Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em ... - PrP - UEG.
Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em ... - PrP - UEG.
Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em ... - PrP - UEG.
Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!
Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
<strong>Entre</strong> <strong>dois</strong> <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong>: <strong>arcaísmo</strong> e <strong>modernidade</strong><br />
<strong>em</strong> Turbilhão, de Coelho Netto<br />
Rafael Ferreira Campos Mendes (Bolsista PIBIC/<strong>UEG</strong>)<br />
Ewerton de Freitas Ignácio (pesquisador-líder)<br />
<strong>UEG</strong> – Universidade Estadual de Goiás, CEP. 75110-390, Brasil<br />
ewertondefreitas@uol.com.br e rafael5880@hotmail.com<br />
Palavras-chave: literatura brasileira; experiência urbana; <strong>modernidade</strong>.<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
Este trabalho apresenta dados conclusivos a respeito do Projeto de<br />
Pesquisa intitulado “<strong>Entre</strong> <strong>dois</strong> <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong>: <strong>arcaísmo</strong> e <strong>modernidade</strong> <strong>em</strong><br />
Turbilhão, de Coelho Netto”, cujo objetivo era o de analisar as maneiras por meio<br />
das quais se efetivam as relações entre personagens de ficção e o contexto citadino<br />
no qual suas vivências se inser<strong>em</strong>.<br />
Henrique Maximiano Coelho Netto (1864-1934), maranhense de<br />
nascimento – nasceu <strong>em</strong> Caxias –, cresceu no Rio de Janeiro, cidade que retrata <strong>em</strong><br />
muitas de suas obras e <strong>em</strong> cujos espaços lutou ativamente <strong>em</strong> prol da abolição da<br />
escravatura, tendo sido, nesse aspecto, amigo íntimo de José do Patrocínio. Ao<br />
longo de 43 anos de produção literária, o autor de Rei negro escreveu mais de uma<br />
centena de, <strong>em</strong>bora muitos não tenham passado pelo crivo do t<strong>em</strong>po, ou seja, n<strong>em</strong><br />
todos se perpetuaram perante o gosto da crítica e do público leitor.<br />
A prosa de Coelho Netto apresenta características parnasianas, como a<br />
busca por um refinamento estilístico, uma busca por novos vocábulos – só a longos<br />
intervalos é que o autor usava a mesma palavra – e, também, um anseio pela<br />
adjetivação numerosa, rara e erudita. Nesse sentido, não é de admirar que críticos e<br />
autores vinculados ao Modernismo, estética que preconizava e valorizava a<br />
1
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
utilização de uma linguag<strong>em</strong> mais simples, mais direta, foss<strong>em</strong> reprovar o que, <strong>em</strong><br />
Coelho Netto, se constituía como sua prática mais comum.<br />
Esse gosto do autor por vocábulos raros explica, <strong>em</strong> parte, o ostracismo a<br />
que se encontra submetida grande parte de sua produção, uma vez que muitos<br />
leitores prefer<strong>em</strong> ler obras cuja linguag<strong>em</strong> seja mais direta, mais objetiva, mais<br />
simples e, justamente por isso, mais acessível. Interessante notar, nesse sentido, as<br />
transformações pelas quais passa, <strong>em</strong> relativo pouco t<strong>em</strong>po, o gosto do público, já<br />
que, <strong>em</strong> sua época, o autor de Turbilhão foi o escritor mais lido no Brasil.<br />
2 MATERIAL E MÉTODOS<br />
A partir do momento <strong>em</strong> que se deu a aprovação do projeto de pesquisa,<br />
as atividades circunstanciadas no “cronograma de execução” começaram,<br />
imediatamente, a ser desenvolvidas.<br />
Para tanto, fizeram-se necessárias algumas leituras teóricas por parte do<br />
bolsista do supracitado projeto, uma vez que se trata da análise de uma obra que não<br />
se valida s<strong>em</strong> o apoio de uma bibliografia teórica específica.<br />
Dessa forma, para a consecução dos objetivos da pesquisa, quais sejam<br />
analisar a maneira pela qual o espaço citadino dialoga com as personagens de<br />
Turbilhão, foi pensada e posteriormente aplicada a seguinte metodologia: leitura<br />
atenta da obra <strong>em</strong> análise, após o que se procedeu ao início da pesquisa<br />
bibliográfica, por meio de cuja execução foi possível ao orientando compreender e<br />
assimilar a corpus teórico da pesquisa.<br />
Concomitant<strong>em</strong>ente a essas tarefas, havia colóquios entre orientador e<br />
aluno bolsista, durante os quais promoviam-se discussões acerca da obra e<br />
explicações mais detalhadas sobre noções teóricas de maior complexidade e que<br />
porventura representass<strong>em</strong> maior dificuldade de assimilação por parte do já referido<br />
bolsista.<br />
Num segundo momento, deu-se a aplicação da teoria assimilada ao<br />
estudo da obra <strong>em</strong> análise. Ressalt<strong>em</strong>-se, nesse sentido, os seguintes autores,<br />
cujas obras serv<strong>em</strong> como <strong>em</strong>basamento teórico-crítico à análise do romance <strong>em</strong><br />
estudo: Osman Lins, com Lima Barreto e o espaço romancesco (1978) e a Antonio<br />
2
