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Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em ... - PrP - UEG.

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Anais do VIII S<strong>em</strong>inário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação<br />

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS<br />

10 a 12 de nov<strong>em</strong>bro de 2010<br />

<strong>Entre</strong> <strong>dois</strong> <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong>: <strong>arcaísmo</strong> e <strong>modernidade</strong><br />

<strong>em</strong> Turbilhão, de Coelho Netto<br />

Rafael Ferreira Campos Mendes (Bolsista PIBIC/<strong>UEG</strong>)<br />

Ewerton de Freitas Ignácio (pesquisador-líder)<br />

<strong>UEG</strong> – Universidade Estadual de Goiás, CEP. 75110-390, Brasil<br />

ewertondefreitas@uol.com.br e rafael5880@hotmail.com<br />

Palavras-chave: literatura brasileira; experiência urbana; <strong>modernidade</strong>.<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

Este trabalho apresenta dados conclusivos a respeito do Projeto de<br />

Pesquisa intitulado “<strong>Entre</strong> <strong>dois</strong> <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong>: <strong>arcaísmo</strong> e <strong>modernidade</strong> <strong>em</strong><br />

Turbilhão, de Coelho Netto”, cujo objetivo era o de analisar as maneiras por meio<br />

das quais se efetivam as relações entre personagens de ficção e o contexto citadino<br />

no qual suas vivências se inser<strong>em</strong>.<br />

Henrique Maximiano Coelho Netto (1864-1934), maranhense de<br />

nascimento – nasceu <strong>em</strong> Caxias –, cresceu no Rio de Janeiro, cidade que retrata <strong>em</strong><br />

muitas de suas obras e <strong>em</strong> cujos espaços lutou ativamente <strong>em</strong> prol da abolição da<br />

escravatura, tendo sido, nesse aspecto, amigo íntimo de José do Patrocínio. Ao<br />

longo de 43 anos de produção literária, o autor de Rei negro escreveu mais de uma<br />

centena de, <strong>em</strong>bora muitos não tenham passado pelo crivo do t<strong>em</strong>po, ou seja, n<strong>em</strong><br />

todos se perpetuaram perante o gosto da crítica e do público leitor.<br />

A prosa de Coelho Netto apresenta características parnasianas, como a<br />

busca por um refinamento estilístico, uma busca por novos vocábulos – só a longos<br />

intervalos é que o autor usava a mesma palavra – e, também, um anseio pela<br />

adjetivação numerosa, rara e erudita. Nesse sentido, não é de admirar que críticos e<br />

autores vinculados ao Modernismo, estética que preconizava e valorizava a<br />

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utilização de uma linguag<strong>em</strong> mais simples, mais direta, foss<strong>em</strong> reprovar o que, <strong>em</strong><br />

Coelho Netto, se constituía como sua prática mais comum.<br />

Esse gosto do autor por vocábulos raros explica, <strong>em</strong> parte, o ostracismo a<br />

que se encontra submetida grande parte de sua produção, uma vez que muitos<br />

leitores prefer<strong>em</strong> ler obras cuja linguag<strong>em</strong> seja mais direta, mais objetiva, mais<br />

simples e, justamente por isso, mais acessível. Interessante notar, nesse sentido, as<br />

transformações pelas quais passa, <strong>em</strong> relativo pouco t<strong>em</strong>po, o gosto do público, já<br />

que, <strong>em</strong> sua época, o autor de Turbilhão foi o escritor mais lido no Brasil.<br />

2 MATERIAL E MÉTODOS<br />

A partir do momento <strong>em</strong> que se deu a aprovação do projeto de pesquisa,<br />

as atividades circunstanciadas no “cronograma de execução” começaram,<br />

imediatamente, a ser desenvolvidas.<br />

Para tanto, fizeram-se necessárias algumas leituras teóricas por parte do<br />

bolsista do supracitado projeto, uma vez que se trata da análise de uma obra que não<br />

se valida s<strong>em</strong> o apoio de uma bibliografia teórica específica.<br />

Dessa forma, para a consecução dos objetivos da pesquisa, quais sejam<br />

analisar a maneira pela qual o espaço citadino dialoga com as personagens de<br />

Turbilhão, foi pensada e posteriormente aplicada a seguinte metodologia: leitura<br />

atenta da obra <strong>em</strong> análise, após o que se procedeu ao início da pesquisa<br />

bibliográfica, por meio de cuja execução foi possível ao orientando compreender e<br />

assimilar a corpus teórico da pesquisa.<br />

Concomitant<strong>em</strong>ente a essas tarefas, havia colóquios entre orientador e<br />

aluno bolsista, durante os quais promoviam-se discussões acerca da obra e<br />

explicações mais detalhadas sobre noções teóricas de maior complexidade e que<br />

porventura representass<strong>em</strong> maior dificuldade de assimilação por parte do já referido<br />

bolsista.<br />

Num segundo momento, deu-se a aplicação da teoria assimilada ao<br />

estudo da obra <strong>em</strong> análise. Ressalt<strong>em</strong>-se, nesse sentido, os seguintes autores,<br />

cujas obras serv<strong>em</strong> como <strong>em</strong>basamento teórico-crítico à análise do romance <strong>em</strong><br />

estudo: Osman Lins, com Lima Barreto e o espaço romancesco (1978) e a Antonio<br />

