número 01 da Contos do Absurdo

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número 01 da Contos do Absurdo

#1 edição de estreia

participação

especial:

Rodolfo

Zal la


“Há mais coisas entre o Céu e a Terra

do que julga sua vã filosofia.”

Esta frase, tirada da peça teatral de Sheakespeare, Hamlet, exprime a surpresa

do protagonista ao confrontar-se com o relato da espectral aparição

de seu pai assassinado. Esta expressão alude também sobre a percepção do

sobrenatural, dos fatos obscuros e inexplicáveis que vão além da ciência e

da causalidade, apenas vivenciados e nunca totalmente compreendidos,

mas que desde a aurora dos tempos habita o inconsciente coletivo.

Comunicações com os mortos, anjos e demônios, seres interplanetários,

criaturas sombrias e desconhecidas, poderes ocultos da mente, a eterna

batalha entre o bem e o mal. A história das sociedades humanas sempre

esteve recheada de relatos desta natureza, muitas vezes amedrontando os

supersticiosos, fascinando os míticos, menosprezado pelos céticos, repudiado

pelos religiosos, mas jamais ignorado por quem quer fosse...

Lendas e mitos sussurrados na escuridão da noite, a margem da razão, mas

intrínsecas na alma humana.

Esta revista trará histórias baseadas em relatos e crenças contados ao longo

dos séculos. Obras de ficção inspirados na vida real, abordando temas

de terror, suspense, mistério, ufologia e ocultismo, desenvolvida por grandes

talentos dos quadrinhos e da literatura.

Neste primeiro número também trazemos uma homenagem especial a um

grande mestre do gênero, o desenhista Rodolfo Zalla, com a reedição do

conto A dama de Pedra, originalmente publicada na década de 1960.

Sejam bem vindos aos Contos do Absurdo. Esperamos que você, leitor, aproveite

esta ao máximo fantástica jornada rumo ao bizarro, mas advertimos

que quando regressar talvez já não seja mais o mesmo...

Mario Mancuso

Editor

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índice

Histórias em Quadrinhos

A noiva do Terror .......................................... Pág. 16

Jerônimo Souza e A. Lima

Succubus ....................................................... Pág. 22

Ricardo Fonseca

A noite da Caça ............................................. Pág. 30

Leonardo Santana e Mario Mancuso

Doce Dulce ....................................................Pág. 37

Moacir Novaes e H-Minus

Ungeheuer .................................................... Pág. 49

Leonardo Mello e Pancho

O verme e o Plebeu ........................................Pág. 59

Mario Mancuso e Bira Dantas

Para provar que Deus existe ........................ Pág. 68

Giorgio Galli

A dama de Pedra ...........................................Pág. 78

Mariana Godoy e Rodolfo Zalla


Contos

Do fundo do Coração .................................... Pág. 06

Moacir Novaes

A loira do Banheiro .......................................Pág. 26

Alexandre da Costa

Infidelidade ...................................................Pág. 45

Mario Mancuso

Cérebros de Cristal ........................................Pág. 63

Odracir Camargo

Ilustrações

Frankstein .....................................................Pág. 02

Marcel Bartholo

Monstros do cinema ....................................Pág. 89

Marcel Bartholo

Capa: Al Stefano

Conselho editorial: Mario Mancuso – Leonardo Santana – Marco Cortez – Francisco Tupy

Editor-chefe: Mario Mancuso

Todos os direitos autorais pertencem aos respectivos autores, não podendo ser reproduzida sob

quaisquer aspectos sem a devida autorização dos mesmos.

As opiniões e fatos aqui expressos são totalmente de responsabilidades dos autores, não significando

necessariamente a opinião da revista.

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Do fundo do

coração

Moacir Novaes

P alco. Decoração simples como em um porão. Luminárias brancas.

Que irão com o passar do texto sendo apagadas até chegar-se ao

ponto de escuridão total. Um espelho oval grande. Uma tina com

água junto ao espelho sobre um criado mudo. Um aparelho telefônico

sobre um criado mudo.

Duas cadeiras, mesa, maleta médica, estojo. Um coração de porco (que

segue as proporções médias de um coração humano) embrulhado. Seis

outros corações preferencialmente já preparados e mergulhados em uma

solução transparente de formol, organizados em outros potes.

Sete luminárias cruzando o ambiente com luz. Ao longo da narrativa,

uma a uma elas vão sendo apagadas.

Aumentando progressivamente a escuridão.

Roupas. Roupa social, terno escuro e sóbrio, simples, discreto ou sobretudo.

Camisa branca, imaculada. Cabelo meticulosamente ordenado e penteado.

Telefone toca, algumas vezes.

Ao entrar em cena o médico não atende de imediato. Primeiro deposita

um pacote pequeno sobre a mesa de centro, com delicadeza, em um gesto

simples, depois tira o casaco, em seguida sem pressa desabotoa uma das

mangas. Atende, e enquanto desabotoa a outra manga da camisa começa a

falar. O tom de voz é calmo, claro. Gentil.

“Alô”

“Oi mãe... Tudo... Para você também. Para você também. Eu não sei se

vou chegar a tempo do jantar...É... eu sei que tinha prometido passar por aí

mas eu fiquei ocupado com alguns pacientes. Alguns assuntos estavam

pendentes.

Eu sei... Sim eu vou como prometi. Não precisa ficar preocupada, está

tudo bem.Apenas vou me atrasar. Meus irmãos já chegaram não é? É... dá


para ouvir as crianças. Tá bom mãe. Até mais tarde. Beijo.”

Ele caminha até a tina de água, então para diante do espelho. É somente

por um segundo, que o peso de todo mundo parece cair sobre suas costas.

Após abaixar a cabeça e ver a sua sombra refletida na água, ele respira

profundamente deixando o ar sair. Libertando-se de algo. Abandonando.

Enquanto começa a lavar as mãos ele diz:

“Lady Macbeth tinha alguma razão. É estranho. Eu sei que minhas

mãos estão limpas. Eu sei que estão limpas, porque posso vê-las, desde as

unhas impecáveis até as veias. Elas estão limpas...contudo por mais que eu

as lave elas parecem sujas e essa sujeira parece tatuada na pele. Não é por

remorso. Duvido seriamente que essa sensação de impureza esteja ligada a

consciência ou laços morais. Porque não disponho desses penduricalhos e

ornamentos.