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
Dimas, com Espaço e romance (1997), obras que tratam da representação espacial<br />
de narrativas <strong>em</strong> prosa. Renato Cordeiro Gomes, com Todas as cidades, a cidade:<br />
literatura e experiência urbana (1994) e Fernando Cerisara Gil, com O romance da<br />
urbanização (1999), textos que versam sobre a questão da legibilidade do urbano<br />
por meio da leitura de textos ficcionais. Lewis Mumford, com A cidade na história<br />
(2004), Bárbara Freitag, com Cidade dos homens (2002) e Raquel Rolnik, com O<br />
que é cidade (1988), obras que versam tanto sobre a cidade como constructo<br />
histórico-social quanto <strong>em</strong> sua dinâmica socioeconômica e cultural, o que implica<br />
sua relação tanto com a literatura quanto com a cultura de um modo geral.<br />
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />
Como já se observou anteriormente, <strong>em</strong>bora Coelho Netto tenha sido o<br />
romancista mais lido do Brasil, à sua época, sua obra, no presente, praticamente<br />
caiu no ostracismo, uma vez que, com exceção de O rei negro e de A capital federal,<br />
pouco ou nada se ouve falar do escritor.<br />
Desse modo, há poucos estudos tanto sobre o autor quanto sobre sua<br />
obra, o que, se por um lado torna a pesquisa interessante, por outro faz com que o<br />
pesquisador resvale num tipo de vazio crítico sobre o autor de Tormenta, fato que,<br />
<strong>em</strong> alguns momentos, acaba por dificultar o estudo.<br />
A respeito de parte de sua produção romanesca, pode-se constatar que a<br />
trilogia A capital federal (1893), A conquista, (1899) e Fogo-fátuo (1929), b<strong>em</strong> como<br />
seus romances “avulsos” Mirag<strong>em</strong> (1895), Inverno <strong>em</strong> flor (1897), O morto (1898),<br />
Tormenta (1901) e Turbilhão (1906) representam, <strong>em</strong> conjunto, o essencial de sua<br />
ficção urbana, aspecto de sua produção que, diga-se, é menos explorado pela crítica<br />
do que sua ficção de moldes rurais, a ex<strong>em</strong>plo de O rei negro (1914).<br />
A ficção urbana do autor de A conquista é predominant<strong>em</strong>ente<br />
imaginativa – excetuando-se sua trilogia, escrita nos moldes de uma obra<br />
m<strong>em</strong>orialista e, por isso, baseando-se nas experiências do autor na condição de ser<br />
humano engajado na causa republicana e abolicionista, na imprensa carioca ou,<br />
mesmo, como hom<strong>em</strong> de letras que viveu no período compreendido pela Belle<br />
Époque.<br />
3
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
No que diz respeito ao enredo das obras de caráter mais imaginativo do<br />
que calcado nas experiências vividas pelo autor, percebe-se o fruto do trabalho de<br />
um observador do conjunto humano circundante nas ruas – principalmente a Rua do<br />
Ouvidor –, cafés, bares e teatros cariocas. Não raro, sua ficção também retrata<br />
cenas do cotidiano citadino, sejam cenas transcorridas nos bondes, centros de<br />
espiritismo, redações de jornais, casas de jogo, quintais de residências suburbanas.<br />
No conjunto, essa obra plasma, <strong>em</strong> mosaico, um amplo painel do conjunto urbano<br />
da, então à época, capital federal brasileira.<br />
A respeito de Turbilhão, nota-se que os fatos circunstanciados no enredo<br />
se constitu<strong>em</strong> como frutos do livre curso da imaginação do autor, mas o espaço <strong>em</strong><br />
que tais fatos se dão é um espaço tirado do plano da realidade e, nesse sentido,<br />
pode-se afirmar, também, que a obra resulta de uma observação <strong>em</strong>pírica do<br />
universo nela retratado. A verdade é que Coelho Neto, nesse romance, alude<br />
ficcionalmente às mudanças que se verificavam no modo de vida da população do<br />
Rio de Janeiro na primeira década do século XX.<br />
Turbilhão, a despeito do sucesso inicial, acabou por cair no ostracismo,<br />
podendo-se afirmar que ainda não foi redescoberto, n<strong>em</strong> mesmo com o advento de<br />
estudos recentes, voltados para a Teoria da linguag<strong>em</strong> e para o contexto do Pré-<br />
modernismo, desenvolvidos pelo setor de filologia da Fundação Casa de Rui<br />
Barbosa, já que tais estudos, a despeito do mérito de resgatar<strong>em</strong> obras que, na<br />
atualidade, encontram-se olvidadas, ainda não se debruçaram, até o presente<br />
momento, sobre esse romance de Coelho Netto.<br />
O fato de o conjunto da produção do autor ter caído no esquecimento,<br />
segundo Mary L. Daniel (1993), pode ser explicado pelo motivo de ter sido publicado<br />
pela Editora Lello, na cidade do Porto, <strong>em</strong> Portugal, o que teria dificultado o acesso<br />
à sua obra, pelo público leitor brasileiro, nas décadas seguintes à morte do autor,<br />
mesmo com a publicação da Obra seleta de Coelho Netto, <strong>em</strong> três volumes, pela<br />
Editora Aguilar, no ano de 1958.<br />
Esse fato v<strong>em</strong> justificar o recorte realizado neste estudo:<br />
resgatar/apontar/analisar uma obra romanesca que, a despeito de sua inegável<br />
qualidade, atualmente é ignorada pelo público leitor brasileiro e, também, por grande<br />
