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pi<br />

primeira impressão<br />

nº 34 | dezembro de 2010 |<br />

Música<br />

para ler


AO LEITOR<br />

O<br />

menino ainda nem veio à luz e, da barriga da mãe,<br />

já escuta o acalanto. Dorme, meu pequeninho,<br />

dorme que a noite já vem. Mal nasce e já emenda<br />

canção de ninar, cantiga de roda e música para<br />

acordar bem-humorado. Logo já entoam música para abrir<br />

o apetite, para comer mais depressa, para comer mais devagar<br />

e para comer o que nem dá vontade de comer. Que<br />

que tem na sopa do neném? Será que tem rabanete? Na<br />

escola, aprende o Hino Nacional, o Hino da Independência<br />

e o hino da própria escola. Salve, lindo pendão da esperança,<br />

salve, símbolo augusto da paz (que Augusto era esse?).<br />

Depois tem canção de namoro, barulho para incomodar os<br />

pais, minha banda favorita, a sonzeira nossa de cada dia.<br />

Como é bom poder tocar um instrumento. Antes que a gente<br />

perceba, a música percorre, preenche e pontua toda a<br />

nossa vida. Há réquiens para a despedida. De tão presente,<br />

a música chega, por vezes, a passar despercebida. Essa 34ª<br />

edição da Primeira Impressão, pautada, produzida e editada<br />

por alunos das disciplinas de Redação Experimental<br />

em Revista e Projeto Experimental em Fotografia, modula<br />

o volume para tentar apurar o que é mesmo que andamos<br />

ouvindo na nossa vida cotidiana. Há música para quem não<br />

ouve, música para perturbar vizinho, música para baixar o<br />

santo e até música para encantar búfalos. Ajuste os fones<br />

e tenha uma boa leitura.<br />

Eduardo VEras, FláVIo dutra E thaís Furtado<br />

Professores-editores<br />

(com versos de Vinicius de Moraes,<br />

Paulo Tatit, Sandra Peres, Olavo Bilac,<br />

Caetano Veloso e Arnaldo Antunes)<br />

ANDRÉ ÁVILA<br />

Música para ouvir<br />

Arnaldo Antunes<br />

Música para ouvir no trabalho<br />

Música para jogar baralho<br />

Música para arrastar corrente<br />

Música para subir serpente<br />

Música para girar bambolê<br />

Música para querer morrer<br />

Música para escutar no campo<br />

Música para baixar o santo<br />

Música para ouvir<br />

Música para ouvir<br />

Música para ouvir<br />

Música para compor o ambiente<br />

Música para escovar o dente<br />

Música para fazer chover<br />

Música para ninar nenê<br />

Música para tocar novela<br />

Música de passarela<br />

Música para vestir veludo<br />

Música pra surdo-mudo<br />

Música para estar distante<br />

Música para estourar falante<br />

Música para tocar no estádio<br />

Música para escutar rádio<br />

Música para ouvir no dentista<br />

Música para dançar na pista<br />

Música para cantar no chuveiro<br />

Música para ganhar dinheiro<br />

Música para ouvir<br />

Música para ouvir<br />

Música para ouvir<br />

Música pra fazer sexo<br />

Música para fazer sucesso<br />

Música pra funeral<br />

Música para pular carnaval<br />

Música para esquecer de si<br />

Música pra boi dormir<br />

Música para tocar na parada<br />

Música pra dar risada<br />

Música para ouvir<br />

Música para ouvir<br />

Música para ouvir<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 3


ÍNDICE<br />

Música para guardar<br />

10<br />

18<br />

28<br />

Música para afinar<br />

Música para incluir<br />

4 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

06<br />

Música para sentir<br />

14<br />

Música para incomodar<br />

24<br />

Música para aprender<br />

Música para fazer sozinho<br />

Música para rezar<br />

36<br />

44<br />

54<br />

32<br />

Música para vender<br />

Música para sambar<br />

40<br />

Música para encenar<br />

Música para viajar<br />

48


62<br />

70<br />

78<br />

Música para tatuar<br />

58<br />

Música para transformar<br />

Música para grudar<br />

Música para cantar<br />

66<br />

Música para celebrar<br />

Música para dançar<br />

74<br />

90<br />

Música para gravar<br />

Música para aquecer<br />

Música para torcer<br />

98<br />

86<br />

Música para tomar mate<br />

94<br />

Música para casar<br />

102<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 5


MÚSICA PARA AFINAR<br />

EScultORES DE<br />

InStRuMEntOS<br />

Dois artesãos De<br />

Caxias Do sul são<br />

uniDos através<br />

Da paixão pelos<br />

instrumentos De<br />

CorDa. nas mãos<br />

Desses luthiers,<br />

a maDeira vira<br />

arte e som<br />

TEXTO DE AlInE BOf E lEtícIA BRESOlIn cARDOSO<br />

FOTOS DE AnDRé ÁvIlA<br />

6 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


O<br />

som agudo e brilhante do<br />

violino já faz parte da vida<br />

do italiano Eugênio Coletti,<br />

assim como o afinar das<br />

cordas do violão soa natural para<br />

Jules Andrés Raupp da Rocha. Eles<br />

são luthiers, artistas, construtores e<br />

músicos. Embora sendo de gerações<br />

diferentes, os dois possuem a mesma<br />

paixão pela arte. Jules é marcado<br />

pela ambição própria da juventude, e<br />

Eugênio demonstra que o tempo não<br />

diminuiu a sua sensibilidade musical.<br />

Ele surpreendeu a repórter quando,<br />

durante a entrevista, ela pediu desculpas<br />

por ter dado um espirro. A resposta<br />

do luthier foi de que o seu ouvido<br />

de músico lhe indicava que o tom<br />

do espirro era um dó sustenido.<br />

A profissão de fabricar e consertar<br />

instrumentos de cordas é antiga.<br />

O nome tem origem no alaúde. Em<br />

italiano, liuto. Um instrumento de<br />

oito cordas com caixa de ressonância<br />

arredondada, como uma pêra. Já<br />

era utilizado pelas antigas civilizações,<br />

entre elas, gregas, romanas e<br />

egípcias. Liutio era aquele que o fabricava.<br />

Antes de ser assumida pela<br />

língua portuguesa, a palavra recebeu<br />

influência dos franceses, para quem<br />

alaúde significava luth. Acrescido do<br />

sufixo ier, temos o nome da profissão<br />

de Eugenio e Jules.<br />

Na sala da casa de Eugênio Coletti,<br />

na cidade de Caxias do Sul,<br />

região serrana do Rio Grande do Sul,<br />

os objetos se espremem nas prateleiras.<br />

São fragmentos de 84 anos<br />

de uma vida que teve origem em<br />

Treviso, na Itália. Lembranças materializadas<br />

em fotos, recordações<br />

de viagens e muitas miniaturas de<br />

instrumentos musicais. Tudo ressoa<br />

como um acorde maior. A música<br />

está em todas as partes. Aparece<br />

estampada nas fotos da família. Sua<br />

mãe, Zayda Roncca, foi a primeira<br />

violinista de Caxias do Sul. A esposa,<br />

Gabriela, também era italiana e violinista.<br />

Faleceu há oito anos.<br />

Ainda menino, Eugênio aprendeu<br />

a amar os instrumentos. Aos cinco<br />

anos, ganhou um pequeno violino e<br />

iniciou as aulas. Mais tarde, a guerra<br />

assolou seu país e o levou a abandonar<br />

os estudos de Direito para tentar<br />

a vida na Argentina. Mas não o fez<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 7


sem antes prometer à Gabriela que voltaria para buscá-la.<br />

Depois de muito trabalho, cumpriu a promessa. Casaramse<br />

e começaram a construir a família em Buenos Aires. O<br />

violino estava sempre por perto, mas ainda não era profissão.<br />

Foi então que uma proposta de trabalho em uma<br />

vinícola fez a família se mudar para Caxias. Eugênio tinha<br />

28 anos. “Vi que a cidade tinha suor, criatividade, fantasia,<br />

manejo do aço e do vinho. Mas faltava uma coisa que<br />

podíamos preencher: a música.” Os dois começaram a dar<br />

aulas de música em casa e faziam apresentações com um<br />

quarteto clássico de cordas. “Aquilo nos destacou por muitos<br />

anos”, reconhece.<br />

O encOntrO cOm a prOfissãO<br />

O tempo em Buenos Aires e a umidade do local haviam<br />

destruído os dois instrumentos do casal. Assim a luthieria<br />

entrou na vida de Eugênio. Ele conheceu Reinaldo Hahn.<br />

Formado por músicos importantes, Reinaldo havia se<br />

especializado na construção de violinos. Enquanto Pelé<br />

fazia o milésimo gol, Reinaldo fazia o milésimo violino.<br />

O instrumento foi consertado, e Eugênio aprendeu a profissão.<br />

“Fiz quatro anos de escola com esse mestre. No<br />

começo eu paguei, até que ele viu o meu amor e me ensinou<br />

gratuitamente. Cheguei a fazer instrumentos com<br />

toda a sabedoria e arte”, conta. Construiu sete violinos,<br />

uma viola e um contrabaixo. Achou mais interessante deter-se<br />

nos consertos do que construir instrumentos muito<br />

caros e inacessíveis.<br />

No fundo da casa de Eugênio, está sua oficina. Aposentadoria<br />

é palavra que passa longe para o luthier, que ainda<br />

dá aulas de italiano e encontra tempo para tocar em festas<br />

na cidade. Até hoje, ele continua na oficina devolvendo à<br />

vida instrumentos que haviam desistido de existir. Eles estão<br />

pendurados por toda parte. Violões e violinos. Inteiros<br />

partidos ao meio. O chão está coberto por um tapete de<br />

serragem, excessos retirados da madeira que vai se tornar<br />

um novo instrumento.<br />

O último violino que ele construiu foi no ano de 1962.<br />

Um dos motivos pelos quais parou foi a entrada dos instrumentos<br />

chineses no mercado. “Não é possível fazer<br />

violinos na base de R$ 140. Os violinos chineses são feitos<br />

em regime de escravidão. Não posso trabalhar assim”,<br />

diz ele. Um violino leva cerca de três meses para ser<br />

construído e, segundo Eugênio Coletti, o segredo está<br />

na interpretação da madeira. Ele afirma que, para construir,<br />

precisaria de madeira estrangeira. Deveria importar<br />

madeira africana. Um instrumento assim custaria de<br />

R$ 3.000 a R$ 8.000, diz ele. Sobre o futuro da profissão<br />

de luthier, Eugênio é enfático: “Hoje em dia não recomendo,<br />

porque é morte certa, morte por fome. Ninguém<br />

pode trabalhar por 7 centavos por hora.”<br />

Difícil, mas nãO impOssível<br />

O velho luthier recebe com frequência em sua oficina<br />

instrumentos chineses para conserto. Segundo ele, são<br />

como relógios parados que ele precisa fazer voltar a funcionar.<br />

Para Eugênio, o que é morte certa, para Jules é<br />

apenas o começo de um sonho profissional. Lutiher há nove<br />

8 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

anos, ele mora em Caxias há sete, onde criou a primeira<br />

escola de luthieria do Rio Grande do Sul. Uma casa de dois<br />

andares abriga a Andrellis, marca criada por ele, entalhada<br />

em cada novo instrumento que é lá produzido. No local,<br />

funcionam escola de música, de luthieria, venda de peças,<br />

de instrumentos e manutenção. Em 11 meses, Jules forma<br />

um luthier em sua escola. Já gerou 25 novos profissionais.<br />

“O diferencial do luthier é a customização, esse é o grande<br />

lance”, diz ele. Em sua oficina, o cliente pode dar um toque<br />

pessoal ao seu instrumento.<br />

A música é uma herança do pai músico que lhe deu<br />

as primeiras lições de violão, com 15 anos. Após dois<br />

meses de aula, as cordas uniram pai e filho em apresentações<br />

pelos bares de Torres. Faziam brotar de seus<br />

instrumentos música gauchesca, bolero e sertanejo, e<br />

ainda faziam serenatas.<br />

Jules começou a trabalhar com luthieria em 2001, quando<br />

fez o primeiro violão. “Foi terrivelmente mal feito”, reconhece.<br />

Descobriu em si o talento para construir e fazer<br />

manutenção em instrumentos. Procurou cursos, mas eram<br />

inviáveis, caros e longe demais. Parecia impossível, mas<br />

não foi. Decidiu aprender marcenaria através dos livros,<br />

pois o manejo da madeira seria essencial no trabalho. Sua<br />

vida também foi marcada por um grande mestre, Alberto<br />

Reginato, um marceneiro que tinha como hobby fabricar<br />

instrumentos. “Aprendi desde o tipo de cola até as madeiras<br />

a serem usadas para construir”, recorda Jules. Usou os<br />

restos de madeira da marcenaria de seu padrinho para dar<br />

vida ao que seria sua primeira obra de arte.<br />

Aprendeu a construir desconstruindo. Jules desmontou<br />

o violão de seu pai, parte a parte, para ver como era por<br />

dentro. Nas poucas revistas sobre luthieria, olhava bem as<br />

fotos e imaginava o que estavam fazendo. Foi evoluindo<br />

como autodidata.<br />

Na opinião de Jules, a profissão exige minuciosidade<br />

e três qualidades que, para ele, têm que andar juntas na<br />

construção de um instrumento: paciência, perseverança e<br />

precisão. Para construir um violão, é necessário um kit de<br />

madeira de boa qualidade, com certificado. Isso custa em<br />

torno de R$ 1.500. A fabricação leva aproximadamente 20<br />

meses e o preço a ser cobrado pelo instrumento fica em<br />

torno de R$ 3.500.<br />

São realizadas três etapas para a fabricação: a escolha<br />

da madeira, o projeto para o cliente e, depois de<br />

impresso o projeto em tamanho real, a prática. Além<br />

disso, Jules climatiza as madeiras. “Deixo no tempo. Na<br />

rua, pega chuva, sereno, frio, calor, um clima diferente<br />

da minha oficina. Tem que estar resistente aos climas da<br />

nossa região explica ele.<br />

O luthier não abre mão de fazer tudo artesanalmente, embora<br />

ambicione uma produção em série. A meta de Jules é que<br />

até o final do ano que vem ele consiga construir 30 instrumentos<br />

por mês. E salienta: “Minha oficina é meu mundo”.<br />

Separados pelas gerações, os dois luthiers estão unidos<br />

pelos instrumentos de corda. Seguem insistindo em consertar<br />

e construir. Dão vida aos sons e aos sonhos de muitos<br />

na esperança de que sempre haverá quem vai pousar seus<br />

dedos sobre as cordas.


euGÊnio<br />

Colleti, 84<br />

anos, ComeÇou<br />

a toCar violino<br />

Com CinCo<br />

anos e hoJe<br />

não reComenDa<br />

a luthieria<br />

Como proFissão<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

apaixonaDo<br />

pelo Que FaZ,<br />

Jules raupp é<br />

luthier DesDe<br />

2001 e aprenDeu<br />

a Construir<br />

instrumentos<br />

a partir Dos<br />

livros<br />

ábado chuvoso em Caxias do sul. procurávamos por dois<br />

“sentrevistados que iriam nos falar sobre um assunto que<br />

nem sabíamos claramente o que era. luthieria. Chegamos à<br />

casa de seu eugênio, casa antiga e cheia de detalhes, os quais<br />

só ele mesmo poderia descrever de onde vieram e por que<br />

todos aqueles objetos estavam expostos na sala. nosso objetivo<br />

naquelas entrevistas era saber mais sobre a construção, os<br />

consertos que eugênio e Jules fazem nos instrumentos de corda.<br />

Com tanta experiência de vida que os dois têm, impossível falar<br />

apenas sobre a profissão. ali ficamos sabendo sobre trechos<br />

marcantes de suas vidas, o que nos fez refletir sobre várias<br />

questões de nós mesmas. a tarefa de aula tornou-se prazerosa.<br />

Cada um com uma visão diferente da vida e da profissão. para<br />

nós, repórteres, foi uma alegria ver duas pessoas do mesmo<br />

ramo que tomaram rumos diferentes e que amam o que fazem.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 9


MÚSICA PARA GUARDAR<br />

ARtIgO<br />

DE<br />

luxO<br />

DO<br />

SéculO<br />

xxI<br />

TEXTO DE DIERlI SAntOS E ROBERtA REIS<br />

FOTOS DE JÚlIA WARKEn<br />

Para os colecionadores<br />

de discos, o mP3 tem<br />

grande utilidade: avaliar<br />

quais álbuns serão<br />

comPrados em cd<br />

10 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


Nem mesmo invenções como o iPod conseguiram<br />

desfazer a paixão de colecionadores de CDs. A<br />

diferença é que o disco compacto deixou de ser<br />

um item necessário e virou um artigo de luxo<br />

para quem deseja guardar uma lembrança de uma banda<br />

que gosta ou de uma música que marcou sua vida. Colecionar<br />

é o nome da prática de reunir objetos que tenham<br />

algum significado especial para seu dono. Dessa forma,<br />

podemos classificar Leandro de Souza, 26 anos, como colecionador<br />

de CDs.<br />

Ao entrar no quarto de Leandro, ele já avisa: “Aqui estão<br />

meus CDs. Parece pouco olhando daqui, mas são quase<br />

600”. Realmente, quando ele começa a tirá-los da prateleira,<br />

é possível notar o grande número de discos que ele possui.<br />

Mas o que o torna um colecionador não é exatamente a<br />

quantidade, mas a relação que ele tem com os CDs.<br />

O CD foi um dos meios mais populares de comercialização<br />

de música e é objeto de coleção de Leandro há 14<br />

anos. Embora o disco tenha começado a ser comercializado<br />

em 1982, foi somente na década de 1990 que ele<br />

se popularizou no Brasil. Prometendo maior capacidade,<br />

durabilidade e clareza sonora, não demorou muito para<br />

deixar o LP para trás. Porém, com a explosão da internet<br />

e a chegada do MP3, acabou perdendo espaço. Ficou difícil<br />

competir quando passou a ser preciso somente um<br />

clique para ouvir o último lançamento de uma banda – e<br />

de graça. Mas há quem não tenha abandonado totalmente<br />

essa mídia (ou hábito?). Leandro é um exemplo de quem,<br />

apesar do pouco tempo, conseguiu juntar um acervo particular<br />

e continua amando os CDs.<br />

Leandro começou sua coleção aos 12 anos, quando ganhou<br />

seu primeiro aparelho portátil. Logo comprou o primeiro<br />

CD, de um show ao vivo dos Paralamas do Sucesso<br />

– que tem guardado até hoje. Nessa época, quem alimentava<br />

sua coleção ainda eram os pais, que sempre apoiaram<br />

os gostos do filho. “A parte intelectual dele sempre<br />

foi mais desenvolvida. Esporte nunca foi com ele”, conta<br />

Maria Elaine de Souza, professora de Educação Física.<br />

“Ele não podia ver CD. O pai dele dizia para comprar pirata,<br />

e ele dizia que não, tinha que ser tudo original.”<br />

Quando começou a trabalhar, em 1999, seu vício alcançou<br />

o auge, época em que chegou a comprar entre<br />

15 e 20 CDs em um único mês, grande parte deles importada.<br />

“Ultimamente eu compro só um, dois por mês”,<br />

conta, considerando a quantidade baixa. Nem com a facilidade<br />

da internet a coleção parou. Ele baixa as músicas<br />

para conhecer bandas novas (inclusive no iPod só baixa<br />

álbuns <strong>completo</strong>s e sempre com foto da capa), mas, se<br />

gosta, compra o CD. Sobre o que ainda o motiva a comprar<br />

um disco, ele pensa e logo responde: “Colocar ali na<br />

prateleira”. O processo mudou, já que antigamente comprava<br />

muita coisa que nunca havia ouvido, pois as fontes<br />

de informação na época eram as revistas, brasileiras ou<br />

importadas. Sempre procurando bandas novas e boas, já<br />

comprou CDs por indicação, pelo encarte bonito, por gostar<br />

de duas faixas que ouviu na loja e, principalmente,<br />

motivado por resenhas em revistas especializadas.<br />

Um caso curioso foi com a banda Pixies, sua preferida<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 11


até hoje. Ouviu pela primeira vez quando tocou na rádio,<br />

enquanto voltava da escola. Ao chegar em casa não desceu,<br />

queria esperar o locutor anunciar o nome daquela<br />

faixa. Quando ouviu que se tratava do Pixies, lembrou que<br />

já tinha lido sobre a banda em uma revista e não pensou<br />

duas vezes para comprar o CD. Com as proporções que a<br />

banda tomou em sua vida, logo quis juntar toda discografia.<br />

Porém, o que ficou por último era, por ironia, o<br />

primeiro disco, que teve que importar. Após a encomenda<br />

na loja, demorou cerca de um mês para chegar: “Foi uma<br />

tortura, mas eu já estava acostumado. Quando o produto<br />

chegava na loja o cara me ligava e eu saía do trabalho na<br />

hora, não queria nem saber”.<br />

Alguns discos não eram apenas uma sequência de faixas,<br />

mas tentavam também criar rituais. Um exemplo é<br />

o álbum Zaireeka, dos Flaming Lips, um dos mais caros<br />

que Leandro já comprou. Custou cerca de R$ 200, é quádruplo,<br />

mas todos os discos têm as mesmas músicas em<br />

sons diferentes. A ideia é que todos os quatro toquem ao<br />

mesmo tempo para então ouvir a música completa, o que<br />

chamam de som octafônico. Leandro, como todo colecionador<br />

zeloso, não gosta de emprestar seus objetos. No<br />

caso desse CD, evita até mesmo ouvi-lo. “Este nem eu<br />

encosto muito. Tenho há cinco anos e está novinho”.<br />

A revolução dA internet<br />

A internet trouxe uma maior aproximação com a música.<br />

Não apenas pelo poder de baixar música de graça,<br />

mas também por facilitar a compra. Como morador de<br />

Campo Bom, Leandro não podia contar com lojas especializadas<br />

por perto. Com os sites que vendem CDs, inclusive<br />

internacionais, ficou muito mais fácil para comprar e ainda<br />

recebê-los em casa. Antes dessas facilidades, Leandro<br />

era um dos clientes de uma loja de Novo Hamburgo que<br />

encomendava CDs importados. Esperava cerca de três semanas<br />

até que o produto chegasse à loja. “Eu comprava<br />

CD importado na época em que o dólar estava lá em cima.<br />

Na época do 1 por 1 era maravilha total, comprava um CD<br />

12 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

importado por R$ 25”, ele conta, lembrando que era uma<br />

das poucas pessoas com menos de 15 anos que se preocupava<br />

com a cotação do dólar.<br />

Ele compara as mudanças no processo de compra de<br />

CDs: “Hoje em dia no MP3 tu ouves um disco e, se não<br />

gosta, deixa de canto. Naquela época tu compravas o<br />

CD e, por ter gasto uma grana, investido teu dinheiro,<br />

tu tentavas vencer o CD”. Até nos finais de semana, os<br />

CDs faziam parte da programação do garoto. “Eu, guri<br />

sem muitos amigos, ficava em casa ouvindo CD. Só na<br />

faculdade que eu comecei a ter vida social.” Essa vida<br />

social surgiu através de amigos com gostos parecidos<br />

para música, com os quais trocava discos ou emprestava<br />

para gravar. Desse grupo de meninos, todos estudantes<br />

de Jornalismo e interessados em música, cinema e cultura<br />

em geral, nasceu um site, o Gordurama, que durou<br />

de 2003 a 2008.<br />

Para os colecionadores da região, uma das principais<br />

lojas sempre foi a Jam Sons Raros, que existe há 18 anos,<br />

no centro de Novo Hamburgo. Apesar de especializada em<br />

raridades, também sofreu com a chegada do MP3. O que<br />

a salva ainda é o diferencial, comercializar sons clássicos,<br />

músicas que não envelhecem. “Ninguém vem nos perguntar<br />

do novo do REM, mas o primeiro ou o segundo procuram<br />

sim”, relata Jean Rangel, 32 anos, um dos sócios da<br />

loja que vende CDs, DVDs e LPs nacionais e importados,<br />

novos ou usados. Muita raridade já passou por lá, discos<br />

que não são mais fabricados e não seriam encontrados<br />

em lojas convencionais. “Tem muitos que dizem ‘Puxa, eu<br />

procurava esse disco há anos’”, diz Rangel sobre os clientes<br />

que passam por lá. “Nossa principal satisfação é ver<br />

a pessoa saindo feliz da loja.” Ele conta que os clientes<br />

procuram mais por CDs, mas no momento há uma moda<br />

de discos de vinil que dá volume à procura de LPs.<br />

O CD não vai deixar de existir. Pelo menos não enquanto<br />

estiver viva essa geração de colecionadores,<br />

que não se contenta apenas com música passageira e<br />

pouca informação.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

icamos surpresas em como passar o sábado fazendo um trabalho<br />

“Fde faculdade pode ser divertido. apesar dos deslocamentos de<br />

cidades, das horas de entrevistas, foi um tempo bem investido. não só<br />

porque rendeu uma boa entrevista, mas também porque foi uma boa<br />

conversa. enquanto tirávamos nossas dúvidas com o leandro, case central<br />

da nossa reportagem, acabamos descobrindo tantas coisas legais que as<br />

perguntas diziam mais respeito à nossa curiosidade. apesar de no início<br />

termos votado em outro assunto, a escolha do tema música com certeza<br />

tornou o trabalho prazeroso para todos. no meio daquele monte de cds,<br />

acabamos encontrando bandas que gostávamos, músicas antigas e gostos<br />

em comum. tudo passou pela conversa: séries, videogame, revistas, coleção<br />

de figurinhas, e, é claro, música. ouvindo nossa gravação da entrevista,<br />

concluímos que o trabalho pareceu uma tarde de sábado com conversas<br />

interessantes entre amigos. que bom se toda entrevista fosse assim, não?”


PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 13<br />

leandro souZa<br />

tem mais de 600<br />

cds, incluindo<br />

raridades<br />

como o álbum<br />

quadruPlo<br />

Zaireeka, dos<br />

Flaming liPs


Música para sENTir<br />

O RITMO TaMbéM eMbala<br />

as fesTas de queM nãO<br />

cOnsegue OuvIR<br />

14 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 15


O<br />

colorido dos balões alçados<br />

no teto, bem no<br />

centro do salão, reflete<br />

a alegria de uma tribo.<br />

Estão cheios de um ar expelido<br />

dos pulmões de quem sempre fez<br />

força pela dignidade. Foi numa<br />

noite fria e chuvosa que conhecemos<br />

o 1º Bailoco, uma festa a fantasia<br />

promovida pela Sociedade<br />

de Surdos do Rio Grande do Sul.<br />

O cartão de visitas é o sorriso. As<br />

pernas cruzadas e uma saia que<br />

mal cobre os joelhos, um atestado<br />

de coragem, de ousadia. Verônica<br />

Chiden, 56 anos, está toda<br />

de preto. Veste uma blusa de seda<br />

fina, que deixa braços e pescoço<br />

bem à mostra. Passa um atestado<br />

de que a deficiência auditiva não<br />

é o fim do mundo.<br />

Diante de dois curiosos estudantes<br />

de Jornalismo, Verônica<br />

é bem mais desinibida que muito<br />

marmanjo dito “normal”. Poucas<br />

vezes olha nos olhos. Não que isso<br />

seja de seu perfil, mas porque<br />

tem de ver os gestos da tradutora<br />

e professora de Libras — a língua<br />

de sinais dos deficientes auditivos<br />

— Nara Vidal. É através dela,<br />

uma senhora simpática, que foi<br />

logo avisando que tem uma filha<br />

surda, que Verônica abre o coração.<br />

Ou quase isso.<br />

Em pouco mais de uma hora de<br />

conversa, recordou das dificuldades<br />

na adolescência e na juventude,<br />

na família e na vida social. Só<br />

não quis dar detalhes de como se<br />

sustenta atualmente. Simplificou<br />

em gestos à tradutora: “Verônica<br />

disse que não quer falar muito sobre<br />

isso. Ela vive como pensionista.<br />

Conseguiu por causa de uma<br />

avó, que é juíza e se preocupava<br />

com ela”, relata Nara, que aprendeu<br />

com Verônica as palavras pelos<br />

gestos.<br />

Verônica é vítima de complicações<br />

no parto da mãe. O cordão<br />

umbilical estava enrolado ao pescoço<br />

da pequena Verônica, que sofreu<br />

perda de 90% da audição. Nem<br />

mesmo os questionamentos sobre<br />

16 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

TEXTO DE ÉDER KuRZ E GIOvAnI nEvES JunIOR | FOTOs DE LucIAnA BORBA<br />

a infância fazem Verônica perder a<br />

simpatia e o sorriso de cartão de<br />

visita. “Era muito difícil a comunicação.<br />

Era feita através da visualização,<br />

do oralismo”, relembra.<br />

“Quando era criança, demorei muito<br />

a me oralizar, e isso me abalou<br />

emocionalmente. Com seis anos,<br />

fui colocada numa escola particular,<br />

com turmas integradas.”<br />

Verônica descobriu um mundo<br />

preconceituoso e individualista. Na<br />

adolescência, pensou que a morte<br />

era o melhor caminho. “Passei<br />

um período que não queria viver”,<br />

gesticula, balançando a cabeça da<br />

esquerda à direita. As amizades foram<br />

poucas na juventude. Vivia em<br />

um mundo surdo. Crescia sozinha.<br />

Até entrar na Escola Frei Pacífico,<br />

em Porto Alegre. Tinha 16 anos e<br />

começou a aprender a se comunicar<br />

através das Libras. Os dias<br />

passaram a ter novos sons. Como<br />

a música, algo que não dava a menor<br />

importância até a juventude.<br />

“Sentia apenas a vibração. Passei<br />

a entender e a pegar muito pelo<br />

agudo. Pela batida, consigo perceber<br />

o som”, descreve Verônica,<br />

sobre a maneira como descobriu o<br />

ritmo das músicas.<br />

Ao aprender a língua dos surdos<br />

e ao perceber que outros caminhavam<br />

pela mesma estrada,<br />

Verônica encarou a deficiência.<br />

Teve namorado que era ouvinte.<br />

Viveram juntos. Mas ele acabou<br />

indo embora. “Não deu certo”,<br />

conta. A união deu fruto. Yasmim<br />

tem hoje 21 anos, é ouvinte e o<br />

orgulho da mãe.<br />

Verônica passou a frequentar a<br />

Sociedade de Surdos do Rio Grande<br />

do Sul aos 41 anos. Ocupou vários<br />

cargos. Hoje é a presidente.<br />

Viaja como representante da entidade<br />

para encontros fora do Estado.<br />

Em uma das idas a São Paulo,<br />

reencontrou um antigo namorado.<br />

Um amor de 30 anos atrás. Ele,<br />

Sérgio Capobianco, 60 anos, é surdo.<br />

Está perto de se aposentar e<br />

pretende vir morar em Porto Alegre.<br />

Verônica sonha em se casar<br />

na igreja. “De véu e grinalda, que<br />

terá dez metros”, diverte-se.<br />

Diversão, alegria e descontração<br />

marcaram o restante da noite<br />

de Verônica no Bailoco promovido<br />

pela Sociedade dos Surdos. “Hoje<br />

me sinto muito bem, especialmente<br />

numa noite de festa para<br />

os jovens, que foi organizada por


contribuições, com todos fantasiados<br />

para incentivar o grupo a participar<br />

da festa”, destaca Verônica.<br />

A música, a letra, o cantor é o<br />

que menos importa para os deficientes<br />

auditivos. A batida é que<br />

interessa. Faz subir a adrenalina.<br />

“A festa é uma maneira de aproximar<br />

os jovens não ouvintes”, resume<br />

Verônica.<br />

Dança no ritmo Das batiDas<br />

Olhos castanhos, longos cabelos<br />

cacheados, vaidosa e apaixonada<br />

por música. Aos 35 anos, Isabel Casagrande<br />

Batista é dona de um sorriso<br />

contagiante e único. E de uma<br />

surdez profunda desde que nasceu.<br />

O que seria um impedimento para<br />

muitos é motivo de força de vontade<br />

e de superação para Isabel. Nem<br />

a falta do som, das vozes das músicas,<br />

a atrapalham na hora de fazer o<br />

que mais gosta: dançar. Como? Pelo<br />

ritmo das batidas e dos amigos. Tanto<br />

que é frequentadora assídua das<br />

festas em casas noturnas de Porto<br />

Alegre e Região Metropolitana.<br />

Como toda mulher bonita, Isabel<br />

chama a atenção dos homens.<br />

No entanto, a surdez atrapalha no<br />

momento da paquera. Para nos demonstrar<br />

a situação, ela representa<br />

o papel de um homem se aproximando<br />

dela numa balada. Imita de<br />

forma cômica a cena que não deve<br />

ter sido engraçada no momento.<br />

Segunda ela, um homem lindo ficou<br />

observando ela dançar durante um<br />

bom tempo. Ao se aproximar para<br />

tentar conversar, logo que percebeu<br />

que ela era surda simplesmente fez<br />

sinal de desculpa, e foi embora.<br />

Isabel conta que muitos homens<br />

“fogem” dela ao notar que é surda,<br />

mas sempre existem os mais espertos<br />

que não deixam que isso atrapalhe<br />

e utilizam o celular para escrever<br />

mensagens e trocar algumas<br />

frases. De 15 em 15 dias Isabel pode<br />

ser encontrada nas baladas noturnas<br />

da grande Porto Alegre. Ritmo<br />

predileto? Todos, mas ela destaca<br />

que gosta muito de dançar vanerão<br />

e música eletrônica. Por sofrer de<br />

surdez profunda, Isabel apenas sente<br />

as vibrações sonoras. E quem dis-<br />

se que surdo não pode ter um rádio<br />

em casa? Pois essa mulher tem tamanha<br />

paixão por música que possui<br />

um rádio portátil em casa.<br />

Natural de Camaquã, Isabel foi<br />

educada através da oralidade. Aos<br />

15 anos, durante uma viagem a Pelotas,<br />

percebeu que existiam muitas<br />

pessoas com a mesma dificuldade<br />

que ela. A partir de então decidiu<br />

procurar a Sociedade de Surdos.<br />

Casada três vezes — o primeiro e<br />

o terceiro casamento com homens<br />

surdos e o segundo com um ouvinte<br />

—, atualmente namora com um surdo<br />

e está muito feliz.<br />

Após as entrevistas, fomos embora,<br />

mas a festa continuou. Uma<br />

festa como outra qualquer, em que<br />

a única diferença era a maneira<br />

como as pessoas sentiam a música.<br />

Sem dúvida, a música é feita para<br />

ser ouvida, mas, antes disso, ela<br />

foi criada para ser sentida. Afinal<br />

de contas, muitas vezes escutamos<br />

músicas em inglês ou francês sem ao<br />

menos sabermos o que a letra quer<br />

dizer, apenas porque a sonoridade<br />

agrada aos nossos ouvidos. O mesmo<br />

vale para os surdos, embora não<br />

consigam diferenciar claramente os<br />

sons. Eles sentem as frequências<br />

sonoras, principalmente as graves.<br />

E não importa como ela chega até<br />

nós, o importante é ter a música em<br />

nossas vidas.<br />

iMprEssÕEs DE rEpÓrTEr<br />

omo contar uma história<br />

“cpartindo do princípio de que<br />

as fontes não escutam nem falam?<br />

eis o desafio. um desafio e tanto<br />

para dois estudantes de Jornalismo.<br />

depois que a turma optou pelo<br />

tema música, pensamos: “qual<br />

pauta vamos sugerir?”. queríamos<br />

fazer algo diferente. começamos<br />

a nos questionar como os surdos<br />

conseguem sentir os sons. e fomos<br />

atrás da sociedade de surdos do<br />

Rio grande do sul, em Porto alegre.<br />

foi lá que encontramos a nossa<br />

pauta. nossa história. surdos que<br />

frequentemente promovem festas,<br />

como o bailoco, que teve sua primeira<br />

edição em setembro. uma festa<br />

embalada por música eletrônica e axé.<br />

Recebemos a ajuda da tradutora nara<br />

vidal, que nos auxiliou nas entrevistas.<br />

ficamos por mais de duas horas no<br />

bailoco, mesmo nos sentindo meio<br />

deslocados. éramos os únicos ouvintes<br />

em meio a dezenas de surdos. Pessoas<br />

sem preconceitos e que dividiam<br />

sorrisos pelos passos repetidos um<br />

do outro. e mesmo não sabendo<br />

libras, por vezes conseguíamos trocar<br />

algumas frases com os surdos através<br />

dos sinais. aprendemos que, seja qual<br />

for a forma, o essencial é ter algum<br />

meio de se comunicar.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 17


MÚSICA PARA INCLUIR<br />

QuAnDO<br />

OS SOnhOS<br />

vIRAM<br />

REAlIDADE<br />

18 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

A VIDA DE 32 crIAnçAs<br />

DE fAmílIAs DE bAIxA<br />

rEnDA DA cApItAl gAúchA<br />

mUDOU cOm A OrqUEstrA<br />

DE câmArA JOVEm DO<br />

rIO grAnDE DO sUl<br />

TEXTO DE ÂnGElA vIRTuOSO E ROSAnnA RAMOS<br />

FOTOS DE ÂnGElA vIRTuOSO


AlAn EstUDA<br />

pElA mAnhà E,<br />

À tArDE, EnsAIA<br />

cOm Os cOlEgAs<br />

DA OrqUEstrA<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 19


20 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

Desde pequeninha, Angelis<br />

Teixeira Lima, 12 anos,<br />

gostava de música clássica.<br />

Ela assistia sozinha a<br />

concertos de grandes orquestras na<br />

televisão. Com oito anos, a menina<br />

disse para a mãe que queria aprender<br />

violino. Mas a possibilidade de<br />

tocar o instrumento estava muito<br />

distante da realidade de sua família.<br />

“Não teríamos recursos para<br />

bancar aulas e instrumento”, conta<br />

a mãe, Ângela.<br />

O sonho da menina chegou mais<br />

perto quando a Orquestra de Câmara<br />

Jovem do Rio Grande do Sul abriu as<br />

seletivas para sua primeira turma.<br />

Na ocasião, mais de 1,3 mil crianças<br />

e adolescentes se inscreveram.<br />

Os jovens participaram da avaliação<br />

aplicada pelo corpo docente do<br />

projeto, e, dos que passaram pelo<br />

teste básico de ritmo, 360 foram selecionados<br />

para uma oficina de uma<br />

semana. Para a etapa seguinte, apenas<br />

32 — entre eles, Angelis — ficaram<br />

e formaram a Orquestra.<br />

Quando, enfim, passou a tocar<br />

violino, ela teve certeza da carreira<br />

que queria seguir: a da música.“A<br />

orquestra é tudo para mim. Aqui,<br />

aprendi a tocar e tive a certeza de<br />

que é isso que quero ser.” No último<br />

ano, muita coisa mudou na vida da<br />

menina. Dedicada, tornou-se uma<br />

das mais promissoras da turma e<br />

agora não tem dúvida: quer fazer faculdade<br />

de Música, mesmo objetivo<br />

da maioria dos colegas. Ela aponta<br />

para a Europa no mapa-múndi e diz<br />

que é ali que vai morar. “Meu sonho<br />

é tocar na Orquestra de Berlim”,<br />

conta, emocionada.<br />

Todos os integrantes da orquestra<br />

foram selecionados em escolas<br />

públicas de Porto Alegre. Escolhidos<br />

em famílias com renda mensal inferior<br />

a três salários mínimos, cada<br />

um recebe uma bolsa-auxílio de R$<br />

AngElIs lImA<br />

fOI UmA DAs<br />

32 crIAnçAs<br />

sElEcIOnADAs<br />

pArA fOrmAr A<br />

OrqUEstrA


190 mensais — paga pelo governo<br />

do estado — para garantir o transporte<br />

até os ensaios e a alimentação,<br />

mas são comuns os casos em<br />

que esse dinheiro ajuda no sustento<br />

da família. No caso de Angelis, é<br />

com esse dinheiro que ela faz suas<br />

compras.“Depois de entrar para a<br />

orquestra, ela ficou mais organizada.<br />

Por isso, deixo com ela o valor<br />

da bolsa e ela o administra sozinha.<br />

Quando precisa de alguma roupa,<br />

materiais, já tem esse dinheirinho.<br />

Agora, ela quer botar aparelho dentário,<br />

então está economizando”,<br />

diz Ângela.<br />

Não se exigia experiência nem<br />

intimidade com qualquer instrumento,<br />

mas a sensação que se tem<br />

ao ouvir as crianças tocarem é de<br />

que já fazem isso há anos. Nas férias<br />

escolares, em janeiro e fevereiro,<br />

elas poderiam ter parado, mas<br />

pediram para continuar praticando.<br />

Os ensaios em casa também fazem<br />

parte da rotina.“Agora eles estão<br />

em uma etapa em que realmente<br />

têm de se dedicar. Abrem mão de<br />

sair, de brincar, de jogar bola, ou<br />

dormir até mais tarde no final de semana.<br />

Estamos aumentando o nível<br />

de exigência, pois o objetivo é criar<br />

uma orquestra profissional”, explica<br />

o maestro Telmo Jaconi, 60 anos.<br />

A agenda de apresentações começa<br />

a ser preenchida. Na primeira<br />

vez em que os jovens músicos vestiram<br />

a roupa de gala preta para a<br />

estreia oficial no Theatro São Pedro,<br />

em abril deste ano, foi difícil segurar<br />

a ansiedade. “Tinha um banco<br />

que batizamos de banquinho do<br />

choro. Todo mundo sentou um pouquinho<br />

lá para chorar, mas não era<br />

de nervoso, era de emoção”, conta<br />

a menina. Angelis agora já toca em<br />

casamentos e cerimônias da igreja.<br />

E, aos poucos, o nervosismo vai dando<br />

lugar à segurança.<br />

Música que transforMa<br />

Quem observa Alan Marcos Serpa<br />

a deslizar, sereno, as cerdas do arco<br />

sobre as quatro cordas do violino<br />

não imagina como a música clássica<br />

transformou o mundo do garoto. O<br />

carioca, de apenas 11 anos, só “nas-<br />

ceu” para a vida em fevereiro de 2009, quando ingressou<br />

na Orquestra de Câmara Jovem. “O projeto salvou o meu<br />

filho. Cheguei a pensar que ele tivesse autismo ou algum<br />

outro problema neurológico”, revela Chirleide Dantas<br />

Bezerra, mãe de Alan.<br />

Há cerca de dois anos, ela saiu do Rio de Janeiro e<br />

encontrou em Porto Alegre uma chance de recomeçar.<br />

Veio do Sudeste do país com o caçula e a primogênita,<br />

Amanda, hoje com 14 anos, a convite do padrasto das<br />

crianças, Silvio Xavier. “Nos mudamos para a terra natal<br />

do meu companheiro porque lá estava difícil de conseguir<br />

um emprego e também porque precisávamos fugir<br />

da violência. E foi por já ter visto de tudo que Alan, mesmo<br />

tão novinho, se tornou um menino recluso e pouco<br />

interessado em qualquer atividade”, completa. Ele, inclusive,<br />

desprezava a música. E tinha motivos para tal:<br />

o garoto sabia que a mãe havia deixado de lado o seu<br />

sonho de tocar teclado para criar os filhos e viu, ainda,<br />

há alguns anos, o pai biológico vender esse instrumento,<br />

tocado com habilidade pela irmã, para comprar drogas.<br />

Mas a mudança de contexto pode transformar uma<br />

pessoa, e de uma hora para a outra. Um dia, depois de<br />

tantas tentativas de plantar nele o amor pela música —<br />

até mesmo por sugestão de uma psicoterapeuta do Rio —,<br />

Chirleide ficou surpresa quando Alan chegou em casa da<br />

escola com um panfletinho em mãos. “Para a minha plena<br />

felicidade, ele me pediu para inscrevê-lo na seletiva<br />

da orquestra”, relembra a mãe. Durante as eliminatórias,<br />

eles rezaram muito, afinal, só por meio do projeto<br />

o garoto poderia estudar música. Aulas particulares, por<br />

exemplo, nunca caberiam no orçamento da família.<br />

A bolsa-auxílio de R$ 190 passou a ser uma das rendas<br />

fixas da família. Mas a mãe não fica com o dinheiro para<br />

ela, apenas administra o valor cedido pelo menino porque<br />

é necessário colocar comida na mesa. Até a metade<br />

de 2010, Alan também ajudava Chirleide vendendo os<br />

salgadinhos feitos por ela aos colegas de orquestra. Nos<br />

intervalo dos ensaios, de terça a sexta-feira, ele deixava<br />

o violino de lado e tirava da mochila um potinho cheio<br />

de delícias. Hoje, o garoto ocupa esse pequeno tempo<br />

experimentando outros instrumentos, para desenvolver<br />

ainda mais o seu talento.<br />

Alan desloca-se, de graça, de casa até o centro – e<br />

viceversa – com o consentimento dos cobradores e dos<br />

motoristas da linha Glória, bairro onde mora. Ele dribla<br />

a roleta e escorrega por baixo dela o seu corpo de<br />

um metro e meio de comprimento. No turno da tarde, o<br />

pequeno ainda precisa encontrar um jeitinho de passar<br />

o violino pelo equipamento de controle de passageiros.<br />

“Escolhi esse instrumento por ser o de som mais agudo,<br />

além de ser mais leve e fácil de carregar, afinal, sou pequeno,<br />

né?”, justifica.<br />

Alan, pela manhã, vai à escola. De tarde, se reúne<br />

com os integrantes da orquestra para desenvolver a<br />

obra musical em conjunto. À noite, é hora de estudar<br />

mais um pouco. “Depois de ver a novela — eu sou<br />

muito noveleiro —, faço os temas e volto para o violi-<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 21


no. Toco de 30 a 40 minutos antes<br />

de ir dormir”, relata.<br />

A família tem um gosto musical<br />

apurado. Na pequena casa de madeira,<br />

ninguém escuta pagode ou<br />

funk, por exemplo. Nos momentos<br />

de lazer, se não está jogando bola<br />

ou videogame, Alan fica na companhia<br />

dos pais, conversando ou<br />

escutando a coletânea de Chico<br />

Buarque e DVDs de músicos consagrados<br />

como Tom Jobim, João Bosco<br />

e Manuel Rosa.<br />

22 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

Como é contrário aos ritmos incentivados<br />

pela indústria cultural<br />

de hoje, o garoto também é alvo<br />

de chacota, principalmente na escola.<br />

“A música erudita não é popular.<br />

Fora que muitos da minha<br />

escola tentaram entrar na orquestra<br />

e só eu consegui. Então eles<br />

pegam no meu pé, não importa o<br />

que eu diga ou faça”, conta Alan.<br />

“Os colegas acham que ele quer<br />

aparecer, até já apanhou na escola.<br />

Mas ele não reclama de nada.<br />

Só não quer que machuquem a<br />

mão dele, porque aí não poderia<br />

tocar”, completa a mãe.<br />

Alan tem ainda mais um desejo:<br />

um dia tocar no naipe Violino<br />

1, responsável pela melodia das<br />

obras. Atualmente, ele faz parte<br />

do grupo de acompanhamento, o<br />

Violino 2. “Não peço para trocar<br />

porque essa parte da orquestra<br />

poderia ficar desfalcada”, conclui,<br />

mostrando ser um pequeno<br />

menino de grande coração.<br />

AlAn EscOlhEU O<br />

VIOlInO pOr tEr<br />

Um sOm AgUDO<br />

E pOr sEr fÁcIl<br />

DE trAnspOrtAr


COnhEçA<br />

O PROjETO<br />

Criada em março de 2009, a Orquestra é<br />

um projeto que visa à inserção social e musical<br />

de crianças e adolescentes de baixa renda<br />

e a criação de oportunidades no mercado<br />

de trabalho. Iniciativa da Secretaria da Justiça<br />

e do Desenvolvimento Social (SJDS), conta<br />

com a parceria da Famurs, com o patrocínio<br />

do Banrisul e apoio da Secretaria Estadual da<br />

Educação, Ministério Público Estadual (MPE) e<br />

Prefeitura de Porto Alegre.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

mpressionante foi como as nossas percepções acerca da pauta<br />

“Iforam mudando ao longo do percurso – da escolha do tema à<br />

finalização do texto. A princípio, falar sobre um projeto de música<br />

clássica dedicado exclusivamente a crianças de baixa renda nos parecia<br />

prático, simples, fácil. E não se deu diferente a execução das etapas<br />

do processo. no entanto, mesmo concluindo o curso de Jornalismo,<br />

aprendemos uma lição importante, básica por assim dizer: de nunca<br />

menosprezar um assunto; se entregando à pauta, as surpresas podem<br />

ser muitas. quando fomos à sede do projeto para acompanhar<br />

um ensaio da Orquestra, nos deparamos com um prédio de porta<br />

trabalhada, um hall de entrada luxuoso – de tapete vermelho, lustre<br />

de cristal e tudo – salas grandes e crianças sorridentes. Ao sermos<br />

apresentadas, não sabíamos se as mais encabuladas ali éramos nós<br />

ou elas. Depois, durante uma conversa ao fim da tarde com os cases<br />

indicados pelo maestro, nos deixamos contagiar pela pureza e o<br />

entusiasmo de Angelis e Alan. Ouvimos com atenção suas histórias, e<br />

ainda o depoimento da mãe da menina. Já a partir do encontro com<br />

a família de Alan, trabalhoso mesmo foi compilar numa lauda uma<br />

vida cheia de peculiaridades. Agora, nada mexeu mais com a gente<br />

do que a visita ao lar do pequeno violinista. numa sexta-feira, logo<br />

na sequência de uma audição na catedral metropolitana de porto<br />

Alegre, fomos com o garoto, chirleide e o esposo ao bairro glória.<br />

Descemos do ônibus, entramos num corredorzinho estreito e andamos<br />

cerca de 50 metros até pararmos em frente a uma retalhada casinha<br />

de madeira, sem portas nos cômodos e não muito organizada. Em<br />

compensação, as palavras proferidas na entrevista e as músicas da<br />

apresentação improvisada exclusivamente para nós foram escolhidas<br />

com cuidado por pessoas cultas e realizadas. Uma experiência<br />

surpreendentemente do avesso.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 23


A sociedAde do bArulho<br />

A complicAdA convivênciA<br />

com A músicA AltA que ecoA<br />

nos corredores dos prédios<br />

e no trAnsporte coletivo


MÚSICA PARA INCOMODAR<br />

TEXTO de dAnielA MAchAdo e JuliAnA JeZiorny<br />

FOTOS de TATiele PrudÊncio<br />

Ganha pão de uns, hobbie e até terapia para outros. Presente<br />

em todos os momentos da vida, não importa qual<br />

seja o estado de espírito da pessoa, lá está a música.<br />

Responsável por causar sensações inexplicáveis no humor,<br />

consegue extrair sorrisos de rostos esperançosos e lágrimas de corações<br />

partidos.<br />

De samba a rock, os estilos variam em cada casa noturna e também<br />

nos lares mundo afora. Alguns guardam preconceito pelo gosto<br />

musical alheio, outros se dizem ecléticos e não se importam em<br />

trocar alguns minutos de pagode por sertanejo. O que importa em<br />

todos os casos é respeitar os decibéis permitidos, o horário estipulado<br />

e as pessoas presentes no ambiente.<br />

A inclusão digital facilitou a aquisição de aparelhos celulares e<br />

rádios hipermodernos a baixo custo. E é aí que começam os problemas.<br />

Nem todo mundo respeita o espaço público<br />

e acaba deixando o bom senso de lado na hora de<br />

escutar música — a todo volume — nos lugares que<br />

frequenta ou em sua própria casa.<br />

Não importa a hora do dia ou a cidade pela qual<br />

se ande, basta entrar em um trem ou ônibus que,<br />

na maioria das vezes, é possível se deparar com<br />

alguém compartilhando a sua playlist com o resto<br />

das pessoas.<br />

O analista de suporte Tiago Motta, 20 anos, conhece<br />

bem esse problema. Há dois anos, faz diariamente<br />

o trajeto Novo Hamburgo - Porto Alegre.<br />

Para chegar até o local de trabalho, pega dois ônibus<br />

e um trem. Como atende diversos clientes na<br />

capital gaúcha, por vezes precisa se deslocar em<br />

vários transportes coletivos ao longo do dia. Estudante<br />

do terceiro semestre de Sistemas da Informação<br />

na Unisinos, duas vezes por semana ainda<br />

muda sua rota no final da tarde para estudar em<br />

São Leopoldo.<br />

Em meio a essa rotina de idas e vindas, já se<br />

deparou diversas vezes com passageiros escutando<br />

música sem fone de ouvido. “Já ouvi de tudo: eletrônica,<br />

funk e até brega. Essas pessoas escutam música para elas e<br />

para os que estão ao seu redor”, desabafa.<br />

Motta nunca teve coragem de abordar quem incomoda o sossego<br />

alheio, mas já presenciou alguns incomodados pedirem para o volume<br />

ser baixado. “Os perturbadores do silêncio até dão uma diminuída<br />

no som, mas é só a pessoa que pediu para fazer menos barulho<br />

sair de perto que eles voltam a aumentar”, reclama.<br />

ConsCientização Criativa<br />

A campanha pelo uso de fones de ouvido nos ônibus feita pela<br />

empresa de transporte porto-alegrense Carris está sendo bem aceita<br />

entre os usuários. Segundo o coordenador de Comunicação e Marketing<br />

da empresa, Márcio Lara, as constantes reclamações dos usuários<br />

fizeram com que o setor de comunicação criasse uma campanha<br />

de conscientização. “Muitos passageiros reclamavam que algumas<br />

pessoas escutavam música alta sem fones de ouvido, transformando<br />

PriMeirA iMPressÃo | deZeMbro/2010 | 25<br />

A empresA de<br />

trAnsporte<br />

cArris criou<br />

umA cAmpAnHA<br />

pArA o uso de<br />

Fones de ouvido<br />

nos ÔniBus


o ônibus em um trio elétrico. Para acabar<br />

com esse desconforto, criamos uma<br />

campanha e primeiro a disseminamos no<br />

Twitter, um canal em que entramos em<br />

contato direto com os jovens, que hoje<br />

representam mais de 40% dos usuários<br />

dos nossos serviços”, explica.<br />

Por meio do perfil @Carris_POA, a empresa<br />

colocou três layouts de cartazes da<br />

campanha para votação e ficou entre os<br />

dez perfis mais retuitados da semana no<br />

site de rede sociais Twitter durante o período<br />

de escolha dos internautas. O layout<br />

vencedor já está circulando nas televisões<br />

existentes no interior dos ônibus da Carris<br />

e não tem prazo para sair do ar.<br />

Quando fala sobre a aceitação da<br />

campanha pelos passageiros, Márcio é<br />

categórico. “Foi a melhor possível! Também<br />

ganhamos muita visibilidade nos veículos<br />

de comunicação. Até em Salvador<br />

teve uma pessoa que se interessou pela<br />

campanha e disse que vai levar a ideia<br />

para os órgãos responsáveis pelo transporte<br />

público de lá. Os usuários seguiram<br />

mandando mensagens de apoio, su-<br />

26 | PriMeirA iMPressÃo | deZeMbro/2010<br />

o produtor musicAl<br />

leAndro BreHm<br />

receBiA cArtAs<br />

quilométricAs de<br />

umA viZinHA que<br />

nÃo suportAvA o<br />

volume dAs músicAs<br />

que ele ouviA<br />

gestões para novas campanhas e muitos<br />

elogios”, ressalta.<br />

Tiago viu a campanha da Carris sobre<br />

o uso dos fones de ouvido e aprovou a<br />

iniciativa. “Já vi nas televisões dos ônibus.<br />

Como as pessoas estão ali distraídas<br />

com a programação, além das notícias,<br />

já veem a mensagem da empresa sobre o<br />

uso dos fones e aderem à ela”, diz.<br />

o barulho mora ao lado<br />

É sabido que, quando moramos em<br />

apartamentos ou condomínios, são impostas<br />

algumas regras, principalmente<br />

quando o assunto diz respeito ao barulho.<br />

Porém, quando não se respeita o<br />

limite do outro, as coisas podem ficar<br />

bem complicadas. É o caso do arquiteto<br />

Leandro Brehm de Lima, 33 anos.<br />

Após residir em cidades como São Paulo,<br />

Buenos Aires e Florianópolis, Leandro<br />

voltou para Porto Alegre e acabou indo<br />

morar em um prédio localizado no Centro<br />

da cidade. A primeira manhã na casa nova<br />

foi o marco inicial de uma guerra sem fim<br />

com uma vizinha, devido aos altos deci


éis advindos do computador dele. “Era<br />

umas 10h quando acordei e coloquei uma<br />

música para arrumar a mudança e trazer<br />

boas energias ao meu ambiente particular.<br />

Em menos de 15 minutos, ouvi batidas<br />

desesperadas na minha porta. Era uma vizinha,<br />

que logo se apresentou como moradora<br />

e advogada e falou durante muito<br />

tempo sobre ondas sonoras, fragilidade do<br />

prédio, convivência em sociedade e sobre<br />

aquele som que estava incomodando os<br />

seus ouvidos”, explica.<br />

Prontamente o volume foi diminuído<br />

por Leandro, contudo, as complicações<br />

só estavam começando. Passados alguns<br />

meses, ele deixou de ter a música apenas<br />

como hobbie e começou a trabalhar efetivamente<br />

com ela, como produtor musical<br />

e DJ. Com aparelhagem própria, iniciou<br />

pesquisas e mixagens de músicas no seu<br />

apartamento.<br />

A vizinha, por sua vez, complementava<br />

as reclamações verbais com bilhetes<br />

passados por baixo da porta. “Eram cartas<br />

quilométricas que falavam de convivência<br />

e som”, explica ele. Leandro sempre<br />

acabava baixando o volume, ainda que<br />

estivesse seguindo as regras de horários<br />

permitidos para escutar música mais alta<br />

estabelecidas pela lei do silêncio, que<br />

proíbe altos decibéis entre 22h e 7h.<br />

Mas engana-se quem pensa que a vizinha<br />

só reclamava de Leandro. Em uma<br />

tarde de sábado, a moradora atravessou<br />

a rua e foi ao prédio em frente ao seu<br />

para protestar contra o volume alto que<br />

ultrapassava as paredes. A partir dessa<br />

data, todos os condôminos começaram<br />

a isolá-la e não dar mais atenção para<br />

suas reclamações.<br />

Depois de dois anos e meio de discussões<br />

e queixas, a moradora resolveu se mudar.<br />

Leandro, que nunca havia enviado nenhuma<br />

carta para sua vizinha, resolveu fazê-lo.<br />

“Escrevi que era para ela, nesta nova casa,<br />

não abrir mão de nenhum pré-requisito de<br />

felicidade, como vedação acústica e isolamento<br />

total de vizinhos”, ironiza.<br />

No dia da mudança, ocorreu um fato<br />

curioso, os condôminos comemoraram a<br />

saída daquela que consideravam a antissocial<br />

do prédio. “Absolutamente todos<br />

os moradores do prédio colocaram balões<br />

nas suas portas como forma de celebração.<br />

Ninguém falou nada, mas com certeza<br />

ela entendeu”, lembra Leandro.<br />

Leandro garante que só se estressou<br />

com essa vizinha. “Nunca tive problemas<br />

com outros moradores, porque sei o quanto<br />

a música alta incomoda. Quando passa<br />

do horário estabelecido, escuto música<br />

com fones de ouvido”, finaliza.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

m meio a tantas pautas que abordavam a temática da música sob seus<br />

“easpectos positivos, decidimos inverter o quadro para mostrar aos leitores o<br />

quanto ela pode ser incômoda na vida de algumas pessoas. o assunto polêmico<br />

parecia não ter muitas testemunhas, mas quando saímos a campo para observar de<br />

que forma abordaríamos a pauta, nos surpreendemos com a quantidade de cases<br />

que poderiam ser usados. uma das repórteres anda diariamente de transporte<br />

coletivo e já havia mostrado aversão aos usuários que não respeitam o espaço<br />

público ao escutarem música alta. Já a outra, mora em um condomínio e convive<br />

com o barulho dos seus vizinhos e as reclamações da síndica. mais do que expor<br />

o problema, também buscamos um exemplo que mostrasse a sua solução, como<br />

foi o caso da carris. Através das entrevistas, percebemos o quanto é difícil para as<br />

pessoas, principalmente aquelas que moram sozinhas ou que percorrem um longo<br />

trajeto em meios coletivos de transporte, conviverem com o silêncio. para elas, a<br />

música acaba sendo a única companhia.”<br />

PriMeirA iMPressÃo | deZeMbro/2010 | 27


MÚSICA PARA APRENDER<br />

MúSIcA nAS<br />

28 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


BAncAS Do<br />

MARCO ANTÔNIO FILHO<br />

sucesso ao quase<br />

esquecimento, as<br />

revistas De cifras<br />

fizeram história<br />

levanDo aos<br />

músicos “caseiros”<br />

canções que<br />

marcaram época<br />

TEXTO DE VInÍcIUS GHISE<br />

E TIAGO VARGAS<br />

FOTOS DE MARcO AnTÔnIO FILHO<br />

E RIcARDO MAcHADO<br />

É<br />

muito difícil que um músico,<br />

seja profissional, amador ou<br />

aspirante, não tenha, pelo<br />

menos uma vez em sua trajetória,<br />

se deparado com uma das<br />

populares revistas de cifras vendidas<br />

em bancas. As tradicionais revistinhas<br />

impressas em papel jornal,<br />

comercializadas em todo o país,<br />

fazem parte da história recente do<br />

aprendizado musical no Brasil.<br />

O que pouca gente sabe é de<br />

onde vêm essas páginas amareladas,<br />

que, com certa habilidade e<br />

algum talento, se tornam música.<br />

Parte dessa história é contada por<br />

Vitor Biancardi, que há quase 30<br />

anos é sócio da Imprima Comunicação<br />

Editorial.<br />

Nascido em uma família de músicos,<br />

Biancardi não contrariou a<br />

regra. Filho de maestro, também<br />

dedicou-se ao ensino da música. A<br />

história começou a ser escrita, ou<br />

impressa, para superar as dificuldades<br />

de repassar as canções aos alunos<br />

que não tinham conhecimento<br />

para ler partituras. “A ideia era criar<br />

uma revista com canções cifradas,<br />

para que o aluno pudesse tê-la em<br />

mãos a qualquer hora, em qualquer<br />

lugar”, relembra Biancardi.<br />

Assim surgiu a primeira Violão &<br />

Guitarra, que, aos poucos, foi aper-<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 29


30 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

RICARDO MACHADO<br />

feiçoada. Passado algum tempo,<br />

novos métodos de ensino de música<br />

por meio das cifras foram publicados<br />

pela Editora Com a Corda Toda,<br />

pertencente ao Grupo Imprima.<br />

A ampliação significativa dessas<br />

publicações ficou evidente com a<br />

multiplicação dos métodos que envolvem<br />

cifras: Violão Curso Prático,<br />

Batidas e Dedilhados, Guitarra Curso<br />

Prático, Método Prático Violão &<br />

Guitarra, Violão 7 Acordes, Músicos<br />

da Noite, Grupos de Rock, Toque Já<br />

Violão & Guitarra, etc.<br />

Segundo Biancardi, o processo<br />

de escolha das músicas era parte<br />

importante do processo. “Após pesquisas<br />

de mercado, com rádios e<br />

gravadoras, fazíamos a transcrição e<br />

publicávamos”. Hoje as revistas do<br />

tipo Violão & Guitarra têm uma tiragem<br />

média de 6,5 mil exemplares,<br />

muito diferente do período áureo do<br />

negócio, final dos anos 1980, quando<br />

esse número era bem maior.<br />

Além da procura ter migrado<br />

para a internet, onde existem sites<br />

especializados em cifras, como<br />

o www.cifraclub.com.br, Biancardi<br />

conta que os editores passaram a<br />

enfrentar outros problemas. “Hoje<br />

as bancas ocupam seu espaço com<br />

produtos alternativos como cigarros,<br />

pilhas, sorvetes, Xerox, diminuindo<br />

o espaço para uma boa exposição<br />

das revistas.”<br />

Em Porto Alegre e Região Metropolitana,<br />

a empresa responsável<br />

pela distribuição das revistas de cifras,<br />

produzidas pela Imprima, é a<br />

Comercial de Publicações CPL. Segundo<br />

Thiago Borges, funcionário da<br />

empresa, há alguns anos as revistas<br />

representavam boa parte da vendagem<br />

mensal. “As publicações do<br />

gênero eram bem populares e eram<br />

vendidas muito por indicação, pois<br />

nunca houve publicidade para divulgar<br />

esse produto”, lembra.<br />

A concorrência, contudo, é um<br />

tanto desleal. Com a massificação<br />

da internet, não apenas ficou mais<br />

fácil encontrar cifras, como também<br />

trocar informações com outros<br />

músicos ou aspirantes. Além disso,<br />

há conteúdo ainda mais variado do<br />

que o das revistas.<br />

A velocidade com que os prin-


cipais sites do gênero incluem material atualizado se<br />

deve, logicamente, pela grande quantidade de pessoas<br />

que acessam o conteúdo. Forma-se aí uma rede de<br />

colaboração, e entre usuários estão também músicos<br />

profissionais que se valem de seu conhecimento para<br />

tentam ganhar dinheiro complementando os conteúdos<br />

disponibilizados nos sites.<br />

Fato é que existem cifras para todos os gostos musicais<br />

na web. Os mais saudosistas podem até não se agradar,<br />

acham que não é a mesma coisa. Para eles, acessar<br />

o conteúdo na internet é mais ágil, mas não substitui,<br />

ainda, as publicações que permanecem sendo editadas.<br />

Elas podem ser levadas para todo o canto e com certeza<br />

ainda figuram em churrascos e reuniões de família.<br />

Parece ser esse saudosismo que mantém vivas as publicações<br />

do gênero. Levar a revista para um parque, à<br />

beira de um lago, ou até mesmo para o canto preferido<br />

da casa, ainda atrai. No entanto, com a mobilidade digital,<br />

esse “recurso” também deixa, aos poucos, de ser<br />

exclusivo. De qualquer forma, muita gente ainda espera<br />

que as revistas de cifras permaneçam sendo editadas. As<br />

páginas amareladas têm seu charme.<br />

Quando o papel vira música<br />

“Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó”. Sete notas, muitas<br />

variáveis. Quem nunca quis, tentou ou até conseguiu<br />

aprender a tocar um instrumento musical? A música atrai<br />

a todos, inclusive crianças. Fazer som por meio de gestos<br />

parece mágico para os pequenos, e os adultos também<br />

se encantam.<br />

O instrumentista, produtor musical e radialista Daniel<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

