Revista Eu Visto esta Camisa - Novembro de 2011 - Quem Somos

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Revista Eu Visto esta Camisa - Novembro de 2011 - Quem Somos

Publicação da

ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ

Ano I- Número 2 - Novembro de 2011

uma vida a serviço das famílias


2 Publicação

da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

Celebrar, porque fazer 80 anos é olhar para trás e ver que a

vida é realmente uma grande dádiva de Deus.

Celebrar, porque fazer 80 anos é a própria celebração da vida.

Celebrar porque fazer 80 anos é ser grato, é não deixar de se entusiasmar

e experimentar novas cores e novos sabores, e ainda tentar

Em meio às montanhas das Minas Gerais, lá para os lados do

Triângulo Mineiro, no distrito de Macaúbas, zona rural de Patrocínio,

nascia o sétimo filho do casal Antônio e Elvira. Seu nome seria

Osvaldo. O ano era 1931, mês de novembro, e o mundo era bem

diferente do de hoje. Osvaldo se juntou aos cinco irmãos, Severino,

Maria, João e Lourdes. Ainda viriam Vanilda e Elza para completar

a escada. A família Gonçalves muda-se para a cidade, começando

aí uma nova etapa na vida. Patrocínio era uma cidade pequena e

acolhedora e, na década de trinta, bem mais romântica e poética.

O FILHO - Osvaldo era um menino obediente, mas “arteiro”,

definição de sua irmã Vanilda. Gostava de nadar no Poção, perto

da fazenda do pai, mas tinha que burlar a vigilância da mãe, Dona

Elvira, muito brava e rigorosa com os filhos, traços herdados pelo

Osvaldo. Já do pai, ele herdou a franqueza, que, diga-se de passagem,

é um traço marcante de toda a família.

O IRMÃO - Osvaldo era um irmão divertido e bem humorado.

Puxando pela memória de sua irmã Vanilda, descobrimos as

brincadeiras preferidas do menino. Fechar as irmãs e as amigas

num quarto escuro, colocar na boca um tição e depois, como

uma alma do outro mundo, dizer com voz cavernosa: “O que é

que eu vim fazer nesse mundo com essas mãos frias?”.

TRAVESSURAS - Gostava de andar de perna de pau; fazer

armadilhas com lata cheia de água suja amarrada a um cordão,

para que as pessoas tropeçassem na corda e se sujassem;

roubar jabuticaba no quintal do vizinho e sair correndo da

cachorra Rolica. Adorava, também, subir no pé de eucalipto

do quintal. Lá nas grimpas, balançava freneticamente o galho,

assustando Maria Ferreira, a empregada doméstica. Apavorada,

com medo de Osvaldo cair, ela gritava: “Sai daí de cima

Osvaldo! Ocê ainda vai caí dessa árvore e esborrachá no

chão. Pára com isso menino!”. Um dia ela perdeu a paciência

e foi chamar Dona Elvira. Nesse meio tempo, Osvaldo desceu

do eucalipto e deitou-se no chão, fingindo-se de morto.

Quando Maria Ferreira voltou da cozinha, esbravejando, por

não ter encontrado Dona Elvira, seu desespero foi ainda maior.

O menino Osvaldo estava “morto”. “Dona Elvira, pelo amor

80 Anos... Por que celebrar?

algo de novo, de novo e de novo. Fazer 80 anos é contar o tempo

não pelos anos vividos, mas pelas sementes que foram plantadas ao

longo dos anos. Fazer 80 anos é colher os frutos dessas sementes...

Fazer 80 anos é isso e muito mais para qualquer pessoa especial,

que tem a alegria de celebrar essa data. E para o P.O., que

soube fazer o melhor das oportunidades que apareceram ao longo

dos seus 80 anos, soube cultivar e enobrecer os seus projetos,

celebrar 80 anos é ter a certeza de que se está bem mais perto

da bondade de Deus.

Celebra teus 80 anos, P.O., não pela quantidade dos que te amam,

mas pela medida de seu coração, capaz de amar, preocupar-se, trabalhar

e ajudar a todos. Celebra teus 80 anos, não pelos anos que completas,

mas por aquilo fizeste nesses anos.

Alguém disse: “Não sei se a vida é curta ou longa, sei apenas

que nada do que vivemos tem sentido se não tocamos o coração

das pessoas”. Padre Osvaldo, mesmo aos 80 anos, sempre soube

como tocar nossos corações.

Celebra, porque os anos passam e ficam as lembranças. E é

nosso dever torná-las sempre vivas.

Parabéns querido P.O.! Vamos celebrar!

de Deus, o Osvaldo morreu! Socorro, o, gente! ge

Nossa Senhora da Abadia, São Jerônimo,

Santa Bárbara Virgem...” Até

que Osvaldo não se conteve e soltou

uma gargalhada gostosa. Maria Ferreira,

correu atrás do menino, tentando

lhe dar um corretivo. Mais tarde, ele

não ficaria livre da reprimenda da mãe, ,

sempre brava e exigente com os filhos.

A VOCAÇÃO - Osvaldo já demons-

trava, naquela época, sua vocação sacer-

dotal. Reunia as irmãs mais novas e as s

amigas e improvisava um altar, enfeitando-o o

com flor de jabodi. E ali celebrava a missa a

seu modo. Na falta da hóstia, ele utilizava

“beiju” de farinha de milho. Seu destino era

mesmo o sacerdócio.

O MITO - O tempo passou, a família

cresceu com a chegada dos netos, e Osvaldo,

que se tornara Padre em 1957, era um

mito para todos.. Periodicamente, os familiares

recebiam em Patrocínio a visita do Padre

Osvaldo, que morava em Belo Horizonte. Era o

orgulho de Dona Elvira e um mistério para todos

os sobrinhos. Essas visitas criavam grande expectativa

em todos. A rotina, na casa dos

avós, sofria grande alteração. O almoço o

era servido na sala principal, que nor-

malmente não era utilizada para essa

finalidade. A comida, já farta, dobrava

em variedades. Os sobrinhos deliravam

com aquelas novidades, que a chegada

do “Tio Padre” provocava.

A trajetória do menino de Macaúbas,

faz com que o sentimento de

todos os familiares seja único.

Ariádina e José Afonso

“Padre Osvaldo honrou o compromisso assumido perante Deus”. - Paulo Rezende


Publicação da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

TEMPERAMENTO

Não há dúvidas de

que é um introvertido.

Embora tenha uma satisfação

evidente de

estar com, não é fácil

fazer render uma conversa

com ele. Mas já foi

mais difícil. Hoje, ele de

vez em quando conta

até piadas, que na sua

boca adquirem uma

graça inesperada. E nessa

situação se permite,

raaaramente alguns palavrões.

