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pi<br />
primeira impressão<br />
nº 34 | dezembro de 2010 |<br />
Música<br />
para ler
AO LEITOR<br />
O<br />
menino ainda nem veio à luz e, da barriga da mãe,<br />
já escuta o acalanto. Dorme, meu pequeninho,<br />
dorme que a noite já vem. Mal nasce e já emenda<br />
canção de ninar, cantiga de roda e música para<br />
acordar bem-humorado. Logo já entoam música para abrir<br />
o apetite, para comer mais depressa, para comer mais devagar<br />
e para comer o que nem dá vontade de comer. Que<br />
que tem na sopa do neném? Será que tem rabanete? Na<br />
escola, aprende o Hino Nacional, o Hino da Independência<br />
e o hino da própria escola. Salve, lindo pendão da esperança,<br />
salve, símbolo augusto da paz (que Augusto era esse?).<br />
Depois tem canção de namoro, barulho para incomodar os<br />
pais, minha banda favorita, a sonzeira nossa de cada dia.<br />
Como é bom poder tocar um instrumento. Antes que a gente<br />
perceba, a música percorre, preenche e pontua toda a<br />
nossa vida. Há réquiens para a despedida. De tão presente,<br />
a música chega, por vezes, a passar despercebida. Essa 34ª<br />
edição da Primeira Impressão, pautada, produzida e editada<br />
por alunos das disciplinas de Redação Experimental<br />
em Revista e Projeto Experimental em Fotografia, modula<br />
o volume para tentar apurar o que é mesmo que andamos<br />
ouvindo na nossa vida cotidiana. Há música para quem não<br />
ouve, música para perturbar vizinho, música para baixar o<br />
santo e até música para encantar búfalos. Ajuste os fones<br />
e tenha uma boa leitura.<br />
Eduardo VEras, FláVIo dutra E thaís Furtado<br />
Professores-editores<br />
(com versos de Vinicius de Moraes,<br />
Paulo Tatit, Sandra Peres, Olavo Bilac,<br />
Caetano Veloso e Arnaldo Antunes)<br />
ANDRÉ ÁVILA<br />
Música para ouvir<br />
Arnaldo Antunes<br />
Música para ouvir no trabalho<br />
Música para jogar baralho<br />
Música para arrastar corrente<br />
Música para subir serpente<br />
Música para girar bambolê<br />
Música para querer morrer<br />
Música para escutar no campo<br />
Música para baixar o santo<br />
Música para ouvir<br />
Música para ouvir<br />
Música para ouvir<br />
Música para compor o ambiente<br />
Música para escovar o dente<br />
Música para fazer chover<br />
Música para ninar nenê<br />
Música para tocar novela<br />
Música de passarela<br />
Música para vestir veludo<br />
Música pra surdo-mudo<br />
Música para estar distante<br />
Música para estourar falante<br />
Música para tocar no estádio<br />
Música para escutar rádio<br />
Música para ouvir no dentista<br />
Música para dançar na pista<br />
Música para cantar no chuveiro<br />
Música para ganhar dinheiro<br />
Música para ouvir<br />
Música para ouvir<br />
Música para ouvir<br />
Música pra fazer sexo<br />
Música para fazer sucesso<br />
Música pra funeral<br />
Música para pular carnaval<br />
Música para esquecer de si<br />
Música pra boi dormir<br />
Música para tocar na parada<br />
Música pra dar risada<br />
Música para ouvir<br />
Música para ouvir<br />
Música para ouvir<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 3
ÍNDICE<br />
Música para guardar<br />
10<br />
18<br />
28<br />
Música para afinar<br />
Música para incluir<br />
4 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
06<br />
Música para sentir<br />
14<br />
Música para incomodar<br />
24<br />
Música para aprender<br />
Música para fazer sozinho<br />
Música para rezar<br />
36<br />
44<br />
54<br />
32<br />
Música para vender<br />
Música para sambar<br />
40<br />
Música para encenar<br />
Música para viajar<br />
48
62<br />
70<br />
78<br />
Música para tatuar<br />
58<br />
Música para transformar<br />
Música para grudar<br />
Música para cantar<br />
66<br />
Música para celebrar<br />
Música para dançar<br />
74<br />
90<br />
Música para gravar<br />
Música para aquecer<br />
Música para torcer<br />
98<br />
86<br />
Música para tomar mate<br />
94<br />
Música para casar<br />
102<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 5
MÚSICA PARA AFINAR<br />
EScultORES DE<br />
InStRuMEntOS<br />
Dois artesãos De<br />
Caxias Do sul são<br />
uniDos através<br />
Da paixão pelos<br />
instrumentos De<br />
CorDa. nas mãos<br />
Desses luthiers,<br />
a maDeira vira<br />
arte e som<br />
TEXTO DE AlInE BOf E lEtícIA BRESOlIn cARDOSO<br />
FOTOS DE AnDRé ÁvIlA<br />
6 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
O<br />
som agudo e brilhante do<br />
violino já faz parte da vida<br />
do italiano Eugênio Coletti,<br />
assim como o afinar das<br />
cordas do violão soa natural para<br />
Jules Andrés Raupp da Rocha. Eles<br />
são luthiers, artistas, construtores e<br />
músicos. Embora sendo de gerações<br />
diferentes, os dois possuem a mesma<br />
paixão pela arte. Jules é marcado<br />
pela ambição própria da juventude, e<br />
Eugênio demonstra que o tempo não<br />
diminuiu a sua sensibilidade musical.<br />
Ele surpreendeu a repórter quando,<br />
durante a entrevista, ela pediu desculpas<br />
por ter dado um espirro. A resposta<br />
do luthier foi de que o seu ouvido<br />
de músico lhe indicava que o tom<br />
do espirro era um dó sustenido.<br />
A profissão de fabricar e consertar<br />
instrumentos de cordas é antiga.<br />
O nome tem origem no alaúde. Em<br />
italiano, liuto. Um instrumento de<br />
oito cordas com caixa de ressonância<br />
arredondada, como uma pêra. Já<br />
era utilizado pelas antigas civilizações,<br />
entre elas, gregas, romanas e<br />
egípcias. Liutio era aquele que o fabricava.<br />
Antes de ser assumida pela<br />
língua portuguesa, a palavra recebeu<br />
influência dos franceses, para quem<br />
alaúde significava luth. Acrescido do<br />
sufixo ier, temos o nome da profissão<br />
de Eugenio e Jules.<br />
Na sala da casa de Eugênio Coletti,<br />
na cidade de Caxias do Sul,<br />
região serrana do Rio Grande do Sul,<br />
os objetos se espremem nas prateleiras.<br />
São fragmentos de 84 anos<br />
de uma vida que teve origem em<br />
Treviso, na Itália. Lembranças materializadas<br />
em fotos, recordações<br />
de viagens e muitas miniaturas de<br />
instrumentos musicais. Tudo ressoa<br />
como um acorde maior. A música<br />
está em todas as partes. Aparece<br />
estampada nas fotos da família. Sua<br />
mãe, Zayda Roncca, foi a primeira<br />
violinista de Caxias do Sul. A esposa,<br />
Gabriela, também era italiana e violinista.<br />
Faleceu há oito anos.<br />
Ainda menino, Eugênio aprendeu<br />
a amar os instrumentos. Aos cinco<br />
anos, ganhou um pequeno violino e<br />
iniciou as aulas. Mais tarde, a guerra<br />
assolou seu país e o levou a abandonar<br />
os estudos de Direito para tentar<br />
a vida na Argentina. Mas não o fez<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 7
sem antes prometer à Gabriela que voltaria para buscá-la.<br />
Depois de muito trabalho, cumpriu a promessa. Casaramse<br />
e começaram a construir a família em Buenos Aires. O<br />
violino estava sempre por perto, mas ainda não era profissão.<br />
Foi então que uma proposta de trabalho em uma<br />
vinícola fez a família se mudar para Caxias. Eugênio tinha<br />
28 anos. “Vi que a cidade tinha suor, criatividade, fantasia,<br />
manejo do aço e do vinho. Mas faltava uma coisa que<br />
podíamos preencher: a música.” Os dois começaram a dar<br />
aulas de música em casa e faziam apresentações com um<br />
quarteto clássico de cordas. “Aquilo nos destacou por muitos<br />
anos”, reconhece.<br />
O encOntrO cOm a prOfissãO<br />
O tempo em Buenos Aires e a umidade do local haviam<br />
destruído os dois instrumentos do casal. Assim a luthieria<br />
entrou na vida de Eugênio. Ele conheceu Reinaldo Hahn.<br />
Formado por músicos importantes, Reinaldo havia se<br />
especializado na construção de violinos. Enquanto Pelé<br />
fazia o milésimo gol, Reinaldo fazia o milésimo violino.<br />
O instrumento foi consertado, e Eugênio aprendeu a profissão.<br />
“Fiz quatro anos de escola com esse mestre. No<br />
começo eu paguei, até que ele viu o meu amor e me ensinou<br />
gratuitamente. Cheguei a fazer instrumentos com<br />
toda a sabedoria e arte”, conta. Construiu sete violinos,<br />
uma viola e um contrabaixo. Achou mais interessante deter-se<br />
nos consertos do que construir instrumentos muito<br />
caros e inacessíveis.<br />
No fundo da casa de Eugênio, está sua oficina. Aposentadoria<br />
é palavra que passa longe para o luthier, que ainda<br />
dá aulas de italiano e encontra tempo para tocar em festas<br />
na cidade. Até hoje, ele continua na oficina devolvendo à<br />
vida instrumentos que haviam desistido de existir. Eles estão<br />
pendurados por toda parte. Violões e violinos. Inteiros<br />
partidos ao meio. O chão está coberto por um tapete de<br />
serragem, excessos retirados da madeira que vai se tornar<br />
um novo instrumento.<br />
O último violino que ele construiu foi no ano de 1962.<br />
Um dos motivos pelos quais parou foi a entrada dos instrumentos<br />
chineses no mercado. “Não é possível fazer<br />
violinos na base de R$ 140. Os violinos chineses são feitos<br />
em regime de escravidão. Não posso trabalhar assim”,<br />
diz ele. Um violino leva cerca de três meses para ser<br />
construído e, segundo Eugênio Coletti, o segredo está<br />
na interpretação da madeira. Ele afirma que, para construir,<br />
precisaria de madeira estrangeira. Deveria importar<br />
madeira africana. Um instrumento assim custaria de<br />
R$ 3.000 a R$ 8.000, diz ele. Sobre o futuro da profissão<br />
de luthier, Eugênio é enfático: “Hoje em dia não recomendo,<br />
porque é morte certa, morte por fome. Ninguém<br />
pode trabalhar por 7 centavos por hora.”<br />
Difícil, mas nãO impOssível<br />
O velho luthier recebe com frequência em sua oficina<br />
instrumentos chineses para conserto. Segundo ele, são<br />
como relógios parados que ele precisa fazer voltar a funcionar.<br />
Para Eugênio, o que é morte certa, para Jules é<br />
apenas o começo de um sonho profissional. Lutiher há nove<br />
8 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
anos, ele mora em Caxias há sete, onde criou a primeira<br />
escola de luthieria do Rio Grande do Sul. Uma casa de dois<br />
andares abriga a Andrellis, marca criada por ele, entalhada<br />
em cada novo instrumento que é lá produzido. No local,<br />
funcionam escola de música, de luthieria, venda de peças,<br />
de instrumentos e manutenção. Em 11 meses, Jules forma<br />
um luthier em sua escola. Já gerou 25 novos profissionais.<br />
“O diferencial do luthier é a customização, esse é o grande<br />
lance”, diz ele. Em sua oficina, o cliente pode dar um toque<br />
pessoal ao seu instrumento.<br />
A música é uma herança do pai músico que lhe deu<br />
as primeiras lições de violão, com 15 anos. Após dois<br />
meses de aula, as cordas uniram pai e filho em apresentações<br />
pelos bares de Torres. Faziam brotar de seus<br />
instrumentos música gauchesca, bolero e sertanejo, e<br />
ainda faziam serenatas.<br />
Jules começou a trabalhar com luthieria em 2001, quando<br />
fez o primeiro violão. “Foi terrivelmente mal feito”, reconhece.<br />
Descobriu em si o talento para construir e fazer<br />
manutenção em instrumentos. Procurou cursos, mas eram<br />
inviáveis, caros e longe demais. Parecia impossível, mas<br />
não foi. Decidiu aprender marcenaria através dos livros,<br />
pois o manejo da madeira seria essencial no trabalho. Sua<br />
vida também foi marcada por um grande mestre, Alberto<br />
Reginato, um marceneiro que tinha como hobby fabricar<br />
instrumentos. “Aprendi desde o tipo de cola até as madeiras<br />
a serem usadas para construir”, recorda Jules. Usou os<br />
restos de madeira da marcenaria de seu padrinho para dar<br />
vida ao que seria sua primeira obra de arte.<br />
Aprendeu a construir desconstruindo. Jules desmontou<br />
o violão de seu pai, parte a parte, para ver como era por<br />
dentro. Nas poucas revistas sobre luthieria, olhava bem as<br />
fotos e imaginava o que estavam fazendo. Foi evoluindo<br />
como autodidata.<br />
Na opinião de Jules, a profissão exige minuciosidade<br />
e três qualidades que, para ele, têm que andar juntas na<br />
construção de um instrumento: paciência, perseverança e<br />
precisão. Para construir um violão, é necessário um kit de<br />
madeira de boa qualidade, com certificado. Isso custa em<br />
torno de R$ 1.500. A fabricação leva aproximadamente 20<br />
meses e o preço a ser cobrado pelo instrumento fica em<br />
torno de R$ 3.500.<br />
São realizadas três etapas para a fabricação: a escolha<br />
da madeira, o projeto para o cliente e, depois de<br />
impresso o projeto em tamanho real, a prática. Além<br />
disso, Jules climatiza as madeiras. “Deixo no tempo. Na<br />
rua, pega chuva, sereno, frio, calor, um clima diferente<br />
da minha oficina. Tem que estar resistente aos climas da<br />
nossa região explica ele.<br />
O luthier não abre mão de fazer tudo artesanalmente, embora<br />
ambicione uma produção em série. A meta de Jules é que<br />
até o final do ano que vem ele consiga construir 30 instrumentos<br />
por mês. E salienta: “Minha oficina é meu mundo”.<br />
Separados pelas gerações, os dois luthiers estão unidos<br />
pelos instrumentos de corda. Seguem insistindo em consertar<br />
e construir. Dão vida aos sons e aos sonhos de muitos<br />
na esperança de que sempre haverá quem vai pousar seus<br />
dedos sobre as cordas.
euGÊnio<br />
Colleti, 84<br />
anos, ComeÇou<br />
a toCar violino<br />
Com CinCo<br />
anos e hoJe<br />
não reComenDa<br />
a luthieria<br />
Como proFissão<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
apaixonaDo<br />
pelo Que FaZ,<br />
Jules raupp é<br />
luthier DesDe<br />
2001 e aprenDeu<br />
a Construir<br />
instrumentos<br />
a partir Dos<br />
livros<br />
ábado chuvoso em Caxias do sul. procurávamos por dois<br />
“sentrevistados que iriam nos falar sobre um assunto que<br />
nem sabíamos claramente o que era. luthieria. Chegamos à<br />
casa de seu eugênio, casa antiga e cheia de detalhes, os quais<br />
só ele mesmo poderia descrever de onde vieram e por que<br />
todos aqueles objetos estavam expostos na sala. nosso objetivo<br />
naquelas entrevistas era saber mais sobre a construção, os<br />
consertos que eugênio e Jules fazem nos instrumentos de corda.<br />
Com tanta experiência de vida que os dois têm, impossível falar<br />
apenas sobre a profissão. ali ficamos sabendo sobre trechos<br />
marcantes de suas vidas, o que nos fez refletir sobre várias<br />
questões de nós mesmas. a tarefa de aula tornou-se prazerosa.<br />
Cada um com uma visão diferente da vida e da profissão. para<br />
nós, repórteres, foi uma alegria ver duas pessoas do mesmo<br />
ramo que tomaram rumos diferentes e que amam o que fazem.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 9
MÚSICA PARA GUARDAR<br />
ARtIgO<br />
DE<br />
luxO<br />
DO<br />
SéculO<br />
xxI<br />
TEXTO DE DIERlI SAntOS E ROBERtA REIS<br />
FOTOS DE JÚlIA WARKEn<br />
Para os colecionadores<br />
de discos, o mP3 tem<br />
grande utilidade: avaliar<br />
quais álbuns serão<br />
comPrados em cd<br />
10 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
Nem mesmo invenções como o iPod conseguiram<br />
desfazer a paixão de colecionadores de CDs. A<br />
diferença é que o disco compacto deixou de ser<br />
um item necessário e virou um artigo de luxo<br />
para quem deseja guardar uma lembrança de uma banda<br />
que gosta ou de uma música que marcou sua vida. Colecionar<br />
é o nome da prática de reunir objetos que tenham<br />
algum significado especial para seu dono. Dessa forma,<br />
podemos classificar Leandro de Souza, 26 anos, como colecionador<br />
de CDs.<br />
Ao entrar no quarto de Leandro, ele já avisa: “Aqui estão<br />
meus CDs. Parece pouco olhando daqui, mas são quase<br />
600”. Realmente, quando ele começa a tirá-los da prateleira,<br />
é possível notar o grande número de discos que ele possui.<br />
Mas o que o torna um colecionador não é exatamente a<br />
quantidade, mas a relação que ele tem com os CDs.<br />
O CD foi um dos meios mais populares de comercialização<br />
de música e é objeto de coleção de Leandro há 14<br />
anos. Embora o disco tenha começado a ser comercializado<br />
em 1982, foi somente na década de 1990 que ele<br />
se popularizou no Brasil. Prometendo maior capacidade,<br />
durabilidade e clareza sonora, não demorou muito para<br />
deixar o LP para trás. Porém, com a explosão da internet<br />
e a chegada do MP3, acabou perdendo espaço. Ficou difícil<br />
competir quando passou a ser preciso somente um<br />
clique para ouvir o último lançamento de uma banda – e<br />
de graça. Mas há quem não tenha abandonado totalmente<br />
essa mídia (ou hábito?). Leandro é um exemplo de quem,<br />
apesar do pouco tempo, conseguiu juntar um acervo particular<br />
e continua amando os CDs.<br />
Leandro começou sua coleção aos 12 anos, quando ganhou<br />
seu primeiro aparelho portátil. Logo comprou o primeiro<br />
CD, de um show ao vivo dos Paralamas do Sucesso<br />
– que tem guardado até hoje. Nessa época, quem alimentava<br />
sua coleção ainda eram os pais, que sempre apoiaram<br />
os gostos do filho. “A parte intelectual dele sempre<br />
foi mais desenvolvida. Esporte nunca foi com ele”, conta<br />
Maria Elaine de Souza, professora de Educação Física.<br />
“Ele não podia ver CD. O pai dele dizia para comprar pirata,<br />
e ele dizia que não, tinha que ser tudo original.”<br />
Quando começou a trabalhar, em 1999, seu vício alcançou<br />
o auge, época em que chegou a comprar entre<br />
15 e 20 CDs em um único mês, grande parte deles importada.<br />
“Ultimamente eu compro só um, dois por mês”,<br />
conta, considerando a quantidade baixa. Nem com a facilidade<br />
da internet a coleção parou. Ele baixa as músicas<br />
para conhecer bandas novas (inclusive no iPod só baixa<br />
álbuns <strong>completo</strong>s e sempre com foto da capa), mas, se<br />
gosta, compra o CD. Sobre o que ainda o motiva a comprar<br />
um disco, ele pensa e logo responde: “Colocar ali na<br />
prateleira”. O processo mudou, já que antigamente comprava<br />
muita coisa que nunca havia ouvido, pois as fontes<br />
de informação na época eram as revistas, brasileiras ou<br />
importadas. Sempre procurando bandas novas e boas, já<br />
comprou CDs por indicação, pelo encarte bonito, por gostar<br />
de duas faixas que ouviu na loja e, principalmente,<br />
motivado por resenhas em revistas especializadas.<br />
Um caso curioso foi com a banda Pixies, sua preferida<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 11
até hoje. Ouviu pela primeira vez quando tocou na rádio,<br />
enquanto voltava da escola. Ao chegar em casa não desceu,<br />
queria esperar o locutor anunciar o nome daquela<br />
faixa. Quando ouviu que se tratava do Pixies, lembrou que<br />
já tinha lido sobre a banda em uma revista e não pensou<br />
duas vezes para comprar o CD. Com as proporções que a<br />
banda tomou em sua vida, logo quis juntar toda discografia.<br />
Porém, o que ficou por último era, por ironia, o<br />
primeiro disco, que teve que importar. Após a encomenda<br />
na loja, demorou cerca de um mês para chegar: “Foi uma<br />
tortura, mas eu já estava acostumado. Quando o produto<br />
chegava na loja o cara me ligava e eu saía do trabalho na<br />
hora, não queria nem saber”.<br />
Alguns discos não eram apenas uma sequência de faixas,<br />
mas tentavam também criar rituais. Um exemplo é<br />
o álbum Zaireeka, dos Flaming Lips, um dos mais caros<br />
que Leandro já comprou. Custou cerca de R$ 200, é quádruplo,<br />
mas todos os discos têm as mesmas músicas em<br />
sons diferentes. A ideia é que todos os quatro toquem ao<br />
mesmo tempo para então ouvir a música completa, o que<br />
chamam de som octafônico. Leandro, como todo colecionador<br />
zeloso, não gosta de emprestar seus objetos. No<br />
caso desse CD, evita até mesmo ouvi-lo. “Este nem eu<br />
encosto muito. Tenho há cinco anos e está novinho”.<br />
A revolução dA internet<br />
A internet trouxe uma maior aproximação com a música.<br />
Não apenas pelo poder de baixar música de graça,<br />
mas também por facilitar a compra. Como morador de<br />
Campo Bom, Leandro não podia contar com lojas especializadas<br />
por perto. Com os sites que vendem CDs, inclusive<br />
internacionais, ficou muito mais fácil para comprar e ainda<br />
recebê-los em casa. Antes dessas facilidades, Leandro<br />
era um dos clientes de uma loja de Novo Hamburgo que<br />
encomendava CDs importados. Esperava cerca de três semanas<br />
até que o produto chegasse à loja. “Eu comprava<br />
CD importado na época em que o dólar estava lá em cima.<br />
Na época do 1 por 1 era maravilha total, comprava um CD<br />
12 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
importado por R$ 25”, ele conta, lembrando que era uma<br />
das poucas pessoas com menos de 15 anos que se preocupava<br />
com a cotação do dólar.<br />
Ele compara as mudanças no processo de compra de<br />
CDs: “Hoje em dia no MP3 tu ouves um disco e, se não<br />
gosta, deixa de canto. Naquela época tu compravas o<br />
CD e, por ter gasto uma grana, investido teu dinheiro,<br />
tu tentavas vencer o CD”. Até nos finais de semana, os<br />
CDs faziam parte da programação do garoto. “Eu, guri<br />
sem muitos amigos, ficava em casa ouvindo CD. Só na<br />
faculdade que eu comecei a ter vida social.” Essa vida<br />
social surgiu através de amigos com gostos parecidos<br />
para música, com os quais trocava discos ou emprestava<br />
para gravar. Desse grupo de meninos, todos estudantes<br />
de Jornalismo e interessados em música, cinema e cultura<br />
em geral, nasceu um site, o Gordurama, que durou<br />
de 2003 a 2008.<br />
Para os colecionadores da região, uma das principais<br />
lojas sempre foi a Jam Sons Raros, que existe há 18 anos,<br />
no centro de Novo Hamburgo. Apesar de especializada em<br />
raridades, também sofreu com a chegada do MP3. O que<br />
a salva ainda é o diferencial, comercializar sons clássicos,<br />
músicas que não envelhecem. “Ninguém vem nos perguntar<br />
do novo do REM, mas o primeiro ou o segundo procuram<br />
sim”, relata Jean Rangel, 32 anos, um dos sócios da<br />
loja que vende CDs, DVDs e LPs nacionais e importados,<br />
novos ou usados. Muita raridade já passou por lá, discos<br />
que não são mais fabricados e não seriam encontrados<br />
em lojas convencionais. “Tem muitos que dizem ‘Puxa, eu<br />
procurava esse disco há anos’”, diz Rangel sobre os clientes<br />
que passam por lá. “Nossa principal satisfação é ver<br />
a pessoa saindo feliz da loja.” Ele conta que os clientes<br />
procuram mais por CDs, mas no momento há uma moda<br />
de discos de vinil que dá volume à procura de LPs.<br />
O CD não vai deixar de existir. Pelo menos não enquanto<br />
estiver viva essa geração de colecionadores,<br />
que não se contenta apenas com música passageira e<br />
pouca informação.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
icamos surpresas em como passar o sábado fazendo um trabalho<br />
“Fde faculdade pode ser divertido. apesar dos deslocamentos de<br />
cidades, das horas de entrevistas, foi um tempo bem investido. não só<br />
porque rendeu uma boa entrevista, mas também porque foi uma boa<br />
conversa. enquanto tirávamos nossas dúvidas com o leandro, case central<br />
da nossa reportagem, acabamos descobrindo tantas coisas legais que as<br />
perguntas diziam mais respeito à nossa curiosidade. apesar de no início<br />
termos votado em outro assunto, a escolha do tema música com certeza<br />
tornou o trabalho prazeroso para todos. no meio daquele monte de cds,<br />
acabamos encontrando bandas que gostávamos, músicas antigas e gostos<br />
em comum. tudo passou pela conversa: séries, videogame, revistas, coleção<br />
de figurinhas, e, é claro, música. ouvindo nossa gravação da entrevista,<br />
concluímos que o trabalho pareceu uma tarde de sábado com conversas<br />
interessantes entre amigos. que bom se toda entrevista fosse assim, não?”
