestações.

Preparou-nos e mentalizou-nos para fazermos

a guerra com o mínimo de tiros.

Deslocava-se no mato como os felídeos,

sem deixar sinais. O capim continuava

direito depois dele passar. Sabia ler os sinais

deixados no terreno com minúcia e

exactidão. Era frequente dizer-nos: “passaram

aqui dois indivíduos há menos de

uma hora. Um vai armado e o outro não”.

Deslocava-se com a cabeça bem levantada.

Os olhos e os ouvidos eram as suas

sentinelas permanentes.

Orlando Cristina em 1970

QUEM ERA ORLANDO CRISTINA

Nasceu em Lagos, Algarve, em finais

de Setembro de 1928. Como era balança,

nasceu depois de 23. Os pais viviam

separados. Ele ficou com a mãe e o pai

estabeleceu-se em Vila Cabral, no Niassa,

com um negócio que tinha por objectivo

satisfazer as necessidades primárias das

populações.

Sempre muito independente mas trabalhador,

fez a primária e o liceu sem dificuldades

de maior. A circunstância de a mãe

lhe ter dado um padrasto, não lhe causou

grande transtorno.

Acabando o liceu em 1946, fez o exame

de admissão a direito em Lisboa, sendo

admitido. Foi um estudante “suficiente”.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 39


crónicas

Estudava o necessário para passar… e foi

passando.

Em 1949/50 deixou-se envolver na campanha

eleitoral de Norton de Matos,

apoiando-o em manifestações de rua e

em distribuição de panfletos. Consequentemente,

a polícia política andava com ele

debaixo de olho.

Para evitar que fosse preso a mãe fê-lo

ir viver com o pai. No Niassa, com 21/22

anos, empenhou-se nos negócios do pai,

abatendo caça grossa que, partida em peças

e seca, era transportada e vendida em

Quelimane. O Orlando encarregava-se do

transporte. Não tinha falta de dinheiro. Em

pouco tempo transformou-se num exímio

caçador de elefantes, búfalos, rinoceronte,

hipopótamos, etc. Vários historiadores

descreveram as suas façanhas, sobretudo

a provocação que causava nos elefantes,

para os obrigar a separarem-se e matar

com um único tiro aquele que lhe parecia

ter maiores presas.

De todas as actividades desenvolvidas

pelo Orlando Cristina, nenhuma lhe dava

tanto prazer como o convívio com os habitantes,

usando de fraternidade, dando

presentes e lembranças que sabia os seduziam.

Rapidamente aprendeu as línguas de cada

povo. Ajaua, Nianja, Maconde, Swali, Macua,

etc., dizia que eram todas iguais. Falava

com todos e cumprimentava, segundo

a tradição, com as duas mãos juntas, à

boa maneira dos povos do Lago.

Os sobas e parentes adoravam-no. Sobretudo

as filhas!... As “bajudas”, como se

diria na Guiné! Perdiam-se de amores pelo

caçador de elefantes e… de paixões.

AO SERVIÇO DO EXÉRCITO

O cumprimento do serviço militar obrigatório

foi um imperativo a que não se furtou.

Orlando Cristina com a Renamo, na Gorongosa

Cumpriu cerca de três anos e meio, três

dos quais como alferes. Acabado o tempo

obrigatório, foi aliciado para continuar,

com o posto de tenente. O Exército quis

aproveitar os seus dotes linguísticos e de

relações públicas para dinamizar um serviço

de informações militares que se tornava

imprescindível.

Era manifesta a agitação popular decorrente

dos graves incidentes ocorridos no

planalto dos macondas, onde o governador,

Comandante Teixeira da Silva, correu

o risco de ser linchado. O que foi evitado

com a intervenção do responsável Tito Lívio

Xavier, comandante dos Voluntários de

Defesa Civil.

O Exército cedo se apercebera que haveria

um aproveitamento do descontentamento

popular. Por outro lado, como toda a gente

sabia, na cidade da Beira havia um núcleo

de democratas que pretendia libertar-se

da dependência de Lisboa.

Durante largos anos não chegaram a

acordo quanto ao que pretendiam. Havia

a facção do Jorge Jardim, que pretendia

a independência mantendo as estruturas

raciais e económicas equilibradas. Os da

linha dura, apoiados pela URSS, queriam

a independência plena, sem brancos. Uma

terceira facção, pretendia uma ligação

à Rodésia de Ian Smith e à África do Sul

onde vigorava o “apartheid”.

Eduardo Mondlane mantinha-se informado

de todos estes movimentos pelo que

decidiu radicar-se em Dar-es-Salaam, capital

da Tanzânia, em finais da década de

50, princípios da de 60. A partir de então

começou a mobilizar os seus seguidores,

com o objectivo de exigir a independência

de Moçambique.

DESERÇÃO DE ORLANDO CRISTINA

Jorge Jardim era um “gentleman”. Um diplomata

de refinadíssimo trato. Mantinha

as melhores relações com os presidentes

Hasting Banda (Malawi), Keneth Kaunda

(Zâmbia), Július Nierére (Tanzânia) e Ian

Smith (Rodésia). Foi administrador-delegado

da Lusalite, posição que manteve até

Dezembro de 1973. Mais tarde, passou a

representar outros interesses, nomeadamente

o grande magnata dos petróleos,

Boullosa.

Dispunha duma refinaria, a Sonarepe, e

uma distribuidora, a Sonap Moçambique

que fornecia produtos para todos os países

limítrofes. Era seu Director Comercial

o Sr. António Rocheta.

Ao saber da presença de Eduardo Mondlane

na Tanzânia, logo Jorge Jardim arquitectou

um esquema para infiltrar alguém

na organização e acompanhar a evolução

dos progressos que se adivinhava vir a ter.

A pessoa seleccionada foi Orlando Cristina

que estava ao serviço do Exército.

Depois de aturadas negociações secretas

com as altas esferas do Exército, foi proposto

ao Orlando Cristina a sua deserção,

passando a ter a categoria de Inspector

– Vendedor da Sonap, com vencimentos

líquidados mensalmente pelo director comercial.

Ficou com o número 209.

António Rocheta, chefe do Cristina na Sonap Moçambique

Assim se consumou a deserção de Orlando

Cristina, criando-se o boato da sua simpatia

pelo Partido Comunista Português.

Esquema semelhante foi usado com frequência.

O exemplo mais conhecido é a

saída do 2.º Tenente Manuel Agrellos, Comandante

da lancha “Mercúrio”, e seus

companheiros no Lago Niassa, passando a

comandar a lancha “John Chilombwe” (ex-

-“Castor”), ao serviço do Malawi. Mesmo

em operações de duração muito limitada,

4/5 dias, que se desenrolaram para lá das

fronteiras, era usado este estratagema.

40 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


As informações provenientes de Orlando

Cristina eram assustadoras ou mesmo

aterradoras. Eduardo Mondlane deixou

de ter controle na organização que veio a

chamar-se Frelimo, quando os estalinistas

Samora Machel e Marcelino dos Santos

assumiram a chefia, contra tudo e contra

todos. As cabeças de Mondlane e Uria Simango

iriam rolar, porque eram pessoas

moderadas, civilizadas. Como é sabido,

Eduardo Mondlane era casado com uma

norte-americana e Uria Timóteo Simango,

pastor evangélico, era casado com

uma senhora muito respeitada de nome

Celina. Esta situação de serem os presidente

e vice-presidente da Frelimo, era

inaceitável na URSS!! Consequentemente

exigiram aos seus peões que os depusessem

e se livrassem deles. O Eduardo

foi morto, porque os enfrentou. O Uria foi

poupado para não haver conflitos com os

seus seguidores religiosos. Logo a seguir

ao 25 de Abril foi assassinado, bem como

a Joana Simeão, o Gwambe e o Gwengere.

