O Deus das Pequenas Coisas

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O Deus das Pequenas Coisas

Booker Prize 1997

o mais importante prémio literário de língua inglesa

ARUNDHATI ROY

O Deus das

Pequenas

Coisas


O Deus das Pequenas Coisas é a história

de três gerações de uma família da região de Kerala,

no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo

e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita

de muitas histórias. As histórias dos gémeos Estha

e Rahel, nascidos em 1962, por entre notícias

de uma guerra perdida. A de sua mãe Ammu, que

ama de noite o homem que os filhos amam de dia,

e de Velutha, o intocável deus das pequenas coisas.

A da avó Mammachi, a matriarca cujo corpo

guarda cicatrizes da violência de Pappachi. A do

tio Chacko, que anseia pela visita da ex-mulher

inglesa, Margaret, e da filha de ambos, Sophie Mol.

A da sua tia-avó mais nova, Baby Kochamma,

resignada a adiar para a eternidade o seu amor

terreno pelo padre Mulligan. Estas são as pequenas

histórias de uma família que vive numa época

conturbada e de um país cuja essência parece

eterna. Onde só as pequenas coisas são ditas e

as grandes coisas permanecem por dizer.


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PICKLES & CONSERVAS PARAÍSO

Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado. Os

dias são longos e húmidos. O rio estreita e corvos pretos

devoram mangas reluzentes nas árvores imóveis no seu

verde-pó. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas rebentam.

Vespas dissolutas zumbem indolentemente no ar

suculento. Depois chocam contra a limpidez das vidraças e

morrem, inchadas e aturdidas pelo sol.

As noites são límpidas, mas inundadas de ócio e de

soturna expectativa.

Porém, no princípio de Junho, a monção sudoeste

irrompe e principiam três meses de vento e água, com

pequenas abertas de sol brilhante que crianças excitadas

aproveitam para brincar. O campo cobre-se de um verde

atrevido. As fronteiras esbatem-se à medida que as sebes

de tapioca ganham raiz e florescem. Muros de tijolo

cobrem-se de verde-musgo. As pimenteiras serpenteiam

pelos postes de electricidade. Trepadeiras silvestres rebentam

por entre as margens de laterite e galgam as estradas

inundadas. Barcos bolinam nos bazares. E peixe miúdo

agita-se nas poças que enchem os buracos nas estradas do

Departamento de Obras Públicas.

Chovia quando Rahel regressou a Ayemenem. Oblíquas

cordas prateadas estoiravam sobre a terra solta, sulcando-a

como pólvora. A velha casa na colina usava o telhado inclinado

com beiral como quem usa um chapéu de aba des-

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caída enterrado até às orelhas. As paredes, raiadas de

musgo, tinham-se tornado moles e ligeiramente bojudas

devido à humidade proveniente do solo. O jardim selvagem

e pujante estava repleto do sussurro e frémito de vidas

diminutas. Por entre a vegetação rasteira, uma cobra esfregava-se

contra uma pedra cintilante. Rãs amarelas, enormes

e esperançadas, navegavam pelo lago escumoso à procura

de parceiros. Um mangusto encharcado disparou pela

alameda coberta de folhas.

A casa parecia vazia. As portas e as janelas estavam trancadas.

A varanda da frente deserta. Sem mobília. Mas o

Plymouth azul-celeste com barbatanas cromadas ainda

estava parado lá fora e Baby Kochamma ainda estava viva

lá dentro.

Era a tia-avó de Rahel, a irmã mais nova do seu avô. O seu

verdadeiro nome era Navomi, Navomi Ipe, mas todos lhe

chamavam Baby. Tornou-se Baby Kochamma quando já

tinha idade suficiente para ser tia. Rahel não a viera ver,

porém. Nem sobrinha nem tia-avó alimentavam ilusões a

esse respeito. Rahel viera ver o irmão, Estha. Eram gémeos

biovulares. «Dizigó ticos», chamavam-lhes os médicos. Nascidos

de dois óvulos separados mas fertilizados simultaneamente.

Estha – Esthappen – era mais velho dezoito minutos.