elatar parte da história das revistas<br />

“rde cifras e o que elas representam<br />

para os músicos era nossa intenção.<br />

nosso objetivo era, principalmente,<br />

falar sobre a história dessas publicações<br />

e seu passado recente. pretendíamos,<br />

contudo, dar um tom mais nostálgico<br />

do que o obtido. faltou um relato<br />

mais impactante. Buscamos diversas<br />

vezes encontrar a pessoa que desse um<br />

“recheio” a mais na reportagem. ao<br />

final da busca, concluímos que a ideia<br />

inicial não foi completamente alcançada.<br />

pensamos numa segunda opção, que<br />

seria falar com algum professor que<br />

utilizasse essas publicações como auxílio<br />

na hora de passar músicas novas aos<br />

seus alunos. também não conseguimos<br />

exatamente o tipo de profissional que<br />

Alamón, que por cinco anos trabalhou como professor de<br />

música na escola da Família Lima, em Porto Alegre, fala<br />

sobre sua experiência com as cifras. “Elas ajudam o músico<br />

a se guiar, quando vai acompanhar um cantor, por<br />

exemplo”, explica.<br />

Embora, segundo Alamón, as cifras não sejam tão<br />

completas como as partituras, funcionam muito bem<br />

como recurso de aprendizado a distância. O instrumentista<br />

acredita que elas colaboram para a evolução dos<br />

alunos, mas não resolvem todo o “problema”. “Elas complementam.<br />

Tu não podes sair apenas dali, fica muito<br />

sem chão. Às vezes tu não consegues entender o que estão<br />

tentando passar, então falta aquela base lá atrás, de<br />

um bom aprendizado de pauta, pentagrama, de música<br />

em si”, explica Alamón.<br />

O músico ressalta, também, uma peculiaridade das<br />

cifras. “As notas musicais não começam pelo Dó, o Lá<br />

é a primeira nota”, afirma. Esse sistema é popular nos<br />

países de língua inglesa, onde são utilizadas letras para<br />

dar nome às alturas das notas musicais. As letras A, B, C,<br />

D, E, F e G correspondem a Lá, Si, Dó, Ré, Mi, Fá e Sol,<br />

respectivamente.<br />

Se hoje questionamos por quando tempo as revistas<br />

de cifras ainda estarão disponíveis no mercado, cabe aqui<br />

uma reflexão. Temos a percepção de que todos estão conectados<br />

à web, mas a realidade é um pouco diferente.<br />

Além disso, a relação que temos com o “toque” do papel<br />

é algo que não muda.<br />

Se você não encontrar mais as revistas de cifras nas<br />

bancas, procure-as em um bom sebo. Talvez seja esse<br />

o caminho.<br />

tínhamos em mente. resumindo, nosso<br />

intuito era iniciar do singular, contando<br />

como as revistas fizeram ou fazem parte<br />

da vida de alguém. Depois partiríamos<br />

para o histórico e dados mais técnicos.<br />

sobrou-nos o texto mais “seco”, pois,<br />

de fato, essas revistas não fazem mais<br />

o sucesso que faziam antigamente. De<br />

qualquer maneira, conseguimos alguns<br />

relatos interessantes. falar com vitor<br />

Biancardi, sócio da editora que iniciou o<br />

negócio das revistas de cifras, e também<br />

com Daniel alámon, ex-professor de<br />

música, foi bem interessante.acreditamos<br />

que fica aqui não o relato <strong>completo</strong>,<br />

mas parte dele. quem sabe no futuro,<br />

possamos ler os capítulos que seguem e<br />

conhecer mais sobre esta história pouco<br />

abordada, mas curiosa.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 31


música para FaZEr sOZiNHO<br />

ExéRcItO DE<br />

uM hOMEM Só<br />

32 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

TEXTO DE MANOELA BANDINELLI E ROBERtA ROth | FOTOs DE GABRIELA DA SILVA<br />

Criação, gravação e exeCução de<br />

músiCas não preCisam ser feitas<br />

por um grupo. É possível ser o<br />

frontman e todos os outros<br />

Lembre daquela velha banda de<br />

garagem produzindo sons tão<br />

altos capazes de ensurdecer os<br />

vizinhos. Eles estavam fazendo<br />

música. Agora troque essa imagem por<br />

um jovem compenetrado em frente ao<br />

computador. Ele não está estudando.<br />

Ele não está jogando. Ele também está<br />

fazendo música.<br />

A ponte entre arte e tecnologia vem<br />

se estreitando, criando o elo que une as<br />

duas áreas e dando origem à formação<br />

de um espaço com novas dimensões e<br />

limites inalcançáveis por meios tradicionais.<br />

A música está incluída nesse<br />

caminho, com o uso de computadores<br />

em composições sendo praxe em estúdios<br />

profissionais. A evolução chegou<br />

tal ponto que atualmente é possível<br />

fazer novas canções sem tocar ou possuir<br />

nenhum instrumento e, ainda, sem<br />

ajuda de ninguém.<br />

O termo one-man band (banda de<br />

um homem só), passou a ser empregado<br />

no início dos anos 80 para descrever<br />

artistas que tocavam todos os instrumentos<br />

de uma música, gravando um<br />

por vez e realizando a união dessas<br />

partições em uma canção única. A técnica,<br />

utilizada por amantes da música<br />

eletrônica, passou a fazer parte também<br />

do rock e outros estilos. Alguns<br />

músicos famosos como Prince, Lenny<br />

Kravitz e Paul McCartney fizeram gravações<br />

em que todos os instrumentos<br />

eram tocados somente por eles.<br />

Essa gravação solitária não é privilégio<br />

desses artistas famosos. A partir<br />

de softwares disponibilizados na internet<br />

e alguma noção musical, é possível<br />

criar um hit com direito a guitarra, baixo<br />

e bateria. Sem estúdio ou palheta.<br />

Para o estudante de Jornalismo<br />

Marcelo Collar, a ideia foi impulsionada<br />

por um problema na banda em que<br />

fazia parte: “O baterista teve um problema<br />

no pulso, e ficamos um tempo<br />

parados. Senti falta de fazer música”.<br />

Assim surgia o projeto solo intitulado<br />

Plaza de Toros Monumental, de criação<br />

e execução exclusivas do estudante.<br />

A experiência anterior com instrumentos<br />

facilitou o processo para Collar,<br />

que já gravava no computador sugestões<br />

de melodias, porém sem nunca ter<br />

executado o processo inteiro. Os caminhos<br />

foram descobertos com alguns<br />

percalços: “Tive que achar soluções<br />

para os problemas que existem quando<br />

se grava em casa. Para a bateria<br />

eletrônica, consegui um programa que<br />

deixa um som bem natural e, para o<br />

vocal, achei um jeito bom de gravar a<br />

voz em casa”. O que parece diversão já<br />

é tratado com profissionalismo: “Apesar<br />

de também ser uma brincadeira,<br />

continuei gravando e querendo lançar<br />

e mandar para selos de gravadoras,<br />

porque fiquei satisfeito com a qualidade<br />

e com o resultado”.<br />

O músico Diego Voges tratou de não<br />

ser somente one-man band e investiu<br />

no ramo musical. Diego também registrava<br />

em seu computador ideias para<br />

sua antiga banda e hoje é dono de um<br />

estúdio de gravação. Com a divulgação<br />

web de suas composições no grupo<br />

Hermit Age, do qual fez parte por mais<br />

de dez anos, o músico aprendeu a criar<br />

diferentes linhas de instrumentos.<br />

Inspirado no conceito do one-man<br />

band sueco Thomas “Quorthon” Forsberg,<br />

que gravou sozinho álbuns da<br />

banda de Black Metal Bathory, Diego<br />

fez o mesmo em um disco inteiro da<br />

Hermit Age: “Foi onde vi que era possível<br />

uma pessoa só gravar um bom álbum.<br />

Me mudei de cidade, e, com isso,<br />

a formação da banda, antes composta<br />

por até quatro pessoas, nunca mais se<br />

fixou. Eu tinha muitas ideias e não queria<br />

desperdiçá-las”, conta. Para Diego,<br />

a conclusão do projeto se transformou<br />

em um verdadeiro desafio imposto por<br />

outros: “No início eu comentava que<br />

faria tudo sozinho e fui desacreditado,<br />

mas isso até serviu como incentivo!”<br />

prazer e negócios<br />

Diego não é membro da família Von<br />

Trapp, mas é mais do que acostumado<br />

com a atmosfera musical. A experiência<br />

com estúdios vem dos tempos da<br />

gravação analógica. Os pais do músico<br />

sempre trabalharam em rádios e<br />

locuções comerciais: “Desde os meus<br />

três anos, já estava dentro de estúdios<br />

vendo o pessoal editar comercial com<br />

tesoura e fita adesiva”.<br />

A convivência com as pessoas e a<br />

paixão pela música levaram Diego ao<br />

caminho temido por muitas pessoas:<br />

misturar prazer com negócios. “Nada


Com exCeção das<br />

guitarras, diego voges<br />

(aCIma) e marCelo Collar<br />

Criam os sons dos<br />

instrumentos diretamente<br />

no Computador<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 33


34 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

melhor que trabalhar e ganhar dinheiro fazendo o que se ama,<br />

não é? Já no primeiro ano, gravei duas ou três bandas, mas<br />

ainda como cinegrafista e fotógrafo. Porém, aos poucos, o estúdio<br />

foi crescendo e o trabalho como câmera foi diminuindo,<br />

até sumir”, conta. Estava fundado assim o Ufo Rock Studio,<br />

em Capão da Canoa, litoral norte do Rio Grande do Sul.<br />

De prontidão, já aprendemos com Diego uma dica que<br />

repassamos: “O processo de gravação faz uma banda crescer<br />

muito musicalmente.” Diego contabiliza mais de 1.200 músicas<br />

gravadas em sete anos do estúdio. De one-man band a<br />

every men: “Hoje é possível fazer praticamente tudo com o<br />

recurso que tenho. Comparo minhas gravações com as feitas<br />

por bandas grandes, que gravaram em estúdios milionários, e<br />

não perco em nada”.<br />

Transformar um hobby em negócio é a atividade única e<br />

exclusiva de Diego: “Creio que já passaram por aqui umas 200<br />

bandas, possivelmente. Também gravamos locução comercial,<br />

edição de áudio, vinhetas, entre outros.” Agora, fazer<br />

música segue incluído nos prazeres (e nos negócios). Diego<br />

atualmente participa de duas bandas, e nem precisamos dizer<br />

quem faz as gravações das músicas.<br />

como faz?<br />

Em ambos os casos, tanto Diego quanto Collar tinham<br />

experiências prévias com instrumentos musicais. Porém,<br />

com a tecnologia atual, é possível criar sem ter habilidade<br />

da maneira tradicional. Existem softwares que auxiliam no<br />

entendimento de partituras (ver quadro<br />

ao lado), mas é desejável noção de melodia<br />

ou de notas musicais, para agradar<br />

ao ouvido.<br />

Diego conta que o processo de familiarização<br />

com o computador foi demorado,<br />

ainda mais que a estrutura não era<br />

nada profissional. Além disso, apesar de<br />

ter noção musical, não tinha nenhuma<br />

noção tecnológica: “Comprei o computador<br />

e mal sabia ‘copiar e colar’ textos,<br />

mas preferi aprender a programar baterias<br />

no Cakewalk Pro Audio 9 (software<br />

de composição) antes mesmo de aprender<br />

a digitar.”<br />

Marcelo contava com experiência<br />

no computador, mas não sabia tocar<br />

bem bateria, o que não foi problema<br />

para a execução de suas músicas:<br />

“Para fazer de maneira eletrônica basta<br />

ter uma noção que o baterista tem<br />

duas mãos e duas pernas e tu consegues<br />

fazer uma bateria que soa como<br />

uma de verdade”.<br />

Sabem aqueles tópicos de ajuda dos<br />

softwares que geralmente ignoramos, que<br />

têm um ponto de interrogação? Eles são<br />

úteis! Diego revela que utilizou por muito<br />

tempo os tópicos de ajuda que os próprios<br />

programas oferecem. Deixar as dicas<br />

(tips) ativadas na inicialização de softwa-<br />

res também auxilia. Quanto às dúvidas<br />

que possam surgir, Diego tem a ajuda de<br />

um fórum online: “Sempre pesquiso no<br />

www.audiolist.org, um site com fórum<br />

direcionado a profissionais do áudio,<br />

com gente que sabe tudo nessa área.”<br />

Solitário e acessível como todo o processo,<br />

a um clique de distância.<br />

processo de criação<br />

Esqueça papel e caneta. Para os<br />

one-man band, o processo de criação<br />

é outro: “Me vem aquela ideia na cabeça<br />

e fico repetindo mentalmente.<br />

Quando chego em casa, crio uma bateria<br />

eletrônica, pego a guitarra e,<br />

aos poucos, começo a compor a música”,<br />

conta Marcelo Collar. “Como<br />

instrumento real, utilizo só a guitarra.<br />

A bateria é eletrônica. Uso mixagens,<br />

gravo em média duas ou três guitarras<br />

por vez, uma mais grave para dar<br />

preenchimento maior, uma mais aguda<br />

para ficarem mais definidos os riffs”,<br />

diz Collar, que já pensa em incluir mais<br />

um toque pessoal nas criações: “Tenho<br />

pensado em colocar piano, ver se consigo<br />

colocar acordeon, alguma coisa<br />

mais gauchesca no meio”. Tudo de<br />

dentro do quarto.<br />

Para facilitar ainda mais, é possível<br />

compor já gravando. É assim que Diego<br />

Voges faz suas músicas: “Um looping<br />

de bateria eletrônica me dá o tempo,<br />

para poder tocar em cima, e gravo<br />

uma linha de guitarra guia”.<br />

O processo é curioso e peculiar a<br />

cada artista inclusive na hora de colocar<br />

letras na música. Diego conta que<br />

vai gravando em cima das bases um vocal<br />

guia cantado em “embromation”,<br />

para depois começar a trabalhar nos<br />

arranjos. Assim, sem letra nem nada,<br />

somente composta por gemidos e sussurros<br />

inventados, a música começa a<br />

tomar forma. Segundo Diego, a letra é<br />

criada em cima do tal “embromation”<br />

pela sonoridade da letra, e com esse<br />

método, certas vogais surgem e funcionam<br />

bem em determinada melodia:<br />

“É como fazer uma paródia da letra<br />

inexistente, e nessa paródia passar a<br />

mensagem. É um desafio no mínimo<br />

interessante. E funciona!”, diz Diego.<br />

palco e plateia, é possível?<br />

É verdade que, com todos os recursos<br />

disponíveis no computador,


é possível criar e muito, porém, é<br />

difícil executar a apresentação de<br />

qualquer one-man band sem ajuda.<br />

A bateria pode ser eletrônica, com<br />

um laptop ligado no amplificador,<br />

mas a guitarra precisa de alguém no<br />

comando, e ainda tem a voz! Ainda<br />

assim, Collar acredita ser mais fácil<br />

que da maneira tradicional. “A formação<br />

toda cabe no banco de trás<br />

de um carro. Não tenho mais idade<br />

para carregar bateria e ‘trocentos’<br />

quilos de equipamento para tocar<br />

em lugar podre”, confessa.<br />

Por conta de suas “bandas”, Collar<br />

teve resposta positiva de críticos<br />

musicais na internet. Tudo isso com<br />

custo inicial quase zero. “Gastei com<br />

o Plaza de Toros R$ 60, quando comprei<br />

duas fitas de vídeo para a gravação<br />

do videoclipe e depois paguei<br />

um xis pros caras que foram filmar<br />

comigo”. Diego começou a investir<br />

conforme o dinheiro foi entrando, e<br />

hoje tem todos os equipamentos de<br />

um estúdio profissional.<br />

Quanto ao sucesso, sabemos que<br />

ele se manifesta de diferentes formas.<br />

Se antes existiam fã-clubes e<br />

cartas escritas com metros de extensão,<br />

hoje perfis em mídias sociais<br />

criados por admiradores já<br />

sinalizam o sucesso. E são esses<br />

elogios, virtuais ou não, que fazem<br />

qualquer exército de um homem só<br />

estar pronto para a guerra do mercado<br />

musical.<br />

imprEssÕEs DE rEpÓrTEr<br />

icamos felizes quando o assunto<br />

“fmúsica foi definido como tema<br />

da revista, é algo com o qual nos<br />

identificamos. música sempre esteve<br />

presente, marcando vários momentos<br />

das nossas vidas. e admitimos: qualquer<br />

coisa que se faça sem a companhia de<br />

uma ou várias melodias é bem menos<br />

emocionante. as buscas pelas bandas de<br />

um homem só foram facilitadas quando,<br />

dentro da sala de aula, encontramos uma<br />

fonte, o marcelo Collar. além de colega<br />

e amigo, ele se disponibilizou totalmente<br />

a nos contar as experiências pessoais e<br />

SEjA A SuA PRóPRIA BANDA<br />

equipamento: é preciso ter um computador bom e<br />

uma placa de som que, de preferência, grave em 24-bits e<br />

que tenha phantom power, um dispositivo da placa de som<br />

para garantir que ela vá trabalhar com microfone condensador,<br />

mais aconselhável para gravar voz. Além disso, um<br />

mixer ou uma mesa de som pequena ajudam bastante.<br />

Também é possível criar e gravar sons com celular, gravador<br />

portátil, e também com o iPad.<br />

softwares: existem diversos programas e aplicativos usados<br />

para gravação, escolha o que melhor se adapta às suas<br />

composições ou aquele que você domina melhor. Alguns exemplos:<br />

Sonar, Pro Tools, Cubase, Adobe Audition, MorphWiz.<br />

mostrar que qualquer pessoa que queira<br />

pode fazer isso. as entrevistas renderam, e<br />

foi fácil encontrar informações adicionais,<br />

já que nosso networking no mundo<br />

das bandas é bastante grande. a nossa<br />

ideia, desde o início, era fazer algo como<br />

um incentivo. muitas mentes criativas<br />

acabam deixando de produzir por falta<br />

de companheiros de produção musical e<br />

buscamos todas as informações essenciais<br />

para que qualquer um possa fazer isso<br />

sozinho. esperamos sinceramente que<br />

novas promessas apareçam, inspiradas<br />

por esta matéria.”<br />

gravando: pode se usar uma mesa de som, ou plugins de efeitos,<br />

ou caixa de som, microfone, guitarra, bateria, baixo e outros<br />

instrumentos, mas nenhum deles é extremamente necessário, dependendo<br />

da proposta. Depois de tudo criado e gravado, se confere<br />

o volume, os timbres e, por último, é aconselhável masterizar o<br />

som, processo que dá mais consistência e volume. Para isso, se usa<br />

outro tipo de software, como Soundforge ou Cubase.<br />

divulgação: também é preciso criatividade para mostrar<br />

o trabalho. Além das técnicas clássicas de mandar<br />

CD’s para as gravadoras, utilize as redes sociais e as plataformas<br />

de internet para atingir diferentes públicos em<br />

proporções bem maiores.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 35


MÚSICA PARA REZAR<br />

DANILO PLACK<br />

ENCONTROU<br />

NA RELIGIÃO<br />

E NA MÚSICA<br />

UMA SAÍDA<br />

DO MUNDO<br />

DAS DROGAS<br />

O EncOntRO PElA fé<br />

36 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

DESDE<br />

CRIANÇA,<br />

LUCINÉIA<br />

PELISSARI<br />

CANTA<br />

DURANTE<br />

AS MISSAS<br />

JÉSSICA BERGER ANDERSON LOPES


ESTA É A hISTóRIA DE DANILO E LUCINÉIA, qUE POR CAMINhOS DIfERENTES<br />

ENCONTRARAM NA RELIGIÃO A PAIxÃO PELA MÚSICA<br />

TEXTO DE GIAnInI OlIvEIRA DA SIlvA E JOEl OlIvEIRA | FOTOS DE AnDERSOn lOPES E JéSSIcA BERGER<br />

“De sorte que a fé é pelo ouvir,<br />

e o ouvir pela palavra de Deus.”<br />

(Romanos 10:17)<br />

As músicas com letras que propagam o<br />

evangelho deixaram de ser restritas às<br />

celebrações cristãs e conquistaram o<br />

gosto de diversas pessoas. O tema musical<br />

ganhou tamanha proporção que cantores<br />

como Aline Barros, Padre Marcelo Rossi, Padre<br />

Fábio de Mello, Grupo Rosa de Saron, Antônio<br />

Maria, Padre Zezinho – precursor dos padres<br />

cantores desde a década de 1960 – entre outros<br />

nomes, tornaram-se grandes sucessos, reunindo<br />

milhares de fieis em suas apresentações.<br />

No Brasil, a indústria de CDs e DVDs cristãos<br />

movimenta por ano mais de R$1,5 bilhão, segundo<br />

dados da Associação Brasileira de Produtores<br />

de Discos (ABPD). A expectativa é de que esse<br />

número possa dobrar nos próximos dez anos, já<br />

que o país possui cerca de 30 milhões de evangélicos,<br />

e as projeções são de que essa população<br />

ultrapasse os 50 milhões até 2020.<br />

Conforme relata Júlio César Junqueira Cezimbra,<br />

teólogo e pastor há 20 anos, a música<br />

não só aproxima os fiéis da igreja como também<br />

cumpre o seu papel perante a Bíblia. “O louvor<br />

e a adoração fazem parte da vida, tocando as<br />

pessoas. A Bíblia instiga a louvar. Quando você<br />

conhece Deus, você começa a andar por convicção,<br />

você sente Deus, você fala com ele”, afirma<br />

o pastor, que trabalha há sete anos na Igreja<br />

Missionária de Evangelização de Células (IMEEC)<br />

de Lajeado.<br />

A escolhA que mudou o destino<br />

Cabelos brancos, voz serena, mãos de quem<br />

toca bateria há muitos anos e feições de quem<br />

carrega uma grande bagagem de vida. Seus olhos<br />

não se contêm ao relembrar momentos tão marcantes<br />

entre a música e sua vida. Essa é a história<br />

de Danilo Plack, 60 anos, atual baterista na<br />

banda da igreja IMEEC de Lajeado.<br />

Jovem, sonhador, cheio de garra e apaixonado<br />

pela música, esse era Danilo, que com 20 anos<br />

iniciava a carreira musical. Baterista da Banda<br />

Guarujá, era um dos cinco integrantes que tocavam<br />

nas noites animando os bailes e festas da<br />

região. Porém, as drogas e bebidas, antes distantes<br />

da sua realidade, começaram a fazer parte<br />

de sua vida, transformando o que era prazer em<br />

depressão. “Eu alegrava os outros durante a noite<br />

e pela manhã estava na tristeza”, relembra.<br />

Junto com o sucesso profissional, vinha o<br />

que mais tarde seria o motivo de sua recuperação,<br />

sua filha e sua esposa. Logo o jovem<br />

percebeu que conciliar a rotina noturna com<br />

a família que havia constituído não seria fácil,<br />

porém, apesar das drogas e bebidas que estavam<br />

arruinando sua vida, a paixão pela música<br />

falava mais alto, não o deixando largar aquele<br />

ambiente. “Acreditava que, se parasse de tocar<br />

na noite, nunca mais teria outra oportunidade<br />

na carreira musical”, recorda.<br />

O jovem, antes alegre e cheio de garra, continuava<br />

a tocar nos bailes e a usar drogas que<br />

o levavam da euforia e prazer à dependência,<br />

enquanto sua família estava se destruindo aos<br />

poucos. “Chegava aos bailes e muitas vezes ia<br />

até o banheiro injetar droga, era mais forte do<br />

que eu”, desabafa. Foi em um desses momentos<br />

de destruição que tudo mudou. Ao ver a filha<br />

queimar de febre, pediu para que Deus a salvasse.<br />

Em seu quarto sozinho, rezando, ele fez uma<br />

promessa que mudaria sua vida.<br />

Com riqueza de detalhes, Danilo lembra bem<br />

a data e hora em que revelou sua promessa e a<br />

escolha mais difícil por qual já passou. “Eram<br />

23h do dia 31 de dezembro. Quando todos estavam<br />

sentados à mesa, durante a janta que antecedia<br />

o Show de Réveillon, eu disse que, depois<br />

do Carnaval, não tocaria mais”, conta em meio<br />

às lágrimas.<br />

A partir daquele momento, sua vida mudou.<br />

As idas à igreja tornaram-se frequentes, até que<br />

foi convidado a tocar na banda da igreja. “Não<br />

entendia como Deus havia me curado da droga,<br />

das bebidas, mas não havia me tirado o gosto<br />

por tocar.” Hoje, Danilo, o músico mais antigo<br />

da banda da Igreja, relembra como foi difícil, na<br />

década de 1970, os fieis aceitarem a presença<br />

da bateria na igreja. “Antigamente só tocavam<br />

teclado e piano. Nas igrejas pentecostais, a bateria<br />

era o demônio. Aos poucos ela começou a<br />

crescer. A música gospel está ganhando mais espaço,<br />

aperfeiçoando-se com uma grande variedade<br />

de instrumentos.”<br />

Hoje com seis filhos, ele conta com orgulho<br />

que sua família seguiu seus passos na igreja.<br />

Uma das filhas é cantora e dois dos filhos são<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 37


ateristas. Ele se emociona ao ver sua<br />

pequena neta com apenas três anos dançando<br />

nas apresentações da igreja. “Tudo<br />

mudou porque eu tive fé. Uma fé sem<br />

obras é uma fé morta”, comenta Danilo,<br />

um apaixonado pela música que nunca<br />

deixou de tocar, apenas mudou a forma<br />

de conduzir o som.<br />

o pequeno toRnA-se gRAnde<br />

Lucinéia Pelissari, 28 anos, casada e<br />

moradora de São Leopoldo, foi criada conforme<br />

a doutrina da Igreja Católica. Natural<br />

de Foz do Iguaçu, Paraná, aos 14 anos<br />

aprendeu a tocar violão e começou a cantar<br />

nas missas da pequena capela que a família<br />

frequentava. Dois anos depois, com o<br />

intuito de estudar, a jovem foi morar com<br />

a tia na cidade em que vive hoje.<br />

Logo se tornou frequentadora do Santuário<br />

Padre Réus, onde foi convidada a fazer<br />

parte da equipe de canto. Desde então,<br />

Lucinéia não parou mais de tocar e cantar,<br />

de acordo com ela, para Deus. Determinada,<br />

se formou em Magistério e, mais tarde,<br />

em Pedagogia Empresarial. Atualmente,<br />

possui dois empregos. Pela manhã, ministra<br />

palestras e treinamento a funcionários<br />

de empresas, e, à tarde, é secretária no<br />

próprio Santuário Padre Réus.<br />

Em 2003, alguns amigos a convidaram<br />

para fazer parte de uma banda de reggae,<br />

na qual permaneceu por três anos.<br />

Ela compôs algumas músicas e chegou a<br />

gravar uma canção. Mas conciliar a banda<br />

com o trabalho religioso não foi nada<br />

fácil. A moça relata que sentia certo preconceito<br />

da igreja católica em relação<br />

ao reggae. “Alguns amigos íntimos me<br />

falavam que as músicas da banda eram<br />

profanas e não combinavam com a religião,<br />

que eu deveria ficar tocando só nas<br />

missas.” Naquela época, ela se casou e<br />

decidiu abandonar a banda.<br />

Os cantos das missas da primeira quartafeira<br />

e segundo domingo de cada mês são<br />

de responsabilidade da jovem e experiente<br />

cantora, que escolhe, toca e canta sozinha<br />

as melodias que emocionam os fieis. Lucinéia<br />

acredita que as notas musicais que<br />

saem do seu violão comovem as pessoas<br />

e ajudam a evangelizar. “Com certeza, a<br />

música emociona as pessoas. Por exemplo,<br />

se eu estou no momento da comunhão e<br />

toca uma música bem calma e profunda,<br />

as pessoas conseguem se interiorizar mais<br />

e vão aproveitar melhor aquele momento<br />

38 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


ANDERSON LOPES<br />

de encontro com Jesus.”<br />

Trabalhando há mais de dez anos com a<br />

religião católica, a moça se apresenta em<br />

missas que reúnem um grande número de<br />

fiéis. Ela conta que já emocionou muita<br />

gente. “Inclusive meu pai se comoveu em<br />

uma missa que participei, porque lá em<br />

Foz do Iguaçu eu cantava em uma capela<br />

que iam no máximo 20 pessoas e aqui tinha<br />

mais de mil.” Lucinéia considera a música<br />

essencial em sua vida, assim como a devoção<br />

pela religião. E acredita que as duas<br />

juntas a completam.<br />

Lucinéia e Danilo encontraram na união<br />

da música com a fé uma forma de viver.<br />

Dois caminhos diferentes, mas que levaram<br />

ao mesmo final.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

pós várias entrevistas e fontes<br />

“A sugeridas sem sucesso, nos deparamos<br />

com a história de Danilo, que reconstruiu<br />

sua vida na religião e passou a ver a música<br />

de outra forma. O oposto da história de<br />

Lucinéia, que desde pequena cresceu com<br />

a música e a religião ao seu lado. Vários<br />

foram os momentos durante a entrevista<br />

em que as fontes se emocionaram ao relatar<br />

os caminhos que trilharam. Não se envolver<br />

nessas histórias ao escrevê-las foi o mais<br />

difícil diante das entrevistas. Aprendemos<br />

muito entrevistando os músicos das<br />

igrejas, não imaginávamos que seria tão<br />

esclarecedor. As fontes falaram sobre a<br />

relação que a música tem com a religião e<br />

também contaram as suas histórias. Apesar<br />

de não os conhecermos, as entrevistas<br />

fluíram normalmente, como uma conversa<br />

descontraída. No início, achávamos que<br />

o gravador iria inibi-los, mas, felizmente,<br />

estávamos errados, e tudo ocorreu conforme<br />

o cronograma.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 39


Música para vender<br />

CARDáPIO<br />

ElEtRônICO<br />

40 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


Produtores como dima<br />

daHaBa, da GuiNÉ Bissau,<br />

criam e oFerecem Bases<br />

musicais Na iNterNet<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 41


42 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

TeXTO DE CAROlInA AnCHIEtA E EDUARDO FElDEnS<br />

FOTOs DE MAURICIO MOntAnO<br />

e garrafas não param de aparecer...<br />

Esse life style todos eles querem<br />

ter.” Essa frase da música Party Monster,<br />

“Damas<br />

do grupo de hip hop Sevenlox, sintetiza a<br />

vontade de muitos de levar uma vida de rockstar. Alguns<br />

almejam viver da própria música, mostrar para o mundo<br />

as suas ideias através de melodias. Outros querem mesmo<br />

é a fama, o glamour com altos cachês, entrevistas e<br />

muitos fãs.<br />

Muitos não vão muito além de sonhar, mas alguns<br />

arriscam e tentam ser cantores, músicos e até mesmo<br />

compositores. Lá pelo meio do caminho percebem que<br />

não é tão fácil assim... Chegar às gravadoras com a sua<br />

demo, fechar bons contratos, ter espaço para tocar,<br />

isso tudo é bem complicado. Além de talento, é claro,<br />

são necessários bons contatos, e assim muitos desistem<br />

no caminho.<br />

Mas esse mercado vem mudando. Com a tecnologia,<br />

a “vida de músico” ficou bem mais facilitada, a internet<br />

contribuiu muito para isso. Música e internet têm<br />

uma relação importante. Isso fica claro num tempo em<br />

que a maioria dos grandes nomes da música pop, como<br />

o garoto Justin Bieber, começou cantando suas músicas<br />

favoritas no You Tube.<br />

Além da facilidade de acesso e divulgação, o “fazer<br />

música”, também em função da tecnologia, é bem mais<br />

simples. Diversos programas estão ao alcance de todo<br />

tipo de pessoa na internet. Basta baixar e instalar. Essa<br />

facilidade trouxe ainda mais destaque para uma profissão<br />

existente no mercado musical: o produtor.<br />

O produtor musical ou produtor discográfico é o<br />

responsável por completar uma gravação para que<br />

ela esteja pronta para o lançamento. Ele controla as<br />

sessões de gravação, guia os músicos e cantores e faz<br />

a supervisão do processo de mixagem.” O produtor é<br />

quem, literalmente, faz a base da música. Base musical,<br />

instrumental ou simplesmente beat são os termos<br />

mais comumente usados dentro do hip-hop e de outros<br />

estilos de música eletrônica. É praticamente uma música<br />

pronta, com arranjos, instrumentos, partes definidas<br />

(verso/refrão), faltando apenas voz e letra para que<br />

vire o produto final.<br />

Todo o trabalho de um produtor é possível de ser<br />

feito no computador, sem a necessidade de instrumentos.<br />

Essa função tornou-se cada vez mais importante e<br />

destaca-se tanto quanto ser “o vocalista” de uma banda.<br />

Para Nitro Di, produtor e apresentador do único<br />

programa de hip hop da rádio Atlântida FM, o papel do<br />

produtor é fundamental, embora ele ressalve: “Uma<br />

boa produção com uma letra fraca<br />

não vale de nada! Além disso, artistas<br />

novos podem se deslumbrar<br />

com o visual e a possibilidade de<br />

fazer um mega hit, esquecendo que<br />

não é só isso para estourar.”<br />

Esse mercado cresceu tanto que<br />

algumas universidades já oferecem<br />

cursos específicos para varias áreas<br />

de produção musical, como é o<br />

caso da Unisinos, com o curso de<br />

Produtores e Músicos de Rock, e a<br />

Anhembi Morumbi, de São Paulo,<br />

que, além de um curso de produção<br />

musical para todos os estilos,<br />

oferece um voltado exclusivamente<br />

para música eletrônica.<br />

Foi esse caminho de aperfeiçoamento<br />

a opção de Dima Dahaba,<br />

MC e produtor do grupo de hip hop<br />

Sevenlox, que veio de Guiné Bissau<br />

para o Brasil já com o sonho de viver<br />

de música, através de intercâmbio<br />

entre os dois países. Após uma pequena<br />

estada em Ijuí e Porto Alegre,<br />

foi em São Paulo que ele encontrou<br />

onde se aperfeiçoar e formou-se em<br />

Produção Musical na Anhembi Morumbi.<br />

Com colegas da universidade,<br />

surgiu a ideia de criar uma plataforma<br />

para vender o produto feito<br />

por eles, as chamadas bases musicais.<br />

Nasceu assim o The Hit: www.<br />

myspace.com/thehitmuzik. “O The<br />

Hit surgiu a partir de uma afinidade<br />

musical e de visão de mercado<br />

entre mim, Joe Black e PLG . Eu e<br />

Joe sempre debatemos sobre como<br />

estava tudo estagnado no mercado<br />

musical brasileiro para o estilo de<br />

música com o qual trabalhamos. Aí<br />

quando apareceu o PLG veio junto<br />

a certeza de que tínhamos que nos<br />

mexer para fazer alguma coisa a<br />

respeito”, explica Dima.<br />

O hábito de comprar bases pela<br />

internet já é comum nos EUA, mas<br />

o mercado nacional, na visão dos<br />

criadores do The Hit, ainda preci-


sa adaptar-se: “O mercado nem faz<br />

ideia do que isso seja. Para os cantores<br />

brasileiros em questão, acho<br />

que as únicas dificuldades que existem<br />

são as que eles mesmos criam<br />

para si. Para cantores iniciantes,<br />

especialmente existe essa dificuldade<br />

de entender que, para quem<br />

quer viver disso, a música tem que<br />

ser encarada mais do que como um<br />

simples hobby”.<br />

As vendas no The Hit já começaram.<br />

O músico Cabal (www.myspace.com/cabalakac4),<br />

renomado<br />

na cena do hip hop nacional, já era<br />

cliente dos produtores antes mesmo<br />

da criação do site. Ele reconhece<br />

o valor dessa plataforma: “Isso<br />

pode trazer uma grande mudança<br />

na qualidade da música feita no<br />

Brasil, pois, na maioria das vezes,<br />

é complicado ter acesso a produtores<br />

com essa qualidade. O The Hit<br />

está mudando isso e mostrando que<br />

todos podem ter produções profissionais<br />

de altíssimo nível, independente<br />

de onde estejam e por um<br />

valor bem acessível”.<br />

A questão do valor é o grande<br />

impasse dessa nova ideia, pois alguns<br />

produtores e artistas acham<br />

caros os preços oferecidos no site.<br />

Dima explica: “No Brasil, a maioria<br />

dos produtores de rap costuma cobrar<br />

entre R$ 100 e R$ 400, no máximo,<br />

por faixa musical. Nós operamos<br />

com valores entre R$ 400 e R$<br />

1.000. Nos Estados Unidos, a média<br />

fica entre 20.000 e 60.000 dólares<br />

para produtores de ‘pequeno porte’<br />

e 60.000 a 300.000 para os world<br />

famous do porte de Timbaland,<br />

Kanye West, etc..”<br />

Com divulgação via e-mails, redes<br />

sociais e o tradicional boca a<br />

boca, como todo bom produto com<br />

baixos recursos estilo “lado B”, o site<br />

causa certo burburinho. O rapper<br />

Cabal lançou na sua página oficial<br />

no Orkut um fórum de discussão sobre<br />

o The Hit, o que acabou gerando<br />

uma polêmica entre representantes<br />

do hip hop de diferentes partes do<br />

país. Surgiram várias opiniões sobre<br />

esse formato de se comercializar<br />

música, e todos os comentários negativos<br />

foram a respeito dos valores.<br />

Nitro Di, mesmo gostando da<br />

ideia, também a questiona: “Achei<br />

a ideia muito boa, porém é preciso<br />

saber o custo de cada produção.<br />

Existem artistas ruins com dinheiro<br />

e artistas bons sem grana pra pagar<br />

uma produção. Mas está valendo,<br />

conheço os produtores e sei do po-<br />

tencial monstro deles, tomara que<br />

dê certo e que artistas com talento<br />

formem essa parceria!”<br />

Agora a questão é esperar para<br />

ver se o mercado brasileiro vai se<br />

adaptar a esse tipo de compra. Para<br />

quem pretende tornar-se produtor,<br />

uma dica fácil para se dar o primeiro<br />

passo: um programa bacana, usado<br />

por vários produtores, o Fruit Loops,<br />

que pode ser baixado facilmente<br />

na internet. Boa sorte! Quer dizer:<br />

“Bons beats!”<br />

iMpressÕes de repÓrTer<br />

úsica. com esse tema, a nossa dupla imaginou<br />

“mque seria bem simples fazer o texto para a<br />

revista. ainda mais que um de nós (a carol) já escreveu<br />

sobre isso há algum tempo, mas nos enganamos: nunca<br />

subestime a dificuldade de um trabalho! tentamos fazer<br />

algo diferente, mas não deu certo. deixamos então<br />

a inovação ser destacada a partir da ideia de um dos<br />

entrevistados. conhecer o the Hit nos levou a pensar<br />

sobre o grau de especificidade a que chegou a música<br />

na internet. também nos chamou a atenção esta mistura<br />

e o passeio sem preconceitos entre diferentes gêneros,<br />

também nos fez esquecer a muitas vezes apressada<br />

associação música – internet - pirataria. aguçou nossa<br />

curiosidade sobre novas plataformas. e as possibilidades<br />

concretas de produção, criação e intercâmbio por ele<br />

abertas. deverá se tornar visitação obrigatória, modelo<br />

para músicos profissionais e objeto de pesquisa não só<br />

para quem atua diretamente na profissão, mas para<br />

os praticantes de atividades afins. as entrevistas nos<br />

deram mais trabalho pela falta de tempo, então fizemos<br />

todas elas via e-mail. Facilitou, mas teria sido melhor<br />

pessoalmente, as pessoas ficam mais espontâneas.<br />

mesmo assim, importantes lições foram aprendidas e<br />

acreditamos que isso já vale, porque temos certeza que<br />

o principal objetivo de todas as disciplinas não são as<br />

notas, mas sim o que levamos para a vida profissional.“<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 43


