Imagens ecológicas na poesia de Manuel de Barros

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Imagens ecológicas na poesia de Manuel de Barros

Maio a julho de 2012 FUXICO Nº 23

temida necrópolis. A merda olha

a merda ... e, ‘bola pra frente’, a

vida continua. Temer a morte é

uma perda de tempo; afinal, ela

é o “caminho de nós todos”.

Cemitérios criam, em seu entorno,

solos que passam de esquecidos

sem valor – antes do

abraço cidade/cemitério - a esquecidos

desvalorizados economicamente

quando acontece esse

inevitável enlace. Querer

construir e, mais, querer vender

um edifício com varandas, salas

e quartos olhando o cemitério –

ainda que se trate de um

‘cemitério jardim’, ‘cemitério

parque’ - pode ser uma piada

Imagens ecológicas na poesia de Manoel de Barros:

a relevância do ínfimo

A profusão de diálogos interdisciplinares

é algo intrínseco à

Literatura. Talvez este seja o

campo em que mais se entrelaçam

e conversam os diferentes

saberes. Dois campos que se relacionam

com certa recorrência

são a Literatura e a Ecologia. Essa

relação interdisciplinar pode

ser vista em grandes obras como

Macunaíma, de Mário de Andrade;

Vidas Secas, de Graciliano

Ramos e Morte e Vida Severina,

de João Cabral de Melo Neto,

dentre tantas outras. Na escrita

de Manoel de Barros, também.

Seu versar é marcadamente ecológico,

contemplativo da interação

poética entre ambientes e

seres. Seus escritos revelam: “Eu

escrevo com o corpo/Poesia não

é para se compreender mas para

incorporar/Entender é parede:

procure ser uma árvore.”

(2010, p.178 – Grifo meu).

O poeta comumente retrata em

suas poesias seres da natureza

que o cercam como seres os

quais ele quer atingir condição, e

pelos quais nutre admiração: “A

gente é rascunho de pássaro/Não

acabaram de fazer...” (2010, p.

152).

Deste modo, o autor instiga no

leitor um sentimento eco-

financeira desconcertante e de

“mau gosto” no mundo sisudo

da economia urbana. ‘Cemitérios

jardim’, ‘cemitérios parque’

ao tentar esconder cruzes

(cemitérios cristãos), túmulos,

mausoléus ... nada mais fazem

do que mostrá-las exatamente

porque eles ocultam essas expressivas

citações da arquitetura

funerária.

Mas, sem mágoas e sem pensamentos

depressivos ou suicidas,

o cemitério vive a advertir

a cidade, mesmo sem divertila:

prá você que me esqueceu,

aquele abraço (“Aquele Abraço”

– Gilberto Gil).

poético, fazendo-o imergir numa

visão ecológica mais profunda.

Visão necessária e ululante

diante da hostil relação que o

ser humano moderno vem tendo

com o planeta. Como alerta

Guattari (2007), urge unirmos

as ecologias (ambiental, social e

mental) na busca por sociedades

sustentáveis, pois os modos

de vida humanos individuais e

coletivos evoluem em progressiva

deterioração.

A sociedade de consumo

Terra, és o mais bonito dos

planetas

Tão te maltratando por

dinheiro

Tu que és a nave nossa

irmã...

Beto Guedes

O comportamento do ser humano

depois da industrialização

se modificou. Trouxe a ideia da

maquinização dos processos, da

praticidade, do time is money.

Ganhamos a identificação de

consumidores, e até um código

para essa nossa atual condição.

O lugar de gente parece ganhar

percepção secundária nesse

nosso sistema.

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Weslley Moreira de Almeida

Licenciado em Letras (UEFS)

O poeta mato-grossense, deslocado

- como comumente o é o

poeta moderno -, imprime credibilidade

aos elementos descartados

pela sociedade de consumo.

As coisas ínfimas, os trastes, o

inútil são aquilo que ajudam na

luminosidade do mundo: “As coisas

que não levam a nada/ Têm

grande importância”. (BARROS,

2010, p.145). Para o poeta é de

imensa relevância a gratuidade

do inútil, as coisas imprestáveis

têm incomensurável valor. A sociedade

moderna precisa descobrir,

então, a virtude da inutilidade.

Da sacralidade dos seres

Profetas nasciam

de uma linguagem

de rãs

Manoel de Barros

Manoel - não raramente – garimpa,

no ambiente que o cerca,

imagens do sagrado. Possuído

pelo pathos do mitopoético, que,

como afirma Araujo (2008,

p.133), “inaugura a aura dos estados

de espanto e de admiração

ao nos con-vocar e nos dis-por

diante dos ritmos e das intensidades

dos fenômenos”, o poeta


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Maio a julho de 2012

extasia-se com o ínfimo: vagalume,

pássaro, sapo, formiga,

lata e suas hierofanias. O minúsculo

nos seus fenômenos é entidade

que faz ligação com a divindade:

“Todas as coisas apropriadas

ao abandono me religam a

Deus. / Senhor, eu tenho orgulho

do imprestável!” (BARROS, 2010,

p. 342).