Estha e Rahel nunca se pareceram muito, e mesmo

quando eram crianças de braços magros e peito liso, com

lombrigas na barriga e poupa à Elvis Presley, não despertavam

o habitual «Quem é quem?» e «Qual é qual?» a

parentes demasiado sorridentes ou aos bispos sírios ortodoxos

que amiúde visitavam a casa de Ayemenem pedindo

donativos.

A confusão alojava-se num lugar mais fundo e secreto.

Nesses primeiros anos amorfos, quando a memória

estava ainda a começar, quando a vida parecia cheia de

Princípios e sem Fins e Tudo era Para Sempre, juntos

Esthappen e Rahel consideravam-se como Eu e, separada

e individualmente, como Nós. Como se fossem uma espécie

rara de gémeos siameses, fisicamente separados mas

com identidades unidas.

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Agora, passados esses anos, Rahel lembra-se de acordar

uma noite aos risinhos por causa do sonho divertido de

Estha.

Guarda também outras lembranças que não tem o direito

de guardar.

Lembra-se, por exemplo (embora não tenha lá estado),

do que o Ho mem Laranjada Limonada fez a Estha no

Cinema Fitas Abhilash. Lembra-se do sabor das sandes de

tomate – sandes de Estha, que Estha comia – no Expresso

de Madrasta para Madrasta.

E estas eram apenas as pequenas coisas.

De qualquer modo, agora pensa em Estha e Rahel

como Eles porque, separadamente, eles os dois já não

são o que Eles eram ou aquilo que algum dia pensaram

que Eles seriam.

Nunca mais.

As suas vidas têm agora tamanho e forma. Estha tem a

dele e Rahel tem a dela.

Margens, Orlas, Fronteiras, Bordas e Limites apareceram

como um bando de duendes nos seus horizontes separados.

Criaturas pequenas com sombras longas, patrulhando

o Fim Turvo. Meias-luas suaves formaram-se sob os

seus olhos e eles têm a idade que Ammu tinha quando

morreu. Trinta e um.

Nem velhos.

Nem novos.

Mas de uma idade viável, morrível.

Estha e Rahel quase nasceram num autocarro: o carro

em que Baba, o seu pai, transportava Ammu, a sua mãe,

para o hospital de Shillong para ela dar à luz, avariou na

estrada ziguezagueante da propriedade do chá em Assão.

Abandonaram o carro e fizeram sinal a um autocarro apinhado

dos Trans portes Estatais. Devido à estranha compaixão

dos muito pobres pelos comparativamente desafo-

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gados, ou talvez apenas por notarem a avançadíssima gravidez

de Ammu, alguns passageiros sentados cederam o

lugar ao casal e, durante o resto da viagem, o pai de Estha

e Rahel teve de segurar o ventre da sua mãe (com eles lá

dentro) para o impedir de balouçar. Isso foi antes de eles se

divorciarem e de Ammu voltar a viver em Kerala.

Segundo Estha, se tivessem nascido no autocarro poderiam

ter usufruído de viagens de autocarro gratuitas

durante o resto da vida. Ninguém sabia exactamente onde

ele obtivera tal informação, ou como é que sabia tais coisas,

mas durante anos a fio os gémeos guardaram um leve

ressentimento contra os pais por estes os terem deserdado

de uma vida inteira de viagens de autocarro gratuitas.

Também acreditavam que, se fossem atropelados numa

passadeira, o Governo pagaria os seus funerais. Tinham a

certeza absoluta de que era para isso que as passadeiras

existiam. Funerais pagos. Claro que em Ayemenem não

havia passadeiras onde se pudesse ser atropelado, nem

sequer em Kottayam, a cidade mais próxima, mas eles

tinham visto algumas pela janela do carro no caminho para

Cochim, que ficava a duas horas de viagem.

O Governo nunca pagou o funeral de Sophie Mol porque

ela não foi atropelada numa passadeira. O funeral dela

foi em Ayemenem, na igreja velha recém-pintada. Sophie

era prima de Estha e Rahel, filha do tio Chacko. Viera em

visita de Inglaterra. Estha e Rahel tinham sete anos quando

ela morreu. Sophie Mol tinha quase nove. Teve um caixão

especial de tamanho infantil.