NÃO tE AcANhA,<br />

vEM PRA SAlDANhA!<br />

TEXTO DE FABIANA lOPES, RENAtA lOPES E tAtIANE lIMA | FOTOS DE lIZIANE AlvES<br />

44 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

MÚSICA PARA SAMBAR


com muito<br />

trabalho, um<br />

grupo de amigos<br />

transformou<br />

música em alegria<br />

e solidariedade<br />

festejar! Vou festejar!” O aniversário da Banda<br />

Saldanha foi comemorado em grande estilo.<br />

Ao som de uma bateria de Escola de Samba pu-<br />

“Vou<br />

xada pelos fundadores da Saldanha, cerca de 2<br />

mil pessoas iniciaram os festejos dessa data em um canteiro da<br />

Avenida Erico Verissimo de Porto Alegre. O local é próximo ao<br />

bar onde há 32 anos um grupo de amigos resolveu celebrar suas<br />

festas misturando samba, churrasco e um alegre desfile pelas<br />

ruas do bairro Menino Deus. Com isso, a Saldanha conquistou um<br />

papel fundamental na preservação da cultura afro-gaúcha.<br />

A marchinha, que caracteriza a Banda, dá o tom que inicia a<br />

festa. É um hino. Tanto que foi adotada pelas torcidas de futebol<br />

e é frequentemente ouvido nos estádios gaúchos. A arrancada do<br />

“arrastão” começou meio tumultuada, pois todos querem participar,<br />

e o público já está ansioso para dançar atrás do trio elétrico.<br />

Pedro Lourival da Fonseca, um dos fundadores da Banda, dá<br />

as orientações necessárias para que o desfile corra em segurança:<br />

“Pessoal, se posicionem atrás do caminhão, pois utilizaremos<br />

apenas uma das pistas da avenida. Quem não estiver a fim de se<br />

divertir, volta pra casa, porque aqui é lugar de alegria!”.<br />

“Alô, Harmonia!”, grita Carlos Medina, fazendo com que os<br />

ritmistas respondam com toda empolgação, batucando em seus<br />

instrumentos e contagiando a pequena multidão. Medina é também<br />

um dos fundadores da Banda. Conhecido músico gaúcho,<br />

que por muitos anos foi puxador de escolas de samba de Porto<br />

Alegre, explica que a Banda se mantém viva até hoje devido à<br />

organização e ao empenho de cada um. “Somos em torno de 70<br />

músicos na Banda, que está sempre em renovação. A partir de<br />

novembro ensaiamos toda a semana para fazer bonito no Carnaval”,<br />

conta o cantor.<br />

“Explode coração, na maior felicidade...”, é a senha para o<br />

samba realmente explodir. Pessoas de todas as idades cantam e<br />

dançam embaladas por essa tradicional música do Carnaval carioca.<br />

Medina continua animando o público com toda a empolgação,<br />

conduzindo a multidão avenida afora. Na sede da Banda, na<br />

Avenida Padre Cacique, já tem muitas pessoas aguardando para<br />

comemorar o aniversário com show do Neguinho da Beija-Flor.<br />

A Banda relembra marchas antigas, incentivando a massa<br />

que os segue a dançar o tempo todo. Nas janelas dos prédios,<br />

curiosos observam e até dançam, interagindo com o público que<br />

desfila na rua.<br />

A história da Banda se inicia com a comemoração do aniversário<br />

de 22 anos de Pedro Lourival, conhecido como Diogo e um<br />

de seus fundadores. Após uma partida de futebol, um bom churrasco<br />

e uma roda de samba, o grupo de amigos se empolgou e<br />

decidiu desfilar pelas ruas do bairro. Essa brincadeira se repetiu<br />

durante anos, e o número de participantes só aumentou.<br />

“Só tem um problema nesse amor, só um problema nesse<br />

amor: ela é Bamba, ela é Bamba, e eu sou Imperador!” Medina<br />

relembra essa canção do Carnaval gaúcho que aborda a rivalidade<br />

entre duas tradicionais escolas de samba de Porto Alegre:<br />

Bambas da Orgia e Imperadores do Samba. A festa na Avenida Erico<br />

Verissimo começou às 14h do dia 12 de outubro, Dia da Criança<br />

e Dia de Nossa Senhora Aparecida. O cheirinho de churrasco,<br />

o samba de roda e os convidados chegando em meio ao canteiro<br />

da avenida indicam o ambiente aconchegante que é uma das<br />

principais características das atividades que a Banda promove. O<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 45


local escolhido é próximo ao antigo bar em que o grupo de<br />

amigos se reunia há 32 anos. Já com uma sede própria na<br />

Avenida Padre Cacique, a Banda mantém o mesmo formato<br />

inicial: confraternização entre amigos, samba de qualidade<br />

e total segurança.<br />

A “Banda da Saldanha”, que levava o nome da rua<br />

onde ficava o bar que recebia o grupo de amigos, deixou<br />

de ser “da Saldanha” a partir do momento em que ganhou<br />

sede própria e o reconhecimento nacional. “Resolvemos<br />

mudar o nome para Banda Saldanha, pois não pertencemos<br />

a um único local. Há cinco anos desfilamos no<br />

Rio de Janeiro e já somos conhecidos inclusive internacionalmente”,<br />

conta Diogo Fonseca. Uma das inovações<br />

importadas do Carnaval carioca e instalada na Saldanha é<br />

o banheiro “colorido”, que fica à disposição para que os<br />

travestis sintam-se à vontade.<br />

Diogo, filho de Pedro Lourival, é o atual presidente da<br />

Saldanha, eleito pelos membros do conselho em 2010. Hoje,<br />

aos 28 anos, Diogo se diz cria da Banda, pois nasceu e cresceu<br />

entre os músicos participando das atividades com seus<br />

pais. Estudante de Marketing, é responsável pela criação da<br />

logomarca do grupo e pela atualização do site que está no<br />

ar há apenas seis meses e já totaliza mais de 3 mil acessos.<br />

O atual presidente informa que não estão previstas grandes<br />

mudanças ou inovações na sua gestão. “Em time que está<br />

ganhando não se mexe. E é importante valorizar o trabalho<br />

das pessoas que iniciaram tudo isso”, explica Diogo.<br />

46 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

pedro louriVal<br />

É um dos<br />

fundadores<br />

da saldanha,<br />

criada<br />

Quando ele<br />

comemorou<br />

22 anos<br />

O auge do “arrastão” se deu com a presença<br />

inesperada do Neguinho da Beija-flor homenageando<br />

as mulheres gaúchas com seu novo hit: Mulher.<br />

O público acena e samba com a atração da festa<br />

da Banda. Neguinho canta mais algumas músicas e<br />

despede-se, convidando todos a irem para sede da<br />

Banda, onde seria o grande show.<br />

Enquanto o povo requebrava a caminho da sede<br />

da Saldanha, lá já estava acontecendo o tradicional encontro<br />

de famílias e amigos. É nesse ambiente de integração<br />

que se consagra uma das mais importantes alternativas de<br />

lazer da comunidade negra gaúcha. O ambiente da Banda<br />

Saldanha é formado nas laterais por quiosques cobertos,<br />

onde a maioria dos frequentadores celebra datas importantes<br />

assando churrasco. Tem um palco onde o samba não<br />

para e um local no centro onde fica a copa. No andar de<br />

cima, uma espécie de área vip. Tudo é motivo para estar<br />

na Saldanha. Pode ser a comemoração de um aniversário<br />

ou um chá de panela. Não importa. O que o público quer<br />

mesmo é estar junto, confraternizando e revendo os amigos<br />

e parentes.<br />

A Banda Saldanha funciona de segunda a sexta-feira e os<br />

quiosques devem ser reservados com antecedência. Além<br />

do local, a Saldanha ainda disponibiliza espetos, carvão, sal<br />

e uma gamela para facilitar a vida dos assadores.<br />

Sharlene Oliveira Dias, que está de casamento marcado,<br />

escolheu a Saldanha para receber os amigos e realizar<br />

o chá de panela. “É um lugar que todo mundo conhece<br />

e gosta”, explica a noiva de 24 anos. Os aniversários de<br />

Patrícia Souza Barros, de 39 anos, são tradicionalmente<br />

comemorados na Banda. A família de Patrícia organiza decorações<br />

temáticas. A aniversariante explica a preferência:<br />

“O ambiente é bom, familiar e as pessoas podem ficar<br />

a vontade. Tem segurança, dá para trazer crianças, e é<br />

como se estivéssemos em casa”.<br />

SAMBA E SOLIDARIEDADE<br />

A Banda Saldanha promove mais do que festas. Promove<br />

a consciência social por meio de ingressos que podem<br />

ser alimentos não-perecíveis, agasalhos, material escolar e<br />

brinquedos. Esses materiais são doados a instituições beneficentes,<br />

atendendo desde asilos até abrigos de crianças<br />

carentes. Além das doações, ainda são oferecidas aulas gratuitas<br />

de percussão e instrumentos de corda para crianças<br />

da comunidade.<br />

A amizade, música do grupo Fundo de Quintal, traduz<br />

o resultado do trabalho desenvolvido pela Banda Saldanha<br />

e define o ambiente acolhedor e a cumplicidade entre as<br />

pessoas que frequentam o local. “Quero chorar o teu choro,<br />

quero sorrir o teu sorriso... Valeu por você existir amigo!”<br />

Ainda é importante destacar o esforço de um grupo de amigos<br />

em transformar um sonho em realidade. “Foi bem cedo<br />

na vida que eu procurei encontrar novos rumos num mundo<br />

melhor. Com você fique certo que jamais falhei, pois ganhei<br />

muita força tornando maior... A amizade...” Não te acanha<br />

e vem para a Saldanha, para comemorar alguma data importante<br />

ou simplesmente para curtir, pois a diversão entre<br />

amigos está garantida.


IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

omingo lindo de sol. o céu de um azul infinito<br />

“dservia de teto para uma grande massa colorada<br />

que seguia rumo ao estádio beira-rio. esse contraste,<br />

sinceramente, nos incomodava, já que o azul nos é<br />

mais familiar. no ônibus, quatro estudantes rumo a<br />

sua pauta e mais alguns passageiros completavam<br />

a lotação. de repente, do fundo do ônibus, palavras<br />

de insatisfação com a demora ecoam: “muito lento<br />

isso aqui!”. de início, pensamos que era apenas um<br />

desabafo, pois realmente o trânsito estava lento.<br />

com o passar do tempo, percebemos que as palavras<br />

ganhavam um tom mais agressivo a cada manifestação.<br />

ficamos apreensivas, imagine se o dono dessa voz<br />

grossa, um homem alto e de formas bem avantajadas,<br />

resolvesse surtar? nesse momento, a nossa indignação<br />

com a multidão de torcedores que estava na avenida e<br />

nos impedia de seguir só aumentou.<br />

a nossa parada, na banda saldanha, estava<br />

próxima. para nosso alívio, o engarrafamento foi<br />

sendo desfeito, e o ônibus pôde seguir. o homem<br />

revoltado, rapidamente mudou o tom da sua voz.<br />

agora, a meiguice e a sutileza que ela ressoava nada<br />

tinham a ver com aquele homenzarrão. descemos do<br />

ônibus aliviadas e dando muitas risadas. nossa pauta,<br />

realmente, prometia ser divertida.<br />

após algumas horas e com o nosso dever<br />

cumprido, seguimos para a parada de ônibus. para<br />

nossa surpresa, o mesmo passageiro bipolar da ida,<br />

aguardava o ônibus lá. inexplicavelmente, ele se<br />

lembrou da gente e nos cumprimentou com toda<br />

sua educação e doçura: “oi gurias!”. nos olhamos<br />

por alguns segundos e apenas sorrimos, como se<br />

retribuíssemos o cumprimento. o ônibus chegou e<br />

todos embarcaram. mais uma vez, aquela grande<br />

massa colorada interfere no trânsito. agora, o homem<br />

parecia mais acanhado e resolveu partilhar seu<br />

descontentamento com o passageiro a seu lado, nos<br />

poupando de suas reclamações.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 47


MÚSICA PARA ENCENAR<br />

BRIncAnDO<br />

DE PEnSAR<br />

48 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

O TeaTrO MágicO reúne eM uM únicO<br />

espeTáculO a Magia dO TeaTrO, dO circO<br />

e da Música. nOs basTidOres, hisTórias e<br />

Olhares vibranTes fOrMaM a cOlcha de<br />

reTalhOs de uM universO cheiO de pOesia<br />

TEXTO DE cAMILA nUnES E VAnESSA REIS | FOTOS DE ÂnGELA VIRTUOSO<br />

“E quando o nó cegar,<br />

deixa desatar em nós”“Solta a prosa presa, a luz acesa”


Sábado, 18 de setembro. O dia parecia frio<br />

na manhã com temperatura de 13ºC. Mas ao<br />

meio-dia, após uma correria entre ginásio e<br />

hotel, os casacos já estavam guardados no<br />

porta-malas do carro. Nos bancos da frente, nós,<br />

duas repórteres, seguíamos a van prata da produção.<br />

Estacionamos na Rua Alfredo Gerhardt, um pedacinho<br />

simples do bairro São Miguel, na periferia de<br />

São Leopoldo. Da van, sai uma dúzia de artistas. Não<br />

estão maquiados, usam jeans, camisetas e moletons.<br />

Ainda assim já há pelo menos 20 crianças agitadas ao<br />

redor deles. Falam alto, riem e observam curiosas.<br />

Chão de cimento, algumas paredes de lona e diversas<br />

mesas sob um telhado sem forro fazem parte do<br />

cenário. Estamos no Instituto Lenon Joel pela Paz, e<br />

o almoço é servido. Saladas e um carreteiro de primeira<br />

qualidade. É dia de espetáculo e convidados<br />

especiais. É dia de O Teatro Mágico.<br />

Chegamos ao Ginásio Municipal Celso Morbach<br />

por volta das 17h. O cenário ganhava seus últimos<br />

retoques. Engatamos uma conversa com Andrea Barbour,<br />

estudante de Gestão Ambiental de 23 anos e<br />

a caçula do TM. A bailarina, que empresta seu corpo<br />

para as artes circenses desde abril deste ano,<br />

fala ainda enamorada da nova experiência. Diz que<br />

em cada show descobre uma personagem diferente<br />

dentro de si.<br />

Com voz calma e pausada, Andrea vê no sucesso<br />

do grupo uma grande oportunidade de ouvir as<br />

pessoas. “O Teatro Mágico conversa muito com o<br />

público. Ele está aberto a perguntas e respostas.<br />

Está aberto ao diálogo.” A banda faz questão de ir<br />

ao encontro de seus fãs após cada show. Uma espécie<br />

de muito-obrigado-por-tanto-carinho-recebidodurante-o-espetáculo.<br />

Carinho esse manifestado<br />

em São Leopoldo das mais diversas formas. Havia<br />

gente caracterizada tal como os palhaços da trupe,<br />

excursões de diferentes cidades do interior, pais<br />

que levavam os filhos, casais de namorados, cerca<br />

de quatro mil olhos contemplativos que assistiam à<br />

apresentação do grupo sem aquela histeria coletiva<br />

comum a shows em que o público é jovem. Andrea<br />

define o espetáculo como uma forma de tirar as<br />

pessoas de suas realidades duras, de tirar um pouco<br />

o pé do chão.<br />

A poucos metros do palco, topamos com outra<br />

bailarina. Mesmo com a passagem de som, a conversa<br />

se desenrola leve. Ela tem rosto de boneca,<br />

daquelas de louça pintadas à mão. De jeans e camiseta,<br />

é uma moça comum. Formada em Jornalismo,<br />

25 anos de vida, batizada Andreia e transformada<br />

em Deinha Lamego. É quando o show se aproxima<br />

que ela surpreende. Volta do hotel já com o figurino<br />

e a maquiagem. Uma inspiração na década de 20,<br />

“Já se abre um sol em mim bem maior”“Eu sinto que sei que sou<br />

um tanto bem maior”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 49


“Borboleta parece flor que o<br />

vento tirou pra dançar”<br />

“Flor parece a gente, pois somos<br />

semente do que ainda virá”<br />

50 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

talvez. “O Teatro Mágico é uma coisa muito intensa. Brinco<br />

que a gente sai do palco e desaba no camarim, porque é<br />

muita entrega de energia.” Começou com o teatro, que por<br />

acaso era ao lado de uma academia de circo. “Aí eu entrei e<br />

fiz, nunca pensei que isso fosse virar meu trabalho, nem minha<br />

vida.” Mas virou. Foram três anos trabalhando num circo<br />

de verdade. Até que o convite do amigo Fernando Anitelli –<br />

criador da trupe – pôde ser aceito. Corria o ano de 2008. “Aí<br />

teve uma redução de elenco da galera, acabei saindo. Fiquei<br />

um tempo fora, e esse ano o Fê me liga: Oh, estou precisando<br />

que cê volte.” E ela voltou, mais madura e determinada.<br />

“Meio que a vida me levou, não teve muita decisão. Virou<br />

profissão por acaso, acho que o universo conspira. É o lugar<br />

onde você pode expressar a arte com a sua identidade de<br />

uma forma diferente de qualquer outro. Não tem uma coisa<br />

mais legal. É o que é pelo todo.”<br />

Logo na entrada do ginásio, ao pé da arquibancada, estava<br />

sendo montada a lojinha: uma porção de prateleiras prémoldadas<br />

e mesas que, em pouco tempo, estariam forradas<br />

de CDs, DVDs e camisetas do Teatro Mágico. O vendedor? Um<br />

simpático senhor, progenitor do líder da trupe. Foi difícil se<br />

aproximar dele. Não por falta de oportunidade, mas por receio<br />

de atrapalhar seu trabalho. Odácio Anitelli tem 65 anos<br />

e uma família rara. Já estava montando sua lojinha há mais<br />

de uma hora quando parou para respirar e para um dedo de<br />

prosa. “Nós somos de Presidente Prudente, lá perto do Mato<br />

Grosso. Mas o Fernando só nasceu lá, foi criado em Osasco.”<br />

São três filhos. Gustavo tem 27 anos e é o caçula, que<br />

cuida de quase tudo. Fernando, 36, criou e lidera a trupe. E<br />

Rodrigo, 39, após uma década nos Estados Unidos, trabalha<br />

em São Paulo, no ramo de restaurantes. “Foi pra ele que<br />

o Fernando fez a música do Anjo mais velho. Foi por causa<br />

dessa distância. Bonito, né?” A família se completa com Delmina,<br />

a mãe “mão fechada” responsável pela contabilidade.<br />

“Todo show sem exceção, antes de começar, a minha esposa<br />

liga pra ele e faz uma oração por telefone. Nós somos evangélicos.<br />

Os meninos já nem são mais, eles têm a base construída,<br />

a moral. Tanto que se você ouvir o primeiro disco,<br />

faz muita referência à Bíblia, à Igreja, que é a base. A gente<br />

tem muito essa coisa de estar junto. A gente se cuida muito.<br />

A gente se cuida mesmo!”<br />

Seu Odácio já foi caixa de banco e trabalhou com treinamento<br />

de pessoas. Mas hoje cuida da lojinha da trupe. Chega<br />

ao local do show no início da tarde e só vai embora bem depois<br />

do final. Enquanto todos voltam ao hotel e descansam após a<br />

passagem de som, ele continua na loja. Por isso, não aceita<br />

que reclamem de viagens longas e cansativas. “Primeiro você<br />

pergunta pra mim. Se eu estiver cansado, tudo bem. Mas, se<br />

eu disser que não estou, está faltando é vergonha!”<br />

Durante a rápida coletiva que concedeu já no Ginásio,<br />

Fernando destacou o clima de paz que cerca as apresentações<br />

do TM: “Um amigo meu comentou uma vez que os<br />

únicos lugares em que ele ia e onde as pessoas cantam e se<br />

abraçam sem conhecer umas às outras, ou é na igreja ou é<br />

em show do Teatro Mágico”.


apesar de Ter<br />

apenas 23<br />

anOs, andrea<br />

barbOur MOsTra<br />

nO Olhar a<br />

deTerMinaÇÃO<br />

de QueM Já sabe<br />

O Que Quer<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 51


IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

Com outros olhos<br />

Camila Nunes<br />

oi minha primeira vez em uma<br />

“fapresentação do grupo. confesso<br />

que a curiosidade tomava conta. afinal,<br />

como uma deficiente visual perceberia<br />

um show que trabalha tanto com<br />

imagens? durante o dia, vanessa,<br />

minha colega de reportagem, se<br />

esforçava para me explicar os figurinos<br />

usados por eles. Mas, por mais que eu<br />

tentasse, tudo aparecia de forma muito<br />

confusa na minha cabeça. a coletiva de<br />

fernando anitelli já havia terminado.<br />

sem pensar muito se aquela postura<br />

caberia a uma repórter, me aproximei e<br />

perguntei:<br />

- posso pedir uma coisa?<br />

- claro!<br />

- posso tocar na sua roupa?<br />

- claro!<br />

ele, de forma muito sensível e atenciosa,<br />

pegou em minha mão e mostrou<br />

calmamente cada acessório do figurino.<br />

O colete que vem por cima da camisa é<br />

jogado no palco por anitelli no meio do<br />

Magia e feitiço<br />

Vanessa Reis<br />

ssa reportagem foi um desafio e deu<br />

“ebastante trabalho! Mas... caramba!<br />

foi muito gostoso de fazer! começamos<br />

a jornada seguindo o carro da produção<br />

até o local do almoço, permanecendo ao<br />

redor do grupo o dia todo, com direito<br />

ao jantar pós-show que nos uniu ao<br />

Teatro Mágico e à produção ao redor de<br />

pizzas, num bate-papo descontraído.<br />

acompanhar a camila foi um desafio à<br />

parte. ser os olhos dela naquele mundaréu<br />

de cores, luzes e performances acrobáticas<br />

foi angustiante, sim. como explicar os<br />

movimentos da bailarina, que rodopia,<br />

52 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

show. “Tá sentindo? este é o meu<br />

cinto. perceba que ele tem várias<br />

cordas entrelaçadas. aqui embaixo,<br />

uso essa bota grande que parece<br />

um sapato de palhaço. ah, e tem<br />

a minha barba! você não pode<br />

deixar de tocar na minha barba! Tá<br />

vendo como ela é?”<br />

O show finalmente começou.<br />

ficamos posicionadas na boca<br />

do palco, do lado de dentro da<br />

grade que separava o público.<br />

Minha parceira de reportagem,<br />

incansavelmente, ia relatando<br />

em meu ouvido os detalhes de<br />

cada coreografia. eu e vanessa<br />

dançamos abraçadas durante as quase<br />

duas horas de show. fernando cantava<br />

Pena, a última música. enquanto pulava<br />

feito criança feliz, senti uma mão me<br />

puxando. era andrea barbour, aquela<br />

lá do início da reportagem, que havia<br />

descido do palco. ficamos ali dançando<br />

como se nada mais houvesse ao redor.<br />

um momento mágico para encerrar um<br />

dia igualmente mágico.”<br />

salta e dança com mais velocidade do que<br />

as palavras podem dizer? de qualquer<br />

forma, imagino ter conseguido, ao menos<br />

um pouquinho, transmitir a ela, e também<br />

aos leitores, a atmosfera daquele dia. Mas<br />

alguns instantes permanecem indizíveis.<br />

Ouvir o verso que diz “só enquanto eu<br />

respirar vou me lembrar de você” e ao<br />

mesmo tempo ver a magia que salta dos<br />

olhos dos músicos e bailarinos qual feitiço,<br />

enquanto atrás de mim um menino de<br />

12 anos cantava em uníssono ao coral de<br />

quase quatro mil vozes contém fagulhas<br />

de emoção que – eu desisto – as palavras<br />

não vão dizer. “


após uM<br />

perÍOdO lOnge<br />

da Trupe, deinha<br />

laMegO vOlTOu<br />

aO TeaTrO<br />

MágicO Mais<br />

preparada<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 53


MÚSICA PARA VIAJAR<br />

O que é a “drOga<br />

digital” que dOminOu<br />

a internet, causOu<br />

alvOrOçO na mídia e<br />

preOcupa as autOridades<br />

internaciOnais?<br />

Os POrtões<br />

de Hades<br />

54 | PrIMeIra IMPressÃO | deZeMBrO/2010


TEXTO de MarCeLO COLLar e taÍNa LaUCK<br />

FOTOS de MarCO aNtÔNIO FILHO<br />

É<br />

um quarto escuro. Em um dos cantos, há uma cama de<br />

solteiro desarrumada. Livros, CDs, revistas e pequenos<br />

objetos enfeitam a bagunça adolescente no chão e<br />

em algumas prateleiras na parede do fundo. A única<br />

luminosidade vem da fraca tela de um computador ligado,<br />

fora de quadro, e de uma janela ao fundo. O vídeo é gravado<br />

toscamente, de forma que através do vidro se vê apenas uma<br />

imensidão branca. Deitado na cama, um jovem com cerca de 15<br />

anos, sem camisa, usa um grande fone de ouvido.<br />

O silêncio é quebrado pela respiração ofegante do rapaz.<br />

A expressão bizarra em seu rosto passa uma mistura de agonia<br />

e prazer. Um leve chiado escapa dos fones de ouvido. O ruído<br />

aumenta gradativamente, acompanhado pela expressão de dor<br />

na face do sujeito. Após um espasmo súbito – como um grande<br />

susto – o adolescente arranca os fones, joga-os longe, coloca as<br />

mãos no rosto e em seguida desliga a câmera.<br />

PrIMeIra IMPressÃO | deZeMBrO/2010 | 55


Vídeos como esse contaminaram sites como o YouTube durante o primeiro<br />

semestre de 2010. Centenas, literalmente. O chiado nos fones de ouvido<br />

é o chamado i-doser, a “droga digital”. De acesso e uso simples, o i-doser<br />

consiste em arquivos comuns de áudio em estéreo que, se ouvidos com bons<br />

fones, provocariam uma hipotética mudança nas ondas cerebrais do usuário,<br />

causando efeitos similares ao do uso de drogas.<br />

Funciona?<br />

O i-doser usa as chamadas “batidas binaurais”, que são dois sons de<br />

frequências semelhantes reproduzidos em cada um dos ouvidos. Quando<br />

escutados com fones, a sensação é de que existe um terceiro som, que parece<br />

vir de dentro da própria cabeça. A técnica foi descoberta em 1839<br />

pelo físico alemão Heinrich Dove. A prática é normalmente<br />

usada em sessões de meditação e também em músicas.<br />

A novidade é o uso das batidas binaurais para tentar<br />

obter efeitos semelhantes aos de drogas ilegais.<br />

A febre começou com o site i-doser.com,<br />

que prometia aos usuários uma forma<br />

barata, segura e legal de usar drogas.<br />

O site vende as “doses” de áudio<br />

que prometem diversos efeitos:<br />

das sensações semelhantes ao<br />

uso das mais diversas drogas,<br />

às afrodisíacas, ou que<br />

garantem uma noite de sono<br />

tranquila. Ao todo, são mais<br />

de 200 tipos diferentes de<br />

doses. O preço de cada uma<br />

delas varia de US$ 2,50 aos<br />

salgados US$ 199,95.<br />

As doses mais populares<br />

são “Gates of Hades” (portões<br />

de Hades) e “Hand of God”<br />

(mão de Deus), que, segundo<br />

os criadores, provocam os<br />

efeitos mais extremos. Essas<br />

doses são também responsáveis<br />

pela grande maioria dos vídeos<br />

encontrados no YouTube mostrando<br />

a reação dos usuários.<br />

“Acho que, por eu estar concentrado<br />

e relaxado, funciona, e me deixa mais calmo<br />

56 | PrIMeIra IMPressÃO | deZeMBrO/2010


e tranquilo”, comenta Patrick, 22 anos, usuário habitual de i-doser, se referindo<br />

à dose quick happy. Ele descobriu o i-doser na internet no início do ano passado<br />

e desde então tem usado o som para relaxar. Os arquivos de i-doser estão no<br />

celular dele e são escutados frequentemente.<br />

Outro usuário, que não quis se identificar, afirmou que escuta uma<br />

determinada dose para ter mais concentração. Diz já ter experimentado vários<br />

tipos de doses até encontrar a mais eficiente para ele. Acrescenta: “Tem dias<br />

em que a pessoa parece estar mais sensível aos efeitos, e fica mais fácil”.<br />

Outros afirmam não terem sentido quaisquer efeitos após experimentar<br />

o i-doser. É o caso do estudante Rafael Tourinho. Ele experimentou uma dose<br />

que simularia o efeito de cinco doses de gim. Compara o som ao de “naves<br />

espaciais de filmes de ficção científica”.<br />

“e<br />

i-doser na mídia<br />

A prática logo ganhou espaço na mídia mainstream dos Estados Unidos. O<br />

jornal USA Today se referiu ao i-doser como “a nova preocupação dos pais”. Na<br />

rede CBS foi ao ar uma reportagem com a psicóloga Jennifer Hartstein, uma das<br />

primeiras a pesquisar os efeitos do i-doser. Ela afirma que uma das principais<br />

preocupações do estudo foi definir se a suposta droga digital poderia ser uma<br />

porta para as drogas “reais”. Conclui: “Estou cética quanto a isso, não acredito<br />

que os efeitos do i-doser possam levar alguém às drogas convencionais”.<br />

Também na CBS News o jornalista da editoria de ciências Brian Dunning<br />

afirmou que as pessoas compram qualquer coisa que seja vendida com uma<br />

campanha convincente. “Você pode usar inúmeros termos científicos, ondas<br />

alfa, ondas gama; e explicar como isso deveria funcionar. Se convence, vende”,<br />

afirma Dunning.<br />

No Brasil a febre do i-doser na mídia não parece ter o mesmo efeito que<br />

nos Estados Unidos. A mídia tocou com timidez no assunto. A Folha Online<br />

publicou uma reportagem na qual o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da<br />

Unifesp, declara que é impossível um som reproduzir o efeito químico de uma<br />

droga. A opinião segue a da maioria dos veículos mundiais, que veem a tal<br />

“droga digital” mais como um efeito de auto-sugestão do usuário do que algo<br />

que possa causar os efeitos psicotrópicos prometidos.<br />

Nas redes sociais, o i-doser chegou a ter certa visibilidade no Brasil.<br />

No Orkut, por exemplo, as duas principais comunidades relacionadas<br />

ao tema somam cerca de 70 mil usuários, com tópicos relatando<br />

experiências individuais e troca de arquivos de doses. Mesmo com a<br />

classe científica vendo a prática com ceticismo, é inegável que muitas<br />

pessoas sentem os efeitos do i-doser.<br />

Em razão disso, resolvemos tentar nós mesmos. Entramos no<br />

quarto escuro.<br />

MarCeLO taÍNa<br />

m um desses sites de idoneidade moral questionável,<br />

consegui várias das “doses” referidas na página<br />

do i-doser. coloquei os fones de ouvido e toquei<br />

a tal Gates of Hades. nos primeiros minutos, um<br />

som mais grave e repetitivo inunda os fones. existe<br />

a possibilidade de um efeito placebo, mas eu me<br />

senti – de fato – um pouco relaxado. subitamente<br />

o som muda para um ruído alto e estridente. O<br />

relaxamento induzido pelo som anterior me fez levar<br />

um enorme susto. meu coração disparou e meus<br />

ouvidos demoraram a se adaptar ao novo ruído de alta<br />

frequência. algum tempo depois, comecei a sentir uma<br />

leve tontura, como se estivesse no segundo<br />

ou terceiro copo de cerveja. e não passou<br />

disso. Fiquei levemente enjoado, como<br />

quando se sobe a serra de carro.<br />

Os efeitos passaram segundos<br />

após eu tirar o fone de ouvido.<br />

com minha breve experiência<br />

com o i-doser, posso afirmar<br />

que alguma coisa ali existe.<br />

placebo, talvez. sei que<br />

funcionou comigo, mas nada<br />

que se equipare ao efeito<br />

devastador do álcool no<br />

sangue, por exemplo.”<br />

or algum motivo ainda não bem definido, esse<br />

“pmovimento i-doser me fez lembrar o filme<br />

Barbarella, de 1968. talvez seja o fato de no filme o<br />

sexo ser feito através da ingestão de cápsula... e agora<br />

essa! droga virtual. Fiquei chocada. tecnologia para o<br />

bem e para o mal, dependendo do ponto de vista. a<br />

tensão pré-dose de i-doser foi por água abaixo depois da<br />

experiência. O que era expectativa se tornou frustração.<br />

mudança essa de sentimentos que aconteceu em menos<br />

de meia hora, já que eu não aguentei ficar ouvindo<br />

aqueles sons – para mim absurdamente irritantes – por<br />

mais de quinze minutos. tentei duas vezes. O mesmo<br />

quick happy. e nada de emoção adversa. talvez<br />

tenha sido a minha incredulidade. quem<br />

sabe? segui as instruções do site para<br />

atingir o sucesso com a minha<br />

dose: sala escura, o silêncio como<br />

companhia, fones de ouvidos a<br />

postos... e nada, diferente do<br />

meu colega marcelo. a única<br />

sensação que eu tive era<br />

uma certa dor de cabeça por<br />

aquele som chato invadindo<br />

minha mente, além do<br />

pensamento: o que leva as<br />

pessoas a escutar isso?”


