Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

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Publicação mensal

independente da Empresa

Jornalística Visão Judaica Ltda.

Redação, Administração e Publicidade

visaojudaica@visaojudaica.com.br - Curitiba – PR, Brasil -

Fone/fax: 55 41 3018-8018

Diretora de Operações e Marketing

Sheilla Figlarz

Diretor de Redação

Szyja B. Lorber

Em pleno século 21 ainda existe

gente que, a despeito dos meios

de comunicação, se vale da desinformação

para continuar enganando

ingênuos que acabam servindo

de inocentes úteis. Na semana passada,

via internet, circulou por todo

o País um convite para um “Jejum

pela paz no Oriente Médio e Homenagem

às Crianças Palestinas Mortas

em Conseqüência da Ocupação”,

no sábado, 12, na Praça da

Sé, em São Paulo, das 7 às 18h.

Entre as entidades organizadoras

que assinavam o dito convite estavam:

Grupo Solidário São Domingos,

Grito dos Excluídos Brasil e Latinoamericano,

Via Campesina, Movimento

dos Trabalhadores Sem-Terra (MST),

Central Única dos Trabalhadores

(CUT), Sindicato dos Advogados de

São Paulo, Comissão de Direitos

Humanos da OAB-SP, Rede Social

de Justiça e Direitos Humanos, Central

de Movimentos Populares

(CMP), Centro de Educação Popular

do Instituto Sedes Sapientiae

(CEPIS), Movimento Mística e Revolução,

muitos deles ligados ideologicamente

ao PT ou militantes de

esquerda. A Comissão de Direitos

Humanos da OAB-SP e o Grupo

Diretora Comercial

Hana Kleiner

Diagramação e Arte Gráfica

Sonia Mari Oleskovicz

Colaboram nesta edição:

Antônio Carlos Coelho, Ariel Feldman, Aristide Brodeschi, Clara Blinder Guelmann,

Edda Bergmann, Gustavo D. Perednik, Khaled Abul Toameh, Nahum Sirotsky,

Salomão Figlarz, Sami Goldstein, Sérgio Feldman, Shmuel Lemle, Sílvia Perlov, Tila

Drubrawsky, Yossef Drubrawsky e Yossi Groisseoign.

Os artigos assinados não representam necessariamente a opinião do jornal

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Nossa capa

A capa reproduz o quadro cujo título é “O escriba”,

pintado com a técnica óleo sobre tela, e dimensões

60x80 cm, criação de Aristide Brodeschi

especialmente para esta edição de Visão Judaica.

Aristide Brodeschi nasceu em Bucareste,

Romênia. É Arquiteto e Artista Plástico e vive em

Curitiba desde 1978. Já desenvolveu trabalhos

em várias técnicas, dentre elas pintura, gravura

e tapeçaria. Recebeu premiações por seus

trabalhos no Brasil e nos EUA. Suas obras estão espalhadas por vários países e tem no

judaísmo, uma de suas principais fontes de inspiração.

Acendimento das

velas em Curitiba

outubro/novembro

DIA HORA

18/10

25/10

1/11

8/11

15/11

18h04

18h08

18h13

19h17*

19h23*

* Com a vigência do

horário de verão, a partir

de 3/11/2002, nos dias 8/11

e 15/11 já foram acrescentadas

uma hora à tabela.

Passatempo

Usando a desinformação

Solidário São Domingos, ao tomarem

conhecimento do fato desmentiram

sua participação.

Dos termos em que foi redigido

o tal convite, podia-se deduzir antecipadamente

que se tratava de

mais uma manifestação de ódio

anti-semita a caminho, com palavras

de ordem contra os judeus e

agitação de bandeiras nazistas.

Como se do conflito do Oriente Médio

não padecessem também crianças

israelenses. O Grupo Solidário

São Domingos, deu a entender que

o convite distribuído na internet “foi

produto de enxertos maliciosos

promovidos por grupos interessados

em manipular o evento, desvirtuando

o seu caráter eminentemente ecumênico

e pacifista para uma linha

exatamente contrária, de acusações

maniqueístas e de fomento de ódio”,

ressalvando que não havia participado

da organização do evento e tampouco

da redação do convite.

Agindo dessa forma, os fomentadores

do ódio prestam um grande

desserviço ao mundo em geral e

aos israelenses e palestinos, em

particular. Não é de hoje que Israel

defende a criação de um estado

palestino que coexista pacificamente

ao seu lado. Em 1931, Ben Gurion

já escrevia que o direito de autodeterminação

dos povos deve

prevalecer. “Da mesma maneira que

queremos que o povo judeu seja

senhor de seu próprio destino e possa

determinar seu futuro histórico

sem depender da vontade - ainda

que seja a boa vontade, dos outros

povos, devemos aceitá-lo nos árabes”,

disse acrescentando ainda

que “não nos deve caber nenhuma

dúvida a respeito do direito de autodeterminação

dos habitantes árabes

de Eretz Israel. Nosso dever é

reconhecê-lo e apoiá-lo”. Ele foi

muito claro nisso. Nem os jornais,

nem a Tv registrou como foi o tal

jejum, que parece ter saído rapidamente

do cenário depois que foi denunciado

como sendo um ato de

ódio e preconceitos manipulados.