Forrado a cetim.

Com puxadores de bronze reluzentes.

Ela estava deitada no caixão, com as suas calças Crimplene

amarelas à boca de sino, uma fita no cabelo e a sua

adorada malinha go-go made in England. Tinha o rosto

pálido e encarquilhado como o polegar de um dhobi

depois de estar demasiado tempo na água a lavar roupa.

A congregação reuniu-se à volta do caixão e a igreja ama-

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ela inchou como uma garganta ao som dos cânticos tristes.

Os padres com barbas encaracoladas balouçavam os turíbulos

de incenso suspensos em correntes e nunca sorriam

aos bebés como costumavam sorrir aos domingos.

As velas grandes sobre o altar estavam arqueadas. As

pequenas não.

Uma velha senhora disfarçada de parente distante (que

ninguém reconheceu), mas que frequentemente aparecia

perto dos cadáveres em funerais (uma viciada em funerais?

uma necrófila latente?), colocou colónia num chumaço de

algodão e, com ar devoto e gentilmente desafiador, salpicou

a testa de Sophie Mol. Sophie Mol cheirava a colónia

e a madeira de caixão.

Margaret Kochamma, a mãe inglesa de Sophie Mol, não

deixou Chacko, o pai biológico de Sophie Mol, pôr o

braço à sua volta para a confortar.

A família aglomerou-se num canto. Margaret Kochamma,

Chacko, Baby Kochamma e, ao lado dela, a cunhada,

Mammachi – a avó de Estha e Rahel (e de Sophie Mol).

Mammachi era quase cega e usava óculos escuros sempre

que saía de casa. As lágrimas escorriam-lhe por trás dos

óculos e tremiam-lhe no queixo como gotas de chuva num

beiral. Parecia pequena e doente no seu sari branco-sujo e

engomado. Chacko era o único filho de Mammachi. A dor

dela doía-lhe. A dele dilacerava-a.

Embora Ammu, Estha e Rahel tivessem sido autorizados

a assistir ao funeral, foram obrigados a permanecer separados

do resto da família. Nin guém olhava para eles.

Estava calor na igreja e as pontas brancas dos jarros

engelhavam e encaracolavam. Uma abelha morreu numa

flor do caixão. As mãos de Ammu tremeram e, com elas,

o livro de hinos. Tinha a pele fria. Junto dela estava Estha,

quase a dormir, os olhos doendo e brilhando como vidro,

a face escaldando a pele descoberta do braço de Ammu

que tremia ao segurar o livro de hinos.

Rahel, por seu lado, estava bem acordada, ferozmente

vigilante, frágil e exausta na sua batalha contra a Vida

Real.

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Reparou que Sophie Mol estava acordada para o seu

funeral. Ela mostrou a Rahel Duas Coisas.

A Coisa Número Um era a cúpula da igreja amarela pintada

de novo que Rahel nunca vira por dentro. Estava pintada

de azul como o céu, com nuvens que flutuavam e

minúsculos aviões a jacto que silvavam e deixavam rastos

brancos por entre as nuvens. É verdade (e é preciso dizê-lo)

que teria sido mais fácil ver essas coisas estando deitada

num caixão e olhando para cima do que estando de pé num

recanto da igreja, cercada por ancas tristes e livros de hinos.

Rahel pensou no homem que se tinha dado ao trabalho

de trepar até lá acima com latas de tinta, branco para as

nuvens, azul para o céu, prateada para os jactos, e ainda

pincéis e diluente. Imaginou-o lá em cima, alguém como

Velutha, de tronco nu e lustroso, sentado numa prancha,

balouçando-se do andaime na cúpula alta da igreja e pintando

jactos prateados num céu azul de igreja.

Pensou no que aconteceria se a corda rebentasse. Imaginou-o

a cair como uma estrela escura do céu feito por si.

Estendido e despedaçado no chão quente da igreja, sangue

escuro derramando-se-lhe do crânio como um segredo.