O Lázaro Kawandame, regressado do

Egipto, onde estava refugiado, para organizar

um partido concorrente às eleições,

também foi assassinado. O seu regresso

tinha sido autorizado! Já depois de 1980

foi assassinada a pobre Celina!... Como

bem disse o Marcelino dos Santos, era

necessário livrarem-se das oposições ao

programa da Ferlimo.

No meio da confusão o Orlando Cristina

conseguiu pôr-se a salvo.

REGRESSO DE ORLANDO CRISTINA

Continuemos a história deste homem

impar, ao nível dos nossos heróis Alpoim

Calvão, Rebordão de Brito, Teixeira, Jaime

Neves e tantos outros.

Como entretanto as chefias militares em

Moçambique haviam mudado, o Orlando

foi preso e acusado de deserção. As

chefias desconheciam as negociações

que levaram a esta decisão patriótica. Foi

precisa a intervenção de Jorge Jardim e

da Direcção Geral de Segurança para se

Eng.º Jorge Jardim, patrão do Orlando

esclarecer a situação. Daí dizer-se que

pertenceu à PIDE, o que não tem o mínimo

fundamento.

Entre 1965 e 1974 Orlando Cristina às

ordens do Eng.º Jorge Jardim, deu instrução

às Forças Armadas Portuguesas e

aos grupos especiais constituídos por ex-

-prisioneiros e voluntários. Foi neste período

que os Destacamentos de Fuzileiros

Especiais puderam usufruir e aproveitar os

seus ensinamentos para melhor desempenharem

as suas funções.

PÓS 25 DE ABRIL

Após o 25 de Abril, o nosso homem, conhecendo

bem as populações do norte de

Moçambique e sabendo da simpatia que

gerava entre todos, convenceu-se que

bastaria a sua palavra para recuperar a

confiança das populações, convencendo-

-as a voltar as costas à Frelimo.

Com um grupo de pequenos fazendeiros

atravessou a fronteira para a Rodésia.

Fundaram uma emissora que dia e noite,

transmitia músicas que sabiam ser do

agrado das populações, a par de as instigar

a revoltarem-se contra os déspotas

da Frelimo. Essa emissora era ouvida em

todo o Moçambique e chamava-se “Moçambique

Livre”.

Entretanto, a triunfante Frelimo, a quem

foi entregue o poder pelos democratas de

Lisboa, criou um campo de concentração

ou reeducação na Gorongosa, em Cudzo

ou Secudzo. Para este campo eram remetidos

todos aqueles que não davam garantias

de fidelidade.

É do conhecimento geral que a Gorongosa

é uma região de leões, leopardos e hienas.

Teoricamente os animais selvagens

seriam impeditivos de que os prisioneiros

fugissem. Contudo aconteceu que um

belo dia um jovem de nome Matsangaíce,

acompanhado de um número pouco numeroso,

fugiu da Gorongosa e atravessou

a fronteira da Rodésia. Foi dialogar com

o Orlando Cristina e convencê-lo que a

palavra tinha algum efeito mas era fundamental

iniciarem a luta armada. Relutantemente,

Orlando Cristina acabou por

aceitar as teses de Matsangaíce.

Este regressou a Moçambique e remetido

para o Cudzo donde havia fugido. Começou

então a mobilizar prisioneiros para pegarem

em armas. Assim nasceu a Renamo.

Primeiro a Rodésia e posteriormente

a África do Sul começaram a apoiar estes

revoltosos. Cristina que ficara impressionado

com o carácter deste bravo, decidiu

alterar o nome da emissora, chamando-

-lhe agora “Resistência Nacional Moçambicana”.

crónicas

Inge Preis, sua protectora em Maputo

Matsangaíce era muito inexperiente. Com

os homens que dispunha tentou fazer um

“golpe de mão” aos guardas do campo do

Cudzo. Saiu-se mal e foi novamente preso.

Fugiu mais uma vez e voltou à Rodésia.

Agora regressou com homens batidos,

experientes na “Arte da Guerra”. Desta

vez o “golpe de mão” foi um sucesso. Libertados

e armados os prisioneiros com

espingardas na posse dos guardas, começaram

a luta armada. Foi nomeado Secretário-Geral

da Renamo o Orlando Cristina.

Sendo branco manter-se-ia à frente dos

militares até encontrarem africanos que

o substituíssem. Como é evidente não se

sentia muito seguro. Exigiu uma Assembleia

Popular de que resultou continuar

Secretário-Geral da Renamo e eleito Presidente

o Afonso DhlaKama, decorrente da

morte em combate de Matsangaíce.

Os sul-africanos pretendiam que o Presidente

fosse Domingos Arouca. Um intelectual

com imenso prestígio dentro e fora de

Moçambique, culturalmente muito superior

aos demais.

Prevaleceu o sentido de que Domingos

Arouca nunca dera a cara. Que não seria

justo afastar DhlaKama para entregar a

presidência ao Domingos Arouca.

Calcula-se que a luta entre a Renamo e

a Frelimo tenha causado 1.000.000 (um

milhão) de vítimas!

Coisa pouca para os democratas portugueses

ao serviço da URSS.

Durante o conflito o Orlando Cristina deslocou-se

a Lourenço Marques diversas

vezes. Ficava aboletado em casa de uma

senhora alemã, a Inge Preis. Deslocava-se

nas viaturas da Frelimo a troco dumas cervejas

ou maços de tabaco. Andava sempre

“municiado”.

A Inge Preis, realizadora de audiovisuais,

ficou até bastante depois da independência.

Por curiosidade junta-se uma foto

dela, tirada há três anos em Cascais.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 41


crónicas

Era com as roupas do marido, 1,90 m, que

o Cristina viajara para a Europa ou para as

USA em representação da Renamo.

ERRO FATAL

No decorrer da luta armada desertou da

Frelimo para a Renamo o piloto-aviador,

Adriano Bomba. Esta deserção foi preparada

por seu irmão Boaventura Bomba

ligado aos Serviços Secretos da África do

Sul.

Dhlakama desconfiava da àfrica do Sul,

sobretudo da pressão que exercia para

que os Bomba tivessem mais notoriedade

dentro da Renamo. Os dirigentes sul-

-africanos pretendiam que ambos fossem

nomeados “comissários políticos” e integrados

nos quadros da Renamo.

cartas ao director

O Afonso Dhlakama condescendeu por

pressão de Orlando Cristina. Segundo o

Historiador João Cabrita, foi o seu Erro

Fatal.

Boaventura Bomba assassinou o Orlando

Cristina, na casa deste, arredores de

Pretónia, em 17 de Abril de 1983. Ainda

correram boatos que o Orlando fora abatido

pela companheira também pertencente

aos Serviços Secretos da Africa do Sul.

Os mesmos Serviços Secretos julgaram o

Boaventura Bomba e os quatro cúmplices

condenaram-nos à morte. Foram executados

no Sudoeste africano e lançados ao

mar a partir dum helicóptero.

Ao tempo era adido militar na África do Sul

o Coronel Fernando Ramos. Viveu de perto

toda esta tragédia e o seu testemunho não

A história de um Fuzileiro e da

sua namorada Fernanda

(1961 e 1965)

Tudo começou no princípio do ano

de 1961, quando rebentou a guerra

nas nossas colónias. Eu, Augusto

Beja, com 20 anos, e a minha namorada

Fernanda com 17 anos tivémos de nos

separar, em boa parte, devido à Guerra do

Ultramar.

A Fernanda, em Fevereiro de 1961, partiu

para Orléans-França, onde era esperada

por seu pai, emigrante instalado nesta

cidade e eu, como não quis arriscar, fiquei.