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 13<br />
leandro souZa<br />
tem mais de 600<br />
cds, incluindo<br />
raridades<br />
como o álbum<br />
quadruPlo<br />
Zaireeka, dos<br />
Flaming liPs
Música para sENTir<br />
O RITMO TaMbéM eMbala<br />
as fesTas de queM nãO<br />
cOnsegue OuvIR<br />
14 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 15
O<br />
colorido dos balões alçados<br />
no teto, bem no<br />
centro do salão, reflete<br />
a alegria de uma tribo.<br />
Estão cheios de um ar expelido<br />
dos pulmões de quem sempre fez<br />
força pela dignidade. Foi numa<br />
noite fria e chuvosa que conhecemos<br />
o 1º Bailoco, uma festa a fantasia<br />
promovida pela Sociedade<br />
de Surdos do Rio Grande do Sul.<br />
O cartão de visitas é o sorriso. As<br />
pernas cruzadas e uma saia que<br />
mal cobre os joelhos, um atestado<br />
de coragem, de ousadia. Verônica<br />
Chiden, 56 anos, está toda<br />
de preto. Veste uma blusa de seda<br />
fina, que deixa braços e pescoço<br />
bem à mostra. Passa um atestado<br />
de que a deficiência auditiva não<br />
é o fim do mundo.<br />
Diante de dois curiosos estudantes<br />
de Jornalismo, Verônica<br />
é bem mais desinibida que muito<br />
marmanjo dito “normal”. Poucas<br />
vezes olha nos olhos. Não que isso<br />
seja de seu perfil, mas porque<br />
tem de ver os gestos da tradutora<br />
e professora de Libras — a língua<br />
de sinais dos deficientes auditivos<br />
— Nara Vidal. É através dela,<br />
uma senhora simpática, que foi<br />
logo avisando que tem uma filha<br />
surda, que Verônica abre o coração.<br />
Ou quase isso.<br />
Em pouco mais de uma hora de<br />
conversa, recordou das dificuldades<br />
na adolescência e na juventude,<br />
na família e na vida social. Só<br />
não quis dar detalhes de como se<br />
sustenta atualmente. Simplificou<br />
em gestos à tradutora: “Verônica<br />
disse que não quer falar muito sobre<br />
isso. Ela vive como pensionista.<br />
Conseguiu por causa de uma<br />
avó, que é juíza e se preocupava<br />
com ela”, relata Nara, que aprendeu<br />
com Verônica as palavras pelos<br />
gestos.<br />
Verônica é vítima de complicações<br />
no parto da mãe. O cordão<br />
umbilical estava enrolado ao pescoço<br />
da pequena Verônica, que sofreu<br />
perda de 90% da audição. Nem<br />
mesmo os questionamentos sobre<br />
16 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
TEXTO DE ÉDER KuRZ E GIOvAnI nEvES JunIOR | FOTOs DE LucIAnA BORBA<br />
a infância fazem Verônica perder a<br />
simpatia e o sorriso de cartão de<br />
visita. “Era muito difícil a comunicação.<br />
Era feita através da visualização,<br />
do oralismo”, relembra.<br />
“Quando era criança, demorei muito<br />
a me oralizar, e isso me abalou<br />
emocionalmente. Com seis anos,<br />
fui colocada numa escola particular,<br />
com turmas integradas.”<br />
Verônica descobriu um mundo<br />
preconceituoso e individualista. Na<br />
adolescência, pensou que a morte<br />
era o melhor caminho. “Passei<br />
um período que não queria viver”,<br />
gesticula, balançando a cabeça da<br />
esquerda à direita. As amizades foram<br />
poucas na juventude. Vivia em<br />
um mundo surdo. Crescia sozinha.<br />
Até entrar na Escola Frei Pacífico,<br />
em Porto Alegre. Tinha 16 anos e<br />
começou a aprender a se comunicar<br />
através das Libras. Os dias<br />
passaram a ter novos sons. Como<br />
a música, algo que não dava a menor<br />
importância até a juventude.<br />
“Sentia apenas a vibração. Passei<br />
a entender e a pegar muito pelo<br />
agudo. Pela batida, consigo perceber<br />
o som”, descreve Verônica,<br />
sobre a maneira como descobriu o<br />
ritmo das músicas.<br />
Ao aprender a língua dos surdos<br />
e ao perceber que outros caminhavam<br />
pela mesma estrada,<br />
Verônica encarou a deficiência.<br />
Teve namorado que era ouvinte.<br />
Viveram juntos. Mas ele acabou<br />
indo embora. “Não deu certo”,<br />
conta. A união deu fruto. Yasmim<br />
tem hoje 21 anos, é ouvinte e o<br />
orgulho da mãe.<br />
Verônica passou a frequentar a<br />
Sociedade de Surdos do Rio Grande<br />
do Sul aos 41 anos. Ocupou vários<br />
cargos. Hoje é a presidente.<br />
Viaja como representante da entidade<br />
para encontros fora do Estado.<br />
Em uma das idas a São Paulo,<br />
reencontrou um antigo namorado.<br />
Um amor de 30 anos atrás. Ele,<br />
Sérgio Capobianco, 60 anos, é surdo.<br />
Está perto de se aposentar e<br />
pretende vir morar em Porto Alegre.<br />
Verônica sonha em se casar<br />
na igreja. “De véu e grinalda, que<br />
terá dez metros”, diverte-se.<br />
Diversão, alegria e descontração<br />
marcaram o restante da noite<br />
de Verônica no Bailoco promovido<br />
pela Sociedade dos Surdos. “Hoje<br />
me sinto muito bem, especialmente<br />
numa noite de festa para<br />
os jovens, que foi organizada por
contribuições, com todos fantasiados<br />
para incentivar o grupo a participar<br />
da festa”, destaca Verônica.<br />
A música, a letra, o cantor é o<br />
que menos importa para os deficientes<br />
auditivos. A batida é que<br />
interessa. Faz subir a adrenalina.<br />
“A festa é uma maneira de aproximar<br />
os jovens não ouvintes”, resume<br />
Verônica.<br />
Dança no ritmo Das batiDas<br />
Olhos castanhos, longos cabelos<br />
cacheados, vaidosa e apaixonada<br />
por música. Aos 35 anos, Isabel Casagrande<br />
Batista é dona de um sorriso<br />
contagiante e único. E de uma<br />
surdez profunda desde que nasceu.<br />
O que seria um impedimento para<br />
muitos é motivo de força de vontade<br />
e de superação para Isabel. Nem<br />
a falta do som, das vozes das músicas,<br />
a atrapalham na hora de fazer o<br />
que mais gosta: dançar. Como? Pelo<br />
ritmo das batidas e dos amigos. Tanto<br />
que é frequentadora assídua das<br />
festas em casas noturnas de Porto<br />
Alegre e Região Metropolitana.<br />
Como toda mulher bonita, Isabel<br />
chama a atenção dos homens.<br />
No entanto, a surdez atrapalha no<br />
momento da paquera. Para nos demonstrar<br />
a situação, ela representa<br />
o papel de um homem se aproximando<br />
dela numa balada. Imita de<br />
forma cômica a cena que não deve<br />
ter sido engraçada no momento.<br />
Segunda ela, um homem lindo ficou<br />
observando ela dançar durante um<br />
bom tempo. Ao se aproximar para<br />
tentar conversar, logo que percebeu<br />
que ela era surda simplesmente fez<br />
sinal de desculpa, e foi embora.<br />
Isabel conta que muitos homens<br />
“fogem” dela ao notar que é surda,<br />
mas sempre existem os mais espertos<br />
que não deixam que isso atrapalhe<br />
e utilizam o celular para escrever<br />
mensagens e trocar algumas<br />
frases. De 15 em 15 dias Isabel pode<br />
ser encontrada nas baladas noturnas<br />
da grande Porto Alegre. Ritmo<br />
predileto? Todos, mas ela destaca<br />
que gosta muito de dançar vanerão<br />
e música eletrônica. Por sofrer de<br />
surdez profunda, Isabel apenas sente<br />
as vibrações sonoras. E quem dis-<br />
se que surdo não pode ter um rádio<br />
em casa? Pois essa mulher tem tamanha<br />
paixão por música que possui<br />
um rádio portátil em casa.<br />
Natural de Camaquã, Isabel foi<br />
educada através da oralidade. Aos<br />
15 anos, durante uma viagem a Pelotas,<br />
percebeu que existiam muitas<br />
pessoas com a mesma dificuldade<br />
que ela. A partir de então decidiu<br />
procurar a Sociedade de Surdos.<br />
Casada três vezes — o primeiro e<br />
o terceiro casamento com homens<br />
surdos e o segundo com um ouvinte<br />
—, atualmente namora com um surdo<br />
e está muito feliz.<br />
Após as entrevistas, fomos embora,<br />
mas a festa continuou. Uma<br />
festa como outra qualquer, em que<br />
a única diferença era a maneira<br />
como as pessoas sentiam a música.<br />
Sem dúvida, a música é feita para<br />
ser ouvida, mas, antes disso, ela<br />
foi criada para ser sentida. Afinal<br />
de contas, muitas vezes escutamos<br />
músicas em inglês ou francês sem ao<br />
menos sabermos o que a letra quer<br />
dizer, apenas porque a sonoridade<br />
agrada aos nossos ouvidos. O mesmo<br />
vale para os surdos, embora não<br />
consigam diferenciar claramente os<br />
sons. Eles sentem as frequências<br />
sonoras, principalmente as graves.<br />
E não importa como ela chega até<br />
nós, o importante é ter a música em<br />
nossas vidas.<br />
iMprEssÕEs DE rEpÓrTEr<br />
omo contar uma história<br />
“cpartindo do princípio de que<br />
as fontes não escutam nem falam?<br />
eis o desafio. um desafio e tanto<br />
para dois estudantes de Jornalismo.<br />
depois que a turma optou pelo<br />
tema música, pensamos: “qual<br />
pauta vamos sugerir?”. queríamos<br />
fazer algo diferente. começamos<br />
a nos questionar como os surdos<br />
conseguem sentir os sons. e fomos<br />
atrás da sociedade de surdos do<br />
Rio grande do sul, em Porto alegre.<br />
foi lá que encontramos a nossa<br />
pauta. nossa história. surdos que<br />
frequentemente promovem festas,<br />
como o bailoco, que teve sua primeira<br />
edição em setembro. uma festa<br />
embalada por música eletrônica e axé.<br />
Recebemos a ajuda da tradutora nara<br />
vidal, que nos auxiliou nas entrevistas.<br />
ficamos por mais de duas horas no<br />
bailoco, mesmo nos sentindo meio<br />
deslocados. éramos os únicos ouvintes<br />
em meio a dezenas de surdos. Pessoas<br />
sem preconceitos e que dividiam<br />
sorrisos pelos passos repetidos um<br />
do outro. e mesmo não sabendo<br />
libras, por vezes conseguíamos trocar<br />
algumas frases com os surdos através<br />
dos sinais. aprendemos que, seja qual<br />
for a forma, o essencial é ter algum<br />
meio de se comunicar.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 17
MÚSICA PARA INCLUIR<br />
QuAnDO<br />
OS SOnhOS<br />
vIRAM<br />
REAlIDADE<br />
18 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
A VIDA DE 32 crIAnçAs<br />
DE fAmílIAs DE bAIxA<br />
rEnDA DA cApItAl gAúchA<br />
mUDOU cOm A OrqUEstrA<br />
DE câmArA JOVEm DO<br />
rIO grAnDE DO sUl<br />
TEXTO DE ÂnGElA vIRTuOSO E ROSAnnA RAMOS<br />
FOTOS DE ÂnGElA vIRTuOSO
AlAn EstUDA<br />
pElA mAnhà E,<br />
À tArDE, EnsAIA<br />
cOm Os cOlEgAs<br />
DA OrqUEstrA<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 19
20 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
Desde pequeninha, Angelis<br />
Teixeira Lima, 12 anos,<br />
gostava de música clássica.<br />
Ela assistia sozinha a<br />
concertos de grandes orquestras na<br />
televisão. Com oito anos, a menina<br />
disse para a mãe que queria aprender<br />
violino. Mas a possibilidade de<br />
tocar o instrumento estava muito<br />
distante da realidade de sua família.<br />
“Não teríamos recursos para<br />
bancar aulas e instrumento”, conta<br />
a mãe, Ângela.<br />
O sonho da menina chegou mais<br />
perto quando a Orquestra de Câmara<br />
Jovem do Rio Grande do Sul abriu as<br />
seletivas para sua primeira turma.<br />
Na ocasião, mais de 1,3 mil crianças<br />
e adolescentes se inscreveram.<br />
Os jovens participaram da avaliação<br />
aplicada pelo corpo docente do<br />
projeto, e, dos que passaram pelo<br />
teste básico de ritmo, 360 foram selecionados<br />
para uma oficina de uma<br />
semana. Para a etapa seguinte, apenas<br />
32 — entre eles, Angelis — ficaram<br />
e formaram a Orquestra.<br />
Quando, enfim, passou a tocar<br />
violino, ela teve certeza da carreira<br />
que queria seguir: a da música.“A<br />
orquestra é tudo para mim. Aqui,<br />
aprendi a tocar e tive a certeza de<br />
que é isso que quero ser.” No último<br />
ano, muita coisa mudou na vida da<br />
menina. Dedicada, tornou-se uma<br />
das mais promissoras da turma e<br />
agora não tem dúvida: quer fazer faculdade<br />
de Música, mesmo objetivo<br />
da maioria dos colegas. Ela aponta<br />
para a Europa no mapa-múndi e diz<br />
que é ali que vai morar. “Meu sonho<br />
é tocar na Orquestra de Berlim”,<br />
conta, emocionada.<br />
Todos os integrantes da orquestra<br />
foram selecionados em escolas<br />
públicas de Porto Alegre. Escolhidos<br />
em famílias com renda mensal inferior<br />
a três salários mínimos, cada<br />
um recebe uma bolsa-auxílio de R$<br />
AngElIs lImA<br />
fOI UmA DAs<br />
32 crIAnçAs<br />
sElEcIOnADAs<br />
pArA fOrmAr A<br />
OrqUEstrA
190 mensais — paga pelo governo<br />
do estado — para garantir o transporte<br />
até os ensaios e a alimentação,<br />
mas são comuns os casos em<br />
que esse dinheiro ajuda no sustento<br />
da família. No caso de Angelis, é<br />
com esse dinheiro que ela faz suas<br />
compras.“Depois de entrar para a<br />
orquestra, ela ficou mais organizada.<br />
Por isso, deixo com ela o valor<br />
da bolsa e ela o administra sozinha.<br />
Quando precisa de alguma roupa,<br />
materiais, já tem esse dinheirinho.<br />
Agora, ela quer botar aparelho dentário,<br />
então está economizando”,<br />
diz Ângela.<br />
Não se exigia experiência nem<br />
intimidade com qualquer instrumento,<br />
mas a sensação que se tem<br />
ao ouvir as crianças tocarem é de<br />
que já fazem isso há anos. Nas férias<br />
escolares, em janeiro e fevereiro,<br />
elas poderiam ter parado, mas<br />
pediram para continuar praticando.<br />
Os ensaios em casa também fazem<br />
parte da rotina.“Agora eles estão<br />
em uma etapa em que realmente<br />
têm de se dedicar. Abrem mão de<br />
sair, de brincar, de jogar bola, ou<br />
dormir até mais tarde no final de semana.<br />
Estamos aumentando o nível<br />
de exigência, pois o objetivo é criar<br />
uma orquestra profissional”, explica<br />
o maestro Telmo Jaconi, 60 anos.<br />
A agenda de apresentações começa<br />
a ser preenchida. Na primeira<br />
vez em que os jovens músicos vestiram<br />
a roupa de gala preta para a<br />
estreia oficial no Theatro São Pedro,<br />
em abril deste ano, foi difícil segurar<br />
a ansiedade. “Tinha um banco<br />
que batizamos de banquinho do<br />
choro. Todo mundo sentou um pouquinho<br />
lá para chorar, mas não era<br />
de nervoso, era de emoção”, conta<br />
a menina. Angelis agora já toca em<br />
casamentos e cerimônias da igreja.<br />
E, aos poucos, o nervosismo vai dando<br />
lugar à segurança.<br />
Música que transforMa<br />
Quem observa Alan Marcos Serpa<br />
a deslizar, sereno, as cerdas do arco<br />
sobre as quatro cordas do violino<br />
não imagina como a música clássica<br />
transformou o mundo do garoto. O<br />
carioca, de apenas 11 anos, só “nas-<br />
ceu” para a vida em fevereiro de 2009, quando ingressou<br />
na Orquestra de Câmara Jovem. “O projeto salvou o meu<br />
filho. Cheguei a pensar que ele tivesse autismo ou algum<br />
outro problema neurológico”, revela Chirleide Dantas<br />
Bezerra, mãe de Alan.<br />
Há cerca de dois anos, ela saiu do Rio de Janeiro e<br />
encontrou em Porto Alegre uma chance de recomeçar.<br />
Veio do Sudeste do país com o caçula e a primogênita,<br />
Amanda, hoje com 14 anos, a convite do padrasto das<br />
crianças, Silvio Xavier. “Nos mudamos para a terra natal<br />
do meu companheiro porque lá estava difícil de conseguir<br />
um emprego e também porque precisávamos fugir<br />
da violência. E foi por já ter visto de tudo que Alan, mesmo<br />
tão novinho, se tornou um menino recluso e pouco<br />
interessado em qualquer atividade”, completa. Ele, inclusive,<br />
desprezava a música. E tinha motivos para tal:<br />
o garoto sabia que a mãe havia deixado de lado o seu<br />
sonho de tocar teclado para criar os filhos e viu, ainda,<br />
há alguns anos, o pai biológico vender esse instrumento,<br />
tocado com habilidade pela irmã, para comprar drogas.<br />
Mas a mudança de contexto pode transformar uma<br />
pessoa, e de uma hora para a outra. Um dia, depois de<br />
tantas tentativas de plantar nele o amor pela música —<br />
até mesmo por sugestão de uma psicoterapeuta do Rio —,<br />
Chirleide ficou surpresa quando Alan chegou em casa da<br />
escola com um panfletinho em mãos. “Para a minha plena<br />
felicidade, ele me pediu para inscrevê-lo na seletiva<br />
da orquestra”, relembra a mãe. Durante as eliminatórias,<br />
eles rezaram muito, afinal, só por meio do projeto<br />
o garoto poderia estudar música. Aulas particulares, por<br />
exemplo, nunca caberiam no orçamento da família.<br />
A bolsa-auxílio de R$ 190 passou a ser uma das rendas<br />
fixas da família. Mas a mãe não fica com o dinheiro para<br />
ela, apenas administra o valor cedido pelo menino porque<br />
é necessário colocar comida na mesa. Até a metade<br />
de 2010, Alan também ajudava Chirleide vendendo os<br />
salgadinhos feitos por ela aos colegas de orquestra. Nos<br />
intervalo dos ensaios, de terça a sexta-feira, ele deixava<br />
o violino de lado e tirava da mochila um potinho cheio<br />
de delícias. Hoje, o garoto ocupa esse pequeno tempo<br />
experimentando outros instrumentos, para desenvolver<br />
ainda mais o seu talento.<br />
Alan desloca-se, de graça, de casa até o centro – e<br />
viceversa – com o consentimento dos cobradores e dos<br />
motoristas da linha Glória, bairro onde mora. Ele dribla<br />
a roleta e escorrega por baixo dela o seu corpo de<br />
um metro e meio de comprimento. No turno da tarde, o<br />
pequeno ainda precisa encontrar um jeitinho de passar<br />
o violino pelo equipamento de controle de passageiros.<br />
“Escolhi esse instrumento por ser o de som mais agudo,<br />
além de ser mais leve e fácil de carregar, afinal, sou pequeno,<br />
né?”, justifica.<br />
Alan, pela manhã, vai à escola. De tarde, se reúne<br />
com os integrantes da orquestra para desenvolver a<br />
obra musical em conjunto. À noite, é hora de estudar<br />
mais um pouco. “Depois de ver a novela — eu sou<br />
muito noveleiro —, faço os temas e volto para o violi-<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 21
no. Toco de 30 a 40 minutos antes<br />
de ir dormir”, relata.<br />
A família tem um gosto musical<br />
apurado. Na pequena casa de madeira,<br />
ninguém escuta pagode ou<br />
funk, por exemplo. Nos momentos<br />
de lazer, se não está jogando bola<br />
ou videogame, Alan fica na companhia<br />
dos pais, conversando ou<br />
escutando a coletânea de Chico<br />
Buarque e DVDs de músicos consagrados<br />
como Tom Jobim, João Bosco<br />
e Manuel Rosa.<br />
22 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
Como é contrário aos ritmos incentivados<br />
pela indústria cultural<br />
de hoje, o garoto também é alvo<br />
de chacota, principalmente na escola.<br />
“A música erudita não é popular.<br />
Fora que muitos da minha<br />
escola tentaram entrar na orquestra<br />
e só eu consegui. Então eles<br />
pegam no meu pé, não importa o<br />
que eu diga ou faça”, conta Alan.<br />
“Os colegas acham que ele quer<br />
aparecer, até já apanhou na escola.<br />
Mas ele não reclama de nada.<br />
Só não quer que machuquem a<br />
mão dele, porque aí não poderia<br />
tocar”, completa a mãe.<br />
Alan tem ainda mais um desejo:<br />
um dia tocar no naipe Violino<br />
1, responsável pela melodia das<br />
obras. Atualmente, ele faz parte<br />
do grupo de acompanhamento, o<br />
Violino 2. “Não peço para trocar<br />
porque essa parte da orquestra<br />
poderia ficar desfalcada”, conclui,<br />
mostrando ser um pequeno<br />
menino de grande coração.<br />
AlAn EscOlhEU O<br />
VIOlInO pOr tEr<br />
Um sOm AgUDO<br />
E pOr sEr fÁcIl<br />
DE trAnspOrtAr
COnhEçA<br />
O PROjETO<br />
Criada em março de 2009, a Orquestra é<br />
um projeto que visa à inserção social e musical<br />
de crianças e adolescentes de baixa renda<br />
e a criação de oportunidades no mercado<br />
de trabalho. Iniciativa da Secretaria da Justiça<br />
e do Desenvolvimento Social (SJDS), conta<br />
com a parceria da Famurs, com o patrocínio<br />
do Banrisul e apoio da Secretaria Estadual da<br />
Educação, Ministério Público Estadual (MPE) e<br />
Prefeitura de Porto Alegre.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
mpressionante foi como as nossas percepções acerca da pauta<br />
“Iforam mudando ao longo do percurso – da escolha do tema à<br />
finalização do texto. A princípio, falar sobre um projeto de música<br />
clássica dedicado exclusivamente a crianças de baixa renda nos parecia<br />
prático, simples, fácil. E não se deu diferente a execução das etapas<br />
do processo. no entanto, mesmo concluindo o curso de Jornalismo,<br />
aprendemos uma lição importante, básica por assim dizer: de nunca<br />
menosprezar um assunto; se entregando à pauta, as surpresas podem<br />
ser muitas. quando fomos à sede do projeto para acompanhar<br />
um ensaio da Orquestra, nos deparamos com um prédio de porta<br />
trabalhada, um hall de entrada luxuoso – de tapete vermelho, lustre<br />
de cristal e tudo – salas grandes e crianças sorridentes. Ao sermos<br />
apresentadas, não sabíamos se as mais encabuladas ali éramos nós<br />
ou elas. Depois, durante uma conversa ao fim da tarde com os cases<br />
indicados pelo maestro, nos deixamos contagiar pela pureza e o<br />
entusiasmo de Angelis e Alan. Ouvimos com atenção suas histórias, e<br />
ainda o depoimento da mãe da menina. Já a partir do encontro com<br />
a família de Alan, trabalhoso mesmo foi compilar numa lauda uma<br />
vida cheia de peculiaridades. Agora, nada mexeu mais com a gente<br />
do que a visita ao lar do pequeno violinista. numa sexta-feira, logo<br />
na sequência de uma audição na catedral metropolitana de porto<br />
Alegre, fomos com o garoto, chirleide e o esposo ao bairro glória.<br />
Descemos do ônibus, entramos num corredorzinho estreito e andamos<br />
cerca de 50 metros até pararmos em frente a uma retalhada casinha<br />
de madeira, sem portas nos cômodos e não muito organizada. Em<br />
compensação, as palavras proferidas na entrevista e as músicas da<br />
apresentação improvisada exclusivamente para nós foram escolhidas<br />
com cuidado por pessoas cultas e realizadas. Uma experiência<br />
surpreendentemente do avesso.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 23
A sociedAde do bArulho<br />
A complicAdA convivênciA<br />
com A músicA AltA que ecoA<br />
nos corredores dos prédios<br />
e no trAnsporte coletivo
MÚSICA PARA INCOMODAR<br />
TEXTO de dAnielA MAchAdo e JuliAnA JeZiorny<br />
FOTOS de TATiele PrudÊncio<br />
Ganha pão de uns, hobbie e até terapia para outros. Presente<br />
em todos os momentos da vida, não importa qual<br />
seja o estado de espírito da pessoa, lá está a música.<br />
Responsável por causar sensações inexplicáveis no humor,<br />
consegue extrair sorrisos de rostos esperançosos e lágrimas de corações<br />
partidos.<br />
De samba a rock, os estilos variam em cada casa noturna e também<br />
nos lares mundo afora. Alguns guardam preconceito pelo gosto<br />
musical alheio, outros se dizem ecléticos e não se importam em<br />
trocar alguns minutos de pagode por sertanejo. O que importa em<br />
todos os casos é respeitar os decibéis permitidos, o horário estipulado<br />
e as pessoas presentes no ambiente.<br />
A inclusão digital facilitou a aquisição de aparelhos celulares e<br />
rádios hipermodernos a baixo custo. E é aí que começam os problemas.<br />
Nem todo mundo respeita o espaço público<br />
e acaba deixando o bom senso de lado na hora de<br />
escutar música — a todo volume — nos lugares que<br />
frequenta ou em sua própria casa.<br />
Não importa a hora do dia ou a cidade pela qual<br />
se ande, basta entrar em um trem ou ônibus que,<br />
na maioria das vezes, é possível se deparar com<br />
alguém compartilhando a sua playlist com o resto<br />
das pessoas.<br />
O analista de suporte Tiago Motta, 20 anos, conhece<br />
bem esse problema. Há dois anos, faz diariamente<br />
o trajeto Novo Hamburgo - Porto Alegre.<br />
Para chegar até o local de trabalho, pega dois ônibus<br />
e um trem. Como atende diversos clientes na<br />
capital gaúcha, por vezes precisa se deslocar em<br />
vários transportes coletivos ao longo do dia. Estudante<br />
do terceiro semestre de Sistemas da Informação<br />
na Unisinos, duas vezes por semana ainda<br />
muda sua rota no final da tarde para estudar em<br />
São Leopoldo.<br />
Em meio a essa rotina de idas e vindas, já se<br />
deparou diversas vezes com passageiros escutando<br />
música sem fone de ouvido. “Já ouvi de tudo: eletrônica,<br />
funk e até brega. Essas pessoas escutam música para elas e<br />
para os que estão ao seu redor”, desabafa.<br />
Motta nunca teve coragem de abordar quem incomoda o sossego<br />
alheio, mas já presenciou alguns incomodados pedirem para o volume<br />
ser baixado. “Os perturbadores do silêncio até dão uma diminuída<br />
no som, mas é só a pessoa que pediu para fazer menos barulho<br />
sair de perto que eles voltam a aumentar”, reclama.<br />
ConsCientização Criativa<br />
A campanha pelo uso de fones de ouvido nos ônibus feita pela<br />
empresa de transporte porto-alegrense Carris está sendo bem aceita<br />
entre os usuários. Segundo o coordenador de Comunicação e Marketing<br />
da empresa, Márcio Lara, as constantes reclamações dos usuários<br />
fizeram com que o setor de comunicação criasse uma campanha<br />
de conscientização. “Muitos passageiros reclamavam que algumas<br />
pessoas escutavam música alta sem fones de ouvido, transformando<br />
PriMeirA iMPressÃo | deZeMbro/2010 | 25<br />
A empresA de<br />
trAnsporte<br />
cArris criou<br />
umA cAmpAnHA<br />
pArA o uso de<br />
Fones de ouvido<br />
nos ÔniBus
o ônibus em um trio elétrico. Para acabar<br />
com esse desconforto, criamos uma<br />
campanha e primeiro a disseminamos no<br />
Twitter, um canal em que entramos em<br />
contato direto com os jovens, que hoje<br />
representam mais de 40% dos usuários<br />
dos nossos serviços”, explica.<br />
Por meio do perfil @Carris_POA, a empresa<br />
colocou três layouts de cartazes da<br />
campanha para votação e ficou entre os<br />
dez perfis mais retuitados da semana no<br />
site de rede sociais Twitter durante o período<br />
de escolha dos internautas. O layout<br />
vencedor já está circulando nas televisões<br />
existentes no interior dos ônibus da Carris<br />
e não tem prazo para sair do ar.<br />
Quando fala sobre a aceitação da<br />
campanha pelos passageiros, Márcio é<br />
categórico. “Foi a melhor possível! Também<br />
ganhamos muita visibilidade nos veículos<br />
de comunicação. Até em Salvador<br />
teve uma pessoa que se interessou pela<br />
campanha e disse que vai levar a ideia<br />
para os órgãos responsáveis pelo transporte<br />
público de lá. Os usuários seguiram<br />
mandando mensagens de apoio, su-<br />
26 | PriMeirA iMPressÃo | deZeMbro/2010<br />
o produtor musicAl<br />
leAndro BreHm<br />
receBiA cArtAs<br />
quilométricAs de<br />
umA viZinHA que<br />
nÃo suportAvA o<br />
volume dAs músicAs<br />
que ele ouviA<br />
gestões para novas campanhas e muitos<br />
elogios”, ressalta.<br />
Tiago viu a campanha da Carris sobre<br />
o uso dos fones de ouvido e aprovou a<br />
iniciativa. “Já vi nas televisões dos ônibus.<br />
Como as pessoas estão ali distraídas<br />
com a programação, além das notícias,<br />
já veem a mensagem da empresa sobre o<br />
uso dos fones e aderem à ela”, diz.<br />
o barulho mora ao lado<br />
É sabido que, quando moramos em<br />
apartamentos ou condomínios, são impostas<br />
algumas regras, principalmente<br />
quando o assunto diz respeito ao barulho.<br />
Porém, quando não se respeita o<br />
limite do outro, as coisas podem ficar<br />
bem complicadas. É o caso do arquiteto<br />
Leandro Brehm de Lima, 33 anos.<br />
Após residir em cidades como São Paulo,<br />
Buenos Aires e Florianópolis, Leandro<br />
voltou para Porto Alegre e acabou indo<br />
morar em um prédio localizado no Centro<br />
da cidade. A primeira manhã na casa nova<br />
foi o marco inicial de uma guerra sem fim<br />
com uma vizinha, devido aos altos deci
éis advindos do computador dele. “Era<br />
umas 10h quando acordei e coloquei uma<br />
música para arrumar a mudança e trazer<br />
boas energias ao meu ambiente particular.<br />
Em menos de 15 minutos, ouvi batidas<br />
desesperadas na minha porta. Era uma vizinha,<br />
que logo se apresentou como moradora<br />
e advogada e falou durante muito<br />
tempo sobre ondas sonoras, fragilidade do<br />
prédio, convivência em sociedade e sobre<br />
aquele som que estava incomodando os<br />
seus ouvidos”, explica.<br />
Prontamente o volume foi diminuído<br />
por Leandro, contudo, as complicações<br />
só estavam começando. Passados alguns<br />
meses, ele deixou de ter a música apenas<br />
como hobbie e começou a trabalhar efetivamente<br />
com ela, como produtor musical<br />
e DJ. Com aparelhagem própria, iniciou<br />
pesquisas e mixagens de músicas no seu<br />
apartamento.<br />
A vizinha, por sua vez, complementava<br />
as reclamações verbais com bilhetes<br />
passados por baixo da porta. “Eram cartas<br />
quilométricas que falavam de convivência<br />
e som”, explica ele. Leandro sempre<br />
acabava baixando o volume, ainda que<br />
estivesse seguindo as regras de horários<br />
permitidos para escutar música mais alta<br />
estabelecidas pela lei do silêncio, que<br />
proíbe altos decibéis entre 22h e 7h.<br />
Mas engana-se quem pensa que a vizinha<br />
só reclamava de Leandro. Em uma<br />
tarde de sábado, a moradora atravessou<br />
a rua e foi ao prédio em frente ao seu<br />
para protestar contra o volume alto que<br />
ultrapassava as paredes. A partir dessa<br />
data, todos os condôminos começaram<br />
a isolá-la e não dar mais atenção para<br />
suas reclamações.<br />
Depois de dois anos e meio de discussões<br />
e queixas, a moradora resolveu se mudar.<br />
Leandro, que nunca havia enviado nenhuma<br />
carta para sua vizinha, resolveu fazê-lo.<br />
“Escrevi que era para ela, nesta nova casa,<br />
não abrir mão de nenhum pré-requisito de<br />
felicidade, como vedação acústica e isolamento<br />
total de vizinhos”, ironiza.<br />
No dia da mudança, ocorreu um fato<br />
curioso, os condôminos comemoraram a<br />
saída daquela que consideravam a antissocial<br />
do prédio. “Absolutamente todos<br />
os moradores do prédio colocaram balões<br />
nas suas portas como forma de celebração.<br />
Ninguém falou nada, mas com certeza<br />
ela entendeu”, lembra Leandro.<br />
Leandro garante que só se estressou<br />
com essa vizinha. “Nunca tive problemas<br />
com outros moradores, porque sei o quanto<br />
a música alta incomoda. Quando passa<br />
do horário estabelecido, escuto música<br />
com fones de ouvido”, finaliza.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
m meio a tantas pautas que abordavam a temática da música sob seus<br />
“easpectos positivos, decidimos inverter o quadro para mostrar aos leitores o<br />
quanto ela pode ser incômoda na vida de algumas pessoas. o assunto polêmico<br />
parecia não ter muitas testemunhas, mas quando saímos a campo para observar de<br />
que forma abordaríamos a pauta, nos surpreendemos com a quantidade de cases<br />
que poderiam ser usados. uma das repórteres anda diariamente de transporte<br />
coletivo e já havia mostrado aversão aos usuários que não respeitam o espaço<br />
público ao escutarem música alta. Já a outra, mora em um condomínio e convive<br />
com o barulho dos seus vizinhos e as reclamações da síndica. mais do que expor<br />
o problema, também buscamos um exemplo que mostrasse a sua solução, como<br />
foi o caso da carris. Através das entrevistas, percebemos o quanto é difícil para as<br />
pessoas, principalmente aquelas que moram sozinhas ou que percorrem um longo<br />
trajeto em meios coletivos de transporte, conviverem com o silêncio. para elas, a<br />
música acaba sendo a única companhia.”<br />
PriMeirA iMPressÃo | deZeMbro/2010 | 27
MÚSICA PARA APRENDER<br />
MúSIcA nAS<br />
28 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
BAncAS Do<br />
MARCO ANTÔNIO FILHO<br />
sucesso ao quase<br />
esquecimento, as<br />
revistas De cifras<br />
fizeram história<br />
levanDo aos<br />
músicos “caseiros”<br />
canções que<br />
marcaram época<br />
TEXTO DE VInÍcIUS GHISE<br />
E TIAGO VARGAS<br />
FOTOS DE MARcO AnTÔnIO FILHO<br />
E RIcARDO MAcHADO<br />
É<br />
muito difícil que um músico,<br />
seja profissional, amador ou<br />
aspirante, não tenha, pelo<br />
menos uma vez em sua trajetória,<br />
se deparado com uma das<br />
populares revistas de cifras vendidas<br />
em bancas. As tradicionais revistinhas<br />
impressas em papel jornal,<br />
comercializadas em todo o país,<br />
fazem parte da história recente do<br />
aprendizado musical no Brasil.<br />
O que pouca gente sabe é de<br />
onde vêm essas páginas amareladas,<br />
que, com certa habilidade e<br />
algum talento, se tornam música.<br />
Parte dessa história é contada por<br />
Vitor Biancardi, que há quase 30<br />
anos é sócio da Imprima Comunicação<br />
Editorial.<br />
Nascido em uma família de músicos,<br />
Biancardi não contrariou a<br />
regra. Filho de maestro, também<br />
dedicou-se ao ensino da música. A<br />
história começou a ser escrita, ou<br />
impressa, para superar as dificuldades<br />
de repassar as canções aos alunos<br />
que não tinham conhecimento<br />
para ler partituras. “A ideia era criar<br />
uma revista com canções cifradas,<br />
para que o aluno pudesse tê-la em<br />
mãos a qualquer hora, em qualquer<br />
lugar”, relembra Biancardi.<br />
Assim surgiu a primeira Violão &<br />
Guitarra, que, aos poucos, foi aper-<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 29
30 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
RICARDO MACHADO<br />
feiçoada. Passado algum tempo,<br />
novos métodos de ensino de música<br />
por meio das cifras foram publicados<br />
pela Editora Com a Corda Toda,<br />
pertencente ao Grupo Imprima.<br />
A ampliação significativa dessas<br />
publicações ficou evidente com a<br />
multiplicação dos métodos que envolvem<br />
cifras: Violão Curso Prático,<br />
Batidas e Dedilhados, Guitarra Curso<br />
Prático, Método Prático Violão &<br />
Guitarra, Violão 7 Acordes, Músicos<br />
da Noite, Grupos de Rock, Toque Já<br />
Violão & Guitarra, etc.<br />
Segundo Biancardi, o processo<br />
de escolha das músicas era parte<br />
importante do processo. “Após pesquisas<br />
de mercado, com rádios e<br />
gravadoras, fazíamos a transcrição e<br />
publicávamos”. Hoje as revistas do<br />
tipo Violão & Guitarra têm uma tiragem<br />
média de 6,5 mil exemplares,<br />
muito diferente do período áureo do<br />
negócio, final dos anos 1980, quando<br />
esse número era bem maior.<br />
Além da procura ter migrado<br />
para a internet, onde existem sites<br />
especializados em cifras, como<br />
o www.cifraclub.com.br, Biancardi<br />
conta que os editores passaram a<br />
enfrentar outros problemas. “Hoje<br />
as bancas ocupam seu espaço com<br />
produtos alternativos como cigarros,<br />
pilhas, sorvetes, Xerox, diminuindo<br />
o espaço para uma boa exposição<br />
das revistas.”<br />
Em Porto Alegre e Região Metropolitana,<br />
a empresa responsável<br />
pela distribuição das revistas de cifras,<br />
