Otaku: O termo, em japonês

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Otaku: O termo, em japonês

Cenas japonesas:

Yu Hakusho\

Samurai X\Buda

\Dragon Ball\Video

Girls Ai\ Cowboy

Bebop - mangás

publicados no Brasil

que ajudaram a

fortalecer a cultura

dos quadrinhos japas

9 subescrito # verão 2006

Glossário \\

Otaku: O termo, em japonês,

signifi ca algo como “viver num

casulo” e foi cunhado em 1983

pelo escritor Akio Nakamori para

defi nir pessoas que se isolam

do mundo real, vivendo apenas

em função de quadrinhos, video

games, seriados, culto a cantores.

No Brasil, os fãs de mangá e

animê se auto-intitulam otakus.

Anime: Termo que designa os

desenhos animados japoneses.

É a abreviação de “animation” e

ganhou força nos anos 60 graças ao

pioneiro do mangá Osamu Tezuka.

Mangá: Sinônimo tanto de

histórias em quadrinhos

quanto de gibis no Japão.

Signifi ca literalmente “desenhos

irresponsáveis” e foi usada pela

primeira vez pelo cartunista e

ilustrador Hokusai em 1814

Tokusatsu: Palavra japonesa

para os efeitos especiais. Entre

fãs no mundo inteiro, Tokusatsu

(leia “tokussatsu”) passou a

ser a defi nição genérica de

fi lmes e seriados live-action

de fi cção e fantasia.

Cosplay: Abreviação de “costume

play” (ou “roupa de brincar”),

é o termo usado para as

fantasias de personagens (seja

de mangás, animês, tokusatsu

ou games) usadas por fãs.

Fansubber: Termo que vem de

“fan subtitled” (legendado por

fãs), Os fansubbers são grupos que

legendam e vendem fi tas de vídeo.

Fonte: Alexandre Nagado ilustrador, redator

e faz quadrinhos (roteiro e desenho). Estreou

seu primeiro roteiro em quadrinhos em

1990, com Flashman, para a Editora Abril.

Livros \\

Mangá: O poder dos quadrinhos

japoneses, Editora Hedra,

Sonia Bibe Luyten

Otaku: Os Filhos do Virtual,

Editora Senac, Étienne Barral

Animes \\

Cowboy Bebop: a série, 1998,

,

Mangás \\

Slam Dunk: Takehiko

Inoue, no Brasil, desde 2005


# cenas urbanas \\ música\ religião

Jesus é

o senhor

do rock

Repórter do Subescrito invade show de metal

evangélico e mostra que nem sempre só o

diabo é roqueiro

10 subescrito # verão 2006

\\ texto: ingrid souza \ foto:malcon robert

Espera. Ansiedade. Um atraso de quase duas horas

e problemas técnicos na caixa de som aumentam

o mistério. O espetáculo começa. Luzes apagadas,

cabeças e braços em ritmados balanços. Um agudo

infinitamente alto de Zuma, vocal da banda Celicos,

avisa que o esquema ali é rock. Nada de mais, se o local

não fosse uma igreja. O nome estampado na porta

anuncia o show Roqueiros de Cristo.

Muita banda de rock gostaria de tocar na Igreja

Renascer, em São Rafael. O espaço é grande e o público

é fiel. Caixas de som no ponto, guitarra, baixo, bateria,

teclado e vocal. E a Celicos entra cena. É rock mesmo,

apenas as letras das músicas são diferentes: “Elas

falam sobre o amor de cristo, o Apocalipse e a igreja,

mas a batida é a mesma. Aqui também tem todos os

tipos de rock: black metal, heavy metal, thrash metal,

death metal, doom metal”, explica Leonardo Queiroz,

23, da igreja Evangelho Quadrangular, vocal da Daze

Darkeness, que nesta noite estava apenas na platéia.

Uma volta no lugar e o cenário rocker se repete: muita

gente de preto, piercings e pouca luz. O tempo todo

a galera dança como se estivesse num combate. Mas


Com a bíblia na mão,

moçada celebra a

mistura do heavy

metal com versos

cristãos. E a pista

vira um inferninho

neste ambiente nada de bebidas alcoólicas. Entre uma

banda e outra acontecem os cultos e a convocação em

nome de Deus. “Usamos o rock para abranger todas

as linguagens”, fala Mônica Gomes dos Santos, 29,

presbítera, denominação anterior ao de ser Bispa da

Igreja Renascer.

