Boias-frias e suas máquinas sonhadoras - Agenciawad.com.br

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José”, observando os urubus que sobrevoavam em círculos sobre a favela, disse com uma<br />

ponta de ironia e humor: “O que tá com fome lá em cima tá de olho no que tá com fome<br />

aqui em baixo, rê, rê.”<br />

Parafraseando a questão que Pierre Clastres (1988: 91-102) lançou em relação aos “índios”,<br />

pergunto: De que riem os “bóias-frias”? Talvez uma dica venha de Walter Benjamin<br />

(1985b: 33), conforme o princípio que ele detectou na proposta surrealista: “De nada nos<br />

serve a tentativa patética ou fanática de apontar no enigmático o seu lado enigmático; só<br />

devassamos o mistério na medida em que o encontramos no cotidiano, graças a uma ótica<br />

dialética que vê o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano.”<br />

BAUDELAIRE E O BARROCO<br />

Evocando o momento do surgimento do capitalismo industrial, Karl Marx (Marx 1982;<br />

apud Berman 1990:19) escreveu: “Tudo parecia estar impregnado do seu contrário.”<br />

Enquanto drama de tornar-se “bóia-fria”, marcando também um momento liminar no<br />

processo de tornar-se mercadoria, “cair na cana” produz uma imagem carregada de tensões.<br />

Na madrugada do dia chuvoso que acabamos de comentar, indo aos canaviais, cortadores<br />

de cana tiravam sarro do caminhão do turmeiro em que andavam. “Baleia fora d’água!” O<br />

caminhão deslizava sobre o barro de uma estrada estreita, vicinal. Em direção contrária,<br />

voltando dos canaviais, um outro caminhão, carregado de cana, vinha pela mesma estrada.<br />

Um dos rapazes da turma gritou: “Sai da estrada, caminhão velho, ferro velho, baleia fora<br />

d’água! Deixa passar, que esse aí é Ford novo!” Alguém sentado ao seu lado disse o óbvio:<br />

“Os pé-de-cana viaja melhor que os bóia-fria.” Claro, também havia cumplicidade entre<br />

“bóias-frias” e “pés-de-cana”: ambos viravam mercadorias. “Bóias-frias” frequentemente<br />

falavam de si mesmos, com uma ponta de humor, como se fossem “pés-de-cana”. Na<br />

estrada, porém, o “pé-de-cana” cortado ganhava precedência sobre o cortador.<br />

A expressão, “pé-de-cana”, era usada como metáfora da própria condição do “bóia-fria”. O<br />

mesmo não se fazia com o termo “açúcar”. Trata-se, talvez, de uma identificação com um<br />

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