Na verdade, logo compreendi que só tinha

duas soluções: apresentar-me ao serviço

militar conforme a convocação que me

tinha sido enviada, ou então fugir do meu

país como muitos fizeram. Foi bastante

difícil a escolha mas, finalmente, acabei

por me apresentar no quartel em Vila

Franca de Xira para cumprir o meu serviço

militar, em Março de 1961.

Acontece que, com a decisão que tomei

de servir o meu país, a situação ficou a

partir daí um pouco complicada, para mim

e para a Fernanda já que, em Junho de

1963 tive que embarcar para Angola, o

que nos veio provocar uma terrível separação

de 4 anos.

Exm.º Senhor Director, permita-me que, de França, lhes conte:

Posso afirmar que foi preciso muita vontade

mas, finalmente, quando acabei o meu

serviço militar, em Maio de 1965 fiquei

de braços abertos à espera do Domingo

(8 de Agosto de 1965) data por nós marcada

para aquele tão desejado dia, o dia

do nosso casamento. Foi o dia mais feliz

da minha vida mas, infelizmente, 15 dias

depois de casados tivemos mais uma vez

de nos separar.

Acontece que me recusaram o passaporte

turístico devido à minha situação de

reservista e, assim me impediram de

acompanhar minha esposa até Orléans.

Foi uma injustiça muita dura de aceitar,

a tal ponto que, mais tarde tentei chegar

Orléans clandestinamente mas, “o salto”

correu muito mal. Fui apanhado pela

polícia espanhola dentro do comboio na

fronteira de Irum.

Foram um calvário aqueles 44 dias que

passei de prisão em prisão repartidos

entre Irum, Vitória, Burgos, Valladolide e

Salamanca, até chegar à nossa fronteira

de Vilar Formoso.

Foi muito complicado mas enfim, no interrogatório

na nossa fronteira, não tive

deixa dúvidas. O Orlando foi abatido pelo

Boaventura Bomba.

O seu irmão morreu numa emboscada

dentro de Moçambique.

Há uma outra versão: Maquiavélica! Sem

dúvida o Orlando foi assassinado por Boaventura

Bomba mas… a mando das autoridades

sul-africanas. Porquê? Porque

alcançada a paz no Acordo de Roma, terminavam

as hostilidades e a necessidade

dos serviços do Orlando.

Seja como for, paz à sua alma. É um homem

inesquecível.

José Cardoso Moniz

Augusto Beja

Sóc. Orig. n.º 36

Cofundador da AFZ

problemas, isto por duas razões: em primeiro

lugar, por provar que estava a chegar

de Angola e com um total de quatro

anos de presença na Armada mas, sobretudo,

por ter provado que minha esposa

tinha a sua residência em Orléans. Assim,

facilmente me abriram as portas da prisão.

Lá saí da prisão de Vilar Formoso mas, por

eu não aceitar esta situação, 15 dias depois

fiz nova tentativa de sair de Portugal

e desta vez tudo correu bem. Lá cheguei

a Orléans, no dia 1 de Novembro de 1966,

com toda a família de braços no ar, à minha

espera, para me abraçar.

Acredito que, no fundo, fomos recompensados

porque, já lá vão 47 anos de felicidade

com a Fernanda, junto dos nossos

filhos e de quatro maravilhosos netos.

Valeu a pena…

Termino dizendo que, para além de todo o

mal que nos fizeram, da distância que nos

separa do nosso país temos, e com muita

emoção, Portugal no Coração.

Augusto Beja

Sócio n.º 1687

42 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


O Almoço/Convívio de Natal

16 de Dezembro de 2012

Teve lugar, no passado dia 16 de Dezembro, o habitual evento

de Natal da Associação Nacional de Fuzileiros que este

ano, pela segunda vez, juntou num Almoço/Convívio, cerca

de trezentos e quarenta sócios, familiares e amigos da grande

“Família dos Fuzileiros”, novamente na Quinta da Alegria, em

Penalva, cujas instalações já foram pequenas para acolher tanta

gente, de tal ordem que as mesas tiveram de se “apertar”.

A afluência foi tal que chegámos a recear que o grande salão da

“Quinta da Alegria” não fosse suficientemente grande para alojar,

com alguma comodidade, tanta “alegria” de todos quantos quiseram

estar presentes nesta particular e emotiva manifestação de

camaradagem e solidariedade. Apesar da crise que Portugal vive,

os nossos sócios compareceram em massa e inundaram de emoções,

de amizade e de solidariedade o espaço e o tempo do nosso

Convívio de Natal, transformando alguma menor comodidade, no

calor humano que os Fuzileiros tão bem transmitir.

almoço de natal

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 43


almoço de natal

Para o ano que aí vem – se a Providência permitir – a Direcção

e o “Grupo de Acção” designado para organizar o evento têm de

ponderar o que terá sido uma deficiência de perspectiva, acautelando

instalações que possam conter, eventualmente, mais de

meio milhar de pessoas.

Na mesa de convidados estiveram cerca de vinte entidades incluindo,

nomeadamente, o representante do Presidente da Câmara

Municipal do Barreiro e o Presidente da Junta de Freguesia,

antigos e actuais Comandantes, do Corpo, da Escola e da Base

de Fuzileiros, antigos e actuais presidentes e vice-presidentes da

Assembleia-Geral, da Direcção e do Conselho Fiscal da Associação,

Membros do seu Conselho de Veteranos, Esposas e outras

personalidades de relevo para a instituição.

A mesa das Delegações esteve muito bem representada, com a

nossa gente do Algarve, de Gaia, e de Juromenha/Elvas. Ao longo

do vasto Salão, todos conviveram, mataram saudades e espalharam

nostalgias, brincaram e até dançaram ao som do magnífico

agrupamento musical do sócio aderente n.º 2193, José António

Paula Cabrita (que teve a amabilidade de o oferecer gratuitamente).

Todos, os mais velhos, os menos novos, os jovens e os mais

jovens, onde não faltaram as senhoras e também as crianças, deram

ao ambiente um especial colorido e muita dignidade.

Também houve “discursos”: os dos Vice-Presidentes, com palavras

de boas vindas, o do Comandante do Corpo de Fuzileiros, convidado

a falar e o do Presidente que, na circunstância, formularam

para todos votos de Boas Festas. Agradeceu-se a toda a equipa

que organizou a festa, e aos Directores da Associação, aos titulares

dos órgãos sociais e dirigentes das Delegações que, com o seu

voluntarismo e, de facto, voluntariamente, se deram à instituição e

se disponibilizaram, ao longo de todo o ano, para trabalhar em prol

da AFZ e, designadamente, na organização dos principais eventos.

44 O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


“De facto, só equipas de particular valia, exclusivamente constituídas

por voluntários conseguiriam desdobrar-se, e guindar tão

alto o nome e a imagem da Associação, conferindo nível, cortesia

e o nosso característico calor humano, a todas as iniciativas” que

se realizaram e se ofereceram aos sócios.

Citam-se palavras já escritas em idênticas circunstâncias:

«Imediatamente a seguir e sem legendas, para não distinguir

ninguém já que todos merecem ser distinguidos – pela coragem,

pela solidariedade, pelo espírito de camaradagem e de

entreajuda e pelos valores que são o apanágio e a mística dos

fuzileiros – ficam alguns registos fotográficos, para a posteridade

e que são as imagens que, mais do que muitas palavras,

conferem real conteúdo e importância ao nosso “Almoço de

Natal de 2012”».

Marques Pinto

almoço de natal

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt 45


delegações

NOTA: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

A

região do Algarve foi assolada por uma intempérie no dia 16 de Novembro que

incidiu particularmente nos concelhos de Lagoa e Silves onde danificou imensas

infraestruturas públicas e privadas tendo resultado 13 pessoas feridas, 12 desalojadas

e cerca de 4.500 pessoas sem energia elétrica.