É algo áspero, impregnado sobre e sob a superfície inicial.

Mesmo que eu removesse a camada de carne, se eu cortasse e puxasse...

Essa coisa... Isto que sinto... Iria se infiltrar nos músculos, fugir para os

ossos e ao perceber minha vontade de extirpar-los, trançar-se-ia em minha

coluna, até esconder-se, enfim, dentro da alma.

Se é que já não o fez... Não é?”

Uma das setes luzes existentes nesse ambiente é desligada aumentando

progressivamente a escuridão.

Como um animal, isto cavaria fundo, com propósito final de substituir

meu espírito por si próprio. Tomando o lugar do que era humano em mim

e foi perdido... Assim seria impossível removê-lo. Se é que isto já não o fez...

Não é mesmo?

É por isso que algumas pessoas tiram a própria vida...

Porque a única forma de se verem livres desse sentimento ou da ausência

do mesmo é através da morte. Elas não se matam a bem da verdade...

Matam o receptáculo, o casulo que abriga essa coisa. Isso.

Ele inclina-se, trazendo um pouco de água até o rosto e lavando-o. Com

cuidado e cálculo.

“Parte deste peso que sinto é resultado imediato de tocar a realidade ou

de descobrir que esta não existe.

Que vivemos imersos em um sonho bruto, rodeados por um véu negro...

E quando esse véu é desfeito...Junto com a visão vem a dor, uma macula. A

cicatriz.

Eu não via o mundo assim antes... Eu não via a humanidade como um

cultivo de bactérias, aprisionadas dentro de um tubo de ensaio gigante.

Não olhava as pessoas como uma colônia de insetos pequenos, com suas

pequenas certezas, medos e conceitos. Com funções cerebrais mínimas,

correndo, comendo e defecando... Movendo-se atarefados de um lado para

outro sem um propósito definido.

Pisando-se uns sobre os outros, por acreditar que cada um deles individualmente

é mais importante que todos os demais.

Nem mesmo lembro a última vez que uma dessas coisinhas formadas

por cabelos, carne, ossos e egoísmo me pediu licença ou por favor.

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Certamente por seguirem o princípio que o tempo deles era mais importante

do que o tempo de todas as demais criaturas vivas.

Sempre correndo, sempre atrasados para chegar em algum lugar. Não

importa a hora do dia.

Acotovelando-se, empurrando-se em desespero nos veículos e transporte

coletivo. Nas filas, nos segundos antes de entrar em qualquer local.

Tentando disfarçar o fúria que atormenta cada um deles, a insatisfação

contínua por estarem vivendo vidas erradas.

Deus... eu não via a vida assim.

Eu não via a humanidade desta forma... eu era um deles... eu sentia

empatia e não... nojo.

Essa claridade implacável que faz-se agora presente em meu caminho

parece-me revelar tal perspectiva. Essa luz... esse conhecimento novo.

Torna tudo...tão...cruel.

Deliciosamente exato... e cruel.

Um homem não atinge essa iluminação impunemente. Acordar exige o

pagamento de um preço.

Nossa espécie nasce e existe submersa.... adormecida.

Ela precisa ser guiada para o propósito. Ela deve ser educada através

das perdas.

Dizem que o amor pode educar... Minha esposa e minha filha me ensinaram

muito...me ensinaram isso.

E deveria agora existir uma longa pausa... que demonstrasse o quanto

elas ainda significam para mim. Porém, não há interrupção.

Elas eram.

Mas não são mais.

Nem estão mais vivas para ser.

Outra luz é apagada.

Tinham peso e gravidade para a pessoa que fui um dia.

Não para o que eu sou agora.

Para essa repulsiva soma de desejos que me tornei. Para um monstro

elas não são mais nada.

Não são meus dois amores. Não são mais minha vida.

A dor é uma excepcional professora...Ela liberta. Eu sou livre. Eu sou

resultado da dor.

Esta é a natureza de minha espécie mover-se entre horrores, ser impulsionada

por eles. É o terror que desperta e movimenta os homens. É a estupidez

selvagem da guerra que os leva para paz, é a agonia da peste e fome

que guia-os a necessidade de bem estar.É o ódio que nos confere propósito...

Não precisava ser assim... mas é. Fundamentalmente... é o erro quem nos

conduz.

Foi talvez um erro meu ter ido trabalhar aquele dia...Foi culpa minha voltar

tão tarde.

A memória humana é curiosa... eu lembro do que tomei de café da manhã

no começo daquele dia. Suco de uva, torradas com geléia de damasco e pêssego.

Lembro de frases que foram ditas no decorrer dele. Do almoço.


Mas não lembro exatamente dos corpos delas.

Eu demorei para ir pra casa porque pouco antes do fim do meu plantão

houve uma emergência... um homem baleado. Encontrado próximo ao hospital

dentro de um carro. Havia sangue nas roupas dele.

Aparentemente ele estava dirigindo depois de ser atingido... creio que

tentava escapar de quem tinha feito aquilo com ele.

Três projeteis. O principal ficou alojado no peito, à dois centímetros aproximadamente

do coração. Os outros dois não causaram danos significativos,

nem atingiram órgãos vitais e foram removidos sem maiores problemas.

Por causa do risco e da operação delicada eu fui chamado para realizar

“A memória humana é curiosa... eu lembro do que

tomei de café da manhã no começo daquele dia. (...)

Mas não lembro exatamente dos corpos delas.”

a intervenção. Ele teve sorte, era um homem grande, forte como um touro.

Com uma constituição um pouco mais fraca ele nem mesmo chegaria no

hospital e a despeito de seu bom condicionamento físico...ele entrou em colapso

cardíaco duas vezes. Foi incrivelmente difícil estabilizar sua condição.

Quando seu coração parou... eu o trouxe de volta. Ele iria sobreviver.

Nem sempre é possível deixar o trabalho com uma sensação boa de ter

salvo alguém.

Nem sempre...

Nem sempre você é capaz de salvar outras pessoas.

Quando meu carro virou a esquina aquela noite e eu vi as luzes vermelhas

paradas diante da minha casa, o tempo passou a correr em câmera

lenta.

Eu sabia o que tinha ocorrido, não como ou com qual intensidade. No

entanto eu sabia.

A distância entre a esquina e o portão, até as duas viaturas... eram

metros que pareciam quilômetros.

Da calçada até a porta, pareciam anos.