parte da crítica especializada.<br />
4
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
Sobre o enredo de Turbilhão, t<strong>em</strong>-se uma ação que está centrada na<br />
trajetória de Paulo, órfão de pai, estudante de medicina, de baixa condição<br />
financeira. Sendo, como já se afirmou, órfão de pai, e morando com a única irmã,<br />
Violante, e a mãe, D. Júlia, esta s<strong>em</strong>pre às voltas com achaques e doenças, o moço<br />
fica chocado, indignado logo no começo da narrativa, tão logo toma conhecimento<br />
do fato de que a irmã havia fugido de casa. Para os padrões morais e sociais da<br />
época, isso significava o fim da reputação de uma donzela, já que tal ato, s<strong>em</strong> uma<br />
imediata reparação – leia-se: casamento – faria com que a moça fujona ficasse<br />
relegada, fatalmente, à condição de uma meretriz.<br />
O rapaz, envergonhado, abandona os estudos, com o aparente propósito<br />
de não passar por situações vexatórias, promovidas pelo comportamento mordaz<br />
dos colegas de estudo. Como aparente decorrência do fato de ele dispensar muito<br />
t<strong>em</strong>po perseguindo prováveis pistas que denunciass<strong>em</strong> o paradeiro da irmã, ele<br />
também perde o <strong>em</strong>prego. Vê-se, então, numa condição de maior privação material,<br />
quando decide entregar-se às tentações e riscos do jogo.<br />
Nesse ínterim, sua mãe, cada vez mais doente, passa a penhorar suas<br />
antigas jóias – igualmente humildes, cujo valor é de cunho mais afetivo que<br />
financeiro – e a criada da casa, cujo filho havia morrido na Revolta da Vacina (1904),<br />
enlouquece –. Pelas filigranas do texto, percebe-se que o narrador atribui a causa da<br />
loucura da criada menos à perda do filho do que ao seu envolvimento <strong>em</strong> rituais<br />
espíritas, o que nos faz r<strong>em</strong>ontar ao preconceito religioso, mais fort<strong>em</strong>ente<br />
perceptível <strong>em</strong> períodos mais r<strong>em</strong>otos.<br />
No momento <strong>em</strong> que Paulo encontra a irmã no teatro, coberta de luxo,<br />
faiscante de magníficas jóias, acompanhada de uma senhora gorda, fica<br />
extr<strong>em</strong>amente irritado e t<strong>em</strong> ímpetos de agredi-la verbalmente, chamando-a de<br />
vagabunda e prostituta. Tal ímpeto, porém, cede espaço ao encantamento que a<br />
visão da irmã, antes humilde e trajada com simplicidade e, agora, vestida de luxo e<br />
faiscante de jóias de pedras preciosas, lhe desperta.<br />
No dia seguinte, conhece o palacete <strong>em</strong> que Violante, mantida por um<br />
rico e anônimo senhor, passara a morar depois de ter fugido de casa e de ter<br />
passado uma breve t<strong>em</strong>porada <strong>em</strong> Buenos Aires. Paulo não se dá conta, mas,<br />
implicitamente, pode-se notar que uma admiração pela audácia e corag<strong>em</strong> da irmã<br />
5
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
brota <strong>em</strong> seu peito, afinal ela teve a corag<strong>em</strong> de romper os laços com uma<br />
sociedade que, <strong>em</strong>bora muitas vezes hipócrita e que se deixa pautar sob a égide de<br />
relações superficiais, pré-estabelecia o comportamento dos indivíduos cujo<br />
comportamento era considerado correto, íntegro, direito.<br />
A mãe, no entanto, devota e moralmente rigorosa, não consegue<br />
assimilar da mesma forma o novo <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong> da filha e se prostra na cama,<br />
doente. Aliado a esse dissabor, soma-se o fato de que Paulo expulsara a criada<br />
enlouquecida de casa e colocara, no lugar, sua amásia, para que cuidasse da mãe<br />
enferma. Tais desgostos são d<strong>em</strong>ais para o coração da pobre senhora, que morre<br />
<strong>dois</strong> dias depois de ter reencontrado a filha.<br />
Pano de fundo para as ações das personagens é a cidade do Rio de<br />
Janeiro de meados do século XX, com suas ruelas e becos, com seus palacetes e<br />
cortiços: um espaço de miséria mas, igualmente, de possibilidades de ascensão<br />
socioeconômica, <strong>em</strong>bora com algumas ressalvas, já que, a depreender da narrativa,<br />
apenas mediante ações consideradas escusas e/ou imorais é que o indivíduo<br />
conseguiria ascender a uma melhor posição social e econômica, como é o caso de<br />
Violante, que enriquece às custas de sua prostituição.<br />
Acerca da constituição do espaço enquanto el<strong>em</strong>ento narrativo, percebe-<br />
se que, conforme um interessante estudo de Osman Lins (1976), há narrativas <strong>em</strong><br />
que o espaço se configura de modo impreciso e vago mas, mesmo assim, “intenta-<br />
se concentrar o interesse nas personagens ou nas motivações psicológicas que as<br />
enredam” (1976, p.65), o que justifica a imprecisão do espaço pela natureza<br />
int<strong>em</strong>poral, não-circunstancial da narrativa, uma vez que as relações entre espaço e<br />
personag<strong>em</strong> carec<strong>em</strong> de significado sócio-histórico.<br />
Osman Lins salienta, entretanto, que nas obras <strong>em</strong> que se nota esta<br />