Não obstante, é

uma pessoa cordial, que

faz questão de apertar a

mão de um a um, mesmo

que seja uma multidão;

com a ponta dos

dedos, mas olhos nos olhos. Não costuma elogiar as pessoas em

público; não por “economia”, mas pela preocupação de não melindrar

nem cometer injustiça por omissão.

SACERDOTE E RELIGIOSO

É admirável seu amor pela Igreja, pela Congregação dos Sagrados

Corações e pela sua vocação. Não sei se devo contar... Por

mais de uma vez, percebendo que o afeto de alguma pessoa por

ele resvalava para o lado pessoal, buscava salvaguardar-se confidenciando

a alguém com quem tivesse mais intimidade. Dedicação

generosa e radical à sua missão de pastor é um traço saliente,

bem visível. Quantas vezes, ultimamente, com tristeza sincera,

tem manifestado preocupação com o minguar das vocações

na sua Congregação. E não fica apenas na lamentação, mas tem

tentado reiteradamente desenvolver um trabalho vocacional em

favor de sua comunidade religiosa.

UM PEDAGOGO

Aquele que assume a missão de ensinar por palavras e

exemplos. Não compactua com o erro. Com estilo às vezes rude,

corrige, repreende, corta na carne, o que não raro melindra quem

acabou de conhecê-lo. Ao mesmo tempo, porém, reconhece que

ele mesmo precisa de correição. “O Padre Osvaldo não tem jeito,

veio com defeito de fabricação”, se penitencia para logo em seguida

cometer outros deslizes.

3

Traçar o perfil do Padre Osvaldo é construir um mosaico multicolorido e multifacetado.

A começar pela aparência física. Para além das mudanças que o tempo imprime na face, muitas pessoas conservam a mesma

fisionomia a vida inteira. Quase sempre por falta de coragem de mudar. O Padre Osvaldo teve essa ousadia. Durante alguns

anos, cultivou uma longa barba, que já começava a agrisalhar. Ninguém, que eu saiba, nunca lhe perguntou por quê. Fica o

mistério. Mas é um sintoma do seu temperamento independente, que não se deixa influenciar pelo que dizem ou pensam.

APEGO AO MAGISTÉRIO DA IGREJA

O torna exigente com o que os serventes pregam nos encontros.

Ninguém estreia palestra sem passar pelo “crivo” de pessoas

com mais experiência. Quando dispunha de mais tempo e o

cansaço e a deficiência auditiva ainda não o obrigavam a cochilar,

participava do ritual. Quantas vezes escutamos o julgamento cirúrgico:

“Rasgando as cinco primeiras páginas, a sua palestra começa

a melhorar”. Um teste para a humildade e o desapego de si em prol

do Reino de Deus. Na preparação para o segundo encontro de Revisão,

um casal nunca mais voltou ao Caná depois da corrigenda.

A seu exemplo e estímulo, a Família de Caná se esmera em preparar

os seus serventes para o trabalho de apostolado. Por exigência

dele, ninguém começa a trabalhar – nem que seja na cozinha - sem

passar pela “escolinha de formação”. Há alguns anos, em uma carta

convite aos serventes, disparou para escândalo de muitos: “Se dependesse

de mim, quem não fizer o Encontro de Espiritualidade (que anualmente

abre as atividades do Caná) não trabalharia durante o ano”.

UM VISIONÁRIO

A sua obra em prol da Família, que cobre todo o espectro

do grupo familiar – casais, jovens, senhoras – e sua sensibilidade

em perceber a gravidade do problema das drogas, ressalta a sua

característica de visionário. Na flor dos seus 80 anos, quando muitos

já jogaram a toalha, ele está mirando no futuro. Quem for à

Fazenda, pouco antes da entrada, descobre uma área terraplenada.

E já dentro, uma turma de residentes atarefados em fabricar

tijolos de cimento para o seu novo sonho: as Aldeias do Caná,

para crianças e pais dependentes.

Nos seus aspectos contraditórios, a ele, mineiro da gema,

bem se aplica a definição “Dentro de um peito de ferro, um grande

coração de ouro”.


4 Publicação

da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

Atendendo a uma imperiosa necessidade do espírito, o ato de escrever nos revela, nos desnuda.

Os livros do Padre Osvaldo trazem à luz as facetas da sua personalidade e as preocupações de uma pessoa atenta

à realidade e comprometida até o âmago com as causas em que acredita e às quais dedica a sua vida.

A VEIA POÉTICA

“O genial Chico Buarque de Holanda

define: “O poeta é como o cego, pode ver na

escuridão”. Poeta menor que sou, desenvolvi

admiração pelos grandes poetas da língua

portuguesa. Poeta se encontra em todo lugar.

Há poetas líricos, políticos, intelectuais,

populares e até guerreiros. Há também os

poetas que dedicam a vida ao cumprimento

da árdua missão de trabalhar pelo Reino

de Deus. É o caso do poeta Padre Osvaldo

Gonçalves, nosso amado P.O.

Entre seus profícuos trabalhos literários, a sua veia poética

resplandece no livro O MILAGRE DO CASAMENTO, reflexões em

torno do episódio das bodas de Caná, João 2,1-11. Nele, Padre

Osvaldo demonstra de forma vigorosamente poética que no

casamento se podem realizar milagres, bastando que se aceite

a orientação de Maria: cumprir a ordem de Jesus, enchendo as talhas

de água, que se transformará no melhor dos vinhos. Ao fazer

a sua parte (encher as talhas) o casamento (vinho) será transformado

em uma vida feliz e equilibrada.

O padre poeta transita pelo texto de São João com desenvoltura

ímpar através de pura e profunda poesia, que nos traz

à lembrança a estética dos Salmos e os maravilhosos versos do

padre francês Michel Quoist no livro Poemas Para Rezar. Milagre

do Casamento contém orações em versos livres. Porque o poeta

Padre Osvaldo sabe muito bem que oração em forma de poesia é

oração em dobro.” (Danilo dos Santos Pereira)

O CATEQUISTA

Para quem convive com o Padre Osvaldo fica clara a sua vocação

de catequista. Ele insiste, “oportuna e inoportunamente”, que não é

cristão autêntico quem não busca aprender sobre a sua religião.

“Há quase vinte e um anos, quando a convite dos amigos João e

Neli, fizemos o Encontro de Revisão Matrimonial, bebemos da fonte

de sabedoria do Padre Osvaldo, que dedicou sua

vida ao compromisso de “fazer famílias felizes”.