Como afirma Roberval Pereira

(2000, p. 30), “a poesia moderna

opera um processo de ressacralização”.

O retorno desse elemento

sacro está ligado à necessidade

histórica inadiável

da descentralização do logos.

A centralidade da razão

fria produz uma vivência

contabilista e pragmática

que mutila as relações

e c o - h u m anas. Barros

(2010, p. 342), transgredindo

essa rota processual

vigente, vê milagre na inutilidade

das máquinas (produto

da razão humana), no

imprestável, onde pode desabrochar

vida: “Prefiro as

máquinas que servem para

não funcionar: quando cheias

de areia de formiga e

musgo – elas podem um dia milagrar

de flores.”

Essa postura do poeta no seu

ato letral revela uma relação intimista

com tudo que se insurge

em vida, dando-lhes condição de

sacralidade, assim como o fez

Pessoa (2012, p. 11 e 12):

Mas se Deus é as flores e

as árvores

E os montes e o sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda

hora,

E a minha vida é toda

uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os

olhos e pelos ouvidos.

Deslocamento do poeta

Somente depois de teres

deixado a cidade

verás a que altura suas

torres

se elevam

acima das casas

Nietzsche

Deslocamento, como afirma

Aleilton Fonseca (2000), é a palavra

que melhor define a condição

do poeta ocidental moderno.

Assim o é Manoel de Barros

que, através do seu olhar poético,

se coloca à parte para uma

incisiva inserção nas coisas: “O

privilégio insetal de ser uma

borboleta me atraiu. Por certo

eu iria ter uma visão diferente

dos homens e das coisas.”

(2010, p. 393).

Deste modo, o poeta se des-

loca à condição de inseto para

ser – paradoxalmente – melhor

partícipe do processo de ressignificação

da humanidade e do

mundo. Ele não se limita às visões

míopes e embaçadas promovidas

pelos óculos do status

quo, sua íris carrega lágrimas

de poesia insurgente.

Educação ambiental e

Literatura

Para reorganização do espaço

e do respeito do ser humano

com o planeta, se faz necessário

trabalhar os sentidos, a reedução

para a sensibilidade e

consciência eco-humana no trato

com o meio ambiente, vendo

-o não como bem de consumo,

mas como extensão de nós

mesmos. Segundo Sato & Passos

(2002), deveríamos congregar

nossa singularidade no plural

por um projeto de todos, agindo

criticamente sobre o

mundo. Essa necessidade é ur-

gente, pois os processos de individualismo

e massificação homogeneizante

se alastram de modo

feroz, impactando o planeta,

nosso Oikos.

A Literatura tem como essência

a fruição, mas não se pode

alijar de si seu caráter político

(que está presente em quase todos

os atos da vida humana).

Oliveira (2010, p. 43) afirma que

o diálogo entre Educação Ambiental

e Literatura pode possibilitar

uma compreensão mais fértil

sobre as questões ambientais,

e quanto estas

questões estão intrincadas

no caminhar humano.

Assim, então, é possível

rever os passos de

fora pelo caminhar de

dentro, por uma poética

que gera sensibilidade e

intervenção cuidante do

mundo.

Sensibilidade poética,

Sustentabilidade

planetária

O lixo produzido pelo

Carolina Belmondo

nosso luxo é cada vez

mais (e sempre) uma agressão à

vida. Uma absurdez: não ouvimos

os gritos do nosso próprio

absurdo. Por isso, afirma o poeta

Manoel de Barros (2010, p.

215): “[...] o grande luxo de

Bernardo é ser ninguém. [...] É

ser que não conhece ter. Tanto

que inveja não se acopla nele.”.

Bernardo é o alter-ego do escritor,

personagem que caminha

contra a maré da normalidade

imposta pelo capital. Que não

limita nem rege sua vida pelos

ditames do consumismo, pois

sua maior ambição é a invisibilidade

nesse sistema.

