A cidade e as Serras

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A cidade e as Serras

A Cidade e

as Serras

Eça de Queirós


A Cidade e as Serras

no conjunto da obra de Eça

Gustave Caillebotte (1848-1894),

Paris em dia de chuva

Oil on canvas, 212.2 x 276.2 cm, The Art Institute of

Chicago

de Queirós


Primeira fase:

Romantismo - obras folhetinescas

Segunda fase: NATURALISMO

O crime do Padre Amaro (1874)

O Primo Basílio (1878)

Os Maias (1888)

Crítica mordaz

Darwinismo social

Zoomorfismo

Estilo “baixo” com seriedade


Terceira fase

A ilustre Casa de Ramires (1900)

A cidade e as Serras (1901)

Realismo fantasista

Crítica Solução (utópica)

Rafael Bordalo Pinheiro,

Retrato de Eça de Queirós


Monet, Boulevard

des Capucines,

(1873)

Oil on canvas (79.4 x 59 cm)

Nelson-Atkins Museum of Art,

Kansas City, Missouri

Civilização = Felicidade (?)


Paris no final do

século 19 e início

do 20


Belle Epoque


Belle Epoque


Galerie des Machines,

Exposition Universelle,

Paris, 1889


Schopenhauer (1788-1860)

1790

Comte (1798-1857)

Ciência e

filosofia

1800

Darwin (1809 – 1882)

Lenz (1804-1865)

Faraday (1791-1867)

Ohm (1787-1854)

1810

Marx (1818-1883)

1820

Engels (1820-1895)

Taine (1828-1893)

Mendel (1822-1884)

Pasteur (1820-1895)

1830

1840

Nietzsche (1844-1900)

Maxwell (1831-1879)

Mendelieiv (1828-1907)

1850

Hertz (1856-1894)

1860

1870

1880

1890

1900


Publicação em 1901 (póstuma)

Crise

Modernidade

Século 20

Contradições

do paradigma civilizatório

(Belle Epoque)

Aumento da

produção

industrial

X

Guerras

Aumento da

riqueza

X

Aumento da

pobreza


Rico

Família secular

Vive de renda

Fidalgo aristocrata

Capítulo I

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio,

com cento e nove contos de renda em terras de

semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.

No Alentejo, pela Estremadura, através das

duas Beiras, densas sebes ondulando por entre os

vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas,

delimitavam os campos desta velha família

agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa

em tempos de el-rei d.Dinis. A sua Quinta e casa

senhorial de Tormes, no Baixo douro, cobriam uma

serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas

léguas, todo o torrão lhe pagava foro... Mas o

palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre

habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº.202.


D.Galião e D. Miguel

Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem

chamavam em Lisboa o D.Galião, descendo uma tarde pela travessa

da Trabuqueta, rente dum muro de quintal que uma parreira toldava,

escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha

da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de

grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que,

galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto - até lhe

apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois,

demorando nele os olhos pestanudos e pretos:

- Ó Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a

rebolar pelas pedras?

E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o sr. Infante

D. Miguel!

amara...

Ver o que foi o

miguelismo.

Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca


Champs-Elysées


Jacinto

Descendente de uma secular e rica família

portuguesa. Vive em Paris, em um palacete

dos Campos Elíseos, o 202.

Champs-Elysées

Representa a aristocracia portuguesa que vive

mais voltada para a França do que para seu

país.


Zé Fernandes

Português de Guiães.

Narrador testemunha – foco narrativo

em 1ª pessoa.

Tem um olhar crítico-irônico sobre a

civilização e os devaneios de Jacinto.

Champs-Elysées


202

Paris Civilização


Jacinto era saudável, rico e

inteligente, sem paixões fortes,

indiferente às questões da

política...

Por isso nós (Zé Fernandes e

outros amigos) lhe chamávamos

o Príncipe da Grã-Ventura! (...)

Este Príncipe concebera a idéia

de que o “homem só é

superiormente feliz quando é

superiormente civilizado”.