NA PElE,<br />

NA AlMA<br />

Quando a música ultrapassa os limites<br />

do som e passa a estampar o corpo<br />

58 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

múSica para TaTuar<br />

TEXTO DE ADAM SchEffEl E lARISSA DE OlIvEIRA<br />

FOTOS DE JÉSSIcA BERGER


PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 59


Quando decidiu fazer a sua terceira tatuagem,<br />

Pietro não teve dúvidas. Seria, mais<br />

uma vez, uma declaração de amor à música.<br />

Aos 23 anos, ele acumula no corpo o símbolo<br />

máximo do grupo Rolling Stones – a famosa<br />

língua de fora – e a silhueta, não menos emblemática,<br />

da capa do álbum London Calling, do The Clash, cada<br />

uma delas em uma panturrilha.<br />

Agora, o símbolo escolhido para estampar o braço direito<br />

do estudante de História da PUCRS – e DJ nas horas<br />

vagas – é o da banda Red Hot Chili Peppers. Entre ter a<br />

ideia e concretizá-la, Pietro Santos de Souza levou menos<br />

de um mês. Assim como as tatuagens, o ofício (ou diversão)<br />

é recente. Datava de nada muito além de um semestre,<br />

quando começou a discotecar na festa Roque Town,<br />

em Porto Alegre. Já as tatoos começaram aos 22, três<br />

anos após Pietro ter ido a Buenos Aires assistir ao show<br />

dos Rolling Stones, em 2006. O gosto pela banda começou<br />

em casa, sobretudo com sua mãe. “Foi com a minha família<br />

que aprendi a gostar de rock’n’roll”, lembra.<br />

O tempo para maturar a ideia pode ter sido longo,<br />

mas desencadeou uma vontade que parece não cessar<br />

tão cedo de mostrar no corpo a sua paixão pela música.<br />

“Gosto de fazer tatuagens relacionadas às bandas<br />

que curto há algum tempo e que tenho certeza de<br />

que não vou me arrepender depois. Fiz primeiro a dos<br />

Stones porque, para mim, é a melhor banda de rock”.<br />

No dia em que foi entrevistado, Pietro tinha ido orçar<br />

e agendar sua nova companheira em um estúdio no<br />

centro da Capital. Era um sábado de sol, e ele parecia<br />

empolgado. Pelo menos até a timidez causada pelos<br />

flashes o deixarem sem jeito.<br />

Na segunda-feira, lá estávamos nós o acompanhando<br />

novamente. Dessa vez, ele parecia mais apreensivo. O<br />

nervosismo aumentou com um imprevisto. Marcada para<br />

as 10h, a sessão só começou trinta minutos depois. O<br />

tatuador Alemão e Fernanda, sua companheira há cinco<br />

anos, se atrasaram por conta de um acidente doméstico<br />

com a cadelinha de estimação, Meg. “Ela teve um machucado<br />

grave ao cortamos a unha dela em casa, daí tivemos<br />

que levar ao veterinário”, resumiu Fernanda, que<br />

também é recepcionista do estúdio.<br />

Juliano Ribeiro, de 27 anos, é mais conhecido no<br />

meio como Alemão. Há sete anos atuando no ramo, já<br />

“trampou” em outro estúdio de Porto Alegre, passou<br />

dois anos trabalhando na Guarda do Embaú, em Santa<br />

Catarina, e voltou para a capital gaúcha, desta vez<br />

para o Kadu Tattoo. Foi ele que fez a primeira tatuagem<br />

de Pietro em 2009.<br />

Alemão nos conta que as tatuagens relacionadas à<br />

música são pedidas frequentemente, mas não chegam a<br />

ser as mais requisitadas. “Quando tem show de uma banda<br />

grande na cidade, aumenta a procura. Cheguei a fazer<br />

três seguidas do Pearl Jam na época em que eles vieram<br />

pra cá (em 2005)”. A última que lembra ter sido gravada<br />

por suas mãos foi a capa do álbum The dark side of the<br />

moon, do Pink Floyd, na semana anterior à nossa visita.<br />

Antes de começar, foi preciso preencher um formu-<br />

60 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

lário detalhado sobre possíveis doenças, medicações, cirurgias<br />

estéticas e até mesmo uso de drogas – que nossa<br />

fonte afirmou não estar usando no momento. Em dois minutos,<br />

Pietro já estava na mesa do Alemão, pronto para<br />

45 minutos de dor em que não gritou nem um aizinho.<br />

A preparação é muito simples. Marca-se o molde, para<br />

saber se está do tamanho desejado pelo cliente. Depois,<br />

raspa-se com gilete a área onde será gravada a imagem.<br />

Feito isso, é sentar e esperar a mágica acontecer.<br />

No começo da sessão o nervosismo de Pietro parecia<br />

ter desaparecido. Quase que impassível à dor, conversava<br />

tranquilamente com todos. “A primeira doeu mais, acho<br />

que era pela expectativa”, relembra. Alemão complementa:<br />

“É comum cair a pressão de quem faz pela primeira<br />

vez, mas está mais ligado ao nervosismo. Às vezes<br />

a pessoa não come antes de vir, daí pode se sentir um<br />

pouco mal”. Pietro também foi esperto, um dos motivos<br />

de ter escolhido o braço foi pela fama de doer menos.<br />

“Locais como barriga, costelas e até pé e pescoço doem<br />

mais”, comenta o tatuador.<br />

IDENTIDADE<br />

Pequenas, imensas, discretas, multicoloridas, para<br />

toda a vida e até provisórias. Cada marca expressa na<br />

pele um momento, um sentimento, um desejo, a saudade<br />

de quem se foi, a alegria de quem chegou. Em outros<br />

casos, o registro aparece como forma de adoração a um<br />

ídolo. Funciona como um louvor. A admiração àquele<br />

artista é tamanha que é preciso manter um símbolo sobre<br />

a pele com a função de homenagear, mas também<br />

de pertencer a um grupo. São símbolos de identificação<br />

que estão impregnados de um potencial mágico e místico.<br />

Quem se tatua quer expor não somente o corpo, mas<br />

o desenho ali inserido dolorosamente. Assim, a tatuagem<br />

surge como a principal artista. É o ponto de poder,<br />

de encanto.<br />

Para a psicóloga Márcia Viana, ao se tatuar, a pessoa<br />

está manifestando um posicionamento pessoal<br />

relativo àquele momento. Como a marca dificilmente<br />

será apagada, os desenhos evocarão constantemente<br />

uma época remota. Enquanto a evolução é um movimento<br />

de mudança contínua, a tatuagem representa<br />

a imobilidade da consciência presa a épocas, ideias<br />

e momentos que já passaram. Mas que continuaram<br />

inesquecíveis, ligados à memória e à pele de cada<br />

um. “Os estudos sobre a necessidade de ‘marcar’,<br />

materializar no corpo uma experiência ou simbolizar<br />

a vivência fazem parte de um processo de organização<br />

subjetiva em direção à vida adulta, à maturidade<br />

e à autonomia”, explica.<br />

A psicóloga ainda ressalta que tatuagem, para<br />

muitos, é um tipo de paixão incondicional. “Paixão é<br />

pathos, sofrimento. E o que é a loucura de um fã senão<br />

a não consciência de si?”. Desse modo, as pessoas<br />

tendem a se encontrar nos mitos e procurar nos heróis<br />

maneiras de lidar com a finitude, com os limites, com<br />

as perdas, além de preencher o que dentro está vazio,<br />

intolerável, e transformar isso em marcas.


Essa é, mais ou menos, a relação que Pietro tem com<br />

a música. “Posso dizer que minha relação com ela é de<br />

dependência. A música está presente em quase todos os<br />

momentos do meu cotidiano e isso é porque encontro<br />

nela a expressão dos meus sentimentos: se estou feliz,<br />

triste, ansioso, sempre tem alguma música na qual posso<br />

me apegar”. Então, nada mais natural do que gravar isso<br />

na pele para toda a vida. “As bandas que tenho tatuadas<br />

no corpo são bandas de atitude, que realmente gostam<br />

do que fazem e não estão no ramo só por dinheiro, mas<br />

sim por amor à música. Por isso me senti seguro em gravá-las<br />

em mim”, finaliza.<br />

imprESSÕES DE rEpÓrTEr<br />

caça por um case especial é aquela novela.<br />

“a ao pensar a pauta nos primeiros dias, o<br />

case está lá no papel, idealizado, pré-agendado,<br />

cheio de detalhes bonitos que o jornalista crê<br />

que vai dar certo. muitas vezes até dá. mas as<br />

divergências não se aquietam e sempre aparecem<br />

para incomodar. o case se muda. perde o<br />

emprego. desiste da entrevista. tem compromissos<br />

marcados estrategicamente naqueles dias que<br />

estão disponíveis para os repórteres. parece<br />

mentira, mas não é. contudo, achar a fonte ideal<br />

é só metade do jogo ganho. outras coisas ainda<br />

precisam dar certo. o tempo tem que colaborar,<br />

o trânsito precisa fluir e o papo precisa render.<br />

com o pietro foi assim. Ficamos na incerteza de<br />

conseguir conciliar a data da sessão da tatuagem<br />

com o prazo para execução desta matéria.<br />

Felizmente, deu tudo certo e passamos dois dias<br />

na cola do rapaz. no primeiro, fomos juntos<br />

agendar horário no estúdio e ver a discussão<br />

da ideia do desenho com o tatuador. neste dia,<br />

aproveitamos para levá-lo à casa de cultura mário<br />

Quintana e fazer nossa entrevista lá mesmo – para<br />

adiantar nosso lado –, além de algumas fotos para<br />

a matéria. Já na segunda vez, presenciamos a sua<br />

nova marca no corpo e ficamos contentes por a<br />

reportagem continuar seguindo sem percalços.<br />

ao final desta reportagem, nós – narradores nãotatuados<br />

desta história – pudemos aprender que<br />

a moldura que contorna nossas paixões pode ser,<br />

muito bem, a nossa própria pele.”<br />

o estudante pietro<br />

souZa durante<br />

a sessÃo da sua<br />

terceira tatuaGem<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 61


CAROLINA TREMARIN<br />

ANTÔNIO<br />

TRIERWEILER<br />

CONDUZ OS<br />

BÚFALOS AO SOM<br />

DE SEU VIOLINO


MÚSICA PARA TRANSFORMAR<br />

MAIS QUE UM<br />

ENCANTADOR<br />

DE BÚFALOS<br />

TEXTO DE BRUNA SCHUCH E CAROLINE RAUPP | FOTOS DE BRUNA SCHUCH E CAROLINA TREMARIN<br />

Diante do homem tranquilo sentado no sofá, um<br />

pouco tímido, de botas, bombacha e camisa clara<br />

que combina com seus olhos, duvida-se que<br />

se trate do mais ilustre morador do pequeno<br />

município gaúcho de General Câmara. Antônio Trierweiler,<br />

50 anos, é veterinário, advogado, músico e criador<br />

de búfalos. Há alguns anos, ficou conhecido na região<br />

depois de descobrir uma maneira diferente de fazer o<br />

manejo dos animais, guiando-os apenas pelo som de seu<br />

violino. Nascia o mito do encantador de búfalos, apenas<br />

uma impressionante história dentre as tantas que Antônio<br />

tem para contar.<br />

Desde a infância, o amor pela música clássica o levou<br />

naturalmente a querer aprender um instrumento. Apesar<br />

de já se interessar pelo violino, nos idos de 1970 esse instrumento<br />

era quase inacessível. Optou, então, em fazer<br />

aulas de violão clássico. Mas, por causa de um acidente<br />

doméstico que o deixou com os movimentos do braço<br />

direito limitados, passou a sentir muitas dores e acabou<br />

tendo que desistir do violão. Quando menino, morava em<br />

Porto Alegre e passava os finais de semana com seu avô<br />

na fazenda. Uma figura muito importante na sua vida, e<br />

a quem gostava de imitar.<br />

Muito ligado ao campo e à música, precisou decidir<br />

qual curso fazer na universidade. A dúvida entre a Música<br />

Clássica e a Veterinária acabou sendo decidida em função<br />

das dores no braço. Após concluir o curso de Veterinária,<br />

mudou-se para a fazenda de sua família e passou<br />

a administrá-la.<br />

De uma situação inusitada, surgiu uma amizade que<br />

comove pela lealdade e dedicação. Emocionado, Antônio<br />

recorda seus momentos com dona Adélia. Ela, que já<br />

passava dos 60 anos, entrou na sua vida pouco antes da<br />

COMO O VIOLINO MUDOU A<br />

VIDA DE ANTÔNIO TRIERWEILER,<br />

VETERINáRIO E ADVOgADO DO<br />

INTERIOR DE gENERAL CÂMARA<br />

universidade, numa ocasião delicada.<br />

A perda de um amigo em comum<br />

a levou até a sua casa. As afinidades<br />

e a paixão pela música os aproximou.<br />

Dona Adélia se dispôs a lhe ensinar<br />

piano e, durante o tempo em<br />

que duraram as aulas, a amizade se<br />

fortaleceu. Quando a técnica passou<br />

a lhe exigir mais, as dores no braço<br />

voltaram e, por fim, não foi possível<br />

continuar conciliando música e<br />

faculdade. Durante quase 20 anos, a<br />

música perdeu espaço para o trabalho.<br />

Formou-se em Veterinária, depois<br />

em Direito e não restava tempo<br />

para mais nada.<br />

Foram anos de dupla jornada: durante<br />

o dia, o desgastante trabalho<br />

como veterinário; à noite, a análise<br />

de processos. A rotina extenuante o<br />

levou a enfrentar graves problemas<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 63


ARQUIVO PESSOAL<br />

de saúde. Decidiu deixar de advogar e voltar a levar uma<br />

vida mais simples e tranquila. Era a brecha necessária<br />

para a música voltar a fazer parte de sua vida.<br />

Mesmo quando a vida o fez colocar a música em segundo<br />

plano, Antônio nunca deixou de visitar dona Adélia,<br />

amizade que foi determinante para a grande mudança<br />

ocorrida em sua vida. “No Natal de 1999, resolvi dar<br />

um presente pra ela, então com 93 anos. Aí pensei: se<br />

eu der uma caixa de bombom, a moça que cuida dela<br />

vai traçar. Flores, no outro dia estão murchas. Aí peguei<br />

um violinista, fui até Porto Alegre e levei para tocar para<br />

ela... filmei tudo, ela ficou muito feliz”, relembra Antônio.<br />

Naquele dia ressurgiu a vontade de aprender a tocar<br />

violino. Na volta para casa, Antonio percebeu que tocar o<br />

instrumento exigia menos de sua mão direita, já que ela<br />

apenas conduz o arco. Assim, começou a fazer aulas com<br />

um violino alugado, pois, mesmo no final dos anos 1990,<br />

comprar um bom violino ainda não era tarefa fácil. Acabou<br />

descobrindo uma grande paixão. A partir de então as<br />

visitas à dona Adélia passaram a ser sempre musicais. Ele<br />

não deixava de tocar para ela, nem mesmo quando por<br />

vezes ela estava dormindo.<br />

A relação de amizade entre os dois era tão bonita e<br />

verdadeira que foi perpetuada por dona Adélia quando,<br />

em uma das visitas, resolveu lhe presentear com seu violino,<br />

um instrumento muito antigo que havia sido trazido<br />

da Itália no início do século passado, réplica de um Amati.<br />

O presente foi dado com duas condições. A primeira:<br />

ele deveria aperfeiçoar sua técnica para que pudesse<br />

tocar no dia em que ela morresse. A segunda era não<br />

mexer na alma do violino — peça responsável pelo som<br />

do instrumento — pois era a alma dela que estava ali.<br />

Antônio ressalta a lucidez de dona Adélia, que na época<br />

estava com 93 anos e, mesmo assim, tinha capacidade de<br />

fazer metáforas. “Eu aprendi a tocar por ela e para ela”,<br />

conta o músico. Dona Adélia faleceu em 2003, com 97<br />

anos, Antônio tocou violino em seu funeral, uma última<br />

homenagem a sua grande amiga, como havia feito por<br />

todos aqueles anos.<br />

A MÚSICA E OS ANIMAIS<br />

Antônio conseguiu apurar tanto sua técnica que mesmo<br />

o fato de ter iniciado tarde seu aprendizado não o impediu<br />

de fazer parte de uma orquestra. Participa desde<br />

2002 da Orquestra de Lajeado e, desde 2006, da Unisc.<br />

Foi assim que a relação da música e dos búfalos começou<br />

a surgir. Enquanto ensaiava em sua fazenda, percebeu<br />

que, ao tocar uma determinada música — Amazing<br />

Grace — um búfalo que pastava nos arredores da casa<br />

64 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

ANTÔNIO EM<br />

UMA DE SUAS<br />

VISITAS MUSICAIS<br />

A DONA ADÉLIA<br />

se aproximou. Antônio estranhou o<br />

fato e começou a fazer algumas experiências,<br />

até perceber que não só<br />

aquele búfalo se aproximava ao ouvir<br />

o som da música como todos os<br />

outros também. Aos poucos, foi se<br />

acostumando a fazer a lida do campo,<br />

trocá-los de pastagem, somente<br />

pelo comando do violino.<br />

A cena é inacreditável. Vera Regina,<br />

que mora há pouco tempo em<br />

General Câmara, ficou conhecendo<br />

a história do encantador de búfalos<br />

e quis assistir de perto. “Fomos com<br />

Antônio até sua fazenda para ver a<br />

famosa história dos búfalos. Quando<br />

paramos na estrada, não se enxergava<br />

nenhum animal, apenas árvores<br />

e um grande descampado. Antônio<br />

começou a tocar o violino no meio<br />

do campo. Tocou por alguns minutos,<br />

e cheguei a pensar que nada<br />

iria acontecer. Foi quando comecei<br />

a ouvir ao longe o barulho daqueles<br />

animais enormes correndo em nossa<br />

direção, fiquei com medo e voltei<br />

para o carro, fiquei vendo a cena de<br />

longe. É ao mesmo tempo encantador<br />

e assustador. Incrível como eles<br />

parecem ser atraídos pelo som do<br />

violino e como a música consegue<br />

acalmá-los”, conta a moradora.<br />

Esse jeito peculiar transformou<br />

Antônio em mais do que um homem<br />

do campo, mais do que um<br />

músico, mais do que um advogado.<br />

Transformou-o em um personagem,<br />

que já teve sua história contada em<br />

jornais, revistas e até na televisão,<br />

mas principalmente em um homem<br />

que encontrou o equilíbrio em sua<br />

vida fazendo as coisas que mais<br />

gosta. Com certeza é esse o legado<br />

que pretende deixar para seu filho<br />

Carlos Augusto, cinco anos, que<br />

desde o ano passado tem aulas de<br />

violino. O valor da amizade, a importância<br />

da qualidade de vida e o<br />

amor pela música.


IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

ensávamos que a tarefa mais difícil seria o<br />

“Pmomento em que estivéssemos frente a frente<br />

com os búfalos ferozes. Nossa aventura começou<br />

quando escolhemos o dia errado para irmos até ao<br />

encontro do nosso entrevistado. Pegamos o carro<br />

e o mundo começou a desabar em Porto Alegre. A<br />

chuva era tão forte que era difícil enxergar a estrada<br />

em nossa frente. O destino era general Câmara,<br />

uma hora de Porto Alegre. Quando chegássemos lá,<br />

enfrentaríamos mais uma hora em uma estrada de<br />

chão batido até o sítio onde são criados os búfalos.<br />

Passamos a entrada que deveríamos seguir e fomos<br />

parar em uma infinita estrada com enormes campos<br />

e lavouras ao nosso redor. Três meninas e o medo<br />

de estar cada vez mais indo para o rumo errado, o<br />

desconhecido. Decidimos voltar. Não conseguiríamos<br />

ver búfalos, fotografar búfalos e escrever sobre<br />

búfalos naquele dia. O dia certo chegou. Sol, calor<br />

e, dessa vez, pegaríamos um ônibus na rodoviária<br />

para não ter erro. Depois de muito chão e poeira,<br />

chegamos no sítio. O som do violino funciona<br />

mesmo, e o barulho que os búfalos provocam com<br />

suas patas é assustador, mas, quando chegam<br />

perto, são animais dóceis e afetuosos. Repórteres e<br />

fotógrafa ficaram impressionadas com o carinho e a<br />

sintonia do encantador e seu rebanho.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 65<br />

BRUNA SCHUCH


66 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

SITES ESPECIALIZADOS<br />

EM CIFRAS MUSICAIS<br />

TAMBÉM CONTÉM<br />

A LETRA DE JINGLES<br />

FAMOSOS, COMO O<br />

DA LIQUIGÁS


MÚSICA PARA GRUDAR<br />

O lucRO AZul DO<br />

cAchORRInhO<br />

O JINGLE PUBLICITÁRIO<br />

vALORIZA UMA MARCA E PODE<br />

DETERMINAR O SUCESSO DE<br />

PRODUTOS MERCADOLóGICOS<br />

NA vISãO DE QUEM O CRIA<br />

TEXTO DE cRISTIAnE SERRA E MATEuS FERRAZ<br />

FOTOS DE cAROlInE SchMEDEckER<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 67


68 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

Imagine a cena. Sábado de manhã, 7h. Você dorme<br />

o sono dos justos após uma semana de aula, trabalho<br />

e um eventual cinema. Tudo o que você não<br />

quer é ser importunado.<br />

De repente, um sonho intranquilo toma conta de seu<br />

momento de repouso. Nele, pessoas de macacão azul oferecem<br />

um produto seguro de norte a sul do Brasil. Como<br />

você sabe desses detalhes? Simples. Uma música acompanha<br />

toda a cena. Quando você percebe, já está até<br />

cantando junto. Uma sonora estrofe invade o quarto ao<br />

mesmo tempo em que você acorda ao som de “Se tem o<br />

lacre azul do cachorrinho…”<br />

Você levanta da cama de mau humor por ter sido despertado<br />

de maneira tão inusitada, mas passa o dia inteiro cantando<br />

a tal música do lacre azul do cachorrinho. Uma chatice,<br />

pensa. Mas, após uma análise aprofundada, você chega<br />

à conclusão de que os versos repetidos à exaustão cumprem<br />

bem o seu papel. O de tornar uma marca conhecida.<br />

Um bom jingle deve ser assim. Chato para alguns, brilhante<br />

para outros, mas que consiga se fixar ao ponto de ser<br />

repetido ou, em casos extremos, até criticado pelo público-<br />

alvo. Isso porque as propagandas que ficam na cabeça da<br />

população são sempre as muito boas ou as muito ruins.<br />

Os versos que tomam ares de algo simplista devem ser<br />

objetivos, para passar uma mensagem em apenas 30 segundos,<br />

e imediatistas, pois geralmente as campanhas duram,<br />

no máximo, dois meses. A simplicidade está presente em<br />

grande parte das músicas de campanhas que marcaram a<br />

população. Seja pela letra, acessível a uma determinada<br />

camada que recebe a informação, o público-alvo, ou por<br />

um refrão repetitivo. Essa situação passa a impressão de<br />

que é fácil compor algo que tenha como marca registrada a<br />

acessibilidade da informação. Engano.<br />

O guitarrista da banda Papas da Língua, Leo Henkin, trabalhou<br />

por vários anos na composição de jingles e trilhas<br />

sonoras e diz que a música comercial deve, primeiramente,<br />

seguir regras. São demandas do cliente, do público a ser<br />

atingido, além de ser uma criação em cima de um produto<br />

existente. Resumindo, um processo criativo que não é livre.<br />

Ainda há a necessidade de se fazer algo acessível. E é esse<br />

o ponto que apresenta o maior desafio em sua opinião: “É<br />

muito difícil ser simples. Ao mesmo tempo, as grandes músicas<br />

são as que beiram a simplicidade e, até por não existir<br />

uma fórmula pronta, eu considero a criação de um jingle<br />

uma tarefa das mais complicadas”.<br />

Além disso, há a distinção do veículo que receberá a<br />

peça. Em uma campanha para o rádio, a própria letra da<br />

música deve ser clara e dizer tudo de uma vez. Na tevê,<br />

o som é acompanhado de imagens, o que pode tornar o<br />

jingle mais flexível e subjetivo.<br />

Com isso, quando Leo pega seu violão ou senta ao<br />

piano, a música não é composta apenas pelo briefing do<br />

cliente. “O próprio compositor deve ter um conhecimento<br />

musical e intelectual abrangente e estar aberto a todas as<br />

possibilidades sonoras”, sublinha. Para ele, o músico deve<br />

ouvir todos os estilos, que podem ir do erudito até a ultravanguarda.<br />

“Tem muito de uma parte que é do criador, de<br />

buscar a sonoridade, atmosfera, isso vai de uma experiên-<br />

cia cultural de toda, por assim dizer,<br />

biblioteca musical”, entusiasma-se.<br />

Leo reconhece uma influência do<br />

trabalho como compositor de jingles<br />

sobre seu desenvolvimento para as<br />

demais áreas da música. Hoje, grande<br />

parte das composições da banda Papas<br />

da Língua tem sua assinatura. “Aprendi<br />

muito fazendo jingles. Foi um grande<br />

laboratório. Te ensina a trabalhar<br />

com tempo limitado e torna acessível<br />

o formato pop”, comenta.<br />

Trabalho conjunTo<br />

Atrás de um jingle, nunca há apenas<br />

o músico. Há uma empresa que<br />

visa o lucro. O “chefe” é quem vai<br />

definir a linha do trabalho a ser realizado.<br />

Reuniões, roteiros, teto de<br />

investimento e retorno são levados<br />

em consideração. Além disso, após a<br />

conclusão do trabalho, é necessário<br />

ganhar a simpatia do contratante para<br />

a ideia desenvolvida.<br />

Existem histórias, algumas que adquiriram<br />

o status de lenda, de clientes<br />

que preferiram a intransigência de<br />

sua própria ideia a aceitar uma boa<br />

campanha sugerida pela agência prestadora<br />

de serviço.<br />

Segundo o diretor de criação da<br />

Paim Comunicação, Fabio Bernardi,<br />

essa situação é mais rara do que parece.<br />

Geralmente, as peças são finalizadas<br />

de forma conjunta, entre agência<br />

e produtora. Porém, o projeto só ganha<br />

a gravação definitiva após passar<br />

pela aprovação do cliente. Como as<br />

empresas de comunicação trabalham<br />

em cima de um roteiro previamente<br />

discutido com o contratante, as chances<br />

de recusa são mínimas.<br />

Quanto à escolha da música para<br />

passar uma ideia, Bernardi acredita<br />

que essa é a única arte realmente<br />

instantânea. Ela deve ser usada para<br />

passar emoção e dizer muitas coisas<br />

em pouco tempo. “Diversas campanhas<br />

trazem muito conteúdo e, como<br />

o tempo é reduzido (cada peça tem<br />

cerca de 30 segundos), fica mais fácil<br />

colocar a ideia em uma letra.” Ele<br />

cita um exemplo marcante, que ocorre<br />

pelo menos a cada dois anos: “Os<br />

jingles de campanhas eleitorais devem<br />

passar emoção, o plano de governo e<br />

ainda ser de fácil repetição.”<br />

É fácil perceber quando uma cam-


LEO HENKIN<br />

RECONHECE UMA<br />

INFLUÊNCIA DO<br />

TRABALHO COMO<br />

COMPOSITOR DE<br />

JINGLES SOBRE SEU<br />

DESENvOLvIMENTO<br />

PARA AS DEMAIS<br />

ÁREAS DA MÚSICA<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

m um primeiro momento, a escolha do tema da revista<br />

“Enos pareceu algo comum, batido. Mas, ao lembrar de<br />

vários jingles que pulavam de nossa lembrança, especialmente a<br />

remota, vimos a possibilidade de realizar um trabalho prazeroso.<br />

Ao encontrarmos nossa fotógrafa, ficamos ainda mais satisfeitos,<br />

já que ela é publicitária, o que nos proporcionou uma visão<br />

diferente do tema por alguém que teria uma maior compreensão<br />

sobre o assunto. Fomos a campo. Pesquisamos, relembramos,<br />

ouvimos diferentes peças e lembramos o mau humor das manhãs<br />

de sábado ao sermos acordados pela ótima composição do Lacre<br />

azul do cachorrinho ou, em escala amadora, pelo vendedor de<br />

bananas que oferecia três quilos do produto por um real ou a<br />

melancia calada e garantida. Isso fez com que a empolgação<br />

fosse crescente. E se, ao final do texto, alguém ficar com algum<br />

jingle na cabeça, isso mostra que não escolhemos o tema errado.<br />

Junte-se a nós: “O vendedor tem um crachá de identificação, o<br />

uniforme, o caminhão, a chama é azul...”<br />

panha publicitária obtém êxito pela<br />

sua repercussão junto à sociedade. Especialmente<br />

quando ela ultrapassa os<br />

limites do curral formado pelo público<br />

alvo e é comentada em qualquer roda<br />

de amigos. O “lacre azul do cachorrinho”,<br />

sucesso em festas de aniversário<br />

e empresas, é apenas um exemplo.<br />

Pode-se, ainda, resgatar o jingle dos<br />

cobertores Parahyba, das Casas Pernambucanas,<br />

do Guaraná Antárctica<br />

e, mais recentemente, o dos tubos e<br />

conexões Tigre.<br />

No Rio Grande do Sul, um exemplo<br />

de uma campanha de conscientização<br />

que acabou ganhando<br />

a simpatia da população foi a dos<br />

Monstrinhos, veiculada pela RBS-<br />

TV, em 2003. Além de personagens<br />

caricatos, como o Bicho Papão, a<br />

Bruxa Malvada, o Boi da Cara Preta<br />

e até o Diabo, a peça trazia uma<br />

música que colava no ouvido. Os<br />

comerciais logo caíram no gosto<br />

da criançada e também dos adultos,<br />

chegando a figurar no set list<br />

do cantor gaúcho Nei Lisboa, que<br />

entre seus Telhados de Paris e Faxineiras,<br />

lascava um “Não acredito<br />

que falem/que maltrato meus boizinhos/Eu<br />

sempre dei a eles/Muito<br />

amor e carinho”.<br />

Bernardi esteve na criação da peça<br />

e não esconde o entusiasmo. “Tem vários<br />

casos na agência de campanhas<br />

que geram mobilização por parte do<br />

público alvo, mas acho que o maior<br />

exemplo é a campanha ‘O Amor é a<br />

Melhor Herança. Cuide das Crianças’,<br />

dos Monstrinhos do grupo RBS.”<br />

A persuasão através da música<br />

se mostra um método eficaz para a<br />

venda de uma ideia. Quando o mercado<br />

publicitário alia-se a uma boa<br />

melodia e a um refrão instantaneamente<br />

decorado, pode-se apostar no<br />

sucesso do produto oferecido. Isso<br />

porque, se é a emoção o que move o<br />

mundo, nada mais óbvio que utilizar<br />

esse artifício para influenciar atitudes<br />

e hábitos de consumo.<br />

Enquanto alguma outra maneira<br />

de chamar a atenção para uma<br />

marca, tão eficaz quanto o jingle,<br />

não for encontrada, as variações<br />

do lacre azul do cachorrinho ainda<br />

poderão acordá-lo durante vários<br />

sábados de sua vida.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 69


MÚSICA PARA CANTAR<br />

A vOltA DA AíDA<br />

TEXTO DE ISABEl BONORINO E RODRIGO RODRIGUES | FOTOS DE ElIS BRAZ<br />

70 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


A encenAção dA óperA AídA é o grAnde momento do Ano<br />

pArA As mAis de 300 pessoAs envolvidAs nA montAgem. entre<br />

profissionAis e AmAdores, o objetivo é o mesmo: trAbAlhAr<br />

pArA que o espetáculo AconteçA dA melhor formA possível<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 71


victoriA trAbAlhA<br />

pAsso A pAsso A<br />

montAgem<br />

junto Ao coro<br />

72 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

A<br />

paixão entre a escrava etíope e o general egípcio conduz<br />

os quatro atos da ópera Aída, de Giuseppe Verdi. Uma<br />

história de amor impossível. Ao contrário do que é representado<br />

no palco, possível é palavra de ordem no Instituto<br />

de Cultura Musical (ICM) da PUCRS, em Porto Alegre. Apesar das<br />

limitações técnicas e financeiras, o sonho idealizado pelo maestro<br />

Frederico Gerling Jr., afastado pela primeira vez de uma montagem<br />

por problemas de saúde, tem seguimento na família formada<br />

ao longo dos últimos 37 anos da instituição. “Cada gesto, cada<br />

nota feita, tudo que estamos fazendo é para ele”, conta a diretora<br />

do ICM e também soprano que interpreta a personagem-título da<br />

obra, Adriana de Almeida.<br />

Dezenove anos após a última montagem de Aída no Rio Grande<br />

do Sul, o ICM voltou a apresentar a obra em quatro récitas,<br />

nos meses de outubro e novembro. Dessa vez com a participação<br />

argentina do maestro Mario Perusso e outros quatro solistas. Para<br />

realizar um grande espetáculo como esse e superar todos os seus<br />

obstáculos, o trabalho começa cerca de três meses antes. No mês<br />

anterior à estreia, os ensaios do coral e da orquestra são intensificados<br />

e é incluída a parte cênica.<br />

Ensaiar é prEciso, tolErar também<br />

Pense em torno de 350 pessoas, atuando nas mais diversas<br />

funções, no palco e fora dele, sendo que a maioria está ali voluntariamente.<br />