Destaque-se em contraposição,

que uma vida dedicada ao amor e

às crianças, não só do as Brasil,

mas também as do Exterior, foi reconhecida

pela unanimidade dos

membros da B’nai Br'tih internacional,

reunidos nos Estados Unidos

em agosto passado, e que resolveram

apoiar o nome da Pastoral da

Humor Judaico

Um divórcio judaico

Criança, na pessoa da médica Zilda

Arns Neuman para receber o

Prêmio Nobel da Paz. Quando os

membros da B’nai B’rith de Curitiba

visitaram a sede da Pastoral para

entregar as cópias das cartas endereçadas

aos membros do Comitê

de Oslo, a dra. Zilda disse que

se quisermos chegar à paz devemos

começar cedo, pelas crianças.

Ela tem toda a razão. Contudo, os

noruegueses resolveram conceder

o prêmio para o ex-presidente

Jimmy Carter, no que foi considerado

pelos analistas como uma resposta

ao “espírito belicista” do presidente

George Bush. O conselho

de Zilda não foi seguido. Por outro

lado, ao conceder o Prêmio Nobel

de Literatura para o escritor judeu

húngaro Imre Kertesz, autor de livros

sobre o Holocausto e sobrevivente

de Auschwitz, a Academia

deu um “tapa” com luvas de pelica

em outro Prêmio Nobel de Literatura,

José Saramago, que elegeu o

povo palestino para compará-lo com

o sofrimento dos judeus durante o

Holocausto. Tudo para ficar de bem

com a esquerda internacional.

Um velho judeu de Miami liga para seu filho em Nova

York e diz: “Odeio arruinar seu dia, mas eu quero lhe

comunicar que sua mãe e eu estamos nos divorciando.

Quarenta e cinco anos de miséria é bastante.”

“Pai, de que você está falando?”, grita o filho.

“Nós não podemos mais nos encarar”, diz o velho.

“Nós estamos enjoados um do outro, e eu estou enjoado

de falar sobre isso. Você liga para sua irmã em

Chicago e lhe conta”, e desliga.

Furioso, o filho liga para sua irmã que explode no telefone:

“Por que, inferno, eles estão se divorciando?” grita

ela. “Eu vou cuidar disso!”

Ela liga imediatamente para Miami e esbraveja com

o velho pai: “Vocês não vão se divorciar! Não faça nada

até eu chegar aí. Estou ligando de volta para meu irmão

e nós dois estaremos aí amanhã. Até lá não faça

nada, você me ouviu?” E desliga.

O velho desliga o telefone e dirige-se para a esposa:

“Ok,” ele diz, “Eles estão vindo para Pêssach (Páscoa).

Agora, o que vamos lhes dizer para o Rosh Hashaná

(Ano Novo)?”

Datas importantes

5 de novembro — 1 º Rosh Chodesh

6 de novembro — 2 º Rosh Chodesh

A Redação


Sérgio Feldman *

No dia 11 de setembro de

2002 participei de um debate no

auditório do Teatro da Reitoria,

com o jornalista George Bourdokan

(veja matéria nesta mesma

edição). Em minha imaginação

histórica, senti certa semelhança

com os debates medievais,

aonde se contrapunham judeus

(geralmente rabinos e sábios

talmúdicos), com representantes

da Igreja assessorados

por judeus conversos. As discussões

variavam pouco: qual seria

a verdadeira crença? Debates

sobre o caráter messiânico de

Jesus. As acusações de que o

Talmud contivesse opiniões e

manifestações desrespeitosas

sobre Jesus e Maria. O objetivo

era demonstrar a verdade cristã

e iniciar um processo de conversão

da comunidade judaica. Ou

seja, a resposta já estava decidida

e selada. Os judeus estavam

errados e deveriam se converter.

Tinham a chance de se

defender e apresentar evidências,

mas sempre se lembrando

“que havia limites e se devia

respeito à religião da maioria e

do poder estabelecido”.

Num livro pouco conhecido,

editado pela Imago (RJ) em

1996, denominado “O Judaísmo

em julgamento: os debates judaicos

cristãos na Idade Média”, de

autoria de Hyam Maccoby, encontram-se

analises e transcrições

deste debates. Os mais conhecidos

são os debates de Paris

(1240), de Barcelona (1263)

e o de Tortosa (1413-1414). O

primeiro foi estimulado pelo rei S.

Luis (Luis IX) e pelo Papa Gregório

IX. Não foi um debate frontal,

um tête-à-tête, mas um interrogatório

do rabino Yehiel Ben

Joseph de Paris e algumas outras

autoridades judaicas: r.

Yehuda Ben David de Melun, r.