Por essa altura já Esthappen e Rahel tinham aprendido

que o mundo tem outras maneiras de despedaçar os

homens. Já lhe conheciam o cheiro. Enjoa-doce. Como

rosas velhas na brisa.

A Coisa Número Dois que Sophie Mol mostrou a Rahel

foi o morcego bebé.

Durante o serviço fúnebre, Rahel observou um pequeno

morcego preto a trepar pelo caro sari fúnebre de Baby

Kochamma, agarrando-se suavemente com as suas garras

curvas. Quando chegou ao sítio entre o sari e a blusa, ao

seu colo de tristeza, ao seu diafragma nu, Baby Kochamma

gritou e esgrimou o ar com o livro de hinos. O cântico suspendeu-se

com um «Oquéisto? Oquécaconteceu?» e deu

lugar a um roçagar de peles e farfalhar de saris.

Os padres tristes sacudiam o pó das suas barbas encaracoladas

com dedos cobertos de anéis dourados, como se

aranhas escondidas tivessem te cido súbitas teias nelas.

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O morcego bebé voou para o céu e transformou-se num

avião a jacto sem rasto branco.

Só Rahel reparou no secreto sobressalto de Sophie dentro

do caixão.

O cântico triste recomeçou e eles cantaram duas vezes o

mesmo verso triste. E uma vez mais a igreja amarela inchou

como uma garganta com vozes.

Quando baixaram o caixão de Sophie Mol à cova no

pequeno cemitério atrás da igreja, Rahel sabia que ela

ainda não estava morta. Ouviu (em nome de Sophie Mol)

as batidas suaves da lama vermelha e as batidas duras da

laterite laranja que arranhavam o lustro brilhante do caixão.

Ouviu os baques baços através da madeira polida do

caixão, através do forro acetinado do caixão. As vozes tristes

dos padres abafadas pela lama e pela madeira.

Confiamos-Te, Pai misericordioso,

A alma desta filha que nos deixa,

E entregamos o seu corpo à terra,

Terra à terra, cinza à cinza, pó ao pó.

Dentro da terra, Sophie Mol gritava e rasgava o cetim às

dentadas. Mas é impossível ouvir gritos através da terra e

da pedra.

Sophie Mol morreu por não poder respirar.

O funeral dela matou-a. Pó ó pó ó pó ó pó. Na sua sepultura

estava escrito Um Raio de Sol Brilhando Brevemente

sobre Nós.

Ammu explicou mais tarde que Brevemente queria dizer

Por Um Período Muito Curto.

Depois do funeral, Ammu levou os gémeos de volta à

esquadra da polícia de Kottayam. O lugar já lhes era familiar.

Tinham passado lá uma boa parte do dia anterior.

Conhecedores já do fedor forte e fumegante de urina

retardada que impregnava as paredes e a mobília, tapa-

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am firmemente as narinas antes que o cheiro se fizesse

sentir.

Ammu perguntou pelo Chefe da Esquadra e quando a

conduziram ao seu escritório disse-lhe que houvera um terrível

engano e que queria depor. Pediu para ver Velutha.

Os bigodes do Inspector Thomas Mathew agitavam-se

como os do simpático Marajá da Air India, mas os olhos

eram astutos e ávidos.

– É um bocadinho tarde de mais para isso, não acha? –

disse ele. Falava o grosseiro dialecto malaiala de Kottayam.

Enquanto falava, não tirava os olhos dos seios de Ammu.

Disse que a polícia sabia tudo o que precisava de saber e

que a Polícia de Kottayam não aceitava depoimentos de

veshyas nem dos seus filhos ilegítimos. Ammu disse que

isso ainda estava para ver. O Inspector Thomas Mathew

saiu de detrás da sua secretária e aproximou-se de Ammu

segurando o bastão.

– No seu lugar – disse ele – ia calmamente para casa. –

Depois tocou nos seios dela com o bastão. Suavemente.

Tap, tap. Como se estivesse a escolher mangas de um cesto

e apontasse para as que queria que lhe embrulhassem e

entregassem. O Inspector Thomas Mathew parecia saber

quem podia escolher e quem não podia. Os polícias têm

esse instinto.