Não podendo alear-se deste grave problema, a nossa Delegação mobilizou os associados

que, prontamente e demonstrando mais uma vez o grande espírito do Fuzileiro souberam

responder e dizer: “Pronto”.

Pela manhã do dia 18 de Novembro, a vasta equipa da Delegação estava no terreno,

tendo sido recebida pelo Presidente da Câmara Municipal de Silves e pelos responsáveis

À

semelhança de anos anteriores,

a Delegação foi convidada a

participar na recolha de alimentos,

em parceria com o Banco Alimentar

Contra a Fome.

46

Delegação do Algarve

Apoio à intempérie de Silves

Apoio Banco Alimentar Contra a Fome

Assim sendo, no dia 3 de Dezembro,

teve lugar em toda a região algarvia

a ação humanitária e nela estivemos

presentes, particularmente nos locais

de concentração dos bens recebidos,

da Proteção Civil que nos ajudaram a

organizar, de acordo com as prioridades,

tendo sido de imediato iniciados os

trabalhos de apoio as populações.

Viam-se uma centena de habitações

danificadas e imensas viaturas destruídas.

Esta ação, que pretendemos louvar nas

pessoas dos “nossos” Associados, foi reconhecida

publicamente como sendo de

grande utilidade, numa hora difícil para

as populações que mais uma vez viu nos

Fuzileiros Homens de grande caráter, personalidade

e, sobretudo, de elevado humanismo

e espírito de servir.

em Faro e Portimão, com duas equipas

de camaradas, dando assim o nosso

contributo para ajudar a atenuar aquilo

que, por incrível que pareça, já constituiu

um grave problema nacional: a fome.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


Almoço de Natal

8 de Dezembro

O

Almoço/Convívio de Natal, que teve lugar no passado dia

8 de Dezembro no restaurante da “Fatacil”, em Lagoa,

reuniu um apreciável número de associados, familiares

e amigos, tendo decorrido em ambiente de fraterna amizade e

camaradagem.

A festa natalícia foi animada pelo acordéon do “nosso” associado

Paulo Domingues. Como não poderia deixar de ser, a criançada

presente foi visitada pelo Pai Natal que lhes trouxe animação e

brinquedos.

A

solicitação do autor, o associado

José Maria Rodrigues Ferreira, foi

dado apoio ao lançamento do seu

livro intitulado “O Fuzileiro Especial”,

da editora “Arandis”.

O acto teve lugar no dia 15 de Dezembro,

na sede (provisória) da Delegação tendo

estado presentes para além do autor

e do editor, um assinalável número de

associados.

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Apoio ao lançamento do livro

“O Fuzileiro Especial”

delegações

Como convidados de honra estiveram na

sala as Direções da Delegação da AFZ e do

Clube Escolamizade, bem como o senhor

Dr. José Carlos Rolo, ilustre Presidente da

Câmara Municipal da Albufeira. Este, na

sua breve intervenção proferiu palavras

elogiosas aos Fuzileiros, realçando quanto

de importante são para a sociedade civil

“os testemunhos do que foi a guerra

colonial em África”.

Este breve resumo para as páginas da nossa revista “ O Desembarque” irá servir, por certo, para expressar a vitalidade da Delegação da Associação

Nacional de Fuzileiros do Algarve que continua com espírito associativo e dentro do que estatutariamente está previsto, ficando-nos a certeza do

dever cumprido. António Medeiros - Presidente da DFZA - Sóc. Orig. n.º 1235

47


delegações

48

Aniversário da Delegação

No próximo dia 1 de Junho de 2013 comemorar-se-á o Aniversário desta sempre

activa Delegação que não pára com as suas iniciativas, ambição medida e espírito

de bem-fazer e de fazer bem.

A solicitação da Direcção da Delegação – e com a colaboração da Direcção Nacional –

conseguiu-se que a Banda da Armada feche as comemorações actuando pelas 22h00

horas, na Praça da República de Elvas, ou caso o tempo o não permita, no Coliseu da

cidade.

O encontro está marcado, porém, para as 10h00 horas junto à sede da Delegação, em

Juromenha, onde com a habitual galhardia das nossas gentes de Juromenha/Elvas se

receberão os fuzileiros, as famílias, os amigos e os respectivos convidados de honra.

Mais do que relatar as iniciativas e as acções já realizadas,

optámos por anunciar duas que se projectarão em 2013

e que coroam o alto nível dos dirigentes desta nossa Delegação,

cujo Presidente da Direcção, o nosso Sócio Originário

n.º 958, Licínio de Jesus Algarvio Morgado, para nós, o Licínio,

simboliza o que de melhor temos e a forma como se coordena

uma equipa de sucesso e que represente a unidade da grande

“Família” dos Fuzileiros.

Depois de algumas actividades que, oportunamente se divulgarão, terá lugar o Almoço/Convívio. O ponto alto será sem dúvida o concerto

da nossa Banda da Armada que, sempre muito solicitada, teve de ser programada com meses de antecedência, ao que o Almirante

Chefe do Estado-Maior da Armada concedeu a indispensável autorização.

Numa parceria de três Entidades, Município de Elvas, Delegação da Associação de

Fuzileiros de Juromenha/Elvas e Associação Nacional de Fuzileiros, e por inteira

iniciativa dos dirigentes da Delegação, a Armada Portuguesa e os seus Fuzileiros

– à semelhança do

que acontece na

cidade do Barreiro,

com o Monumento

do Fuzileiro implantado

pela AFZ,

em colaboração

com o respectivo

Município – terão, também, os seus símbolos implantados,

numa das mais significativas centralidades da cidade de Elvas,

considerado sítio urbano privilegiado, uma rotunda virada para

o Coliseu de Elvas.

O projecto, que foi ideia do Comt. Magarreiro, um “filho da terra”,

envolve a Associação Nacional de Fuzileiros e também o

nosso Sócio Aderente n.º 1669, Sr. João Armando Rondão Almeida

que é o ilustre Presidente da Câmara Municipal de Elvas.

Delegação de

Juromenha/Elvas

Os símbolos da Armada e dos Fuzileiros

em Elvas

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Delegação de Vila Nova de Gaia

2.º Aniversário e Almoço de Natal de 2012

Como foi profusamente anunciado

realizaram-se as cerimónias de comemoração

do 2.º Aniversário e,

simultaneamente, o Almoço de Natal de

2102 da Nossa Delegação de Vila Nova de

Gaia, no p. p. dia 1 de Dezembro.

Após o «Toque de Alvorada» para concentração

junto da sede da Delegação, por ora

e provisoriamente, localizada em Canelas

rumou-se ao Regimento de Artilharia n.º 5

(Serra do Pilar), onde foi possível apreciar

uma excelente vista do miradouro sobre

a cidade do Porto, Gaia e o Rio Douro e

visitou-se o Museu do Quartel, enquadrado

pelas diversas peças de artilharia de campanha

que ladeiam a parada. Finda a visita,

procedeu-se à tradicional «foto de família».

Seguidamente acertou-se o azimute para

o Restaurante Salgueirinhos, em Grijó –

Gaia, onde se efectuou o «desembarque»

para convívio, iniciando-se o mesmo com

um «reconhecimento» aos aperitivos, ao

ar livre, seguido de um agradável almoço

pautado por valores de camaradagem e

amizade.

Após o Presidente da Delegação de Gaia,

FZ Henrique Mendes, saudar os convidados

com as boas-vindas, fez-se um minuto

de silêncio em memória dos camaradas já

falecidos, com o consecutivo mítico «grito

de guerra dos Fuzileiros» encetado pelo

Sarg. FZE Manuel Parreira e correspondido

pelos Fuzileiros presentes. Depois cantou-

-se o Hino da Associação Nacional de Fuzileiros,

findo o qual se iniciou o “rancho”.