Eu não lembro do rosto dele... mas um policial segurou meu braço. Ele

sabia quem eu era... que eu era o esposo e pai. Isso deveria estar escrito nos

meus olhos. O policial me disse para não entrar.

Eu sou médico - eu disse.

Eu sou médico...

Não sei se falei isso porque tinha esperança de salva-las ou por pressentir

o que tinha ocorrido.

Psiquiatra e cardiologista. Eu já vi pessoas mortas. Já as vi morrendo na

minha frente, nas minhas mãos. Eu deveria ser capaz de suportar.

O policial me deixou passar... cheguei até a porta da frente e notei que

estava pisando em sangue, depois, vi um pedaço de algo que pareceu a

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princípio ser um amontoado de roupas amassadas no chão... esse amontoado

era minha filha.

Para ser mais preciso os pedaços maiores dela que haviam sobrado.

Depois disso caminhei de volta para a porta onde fui seguro por dois

homens antes começar a vomitar. Sangue nunca antes tinha me incomodado...

claro. Não era o meu sangue antes.

Que egoísta e humano isso não?

Vomitei meu almoço. Carne, arroz e legumes. Cenoura e alface.

Eu lembro disso... Lembro dos moveis quebrados e das manchas vermelhas

em determinadas paredes. Lembro dos olhos e boca abertos dela. Do inchaço

no rosto demonstrando a violência dos golpes que precederam a morte.

Existe um longo silêncio, enquanto penso nisso... enquanto pego um dos

frascos vazios e deposito dentro dele um coração. Antes de mergulhar o

órgão no líquido que irá conservá-lo perco alguns segundos observando

sua forma, seu aspecto. Depois fecho-o dentro do pote acrílico conservando-o.

Coloco o frasco junto de alguns outros que estavam até então cobertos,

cada um deles com um coração dentro. Imerso em formol.

Um dos frascos é negro, diferente dos demais.

Este frasco é trazido até as mãos e observado... seu conteúdo não pode

ser visto, mas na forma de ser tocado fica evidente que ele é distinto entre

seus iguais.

Especial. O vidro é colocado cuidadosamente a frente da mesa.

“ O que interessa e vale a pena ser mencionado

são as conseqüências.”

Único e um segundo depois é esquecido para que se prossiga... especial

como uma memória a ser apagada.

Eu lembro do gosto ácido na boca. Dos grãos não digeridos. Eu lembro

disso porque não quero ser capaz de lembrar da minha filha.

Eu lembro... porque não quero lembrar da minha menina.

Não desejei ver minha esposa, exatamente para não ter como derradeira

imagem dela uma porção retorcida de manchas e músculos.

O assassino foi preso em pouco tempo...

Após furar um bloqueio policial ele tinha sido baleado. Chegou a dirigir

por mais alguns quilômetros até ser levado para um hospital. Depois

de ser socorrido ele foi localizado e preso... Um detalhe a ser mencionado,

o hospital era o mesmo onde eu trabalho.

Ninguém desejava dizer isso a princípio.

Eu compreendo... não é o tipo de coisa que se fala.

Ninguém sabia como me dizer que o homem que havia sido operado e

salvo por mim, era o responsável pela morte da minha esposa e filha.

Fiquei sabendo disso alguns dias depois.

Três projeteis. O principal ficou alojado no peito, à dois centímetros


aproximadamente do coração.

O crime ocupou os jornais durante um tempo até ser substituído por

outro mais brutal ou de caráter editorial mais atraente. Eu sinceramente

não lembro-me dessas semanas. Há um nevoeiro separando meus olhos

desse tempo, dessa época onde morri. Quando deixei de pensar e passei a

existir em módulo automático. Passaram-se semanas...acho. Meses.

O principal ficou alojado no peito, à dois centímetros aproximadamente do

coração.

Foi quando algo aconteceu.

Não creio ser necessário descrever o período de tormento agudo, os

estágios previsíveis de desespero ou a forma delicada como a alma humana

é capaz de entrar em estado de sublimação. Evaporando e deixando em

seu lugar o vácuo.

Isso não tem importância, é natural e esperado. O que interessa e vale

a pena ser mencionado são as conseqüências.

A dois centímetros aproximadamente do coração.

Depois de acordar em uma determinada manhã, eu fui até o espelho.

Lavei meu rosto e as camadas secas de dor sobre ele. Fiz a barba, sem pressa,

usando uma navalha. Eu sempre gostei de lâminas, o resultado é muito

melhor e eventuais cortes tem por função mostrar você está acordado e vivo.

Tomei um banho que durou quase uma hora. Troquei-me. Fiz o café...

cereal, suco de uva...torradas com geléia de damasco e pêssego.

Assisti um desenho animado... com criaturinhas coloridas correndo de

um lado para outro e fui para o trabalho.

Meus colegas de serviço ficaram surpresos em me ver. Já contava com

isso e com os eventuais desejos de pêsames, solidariedade. Foi necessário

paciência para demonstrar interesse por essas formalidades.

Era preciso passar por todo esse ritual que terminaria cedo ou tarde e

seria esquecido uma ou duas semanas bastava isso.

Quando essa fase terminou eu pude me dedicar ao trabalho.

A dois centímetros do coração. Uma luz é apagada.

O assassino da minha família foi considerado mentalmente incapaz, o

que levou ele a ser mantido detido em um hospital para tratamento psiquiátrico

visando uma futura recuperação e reintegração a sociedade. Para

ser sincero eu nunca achei que ele estava fora da sociedade... na verdade

passei a vê-lo como um membro adaptado ao sistema existente.

Durante o tempo de internação foi diagnosticado um problema congênito

no coração dele. Algo que cedo ou tarde iria matá-lo. Uma fatalidade não?

Apropriadamente chamada de morte súbita.

Claro que operação corretiva era possível e delicada. A condição física do

paciente já era frágil. A intervenção seria específica, isso colaborou para a

seqüência dos fatos que seguiram-se. A cirurgia seria paga pelo governo. Eu

fiquei sabendo disso porque era a única pessoa no país e nessa parte do continente

qualificada para fazer uma intervenção dessa natureza. Não tenho

certeza como essa junção fortuita de coincidências, entre os laços que uniam

previamente paciente e médico, passou desapercebida para o sistema... pre-

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sumo que a burocracia que normalmente impregna-se nas formiguinhas

atarefadas impediu uma visão ampla sobre os fatos. Teriam bastado cinco

minutos de leitura para perceber o erro que era entregar-me essa tarefa.