Uma das lógicas mais agressivas

do modo consumista de ser

é a descartabilidade. Esta prática

de mercado, impulsionada pelo

mundo do marketing, resulta no

lucro de poucos e na degradação

da vida de muitos, nesta casa

chamada Terra. Nesse cenário

de opressão (de seres humanos

em relação a si mesmos, e destes

em relação à natureza e seus


Maio a julho de 2012 FUXICO Nº 23

recursos naturais), a poesia de

Manoel de Barros se põe em inconformidade,

toca-nos em direção

a um movimento contrário a

tudo que traz indignidade à vida,

com um grito poético que ecoa

em prol de um mundo mais sustentável

em todas as suas esferas

ecológicas. Sua poesia, portanto,

é denúncia, que transvê –

termo usado por ele – e que dá

à nossa existência condição de

voos.

Deste modo então, o olhar poético

do escritor Manoel de Barros

sobre as pequenezas da vida

se insurge como possibilidade de

aguçamento do elemento sensível,

revelando uma ligação sine

qua non do humano com sua al-

Em 2012 comemora-se 100

anos de Luiz Gonzaga. Sua presença

entre nós, em nossos imaginários,

nas searas da música e

da cultura nordestina e brasileira,

é tão intensa e expressiva que se

traduz em anos sem fim.

Por isso, sem anos. Essa

presença é transtemporal.

Ultrapassa os limites

do tempo cronológico.

Atravessa os desvãos do

tempo desmedido. Descortina

o tempo da qualidade

dos sentidos que

se revelam em sua criação

musical e poética.

Sentidos que, portanto,

não se reduzem às lógicas

lineares e mensuráveis

do tempo cronológico,

da lógica do calendário.

Suas criações/

produções simbólicas se

desbordam no tempo

curvo da eternidade, do intangível

– o tempo mitopoético.

Assim, além da esfera do tempo

quantitativo, a presença da

imagem mítica de Luiz Gonzaga,

de Gonzagão, do velho Lua, penetra

nas teias incontornáveis do

tempo qualitativo em suas vertentes

mítica e poética. Tempo

teridade, na qual estão incluídas

(e são respeitadas) todas

as formas de vida.

Referências

ARAÚJO, Miguel Almir Lima de.

Os sentidos do educar: suas

fruição no fenômeno do educar.

Salvador: EDUFBA, 2008.

BARROS, Manoel de. Poesia reunida.

São Paulo, Leya, 2010.

FONSECA, Aleilton. O poeta na

metrópole: expulsão e deslocamento.

In: FONSECA, Aleilton &

PEREIRA, Rubens Alves (org.)

Rotas & Imagens: literatura e

outras viagens. Feira de Santana:

UEFS, 2000, p. 43-56.

GUATTARI, Felix. As três ecolo-

Sem anos com Luiz Gonzaga

mitopoético configurado com a

força das estampas e dos desenhos

das imagens, com a plasticidade

e a robustez da poeticidade

de suas letras e canções

que atravessam o âmago dos

sentires e paixões, das crenças

e valores primordiais e fundos

que compõem as cepas das vidas

e da cultura dos Sertões.

A vastidão do manancial da

produção musical e poética de

Luiz Gonzaga é incontornável.

Este sertanejo das quebradas

de Exu, em Pernambuco, pene-

Joaquim Franco

11

gias. 18 ed. São Paulo, Papirus,

2007.

OLIVEIRA, Maria Elizabete Nascimento.

A Educação Ambiental e

Manoel de Barros: diálogos poéticos.

Dissertação de mestrado.

UFMT, 2010.

PEREIRA, Roberval. A unidade

primordial da lírica moderna. In:

FONSECA, Aleilton & PEREIRA,

Rubens Alves (org.) Rotas & imagens:

literatura e outras viagens.

Feira de Santana: UEFS,

2000, P. 29-42.

PESSOA, Fernando. Poemas

completos de Alberto Caeiro. Avenida,

Jaguará do Sul, 2012.

Miguel Almir Lima de Araújo

Professor da UEFS

trou nas entranhas de nossa sensibilidade

com a composição de

suas cantigas, em seus tons mais

variados, que re-velam as sagas

dos povos sertânicos. Cantigas

de xote, baião, xaxado, arrastapés,

toadas etc. que traduzem,

com espirituosidade

e sutileza, bem como

com primor e maestria,

os sentimentos, os

modos de vida, as folias

e celebrações, as labutas

e pelejas que movem e

afirmam o cotidiano da

vida dos nordestinos.

Cantigas que realçam os

repertórios fecundos de

nossa identidade e diversidade

cultural.

Luiz Gonzaga teve a

perspicácia de traduzir o

Sertão em suas dimensões

mais diversificadas

acentuando suas características

agridoces, agrestes e doces:

suas securas e tristezas, suas

mazelas e sofreres, como

também suas festanças e alegrias,

suas riquezas e bonitezas.

Em sua extraordinária “Asa

Branca”, o velho Lua debulha e

verseja a crueldade da seca que

tanto assola a gente sertaneja,

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