Posteriormente ao almoço, café e respectivos

digestivos, cantou-se e brindou-se

com alegria os parabéns à DFZ’s GAIA,

provou-se o bolo de aniversário procedeu-se

à distribuição de lembranças aos

convidados. O convívio prolongou-se pela

tarde, recordando-se com nostalgia e saudade

tempos que o tempo não consegue

apagar.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

delegações

Não faltaram a boa disposição e os discursos,

dos quais se destaca apenas – porque

o dia é dos nossos homens de Gaia –

o do Presidente da respectiva Delegação.

A festa teve honras de cobertura jornalística,

por uma jovem do «Jornal Audiência»

de Vila Nova de Gaia, que entrevistou diversas

personalidades presentes.

Marcaram presença as seguintes:

O Vereador do Pelouro da Cultura da

CMVNG, Eng.º Rui Cardoso; o Comandante

do Corpo de Fuzileiros, CAMT, Cortes

Picciochi; o Comandante Martins dos Santos,

Comt da ZMN, dos Portos de Douro

e Leixões e da Polícia Marítima; o nosso

Associado, Procurador do MP, Dr. Rodrigues

Morais; o Presidente da Direcção Nacional

da AFZ, Comt Lhano Preto e outros

Membros dos Órgãos Sociais da Associação

(Mário Gonçalves, Egas Soares, Jaime

Azevedo, Lopes Leal, Francisco Fazeres);

o Comt Manuel Mateus, antigo Presidente

da AFZ e membro do seu Conselho de

Veteranos; Edmundo Coutinho, Presidente

da Associação Recreativa-Cultural de Canelas;

a Ana, funcionária do Secretariado

Nacional da AFZ e Sócia Aderente a que

se juntaram cerca de 120 pessoas entre

sócios, fuzileiros, famílias e amigos.

49


delegações

Presentes, também, os Presidentes das

Delegações do Algarve, FZ António Medeiros

e de Juromenha/Elvas, FZ Licínio Morgado,

que num admirável gesto de solidariedade

e de unidade, tiveram de percorrer

muitos quilómetros para se juntarem aos

Camaradas do Norte.

Minhas Senhoras e meus Senhores

É com enorme orgulho que vos recebemos nesta celebração do

nosso 2.º Aniversário que, simultaneamente festejamos com o

nosso Encontro de Natal/2012.

Em primeiro lugar queremos agradecer ao Sr. Presidente da Associação

Nacional de Fuzileiros (CMG FZE) Lhano Preto e a toda

a Direcção da AFZ, pelo voto de confiança depositado em nós.

Da nossa parte, sempre estaremos disponíveis podendo a nossa

Associação contar com uma pronta resposta de espírito e corpo,

quando e onde for necessário;

A nossa gratidão dirige-se também ao Sr. CALM Cortes Picciochi,

comandante do Corpo de Fuzileiros, pela forma interessada como

acompanha os eventos dos Fuzileiros e pela sua total coordenação

com a Associação Nacional de Fuzileiros. Sentimo-nos muito

lisonjeados, com a sua presença;

Ao Sr. Edmundo Coutinho, presidente da Associação Recreativa

de Canelas, não podemos deixar, também, de agradecer a sua

presença que muito nos orgulha;

Agradecemos ainda a presença do Sr. CMG Victor Manuel Martins

Santos, comandante do Comando Zona Marítima do Norte e da

Policia Marítima e cumpre dizer-lhe que nos orgulha muito tê-lo

como nosso ilustre convidado. Os Fuzileiros de Gaia agradecem-

-lhe e dir-lhe-ão, sempre, presente.

Ao Sr. Vereador da Câmara municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.

Rui Cardoso, muito obrigado pela sua presença que particularmente

nos honra. Queremos afirmar-lhe que a cidade de V.N.

Gaia poderá contar com os Fuzileiros e com a nossa total lealdade

e empenho quando e onde for necessária a nossa participação.

Quereremos também agradecer aos Presidentes das Delegações

da Associação Nacional de Fuzileiros aqui presentes; ao Licínio

Morgado da Delegação de Jerumenha/Elvas e ao António Medeiros

da Delegação do Algarve queremos afirmar que é para nós

um enorme orgulho, poder contar mais uma vez, com a vossa

companhia neste dia tão especial para nós.

Os nossos agradecimentos, ainda, ao Sr. Comt Manuel Mateus,

antigo Presidente da AFZ e Membro do seu Conselho de Veteranos

cumprindo-nos dizer-lhe que ficámos muito gratos pela sua

presença neste nosso evento.

A Delegação de Fuzileiros de Gaia continua dando passos que se

querem seguros e respeitadores da máxima que nos acompanha

e sempre nos acompanhará: Fuzileiro uma vez, Fuzileiro para

sempre. Porque é dever de todos os que ostentam e sentem orgulho

na nossa Boina azul ferrete ter comportamentos que a honrem,

sem exibicionismos baratos que possam futilizar os nossos

princípios.

50

É de toda a justiça louvar a dinâmica da

“Força-tarefa” convocada pela DFZ’s

GAIA, que imbuída de “espírito de corpo”

organizou o evento, sob comando do seu

Presidente – FZ Henrique Mendes, pelo

que se pode dizer: “Missão cumprida”.

Tratou-se de cerimónia cheia de profundo

significado, onde mais uma vez a Amizade,

a Camaradagem, a Solidariedade e,

sobretudo, o Espírito de Unidade estiveram

presentes.

Rodrigues Morais

(com a colaboração de Marques Pinto)

Os nossos “fotógrafos de serviço” (SAJ FZ Rogério Pinho Silva e FZE Mário Manso) disponibilizaram os seus registos fotográficos por e-mail e nas redes sociais.

Discurso do Presidente da

Delegação de Vila Nova de Gaia

Valeu a pena testemunharmos

o

esforço feito pela

Associação Nacional

Fuzileiros, ao

ter incluído as Delegações

com os

respectivos Guiões,

nas cerimónias

militares na Escola

de Fuzileiros, no

Dia do Fuzileiro e

na inauguração do Monumento ao Fuzileiro, no Barreiro/2012. Foi

honra enorme depositada, no fundo na nossa alma de Fuzileiro.

Jamais esqueceremos tamanha consideração que estamos certos

não terá sido em vão.

No Dia do Fuzileiro/2012, a nossa Delegação mobilizou umas largas

dezenas de participantes para a nossa “Casa Mãe”, sem que

houvesse qualquer problema que ensombrasse a nossa participação.

Mais uma vez houve uma partilha positiva e uma convivência

civilizada, atitude que deve presidir sempre quem tem o dever de

honrar a Boina Azul Ferrete.

Este ano estivemos presentes no Aniversário da Delegação do

Algarve e também no Aniversário e inauguração da sede da Delegação

de Juromenha/Elvas, decerto, um dia muito especial para

Vós e para quem vos acompanhou. Obrigado pelo vosso carinho,

solidariedade e amizade.

Estivemos, ainda, presentes no Aniversário da Associação Portuguesa

dos Veteranos de Guerra, em Braga.

Antes de terminar quero manifestar a todos os membros da nossa

direção e sócios afectos á Delegação de Fuzileiros de Gaia, às

suas famílias e aos nossos amigos, a nossa gratidão pela vossa

presença. Sem vós a Delegação não conseguiria o êxito conquistado.

Desejo a todos um feliz e Santo Natal e um próspero ano cheio de

saúde, paz e amizade.

Termino prestando uma breve homenagem aos ex-combatentes,

pela força, coragem e lealdade com que combateram e honraram

o nome de Portugal. Façamos todos, um minuto de silêncio em

sua memória, e em especial, pela do Camarada Dr. Ilídio Neves

Luís, ex-Presidente da Associação Nacional de Fuzileiros que nos

deixou recentemente. Depois desse minuto de silêncio convido o

nosso camarada exCombatente Manuel Parreira para dar o Grito

do Fuzileiro.