Teria bastado não ter esquecido o que ocorreu... não ter substituído o crime

que me destruiu por outro e depois outro e outro ainda mais violento.

Era somente necessário isto, para que eles enxergassem o que significava

dar a vida do homem que matou minha família uma segunda vez em

minhas mãos.

O processo todo foi lento, passaram-se outros tantos meses, até a data

da operação. Houve tempo para notar tal incoerência. Cheguei quase a

desejar que eles percebessem a estupidez...mas mantive-me calado. Aprendi

a respeitar o destino. Eu também segui os procedimento normais, reuni

a equipe médica mínima necessária. Escolhi o dia mais calmo para a intervenção.

A segurança não precisou ser reforçada, visto o estágio debilitado do

paciente. Ele era incapaz de andar sozinho.

Não houve movimentação da mídia ou imprensa.

Centímetros do Coração.

Exatamente as vinte e duas horas e dez minutos ele entrou na sala de

cirurgia.

As vinte e duas horas e treze minutos, depois do paciente ser preso firmemente

a mesa de operação eu sorri para minha equipe e me despedi

deles dizendo boa noite e que estava agradecido à participação de todos.

Eles eram bons amigos meus, costumavam a ir até minha casa.

Jantar com minha esposa e com minha filha.

Silenciosamente eles saíram. Havia uma leveza nos passos deles... um

silêncio e ausência de culpa admiráveis.

As vinte e duas horas e quinze minutos o andar já encontrava-se vazio.

As únicas pessoas que ainda me esperavam era o legista e meu paciente...

O legista aguardava para assinar os papéis restantes, referentes ao óbito

prestes a ocorrer.

As vinte e duas horas e dezesseis minutos o meu paciente foi declarado

oficialmente morto por mim.

Eu olhei para o relógio na parede e disse isso em voz alta...observando

a reação pálida e curiosa do homem preso a mesa.

No minuto seguinte, post-mortem, eu puxei uma cadeira e comecei a

conversa com alguém que por todas as definições legais não existia mais.

Do coração. Uma luz é apagada.

Ele olhou para mim com uma expressão insegura. Se tivesse forças

imagino que ele teria gritado, porque compreendeu que algo estava errado.

Graças a Deus ele compreendia. Ele tinha que entender que algo terrível

estava prestes a acontecer.

Compreensão era um detalhe essencial.

Esse instante delicioso ainda causa-me um certo frisson, da coluna até

a pele. Aquela criatura, que era tão vigorosa, agora parecia feita de vidro.

O ar demorava para entrar em seus pulmões.


Seus olhos seguiam os movimentos da minha boca. A ausência de qualquer

anestesia ou medicamento possibilitou-me ter a total atenção dele.

Do fundo do coração. Uma luz é apagada.

Eu expliquei pausadamente para meu paciente, olhando naqueles olhos

opacos, que em uma cidade grande todos os anos e nas últimas décadas,

pessoas deixam de existir.

Deixar de existir é simples. A despeito de nossa convicção que somos únicos

e fundamentais para o funcionamento do todo, desaparecer é muito fácil.

Expliquei que existem cerca de seis bilhões de seres humanos espalhados

por todo globo.

Algumas centenas de milhões desse número total estão aqui em nosso

continente. Destas centenas, dispomos de cerca de noventa milhões em

“A despeito de nossa convicção que somos únicos

e fundamentais para o funcionamento

do todo, desaparecer é muito fácil.”

nosso país. Quatorze milhões só em nossa cidade.

Permita-me iluminar você.

Seu olhar confuso indica que você não me acompanhou ou compreendeu,

não é mesmo?

Mas eu já esperava isso.

A sua respiração está alterada e eu posso ver seu coração bater sob esses

músculos magros... acelerado. Você sabe o que vai acontecer não é? Por isso

não se importa com os números citados por mim. Nem com o que eu estou

dizendo nesse exato momento.

Tudo o que importa é você.

Dentro desse universo numérico apenas um algarismo é importante e

esse número é você... correto?

É o que vai acontecer com você...

Permita-me retribuir o favor e iluminar você.

Sabe...

Pessoas morrem todos os dias, somem todos os dias.

Como sua realidade e o que você trata como vida é uma experiência

limitada somente aos seus desejos e necessidades primitivas... vou tentar

arejar seus pensamentos e fazê-lo lembrar que recentemente em sua história

pregressa você foi baleado, três vezes.

Você lembra disso não? Houve dor por isso lembra... sua dor.

Você foi atendido aqui, por mim. Eu evitei sua morte.

Na mesma noite, um pouco antes você havia invadido uma casa. No

local havia uma mulher e uma criança.

Tenho certeza que você lembra delas agora.

Elas eram minha esposa e filha.

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Coração.

Acredito que se tivesse fôlego ou força, poderia contar-me como foi

divertido e prazeroso para você desfazer o corpo delas.

Ao perceber que não tem como escapar daqui, certamente esbravejaria

comigo a forma como gostou de fazer aquilo... como foi divertido.

Compartilharia isso comigo.

Iria contar como eram os gemidos e súplicas. Como foi o silêncio opressor

que veio depois da morte delas.

A sensação aguda de saciedade.

E claro... como elas não eram nada para você... você nem se lembrava

dessa noite. Não é?

Lembrava apenas da sua dor.

Nós já estamos compartilhando algo não estamos?

Estamos dividindo, somando, aprendendo algo,

não estamos?

Mas você não precisa se incomodar com lembranças ou culpar sua

memória.

Pretendo que nossa conversa eventual aqui... hoje... sob essas luzes insípidas

e fluorescentes seja inesquecível para você.

Breve... mas seguindo o padrão de dor... absolutamente inesquecível.

Antes de continuarmos por gentileza.

Olhe em meus olhos, firme... através da íris, além da superfície.

Olhe e procure algum vestígio da humanidade que me deteria neste

último momento... que me impediria de prosseguir com você.

Olhe bem dentro deles... no fundo.. até o coração.

Diga-me se acha que vou parar...

Diga-me se acredita que serei derradeiramente humano.

Não há nada não é?

Nós já estamos compartilhando algo não estamos? Estamos dividindo,

somando, aprendendo algo não estamos?

