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Edição 29 - Revista Algomais

Edição 29 - Revista Algomais

Alexandre Albuquerque

Alexandre Albuquerque Polêmica n Artesãos preservam a originalidade das fachadas na Rua Fernando Lopes projeto de recuperação e restauração minucioso desenvolvido por uma eficiente equipe de engenheiros e arquitetos.” Ítalo Bianchi, consultor de comunicação da faculdade, na mesma publicação, foi além: “É, realmente, um primor de provincianismo e deselegância, eivada de pinceladas pitorescas para agradar um público de pseudo-intelectuais que preferem ser classificados como “Bohémiens” do que meros cachaceiros metidos a besta.” Porém, ao contrário do que afirmou o consultor da instituição, não foram pseudointelectuais que tomaram partido de Joca Souza Leão, mas sim, intelectuais do peso de Everardo Maciel, Ariano Suassuna, Marcos Vilaça, Raimundo Carrero, Tânia Bacelar, Francisco Brennand, Gustavo Krause, entre outros, mais precisamente 262 pernambucanos, que subscreveram uma nota de solidariedade: “Em defesa da liberdade de expressão e da preservação do patrimônio histórico do Recife,” publicada este ano, no dia 12 de fevereiro. “O Sítio Histórico da Capunga está localizado em Zona de Preservação Rigorosa. A Faculdade Maurício de Nassau, ocupante dos imóveis, os pintou com suas cores publicitárias, azul e amarelo berrantes, como se fossem meros outdoors...” No final da nota posicionam-se: ”Fazemos nossas as palavras de Joca.” Os protestos não sensibilizaram os gestores da faculdade e as ações seguem na Justiça. O processo penal está suspenso até o Supremo Tribunal Federal julgar a inconstitucionalidade ou não da Lei de Imprensa. A sentença proferida pelo I Juizado Especial Cível da Capital foi favorável a Joca Souza 26 > > agosto Leão e determinou a extinção do processo por “ilegitimidade ativa: “A expressão ‘os caras azuis e amarelos’, utilizada na crônica em debate, não tem o condão de imprimir ofensa reflexa à honra e à imagem da pessoa do Demandante ...,” concluiu a Juíza de Direito Fernanda Pessoa Chuahy de Paula. Na outra ação indenizatória em trâmite nas Pequenas Causas, a sentença foi favorável a Janguiê Diniz, que pediu indenização por dano moral no valor de R$ 14.000,00. O juiz, porém, arbitrou a indenização em R$ 4.000,00, sob a alegação de que o cronista teria caluniado o autor, ao acusá-lo de cometer um crime ambiental, que seria a pichação. Joca Souza Leão se defende dizendo que apenas comparou o ato de pichar com a descaracterização, já que ambos são contrários à lei. A faculdade Mau- Alexandre Albuquerque Alexandre Albuquerque n Lúcia Moura: processo por defender os imóveis antigos das Graças da descaracterização n Casa onde nasceu Manuel Bandeira, já em amarelo ... rício de Nassau, procurada pela Algomais, preferiu não se manifestar, alegando que o processo ainda está sub judice. Mas, não é só com Joca Souza Leão que o grupo da Faculdade Maurício de Nassau está em conflito. A presidente da Associação dos Moradores das Graças, Lúcia Moura, está respondendo a duas ações na Justiça, uma na área cível, com pedido de indenização por danos morais e materiais e a outra penal, com base também na Lei de Imprensa. Em 2006, o Movimento de Amor às Graças, que deu origem à associação, organizou uma caminhada que reuniu cerca de 500 pessoas para protestar contra o trânsito no bairro e a descaracterização dos imóveis antigos. Lúcia Moura, que liderou o movimento, deu entrevistas para os veículos de comunicação que cobriram o evento. Dentre as declarações, ela afirmou que a faculdade funcionava de forma clandestina porque não tinha licença da Prefeitura. A reportagem da Algomais teve acesso a diversas certidões da Prefeitura, em 2006, que comprovam as alegadas irregularidades, conforme se consta no documento na página 27. A Prefeitura do Recife, através da assessoria de comunicação, foi procurada pela reportagem para confirmar se a situação da faculdade já estava regularizada, porém, até o fechamento desta edição não teve qualquer resposta. Com base na denúncia da Associação dos Moradores, que apresentou as referidas certidões, o Ministério Público de Pernambuco instaurou o Inquérito Civil, n o 04/2006, com o objetivo de investigar se houve danos ao meio ambiente no bairro das