Apóstolo leal de Cristo, Padre Osvaldo transmitiu

a Danilo, a mim e aos nossos filhos os ensinamentos

de Jesus - amar, perdoar, construir

nossa união alicerçados em Cristo, rocha que

nos sustenta. Quantas palavras pacientemente

repetidas, quanto olhar vigilante de quem cuida,

quantas ricas lições, nas palestras, livros, pregações,

na sua coerência como pastor.

Tenho presenciado tantos exemplos

desse apóstolo, que me sinto privilegiada por haver encontrado

tamanha confiança e dedicação, nestes tempos de aridez, secularismo,

caminhos controversos e individualismo.”

(Zeneida Rena Pereira)

É fruto desse zelo apostólico o pequeno catecismo EM BUS-

CA DE COMUNHÃO. Para viver em consonância (=comunhão)

com a Igreja de que você é membro, você precisa conhecer a fé

que ela professa. Quantas vezes o vimos nos Encontros, brandir o

livrinho e proclamar com voz inusitadamente inflamada: “Se você

não sabe pelo menos o que está neste livrinho, você não pode se

considerar cristão verdadeiro!”

O MÍSTICO E HOMEM DE ORAÇÃO

É fato corriqueiro vê-lo na capela, ajoelhado

diante do sacrário, absorto na oração. E em

todos os encontros que levam a sua marca há

uma tônica: aprender a orar a experimentar várias

maneiras de orar.

Traduzem essa preocupação, os livros

O MILAGRE DO CASAMENTO, o recente

EM ORAÇÃO COM A BÍBLIA NA MÃO e

o opúsculo HORA DE ORAÇÃO NO LAR.

Todos eles estimulam o hábito da oração

em família e a prática de várias formas de

oração: inspirada pela palavra de Deus,

de adoração e louvor, de agradecimento,

de reparação e de súplica.

PREOCUPAÇÃO COM O SOCIAL

É evidente que a sua opção pas-

ttoral

pela Família é um reflexo da sua

percepção p

da importância do papel

dessa d “rede humana” no contexto social,

c como sua célula primária e original.

g E, a partir disso, a gravidade do

problema p das drogas como ameaça ao

indivíduo, in à família e à sociedade como

um u todo. Veio daí toda a inspiração e a

força fo para o trabalho de atenção ao de-

pe pendente químico.

No livro EU ME ENVOLVI COM OS DRO-

GA

GADOS, o Padre Osvaldo narra a saga pioneira

da Fazenda Recanto de Caná e dos seus desdobramentos, a

Comunidade Feminina Padre Eustáquio e a ComunidadeEu Quero

a Vida”. Nele se revela um narrador de linguagem colorida, espontânea

e coloquial, capaz de captar o lado pitoresco e anedótico

mesmo em situações delicadas e até mesmo trágicas.


Publicação da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

“Não é difícil responder. Em 1974, em freqüentes reuniões preparando-nos

para o 1º Encontro de Revisão Matrimonial, cresceu por ele

grande admiração e respeito. Mas... ainda em 1974, no decorrer do

2º Encontro, aquele tombo! Durante uma experiência de oração (eu

ainda estava aprendendo), na presença de todos, aquela chamada

de atenção seca e direta. Tudo ruiu. Tranquei-me por muito tempo, o

respeito deu lugar ao medo, não conseguia abrir a boca perto dele.

Desistir? Nem pensar! Aprendi com ele que estava ali não a serviço do

Padre Osvaldo, mas de Deus. E experimentei, ao vivo e em cores, a perfeição

que ele exige de si e dos outros nas coisas de Deus.

Continuamos firmes e fomos descobrindo

tantos aspectos da sua personalidade:

firme, determinado, ousado,

corajoso, sincero, autêntico, leal, dedicado

inteiramente à sua vocação, para

citar alguns. Aprendi a conviver com o

seu jeito de ser e amo-o tal e qual ele é.

E testemunhamos, em contrapartida, o

quanto ele nos ama. Wagner e eu nos

sentimos privilegiados por Deus pelo

que o Padre Osvaldo nos ensinou a ser,

a viver e a construir famílias.”

Ângela do Wagner

1º Encontro de Revisão Matrimonial (1974)

Eu teria muito para dizer: a garra, a luta, a fé inabalável (“Deus

provê”, ele diz sempre), a capacidade de perdoar, o seu jeito humano,

atencioso (da maneira dele, que tão bem entendemos), carinhoso

(sem muito blábláblá), coisas que só um pai amoroso possui.

Mas, o que mais me cativou nestes últimos tempos, foi sua

proposta de mudança. Hoje é mais comunicativo, chega e cumprimenta,

pegando na mão de cada um, sorri e até conta piadas.

E isto, amigo, para nós da velha guarda, que o conhecemos

carrancudo (seu sorriso era quase

uma careta), é uma grande vitória. Ele

conseguiu vencer a si próprio. Ele ensina

sempre a lutarmos contra nossos

vícios, nossos problemas, vencendo

os obstáculos: ele conseguiu isso. É

exemplo que temos que seguir para

sermos felizes. Afinal não é esse nosso

ideal? Queremos ser felizes, não

é mesmo? E, por tudo isso, eu posso

dizer de sã consciência: EU SOU FELIZ!

Adelina Blasi Baracat – Encontro de Senhoras

Ter por perto um homem como o PO no período da adolescência

foi um privilégio meu e de vários outros jovens do Prodes. Seus

exemplos nos moviam para um caminho que nos tornavam pessoas

melhores. Percebíamos, através das atitudes coerentes e da sobrie-

O apóstolo da família

5

350 associados, nos termos do Estatuto Social. Cerca de 350 voluntários, nas mais diversas áreas de serviço. 30 funcionários, na Administração

e na equipe técnica. Mais de 1.700 contribuintes financeiros. Um total de mais de 2.400 pessoas.

Esse é o batalhão que responde ao comando decidido e firme do Padre Osvaldo. A um aceno dele, saem dos pontos mais distantes

da Grande BH e de outras cidades, deixando casa, família, roda de amigos, lazer, e respondem presente aos desafios da Família de Caná.

Ninguém é forçado a nada, todos cerram fileiras em nome de uma causa pela qual se apaixonaram, movidos pela paixão, pela abnegação,

pela incondicional entrega dele, o líder, Padre Osvaldo Gonçalves. A causa é FAZER FAMÍLIAS FELIZES. Sem mencionar os incontáveis

amigos e empresários, sempre prontos a socorrê-lo nos momentos de aperto.