Gustave Caillebotte, The Man

On The Balcony


Um desses moços mesmo, o

nosso inventivo Jorge

Carlande, reduzira a teoria de

Jacinto, para lhe facilitar a

circulação e lhe condensar o

brilho, a uma forma algébrica:

E durante dias, do Odeon à

Sorbona, foi louvada pela

mocidade positiva a Equação

Metafísica de Jacinto.

Gustave Caillebotte, A Young

Man At His Window


Positivismo

Suma ciência

X

Suma potência

= suma felicidade


Positivismo

August Comte

Objetividade e cientificismo

• Método científico baseado na

observação e experimentação

• Empirismo

“Toda educação científica que não

se inicia com a matemática é,

naturalmente, imperfeita na sua

base.”


O ser "superiormente

civilizado".


Suma tecnologia

No palacete de Jacinto havia

tudo o que a civilização

industrial produzira até então:

elevador, telefone,

conferençofone, teatrofone e

um sem número de aparelhos

para os mais diversos fins.

Há um exagero em tudo. São

aparelhos bizarros para fins

discutíveis.


Elevador

Ironia

“logo me surpreendeu um

elevador instalado por

Jacinto - apesar do 202 ter

somente dois andares...

Espaçoso, tapetado, ele

oferecia, para aquela

jornada de sete segundos,

confortos numerosos, um

divã, uma pele de urso, um

roteiro das ruas de Paris,

prateleiras gradeadas com

charutos e livros.”


Suma ciência

Para Jacinto, o campo (a

natureza) era espaço de

manifestação da selvageria.

Possuía uma biblioteca com

mais de 30 mil volumes nos

quais conseguia todo o

conhecimento de que

necessitava.

Novamente, o exagero.


Na cidade


Camille Pissarro, O boulervard des Italiens,

manhã de sol (1897)

Óleo sobre tela (72,3 X 92,1) National Gallery of Art, Washington, DC

Por uma conclusão bem natural, a ideia

de Civilização, para Jacinto, não se separava

da imagem de Cidade, de uma enorme

cidade, com todos os seus vastos órgãos

funcionando poderosamente. Nem este meu

supercivilizado amigo compreendia que

longe de armazéns servidos por três mil

caixeiros; e de mercados onde se despejam os

vergéis e lezírias de trinta províncias; e de

bancos em que retine o ouro universal; e de

fábricas fumegando com ânsia, inventando

com ânsia; e de bibliotecas abarrotadas, a

estalar, com a papelada dos séculos;


Estilo

naturalista

Camille Pissarro, O boulervard des Italiens,

manhã de sol (1897)

Óleo sobre tela (72,3 X 92,1) National Gallery of Art, Washington, DC

e de fundas milhas de ruas, cortadas por

baixo e por cima, de fios de telefones, de

canos de gases, de canos de fezes; e da fila

atroante dos ônibus, "transways", carroças,

velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo;

e de dois milhões de uma vaga humanidade,

fervilhando, a ofegar, através da polícia, na

busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo o

homem do século XIX pudesse saborear,

plenamente, a delícia de viver! [...]


Henri Rousseau, Eclaireur attaqué par un

tigre (Scout Attacked by a Tiger) (1910)

Óleo sobre tela (72,3 X 92,1) National Gallery of Art,

Washington, DC

No

campo


Ao contrário, no campo, entre

a inconsciência e a

impassibilidade da Natureza,

ele tremia com o terror da sua

fragilidade e da sua solidão...

Depois, em meio da Natureza,

ele assistia à súbita e

humilhante inutilização de

todas as suas faculdades

superiores.


No campo 2

Estilo

naturalista

Henri Rousseau, Snake

Charmer, (1907)

oil on canvas. Musée d'Orsay, Paris

De que servia, entre plantas e

bichos ser um Gênio ou ser um

Santo? Toda a intelectualidade,

nos campos, se esteriliza, e só

resta a bestialidade.

Ao cabo de uma semana rural,

de todo o seu ser tão

nobremente composto só

restava um estômago e por

baixo um "falus"! A alma?