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Dimas, com Espaço e romance (1997), obras que tratam da representação espacial<br />

de narrativas <strong>em</strong> prosa. Renato Cordeiro Gomes, com Todas as cidades, a cidade:<br />

literatura e experiência urbana (1994) e Fernando Cerisara Gil, com O romance da<br />

urbanização (1999), textos que versam sobre a questão da legibilidade do urbano<br />

por meio da leitura de textos ficcionais. Lewis Mumford, com A cidade na história<br />

(2004), Bárbara Freitag, com Cidade dos homens (2002) e Raquel Rolnik, com O<br />

que é cidade (1988), obras que versam tanto sobre a cidade como constructo<br />

histórico-social quanto <strong>em</strong> sua dinâmica socioeconômica e cultural, o que implica<br />

sua relação tanto com a literatura quanto com a cultura de um modo geral.<br />

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

Como já se observou anteriormente, <strong>em</strong>bora Coelho Netto tenha sido o<br />

romancista mais lido do Brasil, à sua época, sua obra, no presente, praticamente<br />

caiu no ostracismo, uma vez que, com exceção de O rei negro e de A capital federal,<br />

pouco ou nada se ouve falar do escritor.<br />

Desse modo, há poucos estudos tanto sobre o autor quanto sobre sua<br />

obra, o que, se por um lado torna a pesquisa interessante, por outro faz com que o<br />

pesquisador resvale num tipo de vazio crítico sobre o autor de Tormenta, fato que,<br />

<strong>em</strong> alguns momentos, acaba por dificultar o estudo.<br />

A respeito de parte de sua produção romanesca, pode-se constatar que a<br />

trilogia A capital federal (1893), A conquista, (1899) e Fogo-fátuo (1929), b<strong>em</strong> como<br />

seus romances “avulsos” Mirag<strong>em</strong> (1895), Inverno <strong>em</strong> flor (1897), O morto (1898),<br />

Tormenta (1901) e Turbilhão (1906) representam, <strong>em</strong> conjunto, o essencial de sua<br />

ficção urbana, aspecto de sua produção que, diga-se, é menos explorado pela crítica<br />

do que sua ficção de moldes rurais, a ex<strong>em</strong>plo de O rei negro (1914).<br />

A ficção urbana do autor de A conquista é predominant<strong>em</strong>ente<br />

imaginativa – excetuando-se sua trilogia, escrita nos moldes de uma obra<br />

m<strong>em</strong>orialista e, por isso, baseando-se nas experiências do autor na condição de ser<br />

humano engajado na causa republicana e abolicionista, na imprensa carioca ou,<br />

mesmo, como hom<strong>em</strong> de letras que viveu no período compreendido pela Belle<br />

Époque.<br />

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No que diz respeito ao enredo das obras de caráter mais imaginativo do<br />

que calcado nas experiências vividas pelo autor, percebe-se o fruto do trabalho de<br />

um observador do conjunto humano circundante nas ruas – principalmente a Rua do<br />

Ouvidor –, cafés, bares e teatros cariocas. Não raro, sua ficção também retrata<br />

cenas do cotidiano citadino, sejam cenas transcorridas nos bondes, centros de<br />

espiritismo, redações de jornais, casas de jogo, quintais de residências suburbanas.<br />

No conjunto, essa obra plasma, <strong>em</strong> mosaico, um amplo painel do conjunto urbano<br />

da, então à época, capital federal brasileira.<br />

A respeito de Turbilhão, nota-se que os fatos circunstanciados no enredo<br />

se constitu<strong>em</strong> como frutos do livre curso da imaginação do autor, mas o espaço <strong>em</strong><br />

que tais fatos se dão é um espaço tirado do plano da realidade e, nesse sentido,<br />

pode-se afirmar, também, que a obra resulta de uma observação <strong>em</strong>pírica do<br />

universo nela retratado. A verdade é que Coelho Neto, nesse romance, alude<br />

ficcionalmente às mudanças que se verificavam no modo de vida da população do<br />

Rio de Janeiro na primeira década do século XX.<br />

Turbilhão, a despeito do sucesso inicial, acabou por cair no ostracismo,<br />

podendo-se afirmar que ainda não foi redescoberto, n<strong>em</strong> mesmo com o advento de<br />

estudos recentes, voltados para a Teoria da linguag<strong>em</strong> e para o contexto do Pré-<br />

modernismo, desenvolvidos pelo setor de filologia da Fundação Casa de Rui<br />

Barbosa, já que tais estudos, a despeito do mérito de resgatar<strong>em</strong> obras que, na<br />

atualidade, encontram-se olvidadas, ainda não se debruçaram, até o presente<br />

momento, sobre esse romance de Coelho Netto.<br />

O fato de o conjunto da produção do autor ter caído no esquecimento,<br />

segundo Mary L. Daniel (1993), pode ser explicado pelo motivo de ter sido publicado<br />

pela Editora Lello, na cidade do Porto, <strong>em</strong> Portugal, o que teria dificultado o acesso<br />

à sua obra, pelo público leitor brasileiro, nas décadas seguintes à morte do autor,<br />

mesmo com a publicação da Obra seleta de Coelho Netto, <strong>em</strong> três volumes, pela<br />