produzidas pela Imprima, é a<br />
Comercial de Publicações CPL. Segundo<br />
Thiago Borges, funcionário da<br />
empresa, há alguns anos as revistas<br />
representavam boa parte da vendagem<br />
mensal. “As publicações do<br />
gênero eram bem populares e eram<br />
vendidas muito por indicação, pois<br />
nunca houve publicidade para divulgar<br />
esse produto”, lembra.<br />
A concorrência, contudo, é um<br />
tanto desleal. Com a massificação<br />
da internet, não apenas ficou mais<br />
fácil encontrar cifras, como também<br />
trocar informações com outros<br />
músicos ou aspirantes. Além disso,<br />
há conteúdo ainda mais variado do<br />
que o das revistas.<br />
A velocidade com que os prin-
cipais sites do gênero incluem material atualizado se<br />
deve, logicamente, pela grande quantidade de pessoas<br />
que acessam o conteúdo. Forma-se aí uma rede de<br />
colaboração, e entre usuários estão também músicos<br />
profissionais que se valem de seu conhecimento para<br />
tentam ganhar dinheiro complementando os conteúdos<br />
disponibilizados nos sites.<br />
Fato é que existem cifras para todos os gostos musicais<br />
na web. Os mais saudosistas podem até não se agradar,<br />
acham que não é a mesma coisa. Para eles, acessar<br />
o conteúdo na internet é mais ágil, mas não substitui,<br />
ainda, as publicações que permanecem sendo editadas.<br />
Elas podem ser levadas para todo o canto e com certeza<br />
ainda figuram em churrascos e reuniões de família.<br />
Parece ser esse saudosismo que mantém vivas as publicações<br />
do gênero. Levar a revista para um parque, à<br />
beira de um lago, ou até mesmo para o canto preferido<br />
da casa, ainda atrai. No entanto, com a mobilidade digital,<br />
esse “recurso” também deixa, aos poucos, de ser<br />
exclusivo. De qualquer forma, muita gente ainda espera<br />
que as revistas de cifras permaneçam sendo editadas. As<br />
páginas amareladas têm seu charme.<br />
Quando o papel vira música<br />
“Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó”. Sete notas, muitas<br />
variáveis. Quem nunca quis, tentou ou até conseguiu<br />
aprender a tocar um instrumento musical? A música atrai<br />
a todos, inclusive crianças. Fazer som por meio de gestos<br />
parece mágico para os pequenos, e os adultos também<br />
se encantam.<br />
O instrumentista, produtor musical e radialista Daniel<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
elatar parte da história das revistas<br />
“rde cifras e o que elas representam<br />
para os músicos era nossa intenção.<br />
nosso objetivo era, principalmente,<br />
falar sobre a história dessas publicações<br />
e seu passado recente. pretendíamos,<br />
contudo, dar um tom mais nostálgico<br />
do que o obtido. faltou um relato<br />
mais impactante. Buscamos diversas<br />
vezes encontrar a pessoa que desse um<br />
“recheio” a mais na reportagem. ao<br />
final da busca, concluímos que a ideia<br />
inicial não foi completamente alcançada.<br />
pensamos numa segunda opção, que<br />
seria falar com algum professor que<br />
utilizasse essas publicações como auxílio<br />
na hora de passar músicas novas aos<br />
seus alunos. também não conseguimos<br />
exatamente o tipo de profissional que<br />
Alamón, que por cinco anos trabalhou como professor de<br />
música na escola da Família Lima, em Porto Alegre, fala<br />
sobre sua experiência com as cifras. “Elas ajudam o músico<br />
a se guiar, quando vai acompanhar um cantor, por<br />
exemplo”, explica.<br />
Embora, segundo Alamón, as cifras não sejam tão<br />
completas como as partituras, funcionam muito bem<br />
como recurso de aprendizado a distância. O instrumentista<br />
acredita que elas colaboram para a evolução dos<br />
alunos, mas não resolvem todo o “problema”. “Elas complementam.<br />
Tu não podes sair apenas dali, fica muito<br />
sem chão. Às vezes tu não consegues entender o que estão<br />
tentando passar, então falta aquela base lá atrás, de<br />
um bom aprendizado de pauta, pentagrama, de música<br />
em si”, explica Alamón.<br />
O músico ressalta, também, uma peculiaridade das<br />
cifras. “As notas musicais não começam pelo Dó, o Lá<br />
é a primeira nota”, afirma. Esse sistema é popular nos<br />
países de língua inglesa, onde são utilizadas letras para<br />
dar nome às alturas das notas musicais. As letras A, B, C,<br />
D, E, F e G correspondem a Lá, Si, Dó, Ré, Mi, Fá e Sol,<br />
respectivamente.<br />
Se hoje questionamos por quando tempo as revistas<br />
de cifras ainda estarão disponíveis no mercado, cabe aqui<br />
uma reflexão. Temos a percepção de que todos estão conectados<br />
à web, mas a realidade é um pouco diferente.<br />
Além disso, a relação que temos com o “toque” do papel<br />
é algo que não muda.<br />
Se você não encontrar mais as revistas de cifras nas<br />
bancas, procure-as em um bom sebo. Talvez seja esse<br />
o caminho.<br />
tínhamos em mente. resumindo, nosso<br />
intuito era iniciar do singular, contando<br />
como as revistas fizeram ou fazem parte<br />
da vida de alguém. Depois partiríamos<br />
para o histórico e dados mais técnicos.<br />
sobrou-nos o texto mais “seco”, pois,<br />
de fato, essas revistas não fazem mais<br />
o sucesso que faziam antigamente. De<br />
qualquer maneira, conseguimos alguns<br />
relatos interessantes. falar com vitor<br />
Biancardi, sócio da editora que iniciou o<br />
negócio das revistas de cifras, e também<br />
com Daniel alámon, ex-professor de<br />
música, foi bem interessante.acreditamos<br />
que fica aqui não o relato <strong>completo</strong>,<br />
mas parte dele. quem sabe no futuro,<br />
possamos ler os capítulos que seguem e<br />
conhecer mais sobre esta história pouco<br />
abordada, mas curiosa.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 31
música para FaZEr sOZiNHO<br />
ExéRcItO DE<br />
uM hOMEM Só<br />
32 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
TEXTO DE MANOELA BANDINELLI E ROBERtA ROth | FOTOs DE GABRIELA DA SILVA<br />
Criação, gravação e exeCução de<br />
músiCas não preCisam ser feitas<br />
por um grupo. É possível ser o<br />
frontman e todos os outros<br />
Lembre daquela velha banda de<br />
garagem produzindo sons tão<br />
altos capazes de ensurdecer os<br />
vizinhos. Eles estavam fazendo<br />
música. Agora troque essa imagem por<br />
um jovem compenetrado em frente ao<br />
computador. Ele não está estudando.<br />
Ele não está jogando. Ele também está<br />
fazendo música.<br />
A ponte entre arte e tecnologia vem<br />
se estreitando, criando o elo que une as<br />
duas áreas e dando origem à formação<br />
de um espaço com novas dimensões e<br />
limites inalcançáveis por meios tradicionais.<br />
A música está incluída nesse<br />
caminho, com o uso de computadores<br />
em composições sendo praxe em estúdios<br />
profissionais. A evolução chegou<br />
tal ponto que atualmente é possível<br />
fazer novas canções sem tocar ou possuir<br />
nenhum instrumento e, ainda, sem<br />
ajuda de ninguém.<br />
O termo one-man band (banda de<br />
um homem só), passou a ser empregado<br />
no início dos anos 80 para descrever<br />
artistas que tocavam todos os instrumentos<br />
de uma música, gravando um<br />
por vez e realizando a união dessas<br />
partições em uma canção única. A técnica,<br />
utilizada por amantes da música<br />
eletrônica, passou a fazer parte também<br />
do rock e outros estilos. Alguns<br />
músicos famosos como Prince, Lenny<br />
Kravitz e Paul McCartney fizeram gravações<br />
em que todos os instrumentos<br />
eram tocados somente por eles.<br />
Essa gravação solitária não é privilégio<br />
desses artistas famosos. A partir<br />
de softwares disponibilizados na internet<br />
e alguma noção musical, é possível<br />
criar um hit com direito a guitarra, baixo<br />
e bateria. Sem estúdio ou palheta.<br />
Para o estudante de Jornalismo<br />
Marcelo Collar, a ideia foi impulsionada<br />
por um problema na banda em que<br />
fazia parte: “O baterista teve um problema<br />
no pulso, e ficamos um tempo<br />
parados. Senti falta de fazer música”.<br />
Assim surgia o projeto solo intitulado<br />
Plaza de Toros Monumental, de criação<br />
e execução exclusivas do estudante.<br />
A experiência anterior com instrumentos<br />
facilitou o processo para Collar,<br />
que já gravava no computador sugestões<br />
de melodias, porém sem nunca ter<br />
executado o processo inteiro. Os caminhos<br />
foram descobertos com alguns<br />
percalços: “Tive que achar soluções<br />
para os problemas que existem quando<br />
se grava em casa. Para a bateria<br />
eletrônica, consegui um programa que<br />
deixa um som bem natural e, para o<br />
vocal, achei um jeito bom de gravar a<br />
voz em casa”. O que parece diversão já<br />
é tratado com profissionalismo: “Apesar<br />
de também ser uma brincadeira,<br />
continuei gravando e querendo lançar<br />
e mandar para selos de gravadoras,<br />
porque fiquei satisfeito com a qualidade<br />
e com o resultado”.<br />
O músico Diego Voges tratou de não<br />
ser somente one-man band e investiu<br />
no ramo musical. Diego também registrava<br />
em seu computador ideias para<br />
sua antiga banda e hoje é dono de um<br />
estúdio de gravação. Com a divulgação<br />
web de suas composições no grupo<br />
Hermit Age, do qual fez parte por mais<br />
de dez anos, o músico aprendeu a criar<br />
diferentes linhas de instrumentos.<br />
Inspirado no conceito do one-man<br />
band sueco Thomas “Quorthon” Forsberg,<br />
que gravou sozinho álbuns da<br />
banda de Black Metal Bathory, Diego<br />
fez o mesmo em um disco inteiro da<br />
Hermit Age: “Foi onde vi que era possível<br />
uma pessoa só gravar um bom álbum.<br />
Me mudei de cidade, e, com isso,<br />
a formação da banda, antes composta<br />
por até quatro pessoas, nunca mais se<br />
fixou. Eu tinha muitas ideias e não queria<br />
desperdiçá-las”, conta. Para Diego,<br />
a conclusão do projeto se transformou<br />
em um verdadeiro desafio imposto por<br />
outros: “No início eu comentava que<br />
faria tudo sozinho e fui desacreditado,<br />
mas isso até serviu como incentivo!”<br />
prazer e negócios<br />
Diego não é membro da família Von<br />
Trapp, mas é mais do que acostumado<br />
com a atmosfera musical. A experiência<br />
com estúdios vem dos tempos da<br />
gravação analógica. Os pais do músico<br />
sempre trabalharam em rádios e<br />
locuções comerciais: “Desde os meus<br />
três anos, já estava dentro de estúdios<br />
vendo o pessoal editar comercial com<br />
tesoura e fita adesiva”.<br />
A convivência com as pessoas e a<br />
paixão pela música levaram Diego ao<br />
caminho temido por muitas pessoas:<br />
misturar prazer com negócios. “Nada
Com exCeção das<br />
guitarras, diego voges<br />
(aCIma) e marCelo Collar<br />
Criam os sons dos<br />
instrumentos diretamente<br />
no Computador<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 33
34 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
melhor que trabalhar e ganhar dinheiro fazendo o que se ama,<br />
não é? Já no primeiro ano, gravei duas ou três bandas, mas<br />
ainda como cinegrafista e fotógrafo. Porém, aos poucos, o estúdio<br />
foi crescendo e o trabalho como câmera foi diminuindo,<br />
até sumir”, conta. Estava fundado assim o Ufo Rock Studio,<br />
em Capão da Canoa, litoral norte do Rio Grande do Sul.<br />
De prontidão, já aprendemos com Diego uma dica que<br />
repassamos: “O processo de gravação faz uma banda crescer<br />
muito musicalmente.” Diego contabiliza mais de 1.200 músicas<br />
gravadas em sete anos do estúdio. De one-man band a<br />
every men: “Hoje é possível fazer praticamente tudo com o<br />
recurso que tenho. Comparo minhas gravações com as feitas<br />
por bandas grandes, que gravaram em estúdios milionários, e<br />
não perco em nada”.<br />
Transformar um hobby em negócio é a atividade única e<br />
exclusiva de Diego: “Creio que já passaram por aqui umas 200<br />
bandas, possivelmente. Também gravamos locução comercial,<br />
edição de áudio, vinhetas, entre outros.” Agora, fazer<br />
música segue incluído nos prazeres (e nos negócios). Diego<br />
atualmente participa de duas bandas, e nem precisamos dizer<br />
quem faz as gravações das músicas.<br />
como faz?<br />
Em ambos os casos, tanto Diego quanto Collar tinham<br />
experiências prévias com instrumentos musicais. Porém,<br />
com a tecnologia atual, é possível criar sem ter habilidade<br />
da maneira tradicional. Existem softwares que auxiliam no<br />
entendimento de partituras (ver quadro<br />
ao lado), mas é desejável noção de melodia<br />
ou de notas musicais, para agradar<br />
ao ouvido.<br />
Diego conta que o processo de familiarização<br />
com o computador foi demorado,<br />
ainda mais que a estrutura não era<br />
nada profissional. Além disso, apesar de<br />
ter noção musical, não tinha nenhuma<br />
noção tecnológica: “Comprei o computador<br />
e mal sabia ‘copiar e colar’ textos,<br />
mas preferi aprender a programar baterias<br />
no Cakewalk Pro Audio 9 (software<br />
de composição) antes mesmo de aprender<br />
a digitar.”<br />
Marcelo contava com experiência<br />
no computador, mas não sabia tocar<br />
bem bateria, o que não foi problema<br />
para a execução de suas músicas:<br />
“Para fazer de maneira eletrônica basta<br />
ter uma noção que o baterista tem<br />
duas mãos e duas pernas e tu consegues<br />
fazer uma bateria que soa como<br />
uma de verdade”.<br />
Sabem aqueles tópicos de ajuda dos<br />
softwares que geralmente ignoramos, que<br />
têm um ponto de interrogação? Eles são<br />
úteis! Diego revela que utilizou por muito<br />
tempo os tópicos de ajuda que os próprios<br />
programas oferecem. Deixar as dicas<br />
(tips) ativadas na inicialização de softwa-<br />
res também auxilia. Quanto às dúvidas<br />
que possam surgir, Diego tem a ajuda de<br />
um fórum online: “Sempre pesquiso no<br />
www.audiolist.org, um site com fórum<br />
direcionado a profissionais do áudio,<br />
com gente que sabe tudo nessa área.”<br />
Solitário e acessível como todo o processo,<br />
a um clique de distância.<br />
processo de criação<br />
Esqueça papel e caneta. Para os<br />
one-man band, o processo de criação<br />
é outro: “Me vem aquela ideia na cabeça<br />
e fico repetindo mentalmente.<br />
Quando chego em casa, crio uma bateria<br />
eletrônica, pego a guitarra e,<br />
aos poucos, começo a compor a música”,<br />
conta Marcelo Collar. “Como<br />
instrumento real, utilizo só a guitarra.<br />
A bateria é eletrônica. Uso mixagens,<br />
gravo em média duas ou três guitarras<br />
por vez, uma mais grave para dar<br />
preenchimento maior, uma mais aguda<br />
para ficarem mais definidos os riffs”,<br />
diz Collar, que já pensa em incluir mais<br />
um toque pessoal nas criações: “Tenho<br />
pensado em colocar piano, ver se consigo<br />
colocar acordeon, alguma coisa<br />
mais gauchesca no meio”. Tudo de<br />
dentro do quarto.<br />
Para facilitar ainda mais, é possível<br />
compor já gravando. É assim que Diego<br />
Voges faz suas músicas: “Um looping<br />
de bateria eletrônica me dá o tempo,<br />
para poder tocar em cima, e gravo<br />
uma linha de guitarra guia”.<br />
O processo é curioso e peculiar a<br />
cada artista inclusive na hora de colocar<br />
letras na música. Diego conta que<br />
vai gravando em cima das bases um vocal<br />
guia cantado em “embromation”,<br />
para depois começar a trabalhar nos<br />
arranjos. Assim, sem letra nem nada,<br />
somente composta por gemidos e sussurros<br />
inventados, a música começa a<br />
tomar forma. Segundo Diego, a letra é<br />
criada em cima do tal “embromation”<br />
pela sonoridade da letra, e com esse<br />
método, certas vogais surgem e funcionam<br />
bem em determinada melodia:<br />
“É como fazer uma paródia da letra<br />
inexistente, e nessa paródia passar a<br />
mensagem. É um desafio no mínimo<br />
interessante. E funciona!”, diz Diego.<br />
palco e plateia, é possível?<br />
É verdade que, com todos os recursos<br />
disponíveis no computador,
é possível criar e muito, porém, é<br />
difícil executar a apresentação de<br />
qualquer one-man band sem ajuda.<br />
A bateria pode ser eletrônica, com<br />
um laptop ligado no amplificador,<br />
mas a guitarra precisa de alguém no<br />
comando, e ainda tem a voz! Ainda<br />
assim, Collar acredita ser mais fácil<br />
que da maneira tradicional. “A formação<br />
toda cabe no banco de trás<br />
de um carro. Não tenho mais idade<br />
para carregar bateria e ‘trocentos’<br />
quilos de equipamento para tocar<br />
em lugar podre”, confessa.<br />
Por conta de suas “bandas”, Collar<br />
teve resposta positiva de críticos<br />
musicais na internet. Tudo isso com<br />
custo inicial quase zero. “Gastei com<br />
o Plaza de Toros R$ 60, quando comprei<br />
duas fitas de vídeo para a gravação<br />
do videoclipe e depois paguei<br />
um xis pros caras que foram filmar<br />
comigo”. Diego começou a investir<br />
conforme o dinheiro foi entrando, e<br />
hoje tem todos os equipamentos de<br />
um estúdio profissional.<br />
Quanto ao sucesso, sabemos que<br />
ele se manifesta de diferentes formas.<br />
Se antes existiam fã-clubes e<br />
cartas escritas com metros de extensão,<br />
hoje perfis em mídias sociais<br />
criados por admiradores já<br />
sinalizam o sucesso. E são esses<br />
elogios, virtuais ou não, que fazem<br />
qualquer exército de um homem só<br />
estar pronto para a guerra do mercado<br />
musical.<br />
imprEssÕEs DE rEpÓrTEr<br />
icamos felizes quando o assunto<br />
“fmúsica foi definido como tema<br />
da revista, é algo com o qual nos<br />
identificamos. música sempre esteve<br />
presente, marcando vários momentos<br />
das nossas vidas. e admitimos: qualquer<br />
coisa que se faça sem a companhia de<br />
uma ou várias melodias é bem menos<br />
emocionante. as buscas pelas bandas de<br />
um homem só foram facilitadas quando,<br />
dentro da sala de aula, encontramos uma<br />
fonte, o marcelo Collar. além de colega<br />
e amigo, ele se disponibilizou totalmente<br />
a nos contar as experiências pessoais e<br />
SEjA A SuA PRóPRIA BANDA<br />
equipamento: é preciso ter um computador bom e<br />
uma placa de som que, de preferência, grave em 24-bits e<br />
que tenha phantom power, um dispositivo da placa de som<br />
para garantir que ela vá trabalhar com microfone condensador,<br />
mais aconselhável para gravar voz. Além disso, um<br />
mixer ou uma mesa de som pequena ajudam bastante.<br />
Também é possível criar e gravar sons com celular, gravador<br />
portátil, e também com o iPad.<br />
softwares: existem diversos programas e aplicativos usados<br />
para gravação, escolha o que melhor se adapta às suas<br />
composições ou aquele que você domina melhor. Alguns exemplos:<br />
Sonar, Pro Tools, Cubase, Adobe Audition, MorphWiz.<br />
mostrar que qualquer pessoa que queira<br />
pode fazer isso. as entrevistas renderam, e<br />
foi fácil encontrar informações adicionais,<br />
já que nosso networking no mundo<br />
das bandas é bastante grande. a nossa<br />
ideia, desde o início, era fazer algo como<br />
um incentivo. muitas mentes criativas<br />
acabam deixando de produzir por falta<br />
de companheiros de produção musical e<br />
buscamos todas as informações essenciais<br />
para que qualquer um possa fazer isso<br />
sozinho. esperamos sinceramente que<br />
novas promessas apareçam, inspiradas<br />
por esta matéria.”<br />
gravando: pode se usar uma mesa de som, ou plugins de efeitos,<br />
ou caixa de som, microfone, guitarra, bateria, baixo e outros<br />
instrumentos, mas nenhum deles é extremamente necessário, dependendo<br />
da proposta. Depois de tudo criado e gravado, se confere<br />
o volume, os timbres e, por último, é aconselhável masterizar o<br />
som, processo que dá mais consistência e volume. Para isso, se usa<br />
outro tipo de software, como Soundforge ou Cubase.<br />
divulgação: também é preciso criatividade para mostrar<br />
o trabalho. Além das técnicas clássicas de mandar<br />
CD’s para as gravadoras, utilize as redes sociais e as plataformas<br />
de internet para atingir diferentes públicos em<br />
proporções bem maiores.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 35
MÚSICA PARA REZAR<br />
DANILO PLACK<br />
ENCONTROU<br />
NA RELIGIÃO<br />
E NA MÚSICA<br />
UMA SAÍDA<br />
DO MUNDO<br />
DAS DROGAS<br />
O EncOntRO PElA fé<br />
36 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
DESDE<br />
CRIANÇA,<br />
LUCINÉIA<br />
PELISSARI<br />
CANTA<br />
DURANTE<br />
AS MISSAS<br />
JÉSSICA BERGER ANDERSON LOPES
ESTA É A hISTóRIA DE DANILO E LUCINÉIA, qUE POR CAMINhOS DIfERENTES<br />
ENCONTRARAM NA RELIGIÃO A PAIxÃO PELA MÚSICA<br />
TEXTO DE GIAnInI OlIvEIRA DA SIlvA E JOEl OlIvEIRA | FOTOS DE AnDERSOn lOPES E JéSSIcA BERGER<br />
“De sorte que a fé é pelo ouvir,<br />
e o ouvir pela palavra de Deus.”<br />
(Romanos 10:17)<br />
As músicas com letras que propagam o<br />
evangelho deixaram de ser restritas às<br />
celebrações cristãs e conquistaram o<br />
gosto de diversas pessoas. O tema musical<br />
ganhou tamanha proporção que cantores<br />
como Aline Barros, Padre Marcelo Rossi, Padre<br />
Fábio de Mello, Grupo Rosa de Saron, Antônio<br />
Maria, Padre Zezinho – precursor dos padres<br />
cantores desde a década de 1960 – entre outros<br />
nomes, tornaram-se grandes sucessos, reunindo<br />
milhares de fieis em suas apresentações.<br />
No Brasil, a indústria de CDs e DVDs cristãos<br />
movimenta por ano mais de R$1,5 bilhão, segundo<br />
dados da Associação Brasileira de Produtores<br />
de Discos (ABPD). A expectativa é de que esse<br />
número possa dobrar nos próximos dez anos, já<br />
que o país possui cerca de 30 milhões de evangélicos,<br />
e as projeções são de que essa população<br />
ultrapasse os 50 milhões até 2020.<br />
Conforme relata Júlio César Junqueira Cezimbra,<br />
teólogo e pastor há 20 anos, a música<br />
não só aproxima os fiéis da igreja como também<br />
cumpre o seu papel perante a Bíblia. “O louvor<br />
e a adoração fazem parte da vida, tocando as<br />
pessoas. A Bíblia instiga a louvar. Quando você<br />
conhece Deus, você começa a andar por convicção,<br />
você sente Deus, você fala com ele”, afirma<br />
o pastor, que trabalha há sete anos na Igreja<br />
Missionária de Evangelização de Células (IMEEC)<br />
de Lajeado.<br />
A escolhA que mudou o destino<br />
Cabelos brancos, voz serena, mãos de quem<br />
toca bateria há muitos anos e feições de quem<br />
carrega uma grande bagagem de vida. Seus olhos<br />
não se contêm ao relembrar momentos tão marcantes<br />
entre a música e sua vida. Essa é a história<br />
de Danilo Plack, 60 anos, atual baterista na<br />
banda da igreja IMEEC de Lajeado.<br />
Jovem, sonhador, cheio de garra e apaixonado<br />
pela música, esse era Danilo, que com 20 anos<br />
iniciava a carreira musical. Baterista da Banda<br />
Guarujá, era um dos cinco integrantes que tocavam<br />
nas noites animando os bailes e festas da<br />
região. Porém, as drogas e bebidas, antes distantes<br />
da sua realidade, começaram a fazer parte<br />
de sua vida, transformando o que era prazer em<br />
depressão. “Eu alegrava os outros durante a noite<br />
e pela manhã estava na tristeza”, relembra.<br />
Junto com o sucesso profissional, vinha o<br />
que mais tarde seria o motivo de sua recuperação,<br />
sua filha e sua esposa. Logo o jovem<br />
percebeu que conciliar a rotina noturna com<br />
a família que havia constituído não seria fácil,<br />
porém, apesar das drogas e bebidas que estavam<br />
arruinando sua vida, a paixão pela música<br />
falava mais alto, não o deixando largar aquele<br />
ambiente. “Acreditava que, se parasse de tocar<br />
na noite, nunca mais teria outra oportunidade<br />
na carreira musical”, recorda.<br />
O jovem, antes alegre e cheio de garra, continuava<br />
a tocar nos bailes e a usar drogas que<br />
o levavam da euforia e prazer à dependência,<br />
enquanto sua família estava se destruindo aos<br />
poucos. “Chegava aos bailes e muitas vezes ia<br />
até o banheiro injetar droga, era mais forte do<br />
que eu”, desabafa. Foi em um desses momentos<br />
de destruição que tudo mudou. Ao ver a filha<br />
queimar de febre, pediu para que Deus a salvasse.<br />
Em seu quarto sozinho, rezando, ele fez uma<br />
promessa que mudaria sua vida.<br />
Com riqueza de detalhes, Danilo lembra bem<br />
a data e hora em que revelou sua promessa e a<br />
escolha mais difícil por qual já passou. “Eram<br />
23h do dia 31 de dezembro. Quando todos estavam<br />
sentados à mesa, durante a janta que antecedia<br />
o Show de Réveillon, eu disse que, depois<br />
do Carnaval, não tocaria mais”, conta em meio<br />
às lágrimas.<br />
A partir daquele momento, sua vida mudou.<br />
As idas à igreja tornaram-se frequentes, até que<br />
foi convidado a tocar na banda da igreja. “Não<br />
entendia como Deus havia me curado da droga,<br />
das bebidas, mas não havia me tirado o gosto<br />
por tocar.” Hoje, Danilo, o músico mais antigo<br />
da banda da Igreja, relembra como foi difícil, na<br />
década de 1970, os fieis aceitarem a presença<br />
da bateria na igreja. “Antigamente só tocavam<br />
teclado e piano. Nas igrejas pentecostais, a bateria<br />
era o demônio. Aos poucos ela começou a<br />
crescer. A música gospel está ganhando mais espaço,<br />
aperfeiçoando-se com uma grande variedade<br />
de instrumentos.”<br />
Hoje com seis filhos, ele conta com orgulho<br />
que sua família seguiu seus passos na igreja.<br />
Uma das filhas é cantora e dois dos filhos são<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 37
ateristas. Ele se emociona ao ver sua<br />
pequena neta com apenas três anos dançando<br />
nas apresentações da igreja. “Tudo<br />
mudou porque eu tive fé. Uma fé sem<br />
obras é uma fé morta”, comenta Danilo,<br />
um apaixonado pela música que nunca<br />
deixou de tocar, apenas mudou a forma<br />
de conduzir o som.<br />
o pequeno toRnA-se gRAnde<br />
Lucinéia Pelissari, 28 anos, casada e<br />
moradora de São Leopoldo, foi criada conforme<br />
a doutrina da Igreja Católica. Natural<br />
de Foz do Iguaçu, Paraná, aos 14 anos<br />
aprendeu a tocar violão e começou a cantar<br />
nas missas da pequena capela que a família<br />
frequentava. Dois anos depois, com o<br />
intuito de estudar, a jovem foi morar com<br />
a tia na cidade em que vive hoje.<br />
Logo se tornou frequentadora do Santuário<br />
Padre Réus, onde foi convidada a fazer<br />
parte da equipe de canto. Desde então,<br />
Lucinéia não parou mais de tocar e cantar,<br />
de acordo com ela, para Deus. Determinada,<br />
se formou em Magistério e, mais tarde,<br />
em Pedagogia Empresarial. Atualmente,<br />
possui dois empregos. Pela manhã, ministra<br />
palestras e treinamento a funcionários<br />
de empresas, e, à tarde, é secretária no<br />
próprio Santuário Padre Réus.<br />
Em 2003, alguns amigos a convidaram<br />
para fazer parte de uma banda de reggae,<br />
na qual permaneceu por três anos.<br />
Ela compôs algumas músicas e chegou a<br />
gravar uma canção. Mas conciliar a banda<br />
com o trabalho religioso não foi nada<br />
fácil. A moça relata que sentia certo preconceito<br />
da igreja católica em relação<br />
ao reggae. “Alguns amigos íntimos me<br />
falavam que as músicas da banda eram<br />
profanas e não combinavam com a religião,<br />
que eu deveria ficar tocando só nas<br />
missas.” Naquela época, ela se casou e<br />
decidiu abandonar a banda.<br />
Os cantos das missas da primeira quartafeira<br />
e segundo domingo de cada mês são<br />
de responsabilidade da jovem e experiente<br />
cantora, que escolhe, toca e canta sozinha<br />
as melodias que emocionam os fieis. Lucinéia<br />
acredita que as notas musicais que<br />
saem do seu violão comovem as pessoas<br />
e ajudam a evangelizar. “Com certeza, a<br />
música emociona as pessoas. Por exemplo,<br />
se eu estou no momento da comunhão e<br />
toca uma música bem calma e profunda,<br />
as pessoas conseguem se interiorizar mais<br />
e vão aproveitar melhor aquele momento<br />
38 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
ANDERSON LOPES<br />
de encontro com Jesus.”<br />
Trabalhando há mais de dez anos com a<br />
religião católica, a moça se apresenta em<br />
missas que reúnem um grande número de<br />
fiéis. Ela conta que já emocionou muita<br />
gente. “Inclusive meu pai se comoveu em<br />
uma missa que participei, porque lá em<br />
Foz do Iguaçu eu cantava em uma capela<br />
que iam no máximo 20 pessoas e aqui tinha<br />
mais de mil.” Lucinéia considera a música<br />
essencial em sua vida, assim como a devoção<br />
pela religião. E acredita que as duas<br />
juntas a completam.<br />
Lucinéia e Danilo encontraram na união<br />
da música com a fé uma forma de viver.<br />
Dois caminhos diferentes, mas que levaram<br />
ao mesmo final.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
pós várias entrevistas e fontes<br />
“A sugeridas sem sucesso, nos deparamos<br />
com a história de Danilo, que reconstruiu<br />
sua vida na religião e passou a ver a música<br />
de outra forma. O oposto da história de<br />
Lucinéia, que desde pequena cresceu com<br />
a música e a religião ao seu lado. Vários<br />
foram os momentos durante a entrevista<br />
em que as fontes se emocionaram ao relatar<br />
os caminhos que trilharam. Não se envolver<br />
nessas histórias ao escrevê-las foi o mais<br />
difícil diante das entrevistas. Aprendemos<br />
muito entrevistando os músicos das<br />
igrejas, não imaginávamos que seria tão<br />
esclarecedor. As fontes falaram sobre a<br />
relação que a música tem com a religião e<br />
também contaram as suas histórias. Apesar<br />
de não os conhecermos, as entrevistas<br />
fluíram normalmente, como uma conversa<br />
descontraída. No início, achávamos que<br />
o gravador iria inibi-los, mas, felizmente,<br />
estávamos errados, e tudo ocorreu conforme<br />
o cronograma.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 39
Música para vender<br />
CARDáPIO<br />
ElEtRônICO<br />
40 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
Produtores como dima<br />
daHaBa, da GuiNÉ Bissau,<br />
criam e oFerecem Bases<br />
musicais Na iNterNet<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 41
42 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
TeXTO DE CAROlInA AnCHIEtA E EDUARDO FElDEnS<br />
FOTOs DE MAURICIO MOntAnO<br />
e garrafas não param de aparecer...<br />
Esse life style todos eles querem<br />
ter.” Essa frase da música Party Monster,<br />
“Damas<br />
do grupo de hip hop Sevenlox, sintetiza a<br />
vontade de muitos de levar uma vida de rockstar. Alguns<br />
almejam viver da própria música, mostrar para o mundo<br />
as suas ideias através de melodias. Outros querem mesmo<br />
é a fama, o glamour com altos cachês, entrevistas e<br />
muitos fãs.<br />
Muitos não vão muito além de sonhar, mas alguns<br />
arriscam e tentam ser cantores, músicos e até mesmo<br />
compositores. Lá pelo meio do caminho percebem que<br />
não é tão fácil assim... Chegar às gravadoras com a sua<br />
demo, fechar bons contratos, ter espaço para tocar,<br />
isso tudo é bem complicado. Além de talento, é claro,<br />
são necessários bons contatos, e assim muitos desistem<br />
no caminho.<br />
Mas esse mercado vem mudando. Com a tecnologia,<br />
a “vida de músico” ficou bem mais facilitada, a internet<br />
contribuiu muito para isso. Música e internet têm<br />
uma relação importante. Isso fica claro num tempo em<br />
que a maioria dos grandes nomes da música pop, como<br />
o garoto Justin Bieber, começou cantando suas músicas<br />
favoritas no You Tube.<br />
Além da facilidade de acesso e divulgação, o “fazer<br />
música”, também em função da tecnologia, é bem mais<br />
simples. Diversos programas estão ao alcance de todo<br />
tipo de pessoa na internet. Basta baixar e instalar. Essa<br />
facilidade trouxe ainda mais destaque para uma profissão<br />
existente no mercado musical: o produtor.<br />
O produtor musical ou produtor discográfico é o<br />
responsável por completar uma gravação para que<br />
ela esteja pronta para o lançamento. Ele controla as<br />
sessões de gravação, guia os músicos e cantores e faz<br />
a supervisão do processo de mixagem.” O produtor é<br />
quem, literalmente, faz a base da música. Base musical,<br />
instrumental ou simplesmente beat são os termos<br />
mais comumente usados dentro do hip-hop e de outros<br />
estilos de música eletrônica. É praticamente uma música<br />
pronta, com arranjos, instrumentos, partes definidas<br />
(verso/refrão), faltando apenas voz e letra para que<br />
vire o produto final.<br />
Todo o trabalho de um produtor é possível de ser<br />
feito no computador, sem a necessidade de instrumentos.<br />
Essa função tornou-se cada vez mais importante e<br />
destaca-se tanto quanto ser “o vocalista” de uma banda.<br />
Para Nitro Di, produtor e apresentador do único<br />
programa de hip hop da rádio Atlântida FM, o papel do<br />
produtor é fundamental, embora ele ressalve: “Uma<br />
boa produção com uma letra fraca<br />
não vale de nada! Além disso, artistas<br />
novos podem se deslumbrar<br />
com o visual e a possibilidade de<br />
fazer um mega hit, esquecendo que<br />
não é só isso para estourar.”<br />
Esse mercado cresceu tanto que<br />
algumas universidades já oferecem<br />
cursos específicos para varias áreas<br />
de produção musical, como é o<br />
caso da Unisinos, com o curso de<br />
Produtores e Músicos de Rock, e a<br />
Anhembi Morumbi, de São Paulo,<br />
que, além de um curso de produção<br />
musical para todos os estilos,<br />
oferece um voltado exclusivamente<br />
para música eletrônica.<br />
Foi esse caminho de aperfeiçoamento<br />
a opção de Dima Dahaba,<br />
MC e produtor do grupo de hip hop<br />
Sevenlox, que veio de Guiné Bissau<br />
para o Brasil já com o sonho de viver<br />
de música, através de intercâmbio<br />
entre os dois países. Após uma pequena<br />
estada em Ijuí e Porto Alegre,<br />
foi em São Paulo que ele encontrou<br />
onde se aperfeiçoar e formou-se em<br />
Produção Musical na Anhembi Morumbi.<br />
Com colegas da universidade,<br />
surgiu a ideia de criar uma plataforma<br />
para vender o produto feito<br />
por eles, as chamadas bases musicais.<br />
Nasceu assim o The Hit: www.<br />
myspace.com/thehitmuzik. “O The<br />
Hit surgiu a partir de uma afinidade<br />
musical e de visão de mercado<br />
entre mim, Joe Black e PLG . Eu e<br />
Joe sempre debatemos sobre como<br />
estava tudo estagnado no mercado<br />
musical brasileiro para o estilo de<br />
música com o qual trabalhamos. Aí<br />
quando apareceu o PLG veio junto<br />
a certeza de que tínhamos que nos<br />
mexer para fazer alguma coisa a<br />
respeito”, explica Dima.<br />
O hábito de comprar bases pela<br />
internet já é comum nos EUA, mas<br />
o mercado nacional, na visão dos<br />
criadores do The Hit, ainda preci-
sa adaptar-se: “O mercado nem faz<br />