Henrique Mendes

Sóc. Orig. n.º 1089

Pres. da Delegação de Vila Nova de Gaia

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


eportagem

Timor-Leste:

entre as lembranças do passado e a realidade presente

Reportagem de uma romagem tardia

Quando um antigo fuzileiro, como eu,

visita um país estrangeiro e, em plena

zona tropical no interior do seu

território, onde a vegetação e o tempo facilmente

apagam os vestígios edificados,

se não forem usados, com poucas placas

toponímicas a indicar os caminhos e os

próprios nomes das localidades, o facto de

aparecer, de repente, uma tabuleta destacada

com a indicação “fuzileiros”, não

muito deteriorada, levou a que a viagem

fosse, de imediato, interrompida para verificar

o que, para mim, me pareceu insólito.

Placa do fuzileiros portugueses

Em plena montanha, com habitantes de uma aldeia

Este pequeno introito numa reportagem de

uma viagem que um grupo de 15 portugueses,

homens e mulheres, no qual eu me

incluía, que decidiu fazer, durante 15 dias,

uma incursão por todo o território de Timor-

-Leste, para percorrer os 13 distritos do

país, incluindo o enclave de Oecussi-Ambeno

(encravado em território indonésio).

A viagem igualmente passou pela ilha de

Ataúro – a 25 quilómetros de Dili, a capital,

e o paradisíaco ilhéu de Jaco, situado em

frente da ponta leste do país, muito perto

da povoação de Tatuala.

Este grupo de portugueses foi o primeiro,

desde a independência efectiva timorense

da ocupação indonésia, iniciada em 1999

e formalizada em 2002, a percorrer,

demorada e profundamente, todas as

regiões do país, numa peregrinação de

mais de dois mil quilómetros, que incluiu

caminhadas de vários dias e escaladas às

principais áreas montanhosas de Timor

Lorosae, o Tata-Mai-Lau, o cume do Monte

Ramelau, e ao Matebian, a montanha, na

tradição animista, dos espíritos e dos

antepassados.

E, tenho de o confessar, a idade já pesa

nos nossos corpos.

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

Voltemos, pois, ao início da escrita.

Ou seja, a placa em pedra, pintada de

branco, já com alguns caracteres a desaparecer,

mas onde se conseguia distinguir

o distintivo actual dos fuzileiros portugueses.

Por perto, não havia pessoas, embora não

muito longe se avistasse um edifício, que

até parecia militar, mas não encontramos

ninguém. Como tínhamos de seguir viagem,

não conseguimos saber a origem.

Mais tarde, em Díli, disseram-nos que

os fuzileiros portugueses tinham estado

naquela região, mas pouco mais informações

obtivemos.

Até porque, ao longo da viagem, nunca

chegamos a contactar forças da Marinha,

embora soubéssemos que tinham ao seu

serviço dois navios tipo lanchas de fiscalização,

que os civis que nos transportaram,

em embarcações com motores fora de

borda, entre Dili e Ataúro, apelidassem as

mesmas, que estavam fundeadas ao largo

da baía da capital, como “fragatas”. E um

pequeno destacamento de fuzileiros. Não

mais de 35 homens.

51


eportagem

Já em Portugal, através do almirante Cortes

Picciochi, comandante do Corpo de Fuzileiros,

fui informado que, em 1998, dois

fuzileiros participaram na forças de interposição

da ONU, a INTERFET, e entre 2000

e 2004, ao serviço da ONU (via UNTAET

e UNMISET), uma companhia de fuzileiros

esteve em Missão em Timor-Leste.

Em 2010, instrutores fuzileiros portugueses

deram o primeiro curso para os seus

homólogos timorenses, a que se seguiu o

segundo curso em 2011. Apenas com três

instrutores fuzileiros portugueses.

A nossa longa e interessante aventura em

território de Timor-Leste iniciou-se por

dois locais ligados, profundamente, à antiga

presença colonial portuguesa.

52

AVENTURA E TURISMO

Os caminhos que serpenteiam por todo o

Timor são difíceis, muito danificados, mas

a hospitalidade foi enorme e a gastronomia,

que desconhecíamos totalmente,

encheu-nos as medidas.

Claro que esta viagem foi de aventura, no

verdadeiro sentido da palavra. Não existe,

felizmente, para o tipo de pessoas como

eu, turismo de massas. Andei um pouco

pelo mundo e gosto de ver ainda as belezas

naturais, e elas estão, naquele país,

para os ocidentais, quase por descobrir.

Depois de chegarmos a Dili, zarpamos,

logo no dia seguinte para a ilha de Ataúro,

hoje um local de passeio e de lazer

tropical, de uma beleza rara, ainda pouco

conhecido para as viagens turísticas. Deu

para tempo de relaxe na praia, uma ida

de triciclo, para quem o quis, até à vila de

Maumeta, andou-se de beiros, as canoas

locais nas praias de águas quentes de

Bikeli.

(Ora, Ataúro, como recordação histórica,

significou, na prática, a última base

No Pico após longa caminhada

portuguesa naquele território quando, em

Agosto de 1975, o então governador Mário

Lemos Pires – que era tenente-coronel

decidiu abandonar Dili e instalar-se

naquela ilha.

Com escassas forças militares sob a sua

supervisão, depois da divisão provocada

na estrutura policial e militar sob administração

lusa com um golpe de Estado provocado

pelo partido UDT (União Democrática

Timorense), que arregimentou o sector

policial, incluindo o seu comandante, o falecido

tenente-coronel Maggiolo Gouveia,

tendo os militares, de maioria timorenses,

onde pontificava o alferes Rogério Lobato,

futuro Ministro num governo de Mari Alkatiri,

que se juntaram à FRETILIN (Frente

Revolucionária de Timor-Leste), eclodiu

uma guerra civil. Lemos Pires ainda tentou

um acordo entre os dois partidos. A

FRETILIN pediu-lhe que ele regressasse

a Dili, com vista a prosseguir o processo

de descolonização. O governador respondeu

que esperava ordens de Lisboa. Os

acontecimentos precipitaram-se, quando

se constatou que a Indonésia já ocupara,

violentamente, o enclave de Oecussi. Dias

depois, seguiu-se uma invasão, em força,

por terra, mar e ar, curiosamente com alguns

navios de origem soviética).

Hoje, em Ataúro, com um “resort” a funcionar,

já começa a ser percorrido por turistas,

poucos ainda, naturalmente muitos

australianos.

No dia seguinte, regressámos a Díli com

rumo já programado para o enclave de

Oecussi-Ambeno.

Havia duas maneiras de lá chegar, por

terra, atravessando território indonésio,

com a necessidade de vistos e entraves

burocráticos. Perdiam-se dias.

A decisão foi ir num ferry-boat, de nome

“Nakroma”, que faz uma viagem semanal

de ida e volta até ao enclave. (Foi oferecido

pela Alemanha a Timor. Estranhamente, o

capitão era indonésio e verificamos que,

por artes manhosas de cumplicidade das

autoridades timorenses, deixavam-no

seguir até à Indonésia…).

Foi uma viagem do “outro mundo”.

Quando nos aprontávamos para embarcar,

com bilhetes antecipadamente comprados,

assistimos a imagens de fazer arrepiar

o mais sensato.

No interior do poço do ferry, apinhavam-

-se – é o termo, parecia um colmeia em

movimento – veículos, animais, das mais

variegadas espécies, com centenas e centenas

de humanos (homens, mulheres e

crianças de todas as idades), autenticamente

encaixotados, com um calor tropical

asfixiante.

No regresso, a repetição do *filme*. Se

houver (ou houvesse) o mais pequeno

percalço, certamente haverá centenas de

mortos.