Por trás dele um letreiro vermelho e azul dizia:

Protecção

Obediência

Lealdade

Inteligência

Cortesia

Integridade

Amabilidade

Quando saíram da esquadra, Ammu chorava e nem

Estha nem Rahel lhe perguntaram o que queria dizer veshya.

Ou, já agora, ilegítimo. Era a primeira vez que viam a

mãe a chorar. Não soluçava. O rosto parecia pedra, mas as

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lágrimas brotavam-lhe dos olhos e rolavam pelas suas faces

rígidas. Os gémeos sentiam-se doentes de medo. As lágrimas

de Ammu tornavam real tudo o que até agora parecera

irreal. Regressaram a Ayemenem de autocarro. O cobrador,

um minúsculo homem de caqui, deslizou até eles pelos

varões do autocarro. Encostou a anca ossuda às traseiras de

um banco e premiu o seu furador na direcção de Ammu.

Para onde? era o que o estalido queria dizer. Rahel podia

sentir o cheiro do maço de bilhetes e a acidez dos varões de

aço nas mãos do cobrador.

– Ele está morto – murmurou-lhe Ammu. – Eu matei-o.

– Ayemenem – atalhou logo Estha, antes que o cobrador

perdesse a paciência.

Tirou o dinheiro da carteira de Ammu. O cobrador

entregou-lhe os bilhetes. Estha dobrou-os cuidadosamente

e guardou-os no bolso. Depois pôs os seus bracitos à volta

do corpo rígido e choroso da mãe.

Duas semanas depois, Estha foi Devolvido. Ammu teve

de o devolver ao pai deles, que por essa altura se demitira

do seu solitário cargo estadual nas plantações de chá de

Assão e se mudara para Calcutá onde trabalhava numa

companhia produtora de carvão preto. Voltara a casar, deixara

(quase) de beber, e tinha apenas recaídas ocasionais.

Desde então, Estha e Rahel não se voltaram a ver.

E agora, vinte e três anos depois, o seu pai tinha re-

-Devolvido Estha. Tinha-o mandado de volta para Ayemenem

com uma mala e uma carta. A mala estava cheia de

roupas novas e vistosas. Baby Kochamma mostrou a carta

a Rahel. Estava escrita numa caligrafia inclinada e feminina

de colégio religioso, mas a assinatura por baixo era a do

pai. Ou pelo menos o nome era. Rahel não saberia reconhecer

a assinatura. A carta dizia que ele, o pai deles, se

reformara do seu emprego de carvão preto e ia emigrar

para a Austrália, onde tinha um emprego como Chefe de

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Segurança numa fábrica de cerâmica, e que não podia levar

Estha consigo. Desejava as maiores felicidades a todos em

Ayemenem e dizia que procuraria Estha caso voltasse à

Índia, o que, acrescentava a carta, seria pouco provável.

Baby Kochamma disse a Rahel que ela poderia guardar

a carta se quisesse. Rahel meteu-a de novo no envelope.

O papel amolecera e dobrava-se como tecido.

Rahel esquecera-se como era húmido o ar da monção

em Ayemenem. Os armários inchados estalavam. As janelas

fechadas abriam-se de repente. As folhas dos livros

amoleciam e enrugavam-se entre as capas. Insectos estranhos

surgiam como ideias ao entardecer e queimavam-se

nas ténues lâmpadas de 40 watts de Baby Kochamma.

Durante o dia, os seus corpos incinerados sujavam o soalho

e os parapeitos e, até Kochu Maria os varrer para o seu

apanhador de plástico, o ar cheirava a Alguma Coisa a

Arder.

Não mudara, a Chuva de Junho.

O céu abriu-se e a água martelou a terra, reavivando o

velho poço relutante, cobrindo de musgo o chiqueiro sem

porcos, bombardeando um tapete de poças silenciosas cor

de chá, como a memória bombardeia mentes silen ciosas

cor de chá. A erva pareceu satisfeita no seu verde húmido.

As lagartas folgaram felizes na lama. As urtigas verdes acenaram.