ideia do que isso seja. Para os cantores<br />
brasileiros em questão, acho<br />
que as únicas dificuldades que existem<br />
são as que eles mesmos criam<br />
para si. Para cantores iniciantes,<br />
especialmente existe essa dificuldade<br />
de entender que, para quem<br />
quer viver disso, a música tem que<br />
ser encarada mais do que como um<br />
simples hobby”.<br />
As vendas no The Hit já começaram.<br />
O músico Cabal (www.myspace.com/cabalakac4),<br />
renomado<br />
na cena do hip hop nacional, já era<br />
cliente dos produtores antes mesmo<br />
da criação do site. Ele reconhece<br />
o valor dessa plataforma: “Isso<br />
pode trazer uma grande mudança<br />
na qualidade da música feita no<br />
Brasil, pois, na maioria das vezes,<br />
é complicado ter acesso a produtores<br />
com essa qualidade. O The Hit<br />
está mudando isso e mostrando que<br />
todos podem ter produções profissionais<br />
de altíssimo nível, independente<br />
de onde estejam e por um<br />
valor bem acessível”.<br />
A questão do valor é o grande<br />
impasse dessa nova ideia, pois alguns<br />
produtores e artistas acham<br />
caros os preços oferecidos no site.<br />
Dima explica: “No Brasil, a maioria<br />
dos produtores de rap costuma cobrar<br />
entre R$ 100 e R$ 400, no máximo,<br />
por faixa musical. Nós operamos<br />
com valores entre R$ 400 e R$<br />
1.000. Nos Estados Unidos, a média<br />
fica entre 20.000 e 60.000 dólares<br />
para produtores de ‘pequeno porte’<br />
e 60.000 a 300.000 para os world<br />
famous do porte de Timbaland,<br />
Kanye West, etc..”<br />
Com divulgação via e-mails, redes<br />
sociais e o tradicional boca a<br />
boca, como todo bom produto com<br />
baixos recursos estilo “lado B”, o site<br />
causa certo burburinho. O rapper<br />
Cabal lançou na sua página oficial<br />
no Orkut um fórum de discussão sobre<br />
o The Hit, o que acabou gerando<br />
uma polêmica entre representantes<br />
do hip hop de diferentes partes do<br />
país. Surgiram várias opiniões sobre<br />
esse formato de se comercializar<br />
música, e todos os comentários negativos<br />
foram a respeito dos valores.<br />
Nitro Di, mesmo gostando da<br />
ideia, também a questiona: “Achei<br />
a ideia muito boa, porém é preciso<br />
saber o custo de cada produção.<br />
Existem artistas ruins com dinheiro<br />
e artistas bons sem grana pra pagar<br />
uma produção. Mas está valendo,<br />
conheço os produtores e sei do po-<br />
tencial monstro deles, tomara que<br />
dê certo e que artistas com talento<br />
formem essa parceria!”<br />
Agora a questão é esperar para<br />
ver se o mercado brasileiro vai se<br />
adaptar a esse tipo de compra. Para<br />
quem pretende tornar-se produtor,<br />
uma dica fácil para se dar o primeiro<br />
passo: um programa bacana, usado<br />
por vários produtores, o Fruit Loops,<br />
que pode ser baixado facilmente<br />
na internet. Boa sorte! Quer dizer:<br />
“Bons beats!”<br />
iMpressÕes de repÓrTer<br />
úsica. com esse tema, a nossa dupla imaginou<br />
“mque seria bem simples fazer o texto para a<br />
revista. ainda mais que um de nós (a carol) já escreveu<br />
sobre isso há algum tempo, mas nos enganamos: nunca<br />
subestime a dificuldade de um trabalho! tentamos fazer<br />
algo diferente, mas não deu certo. deixamos então<br />
a inovação ser destacada a partir da ideia de um dos<br />
entrevistados. conhecer o the Hit nos levou a pensar<br />
sobre o grau de especificidade a que chegou a música<br />
na internet. também nos chamou a atenção esta mistura<br />
e o passeio sem preconceitos entre diferentes gêneros,<br />
também nos fez esquecer a muitas vezes apressada<br />
associação música – internet - pirataria. aguçou nossa<br />
curiosidade sobre novas plataformas. e as possibilidades<br />
concretas de produção, criação e intercâmbio por ele<br />
abertas. deverá se tornar visitação obrigatória, modelo<br />
para músicos profissionais e objeto de pesquisa não só<br />
para quem atua diretamente na profissão, mas para<br />
os praticantes de atividades afins. as entrevistas nos<br />
deram mais trabalho pela falta de tempo, então fizemos<br />
todas elas via e-mail. Facilitou, mas teria sido melhor<br />
pessoalmente, as pessoas ficam mais espontâneas.<br />
mesmo assim, importantes lições foram aprendidas e<br />
acreditamos que isso já vale, porque temos certeza que<br />
o principal objetivo de todas as disciplinas não são as<br />
notas, mas sim o que levamos para a vida profissional.“<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 43
NÃO tE AcANhA,<br />
vEM PRA SAlDANhA!<br />
TEXTO DE FABIANA lOPES, RENAtA lOPES E tAtIANE lIMA | FOTOS DE lIZIANE AlvES<br />
44 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
MÚSICA PARA SAMBAR
com muito<br />
trabalho, um<br />
grupo de amigos<br />
transformou<br />
música em alegria<br />
e solidariedade<br />
festejar! Vou festejar!” O aniversário da Banda<br />
Saldanha foi comemorado em grande estilo.<br />
Ao som de uma bateria de Escola de Samba pu-<br />
“Vou<br />
xada pelos fundadores da Saldanha, cerca de 2<br />
mil pessoas iniciaram os festejos dessa data em um canteiro da<br />
Avenida Erico Verissimo de Porto Alegre. O local é próximo ao<br />
bar onde há 32 anos um grupo de amigos resolveu celebrar suas<br />
festas misturando samba, churrasco e um alegre desfile pelas<br />
ruas do bairro Menino Deus. Com isso, a Saldanha conquistou um<br />
papel fundamental na preservação da cultura afro-gaúcha.<br />
A marchinha, que caracteriza a Banda, dá o tom que inicia a<br />
festa. É um hino. Tanto que foi adotada pelas torcidas de futebol<br />
e é frequentemente ouvido nos estádios gaúchos. A arrancada do<br />
“arrastão” começou meio tumultuada, pois todos querem participar,<br />
e o público já está ansioso para dançar atrás do trio elétrico.<br />
Pedro Lourival da Fonseca, um dos fundadores da Banda, dá<br />
as orientações necessárias para que o desfile corra em segurança:<br />
“Pessoal, se posicionem atrás do caminhão, pois utilizaremos<br />
apenas uma das pistas da avenida. Quem não estiver a fim de se<br />
divertir, volta pra casa, porque aqui é lugar de alegria!”.<br />
“Alô, Harmonia!”, grita Carlos Medina, fazendo com que os<br />
ritmistas respondam com toda empolgação, batucando em seus<br />
instrumentos e contagiando a pequena multidão. Medina é também<br />
um dos fundadores da Banda. Conhecido músico gaúcho,<br />
que por muitos anos foi puxador de escolas de samba de Porto<br />
Alegre, explica que a Banda se mantém viva até hoje devido à<br />
organização e ao empenho de cada um. “Somos em torno de 70<br />
músicos na Banda, que está sempre em renovação. A partir de<br />
novembro ensaiamos toda a semana para fazer bonito no Carnaval”,<br />
conta o cantor.<br />
“Explode coração, na maior felicidade...”, é a senha para o<br />
samba realmente explodir. Pessoas de todas as idades cantam e<br />
dançam embaladas por essa tradicional música do Carnaval carioca.<br />
Medina continua animando o público com toda a empolgação,<br />
conduzindo a multidão avenida afora. Na sede da Banda, na<br />
Avenida Padre Cacique, já tem muitas pessoas aguardando para<br />
comemorar o aniversário com show do Neguinho da Beija-Flor.<br />
A Banda relembra marchas antigas, incentivando a massa<br />
que os segue a dançar o tempo todo. Nas janelas dos prédios,<br />
curiosos observam e até dançam, interagindo com o público que<br />
desfila na rua.<br />
A história da Banda se inicia com a comemoração do aniversário<br />
de 22 anos de Pedro Lourival, conhecido como Diogo e um<br />
de seus fundadores. Após uma partida de futebol, um bom churrasco<br />
e uma roda de samba, o grupo de amigos se empolgou e<br />
decidiu desfilar pelas ruas do bairro. Essa brincadeira se repetiu<br />
durante anos, e o número de participantes só aumentou.<br />
“Só tem um problema nesse amor, só um problema nesse<br />
amor: ela é Bamba, ela é Bamba, e eu sou Imperador!” Medina<br />
relembra essa canção do Carnaval gaúcho que aborda a rivalidade<br />
entre duas tradicionais escolas de samba de Porto Alegre:<br />
Bambas da Orgia e Imperadores do Samba. A festa na Avenida Erico<br />
Verissimo começou às 14h do dia 12 de outubro, Dia da Criança<br />
e Dia de Nossa Senhora Aparecida. O cheirinho de churrasco,<br />
o samba de roda e os convidados chegando em meio ao canteiro<br />
da avenida indicam o ambiente aconchegante que é uma das<br />
principais características das atividades que a Banda promove. O<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 45
local escolhido é próximo ao antigo bar em que o grupo de<br />
amigos se reunia há 32 anos. Já com uma sede própria na<br />
Avenida Padre Cacique, a Banda mantém o mesmo formato<br />
inicial: confraternização entre amigos, samba de qualidade<br />
e total segurança.<br />
A “Banda da Saldanha”, que levava o nome da rua<br />
onde ficava o bar que recebia o grupo de amigos, deixou<br />
de ser “da Saldanha” a partir do momento em que ganhou<br />
sede própria e o reconhecimento nacional. “Resolvemos<br />
mudar o nome para Banda Saldanha, pois não pertencemos<br />
a um único local. Há cinco anos desfilamos no<br />
Rio de Janeiro e já somos conhecidos inclusive internacionalmente”,<br />
conta Diogo Fonseca. Uma das inovações<br />
importadas do Carnaval carioca e instalada na Saldanha é<br />
o banheiro “colorido”, que fica à disposição para que os<br />
travestis sintam-se à vontade.<br />
Diogo, filho de Pedro Lourival, é o atual presidente da<br />
Saldanha, eleito pelos membros do conselho em 2010. Hoje,<br />
aos 28 anos, Diogo se diz cria da Banda, pois nasceu e cresceu<br />
entre os músicos participando das atividades com seus<br />
pais. Estudante de Marketing, é responsável pela criação da<br />
logomarca do grupo e pela atualização do site que está no<br />
ar há apenas seis meses e já totaliza mais de 3 mil acessos.<br />
O atual presidente informa que não estão previstas grandes<br />
mudanças ou inovações na sua gestão. “Em time que está<br />
ganhando não se mexe. E é importante valorizar o trabalho<br />
das pessoas que iniciaram tudo isso”, explica Diogo.<br />
46 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
pedro louriVal<br />
É um dos<br />
fundadores<br />
da saldanha,<br />
criada<br />
Quando ele<br />
comemorou<br />
22 anos<br />
O auge do “arrastão” se deu com a presença<br />
inesperada do Neguinho da Beija-flor homenageando<br />
as mulheres gaúchas com seu novo hit: Mulher.<br />
O público acena e samba com a atração da festa<br />
da Banda. Neguinho canta mais algumas músicas e<br />
despede-se, convidando todos a irem para sede da<br />
Banda, onde seria o grande show.<br />
Enquanto o povo requebrava a caminho da sede<br />
da Saldanha, lá já estava acontecendo o tradicional encontro<br />
de famílias e amigos. É nesse ambiente de integração<br />
que se consagra uma das mais importantes alternativas de<br />
lazer da comunidade negra gaúcha. O ambiente da Banda<br />
Saldanha é formado nas laterais por quiosques cobertos,<br />
onde a maioria dos frequentadores celebra datas importantes<br />
assando churrasco. Tem um palco onde o samba não<br />
para e um local no centro onde fica a copa. No andar de<br />
cima, uma espécie de área vip. Tudo é motivo para estar<br />
na Saldanha. Pode ser a comemoração de um aniversário<br />
ou um chá de panela. Não importa. O que o público quer<br />
mesmo é estar junto, confraternizando e revendo os amigos<br />
e parentes.<br />
A Banda Saldanha funciona de segunda a sexta-feira e os<br />
quiosques devem ser reservados com antecedência. Além<br />
do local, a Saldanha ainda disponibiliza espetos, carvão, sal<br />
e uma gamela para facilitar a vida dos assadores.<br />
Sharlene Oliveira Dias, que está de casamento marcado,<br />
escolheu a Saldanha para receber os amigos e realizar<br />
o chá de panela. “É um lugar que todo mundo conhece<br />
e gosta”, explica a noiva de 24 anos. Os aniversários de<br />
Patrícia Souza Barros, de 39 anos, são tradicionalmente<br />
comemorados na Banda. A família de Patrícia organiza decorações<br />
temáticas. A aniversariante explica a preferência:<br />
“O ambiente é bom, familiar e as pessoas podem ficar<br />
a vontade. Tem segurança, dá para trazer crianças, e é<br />
como se estivéssemos em casa”.<br />
SAMBA E SOLIDARIEDADE<br />
A Banda Saldanha promove mais do que festas. Promove<br />
a consciência social por meio de ingressos que podem<br />
ser alimentos não-perecíveis, agasalhos, material escolar e<br />
brinquedos. Esses materiais são doados a instituições beneficentes,<br />
atendendo desde asilos até abrigos de crianças<br />
carentes. Além das doações, ainda são oferecidas aulas gratuitas<br />
de percussão e instrumentos de corda para crianças<br />
da comunidade.<br />
A amizade, música do grupo Fundo de Quintal, traduz<br />
o resultado do trabalho desenvolvido pela Banda Saldanha<br />
e define o ambiente acolhedor e a cumplicidade entre as<br />
pessoas que frequentam o local. “Quero chorar o teu choro,<br />
quero sorrir o teu sorriso... Valeu por você existir amigo!”<br />
Ainda é importante destacar o esforço de um grupo de amigos<br />
em transformar um sonho em realidade. “Foi bem cedo<br />
na vida que eu procurei encontrar novos rumos num mundo<br />
melhor. Com você fique certo que jamais falhei, pois ganhei<br />
muita força tornando maior... A amizade...” Não te acanha<br />
e vem para a Saldanha, para comemorar alguma data importante<br />
ou simplesmente para curtir, pois a diversão entre<br />
amigos está garantida.
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
omingo lindo de sol. o céu de um azul infinito<br />
“dservia de teto para uma grande massa colorada<br />
que seguia rumo ao estádio beira-rio. esse contraste,<br />
sinceramente, nos incomodava, já que o azul nos é<br />
mais familiar. no ônibus, quatro estudantes rumo a<br />
sua pauta e mais alguns passageiros completavam<br />
a lotação. de repente, do fundo do ônibus, palavras<br />
de insatisfação com a demora ecoam: “muito lento<br />
isso aqui!”. de início, pensamos que era apenas um<br />
desabafo, pois realmente o trânsito estava lento.<br />
com o passar do tempo, percebemos que as palavras<br />
ganhavam um tom mais agressivo a cada manifestação.<br />
ficamos apreensivas, imagine se o dono dessa voz<br />
grossa, um homem alto e de formas bem avantajadas,<br />
resolvesse surtar? nesse momento, a nossa indignação<br />
com a multidão de torcedores que estava na avenida e<br />
nos impedia de seguir só aumentou.<br />
a nossa parada, na banda saldanha, estava<br />
próxima. para nosso alívio, o engarrafamento foi<br />
sendo desfeito, e o ônibus pôde seguir. o homem<br />
revoltado, rapidamente mudou o tom da sua voz.<br />
agora, a meiguice e a sutileza que ela ressoava nada<br />
tinham a ver com aquele homenzarrão. descemos do<br />
ônibus aliviadas e dando muitas risadas. nossa pauta,<br />
realmente, prometia ser divertida.<br />
após algumas horas e com o nosso dever<br />
cumprido, seguimos para a parada de ônibus. para<br />
nossa surpresa, o mesmo passageiro bipolar da ida,<br />
aguardava o ônibus lá. inexplicavelmente, ele se<br />
lembrou da gente e nos cumprimentou com toda<br />
sua educação e doçura: “oi gurias!”. nos olhamos<br />
por alguns segundos e apenas sorrimos, como se<br />
retribuíssemos o cumprimento. o ônibus chegou e<br />
todos embarcaram. mais uma vez, aquela grande<br />
massa colorada interfere no trânsito. agora, o homem<br />
parecia mais acanhado e resolveu partilhar seu<br />
descontentamento com o passageiro a seu lado, nos<br />
poupando de suas reclamações.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 47
MÚSICA PARA ENCENAR<br />
BRIncAnDO<br />
DE PEnSAR<br />
48 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
O TeaTrO MágicO reúne eM uM únicO<br />
espeTáculO a Magia dO TeaTrO, dO circO<br />
e da Música. nOs basTidOres, hisTórias e<br />
Olhares vibranTes fOrMaM a cOlcha de<br />
reTalhOs de uM universO cheiO de pOesia<br />
TEXTO DE cAMILA nUnES E VAnESSA REIS | FOTOS DE ÂnGELA VIRTUOSO<br />
“E quando o nó cegar,<br />
deixa desatar em nós”“Solta a prosa presa, a luz acesa”
Sábado, 18 de setembro. O dia parecia frio<br />
na manhã com temperatura de 13ºC. Mas ao<br />
meio-dia, após uma correria entre ginásio e<br />
hotel, os casacos já estavam guardados no<br />
porta-malas do carro. Nos bancos da frente, nós,<br />
duas repórteres, seguíamos a van prata da produção.<br />
Estacionamos na Rua Alfredo Gerhardt, um pedacinho<br />
simples do bairro São Miguel, na periferia de<br />
São Leopoldo. Da van, sai uma dúzia de artistas. Não<br />
estão maquiados, usam jeans, camisetas e moletons.<br />
Ainda assim já há pelo menos 20 crianças agitadas ao<br />
redor deles. Falam alto, riem e observam curiosas.<br />
Chão de cimento, algumas paredes de lona e diversas<br />
mesas sob um telhado sem forro fazem parte do<br />
cenário. Estamos no Instituto Lenon Joel pela Paz, e<br />
o almoço é servido. Saladas e um carreteiro de primeira<br />
qualidade. É dia de espetáculo e convidados<br />
especiais. É dia de O Teatro Mágico.<br />
Chegamos ao Ginásio Municipal Celso Morbach<br />
por volta das 17h. O cenário ganhava seus últimos<br />
retoques. Engatamos uma conversa com Andrea Barbour,<br />
estudante de Gestão Ambiental de 23 anos e<br />
a caçula do TM. A bailarina, que empresta seu corpo<br />
para as artes circenses desde abril deste ano,<br />
fala ainda enamorada da nova experiência. Diz que<br />
em cada show descobre uma personagem diferente<br />
dentro de si.<br />
Com voz calma e pausada, Andrea vê no sucesso<br />
do grupo uma grande oportunidade de ouvir as<br />
pessoas. “O Teatro Mágico conversa muito com o<br />
público. Ele está aberto a perguntas e respostas.<br />
Está aberto ao diálogo.” A banda faz questão de ir<br />
ao encontro de seus fãs após cada show. Uma espécie<br />
de muito-obrigado-por-tanto-carinho-recebidodurante-o-espetáculo.<br />
Carinho esse manifestado<br />
em São Leopoldo das mais diversas formas. Havia<br />
gente caracterizada tal como os palhaços da trupe,<br />
excursões de diferentes cidades do interior, pais<br />
que levavam os filhos, casais de namorados, cerca<br />
de quatro mil olhos contemplativos que assistiam à<br />
apresentação do grupo sem aquela histeria coletiva<br />
comum a shows em que o público é jovem. Andrea<br />
define o espetáculo como uma forma de tirar as<br />
pessoas de suas realidades duras, de tirar um pouco<br />
o pé do chão.<br />
A poucos metros do palco, topamos com outra<br />
bailarina. Mesmo com a passagem de som, a conversa<br />
se desenrola leve. Ela tem rosto de boneca,<br />
daquelas de louça pintadas à mão. De jeans e camiseta,<br />
é uma moça comum. Formada em Jornalismo,<br />
25 anos de vida, batizada Andreia e transformada<br />
em Deinha Lamego. É quando o show se aproxima<br />
que ela surpreende. Volta do hotel já com o figurino<br />
e a maquiagem. Uma inspiração na década de 20,<br />
“Já se abre um sol em mim bem maior”“Eu sinto que sei que sou<br />
um tanto bem maior”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 49
“Borboleta parece flor que o<br />
vento tirou pra dançar”<br />
“Flor parece a gente, pois somos<br />
semente do que ainda virá”<br />
50 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
talvez. “O Teatro Mágico é uma coisa muito intensa. Brinco<br />
que a gente sai do palco e desaba no camarim, porque é<br />
muita entrega de energia.” Começou com o teatro, que por<br />
acaso era ao lado de uma academia de circo. “Aí eu entrei e<br />
fiz, nunca pensei que isso fosse virar meu trabalho, nem minha<br />
vida.” Mas virou. Foram três anos trabalhando num circo<br />
de verdade. Até que o convite do amigo Fernando Anitelli –<br />
criador da trupe – pôde ser aceito. Corria o ano de 2008. “Aí<br />
teve uma redução de elenco da galera, acabei saindo. Fiquei<br />
um tempo fora, e esse ano o Fê me liga: Oh, estou precisando<br />
que cê volte.” E ela voltou, mais madura e determinada.<br />
“Meio que a vida me levou, não teve muita decisão. Virou<br />
profissão por acaso, acho que o universo conspira. É o lugar<br />
onde você pode expressar a arte com a sua identidade de<br />
uma forma diferente de qualquer outro. Não tem uma coisa<br />
mais legal. É o que é pelo todo.”<br />
Logo na entrada do ginásio, ao pé da arquibancada, estava<br />
sendo montada a lojinha: uma porção de prateleiras prémoldadas<br />
e mesas que, em pouco tempo, estariam forradas<br />
de CDs, DVDs e camisetas do Teatro Mágico. O vendedor? Um<br />
simpático senhor, progenitor do líder da trupe. Foi difícil se<br />
aproximar dele. Não por falta de oportunidade, mas por receio<br />
de atrapalhar seu trabalho. Odácio Anitelli tem 65 anos<br />
e uma família rara. Já estava montando sua lojinha há mais<br />
de uma hora quando parou para respirar e para um dedo de<br />
prosa. “Nós somos de Presidente Prudente, lá perto do Mato<br />
Grosso. Mas o Fernando só nasceu lá, foi criado em Osasco.”<br />
São três filhos. Gustavo tem 27 anos e é o caçula, que<br />
cuida de quase tudo. Fernando, 36, criou e lidera a trupe. E<br />
Rodrigo, 39, após uma década nos Estados Unidos, trabalha<br />
em São Paulo, no ramo de restaurantes. “Foi pra ele que<br />
o Fernando fez a música do Anjo mais velho. Foi por causa<br />
dessa distância. Bonito, né?” A família se completa com Delmina,<br />
a mãe “mão fechada” responsável pela contabilidade.<br />
“Todo show sem exceção, antes de começar, a minha esposa<br />
liga pra ele e faz uma oração por telefone. Nós somos evangélicos.<br />
Os meninos já nem são mais, eles têm a base construída,<br />
a moral. Tanto que se você ouvir o primeiro disco,<br />
faz muita referência à Bíblia, à Igreja, que é a base. A gente<br />
tem muito essa coisa de estar junto. A gente se cuida muito.<br />
A gente se cuida mesmo!”<br />
Seu Odácio já foi caixa de banco e trabalhou com treinamento<br />
de pessoas. Mas hoje cuida da lojinha da trupe. Chega<br />
ao local do show no início da tarde e só vai embora bem depois<br />
do final. Enquanto todos voltam ao hotel e descansam após a<br />
passagem de som, ele continua na loja. Por isso, não aceita<br />
que reclamem de viagens longas e cansativas. “Primeiro você<br />
pergunta pra mim. Se eu estiver cansado, tudo bem. Mas, se<br />
eu disser que não estou, está faltando é vergonha!”<br />
Durante a rápida coletiva que concedeu já no Ginásio,<br />
Fernando destacou o clima de paz que cerca as apresentações<br />
do TM: “Um amigo meu comentou uma vez que os<br />
únicos lugares em que ele ia e onde as pessoas cantam e se<br />
abraçam sem conhecer umas às outras, ou é na igreja ou é<br />
em show do Teatro Mágico”.
apesar de Ter<br />
apenas 23<br />
anOs, andrea<br />
barbOur MOsTra<br />
nO Olhar a<br />
deTerMinaÇÃO<br />
de QueM Já sabe<br />
O Que Quer<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 51
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
Com outros olhos<br />
Camila Nunes<br />
oi minha primeira vez em uma<br />
“fapresentação do grupo. confesso<br />
que a curiosidade tomava conta. afinal,<br />
como uma deficiente visual perceberia<br />
um show que trabalha tanto com<br />
imagens? durante o dia, vanessa,<br />
minha colega de reportagem, se<br />
esforçava para me explicar os figurinos<br />
usados por eles. Mas, por mais que eu<br />
tentasse, tudo aparecia de forma muito<br />
confusa na minha cabeça. a coletiva de<br />
fernando anitelli já havia terminado.<br />
sem pensar muito se aquela postura<br />
caberia a uma repórter, me aproximei e<br />
perguntei:<br />
- posso pedir uma coisa?<br />
- claro!<br />
- posso tocar na sua roupa?<br />
- claro!<br />
ele, de forma muito sensível e atenciosa,<br />
pegou em minha mão e mostrou<br />
calmamente cada acessório do figurino.<br />
O colete que vem por cima da camisa é<br />
jogado no palco por anitelli no meio do<br />
Magia e feitiço<br />
Vanessa Reis<br />
ssa reportagem foi um desafio e deu<br />
“ebastante trabalho! Mas... caramba!<br />
foi muito gostoso de fazer! começamos<br />
a jornada seguindo o carro da produção<br />
até o local do almoço, permanecendo ao<br />
redor do grupo o dia todo, com direito<br />
ao jantar pós-show que nos uniu ao<br />
Teatro Mágico e à produção ao redor de<br />
pizzas, num bate-papo descontraído.<br />
acompanhar a camila foi um desafio à<br />
parte. ser os olhos dela naquele mundaréu<br />
de cores, luzes e performances acrobáticas<br />
foi angustiante, sim. como explicar os<br />
movimentos da bailarina, que rodopia,<br />
52 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
show. “Tá sentindo? este é o meu<br />
cinto. perceba que ele tem várias<br />
cordas entrelaçadas. aqui embaixo,<br />
uso essa bota grande que parece<br />
um sapato de palhaço. ah, e tem<br />
a minha barba! você não pode<br />
deixar de tocar na minha barba! Tá<br />
vendo como ela é?”<br />
O show finalmente começou.<br />
ficamos posicionadas na boca<br />
do palco, do lado de dentro da<br />
grade que separava o público.<br />
Minha parceira de reportagem,<br />
incansavelmente, ia relatando<br />
em meu ouvido os detalhes de<br />
cada coreografia. eu e vanessa<br />
dançamos abraçadas durante as quase<br />
duas horas de show. fernando cantava<br />
Pena, a última música. enquanto pulava<br />
feito criança feliz, senti uma mão me<br />
puxando. era andrea barbour, aquela<br />
lá do início da reportagem, que havia<br />
descido do palco. ficamos ali dançando<br />
como se nada mais houvesse ao redor.<br />
um momento mágico para encerrar um<br />
dia igualmente mágico.”<br />
salta e dança com mais velocidade do que<br />
as palavras podem dizer? de qualquer<br />
forma, imagino ter conseguido, ao menos<br />
um pouquinho, transmitir a ela, e também<br />
aos leitores, a atmosfera daquele dia. Mas<br />
alguns instantes permanecem indizíveis.<br />
Ouvir o verso que diz “só enquanto eu<br />
respirar vou me lembrar de você” e ao<br />
mesmo tempo ver a magia que salta dos<br />
olhos dos músicos e bailarinos qual feitiço,<br />
enquanto atrás de mim um menino de<br />
12 anos cantava em uníssono ao coral de<br />
quase quatro mil vozes contém fagulhas<br />
de emoção que – eu desisto – as palavras<br />
não vão dizer. “
após uM<br />
perÍOdO lOnge<br />
da Trupe, deinha<br />
laMegO vOlTOu<br />
aO TeaTrO<br />
MágicO Mais<br />
preparada<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 53
MÚSICA PARA VIAJAR<br />
O que é a “drOga<br />
digital” que dOminOu<br />
a internet, causOu<br />
alvOrOçO na mídia e<br />
preOcupa as autOridades<br />
internaciOnais?<br />
Os POrtões<br />
de Hades<br />
54 | PrIMeIra IMPressÃO | deZeMBrO/2010
TEXTO de MarCeLO COLLar e taÍNa LaUCK<br />
FOTOS de MarCO aNtÔNIO FILHO<br />
É<br />
um quarto escuro. Em um dos cantos, há uma cama de<br />
solteiro desarrumada. Livros, CDs, revistas e pequenos<br />
objetos enfeitam a bagunça adolescente no chão e<br />
em algumas prateleiras na parede do fundo. A única<br />
luminosidade vem da fraca tela de um computador ligado,<br />
fora de quadro, e de uma janela ao fundo. O vídeo é gravado<br />
toscamente, de forma que através do vidro se vê apenas uma<br />
imensidão branca. Deitado na cama, um jovem com cerca de 15<br />
anos, sem camisa, usa um grande fone de ouvido.<br />
O silêncio é quebrado pela respiração ofegante do rapaz.<br />
A expressão bizarra em seu rosto passa uma mistura de agonia<br />
e prazer. Um leve chiado escapa dos fones de ouvido. O ruído<br />
aumenta gradativamente, acompanhado pela expressão de dor<br />
na face do sujeito. Após um espasmo súbito – como um grande<br />
susto – o adolescente arranca os fones, joga-os longe, coloca as<br />
mãos no rosto e em seguida desliga a câmera.<br />
PrIMeIra IMPressÃO | deZeMBrO/2010 | 55
Vídeos como esse contaminaram sites como o YouTube durante o primeiro<br />
semestre de 2010. Centenas, literalmente. O chiado nos fones de ouvido<br />
é o chamado i-doser, a “droga digital”. De acesso e uso simples, o i-doser<br />
consiste em arquivos comuns de áudio em estéreo que, se ouvidos com bons<br />
fones, provocariam uma hipotética mudança nas ondas cerebrais do usuário,<br />
causando efeitos similares ao do uso de drogas.<br />
Funciona?<br />
O i-doser usa as chamadas “batidas binaurais”, que são dois sons de<br />
frequências semelhantes reproduzidos em cada um dos ouvidos. Quando<br />
escutados com fones, a sensação é de que existe um terceiro som, que parece<br />
vir de dentro da própria cabeça. A técnica foi descoberta em 1839<br />
pelo físico alemão Heinrich Dove. A prática é normalmente<br />
usada em sessões de meditação e também em músicas.<br />
A novidade é o uso das batidas binaurais para tentar<br />
obter efeitos semelhantes aos de drogas ilegais.<br />
A febre começou com o site i-doser.com,<br />
que prometia aos usuários uma forma<br />
barata, segura e legal de usar drogas.<br />
O site vende as “doses” de áudio<br />
que prometem diversos efeitos:<br />
das sensações semelhantes ao<br />
uso das mais diversas drogas,<br />
às afrodisíacas, ou que<br />
garantem uma noite de sono<br />
tranquila. Ao todo, são mais<br />
de 200 tipos diferentes de<br />
doses. O preço de cada uma<br />
delas varia de US$ 2,50 aos<br />
salgados US$ 199,95.<br />
As doses mais populares<br />
são “Gates of Hades” (portões<br />
de Hades) e “Hand of God”<br />
(mão de Deus), que, segundo<br />
os criadores, provocam os<br />
efeitos mais extremos. Essas<br />
doses são também responsáveis<br />
pela grande maioria dos vídeos<br />
encontrados no YouTube mostrando<br />
a reação dos usuários.<br />
“Acho que, por eu estar concentrado<br />
e relaxado, funciona, e me deixa mais calmo<br />
56 | PrIMeIra IMPressÃO | deZeMBrO/2010
e tranquilo”, comenta Patrick, 22 anos, usuário habitual de i-doser, se referindo<br />
à dose quick happy. Ele descobriu o i-doser na internet no início do ano passado<br />
e desde então tem usado o som para relaxar. Os arquivos de i-doser estão no<br />
celular dele e são escutados frequentemente.<br />
Outro usuário, que não quis se identificar, afirmou que escuta uma<br />
determinada dose para ter mais concentração. Diz já ter experimentado vários<br />
tipos de doses até encontrar a mais eficiente para ele. Acrescenta: “Tem dias<br />
em que a pessoa parece estar mais sensível aos efeitos, e fica mais fácil”.<br />
Outros afirmam não terem sentido quaisquer efeitos após experimentar<br />
o i-doser. É o caso do estudante Rafael Tourinho. Ele experimentou uma dose<br />
que simularia o efeito de cinco doses de gim. Compara o som ao de “naves<br />
espaciais de filmes de ficção científica”.<br />
“e<br />
i-doser na mídia<br />
A prática logo ganhou espaço na mídia mainstream dos Estados Unidos. O<br />
jornal USA Today se referiu ao i-doser como “a nova preocupação dos pais”. Na<br />
rede CBS foi ao ar uma reportagem com a psicóloga Jennifer Hartstein, uma das<br />
primeiras a pesquisar os efeitos do i-doser. Ela afirma que uma das principais<br />
preocupações do estudo foi definir se a suposta droga digital poderia ser uma<br />
porta para as drogas “reais”. Conclui: “Estou cética quanto a isso, não acredito<br />
que os efeitos do i-doser possam levar alguém às drogas convencionais”.<br />
Também na CBS News o jornalista da editoria de ciências Brian Dunning<br />
afirmou que as pessoas compram qualquer coisa que seja vendida com uma<br />
campanha convincente. “Você pode usar inúmeros termos científicos, ondas<br />
alfa, ondas gama; e explicar como isso deveria funcionar. Se convence, vende”,<br />
afirma Dunning.<br />
No Brasil a febre do i-doser na mídia não parece ter o mesmo efeito que<br />
nos Estados Unidos. A mídia tocou com timidez no assunto. A Folha Online<br />
publicou uma reportagem na qual o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da<br />
Unifesp, declara que é impossível um som reproduzir o efeito químico de uma<br />
droga. A opinião segue a da maioria dos veículos mundiais, que veem a tal<br />
“droga digital” mais como um efeito de auto-sugestão do usuário do que algo<br />
que possa causar os efeitos psicotrópicos prometidos.<br />
Nas redes sociais, o i-doser chegou a ter certa visibilidade no Brasil.<br />
No Orkut, por exemplo, as duas principais comunidades relacionadas<br />
ao tema somam cerca de 70 mil usuários, com tópicos relatando<br />
experiências individuais e troca de arquivos de doses. Mesmo com a<br />
classe científica vendo a prática com ceticismo, é inegável que muitas<br />
pessoas sentem os efeitos do i-doser.<br />
Em razão disso, resolvemos tentar nós mesmos. Entramos no<br />
quarto escuro.<br />
MarCeLO taÍNa<br />
m um desses sites de idoneidade moral questionável,<br />
consegui várias das “doses” referidas na página<br />
do i-doser. coloquei os fones de ouvido e toquei<br />
a tal Gates of Hades. nos primeiros minutos, um<br />
som mais grave e repetitivo inunda os fones. existe<br />
a possibilidade de um efeito placebo, mas eu me<br />
senti – de fato – um pouco relaxado. subitamente<br />
o som muda para um ruído alto e estridente. O<br />
relaxamento induzido pelo som anterior me fez levar<br />
um enorme susto. meu coração disparou e meus<br />
ouvidos demoraram a se adaptar ao novo ruído de alta<br />
frequência. algum tempo depois, comecei a sentir uma<br />
leve tontura, como se estivesse no segundo<br />
ou terceiro copo de cerveja. e não passou<br />
disso. Fiquei levemente enjoado, como<br />
quando se sobe a serra de carro.<br />
Os efeitos passaram segundos<br />
após eu tirar o fone de ouvido.<br />
com minha breve experiência<br />
com o i-doser, posso afirmar<br />
que alguma coisa ali existe.<br />
placebo, talvez. sei que<br />
funcionou comigo, mas nada<br />
que se equipare ao efeito<br />
devastador do álcool no<br />
sangue, por exemplo.”<br />
or algum motivo ainda não bem definido, esse<br />
“pmovimento i-doser me fez lembrar o filme<br />
Barbarella, de 1968. talvez seja o fato de no filme o<br />
sexo ser feito através da ingestão de cápsula... e agora<br />
essa! droga virtual. Fiquei chocada. tecnologia para o<br />
bem e para o mal, dependendo do ponto de vista. a<br />
tensão pré-dose de i-doser foi por água abaixo depois da<br />
experiência. O que era expectativa se tornou frustração.<br />
mudança essa de sentimentos que aconteceu em menos<br />
de meia hora, já que eu não aguentei ficar ouvindo<br />
aqueles sons – para mim absurdamente irritantes – por<br />
mais de quinze minutos. tentei duas vezes. O mesmo<br />
quick happy. e nada de emoção adversa. talvez<br />
tenha sido a minha incredulidade. quem<br />
sabe? segui as instruções do site para<br />
atingir o sucesso com a minha<br />
dose: sala escura, o silêncio como<br />
companhia, fones de ouvidos a<br />
postos... e nada, diferente do<br />
meu colega marcelo. a única<br />
sensação que eu tive era<br />
uma certa dor de cabeça por<br />
aquele som chato invadindo<br />
minha mente, além do<br />
pensamento: o que leva as<br />
pessoas a escutar isso?”
