Entrevista - Amis

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Entrevista - Amis

Entrevista [família Gandini Silva]

Renascer das cinzas,

o exemplo do Super Mais

UMA EXPLOSÃO, NA NOITE DO DIA 23 DE MAIO DO ANO PASSADO, QUASE MANDOU

PELOS ARES OS SONHOS EMPRESARIAIS DA FAMÍLIA GANDINI SILVA. POR VOLTA DAS

19H DAQUELE DIA, UM DEFEITO NA VÁLVULA DE UM BOTIJÃO NA ÁREA DE PADARIA

RESULTOU EM UM ACIDENTE QUE PRATICAMENTE REDUZIU A PÓ BOA PARTE DO

SUPERMERCADO SUPER MAIS, FUNDADO EM 1998.

■ Denílson Cajazeiro

Paulo, Cláudia e Artur Gandini Silva

12 JUNHO DE 2006

FOTOS IGNÁCIO COSTA

uma coisa de dimensão gigantesca. O telhado da loja voou e, no quinto andar do prédio

ao lado, o gesso do teto quebrou. Oitenta por cento do estoque foi destruído e fica-

“Foi

mos fechados durante 15 dias. Além disso, e o que é pior, tivemos uma vítima fatal”,

relembra hoje o sócio-proprietário Artur Otávio Gandini Silva.

O que poderia significar, para muitos, o fim de um empreendimento, para a família Gandini foi

mais um grande desafio que pôde ser superado. Depois da tragédia, como a ave fênix que renasce

das cinzas, os irmãos Artur, Cláudia e Paulo conseguiram se reerguer e retomar os negócios da

empresa, que possui, por enquanto, uma única loja.

Atualmente, a acolhedora loja de vizinhança, localizada no coração do bairro Floresta, em Belo

Horizonte, está totalmente reformada e anda muito bem em termos de planos e negócios. O segredo

dessa empreitada de sucesso eles contaram para a reportagem da Gôndola, que você confere

nessa entrevista.

Por volta das 19h, na troca de bateria do gás, constatou-se

que uma válvula do botijão estragou e começou a vazar

Quando a empresa foi fundada?

Artur- A empresa começou em 1992, com o

projeto de minha mãe de abrir uma casa de

frios em nosso bairro. Então, ela montou com

meu irmão Paulo uma pequena loja, com o

apoio financeiro do meu pai. Passado algum

tempo, eu comecei a trabalhar na loja, minha

mãe saiu e virou uma fornecedora de salgado,

e minha irmã, Cláudia, passou a fornecer produtos

caseiros. Nossa área de venda era uns

40 metros quadrados, e, depois de aproximadamente

dois anos, passamos para 90 metros

quadrados. Ficamos nesse lugar cerca de seis

anos, os negócios prosperaram e nós mudamos

aqui para o quarteirão de cima, onde estamos

hoje, em uma loja em torno de 700 metros

quadrados de área de venda. A Cláudia é responsável

por toda a parte de recursos humanos

da empresa, o meu irmão responde pelo financeiro

e pelo chão de loja e eu pelo comercial.

Meu pai trabalha hoje conosco, dando um

apoio na área financeira, e a nossa mãe continua

sendo fornecedora.

GÔNDOLA

Como foi essa decisão de sair de uma pe-

quena loja para ser um supermercado?

Artur - Eu diria que fomos comandados pelo

mercado. Tudo que colocávamos na loja vendia.

Começamos com frios e depois experimentamos

vender um pouco de lataria. Colocávamos

uma caixa de molho de tomate e vendia

tudo, uma de leite condensado e acontecia a

mesma coisa. Então pensamos o seguinte: a

demanda está imensa, precisamos de mais espaço.

Apostamos na tese de que, se tivéssemos

mais espaço, venderíamos mais. Não tínhamos

o capital. Procuramos bancos e alguns

fornecedores nos ajudaram. A nossa moeda

principal era a coragem.

Como e quando ocorreu o incêndio?

Artur - O incêndio aconteceu precisamente no

dia 23 de maio do ano passado. Na área de padaria,

os fornos eram abastecidos por gás. Por

volta das 19h, na troca de bateria do gás, constatou-se

que uma válvula do botijão estragou e

começou a vazar. No momento, nenhum dos

donos estava aqui, e a gerente tomou a primeira

providência, que foi evacuar a loja. Ela fez

um contato com meu irmão, mas eu cheguei

13


Entrevista [família Gandini Silva]

Na foto menor, o dia seguinte ao acidente;

na maior, a loja atual

primeiro ao local, pois estava mais perto. Acionamos

o Corpo de Bombeiros, e decidimos

que talvez remover o botijão e levá-lo para fora

fosse uma boa idéia. Nessa remoção, provavelmente

o botijão soltou da mão do funcionário,

deu a centelha e, como já estava vazando

gás, ocorreu a explosão.

A explosão danificou muita coisa?

Artur - Tudo que existe hoje na loja, 90% é novo.

Aqui em cima, onde estamos, foi pulverizado,

a palavra é essa. Foi uma coisa de dimensão

gigantesca. O telhado da loja voou e, no

quinto andar do prédio ao lado, o gesso do teto

quebrou. Oitenta por cento do estoque destruído

e ficamos fechados durante 15 dias.