As árvores inclinaram-se.

Mais adiante caminhava Estha ao vento e à chuva, nas

margens do rio, no súbito negrume que acompanha a trovoada.

Vestia uma T-shirt rosa-mo rango desbotado, escurecida

agora pela molha, e sabia que Rahel chegara.

Estha fora sempre uma criança calada, por isso ninguém

sabia dizer com precisão a exacta altura (o ano, senão

mesmo o mês ou o dia) em que ele deixara de falar. O facto

é que não havia uma «altura exacta». Como um negócio

que vai abrandando, abrandando, até parar. Um emudecimento

quase imperceptível. Como se tivesse simplesmente

esgotado a conversa e não tivesse mais nada a dizer. Mas o

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silêncio de Estha nunca era incómodo. Nunca era intrometido.

Nunca era barulhento. Não era um silêncio acusador,

de protesto, mas uma espécie de entorpecimento estival,

uma dormência, o equivalente psicológico daquilo que os

dipneus fazem para sobreviver na estação seca; excepto

que, no caso de Estha, a estação seca parecia destinada a

durar para sempre.

Com o tempo, foi adquirindo a capacidade de se fundir

com o ambiente circundante – estantes, jardins, cortinados,

vestíbulos, ruas –, de parecer inanimado e quase invisível

a um olhar inexperiente. Habitualmente os estranhos

demoravam a aperceber-se dele mesmo que estivessem no

mesmo compartimento. Demoravam ainda mais a aperceber-se

de que ele nunca falava. Alguns nunca chegavam a

aperceber-se.

Estha ocupava muito pouco espaço no mundo.

Depois do funeral de Sophie Mol, quando Estha foi

Devolvido, o pai mandara-o para uma escola de rapazes em

Calcutá. Não era um aluno excepcional mas também não

tinha dificuldades, nem era particularmente mau em nada.

Aluno médio, ou Aproveitamento satisfatório eram os

comentários habituais que os professores escreviam nos

Boletins Anuais de Avaliação Contínua. Não participa em

Actividades de Grupo era outra queixa frequente. Embora

nunca dissessem exactamente o que queriam dizer com

«Actividades de Grupo».

Estha acabou o liceu com resultados medíocres, mas

recusou-se a ir para a faculdade. Em vez disso, e para

grande embaraço inicial do pai e da ma dras ta, começou a

fazer a lida da casa. Como se, à sua maneira, tentasse

ganhar o seu sustento. Varria, esfregava e lavava a roupa.

Aprendeu a cozinhar e a comprar os legumes. Os vendedores

no bazar, sentados atrás de pi râmides de legumes lustrosos

e brilhantes, aprenderam a reconhecê-lo e atendiam-

-no por entre a algazarra dos outros clientes. Davam-lhe

latas ferrugentas para ele guardar os legumes que escolhia.

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Ele nunca regateava. Eles nunca o enganavam. Depois de

pesarem e receberem o dinheiro dos legumes, colocavam-

-nos na sua cesta de plástico vermelho (cebolas no fundo,

beringelas e tomates por cima), acrescentando sempre um

ramo de coentros e um punhado de malaguetas de graça.

Estha transportava-os para casa no eléctrico apinhado.

Uma gota calada flutuando num mar de ruído.

Às refeições, quando queria alguma coisa, levantava-se e

servia-se.

Quando o mutismo chegou, ficou e alastrou em Estha.

Estendeu-se para fora da sua cabeça e envolveu-o nos seus

braços pantanosos. Embalava-o ao ritmo de uma pulsação

antiga e fetal. Enviou os seus tentáculos furtivos e viscosos

para que se insinuassem pelo interior do crânio, sugando

os montes e vales da memória, desalojando velhas frases,

empurrando-as para longe da ponta da sua língua. Despiu

os seus pensamentos das palavras que os descreviam, deixando-os

podados e nus. Indizíveis. Tolhidos. E, por isso,

para um observador, talvez mesmo inexistentes. Lentamente,

ao longo dos anos, Estha foi-se retirando do

mundo. Habituou-se ao polvo inquieto que vivia dentro de

si e lhe injectava a sua tinta tranquilizadora no passado.