NA PElE,<br />
NA AlMA<br />
Quando a música ultrapassa os limites<br />
do som e passa a estampar o corpo<br />
58 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
múSica para TaTuar<br />
TEXTO DE ADAM SchEffEl E lARISSA DE OlIvEIRA<br />
FOTOS DE JÉSSIcA BERGER
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 59
Quando decidiu fazer a sua terceira tatuagem,<br />
Pietro não teve dúvidas. Seria, mais<br />
uma vez, uma declaração de amor à música.<br />
Aos 23 anos, ele acumula no corpo o símbolo<br />
máximo do grupo Rolling Stones – a famosa<br />
língua de fora – e a silhueta, não menos emblemática,<br />
da capa do álbum London Calling, do The Clash, cada<br />
uma delas em uma panturrilha.<br />
Agora, o símbolo escolhido para estampar o braço direito<br />
do estudante de História da PUCRS – e DJ nas horas<br />
vagas – é o da banda Red Hot Chili Peppers. Entre ter a<br />
ideia e concretizá-la, Pietro Santos de Souza levou menos<br />
de um mês. Assim como as tatuagens, o ofício (ou diversão)<br />
é recente. Datava de nada muito além de um semestre,<br />
quando começou a discotecar na festa Roque Town,<br />
em Porto Alegre. Já as tatoos começaram aos 22, três<br />
anos após Pietro ter ido a Buenos Aires assistir ao show<br />
dos Rolling Stones, em 2006. O gosto pela banda começou<br />
em casa, sobretudo com sua mãe. “Foi com a minha família<br />
que aprendi a gostar de rock’n’roll”, lembra.<br />
O tempo para maturar a ideia pode ter sido longo,<br />
mas desencadeou uma vontade que parece não cessar<br />
tão cedo de mostrar no corpo a sua paixão pela música.<br />
“Gosto de fazer tatuagens relacionadas às bandas<br />
que curto há algum tempo e que tenho certeza de<br />
que não vou me arrepender depois. Fiz primeiro a dos<br />
Stones porque, para mim, é a melhor banda de rock”.<br />
No dia em que foi entrevistado, Pietro tinha ido orçar<br />
e agendar sua nova companheira em um estúdio no<br />
centro da Capital. Era um sábado de sol, e ele parecia<br />
empolgado. Pelo menos até a timidez causada pelos<br />
flashes o deixarem sem jeito.<br />
Na segunda-feira, lá estávamos nós o acompanhando<br />
novamente. Dessa vez, ele parecia mais apreensivo. O<br />
nervosismo aumentou com um imprevisto. Marcada para<br />
as 10h, a sessão só começou trinta minutos depois. O<br />
tatuador Alemão e Fernanda, sua companheira há cinco<br />
anos, se atrasaram por conta de um acidente doméstico<br />
com a cadelinha de estimação, Meg. “Ela teve um machucado<br />
grave ao cortamos a unha dela em casa, daí tivemos<br />
que levar ao veterinário”, resumiu Fernanda, que<br />
também é recepcionista do estúdio.<br />
Juliano Ribeiro, de 27 anos, é mais conhecido no<br />
meio como Alemão. Há sete anos atuando no ramo, já<br />
“trampou” em outro estúdio de Porto Alegre, passou<br />
dois anos trabalhando na Guarda do Embaú, em Santa<br />
Catarina, e voltou para a capital gaúcha, desta vez<br />
para o Kadu Tattoo. Foi ele que fez a primeira tatuagem<br />
de Pietro em 2009.<br />
Alemão nos conta que as tatuagens relacionadas à<br />
música são pedidas frequentemente, mas não chegam a<br />
ser as mais requisitadas. “Quando tem show de uma banda<br />
grande na cidade, aumenta a procura. Cheguei a fazer<br />
três seguidas do Pearl Jam na época em que eles vieram<br />
pra cá (em 2005)”. A última que lembra ter sido gravada<br />
por suas mãos foi a capa do álbum The dark side of the<br />
moon, do Pink Floyd, na semana anterior à nossa visita.<br />
Antes de começar, foi preciso preencher um formu-<br />
60 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
lário detalhado sobre possíveis doenças, medicações, cirurgias<br />
estéticas e até mesmo uso de drogas – que nossa<br />
fonte afirmou não estar usando no momento. Em dois minutos,<br />
Pietro já estava na mesa do Alemão, pronto para<br />
45 minutos de dor em que não gritou nem um aizinho.<br />
A preparação é muito simples. Marca-se o molde, para<br />
saber se está do tamanho desejado pelo cliente. Depois,<br />
raspa-se com gilete a área onde será gravada a imagem.<br />
Feito isso, é sentar e esperar a mágica acontecer.<br />
No começo da sessão o nervosismo de Pietro parecia<br />
ter desaparecido. Quase que impassível à dor, conversava<br />
tranquilamente com todos. “A primeira doeu mais, acho<br />
que era pela expectativa”, relembra. Alemão complementa:<br />
“É comum cair a pressão de quem faz pela primeira<br />
vez, mas está mais ligado ao nervosismo. Às vezes<br />
a pessoa não come antes de vir, daí pode se sentir um<br />
pouco mal”. Pietro também foi esperto, um dos motivos<br />
de ter escolhido o braço foi pela fama de doer menos.<br />
“Locais como barriga, costelas e até pé e pescoço doem<br />
mais”, comenta o tatuador.<br />
IDENTIDADE<br />
Pequenas, imensas, discretas, multicoloridas, para<br />
toda a vida e até provisórias. Cada marca expressa na<br />
pele um momento, um sentimento, um desejo, a saudade<br />
de quem se foi, a alegria de quem chegou. Em outros<br />
casos, o registro aparece como forma de adoração a um<br />
ídolo. Funciona como um louvor. A admiração àquele<br />
artista é tamanha que é preciso manter um símbolo sobre<br />
a pele com a função de homenagear, mas também<br />
de pertencer a um grupo. São símbolos de identificação<br />
que estão impregnados de um potencial mágico e místico.<br />
Quem se tatua quer expor não somente o corpo, mas<br />
o desenho ali inserido dolorosamente. Assim, a tatuagem<br />
surge como a principal artista. É o ponto de poder,<br />
de encanto.<br />
Para a psicóloga Márcia Viana, ao se tatuar, a pessoa<br />
está manifestando um posicionamento pessoal<br />
relativo àquele momento. Como a marca dificilmente<br />
será apagada, os desenhos evocarão constantemente<br />
uma época remota. Enquanto a evolução é um movimento<br />
de mudança contínua, a tatuagem representa<br />
a imobilidade da consciência presa a épocas, ideias<br />
e momentos que já passaram. Mas que continuaram<br />
inesquecíveis, ligados à memória e à pele de cada<br />
um. “Os estudos sobre a necessidade de ‘marcar’,<br />
materializar no corpo uma experiência ou simbolizar<br />
a vivência fazem parte de um processo de organização<br />
subjetiva em direção à vida adulta, à maturidade<br />
e à autonomia”, explica.<br />
A psicóloga ainda ressalta que tatuagem, para<br />
muitos, é um tipo de paixão incondicional. “Paixão é<br />
pathos, sofrimento. E o que é a loucura de um fã senão<br />
a não consciência de si?”. Desse modo, as pessoas<br />
tendem a se encontrar nos mitos e procurar nos heróis<br />
maneiras de lidar com a finitude, com os limites, com<br />
as perdas, além de preencher o que dentro está vazio,<br />
intolerável, e transformar isso em marcas.
Essa é, mais ou menos, a relação que Pietro tem com<br />
a música. “Posso dizer que minha relação com ela é de<br />
dependência. A música está presente em quase todos os<br />
momentos do meu cotidiano e isso é porque encontro<br />
nela a expressão dos meus sentimentos: se estou feliz,<br />
triste, ansioso, sempre tem alguma música na qual posso<br />
me apegar”. Então, nada mais natural do que gravar isso<br />
na pele para toda a vida. “As bandas que tenho tatuadas<br />
no corpo são bandas de atitude, que realmente gostam<br />
do que fazem e não estão no ramo só por dinheiro, mas<br />
sim por amor à música. Por isso me senti seguro em gravá-las<br />
em mim”, finaliza.<br />
imprESSÕES DE rEpÓrTEr<br />
caça por um case especial é aquela novela.<br />
“a ao pensar a pauta nos primeiros dias, o<br />
case está lá no papel, idealizado, pré-agendado,<br />
cheio de detalhes bonitos que o jornalista crê<br />
que vai dar certo. muitas vezes até dá. mas as<br />
divergências não se aquietam e sempre aparecem<br />
para incomodar. o case se muda. perde o<br />
emprego. desiste da entrevista. tem compromissos<br />
marcados estrategicamente naqueles dias que<br />
estão disponíveis para os repórteres. parece<br />
mentira, mas não é. contudo, achar a fonte ideal<br />
é só metade do jogo ganho. outras coisas ainda<br />
precisam dar certo. o tempo tem que colaborar,<br />
o trânsito precisa fluir e o papo precisa render.<br />
com o pietro foi assim. Ficamos na incerteza de<br />
conseguir conciliar a data da sessão da tatuagem<br />
com o prazo para execução desta matéria.<br />
Felizmente, deu tudo certo e passamos dois dias<br />
na cola do rapaz. no primeiro, fomos juntos<br />
agendar horário no estúdio e ver a discussão<br />
da ideia do desenho com o tatuador. neste dia,<br />
aproveitamos para levá-lo à casa de cultura mário<br />
Quintana e fazer nossa entrevista lá mesmo – para<br />
adiantar nosso lado –, além de algumas fotos para<br />
a matéria. Já na segunda vez, presenciamos a sua<br />
nova marca no corpo e ficamos contentes por a<br />
reportagem continuar seguindo sem percalços.<br />
ao final desta reportagem, nós – narradores nãotatuados<br />
desta história – pudemos aprender que<br />
a moldura que contorna nossas paixões pode ser,<br />
muito bem, a nossa própria pele.”<br />
o estudante pietro<br />
souZa durante<br />
a sessÃo da sua<br />
terceira tatuaGem<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 61
CAROLINA TREMARIN<br />
ANTÔNIO<br />
TRIERWEILER<br />
CONDUZ OS<br />
BÚFALOS AO SOM<br />
DE SEU VIOLINO
MÚSICA PARA TRANSFORMAR<br />
MAIS QUE UM<br />
ENCANTADOR<br />
DE BÚFALOS<br />
TEXTO DE BRUNA SCHUCH E CAROLINE RAUPP | FOTOS DE BRUNA SCHUCH E CAROLINA TREMARIN<br />
Diante do homem tranquilo sentado no sofá, um<br />
pouco tímido, de botas, bombacha e camisa clara<br />
que combina com seus olhos, duvida-se que<br />
se trate do mais ilustre morador do pequeno<br />
município gaúcho de General Câmara. Antônio Trierweiler,<br />
50 anos, é veterinário, advogado, músico e criador<br />
de búfalos. Há alguns anos, ficou conhecido na região<br />
depois de descobrir uma maneira diferente de fazer o<br />
manejo dos animais, guiando-os apenas pelo som de seu<br />
violino. Nascia o mito do encantador de búfalos, apenas<br />
uma impressionante história dentre as tantas que Antônio<br />
tem para contar.<br />
Desde a infância, o amor pela música clássica o levou<br />
naturalmente a querer aprender um instrumento. Apesar<br />
de já se interessar pelo violino, nos idos de 1970 esse instrumento<br />
era quase inacessível. Optou, então, em fazer<br />
aulas de violão clássico. Mas, por causa de um acidente<br />
doméstico que o deixou com os movimentos do braço<br />
direito limitados, passou a sentir muitas dores e acabou<br />
tendo que desistir do violão. Quando menino, morava em<br />
Porto Alegre e passava os finais de semana com seu avô<br />
na fazenda. Uma figura muito importante na sua vida, e<br />
a quem gostava de imitar.<br />
Muito ligado ao campo e à música, precisou decidir<br />
qual curso fazer na universidade. A dúvida entre a Música<br />
Clássica e a Veterinária acabou sendo decidida em função<br />
das dores no braço. Após concluir o curso de Veterinária,<br />
mudou-se para a fazenda de sua família e passou<br />
a administrá-la.<br />
De uma situação inusitada, surgiu uma amizade que<br />
comove pela lealdade e dedicação. Emocionado, Antônio<br />
recorda seus momentos com dona Adélia. Ela, que já<br />
passava dos 60 anos, entrou na sua vida pouco antes da<br />
COMO O VIOLINO MUDOU A<br />
VIDA DE ANTÔNIO TRIERWEILER,<br />
VETERINáRIO E ADVOgADO DO<br />
INTERIOR DE gENERAL CÂMARA<br />
universidade, numa ocasião delicada.<br />
A perda de um amigo em comum<br />
a levou até a sua casa. As afinidades<br />
e a paixão pela música os aproximou.<br />
Dona Adélia se dispôs a lhe ensinar<br />
piano e, durante o tempo em<br />
que duraram as aulas, a amizade se<br />
fortaleceu. Quando a técnica passou<br />
a lhe exigir mais, as dores no braço<br />
voltaram e, por fim, não foi possível<br />
continuar conciliando música e<br />
faculdade. Durante quase 20 anos, a<br />
música perdeu espaço para o trabalho.<br />
Formou-se em Veterinária, depois<br />
em Direito e não restava tempo<br />
para mais nada.<br />
Foram anos de dupla jornada: durante<br />
o dia, o desgastante trabalho<br />
como veterinário; à noite, a análise<br />
de processos. A rotina extenuante o<br />
levou a enfrentar graves problemas<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 63
ARQUIVO PESSOAL<br />
de saúde. Decidiu deixar de advogar e voltar a levar uma<br />
vida mais simples e tranquila. Era a brecha necessária<br />
para a música voltar a fazer parte de sua vida.<br />
Mesmo quando a vida o fez colocar a música em segundo<br />
plano, Antônio nunca deixou de visitar dona Adélia,<br />
amizade que foi determinante para a grande mudança<br />
ocorrida em sua vida. “No Natal de 1999, resolvi dar<br />
um presente pra ela, então com 93 anos. Aí pensei: se<br />
eu der uma caixa de bombom, a moça que cuida dela<br />
vai traçar. Flores, no outro dia estão murchas. Aí peguei<br />
um violinista, fui até Porto Alegre e levei para tocar para<br />
ela... filmei tudo, ela ficou muito feliz”, relembra Antônio.<br />
Naquele dia ressurgiu a vontade de aprender a tocar<br />
violino. Na volta para casa, Antonio percebeu que tocar o<br />
instrumento exigia menos de sua mão direita, já que ela<br />
apenas conduz o arco. Assim, começou a fazer aulas com<br />
um violino alugado, pois, mesmo no final dos anos 1990,<br />
comprar um bom violino ainda não era tarefa fácil. Acabou<br />
descobrindo uma grande paixão. A partir de então as<br />
visitas à dona Adélia passaram a ser sempre musicais. Ele<br />
não deixava de tocar para ela, nem mesmo quando por<br />
vezes ela estava dormindo.<br />
A relação de amizade entre os dois era tão bonita e<br />
verdadeira que foi perpetuada por dona Adélia quando,<br />
em uma das visitas, resolveu lhe presentear com seu violino,<br />
um instrumento muito antigo que havia sido trazido<br />
da Itália no início do século passado, réplica de um Amati.<br />
O presente foi dado com duas condições. A primeira:<br />
ele deveria aperfeiçoar sua técnica para que pudesse<br />
tocar no dia em que ela morresse. A segunda era não<br />
mexer na alma do violino — peça responsável pelo som<br />
do instrumento — pois era a alma dela que estava ali.<br />
Antônio ressalta a lucidez de dona Adélia, que na época<br />
estava com 93 anos e, mesmo assim, tinha capacidade de<br />
fazer metáforas. “Eu aprendi a tocar por ela e para ela”,<br />
conta o músico. Dona Adélia faleceu em 2003, com 97<br />
anos, Antônio tocou violino em seu funeral, uma última<br />
homenagem a sua grande amiga, como havia feito por<br />
todos aqueles anos.<br />
A MÚSICA E OS ANIMAIS<br />
Antônio conseguiu apurar tanto sua técnica que mesmo<br />
o fato de ter iniciado tarde seu aprendizado não o impediu<br />
de fazer parte de uma orquestra. Participa desde<br />
2002 da Orquestra de Lajeado e, desde 2006, da Unisc.<br />
Foi assim que a relação da música e dos búfalos começou<br />
a surgir. Enquanto ensaiava em sua fazenda, percebeu<br />
que, ao tocar uma determinada música — Amazing<br />
Grace — um búfalo que pastava nos arredores da casa<br />
64 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
ANTÔNIO EM<br />
UMA DE SUAS<br />
VISITAS MUSICAIS<br />
A DONA ADÉLIA<br />
se aproximou. Antônio estranhou o<br />
fato e começou a fazer algumas experiências,<br />
até perceber que não só<br />
aquele búfalo se aproximava ao ouvir<br />
o som da música como todos os<br />
outros também. Aos poucos, foi se<br />
acostumando a fazer a lida do campo,<br />
trocá-los de pastagem, somente<br />
pelo comando do violino.<br />
A cena é inacreditável. Vera Regina,<br />
que mora há pouco tempo em<br />
General Câmara, ficou conhecendo<br />
a história do encantador de búfalos<br />
e quis assistir de perto. “Fomos com<br />
Antônio até sua fazenda para ver a<br />
famosa história dos búfalos. Quando<br />
paramos na estrada, não se enxergava<br />
nenhum animal, apenas árvores<br />
e um grande descampado. Antônio<br />
começou a tocar o violino no meio<br />
do campo. Tocou por alguns minutos,<br />
e cheguei a pensar que nada<br />
iria acontecer. Foi quando comecei<br />
a ouvir ao longe o barulho daqueles<br />
animais enormes correndo em nossa<br />
direção, fiquei com medo e voltei<br />
para o carro, fiquei vendo a cena de<br />
longe. É ao mesmo tempo encantador<br />
e assustador. Incrível como eles<br />
parecem ser atraídos pelo som do<br />
violino e como a música consegue<br />
acalmá-los”, conta a moradora.<br />
Esse jeito peculiar transformou<br />
Antônio em mais do que um homem<br />
do campo, mais do que um<br />
músico, mais do que um advogado.<br />
Transformou-o em um personagem,<br />
que já teve sua história contada em<br />
jornais, revistas e até na televisão,<br />
mas principalmente em um homem<br />
que encontrou o equilíbrio em sua<br />
vida fazendo as coisas que mais<br />
gosta. Com certeza é esse o legado<br />
que pretende deixar para seu filho<br />
Carlos Augusto, cinco anos, que<br />
desde o ano passado tem aulas de<br />
violino. O valor da amizade, a importância<br />
da qualidade de vida e o<br />
amor pela música.
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
ensávamos que a tarefa mais difícil seria o<br />
“Pmomento em que estivéssemos frente a frente<br />
com os búfalos ferozes. Nossa aventura começou<br />
quando escolhemos o dia errado para irmos até ao<br />
encontro do nosso entrevistado. Pegamos o carro<br />
e o mundo começou a desabar em Porto Alegre. A<br />
chuva era tão forte que era difícil enxergar a estrada<br />
em nossa frente. O destino era general Câmara,<br />
uma hora de Porto Alegre. Quando chegássemos lá,<br />
enfrentaríamos mais uma hora em uma estrada de<br />
chão batido até o sítio onde são criados os búfalos.<br />
Passamos a entrada que deveríamos seguir e fomos<br />
parar em uma infinita estrada com enormes campos<br />
e lavouras ao nosso redor. Três meninas e o medo<br />
de estar cada vez mais indo para o rumo errado, o<br />
desconhecido. Decidimos voltar. Não conseguiríamos<br />
ver búfalos, fotografar búfalos e escrever sobre<br />
búfalos naquele dia. O dia certo chegou. Sol, calor<br />
e, dessa vez, pegaríamos um ônibus na rodoviária<br />
para não ter erro. Depois de muito chão e poeira,<br />
chegamos no sítio. O som do violino funciona<br />
mesmo, e o barulho que os búfalos provocam com<br />
suas patas é assustador, mas, quando chegam<br />
perto, são animais dóceis e afetuosos. Repórteres e<br />
fotógrafa ficaram impressionadas com o carinho e a<br />
sintonia do encantador e seu rebanho.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 65<br />
BRUNA SCHUCH
66 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
SITES ESPECIALIZADOS<br />
EM CIFRAS MUSICAIS<br />
TAMBÉM CONTÉM<br />
A LETRA DE JINGLES<br />
FAMOSOS, COMO O<br />
DA LIQUIGÁS
MÚSICA PARA GRUDAR<br />
O lucRO AZul DO<br />
cAchORRInhO<br />
O JINGLE PUBLICITÁRIO<br />
vALORIZA UMA MARCA E PODE<br />
DETERMINAR O SUCESSO DE<br />
PRODUTOS MERCADOLóGICOS<br />
NA vISãO DE QUEM O CRIA<br />
TEXTO DE cRISTIAnE SERRA E MATEuS FERRAZ<br />
FOTOS DE cAROlInE SchMEDEckER<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 67
68 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
Imagine a cena. Sábado de manhã, 7h. Você dorme<br />
o sono dos justos após uma semana de aula, trabalho<br />
e um eventual cinema. Tudo o que você não<br />
quer é ser importunado.<br />
De repente, um sonho intranquilo toma conta de seu<br />
momento de repouso. Nele, pessoas de macacão azul oferecem<br />
um produto seguro de norte a sul do Brasil. Como<br />
você sabe desses detalhes? Simples. Uma música acompanha<br />
toda a cena. Quando você percebe, já está até<br />
cantando junto. Uma sonora estrofe invade o quarto ao<br />
mesmo tempo em que você acorda ao som de “Se tem o<br />
lacre azul do cachorrinho…”<br />
Você levanta da cama de mau humor por ter sido despertado<br />
de maneira tão inusitada, mas passa o dia inteiro cantando<br />
a tal música do lacre azul do cachorrinho. Uma chatice,<br />
pensa. Mas, após uma análise aprofundada, você chega<br />
à conclusão de que os versos repetidos à exaustão cumprem<br />
bem o seu papel. O de tornar uma marca conhecida.<br />
Um bom jingle deve ser assim. Chato para alguns, brilhante<br />
para outros, mas que consiga se fixar ao ponto de ser<br />
repetido ou, em casos extremos, até criticado pelo público-<br />
alvo. Isso porque as propagandas que ficam na cabeça da<br />
população são sempre as muito boas ou as muito ruins.<br />
Os versos que tomam ares de algo simplista devem ser<br />
objetivos, para passar uma mensagem em apenas 30 segundos,<br />
e imediatistas, pois geralmente as campanhas duram,<br />
no máximo, dois meses. A simplicidade está presente em<br />
grande parte das músicas de campanhas que marcaram a<br />
população. Seja pela letra, acessível a uma determinada<br />
camada que recebe a informação, o público-alvo, ou por<br />
um refrão repetitivo. Essa situação passa a impressão de<br />
que é fácil compor algo que tenha como marca registrada a<br />
acessibilidade da informação. Engano.<br />
O guitarrista da banda Papas da Língua, Leo Henkin, trabalhou<br />
por vários anos na composição de jingles e trilhas<br />
sonoras e diz que a música comercial deve, primeiramente,<br />
seguir regras. São demandas do cliente, do público a ser<br />
atingido, além de ser uma criação em cima de um produto<br />
existente. Resumindo, um processo criativo que não é livre.<br />
Ainda há a necessidade de se fazer algo acessível. E é esse<br />
o ponto que apresenta o maior desafio em sua opinião: “É<br />
muito difícil ser simples. Ao mesmo tempo, as grandes músicas<br />
são as que beiram a simplicidade e, até por não existir<br />
uma fórmula pronta, eu considero a criação de um jingle<br />
uma tarefa das mais complicadas”.<br />
Além disso, há a distinção do veículo que receberá a<br />
peça. Em uma campanha para o rádio, a própria letra da<br />
música deve ser clara e dizer tudo de uma vez. Na tevê,<br />
o som é acompanhado de imagens, o que pode tornar o<br />
jingle mais flexível e subjetivo.<br />
Com isso, quando Leo pega seu violão ou senta ao<br />
piano, a música não é composta apenas pelo briefing do<br />
cliente. “O próprio compositor deve ter um conhecimento<br />
musical e intelectual abrangente e estar aberto a todas as<br />
possibilidades sonoras”, sublinha. Para ele, o músico deve<br />
ouvir todos os estilos, que podem ir do erudito até a ultravanguarda.<br />
“Tem muito de uma parte que é do criador, de<br />
buscar a sonoridade, atmosfera, isso vai de uma experiên-<br />
cia cultural de toda, por assim dizer,<br />
biblioteca musical”, entusiasma-se.<br />
Leo reconhece uma influência do<br />
trabalho como compositor de jingles<br />
sobre seu desenvolvimento para as<br />
demais áreas da música. Hoje, grande<br />
parte das composições da banda Papas<br />
da Língua tem sua assinatura. “Aprendi<br />
muito fazendo jingles. Foi um grande<br />
laboratório. Te ensina a trabalhar<br />
com tempo limitado e torna acessível<br />
o formato pop”, comenta.<br />
Trabalho conjunTo<br />
Atrás de um jingle, nunca há apenas<br />
o músico. Há uma empresa que<br />
visa o lucro. O “chefe” é quem vai<br />
definir a linha do trabalho a ser realizado.<br />
Reuniões, roteiros, teto de<br />
investimento e retorno são levados<br />
em consideração. Além disso, após a<br />
conclusão do trabalho, é necessário<br />
ganhar a simpatia do contratante para<br />
a ideia desenvolvida.<br />
Existem histórias, algumas que adquiriram<br />
o status de lenda, de clientes<br />
que preferiram a intransigência de<br />
sua própria ideia a aceitar uma boa<br />
campanha sugerida pela agência prestadora<br />
de serviço.<br />
Segundo o diretor de criação da<br />
Paim Comunicação, Fabio Bernardi,<br />
essa situação é mais rara do que parece.<br />
Geralmente, as peças são finalizadas<br />
de forma conjunta, entre agência<br />
e produtora. Porém, o projeto só ganha<br />
a gravação definitiva após passar<br />
pela aprovação do cliente. Como as<br />
empresas de comunicação trabalham<br />
em cima de um roteiro previamente<br />
discutido com o contratante, as chances<br />
de recusa são mínimas.<br />
Quanto à escolha da música para<br />
passar uma ideia, Bernardi acredita<br />
que essa é a única arte realmente<br />
instantânea. Ela deve ser usada para<br />
passar emoção e dizer muitas coisas<br />
em pouco tempo. “Diversas campanhas<br />
trazem muito conteúdo e, como<br />
o tempo é reduzido (cada peça tem<br />
cerca de 30 segundos), fica mais fácil<br />
colocar a ideia em uma letra.” Ele<br />
cita um exemplo marcante, que ocorre<br />
pelo menos a cada dois anos: “Os<br />
jingles de campanhas eleitorais devem<br />
passar emoção, o plano de governo e<br />
ainda ser de fácil repetição.”<br />
É fácil perceber quando uma cam-
LEO HENKIN<br />
RECONHECE UMA<br />
INFLUÊNCIA DO<br />
TRABALHO COMO<br />
COMPOSITOR DE<br />
JINGLES SOBRE SEU<br />
DESENvOLvIMENTO<br />
PARA AS DEMAIS<br />
ÁREAS DA MÚSICA<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
m um primeiro momento, a escolha do tema da revista<br />
“Enos pareceu algo comum, batido. Mas, ao lembrar de<br />
vários jingles que pulavam de nossa lembrança, especialmente a<br />
remota, vimos a possibilidade de realizar um trabalho prazeroso.<br />
Ao encontrarmos nossa fotógrafa, ficamos ainda mais satisfeitos,<br />
já que ela é publicitária, o que nos proporcionou uma visão<br />
diferente do tema por alguém que teria uma maior compreensão<br />
sobre o assunto. Fomos a campo. Pesquisamos, relembramos,<br />
ouvimos diferentes peças e lembramos o mau humor das manhãs<br />
de sábado ao sermos acordados pela ótima composição do Lacre<br />
azul do cachorrinho ou, em escala amadora, pelo vendedor de<br />
bananas que oferecia três quilos do produto por um real ou a<br />
melancia calada e garantida. Isso fez com que a empolgação<br />
fosse crescente. E se, ao final do texto, alguém ficar com algum<br />
jingle na cabeça, isso mostra que não escolhemos o tema errado.<br />
Junte-se a nós: “O vendedor tem um crachá de identificação, o<br />
uniforme, o caminhão, a chama é azul...”<br />
panha publicitária obtém êxito pela<br />
sua repercussão junto à sociedade. Especialmente<br />
quando ela ultrapassa os<br />
limites do curral formado pelo público<br />
alvo e é comentada em qualquer roda<br />
de amigos. O “lacre azul do cachorrinho”,<br />
sucesso em festas de aniversário<br />
e empresas, é apenas um exemplo.<br />
Pode-se, ainda, resgatar o jingle dos<br />
cobertores Parahyba, das Casas Pernambucanas,<br />
do Guaraná Antárctica<br />
e, mais recentemente, o dos tubos e<br />
conexões Tigre.<br />
No Rio Grande do Sul, um exemplo<br />
de uma campanha de conscientização<br />
que acabou ganhando<br />
a simpatia da população foi a dos<br />
Monstrinhos, veiculada pela RBS-<br />
TV, em 2003. Além de personagens<br />
caricatos, como o Bicho Papão, a<br />
Bruxa Malvada, o Boi da Cara Preta<br />