Sumida sob a besta.


E necessitava correr, reentrar

na Cidade, mergulhar nas ondas

lustrais da Civilização, para

largar nelas a crosta vegetativa, e

ressurgir reumanizado, de novo

espiritual e jacíntico!


Esquema da obra

Primeira parte

Paris

Obra linear

A cidade e as serras

Começo Meio Fim

Cap.1 Cap.8 Cap.16

Segunda parte

Tormes


Cocotte

— Ó Jacinto! Quem é esta Diana que

incessantemente te escreve, te telefona, te

telegrafa, te...?

— Diana... Diana de Lorge. É uma cocotte.

É uma grande cocotte!

— Tua?

— Minha, minha... Não! tenho um bocado.

E como eu lamentava que o meu Príncipe,

senhor tão rico e de tão fino orgulho, por

economia duma gamela própria,

chafurdasse com outros numa gamela

pública - Jacinto levantou os ombros, com

um camarão espetado no garfo:


Cocotte

— Tu vens das serras... Uma cidade

como Paris, Zé Fernandes, precisa ter

cortesãs de grande pompa e grande

fausto. Ora para montar em Paris, nesta

tremenda carestia de Paris, uma cocotte

com os seus vestidos, os seus

diamantes, os seus cavalos, os seus

lacaios, os seus camarotes, as suas

festas, o seu palacete, a sua publicidade,

a sua insolência, é necessário que se

agremiem umas poucas de fortunas, se

forme um sindicato! Somos uns sete, no

Clube.


Madame

Colombe

Zé Fernandes conhece e se

envolve com a prostituta

Madame Colombe.

Mas será abandonado por

ela.

A narrativa assume o fortes

cores naturalistas.

Ernst Ludwig Kirchner, Rote Cocotte, 1914

Pastel and chalk, Staatsgalerie Stuttgart, Germany


Cidade X Campo

+ -

Civilização Selvageria

Conforto

Status

Colunas

sociais

30 mil livros

Tecnologia

Novidades

Pessoas

Cultura

Rudimentarismo

Estagnação

Animalização

Instintos

Ignorância


Contradições

A parafernália mecânica

instalada no palacete não

funciona direito.

Os livros se acumulam sem

serem lidos.

Os encontros com a alta

sociedade são enfadonhos.


Eram canos que rompiam, inundando

uma ala do palacete, panes elétricas e

até mesmo o emperramento do

elevador de pratos, que comprometeu

um jantar de gala oferecido ao grãoduque

Casimiro, amigo de Jacinto.


… Mas debalde! O gancho, pouco

agudo, sem presa, bamboleando na

extremidade da guita frouxa, não

fisgava. Não era possível! Só

carpinteiros, com alavancas! … E

todos, ansiosamente, bradámos que

se abandonasse o peixe!


E Jacinto, num som cavo que era

bocejo e rugido:

- Uma maçada! E tudo falha!”


Personagens secundárias

Tipos sociais:

• servem para criticar

(através de caricaturas) a

sociedade parisiense;

• colocadas em situações e

atitudes bizarras.

Nesse jantar, Zé Fernandes pôde

observar mais de perto um

resumo da alta sociedade

parisiense: percebe a falsidade e

frivolidade desta sociedade.


A condessa de Trèves, com sua

lisonja fácil, ocupava-se de

alimentar a vaidade de cada um,

toda ela era uma sublime

falsidade...


... o conde de Trèves e seu

comborço, o banqueiro judeu

Efraim, tentavam convencer

Jacinto a tornar-se acionista de

uma mirabolante Companhia das

Esmeraldas da Birmânia,

garantindo a segurança do

empreendimento com um

argumento estapafúrdio (que

denunciava tratar-se de uma

negociata):

— Esmeraldas! Está claro que há

esmeraldas!... Há sempre esmeraldas

desde que haja acionistas!...