Editora Aguilar, no ano de 1958.<br />

Esse fato v<strong>em</strong> justificar o recorte realizado neste estudo:<br />

resgatar/apontar/analisar uma obra romanesca que, a despeito de sua inegável<br />

qualidade, atualmente é ignorada pelo público leitor brasileiro e, também, por grande<br />

parte da crítica especializada.<br />

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Sobre o enredo de Turbilhão, t<strong>em</strong>-se uma ação que está centrada na<br />

trajetória de Paulo, órfão de pai, estudante de medicina, de baixa condição<br />

financeira. Sendo, como já se afirmou, órfão de pai, e morando com a única irmã,<br />

Violante, e a mãe, D. Júlia, esta s<strong>em</strong>pre às voltas com achaques e doenças, o moço<br />

fica chocado, indignado logo no começo da narrativa, tão logo toma conhecimento<br />

do fato de que a irmã havia fugido de casa. Para os padrões morais e sociais da<br />

época, isso significava o fim da reputação de uma donzela, já que tal ato, s<strong>em</strong> uma<br />

imediata reparação – leia-se: casamento – faria com que a moça fujona ficasse<br />

relegada, fatalmente, à condição de uma meretriz.<br />

O rapaz, envergonhado, abandona os estudos, com o aparente propósito<br />

de não passar por situações vexatórias, promovidas pelo comportamento mordaz<br />

dos colegas de estudo. Como aparente decorrência do fato de ele dispensar muito<br />

t<strong>em</strong>po perseguindo prováveis pistas que denunciass<strong>em</strong> o paradeiro da irmã, ele<br />

também perde o <strong>em</strong>prego. Vê-se, então, numa condição de maior privação material,<br />

quando decide entregar-se às tentações e riscos do jogo.<br />

Nesse ínterim, sua mãe, cada vez mais doente, passa a penhorar suas<br />

antigas jóias – igualmente humildes, cujo valor é de cunho mais afetivo que<br />

financeiro – e a criada da casa, cujo filho havia morrido na Revolta da Vacina (1904),<br />

enlouquece –. Pelas filigranas do texto, percebe-se que o narrador atribui a causa da<br />

loucura da criada menos à perda do filho do que ao seu envolvimento <strong>em</strong> rituais<br />

espíritas, o que nos faz r<strong>em</strong>ontar ao preconceito religioso, mais fort<strong>em</strong>ente<br />

perceptível <strong>em</strong> períodos mais r<strong>em</strong>otos.<br />

No momento <strong>em</strong> que Paulo encontra a irmã no teatro, coberta de luxo,<br />

faiscante de magníficas jóias, acompanhada de uma senhora gorda, fica<br />

extr<strong>em</strong>amente irritado e t<strong>em</strong> ímpetos de agredi-la verbalmente, chamando-a de<br />

vagabunda e prostituta. Tal ímpeto, porém, cede espaço ao encantamento que a<br />

visão da irmã, antes humilde e trajada com simplicidade e, agora, vestida de luxo e<br />

faiscante de jóias de pedras preciosas, lhe desperta.<br />

No dia seguinte, conhece o palacete <strong>em</strong> que Violante, mantida por um<br />

rico e anônimo senhor, passara a morar depois de ter fugido de casa e de ter<br />

passado uma breve t<strong>em</strong>porada <strong>em</strong> Buenos Aires. Paulo não se dá conta, mas,<br />

implicitamente, pode-se notar que uma admiração pela audácia e corag<strong>em</strong> da irmã<br />

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brota <strong>em</strong> seu peito, afinal ela teve a corag<strong>em</strong> de romper os laços com uma<br />

sociedade que, <strong>em</strong>bora muitas vezes hipócrita e que se deixa pautar sob a égide de<br />

relações superficiais, pré-estabelecia o comportamento dos indivíduos cujo<br />

comportamento era considerado correto, íntegro, direito.<br />

A mãe, no entanto, devota e moralmente rigorosa, não consegue<br />

assimilar da mesma forma o novo <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong> da filha e se prostra na cama,<br />

doente. Aliado a esse dissabor, soma-se o fato de que Paulo expulsara a criada<br />

enlouquecida de casa e colocara, no lugar, sua amásia, para que cuidasse da mãe<br />

enferma. Tais desgostos são d<strong>em</strong>ais para o coração da pobre senhora, que morre<br />

<strong>dois</strong> dias depois de ter reencontrado a filha.<br />

Pano de fundo para as ações das personagens é a cidade do Rio de<br />

Janeiro de meados do século XX, com suas ruelas e becos, com seus palacetes e<br />

cortiços: um espaço de miséria mas, igualmente, de possibilidades de ascensão<br />

socioeconômica, <strong>em</strong>bora com algumas ressalvas, já que, a depreender da narrativa,<br />

apenas mediante ações consideradas escusas e/ou imorais é que o indivíduo<br />

conseguiria ascender a uma melhor posição social e econômica, como é o caso de<br />