ocorrência, pode haver maior profundidade literária do que naquelas <strong>em</strong> que a<br />
manifestação do espaço atua preponderant<strong>em</strong>ente, citando como ex<strong>em</strong>plo O<br />
Castelo, de Franz Kafka, <strong>em</strong> que “não se trata de um castelo ou de um verdadeiro<br />
domínio feudal, mas sim de uma grande simbologia. Imediatamente o próprio K.<br />
tomará conhecimento disso, integrando-se assim mesmo nessa totalidade mítica,<br />
pois é assim que o hom<strong>em</strong> pode situar-se face à realidade global”. (KOKOS, 1967,<br />
p. 107 apud LINS, 1976, p. 65).<br />
6
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
Nesse sentido, pode-se perceber, <strong>em</strong> Turbilhão, que os espaços<br />
retratados na obra não são assimilados de forma objetiva pelas personagens. Muito<br />
pelo contrário: o contato entre personag<strong>em</strong> e espaço citadino circundante é s<strong>em</strong>pre<br />
permeado por uma visão, por parte das personagens, que busca s<strong>em</strong>pre relativizar<br />
as coisas ou, no limite, julgá-las de acordo os interesses particulares. Desse modo é<br />
que a mansão de Violante, claramente um tipo de prostíbulo – ainda que seja de<br />
apenas uma meretriz – é entrevisto como uma rica casa <strong>em</strong> que mora uma moça<br />
que, no máximo, é taxada de “vagabunda” (p. 152) 1 .<br />
Desse modo é que, até o momento <strong>em</strong> que não t<strong>em</strong> notícias da irmã,<br />
Paulo está extr<strong>em</strong>amente irritado com ela, mas, no momento <strong>em</strong> que a encontra e<br />
que se encaminha até a luxuosa casa <strong>em</strong> que ela está morando, seus sentimentos<br />
com relação tanto a ela quanto ao que ela havia feito acabam se transformando, e a<br />
raiva cede espaço ao respeito e à admiração por tudo quanto Violante “conquistara”:<br />
A casa, de aspecto nobre, com todas as janelas fechadas, ficava ao fundo<br />
de um jardim sombrio, de sinuosos caminhos areados de saibro escuro.<br />
Duas alvas figuras de mármore destacavam-se na sombra das ramagens<br />
[...] Duas cegonhas de bronze flanqueavam a otomana de damasco<br />
amarelo, vivamente ensangüentado a flores de púrpura. Pelas paredes,<br />
floridas a ouro, sobre aveludado fundo carmesim, acumulavam-se retratos,<br />
grandes quadros pendiam mostrando paisagens tristes – campos de trigo<br />
esfumados pelo crepúsculo e gados que recolhiam e uma gravura idílica <strong>em</strong><br />
que havia uma redouça, entre flores, unindo um jov<strong>em</strong> casal amoroso no<br />
mesmo balouço. O silêncio era absoluto como se tudo dormisse naquela<br />
casa. A criada apareceu com passos surdos, como uma sombra:<br />
- Pode subir. A senhora espera-o lá <strong>em</strong> cima.<br />
[...] Dirigiu-se para o suntuoso salão atapetado.<br />
O lustre cintilava a um raio de sol. O mobiliário era rico, adaptado à volúpia<br />
– moles divãs orientais sobre pelegos que formavam macia alfombra, de<br />
cores quentes; grandes almofadões de seda com borlas, fundas poltronas.<br />
Os consolos altos, esguios, com espelhos finos, eram todos dourados e<br />
rebrilhavam.<br />
Cortinas escuras t<strong>em</strong>peravam a luz, quebrando a violência do sol que<br />
entrava por quatro janelas abertas sobre balcões. Na mesa do centro,<br />
incrustada de marfim, dentro duma linda jarra de porcelana, morriam rosas.<br />
Aroma tépido e voluptuoso impregnava o recinto. Os rumores da rua<br />
chegavam abafados, ensurdecidos, como se viess<strong>em</strong> de muito longe<br />
(p. 118).<br />
Segundo Gisela Pankow, <strong>em</strong> O hom<strong>em</strong> e seu espaço vivido (1988), nenhum<br />
espaço é subjetivo. Nesse sentido, o que faz com que Paulo reverta o sentimento<br />
1 Todas as citações de Turbilhão, neste trabalho, referir-se-ão à edição feita pela Ediouro (s/d), e,<br />
para facilitar, indicar<strong>em</strong>os apenas o número da página ao fim da citação.<br />
7
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
que passa a nutrir pela irmã, após sua fuga, não é o fato de tê-la reencontrado, ou<br />
de saber que ela está b<strong>em</strong>, mas, sim, porque fica <strong>em</strong>basbacado ante a beleza e<br />
sofisticação da casa que ela agora possui.<br />
Note-se, ainda <strong>em</strong> relação à descrição da sala, que se trata de um<br />
ambiente cuja luz é filtrada pelas cortinas, cujos ruídos são abafados pelos tapetes,<br />
um espaço, por fim, “adaptado à volúpia”, ou seja, a uma casa de meretriz,<br />
corresponde esse espaço, carregado de seda, poltronas, divãs, com muito dourado,<br />
com muito brilho. Ressalte-se que a casa fica um tanto afastada da rua, uma vez<br />
que, para se chegar até à porta, t<strong>em</strong> que se atravessar o jardim que se passar por<br />
“sinuosos caminhos”. Essa expressão, aliás, parece metaforizar os caminhos das<br />
próprias vidas das personagens de Turbilhão, uma vez que não se trata, mais, de<br />
caminhos rígidos ou de atitudes previsíveis. Ao contrário: o que ditam os novos<br />