Samuel Ben Salomon e r. Moisés

de Coucy. O adversário era o judeu

converso Nicholas Donin. O

tema central eram as acusações

de blasfêmias sobre Jesus que

existiriam no Talmud. O Talmud,

diga-se de passagem, é o código

de leis mais importante do judaísmo

rabínico. Possui milhares

de leis, sobre todos os tipos de

assuntos: festas, tradições, regras

de higiene, relações humanas,

ética, liturgia, e muitos assuntos

correlatos. Não há menções

diretas sobre Jesus, apesar

de poder se relacionar alguns

nomes com a figura do mesmo.

Nada que supere meia dezena

de menções. Não há nenhuma

importância do personagem e

do tema do messianismo de

Jesus, no Talmud.

O objetivo do Talmud era criar

uma regulamentação do cotidiano

judaico no período posterior

a destruição do 2º Templo, baseada

na Torá, na tradição e nas

interpretações dos rabinos. A

ênfase do Talmud nunca foi combater

ou denegrir o cristianismo.

Donin ofereceu ao papa evidências,

e serviu de argumento para

a acusação de blasfêmias anti-

Jesus no Talmud. De nada adiantou

a defesa de Yehiel e seus

companheiros. O Talmud foi condenado.

O confisco de talmudim

por toda Paris e nos territórios

dominados pelo rei Luis IX, culminou

com a queima de talmudim

numa enorme fogueira em

plena ilha da Cité, em frente a

catedral de Notre Dame. A Paris

do século XIII, precedeu a Berlim

dos anos 1930, na queima de

livros judaicos. Hitler mandou incinerar

todos os livros judaicos e

pró-judaicos, incluídos Albert

Einstein, Freud, Marx e milhares

de escritores de origem judaica

ou que emitiam opiniões pró-judaicas

ou diferentes dos valores

do III Reich. O filme de ficção cientifica

“Farenheit 451”, baseado

na obra de mesmo nome de

Ray Bradbury, relata uma época

futura, na qual os livros seriam

proibidos, confiscados e

queimados. Livros abrem as

mentes das pessoas, fazem-nas

pensar. O Judaísmo sempre estimulou

seus seguidores a ler e

a ter um pensamento crítico,

autônomo e aberto.

Dissidências radicais foram

hostilizadas e até excomungadas

(vide Spinoza e outros).

Por outro lado, o Judaísmo

sempre conviveu com o debate

e estimulou a leitura e o pilpul

(debate rabínico). A única verdade

que a tradição judaica

sempre tinha por absoluta era

D-us. Outros dogmas eram

passíveis de debate.

O debate de Paris marca uma

transformação nas relações cristãs

judaicas. A tolerância aos judeus

sofrerá abalos sérios com

as Cruzadas. Massacres de judeus

se sucederam a partir de

1095 (1ª Cruzada). Mas atingir o

Talmud e considerá-lo nocivo, era

direcionar os corações e mentes,

contra um inimigo infiltrado no

seio da cristandade. É a demonização

dos judeus e do judaís-

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Debates medievais

mo, postura já utilizada desde os

primórdios da disputa pela herança

da revelação divina contida

nas Escrituras. Autores como J.

Trachtenberg (1939) e Norman

Roth analisaram a construção de

mitos medievais anti-judaicos e

sua influência no anti-semitismo

moderno e contemporâneo. No

século XIII, esta construção do

imaginário do judeu demonizado

se acentua, pois as mudanças

sócio-econômicas causadas pelo

renascimento urbano-comercial,

acentuaram o conflito de certos

setores da sociedade com os judeus.

Demonizar a minoria judaica

era uma maneira excelente de

excluí-los de maneira radical da

sociedade e repudiá-los de maneira

global do convívio e dos

direitos de minoria tolerada.

No debate de Barcelona,

Ramban Nachmanides se depara

com o (ex-judeu) converso

Pablo Christiani. O rei Jaime, o

Conquistador, vencera os muçulmanos

e tomara diversas localidades

no Mediterrâneo. Agora

queria vencer os judeus de seu

reino e convencê-los a abraçar

a fé única e verdadeira. O Vikuach

(debate) é um pseudo debate.

Nachmanides é obrigado a se

exilar após sua veemente defesa

da causa judaica. Os dois lados

se julgam vencedores, mas

o lado judaico, sofre as conseqüências

da fragilidade sócio-política,

de seu status de minoria.

Resumindo: a cada debate piora

a situação dos judeus. A sua função

social na Europa Ocidental

é menos necessária, pelo ressurgimento

de cidades, com o renascimento

comercial e urbano. A

burguesia cristã apóia as pretensões

hegemônicas do clero, para

se livrar de seus concorrentes

judeus. Os reis ansiosos para

retomar seu poder centralizador

buscam o apoio da burguesia

contra a nobreza. Recebem empréstimos,

doações, e apoio para

criar um Estado Moderno e centralizado,

além de um exército

mercenário, para destruir os senhores

feudais. Em troca, apóiam

as pretensões dos burgueses de

excluir os judeus da economia e

da sociedade. A questão religiosa

é a fachada ideológica de

um conflito mais profundo. Os judeus

passam a ser o Diabo em

pessoa. Estão no seio da Cristandade

para sabotá-la. São inimigos

infiltrados, aliados do demônio

e sua teimosia em não

aceitar Cristo, só demonstra a

sua maldade e sua relação com

as forças do mal.

