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paradoxalmente, a naturaliza. Por isso seria lícito pensar que qualquer alteração no<br />

papel jogado pelas mulheres abalaria a or<strong>de</strong>m do género. Todavia, essa alteração, ao<br />

verificar-se, recentemente, no género <strong>de</strong> quem enverga as máscaras, <strong>de</strong>ixa ainda essa<br />

alteração no domínio do extra-social (representado pelos mascarados), do absolutamente<br />

temporário, restrito à festa e não visível.<br />

Por outro lado, a máscara será talvez o símbolo por excelência <strong>de</strong> uma<br />

originalida<strong>de</strong> cultural regional e local, o símbolo chave que permite organizar um<br />

processo <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> produtos culturais locais através da folclorização. A festa<br />

passaria a discursar não sobre a estrutura social local, suas inversão ou transgressão e<br />

subsequente reposição da or<strong>de</strong>m, mas sim sobre uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> local que subsume as<br />

diferenças e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s internas – <strong>de</strong> classe, ida<strong>de</strong> ou género. A “i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> local”,<br />

parte <strong>de</strong> uma concepção pós-mo<strong>de</strong>rna <strong>de</strong> <strong>de</strong>smultiplicação das diferenças, necessita da<br />

ilusão <strong>de</strong> continuida<strong>de</strong> das formas pré-mo<strong>de</strong>rnas, mesmo que folclorizadas. Nesse<br />

processo, tanto faz quem é o actor que enverga a máscara. Mas a mudança na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong><br />

género é potenciada se a gestão do recurso simbólico da i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> local folclorizada<br />

for acessível, também, às mulheres.<br />

Mas é justamente a “invisibilida<strong>de</strong>” do género <strong>de</strong> quem enverga a máscara que po<strong>de</strong><br />

criar um “problema <strong>de</strong> género”, pois a função e o papel são cumpridos por corpos sem<br />

género. Se enten<strong>de</strong>rmos o género como o resultado <strong>de</strong> performances repetidas e<br />

habituais que criam corpos e pessoas codificados como “masculinos” e “femininos” e<br />

não como essências biológicas, perceberemos o potencial perturbador do vestir uma<br />

máscara que oculta esse código.<br />

Judith Butler 6 elabora o argumento <strong>de</strong> Foucault acerca das operações do po<strong>de</strong>r e<br />

da resistência <strong>de</strong> modo a <strong>de</strong>monstrar os modos como as i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s marginalizadas são<br />

cúmplices dos regimes i<strong>de</strong>ntificatórios que procuram contrariar 7 . Butler argumenta que<br />

o feminismo – por exemplo - trabalha contra os seus próprios propósitos explícitos ao<br />

tomar a “mulher” como categoria fundacional. Isto porque o termo “mulher” não<br />

significa uma unida<strong>de</strong> natural mas sim uma ficção regulatória, cuja utilização reproduz,<br />

6<br />

Butler, Judith, 1990, Gen<strong>de</strong>r Trouble: Feminism and the Subversion of I<strong>de</strong>ntity , Nova Iorque:<br />

Routledge.<br />

7<br />

Talvez o exemplo mais clássico disto seja a forma como os movimentos <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa dos direitos dos<br />

homossexuais propugnam uma revolução sexual que anule as dicotomias masculino-feminino e<br />

heterossexual-homossexual, ao mesmo tempo que se sentem na necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> construir uma cultura e<br />

um espírito <strong>de</strong> corpo especificamente homossexuais como forma <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong><br />

politicamente mobilizadora e actuante contra o estatuto subalterno dos homossexuais, reproduzindo<br />

assim, inadvertidamente, as dicotomias que criticam.<br />

9

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