e até o Diabo, a peça trazia uma<br />
música que colava no ouvido. Os<br />
comerciais logo caíram no gosto<br />
da criançada e também dos adultos,<br />
chegando a figurar no set list<br />
do cantor gaúcho Nei Lisboa, que<br />
entre seus Telhados de Paris e Faxineiras,<br />
lascava um “Não acredito<br />
que falem/que maltrato meus boizinhos/Eu<br />
sempre dei a eles/Muito<br />
amor e carinho”.<br />
Bernardi esteve na criação da peça<br />
e não esconde o entusiasmo. “Tem vários<br />
casos na agência de campanhas<br />
que geram mobilização por parte do<br />
público alvo, mas acho que o maior<br />
exemplo é a campanha ‘O Amor é a<br />
Melhor Herança. Cuide das Crianças’,<br />
dos Monstrinhos do grupo RBS.”<br />
A persuasão através da música<br />
se mostra um método eficaz para a<br />
venda de uma ideia. Quando o mercado<br />
publicitário alia-se a uma boa<br />
melodia e a um refrão instantaneamente<br />
decorado, pode-se apostar no<br />
sucesso do produto oferecido. Isso<br />
porque, se é a emoção o que move o<br />
mundo, nada mais óbvio que utilizar<br />
esse artifício para influenciar atitudes<br />
e hábitos de consumo.<br />
Enquanto alguma outra maneira<br />
de chamar a atenção para uma<br />
marca, tão eficaz quanto o jingle,<br />
não for encontrada, as variações<br />
do lacre azul do cachorrinho ainda<br />
poderão acordá-lo durante vários<br />
sábados de sua vida.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 69
MÚSICA PARA CANTAR<br />
A vOltA DA AíDA<br />
TEXTO DE ISABEl BONORINO E RODRIGO RODRIGUES | FOTOS DE ElIS BRAZ<br />
70 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
A encenAção dA óperA AídA é o grAnde momento do Ano<br />
pArA As mAis de 300 pessoAs envolvidAs nA montAgem. entre<br />
profissionAis e AmAdores, o objetivo é o mesmo: trAbAlhAr<br />
pArA que o espetáculo AconteçA dA melhor formA possível<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 71
victoriA trAbAlhA<br />
pAsso A pAsso A<br />
montAgem<br />
junto Ao coro<br />
72 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
A<br />
paixão entre a escrava etíope e o general egípcio conduz<br />
os quatro atos da ópera Aída, de Giuseppe Verdi. Uma<br />
história de amor impossível. Ao contrário do que é representado<br />
no palco, possível é palavra de ordem no Instituto<br />
de Cultura Musical (ICM) da PUCRS, em Porto Alegre. Apesar das<br />
limitações técnicas e financeiras, o sonho idealizado pelo maestro<br />
Frederico Gerling Jr., afastado pela primeira vez de uma montagem<br />
por problemas de saúde, tem seguimento na família formada<br />
ao longo dos últimos 37 anos da instituição. “Cada gesto, cada<br />
nota feita, tudo que estamos fazendo é para ele”, conta a diretora<br />
do ICM e também soprano que interpreta a personagem-título da<br />
obra, Adriana de Almeida.<br />
Dezenove anos após a última montagem de Aída no Rio Grande<br />
do Sul, o ICM voltou a apresentar a obra em quatro récitas,<br />
nos meses de outubro e novembro. Dessa vez com a participação<br />
argentina do maestro Mario Perusso e outros quatro solistas. Para<br />
realizar um grande espetáculo como esse e superar todos os seus<br />
obstáculos, o trabalho começa cerca de três meses antes. No mês<br />
anterior à estreia, os ensaios do coral e da orquestra são intensificados<br />
e é incluída a parte cênica.<br />
Ensaiar é prEciso, tolErar também<br />
Pense em torno de 350 pessoas, atuando nas mais diversas<br />
funções, no palco e fora dele, sendo que a maioria está ali voluntariamente.<br />
Agora, imagine ter de contar com a compreensão de<br />
todos, entender eventuais ausências, desistências de última hora<br />
e saber que o tempo joga contra. O fato de a maioria ser amadora<br />
torna a realização da ópera um desafio e um exercício de tolerância,<br />
já que muitos trabalham durante a semana ou não sabem<br />
ler partituras. “É um trabalho que depende da boa vontade de<br />
todos para estarem nos ensaios. Trabalhamos sempre com condições<br />
acessíveis, não ideais”, relata a diretora com certo tom de<br />
lamento. Para ela, o ideal seria contar<br />
com um coro profissional, assim como é<br />
a orquestra. Não sendo possível, a colaboração<br />
vem do amor à arte. “É um<br />
produto feito com pessoas amadoras.<br />
Realmente o nome já diz: amam aquilo<br />
que fazem”, conclui Adriana.<br />
Mariele Beckenkamp, 41 anos, fisioterapeuta,<br />
entrou para o coral por acaso,<br />
junto com a mãe, a artista plástica Jalda,<br />
66. Foi ao teste para acompanhá-la,<br />
acabou sendo convidada a participar e<br />
há oito anos faz o que mais gosta ao lado<br />
da mãe. Ela não é a única nessa situação.<br />
A médica Clarissa Bassin, 49 anos,<br />
desde ano passado tem a companhia<br />
de sua filha Virgínia, 28, tradutora, que<br />
canta ao lado do noivo Eliandro Both, 28.<br />
Com tanto tempo compartilhado, namoros<br />
não são raros no grupo.<br />
O casal Maria Isabel, 63 anos, e Isidro<br />
Piazzetin, 60 anos, participou das<br />
outras montagens locais de Aída, feitas<br />
em 1977 e 1991 pela PUCRS, e sabe bem<br />
a razão para os relacionamentos começarem.<br />
Integrantes do coral desde 1969<br />
e 1973, respectivamente, a professora<br />
de francês e o bancário se conheceram<br />
ali e já perderam a conta de quantos<br />
casais se formaram e de quantas óperas<br />
participaram. Ano que vem completam<br />
30 anos de casados, o mesmo número<br />
de óperas que acreditam terem feito.<br />
Não é para menos. Maria Isabel está no<br />
coral antes mesmo do maestro Gerling<br />
assumir o grupo, em 1972. A entrada de<br />
Isidro, na época seminarista, se deu após<br />
a divulgação em uma turma de Filosofia<br />
sobre as “benesses” que o canto traria<br />
aos jovens aspirantes a sacerdotes.<br />
Quando chega a época dos ensaios de<br />
cena, lá estão eles, junto a Mariele. “O<br />
que mais nos entusiasma é fazer a ópera.<br />
A gente canta e interpreta, depois ouve<br />
o aplauso do público. Ao final nos sentimos<br />
realizadas”, conta a fisioterapeuta.<br />
Nessa montagem ocorreram seis trocas<br />
de cenário, e cada personagem teve em<br />
média três figurinos.<br />
limitEs sUpEraDos<br />
No galpão ao lado do prédio do ICM<br />
existe uma espécie de oficina onde funcionários<br />
dão forma ao cenário das óperas.<br />
Ali foram feitos os últimos ajustes<br />
nas esfinges de esponja, remontando<br />
às do Egito, e nas grandes estruturas de<br />
cerca de seis metros de altura. Deixando
o papel de Aída de lado, Adriana de Almeida<br />
pediu que ninguém tirasse fotos durante<br />
os ensaios, ou que não as colocassem<br />
em sites de relacionamento. O motivo?<br />
Sem cenário e figurino <strong>completo</strong>s, a divulgação<br />
poderia dar uma ideia errada do<br />
espetáculo, que este ano foi assinado pelo<br />
cenógrafo Valdir Martins, com a assessoria<br />
de Zeca Zenner, que já trabalhou com o<br />
carnavalesco Joãozinho Trinta.<br />
Tudo bem diferente de décadas atrás,<br />
quando Gerling criou o coral. “Ou a gente<br />
fazia com as condições que tinha, ou não<br />
fazia. Uma época o maestro teve que vender<br />
o piano dele para pagar uma montagem”,<br />
exemplifica Isidro.<br />
Há cerca de oito anos, a preparação<br />
de cena é feita pela coreógrafa Victória<br />
Milanez, e o trabalho não é fácil, pois,<br />
além de cantar, é necessário interpretar. Há quem tire de<br />
letra, caso da fisioterapeuta Mariele: “Por ter sido bailarina,<br />
é mais fácil. O bailarino é um ator que dança. Mas não é<br />
fácil para todo mundo”. Por isso as cenas são repetidas para<br />
mudar o que não está bom.<br />
“Entra soldado! Entra povo! Calma! Devagar!”, berra da<br />
plateia, com microfone na mão, Victoria, ao observar a movimentação<br />
do grupo de solistas, coro e balé. Devido à idade, ou<br />
a problemas de coluna, sete mulheres cantam parte de uma<br />
cena fora do palco, nas coxias. A dificuldade para ficar de joelhos<br />
resultou em contraturas musculares, que fizeram algumas<br />
visitarem o ortopedista e a fisioterapia, caso de Virginia Bassin.<br />
A contralto estava se recuperando de hérnia de disco, mas não<br />
desistiu de participar da montagem.<br />
Nos ensaios, o clima de descontração disfarça a timidez e a<br />
ansiedade. Segundo Adriana, as brincadeiras e as piadas fazem<br />
essas sensações passarem: “À medida que eles vão se inteirando<br />
do que será feito, compreendendo toda a movimentação, vão<br />
entrando no espírito”. A opinião da diretora é compartilhada<br />
por Mariele: “Os ensaios são sempre uma festa, mas quando vai<br />
chegando o dia, todo mundo vai se concentrando, ficando sério.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
Isabel Bonorino<br />
ma coisa é você ser coralista e participar de<br />
“uuma ópera; outra é, além de tudo, observar<br />
detalhes e conseguir reportar, entre tantas coisas,<br />
apenas o mais interessante para o leitor. por participar<br />
do coral, tive acesso a ensaios e fontes facilmente;<br />
porém, a confiança de que tudo estava sob controle<br />
acabou quando as pessoas escolhidas resolveram faltar<br />
e até abandonar o coro. A cada dia algo novo para<br />
contar. Adoentado, o maestro gerling não pôde ver<br />
Aída. uma semana após a última récita, ele morreu.”<br />
Quando tem o ensaio geral, que você coloca a roupa, sempre dá<br />
aquele nervoso”. Quando chega o grande dia, a ansiedade dá<br />
lugar à emoção, garante Jalda.<br />
artE pEla artE<br />
Por mais que as limitações existam, a evolução do ICM<br />
foi grande. Hoje o que se vê é uma estrutura adequada que<br />
atende às principais necessidades do coral, dos solistas e da<br />
orquestra, como palco, salas de ensaio e camarins. Há local<br />
inclusive para a turma da costura fazer o figurino das óperas.<br />
Tudo no complexo do Salão de Atos da PUCRS, onde está localizado<br />
o instituto.<br />
“A cultura é um investimento humano para a sociedade”.<br />
A recepção do público, segundo ela, é ótima: “Trabalho há 23<br />
anos produzindo espetáculos e sempre tivemos casa lotada”.<br />
Após tamanho trabalho de bastidores, a realização das récitas<br />
é a concretização do sonho de todos. “Quando atingimos<br />
aquele sonho, o ideal que se criou e que gerou uma expectativa,<br />
a sensação é muito prazerosa e contempla os desafios que<br />
nós tivemos e que acabamos superando por essa satisfação de<br />
ver o espetáculo ganhar vida”, diz Adriana.<br />
Rodrigo Rodrigues<br />
screver uma grande reportagem já é por si só<br />
“eum bom desafio. mas descrever, nos tantos mil<br />
caracteres dessa matéria, algo até então desconhecido<br />
para você, eleva a dificuldade na realização da tarefa.<br />
não sou lá um grande apreciador da música erudita<br />
e seus espetáculos (concertos, óperas). o pouco que<br />
conheço vi pela televisão. portanto, o ensaio e os<br />
entrevistados, além da minha dupla, me mostraram<br />
esse novo mundo. onde se faz o possível para chegar<br />
ao desejado, assim como fizemos essa redação.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 73
MÚSICA PARA<br />
CELEBRAR<br />
74 | Primeira imPressÃo | Dezembro/2010<br />
Guizos e<br />
tambores
Além de umA mAnifestAção<br />
culturAl, com trono, rei<br />
e rAinhA, o mAçAmbique,<br />
dAnçAnte e Alegre, dá ritmo e<br />
nome A um estilo musicAl do<br />
rio grAnde do sul<br />
TEXTO De GutiÉri saNCHez e roGÉrio r. berNarDes<br />
FOTOS De FerNaNDa braNDt<br />
O<br />
Grupo Maçambique de Osório, cidade<br />
do Litoral Norte Gaúcho, é considerado<br />
uma das últimas amostras de<br />
devoção católica negra no Rio Grande<br />
do Sul. É uma manifestação sociocultural<br />
e religiosa que tem o seu ponto forte, todos<br />
os anos, no mês de outubro, quando a Igreja<br />
Católica celebra a Festa de Nossa Senhora do<br />
Rosário. A santa é conhecida como a protetora<br />
e padroeira dos Maçambique.<br />
A inspiração para a criação do grupo vem<br />
de um velho reino em Angola, país da África,<br />
que teve no século XVII, um reinado com<br />
o Rei Congo e a Rainha Ginga. Juntos, eles<br />
lideraram em uma guerra, a resistência de<br />
Congo e de Angola, que representa a reação<br />
de Portugal à escravidão. Este fato venceu<br />
o tempo, atravessou mares e, em Osório,<br />
a história virou folclore. Os integrantes do<br />
grupo se autodenominam de Maçambiques.<br />
Alguns historiadores acreditam que parte<br />
dos escravos do litoral gaúcho veio de Moçambique.<br />
Ao longo da história, podem ter<br />
trocado a primeira vogal.<br />
Atualmente o grupo religioso está, em sua<br />
maioria, vivendo no bairro Caravágio, em Osório.<br />
Tem na Rainha Ginga, Severina Dias, de 84<br />
anos, e no Rei Congo, Sebastião Antônio, de 82<br />
anos, as duas principais autoridades. A Rainha<br />
apresenta sempre a última palavra, exercendo<br />
o poder de decisões relativas ao grupo. Ainda<br />
há pajens do rei e da rainha e outros integrantes<br />
com nomes de patentes militares, como os<br />
capitães da espada, o chefe dos dançantes,<br />
a vara dos dançantes, as alferes da bandeira<br />
e os tamboreiros. Os dançantes portam em<br />
suas pernas uma espécie de guizo denominado<br />
maçacaia, que é utilizado para representar o<br />
som das correntes usadas pelos escravos que<br />
fugiam dos maus tratos de seus senhores.<br />
Caracterizado por dançar descalços, com<br />
seus rituais, o grupo tem passado de geração<br />
em geração, levando a cultura de um povo sempre<br />
à frente. Os tambores utilizados em suas<br />
danças são feitos pelos próprios componentes.<br />
“Só quem está ou já passou pelo Maçambique<br />
de Osório, saberá fazer o instrumento musical<br />
utilizado por nós, que é trabalhado com couro<br />
de cabrito”, revela Francisca Dias, presidente<br />
do grupo e filha da Rainha Ginga Severina. Assim<br />
sendo, como em uma Monarquia, Francisca é virtual<br />
sucessora ao trono.<br />
Primeira imPressÃo | Dezembro/2010 | 75
(ou maçacaia):<br />
espécie de<br />
balainho de<br />
taquara, tendo<br />
em seu interior<br />
uma frutinha<br />
seca chamada de<br />
caeté. Prende-se<br />
no tornozelo<br />
A FestA<br />
A festa de Nossa Senhora do Rosário representa<br />
para os Maçambiques, a coroação da Rainha Ginga<br />
e do Rei Congo. Através de cânticos, vestimentas<br />
brancas e cerimônias, os integrantes do grupo seguem<br />
os costumes dos seus ancestrais, que, ainda<br />
no tempo da escravidão, viam na devoção à santa<br />
uma esperança para a sua libertação.<br />
Durante quatro dias, às vésperas do feriado de 12<br />
de outubro, a cultura negra floresce na cidade de Osório.<br />
Diversas são as homenagens à santa, sempre com<br />
os tambores e danças embalando os rituais.<br />
Nesse período são realizados baile, promessas, missas,<br />
danças, procissão, almoços e jantas. O Maçambique<br />
de Osório resgata uma cultura que iniciou a quilômetros<br />
de distância, mas que se depender dos seus<br />
integrantes, jamais morrerá.<br />
O grupo, apesar de manter uma tradição e ser famoso<br />
em diversos locais do estado, do país e até do exterior,<br />
não parece ter o reconhecimento merecido por<br />
parte das autoridades locais. Para se ter uma idéia,<br />
nem uma sede própria os Maçambiques de Osório possuem.<br />
No entanto, outro lado desta cultura tem se tornado<br />
famoso e até financeiramente independente: o<br />
Maçambique como gênero musical.<br />
Ventre Livre<br />
(Ivo Ladislau e Carlos Catuípe)<br />
O Maçambique não se cala<br />
Ao som do tambor e da puíta<br />
No machacá chocalha caeté<br />
Chocalha o caeté na batida do pé.<br />
Não se rompem os grilhões<br />
Dessa mãe que ainda vive<br />
Sangra negra, ama e sua<br />
Que teu filho será livre.<br />
Livre para ser escravo<br />
Que tem preço, a caridade<br />
Se teu filho for um bravo<br />
Chegará à liberdade<br />
Vão ser livres, vão ser livres<br />
Os filhos dessas mulheres?!<br />
Casa grande e senzala<br />
Tronco, sinhô e chibata.<br />
A luta ainda se arrasta<br />
Entre cantos e gemidos<br />
Pra ser livre a luta é vasta<br />
Não basta só ter nascido.<br />
“Oi vamo-nos embora<br />
E não fica ninguém<br />
Que a virgem do Rosário<br />
Vai com nóis também!”<br />
“Lá vem o Rei do Congo com a sua infantaria<br />
Coroa na cabeça e um Rosário de Maria!<br />
Ai, minha Rainha Ginga olha e pisa devagar,<br />
Pras pedras miudinhas não sair do seu lugar!”<br />
“O Tambor tá batendo,<br />
ta repenicando!<br />
São seus dançantes, oi senhor!<br />
Que o tambor tá chamando!”<br />
76 | Primeira imPressÃo | Dezembro/2010<br />
instrumento<br />
semelhante a<br />
cuíca, feito com<br />
couro de cabrito<br />
e uma haste de<br />
bambu. o grupo<br />
não usa puíta hoje<br />
em dia<br />
A frutinha e<br />
semente da<br />
planta caeté são<br />
utilizadas dentro<br />
do maçacaia<br />
MúsicA<br />
Os guizos, os tambores e as danças serviram de inspiração<br />
e raiz para o que hoje, levando o mesmo nome<br />
do grupo folclórico, é reconhecido como um gênero<br />
musical. Segundo o maestro radicado em Osório Paulo<br />
de Campos, a célula rítmica da batida do tambor<br />
Maçambique e o rufar sincopado (com pausas curtas<br />
e marcantes) são os elementos que caracterizam a<br />
cultura. Misturados a instrumentos como a guitarra, o<br />
teclado, o contrabaixo e outros, formam esse gênero<br />
osoriense e gaúcho.<br />
Os primeiros músicos que tiveram a ideia de<br />
compor canções com a batida do tambor dos Maçambiques<br />
foram Ivo Ladislau e Carlos Catuípe. No<br />
começo da década de 1980, encantados com a cultura<br />
litorânea e maçambiqueira, os músicos e compositores<br />
resolveram colocar nas letras e melodias o<br />
que envolvia os Maçambiques. Pensaram em batizar<br />
o ritmo como congada, mas, para não confundir com<br />
ritmos do centro e nordeste do Brasil e caracterizálo<br />
como uma cultura própria do Litoral Norte Gaúcho,<br />
optaram por Maçambique.<br />
Não bastava escrever alguma letra que contasse sobre<br />
o folclore. Era preciso algum elemento que caracterizasse<br />
bem os Maçambiques. Para tanto, nada mais<br />
adequado e marcante do que os tambores. A letra de<br />
Ventre livre estava pronta, mas faltava a melodia. Foi<br />
então que Carlos Catuípe encontrou quem hoje pode<br />
ser considerado – apesar da relutância do grupo folclórico<br />
– o elo entre o folclore e o ritmo.<br />
Nascido em Osório e hoje com 52 anos, Mário<br />
DuLeodato cresceu com a família ligada ao folclore<br />
Maçambique. Ele conta que aprendeu uma batida<br />
diferente do que se ouve hoje nos festejos quando<br />
tinha apenas oito anos. E foi exatamente essa batida<br />
que encantou Catuípe. “Aquela batida com um<br />
ritmo mais rufado que aprendi quando era novinho<br />
se encaixou perfeitamente na música do Ladislau e<br />
do Catuípe”, explica DuLeodato.<br />
A música Ventre livre, que já tinha a letra homenageando<br />
os negros dançantes, estava completa com<br />
o acompanhamento do tambor. Depois da primeira<br />
composição, muitas outras nesse estilo vieram. O ritmo<br />
Maçambique hoje é tocado e reconhecido por muitos<br />
músicos, mas no começo não foi assim. Como tudo<br />
que é novo, aquela extensão de uma congada causava<br />
certa resistência em jurados de alguns festivais.<br />
DuLeodato conta que ouviu em uma rádio da região,<br />
logo que se inscreveram no primeiro festival, que a<br />
música deles não passava de um “batuque africano<br />
falando de praia, escravidão, pescador e dunas”.<br />
Em festivais nos quais ritmos mais tradicionalistas<br />
reinavam, como toadas e milongas, era difícil inscrever<br />
o ainda desconhecido Maçambique. Alguns truques<br />
foram feitos para que as composições pudessem ser<br />
mostradas. Estudioso do ritmo Maçambique, Paulo de<br />
Campos conta que Catuípe inscrevia as músicas como<br />
se fossem milongas, mas na hora de subir ao palco le-
vava DuLeodato vestido a caráter<br />
e com seu tambor, apresentando<br />
a verdadeira versão no ritmo maçambiqueiro.<br />
Depois de certa resistência, a<br />
Moenda (Santo Antônio da Patrulha),<br />
a Tafona (Osório) e depois<br />
o Musicanto (Santa Rosa) foram<br />
os primeiros festivais a difundir e<br />
acreditar no ritmo. Outras canções<br />
foram sendo compostas e apresentadas<br />
em festivais. Algumas composições<br />
fizeram parte de festivais<br />
como a Califórnia da Canção, em<br />
Uruguaiana, e a Escaramuça da<br />
Canção Gaudéria, em Triunfo.<br />
Hoje, o Maçambique é um<br />
ritmo incorporado ao repertório<br />
de artistas e grupos como Loma,<br />
Kako Xavier, Catuípe Junior, Ivo<br />
Ladislau, Richard Serraria, Bataclã<br />
FC, Serrote Preto, Cantadores<br />
do Litoral, Paulinho diCasa,<br />
entre outros. O grupo Cantadores<br />
do Litoral, liderado por Paulo de<br />
Campos, tem um disco gravado<br />
com músicas litorâneas. Muitas<br />
delas são Maçambiques.<br />
O grupo de dançantes, com rainha,<br />
rei e capitães, luta para nunca<br />
se perder ao longo da história.<br />
Sem interferir no folclore, mas<br />
dialogando com ele, o gênero musical<br />
Maçambique também deverá<br />
ser perpetuado nas letras e canções<br />
dos músicos. Hoje, graças ao<br />
folclore, Osório e o Litoral Norte<br />
podem se orgulhar de uma música<br />
nascida no Rio Grande do Sul com<br />
uma levada alegre e marcante que<br />
não só vence festivais como enriquece<br />
nossa cultura.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
scolher uma pauta entre tantas possibilidades no<br />
“emundo da música foi complicado. Pensávamos<br />
nos deslocamentos de osório, onde moramos, para os<br />
locais das entrevistas. foi então que tivemos a ideia<br />
de falar sobre nossa terra. nossa música foi sempre<br />
ligada aos maçambiques e nada mais osoriense do<br />
que eles e suas canções. foi incrível poder entrar em<br />
um universo que conhecíamos muito superficialmente<br />
desde crianças. Aqueles homens cantando e dançando<br />
vestidos de branco acompanhados de espadas, um rei<br />
e uma rainha em frente à igreja. lógico que eles são<br />
muito mais do que isso. bem mais também do que<br />
o tamanho que tivemos disponível nesta revista. os<br />
músicos todos foram muito atenciosos e era visível o<br />
orgulho que sentem de levar a cidade e a região na<br />
letra (no tambor) de suas composições. encontramonos<br />
com a rainha ginga e o rei congo. Visitar suas<br />
casas foi muito enriquecedor. é como nos disseram em<br />
meio às entrevistas: “Vocês sentaram à mesa com um<br />
rei e uma rainha de verdade.”<br />
Primeira imPressÃo | Dezembro/2010 | 77
cartola<br />
QuEM MAnDA<br />
78 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
nA PIStA<br />
SINDY LONGO<br />
música para<br />
dançar<br />
DJs vivem e se<br />
Divertem Da arte<br />
De tocar música<br />
Tocar música é uma<br />
arte? O assunto é<br />
controverso e muitas<br />
pessoas podem<br />
achar que não. A função surgiu<br />
com a industrialização<br />
da cultura, principalmente<br />
da musical. As pessoas que<br />
tocam ou remixam melodias,<br />
seja no rádio ou ao vivo, são<br />
conhecidas como DJs. Essas<br />
figuras sobreviveram à era<br />
da digitalização da música<br />
e agora tocam músicas direto<br />
de computadores em<br />
formato MP3. Seja em festas<br />
auto-intituladas bregas, em<br />
baladas destinadas a público<br />
da terceira idade, em danceterias<br />
ou em programas<br />
de rádio, os DJs vivem de<br />
sua arte e podem até não<br />
produzir suas próprias melodias,<br />
mas são a essência<br />
dessas festas.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 79
80 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
SOu tRASh,<br />
MAS tô nA MODA<br />
Uma hora. Era esse o tempo de<br />
espera para entrar no Laika<br />
Club, na Rua Venâncio Aires, nº 59,<br />
em Porto Alegre, na noite de sábado.<br />
Na fila, diferentes estilos de<br />
pessoas. Esperamos esse tempo,<br />
eu e mais três amigos, curtindo<br />
um “aquece” de músicas bregas.<br />
Cantávamos as clássicas da festa:<br />
Molejo, Latino, É o Tchan!, entre<br />
outras músicas que fazem o tempo<br />
passar mais rápido, numa viagem<br />
de volta a outra época. A Bailalaika<br />
é a festa mais “bombante” em<br />
termos de público no Laika, mesmo<br />
que toque um tipo de música que<br />
não se ouve mais nas rádios.<br />
Amanda, Déia, Vini e Zack formam<br />
um grupo de amigos que,<br />
cerca de cinco anos atrás, teve a<br />
ideia de promover uma festa fora<br />
dos padrões das que existiam até<br />
então no Laika. “Sempre brinco<br />
que somos a versão anos 90 da Balonê”,<br />
conta a DJ Amanda Rech,<br />
referindo-se à festa anos 80 mais<br />
popular da capital gaúcha. Apesar<br />
disso, a Bailalaika está longe<br />
tEXto BIBIAnA BARBARÁ | Fotos DE BRunA SChuCh<br />
de ser apenas uma festa anos 90.<br />
A melhor forma de descrevê-la é<br />
como um “revival do brega”.<br />
“Quando tivemos essa ideia,<br />
nunca imaginamos que daria tão<br />
certo assim”, afirma Amanda. A<br />
festa que ocorre todo mês começou<br />
ainda no Laika antigo, um miniclub<br />
que ficava na Rua Santana.<br />
A Bailalaika atrai um público bem<br />
alternativo, mas que viveu sua infância<br />
ou adolescência na década<br />
de 1990 e hoje se diverte ao som<br />
das trilhas de desenhos, filmes,<br />
novelas, boy bands e outras pérolas<br />
que marcaram suas vidas e<br />
trazem lembranças de uma época<br />
nem tão distante.<br />
O set da Balalaika é decidido<br />
antes da balada começar, até porque<br />
são várias as músicas a serem<br />
procuradas e baixadas da internet,<br />
das mais absurdas e trashs. Também<br />
conta com o perfil @bailalaika<br />
na rede social Twitter, onde recebe<br />
pedidos de músicas. Mas para<br />
serem atendidas, claro que as sugestões<br />
têm que ter a ver com a<br />
proposta da festa.<br />
As músicas são as mais variadas<br />
e, quanto mais brega, mais o público<br />
delira. O pessoal faz coreografias<br />
ao som das mais famosas. Ragatanga<br />
do Rouge, Prometida, do<br />
Broz, qualquer uma das Spice Girls<br />
e dos BackStreet Boys, além de<br />
funk carioca, Molejo, É o Tchan.<br />
Os DJs da Bailalaika também são<br />
convidados para tocar em festas em<br />
outros clubes de Porto Alegre. Uma<br />
destas é a do Clubinho Nonsense,<br />
no Verde Club, localizado na Avenida<br />
Goethe, 200, onde a cada edição<br />
dois DJs da Bailalaika tocam.<br />
Entrevistar os DJs durante a balada<br />
foi um desafio. Eles não param<br />
quietos. Divertem-se com as músicas,<br />
dançam muito e não se preocupam<br />
com o ridículo. Prova que o<br />
trash pode fazer muito sucesso, é<br />
o público fiel que a Bailalaika tem.<br />
Quando saí do Laika já era dia, não<br />
sei a hora, mas com certeza já passava<br />
das seis da manhã. A pergunta<br />
que todos fazem quando a festa<br />
acaba: quando será a próxima?
