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QUANDO A MÁSCARA ESCONDE UMA MULHER<br />

<strong>Miguel</strong> <strong>Vale</strong> <strong>de</strong> <strong>Almeida</strong><br />

Em 1983 escrevi a minha tese <strong>de</strong> licenciatura em Antropologia sobre as Festas dos<br />

Rapazes e <strong>de</strong> Santo Estêvão em Trás-os-Montes 1 . Além da i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> todas as<br />

festas então existentes ou registadas na bibliografia etnográfica e <strong>de</strong> uma tipologia das<br />

mesmas, o trabalho incluía um estudo <strong>de</strong> caso sobre a al<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> Babe (concelho <strong>de</strong><br />

Bragança).<br />

Estas festas são caracterizadas por um conjunto <strong>de</strong> factores que lhes conferem<br />

uma relativa unida<strong>de</strong> tipológica. Em primeiro lugar, o factor regional: as festas ocorrem<br />

(e ocorriam, tanto quanto as fontes permitem inferir) na região transmontana e, com<br />

maior incidência, na <strong>de</strong>signada “Terra Fria” 2 . Em segundo lugar, o factor do calendário:<br />

trata-se <strong>de</strong> celebrações que ocorrem entre o Dia <strong>de</strong> Todos-os-Santos e o Dia <strong>de</strong> Reis,<br />

correspon<strong>de</strong>ndo assim ao que se convencionou chamar o “Ciclo <strong>de</strong> Inverno” ou “Ciclo<br />

dos Mortos” no calendário da religiosida<strong>de</strong> popular católica. Em terceiro lugar, temos o<br />

factor estatutário dos actores principais das festas. Aqui, três níveis <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> social<br />

são prementes: a ida<strong>de</strong>, o estado civil e o género. Do ponto <strong>de</strong> vista emic (das<br />

representações locais), trata-se, na maior parte dos casos, <strong>de</strong> festas <strong>de</strong> rapazes, estando<br />

implícito nesta <strong>de</strong>signação o estatuto <strong>de</strong> solteiro (o qual po<strong>de</strong> mesmo sobrepor-se ao<br />

estatuto etário, pois um homem não casado po<strong>de</strong>, por esse facto, ser incluído naquela<br />

categoria). Em quarto lugar, trata-se <strong>de</strong> festas caracterizadas, em todos os casos, pela<br />

criação <strong>de</strong> um grupo social temporário (restrito à duração da festa), o qual se rege pelas<br />

suas próprias regras, elegendo alguns dos seus membros para cargos restritos ao tempo<br />

ritual (“reis”, “mordomos”, etc.). Finalmente, do ponto <strong>de</strong> vista da performance e da<br />

sequência rituais, encontram-se características comuns: o uso <strong>de</strong> indumentária<br />

específica da festa (<strong>de</strong>s<strong>de</strong> o uso da máscara até coroas ou símbolos <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r dos<br />

cargos); formas <strong>de</strong> crítica social com base em literatura oral (“loas”, “colóquios” etc);<br />

formas <strong>de</strong> comportamento transgressor ou <strong>de</strong> tipo carnavalesco (perseguições, violência<br />

mais ou menos ritualizada); formas <strong>de</strong> reciprocida<strong>de</strong> negativa (<strong>de</strong>s<strong>de</strong> o roubo ritualizado<br />

1 VALE DE ALMEIDA, <strong>Miguel</strong>, 1983, “Viva a Nossa Justiça, Viva Tudo em Geral”: Festas dos<br />

Rapazes e <strong>de</strong> Santo Estêvão, Policopiado, Faculda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Sociais e Humanas, Universida<strong>de</strong> Nova<br />

<strong>de</strong> Lisboa.<br />

2 Designação não oficial dos concelhos DO Norte e Nor<strong>de</strong>ste do Distrito <strong>de</strong> Bragança, fora da influência<br />

climatológica amenizante do Rio Douro.<br />

2

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