rumos dos destinos humanos são, cada vez mais, a força de vontade e a influência<br />
do capital.<br />
Na casa da irmã, Paulo fica tão deslumbrado com o luxo e o encanto do<br />
que vê que os sentimentos que sente por ela, por um breve momento, chegam a<br />
confundi-lo:<br />
Um perfume cálido errava no ar. Havia no silêncio um quê de sedução, um<br />
convite misterioso: era o ambiente lascivo que sugeria e vergava ao amor.<br />
Paulo não se atrevia a avançar – olhava tolhido, perturbado, sentindo o<br />
prestígio inelutável da mulher, a influência poderosa da carne como se ali<br />
não estivesse a irmã, mas uma mercenária que o fosse arrastando, vencido,<br />
para o amor lúbrico que todo aquele interior aconchegado e discreto<br />
insinuava (p. 120).<br />
Desse modo, o rapaz que entrou, meio ressabiado, na casa de luxo <strong>em</strong><br />
que a irmã passou a morar, não é o mesmo que sai. O que entrou era receoso e<br />
ainda <strong>em</strong> dúvida quanto ao que sentia pela irmã – raiva? Curiosidade por seu novo<br />
modo de vida? – mas o que saiu tinha certeza do que sentia: admiração, já que<br />
havia sido “comprado” pelo brilho de tudo quanto vira.<br />
Em outro momento, ao pensar no que a irmã fez,<br />
Pensou <strong>em</strong> Violante com simpatia. Afinal, que podia ela esperar?<br />
Pobre, casando não passaria da vida insípida que levam todas as mulheres,<br />
na monotonia enfadonha dos afazeres domésticos, mal-amanhada,<br />
8
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
envelhecendo, mortificando-se no trabalho insano, arrastando a<br />
fecundidade penosa, s<strong>em</strong>pre rodeada de filhos, talvez brutalizada pelo<br />
marido, sofrendo privações entre as quatro paredes de uma casa.<br />
Assim, não – era livre, tinha todo o gozo, podia saciar-se à larga, s<strong>em</strong><br />
preocupar-se com a sociedade com a qual rompera abertamente (p. 116).<br />
E quanto às descrições dos espaços citadinos e as relações que se<br />
pod<strong>em</strong> estabelecer entre eles e as personagens do romance?<br />
Cumpre, antes, discorrermos um pouco acerca da cidade enquanto<br />
realidade histórica. As primeiras cidades (MUMFORD, 2004) surgiram na<br />
Mesopotâmia, <strong>em</strong> torno de 3500 a.C., aquelas pelas quais os homens abandonaram<br />
seu modo de vida nômade, espacialmente errante. Nesse período, o domínio da<br />
técnica do tijolo cozido (matéria-prima utilizada na construção das cidades)<br />
correspondeu a uma verdadeira reviravolta na vida das pessoas, na medida <strong>em</strong> que<br />
possibilitou uma nova maneira de pensar o habitat.<br />
Tijolos e mais tijolos justapostos: a grande construção, erigida por meio<br />
de milhares de tijolos, marcou a constituição de uma nova relação entre hom<strong>em</strong> e<br />
natureza, na medida <strong>em</strong> que houve o surgimento de uma nova forma de ocupação<br />
do o espaço natural, b<strong>em</strong> como de sua transformação, uma vez que o produto do<br />
trabalho do el<strong>em</strong>ento humano passou a vigorar num cenário <strong>em</strong> que, antes, o<br />
natural figurava como paisag<strong>em</strong> única.<br />
Para Raquel Rolnik (2004), a cidade, na atualidade, exerce cada vez mais<br />
influência sobre o campo, na medida <strong>em</strong> que há, como decorrência das conquistas<br />
da modernização, um tipo de “urbanização” (p. 20) na mente dos habitantes de<br />
áreas rurais. Nesse sentido, há, s<strong>em</strong>pre <strong>em</strong> menor proporção, espaços verdes,<br />
naturais: a natureza cede espaço, desse modo, às construções de asfalto e concreto<br />
da grande cidade.<br />
Em relação à representação ficcional da cidade <strong>em</strong> textos literários<br />
brasileiros, pode-se constatar que, desde o advento do Romantismo, o universo<br />
citadino t<strong>em</strong> figurado, de modos diversos, no contexto da nossa literatura. Desse<br />
modo é que, no período romântico, com a tomada de consciência de nossa<br />
nacionalidade, houve a configuração de uma preocupação t<strong>em</strong>ática no sentido de<br />
valorizar a terra, a paisag<strong>em</strong> e o hom<strong>em</strong> que a habitava, o que condicionou e<br />
9
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
justificou o surgimento de narrativas que retratavam tanto cenários campestres<br />
quanto cenários caracteristicamente urbanos.<br />
Partindo desse pressuposto, segundo o qual as bases da ficção brasileira<br />
se consolidaram como uma resposta a uma busca de expressão nacional<br />
(CANDIDO, 2002), com o advento da modernização e o conseqüente acentuar do<br />
processo de urbanização e seus efeitos, houve, por parte dos romancistas, uma<br />
preocupação mais voltada para o retrato das mazelas sociais, foss<strong>em</strong> num contexto<br />
citadino, como nos d<strong>em</strong>onstra a prosa de Lima Barreto, foss<strong>em</strong> num cenário rural,<br />
como nos atesta parte da produção de Monteiro Lobato.<br />
Desse modo, desde o período que se convencionou denominar de “pré-<br />
modernismo”, a cidade t<strong>em</strong> sido descrita, literariamente, <strong>em</strong> todas as suas<br />