Onde reside o poder de sedução deste homem, franzino, caladão, de semblante sereno mas normalmente sério, de reações bruscas

e rudes, de uma franqueza chocante?

O que cativa neste homem? Fizemos esta pergunta a algumas pessoas que o acompanham fielmente há muitos e muitos anos.

dade diante do trabalho que ele realizava, que sem seriedade não se

conquista o respeito do semelhante.

Convivendo com o Padre Osvaldo, fomos conhecendo-o melhor.

Vimos muitas vezes a expressão séria e as palavras duras e diretas com

que nos chamava atenção, mas também conhecemos o sorriso satisfeito

com uma boa atitude nossa. Hoje, já mãe, percebo que este sorriso

era um sorriso de pai, contente com o crescimento de seus filhos; afinal,

o Padre Osvaldo sempre foi para todos nós um pouco o “pai Osvaldo”.

Tenho o privilégio de ainda continuar a aprender com ele, pois parte

daquele grupo de amigos ainda está ativo no Caná. A cada trabalho que

fazemos na Fazenda é possível amadurecer um pouco com as observações

que ele faz. Algumas vezes severas, outras bem-humoradas, mas

sempre com a intenção de nos fazer crescer, de aperfeiçoar o trabalho,

de tornar as coisas melhores. Diante de situações

temerosas, lá vem ele com a velha

expressão que não cansamos de escutar:

“Coragem”. Escutar isso dele e pensar em

tudo o que ele construiu é como uma injeção

de força e entusiasmo, e nos mostra

quão pouco ainda fazemos.

Por isso e por toda a admiração e

carinho que tenho por ele, rogo a Deus

que lhe dê muitos e muitos anos de saúde

e nos conceda a graça de aprender

muito ainda com ele.

Carla Pena (Jurassic Prodes)

Conheci o Padre Osvaldo em meados de 1987... Jamais esquecerei a

primeira vez que o vi, numa noite de terça-feira, de pé, diante de umas15

pessoas, no Recanto de Caná, um senhor quase raquítico, cabelos grisalhos,

óculos quadrados e enormes, olhar extremamente disciplinado, fazendo

uma reflexão sobre o Evangelho. Entre um caso e outro sobre o dia

a dia na recém-inaugurada Fazenda de Caná éramos surpreendidos com

gargalhadas do próprio Padre Osvaldo que, mesmo entre as dificuldades

de manter o programa de recuperação, sorria surpreendentemente!

Querido “P.O.”, na comemoração dos seus 80 anos, quero agradecerlhe

por tantas boas iniciativas! Muito obrigado e parabéns!!! Lembre-se,

meu querido: uma de suas iniciativas mudou para sempre a minha existência;

tive a oportunidade de ir viver na

Fazenda de Caná em 11/08/1987, uma

manhã de segunda-feira, como 13º pioneiro

daquele lar e permaneci os nove meses

de tratamento. Hoje, passados mais de

duas décadas, encontro-me com 43 anos,

livre de qualquer tipo de escravidão, muito

bem empregado e prestes a aposentar;

e, o mais importante, casado e com uma

família maravilhosa. Continuo sonhando

com o futuro!!! Vida longa a você, querido

e insubstituível Padre. Osvaldo!

Adão Eustáquio Vieira


6 Publicação

da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

O sacerdote e o religioso

“Contemplar, viver e anunciar ao mundo o Amor Reparador de Deus!”

Lembro de uma música muito conhecida, cujo refrão traduz

bem o significado da Vida Religiosa inspirada nos Corações de Jesus

e de Maria: “UM CONSAGRADO PARA AMAR, UM CONSAGRADO

PRA SE DOAR, UM AMOR QUE NÃO BUSCA INTERESSES SEUS, É

O MAIS PURO AMOR, O AMOR DE DEUS!”

Encontrei este meu

querido irmão, o P.O., como

é chamado na Família de

Caná, em 1995, quando

conheci a Fazenda Recanto

de Caná e a realidade

daqueles que buscam

resgatar sua vida tomada

pelas drogas. Não posso

deixar de recordar o meu

noviciado, na Fazenda, em

companhia dos padres

Henrique Baltussem e Ricardo

Gomes, em 1996,

precioso tempo de graça,

de alimento dos valores fundamentais da Vida Religiosa dos Sagrados

Corações e aprendizado de como vivê-los na vida e na missão.

Quando falamos em “consagração” à vocação religiosa, pensamos

em duas coisas fundamentais: dedicação e entrega! O

testemunho de vida do P.O. sintetiza os valores fundamentais do

carisma Sagrados Corações, porque seu testemunho de vida diz

algo muito real da pessoa de Jesus Cristo para as famílias de hoje.

1. CONSAGRAÇÃO AOS SAGRADOS CORAÇÕES: “Nossa

consagração está em procurarmos Jesus como a fonte primeira

e mais profunda de sua identificação com a vontade do Pai...

Nossa devoção deve levar-nos a contemplar com frequência o

amor do Pai revelado em Jesus e a presença fiel de Maria nos desígnios

de salvação”. Então, por sua contemplação e vivência

da vontade salvadora de Deus na vida de nosso povo, eterna

gratidão, bom Deus!

2. REPARAÇÃO: “A reparação deve chegar também ao pecado

social, que aparece pela ação dos homens nas estruturas da sociedade...

Contém amor, bondade, zelo, simplicidade, fraternidade,

solidariedade diante das situações concretas das pessoas e grupos”.

Então, por seu testemunho do Amor reparador de Deus

na vida de nosso povo, eterna gratidão, bom Deus!

3. ZELO APOSTÓLICO: “Nossa opção pela Obra de Deus é

uma opção pelo ser humano tal como Deus quer; não é uma fuga

do que interessa ao ser humano, mas um novo sentido para sua

vida... Nossa comunidade religiosa é chamada a ser cúmplice do

Bom Samaritano e abrir uma pousada para cada ser humano que

encontra ferido em seu caminho”. Então, por sua opção radical

pela Sua Obra, eterna gratidão, bom Deus!

4. EUCARISTIA: “A renovação da doação de Jesus, lembrada

na celebração eucarística, obriga-nos a reafirmar nossa vontade

de doação em conformidade com a dele... Somos chamados a

‘ser para o outro’; lutar contra a violência com a força do amor

e do direito; buscar e servir preferencialmente os pobres e marginalizados”.

Então, por ser a Eucaristia o centro de sua vida e

missão, eterna gratidão, bom Deus!