Gradual mente, a razão do seu silêncio foi-se ocultando,

sepultada nas profundezas dos contornos reconfortantes

desse facto.

Quando Khubchand, o seu amado rafeiro de dezassete

anos, cego, calvo e incontinente, decidiu encenar uma

morte lenta e miserável, Estha cuidou dele durante essa

provação final como se a sua própria vida dependesse

disso. Nos últimos meses de vida, Khubchand, que tinha a

melhor das intenções e a pior das bexigas, arrastava-se até

ao janelo aberto na parte inferior da porta para lhe dar

acesso ao quintal, empurrava-o com a cabeça e urinava tremulamente

um líquido amarelo brilhante do lado de dentro.

Depois, com a bexiga vazia e a consciência limpa,

erguia para Estha os olhos verdes opacos que pareciam

poças escumosas incrustadas no seu crânio grisalho, e cambaleava

de regresso à sua almofada húmida, deixando mar-

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cas molhadas no soalho. Quando Khubchand estava a

morrer na sua almofada, Estha podia ver a janela do quarto

reflectida nos testículos lisos e púrpura do cão. E o céu

mais além. E, uma vez, um pássaro cruzando-o em pleno

voo. Para Estha – impregnado do cheiro de rosas velhas,

ensanguentado pela lembrança de um homem despedaçado

– o facto de algo tão frágil e tão insuportavelmente

delicado ter sobrevivido, de lhe ter sido consentido existir,

era um milagre. O voo de um pássaro reflectido nos testículos

de um cão velho. Fazia-o sorrir com um sorriso

aberto.

Após a morte de Khubchand, Estha começou a caminhar.

Caminhava horas sem fim. De início patrulhava apenas

a vizinhança mas, gradualmente, foi-se afastando cada

vez mais de casa.

As pessoas habituaram-se a vê-lo na estrada. Um homem

bem vestido caminhando calado. A sua face tornou-se tisnada.

Áspera. Enrugada pelo sol. Começou a parecer mais

sábio do que realmente era. Como um pescador na cidade.

Com segredos marinhos dentro de si.

Agora que tinha sido re-Devolvido, Estha caminhava

por todos os locais de Ayemenem.

Uns dias caminhava ao longo das margens do rio que

cheirava a esterco e a pesticidas comprados com empréstimos

do Banco Mundial. A maioria dos peixes morrera. Os

que sobreviveram sofriam de distomatose das barbatanas e

enchiam-se de furúnculos.

Outros dias caminhava pela estrada abaixo. Passava

pelas casas novas, acabadas de construir, climatizadas,

com-dinheiro-do-Golfo, mandadas fazer por enfermeiras,

pedreiros, armadores de ferro e funcionários bancários que

tinham trabalhado no duro e na infelicidade em lugares

distantes. Passando pelas casas mais velhas e ressentidas,

tingidas do verde da inveja, acocoradas nos seus acessos

privados entre as suas árvores de borracha privadas. Cada

qual um feudo vacilante com a sua própria epopeia.

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Passando pela escola da aldeia que o seu bisavô mandara

construir para as crianças Intocáveis.

Passando pela igreja amarela de Sophie Mol. Pelo Clube

Juvenil de Kung Fu de Ayemenem. Pela Creche das Flores

em Botão (para Tocáveis), pela loja de racionamento que

vendia arroz, açúcar e bananas, suspensas do tecto em

cachos amarelos. Revistas soft-porn baratas sobre fictícios

maníacos do sexo do Sul da Índia estavam presas por

molas a cordas penduradas do tecto. Giravam preguiçosamente

na brisa morna, tentando honestos compradores de

rações com vislumbres de mulheres nuas e maduras deitadas

em charcos de sangue falso.

Por vezes, Estha passava pela Lucky Press – a editora do

velho Cama rada K. N. M. Pillai, outrora a sede do Partido

Comunista de Ayemenem, onde à meia-noite se realizavam

reuniões de trabalho e se imprimiam e distribuíam panfletos

com as letras inflamadas das canções do Partido Marxista.