Nesta tribo de roqueiros cristãos as armas são as

palavras de Deus. “Pregar a palavra de Deus às vezes não

é muito fácil, se torna uma verdadeira guerra. Quando

vamos disseminar os versos de Cristo, as pessoas

nos xingam, chegaram a nos agredir com murros e

pontapés”, esclarece Robério Nunes, 25, Líder do grupo

Chistian Metal Force (C.M.F.).

Para entrar nesta balada rocker-cristã basta uma boa

ação: um quilo de alimento não perecível. Aí você curte

como qualquer fã de metal, mas tem que levar a igreja

na seriedade, e nada contra o que diz da bíblia. Samuel

Oliveira, da Igreja Templo de Abraão, explica: “Temos

que enxergar o corpo como um templo, não podemos

feri-lo ou machucá-lo”. E para Samuel isso significa nada

de drogas nem sexo sem casamento. E ele garante que

as duas coisas são aceitas por todos os roqueiros que

seguem os ensinamentos do livro sagrado.

O Metal não está somente nos shows. Na igreja

Renascer em Cristo há reuniões com diversos jovens

que gostam de rock. As palavras da bíblia são lidas com

fundo musical do black metal, um tipo de rock com

batidas pesadas. Lady Heavy, 20 anos, estudante, diz

que, logo depois da morte da mãe, foi com os amigos

roqueiros que encontrou a paz.

Os encontros do C.M.F. acontecem numa saleta

amarela e aproximadamente 25 jovens sentados em

carteiras discutem operações táticas de como arrecadar

fiéis. Mônica diz que é preciso ter vários tipos de

linguagens para chegar aos jovens e o rock é uma delas.

As igrejas que renovaram seus estilos para

se aproximarem dos jovens cada vez mais

vêm seus templos lotados.

O Bispo Valdeci Leite, 39, afirma que a igreja para

a qual trabalha tem 52 frentes ministeriais, algumas

servem para atrair jovens pois, além das músicas de

rock, tem: pagode, axé e reggae.

Quem quiser estar mais integrado com o movimento

do metal nas igrejas evangélicas pode dar uma

conferida na bíblia do metal, apesar de estar toda em

inglês vale a pena tentar ler. É um livro direcionado

aos jovens metaleiros. A linguagem é bem fácil e se

aproxima mais da juventude.

11 subescrito # verão 2006

Vá lá\\

Reuniões do Christian

Metal Force (C.M.F.)

Igreja Renascer em

Cristo do Politeama

Dia: Sábado

Horário: 18 horas

,


# ficar \\ namoro nos anos 00

Î

Î

Î

Î

Regras

básicas

Prevenir é o melhor

remédio, portanto, use

sempre camisinha. Ela

evita doenças sexualmente

transmissíveis como a Aids

e a gravidez precoce.

Tenha certeza que aquilo

mesmo que você quer. Sem

essa, de que só porque é

menino tem que ficar com

a garota que não está a

fim. E as meninas também

não vão deixar de ficar por

preconceito machista.

Antes de começar a vida

sexual é fundamental

procurar o médico.

Ginecologista para as

meninas e urologista para

os meninos. São estes

profissionais que vão dar

dicas fundamentais para que

o sexo seja seguro e saudável.

Tente sempre ter um papo

sincero com a sua família

sobre sexualidade. Não

se esqueça que seus pais

estão aí para te ajudar.

serviço \\

Cradis: Centro Referencial

ao Adolescente Isabel Souto

[Avenida Oceânica, no 4000,

Praia da Paciência, Rio

Vermelho]. Procure também o

Serviço de Saúde Reprodutiva

em um posto médico público,

próximo aonde você mora.

Tempo, tempo,

tempo, tempo

Transar logo no primeiro encontro é normal para

algumas pessoas e um absurdo para outras. E para você?

\\ texto luciana reis \ foto shahla maya

Um globo com luzes coloridas começa a girar, o estrobo pisca a luz branca em movimentos

contínuos e fortes. Na pista, todos dançam. Rock, jazz, funk, pop, balada. Ai pinta um clima

quente. O esquema engrena e pinta a dúvida de transar ou não em um primeiro encontro.