Naquela noite onde nos encontramos pela primeira vez... eu evitei sua

morte e agora eu quero o que te dei de volta.

Não tome isso como algo pessoal... eu não sou mais uma pessoa.

Gostaria somente que você soubesse disso antes de eu começar a remover

seu coração.

Nessa passagem de tempo entre aquela noite e esta... eu me perguntei

muitas vezes o que havia em seu coração para fazer aquilo com elas.

Se ele era tão diferente do meu.

Será interessante descobrir isso agora.

Uma luz é apagada.

Calculei que sem anestesia ou demais recursos médicos, avançando

cautelosamente, sem causar nenhum grande dano, meu paciente morreria


em vinte minutos. Ele agüentou quase trinta.

Eu poderia alcançar meu objetivo em trinta segundos apenas mas onde

estaria a graça então?

No momento final... eu cogitei deixá-lo desvanecer naturalmente através

da hemorragia. Isso prolongaria o tormento.

Mas havia um propósito no ato e eu pretendia alcançar este ponto.

Fiz um corte abaixo das costelas, grande o suficiente para minha mão

passar e chegar ao coração. Eu senti ele pulsar por alguns segundos antes

de começar a puxá-lo para baixo na direção da abertura. Enquanto as

artérias eram rompidas a dor deve ter se tornado indescritível.

Finalmente havia terminado.

Olhei para o coração fascinado por outros tantos minutos. Ignorando o

passar do tempo e aquela carcaça vazia.

Procurando nas veias e camadas o ponto exato onde o mal ficava concentrado.

Eu não enxerguei de imediato.

Guardei meu objeto de devoção em um recipiente negro. Depois voltei

ao corpo onde simulei todo o procedimento cirúrgico que deveria ter sido

feito, escondendo veias rompidas e os demais sinais da minha selvageria.

Abrindo as costelas e expondo os órgãos corretamente. Depois costurando

e fechando o corpo. Eu não esperava por nada mais... não me importava

com o que aconteceria.

Talvez e exatamente por isso... nada aconteceu.

Nos dias seguintes nada. Nos meses seguintes nada.

Não houve perguntas. Meu paciente foi enterrado como indigente, sem

família.

Deixei o hospital e meu passado.

Deixar de existir é simples.

A despeito de nossa convicção que somos únicos e fundamentais para o

funcionamento do todo...

Desaparecer é fácil.

Dizem que assim como a compreensão reside no cérebro, a alma descansa

no coração.

Durante um bom tempo estudei aquele órgão seco que tinha sido extraído

por mim... procurando evidências que indicassem que nele residia o mal.

Provas que confirmassem que ele sentia e se diferenciava dos demais.

Não encontrei nada relevante na época.

Não encontrei nada...

Por enquanto.

Voltando-se para os demais corações guardados e com uma voz muito

macia eu me lembro de dizer antes de terminar.

Pessoas morrem todos os dias.

Somem todos os dias.

Coração.

A última luz é apagada.

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A LOIRA DO

BANHEIRO

Alexandre da Costa

Q uando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de

fato que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda

a força do mundo e consegui sair de mim. Me lembrei do tempo

em que papai batia na mamãe. Eu sempre fechava os olhos e voava

longe. Com aqueles meninos, naquele banheiro fedido, não foi diferente.

Eu tinha 13 anos. Quando papai esmurrava mamãe, tinha cinco. Mamãe

morreu. Papai, não sei. Ao ficar órfã, minha vózinha chegou do interior

para cuidar de mim. O cheiro dela é inesquecível, doce, acalentador.

Quando estou de “bico”, procuro pensar na sensação que tinha quando ela

chegava perto de mim. Era bom.

Vovó sempre me arrumava para a escola. Dizia que eu precisava estar

sempre linda. Ela penteava meus cabelos “dourados” de uma princesa. Ela

dizia isso e me deixava feliz. Meu uniforme estava sempre bem cuidado,

merenda gostosa dentro da lancheira. Fui feliz nesses anos. Me complicava

em matemática, mas no resto ia bem. Vovó se orgulhava dos “10” que

tirava em redação. Eu adorava escrever cartas melosas, cheias de romantismo

barato, para ninguém. As escondia numa caixa de papelão rosa,

em formato de coração. Tinha virado mocinha aos 11. Não foi um susto

ver aquele sangue escorrendo pelas minhas pernas porque a vovó e a tia

Ceci (minha fessora) já haviam me explicado que isso aconteceria. A partir

daquele momento eu era uma mulher. E a vovó completou: “uma

mulher dos cabelos dourados”. Foi um dia bacana.

Eu seguia crescendo e me apaixonava pela primeira vez. Guto era bonito,

forte, esperto, tinha 16. Já bebia e dizem que já tinha até feito sexo. Eu

gostava dele. Contei para vovó e ela pediu para eu me cuidar. “Não sei se

gosto desse rapaz!”, disse. Não era ciúme ou implicância dela. Era apenas

uma sensação...


Um dia criei coragem e fiz um poeminha para ele. Coisa boba, coisa de

menina. Mas totalmente sincera. “Meu Deus, ele quer me encontrar!” Nunca

me senti tão doida quanto naqueles segundos antes de ver o Guto, sozinha.

Eu estava apavorada. Queria, porém, estar com ele. “Será que ele já

tinha me notado antes?” Eu mal podia me segurar dentro do meu corpo.

Queria voar longe de felicidade. Naquela época, estudávamos à tarde. Ele

queria se encontrar comigo quinze minutos depois do último sinal. Daria

tempo para a gente conversar bastantão antes da turma da noite chegar.

“Não sei se gosto desse rapaz!” Lembrei da minha vózinha. Deixei meus

cabelos soltos. Uma amiga emprestou um batom bem clarinho e discreto.

Estava cheirosa. Meu sapato novinho estava brilhando. Presente da vovó.

“Ele ia gostar de mim?”

E sentada ali fiquei entre os pavilhões dois e três. Estava frio. Eram

quase seis horas e a noite já tinha chegado. Coloquei o casaquinho que

minha avó tinha feito. Estava com o cheirinho dela. Senti saudades. Levei

um susto. Deixei minhas coisas caírem no chão, mas não tive chance de

pegá-las. Foi tudo muito rápido. Dois amigos do Guto me seguraram com

força. “Cadê ele?” Eu tinha medo desses garotos. Eram grandes e encrenqueiros.