Violante, que enriquece às custas de sua prostituição.<br />

Acerca da constituição do espaço enquanto el<strong>em</strong>ento narrativo, percebe-<br />

se que, conforme um interessante estudo de Osman Lins (1976), há narrativas <strong>em</strong><br />

que o espaço se configura de modo impreciso e vago mas, mesmo assim, “intenta-<br />

se concentrar o interesse nas personagens ou nas motivações psicológicas que as<br />

enredam” (1976, p.65), o que justifica a imprecisão do espaço pela natureza<br />

int<strong>em</strong>poral, não-circunstancial da narrativa, uma vez que as relações entre espaço e<br />

personag<strong>em</strong> carec<strong>em</strong> de significado sócio-histórico.<br />

Osman Lins salienta, entretanto, que nas obras <strong>em</strong> que se nota esta<br />

ocorrência, pode haver maior profundidade literária do que naquelas <strong>em</strong> que a<br />

manifestação do espaço atua preponderant<strong>em</strong>ente, citando como ex<strong>em</strong>plo O<br />

Castelo, de Franz Kafka, <strong>em</strong> que “não se trata de um castelo ou de um verdadeiro<br />

domínio feudal, mas sim de uma grande simbologia. Imediatamente o próprio K.<br />

tomará conhecimento disso, integrando-se assim mesmo nessa totalidade mítica,<br />

pois é assim que o hom<strong>em</strong> pode situar-se face à realidade global”. (KOKOS, 1967,<br />

p. 107 apud LINS, 1976, p. 65).<br />

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Nesse sentido, pode-se perceber, <strong>em</strong> Turbilhão, que os espaços<br />

retratados na obra não são assimilados de forma objetiva pelas personagens. Muito<br />

pelo contrário: o contato entre personag<strong>em</strong> e espaço citadino circundante é s<strong>em</strong>pre<br />

permeado por uma visão, por parte das personagens, que busca s<strong>em</strong>pre relativizar<br />

as coisas ou, no limite, julgá-las de acordo os interesses particulares. Desse modo é<br />

que a mansão de Violante, claramente um tipo de prostíbulo – ainda que seja de<br />

apenas uma meretriz – é entrevisto como uma rica casa <strong>em</strong> que mora uma moça<br />

que, no máximo, é taxada de “vagabunda” (p. 152) 1 .<br />

Desse modo é que, até o momento <strong>em</strong> que não t<strong>em</strong> notícias da irmã,<br />

Paulo está extr<strong>em</strong>amente irritado com ela, mas, no momento <strong>em</strong> que a encontra e<br />

que se encaminha até a luxuosa casa <strong>em</strong> que ela está morando, seus sentimentos<br />

com relação tanto a ela quanto ao que ela havia feito acabam se transformando, e a<br />

raiva cede espaço ao respeito e à admiração por tudo quanto Violante “conquistara”:<br />

A casa, de aspecto nobre, com todas as janelas fechadas, ficava ao fundo<br />

de um jardim sombrio, de sinuosos caminhos areados de saibro escuro.<br />

Duas alvas figuras de mármore destacavam-se na sombra das ramagens<br />

[...] Duas cegonhas de bronze flanqueavam a otomana de damasco<br />

amarelo, vivamente ensangüentado a flores de púrpura. Pelas paredes,<br />

floridas a ouro, sobre aveludado fundo carmesim, acumulavam-se retratos,<br />

grandes quadros pendiam mostrando paisagens tristes – campos de trigo<br />

esfumados pelo crepúsculo e gados que recolhiam e uma gravura idílica <strong>em</strong><br />

que havia uma redouça, entre flores, unindo um jov<strong>em</strong> casal amoroso no<br />

mesmo balouço. O silêncio era absoluto como se tudo dormisse naquela<br />

casa. A criada apareceu com passos surdos, como uma sombra:<br />

- Pode subir. A senhora espera-o lá <strong>em</strong> cima.<br />

[...] Dirigiu-se para o suntuoso salão atapetado.<br />

O lustre cintilava a um raio de sol. O mobiliário era rico, adaptado à volúpia<br />

– moles divãs orientais sobre pelegos que formavam macia alfombra, de<br />

cores quentes; grandes almofadões de seda com borlas, fundas poltronas.<br />

Os consolos altos, esguios, com espelhos finos, eram todos dourados e<br />

rebrilhavam.<br />

Cortinas escuras t<strong>em</strong>peravam a luz, quebrando a violência do sol que<br />

entrava por quatro janelas abertas sobre balcões. Na mesa do centro,<br />

incrustada de marfim, dentro duma linda jarra de porcelana, morriam rosas.<br />

Aroma tépido e voluptuoso impregnava o recinto. Os rumores da rua<br />

chegavam abafados, ensurdecidos, como se viess<strong>em</strong> de muito longe<br />

(p. 118).<br />

Segundo Gisela Pankow, <strong>em</strong> O hom<strong>em</strong> e seu espaço vivido (1988), nenhum<br />

espaço é subjetivo. Nesse sentido, o que faz com que Paulo reverta o sentimento<br />

1 Todas as citações de Turbilhão, neste trabalho, referir-se-ão à edição feita pela Ediouro (s/d), e,<br />

para facilitar, indicar<strong>em</strong>os apenas o número da página ao fim da citação.<br />