Não há consenso, nem fórmula: tem gente que acha normal; e outros, um absurdo.

A estudante Michella Brito, 21, ficou “grilada” quando teve que responder ao garoto, que

tinha acabado de conhecer, se queria ir para um lugar mais “sossegado”. “Estávamos nos

beijando, ficando normalmente até que ele veio com a “mão boba” e me fez a proposta de

irmos para outro lugar. Confesso que fiquei balançada”.

Apesar da tentação, Michella não topou. Ela pensou e acabou achando

que não era legal ficar sozinha com um cara que tinha acabado de

conhecer. “Por mais bacana que seja conhecergente nova e ficar com

vários gatos, prefiro não forçar a barra”, explica.

Ao contrário de Michella, o office-boy Marcelo Soares, 28, não vê nada demais em transar

no primeiro encontro. “É natural, se o clima estiver propício, vai ficar chato e desagradável

interromper. É bom deixar rolar”, brinca. Será que é porque ele é menino?

Nada disso. Marcelo conta que, entre seus amigos, ele é o único que pensa ser bom transar

de cara. Para os seus colegas - que ele chama de caretas -, as meninas que transam de

primeira são consideradas “fáceis” e não da para um relacionamento sério, só para curtição.

Mas ainda bem que nem todos os garotos pensam como os amigos de Marcelo e acham

normal transar quando os dois ficam a fim. “Durante as ‘baladas’, tudo pode acontecer,

depois de umas caipirinhas então...”. Isso é o que pensa o estudante do ensino médio Ricardo

Mota, 18. Para ele, sexo não é tabu, mas algo que deve acontecer naturalmente, no dia-a-dia,

sem nenhum tipo de repressão dos pais ou da sociedade.

ficante sério //

Há casos em que o “ficar intensamente” dá certo e pode durar. Foi o que aconteceu com os

agora noivos Ednalva Barreto, 25, e Maurício Oliveira, 31. Nas comemorações do réveillon de

2002, Ednalva foi apresentada a Maurício por uma amiga dela.

Começaram a conversar, “ficar”, beber umas taças de champagne e...

amanheceram na casa de praia dele. “O lance foi ficando mais sério do

que pensei, decidimos levar o namoro a sério e, até o final desse ano,

pretendemos morar juntos”, conta Ednalva.

Para Maurício, muitos jovens perdem a chance de encontrar o amor de suas vidas por

preconceitos bobos, machistas ou conservadores. “Eu nunca imaginei que fosse encontrar a

mulher dos meus sonhos em uma noite de Ano Novo, muito menos que aqueles momentos

fossem durar tanto. Agora, espero que seja eterno”, diz Mauricio.

12 subescrito # verão 2006


# negócios \\ escambo contemporâneo

Mercado livre

Feira do Rolo, em Salvador, alimenta o troca-troca de mercadorias, onde

dinheiro nem sempre é a moeda corrente. Mas lá é bom ser sagaz

\\ texto uiara nana \fotos flickr

São 9 horas da manhã de um domingo

com pouco sol. Ainda na estação de trem

na Calçada, antes da Feira do Curtume,

se forma uma pequena fila de ônibus e

automóveis, os motoristas mais estressados

começam a buzinar esbravejando em voz

alta, tentando competir uns com os outros.

“Todo domingo é a mesma coisa, essa Feira

sempre atrapalha o trânsito”.

Localizada hoje na Baixa do Fiscal,

inicio da Avenida Suburbana e em frente à

delegacia da policia civil de furtos e roubo,

está a Feira do Rolo. Segundo o comerciante

José Francisco, que trabalha na Feira há 16

anos, ela está na Baixa do Fiscal há 12 anos.

A Feira do Rolo é o lugar onde se encontra

de tudo: artigos de decoração, roupas,

sapatos, bolsas, telefones de todos os

modelos e marcas, louças sanitárias - tudo

de segunda mão. Dos vários produtos

comercializados, o que mais chama a

atenção é a venda de frascos de perfumes

vazios, os vendedores dizem que uns

compram para “tirar onda” e outros por que

o frasco e bonito, e de um jeito ou de outro

conseguem enchê-los com outros perfumes.

O comércio é feito como no inicio das

feiras livres do período feudal, onde os

produtos são trocados, e a depender de

quanto vale, o comprador tem que pagar o

restante com outro produto. Essa prática

é conhecida na Feira do Rolo como troca

com volta e pode ser em produto como no

passado ou em dinheiro.