Além disso, e o que é pior, tivemos uma vítima

fatal.Um funcionário morreu, meu irmão ficou

internado 14 dias no hospital João XXIII, em

Belo Horizonte, e eu fiquei uma semana.

Quais foram os fatores que ajudaram a

reerguer os negócios?

Artur - Aí que entra a parte interessante. Primeiro,

acho que um fator determinante foi a

união dos funcionários. Alguns encabeçaram

essa manobra. Uma coisa ruim é citar nomes,

porque você pode esquecer alguém. Mas acho

que temos duas pessoas que não podemos

14 JUNHO DE 2006

ARQUIVO

deixar de citar: Ricardo Góes, marido da minha

irmã, e Diogo, hoje um comprador nosso. Em

15 dias, foi montada uma estrutura de venda

em torno de um terço da que tínhamos. Houve

também um apoio impressionante dos moradores

da vizinhança, a ponto de chegar um

cliente aqui e dizer: ‘olha, eu sempre comprei

com cartão, mas eu vou comprar agora com dinheiro,

pois com certeza vocês estão precisando

de dinheiro’. Muitos fizeram isso.

Cláudia Gandini - Na época, o Arthur falou:

‘com apenas um terço do espaço funcionando,

não vamos vender o suficiente para continuar’.

Aí eu insisti, disse que iríamos abrir e vender

mais e o que aconteceu foi que triplicamos as

vendas.

Como vocês fizeram isso?

Artur - Acho que foi mesmo o apoio dos funcionários,

dos clientes, e, outra coisa funda-

mental, foi o apoio de fornecedores, como a

Sadia, a Itambé, a Coca-Cola, a Benassi, a Cotochés...

praticamente todos os fornecedores,

sem exceção, deram apoio. Eles prorrogaram

títulos, vendedores vieram aqui e ajudaram a

carregar as mercadorias... Em alguns momentos,

chegou a ponto de eu pedir para o forne-

Houve também um apoio

impressionante dos moradores

da vizinhança

cedor uma ajuda, e ele me dar em dobro.

Cláudia - Para você ter uma idéia, o técnico

que dá apoio no computador fez o serviço todo

de graça, doou a mão-de-obra na área de informática.

Artur - Então quer dizer, é uma fórmula do su-


Entrevista [família Gandini Silva]

Equipe do Super Mais:

muitos ofereceram o

próprio salário para ajudar

na reconstrução

cesso, todos queriam a mesma coisa. Em relação

ao sucesso de hoje, ninguém pode falar ‘fui

eu’. O correto é ‘fomos nós’. Houve uma megaequipe.

A impressão que dá é que o bairro,

os funcionários e os fornecedores pegaram um

pouquinho da dor cada um. Uma coisa é você

ter um problema e resolver sozinho. Outra é ter

um problema e umas 400 pessoas resolverem.

A impressão que dá é que o

bairro, os funcionários e os

fornecedores pegaram um

pouquinho da dor cada um

O que essa experiência lhes ensinou?

Artur - Nos ensinou que precisamos investir

nas pessoas, que dá resultado. Mudar na minha

essência, não sei se mudou, acho que re-

forçou uma tese que eu tinha. Acreditar nas

pessoas, dar uma oportunidade a elas...

Cláudia - Procurar compreendê-las, ouvir o

que elas têm para falar. Na época do acidente,

surgiram várias idéias legais dos funcionários.

Teve o caso de um funcionário que reuniu um

grupo para orar. Foram na casa de minha mãe

e fizeram uma oração. Teve gente que, quando

fomos pagar os salários, disseram que podíamos

adiar. Tiveram funcionários que estavam

de férias e voltaram, mas não cobraram os

dias. Em relação aos salários, foram muitos

que falaram: ‘não precisa me pagar agora’.

Como está a empresa em termos de planos

e negócios?

Artur - Depois do acidente nós estruturamos

toda a loja. Está toda nova, com equipamentos

de primeira linha e totalmente informatizada.

Após reabrirmos, a nossa venda cresceu muito.

Se as coisas continuarem como estão, a nossa

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expectativa é de expansão. Ou ampliaremos

ou abriremos outra loja. No quarteirão de cima

temos uma área de depósito, de uns 200 metros

quadrados, um restaurante de comida a

quilo, e, em frente a nossa loja, um escritório

em uma área de uns 200 metros, onde funciona

o departamento pessoal da empresa. Há

uns seis meses, compramos um pequeno prédio,

com quatro andares, onde estamos reestruturando

com o objetivo de fazer uma central

lá, passando parte dos estoques, e melhorar o

escritório e a parte de recursos humanos e de

treinamento. Hoje, temos uma média de 85

funcionários. Fizemos um conceito certo de loja

de vizinhança, que é bem a cara do bairro.

Depois desse episódio, há alguma mensagem

que deixaria para o empresário

supermercadista?

Artur - Eu acho que ele deve acreditar nas

pessoas, incondicionalmente, sem pedir nada

em troca. Não estou falando para ser bonzinho,

mas acreditar. Sempre tive isso na minha

vida. Realmente, no mundo tem muito mais

gente boa do que você pensa. Eu me sinto milionário,

em termos de pessoas que conhecemos.

Se não fosse pelo acidente com vítima,

íamos contar essa história rindo muito. ■

GÔNDOLA

Fachada atual da loja

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