Dornan, celebrado poeta neoplatônico

e místico ouvia uma história picante e,

impassível, declarava:


— Há melhor, há infinitamente

melhor... Todos aqui conhecem

Madame Noredal. Madame Noredal

tem umas imensas nádegas...


Madame de Oriol, Madame

Verghane, a princesa De

Carman rivalizavam na

elegância sedutora de trajes

e modos...


Esses todos juntaram-se aos demais convidados na arte da

bajulação, quando chegou o grão-duque Casimiro. Este,

irmão de um imperador, do alto de sua majestade,

interessava-se apenas em cançonetas obscenas e nos

prazeres culinários e etílicos.

George Grosz. Eclipse of Sun. (det.) 1926. Oil on canvas.

210 x 184 cm. Heckscher Museum, Huntington, NY, USA


O olhar crítico de Zé Fernandes

Zé Fernandes se

contrapunha a tudo isto

com ironia e uma pseudoignorância.


Festas

Quanto mais aumentam a insatisfação e

as contradições, mais Jacinto intensifica

o uso de máquinas e promove festas e

mais festas.


Eu penso que o riso acabou – porque a

humanidade entristeceu – por causa da sua imensa

civilização. (...) Quanto mais uma sociedade é culta –

mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que

nós criamos nestes derradeiros oitenta anos, a

civilização material, a política, a econômica, a social, a

literária, a artística que matou o nosso riso (...). Tanto

complicamos a nossa existência social, que a ação, no

meio dela, pelo esforço prodigioso que reclama, se

tornou uma dor grande: (...). Os homens de ação e de

pensamento, hoje, estão implacavelmente votados à

melancolia.

[QUEIRÓS, Eça de. A decadência do riso. In: Notas

contemporâneas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, s/d., p. 165,

citado em A POSTURA (ANTI-) DÂNDI E A NOÇÃO DE

DECADÊNCIA NO CONTO CIVILIZAÇÃO, DE EÇA DE QUEIRÓS

Michele Dull Sampaio Beraldo Matter (UFRJ – CNPQ)]


Freud chega ao argumento de que “o que chamamos

de nossa civilização é em grande parte responsável

por nossa desgraça e que seríamos muito mais

felizes se a abandonássemos e retornássemos às

condições primitivas.”

[FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização., 1997, p. 38 citado

em A POSTURA (ANTI-) DÂNDI E A NOÇÃO DE DECADÊNCIA NO

CONTO CIVILIZAÇÃO, DE EÇA DE QUEIRÓS Michele Dull

Sampaio Beraldo Matter (UFRJ – CNPQ)]


Fazem um passeio pela periferia de Paris.

Na colina da Basílica do Sacré-Coeur,

reparam na miséria da cidade. Jacinto

afirma que a cidade é a maior ilusão.

Desilusão


Gustave Caillebotte,

Vue toits, effet de neige (1878)


Fuvest 2010 - Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça

de Queirós, e responda ao que se pede.

Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando

às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha

alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à basílica do Sacré-

Coeur, em construção nos altos de Montmartre. (...) Mas a

basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e

andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem

alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou

gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o

céu cinzento, na planície cinzenta, a cidade jazia, toda cinzenta,

como uma vasta e grossa camada de caliça* e telha. E, na sua

imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo**, mais tênue e

ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o

vestígio visível de sua vida magnífica.

*Caliça: pó ou fragmentos de argamassa ressequida, que

sobram de uma construção ou resultam da demolição de uma

obra de alvenaria.

**Fumo: fumaça.


a) Em muitas narrativas, lugares elevados tornam-se locais em

que se dão percepções extraordinárias ou revelações. No

contexto da obra, é isso que irá acontecer nos “altos de

Montmartre”, referidos no trecho? Justifique sua resposta.

b) Tendo em vista o contexto histórico da obra, por que é Paris

a cidade escolhida para representar a vida urbana? Explique

sucintamente.

c) Sintetizando-se os termos com que, no excerto, Paris é

descrita, que imagem da cidade finalmente se obtém?

Explique sucintamente.


