Europa. Os trabalhadores europeus começam a unificar suas lutas

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Europa. Os trabalhadores europeus começam a unificar suas lutas

ATUALIDADE

EUROPA

Os trabalhadores europeus

começam a unificar suas lutas

A JORNADA DE MOBILIZAÇÕES

de 14 de novembro (14N)

expressou-se em mobilizações

em mais de 25 países europeus.

O ápice desta luta foi a maciça

adesão à greve geral em Portugal

e no Estado Espanhol, bem

como a pressão da base que

obrigou a CGIL italiana a

convocar uma greve geral de

4 horas, e as paralisações dos

ferroviários e metalúrgicos

belgas contra a política da

direção das centrais sindicais,

que se negaram a transformar

o 14N em uma greve geral.

O fato de se tratar de uma

mobilização de caráter

internacional foi um dos

elementos fundamentais para

o fortalecimento e a adesão

à greve. A consciência da

necessidade de unidade

internacional do movimento

operário para enfrentar a

unidade imperialista deu um

passo à frente. Por outro lado,

foi evidente que a greve geral

realizada na península ibérica

e na Itália poderia ter sido

superior, abarcando um número

maior de países. Somente o fato

de as burocracias sindicais se

negarem a estendê-la a outros

países é que explica não ter

havido greves gerais na França

e na Bélgica.

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PORTUGAL

Ventos gregos

CRISTINA PORTELLA E MANEL JOSÉ

Aa guerra social em Portugal

está ao rubro. No início de

Setembro, o Governo tinha

anunciado que retiraria 7% da

contribuição dos patrões para a

Segurança Social para sobrecarregar

em 11% a contribuição dos

trabalhadores. Nesse início de

Setembro uma maré de raiva tomou o

país e no dia 15, mais de 500 mil

pessoas saíram às ruas em 44 cidades

obrigando o governo a recuar,

deixando-o à beira da demissão.

Porém, a besta, quando recua, é para

marrar (bater) com mais força. Na

apresentação do Orçamento de Estado

o governo voltou à carga: um aumento

brutal de impostos sobre os salários

reduziria brutalmente os rendimentos

de quem trabalha. Através da carga

fiscal, todos os trabalhadores perde -

riam pelo menos um salário por ano,

ficando o salário mínimo reduzido a

352 euros! No mesmo orçamento

consta o despedimento de dezenas de

milhar de funcionários públicos e cor -

tes nos subsídios de desemprego.

Poucas semanas depois o Governo veio

ainda anunciar cortes de 3500 milhões

de euros na educação, segurança social

e saúde.

Após as manifestações de 15 de

Setembro, o Governo estava à

defensiva, prestes a desfazer-se. Porém,

a CGTP, principal central sindical,

dirigida pelo PCP, recusou-se a

convocar uma Greve Geral imediata

que derrubasse o governo. A estratégia

foi a de dar tempo ao governo, deixar o

orçamento ser aprovado e só depois

chamar à greve. Perante isto, podemos

dizer que se a Greve Geral de 14 de

Novembro foi um sucesso, foi apesar

das direções sindicais e não graças a

elas.

Uma grande greve geral

Arménio Carlos, líder da CGTP, disse

que esta greve é a “maior já realizada

em Portugal”. Pararam os transportes,

em alguns casos sem cumprir os

serviços mínimos; os serviços

municipais, com destaque para o sector

de recolha do lixo e transporte urbano;

universidades e escolas; e os bombeiros

e bancários.

No setor da saúde, a greve também foi

muito forte, com vários hospitais

parados devido à greve dos enfermeiros,

médicos e funcionários. No Hospital

Santa Maria, em Lisboa, por exemplo, a

maioria dos profissionais a atender os

pacientes estavam a cumprir os serviços

mínimos e o faziam com um autocolante

a explicar que apoiavam a greve geral.

Nas escolas esta greve correu melhor

que na última, em Março deste ano. Em

algumas delas os próprios estudantes

organizaram-se em solidariedade com os

trabalhadores e participaram nas

manifestações. Muitas universidades

ficaram sem funcionar. Na Faculdade de

Ciência Sociais e Humanas, onde

também não houve aulas, os estudantes

fizeram um piquete em que levavam

uma faixa com a palavra “greve” em

português, inglês, grego, italiano e

espanhol. Na Universidade de Coimbra

a paralisação foi forte, contando com um

piquete onde se juntaram dezenas de

estudantes que depois se juntaram à

manifestação convocada pelos

sindicatos.

CORREIO INTERNACIONAL


Transportes com força,

estivadores na vanguarda

Como habitual, o sector de transporte

foi o que registou maior adesão à

paralisação. O metro de Lisboa parou a

100%, o mesmo acontecendo na CP, com

comboios a circular apenas em serviços

mínimos. Em Setúbal, os travões dos

comboios foram cortados durante a

noite, impedindo a circulação. No Porto,

também houve adesão a 100% dos

motoristas de autocarros, apesar da

repressão policial aos piquetes. A adesão

nos transportes públicos também foi

total ou bastante significativa em

Almada, Coimbra, Braga e Aveiro. Em

Lisboa, a greve superou os 50% previstos

pelos serviços mínimos. Muitos

motoristas em serviço mínimo

trabalhavam com um autocolante a dizer

que estavam em greve. Nos transportes

aéreos, a TAP teve de cancelar cerca de

200 voos.