A bandeira que flutuava no telhado ficara velha e

gasta. O vermelho desbotara.

O próprio Camarada Pillai saía dali de manhã, vestindo

uma túnica Aertex de um branco cada dia mais sujo, os testículos

desenhados contra o seu mundu branco e macio.

Com óleo de coco quente e apimentado, mas sajava a pele

velha e flácida que lhe pendia dos ossos como pastilha elástica.

Vivia agora sozinho. A mulher, Kalyani, morrera de

cancro nos ovários. O filho, Lenin, mudara-se para Deli,

onde trabalhava como fornecedor de serviços para embaixadas

estrangeiras.

Sempre que o Camarada Pillai se massajava com óleo de

coco à porta de casa e via Estha passar, fazia questão de o

cumprimentar.

– Estha Mon! – chamava ele na sua voz aguda e aflautada,

agora gasta e fibrosa, como cana-de-açúcar descascada.

– Bom dia! Dando o teu passeio diário?

Estha continuava a caminhar, nem rude, nem delicado.

Apenas calado.

O Camarada Pillai dava palmadas por todo o corpo para

estimular a circulação. Não sabia se Estha o reconhecia

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após todos estes anos. Não que se importasse muito com

isso. Embora o seu papel na história toda não tivesse sido

de forma alguma pequeno, o Camarada Pillai não se sentia

pessoalmente responsável pelo que acontecera. Arrumou o

assunto como a Conse quência Inevitável da Política Necessária.

A velha história da omolete e dos ovos. Aliás,

o Camarada K. N. M. Pillai era essencialmente um homem

político. Um omoleteiro profissional. Percorria o mundo

como um camaleão. Nunca se revelando, nunca parecendo

não o fazer. Emergindo incólume do caos.

Fora ele a primeira pessoa em Ayemenem a saber do

regresso de Rahel. A notícia não o perturbou, antes excitou

a sua curiosidade. Estha era quase um perfeito estranho

para Pillai. A sua expulsão de Ayemenem fora tão súbita e

brusca e há tanto tempo. Quanto a Rahel, o Camarada Pillai

conhecia-a bem. Vira-a crescer. Perguntava-se o que a

fazia regressar. Após todos estes anos.

Estivera tudo calado na mente de Estha até Rahel chegar.

Mas ela trouxera consigo o som de comboios a passar

e a luz e a sombra que cai sobre nós quando temos um

lugar à janela. O mundo, há anos fechado lá fora, inundou-

-o de súbito e agora Estha já não se conseguia ouvir por

causa do ruído. Comboios. Tráfico. Música. A Bolsa. Um

dique ruíra e águas furiosas varriam tudo num turbilhão.

Cometas, violinos, desfiles, solidão, nuvens, barbas, fanáticos,

listas, bandeiras, terramotos, desespero, tudo varrido

num atabalhoado turbilhão.

E Estha, caminhando nas margens do rio, não sentia o

molhado da chu va, ou o tremor súbito do cachorrinho friorento

que o adoptara temporariamente e chapinhava ao

seu lado. Passou pelo velho mangostão até à ponta de um

pico de laterite projectado sobre o rio. Acocorou-se e

balançou-se à chuva. Sob os seus sapatos, a lama molhada

soltava sons rudes de sucção. O cachorrinho friorento tremia

– e observava.

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UMA SAGA FAMILIAR

APAIXONANTE QUE, PELOS SEUS

RASGOS DE REALISMO MÁGICO,

LEVOU A CRÍTICA A COMPARAR

ARUNDHATI ROY COM SALMAN

RUSHDIE E GARCÍA MÁRQUEZ.

Arundhati Roy cursou arquitectura na

Universidade de Deli e foi autora de guiões

para séries televisivas e filmes. Com este seu

primeiro romance – traduzido em dezasseis

línguas e que constituiu um acontecimento

literário em todos os países em que foi

publicado – obteve o Booker Prize de 1997.

ISBN: 978-989-660-059-4

9 7 8 9 8 9 6 6 0 0 5 9 4

P. V. P. 7,50€

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