peculiaridades, seja pela prosa, seja pelas formas po<strong>em</strong>áticas da literatura brasileira.<br />
Referindo-se aos romances que têm a cidade como palco das ações<br />
circunstanciadas <strong>em</strong> seus enredos, Renato Cordeiro Gomes, <strong>em</strong> Todas as cidades,<br />
a cidade, afirma que os livros que realizam uma leitura do urbano plasmam um “livro<br />
de registro da cidade”, amplo livro que é um verdadeiro “labirinto: um texto que<br />
r<strong>em</strong>ete a outro, que por sua vez conduz a um terceiro, e assim sucessivamente”<br />
(1994, p. 24).<br />
Haveria, nessa diversidade textual acerca do urbano, tanto textos que se<br />
refer<strong>em</strong> a uma cidade repleta de significados positivos, quanto obras que apontam<br />
para a carência de finalidade de um cenário citadino cuja configuração, labiríntica e<br />
impessoal, espelha a desorientação a que submete seus habitantes, na medida <strong>em</strong><br />
que nada mais parece haver entre as personagens e o contexto urbano que as<br />
rodeia, a não ser a babélica estupefação de um universo citadino fechado <strong>em</strong> si<br />
mesmo.<br />
Para Roland Barthes (1987), a cidade pode ser entendida como texto,<br />
como fonte de leitura. Nesse sentido é que tece considerações que vislumbram a<br />
cidade por um prisma que a considera exclusivamente significante, e destituída,<br />
portanto, de uma distribuição funcional da sua trama urbana. Desse modo, a cidade<br />
é percebida não <strong>em</strong> suas peculiaridades geográfico-espaciais, mas, sobretudo,<br />
como um discurso, que fala e se faz entender aos seus habitantes.<br />
10
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
Considerando as idéias do teórico francês, pode-se afirmar que alguns<br />
modernistas brasileiros – como Mário de Andrade, Pagú, Oswald de Andrade, dentre<br />
outros – realizaram uma “leitura” do contexto urbano de São Paulo, cujas<br />
transformações presenciaram in loco. Salvaguardadas as devidas proporções, essa<br />
mesma leitura do urbano, mas tendo a cidade do Rio de Janeiro como “texto”, foi<br />
realizada por Lima Barreto, João do Rio e, <strong>em</strong> sua vasta produção romanesca,<br />
também por Coelho Neto. Tanto no contexto paulista quanto no carioca, esses<br />
escritores escrev<strong>em</strong>/inscrev<strong>em</strong>, <strong>em</strong> suas obras, histórias ficcionais que registram as<br />
aceleradas transformações, de ord<strong>em</strong> social, econômica e cultural, pelas quais<br />
passam a cidade.<br />
E quanto ao espaço narrativo, entendido <strong>em</strong> termos teóricos e<br />
conceituais? Ou, dito de outro modo, como entender a representação espacial numa<br />
dada narrativa? Tratando justamente desses aspectos, o teórico russo Boris<br />
Tomachevski, num estudo publicado pela primeira vez <strong>em</strong> 1925, afirma que há<br />
motivos livres e motivos associados vinculados á noção de fabula e trama. Conforme<br />
o crítico formalista, “dá-se o nome de fábula a um conjunto de acontecimentos<br />
ligados entre si e que nos são comunicados no decorrer da obra”. (1965, p.34). Isto<br />
é, fábula é aquilo que se conta, ao passo que a trama, sendo uma construção<br />
totalmente artística e individual, é o modo mediante o qual se narra uma<br />
determinada história. À primeira correspond<strong>em</strong> os acontecimentos que formam o<br />
enredo, e a segunda o modo de sua aparição, a disposição que lhes deu o autor no<br />
processo de montag<strong>em</strong> de sua história. Por motivo associado, Tomachevski entende<br />
aqueles que, se excluídos da narrativa, compromet<strong>em</strong> seus nexos de causa e efeito.<br />
Antonio Dimas ex<strong>em</strong>plifica essa concorrência citando que, no romance A<br />
escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, não se poderia omitir o fato de que a<br />
escrava fugitiva possuía “acima do seio direito um sinal de queimadura, mui<br />
s<strong>em</strong>elhante a uma asa de borboleta” (1987, p.34), visto que é justamente devido a<br />
esse ferrete que Isaura será reconhecida <strong>em</strong> um baile <strong>em</strong> Recife e, posteriormente,<br />
conduzida de volta ao Rio de Janeiro.<br />
O motivo livre, ao contrário do motivo associado, pode ser descartado,<br />
uma vez que sua eliminação não põe <strong>em</strong> risco a organicidade global da fábula,<br />
<strong>em</strong>bora possa desestruturar a trama. São importantes na medida <strong>em</strong> que constitu<strong>em</strong><br />
11
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
reforços marginais cujo objeto central é o de caracterizar uma determinada ação: se<br />
diurna, noturna, calma, frenética, etc., e também as personagens: seu físico, manias,<br />
gestos, aptidões, caráter etc.<br />
Vinculados aos motivos narrativos, estão as motivações narrativas, que<br />
pod<strong>em</strong> ser homólogas ou heterólogas e que ocorr<strong>em</strong> toda vez que se puder<br />
relacionar a descrição do espaço narrativo aos estados de ânimo das personagens.<br />