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que passa a nutrir pela irmã, após sua fuga, não é o fato de tê-la reencontrado, ou<br />

de saber que ela está b<strong>em</strong>, mas, sim, porque fica <strong>em</strong>basbacado ante a beleza e<br />

sofisticação da casa que ela agora possui.<br />

Note-se, ainda <strong>em</strong> relação à descrição da sala, que se trata de um<br />

ambiente cuja luz é filtrada pelas cortinas, cujos ruídos são abafados pelos tapetes,<br />

um espaço, por fim, “adaptado à volúpia”, ou seja, a uma casa de meretriz,<br />

corresponde esse espaço, carregado de seda, poltronas, divãs, com muito dourado,<br />

com muito brilho. Ressalte-se que a casa fica um tanto afastada da rua, uma vez<br />

que, para se chegar até à porta, t<strong>em</strong> que se atravessar o jardim que se passar por<br />

“sinuosos caminhos”. Essa expressão, aliás, parece metaforizar os caminhos das<br />

próprias vidas das personagens de Turbilhão, uma vez que não se trata, mais, de<br />

caminhos rígidos ou de atitudes previsíveis. Ao contrário: o que ditam os novos<br />

rumos dos destinos humanos são, cada vez mais, a força de vontade e a influência<br />

do capital.<br />

Na casa da irmã, Paulo fica tão deslumbrado com o luxo e o encanto do<br />

que vê que os sentimentos que sente por ela, por um breve momento, chegam a<br />

confundi-lo:<br />

Um perfume cálido errava no ar. Havia no silêncio um quê de sedução, um<br />

convite misterioso: era o ambiente lascivo que sugeria e vergava ao amor.<br />

Paulo não se atrevia a avançar – olhava tolhido, perturbado, sentindo o<br />

prestígio inelutável da mulher, a influência poderosa da carne como se ali<br />

não estivesse a irmã, mas uma mercenária que o fosse arrastando, vencido,<br />

para o amor lúbrico que todo aquele interior aconchegado e discreto<br />

insinuava (p. 120).<br />

Desse modo, o rapaz que entrou, meio ressabiado, na casa de luxo <strong>em</strong><br />

que a irmã passou a morar, não é o mesmo que sai. O que entrou era receoso e<br />

ainda <strong>em</strong> dúvida quanto ao que sentia pela irmã – raiva? Curiosidade por seu novo<br />

modo de vida? – mas o que saiu tinha certeza do que sentia: admiração, já que<br />

havia sido “comprado” pelo brilho de tudo quanto vira.<br />

Em outro momento, ao pensar no que a irmã fez,<br />

Pensou <strong>em</strong> Violante com simpatia. Afinal, que podia ela esperar?<br />

Pobre, casando não passaria da vida insípida que levam todas as mulheres,<br />

na monotonia enfadonha dos afazeres domésticos, mal-amanhada,<br />

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envelhecendo, mortificando-se no trabalho insano, arrastando a<br />

fecundidade penosa, s<strong>em</strong>pre rodeada de filhos, talvez brutalizada pelo<br />

marido, sofrendo privações entre as quatro paredes de uma casa.<br />

Assim, não – era livre, tinha todo o gozo, podia saciar-se à larga, s<strong>em</strong><br />

preocupar-se com a sociedade com a qual rompera abertamente (p. 116).<br />

E quanto às descrições dos espaços citadinos e as relações que se<br />

pod<strong>em</strong> estabelecer entre eles e as personagens do romance?<br />

Cumpre, antes, discorrermos um pouco acerca da cidade enquanto<br />

realidade histórica. As primeiras cidades (MUMFORD, 2004) surgiram na<br />

Mesopotâmia, <strong>em</strong> torno de 3500 a.C., aquelas pelas quais os homens abandonaram<br />

seu modo de vida nômade, espacialmente errante. Nesse período, o domínio da<br />

técnica do tijolo cozido (matéria-prima utilizada na construção das cidades)<br />

correspondeu a uma verdadeira reviravolta na vida das pessoas, na medida <strong>em</strong> que<br />

possibilitou uma nova maneira de pensar o habitat.<br />

Tijolos e mais tijolos justapostos: a grande construção, erigida por meio<br />

de milhares de tijolos, marcou a constituição de uma nova relação entre hom<strong>em</strong> e<br />

natureza, na medida <strong>em</strong> que houve o surgimento de uma nova forma de ocupação<br />

do o espaço natural, b<strong>em</strong> como de sua transformação, uma vez que o produto do<br />

trabalho do el<strong>em</strong>ento humano passou a vigorar num cenário <strong>em</strong> que, antes, o<br />

natural figurava como paisag<strong>em</strong> única.<br />

Para Raquel Rolnik (2004), a cidade, na atualidade, exerce cada vez mais<br />

influência sobre o campo, na medida <strong>em</strong> que há, como decorrência das conquistas<br />

da modernização, um tipo de “urbanização” (p. 20) na mente dos habitantes de<br />

áreas rurais. Nesse sentido, há, s<strong>em</strong>pre <strong>em</strong> menor proporção, espaços verdes,<br />

naturais: a natureza cede espaço, desse modo, às construções de asfalto e concreto<br />

da grande cidade.<br />

Em relação à representação ficcional da cidade <strong>em</strong> textos literários<br />

brasileiros, pode-se constatar que, desde o advento do Romantismo, o universo<br />

citadino t<strong>em</strong> figurado, de modos diversos, no contexto da nossa literatura. Desse<br />

modo é que, no período romântico, com a tomada de consciência de nossa<br />

nacionalidade, houve a configuração de uma preocupação t<strong>em</strong>ática no sentido de<br />

valorizar a terra, a paisag<strong>em</strong> e o hom<strong>em</strong> que a habitava, o que condicionou e<br />