O debate do dia 11 de setembro

de 2002, teve algumas características

interessantes. Uma

certa dose de ironia e provocação

de meu oponente, que vendo

que não podia comparar a

democracia israelense, com as

autocracias árabes, nem levar o

debate para o momento imediato

e para a figura polêmica de

Arik Sharon, queria demonizá-lo.

Considerei em minhas colocações

que Arafat foi o maior eleitor

de Sharon, por não ter aceito

a proposta de paz ofertada por

Barak. O erro de Arafat é imperdoável,

na ótica da História: impediu

a criação do Estado Palestino,

suscitou a reação da opinião

publica israelense e ajudou a eleger

Sharon. E o que é pior desencadeou

a onda de atentados

e a Intifada que propiciaram as

reações duras de Sharon. Percebendo

a fraqueza de seus argumentos,

Bourdokan quis olhar de

maneira imediatista para os fatos

recentes.

De minha parte, propus analisar

o conflito como um todo de

efeitos e conseqüências, olhando

o papel da liderança árabe na

não criação do estado palestino.

Arafat impediu o acordo e lançou

o conflito, em vias de se resolver,

numa crise insolúvel. Bourdokan

optou por comparar o Holocausto

com o suposto massacre

dos palestinos e seu extermínio.

Essa distorção dos fatos

revelou a fraqueza de seus argumentos,

e então deixei por conta

do publico presente, contestar

estas teses, sem fundamento. O

conflito nacional entre árabes

palestinos e israelenses, em

nada se compara

ao Holocausto. Há

violência dos dois

lados. Bourdokan

mostrou que as teses

de demonização

dos judeus e do

judaísmo ainda não

desapareceram.

A legitimidade do

Estado palestino, na

minha opinião, não

pode ser contestada.

O direito de existência,

serve para

os 2 Estados (Israel

e Palestina) em paz

e segurança, mas

não justificam extremismo

e a defesa

das bandeiras milenares

do preconceito

e do racismo.

3

* Sérgio Feldman é

professor adjunto de

História Antiga do

Curso de História da

Universidade Tuiuti

do Paraná e

doutorando em

História pela UFPR.


4

Acendidmento das

velas e benção do

Shabat

Lavagem das mãos

Para as novas gerações,

guardá-lo – único dos Dez Mandamentos

que evoca um símbolo

exclusivamente judaico –

como manda a Lei parece ser

cada vez mais difícil, uma vez

que a sedução exercida

pela vida moderna desafia

as restrições.

Os preceitos que regem

o Shabat compõe um

dos mais extensos tratados

do Talmud (o Livro seguinte

a Bíblia). Milhões e

milhões de palavras são dedicadas

ao assunto, e não apenas nas Escrituras,

tornando-o um dos mais

extensos temas dentro da bibliografia

hebraica. O Primeiro capítulo

do Gênesis e o Quarto Mandamento,

compreendem com precisão

inigualável o que é realmente

relevante à questão.

As páginas de abertura do Gênesis

foram, evidentemente, o

campo de batalha de teólogos e

cientistas do século XIX. As armas

com que eles se enfrentavam encontram-se,

hoje, imobilizadas e

corroídas pela ferrugem, quebradas

e cobertas pelos matagais. Os

mortos foram sepultados. As cinzas

da batalha dissiparam-se há

muito tempo. Agora, frente aos

nossos olhos, está uma planície

verdejante que acabou adquirindo

para nós um novo aspecto, graças

às lutas nela travadas.

O resultado, todos conhecem:

os cientistas ganharam; os teólogos

saíram clamando que a infame

vitória seria o fim da Bíblia. Isto

não aconteceu, nem tampouco

parece estar no horizonte. O que,

sim, aconteceu, foi que a partir de

então, o mundo passou a entender

o Gênesis de maneira diferente.

O que diz o Gênesis

O primeiro capitulo do Gênesis

rompeu com um facho de luz as

trevas da antiga mitologia. Sob

esta luz vive hoje a humanidade e

mal podemos imaginar o efeito

causado por ela, quando brilhou

pela primeira vez. O universo foi

declarado como sendo uma ordem

natural criada e desenvolvida por

uma só força e acionado como

uma vasta máquina que deveria funcionar

sob o impulso de sua própria

energia. Não havia deuses em forma

de gente. Nem havia animaisdeuses

e nem os deuses eram animais.

Não havia o deus do sol, o

deus da lua, o deus do amor, o deus

do mar ou o deus da guerra.