Agora, imagine ter de contar com a compreensão de<br />

todos, entender eventuais ausências, desistências de última hora<br />

e saber que o tempo joga contra. O fato de a maioria ser amadora<br />

torna a realização da ópera um desafio e um exercício de tolerância,<br />

já que muitos trabalham durante a semana ou não sabem<br />

ler partituras. “É um trabalho que depende da boa vontade de<br />

todos para estarem nos ensaios. Trabalhamos sempre com condições<br />

acessíveis, não ideais”, relata a diretora com certo tom de<br />

lamento. Para ela, o ideal seria contar<br />

com um coro profissional, assim como é<br />

a orquestra. Não sendo possível, a colaboração<br />

vem do amor à arte. “É um<br />

produto feito com pessoas amadoras.<br />

Realmente o nome já diz: amam aquilo<br />

que fazem”, conclui Adriana.<br />

Mariele Beckenkamp, 41 anos, fisioterapeuta,<br />

entrou para o coral por acaso,<br />

junto com a mãe, a artista plástica Jalda,<br />

66. Foi ao teste para acompanhá-la,<br />

acabou sendo convidada a participar e<br />

há oito anos faz o que mais gosta ao lado<br />

da mãe. Ela não é a única nessa situação.<br />

A médica Clarissa Bassin, 49 anos,<br />

desde ano passado tem a companhia<br />

de sua filha Virgínia, 28, tradutora, que<br />

canta ao lado do noivo Eliandro Both, 28.<br />

Com tanto tempo compartilhado, namoros<br />

não são raros no grupo.<br />

O casal Maria Isabel, 63 anos, e Isidro<br />

Piazzetin, 60 anos, participou das<br />

outras montagens locais de Aída, feitas<br />

em 1977 e 1991 pela PUCRS, e sabe bem<br />

a razão para os relacionamentos começarem.<br />

Integrantes do coral desde 1969<br />

e 1973, respectivamente, a professora<br />

de francês e o bancário se conheceram<br />

ali e já perderam a conta de quantos<br />

casais se formaram e de quantas óperas<br />

participaram. Ano que vem completam<br />

30 anos de casados, o mesmo número<br />

de óperas que acreditam terem feito.<br />

Não é para menos. Maria Isabel está no<br />

coral antes mesmo do maestro Gerling<br />

assumir o grupo, em 1972. A entrada de<br />

Isidro, na época seminarista, se deu após<br />

a divulgação em uma turma de Filosofia<br />

sobre as “benesses” que o canto traria<br />

aos jovens aspirantes a sacerdotes.<br />

Quando chega a época dos ensaios de<br />

cena, lá estão eles, junto a Mariele. “O<br />

que mais nos entusiasma é fazer a ópera.<br />

A gente canta e interpreta, depois ouve<br />

o aplauso do público. Ao final nos sentimos<br />

realizadas”, conta a fisioterapeuta.<br />

Nessa montagem ocorreram seis trocas<br />

de cenário, e cada personagem teve em<br />

média três figurinos.<br />

limitEs sUpEraDos<br />

No galpão ao lado do prédio do ICM<br />

existe uma espécie de oficina onde funcionários<br />

dão forma ao cenário das óperas.<br />

Ali foram feitos os últimos ajustes<br />

nas esfinges de esponja, remontando<br />

às do Egito, e nas grandes estruturas de<br />

cerca de seis metros de altura. Deixando


o papel de Aída de lado, Adriana de Almeida<br />

pediu que ninguém tirasse fotos durante<br />

os ensaios, ou que não as colocassem<br />

em sites de relacionamento. O motivo?<br />

Sem cenário e figurino <strong>completo</strong>s, a divulgação<br />

poderia dar uma ideia errada do<br />

espetáculo, que este ano foi assinado pelo<br />

cenógrafo Valdir Martins, com a assessoria<br />

de Zeca Zenner, que já trabalhou com o<br />

carnavalesco Joãozinho Trinta.<br />

Tudo bem diferente de décadas atrás,<br />

quando Gerling criou o coral. “Ou a gente<br />

fazia com as condições que tinha, ou não<br />

fazia. Uma época o maestro teve que vender<br />

o piano dele para pagar uma montagem”,<br />

exemplifica Isidro.<br />

Há cerca de oito anos, a preparação<br />

de cena é feita pela coreógrafa Victória<br />

Milanez, e o trabalho não é fácil, pois,<br />

além de cantar, é necessário interpretar. Há quem tire de<br />

letra, caso da fisioterapeuta Mariele: “Por ter sido bailarina,<br />

é mais fácil. O bailarino é um ator que dança. Mas não é<br />

fácil para todo mundo”. Por isso as cenas são repetidas para<br />

mudar o que não está bom.<br />

“Entra soldado! Entra povo! Calma! Devagar!”, berra da<br />

plateia, com microfone na mão, Victoria, ao observar a movimentação<br />

do grupo de solistas, coro e balé. Devido à idade, ou<br />

a problemas de coluna, sete mulheres cantam parte de uma<br />

cena fora do palco, nas coxias. A dificuldade para ficar de joelhos<br />

resultou em contraturas musculares, que fizeram algumas<br />

visitarem o ortopedista e a fisioterapia, caso de Virginia Bassin.<br />

A contralto estava se recuperando de hérnia de disco, mas não<br />

desistiu de participar da montagem.<br />

Nos ensaios, o clima de descontração disfarça a timidez e a<br />

ansiedade. Segundo Adriana, as brincadeiras e as piadas fazem<br />

essas sensações passarem: “À medida que eles vão se inteirando<br />

do que será feito, compreendendo toda a movimentação, vão<br />

entrando no espírito”. A opinião da diretora é compartilhada<br />

por Mariele: “Os ensaios são sempre uma festa, mas quando vai<br />

chegando o dia, todo mundo vai se concentrando, ficando sério.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

Isabel Bonorino<br />

ma coisa é você ser coralista e participar de<br />

“uuma ópera; outra é, além de tudo, observar<br />

detalhes e conseguir reportar, entre tantas coisas,<br />

apenas o mais interessante para o leitor. por participar<br />

do coral, tive acesso a ensaios e fontes facilmente;<br />

porém, a confiança de que tudo estava sob controle<br />

acabou quando as pessoas escolhidas resolveram faltar<br />

e até abandonar o coro. A cada dia algo novo para<br />

contar. Adoentado, o maestro gerling não pôde ver<br />

Aída. uma semana após a última récita, ele morreu.”<br />

Quando tem o ensaio geral, que você coloca a roupa, sempre dá<br />

aquele nervoso”. Quando chega o grande dia, a ansiedade dá<br />

lugar à emoção, garante Jalda.<br />

artE pEla artE<br />

Por mais que as limitações existam, a evolução do ICM<br />

foi grande. Hoje o que se vê é uma estrutura adequada que<br />

atende às principais necessidades do coral, dos solistas e da<br />

orquestra, como palco, salas de ensaio e camarins. Há local<br />

inclusive para a turma da costura fazer o figurino das óperas.<br />

Tudo no complexo do Salão de Atos da PUCRS, onde está localizado<br />

o instituto.<br />

“A cultura é um investimento humano para a sociedade”.<br />

A recepção do público, segundo ela, é ótima: “Trabalho há 23<br />

anos produzindo espetáculos e sempre tivemos casa lotada”.<br />

Após tamanho trabalho de bastidores, a realização das récitas<br />

é a concretização do sonho de todos. “Quando atingimos<br />

aquele sonho, o ideal que se criou e que gerou uma expectativa,<br />

a sensação é muito prazerosa e contempla os desafios que<br />

nós tivemos e que acabamos superando por essa satisfação de<br />

ver o espetáculo ganhar vida”, diz Adriana.<br />

Rodrigo Rodrigues<br />

screver uma grande reportagem já é por si só<br />

“eum bom desafio. mas descrever, nos tantos mil<br />

caracteres dessa matéria, algo até então desconhecido<br />

para você, eleva a dificuldade na realização da tarefa.<br />

não sou lá um grande apreciador da música erudita<br />

e seus espetáculos (concertos, óperas). o pouco que<br />

conheço vi pela televisão. portanto, o ensaio e os<br />

entrevistados, além da minha dupla, me mostraram<br />

esse novo mundo. onde se faz o possível para chegar<br />

ao desejado, assim como fizemos essa redação.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 73


MÚSICA PARA<br />

CELEBRAR<br />

74 | Primeira imPressÃo | Dezembro/2010<br />

Guizos e<br />

tambores


Além de umA mAnifestAção<br />

culturAl, com trono, rei<br />

e rAinhA, o mAçAmbique,<br />

dAnçAnte e Alegre, dá ritmo e<br />

nome A um estilo musicAl do<br />

rio grAnde do sul<br />

TEXTO De GutiÉri saNCHez e roGÉrio r. berNarDes<br />

FOTOS De FerNaNDa braNDt<br />

O<br />

Grupo Maçambique de Osório, cidade<br />

do Litoral Norte Gaúcho, é considerado<br />

uma das últimas amostras de<br />

devoção católica negra no Rio Grande<br />

do Sul. É uma manifestação sociocultural<br />

e religiosa que tem o seu ponto forte, todos<br />

os anos, no mês de outubro, quando a Igreja<br />

Católica celebra a Festa de Nossa Senhora do<br />

Rosário. A santa é conhecida como a protetora<br />

e padroeira dos Maçambique.<br />

A inspiração para a criação do grupo vem<br />

de um velho reino em Angola, país da África,<br />

que teve no século XVII, um reinado com<br />

o Rei Congo e a Rainha Ginga. Juntos, eles<br />

lideraram em uma guerra, a resistência de<br />

Congo e de Angola, que representa a reação<br />

de Portugal à escravidão. Este fato venceu<br />

o tempo, atravessou mares e, em Osório,<br />

a história virou folclore. Os integrantes do<br />

grupo se autodenominam de Maçambiques.<br />

Alguns historiadores acreditam que parte<br />

dos escravos do litoral gaúcho veio de Moçambique.<br />

Ao longo da história, podem ter<br />

trocado a primeira vogal.<br />

Atualmente o grupo religioso está, em sua<br />

maioria, vivendo no bairro Caravágio, em Osório.<br />

Tem na Rainha Ginga, Severina Dias, de 84<br />

anos, e no Rei Congo, Sebastião Antônio, de 82<br />

anos, as duas principais autoridades. A Rainha<br />

apresenta sempre a última palavra, exercendo<br />

o poder de decisões relativas ao grupo. Ainda<br />

há pajens do rei e da rainha e outros integrantes<br />

com nomes de patentes militares, como os<br />

capitães da espada, o chefe dos dançantes,<br />

a vara dos dançantes, as alferes da bandeira<br />

e os tamboreiros. Os dançantes portam em<br />

suas pernas uma espécie de guizo denominado<br />

maçacaia, que é utilizado para representar o<br />

som das correntes usadas pelos escravos que<br />

fugiam dos maus tratos de seus senhores.<br />

Caracterizado por dançar descalços, com<br />

seus rituais, o grupo tem passado de geração<br />

em geração, levando a cultura de um povo sempre<br />

à frente. Os tambores utilizados em suas<br />

danças são feitos pelos próprios componentes.<br />

“Só quem está ou já passou pelo Maçambique<br />

de Osório, saberá fazer o instrumento musical<br />

utilizado por nós, que é trabalhado com couro<br />

de cabrito”, revela Francisca Dias, presidente<br />

do grupo e filha da Rainha Ginga Severina. Assim<br />

sendo, como em uma Monarquia, Francisca é virtual<br />

sucessora ao trono.<br />

Primeira imPressÃo | Dezembro/2010 | 75


(ou maçacaia):<br />

espécie de<br />

balainho de<br />

taquara, tendo<br />

em seu interior<br />

uma frutinha<br />

seca chamada de<br />

caeté. Prende-se<br />

no tornozelo<br />

A FestA<br />

A festa de Nossa Senhora do Rosário representa<br />

para os Maçambiques, a coroação da Rainha Ginga<br />

e do Rei Congo. Através de cânticos, vestimentas<br />

brancas e cerimônias, os integrantes do grupo seguem<br />

os costumes dos seus ancestrais, que, ainda<br />

no tempo da escravidão, viam na devoção à santa<br />

uma esperança para a sua libertação.<br />

Durante quatro dias, às vésperas do feriado de 12<br />

de outubro, a cultura negra floresce na cidade de Osório.<br />

Diversas são as homenagens à santa, sempre com<br />

os tambores e danças embalando os rituais.<br />

Nesse período são realizados baile, promessas, missas,<br />

danças, procissão, almoços e jantas. O Maçambique<br />

de Osório resgata uma cultura que iniciou a quilômetros<br />

de distância, mas que se depender dos seus<br />

integrantes, jamais morrerá.<br />

O grupo, apesar de manter uma tradição e ser famoso<br />

em diversos locais do estado, do país e até do exterior,<br />

não parece ter o reconhecimento merecido por<br />

parte das autoridades locais. Para se ter uma idéia,<br />

nem uma sede própria os Maçambiques de Osório possuem.<br />

No entanto, outro lado desta cultura tem se tornado<br />

famoso e até financeiramente independente: o<br />

Maçambique como gênero musical.<br />

Ventre Livre<br />

(Ivo Ladislau e Carlos Catuípe)<br />

O Maçambique não se cala<br />

Ao som do tambor e da puíta<br />

No machacá chocalha caeté<br />

Chocalha o caeté na batida do pé.<br />

Não se rompem os grilhões<br />

Dessa mãe que ainda vive<br />

Sangra negra, ama e sua<br />

Que teu filho será livre.<br />

Livre para ser escravo<br />

Que tem preço, a caridade<br />

Se teu filho for um bravo<br />

Chegará à liberdade<br />

Vão ser livres, vão ser livres<br />

Os filhos dessas mulheres?!<br />

Casa grande e senzala<br />

Tronco, sinhô e chibata.<br />

A luta ainda se arrasta<br />

Entre cantos e gemidos<br />

Pra ser livre a luta é vasta<br />

Não basta só ter nascido.<br />

“Oi vamo-nos embora<br />

E não fica ninguém<br />

Que a virgem do Rosário<br />

Vai com nóis também!”<br />

“Lá vem o Rei do Congo com a sua infantaria<br />

Coroa na cabeça e um Rosário de Maria!<br />

Ai, minha Rainha Ginga olha e pisa devagar,<br />

Pras pedras miudinhas não sair do seu lugar!”<br />

“O Tambor tá batendo,<br />

ta repenicando!<br />

São seus dançantes, oi senhor!<br />

Que o tambor tá chamando!”<br />

76 | Primeira imPressÃo | Dezembro/2010<br />

instrumento<br />

semelhante a<br />

cuíca, feito com<br />

couro de cabrito<br />

e uma haste de<br />

bambu. o grupo<br />

não usa puíta hoje<br />

em dia<br />

A frutinha e<br />

semente da<br />

planta caeté são<br />

utilizadas dentro<br />

do maçacaia<br />

MúsicA<br />

Os guizos, os tambores e as danças serviram de inspiração<br />

e raiz para o que hoje, levando o mesmo nome<br />

do grupo folclórico, é reconhecido como um gênero<br />

musical. Segundo o maestro radicado em Osório Paulo<br />

de Campos, a célula rítmica da batida do tambor<br />

Maçambique e o rufar sincopado (com pausas curtas<br />

e marcantes) são os elementos que caracterizam a<br />

cultura. Misturados a instrumentos como a guitarra, o<br />

teclado, o contrabaixo e outros, formam esse gênero<br />

osoriense e gaúcho.<br />

Os primeiros músicos que tiveram a ideia de<br />

compor canções com a batida do tambor dos Maçambiques<br />

foram Ivo Ladislau e Carlos Catuípe. No<br />

começo da década de 1980, encantados com a cultura<br />

litorânea e maçambiqueira, os músicos e compositores<br />

resolveram colocar nas letras e melodias o<br />

que envolvia os Maçambiques. Pensaram em batizar<br />

o ritmo como congada, mas, para não confundir com<br />

ritmos do centro e nordeste do Brasil e caracterizálo<br />

como uma cultura própria do Litoral Norte Gaúcho,<br />

optaram por Maçambique.<br />

Não bastava escrever alguma letra que contasse sobre<br />

o folclore. Era preciso algum elemento que caracterizasse<br />

bem os Maçambiques. Para tanto, nada mais<br />

adequado e marcante do que os tambores. A letra de<br />

Ventre livre estava pronta, mas faltava a melodia. Foi<br />

então que Carlos Catuípe encontrou quem hoje pode<br />

ser considerado – apesar da relutância do grupo folclórico<br />

– o elo entre o folclore e o ritmo.<br />

Nascido em Osório e hoje com 52 anos, Mário<br />

DuLeodato cresceu com a família ligada ao folclore<br />

Maçambique. Ele conta que aprendeu uma batida<br />

diferente do que se ouve hoje nos festejos quando<br />

tinha apenas oito anos. E foi exatamente essa batida<br />

que encantou Catuípe. “Aquela batida com um<br />

ritmo mais rufado que aprendi quando era novinho<br />

se encaixou perfeitamente na música do Ladislau e<br />

do Catuípe”, explica DuLeodato.<br />

A música Ventre livre, que já tinha a letra homenageando<br />

os negros dançantes, estava completa com<br />

o acompanhamento do tambor. Depois da primeira<br />

composição, muitas outras nesse estilo vieram. O ritmo<br />

Maçambique hoje é tocado e reconhecido por muitos<br />

músicos, mas no começo não foi assim. Como tudo<br />

que é novo, aquela extensão de uma congada causava<br />

certa resistência em jurados de alguns festivais.<br />

DuLeodato conta que ouviu em uma rádio da região,<br />

logo que se inscreveram no primeiro festival, que a<br />

música deles não passava de um “batuque africano<br />

falando de praia, escravidão, pescador e dunas”.<br />

Em festivais nos quais ritmos mais tradicionalistas<br />

reinavam, como toadas e milongas, era difícil inscrever<br />

o ainda desconhecido Maçambique. Alguns truques<br />

foram feitos para que as composições pudessem ser<br />

mostradas. Estudioso do ritmo Maçambique, Paulo de<br />

Campos conta que Catuípe inscrevia as músicas como<br />

se fossem milongas, mas na hora de subir ao palco le-


vava DuLeodato vestido a caráter<br />

e com seu tambor, apresentando<br />

a verdadeira versão no ritmo maçambiqueiro.<br />

Depois de certa resistência, a<br />

Moenda (Santo Antônio da Patrulha),<br />

a Tafona (Osório) e depois<br />

o Musicanto (Santa Rosa) foram<br />

os primeiros festivais a difundir e<br />

acreditar no ritmo. Outras canções<br />

foram sendo compostas e apresentadas<br />

em festivais. Algumas composições<br />

fizeram parte de festivais<br />

como a Califórnia da Canção, em<br />

Uruguaiana, e a Escaramuça da<br />

Canção Gaudéria, em Triunfo.<br />

Hoje, o Maçambique é um<br />

ritmo incorporado ao repertório<br />

de artistas e grupos como Loma,<br />

Kako Xavier, Catuípe Junior, Ivo<br />

Ladislau, Richard Serraria, Bataclã<br />

FC, Serrote Preto, Cantadores<br />

do Litoral, Paulinho diCasa,<br />

entre outros. O grupo Cantadores<br />

do Litoral, liderado por Paulo de<br />

Campos, tem um disco gravado<br />

com músicas litorâneas. Muitas<br />

delas são Maçambiques.<br />

O grupo de dançantes, com rainha,<br />

rei e capitães, luta para nunca<br />

se perder ao longo da história.<br />

Sem interferir no folclore, mas<br />

dialogando com ele, o gênero musical<br />

Maçambique também deverá<br />

ser perpetuado nas letras e canções<br />

dos músicos. Hoje, graças ao<br />

folclore, Osório e o Litoral Norte<br />

podem se orgulhar de uma música<br />

nascida no Rio Grande do Sul com<br />

uma levada alegre e marcante que<br />

não só vence festivais como enriquece<br />

nossa cultura.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

scolher uma pauta entre tantas possibilidades no<br />

“emundo da música foi complicado. Pensávamos<br />

nos deslocamentos de osório, onde moramos, para os<br />

locais das entrevistas. foi então que tivemos a ideia<br />

de falar sobre nossa terra. nossa música foi sempre<br />

ligada aos maçambiques e nada mais osoriense do<br />

que eles e suas canções. foi incrível poder entrar em<br />

um universo que conhecíamos muito superficialmente<br />

desde crianças. Aqueles homens cantando e dançando<br />

vestidos de branco acompanhados de espadas, um rei<br />

e uma rainha em frente à igreja. lógico que eles são<br />

muito mais do que isso. bem mais também do que<br />

o tamanho que tivemos disponível nesta revista. os<br />

músicos todos foram muito atenciosos e era visível o<br />

orgulho que sentem de levar a cidade e a região na<br />

letra (no tambor) de suas composições. encontramonos<br />

com a rainha ginga e o rei congo. Visitar suas<br />

casas foi muito enriquecedor. é como nos disseram em<br />

meio às entrevistas: “Vocês sentaram à mesa com um<br />

rei e uma rainha de verdade.”<br />

Primeira imPressÃo | Dezembro/2010 | 77


cartola<br />

QuEM MAnDA<br />

78 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


nA PIStA<br />

SINDY LONGO<br />

música para<br />

dançar<br />

DJs vivem e se<br />

Divertem Da arte<br />

De tocar música<br />

Tocar música é uma<br />

arte? O assunto é<br />

controverso e muitas<br />

pessoas podem<br />

achar que não. A função surgiu<br />

com a industrialização<br />

da cultura, principalmente<br />

da musical. As pessoas que<br />

tocam ou remixam melodias,<br />

seja no rádio ou ao vivo, são<br />

conhecidas como DJs. Essas<br />

figuras sobreviveram à era<br />

da digitalização da música<br />

e agora tocam músicas direto<br />

de computadores em<br />

formato MP3. Seja em festas<br />

auto-intituladas bregas, em<br />

baladas destinadas a público<br />

da terceira idade, em danceterias<br />

ou em programas<br />

de rádio, os DJs vivem de<br />

sua arte e podem até não<br />

produzir suas próprias melodias,<br />

mas são a essência<br />

dessas festas.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 79


80 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

SOu tRASh,<br />

MAS tô nA MODA<br />

Uma hora. Era esse o tempo de<br />

espera para entrar no Laika<br />

Club, na Rua Venâncio Aires, nº 59,<br />

em Porto Alegre, na noite de sábado.<br />

Na fila, diferentes estilos de<br />

pessoas. Esperamos esse tempo,<br />

eu e mais três amigos, curtindo<br />

um “aquece” de músicas bregas.<br />

Cantávamos as clássicas da festa:<br />

Molejo, Latino, É o Tchan!, entre<br />

outras músicas que fazem o tempo<br />

passar mais rápido, numa viagem<br />

de volta a outra época. A Bailalaika<br />

é a festa mais “bombante” em<br />

termos de público no Laika, mesmo<br />

que toque um tipo de música que<br />

não se ouve mais nas rádios.<br />

Amanda, Déia, Vini e Zack formam<br />

um grupo de amigos que,<br />

cerca de cinco anos atrás, teve a<br />

ideia de promover uma festa fora<br />

dos padrões das que existiam até<br />

então no Laika. “Sempre brinco<br />

que somos a versão anos 90 da Balonê”,<br />

conta a DJ Amanda Rech,<br />

referindo-se à festa anos 80 mais<br />

popular da capital gaúcha. Apesar<br />

disso, a Bailalaika está longe<br />

tEXto BIBIAnA BARBARÁ | Fotos DE BRunA SChuCh<br />

de ser apenas uma festa anos 90.<br />

A melhor forma de descrevê-la é<br />

como um “revival do brega”.<br />

“Quando tivemos essa ideia,<br />

nunca imaginamos que daria tão<br />

certo assim”, afirma Amanda. A<br />

festa que ocorre todo mês começou<br />

ainda no Laika antigo, um miniclub<br />

que ficava na Rua Santana.<br />

A Bailalaika atrai um público bem<br />

alternativo, mas que viveu sua infância<br />

ou adolescência na década<br />

de 1990 e hoje se diverte ao som<br />

das trilhas de desenhos, filmes,<br />

novelas, boy bands e outras pérolas<br />

que marcaram suas vidas e<br />

trazem lembranças de uma época<br />

nem tão distante.<br />

O set da Balalaika é decidido<br />

antes da balada começar, até porque<br />

são várias as músicas a serem<br />

procuradas e baixadas da internet,<br />

das mais absurdas e trashs. Também<br />

conta com o perfil @bailalaika<br />

na rede social Twitter, onde recebe<br />

pedidos de músicas. Mas para<br />

serem atendidas, claro que as sugestões<br />

têm que ter a ver com a<br />

proposta da festa.<br />

As músicas são as mais variadas<br />

e, quanto mais brega, mais o público<br />

delira. O pessoal faz coreografias<br />

ao som das mais famosas. Ragatanga<br />

do Rouge, Prometida, do<br />

Broz, qualquer uma das Spice Girls<br />

e dos BackStreet Boys, além de<br />

funk carioca, Molejo, É o Tchan.<br />

Os DJs da Bailalaika também são<br />

convidados para tocar em festas em<br />

outros clubes de Porto Alegre. Uma<br />

destas é a do Clubinho Nonsense,<br />

no Verde Club, localizado na Avenida<br />

Goethe, 200, onde a cada edição<br />

dois DJs da Bailalaika tocam.<br />

Entrevistar os DJs durante a balada<br />

foi um desafio. Eles não param<br />

quietos. Divertem-se com as músicas,<br />

dançam muito e não se preocupam<br />

com o ridículo. Prova que o<br />

trash pode fazer muito sucesso, é<br />

o público fiel que a Bailalaika tem.<br />

Quando saí do Laika já era dia, não<br />

sei a hora, mas com certeza já passava<br />

das seis da manhã. A pergunta<br />

que todos fazem quando a festa<br />

acaba: quando será a próxima?


os DJs Da Festa<br />

BaiLaLaiKa sÓ tocam<br />

músicas BreGas<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 81


cartola<br />

82 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

DOS COPOS<br />

ÀS PICAPES


DJ rÉGis tem<br />

mais De ciNco<br />

miL músicas<br />

arQUivaDas<br />

tEXto DE ÉDER ZuCOLOttO | Foto DE JÉSSICA BERGER<br />

Noite de domingo. Sem entrevistados.<br />

Falta menos de 24 horas para entregar<br />

a matéria da revista Primeira Impressão.<br />

Solução: subornar um amigo motorizado e<br />

sair a cata de um DJ. Local mais próximo:<br />

Bar Alternativo, às margens da ERS-239, no<br />

Km 18,3, em Novo Hamburgo. São 10h45min<br />

e meia dúzia de gatos pingados circula pela<br />

pista principal da casa noturna. O som mecânico<br />

dispara a música que faz parte da<br />

temática da noite de domingo na casa: pagode.<br />

“Lalaiá, ela me deixou.” O local é conhecido<br />

pelo ecletismo musical. Cada noite<br />

tem uma temática diferente: pagode, sertanejo<br />

universitário, funk, música dos anos<br />

80 e 90 e tecno. Pergunto ao garçom se há<br />

ou haverá DJ na casa naquela noite. “Hoje<br />

só tem esta pista e vai ter show de pagode,<br />

mas discotecagem só começa depois das três<br />

da madruga, e o DJ Régis só aparece depois<br />

da meia-noite, deixa que te aviso.”<br />

Sentamos numa mesa e tomamos algumas<br />

cervejas esperando a chegada do Régis.<br />

Não muitas, pois precisava estar sóbrio para<br />

a entrevista. O movimento aumenta, mas<br />

lentamente. “Leleiê, ela me traiu.” Algumas<br />

garotas sambam animadas pela música. “Sou<br />

muleque, sou guerreiro e, como todo bom<br />

brasileiro, não vou me entregar.” À meianoite,<br />

o DJ surge num canto do palco fazendo<br />

ajustes na mesa de som. Subo e me apresento,<br />

digo que estamos fazendo uma matéria<br />

sobre pessoas que colocam som na noite, e<br />

ele, muito simpático, acerta que, assim que<br />

a pagodeira começar, ele dará a entrevista.<br />

Não demora muito e, às 0h15min, o grupo de<br />

pagode começa a tocar. Régis desce e vamos<br />

até o espaço externo do bar, que está vazio.<br />

Sentamos os três numa mesinha: eu, o DJ e<br />

o meu amigo.<br />

DJ Régis é Régis Diego de Almeida Rosa.<br />

Tem 27 anos, mas aparenta menos. E já<br />

soma 10 anos de estrada conduzindo as picapes.<br />

De jaqueta sintética preta, camisa<br />

branca e calça de brim, o jovem fala rápido<br />

e gesticula muito com as mãos. É difícil<br />

acompanhar a verborragia do rapaz em meu<br />

bloquinho de notas.<br />

“Trabalho só como DJ. Aqui no Alternativo<br />

na terça, quinta e domingo, sábado<br />

em Campo Bom e também alguns dias em<br />

Sapiranga e Riozinho. Além disso, há muito<br />

trabalho em festas particulares durante os<br />

outros dias. Tem semanas que trabalho toda<br />

a noite. Vivo só disso e vivo bem. Toco de<br />

tudo e gosto de tudo. O pessoal (outros DJs)<br />

só quer tocar eletrônico ou sertanejo, que<br />

também está em alta. Mas têm coisas como<br />

o funk e o eletro-funk que estão vindo com<br />

força também. É preciso estar sempre ligado<br />

no que está rolando de novo. Tenho mais de<br />

cinco mil músicas arquivadas e sempre estou<br />

catando algumas novas.”<br />

Régis vive agora da música, mas nem sempre<br />

foi assim. Começou como garçom, recolhendo<br />

copos em uma boate de Novo Hamburgo.<br />

Com o tempo, passou a iluminador e<br />

sempre que podia ia ver como o DJ da casa<br />

trabalhava. Com a força de quem já entendia<br />

do tablado, aprendeu na prática e nunca fez<br />

curso para a profissão.<br />

“Já toquei para mais de 8 mil pessoas durante<br />

um festival de música em 2008 e foi<br />

muito bom. O meu diferencial é que tenho<br />

comunicação. Além de tocar a música, eu<br />

falo com o público. Tem muito DJ que não<br />

faz isso. Hoje tenho casa própria em Estância<br />

Velha graças ao meu trabalho como DJ.”<br />

Você se considera um artista?<br />

“Sim, me considero um artista. Não sou<br />

como Luan Santana, mas sou um artista.”<br />

Ser DJ ajuda a pegar mulher?<br />

“Ajuda e muito. Já namorei muito. Mas<br />

agora tô namorando firme, faz sete meses.”<br />

O que é chato em ser Dj?<br />

“Chato são os caras que não querem ir<br />

embora da festa quando ela tá acabando.<br />

Nem estão ouvindo a música, e mesmo assim,<br />

não vão embora.”<br />

Seu sonho?<br />

“Hoje posso dar uma vida boa para minha<br />

filha Érika, de cinco anos, com meu trabalho.<br />

Meu sonho é seguir como DJ até ficar<br />

velhinho.”<br />

Despedimo-nos do DJ Régis e voltamos à<br />

festa. A pagodeira ainda está animada, e a<br />

pista segue lotada. À 1h40min a banda encerra<br />

as atividades (antes do que esperávamos),<br />

e é hora do DJ Régis assumir o espetáculo.<br />

Para iniciar, ele dispara um remix da música.<br />

“Você é boi garantido, puxa o rabo dela, está<br />

correndo perigo, vai segurar vela...”<br />

Seus olhos atentos dividem a atenção<br />

entre as picapes e equalizadores e o movimento<br />

da pista. Começou servindo copos e<br />

agora serve música para os sedentos da pista.<br />

Depois surge algo do Kings of Leons, que<br />

me agrada, mas que logo depois é rebatido<br />

com o refrão demoníaco da música chiclete<br />

Pan-Americano. Fim da pauta, pago a conta<br />

e vamos embora. Mais de R$ 80. E o carro do<br />

meu camarada não tem nem rádio.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 83