Estavam sempre na diretoria. Um deles tinha mais de 18. Me apertaram

com força e me jogaram para dentro do banheiro do pavilhão dois.

Caí de joelhos e bati o queixo no chão. Não estava entendendo nada. Aí,

uma voz doce e conhecida quase me acordou daquele pesadelo que se iniciava:

“Quer dizer que a putinha loira

quer me dar?”

Era o Guto. Seus amigos riam alto. O eco daquelas risadas naquele

banheiro fedido me fez ver papai matando mamãe de novo. Foi ali na

minha frente. Tinha cinco anos. Estava novamente paralisada. Não conseguia

gritar, chorar. Tremia, tremia, tremia. “Vovó, segure minha mão...”

Quando aqueles garotos arrancaram minha calcinha, percebi de fato

que não se tratava de um sonho. Fechei os olhos com toda a força do mundo

e consegui sair de mim. Tinha 13 anos. Não estava mais em mim e isso

aliviou toda a dor daqueles minutos que não acabavam. “Olha Guto, é cabacinha!”

“Oba, é minha. Não tem mais isso no mundo”. “Eu primeiro, eu

mando, esqueceram?” Tentei escapar mais uma vez. Um dos amigos do

meu primeiro amor acertou um soco no nariz. Me afogava no meu sangue.

Num instante, tão instante que quase não percebi, uma gota desse sangue

caiu no meu sapato novo. “Deixa, vovó, eu limpo quando chegar em casa”.

Tanta dor. O cheiro horrível daqueles animais em cima de mim. Solidão.

Quando um deles quebrou meu pescoço não senti mais nada.

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em vinte minutos. Ele agüentou quase trinta.

“Desculpa, vovó, não vou conseguir limpar o sapatinho novo...”

Ao acordar num mundo estranho, sentia frio. Estava presa naquele

lugar. Meu cativeiro eterno. Nunca soube como fora meu enterro. Não vi

mais vovó. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sei o que aconteceu

com o Guto. Às vezes, me olho no espelho e choro com o que vejo. Meu rostinho

todo machucado. Um rastro, um pequeno rastro de sangue que sai do

nariz em direção ao queixo que nunca limpa, por mais que eu tente. Olhos

fundos. Olhar perdido. Cabelos dourados não mais dourados. Enfim...

... confusa como toda menina de 13 anos.

Tenho medo do escuro. Aprendi com o passar do tempo a deixar a luz

desse banheiro acesa quando todas as outras do colégio são desligadas. Não

durmo e para não ficar louca, ando em círculos, acompanhando o caminho

que a luz faz ao bater no piso. Solidão.

Uma vez, duas, três, tentei me comunicar com um menino. Nem todos

são maus ou cruéis como o Guto. Nunca quis fazer nenhuma maldade com

eles. No entanto, o susto que levavam era tão grande que os paralisava.

Dois morreram de medo. Outro, enlouqueceu. Juro, não era minha intenção.

Apenas queria contar a minha história...

Poxa...

Você quer ouvir a minha história?


infidelidade

Mario Mancuso

A daílton se encolhe no banco do ônibus tentando compreender o

que tinha acontecido com ele. O transporte coletivo avançava

metro após metro, quilometro após quilometro tornando cada

vez mais próximo o inexorável encontro com sua culpa, personificado na

figura de sua esposa, Clara.

Adaílton e Clara eram um casal jovem. Bonitos e apaixonados, eram o

estereotipo do casal ideal, admirado e invejado por todos. Nunca, ninguém

poderia imaginar uma traição de qualquer uma das partes. Mas às

vezes os sonhos são apenas nuvens passageiras no caminho da tempestade

ou alicerces obscuros de um castelo de cartas.

O homem olhava a garoa fina que lavava a janela do veículo, mas tudo

que lembrava eram as gotas salgadas de suor que escorriam pelo corpo

da bela jovem com quem passara intensos momentos ainda antes. O gosto

jocoso dos beijos da morena exótica e selvagem ainda reluzia nos lábios

do homem, assim como o cheiro de sua intimidade e o toque suave de sua

pele macia e jovem. A simples lembrança fazia o corpo de Adaílton estremecer,

evidenciando que a excitação e o desejo não haviam sido totalmente

satisfeitos.

Contudo, Adaílton não conseguia lembrar ao certo em que momento traíra

sua esposa e entregara-se a luxúria molhada de sua amante misteriosa.

Como fazia em todas as manhãs, havia ido para seu trabalho no

escritório do tribunal de contas do estado e lá ficado até o final do expediente,

quando vestia seu paletó e caminhava quatro quadras até o ponto

onde embarcava para a faculdade de direito e depois direto para casa.

Em qual momento havia parado? Onde conhecera a belíssima jovem de

quem não se lembrava nem o nome, mas que sabia ter tido momentos tão

intensos?

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Era perturbador saber que fez algo, mas não se lembrar quando nem

onde nem como. Mas teria mesmo feito? Não seria um delírio de sua mente?

Talvez estivesse ficando louco... Outro dia mesmo comentou com sua

adorada esposa que andava muito cansado, trabalhando demais... Não

poderia ser um devaneio, influência de algum sonho, fruto de alguma história

que lhe contaram ou filme que assistiu? Mas parecia bem real...

A menção de sua esposa, por outro lado, o faz encolher-se novamente.

Qual seria sua reação? Temia por seu estado, pois sabia que a decepção

seria demais para a coitada, Clara não era uma mulher forte e era dada a

ter desmaios e outros males típicos das mulheres mais frágeis. Contudo, no

recôndito de sua mente, algo lhe dizia que esse não era o final que aconteceria.

Via seu próprio corpo tombado sem vida com um buraco na cabeça

e...

LOUCUR A, grita desesperado,

chamando a atenção dos poucos passageiros que compartilhavam a viagem

de ônibus consigo. Ao se deparar com os olhares curiosos, acena desculpas

e volta-se novamente, embaraçado, a ver a rua e a chuva fria que cai

no final de noite.

Para distrair-se abre sua mala e começa a rever seus apontamentos da

aula de direito penal que assistiu horas antes (imagina). Houve um intenso

debate promovido pelo professor entre os alunos sobre a problemática

“assassinato em crimes passionais”. Adaílton pouco opinou tímido que era,

mas ficou admirado com as idéias de uma nova colega que chegara àquela

semana. Qual era mesmo o nome daquela garota?