“-Sua Excelência sofre de fartura”

Pessimismo

No auge da insatisfação,

entrega-se então à

leitura do Eclesiastes,

segundo o qual "tudo é

vaidade", e à filosofia

pessimista de

Schopenhauer, para

quem a vida é um

pêndulo que oscila entre

o tédio e o sofrimento.


Três dias após essa festa,

Jacinto recebeu uma

correspondência de Portugal,

com a informação de que sua

propriedade nas serras de

Tormes havia sido muito

castigada por uma terrível

tempestade, que soterrara a

capelinha do século XVI e o

cemitério contiguo, onde jaziam

vários ancestrais do fidalgo.

Para Tormes


Jacinto é obrigado a viajar para

Tormes. Vai em companhia de

Zé Fernandes. Para garantir seu

conforto, envia para lá uma

série de aparelhos e livros.

A viagem de trem, sob uma

forte chuva, é extremamente

atribulada.

Para Tormes


Chegada a Tormes

Após muitos

incidentes chegam à

pequena estação de

Tormes.


Chegada a Tormes

Mas ninguém os esperava e as

bagagens se extraviaram. Foram

para Alba de Tormes, na Espanha.

Jacinto e Zé Fernandes sobem a

serra no lombo de burros e a única

bagagem é a roupa do corpo.


O Solar dos

Jacintos

Ao chegarem encontram

um casarão de pedra

muito antigo e muito

rústico. Servem-lhes

uma sopa caseira para

matarem a fome.


Com a passar do tempo, Jacinto vai

entrando em contato mais íntimo

com a natureza, com o mundo

simples, o que o leva a ter uma nova

perspectiva sobre a vida.

No campo


A cidade e as serras

Civilização

Natureza

+ -

- +

X

Civilização

Natureza


Para os vales, poderosamente

cavados, desciam bandos de

arvoredos, tão copados e

redondos, um verde tão moço, que

eram como um musgo macio onde

apetecia rolar."

A descrição da natureza é

carregada de lirismo.


“Através dos muros seculares,

que sustêm as terras liados pelas

heras, rompiam grossas raízes

coleantes a que mais hera se

enroscava. Em todo o torrão, de cada

fenda, brotavam flores silvestres."


“Assim, vagarosamente e

maravilhados, chegamos àquela

avenida de faias, que sempre me

encantara pela sua fidalga gravidade.”


No campo

Era com delícias, com um consolado sentimento de

estabilidade recuperada, que [Jacinto] enterrava os grossos sapatos

nas terras moles, como no seu elemento natural e paterno: sem razão,

deixava os trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos

emaranhados, e receber na face a carícia das folhas tenras(...)


- Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como tudo é

animado duma vida forte e profunda...!

(...) E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa

diversidade de formas... E todas belas!


Na cidade, pelo contrário, cada casa

repete servilmente a outra casa; todas as

faces reproduzem a mesma indiferença ou a

mesma inquietação; as ideias têm todas o

mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma

forma, como as libras; e até o que há mais

pessoal e íntimo, a ilusão, em todas idêntica, e

todos a respiram, e todos se perdem nela

como no mesmo nevoeiro... A mesmice, eis o

horror das cidades!

A mesmice, eis o horror das

cidades!


(-)

Falibilidade

Consumismo

Futilidade

Artificialismo

Mesmice

Cidade X Campo

Tecnologia

Novidades

Pessoas

Cultura

(+)

Simplicidade

Inteligência

Diversidade

de formas

O encontro

consigo

Autenticidade


Unicamp 2008 - O trecho abaixo pertence ao capítulo VIII de A cidade e as serras,

em que se narra a viagem de Jacinto a Tormes.

Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre

figueiras, onde se esgarçava, fugindo do lar pela telha-vã o fumo branco e cheiroso

das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais,

branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava

alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...

Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:

— Que beleza!

E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:

— Que beleza!

Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho.