Desse modo, se o protagonista está alegre <strong>em</strong> meio a um local <strong>em</strong> que se realiza<br />
um velório, essa sua alegria funciona como uma “motivação caracterizadora<br />
heteróloga”, já que há uma oposição entre <strong>dois</strong> estados (alegria e tristeza). Se, ao<br />
contrário, o protagonista se encontra triste, nesse mesmo local <strong>em</strong> que se realiza um<br />
velório, t<strong>em</strong>os um ex<strong>em</strong>plo de “motivação caracterizadora homóloga”, visto que há<br />
uma convergência de um estado <strong>em</strong> relação a <strong>dois</strong> seres (espaço e personag<strong>em</strong>).<br />
Desse modo é que, logo no início da história narrada nas páginas de<br />
Turbilhão, na manhã seguinte à noite <strong>em</strong> que Violante foge de casa, Paulo sai de<br />
casa <strong>em</strong> busca da irmã. Nesse trecho da obra, o leitor depara-se com a seguinte<br />
descrição do cenário urbano:<br />
A cidade, depois da noite de chuva, muito arejada e lavada, tinha um<br />
aspecto asseado e agradável. O sol tépido brilhava num puro azul e, pelos<br />
telhados vermelhos do casario, aqui, ali, clarabóias dardejavam ofuscantes.<br />
Um realejo melancólico resmoneava ao longe [...].<br />
Os montes, muito azuis, tinham uma nova alegria. A Tijuca, desanuviada,<br />
cravava o seu cimo no céu; e o parque <strong>em</strong> frente, denso, denso e verde,<br />
parecia de um arvoredo tenro: lisa era toda a folhag<strong>em</strong>, como nascida<br />
naquela manhã; a grama verdejava viçosa, como se por ali houvesse<br />
andado a primavera mondando as plantas, recolhendo versas e ramalho<br />
para mostrar, <strong>em</strong> todo o esplendor da beleza, a sua residência mais amada<br />
(p. 31).<br />
Paulo segue <strong>em</strong> desespero, elucubrando as possibilidades do que<br />
poderia ter acontecido à irmã. Na pior das hipóteses, imagina-a deflorada por algum<br />
hom<strong>em</strong> s<strong>em</strong> escrúpulos e depois abandonada à própria sorte. Nesse misto de<br />
sentimentos contraditórios e sufocantes – odeia e sente a falta dela – é que entrevê<br />
a configuração de um dia claro, ensolarado, <strong>em</strong> que o verde parece ser mais verde<br />
do que já é: um dia bonito e alheio ao desespero do protagonista. T<strong>em</strong>os, nos<br />
termos de Tomachévski, um ex<strong>em</strong>plo de motivação caracterizadora heteróloga, já<br />
12
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
que, à tristeza e desespero de Paulo, contrapõe-se uma cidade ensolarada, alegre,<br />
bela.<br />
Mais adiante, ele nota que<br />
Passarinhos cantavam <strong>em</strong> ramos, iam dum a outro, perseguindo-se; uniamse<br />
no ar como trocando beijos e lá iam, de novo, juntos, d’asas fr<strong>em</strong>entes,<br />
metiam-se num meandro folhudo, onde, por certo, tinham o ninho<br />
agasalhado. Folhas caiam girogirando, flores murchas manchavam a relva,<br />
amareleciam ou ensangüentavam as alamedas (p. 32).<br />
Novamente, o protagonista vislumbra uma paisag<strong>em</strong> citadina que, de tão<br />
ligada à natureza, chega a parecer bucólica. Que cidade é essa de que só se<br />
enxerga o lado agradável? Acreditamos que essa forma de se descrever o lado<br />
“paradisíaco” da cidade cumpre a função de agravar ainda mais o estado de ânimo<br />
do referido protagonista, já que ele acaba por, fatalmente, contrapor seu estado<br />
entristecido e desanimado à alegria da paisag<strong>em</strong> que o circunda, de modo a sentir-<br />
se ainda mais vilipendiado pela irmã, ainda mais macambúzio com os rumos que,<br />
literalmente da noite para o dia, sua vida passa a tomar.<br />
E assim ocorre <strong>em</strong> outras passagens: o Rio de Janeiro descrito <strong>em</strong><br />
Turbilhão, apesar de ser uma cidade-palco de misérias e desigualdades sociais e<br />
econômicas, é pintado com tintas vivas, fortes e alegres, como se a paisag<strong>em</strong><br />
natural se sobrepusesse – como de fato se sobrepõe – aos dil<strong>em</strong>as pessoais e aos<br />
probl<strong>em</strong>as, sejam individuais, sejam coletivos, o que, de certa forma, acaba por<br />
denotar um certo tipo de indiferença, seja das pessoas com relação aos probl<strong>em</strong>as<br />
das outras, seja delas com relação ao que a sociedade espera do indivíduo.<br />
Nesse sentido, não é gratuito o fato de que as personagens s<strong>em</strong>pre ag<strong>em</strong><br />
<strong>em</strong> favor de si mesmas, passando por cima de tudo quanto lhes fique à frente:<br />
Ritinha trai o companheiro com um hom<strong>em</strong> que julga melhor; Violante rompe com os<br />
padrões sociais e morais <strong>em</strong> nome do dinheiro, prostituindo-se e acumulando capital<br />
enquanto é nova e bonita; Paulo trai a confiança do amigo Mamede tomando-lhe a<br />
mulher, Ritinha, e assim por diante.<br />
13
4 CONCLUSÕES<br />
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
Interessante notar que o enredo de Turbilhão frustra, <strong>em</strong> certo sentido,<br />
as expectativas do leitor que espera ver, no romance, a transposição do que, na<br />