Subitamente, um calor percorre seu corpo e vê-se abrindo o vestido,

botão a botão do espartilho negro com rendas brancas e escarlates enquanto

a luz bruxuleante de uma vela ilumina os longos cabelos negros que descem

pelos ombros desnudos e bronzeados, levemente reluzentes pelo óleo

perfumado. De tudo, o que sua memória mais guardou foi o odor afrodisíaco

misturado ao suor carregado de desejo. Meu Deus, meu Deus, terei

mesmo feito isso? O rapaz olha suas mãos e lembra-se do calor dos seios ao

tocá-los. A excitação do momento ainda não se esvaiu de seu ser e ele percebe

um principio de uma ereção, mas o que dirá a sua virtuosa esposa que

lhe espera em casa? Virtuosa, Clara? Ora, não sou seu primeiro, quando a

conheci ela já tinha estado com outro homem, mas a aceitei assim mesmo,

aquela messalina, aquela Dalila dissimulada...

O que estava dizendo? Era normal hoje em dia e Clara nunca escondeu

que era divorciada, mas isso não justificava a infidelidade de Adaílton. Por

que pensava desta maneira, com se estivesse em outra... Época?


À medida que o tempo passava, tudo se tornava mais estranho, porém

agora faltava pouco e logo Adaílton iria confrontar-se com a verdade. A

culpa corroia seu ser, contudo o pior sentimento era a incerteza. Como se

explicaria, se nem ele ao menos sabia ao certo o que ocorrera? A lembrança

de ter estado com outra mulher, de ter tido relações, de ter a beijado e

possuído seu corpo eram muito vívidas e tinha certeza que havia ocorrido

naquela noite, em algum instante que não soube precisar. Entretanto estava

certo também de ter saído do trabalho e ido direto à faculdade e de lá

para onde estava agora. Em qual momento teria consumado a traição?

De toda forma, poucas paradas mais e teria de encarar a verdade. Clara,

de fato, não era mulher de ser passada para trás e sua imagem de candura

e fragilidade escondiam sua índole cruel e dominadora. Sua família

era conhecida por levarem com mão de ferro o poder em suas cercanias.

Seu pai era um abastado coronel que conseguiu muito do que tem na base

da violência. Sua traição não ficaria impune... Mas o que estava dizendo??

Era só se calar que nunca saberiam de mim e Letícia.

Letícia, esse era o nome de sua amante secreta, seu verdadeiro amor.

Letícia... Letícia? Quem era ela, como a conheceu, como se apaixonaram,

como vieram a compartilhar a mesma cama? Não importava... tudo o que

importava era o amor que sentia e Clara teria que entender... de uma forma

ou de outra.

A medida que a confusão em sua mente aumentava, paradoxalmente

Adailton sabia mais e mais o que fazer. Não seria novamente surpreendido

pela velha pistola guardada na segunda gaveta da penteadeira de carvalho.

Agiria com um homem dono de seu destino e ninguém poderia impedi-lo

de... O que estava dizendo, meu Deus...

Finalmente, chega seu ponto. Adaílton desce na rua escura, bota sua

mochila nas costas e caminha taciturno pela chuva fina e gelada. Seu

coração bate lento e ritmado enquanto sua mente busca o equilíbrio e as

palavras certas para explicar o que nem ele entende: “Amor, acho que estou

tendo um caso com uma mulher mas não sei nem quando nem como nos

encontramos...”

Após 10 minutos, Adaílton chega a sua casa. Gira a chave devagar e

repara que está tudo em silêncio, Clara está dormindo. Deixa sua mochila

sobre uma poltrona e vai até a cozinha tomar um pouco de água. Subitamente,

seus ouvidos captam um andar quase imperceptível, lento, compassado

vindo em sua direção: é Clara, ela descobriu sua traição e vem surpreendê-lo.

Mas desta vez, ele estava preparado, aquela megera

dominadora não estragaria seus planos de felicidade novamente, Adaílton

era dono de seu destino e tomaria sua vida em suas mãos.

- Boa noite, querido. Como foi hoje na faculd.... – antes que a inocente

mulher concluísse a frase, Adaílton, cego pelo ódio, lhe desfere um golpe

certeiro que corta sua garganta de orelha a orelha utilizando uma faca

providencialmente deixada sobre a pia, lavando toda a cozinha com o sangue

quente da devotada esposa.

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O corpo sem vida parece tombar em câmera lenta, tentando entender o

que aconteceu enquanto a vida se esvai rapidamente. O homem apenas

observa e a cada gota de sangue que sai pelo buraco habilmente feito, sua

percepção lhe alertam para seu ato hediondo, lhe trazendo, ao invés de

alento, apenas o horror.

Juntos, ambos caem: Clara, agora um manequim mórbido da iniqüidade

humana e Adaílton, o algoz estúpido perdido entre a realidade e o delírio.

“O que eu fiz, o foi que eu fiz,

Meu Deus?” Grita desesperado o

bobo sozinho agora no palco...

E em algum lugar, entre o real e o etéreo, entre o passado e o presente,

uma mulher linda de cabelos negros chora, pois permanecerá sozinha

mais uma vez...


Cérebros de

cristal

Odracir Camargo

N aquela tarde o vermelho quase incandescente tornava o céu mais

vivo do que de costume. Abaixo, bem abaixo, as cordilheiras

enchiam a paisagem até onde as vistas podiam alcançar, trazendo

aquela sensação de pequenez que, mais dia menos dia, todos nós, humanos,

haveremos de sentir.

Essa sensação assolou André. Acostumado a sentir-se gigantesco ao realizar

suas microscópicas tarefas de reparação de estruturas de cristal, enxergar-se

tão diminuto era para ele quase sufocante. Com um gesto brusco

tornou opaca a janela do aparelho e fixou os olhos no relatório sobre os

joelhos. Tentava assim fugir da grandiosidade da natureza e reaver os

parâmetros de tamanho habituais, onde seu cérebro era a medida do universo.

Seu universo.

As crateras de mineração já estavam próximas e o tom verde agora tomava

conta do céu. Mal descera do transportador e já sentia-se novamente o

senhor da situação esquecendo-se do temor que sentira três meses antes,

quando soubera que teria de fazer sua primeira viagem interplanetária, do

pânico ao subir na nave e até mesmo da sensação de insignificância que o

havia tocado tão profundamente vinte minutos antes na viagem entre o

espaço-porto e a base mineradora. Dois funcionários já aguardavam o Sr.