os DJs Da Festa<br />
BaiLaLaiKa sÓ tocam<br />
músicas BreGas<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 81
cartola<br />
82 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
DOS COPOS<br />
ÀS PICAPES
DJ rÉGis tem<br />
mais De ciNco<br />
miL músicas<br />
arQUivaDas<br />
tEXto DE ÉDER ZuCOLOttO | Foto DE JÉSSICA BERGER<br />
Noite de domingo. Sem entrevistados.<br />
Falta menos de 24 horas para entregar<br />
a matéria da revista Primeira Impressão.<br />
Solução: subornar um amigo motorizado e<br />
sair a cata de um DJ. Local mais próximo:<br />
Bar Alternativo, às margens da ERS-239, no<br />
Km 18,3, em Novo Hamburgo. São 10h45min<br />
e meia dúzia de gatos pingados circula pela<br />
pista principal da casa noturna. O som mecânico<br />
dispara a música que faz parte da<br />
temática da noite de domingo na casa: pagode.<br />
“Lalaiá, ela me deixou.” O local é conhecido<br />
pelo ecletismo musical. Cada noite<br />
tem uma temática diferente: pagode, sertanejo<br />
universitário, funk, música dos anos<br />
80 e 90 e tecno. Pergunto ao garçom se há<br />
ou haverá DJ na casa naquela noite. “Hoje<br />
só tem esta pista e vai ter show de pagode,<br />
mas discotecagem só começa depois das três<br />
da madruga, e o DJ Régis só aparece depois<br />
da meia-noite, deixa que te aviso.”<br />
Sentamos numa mesa e tomamos algumas<br />
cervejas esperando a chegada do Régis.<br />
Não muitas, pois precisava estar sóbrio para<br />
a entrevista. O movimento aumenta, mas<br />
lentamente. “Leleiê, ela me traiu.” Algumas<br />
garotas sambam animadas pela música. “Sou<br />
muleque, sou guerreiro e, como todo bom<br />
brasileiro, não vou me entregar.” À meianoite,<br />
o DJ surge num canto do palco fazendo<br />
ajustes na mesa de som. Subo e me apresento,<br />
digo que estamos fazendo uma matéria<br />
sobre pessoas que colocam som na noite, e<br />
ele, muito simpático, acerta que, assim que<br />
a pagodeira começar, ele dará a entrevista.<br />
Não demora muito e, às 0h15min, o grupo de<br />
pagode começa a tocar. Régis desce e vamos<br />
até o espaço externo do bar, que está vazio.<br />
Sentamos os três numa mesinha: eu, o DJ e<br />
o meu amigo.<br />
DJ Régis é Régis Diego de Almeida Rosa.<br />
Tem 27 anos, mas aparenta menos. E já<br />
soma 10 anos de estrada conduzindo as picapes.<br />
De jaqueta sintética preta, camisa<br />
branca e calça de brim, o jovem fala rápido<br />
e gesticula muito com as mãos. É difícil<br />
acompanhar a verborragia do rapaz em meu<br />
bloquinho de notas.<br />
“Trabalho só como DJ. Aqui no Alternativo<br />
na terça, quinta e domingo, sábado<br />
em Campo Bom e também alguns dias em<br />
Sapiranga e Riozinho. Além disso, há muito<br />
trabalho em festas particulares durante os<br />
outros dias. Tem semanas que trabalho toda<br />
a noite. Vivo só disso e vivo bem. Toco de<br />
tudo e gosto de tudo. O pessoal (outros DJs)<br />
só quer tocar eletrônico ou sertanejo, que<br />
também está em alta. Mas têm coisas como<br />
o funk e o eletro-funk que estão vindo com<br />
força também. É preciso estar sempre ligado<br />
no que está rolando de novo. Tenho mais de<br />
cinco mil músicas arquivadas e sempre estou<br />
catando algumas novas.”<br />
Régis vive agora da música, mas nem sempre<br />
foi assim. Começou como garçom, recolhendo<br />
copos em uma boate de Novo Hamburgo.<br />
Com o tempo, passou a iluminador e<br />
sempre que podia ia ver como o DJ da casa<br />
trabalhava. Com a força de quem já entendia<br />
do tablado, aprendeu na prática e nunca fez<br />
curso para a profissão.<br />
“Já toquei para mais de 8 mil pessoas durante<br />
um festival de música em 2008 e foi<br />
muito bom. O meu diferencial é que tenho<br />
comunicação. Além de tocar a música, eu<br />
falo com o público. Tem muito DJ que não<br />
faz isso. Hoje tenho casa própria em Estância<br />
Velha graças ao meu trabalho como DJ.”<br />
Você se considera um artista?<br />
“Sim, me considero um artista. Não sou<br />
como Luan Santana, mas sou um artista.”<br />
Ser DJ ajuda a pegar mulher?<br />
“Ajuda e muito. Já namorei muito. Mas<br />
agora tô namorando firme, faz sete meses.”<br />
O que é chato em ser Dj?<br />
“Chato são os caras que não querem ir<br />
embora da festa quando ela tá acabando.<br />
Nem estão ouvindo a música, e mesmo assim,<br />
não vão embora.”<br />
Seu sonho?<br />
“Hoje posso dar uma vida boa para minha<br />
filha Érika, de cinco anos, com meu trabalho.<br />
Meu sonho é seguir como DJ até ficar<br />
velhinho.”<br />
Despedimo-nos do DJ Régis e voltamos à<br />
festa. A pagodeira ainda está animada, e a<br />
pista segue lotada. À 1h40min a banda encerra<br />
as atividades (antes do que esperávamos),<br />
e é hora do DJ Régis assumir o espetáculo.<br />
Para iniciar, ele dispara um remix da música.<br />
“Você é boi garantido, puxa o rabo dela, está<br />
correndo perigo, vai segurar vela...”<br />
Seus olhos atentos dividem a atenção<br />
entre as picapes e equalizadores e o movimento<br />
da pista. Começou servindo copos e<br />
agora serve música para os sedentos da pista.<br />
Depois surge algo do Kings of Leons, que<br />
me agrada, mas que logo depois é rebatido<br />
com o refrão demoníaco da música chiclete<br />
Pan-Americano. Fim da pauta, pago a conta<br />
e vamos embora. Mais de R$ 80. E o carro do<br />
meu camarada não tem nem rádio.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 83
cartola<br />
AfInIDADES<br />
nO AMOR<br />
E nA MúSICA<br />
84 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
LaÍs e GaBrieL<br />
se coNHeceram<br />
Na ÉPoca Do<br />
coLÉGio. HoJe<br />
sÃo NamoraDos<br />
e traBaLHam<br />
JUNtos como DJs
tEXto DE ADRIAnO DE CARVALhO E PAtRÍCIA OLIVEIRA<br />
Fotos DE SInDY LOnGO<br />
Ela é Laís Longo. Ele é Gabriel Alano.<br />
São Djs e namorados. Trabalham juntos<br />
e vivem imersos em música durante<br />
quase todas as 24 horas do dia. Fazem sucesso<br />
em diversas rádios online no mundo<br />
inteiro e em rádios FM de todo o Brasil<br />
voltadas para a música eletrônica. “Música<br />
é tudo na minha vida. Eu acordo ouvindo<br />
música, sempre saio de casa com um<br />
fone no ouvido e não consigo imaginar a<br />
minha vida sem isso”, diz ele. “A música<br />
é tudo na minha vida também. Seja<br />
o estilo que for, tem que estar tocando<br />
música”, sentencia ela.<br />
Nosso primeiro contato com o casal<br />
aconteceu no apartamento deles, no<br />
meio de uma tarde de domingo. Ao chegar<br />
na porta do edifício, tivemos que<br />
tocar a campainha mais de uma vez, já<br />
que ninguém nos atendia. O desepero<br />
tomou conta da dupla de repórteres,<br />
já que essa pauta era nossa segunda<br />
opção e tínhamos apenas esse final de<br />
semana para concretizá-la. Por sorte<br />
e alívio, Laís atendeu a campainha e<br />
abriu a porta se desculpando. “Tocamos<br />
até as 14h. O sono bateu, mas estamos<br />
prontos”, disse ela.<br />
Encaramos numa boa e logo percebemos<br />
o quanto os dois se dedicam à<br />
profissão. Nos dirigimos ao local da entrevista:<br />
um pequeno estúdio montado<br />
dentro do apartamento, onde eles podem<br />
gravar seus próprios sons. Durante<br />
a conversa, percebemos que são um casal<br />
de namorados com diversas afinidades,<br />
grande parte delas expressas pela<br />
música. Nossa impressão sobre o entrosamento<br />
da dupla não se forjou apenas<br />
durante a entrevista, mas também<br />
quando conhecemos o trabalho do casal,<br />
que mistura música eletrônica com voz e<br />
violão. “É algo que tu vive o dia inteiro.<br />
Mesmo fora do estúdio, tu fica pensando,<br />
prestando atenção em alguma coisa<br />
e tendo uma ideia para uma nova música”,<br />
relatou Gabriel sobre como surgem<br />
as inspirações para novas composições.<br />
Os dois se conheceram nos tempos de<br />
colégio e seguiram caminhos diferentes<br />
depois da formatura. Entretanto, o tempo<br />
foi, pouco a pouco, fazendo com que<br />
se encontrassem novamente. Gabriel nos<br />
contou que, após uma temporada longe<br />
do estado, Laís resolveu voltar para o Rio<br />
Grande do Sul por causa dele. “Éramos<br />
colegas no Ensino Médio. Mas a Laís foi<br />
morar em São Paulo, e nos afastamos.<br />
Numa dessas idas e vindas dela aqui para<br />
Porto Alegre, acabamos nos encontrando<br />
novamente, decidimos namorar e um<br />
tempo depois ela voltou a morar aqui”,<br />
revelou Gabriel.<br />
Laís já ensaiava os primeiros passos<br />
como Dj ao final do Ensino Médio. Se interessou<br />
pela profissão ao ir em festas e ver<br />
como outros se apropriavam das pickups<br />
que hoje ela comanda. Com o incentivo<br />
de uma amiga, aprendeu a mixar músicas<br />
e, aos 19 anos, resolveu ir para São Paulo<br />
fazer faculdade de Produção de Música<br />
Eletrônica. Já Gabriel iniciou graduação<br />
em Administração logo após o colégio.<br />
Tempos depois, trancou o curso e resolveu<br />
fazer Publicidade. Gostou no começo, mas<br />
nessa época ele já tocava — também foi<br />
incentivado por um amigo a experimentar<br />
mixagens e produção de músicas — e se<br />
viu obrigado a realizar uma escolha. “Tive<br />
que trancar a faculdade. Precisei dar mais<br />
ênfase à profissão. Não conseguia me<br />
comprometer com o curso e comecei a ir<br />
mal. Não tinha tempo e precisei deixar os<br />
estudos em segundo plano”, explica.<br />
No desenrolar da conversa, percebemos<br />
nitidamente o prazer dos dois em poder<br />
fazer o que gostam. Fica claro que o<br />
casal fez a escolha certa. Hoje os dois estão<br />
felizes com o rumo que suas vidas tomaram.<br />
Com uma agenda lotada, já fizeram<br />
apresentações não só no Rio Grande<br />
do Sul, como também em Santa Catarina,<br />
no Paraná e outros estados da Região Sudeste<br />
e Centro-Oeste. Uma rotina agitada<br />
e desgastante. “Muita gente entra por<br />
modismo e não consegue permanecer na<br />
profissão. Para continuar, tu precisa gostar<br />
muito do que faz. Às vezes a festa não<br />
dá certo, acontecem problemas e tem<br />
todo esse lado que não é tão profissional<br />
quanto a gente gostaria”, conta Gabriel.<br />
“É preciso gostar e ter muita disposição<br />
para ficar comandando uma pista durante<br />
a noite inteira. Nós, basicamente, trocamos<br />
o dia pela noite”, revela Laís.<br />
Mas o grande desafio da carreira de<br />
um Dj, nos revelou o casal, está na dificuldade<br />
de se produzir as músicas. Embora<br />
seja uma atividade prazerosa, é algo que<br />
dá muito trabalho e que não só toma muito<br />
tempo, como também impõe um custo<br />
alto. “É uma atividade muito complexa.<br />
Fora o alto investimento. É tudo muito<br />
caro. Os equipamentos são importados<br />
e muitas peças tu não encontra aqui no<br />
país”, comentou Gabriel. “A produção<br />
musical é algo meio que sem fim. É um<br />
video-game de adultos, porém o momento<br />
em que terminamos uma música e depois<br />
a tocamos na pista, compensa tudo”,<br />
avalia o músico.<br />
Antes de finalizar a entrevista, tínhamos<br />
que descobrir como Gabriel e Laís lidam<br />
como o assédio dos fãs. A saída, para<br />
eles, sempre está em encarar tudo na esportiva<br />
para evitar constrangimentos. “No<br />
início, tínhamos mais problemas com o assédio<br />
do pessoal. Agora, como somos mais<br />
conhecidos aqui no Sul, isso não acontece<br />
tanto. Mas em outros lugares ainda acontece,<br />
pois as pessoas não sabem que somos<br />
namorados”, afirmou Laís. “Sempre<br />
tem uns gritinhos. Isso incomoda. Mas a<br />
gente precisa levar na boa. Tu te acostuma,<br />
já que naquele meio tu é uma pessoa<br />
pública e tem que estar disposto a passar<br />
por isso”, conclui Gabriel.<br />
Depois de uma hora de entrevista,<br />
ficamos impressionados com o estilo<br />
de vida dos dois. Manter um relacionamento<br />
é difícil, mas, com tantas afinidades<br />
no amor e na música, isso ficou<br />
simples para o casal.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 85
MÚSICA PARA GRAVAR<br />
PAIxÃO cOMO<br />
86 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
TEXTO DE AMInIE JARDIM, MAnOElI RODRIguES E PABlO FuRlAnEttO<br />
FOTOS DE FIlIPE gAMBA
Integrantes da banda gaúcha<br />
MarIa do relento MostraM que<br />
dInheIro não coMpra tudo e que<br />
aInda exIsteM MúsIcos preocupados<br />
coM a valorIzação do rock<br />
peppe Joe, alÉM<br />
de MúsIco, É o<br />
MotorIsta das<br />
duas bandas que<br />
Integra: a MarIa<br />
do relento e a<br />
ataque colorado<br />
Meados de 1995. Porto<br />
Alegre, Rio Grande do<br />
Sul. Em uma garagem,<br />
em meio a cabos,<br />
pedestais e pedais, nascia mais<br />
uma banda de rock. Influenciados<br />
no estilo de se portar no palco por<br />
um dos maiores apresentadores da<br />
televisão brasileira, Silvio Santos,<br />
os fundadores da Maria do Relento<br />
não imaginavam que estavam<br />
criando um novo estilo no cenário<br />
do rock gaúcho.<br />
Liderados pelo vocalista Peppe<br />
Joe, os músicos iniciaram suas<br />
atividades sob influências nada<br />
comuns. “A Maria sempre foi muito<br />
eclética. Desenvolve uma mistura de<br />
som brega que vai de Black Sabbath<br />
a Waldick Soriano. Um brega metal,<br />
chique”, relata com orgulho Peppe.<br />
Não foi só no estilo que o grupo<br />
inovou. No mesmo palco que<br />
eles, uma das maiores bandas de<br />
punk dos anos 1990 no Brasil, os<br />
Raimundos, tocou pela primeira vez<br />
no Rio Grande do Sul. “Em 1995,<br />
no antigo Opinião, dividimos um<br />
show com os Raimundos, que depois<br />
desse dia levou nosso disco demo<br />
para São Paulo. Em duas semanas<br />
estávamos com gravadora. Logo<br />
nossas músicas tocavam nas rádios.<br />
Fomos a primeira banda da época<br />
a romper a barreira do alternativo<br />
e ir ao Planeta Atlântida”, conta o<br />
frontman do quinteto gaúcho.<br />
A banda, que teve seu boom nos<br />
anos 1990, hoje não é tão conhecida<br />
pela nova geração. O grupo não está<br />
com tanta frequência nas ondas da<br />
FM, por não ter mais gravado tantos<br />
sucessos. Esse status é percebido<br />
pelos próprios músicos. “Chegamos<br />
à conclusão de que para a Maria não<br />
vale mais a pena tocar só por tocar.<br />
Tivemos umas experiências de nos<br />
apresentarmos para pessoas que<br />
não são nosso público. Hoje, nos<br />
shows, tem uma gurizada de 14, 15<br />
cOMBuStívEl<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 87
anos que não conhece nada do que fizemos”, desabafa o<br />
guitarrista Kako. Com isso, o grupo prefere fazer shows<br />
só quando sabe que realmente vai agradar.<br />
Motivados pelas boas lembranças propiciadas<br />
por sucessos como Conhece o Mário?, Beep Beep, O<br />
Vagabundo e Meio Devagar, os integrantes da banda<br />
gaúcha - formada por Peppe Joe nos vocais, Guilherme<br />
Barros e Kako Kanidia nas guitarras, Ricardo Pêdo no<br />
baixo e Gesner Messa na bateria - prometem voltar à<br />
tona com o novo disco, o sétimo álbum do grupo, que<br />
será lançado em breve.<br />
Com um estilo que remete ao início de sua carreira, a<br />
Maria do Relento pretende mostrar aos fãs que sua essência<br />
continua a mesma. Com versões de músicas bregas dos<br />
anos 1980, o quinteto relançará sucessos de cantores<br />
conhecidos nacionalmente, como Amado Batista, até<br />
grupos mais regionais, como Barbarella. Assim, a banda<br />
quer voltar a vivenciar, com mais frequência, situações<br />
de reconhecimento dos fãs. Momentos inusitados, como<br />
quando o grupo se apresentou no “interior do interior”<br />
de Santa Catarina e viu o público entoar seus sucessos.<br />
Como toda banda independente, os músicos tentam<br />
se virar como podem para manter viva a maior ideologia<br />
que levam consigo: o amor pela música. Isso pode ser<br />
percebido nas falas e atitudes de todos eles. “Pretendo<br />
continuar vivendo da música, porque a Maria é minha<br />
família”, diz Guilherme.<br />
Assim, Peppe vira o motorista da banda. Kako,<br />
o empresário. Ricardo, o responsável pelo twitter e<br />
site. O espírito é esse. Não importa que todo dia 30 o<br />
aluguel precise ser pago, que não se saiba como serão<br />
os próximos anos. Para eles, o principal é que, como diz<br />
uma das canções da Maria, “se o sol não me acompanhar,<br />
eu tenho a lua para desabafar”.<br />
nasce a ataque colorado<br />
A paixão pela música, por um clube — o Internacional —<br />
e o apoio de amigos trouxeram uma novidade para a<br />
vida de três dos integrantes da Maria do Relento: Kako,<br />
Peppe e Guilherme. Os meninos que tinham gosto por<br />
futebol direcionaram suas metas, definiram sua escolha<br />
profissional e transformaram, sem querer, todo esse<br />
sentimento pelo Inter em alegria para os torcedores.<br />
Assim nasceu, em 2005, a banda Ataque Colorado.<br />
A Ataque surgiu com uma pitada da essência da<br />
Maria. Com a ideia de ser mais criativa, fazer vários<br />
estilos de sons, brincar com o ritmo das canções,<br />
tornando mais divertida a parte da composição, mas<br />
com a música direcionada a traduzir o sentimento de<br />
seus integrantes pelo clube do coração. Não demorou<br />
muito para o trio tornar-se um quarteto, com a<br />
inclusão de mais um dos componentes da Maria, o<br />
colorado Gesner Messa, que assumiu a bateria.<br />
Para completar o elenco de músicos da banda, só<br />
faltaria a participação de Ricardo Pêdo, no baixo,<br />
mas ele é gremista e, se participasse, iria contra os<br />
seus princípios e os dos próprios amigos colorados.<br />
Ricardo também tem outro projeto paralelo. Atua<br />
88 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
como web designer desde 2005. Mas garante que<br />
sempre incentivou os amigos. “Desde o começo,<br />
apoiei esse projeto. A Ataque Colorado é formada<br />
por caras que considero meus irmãos, e sempre<br />
vou torcer por eles. Sei que eles fazem algo de<br />
qualidade.”<br />
Proprietários da Na Canela Produtora e Na Canela<br />
Discos, a rapaziada da Ataque grava, além de suas<br />
próprias músicas, as da torcida. Os CDs já tiveram mais<br />
de 10 mil cópias vendidas. O material é distribuído pela<br />
própria banda, sem fins lucrativos, que repassa o dinheiro<br />
da venda à torcida Guarda Popular do Inter, para auxiliar<br />
na compra de instrumentos.<br />
Assim como aconteceu com a Maria do Relento, os<br />
músicos da Ataque também gostam de fazer tudo por si<br />
próprios. Não só as gravações dos instrumentais. Cada<br />
um é responsável por alguma coisa e, assim, eles vão<br />
se organizando. Cuidam da parte logística, estratégica e<br />
da assessoria de imprensa. Guilherme é responsável pelo<br />
site da Ataque, que tem seu twitter linkado com o do<br />
Internacional e monitorado pela assessoria de imprensa<br />
do clube. Peppe dirige a van que eles possuem e é o<br />
responsável pela venda e distribuição dos CDs (também<br />
vendidos nos shows da Ataque pelo preço de R$ 10,00).<br />
Kako faz a parte burocrática: trata da distribuição<br />
dos discos para as 98 lojas licenciadas do clube, além<br />
de colocar som no estádio em dias de jogos. “Nós não<br />
queremos pagar para ninguém”, afirma o econômico<br />
Peppe, pai de gêmeos.<br />
Se não bastasse, eles ainda dão força para os<br />
consulados do Internacional espalhados pelo interior do<br />
Estado. “A Ataque é bem mais flexível. Se vamos tocar em<br />
um local e lá não tem hotel, não tem problema, ficamos<br />
no camarim. O legal é que nós chegamos e montamos,<br />
nós mesmos, a estrutura”, diz Peppe.<br />
Acreditando que a fase em que o time se encontra<br />
favorece a ascensão da banda, a Ataque Colorado crê<br />
que, independente da quantidade de fãs, enquanto<br />
houver pessoas que curtam o show e as músicas,<br />
eles tocarão. “A Ataque tem uma coisa muito legal,<br />
porque nos shows há pessoas de várias idades. E nos<br />
emocionamos cantando uma música quando vemos<br />
o público chorando”, conta o vocalista. Essa é a<br />
grande diferença entre fazer e fazer com a alma.<br />
a admiração do público<br />
Seja Maria do Relento ou Ataque Colorado, a admiração<br />
do público não diminuiu. Pelo contrário, aumentou.<br />
Encontrar alguém que traduza o significado, tanto da<br />
banda Maria, quanto da Ataque, não é uma missão muito<br />
difícil. Primeiro, porque a Maria decidiu selecionar seu<br />
público e preservar sua identidade para não cair no<br />
modismo. Segundo, porque a Ataque não é uma mera<br />
banda de clube, e sim uma demonstração de fanatismo e<br />
amor, tanto pela música quanto pelo futebol.<br />
Uma demonstração de tietagem foi a do jornalista<br />
esportivo Alex Escobar, que em uma aparição da banda<br />
Ataque Colorado no programa Globo Esporte pediu que os
kako, peppe,<br />
guIlherMe e<br />
gesner ForMaM a<br />
ataque colorado<br />
músicos tocassem Conhece o Mário?,<br />
um hit antigo da banda. “Ficamos<br />
surpresos. Quando o Alex descobriu<br />
que éramos da Maria, só faltou nos<br />
beijar! Ele quer que toquemos em<br />
seu aniversário, no Rio de Janeiro”,<br />
fala, todo orgulhoso, Peppe.<br />
Acadêmica do curso de Educação<br />
Física da Feevale, Itajanara Moraes<br />
é uma das fãs da Maria: “O primeiro<br />
show de rock que assisti, aos 11 anos,<br />
foi deles. Preciso dizer mais alguma<br />
coisa? Essa banda tem algo que falta<br />
em outras: personalidade. Com bons<br />
músicos, carisma e, principalmente,<br />
respeito pelos fãs, ela não renega<br />
o passado. Continua com o espírito<br />
de sempre. O primeiro álbum é um<br />
dos itens mais queridos da minha<br />
coleção de CDs.”<br />
Para o geógrafo Eduardo Alves,<br />
os jogos no estádio Beira-Rio<br />
não são mais os mesmos depois<br />
da criação da Ataque, pois a<br />
vibração é outra, e a intensidade<br />
da torcida só tende a aumentar.<br />
“Depois da Ataque, os jogos<br />
ficaram com outra cara. A galera<br />
agita muito na torcida cantando<br />
as músicas da banda. Eu tenho<br />
todos os CDs e curto muito. O<br />
trabalho dos caras é bacana e<br />
tem uma resposta muito grande.<br />
O som é muito, muito bom.”<br />
É assim que a música reflete<br />
seu verdadeiro papel: sensibilizar,<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
apaixonar, contagiar, reanimar<br />
aqueles que absorvem sua<br />
essência. Tanto a Maria do Relento<br />
quanto a Ataque Colorado buscam,<br />
com seus trabalhos, alimentar o<br />
amor pela música.<br />
implicidade. essa foi a principal virtude que encontramos nos<br />
“smúsicos das bandas Maria do relento e ataque colorado.<br />
e isso se revelou na atitude que eles tiveram conosco. no início,<br />
achamos que estávamos lidando com aqueles “rockeiros” com jeito<br />
pop star. várias tentativas de entrevistas foram desmarcadas. nos<br />
sentíamos “despistados”. Mas depois percebemos que, na verdade,<br />
julgamos erroneamente os músicos. porque no dia d, quando<br />
finalmente conseguimos entrevistá-los, eles nos esperaram por<br />
uma hora em frente ao prédio do guilherme, um dos integrantes<br />
das bandas. tudo em virtude de nosso atraso. demos uma de<br />
colono, confundindo a rua garibaldi, no bairro bom Fim, com<br />
a rua anita garibaldi, no bairro Mont’serrat. Imaginamos que,<br />
quando chegássemos, os músicos não estariam mais lá. Mas<br />
não, permaneceram no local combinado e nos trataram muito<br />
bem. durante a conversa, percebemos que ainda existem pessoas<br />
que fazem as coisas com amor, mesmo que isso não renda<br />
necessariamente um bom salário. e que para tudo se dá um jeito. o<br />
mais importante no final é simplesmente o amor e a alegria.”<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 89
MÚSICA PARA AQUECER<br />
OnDE O SOM<br />
DA gAItA EcOA<br />
90 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
eM são FRancisco de paula, duas<br />
históRias de vida se cRuzaM,<br />
unindo o novo e o consaGRado nuMa<br />
MesMa paixão: a Música Gauchesca<br />
TEXTO DE MAnuElA tEIxEIRA E MIRIAM MOuRA<br />
FOTOS DE cARInE FERnAnDES E clARISSA FIguEIRó<br />
GonzaGa dos<br />
Reis (à direita)<br />
e JaRdel BoRBa,<br />
MestRe e aluno,<br />
coMpaRtilhaM do<br />
Gosto pela Gaita<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 91<br />
CLARISSA FIGUEIRÓ
CARINE FERNANDES<br />
Em São Francisco de Paula, nos Campos de Cima<br />
da Serra, permanecem hábitos que já foram<br />
esquecidos nas grandes cidades. As casas ainda<br />
utilizam o fogão a lenha para aquecer os dias<br />
em que o inverno é mais rigoroso. Os mais velhos não se<br />
desfazem de suas pilchas mesmo quando andam pelas<br />
ruas da cidade. Ainda se veem cavaleiros na avenida<br />
principal, ladeada por plátanos. O anúncio fúnebre é<br />
veiculado por uma narração que vem da torre da igreja<br />
matriz. Saindo da zona urbana, os campos tomam a<br />
paisagem, verdes no início do dia e dourados no entardecer.<br />
É em um cenário onde as tradições gaúchas se<br />
mantêm vivas que essa história começa.<br />
O gaiteirO<br />
O movimento repetitivo dos dedos que, inquietos,<br />
batem sobre uma caixinha de plástico contrasta<br />
com a fala serena: “O músico não consegue parar<br />
com as mãos. Tem que estar sempre batendo, fazendo<br />
ritmo. O músico é uma pessoa muito sensível”.<br />
Aos 56 anos, Gonzaga dos Reis, como é conhecido<br />
nos palcos de todo o Rio Grande do Sul, fala da música<br />
gauchesca com a experiência de quem tem mais<br />
de 30 anos de carreira.<br />
Nascido em São Francisco de Paula, Gonzaga<br />
aprendeu a tocar gaita sozinho, aos 14 anos, em 1970.<br />
Três anos depois, já estreava em um baile na cidade<br />
de Rosário do Sul. “Fomos em um fusquinha com duas<br />
gaitas, um violão, uma aparelhagem de som da época<br />
e três músicos. Parece mentira, mas é verdade. Foi<br />
um baile muito grande”, conta.<br />
De 1979 a 1989, estava com Paulo Siqueira no grupo<br />
Velha Porteira. Junto desse conjunto, gravou dois<br />
discos. Na década de 1990 deu início a sua carreira<br />
solo, que resultou em cinco trabalhos: De gaita nas<br />
costas foi o primeiro disco, em 1995. Depois dele, vieram<br />
Bem campeiro, Parceiros de canto e Lida, Campeando<br />
recuerdos e Gaudério serrano, lançado em 2009,<br />
com a participação de dois dos seus três filhos.<br />
Não poderia ser diferente, já que a aptidão e o<br />
talento para a música foram herdados por seus três<br />
descendentes. Losenir, Rodrigo e Juliano já subiram<br />
no palco com o pai. “É bastante gratificante olhar<br />
aqueles homens ao seu redor e ver que são seus filhos,<br />
e todos músicos, o que me dá muito orgulho. Um<br />
filho nascia hoje de manhã e de tarde eu já estava<br />
tocando gaita perto do bercinho. Eles não choravam<br />
por causa da música”, relata.<br />
O som da gaita vem acompanhado de composições<br />
que exaltam a vida campeira, a lida com o gado, os<br />
bailes de antigamente. A cada música, um pouco de<br />
sua própria história. “As letras que eu escrevo falam<br />
de campo, falam de festa, de rodeio, de mulher bonita,<br />
de loira, de morena, de rancheira, de tudo que<br />
é coisa. A composição é uma imaginação. Tem que<br />
imaginar uma coisa para escrever uma letra. Muitas<br />
vezes o sujeito nunca pegou num laço, mas na letra<br />
é laçador”. Ao ganhar os palcos, a canção passa a ser<br />
92 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
não a história de um, mas a de todos aqueles que a<br />
escutam e que, naquele momento, tornam-se laçadores<br />
também, mesmo sem nunca ter pego num laço.<br />
PaixãO que nãO cOnhece idade<br />
Amante das lidas gaúchas, Gonzaga se refugiou no<br />
campo, onde tiveram início suas origens e os valores que<br />
o acompanharam por toda a vida. É numa fazenda na<br />
localidade de Lomba Chata, em São Francisco de Paula,<br />
que ele se encontra atualmente. Os bailes e shows deram<br />
lugar à vida campesina. Mas o acordeonista serrano<br />
serve de exemplo para jovens que buscam seus ensinamentos,<br />
como Jardel Borba.<br />
Com apenas 16 anos, ele é um dos gaiteiros e vocalistas<br />
do conjunto que leva o seu nome: Jardel Borba<br />
e Grupo Brasil de Bombacha. O ano de 2009 trouxe o<br />
primeiro CD do jovem, que conta com a participação<br />
de Gonzaga dos Reis, na música Lenço Solto, de autoria<br />
dele. Gonzaga proporcionou um dos momentos mais<br />
especiais para o guri: a primeira vez sobre um palco.<br />
“Quem me deu incentivo a criar o grupo foi ele, em<br />
uma participação no programa Coisas do Sul. Como tinha<br />
duas músicas para tocar, uma delas deixou para<br />
mim. Fiquei muito feliz”, se emociona Jardel.<br />
A participação no programa Coisas do Sul aconteceu<br />
em 2006. Nesse mesmo ano, o jovem ganhou o<br />
primeiro lugar do “Ronquinho”, concurso jovem que<br />
integrava o Festival de Música Ronco do Bugio, de São<br />
Francisco de Paula. O conjunto Jardel Borba e Grupo<br />
Brasil de Bombacha surgiu um ano depois. Mas a<br />
CLARISSA FIGUEIRÓ
CLARISSA FIGUEIRÓ<br />
história de Jardel e Gonzaga iniciou-se quando o guri<br />
tinha apenas 10 anos e procurou o professor para que<br />
ele lhe ensinasse a tocar. Aos 14, as aulas tiveram fim.<br />
“Sou muito grato ao Gonzaga. É um mestre da música.<br />
Somos amigos”, destaca Jardel.<br />
O jovem representa a terceira geração de gaiteiros<br />
de sua família. O pai e o avô já tocavam o instrumento.<br />
Com quatro anos, pegava a gaita do pai, o qual hoje é<br />
também seu companheiro de palco no grupo em que<br />
toca. Ainda estudante, concilia as aulas de Ensino Médio<br />
com os ensaios e trabalhos do conjunto. “Estudo<br />
pela manhã e ensaio duas vezes por semana. Toco no<br />
sábado e no domingo”, diz.<br />
A pouca idade contrasta com a maturidade musical.<br />
“Para ser músico tem que cantar com sentimento. Eu me<br />
emociono com toda a composição que toco. O público<br />
percebe que falta alguma coisa naquele que canta sem<br />
sentimento, mesmo que não saiba bem o que é”, relata.<br />
SOnhOS de gaiteirO<br />
Dois gaiteiros, duas trajetórias musicais que se<br />
cruzam em histórias de vida marcadas pela devoção<br />
à gaita. A música é emoção, sentimento, vontades e<br />
sonhos. Alguns conseguem realizar tudo o que sempre<br />
buscaram. “Na música eu não posso me queixar, tudo<br />
o que eu queria, conquistei”, conta Gonzaga. Outros<br />
seguem lutando atrás de seus sonhos. “Sonho que um<br />
dia estoure uma música minha, que eu consiga gravar<br />
um DVD e ser reconhecido em todo o Estado e no Brasil”,<br />
confidencia Jardel.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
tema música é amplo e de muitas possibilidades.<br />
“o no entanto, fomos desafiados a encontrar<br />
novos olhares sobre esse assunto já tão pautado por<br />
tantos veículos de comunicação. para nós, parecia<br />
incabível não falar do estilo musical que caracteriza a<br />
cultura tradicionalista do estado, a música gauchesca.<br />
seguimos, então, para são Francisco de paula. o que<br />
para uma das repórteres (Manuela) representou o<br />
reencontro com suas origens, significou para outra<br />
(Miriam) a descoberta de uma cultura pouco vivenciada<br />
por ela. são Francisco de paula é uma típica cidade<br />
interiorana: população pequena, costumes antigos<br />
e um grande sentimento pelo “ser gaúcho”. no dia<br />
das fotos, o próprio clima presenteou repórteres e<br />
fotógrafas com o frio, característico da serra Gaúcha.<br />
os termômetros marcaram apenas 8ºc numa manhã<br />
nublada e úmida de primavera. conversar com os dois<br />
gaiteiros escolhidos como fontes, denominados como<br />
o novo e o consagrado, foi revelador. o momento da<br />
entrevista foi também um momento de comunhão:<br />
os sentimentos revelados aos repórteres por vezes os<br />
tornam confidentes. desabafos nunca ditos antes foram<br />
eternizados nas páginas da Primeira Impressão.”<br />
É pelas mãos de jovens como Jardel, apadrinhados por<br />
gaiteiros experientes como Gonzaga dos Reis, que a música<br />
gauchesca se perpetua. E não podia ser diferente,<br />
numa terra que já formou outros grandes acordeonistas:<br />
Albino Manique, Leonel Almeida, Neusa Regina, Ângelo<br />
Marques, Daltro Bertussi, Paulinho Siqueira, Rodrigo Lucena<br />
e os sempre lembrados Irmãos Bertussi.<br />
A relação da cidade com a gaita começou com a formação<br />
da dupla de acordeonistas Irmãos Bertussi, composta<br />
por Honeyde e Adelar Bertussi, no ano de 1947.<br />
Esses artistas, além de pioneiros, tornaram-se ídolos de<br />
toda uma geração de músicos não só de São Francisco<br />
de Paula, como de todo o Rio Grande do Sul. “Muitos<br />
gaiteiros surgiram em São Francisco de Paula, seguindo<br />
os passos dessa dupla e mantendo o mesmo estilo, caracterizando<br />
os acordeonistas serranos com identidade<br />
própria”, afirma o poeta e pesquisador Léo Ribeiro.<br />
Segundo ele, a relação de São Francisco de Paula e<br />
seus gaiteiros é diferenciada do resto do Estado porque<br />
dessa região originou-se um estilo próprio, que é a música<br />
fandangueira ou galponeira, própria para os bailes.<br />
“Na fronteira, usava-se muito o bandoneon e a gaitade-botão,<br />
ou gaita de voz-trocada, com ritmos acastelhanados,<br />
como chamarras e milongas. Já na Serra,<br />
a gaita pianada (ou de teclado), proporcionava outros<br />
ritmos, inclusive com o surgimento do único compasso<br />
genuinamente gauchesco, o bugio, oriundo dos Campos<br />
de Cima da Serra”, completa Léo. Em São Francisco<br />
de Paula, o som da gaita ecoa mais forte pelas mãos<br />
daqueles que a ela dedicam sua vida.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 93<br />
CLARISSA FIGUEIRÓ
música para TOmar maTE<br />
BOEMIA guAScA<br />
EM MEIO AO<br />
cOncREtO<br />
TEXTO DE PEDRO LuIS BIccA E guStAVO ALEncAStRO | FOTOs DE FERnAnDA HERRERA<br />
No Bar EstâNcia dE são PEdro,<br />
localizado No Bairro cidadE<br />
Baixa, movimENtado PoiNt<br />
da Badalada vida NoturNa<br />
dE Porto alEgrE, o atrativo<br />
PriNciPal é a música Nativista<br />
94 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
O<br />
bairro Cidade Baixa está situado na região<br />
central de Porto Alegre. É considerado pelos<br />
porto-alegrenses como o principal ponto<br />
boêmio da cidade. À noite, o local é dominado<br />
por jovens com gostos e estilos urbanos, que<br />
podem optar por bares, restaurantes e danceterias.<br />
Na contramão dos modismos que predominam a capital<br />
gaúcha, o Bar e Restaurante Estância de São<br />
Pedro se destaca como único local no bairro a contemplar<br />
as tradições do Rio Grande do Sul.<br />
Uma máquina registradora antiga sobre o balcão,<br />
logo na entrada, dá ao Estância de São Pedro a sensação<br />
de um típico bolicho de campanha. Uma roda<br />
de carroça é usada como janela interna, separando<br />
os ambientes. Utensílios de trabalho pecuário pregados<br />
nas paredes, junto com quadros e fotografias<br />
antigas, de estancieiros e seus peões, relembram a<br />
história do gaúcho. Lamparinas sobre as mesas recordam<br />