O mundo e a humanidade não

eram frutos de incestos titânicos e

de sodomia, praticados por monstros

celestes. O sol, a lua, os ventos,

os mares, as montanhas, os

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

O Shabat

O mais rico, complexo e sofisticado símbolo do judaísmo

astros, as pedras, as árvores, as

plantas e as feras faziam parte da

natureza e eram desprovidos de

todo e qualquer poder mágico. Os

fetiches eram um equívoco.

Os deuses e sacerdotes que

exigiam que crianças fossem queimadas

em holocausto, que corações

fossem arrancados de seres

vivos, que se praticassem horrendas

obscenidades ou que lhes

eram trazidas sucessivas oferendas,

revelaram-se inúteis, tolos,

ofensivos ao universo e condenados

a desaparecer. Terminava o

pesadelo da infância da humanidade.

O dia estava nascendo.

O relato do Gênesis sobre a

Criação extirpou do pensamento

humano o câncer da idolatria. Levou

algum tempo até ele prevalecer,

mas no final, até as supostas

deidades gregas e romanas enfraqueceram-se

diante do golpe. O

Gênesis é a linha divisória entre a

inteligência contemporânea e a

confusão primitiva no domínio das

coisas primeiras e últimas.

Os antigos teólogos fundamentalistas

afirmavam que, ou Moisés

teria lançado mão da aritmética

para descrever tão precisamente

o que vira ou, então, que ele não

mereceria mais crédito do que um

homem primitivo da Idade da Pedra.

Os cientistas alegremente

acolheram essa formulação. Podese

dizer que eles venceram, mas

nenhuma calamidade seguiu-se à

discussão. Porque os fundamentalistas

haviam elaborado uma hipótese

falsa. Os homens continuam

rendendo tributo ao Livro do

Gênesis. Pensadores modernos

atualmente dão por certo – como

há muito os rabinos já tinham sugerido

– que o Gênesis é uma visão

mística da origem das coisas,

expressa através das palavras mais

cristalinas e incisivas, acessíveis à

mente infantil e inspiradoras à inteligência

adulta, suficientemente claras

para subsistir em eras primitivas

e profundas o bastante para desafiar

culturas desenvolvidas.

O Shabat no Primeiro

Livro da Torá

O principal propósito aqui é vincular

o Shabat à sua fonte: o relato

judaico da Criação.

Entre judeus e gentios, poucos

desconhecem o Shabat. Um dia a

cada sete, todo o trabalho cessa,

a partir de 18 minutos antes do

pôr-do-sol de sexta-feira até aproximadamente

42 minutos após o

pôr-do-sol de sábado. A razão pela

qual o Shabat, assim como todos

os outros dias, é contado a partir

do pôr-do-sol do dia “anterior” está

nos versículos iniciais da Torá,

onde a Criação do Mundo é descrita:

“E foram a noite e a manhã o

dia primeiro” (Gen 1,5). A noite

vem antes da manhã, no cômputo

do dia. E os homens louvam o

Criador. Este preceito judaico impregna

a civilização, e regulamenta

a escala de trabalho na ampla

maioria dos países. O hábito é arraigado

e certamente não é por

acaso que parece existir uma perfeita

adequação quanto à proporção

de seis dias de trabalho para

um de repouso. Apesar da semana

de cinco dias de trabalho vigente

em tantos lugares hoje em dia,

sabemos todos que se trata de um

luxo, um dividendo da prosperidade,

e não uma necessidade natural.

O repouso é apenas uma parte

do preceito – a parte “negativa”, digamos.

O sétimo dia é sagrado: distingue-se

pelas mudanças nas roupas,

nas maneiras, nas refeições,

nas ocupações e, em especial,

numa maneira diferente de cultuar

o Criador. São princípios essencialmente

judaicos que encontram

paralelo nos costumes que vigoram

no dia designado ao descanso semanal

dentro de outras culturas.

No entanto, quando colocadas

em confronto com as leis que regem

o Shabat judaico, os mais rigorosos

preceitos dominicais parecem

muito brandos. Muitos cristãos

ainda argumentam que as

restrições dominicais seriam “judaizantes”

e que não faz sentido

submeter os cristãos a esta disciplina

do Velho Testamento. Os

puritanos de outros tempos, dizem

eles, levavam o Velho Testamento

demasiadamente a sério.

No Shabat, o judeu devoto não

viaja, não cozinha, não usa equipamentos

elétricos ou motores,

não manuseia dinheiro, não fuma

nem escreve. O mundo industrial

morre para ele nesse dia. Quase

todos os confortos mecânicos da

civilização são postos de lado. O

rádio silencia, o televisor permanece

desligado. Os cinemas, as

partidas desportivas, os teatros, os

clubes noturnos, as rodovias, o

carteado, os churrascos, enfim,

todos os tipos convencionais de

lazer não são para ele. O Shabat

judeu é uma cerimônia que exige

muito para ter efeito. O judeu que

se propõe a observar seus preceitos

confina-se virtualmente, desde

o pôr-do-sol de sexta-feira até o

pôr-do-sol de sábado, num mundo

isolado. Que não se tenha dúvidas

quanto a isso.