5. FRATERNIDADE CORDIAL: “Num mundo desconfiado,

que separa as pessoas, o seguimento do amor manifestado em

Cristo deve nos levar a acentuar a comunidade vivida em relacionamentos

simples, de íntima comunhão, para que sejam um testemunho

e um chamado a realizarmos a fraternidade”. Então, por

valorizar a humanidade de Jesus em sua relação com as pessoas,

eterna gratidão, bom Deus!

Pela DEDICAÇÃO E ENTREGA do Padre Osvaldo, muitos podem

dizer: Aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria toda

honra e toda glória!

Pe. Eribaldo Pereira Santos ss.cc. (irmão de Congregação)

Dar testemunho sobre a vida e do Padre Osvaldo é poder ser e

estar consciente de que a nossa vocação de religiosos não consiste em

trabalhar para, mas em pertencer a Jesus. Uma vez que pertencemos

a Ele, o trabalho se torna um meio para traduzir na prática o seu amor

por Ele. O trabalho incansável, portanto, não é um fim, mas um meio.

O Padre Osvaldo não somente faz, ele busca fazer concretamente,

pois é um homem de oração constante, fiel às suas obrigações

e convicções de religioso, sacerdote dos Sagrados Corações,

homem de Eucaristia diária e adoração diária, faça chuva ou faça

sol. Homem do silêncio, sempre aberto e disponível para acolher,

confortar, animar e ajudar jovens, casais, famílias repletas de dores,

a encontrar o caminho verdadeiro.

Vivendo, durante dez anos, a experiência de participar do carisma

do Padre Osvaldo, posso afirmar que tem a sua vida traduzida

na prática do amor: o amor traduzido na prática é serviço. Aprendi

com ele que a fé em ação através da oração, e a fé em ação através

do serviço, são a mesma coisa: o mesmo amor, a mesma compaixão.

Não me sai da lembrança um fato: após a celebração de Natal,

na Fazenda Recanto de Caná, Padre Osvaldo, numa noite fria, com

certeza cansado, sai com seu carro pelas ruas de Belo Horizonte com

cobertores e comida para amenizar o sofrimento dos irmãos de rua.

Isso manifesta a grandeza da solidariedade que brota do coração

deste filho dos Sagrados Corações, animado pelos exemplos de São

Damião de Molokai e do bem-aventurado Eustáquio.

Obrigado ao Senhor, por ter se servido

de você, Padre Osvaldo, para realizar grandes

coisas, porque você creu mais no amor de

Deus que na própria fraqueza.

Que os Sagrados Corações continuem

abençoando sua vida, sua vocação, seu trabalho.

Saúde e Paz!

Com carinho, Pe. Geraldo Abílio Ribeiro


Publicação da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

Para entender o tamanho do desafio que o Padre Osvaldo

assumiu ao “se envolver com os drogados”, nada melhor do alguns

“flashes” da própria narrativa dele.

“Um dia no Recanto de Caná, apareceu-me a mãe do Marcos,

trazendo o problema do filho dependente de drogas; achava que

eu tinha o remédio e podia fazer um milagre. Pouco depois vem o

próprio Marcos. Mulato de bom porte, não tinha 18 anos, trazia verdadeiras

chagas, muito feias e rebeldes. Havia lugar para o Marcos,

nos barracões velhos onde tínhamos iniciado o trabalho do Caná.

Então, a notícia começou a espalhar-se como correm notícias

de milagre. E vieram outras mães chorando, e mais jovens com a

esperança de um “toque de mágica”... No final de 1979, estávamos

com uma pequena comunidade. Estava dado o primeiro passo.

Ousado e imprudente, mas com a maior boa vontade do mundo.

E agora, o que fazer com esse pessoal? Pensei em desistir, pois

não estávamos preparados para um trabalho como esse. Paguei

caro, acreditei que o fracasso fora total e que o assunto estava encerrado.

Fora uma aventura, em minha vida, um sonho impossível!

No entanto, aqui vai mais da metade da minha vida. Uma dedicação

sem tréguas, um cotidiano sempre repetido, das 6 às 22 horas, durante

anos a fio, carregando pessoas boas, mas cheias de problemas

difíceis. Podia ter feito de outra maneira e não ter colocado tanto peso

nas minhas costas, mas eu não soube fazer diferente.”

Não menores são os desafios, para o dependente e sua família.

Cláudio Martins Nogueira,

Supervisor Terapêutico da Fazenda

de Caná, Psicólogo Clínico, e

especialista em dependência química,

comenta o primeiro desafio:

a adesão ao tratamento.

“A família passa por alguns

obstáculos: aceitar a doença; aceitar

ajuda; aderir ao tratamento.

Isso se faz nas reuniões de convencimento.

O objetivo é munir a

família de ferramentas para sensibilizar

e convencer o dependente a

se tratar. O Amor Exigente propõe uma posição clara e direta: “Não

aceitar mais o uso da droga do seu familiar e deixar clara a disposição

de todos em ajudar no tratamento.”

O dependente também é encaminhado para a reunião de

partilha com outros recuperandos, em que a troca de experiências

é fundamental para entender a doença e possibilitar o apoio mútuo.

São mudanças essenciais para sensibilizar o dependente a

se tratar:

a - Não facilitar as coisas para o dependente, como pagar as

contas, emprestar dinheiro.

b - Focar no tratamento: os membros da família também estão

doentes e precisam de tratamento.

c - Viver e deixar viver: a vida da família gira em torno do

dependente; ela precisa voltar a viver e deixar que o dependente

assuma as suas responsabilidades e sofra as

O grande desafio

7

conseqüências dos seus atos.

d - Não existem milagres, solução mágica, sem esforço e

trabalho. É necessário muito estudo, perseverança e

determinação para restituir o equilíbrio emocional e a

sobriedade à família.

e - Estabelecer limites e confrontos, normas e regras para o

bom funcionamento da casa.”

O segundo desafio é completar

os 9 meses de tratamento. Cerca de

30% apenas conseguem a façanha.

Geraldo Magno Possa, Supervisor

Administrativo da Fazenda Recanto

de Caná, pesquisou entre os

residentes os maiores obstáculos.

Bem sinteticamente: 1º - aceitação

da doença, fissura, saudades

da droga, convívio com os colegas,

dificuldades de aceitar as regras; 2º

- saudades da família e preocupações

com pendências, tempo que

resta para término do tratamento, achar que está pronto pra

sair; 3º - ansiedade pela primeira saída de visita, autossuficiência,

medo da recaída e de ter faltado aprender mais coisas.