cartola<br />

AfInIDADES<br />

nO AMOR<br />

E nA MúSICA<br />

84 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

LaÍs e GaBrieL<br />

se coNHeceram<br />

Na ÉPoca Do<br />

coLÉGio. HoJe<br />

sÃo NamoraDos<br />

e traBaLHam<br />

JUNtos como DJs


tEXto DE ADRIAnO DE CARVALhO E PAtRÍCIA OLIVEIRA<br />

Fotos DE SInDY LOnGO<br />

Ela é Laís Longo. Ele é Gabriel Alano.<br />

São Djs e namorados. Trabalham juntos<br />

e vivem imersos em música durante<br />

quase todas as 24 horas do dia. Fazem sucesso<br />

em diversas rádios online no mundo<br />

inteiro e em rádios FM de todo o Brasil<br />

voltadas para a música eletrônica. “Música<br />

é tudo na minha vida. Eu acordo ouvindo<br />

música, sempre saio de casa com um<br />

fone no ouvido e não consigo imaginar a<br />

minha vida sem isso”, diz ele. “A música<br />

é tudo na minha vida também. Seja<br />

o estilo que for, tem que estar tocando<br />

música”, sentencia ela.<br />

Nosso primeiro contato com o casal<br />

aconteceu no apartamento deles, no<br />

meio de uma tarde de domingo. Ao chegar<br />

na porta do edifício, tivemos que<br />

tocar a campainha mais de uma vez, já<br />

que ninguém nos atendia. O desepero<br />

tomou conta da dupla de repórteres,<br />

já que essa pauta era nossa segunda<br />

opção e tínhamos apenas esse final de<br />

semana para concretizá-la. Por sorte<br />

e alívio, Laís atendeu a campainha e<br />

abriu a porta se desculpando. “Tocamos<br />

até as 14h. O sono bateu, mas estamos<br />

prontos”, disse ela.<br />

Encaramos numa boa e logo percebemos<br />

o quanto os dois se dedicam à<br />

profissão. Nos dirigimos ao local da entrevista:<br />

um pequeno estúdio montado<br />

dentro do apartamento, onde eles podem<br />

gravar seus próprios sons. Durante<br />

a conversa, percebemos que são um casal<br />

de namorados com diversas afinidades,<br />

grande parte delas expressas pela<br />

música. Nossa impressão sobre o entrosamento<br />

da dupla não se forjou apenas<br />

durante a entrevista, mas também<br />

quando conhecemos o trabalho do casal,<br />

que mistura música eletrônica com voz e<br />

violão. “É algo que tu vive o dia inteiro.<br />

Mesmo fora do estúdio, tu fica pensando,<br />

prestando atenção em alguma coisa<br />

e tendo uma ideia para uma nova música”,<br />

relatou Gabriel sobre como surgem<br />

as inspirações para novas composições.<br />

Os dois se conheceram nos tempos de<br />

colégio e seguiram caminhos diferentes<br />

depois da formatura. Entretanto, o tempo<br />

foi, pouco a pouco, fazendo com que<br />

se encontrassem novamente. Gabriel nos<br />

contou que, após uma temporada longe<br />

do estado, Laís resolveu voltar para o Rio<br />

Grande do Sul por causa dele. “Éramos<br />

colegas no Ensino Médio. Mas a Laís foi<br />

morar em São Paulo, e nos afastamos.<br />

Numa dessas idas e vindas dela aqui para<br />

Porto Alegre, acabamos nos encontrando<br />

novamente, decidimos namorar e um<br />

tempo depois ela voltou a morar aqui”,<br />

revelou Gabriel.<br />

Laís já ensaiava os primeiros passos<br />

como Dj ao final do Ensino Médio. Se interessou<br />

pela profissão ao ir em festas e ver<br />

como outros se apropriavam das pickups<br />

que hoje ela comanda. Com o incentivo<br />

de uma amiga, aprendeu a mixar músicas<br />

e, aos 19 anos, resolveu ir para São Paulo<br />

fazer faculdade de Produção de Música<br />

Eletrônica. Já Gabriel iniciou graduação<br />

em Administração logo após o colégio.<br />

Tempos depois, trancou o curso e resolveu<br />

fazer Publicidade. Gostou no começo, mas<br />

nessa época ele já tocava — também foi<br />

incentivado por um amigo a experimentar<br />

mixagens e produção de músicas — e se<br />

viu obrigado a realizar uma escolha. “Tive<br />

que trancar a faculdade. Precisei dar mais<br />

ênfase à profissão. Não conseguia me<br />

comprometer com o curso e comecei a ir<br />

mal. Não tinha tempo e precisei deixar os<br />

estudos em segundo plano”, explica.<br />

No desenrolar da conversa, percebemos<br />

nitidamente o prazer dos dois em poder<br />

fazer o que gostam. Fica claro que o<br />

casal fez a escolha certa. Hoje os dois estão<br />

felizes com o rumo que suas vidas tomaram.<br />

Com uma agenda lotada, já fizeram<br />

apresentações não só no Rio Grande<br />

do Sul, como também em Santa Catarina,<br />

no Paraná e outros estados da Região Sudeste<br />

e Centro-Oeste. Uma rotina agitada<br />

e desgastante. “Muita gente entra por<br />

modismo e não consegue permanecer na<br />

profissão. Para continuar, tu precisa gostar<br />

muito do que faz. Às vezes a festa não<br />

dá certo, acontecem problemas e tem<br />

todo esse lado que não é tão profissional<br />

quanto a gente gostaria”, conta Gabriel.<br />

“É preciso gostar e ter muita disposição<br />

para ficar comandando uma pista durante<br />

a noite inteira. Nós, basicamente, trocamos<br />

o dia pela noite”, revela Laís.<br />

Mas o grande desafio da carreira de<br />

um Dj, nos revelou o casal, está na dificuldade<br />

de se produzir as músicas. Embora<br />

seja uma atividade prazerosa, é algo que<br />

dá muito trabalho e que não só toma muito<br />

tempo, como também impõe um custo<br />

alto. “É uma atividade muito complexa.<br />

Fora o alto investimento. É tudo muito<br />

caro. Os equipamentos são importados<br />

e muitas peças tu não encontra aqui no<br />

país”, comentou Gabriel. “A produção<br />

musical é algo meio que sem fim. É um<br />

video-game de adultos, porém o momento<br />

em que terminamos uma música e depois<br />

a tocamos na pista, compensa tudo”,<br />

avalia o músico.<br />

Antes de finalizar a entrevista, tínhamos<br />

que descobrir como Gabriel e Laís lidam<br />

como o assédio dos fãs. A saída, para<br />

eles, sempre está em encarar tudo na esportiva<br />

para evitar constrangimentos. “No<br />

início, tínhamos mais problemas com o assédio<br />

do pessoal. Agora, como somos mais<br />

conhecidos aqui no Sul, isso não acontece<br />

tanto. Mas em outros lugares ainda acontece,<br />

pois as pessoas não sabem que somos<br />

namorados”, afirmou Laís. “Sempre<br />

tem uns gritinhos. Isso incomoda. Mas a<br />

gente precisa levar na boa. Tu te acostuma,<br />

já que naquele meio tu é uma pessoa<br />

pública e tem que estar disposto a passar<br />

por isso”, conclui Gabriel.<br />

Depois de uma hora de entrevista,<br />

ficamos impressionados com o estilo<br />

de vida dos dois. Manter um relacionamento<br />

é difícil, mas, com tantas afinidades<br />

no amor e na música, isso ficou<br />

simples para o casal.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 85


MÚSICA PARA GRAVAR<br />

PAIxÃO cOMO<br />

86 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

TEXTO DE AMInIE JARDIM, MAnOElI RODRIguES E PABlO FuRlAnEttO<br />

FOTOS DE FIlIPE gAMBA


Integrantes da banda gaúcha<br />

MarIa do relento MostraM que<br />

dInheIro não coMpra tudo e que<br />

aInda exIsteM MúsIcos preocupados<br />

coM a valorIzação do rock<br />

peppe Joe, alÉM<br />

de MúsIco, É o<br />

MotorIsta das<br />

duas bandas que<br />

Integra: a MarIa<br />

do relento e a<br />

ataque colorado<br />

Meados de 1995. Porto<br />

Alegre, Rio Grande do<br />

Sul. Em uma garagem,<br />

em meio a cabos,<br />

pedestais e pedais, nascia mais<br />

uma banda de rock. Influenciados<br />

no estilo de se portar no palco por<br />

um dos maiores apresentadores da<br />

televisão brasileira, Silvio Santos,<br />

os fundadores da Maria do Relento<br />

não imaginavam que estavam<br />

criando um novo estilo no cenário<br />

do rock gaúcho.<br />

Liderados pelo vocalista Peppe<br />

Joe, os músicos iniciaram suas<br />

atividades sob influências nada<br />

comuns. “A Maria sempre foi muito<br />

eclética. Desenvolve uma mistura de<br />

som brega que vai de Black Sabbath<br />

a Waldick Soriano. Um brega metal,<br />

chique”, relata com orgulho Peppe.<br />

Não foi só no estilo que o grupo<br />

inovou. No mesmo palco que<br />

eles, uma das maiores bandas de<br />

punk dos anos 1990 no Brasil, os<br />

Raimundos, tocou pela primeira vez<br />

no Rio Grande do Sul. “Em 1995,<br />

no antigo Opinião, dividimos um<br />

show com os Raimundos, que depois<br />

desse dia levou nosso disco demo<br />

para São Paulo. Em duas semanas<br />

estávamos com gravadora. Logo<br />

nossas músicas tocavam nas rádios.<br />

Fomos a primeira banda da época<br />

a romper a barreira do alternativo<br />

e ir ao Planeta Atlântida”, conta o<br />

frontman do quinteto gaúcho.<br />

A banda, que teve seu boom nos<br />

anos 1990, hoje não é tão conhecida<br />

pela nova geração. O grupo não está<br />

com tanta frequência nas ondas da<br />

FM, por não ter mais gravado tantos<br />

sucessos. Esse status é percebido<br />

pelos próprios músicos. “Chegamos<br />

à conclusão de que para a Maria não<br />

vale mais a pena tocar só por tocar.<br />

Tivemos umas experiências de nos<br />

apresentarmos para pessoas que<br />

não são nosso público. Hoje, nos<br />

shows, tem uma gurizada de 14, 15<br />

cOMBuStívEl<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 87


anos que não conhece nada do que fizemos”, desabafa o<br />

guitarrista Kako. Com isso, o grupo prefere fazer shows<br />

só quando sabe que realmente vai agradar.<br />

Motivados pelas boas lembranças propiciadas<br />

por sucessos como Conhece o Mário?, Beep Beep, O<br />

Vagabundo e Meio Devagar, os integrantes da banda<br />

gaúcha - formada por Peppe Joe nos vocais, Guilherme<br />

Barros e Kako Kanidia nas guitarras, Ricardo Pêdo no<br />

baixo e Gesner Messa na bateria - prometem voltar à<br />

tona com o novo disco, o sétimo álbum do grupo, que<br />

será lançado em breve.<br />

Com um estilo que remete ao início de sua carreira, a<br />

Maria do Relento pretende mostrar aos fãs que sua essência<br />

continua a mesma. Com versões de músicas bregas dos<br />

anos 1980, o quinteto relançará sucessos de cantores<br />

conhecidos nacionalmente, como Amado Batista, até<br />

grupos mais regionais, como Barbarella. Assim, a banda<br />

quer voltar a vivenciar, com mais frequência, situações<br />

de reconhecimento dos fãs. Momentos inusitados, como<br />

quando o grupo se apresentou no “interior do interior”<br />

de Santa Catarina e viu o público entoar seus sucessos.<br />

Como toda banda independente, os músicos tentam<br />

se virar como podem para manter viva a maior ideologia<br />

que levam consigo: o amor pela música. Isso pode ser<br />

percebido nas falas e atitudes de todos eles. “Pretendo<br />

continuar vivendo da música, porque a Maria é minha<br />

família”, diz Guilherme.<br />

Assim, Peppe vira o motorista da banda. Kako,<br />

o empresário. Ricardo, o responsável pelo twitter e<br />

site. O espírito é esse. Não importa que todo dia 30 o<br />

aluguel precise ser pago, que não se saiba como serão<br />

os próximos anos. Para eles, o principal é que, como diz<br />

uma das canções da Maria, “se o sol não me acompanhar,<br />

eu tenho a lua para desabafar”.<br />

nasce a ataque colorado<br />

A paixão pela música, por um clube — o Internacional —<br />

e o apoio de amigos trouxeram uma novidade para a<br />

vida de três dos integrantes da Maria do Relento: Kako,<br />

Peppe e Guilherme. Os meninos que tinham gosto por<br />

futebol direcionaram suas metas, definiram sua escolha<br />

profissional e transformaram, sem querer, todo esse<br />

sentimento pelo Inter em alegria para os torcedores.<br />

Assim nasceu, em 2005, a banda Ataque Colorado.<br />

A Ataque surgiu com uma pitada da essência da<br />

Maria. Com a ideia de ser mais criativa, fazer vários<br />

estilos de sons, brincar com o ritmo das canções,<br />

tornando mais divertida a parte da composição, mas<br />

com a música direcionada a traduzir o sentimento de<br />

seus integrantes pelo clube do coração. Não demorou<br />

muito para o trio tornar-se um quarteto, com a<br />

inclusão de mais um dos componentes da Maria, o<br />

colorado Gesner Messa, que assumiu a bateria.<br />

Para completar o elenco de músicos da banda, só<br />

faltaria a participação de Ricardo Pêdo, no baixo,<br />

mas ele é gremista e, se participasse, iria contra os<br />

seus princípios e os dos próprios amigos colorados.<br />

Ricardo também tem outro projeto paralelo. Atua<br />

88 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

como web designer desde 2005. Mas garante que<br />

sempre incentivou os amigos. “Desde o começo,<br />

apoiei esse projeto. A Ataque Colorado é formada<br />

por caras que considero meus irmãos, e sempre<br />

vou torcer por eles. Sei que eles fazem algo de<br />

qualidade.”<br />

Proprietários da Na Canela Produtora e Na Canela<br />

Discos, a rapaziada da Ataque grava, além de suas<br />

próprias músicas, as da torcida. Os CDs já tiveram mais<br />

de 10 mil cópias vendidas. O material é distribuído pela<br />

própria banda, sem fins lucrativos, que repassa o dinheiro<br />

da venda à torcida Guarda Popular do Inter, para auxiliar<br />

na compra de instrumentos.<br />

Assim como aconteceu com a Maria do Relento, os<br />

músicos da Ataque também gostam de fazer tudo por si<br />

próprios. Não só as gravações dos instrumentais. Cada<br />

um é responsável por alguma coisa e, assim, eles vão<br />

se organizando. Cuidam da parte logística, estratégica e<br />

da assessoria de imprensa. Guilherme é responsável pelo<br />

site da Ataque, que tem seu twitter linkado com o do<br />

Internacional e monitorado pela assessoria de imprensa<br />

do clube. Peppe dirige a van que eles possuem e é o<br />

responsável pela venda e distribuição dos CDs (também<br />

vendidos nos shows da Ataque pelo preço de R$ 10,00).<br />

Kako faz a parte burocrática: trata da distribuição<br />

dos discos para as 98 lojas licenciadas do clube, além<br />

de colocar som no estádio em dias de jogos. “Nós não<br />

queremos pagar para ninguém”, afirma o econômico<br />

Peppe, pai de gêmeos.<br />

Se não bastasse, eles ainda dão força para os<br />

consulados do Internacional espalhados pelo interior do<br />

Estado. “A Ataque é bem mais flexível. Se vamos tocar em<br />

um local e lá não tem hotel, não tem problema, ficamos<br />

no camarim. O legal é que nós chegamos e montamos,<br />

nós mesmos, a estrutura”, diz Peppe.<br />

Acreditando que a fase em que o time se encontra<br />

favorece a ascensão da banda, a Ataque Colorado crê<br />

que, independente da quantidade de fãs, enquanto<br />

houver pessoas que curtam o show e as músicas,<br />

eles tocarão. “A Ataque tem uma coisa muito legal,<br />

porque nos shows há pessoas de várias idades. E nos<br />

emocionamos cantando uma música quando vemos<br />

o público chorando”, conta o vocalista. Essa é a<br />

grande diferença entre fazer e fazer com a alma.<br />

a admiração do público<br />

Seja Maria do Relento ou Ataque Colorado, a admiração<br />

do público não diminuiu. Pelo contrário, aumentou.<br />

Encontrar alguém que traduza o significado, tanto da<br />

banda Maria, quanto da Ataque, não é uma missão muito<br />

difícil. Primeiro, porque a Maria decidiu selecionar seu<br />

público e preservar sua identidade para não cair no<br />

modismo. Segundo, porque a Ataque não é uma mera<br />

banda de clube, e sim uma demonstração de fanatismo e<br />

amor, tanto pela música quanto pelo futebol.<br />

Uma demonstração de tietagem foi a do jornalista<br />

esportivo Alex Escobar, que em uma aparição da banda<br />

Ataque Colorado no programa Globo Esporte pediu que os


kako, peppe,<br />

guIlherMe e<br />

gesner ForMaM a<br />

ataque colorado<br />

músicos tocassem Conhece o Mário?,<br />

um hit antigo da banda. “Ficamos<br />

surpresos. Quando o Alex descobriu<br />

que éramos da Maria, só faltou nos<br />

beijar! Ele quer que toquemos em<br />

seu aniversário, no Rio de Janeiro”,<br />

fala, todo orgulhoso, Peppe.<br />

Acadêmica do curso de Educação<br />

Física da Feevale, Itajanara Moraes<br />

é uma das fãs da Maria: “O primeiro<br />

show de rock que assisti, aos 11 anos,<br />

foi deles. Preciso dizer mais alguma<br />

coisa? Essa banda tem algo que falta<br />

em outras: personalidade. Com bons<br />

músicos, carisma e, principalmente,<br />

respeito pelos fãs, ela não renega<br />

o passado. Continua com o espírito<br />

de sempre. O primeiro álbum é um<br />

dos itens mais queridos da minha<br />

coleção de CDs.”<br />

Para o geógrafo Eduardo Alves,<br />

os jogos no estádio Beira-Rio<br />

não são mais os mesmos depois<br />

da criação da Ataque, pois a<br />

vibração é outra, e a intensidade<br />

da torcida só tende a aumentar.<br />

“Depois da Ataque, os jogos<br />

ficaram com outra cara. A galera<br />

agita muito na torcida cantando<br />

as músicas da banda. Eu tenho<br />

todos os CDs e curto muito. O<br />

trabalho dos caras é bacana e<br />

tem uma resposta muito grande.<br />

O som é muito, muito bom.”<br />

É assim que a música reflete<br />

seu verdadeiro papel: sensibilizar,<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

apaixonar, contagiar, reanimar<br />

aqueles que absorvem sua<br />

essência. Tanto a Maria do Relento<br />

quanto a Ataque Colorado buscam,<br />

com seus trabalhos, alimentar o<br />

amor pela música.<br />

implicidade. essa foi a principal virtude que encontramos nos<br />

“smúsicos das bandas Maria do relento e ataque colorado.<br />

e isso se revelou na atitude que eles tiveram conosco. no início,<br />

achamos que estávamos lidando com aqueles “rockeiros” com jeito<br />

pop star. várias tentativas de entrevistas foram desmarcadas. nos<br />

sentíamos “despistados”. Mas depois percebemos que, na verdade,<br />

julgamos erroneamente os músicos. porque no dia d, quando<br />

finalmente conseguimos entrevistá-los, eles nos esperaram por<br />

uma hora em frente ao prédio do guilherme, um dos integrantes<br />

das bandas. tudo em virtude de nosso atraso. demos uma de<br />

colono, confundindo a rua garibaldi, no bairro bom Fim, com<br />

a rua anita garibaldi, no bairro Mont’serrat. Imaginamos que,<br />

quando chegássemos, os músicos não estariam mais lá. Mas<br />

não, permaneceram no local combinado e nos trataram muito<br />

bem. durante a conversa, percebemos que ainda existem pessoas<br />

que fazem as coisas com amor, mesmo que isso não renda<br />

necessariamente um bom salário. e que para tudo se dá um jeito. o<br />

mais importante no final é simplesmente o amor e a alegria.”<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 89


MÚSICA PARA AQUECER<br />

OnDE O SOM<br />

DA gAItA EcOA<br />

90 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


eM são FRancisco de paula, duas<br />

históRias de vida se cRuzaM,<br />

unindo o novo e o consaGRado nuMa<br />

MesMa paixão: a Música Gauchesca<br />

TEXTO DE MAnuElA tEIxEIRA E MIRIAM MOuRA<br />

FOTOS DE cARInE FERnAnDES E clARISSA FIguEIRó<br />

GonzaGa dos<br />

Reis (à direita)<br />

e JaRdel BoRBa,<br />

MestRe e aluno,<br />

coMpaRtilhaM do<br />

Gosto pela Gaita<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 91<br />

CLARISSA FIGUEIRÓ


CARINE FERNANDES<br />

Em São Francisco de Paula, nos Campos de Cima<br />

da Serra, permanecem hábitos que já foram<br />

esquecidos nas grandes cidades. As casas ainda<br />

utilizam o fogão a lenha para aquecer os dias<br />

em que o inverno é mais rigoroso. Os mais velhos não se<br />

desfazem de suas pilchas mesmo quando andam pelas<br />

ruas da cidade. Ainda se veem cavaleiros na avenida<br />

principal, ladeada por plátanos. O anúncio fúnebre é<br />

veiculado por uma narração que vem da torre da igreja<br />

matriz. Saindo da zona urbana, os campos tomam a<br />

paisagem, verdes no início do dia e dourados no entardecer.<br />

É em um cenário onde as tradições gaúchas se<br />

mantêm vivas que essa história começa.<br />

O gaiteirO<br />

O movimento repetitivo dos dedos que, inquietos,<br />

batem sobre uma caixinha de plástico contrasta<br />

com a fala serena: “O músico não consegue parar<br />

com as mãos. Tem que estar sempre batendo, fazendo<br />

ritmo. O músico é uma pessoa muito sensível”.<br />

Aos 56 anos, Gonzaga dos Reis, como é conhecido<br />

nos palcos de todo o Rio Grande do Sul, fala da música<br />

gauchesca com a experiência de quem tem mais<br />

de 30 anos de carreira.<br />

Nascido em São Francisco de Paula, Gonzaga<br />

aprendeu a tocar gaita sozinho, aos 14 anos, em 1970.<br />

Três anos depois, já estreava em um baile na cidade<br />

de Rosário do Sul. “Fomos em um fusquinha com duas<br />

gaitas, um violão, uma aparelhagem de som da época<br />

e três músicos. Parece mentira, mas é verdade. Foi<br />

um baile muito grande”, conta.<br />

De 1979 a 1989, estava com Paulo Siqueira no grupo<br />

Velha Porteira. Junto desse conjunto, gravou dois<br />

discos. Na década de 1990 deu início a sua carreira<br />

solo, que resultou em cinco trabalhos: De gaita nas<br />

costas foi o primeiro disco, em 1995. Depois dele, vieram<br />

Bem campeiro, Parceiros de canto e Lida, Campeando<br />

recuerdos e Gaudério serrano, lançado em 2009,<br />

com a participação de dois dos seus três filhos.<br />

Não poderia ser diferente, já que a aptidão e o<br />

talento para a música foram herdados por seus três<br />

descendentes. Losenir, Rodrigo e Juliano já subiram<br />

no palco com o pai. “É bastante gratificante olhar<br />

aqueles homens ao seu redor e ver que são seus filhos,<br />

e todos músicos, o que me dá muito orgulho. Um<br />

filho nascia hoje de manhã e de tarde eu já estava<br />

tocando gaita perto do bercinho. Eles não choravam<br />

por causa da música”, relata.<br />

O som da gaita vem acompanhado de composições<br />

que exaltam a vida campeira, a lida com o gado, os<br />

bailes de antigamente. A cada música, um pouco de<br />

sua própria história. “As letras que eu escrevo falam<br />

de campo, falam de festa, de rodeio, de mulher bonita,<br />

de loira, de morena, de rancheira, de tudo que<br />

é coisa. A composição é uma imaginação. Tem que<br />

imaginar uma coisa para escrever uma letra. Muitas<br />

vezes o sujeito nunca pegou num laço, mas na letra<br />

é laçador”. Ao ganhar os palcos, a canção passa a ser<br />

92 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

não a história de um, mas a de todos aqueles que a<br />

escutam e que, naquele momento, tornam-se laçadores<br />

também, mesmo sem nunca ter pego num laço.<br />

PaixãO que nãO cOnhece idade<br />

Amante das lidas gaúchas, Gonzaga se refugiou no<br />

campo, onde tiveram início suas origens e os valores que<br />

o acompanharam por toda a vida. É numa fazenda na<br />

localidade de Lomba Chata, em São Francisco de Paula,<br />

que ele se encontra atualmente. Os bailes e shows deram<br />

lugar à vida campesina. Mas o acordeonista serrano<br />

serve de exemplo para jovens que buscam seus ensinamentos,<br />

como Jardel Borba.<br />

Com apenas 16 anos, ele é um dos gaiteiros e vocalistas<br />

do conjunto que leva o seu nome: Jardel Borba<br />

e Grupo Brasil de Bombacha. O ano de 2009 trouxe o<br />

primeiro CD do jovem, que conta com a participação<br />

de Gonzaga dos Reis, na música Lenço Solto, de autoria<br />

dele. Gonzaga proporcionou um dos momentos mais<br />

especiais para o guri: a primeira vez sobre um palco.<br />

“Quem me deu incentivo a criar o grupo foi ele, em<br />

uma participação no programa Coisas do Sul. Como tinha<br />

duas músicas para tocar, uma delas deixou para<br />

mim. Fiquei muito feliz”, se emociona Jardel.<br />

A participação no programa Coisas do Sul aconteceu<br />

em 2006. Nesse mesmo ano, o jovem ganhou o<br />

primeiro lugar do “Ronquinho”, concurso jovem que<br />

integrava o Festival de Música Ronco do Bugio, de São<br />

Francisco de Paula. O conjunto Jardel Borba e Grupo<br />

Brasil de Bombacha surgiu um ano depois. Mas a<br />

CLARISSA FIGUEIRÓ


CLARISSA FIGUEIRÓ<br />

história de Jardel e Gonzaga iniciou-se quando o guri<br />

tinha apenas 10 anos e procurou o professor para que<br />

ele lhe ensinasse a tocar. Aos 14, as aulas tiveram fim.<br />

“Sou muito grato ao Gonzaga. É um mestre da música.<br />

Somos amigos”, destaca Jardel.<br />

O jovem representa a terceira geração de gaiteiros<br />

de sua família. O pai e o avô já tocavam o instrumento.<br />

Com quatro anos, pegava a gaita do pai, o qual hoje é<br />

também seu companheiro de palco no grupo em que<br />

toca. Ainda estudante, concilia as aulas de Ensino Médio<br />

com os ensaios e trabalhos do conjunto. “Estudo<br />

pela manhã e ensaio duas vezes por semana. Toco no<br />

sábado e no domingo”, diz.<br />

A pouca idade contrasta com a maturidade musical.<br />

“Para ser músico tem que cantar com sentimento. Eu me<br />

emociono com toda a composição que toco. O público<br />

percebe que falta alguma coisa naquele que canta sem<br />

sentimento, mesmo que não saiba bem o que é”, relata.<br />

SOnhOS de gaiteirO<br />

Dois gaiteiros, duas trajetórias musicais que se<br />

cruzam em histórias de vida marcadas pela devoção<br />

à gaita. A música é emoção, sentimento, vontades e<br />

sonhos. Alguns conseguem realizar tudo o que sempre<br />

buscaram. “Na música eu não posso me queixar, tudo<br />

o que eu queria, conquistei”, conta Gonzaga. Outros<br />

seguem lutando atrás de seus sonhos. “Sonho que um<br />

dia estoure uma música minha, que eu consiga gravar<br />

um DVD e ser reconhecido em todo o Estado e no Brasil”,<br />

confidencia Jardel.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

tema música é amplo e de muitas possibilidades.<br />

“o no entanto, fomos desafiados a encontrar<br />

novos olhares sobre esse assunto já tão pautado por<br />

tantos veículos de comunicação. para nós, parecia<br />

incabível não falar do estilo musical que caracteriza a<br />

cultura tradicionalista do estado, a música gauchesca.<br />

seguimos, então, para são Francisco de paula. o que<br />

para uma das repórteres (Manuela) representou o<br />

reencontro com suas origens, significou para outra<br />

(Miriam) a descoberta de uma cultura pouco vivenciada<br />

por ela. são Francisco de paula é uma típica cidade<br />

interiorana: população pequena, costumes antigos<br />

e um grande sentimento pelo “ser gaúcho”. no dia<br />

das fotos, o próprio clima presenteou repórteres e<br />

fotógrafas com o frio, característico da serra Gaúcha.<br />

os termômetros marcaram apenas 8ºc numa manhã<br />

nublada e úmida de primavera. conversar com os dois<br />

gaiteiros escolhidos como fontes, denominados como<br />

o novo e o consagrado, foi revelador. o momento da<br />

entrevista foi também um momento de comunhão:<br />

os sentimentos revelados aos repórteres por vezes os<br />

tornam confidentes. desabafos nunca ditos antes foram<br />

eternizados nas páginas da Primeira Impressão.”<br />

É pelas mãos de jovens como Jardel, apadrinhados por<br />

gaiteiros experientes como Gonzaga dos Reis, que a música<br />

gauchesca se perpetua. E não podia ser diferente,<br />

numa terra que já formou outros grandes acordeonistas:<br />

Albino Manique, Leonel Almeida, Neusa Regina, Ângelo<br />

Marques, Daltro Bertussi, Paulinho Siqueira, Rodrigo Lucena<br />

e os sempre lembrados Irmãos Bertussi.<br />

A relação da cidade com a gaita começou com a formação<br />

da dupla de acordeonistas Irmãos Bertussi, composta<br />

por Honeyde e Adelar Bertussi, no ano de 1947.<br />

Esses artistas, além de pioneiros, tornaram-se ídolos de<br />

toda uma geração de músicos não só de São Francisco<br />

de Paula, como de todo o Rio Grande do Sul. “Muitos<br />

gaiteiros surgiram em São Francisco de Paula, seguindo<br />

os passos dessa dupla e mantendo o mesmo estilo, caracterizando<br />

os acordeonistas serranos com identidade<br />

própria”, afirma o poeta e pesquisador Léo Ribeiro.<br />

Segundo ele, a relação de São Francisco de Paula e<br />

seus gaiteiros é diferenciada do resto do Estado porque<br />

dessa região originou-se um estilo próprio, que é a música<br />

fandangueira ou galponeira, própria para os bailes.<br />

“Na fronteira, usava-se muito o bandoneon e a gaitade-botão,<br />

ou gaita de voz-trocada, com ritmos acastelhanados,<br />

como chamarras e milongas. Já na Serra,<br />

a gaita pianada (ou de teclado), proporcionava outros<br />

ritmos, inclusive com o surgimento do único compasso<br />

genuinamente gauchesco, o bugio, oriundo dos Campos<br />

de Cima da Serra”, completa Léo. Em São Francisco<br />

de Paula, o som da gaita ecoa mais forte pelas mãos<br />

daqueles que a ela dedicam sua vida.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 93<br />

CLARISSA FIGUEIRÓ


música para TOmar maTE<br />

BOEMIA guAScA<br />

EM MEIO AO<br />

cOncREtO<br />

TEXTO DE PEDRO LuIS BIccA E guStAVO ALEncAStRO | FOTOs DE FERnAnDA HERRERA<br />

No Bar EstâNcia dE são PEdro,<br />

localizado No Bairro cidadE<br />

Baixa, movimENtado PoiNt<br />

da Badalada vida NoturNa<br />

dE Porto alEgrE, o atrativo<br />

PriNciPal é a música Nativista<br />

94 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

O<br />

bairro Cidade Baixa está situado na região<br />

central de Porto Alegre. É considerado pelos<br />

porto-alegrenses como o principal ponto<br />

boêmio da cidade. À noite, o local é dominado<br />

por jovens com gostos e estilos urbanos, que<br />

podem optar por bares, restaurantes e danceterias.<br />

Na contramão dos modismos que predominam a capital<br />

gaúcha, o Bar e Restaurante Estância de São<br />

Pedro se destaca como único local no bairro a contemplar<br />

as tradições do Rio Grande do Sul.<br />

Uma máquina registradora antiga sobre o balcão,<br />

logo na entrada, dá ao Estância de São Pedro a sensação<br />

de um típico bolicho de campanha. Uma roda<br />

de carroça é usada como janela interna, separando<br />

os ambientes. Utensílios de trabalho pecuário pregados<br />

nas paredes, junto com quadros e fotografias<br />

antigas, de estancieiros e seus peões, relembram a<br />

história do gaúcho. Lamparinas sobre as mesas recordam<br />

os antigos lampiões, que iluminavam as noites<br />

do guasca nos campos do pampa. Móveis antigos<br />

e objetos rústicos causam a impressão de estar na<br />

sede de uma verdadeira estância gaúcha.<br />

Além da decoração dedicada<br />

às tradições do Estado e da música<br />

nativista tocada ao vivo, há<br />

também comida típica campeira.<br />

No cardápio, existem pratos que<br />

fazem referência à cultura. Entre<br />

eles, nomes como vaca atolada<br />

(costela bovina com mandioca) e<br />

espinhaço de ovelha com ensopado<br />

de mandioca. Os destaques ficam<br />

para o carreteiro de charque<br />

e a picanha da estância.<br />

O Estância de São Pedro existe<br />

há 13 anos. Na época de sua fundação,<br />

ali perto só existia o Bar<br />

Ossip, na Rua João Alfredo. Logo<br />

a casa se tornou reduto boêmio<br />

da cidade. O público era variado,<br />

já que a casa não estava voltada<br />

somente para as tradições gaúchas<br />

e abrigava outros estilos.<br />

Há um ano Lourenço Bicca está<br />

à frente do negócio. Frequentou o<br />

local como cliente por 10 anos. Esporadicamente<br />

subia ao palco para<br />

dar sua colaboração, tocando percussão,<br />

bumbo legueiro e pandeiro.<br />

Em 2009, trocou o emprego em<br />

uma grande empresa de telefonia


mÓvEis aNtigos E<br />

oBJEtos rústicos<br />

rEcriam o amBiENtE dE<br />

uma EstâNcia gaúcHa<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 95<br />