maioria dos casos, ocorre com as moças que, àquele t<strong>em</strong>po, resolviam traçar os<br />
rumos do seu destino fora da rotina do casamento ou da vida religiosa.<br />
Nesse sentido, até certo ponto, Violante, na medida <strong>em</strong> que é<br />
caracterizada como uma moça bela e tola, sonhadora, que passava os dias<br />
sorridente, debruçada à janela, configura-se, aparent<strong>em</strong>ente, como uma moça que<br />
se dará mal após ter fugido com um hom<strong>em</strong>, pois seria desvirginada e perderia,<br />
assim, a honra e o respeito. Engano: ela não fugira por amor, mas por um desejo de<br />
ascensão socioeconômica e por uma sede de liberdade, de ser dona de seu destino,<br />
mesmo que a contrapartida disso fosse a perda de sua suposta honra.<br />
Outro ponto interessante é que Paulo, ao ver a irmã envolta <strong>em</strong> luxo e<br />
riqueza, prontamente deixa de julgar a atitude dela como inerente a de moças s<strong>em</strong><br />
juízo: ela passa a representar o modelo de audácia e corag<strong>em</strong> de que ele mesmo se<br />
julgava incapaz. Além do que, algum dos figurões com qu<strong>em</strong> ela mantinha contato<br />
poderia, mesmo, “arranjar-lhe alguma colocação...” (p. 102).<br />
Talvez, se tivesse sido publicado c<strong>em</strong> anos antes, o enredo do romance<br />
poderia ser taxado de inverossímil. Mas, no Rio de Janeiro de meados do século XX,<br />
uma cidade que vivia a Belle Époque e que começava a se modernizar <strong>em</strong> ritmo<br />
acelerado, já é perfeitamente cabível que uma moça, mesmo às custas da “honra”<br />
de seu nome, possa traçar, por si mesma, os rumos de sua vida.<br />
A respeito das transformações que a capital fluminense – e, à época,<br />
capital do país – passava, José G. V. de Moraes, <strong>em</strong> seu Cidade e cultura urbana na<br />
primeira república (1994), registra aspectos responsáveis pelas mudanças inerentes<br />
ao modo de vida dos habitantes das cidades, quais sejam as transformações<br />
modernizadoras pelas quais os aglomerados urbanos passavam. O autor afirma que<br />
não só o espaço físico se transformava, mas também a mentalidade, os modos de<br />
agir e as concepções morais.<br />
Desse modo, as personagens de Turbilhão plasmam, se não uma<br />
reabilitação, ao menos um novo olhar sobre o que é considerado como mundanismo<br />
14
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
e amoralismo numa sociedade que, <strong>em</strong>bora cada vez mais afeita aos contornos de<br />
um <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong> cosmopolita, afinado com a <strong>modernidade</strong>, ainda se deixa marcar<br />
por estruturas arcaicas, típicas de uma civilização de molde e extração patriarcais e<br />
conservadores, controlada por uma oligarquia baseada na economia rural.<br />
Nesse sentido, as personagens do romance são modernas e<br />
individualistas, mas conviv<strong>em</strong> numa sociedade que, mesmo <strong>em</strong> transformação,<br />
ainda é controlada por códigos de honra e de boa conduta – principalmente para as<br />
mulheres –, uma vez que toda sociedade de cunho patriarcal s<strong>em</strong>pre cobra mais das<br />
mulheres do que dos homens.<br />
De um ou de outro modo, as personagens de Turbilhão, vivendo um<br />
verdadeiro turbilhão de transformações, são egocêntricas e fortes: ousam romper<br />
códigos, ousam ser o que realmente quer<strong>em</strong> ser. E nisso também reside a<br />
grandiosidade desse romance.<br />
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS<br />
BARTHES, Roland. A aventura s<strong>em</strong>iológica. Trad. Maria de Santa Cruz. Lisboa: Edições<br />
70, 1987.<br />
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. Trad. Diogo Mainard. 2. ed. São Paulo: Companhia<br />
das Letras, 1990.<br />
CANDIDO, Antonio. O romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas, 2002.<br />
DIMAS, Antonio. Espaço e romance. 2. ed. São Paulo: Ática, 1978.<br />
FREITAG, Bárbara. Cidade dos homens. Rio de Janeiro: T<strong>em</strong>po Brasileiro, 2002.<br />
GIL, Fernando Cerisara. O romance da urbanização. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.<br />
GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio<br />
de Janeiro: Rocco, 1994.<br />
LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.<br />
MORAES, José G. V. de. Cidade e cultura urbana na primeira república. São Paulo:<br />
Atual, 1994.<br />
MUMFORD, Lewis. A cidade na história. Trad. Neil R. da Silva. 4. ed. São Paulo:<br />
Companhia das Letras, 2004.<br />
15
Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />
10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />
NETTO, Coelho. Turbilhão. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.<br />
PANKOW, Gisela. O hom<strong>em</strong> e seu espaço vivido: análises literárias. Campinas: Papirus,<br />
1988.<br />
ROLNIK, Raquel. O que é a cidade. São Paulo: Brasiliense, 1988.<br />
TOMACHEVSKI, B. et. Al. Teoria da literatura: formalistas russos. 4. Ed. Porto Alegre:<br />
Globo, 1978.<br />
_____ Th<strong>em</strong>atique. In TODOROV, T. (org) Théorie de La literature. Paris: Seuil. 1965.<br />
16