(Eça de Queiroz, Obra Completa. Beatriz Berrini (org.). Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997, Vol.II, pp. 561,

grifos nossos.)

a) (Adaptada) De que maneira pode-se

estabelecer uma relação intertextual das

personagens de A Cidade e as serras com

Dom Quixote e Sancho Pança?

b) Explique a relação entre o protagonista e

a paisagem nas duas frases sublinhadas.


Do mesmo modo que

idealizara a vida urbana,

passa por um momento de

euforia com a vida no campo.

Euforia


No entanto, uma forte

tempestade o fará entrar em

contato com a fúria da natureza.

Ao se abrigar em uma cabana,

encontra um garoto pobre, filho

de um colono. Perceberá,

portanto, que há fome e doença

em suas terras.


-Mas este pequeno também parece doente! - exclamou

Jacinto. - Coitado, tão amarelo!... Tu também estás doente?

O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes

olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:

-Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e

enfezadito porque... Que quer V.Exª? Mal comido! muita

miséria.... Quando há o bocadito de pão é para todo o

rancho. Fomezinha, fomezinha!

Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.

-Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome?

Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que

pediam, ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta

miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Príncipe:

-Homem! Está claro que há fome! Tu imaginavas talvez que

o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho

e sem miséria...


Protetor dos pobres

Assumirá, a partir daí,

o papel de um grande

bem feitor, protetor

dos pobres.

Sebastianismo – Jacinto vai ser confundido

com a figura mítica de Dom Sebastião: aquele

que, após o desaparecimento, voltará para

restabelecer a ordem.


O Grilo arredou os óculos para a testa, e

levantando para o ar os cinco dedos em curva

como pétalas duma tulipa:

-Sua Exª brotou!

Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele

ressequido galho da Cidade, plantado na serra,

pregara, chupara o humo do torrão herdado, criara

seiva, afundara raízes, engrossara de tronco,

atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno,

ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando

sombra. E abrigados pela grande árvore, e pôr ela

nutridos, cem casais em redor a bendiziam.


Paris

Galho ressequido

Tédio, pessimismo e

infelicidade

JACINTO

Árvore protetora

Tormes

Árvore: sombra,

alimento, abrigo.

Proteção aos mais

humildes.

Raízes: fixação,

sustentação

Preso à tradição

Terra: Natureza

Pátria – Portugal


FUVEST 1995 - Os romances de Eça de Queirós

costumam apresentar críticas a aspectos importantes

da sociedade portuguesa, freqüentemente

acompanhadas de propostas (explícitas ou implícitas)

de reforma social. Em A Cidade e as Serras'.

a) qual o aspecto que se critica nas elites

portuguesas?

b) qual é a relação, segundo preconiza o romance,

que essas elites deveriam estabelecer com as classes

subalternas?


Sebastianismo

Então, de trás da umbreira da taverna, uma grande voz

bradou, cavamente, solenemente:

-Bendito seja o Pai dos Pobres!

E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas

brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão

da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa a tiracolo, e

cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que

faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo

lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto

os olhos, que se dilatavam mais negros. E mandei vir outro

copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.

-Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse

bem à pobreza.


O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía,

cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.

-A mão!

E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a

luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir

lento e pensativo, murmurando:

-Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!

[...] Eu então debrucei a face para ele, mais em confidência:

-Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí,

pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltara?


(Fuvest 2009) Leia o trecho de A cidade e as serras, de

Eça de Queirós, e responda ao que se pede.

a) No trecho, Jacinto é chamado, pelo velho, de “Pai dos Pobres”.