aQui vai uma<br />

lEgENda BEm<br />

lEgal Para<br />

Essa matéria,<br />

QuE Eu acHo<br />

Boa, PorQuE<br />

acrEdito No<br />

sistEma


e passou para o outro lado do balcão,<br />

dedicando-se exclusivamente<br />

ao estabelecimento. Segundo ele,<br />

o bar foi à venda quando o antigo<br />

proprietário sofreu um derrame,<br />

em meados de 2006. “Ao adquirilo,<br />

juntei a intenção de ter um negócio<br />

com o gosto pelas tradições<br />

gaúchas. Já sabia que existia uma<br />

clientela cativa e não precisaria<br />

me preocupar em retornos financeiros,<br />

pois o público já estava<br />

formado”, conta Bicca.<br />

O proprietário afirma que outros<br />

estabelecimentos com o estilo<br />

gauchesco, no caso as churrascarias,<br />

têm as atrações voltadas<br />

mais para o turismo, fugindo da<br />

proposta do bar. Só exaltam o<br />

churrasco e a dança. “Não há um<br />

clima com uma boemia gaudéria.<br />

É só chegar e curtir um bom pedaço<br />

de carne e assistir às apresentações<br />

com boleadeiras.”<br />

96 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

Para ele, falta alma e raiz nesses<br />

lugares, coisa que no Estância é<br />

a atração principal. “Aqui o gaúcho<br />

se sente em casa e não em<br />

uma churrascaria. Só falta chegar<br />

galopando no asfalto da João<br />

Alfredo. Aqui todos os aspectos<br />

da cultura gaúcha são respeitados<br />

e praticados.”<br />

A música nativista é o objeto<br />

principal para reunir poetas, compositores,<br />

intérpretes e amantes<br />

das tradições do Estado. O técnico<br />

agrícola Lucas Ramos, 32 anos,<br />

é gerente do estabelecimento<br />

desde setembro de 2009. Segundo<br />

ele, não há outro local com<br />

características semelhantes em<br />

Porto Alegre. Ele cita muitos artistas<br />

consagrados que já se apresentaram<br />

no bar. “Não tem como<br />

lembrar todos. Foram muitos, mas<br />

dá para destacar Leonel Gomes,<br />

Luiz Marenco, Marcelo Oliveira,<br />

Lisandro Amaral, Leôncio Severo.<br />

Alguns são frequentadores da casa<br />

e aparecem às vezes para tomar<br />

uma cerveja gelada, degustar uma<br />

boia campeira, conversar com os<br />

amigos. Quase sempre acabam<br />

sendo convidados para tocar alguma<br />

coisa junto com o músico que<br />

está se apresentado”.<br />

Perguntado sobre o público que<br />

frequenta a casa, o gerente diz:<br />

“A faixa etária dos clientes começa<br />

nos 18 e vai até os 30 anos, há<br />

pessoas com mais idade, mas em<br />

uma noite de casa cheia, 80% são<br />

jovens. Acontece de muitos estudantes<br />

do interior, de cidades<br />

como Santa Maria, São Borja e Livramento,<br />

virem ao Estância pra<br />

matar a saudade de suas origens,<br />

saborear uma comida campeira e<br />

ouvir música nativista.”<br />

A proposta do local é agradar<br />

a todas as pessoas que curtem


cultivar as tradições do estado. Segundo o escrivão<br />

Luiz Alberto Jardim, 65 anos, cliente da casa, é um<br />

lugar para que se cultuem as tradições. “Tudo é voltado<br />

à vida no campo. Mas estamos dentro de Porto<br />

Alegre. Antigamente eu vinha todas as noites, atualmente<br />

venho às vezes. A casa não mudou em nada<br />

nesses 13 anos. A única novidade é que o público já<br />

não é mais o mesmo de antigamente”.<br />

O músico Jader Leal, 33 anos, declara que sua<br />

carreira em grande parte se desenvolveu no bar. Não<br />

é à toa que há dez anos se apresenta no local. Ele<br />

cita que no Estância não há distinção: o profissional<br />

da música e o apreciador do estilo se encontram e<br />

tocam juntos. O clima de camaradagem e entrosa-<br />

imprEssÕEs DE rEpÓrTEr<br />

lourENÇo Bicca<br />

é ProPriEtÁrio<br />

do Bar QuE<br />

rEúNE artistas<br />

coNsagrados<br />

com músicos<br />

amadorEs<br />

esde o momento que a turma decidiu<br />

“doptar por abordar o tema “música”<br />

como assunto principal da Primeira Impressão<br />

deste semestre, a dupla teve o desejo de<br />

retratar a história do Bar e restaurante<br />

Estância de são Pedro. No entanto, não<br />

tínhamos ideia de como relacionar o tema<br />

escolhido com o local. através de pesquisas<br />

on-line, e de algumas fontes oficiosas,<br />

tivemos o material necessário para defender<br />

nossa escolha diante dos editores. ainda<br />

que já soubéssemos um pouco sobre o bar,<br />

nosso conhecimento sobre ele era muito<br />

limitado para que pudéssemos começar a<br />

construir a matéria. Partimos então para<br />

o reconhecimento do local. Estivemos lá<br />

algumas noites, algumas como repórteres, e<br />

outras como clientes. conhecemos pessoas<br />

novas e descobrimos histórias fascinantes, de<br />

música, tradicionalismo e camaradagem. um<br />

estabelecimento em meio ao maior reduto<br />

boêmio de Porto alegre, que através da<br />

música tradicionalista do rio grande do sul<br />

reúne pessoas para resgatar um pouco de sua<br />

própria cultura.”<br />

mento é o ponto alto. “Isso aqui é um gueto de músicos.<br />

Todos se reúnem para cultuar as tradições e<br />

evocar as raízes do nosso estado”, diz o cantor que<br />

hoje é um artista consagrado do gênero. Durante todos<br />

esses anos, o cantor expandiu sua carreira, já<br />

sendo um artista consagrado do gênero.<br />

O palco do Estância de São Pedro é território livre<br />

para celebrar a cultura rio-grandense em forma<br />

de música. Embora existam atrações contratadas,<br />

sempre há espaço para o improviso e a participação<br />

do público. No entanto, há uma condição: não se<br />

permite a entrada de pessoas portando facas e adagas<br />

– objetos que a gauchada tradicionalista costuma<br />

carregar consigo.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 97


MÚSICA PARA<br />

TORCER<br />

AS vOZES DO<br />

cAlDEIRÃO<br />

98 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010


Esbanjando criatividadE, torcEdorEs da dupla GrE-nal fazEm a fEsta<br />

no Estádio, motivam joGadorEs E Exaltam Em cantos E vErsos o<br />

amor pElo clubE do coração E sua EtErna rivalidadE<br />

TEXTO DE EvERtOn BERtOllI E REnAtA StRAPAZZOn<br />

FOTOS DE AMAnDA MUnHOZ<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 99


Porto Alegre, Rio Grande do Sul,<br />

estádios Olímpico e Beira-Rio.<br />

Casas dos dois maiores clubes<br />

do estado abrigam, em dias de<br />

jogos, uma multidão de apaixonados.<br />

Vindos de distintas querências, são mais<br />

do que apenas torcedores. São amantes<br />

de um clube, seja ele Internacional ou<br />

Grêmio e, dispostos nas arquibancadas,<br />

querem mais do que assistir à partida.<br />

Querem torcer, motivar, cantar. Isso<br />

mesmo, a música faz parte da vida desses<br />

guerreiros dos estádios. Desde o hino<br />

oficial dos clubes até canções próprias<br />

recheadas de criatividade, tudo é motivo<br />

para transformá-los no 12º jogador, dando<br />

voz aos caldeirões.<br />

Para isso, eles não medem esforços.<br />

Abdicam de atividades normais da vida<br />

de qualquer jovem para se entregar de<br />

corpo e alma ao time do coração. Ao invés<br />

do cinema no sábado à tarde, ensaios<br />

com o pessoal da banda. Jogos de videogame<br />

no tempo livre se transformam<br />

em horas de trabalho na criação de uma<br />

nova música. Os ouvidos que antes apreciavam<br />

canções das bandas preferidas<br />

agora vivem atentos para qualquer tipo<br />

de canção, treinados para reproduzir os<br />

ritmos junto à massa no estádio.<br />

Essa é a rotina dos membros das torcidas<br />

Guarda Popular Colorada e Máfia Tricolor.<br />

Criadas para representar os clubes<br />

onde quer que eles joguem, as torcidas<br />

da dupla têm como marca suas músicas<br />

cantadas em coro durante as partidas. E<br />

não é só em casa que eles mandam bem.<br />

Quando Inter e Grêmio jogam fora do seu<br />

habitat natural, lá se vão os torcedores<br />

cantores dar show em terrenos adversários.<br />

Foi assim com o Inter, naquela emblemática<br />

primeira partida da final da<br />

Libertadores da América em 2006. Num<br />

jogo difícil contra o todo poderoso São<br />

Paulo, o colorado venceu por 2 a 1 o tricolor<br />

paulista, calando o Morumbi. Pela<br />

transmissão na tevê, puderam ser ouvidas<br />

as vozes da torcida que, em minoria<br />

numérica, ecoava em cantos a felicidade<br />

do título que se aproximava.<br />

Este ano, quando de sua segunda<br />

conquista da América, desta vez contra<br />

a equipe mexicana do Chivas Guadalajara,<br />

o Inter mais uma vez pôde contar<br />

com a força das músicas de sua torcida.<br />

Na final, dentro do Beira-Rio, os milhares<br />

de colorados cantaram em uníssono<br />

todo o amor e devoção pelo time e es-<br />

100 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

pecialmente pela camisa vermelha. A<br />

euforia da torcida bicampeã da América<br />

ganhou destaque novamente durante a<br />

transmissão da partida pela Rede Globo.<br />

Tanto que, quando o locutor Galvão Bueno<br />

pediu para ouvir a torcida, a letra da<br />

“canção-símbolo” na atual campanha foi<br />

estampada na tela para que gaúchos de<br />

todos os cantos do Brasil pudessem seguir<br />

a banda da Popular.<br />

Antes disso, em julho, as músicas da<br />

Popular foram pauta de uma matéria do<br />

programa Globo Esporte, apresentado por<br />

Tiago Leifert. Na ocasião, ganharam destaque<br />

nada menos que oito produções da<br />

torcida, inspiradas em grandes clássicos<br />

da música mundial. Um reconhecimento<br />

tardio, segundo o líder da Popular, Hierro<br />

Martins, 39 anos. Conforme ele, a torcida<br />

e sua banda, existente desde 2005,<br />

já despertaram o interesse de revistas,<br />

jornais e de estudantes a fim de transformar<br />

o fenômeno do estádio Beira-Rio<br />

em trabalho de conclusão. No entanto,<br />

a maioria dos profissionais que procurou<br />

Hierro e sua equipe não teve sucesso em<br />

suas matérias e trabalhos. Nem mesmo<br />

a potente equipe da revista Placar. “Normalmente<br />

não damos entrevistas. Quando<br />

fomos procurados pela Placar, dissemos<br />

apenas que, para conhecer o que é<br />

a Popular, tem que ir ao estádio, sentir a<br />

vibração da torcida de perto”, comenta<br />

Hierro. A distância entre a torcida e a imprensa,<br />

principalmente as do centro do<br />

país, tem uma explicação. Para o pessoal<br />

da Popular, o reconhecimento de anos de<br />

trabalho chegou tarde demais, depois de<br />

se esgotarem as pautas com clubes do<br />

eixo Rio-São Paulo.<br />

O INÍCIO NÃO FOI FÁCIL<br />

Desde a criação até os dias de hoje,<br />

um longo caminho foi traçado pelos idealizadores<br />

da banda. Membro da torcida<br />

desde o princípio, Hierro lembra com<br />

emoção das primeiras manifestações da<br />

banda. “Para tocar no estádio, era um<br />

trabalho danado. Entrávamos com um<br />

único bumbo escondido e tocávamos<br />

com um par de tênis”, conta. Com o<br />

passar do tempo, a banda foi crescendo,<br />

chegaram novos instrumentos, e a parceria<br />

com os dirigentes e seguranças do<br />

clube permitia agora não só a entrada de<br />

todo o grupo, como disponibilizava espaço<br />

adequado para os ensaios. “Sempre<br />

ensaiávamos no túnel de acesso, horas<br />

antes dos jogos, até que a Brigada Militar<br />

começou a implicar, e o pessoal do Inter<br />

nos disponibilizou um espaço junto ao<br />

Portão 7 do Beira-Rio”, resume Ricardo<br />

Branco Rogoski, 29 anos, integrante da<br />

banda desde 2006.<br />

A organização da banda da Popular<br />

é tanta que entre a equipe tem aqueles<br />

encarregados de criar as canções, outros<br />

responsabilizados pelos instrumentos de<br />

percussão e aqueles a quem compete a<br />

tarefa de trazer novidades para o grupo.<br />

Esse último foi o trabalho do músico profissional<br />

Anderson Ferreira de Souza, 34<br />

anos, o Nescau. Desde que entrou para<br />

a banda, há dois anos, Nescau foi o responsável<br />

por introduzir instrumentos de<br />

sopro à formação que antes utilizava<br />

apenas percussão. “Tudo acaba se tornando<br />

experiência para o meu currículo.<br />

É a primeira vez que toco numa banda<br />

de torcida, antes já havia participado de<br />

charanga”, diz.<br />

Assim como Nescau, outro membro<br />

experiente da banda da Guarda Popular<br />

é o estudante de Publicidade Endrigo<br />

Giacomin Gonçalves, 24 anos. A Endrigo,<br />

é destinada a árdua missão de criar músicas<br />

originais e com letras mais brandas,<br />

todas elas de incentivo ao time. Autor de<br />

oito músicas até agora, Endrigo cria os<br />

clássicos a partir de qualquer música que<br />

caia sobre sua mesa. Sem preconceito<br />

em relação ao gênero, vai de Mamonas<br />

Assassinas, passa por Pink Floyd, esbarrando<br />

ainda nos garotos de Liverpool.<br />

São dele hits clássicos como Minha camisa<br />

vermelha, Vidas em vermelho, Oh<br />

Inter e Gaúcho e campeão. Todas essas,<br />

respectivamente, versões de Pelados<br />

em Santos, dos Mamonas, Another brick<br />

in the wall, do Pink Floyd, Oh Carol, de<br />

Neil Sedaka, e I wanna hold your hand,<br />

sucesso dos Beatles.<br />

Em suas músicas, o estudante procura<br />

ressaltar a paixão pelo Inter e pelo<br />

Rio Grande, além de destacar histórias<br />

típicas dos torcedores dentro do estádio.<br />

Foi dessa forma que criou uma das<br />

músicas mais procuradas nos sites sobre<br />

o Internacional. “Minha camisa vermelha<br />

nasceu numa mesa de bar quando,<br />

no meio de uma conversa, alguém comentou<br />

a vontade de ver o Beira-Rio<br />

lotado gritando ‘Você me deixa doidão’.<br />

Gostei da ideia e, a partir daí, fui criando<br />

a música”, diz.<br />

Além de Endrigo, apenas outros cinco


integrantes da Popular são responsáveis<br />

por criar novas músicas. Todos com suas<br />

características particulares. Enquanto<br />

Endrigo compõe letras emotivas, outro<br />

colega escreve canções provocativas ao<br />

Grêmio, por exemplo. É característica<br />

da banda aceitar sugestões apenas desse<br />

seleto grupo de criação. Para participar<br />

tocando, basta ter envolvimento, dedicação<br />

e amor pelo Inter.<br />

COm a paLavra, O prOFessOr<br />

Para o professor do curso de graduação<br />

em Música do Instituto de Artes da<br />

Universidade Federal do Rio Grande do<br />

Sul (UFRGS) doutor Dimitri de Ávila Cervo,<br />

as canções entoadas nos estádios são<br />

consideradas como músicas que desempenham<br />

uma função unificadora. “Sem<br />

dúvida, o que é cantado no estádio é<br />

música. Uma música mais complexa ou<br />

elaborada se define por melodia, ritmo<br />

e harmonia. No caso da torcida de futebol,<br />

temos melodia e ritmo, e a presença<br />

apenas desses dois elementos é comum<br />

em manifestações populares, ou de<br />

grandes coletividades. Eles são criativos<br />

ao encaixar a letra do time em músicas<br />

conhecidas. A forma como cantam é perfeitamente<br />

adequada à finalidade a que<br />

se propõem. Nesse caso, o mais importante<br />

a ser considerado não é a função<br />

artística da música, mas a função social<br />

que desempenha nesse contexto sócio<br />

cultural, sendo um elemento agregador,<br />

que estimula e unifica o ritual coletivo”,<br />

assegura Cervo.<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

u, colorada. fanática, apaixonada pelo inter.<br />

“Emesmo assim, não foi fácil convencer o pessoal<br />

da popular a falar para a PI. os caras já deram as<br />

costas até para a revista placar. na época, a desculpa<br />

foi a de que o trabalho da popular se reconhecia no<br />

meio da torcida. por que diabos iriam nos atender<br />

então? foram muitos os contatos com o líder da<br />

torcida até que ele cedesse conversar conosco. numa<br />

tarde fria de início de setembro fomos ao beira-rio<br />

com a missão de acompanhar um ensaio e conversar<br />

com músicos da banda. depois de falar por quase três<br />

horas com os responsáveis por fazer o estádio explodir,<br />

saí de lá mais convencida de que o amor dos colorados<br />

pelo inter não pode ser traduzido em nenhuma<br />

matéria de revista. para saber como é, só indo a uma<br />

partida, cantando junto, sentindo de perto”.<br />

O tOm dO LadO trICOLOr<br />

Do lado gremista, a unidade da torcida<br />

também se fortalece a cada verso entoado<br />

na arquibancada. Diferentemente<br />

da torcida do Inter, no Grêmio qualquer<br />

torcedor é convidado para contribuir com<br />

uma boa música. Quem garante é o presidente<br />

da Máfia Tricolor, Cristian Vianna<br />

Garcia, 22 anos: “Desde os diretores da<br />

torcida, até mesmo o pessoal da bateria,<br />

todos podem criar as canções que<br />

cantamos para o Grêmio”. Além disso,<br />

conforme Garcia, outros membros estão<br />

se especializando em criar músicas para<br />

a Máfia. No Olímpico, a banda da Máfia<br />

Tricolor conta com uma média de sete<br />

componentes fixos que cantam e tocam<br />

repique, surdo, tarol e caixeta. Todos os<br />

membros da bateria são componentes de<br />

escolas de samba, o que dá um toque especial<br />

e profissional à banda.<br />

Nas letras da torcida gremista, criada<br />

em 1995, palavras de incentivo ao clube<br />

se misturam a provocações ao grande rival.<br />

De acordo com o puxador das músicas,<br />

Thiago Cavalheiro Alves, o Lara, 20<br />

anos, a Máfia possui atualmente cerca<br />

de 20 músicas próprias. Todas elas, conforme<br />

o estudante, inspiradas no apoio<br />

incondicional ao clube da Azenha, marca<br />

registrada da organizada.<br />

Para fazer bonito nos jogos, as músicas<br />

são ensaiadas pouco antes das partidas.<br />

O horário apertado para os ensaios,<br />

no entanto, tem uma justificativa. “No<br />

momento não há encontros da bateria<br />

fora de jogo devido a temporada de en-<br />

renata strapazzon Everton Bertolli<br />

saios das escolas de samba, que já começou”,<br />

explica Lara, integrante da Máfia<br />

desde 2008. Assim como acontece na Popular<br />

Colorada, na Máfia Tricolor as novas<br />

músicas são divulgadas no site oficial da<br />

torcida e disponibilizadas no canal de vídeos<br />

Youtube.<br />

O empenho dos líderes da Máfia para<br />

fazer com que todos os componentes saibam<br />

o maior número de letras tem um<br />

motivo. Na opinião de Cristian Vianna<br />

Garcia, a torcida pode fazer a diferença<br />

nos jogos da equipe. Para ele, a força<br />

do canto, por vezes, torna-se o décimo<br />

segundo jogador em campo, capaz de reverter<br />

resultados ruins e empurrar o time<br />

para a vitória. E, para isso, o batuque típico<br />

das escolas de samba da capital faz<br />

toda a diferença. “Se o canto for com<br />

amor, entusiasmo e vontade, passando<br />

verdade, emoção e a empolgação do<br />

torcedor, ele com certeza reflete não só<br />

nos jogadores, como no dirigente que assiste<br />

nos camarotes. Assim como todo e<br />

qualquer gremista que essa música consegue<br />

alcançar. Porém, mesmo que seja<br />

o canto mais alto do estádio, se não for<br />

verdadeiro, se for puramente profissional<br />

ou tradicional, não emociona e não<br />

incentiva ninguém”, argumenta.<br />

Para Thiago Cavalheiro Alves, companheiro<br />

de organizada de Cristian, o canto<br />

misturado com o som da bateria é a melhor<br />

forma de incentivar o time durante<br />

a partida. “Sem canto, não há incentivo.<br />

Sem incentivo, não há motivação dos jogadores”,<br />

opina.<br />

u, grEmIsta. apesar de não ser tão<br />

“Efanático quanto a minha colega de<br />

matéria, confesso que não fiquei nada à vontade<br />

na sede dos arquirrivais durante a entrevista<br />

com o pessoal da Guarda popular. no lado azul,<br />

depois de inúmeros contatos pessoalmente,<br />

por telefone, e-mail, conseguimos conversar<br />

com o diretor e integrantes da máfia tricolor<br />

que estiveram sempre a nossa disposição. para<br />

colaborar com a matéria, o pessoal do Grêmio<br />

não mediu esforços nos auxiliando em todos<br />

os nossos questionamentos.para mim, o mais<br />

legal do trabalho que realizamos para a revista<br />

Primeira Impressão foi ver o amor incondicional<br />

que as torcidas tanto a do Grêmio quanto a do<br />

inter têm pelo seu time do coração”.<br />

PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 101


MÚSICA PARA CASAR<br />

Véu,<br />

grinalda<br />

e rock‘ n’ roll<br />

A músicA está presente<br />

em nosso cotidiAno. mAs<br />

quAndo queremos que<br />

elA nos torne felizes<br />

pArA sempre, os Acordes<br />

se trAnsformAm em<br />

Algo forA do comum


E<br />

stamos na era do MP3, a música<br />

digitalizada que podemos compartilhar.<br />

Houve um tempo em<br />

que, para reviver o momento<br />

em que tocou aquela música, naquela<br />

festinha, quando conhecemos aquela<br />

pessoa, era necessário fazer uma busca<br />

pelas lojas de discos ou esperar que ela<br />

tocasse no rádio, para podermos gravar<br />

em uma fita cassete. Agora compare isso<br />

a você estar conversando com a mesma<br />

pessoa no MSN e a mesma música estar<br />

na sua informação “O que estou ouvindo”:<br />

é, no mínimo, sugestivo.<br />

Hoje essas facilidades e opções nos<br />

levam a ser seletivos. Por mais mídias<br />

que tenhamos, sempre há um limite a<br />

respeitar. O de um CD é um álbum, o<br />

de um iPod é um número “x” de gigas.<br />

Temos que selecionar o que vamos levar<br />

para nos fazer companhia. Temos que<br />

reunir o que é mais importante e montar<br />

um playlist dessa trilha.<br />

Neste admirável mundo novo no qual<br />

vivemos, o poder de personalizar nossas<br />

preferências — ao mesmo tempo limitadas<br />

e ilimitadas — passa a influenciar o<br />

modo de nos relacionarmos socialmente,<br />

e isso inclui casar.<br />

Amor à primeirA trilhA<br />

Decidir se casar, sem dúvida é uma<br />

grande decisão. Uma nova vida, uma<br />

vida a ser compartilhada a dois. Para<br />

alguns casais, essa nova etapa acontece<br />

ao som de uma marcha nupcial, para outros,<br />

ao som de Nirvana.<br />

Totalmente inserida nesse “mundo<br />

novo”, a jornalista Gabrieli Chanas é a<br />

personificação desse modo de viver e<br />

casar. O primeiro olhar entre Gabrieli<br />

Chanas e Marcelo Hugo, em uma despedida<br />

de um amigo em comum, prova<br />

que a música é um fator que faz<br />

diferença: logo na primeira conversa,<br />

o casal teve Joss Stone como Cupido.<br />

“Eu e o Marcelo temos gostos musicais<br />

muito peculiares. Ver que eles eram<br />

praticamente os mesmos, lá naquela<br />

primeira conversa, ajudou bastante<br />

a levar o papo adiante. Gostamos<br />

muito de Joss Stone, e, com cerca de<br />

seis meses de namoro, fomos ao show<br />

dela. Dias depois ele me surpreendeu<br />

com um pedido de noivado ao som de<br />

TEXTO de Bia MroSS e Joice PaZ<br />

FOTOS de iSadora MÜller<br />

The chokin kind, uma das nossas preferidas<br />

da Joss”.<br />

Para Manuela Damasceno e Rafael<br />

Wolfarth, o casamento veio depois de<br />

constatarem que foram feitos um para<br />

o outro. Afinados, é a palavra que melhor<br />

define Manu e Rafa. Foi o gosto pelo<br />

grunge do Nirvana que levou Manuela<br />

a certo barzinho, onde “Kurt”, apelido<br />

de Rafael por sua semelhança com o vocalista<br />

da banda norte-americana, fez<br />

o coração da estudante de Jornalismo<br />

bater em bits acelerados. “A música é<br />

muito especial na nossa história. Foi em<br />

um show que nos conhecemos, temos<br />

gostos musicais parecidos, essas afinidades<br />

ajudaram muito para a história ter<br />

continuidade. Saber que o Rafa tinha<br />

uma banda foi muito legal. Sonhava em<br />

namorar vocalista de banda.”<br />

Sim<br />

Para quem disse “sim” e vai celebrar<br />

essa decisão — seja na tradicional igreja<br />

ou em um lugar diferente —, tem que se<br />

preparar para uma verdadeira turnê por<br />

muitas outras decisões. Novos recursos<br />

permitem fazer um casamento personalizado,<br />

modificar ou seguir a tradição,<br />

e essas possibilidades atraem cada vez<br />

mais casais que querem fazer esse momento<br />

mais singular do que já é.<br />

Quando chegou a internet, maior<br />

acesso a MP3, CD, iPod, todo mundo<br />

passou a se relacionar com a música de<br />

forma diferente. “A gente começou a<br />

gostar de 10 bandas por dia, não mais 10<br />

bandas por ano. Era claro que toda essa<br />

onda iria se refletir nos casamentos e<br />

que as pessoas desejariam um momento<br />

com ‘a sua música’”, diz Gabrieli. Tornar<br />

aquele momento algo único e bem<br />

particular passou a ser fundamental. Se<br />

tornou uma forma de diferenciar o casamento.<br />

“Ninguém quer o mesmo vestido<br />

de noiva e nem as mesmas músicas<br />

da amiga. A variedade está aí para ser<br />

usada, isso vale do docinho à música de<br />

entrada da noiva”, diz a jornalista.<br />

Mas nem sempre esse toque moderno<br />

na cerimônia tem o efeito desejado.<br />

Gabrieli, que mantém o blog Noiva.com,<br />

tem contato com muitos casais que temem<br />

errar o tom. “A principal dúvida<br />

dos noivos é se a música vai ficar bem<br />

PriMeira iMPreSSÃo | deZeMBro/2010 | 103


ou não. Todo mundo gostaria de entrar na<br />

igreja com uma música do Bon Jovi, que<br />

tocava quando o casal se conheceu, mas<br />

tem que ver se a letra ou a melodia não<br />

são agressivas demais para um momento<br />

tão solene”.<br />

Por esse motivo, Manuela optou por<br />

não casar na Igreja. “Como desde o início<br />

a decisão era uma cerimônia ao ar livre,<br />

não precisamos seguir as normas da Igreja.<br />

As músicas são liberais, mas claro, me<br />

preocupo se tal música ficará legal só em<br />

voz e violão. Muitos casais querem inovar<br />

nas músicas, como tocar Single ladies, da<br />

Beyoncé, na hora do buquê, e não é bem<br />

assim”, ressalta Manu.<br />

Nessa questão, Gabrieli dá dicas<br />

para quem não abre mão do casamento<br />

religioso. “Algumas igrejas não permitem<br />

que sejam tocadas outras músicas<br />

além daquelas que estão em uma listinha<br />

pré-aprovada e que geralmente<br />

traz apenas as mais tradicionais. Esse é<br />

um cuidado que os noivos precisam ter<br />

IMPRESSÕES DE REPÓRTER<br />

ecidir um tema que pudesse agradar duas<br />

“dcabeças tão diferentes foi o grande desafio<br />

desta reportagem, ainda mais em um assunto<br />

tão explorado como a música. quem diz que<br />

duas cabeças pensam melhor do que uma está<br />

equivocado... Após semanas divergindo sobre uma<br />

pauta, finalmente concordamos que ela deveria cair.<br />

partimos em busca de um algo que nos envolvesse,<br />

que nos desse prazer em realizar. então nos demos<br />

conta de que conhecíamos uma história de amor e<br />

música: manuela e rafael. o contato que fizemos<br />

com o mundo das músicas de casamento nos inseriu<br />

104 | PriMeira iMPreSSÃo | deZeMBro/2010<br />

ao reservar a igreja.”<br />

Quer música moderna? Então cheque<br />

se o padre permite. Em alguns casos, ele<br />

pede para ouvir as músicas e dá seu ok<br />

final. “No meu caso, o que fizemos foi<br />

contratar uma orquestra e pagar por arranjos<br />

diferentes. Saímos da igreja ao<br />

som de I’ll be there for you, trilha de<br />

abertura do seriado Friends em uma versão<br />

com violinos e violoncelo. Ficou lindo<br />

e não deixou o padre de nariz torcido”,<br />

conta Gabrieli.<br />

Apesar de alterar a trilha, a jornalista<br />

não abriu mão de algumas tradições,<br />

como a Igreja Santa Terezinha, em Porto<br />

Alegre, e a marcha nupcial. “A marcha<br />

nupcial de Mendelssohn é uma das mais<br />

tradicionais e, para mim, a mais bonita.<br />

Eu mudei todas as músicas da minha cerimônia,<br />

mas para a minha entrada quis<br />

ter aquela que sempre me deixa com<br />

lágrimas nos olhos quando eu ouço. Sempre<br />

me imaginei entrando na igreja com<br />

essa música e jamais trocaria.”<br />

Manuela também priorizou seu sonho,<br />

porém ele se enquadrava naquela<br />

listinha que o Padre não daria ok...<br />

o rock’ n’ roll<br />

Assim como o casamento, rock não<br />

se faz sozinho. Desde 2001 os pombinhos<br />

Manuela e Rafael ensaiam o mesmo<br />

riff. Mesmo exausta por causa dos<br />

preparativos para o grande dia, Manuela<br />

reservou umas horinhas, antes da<br />

sua última aula de dança, para contar<br />

como vai ser o casamento.<br />

“Rafa vai entrar ao som de Nirvana.<br />

Consultamos os cantores e eles<br />

garantiram que podem fazer um arranjo<br />

até de Smells like teen spirit.”<br />

Manuela conta que teve cuidado<br />

para não exagerar na dose, para que<br />

esse momento não fique ofuscado<br />

pela temática. “A identidade visual<br />

do convite tem dois passarinhos e<br />

notas musicais com a letra de uma<br />

música, e as mesas, o nome de bandas<br />

que gostamos.”<br />

Além de toda a parte visual, Manuela<br />

garante que o casamento terá muito<br />

rock’ n’ roll. “A lembrança é uma seleção<br />

de músicas que nós gostamos, e que<br />

certamente tocarão na cerimônia. A arte<br />

do CD tem as nossas caricaturas, eu com<br />

uma revista, o Rafa com uma guitarra.”<br />

Seja tradicional ou arrojado, um<br />

casamento não vive de música, mas,<br />

certamente, ele inspira o que nos torna<br />

realmente felizes para sempre: o amor.<br />

E esse sempre tem uma trilha sonora.<br />

Afinal, como o convite de casamento de<br />

Manuela e Rafael diz: “Quando um certo<br />

alguém, desperta um sentimento, é melhor<br />

não resistir, e se entregar”...<br />

em um universo completamente desconhecido<br />

por nós,cheio de expectativa, paixão e encanto.<br />

um elegante café no centro de campo Bom foi o<br />

cenário da entrevista com a nossa amiga manuela<br />

damasceno. A profissão agitada e os preparativos<br />

para mais um encontro de noivas nos levaram a uma<br />

conversa pelo msn com a gentil gabrieli chanas.<br />

Blogueiras, apaixonadas e noivas por opção, o fato<br />

é que as entrevistadas salvaram nossa dupla de uma<br />

separação litigiosa. produzir esta reportagem foi<br />

como uma relação a dois, porque acreditem, fazer a<br />

Primeira Impressão é quase um casamento!”


Melodias para casar<br />

Músicas que não podem faltar<br />

na playlist do casamento<br />

GAbrieli chAnAS<br />

The chokin kind, (Joss Stone, é claro)<br />

How deep is your love (Bee Gees)<br />

Better together (Jack Johnson)<br />

Realize (Colbie Caillat)<br />

And I love her (Beatles)<br />

mAnuelA DAmASceno<br />

All you need is Love (Beatles)<br />

Heart shaped box (Nirvana)<br />

You’ll be in my heart (Phil Collins)<br />

Um certo alguém (Lulu Santos)<br />

Cant take my eyes of you (Laurin Hill)<br />

Ps.: O material nos envolveu tanto<br />

que não resistimos em também<br />

fazer as nossas listinhas! E foi bem<br />

difícil, pois são tantas músicas que<br />

amamos...<br />

Bia Mross<br />

You’re the one that I want<br />

(Trilha do filme Grease)<br />

Don’t let me down<br />

(Trilha do filme Across the Universe)<br />

The winner takes it all<br />

(Trilha do filme Mamma mia)<br />

Mr. Cellophane<br />

(Trilha do filme Chicago)<br />

Singing in the rain<br />

(Trilha do filme Singin’ in the rain)<br />

Joice Paz<br />

Piece of my heart (Janis Joplin)<br />

Be my baby (The Ronettes)<br />

Mmmbop (Hanson)<br />

Needles and pins (Ramones)<br />

Hey now (Cindy Lauper)<br />

PriMeira iMPreSSÃo | deZeMBro/2010 | 105


EXPEDIENTE<br />

106 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010<br />

Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)<br />

Endereço: Avenida Unisinos, 950. São Leopoldo, RS.<br />

Cep: 93022-000. Telefone: (51) 3591.1122.<br />

Internet: www.unisinos.br.<br />

ADMINISTRAÇÃO<br />

REITOR: Marcelo Fernandes de Aquino<br />

VICE-REITOR: José Ivo Follmann<br />

PRÓ-REITOR ACADÊMICO: Pedro Gilberto Gomes<br />

PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO: João Zani<br />

DIRETOR DA UNIDADE DE GRADUAÇÃO: Gustavo Borba<br />

GERENTE DE BACHARELADOS: Gustavo Fischer<br />

COORDENADOR DO CURSO DE JORNALISMO: Edelberto Behs<br />

pi<br />

primeira impressão<br />

REDAÇÃO<br />

TELEFONE: (51) 3590.8466<br />

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Pr o f e s s o r e s-ed i t o r e s<br />

Eduardo Veras (efveras@unisinos.br) - Redação<br />

Thaís Furtado (thaisf@unisinos.br) - Redação<br />

Flávio Dutra (flavdutra@unisinos.br) - Fotografia<br />

rePortagem<br />

Alunos Adam Nicolas Scheffel, Adriano de Carvalho, Aline Bof, Amínie Pinheiro Jardim, Ângela Loppe<br />

Virtuoso, Bia Mross, Bibiana dos Santos Barbará, Bruna Schuch, Camila Nunes, Carolina Anchieta,<br />

Caroline de Oliveira Raupp, Cristiane da Silva Serra, Daniela Cristina Machado, Dierli M. Santos,<br />

Eder Fernando Zucolotto, Éder Romeu Kurz, Eduardo Dullius Feldens, Everton Fabiano Ribeiro<br />

Bertolli, Fabiana Peixoto Lopes, Gianini Oliveira da Silva, Giovani Francisco Vicente das Neves Júnior,<br />

Gustavo Alencastro da Costa, Gutiéri Sanchez, Isabel Bonorino, Joel Antônio Oliveira, Joice Paz,<br />

Juliana Jeziorny, Larissa de Oliveira, Letícia Bresolin Cardoso, Manoela Poitevin Bandinelli, Manoeli<br />

Marschner Rodrigues, Manuela Moraes Teixeira, Marcelo Collar, Mateus Ferraz , Miriam da Luz<br />

Moura, Pablo Furlanetto, Patrícia Oliveira, Pedro Luís de Holleben Bicca, Renata Rodrigues Lopes,<br />

Renata Strapazzon, Roberta Becker dos Reis, Roberta Roth, Rodrigo Jonathan Rodrigues, Rogério<br />

Bernardes, Rosanna Ramos, Taína Vanda Lauck, Tatiane Marques de Lima, Tiago Fraga de Vargas<br />

Ramos, Vanessa Reis e Vinícius Ghise.<br />

MONITORA: Bárbara Keller.<br />

fo t o g r a f i a<br />

Alunos Amanda Munhoz, André Ávila, Anderson Lopes, Andressa Pazzini, Ângela Virtuoso, Camila<br />

Cabrera, Carine Fernandes, Carolina Tremarin, Caroline Schmedecker, Clarissa Figueiró, Elis Braz,<br />

Fernanda Brandt, Fernanda Herrera, Filipe Gamba, Gabriela da Silva, Isadora Müller, Jéssica Berger,<br />

Júlia Warken, Liziane Alves, Luciana Borba, Marco Antonio Filho, Mariana Halmel, Renata Parisotto,<br />

Ricardo Machado, Sindy Longo, Tatiele Prudêncio e Mauricio Montano.<br />

MONITORA: Bruna Schuch.<br />

FOTOS DE CAPA: Marco Antonio Filho.<br />

PRODUÇÃO GRÁFICA<br />

Agência Experimental de Comunicação (Agexcom)<br />

COORDENADORA-GERAL: Thaís Furtado<br />

PROJETO GRÁFICO e DIAGRAMAÇÃO: estagiários Gabriela Schuch e Marcelo Grisa,<br />

sob orientação do jornalista Marcelo Garcia.<br />

PUblICIDADE<br />

Os anúncios publicados nesta edição foram vencedores da categoria Redação Publicitária II do 10º<br />

Propaganderia, mostra competitiva de trabalhos desenvolvidos por alunos do Curso de Publicidade e<br />

Propaganda. CRIAÇÃO: alunos Tiago Braga de Almeida (página 2) e Heleusa Bonato Coitinho<br />

(página 107), sob orientação do professor Ângelo Cruz; Willian Gaviragui e Surian Engel<br />

(contra-capa), sob orientação da professora Daniela Horta. ARTE-FINALIZAÇÃO: estagiário Renan<br />

Steyer, sob supervisão do professor Ângelo Cruz e do publicitário Robert Thieme, da Agexcom.

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