os antigos lampiões, que iluminavam as noites<br />
do guasca nos campos do pampa. Móveis antigos<br />
e objetos rústicos causam a impressão de estar na<br />
sede de uma verdadeira estância gaúcha.<br />
Além da decoração dedicada<br />
às tradições do Estado e da música<br />
nativista tocada ao vivo, há<br />
também comida típica campeira.<br />
No cardápio, existem pratos que<br />
fazem referência à cultura. Entre<br />
eles, nomes como vaca atolada<br />
(costela bovina com mandioca) e<br />
espinhaço de ovelha com ensopado<br />
de mandioca. Os destaques ficam<br />
para o carreteiro de charque<br />
e a picanha da estância.<br />
O Estância de São Pedro existe<br />
há 13 anos. Na época de sua fundação,<br />
ali perto só existia o Bar<br />
Ossip, na Rua João Alfredo. Logo<br />
a casa se tornou reduto boêmio<br />
da cidade. O público era variado,<br />
já que a casa não estava voltada<br />
somente para as tradições gaúchas<br />
e abrigava outros estilos.<br />
Há um ano Lourenço Bicca está<br />
à frente do negócio. Frequentou o<br />
local como cliente por 10 anos. Esporadicamente<br />
subia ao palco para<br />
dar sua colaboração, tocando percussão,<br />
bumbo legueiro e pandeiro.<br />
Em 2009, trocou o emprego em<br />
uma grande empresa de telefonia
mÓvEis aNtigos E<br />
oBJEtos rústicos<br />
rEcriam o amBiENtE dE<br />
uma EstâNcia gaúcHa<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 95<br />
aQui vai uma<br />
lEgENda BEm<br />
lEgal Para<br />
Essa matéria,<br />
QuE Eu acHo<br />
Boa, PorQuE<br />
acrEdito No<br />
sistEma
e passou para o outro lado do balcão,<br />
dedicando-se exclusivamente<br />
ao estabelecimento. Segundo ele,<br />
o bar foi à venda quando o antigo<br />
proprietário sofreu um derrame,<br />
em meados de 2006. “Ao adquirilo,<br />
juntei a intenção de ter um negócio<br />
com o gosto pelas tradições<br />
gaúchas. Já sabia que existia uma<br />
clientela cativa e não precisaria<br />
me preocupar em retornos financeiros,<br />
pois o público já estava<br />
formado”, conta Bicca.<br />
O proprietário afirma que outros<br />
estabelecimentos com o estilo<br />
gauchesco, no caso as churrascarias,<br />
têm as atrações voltadas<br />
mais para o turismo, fugindo da<br />
proposta do bar. Só exaltam o<br />
churrasco e a dança. “Não há um<br />
clima com uma boemia gaudéria.<br />
É só chegar e curtir um bom pedaço<br />
de carne e assistir às apresentações<br />
com boleadeiras.”<br />
96 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
Para ele, falta alma e raiz nesses<br />
lugares, coisa que no Estância é<br />
a atração principal. “Aqui o gaúcho<br />
se sente em casa e não em<br />
uma churrascaria. Só falta chegar<br />
galopando no asfalto da João<br />
Alfredo. Aqui todos os aspectos<br />
da cultura gaúcha são respeitados<br />
e praticados.”<br />
A música nativista é o objeto<br />
principal para reunir poetas, compositores,<br />
intérpretes e amantes<br />
das tradições do Estado. O técnico<br />
agrícola Lucas Ramos, 32 anos,<br />
é gerente do estabelecimento<br />
desde setembro de 2009. Segundo<br />
ele, não há outro local com<br />
características semelhantes em<br />
Porto Alegre. Ele cita muitos artistas<br />
consagrados que já se apresentaram<br />
no bar. “Não tem como<br />
lembrar todos. Foram muitos, mas<br />
dá para destacar Leonel Gomes,<br />
Luiz Marenco, Marcelo Oliveira,<br />
Lisandro Amaral, Leôncio Severo.<br />
Alguns são frequentadores da casa<br />
e aparecem às vezes para tomar<br />
uma cerveja gelada, degustar uma<br />
boia campeira, conversar com os<br />
amigos. Quase sempre acabam<br />
sendo convidados para tocar alguma<br />
coisa junto com o músico que<br />
está se apresentado”.<br />
Perguntado sobre o público que<br />
frequenta a casa, o gerente diz:<br />
“A faixa etária dos clientes começa<br />
nos 18 e vai até os 30 anos, há<br />
pessoas com mais idade, mas em<br />
uma noite de casa cheia, 80% são<br />
jovens. Acontece de muitos estudantes<br />
do interior, de cidades<br />
como Santa Maria, São Borja e Livramento,<br />
virem ao Estância pra<br />
matar a saudade de suas origens,<br />
saborear uma comida campeira e<br />
ouvir música nativista.”<br />
A proposta do local é agradar<br />
a todas as pessoas que curtem
cultivar as tradições do estado. Segundo o escrivão<br />
Luiz Alberto Jardim, 65 anos, cliente da casa, é um<br />
lugar para que se cultuem as tradições. “Tudo é voltado<br />
à vida no campo. Mas estamos dentro de Porto<br />
Alegre. Antigamente eu vinha todas as noites, atualmente<br />
venho às vezes. A casa não mudou em nada<br />
nesses 13 anos. A única novidade é que o público já<br />
não é mais o mesmo de antigamente”.<br />
O músico Jader Leal, 33 anos, declara que sua<br />
carreira em grande parte se desenvolveu no bar. Não<br />
é à toa que há dez anos se apresenta no local. Ele<br />
cita que no Estância não há distinção: o profissional<br />
da música e o apreciador do estilo se encontram e<br />
tocam juntos. O clima de camaradagem e entrosa-<br />
imprEssÕEs DE rEpÓrTEr<br />
lourENÇo Bicca<br />
é ProPriEtÁrio<br />
do Bar QuE<br />
rEúNE artistas<br />
coNsagrados<br />
com músicos<br />
amadorEs<br />
esde o momento que a turma decidiu<br />
“doptar por abordar o tema “música”<br />
como assunto principal da Primeira Impressão<br />
deste semestre, a dupla teve o desejo de<br />
retratar a história do Bar e restaurante<br />
Estância de são Pedro. No entanto, não<br />
tínhamos ideia de como relacionar o tema<br />
escolhido com o local. através de pesquisas<br />
on-line, e de algumas fontes oficiosas,<br />
tivemos o material necessário para defender<br />
nossa escolha diante dos editores. ainda<br />
que já soubéssemos um pouco sobre o bar,<br />
nosso conhecimento sobre ele era muito<br />
limitado para que pudéssemos começar a<br />
construir a matéria. Partimos então para<br />
o reconhecimento do local. Estivemos lá<br />
algumas noites, algumas como repórteres, e<br />
outras como clientes. conhecemos pessoas<br />
novas e descobrimos histórias fascinantes, de<br />
música, tradicionalismo e camaradagem. um<br />
estabelecimento em meio ao maior reduto<br />
boêmio de Porto alegre, que através da<br />
música tradicionalista do rio grande do sul<br />
reúne pessoas para resgatar um pouco de sua<br />
própria cultura.”<br />
mento é o ponto alto. “Isso aqui é um gueto de músicos.<br />
Todos se reúnem para cultuar as tradições e<br />
evocar as raízes do nosso estado”, diz o cantor que<br />
hoje é um artista consagrado do gênero. Durante todos<br />
esses anos, o cantor expandiu sua carreira, já<br />
sendo um artista consagrado do gênero.<br />
O palco do Estância de São Pedro é território livre<br />
para celebrar a cultura rio-grandense em forma<br />
de música. Embora existam atrações contratadas,<br />
sempre há espaço para o improviso e a participação<br />
do público. No entanto, há uma condição: não se<br />
permite a entrada de pessoas portando facas e adagas<br />
– objetos que a gauchada tradicionalista costuma<br />
carregar consigo.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 97
MÚSICA PARA<br />
TORCER<br />
AS vOZES DO<br />
cAlDEIRÃO<br />
98 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010
Esbanjando criatividadE, torcEdorEs da dupla GrE-nal fazEm a fEsta<br />
no Estádio, motivam joGadorEs E Exaltam Em cantos E vErsos o<br />
amor pElo clubE do coração E sua EtErna rivalidadE<br />
TEXTO DE EvERtOn BERtOllI E REnAtA StRAPAZZOn<br />
FOTOS DE AMAnDA MUnHOZ<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 99
Porto Alegre, Rio Grande do Sul,<br />
estádios Olímpico e Beira-Rio.<br />
Casas dos dois maiores clubes<br />
do estado abrigam, em dias de<br />
jogos, uma multidão de apaixonados.<br />
Vindos de distintas querências, são mais<br />
do que apenas torcedores. São amantes<br />
de um clube, seja ele Internacional ou<br />
Grêmio e, dispostos nas arquibancadas,<br />
querem mais do que assistir à partida.<br />
Querem torcer, motivar, cantar. Isso<br />
mesmo, a música faz parte da vida desses<br />
guerreiros dos estádios. Desde o hino<br />
oficial dos clubes até canções próprias<br />
recheadas de criatividade, tudo é motivo<br />
para transformá-los no 12º jogador, dando<br />
voz aos caldeirões.<br />
Para isso, eles não medem esforços.<br />
Abdicam de atividades normais da vida<br />
de qualquer jovem para se entregar de<br />
corpo e alma ao time do coração. Ao invés<br />
do cinema no sábado à tarde, ensaios<br />
com o pessoal da banda. Jogos de videogame<br />
no tempo livre se transformam<br />
em horas de trabalho na criação de uma<br />
nova música. Os ouvidos que antes apreciavam<br />
canções das bandas preferidas<br />
agora vivem atentos para qualquer tipo<br />
de canção, treinados para reproduzir os<br />
ritmos junto à massa no estádio.<br />
Essa é a rotina dos membros das torcidas<br />
Guarda Popular Colorada e Máfia Tricolor.<br />
Criadas para representar os clubes<br />
onde quer que eles joguem, as torcidas<br />
da dupla têm como marca suas músicas<br />
cantadas em coro durante as partidas. E<br />
não é só em casa que eles mandam bem.<br />
Quando Inter e Grêmio jogam fora do seu<br />
habitat natural, lá se vão os torcedores<br />
cantores dar show em terrenos adversários.<br />
Foi assim com o Inter, naquela emblemática<br />
primeira partida da final da<br />
Libertadores da América em 2006. Num<br />
jogo difícil contra o todo poderoso São<br />
Paulo, o colorado venceu por 2 a 1 o tricolor<br />
paulista, calando o Morumbi. Pela<br />
transmissão na tevê, puderam ser ouvidas<br />
as vozes da torcida que, em minoria<br />
numérica, ecoava em cantos a felicidade<br />
do título que se aproximava.<br />
Este ano, quando de sua segunda<br />
conquista da América, desta vez contra<br />
a equipe mexicana do Chivas Guadalajara,<br />
o Inter mais uma vez pôde contar<br />
com a força das músicas de sua torcida.<br />
Na final, dentro do Beira-Rio, os milhares<br />
de colorados cantaram em uníssono<br />
todo o amor e devoção pelo time e es-<br />
100 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
pecialmente pela camisa vermelha. A<br />
euforia da torcida bicampeã da América<br />
ganhou destaque novamente durante a<br />
transmissão da partida pela Rede Globo.<br />
Tanto que, quando o locutor Galvão Bueno<br />
pediu para ouvir a torcida, a letra da<br />
“canção-símbolo” na atual campanha foi<br />
estampada na tela para que gaúchos de<br />
todos os cantos do Brasil pudessem seguir<br />
a banda da Popular.<br />
Antes disso, em julho, as músicas da<br />
Popular foram pauta de uma matéria do<br />
programa Globo Esporte, apresentado por<br />
Tiago Leifert. Na ocasião, ganharam destaque<br />
nada menos que oito produções da<br />
torcida, inspiradas em grandes clássicos<br />
da música mundial. Um reconhecimento<br />
tardio, segundo o líder da Popular, Hierro<br />
Martins, 39 anos. Conforme ele, a torcida<br />
e sua banda, existente desde 2005,<br />
já despertaram o interesse de revistas,<br />
jornais e de estudantes a fim de transformar<br />
o fenômeno do estádio Beira-Rio<br />
em trabalho de conclusão. No entanto,<br />
a maioria dos profissionais que procurou<br />
Hierro e sua equipe não teve sucesso em<br />
suas matérias e trabalhos. Nem mesmo<br />
a potente equipe da revista Placar. “Normalmente<br />
não damos entrevistas. Quando<br />
fomos procurados pela Placar, dissemos<br />
apenas que, para conhecer o que é<br />
a Popular, tem que ir ao estádio, sentir a<br />
vibração da torcida de perto”, comenta<br />
Hierro. A distância entre a torcida e a imprensa,<br />
principalmente as do centro do<br />
país, tem uma explicação. Para o pessoal<br />
da Popular, o reconhecimento de anos de<br />
trabalho chegou tarde demais, depois de<br />
se esgotarem as pautas com clubes do<br />
eixo Rio-São Paulo.<br />
O INÍCIO NÃO FOI FÁCIL<br />
Desde a criação até os dias de hoje,<br />
um longo caminho foi traçado pelos idealizadores<br />
da banda. Membro da torcida<br />
desde o princípio, Hierro lembra com<br />
emoção das primeiras manifestações da<br />
banda. “Para tocar no estádio, era um<br />
trabalho danado. Entrávamos com um<br />
único bumbo escondido e tocávamos<br />
com um par de tênis”, conta. Com o<br />
passar do tempo, a banda foi crescendo,<br />
chegaram novos instrumentos, e a parceria<br />
com os dirigentes e seguranças do<br />
clube permitia agora não só a entrada de<br />
todo o grupo, como disponibilizava espaço<br />
adequado para os ensaios. “Sempre<br />
ensaiávamos no túnel de acesso, horas<br />
antes dos jogos, até que a Brigada Militar<br />
começou a implicar, e o pessoal do Inter<br />
nos disponibilizou um espaço junto ao<br />
Portão 7 do Beira-Rio”, resume Ricardo<br />
Branco Rogoski, 29 anos, integrante da<br />
banda desde 2006.<br />
A organização da banda da Popular<br />
é tanta que entre a equipe tem aqueles<br />
encarregados de criar as canções, outros<br />
responsabilizados pelos instrumentos de<br />
percussão e aqueles a quem compete a<br />
tarefa de trazer novidades para o grupo.<br />
Esse último foi o trabalho do músico profissional<br />
Anderson Ferreira de Souza, 34<br />
anos, o Nescau. Desde que entrou para<br />
a banda, há dois anos, Nescau foi o responsável<br />
por introduzir instrumentos de<br />
sopro à formação que antes utilizava<br />
apenas percussão. “Tudo acaba se tornando<br />
experiência para o meu currículo.<br />
É a primeira vez que toco numa banda<br />
de torcida, antes já havia participado de<br />
charanga”, diz.<br />
Assim como Nescau, outro membro<br />
experiente da banda da Guarda Popular<br />
é o estudante de Publicidade Endrigo<br />
Giacomin Gonçalves, 24 anos. A Endrigo,<br />
é destinada a árdua missão de criar músicas<br />
originais e com letras mais brandas,<br />
todas elas de incentivo ao time. Autor de<br />
oito músicas até agora, Endrigo cria os<br />
clássicos a partir de qualquer música que<br />
caia sobre sua mesa. Sem preconceito<br />
em relação ao gênero, vai de Mamonas<br />
Assassinas, passa por Pink Floyd, esbarrando<br />
ainda nos garotos de Liverpool.<br />
São dele hits clássicos como Minha camisa<br />
vermelha, Vidas em vermelho, Oh<br />
Inter e Gaúcho e campeão. Todas essas,<br />
respectivamente, versões de Pelados<br />
em Santos, dos Mamonas, Another brick<br />
in the wall, do Pink Floyd, Oh Carol, de<br />
Neil Sedaka, e I wanna hold your hand,<br />
sucesso dos Beatles.<br />
Em suas músicas, o estudante procura<br />
ressaltar a paixão pelo Inter e pelo<br />
Rio Grande, além de destacar histórias<br />
típicas dos torcedores dentro do estádio.<br />
Foi dessa forma que criou uma das<br />
músicas mais procuradas nos sites sobre<br />
o Internacional. “Minha camisa vermelha<br />
nasceu numa mesa de bar quando,<br />
no meio de uma conversa, alguém comentou<br />
a vontade de ver o Beira-Rio<br />
lotado gritando ‘Você me deixa doidão’.<br />
Gostei da ideia e, a partir daí, fui criando<br />
a música”, diz.<br />
Além de Endrigo, apenas outros cinco
integrantes da Popular são responsáveis<br />
por criar novas músicas. Todos com suas<br />
características particulares. Enquanto<br />
Endrigo compõe letras emotivas, outro<br />
colega escreve canções provocativas ao<br />
Grêmio, por exemplo. É característica<br />
da banda aceitar sugestões apenas desse<br />
seleto grupo de criação. Para participar<br />
tocando, basta ter envolvimento, dedicação<br />
e amor pelo Inter.<br />
COm a paLavra, O prOFessOr<br />
Para o professor do curso de graduação<br />
em Música do Instituto de Artes da<br />
Universidade Federal do Rio Grande do<br />
Sul (UFRGS) doutor Dimitri de Ávila Cervo,<br />
as canções entoadas nos estádios são<br />
consideradas como músicas que desempenham<br />
uma função unificadora. “Sem<br />
dúvida, o que é cantado no estádio é<br />
música. Uma música mais complexa ou<br />
elaborada se define por melodia, ritmo<br />
e harmonia. No caso da torcida de futebol,<br />
temos melodia e ritmo, e a presença<br />
apenas desses dois elementos é comum<br />
em manifestações populares, ou de<br />
grandes coletividades. Eles são criativos<br />
ao encaixar a letra do time em músicas<br />
conhecidas. A forma como cantam é perfeitamente<br />
adequada à finalidade a que<br />
se propõem. Nesse caso, o mais importante<br />
a ser considerado não é a função<br />
artística da música, mas a função social<br />
que desempenha nesse contexto sócio<br />
cultural, sendo um elemento agregador,<br />
que estimula e unifica o ritual coletivo”,<br />
assegura Cervo.<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
u, colorada. fanática, apaixonada pelo inter.<br />
“Emesmo assim, não foi fácil convencer o pessoal<br />
da popular a falar para a PI. os caras já deram as<br />
costas até para a revista placar. na época, a desculpa<br />
foi a de que o trabalho da popular se reconhecia no<br />
meio da torcida. por que diabos iriam nos atender<br />
então? foram muitos os contatos com o líder da<br />
torcida até que ele cedesse conversar conosco. numa<br />
tarde fria de início de setembro fomos ao beira-rio<br />
com a missão de acompanhar um ensaio e conversar<br />
com músicos da banda. depois de falar por quase três<br />
horas com os responsáveis por fazer o estádio explodir,<br />
saí de lá mais convencida de que o amor dos colorados<br />
pelo inter não pode ser traduzido em nenhuma<br />
matéria de revista. para saber como é, só indo a uma<br />
partida, cantando junto, sentindo de perto”.<br />
O tOm dO LadO trICOLOr<br />
Do lado gremista, a unidade da torcida<br />
também se fortalece a cada verso entoado<br />
na arquibancada. Diferentemente<br />
da torcida do Inter, no Grêmio qualquer<br />
torcedor é convidado para contribuir com<br />
uma boa música. Quem garante é o presidente<br />
da Máfia Tricolor, Cristian Vianna<br />
Garcia, 22 anos: “Desde os diretores da<br />
torcida, até mesmo o pessoal da bateria,<br />
todos podem criar as canções que<br />
cantamos para o Grêmio”. Além disso,<br />
conforme Garcia, outros membros estão<br />
se especializando em criar músicas para<br />
a Máfia. No Olímpico, a banda da Máfia<br />
Tricolor conta com uma média de sete<br />
componentes fixos que cantam e tocam<br />
repique, surdo, tarol e caixeta. Todos os<br />
membros da bateria são componentes de<br />
escolas de samba, o que dá um toque especial<br />
e profissional à banda.<br />
Nas letras da torcida gremista, criada<br />
em 1995, palavras de incentivo ao clube<br />
se misturam a provocações ao grande rival.<br />
De acordo com o puxador das músicas,<br />
Thiago Cavalheiro Alves, o Lara, 20<br />
anos, a Máfia possui atualmente cerca<br />
de 20 músicas próprias. Todas elas, conforme<br />
o estudante, inspiradas no apoio<br />
incondicional ao clube da Azenha, marca<br />
registrada da organizada.<br />
Para fazer bonito nos jogos, as músicas<br />
são ensaiadas pouco antes das partidas.<br />
O horário apertado para os ensaios,<br />
no entanto, tem uma justificativa. “No<br />
momento não há encontros da bateria<br />
fora de jogo devido a temporada de en-<br />
renata strapazzon Everton Bertolli<br />
saios das escolas de samba, que já começou”,<br />
explica Lara, integrante da Máfia<br />
desde 2008. Assim como acontece na Popular<br />
Colorada, na Máfia Tricolor as novas<br />
músicas são divulgadas no site oficial da<br />
torcida e disponibilizadas no canal de vídeos<br />
Youtube.<br />
O empenho dos líderes da Máfia para<br />
fazer com que todos os componentes saibam<br />
o maior número de letras tem um<br />
motivo. Na opinião de Cristian Vianna<br />
Garcia, a torcida pode fazer a diferença<br />
nos jogos da equipe. Para ele, a força<br />
do canto, por vezes, torna-se o décimo<br />
segundo jogador em campo, capaz de reverter<br />
resultados ruins e empurrar o time<br />
para a vitória. E, para isso, o batuque típico<br />
das escolas de samba da capital faz<br />
toda a diferença. “Se o canto for com<br />
amor, entusiasmo e vontade, passando<br />
verdade, emoção e a empolgação do<br />
torcedor, ele com certeza reflete não só<br />
nos jogadores, como no dirigente que assiste<br />
nos camarotes. Assim como todo e<br />
qualquer gremista que essa música consegue<br />
alcançar. Porém, mesmo que seja<br />
o canto mais alto do estádio, se não for<br />
verdadeiro, se for puramente profissional<br />
ou tradicional, não emociona e não<br />
incentiva ninguém”, argumenta.<br />
Para Thiago Cavalheiro Alves, companheiro<br />
de organizada de Cristian, o canto<br />
misturado com o som da bateria é a melhor<br />
forma de incentivar o time durante<br />
a partida. “Sem canto, não há incentivo.<br />
Sem incentivo, não há motivação dos jogadores”,<br />
opina.<br />
u, grEmIsta. apesar de não ser tão<br />
“Efanático quanto a minha colega de<br />
matéria, confesso que não fiquei nada à vontade<br />
na sede dos arquirrivais durante a entrevista<br />
com o pessoal da Guarda popular. no lado azul,<br />
depois de inúmeros contatos pessoalmente,<br />
por telefone, e-mail, conseguimos conversar<br />
com o diretor e integrantes da máfia tricolor<br />
que estiveram sempre a nossa disposição. para<br />
colaborar com a matéria, o pessoal do Grêmio<br />
não mediu esforços nos auxiliando em todos<br />
os nossos questionamentos.para mim, o mais<br />
legal do trabalho que realizamos para a revista<br />
Primeira Impressão foi ver o amor incondicional<br />
que as torcidas tanto a do Grêmio quanto a do<br />
inter têm pelo seu time do coração”.<br />
PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 101
MÚSICA PARA CASAR<br />
Véu,<br />
grinalda<br />
e rock‘ n’ roll<br />
A músicA está presente<br />
em nosso cotidiAno. mAs<br />
quAndo queremos que<br />
elA nos torne felizes<br />
pArA sempre, os Acordes<br />
se trAnsformAm em<br />
Algo forA do comum
E<br />
stamos na era do MP3, a música<br />
digitalizada que podemos compartilhar.<br />
Houve um tempo em<br />
que, para reviver o momento<br />
em que tocou aquela música, naquela<br />
festinha, quando conhecemos aquela<br />
pessoa, era necessário fazer uma busca<br />
pelas lojas de discos ou esperar que ela<br />
tocasse no rádio, para podermos gravar<br />
em uma fita cassete. Agora compare isso<br />
a você estar conversando com a mesma<br />
pessoa no MSN e a mesma música estar<br />
na sua informação “O que estou ouvindo”:<br />
é, no mínimo, sugestivo.<br />
Hoje essas facilidades e opções nos<br />
levam a ser seletivos. Por mais mídias<br />
que tenhamos, sempre há um limite a<br />
respeitar. O de um CD é um álbum, o<br />
de um iPod é um número “x” de gigas.<br />
Temos que selecionar o que vamos levar<br />
para nos fazer companhia. Temos que<br />
reunir o que é mais importante e montar<br />
um playlist dessa trilha.<br />
Neste admirável mundo novo no qual<br />
vivemos, o poder de personalizar nossas<br />
preferências — ao mesmo tempo limitadas<br />
e ilimitadas — passa a influenciar o<br />
modo de nos relacionarmos socialmente,<br />
e isso inclui casar.<br />
Amor à primeirA trilhA<br />
Decidir se casar, sem dúvida é uma<br />
grande decisão. Uma nova vida, uma<br />
vida a ser compartilhada a dois. Para<br />
alguns casais, essa nova etapa acontece<br />
ao som de uma marcha nupcial, para outros,<br />
ao som de Nirvana.<br />
Totalmente inserida nesse “mundo<br />
novo”, a jornalista Gabrieli Chanas é a<br />
personificação desse modo de viver e<br />
casar. O primeiro olhar entre Gabrieli<br />
Chanas e Marcelo Hugo, em uma despedida<br />
de um amigo em comum, prova<br />
que a música é um fator que faz<br />
diferença: logo na primeira conversa,<br />
o casal teve Joss Stone como Cupido.<br />
“Eu e o Marcelo temos gostos musicais<br />
muito peculiares. Ver que eles eram<br />
praticamente os mesmos, lá naquela<br />
primeira conversa, ajudou bastante<br />
a levar o papo adiante. Gostamos<br />
muito de Joss Stone, e, com cerca de<br />
seis meses de namoro, fomos ao show<br />
dela. Dias depois ele me surpreendeu<br />
com um pedido de noivado ao som de<br />
TEXTO de Bia MroSS e Joice PaZ<br />
FOTOS de iSadora MÜller<br />
The chokin kind, uma das nossas preferidas<br />
da Joss”.<br />
Para Manuela Damasceno e Rafael<br />
Wolfarth, o casamento veio depois de<br />
constatarem que foram feitos um para<br />
o outro. Afinados, é a palavra que melhor<br />
define Manu e Rafa. Foi o gosto pelo<br />
grunge do Nirvana que levou Manuela<br />
a certo barzinho, onde “Kurt”, apelido<br />
de Rafael por sua semelhança com o vocalista<br />
da banda norte-americana, fez<br />
o coração da estudante de Jornalismo<br />
bater em bits acelerados. “A música é<br />
muito especial na nossa história. Foi em<br />
um show que nos conhecemos, temos<br />
gostos musicais parecidos, essas afinidades<br />
ajudaram muito para a história ter<br />
continuidade. Saber que o Rafa tinha<br />
uma banda foi muito legal. Sonhava em<br />
namorar vocalista de banda.”<br />
Sim<br />
Para quem disse “sim” e vai celebrar<br />
essa decisão — seja na tradicional igreja<br />
ou em um lugar diferente —, tem que se<br />
preparar para uma verdadeira turnê por<br />
muitas outras decisões. Novos recursos<br />
permitem fazer um casamento personalizado,<br />
modificar ou seguir a tradição,<br />
e essas possibilidades atraem cada vez<br />
mais casais que querem fazer esse momento<br />
mais singular do que já é.<br />
Quando chegou a internet, maior<br />
acesso a MP3, CD, iPod, todo mundo<br />
passou a se relacionar com a música de<br />
forma diferente. “A gente começou a<br />
gostar de 10 bandas por dia, não mais 10<br />
bandas por ano. Era claro que toda essa<br />
onda iria se refletir nos casamentos e<br />
que as pessoas desejariam um momento<br />
com ‘a sua música’”, diz Gabrieli. Tornar<br />
aquele momento algo único e bem<br />
particular passou a ser fundamental. Se<br />
tornou uma forma de diferenciar o casamento.<br />
“Ninguém quer o mesmo vestido<br />
de noiva e nem as mesmas músicas<br />
da amiga. A variedade está aí para ser<br />
usada, isso vale do docinho à música de<br />
entrada da noiva”, diz a jornalista.<br />
Mas nem sempre esse toque moderno<br />
na cerimônia tem o efeito desejado.<br />
Gabrieli, que mantém o blog Noiva.com,<br />
tem contato com muitos casais que temem<br />
errar o tom. “A principal dúvida<br />
dos noivos é se a música vai ficar bem<br />
PriMeira iMPreSSÃo | deZeMBro/2010 | 103
ou não. Todo mundo gostaria de entrar na<br />
igreja com uma música do Bon Jovi, que<br />
tocava quando o casal se conheceu, mas<br />
tem que ver se a letra ou a melodia não<br />
são agressivas demais para um momento<br />
tão solene”.<br />
Por esse motivo, Manuela optou por<br />
não casar na Igreja. “Como desde o início<br />
a decisão era uma cerimônia ao ar livre,<br />
não precisamos seguir as normas da Igreja.<br />
As músicas são liberais, mas claro, me<br />
preocupo se tal música ficará legal só em<br />
voz e violão. Muitos casais querem inovar<br />
nas músicas, como tocar Single ladies, da<br />
Beyoncé, na hora do buquê, e não é bem<br />
assim”, ressalta Manu.<br />
Nessa questão, Gabrieli dá dicas<br />
para quem não abre mão do casamento<br />
religioso. “Algumas igrejas não permitem<br />
que sejam tocadas outras músicas<br />
além daquelas que estão em uma listinha<br />
pré-aprovada e que geralmente<br />
traz apenas as mais tradicionais. Esse é<br />
um cuidado que os noivos precisam ter<br />
IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />
ecidir um tema que pudesse agradar duas<br />
“dcabeças tão diferentes foi o grande desafio<br />
desta reportagem, ainda mais em um assunto<br />
tão explorado como a música. quem diz que<br />
duas cabeças pensam melhor do que uma está<br />
equivocado... Após semanas divergindo sobre uma<br />
pauta, finalmente concordamos que ela deveria cair.<br />
partimos em busca de um algo que nos envolvesse,<br />
que nos desse prazer em realizar. então nos demos<br />
conta de que conhecíamos uma história de amor e<br />
música: manuela e rafael. o contato que fizemos<br />
com o mundo das músicas de casamento nos inseriu<br />
104 | PriMeira iMPreSSÃo | deZeMBro/2010<br />
ao reservar a igreja.”<br />
Quer música moderna? Então cheque<br />
se o padre permite. Em alguns casos, ele<br />
pede para ouvir as músicas e dá seu ok<br />
final. “No meu caso, o que fizemos foi<br />
contratar uma orquestra e pagar por arranjos<br />
diferentes. Saímos da igreja ao<br />
som de I’ll be there for you, trilha de<br />
abertura do seriado Friends em uma versão<br />
com violinos e violoncelo. Ficou lindo<br />
e não deixou o padre de nariz torcido”,<br />
conta Gabrieli.<br />
Apesar de alterar a trilha, a jornalista<br />
não abriu mão de algumas tradições,<br />
como a Igreja Santa Terezinha, em Porto<br />
Alegre, e a marcha nupcial. “A marcha<br />
nupcial de Mendelssohn é uma das mais<br />
tradicionais e, para mim, a mais bonita.<br />
Eu mudei todas as músicas da minha cerimônia,<br />
mas para a minha entrada quis<br />
ter aquela que sempre me deixa com<br />
lágrimas nos olhos quando eu ouço. Sempre<br />
me imaginei entrando na igreja com<br />
essa música e jamais trocaria.”<br />
Manuela também priorizou seu sonho,<br />
porém ele se enquadrava naquela<br />
listinha que o Padre não daria ok...<br />
o rock’ n’ roll<br />
Assim como o casamento, rock não<br />
se faz sozinho. Desde 2001 os pombinhos<br />
Manuela e Rafael ensaiam o mesmo<br />
riff. Mesmo exausta por causa dos<br />
preparativos para o grande dia, Manuela<br />
reservou umas horinhas, antes da<br />
sua última aula de dança, para contar<br />
como vai ser o casamento.<br />
“Rafa vai entrar ao som de Nirvana.<br />
Consultamos os cantores e eles<br />
garantiram que podem fazer um arranjo<br />
até de Smells like teen spirit.”<br />
Manuela conta que teve cuidado<br />
para não exagerar na dose, para que<br />
esse momento não fique ofuscado<br />
pela temática. “A identidade visual<br />
do convite tem dois passarinhos e<br />
notas musicais com a letra de uma<br />
música, e as mesas, o nome de bandas<br />
que gostamos.”<br />
Além de toda a parte visual, Manuela<br />
garante que o casamento terá muito<br />
rock’ n’ roll. “A lembrança é uma seleção<br />
de músicas que nós gostamos, e que<br />
certamente tocarão na cerimônia. A arte<br />
do CD tem as nossas caricaturas, eu com<br />
uma revista, o Rafa com uma guitarra.”<br />
Seja tradicional ou arrojado, um<br />
casamento não vive de música, mas,<br />
certamente, ele inspira o que nos torna<br />
realmente felizes para sempre: o amor.<br />
E esse sempre tem uma trilha sonora.<br />
Afinal, como o convite de casamento de<br />
Manuela e Rafael diz: “Quando um certo<br />
alguém, desperta um sentimento, é melhor<br />
não resistir, e se entregar”...<br />
em um universo completamente desconhecido<br />
por nós,cheio de expectativa, paixão e encanto.<br />
um elegante café no centro de campo Bom foi o<br />
cenário da entrevista com a nossa amiga manuela<br />
damasceno. A profissão agitada e os preparativos<br />
para mais um encontro de noivas nos levaram a uma<br />
conversa pelo msn com a gentil gabrieli chanas.<br />
Blogueiras, apaixonadas e noivas por opção, o fato<br />
é que as entrevistadas salvaram nossa dupla de uma<br />
separação litigiosa. produzir esta reportagem foi<br />
como uma relação a dois, porque acreditem, fazer a<br />
Primeira Impressão é quase um casamento!”
Melodias para casar<br />
Músicas que não podem faltar<br />
na playlist do casamento<br />
GAbrieli chAnAS<br />
The chokin kind, (Joss Stone, é claro)<br />
How deep is your love (Bee Gees)<br />
Better together (Jack Johnson)<br />
Realize (Colbie Caillat)<br />
And I love her (Beatles)<br />
mAnuelA DAmASceno<br />
All you need is Love (Beatles)<br />
Heart shaped box (Nirvana)<br />
You’ll be in my heart (Phil Collins)<br />
Um certo alguém (Lulu Santos)<br />
Cant take my eyes of you (Laurin Hill)<br />
Ps.: O material nos envolveu tanto<br />
que não resistimos em também<br />
fazer as nossas listinhas! E foi bem<br />
difícil, pois são tantas músicas que<br />
amamos...<br />
Bia Mross<br />
You’re the one that I want<br />
(Trilha do filme Grease)<br />
Don’t let me down<br />
(Trilha do filme Across the Universe)<br />
The winner takes it all<br />
(Trilha do filme Mamma mia)<br />
Mr. Cellophane<br />
(Trilha do filme Chicago)<br />
Singing in the rain<br />
(Trilha do filme Singin’ in the rain)<br />
Joice Paz<br />
Piece of my heart (Janis Joplin)<br />
Be my baby (The Ronettes)<br />
Mmmbop (Hanson)<br />
Needles and pins (Ramones)<br />
Hey now (Cindy Lauper)<br />
PriMeira iMPreSSÃo | deZeMBro/2010 | 105
EXPEDIENTE<br />
106 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />
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Caroline de Oliveira Raupp, Cristiane da Silva Serra, Daniela Cristina Machado, Dierli M. Santos,<br />
Eder Fernando Zucolotto, Éder Romeu Kurz, Eduardo Dullius Feldens, Everton Fabiano Ribeiro<br />
Bertolli, Fabiana Peixoto Lopes, Gianini Oliveira da Silva, Giovani Francisco Vicente das Neves Júnior,<br />
Gustavo Alencastro da Costa, Gutiéri Sanchez, Isabel Bonorino, Joel Antônio Oliveira, Joice Paz,<br />
Juliana Jeziorny, Larissa de Oliveira, Letícia Bresolin Cardoso, Manoela Poitevin Bandinelli, Manoeli<br />
Marschner Rodrigues, Manuela Moraes Teixeira, Marcelo Collar, Mateus Ferraz , Miriam da Luz<br />
Moura, Pablo Furlanetto, Patrícia Oliveira, Pedro Luís de Holleben Bicca, Renata Rodrigues Lopes,<br />
Renata Strapazzon, Roberta Becker dos Reis, Roberta Roth, Rodrigo Jonathan Rodrigues, Rogério<br />
Bernardes, Rosanna Ramos, Taína Vanda Lauck, Tatiane Marques de Lima, Tiago Fraga de Vargas<br />
Ramos, Vanessa Reis e Vinícius Ghise.<br />
MONITORA: Bárbara Keller.<br />
fo t o g r a f i a<br />
Alunos Amanda Munhoz, André Ávila, Anderson Lopes, Andressa Pazzini, Ângela Virtuoso, Camila<br />
Cabrera, Carine Fernandes, Carolina Tremarin, Caroline Schmedecker, Clarissa Figueiró, Elis Braz,<br />
Fernanda Brandt, Fernanda Herrera, Filipe Gamba, Gabriela da Silva, Isadora Müller, Jéssica Berger,<br />
Júlia Warken, Liziane Alves, Luciana Borba, Marco Antonio Filho, Mariana Halmel, Renata Parisotto,<br />
Ricardo Machado, Sindy Longo, Tatiele Prudêncio e Mauricio Montano.<br />
MONITORA: Bruna Schuch.<br />
FOTOS DE CAPA: Marco Antonio Filho.<br />
PRODUÇÃO GRÁFICA<br />
Agência Experimental de Comunicação (Agexcom)<br />
COORDENADORA-GERAL: Thaís Furtado<br />
PROJETO GRÁFICO e DIAGRAMAÇÃO: estagiários Gabriela Schuch e Marcelo Grisa,<br />
sob orientação do jornalista Marcelo Garcia.<br />
PUblICIDADE<br />
Os anúncios publicados nesta edição foram vencedores da categoria Redação Publicitária II do 10º<br />
Propaganderia, mostra competitiva de trabalhos desenvolvidos por alunos do Curso de Publicidade e<br />
Propaganda. CRIAÇÃO: alunos Tiago Braga de Almeida (página 2) e Heleusa Bonato Coitinho<br />
(página 107), sob orientação do professor Ângelo Cruz; Willian Gaviragui e Surian Engel<br />
(contra-capa), sob orientação da professora Daniela Horta. ARTE-FINALIZAÇÃO: estagiário Renan<br />
Steyer, sob supervisão do professor Ângelo Cruz e do publicitário Robert Thieme, da Agexcom.