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justificou o surgimento de narrativas que retratavam tanto cenários campestres<br />

quanto cenários caracteristicamente urbanos.<br />

Partindo desse pressuposto, segundo o qual as bases da ficção brasileira<br />

se consolidaram como uma resposta a uma busca de expressão nacional<br />

(CANDIDO, 2002), com o advento da modernização e o conseqüente acentuar do<br />

processo de urbanização e seus efeitos, houve, por parte dos romancistas, uma<br />

preocupação mais voltada para o retrato das mazelas sociais, foss<strong>em</strong> num contexto<br />

citadino, como nos d<strong>em</strong>onstra a prosa de Lima Barreto, foss<strong>em</strong> num cenário rural,<br />

como nos atesta parte da produção de Monteiro Lobato.<br />

Desse modo, desde o período que se convencionou denominar de “pré-<br />

modernismo”, a cidade t<strong>em</strong> sido descrita, literariamente, <strong>em</strong> todas as suas<br />

peculiaridades, seja pela prosa, seja pelas formas po<strong>em</strong>áticas da literatura brasileira.<br />

Referindo-se aos romances que têm a cidade como palco das ações<br />

circunstanciadas <strong>em</strong> seus enredos, Renato Cordeiro Gomes, <strong>em</strong> Todas as cidades,<br />

a cidade, afirma que os livros que realizam uma leitura do urbano plasmam um “livro<br />

de registro da cidade”, amplo livro que é um verdadeiro “labirinto: um texto que<br />

r<strong>em</strong>ete a outro, que por sua vez conduz a um terceiro, e assim sucessivamente”<br />

(1994, p. 24).<br />

Haveria, nessa diversidade textual acerca do urbano, tanto textos que se<br />

refer<strong>em</strong> a uma cidade repleta de significados positivos, quanto obras que apontam<br />

para a carência de finalidade de um cenário citadino cuja configuração, labiríntica e<br />

impessoal, espelha a desorientação a que submete seus habitantes, na medida <strong>em</strong><br />

que nada mais parece haver entre as personagens e o contexto urbano que as<br />

rodeia, a não ser a babélica estupefação de um universo citadino fechado <strong>em</strong> si<br />

mesmo.<br />

Para Roland Barthes (1987), a cidade pode ser entendida como texto,<br />

como fonte de leitura. Nesse sentido é que tece considerações que vislumbram a<br />

cidade por um prisma que a considera exclusivamente significante, e destituída,<br />

portanto, de uma distribuição funcional da sua trama urbana. Desse modo, a cidade<br />

é percebida não <strong>em</strong> suas peculiaridades geográfico-espaciais, mas, sobretudo,<br />

como um discurso, que fala e se faz entender aos seus habitantes.<br />

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Considerando as idéias do teórico francês, pode-se afirmar que alguns<br />

modernistas brasileiros – como Mário de Andrade, Pagú, Oswald de Andrade, dentre<br />

outros – realizaram uma “leitura” do contexto urbano de São Paulo, cujas<br />

transformações presenciaram in loco. Salvaguardadas as devidas proporções, essa<br />

mesma leitura do urbano, mas tendo a cidade do Rio de Janeiro como “texto”, foi<br />

realizada por Lima Barreto, João do Rio e, <strong>em</strong> sua vasta produção romanesca,<br />

também por Coelho Neto. Tanto no contexto paulista quanto no carioca, esses<br />

escritores escrev<strong>em</strong>/inscrev<strong>em</strong>, <strong>em</strong> suas obras, histórias ficcionais que registram as<br />

aceleradas transformações, de ord<strong>em</strong> social, econômica e cultural, pelas quais<br />

passam a cidade.<br />

E quanto ao espaço narrativo, entendido <strong>em</strong> termos teóricos e<br />

conceituais? Ou, dito de outro modo, como entender a representação espacial numa<br />

dada narrativa? Tratando justamente desses aspectos, o teórico russo Boris<br />

Tomachevski, num estudo publicado pela primeira vez <strong>em</strong> 1925, afirma que há<br />

motivos livres e motivos associados vinculados á noção de fabula e trama. Conforme<br />

o crítico formalista, “dá-se o nome de fábula a um conjunto de acontecimentos<br />

ligados entre si e que nos são comunicados no decorrer da obra”. (1965, p.34). Isto<br />

é, fábula é aquilo que se conta, ao passo que a trama, sendo uma construção<br />

totalmente artística e individual, é o modo mediante o qual se narra uma<br />

determinada história. À primeira correspond<strong>em</strong> os acontecimentos que formam o<br />

enredo, e a segunda o modo de sua aparição, a disposição que lhes deu o autor no<br />

processo de montag<strong>em</strong> de sua história. Por motivo associado, Tomachevski entende<br />

aqueles que, se excluídos da narrativa, compromet<strong>em</strong> seus nexos de causa e efeito.<br />