Mas esse mundo pode constituir-se

em algo extremamente

agradável para nós. Se até aqui foram

colocadas restrições que podem

ser vistas como difíceis de

cumprir, agora colocaremos o que

o nosso Shabat, este dia sagrado,

significa na prática: ele é nada menos

do que o ponto de apoio da

existência do judeu observante. É

a fonte que renova as energias,

traz alegrias e recria o prazer.

A grande diferença entre o dia

semanal de descanso de outros povos

e o Shabat judaico é imperceptível

a olho nu, mas irresistível sob

uma ótica espiritual. Tudo começa

com as bênçãos das velas e o vinho.

Luz e vinho são as chaves do dia.

Os rituais são solenes, mas têm o

poder de ampliar a liberdade interior,

instalar a paz, trazer a alegria e promover

a elevação espiritual.

O Quarto Mandamento

As duas tábuas da Lei contém

as sete grandes proibições sobre

as quais se sustenta a civilização:

a idolatria, o perjúrio, o assassinato,

o adultério, o roubo, o falso testemunho

e a ganância. E trazem

três mandamentos positivos: o culto

a um só D-us, a honra dos pais

e o respeito ao Shabat. Somente

isto. É de se admirar como as pessoas

que levam mais a sério o Dia

do Perdão e até mesmo as festas,

do que o Shabat, quando, sempre

que entram numa sinagoga, o que

vêem de imediato são as Tábuas

da Lei sobre a Arca Sagrada, nas

quais o Quarto Mandamento ordena

que se guarde o Shabat.

Diz o Êxodo 20:11: “... porque

em seis dias fez o Eterno os céus

e a terra, o mar e tudo o que há

neles, e repousou no sétimo dia;

portanto abençoou o Eterno o dia

de Sábado e santificou-o”.

E diz o Deuteronômio (5:12-14):

“Guardarás o dia do Shabat

para santificá-lo, como te ordenou

o Eterno, teu D-us. Seis dias trabalharás

e farás toda tua obra, e o

sétimo dia é o sábado do Eterno,

teu D-us; não farás nenhuma obra

– tu, teu filho, tua filha, teu servo,

tua serva, teu boi, teu jumento, teu

animal, teu prosélito que estiver

em tuas cidades -, para que descansem

teu servo e tua serva bem

como tu.”

Pai e filho

e a benção

do vinho


O Shabat é, em primeiro lugar,

um gesto dramático e unissonante

da comunidade – o antiqüíssimo

gesto coletivo de parar o trabalho

e celebrar. Todas as nações

comemoram o dia de seu nascimento

com um feriado e com cerimônias.

Os judeus, cientes de que

D-us criou o Universo, celebram a

própria Criação e elevam graças

ao Criador uma vez por semana.

Uma prova secular de que esta freqüência

é apropriada talvez esteja

no fato de que ela é considerada

em quase todo o mundo, de

uma forma ou de outra.

Em segundo lugar, o Shabat

assinala o surgimento da nação judaica

durante o Êxodo do Egito.

Os judeus veneram não só o D-us

da Criação, mas também o D-us

que escreve a história da humanidade.

Os escravos não têm nenhuma

opção em se tratando de trabalho

ou repouso. São como animais

falantes, sujeitos à vontade

do amo. A criatividade não está em

suas mãos. O tempo não lhes pertence.

Mas a liberdade é a condição

de Adão; é o direito da escolha;

é ser dono do próprio tempo.

O Shabat tem um significado todo

especial para o povo de Israel, que

atingiu a nacionalidade passando

da escravidão para a liberdade.

O duplo significado cobre todos os

símbolos da religião judaica: o culto

agradecido ao D-us Único e a celebração

do destino peculiar de Israel

como testemunho irrefutável de Sua

existência perante a História.

Conquistas que só o

Shabat traz

Não estamos aqui, porém, tratando

de uma interrupção qualquer

de trabalho. Isto representa apenas

o começo da observância do

Shabat. Sua essência é uma abstenção

ritual de todos os atos, inclusive

dos mais leves, que contenham

algum elemento de inovação,

de processamento e de manipulação

de objetos em geral.

A Torá relaciona 39 atividades

proibidas no Shabat. Elas se referem

a um pequeno grupo que inclui

o pão, vestuário, habitação,

carne, couro, manufatura e comércio.

O Talmud explora e explica minuciosamente

cada uma destas 39

proibições, que implicam a mais

completa abstenção de todo e

qualquer ato produtivo comum. Se

pararmos para refletir, veremos

que, ao contrário do que ocorre

com trabalhos pesados, evitar pequenos

esforços é quase uma cerimônia.

Levantar o argumento de

que acender o fogo, por exemplo,

não é trabalho pesado e, portanto,

não teria porque fazer parte da

lista, foge à verdadeira essência

da questão – que é, numa síntese

bastante simplificada, a proibição

absoluta de se criar qualquer coisa

nova no Shabat.