Mas na maioria dos casos é o freguês

que determina quanto vale a mercadoria.

O comerciante oferece o produto com um

preço, mas o cliente pechincha, então,

chegam a um acordo.

A maioria dos feirantes está ali para,

de um jeito ou de outro, completar sua

renda. São pessoas que vivem naquelas

imediações e nos outros dias da semana

têm outras atividades. É o que acontece

com o aposentado Aroldo Santos. Ele faz

mesas, banquinhos e cadeiras de madeira

para vender. E afirma que, somando

sua aposentadoria, com a venda das

mercadorias na Feira e as encomendas,

consegue esticar o orçamento. “Vendo essas

miudezas aqui, tudo usado, sem nenhum

defeito, passo tudo por um preço razoável”.

Ele diz que a Feira está crescendo, e o

movimento é maior no fim do mês.

A cada passo se ouve um anúncio de

um novo produto. Próximo ao Viaduto

Mercado em várias parte do planeta alimentam negócios variados. Em sentido horário:

Senela [África], Tailândia [Ásia], Cidade do México [México], Buenos Aires [Argentina]

dos Motoristas um homem merca um

espremedor de laranja ainda na caixa, mais

a frente outro vendia uma impressora e

alguns gravadores de CD e ao lado um jovem

vende filhotes de cães da raça pit bull.

organização //

Na Feira do Rolo não há fiscalização da

Prefeitura e a organização é espontânea. No

lado direito da avenida, ficam os vendedores

de frutas e legumes, algumas mercadorias

são exposta em lonas estendidas no chão,

outras em carros de mão, mas a maioria

está em barracas de madeira improvisadas

pelos feirantes. No lado esquerdo ficam

os demais produtos, como óculos de

grau, parafusos enferrujados, correntes,

fechaduras, os “cacarecos” , como são

chamados pelos vendedores, estão expostos

também pelo chão ou em pequenas barraca

e tabuleiros, ou em caixas, como os animais.

O tempo fecha de vez, e nem mesmo

embaixo de chuva a Feira pára. As

mercadorias mais leves e frágeis são

recolhidas às pressas, outras são cobertas.

Compradores e vendedores se amontoam na

calçada embaixo do Viaduto dos Motoristas,

mas o escambo continua. O fluxo de pessoas

diminui e só assim o trânsito volta ao

normal. Mas a chuva passa, e os vendedores

voltam a oferecer suas mercadorias. Os

ônibus seguem correndo pela Suburbana,

mesmo, quando o domingo se transforma

em um grande mercado a céu aberto.

13 subescrito # verão 2006

Enrolada na Feira

\\ texto sem foto sandra midlej

Domingo. Eu tinha acabado de competir

uma prova de triathlon e ao atravessar a

linha de chegada, o que eu mais pensava

era em sair para fotografar a Feira do

Rolo. Coloquei a máquina fotográfica

enrolada em uma toalha na mochila.

Comecei a ir à direção da “muvuca” já

tava com vontade de pegar a máquina,

foi quando uns caras me ofereceram uma

mercadoria, eu falei que estava ali pra fazer

um trabalho de fotografia:

– Se você entrar nessa feira com uma

maquina, os “maluco” vão pensar que você

vai tirar foto pra denunciar eles,

– Mas por que eu ia denunciar eles?

– Porque você sabe “meu”, que tudo isso

que ta aí e roubado,

– Olha galera, sou da paz, vim aqui

registrar com umas fotos, só isso.

– Olha só morena se você pagar a gente

20 paus, a gente te protege.

– Tá combinado, eu topo, vou pegar a

grana no carro, e pegar mais um filme.