Antonio Dimas ex<strong>em</strong>plifica essa concorrência citando que, no romance A<br />

escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, não se poderia omitir o fato de que a<br />

escrava fugitiva possuía “acima do seio direito um sinal de queimadura, mui<br />

s<strong>em</strong>elhante a uma asa de borboleta” (1987, p.34), visto que é justamente devido a<br />

esse ferrete que Isaura será reconhecida <strong>em</strong> um baile <strong>em</strong> Recife e, posteriormente,<br />

conduzida de volta ao Rio de Janeiro.<br />

O motivo livre, ao contrário do motivo associado, pode ser descartado,<br />

uma vez que sua eliminação não põe <strong>em</strong> risco a organicidade global da fábula,<br />

<strong>em</strong>bora possa desestruturar a trama. São importantes na medida <strong>em</strong> que constitu<strong>em</strong><br />

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reforços marginais cujo objeto central é o de caracterizar uma determinada ação: se<br />

diurna, noturna, calma, frenética, etc., e também as personagens: seu físico, manias,<br />

gestos, aptidões, caráter etc.<br />

Vinculados aos motivos narrativos, estão as motivações narrativas, que<br />

pod<strong>em</strong> ser homólogas ou heterólogas e que ocorr<strong>em</strong> toda vez que se puder<br />

relacionar a descrição do espaço narrativo aos estados de ânimo das personagens.<br />

Desse modo, se o protagonista está alegre <strong>em</strong> meio a um local <strong>em</strong> que se realiza<br />

um velório, essa sua alegria funciona como uma “motivação caracterizadora<br />

heteróloga”, já que há uma oposição entre <strong>dois</strong> estados (alegria e tristeza). Se, ao<br />

contrário, o protagonista se encontra triste, nesse mesmo local <strong>em</strong> que se realiza um<br />

velório, t<strong>em</strong>os um ex<strong>em</strong>plo de “motivação caracterizadora homóloga”, visto que há<br />

uma convergência de um estado <strong>em</strong> relação a <strong>dois</strong> seres (espaço e personag<strong>em</strong>).<br />

Desse modo é que, logo no início da história narrada nas páginas de<br />

Turbilhão, na manhã seguinte à noite <strong>em</strong> que Violante foge de casa, Paulo sai de<br />

casa <strong>em</strong> busca da irmã. Nesse trecho da obra, o leitor depara-se com a seguinte<br />

descrição do cenário urbano:<br />

A cidade, depois da noite de chuva, muito arejada e lavada, tinha um<br />

aspecto asseado e agradável. O sol tépido brilhava num puro azul e, pelos<br />

telhados vermelhos do casario, aqui, ali, clarabóias dardejavam ofuscantes.<br />

Um realejo melancólico resmoneava ao longe [...].<br />

Os montes, muito azuis, tinham uma nova alegria. A Tijuca, desanuviada,<br />

cravava o seu cimo no céu; e o parque <strong>em</strong> frente, denso, denso e verde,<br />

parecia de um arvoredo tenro: lisa era toda a folhag<strong>em</strong>, como nascida<br />

naquela manhã; a grama verdejava viçosa, como se por ali houvesse<br />

andado a primavera mondando as plantas, recolhendo versas e ramalho<br />

para mostrar, <strong>em</strong> todo o esplendor da beleza, a sua residência mais amada<br />

(p. 31).<br />

Paulo segue <strong>em</strong> desespero, elucubrando as possibilidades do que<br />

poderia ter acontecido à irmã. Na pior das hipóteses, imagina-a deflorada por algum<br />

hom<strong>em</strong> s<strong>em</strong> escrúpulos e depois abandonada à própria sorte. Nesse misto de<br />

sentimentos contraditórios e sufocantes – odeia e sente a falta dela – é que entrevê<br />

a configuração de um dia claro, ensolarado, <strong>em</strong> que o verde parece ser mais verde<br />

do que já é: um dia bonito e alheio ao desespero do protagonista. T<strong>em</strong>os, nos<br />

termos de Tomachévski, um ex<strong>em</strong>plo de motivação caracterizadora heteróloga, já<br />

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que, à tristeza e desespero de Paulo, contrapõe-se uma cidade ensolarada, alegre,<br />

bela.<br />

Mais adiante, ele nota que<br />

Passarinhos cantavam <strong>em</strong> ramos, iam dum a outro, perseguindo-se; uniamse<br />

no ar como trocando beijos e lá iam, de novo, juntos, d’asas fr<strong>em</strong>entes,<br />

metiam-se num meandro folhudo, onde, por certo, tinham o ninho<br />

agasalhado. Folhas caiam girogirando, flores murchas manchavam a relva,<br />

amareleciam ou ensangüentavam as alamedas (p. 32).<br />

Novamente, o protagonista vislumbra uma paisag<strong>em</strong> citadina que, de tão<br />

ligada à natureza, chega a parecer bucólica. Que cidade é essa de que só se<br />

enxerga o lado agradável? Acreditamos que essa forma de se descrever o lado<br />

“paradisíaco” da cidade cumpre a função de agravar ainda mais o estado de ânimo<br />

do referido protagonista, já que ele acaba por, fatalmente, contrapor seu estado<br />

entristecido e desanimado à alegria da paisag<strong>em</strong> que o circunda, de modo a sentir-<br />

se ainda mais vilipendiado pela irmã, ainda mais macambúzio com os rumos que,<br />

literalmente da noite para o dia, sua vida passa a tomar.<br />

E assim ocorre <strong>em</strong> outras passagens: o Rio de Janeiro descrito <strong>em</strong><br />