Num espaço tão curto de quilometragem,

a viagem foi longa. Toda a noite a navegar.

Chegamos às cinco da manhã.

Depois da chegada a Pante Macassar, o

grupo fez uma longa caminhada até Lifau

– foram mais de 10 quilómetros sob

um sol tropical abrasador, que, com memórias

de 40 anos atrás, me senti nas

movimentações da Guiné-Bissau. E, mais

desgastante, o regresso. Custoso, mas estimulante.

O cruzeiro em Lifau

Em Lifau, que foi a primeira capital da ilha

de Dili (na altura toda a ilha estava sob a

jurisdição portuguesa).

Ali foi inaugurado, a 14 de Agosto de 1974,

um cruzeiro que assinala, precisamente, o

local onde desembarcaram os primeiros

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


marinheiros portugueses (possivelmente,

os então infantes da Marinha) no ano de

1512.

Pois, foi mesmo junto a este cruzeiro que o

nosso grupo almoçou um lauto repasto do

melhor da gastronomia local. Inimaginável

numa área tão inacessível. Mas, a hospitalidade

fura todas as expectativas.

A primeira fonte documental europeia conhecida

que refere a existência da ilha é

uma carta de 6 de Janeiro de 1514, escrita

por Rui de Brito Patalim, capitão de

Malaca para Afonso de Albuquerque, governador

das Índias, que a envia para o

rei D. Manuel I referindo que Timor – uma

ilha além de Java – tinha muito sândalo,

mel e cera. Em 1556, um grupo de frades

dominicanos estabeleceu o primeiro

povoado em Lifau, que só, em 1702, se

torna capital da colónia quando ali chega

o primeiro governador nomeado pelo rei

português, estatuto que permaneceu até

1767. Depois foi decidido sedear a capital

em Dili, perante as investidas holandesas,

que se apropriaram de parte das colónias

da Insulíndia portuguesa. Em 1859, pelo

Tratado de Lisboa, Portugal e a Holanda

fizeram a divisão da ilha: Timor Ocidental

para os holandeses, com capital em Kupang

e a restante, com sede em Díli, incluindo

Oecussi, como enclave encravado.

ATÉ QUE O CORPO AGUENTASSE

Dormimos, nessa noite em Díli, aonde

regressaríamos duas semanas depois,

empreendendo deste modo uma autêntica

caravana de exploração, de contactos com

as populações mais remotas, que sempre

nos acolheram, peregrinando pelos mais

recônditos, belos, mas também, por vezes,

inóspitos, locais de todos os distritos e

sucos timorenses.

Partimos, numa primeira fase do percurso

numa carrinha *folclórica*, que lá chamam

de bistoka, e rumamos, de imediato,

para Liquiçá, parando em Tsi-Tolu, junto a

uma estátua gigante lembrando o falecido

Papa Católico João Paulo II, depois em Aipelo,

nas ruínas de uma antiga prisão do

tempo colonial português.

Depois de visitar Liquiçá, enfrentamos

velhas estradas, praticamente desfeitas,

ainda construídas pelas administração lusitana

e chegamos ao antigo forte holandês

de Maubara.

A viagem, deslumbrante, que seguiu a

costa norte, com praias magníficas. Passamos

pelas ruinas, muito destruídas, da

fortificação portuguesa de Batugadé, junto

à fronteira da parte indonésia da ilha.

Desviamos para sul, fez-se uma breve

paragem em Balibó. (Estivemos na casa

onde foram capturados cinco jornalistas

australianos em 1975, sumariamente fuzilados

pelos indonésios, que começavam a

invadir Timor). Ao fim do dia, entramos em

Maliana e fomos pernoitar em Bobonaro.

Seguiu a “epopeia” da exploração. Toda a

movimentação para a escalada do Monte

Ramelau, até o cume conhecido por Tata-

-Mai-Lau.

Descrição da caminhada e escalada ao Monte Ramelau

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

reportagem

Já tínhamos abandonado a bistoka e agora

o apoio logístico eram de jipes 4x4.

Grande parte do percurso seria feito a pé,

para, de noite, empreender a escalada

ao monte Ramelau. Partiu-se, com guias

– os mata-dalan – do suco de Soiselu,

dormiram-se, algumas horas, numa Pousada

recuperada, em que foi em tempos

o posto administrativo das autoridades

em Hato-Builico. O grupo saiu cerca das

três horas da manhã para uma escalada

de várias horas até ao nascer do sol no

cume: maravilhara-se com o *loron sa’e*,

justamente o nascer do sol)

Eu tive de ficar para trás, pois estava a

ressentir-me, numa subida íngreme pedregosa,

de uma operação recente.

Regressou-se a meio da manhã. Alongamo-nos

depois para uma caminhada tropical

de oito horas até Atbase.

(Um registo que se tem de fazer em termos

curtos: Pudemos nesta caminhada de dois

dias saborear e apreciar tudo o que é

belo no meio das dificuldades – degustar

os produtos da terra, ver as crianças a

percorrer quilómetros, todas vestidas a

rigor, para ir para a escola – sim, vimos

escolas em tudo o que era povoado –,

levando a água para beber, passar por

zonas de águas quentes e águas frias

– tudo numa zona tropical – andar por

escarpas nuas, bordejar ou entrar nas

imensas plantações de café, um calor

asfixiante, um suor transbordante. Olhar

em frente e ver a imensidão de montanhas

num pequeno país).

53


eportagem

54

Despedida de Timor-Leste, com o nosso guia e a administrativa do grupo

Um dos troços mais longos, que fizémos,

percorremo-lo de jipe, por estradas que já

foram – e aqui tenho de referenciá-lo: os

novos governantes timorenses não apostaram,

nestes 10 anos de independência,

minimamente nas infra-estruturas básicas,

além, do positivo, do já citado parque

escolar, e tiveram dinheiro do petróleo

para isso.

Também do que pude apreciar, já existe,

como em Portugal, claro que nas dimensões

de cada país, uma profunda clivagem

entre governantes e governados –

serpenteando pela ventosa e fria rodovia

pedregosa que atravessa a Flecha, com

íngremes desfiladeiros e profundos vales,

contornando o Monte Kablake.

Passeamos por paisagens de beleza estonteante,

alongamos mais caminhos,

não sei o que representou em quilometragem,

mas foi muito, para que alguns dos

nossos guias nos quiseram mostrar onde

nasceram ou onde viviam os seus familiares

mais chegados. Até que chegamos

a Same, capital do distrito de Manufhai,

terrra do liurai D. Boaventura, que chefiou,

em 1912, uma revolta contra a ocupação

portuguesa.

DAS PRAIAS, O PARAÍSO DE JACO

E MATEBIAN

A bússola dava indicação de que os

próximos três dias seriam de explorar a

costa sul, com praias estonteantes, até à

ponta mais a leste de Timor. Saiu-se de

Same, passou-se por Betano, atravessouse

Natarbona, um das mais importantes

regiões agrícolas do país.

Fizemos uma visita à aldeia de Krarás, que

foi dizimada pelos indonésios nos anos

80. Almoçamos em Viqueque. Depois,

partimos para Loi-Huno, onde pisamos os

trilhos que a resistência utilizou durante

quase três décadas, indo em caminhada e

escalada até às suas profundas e inexploradas

(turisticamente) grutas, que foram

refúgio seguro da

guerrilha.

Dormimos na aldeia

de Loi-Huno

e marchamos, logo

na manhã seguinte

até Iliomar, onde

verificamos que

existe gás natural

no próprio território

timorense,

precisamente, em

Aliambata. Ali tão

perto estavam belas

praias de uma

água tão morna,

que nos levou a

grandes mergulhos.

A etapa seguinte era Lospalos, onde pernoitamos.