Saí dali com a sensação de que tinha um

monte deles atrás de mim. Voltei para a

competição, ainda não tinha acabando tinha

gente ainda completando a prova, quando

ouvi no microfone chamar minha categoria,

ouvi meu nome em primeiro lugar. No final,

“Ganhei uma prova e perdi uma foto”


#esporte \\ futebol de bairro

Os amadores do Futebol

Nos bairros de Castelo Branco e IAPI, campeonatos de futebol amador

fazem sucesso nos finais de semana da cidade

\\ texto leandro silva \

foto maria fernanda

“Eu passo a semana toda na expectativa

de chegar domingo, só pra poder jogar

e ver as arquibancadas lotadas. É muito

emocionante”. Lendo essa declaração dá a

impressão de que é de algum jogador do

Bahia, Flamengo ou Corinthians, clubes

populares que lotam os estádios a cada

domingo. Mas quem diz isso é Seu Luiz , o

vendedor Luiz Gonçalves, 43, que disputa o

Campeonato de Veteranos do Esporte Clube

do Tejo, um dos mais tradicionais do futebol

amador de Salvador, no bairro do IAPI.

O Esporte Clube do Tejo, conhecido

também como Campo do Tejo , foi fundado

em 1914. Quem passa por perto do clube

nem imagina que por ali tenha um campo

tão grande e famoso. Por fora é só uma

portinha, nem parece a imensidão que é por

dentro na área do gramado. Aliás gramado

só no modo de falar já que o campo é de

arenoso. Mas para quem joga ali é um

verdadeiro ‘Maracanã’. O campeonato de

veteranos do Tejo é disputado há mais de 50

anos, e este ano é disputado por 12 times.

Há mais de 40 anos, um vigilante do clube

chamado Aú resolveu juntar um pouco

do seu dinheiro e comprar chuteiras para

alguns meninos do bairro, que puderam

disputar o torneio. Mais de 30 anos depois,

alguns desses meninos, já veteranos,

resolveram homenagear o vigia. “Ele já

estava muito velhinho, não trabalhava

mais aqui, mas nós nunca esquecemos

que só começamos a jogar graças a ele,

por isso criamos um time chamado Resto

de Aú ”, conta Gilberto Egídio, 63, bancário

aposentado e um dos atuais organizadores

do campeonato.

castelo branco //

No bairro de Castelo Branco, localizado

próximo à Vila Canária, o campeonato

é disputado há mais de três décadas e

também tem muita tradição. A competição

neste ano conta com nove equipes. O

América é o clube mais tradicional e com

mais títulos da Liga de Futebol do Centro

Social Urbano de Castelo Branco, com 12

conquistas ao todo. Foi criado em 1981

por Antônio Cruz, 82, o ‘Seu Antônio’,

aposentado, que divide os seus domingos

entre os cultos de uma Igreja Evangélica e

os jogos do América. “Todo domingo que

não tem jogo do meu América eu vou para a

Igreja, quando tem estou sempre no campo,

acompanhando meu time”, diz.

Seu Antônio mora em Castelo Branco

desde 1973, quando tinha 49 anos, e não

chegou a disputar o campeonato, que

não possui categoria para veteranos. “O

campeonato é muito competitivo, tem time

que traz jogadores até de outros municípios

para se reforçar. No meu, dos 22 inscritos, 21

são daqui da comunidade, porque sou bem

tradicionalista”, diz. Como o campeonato

não tem categoria de veteranos, Francisco

Ferreira, 44, que trabalha em uma indústria

Petroquímica, conhecido como Chico, teve

que pendurar as chuteiras e abandonar a

carreira no futebol. “Parei de jogar porque

o campeonato exige condição física boa e

hoje, pela idade, não consigo acompanhar o

ritmo da garotada, mas como não consigo

largar de vez, estou estreando como técnico”,

diz Chico, agora técnico do Castelo Branco,

depois de participar do campeonato como

atacante, desde os 14 anos, entre 1976 e 2005.

rivalidade //

A rivalidade entre os times em Castelo

Branco é grande. Chico jogou todos os anos

pelo Ajax, que não existe mais, e que era

rival histórico do América de Seu Antônio.

“Sempre existiu a rivalidade entre o Ajax e

o América. Antigamente tinha muita briga”,

diz. O fato mais lamentável envolvendo

essa rivalidade aconteceu na final do

campeonato de 1995, entre os dois times. “O

América jogava pelo empate para conquistar

o título. Aos 44 minutos do 2º tempo, o jogo

estava zero a zero, quando o Ajax fez um

gol que lhe daria o título, mas o juiz anulou

e começou a briga envolvendo torcedores,

juiz, bandeirinha e jogadores. A partida

recomeçou e na cobrança de escanteio

a bola sobrou para um jogador do Ajax

que não desperdiçou e finalizou a jogada

marcando o gol do título”, conta Chico.