Nos portos a Greve Geral deu-se em

plena greve dos estivadores que dura

desde 14 de Agosto. Além de pararem os

portos por três dias, os estivadores

fizeram um novo pré-aviso de greve até

Dezembro, enquanto preparam uma

manifestação internacional de

estivadores para 29 de Novembro. Este

sector foi o exemplo da greve,

convocando junto com os novos

movimentos sociais uma manifestação

que se juntou à CGTP mas que se

distinguiu pela sua força e radicalidade.

A luta deste sector começa a ter efeitos

na situação portuguesa semelhantes à da

luta dos mineiros no Estado Espanhol. E

os estivadores prometem não parar,

enquanto o governo ameaça com a

requisição civil nos portos.

NOVEMBRO DE 2012

Bélgica

Apesar das 20 mil demissões

ocorridas em outubro, das ameaças

de congelar os salários, dos cortes no

seguro-desemprego e nos serviços

públicos, as direções dos três maiores

sindicatos do país (FGTB, CSC, CGSLB)

negaram-se a convocar a greve geral em

14N.

Entretanto, a reação aos obstáculos

impostos pela burocracia teve uma força

muito importante. Parte das Regionais,

das Centrais e dos Setores da FGTB, assim

como vários movimentos sociais em

Valônia e Bruxelas não aceitaram as

O MAS

Dias antes da Greve os ativistas do

MAS distribuíram nas empresas e

nas ruas milhares de cópias de um

boletim do partido a apelar à Greve e a

exigir a demissão do governo. Mas,

mais que nunca, o Movimento

Alternativa Socialista esteve por dentro

da Greve. Na banca, nas escolas, na

função pública, nas universidades, nas

empresas de transporte, foi a partir de

dentro dos locais de trabalho e estudo

que os ativistas do MAS intervieram.

Além disso, em diversos pontos

reforçaram os piquetes de greve e

mobilizaram centenas de pessoas para

Manifestações maiores que nunca

Em várias cidades houve manifes -

tações no dia da greve. As maiores

foram no Porto e em Lisboa com 3000 e

12 mil pessoas respectivamente. É de

salientar que a CGTP nada fez para

mobilizar para as manifestações, sendo

que a participação popular foi sobretudo

espontânea. Em Lisboa, milhares

terminaram em frente ao parlamento,

não arredando pé mesmo depois da

CGTP abandonar o local. A radicalidade

ficou patente nas ruas demonstrando

que também nas greves gerais Portugal

começa a se aproximar da Grécia.

Violência policial

Na sequência da brutal repressão aos

estivadores, que, na véspera protestaram

em Lisboa durante um fórum com

representantes do porto de Lisboa, um

dos trabalhadores presentes no piquete

manifestações simbólicas da burocracia e

foram à greve. Em toda a Valônia, os

trabalhadores do transporte público

entraram majoritariamente em greve e em

mobilizações maciças desde Lieja até

Louvière, duas regiões fortemente

atingidas pelo desemprego no setor

metalúrgico. Houve paralisações totais da

produção em cerca de quinze grandes

indústrias de Lieja e de Charleroi. Além

disso, desde as 22 horas da véspera até as

15 horas do dia seguinte, os ferroviários

paralisaram o tráfego em quase todo o

país e não tiveram dúvidas em ocupar as

vias férreas ao ver que os trens ainda

circulavam. Os servidores públicos em

greve e as juventudes sindicais aliaram-

ATUALIDADE

as manifestações, sendo que em

Lisboa foram os ativistas do MAS

que, junto com os estivadores,

encabeçaram a coluna mais forte

dessa tarde. Em frente ao parlamento

foram as palavras de ordem entoadas

pelo bloco do MAS que deram a

tônica à radicalização, caladas ape -

nas pela repressão policial que

atingiu vários dos nossos militantes.

Porém foi o final escaldante de

apenas uma batalha, a guerra social

continua e os arautos da austeridade

e da repressão terão pela frente um

MAS cada vez mais forte e dinâmico.

A mobilização não para aqui e o

governo tem os dias contados!

dos autocarros da Carris em Lisboa, foi

detido; e em Coimbra os militares da

GNR tentaram dissolver um piquete na

estação ferroviária de pistola em punho.

Porém, o episódio que marcou a

Greve foi a brutal carga sobre os

manifestantes em frente ao parlamento.

Com a justificativa de pararem a chuva

de pedras que durante uma hora

fustigou a polícia, vinda de um sector de

manifestantes, a polícia reprimiu

milhares de trabalhadores, crianças e

idosos que protestavam pacificamente,

ferindo e prendendo aleatoriamente

dezenas de trabalhadores e jovens,

alguns que não estavam sequer na

manifestação!

A cara do regime disposto a tudo para

impor o saque aos trabalhadores ficou à

vista, sendo ainda mais vergonhoso o

papel da CGTP, BE e PCP que se

negaram a condenar a repressão.

se aos piquetes dos ferroviários. Vários

deles somaram-se depois à manifestação

unitária convocada pelo sindicato dos

empregados da CSC, que reuniu mais de

mil pessoas em Bruxelas.

Foram as bases que construíram o

movimento do 14N, mostrando uma

vontade clara de lutar contra o governo e

a UE. Na ação, construíram-se laços entre

setores e centrais sindicais. O desafio está

em levar os setores combativos, pela

base, a uma ação coordenada em todo o

país e lançar, sem demora, a mobilização

contra as medidas de austeridade do

próximo orçamento federal, para uma

greve geral na Bélgica e em toda a

Europa.

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