O Shabat judaico pode ser ri-

goroso demais para algumas pessoas,

ou pode ser que elas simplesmente

não concordem com o

principio em si. Mas o fato é que,

em seus próprios termos, trata-se

de um ritual marcante, inigualável,

que penetra todos os aspectos da

vida. Não é meramente um dia de

folga. O exigente ritual transforma

24 horas de cada semana em uma

unidade de tempo “fora do tempo”,

que se distingue do restante da semana

em cada detalhe.

Os símbolos e cerimoniais da

religião têm como um de seus objetivos

revelar a verdade de forma

impactante – como a arte, por exemplo.

Talvez esta semelhança tenha

induzido Santayana a concluir que

a religião é uma variação da estética,

o melhor dos sonhos criadores

do homem, o que, não é muito certo,

a menos que situemos, absurdamente,

Moisés e Charles Dickens

num mesmo ramo de atividades. De

qualquer forma, o certo é que tanto

a arte quanto a religião combatem,

através de instrumentos distintos, a

ferrugem que o hábito, a rotina, acabam

criando e que tem como resultado

nublar ou tornar invisível para

nós a maravilha inerente a cada

um dos infinitos itens da Criação.

O Shabat cumpre um papel sem

igual ao assinalar semanalmente,

para cada um de nós, a grandeza

da Criação e, ao mesmo tempo, os

primórdios de Israel.

O Shabat judaico é a culminância

da árdua disciplina do judaísmo,

um dia de prazer enobrecedor; que

é difícil de ser cumprido, mas valem

a pena todos os esforços exigidos

nesse sentido; e que, em nossa religião,

nele se encontra a pedra fundamental

da simbologia, através da

qual buscamos a verdade.

Todas as leis restritivas ao Shabat

deixam de vigorar instantaneamente

em qualquer situação

de emergência – doenças agudas,

acidentes, etc. A definição de

emergência é rigorosa e realista.

Toda e qualquer circunstância que

implique risco de vida ou coloque

em perigo a integridade física do

individuo é classificada como

emergência – a vida humana é tão

sagrada para o judaísmo que é permitido

fazer tudo o que for necessário

para salvá-la e mantê-la, inclusive

no Shabat. Por outro lado,

uma situação de risco para os negócios,

mesmo que envolvendo

uma transação de milhões, definitivamente

não é uma emergência.

Abertura do Shabat

O Shabat é iniciado na casa

pelo acendimento das velas. Elas

são acesas pela mulher da casa e

suas filhas. As velas devem ter tamanho

suficiente para queimar até

que a refeição da noite de sextafeira

tenha terminado. A mulher

que diz a benção deve cobrir a

cabeça, geralmente com um lenço,

acender as velas e, após acendê-las,

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

dizer a seguinte bênção: “Baruch Ata

Ado-nai, Elohenu Melech há-olam,

asher kid’shanu b’mitzotav v’tzivanu

l’hadlik ner shel Shabat” (Bendito és

Tu, ó Senhor, nosso D-us, Rei do universo,

que nos santificaste em Teus

mandamentos e nos recomendaste

acender a luz do Shabat “).

A família vai a sinagoga para os

serviços de Kabalat Shabat ou dando

as boas vindas ao Shabat.

Constitui-se de uma série de preces

e salmos que terminam com a

canção “L’cha Dodi” (Venha, meu

amigo, saudemos a noiva), escrita

pelo cabalista Solomon Alkabetz,

discípulo de Isaac Luria. É costume

entre todos os judeus que, ao

ser entoado o verso final, todos se

levantem e virem-se para a porta,

como se o próprio Shabat, como se

fosse uma noiva, estivesse entrando,

pois se estaria oficiando o casamento

do povo judeu com D-us.

O Kabalat Shabat é seguido

pelo Maariv, que tem preces suplementares

ao Shabat.

Após as preces a família faz o

jantar de Shabat. Ele começa com

o pai recitando os versículos 10 e

31 do Capitulo 31 dos Provérbios.

Essa parte, chamada de Eshet

Chayil (Uma Mulher de Valor), é recitada

pelo marido em louvor a esposa.

Ela é seguida pelo kidush (ou

prece da santificação) do Shabat.

O kidush é recitado pelo pai, de

pé, com um copo de vinho. A primeira

parte do kidush é uma repetição

dos versículos do Gênesis

que descrevem a origem do Shabat.

É costume que todos se levantem

para o kidush. Após o kidush haver

sido dito, o pai toma um pequeno

gole do copo de vinho e o passa à

esposa, que também dele bebe. Em

muitas famílias, também todas as

crianças bebem do copo do kidush.

Após o kidush, todos lavam as mãos

e diz-se a bênção do pão sobre duas

chalot (pães trançados). Por que

duas chalot? Conforme a tradição,

a origem deste costume remonta à

época em que os Filhos de Israel fizeram

sua jornada de quarenta

anos através do deserto, depois de

escapar da escravidão do Egito.