André, grande especialista em retificação de microengenharia mineral

vindo diretamente da Terra para investigar e resolver o grande problema

da companhia.

Os robôs mineradores estavam realmente causando grande prejuízo. Inexplicavelmente

após alguns dias operando em grandes profundidades as

redes de cristal instaladas em seus cérebros artificiais tornavam-se instáveis

e com isso perdiam todo contato com a superfície e também a capacidade

de tomada de decisão autônoma. André não tinha todas as respostas

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para o enigma, mas sabia que alguma forma de energia impossível de ser

captada pelos cérebros artificiais estava em ação dentro das minas, já que na

superfície os robôs operavam normalmente, mesmo sob as mais duras condições

de pressão e calor dos simuladores.

Sentou-se diante do console e iniciou sem a ajuda dos cérebros artificiais a

descida do módulo de exploração. Isso realmente justificava a viagem de

André até as minas, afinal colocar um equipamento de seis bilhões e meio

nas mãos de um único ser humano era algo que ninguém havia ousado

pensar. Muito menos ter a ousadia de propor à diretoria como única forma

confiável de pesquisar e encontrar uma solução como fizera André.

O adaptador projetado por André funcionava perfeitamente e todos os sinais

recebidos pelo módulo passavam por seu cérebro humano antes de serem

armazenados no terminal principal. As decisões eram passadas diretamente

do cérebro de André ao módulo e isso tornava a tarefa muito mais lenta

do que o normal. Qualquer erro ou distração mental resultaria em um prejuízo

de milhões. Após seis horas de exercício mental o módulo já estava na

profundidade onde os robôs apresentavam suas crises e André desativou o

módulo. Sabia que teria de descansar antes de prosseguir porque agora vinha

a parte mais difícil da tarefa, analisar todos os dados que o módulo enviaria

simultaneamente ao seu cérebro, traduzi-los e reenviá-los ao cérebro artificial

central. Um trabalho realmente difícil, mesmo para alguém cuja estatura

mental era comparada a dos maiores gênios da humanidade.

André evitou quaisquer conversas aquela noite, no imenso refeitório jantou

calado e rapidamente recolheu-se. Alguns entenderam sua necessidade de

descanso mental para o dia seguinte, outros porém, consideraram pura

arrogância do “gênio” terrestre. Assim como André quase todos mediam o

mundo e as ações alheias com suas próprias medidas.

O sono não custou a vir e o negro de vestes brancas saiu detrás dos arbustos

amarelos acenando para André. Sabia que estava sonhando e instintivamente

olhou as próprias mãos buscando uma referência de realidade. Encontrou.

Suas mãos realmente eram suas mãos.

– Se tudo o que vês é realidade porque pesquisa o invisível que há nas

minas André? Perguntou o negro com uma voz tão suave quanto firme.

– Estou sonhando, não? Perguntou André olhando o cenário paradisíaco

que o cercava.

– Porque preocupa-se em saber se isto é ou não um sonho? Já pensou

na possibilidade de em toda sua vida estar vivendo um sonho e agora


– Desculpe, mas não posso discutir filosofia agora, tenho que descansar

a mente para uma tarefa muito importante amanhã.

– Então irei direto ao assunto. Em sua função você chegou aos limites

de sua mente concreta. Utilizou todas as ferramentas de raciocínio

disponíveis, porém, não entendeu ainda o óbvio.

– E você, obviamente, está aqui para mostrar-me. Sem querer ser

estraga-prazeres, poderíamos fazer isso outra noite? Realmente estou

contente com meus vinte por cento de capacidade cerebral e gostaria

de um sono tranqüilo... ...e de preferência sem sonhos!

– Hoje, infelizmente, seu livre-arbítrio ficou subordinado a algo um

tanto maior, mas não se preocupe, acordará plenamente recuperado

física e mentalmente.

– Se eu não tenho opção...

– Daqui em diante não haverá palavras

porque não existem palavras para descrever o que

você vivenciará. Não haverá também explicações

posteriores porque nada será explicável em termos

racionais. Só haverá você...

Uma explosão sem som ou dor ocorreu na garganta de André e ele via-se no

meio dela. Foi a última percepção de corpo que sentira. Não o tinha mais.

Não tinha mais nenhum sentido de orientação também. Tudo era em cima e

em baixo. Via e sabia tudo o que ocorria a sua volta, cada fragmento gerado

na explosão era percebido por ele. Planetas formaram-se diante de seus

olhos, com corpo, alma e espírito e cometas riscavam o espaço para os fecundar.

Um, dois, três, três mil, milhões e milhões de sóis pulsavam e todas as

cores cobriam de vida todas as galáxias. Flores, peixes, grãos de areia eram

gigantescos diante dele e como se fosse um ser microscópico podia ver a vida

circulando em volta de elétrons que formavam átomos que formavam moléculas

que formavam células de homens e animais. Acompanhava todos os

detalhes do pulsar da vida em plantas e minerais. Os cristais, velhos conhecidos,

agora eram vivos. Respiravam, fecundavam, conversavam entre si e

tudo fundia-se. Retração e expansão eternas de tudo e de todos. Vidas, experiências,

casamentos, desilusões, erros, acertos. Tudo fragmentava-se ao infinito

e todos os fragmentos retornavam ao ponto de origem.

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Vida e morte eram uma só e mesma coisa. A métrica perfeita do universo

desfilou diante dele. A métrica da vida.

Ninguém compreendia porque André não desativou o módulo ao chegar na

profundidade necessária, afinal ele sabia que teria de descansar antes de

prosseguir com a missão. Com os olhos fixos na tela André parecia em transe

e só despertou com a interrupção brusca da transmissão. A explosão do

módulo ao chocar-se com uma das colunas de sustentação fez tremer até

mesmo o laboratório na superfície e ruir as paredes da mina soterrando seis

bilhões e meio da mais alta tecnologia e a promissora carreira de André.

A mina foi abandonada e nunca mais houveram tentativas de mineração em

tal profundidade, conhecida dali em diante como “Profundidade de André”.

Na viagem de volta, André olhava maravilhado as infinitas cordilheiras e

sem emprego, sem prestígio, não sentia-se diminuído por elas.

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