Para Seu Antônio as brigas já fazem parte

do passado. “Hoje só tem muita gozação,

quem perde não pode sair de casa, porque

as comunidades são muito próximas, mas

as brincadeiras são sadias .”

Mas a rivalidade e as confusões não são

exclusividade de Castelo Branco. Rosendo

Sacramento, mecânico, 41, o Braz , que

disputa o campeonato do IAPI, conta que

durante um jogo de muita rivalidade no

Tejo , entre um time da Avenida Peixe e

outro da Pero Vaz Velha, depois da marcação

de um pênalti, que não existiu, o juiz teve

que pular o muro e correr, por cima dos

telhados das casas vizinhas, para fugir.

14 subescrito # verão 2006

IAPI : o time do Ibis [vermelho], o trio de

arbitragem e o time do Santos [preto]

espírito amador //

Em Castelo Branco, Luizão, Nena e

Gordurinha, além de Seu Antônio, são

apaixonados pelas equipes que torcem,

jogam ou comandam. “Torço mais para o

América do que para o Flamengo, que é o

meu time profissional”, diz Seu Antônio.

Outro que chama atenção é Antônio Santos,

40, conhecido como ‘Burrá’, participa de

todos os campeonatos do bairro ajudando

os times, atuando como gandula e

massagista . “Não me importo com o time,

gosto de participar e ajudar”, diz Burrá.

O repórter Ely Almeida do programa

Balanço Geral, da TV Itapuan, está quase

todos os finais de semana prestigiando o

campeonato do Tejo, no IAPI. “Fui menino

aqui, neste campo, e eu valorizo muito todas

ligas de futebol amador de Salvador. Esse é o

grande espírito do futebol amador”, diz.

D

d

a

s

fi

I


Domingo de jogo no IAPI, em uma partida

disputada no Campo de Tejo, que desde 1914

abrifa os campeonatos amadores da região

sempre muito disputados e com uma torcida

fiel, Na fot, disputa de bola entre os times do

Ibis e do Santos

15 subescrito # verão 2006

Antes

do baba

Onde jogar \

A escolha do piso

é essencial, é

aconselhável evitar

gramados sintéticos

que costumam causar

principalmente a

degeneração da

cartilagem do joelho

e lesões no menisco.

Evitar, também,

campos cheios de

buraco que podem

causar problemas

principalmente nos

joelhos e tornozelos.

Aquecimento \

Fazer avaliação

cardiológica

principalmente se

tiver histórico familiar.

Contusões \

Fazer exame

ortopédico para saber

se tem tendência a

ter hérnia de disco.

Dia de baba \

Evitar jogos em

dia de chuva, piso

escorregadio, causam

lesões musculares

e ligamentais.

Adversários\

Procurar disputar

campeonatos

compatíveis com a

faixa etária, evitar

disputar campeonatos

com pessoas bem

mais novas.

Proteção\

Usar caneleira,

para proteger-se

de pancadas.

Frequência\

Procurar manter um

bom condicionamento

físico e saber dosar

a força física.

Nem se arrisque \

A prática de futebol

não é aconselhável

para aqueles que tem

alguma patologia

que contra-indique

como uma artrose

no joelho ou entorse

no tornozelo que não

foi bem tratada

\\ Fonte : Josias Ribeiro,

57, médico ortopedista

e desportista.


# crônica \\ diniz giuseppi

Bonde

do terror

Espaço não há, mas

ela ameaça quebrar o

barraco se não entrar no

bonde. Os funkeiros se

arrocham, se apertam

e se amassam. Só não

posso mudar de ritmo!

Começa a grande

passagem. Se Moisés

abriu o Mar Vermelho,

porque a nossa Tati não

pode abrir caminho.

\\diniz giuseppi

Pode até parecer funk o que agora vou

contar. Acontece todo dia com quem

precisa trabalhar. Corre-corre, empurraempurra.

O primeiro vai ganhar!!!

Vou soltar o pancadão! Seis horas da

manhã. O sol acaba de levantar e junto com

ele, Maria, José, Francisco e eu. Todos se

apressam. A aflição é contínua, pois quem

perder um minuto pode ter que sofrer

horas no corredor da morte. O relógio não

pára e cada batimento cardíaco, você pode

ser um perdedor. Toda essa aflição acontece

diariamente. O que todos têm em comum

comigo? A busca pelo “Bonde do Terror”.