Turbilhão, apesar de ser uma cidade-palco de misérias e desigualdades sociais e<br />

econômicas, é pintado com tintas vivas, fortes e alegres, como se a paisag<strong>em</strong><br />

natural se sobrepusesse – como de fato se sobrepõe – aos dil<strong>em</strong>as pessoais e aos<br />

probl<strong>em</strong>as, sejam individuais, sejam coletivos, o que, de certa forma, acaba por<br />

denotar um certo tipo de indiferença, seja das pessoas com relação aos probl<strong>em</strong>as<br />

das outras, seja delas com relação ao que a sociedade espera do indivíduo.<br />

Nesse sentido, não é gratuito o fato de que as personagens s<strong>em</strong>pre ag<strong>em</strong><br />

<strong>em</strong> favor de si mesmas, passando por cima de tudo quanto lhes fique à frente:<br />

Ritinha trai o companheiro com um hom<strong>em</strong> que julga melhor; Violante rompe com os<br />

padrões sociais e morais <strong>em</strong> nome do dinheiro, prostituindo-se e acumulando capital<br />

enquanto é nova e bonita; Paulo trai a confiança do amigo Mamede tomando-lhe a<br />

mulher, Ritinha, e assim por diante.<br />

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4 CONCLUSÕES<br />

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Interessante notar que o enredo de Turbilhão frustra, <strong>em</strong> certo sentido,<br />

as expectativas do leitor que espera ver, no romance, a transposição do que, na<br />

maioria dos casos, ocorre com as moças que, àquele t<strong>em</strong>po, resolviam traçar os<br />

rumos do seu destino fora da rotina do casamento ou da vida religiosa.<br />

Nesse sentido, até certo ponto, Violante, na medida <strong>em</strong> que é<br />

caracterizada como uma moça bela e tola, sonhadora, que passava os dias<br />

sorridente, debruçada à janela, configura-se, aparent<strong>em</strong>ente, como uma moça que<br />

se dará mal após ter fugido com um hom<strong>em</strong>, pois seria desvirginada e perderia,<br />

assim, a honra e o respeito. Engano: ela não fugira por amor, mas por um desejo de<br />

ascensão socioeconômica e por uma sede de liberdade, de ser dona de seu destino,<br />

mesmo que a contrapartida disso fosse a perda de sua suposta honra.<br />

Outro ponto interessante é que Paulo, ao ver a irmã envolta <strong>em</strong> luxo e<br />

riqueza, prontamente deixa de julgar a atitude dela como inerente a de moças s<strong>em</strong><br />

juízo: ela passa a representar o modelo de audácia e corag<strong>em</strong> de que ele mesmo se<br />

julgava incapaz. Além do que, algum dos figurões com qu<strong>em</strong> ela mantinha contato<br />

poderia, mesmo, “arranjar-lhe alguma colocação...” (p. 102).<br />

Talvez, se tivesse sido publicado c<strong>em</strong> anos antes, o enredo do romance<br />

poderia ser taxado de inverossímil. Mas, no Rio de Janeiro de meados do século XX,<br />

uma cidade que vivia a Belle Époque e que começava a se modernizar <strong>em</strong> ritmo<br />

acelerado, já é perfeitamente cabível que uma moça, mesmo às custas da “honra”<br />

de seu nome, possa traçar, por si mesma, os rumos de sua vida.<br />

A respeito das transformações que a capital fluminense – e, à época,<br />

capital do país – passava, José G. V. de Moraes, <strong>em</strong> seu Cidade e cultura urbana na<br />

primeira república (1994), registra aspectos responsáveis pelas mudanças inerentes<br />

ao modo de vida dos habitantes das cidades, quais sejam as transformações<br />

modernizadoras pelas quais os aglomerados urbanos passavam. O autor afirma que<br />

não só o espaço físico se transformava, mas também a mentalidade, os modos de<br />

agir e as concepções morais.<br />

Desse modo, as personagens de Turbilhão plasmam, se não uma<br />

reabilitação, ao menos um novo olhar sobre o que é considerado como mundanismo<br />

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e amoralismo numa sociedade que, <strong>em</strong>bora cada vez mais afeita aos contornos de<br />

um <strong>modus</strong> <strong>vivendi</strong> cosmopolita, afinado com a <strong>modernidade</strong>, ainda se deixa marcar<br />

por estruturas arcaicas, típicas de uma civilização de molde e extração patriarcais e<br />

conservadores, controlada por uma oligarquia baseada na economia rural.<br />

Nesse sentido, as personagens do romance são modernas e<br />

individualistas, mas conviv<strong>em</strong> numa sociedade que, mesmo <strong>em</strong> transformação,<br />

ainda é controlada por códigos de honra e de boa conduta – principalmente para as<br />

mulheres –, uma vez que toda sociedade de cunho patriarcal s<strong>em</strong>pre cobra mais das<br />

mulheres do que dos homens.<br />

De um ou de outro modo, as personagens de Turbilhão, vivendo um<br />

verdadeiro turbilhão de transformações, são egocêntricas e fortes: ousam romper<br />

códigos, ousam ser o que realmente quer<strong>em</strong> ser. E nisso também reside a<br />

grandiosidade desse romance.<br />

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