Alexandre Albuquerque o Centro de assistência ao educando Graças, em função de conduta comissiva ou omissiva por parte da Prefeitura do Recife, que teria a obrigação de fiscalizar. Apesar do Ministério Público ter encontrado subsídios para instaurar o inquérito, as declarações de Lúcia Moura na mídia foram tidas como ofensivas, e ela está respondendo a uma ação indenizatória. A petição sugere que as declarações da ré teriam causado um prejuízo de R$ 1.920.000,00, referente aos lucros cessantes, ou seja, o lucro que a faculdade alega que teria se não fossem as entrevistas. Para chegar a este valor, o advogado calculou que 100 jovens, que pagariam uma mensalidade média de R$ 400,00, por cerca de quatro anos - duração média do curso – teriam sido influenciados negativamente pelas declarações e deixado de prestar vestibular. Palavras caras as da aposentada Lúcia Moura, que pretende organizar um debate com os prefeituráveis para saber a proposta deles para o bairro das Graças. A iniciativa de restaurar imóveis antigos é de grande importância. O problema é pintá-los todos da mesma cor, deixando a casa de Manuel Bandeira igual ao prédio da Fundição Lucena, igual também ao antigo hospital psiquiátrico, como se fosse tudo um bloco só, quando não é. Cada imóvel tem sua própria história e particularidade; padronizá-los tira a singularidade que diferencia cada um. Preservar é impedir que o novo, no caso, o amarelo que caracteriza a faculdade Maurício de Nassau, se sobreponha às cores originais, que ao longo do tempo fizeram parte da história do lugar. n Jornal do Commercio, 23 de setembro de 2006. Era uma vez uma cidade (I) Joca Souza Leão Recife Não a Veneza americana Não a Mauritsstad dos armadores das índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância (...) Costumo, já faz um bom tempo, fazer minhas caminhadas pelas ruas do Recife. Algumas, com o passar dos anos, cada vez mais raras, até Olinda, Aos sábados, com um grupo de amigos, o destino sempre é um botequim popular ou mercado público, para umas cervejinhas com sarapatel, rabada, patinho, chambaril, essas comidinhas leves, Mas depois de caminhar uma hora, uma hora e pouco, a gente chega com créditos na conta do colesterol. Fôssemos de carro, chegaríamos em débito. Na passagem pela Capunga, no último sábado, demos de cara com a tal faculdade que tá ocupando o bairro todo e pintando tudo de azul e amarelo, Que horror. Eu já tinha passado de carro. Mas de carro, tudo passa. A pé foi que veio a porrada. Que coisa horrorosa. É de doer. Os caras compraram ou alugaram, não sei a centenária Fundição Lucena e tacaram azul e amarelo. O hospital psiquiátrico tacaram azul e amarelo, E aí, meus amigos, eles ocuparam a casa do poeta Manuel Bandeira e, acreditem, tacaram azul e amarelo, (Vandalismo não é só pichar paredes, que se apaga. Vandalismo maior é esse, de quem tem dinheiro, que pinta tudo, picha tudo, destrói tudo e fica por isso mesmo), Outro dia, um rotweiller desses caras, os azuis e amarelos, atacou o pintor João Câmara, “Eu nunca tive medo de cachorro, Eu tenho medo é de faculdade que não sabe educar os seus cachorros”, disse-nos João. Eu também nunca tive medo de pintor de tela e nem de pintor de parede. Mas Franco tinha medo de Picasso. Os militares da ditadura tinham medo de Portinari, Di Cavalcanti, Adão Pinheiro e Abelardo da Hora. E o Recife, agora tá morrendo de medo dos pintores de paredes azuis e amarelas. E se eles, os azuis e amarelos, se expandirem por outros bairros? Cuidado, o próximo pode ser o seu. Depois o da sua mãe (os bairros das mães deles, não acredito que ousem). Na casa de Manuel Bandeira, durante anos funcionou o maravilhoso Mafuá do Malungo. A Fundição, na frente, o hospital, ao lado, e a Rua Fernando Lopes com um correrzinho de casas de porta-e-janela. Um dos poucos cenários que ainda resta ao Recife. Restava. Os azuis e amarelos acabaram com o que tinha de mais sublime. Sem nenhum exagero, Manuel Bandeira está para o Recife assim como William Shakespeare está para Stratford-upon-Avon. Será que se a tal faculdade fosse em Stratford, eles pintariam a casa de Shakespeare de azul e amarelo? Uma ova, que pintariam. Por um motivo muito simples: lá tem poder público. E aqui é a casa da mãe Joana. O que será que se passa pelas cabeças dos azuis e amarelos? Será que eles imaginam que isso é marketing? Marketing, sobretudo para uma escola, seria restaurar a Casa de Manuel Bandeira, preservar as fachadas da Fundição e do Hospital, patrocinar um projeto para restaurar as casinhas de porta-e-janela, embutir a fiação pública, recuperar o calçamento original, de pedras, lampiões e bancos nas calçadas, para os seus alunos sentarem, conversarem e falarem bem da instituição. Parece até ironia do destino. O príncipe Maurício de Nassau modernizou e embelezou o Recife. Construiu pontes. Tem a admiração dos pernambucanos. Enquanto os azuis e amarelos não lhe têm na menor conta. Nem mesmo como patrono o respeita. (...) Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô. P.S.: Em itálico, versos da Evocação do Recife, de Manuel Bandeira. agosto > > 27

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