O terceiro grande desafio é manter

a sobriedade. Julio Cezar Monnerat,

especialista em Dependência

Química pela UFSJ, responsável pelo

Programa de Prevenção da Recaída

da Família de Caná, esclarece: “Quanto

empenho é necessário para se livrar

da dependência das drogas! A internação

resulta em desintoxicação, mas

nem sempre em abstenção definitiva

da droga. A manutenção da sobriedade

é uma tarefa que depende de vários

fatores, entre os quais:

a - O encontro de um sentido para vida, através de uma espiritualidade

integrada numa comunidade de fé (participação

nas atividades de sua Igreja);

b Autodisciplina no seguimento de um plano de modificação

de vida;

c - Frequência e participação nos grupos de autoajuda;

d - A convivência e o afeto familiar, partilhando e cooperando

no lar;

e - O cuidado com a autoestima, integrando-se e se relacionando

com pessoas de boa índole, evitando a solidão e

fazendo atividades esportivas em grupo.

Além disso, é necessário deixar a ansiedade de lado e viver

cada dia, valorizando as pequenas mudanças, lembrando que a

felicidade é um estado de espírito, e reside no sentido que se imprime

à própria vida.”


8 Publicação

da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

Pode-se afirmar que o Padre Osvaldo é um construtor por vocação: a construção de tijolo e cimento

complementando uma sólida construção humana e espiritual, duas faces da mesma moeda. Em meados da

década de 90, após terminar mais uma obra na Fazenda, descarregou: “Nunca mais ponho a mão em um tijolo”.

Depois disso, muita parede ele já fez subir e, ao que tudo indica, vem mais coisa por aí.

O RECANTO DE CANÁ, A SEDE

Tudo começou aqui. Os encontros

funcionavam de maneira

precária em desconfortáveis

barracões, nuns beliches mambembes.

Capacidade pequena,

cerca de trinta pessoas. Tempo

de chuva, nem pensar em qualquer

atividade. Sob a liderança

do Mundinho, foi organizada a

rifa de uma Brasília, na época,

“top” de linha da Volkswagen. Formaram-se equipes, todo o pessoal

do Caná – pouca gente então - saiu vendendo carnês e correndo

atrás do pagamento. O Padre Osvaldo desdobrava-se, fabricando

tijolos de cimento e, com as próprias mãos, revestindo de marmorite

todo o piso. O certo é que, em 1978, inaugurava-se a nossa

casa. Modesta, mas para quem a viu nascer, um monumento...

A FAZENDA RECANTO DE CANÁ

O “gênio” construtor permaneceu hibernando quase dez anos.

Em 1977, inicia-se a saga da assistência aos dependentes químicos,

aqui mesmo no Recanto de Caná. Os “drogados” meio que misturados

ao pessoal dos encontros, todo mundo no Caná preocupado com a

segurança do Padre Osvaldo, até mesmo com a possibilidade do seu

envolvimento com a polícia. Esse cara é um louco!...

A certa altura ele mesmo percebe que a situação era insustentável

e que o atendimento aos dependentes pedia um ambiente rural.

Ele mesmo conta, no seu livro “Eu me envolvi com os drogados”:

A COMUNIDADE PADRE HENRIQUE

“Fiquei de olho em um imóvel

distante 23 km da nossa sede,

uma área com pouco mais de 17

hectares, com belas paisagens,

bosque muito precioso, com um

riacho deslizando em cascatas, sobre

pedras recobertas de musgo.

Em 1984, a Congregação dos Sagrados

Corações fez uma doação

à nossa entidade. Com os seis mil dólares corri ao proprietário do terreno

que eu já vinha namorando. Ele se dispôs a vendê-lo, recebendo

aquele dinheiro como parte do pagamento. Decidimos construir ali

uma casa modesta, para abrigar um caseiro com a família. Já estávamos

com alguns internos quando terminou a construção da “casa do

caseiro”. Então nos transferimos para lá. Os internos mesmos escolheram

o nome: FAZENDA RECANTO DE CANÁ. A inauguração oficial

ocorreu no dia 31 de maio. Estávamos no ano de 1987”.

“Bem depressa a casa estava pequena demais, tivemos que

construir cozinha e refeitório maiores, sala de recreio e dormitório.

Não podia faltar uma capela. Mesmo sem dinheiro, colocamos

o problema nas mãos de Deus e fomos dando passos. O dinheiro

“caía do céu” na medida do necessário. A sala de recreio ficou sendo

dormitório, e a construção deste foi adiada. Em setembro de

1988, já foi inaugurada oficialmente a parte construída. Convidamos

Dom Serafim para celebrar a Eucaristia e trazer a bênção da

Igreja, para o nosso trabalho.”

A CASA DA ACOLHIDA

“Em 1992, a Associação

Feminina de Assistência Social,

por iniciativa de sua Presidente,

Maria Ângela de Queiroz,

doou à Família de CANÁ uma

área, anexa ao nosso terreno.

Havia diversas benfeitorias e

uma sede grande, adequada

ao nosso trabalho. Lá instalamos

imediatamente a Casa da Acolhida.” A Comunidade da Acolhida,

na medida das necessidades, foi sendo acrescida de novos

módulos para ampliar a capacidade e o conforto.

COMUNIDADES DOM BOSCO

E SÃO DAMIÃO

“Comecei a sonhar com uma

casa para abrigar menores. Compartilhando

esse ideal com um

empresário simpático às minhas

idéias, ele se dispôs a ajudar financeiramente

sob três condições:

dar à casa o nome de Dom

Bosco, preservar o seu anonimato

e apressar a construção. Juntamente com a Casa Dom Bosco e,

aproveitando o projeto arquitetônico e ‘dinheiro que cai do céu’,

construímos a Casa São Damião. Pouco mais tarde, o mesmo empresário

financiou inteiramente uma capela, com bancos e tudo,

para 100 pessoas, que atende às comunidades da Acolhida, Dom

Bosco e São Damião”. Por falta de recursos financeiros e de pessoal

preparado, a experiência com menores acabou sendo suspensa,

e a Casa Dom Bosco passou a abrigar dependentes adultos.

COMUNIDAD

EU QUERO A VIDA

“Paramos, mas não deixamos

de sonhar. E fizemos um

desafio, esperando um sinal de

Deus: Se aparecerem os recursos

para uma construção mais

adequada, em lugar separado

das outras comunidades, acreditamos

que é para ir em frente.

E o sinal veio. Em 2001, o INSTI-

TUTO MARISTA DE SOLIDARIEDADE ofereceu-nos uma doação para

construir uma casa para 30 internos. Recebemos a oferta com alegria e

entusiasmo, sempre com o sonho de criar uma comunidade exclusiva

para menores. A construção foi feita. Demos à casa o nome deEu

quero a vida”, mas a criação da comunidade foi sendo adiada, pela

dificuldade de encontrar pessoas para dirigir e recursos para manter”.