Essa qualificação indica que Jacinto mantinha com os pobres da

serra uma relação democrática e igualitária? Justifique sua resposta.

b) Tendo em vista o contexto da obra, explique sucintamente por que

o narrador, no final do trecho, se refere a “el-rei D. Sebastião”.


a) Não. Apesar da benevolência e das bem feitorias de

Jacinto, semanticamente a palavra pai pressupõe um posição

de superioridade. O próprio trecho proposto exemplifica esta

tese, pois ao cumprimentar o Tio João Torrado, Jacinto retira

suas luvas - símbolo de sua posição aristocrática. Por seu

turno, o velho se extasia: "Mão real, mão de dar, mão que

vem de cima, mão já rara." Por outro lado, e numa

perspectiva mais ampla, a obra (e conseguintemente seu

autor) não propõem uma ruptura com as velhas estruturas

econômicas e sociais seculares, que não são democráticas,

pois não há participação popular nas decisões políticas, e

nem igualitárias, uma vez que as relações sociais são

verticalizadas. Jacinto mantém a posse de suas propriedades

e sobrevive com a renda advinda delas. Trata-se, em última

análise, de um paternalismo social, disfarçado de um

"socialismo humanitarista".


) O sebastianismo é um mito que pertence ao imaginário

português e que atravessou também o Atlântico chegando ao

Brasil. Trata-se da crença messiânica da volta do Rei Dom

Sebastião, incorporado em um alguém "importante", que tem

a missão de restaurar a "ordem" em meio ao caos, e trazer a

Redenção - a Glória e a Felicidade. De teor fortemente

religioso, pressupõe um profeta - "Era o tio João Torrado, o

profeta da serra..." - que anuncia e reconhece o salvador -

Jacinto, "o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem a

pobreza."


Movimentos de Jacinto

Primeira parte Segunda parte

1º mov.

2º mov.

1º mov. – euforia pela civilização

2º mov. – desânimo - falhas da

tecnologia

3º mov. – Infelicidade e pessimismo

4º mov.

José Fernandes

3º mov. 5º mov.

4º mov. – euforia pela natureza

5º mov. – disforia - fome, miséria e

doença entre a população pobre

6º mov. – Equilíbrio - benfeitorias

6º mov.


O equilíbrio

Atingirá Jacinto encontra um equilíbrio seu

ao caminho: unir o que casa-se a

sociedade com Joaninha, urbana prima tem

de melhor Zé Fernandes, e útil, e

como, tem com por ela exemplo dois o

telefone, filhos, Jacinto com a e

simplicidade Teresa.

dos

camponeses.


A felicidade final

O “Príncipe da Grã-Ventura” deixará,

definitivamente, o artificialismo da cidade.

Na vida simples encontra, finalmente, a paz e a

felicidade perdidas.


Fim


(Fuvest) Texto para a próxima questão

Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do céu,

realmente celestial, e dos campos, onde cada folhinha conservava uma quietação

contemplativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve

afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos

suspirar de puro alívio.

Depois, muito gravemente:

- Tu dizes que na Natureza não há pensamento...

- Outra vez! Olha que maçada! Eu...

- Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento! Nós,

desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar

e impedir que ele se estonteie e se esfalfe como na fornalha das cidades, ideando gozos que

nunca se realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas

colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita - que viva na paz de um sonho vago

e nada apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o mundo rolar, não esperando

dele senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão de

Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?

- Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou

ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de certos Jacintos...

Eça de Queirós, A cidade e as serras.


1. Considerado no contexto de A cidade e as serras, o diálogo presente no

excerto revela que, nesse romance de Eça de Queirós, o elogio da natureza

e da vida rural

a) indica que o escritor, em sua última fase, abandonara o Realismo em

favor do Naturalismo, privilegiando, de certo modo, a observação da

natureza em detrimento da crítica social.

b) demonstra que a consciência ecológica do escritor já era desenvolvida o

bastante para fazê-lo rejeitar, ao longo de toda a narrativa, as intervenções

humanas no meio natural.

X

c) guarda aspectos conservadores, predominantemente voltados para a

estabilidade social, embora o escritor mantenha, em certa medida, a prática

da ironia que o caracteriza.

d) serve de pretexto para que o escritor critique, sob certos aspectos, os

efeitos da revolução industrial e da urbanização acelerada que se haviam

processado em Portugal nos primeiros anos do Século XIX.

e) veicula uma sátira radical da religião, embora o escritor simule conservar,

até certo ponto, a veneração pela Igreja Católica que manifestara em seus

primeiros romances.

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