Seis e meia. É grande o aglomerado de

pessoas atentas aos movimentos à frente.

Suor, sono, frio, medo e um olhar cauteloso.

Ele pode surgir a qualquer momento.

São tantos, mas o meu é aquele mais

visado. Vinte minutos depois, o número de

pessoas parece ter dobrado. Alguém grita:

Já vem! A revolta levanta-se em armas

e precipitadamente se preparam para a

grande batalha.

O Bonde vem aí! O pior de tudo é que

dentro do bonde tem menos funkeiros do

que fora. Ele pára e começa a confusão. É

trenzinho, fila dupla, uns sozinhos outros

acompanhados. Aqui MC e Popozuda

disputam o mesmo espaço. Quem rebolar

pode perder o lugar. Ninguém se arrisca.

A catraca gira e mais quinze precisam

passar. Pisão, cotovelada, apertões, cheiros

desagradáveis. Quem mandou gostar do

bonde?

Gostar nem todos gostam. A necessidade

é tanta, que eu mesmo com medo, passo

cerol na mão e me espremo para entrar

ao som de uma melodia infernal: Quero

passar, quero passar. Seu João chega

pra lá. A respiração agora é mínima,

mal tenho onde me segurar para não

perder o equilíbrio. O bonde começa a se

movimentar e na entrada dele, alguns

se penduram, pois perdê-lo seria uma

tragédia. Apesar do risco!

São sete horas. Eu em meio a tantas

pessoas, sou apenas um corpo que parece

ocupar um lugar com mais alguém. A lei

da física parece estar errada. O CD muda

de faixa e ao longe eu avisto. Na segunda

parada, tem alguém que quer subir. Olho

admirado! Meu Deus o que é aquilo?! Uma

tigrona, de uns noventa quilos ameaça o

baile, pois ela de qualquer forma quer ficar

no meio do salão.

16 subescrito # verão 2006

Espaço não há, mas ela ameaça quebrar

o barraco se não entrar no bonde. Os

funkeiros se arrocham, se apertam e se

amassam. Só não posso mudar de ritmo!

Começa a grande passagem. Se Moisés

abriu o Mar Vermelho, porque a nossa

Tati não pode abrir caminho. A música

agora, parece engraçada, mas quando ela

passa por mim não resisto, após um pisão

daqueles...

Eu tô ficando atoladinho, atoladinho!

Ela passa e ao meu lado fica com os braços

levantados. Será nova coreografia? Não.

Ela quer se segurar para não me machucar

no pancadão. O bonde segue e eu no meu

pequeno espaço sou obrigado e ficar de

cara com sua axila. Agora que já são sete e

meia, eu acho que consigo fazer um estudo

sobre a região debaixo do braço da trigona.

Ela deve usar um desodorante de

marca desconhecida, porque ele começa

a escorrer pelas costelas da senhorita. É

melhor eu deixar os detalhes sórdidos.

O bonde agora deve ter uma centena

de bailarinos, patricinhas, DJ’s, Mc’s,

popozudas e cachorras. A parada está

quente! Mas tem gente para descer. A cada

novo ponto, o sofrimento vem e o que me

consola é que faço parte de mais de dois

milhões de pessoas que todo mês passa por

isto. Danço, mas danço acompanhado!

Chega a minha vez de descer. Lá vou

eu, lá vou eu na maior felicidade! Agora

não é hora de cantar. Com licença, com

licença, por favor! Acho que mesmo se

me escutam, nada podem fazer. Por estas

horas, a Tati que quase quebrou o barraco

já está sentada segurando os pertences dos

funkeiros. Eu vou na dança da motinha e

consigo chegar à saída, mas quase vou ao

chão, chão, chão.

De fora vejo o baile que acabo de deixar.

E tem gente ainda querendo subir. E olha

que nem é festa de camisa, no máximo tem

uma casadinha ou outra. Mas, todo mundo

está lá firme e forte! Apesar de não viver no

Rio de Janeiro, o funk é a melhor trilha para

quem, como eu, precisa do bonde do terror

para sobreviver.

Sair da favela e ir ao Centro. Só mesmo ao

som do pancadão para chegar ao destino!

Aja fôlego! Fui!!!

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