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis... Pronto? Que nada! Já

existe uma área terraplanada, na Fazenda, e vários milheiros

de tijolos de cimento já prontos e em fabricação, para o projeto

das Aldeias de Caná. E o projeto de erguer na sede um

centro de difusão da Entronização do Sagrado Coração. E que

mais? Só Deus sabe!...


Publicação da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

FAMÍLIA DE CANÁ, O MAIOR EMPREENDIMENTO

Um rápido olhar sobre a atuação da Família de Caná no âmbito

da promoção da Família e o seu papel de protagonismo e

referência na área da atenção aos dependentes de álcool e outras

drogas dá a medida do espírito empreendedor do Padre Osvaldo,

criador e motor incansável de toda essa ciranda de atividades. É

uma roda gigantesca, que tem o seu eixo no Caná, estende seus

raios pela Grande BH e atinge o interior e até outros estados.

São mais de cinco mil casais que, a partir de 1974, se abasteceram

nos Encontros de Revisão Matrimonial, Renovar, de Outono,

de Espiritualidade e na Escola de Formação de Serventes, somente

na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Patrocínio

e Iguatama. A partir de Ipatinga, onde a equipe do Caná implantou

a Revisão Matrimonial, mais de quatro mil casais tinham sido

beneficiados, já no longínquo 1991. Igualmente uns três milhares

de jovens aprenderam a satisfação de “ser útil” nos encontros de

Adolescentes e Parada PRODES.

A Fazenda Recanto de Caná, fazendo uma estimativa pelos

números atuais, terá acolhido para tratamento nos seus vinte e

quatro anos de existência bem uns três mil dependentes químicos.

Sem mencionar as cerca de trezentas pessoas que, semanalmente,

lotam a sede da Associação em busca de ajuda.

PROMOÇÃO DA FAMÍLIA EDITORA

Mas o Padre Osvaldo

resolveu se aventurar

também no campo

empresarial. Sempre em

vista da causa maior, a

promoção do Reino de

Deus através do serviço

à Família. Jovem padre,

em 1967, veio do interior

para a Capital com a

incumbência de implantar

a PROMOÇÃO DA FA-

MÍLIA EDITORA.

Quem conta é o

nosso irmão Ronan da

Teresinha. Aparece um

dia, no banco em que

trabalhava, o Padre

Osvaldo, convocandoo

para ir até a sua gráfica paginar as revistas da Editora, REI-

NO e A TURMA. Na oficina instalada no prédio do antigo Cine

Padre Eustáquio, o Ronan Viglione encontrou nada mais que

uma ou duas impressoras, alguma composição de linotipo e

uns clichês. “Onde estavam as caixas de tipos, componedores,

entrelinhas”...? “É preciso essas coisas todas”? perguntou um

surpreso Padre Osvaldo. Pelo jeito, ele sabia bem pouco de

tipografia. Saíram às pressas, ele e o Ronan, para comprar o

equipamento indispensável. Conta o Ronan que tiveram que

improvisar um fio com uma lâmpada na ponta para que ele

pudesse trabalhar, na gráfica às escuras.

A equipe cresceu, com a chegada do Sílvio, José Carlos, Hamilton,

Gesualdo, Vicente, o Paulo motorista, o Pedro de Mercês

do Pomba, e a gráfica se modernizou com a compra de impressoras

offset, linotipo e outros equipamentos de ponta.

Os carros-chefes da Editora

eram as revistas REINO

de formação religiosa e

promoção da Entronização

do Sagrado Coração – e A

TURMA – totalmente dedicada

à catequese, ambas

de boa penetração no

meio paroquial. A Editora

lançou também numerosos

títulos de boa

aceitação, na área da catequese.

Alguns, porém,

de literatura infantil, por

motivos vários, ficaram

encalhados nos depósitos.

Até bem pouco

tempo o Padre Osvaldo tentava ava sem sucesso, distribuindo

9

até gratuitamente, desencalhar os famigerados TURMINHA DA

DONA CYNARA e AS VALENTIAS DO COELHO. Afinal, os múltiplos

encargos assumidos depois, inviabilizaram a Empresa. A

revista Reino foi desativada e A Turma passou para a administração

da Arquidiocese, sobrevivendo até hoje.

A CONFECÇÃO DE JEANS

Na mente uma idéia: o Lar

das Crianças, espaço onde, sob

os cuidados de uma mãe social,

se pudesse acolher crianças, digamos,

sem lar. Para variar, e os

recursos materiais? Dono de um

largo círculo de amigos e admiradores,

o Padre Osvaldo recebe

do senhor Itaci, empresário do

ramo de confecções, uma proposta

de parceria.

Em galpão, nos fundos de

uma casa de propriedade da

Congregação, na Rua Vereador

Geraldo Pereira, anexa ao Caná,

foram instaladas as oficinas de

confecção, sob a batuta da Ivone

do Oldack, costureira experiente.

As peças de jeans – calças e casacos – já eram mandadas

cortadas pelo senhor Itaci. Era só costurar, entregar e faturar.

A certa altura, o Padre Osvaldo foi convencido de que poderia

alçar “voo solo”, sem a tutela do Itaci. Na mesma ocasião,

a Ivone se vê obrigada a deixar a oficina, para cuidar do marido

doente. Há uma mudança de gestão e dos rumos do negócio.

Resolve-se confeccionar a chamada “modinha”, destinada

ao público feminino. Monta-se uma lojinha nas dependências

da casa, sob a responsabilidade da Nilza do Mundinho. Sem

orientação de uma estilista, as peças não caíram no gosto do

exigente mercado feminino. As vendas despencaram, um volumoso

estoque de tecidos encalhou e os prejuízos se acumularam.

E terminou mais um sonho.


10 Publicação

da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

“Me pediram para falar sobre o nosso projeto para salvar os

menores dependentes ou a caminho das drogas. Disse que era ainda

um sonho. Alguém procurou motivar-me: “Sonho que se sonha

só é só um sonho; sonho que se sonha a dois é realidade”. Mas, na

verdade, o trabalho com os menores não é apenas um sonho.”

Quem está mais próximo de nós, no trabalho do CANÁ, sabe

que já fizemos uma tentativa anterior de ajudar os menores com

menos de 14 anos. (Para isso foi construída a Casa Dom Bosco). E

sabe também que paramos por nos sentirmos sem recursos: de estrutura

material, de educadores e de um projeto pedagógico.”