Uma curiosidade: comemos

num restaurante de um português chamado

Roberto Carlos.

(Um pequeno aparte: ficámos alojados

durante a viagem em dois colégios de

salesianos que cederam as instalações

para servir comida e dormida. Um em em

Fuiloro, o outro em Quelicai).

Depois de uma visita por Lospalos, partimos

para Tutuala, onde, ao longo do trajecto,

se podem ver ainda casas típicas da

região, que foram o símbolo ancestral de

residência de Timor: Descemos seguidamente

para a praia de Walu.

E num “beiro” a motor, zarpamos para a

ilha de Jaco: praia de areia branca, corais

extraordinários, peixes de múltiplas cores e

um opíparo almoço com um “monstruoso”

imperador”, ali mesmo pescado.

Ao fim da tarde, regresso a Walu, onde

pernoitamos, num “resort” já com qualidades

turísticas.

Subimos, novamente, para Tutuala com

a indicação de que o percurso só pararia

em Com, mas esta andança, partida

de Meahara até Malahara, foi feita, em

grande parte do caminho, a pé, muitas

horas de rápido andamento, ladeando a

extensa lagoa de Ira-Lalaro, meandrando

entre centenas de búfalos, que olhavam

desconfiados para os estranhos. Também,

porque queríamos ver crocodilos, num dos

rios que parte da lagoa, mas nada.

(Em todo o tempo de Timor, apenas colocamos

o olho único crocodilo, o símbolo

mítico do território, e este “internado”

num tanque há varias dezenas de anos).

A caminho de Com, fizemos paragem em

vários cemitérios onde a religião católica

se mistura com tradições animistas ancestrais.

Atingimos a aldeia piscatória de

Pitilete. Com os jipes novamente em andamento,

chegamos a Com, onde dormimos.

No dia seguinte, íamos começar a dirigir-

-nos para o Monte Matebian. Saímos de

Com e tivemos a oportunidade de visitar

as ruínas de velhas fortificações militares

portugueses, que se destacam sobra as

casas de Lautém e Laga. Mudámos depois

o rumo para sul até Quelicai, onde pernoitamos.

Na manhã seguinte, muito cedo, iniciouse

a subida ao Monte Matebian. Fizemo-lo

dividido em dois grupos, os mais rápidos

e de perna rígida, saíram mais cedo e

deambularam pelas zonas mais difíceis

e escarpadas. O outro trilhou zonas

menos alcantiladas, com passagem por

Laumana. Ambos desceram para Baguia,

no outro lado da montanha, com cerca de

12 horas de caminhada.

Extenuados, fomos dormir à Pousada de

Baucau. De manhã o grupo dividiu-se

pelos interesses que surgiam: passeio

pela parte histórica da vila, descida até à

praia ou visitar Venilale.

Depois foi o regresso a Dili, passando por

Manatuto, terra do artesanato de barro e

chegada à capital para preparar as malas

para o regresso e sermos presenteados,

de surpresa, com um lauto jantar de iguarias

timorenses, com danças tradicionais.

Um registo final: ao longo das nossas

andanças e dos contactos que tivemos,

ficámos a saber que muitos dos actuais

e antigos dirigentes de Timor Leste e

responsáveis das suas Forças Armadas

fizeram o serviço militar em unidades do

Exército português.

É o caso do actual major-general Lere

Anan Timur, chefe do Estado-Maior-General

das Forças Armadas, que foi cabo;

Rogério Lobato, que foi Ministro da Defesa

na I República e Ministro da Administração

Interna na II República, foi alferes em

1974/75 e, Abílio Araújo, que exerceu o

cargo de Presidente da Fretilin, e de Presidente

da República nessa efémera República,

foi furriel miliciano nos finais dos

anos 60, tendo trabalhado com os então

alferes milicianos Ângelo Correia, que foi

ministro da Administração Interna de Cavaco

Silva e Fernandes Tomás, historiador

de renome sobre o Extremo-Oriente, sobrinho-neto

do almirante Américo Tomás,

último Chefe de Estado do Antigo Regime.

Serafim Lobato

Sóc. Orig. n.º 1792

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt


A Associação Nacional de Fuzileiros e a nossa Revista

“O Desembarque” apresentam sentidas condolências às

Suas Famílias, publicando-se as respectivas fotografias

que correspondem às que encontrámos, com menor ou

razoável qualidade, nos nossos ficheiros.

Estes nossos Camaradas e amigos conservar-se-ão sempre

entre nós neste Planeta e quando nos encontrarmos

noutros Mundos.

Dr. Ilídio das Neves Luís

Sócio n.º 155

Donativos

Manuel Ramos Farias

Sócio n.º 1101

Nome do sócio N.º Donativo

Eng. Castro Figueiredo - Placa da AFZ

Francisco Jordão - 5,00 €

João Pedro Marques da Luz 1308 20,00 €

Anónimo - 20,00 €

Manuel Correia 478 40,00 €

Cte. Mendes Fernandes - 80,00 €

Nome do sócio N.º Assin.

Gil Neves 1384 10,00 €

Diamantino Rodrigues 1887 10,00 €

Vitor Rosa Porto 1706 10,00 €

Martinho dos Santos Alves 1837 10,00 €

José Manuel Pedro Ferreira

Sócio n.º 1808

O DESEMBARQUE • n.º 15 • Março de 2013 • www.associacaodefuzileiros.pt

obituário

Aqui se presta homenagem

aos que nos deixaram

Ataíde Alves Candeias

Sócio n.º 440

Novos Sócios

Nome do sócio N.º

Armenio da Silva Coelho 2174

Diamantino F. M. da Costa Mendes 2175

Jaime Alexandre Santos 2176

José Alberto Soares da Silva 2177

Fernando Manuel Correia Gomes 2178

Ilídio Jorge Franco dos Santos 2179

Rui Miguel F. da Silva Santos 2180

João Filipe Neto Mimoso 2181

José Manuel Sousa Pirota 2182

Ariston Thermo Portugal (Sócio Coletivo n.º 1) 2183

Elisabete Catarina Teixeira Fernandes 2184

Carlos Eduardo Mesquita Antunes 2185

Victor Manuel de Melo Botto 2186

Mario Duarte dos Santos P. Andrade 2187

António Raul Dias Rolo 2188

Manuel Lema Pires dos Santos 2189

José de Sousa Gil 2190

Luís Filipe Palma Botelho

Sócio n.º 1106

Manuel da Silva Marques

ex-Sócio n.º 698

diversos

Novos Sócios

Nome do sócio N.º

António Silveira Proença 2191

Jorge José Valada Piriquito 2192

José António Paula Cabrita 2193

Carlos Pedro Duarte Gameiro 2194

Manuel J. Monteiro, Lda. (Sócio Coletivo n.º 2) 2195

Rafael Antonio Nunes Alexandre 2196

Rui Miguel Gomes Ramires 2197

Rafael Alves Ramires 2198

António Janeiro Ramires dos Santos 2199

Samuel Mendes Pacheco 2200

Dinora da Silva Capatão Talhadas 2201

José Faustino 2202

Iracema Ferreira Fernandes Faustino 2203

Mariana Sofia Jeronimo Leitão 2204

José Manuel silva de Sousa 2205

Vasco Miguel Duarte Gomes 2206

Pedido/Recomendação da Direcção

A Direcção Nacional da AFZ solicita a todos os Sócios que possuam endereços electrónicos (e-mail) o favor de os remeterem

ao Secretariado Nacional (afuzileiros@netvisao.pt) para facilitar as comunicações/informações que se pretende assumam a

natureza de constantes e permanentes. Assim, estarão os Sócios sempre informados, em tempo quase real, de todas as regalias

de que poderão usufruir, bem como das datas e locais dos convívios e eventos, da iniciativa da Associação ou dos Associados.

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