Na realidade, porém, o sonho data de mais tempo e se concretizou

no Lar das Crianças. Sob os cuidados de uma mãe social, até

14 crianças conviviam como numa família, freqüentando escola

pública, recebendo assistência médica, odontológica e pedagógica

de voluntários. Após alguns anos, o Lar das Crianças foi transferido

para outra instituição, sobretudo por falta de “mães sociais” à

altura da tarefa. Mas os frutos foram muitos e gratificantes.

Com a palavra o Cássio de Jesus, que passou pelo Lar e hoje, casado

e pai, é cameraman na RedeTV e dono da HEMIAH, empresa de

Photo & Vídeo.

“Falar dos 80 anos de

vida do Padre Osvaldo é fácil

para mim. Tendo recebido

sua ajuda, torna-se até agradável

falar dessa ajuda e da

intimidade do pai que ele foi

para mim. Mas eu quero hoje

revelar um aspecto do Padre

Osvaldo que muita gente desconhece,

a intimidade que ele

tem com Deus.

Todo mundo sabe que eu vim da periferia, de um ambiente muito

pobre e sofrido. Além de ter me resgatado dessa situação, o Padre Osvaldo

me proporcionou uma oportunidade maior, me deu uma noção

de vida e uma caminhada de fé. Nada foi forçado, por obrigação. Tudo

a partir da sua intimidade com Deus, que a gente enxergava no dia a dia.

Posso testemunhar a coragem com que enfrentou os desafios, até mesmo

de fé, ao encarar a missão nova e visionária de lidar com dependentes

químicos. Certamente inspirado pelo Espírito Santo, ele enxergou, muito

além, o sofrimento das famílias vitimadas e desfiguradas pelas drogas.

Isso num tempo em que não se dava destaque ao assunto, um bicho-desete-cabeças,

que hoje ocupa as manchetes e as redes sociais.

Não conheci meu pai biológico. O Padre Osvaldo é o pai que eu ganhei.

Um pai diferente, que me acolheu e me ensinou, não com sermões

e castigos, mas com muito carinho, valores muito fortes: a importância

de um lar, a educação e, sobretudo o maior patrimônio que uma pessoa

pode ter - a caminhada com Deus, a presença de Deus no lar.

Eu choro à toa; mas hoje é só alegria, pelo privilégio de ter o

senhor como referência. Não esqueço as suas palavras: “Alegria e

coragem só têm sentido quanto a gente conhece a intimidade com

Deus”. Parabéns! Mais 80 anos de vida!”

Cássio de Jesus

Os laços, firmados numa relação intensa de amor, não se

romperam até hoje, como provam as mensagens abaixo.

“Boa tarde. Eu morei em uma creche que o Padre Osvaldo

mantinha aí em frente, entre 1982 e 1987. Ainda existe esta creche?

Como anda o Padre Osvaldo? Como faço para falar com

ele? Foi uma emoção muito forte achar esse site e ver algumas

fotos; está um pouco mudado, mas ainda tem muitos detalhes

da minha época. Passamos muitos momentos bons aí; o Padre

Osvaldo era como um pai pra nós. Mande abraços a ele por mim;

tenho certeza que ele se lembrará.”

Robson Ribeiro

“Oi, tudo bem? Meu nome é Cristiano.

Morei no Caná na rua Henrique

Gorceix,17, no ano de 1987. Gostaria de

saber se vocês têm fotos dos meninos

dessa época. Alguns nomes destes meninos:

Cristiano Oliveira, Cássio de Jesus,

Lucas de Jesus, Ana Paula Guilherme,

Orlândia da Silva Neves, Agenor da Silva

Neves, Marcos Aurélio da Silva Neves,

Paulo Pinto Ramos, e Conceição. Um

grande abraço, aguardo respostas!”

Cristiano de Oliveira

“Paramos, mas não deixamos

de sonhar”, diz o Padre

Osvaldo. Em 2001, uma

doação dos Irmãos Maristas

possibilitou a construção da

Casa “Eu Quero a Vida”, que,

entretanto, ficou incompleta e

desocupada. Em 2008 a Prefeitura

de Ribeirão das Neves celebrou

convênio para abrigar

menores em situação de risco

Honório e Conceição

social, aproveitando a disponibilidade

da “Eu Quero a Vida”. A nova tentativa durou pouco mais

de um ano.

O sonho mais uma vez se concretizou em 2010. A Comunidade

atualmente recebe dependentes da faixa etária de 12 a 17

anos, funcionando, porém, abaixo da sua capacidade. E o Padre

Osvaldo conclui:

“Nunca sonhei sozinho; tudo o que existe de concreto, no

meu trabalho, foram outros que realizaram comigo. Mas agora

que lhe falei, e você ouviu atentamente, o meu sonho passa a ser

seu. E eu desejo isso ardentemente.”


Publicação da ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ - Ano I - Número 2 - Novembro de 2011

A Família de Caná agradece,

de coração, a todos aqueles

que contribuíram para tornar realidade

esta edição da revista

EU VISTO ESTA CAMISA

Eu visto

esta camisa

* Ano I * Número 2 * Novembro de 2011

Publicação da

ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ

Rua Henrique Gorceix, 80

Padre Eustáquio - BELO HORIZONTE

CEP 30720-360– MG

Telefone: (31) 34629221

e-mail: familiacana@ig.com.br

Site: www.familiadecana.com.br

CNPJ nº 16.881.294/0001-48

Entidade filantrópica

de utilidade pública

* Decreto Federal – Proc. MJ 2042/97

de 20/06/97

* Lei Estadual 9.073 de 11/12/84

* Lei Municipal 6.372 de 18/08/93

(Belo Horizonte)

* Lei Municipal 2.958, de 30/11/06

(Ribeirão das Neves)

Conselho Nacional

de Assistência Social - CNAS

Certificado nº 28.984.016095/94-01

Presidente: José Afonso Pinto de Assis

Diretor: Padre Osvaldo Gonçalves

Redator: José Wagner Leão

Colaboradores:

- Adão Eustáquio Vieira

- Adelina Blasi Baracat

- Ângela Dolores L. de Carvalho

- Carla Pena

- Cássio de Jesus

- Cláudio Martins Nogueira

- Danilo dos Santos Pereira

- Padre Eribaldo Pereira Santos

- Padre Geraldo Abílio Ribeiro

- Paulo Rezende

- Geraldo Magno Possa

- Ronan Viglione

- Júlio Monnerat

- Zeneida Rena Pereira

Tiragem: g 10.000 exemplares p

Arte e Impressão: Impreesssão:

FUMARC

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ASSOCIAÇÃO FAMÍLIA DE CANÁ

Rua Henrique Gorceix, 80

Padre Eustáquio - Belo Horizonte

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