Quando faltou comida, D-us milagrosamente

enviou maná do céu

e na sexta-feira o fez em dobro,

para que os israelitas não tivessem

que o recolher o maná no Shabat,

o que constituiria trabalho.

Diz-se que a comida servida no

Shabat tem um gosto melhor que

a comida comum. De acordo com

nossos ensinamentos, todos os

cinco sentidos constituem função

da alma. No Shabat, todo judeu recebe

uma alma suplementar, e

como neste dia ele fica com duas

almas, todos os seus sentidos tornam-se

duplamente aguçados e

ele é capaz de apreciar, o gosto

do Shabat. Esta crença nos veio

através da tradição mística, a Cabala.

Durante e após a refeição

são cantadas canções especiais

em hebraico e aramaico.

Ao final da refeição, diz-se graças

após o pão com a adição de alguns

curtos parágrafos e antecedida pelo

canto do Salmo 126.

No dia seguinte, toda

a família vai à sinagoga

e na volta é servido

o almoço, cujo

prato principal, normalmente

é o tcholent

(assemelha-se a feijoada).

Uma terceira refeição é servida

na sinagoga, entre as preces

da tarde e da noite.

Após o Shabat haver terminado,

a havdalá (separação) é dita

na sinagoga ou em casa. A cerimônia

serve para assinalar a divisão

entre o sagrado do mundano,

o Shabat sagrado da semana com

seus dias de trabalho seculares,

sendo um ritual agradável e colorido.

Acende-se uma vela trançada

com seis pavios (ela propicia

uma tocha, para satisfazer o versículo

de Salmos 19:9: “O mandamento

do Eterno é puro, ilumina os

olhos”). Uma taça é colocada sobre

um prato e enchido com vinho

até transbordar (é símbolo de bom

agouro, uma expressão de esperança

de que a semana que está para

começar irá trazer consigo bondade

em abundância). É então apanhado

e recita-se a prece “Olhai, Dus

é minha salvação”, dizendo-se

em seguida a bênção do vinho. Uma

caixa com especiarias aromáticas

como cravo, hortelã, etc, é passada

para que todos a cheirem. Uma

explicação é de que as especiarias

se destinam a elevar os espíritos e

compensar a tristeza que em geral

se sente ao fim do dia de Shabat

por causa da “alma complementar”

que nos abandona. Neste momento

as mãos são estendidas para a

vela enquanto a bênção é dita, e as

unhas das mãos são examinadas,

de modo que a luz tenha sido utilizada

e a bênção não tenha sido em

vão. O copo é erguido novamente e

recita-se uma bênção, após o que

se bebe o vinho e a vela é apagada

no vinho que transbordou para o

prato. É costume, nesse ponto, que

os homens presentes molhem as

pontas dos dedos no vinho do prato

e levem-nas então aos olhos e aos

bolsos a fim de que a semana seguinte

lhes traga tanta boa visão

quanto bons negócios.

Esta é uma visão sucinta e

básica do mandamento positivo do

“Lembra-te do dia do sábado”. Os

judeus consideram o Shabat um dos

maiores presentes que D-us lhes

concedeu, e os historiadores do povo

judeu repentinamente afirmaram que

“tanto quanto Israel manteve o Shabat,

o Shabat manteve Israel”.

O Shabat, sem dúvida, constitui

uma das forças mais poderosas

na preservação dos judeus

como um povo, durante séculos de

exílio e perseguição.

5

Chalá, o pão

trançado

Havdalá, a

vela trançada


6

* Nahum

Sirotsky é

jornalista

correspondente

da RBS em

Israel e colunista

do Último

Segundo/IG. A

reprodução de

sua coluna do IG

tem autorização

do autor.

(De Israel) - É claro que vivendo

os perigos deste “maravilhoso

mundo novo”, não posso deixar de

me preocupar. Há bem pouco se

tinha a era da Informação, que sociólogos,

filósofos, e etc., viam

como uma era de aproximação dos

povos e indivíduos, um mundo

multiétnico entendendo-se cada

vez mais. Caíra “a cortina de aço”

como Winston Churchill qualificara

a divisão entre o mundo democrático

e capitalista e o mundo soviético.

Finalmente, “Um Mundo

Só”, como sonhara o Republicano

Wendell Wilkie, autor de um livro

com tal título que servira de tema

de sua campanha presidencial na

qual fora derrotado. Por incrível

que pareça às gerações atuais, o

século passado foi dominado por

gigantes do bem e do mal, porém,

gigantes. Homens de visões criativas

e negativas do seu tamanho.

Hoje, as lideranças que se

apresentam por aí nem imitações

são. Não têm a estatura intelectual

e moral sequer do homem comum

a quem enganam com o seu acesso

aos meios de comunicação e

profissionais da criação de sonhos

que, espertamente, preferem ganhar

o dinheiro ao sofrimento e

responsabilidades do comando.

Não é fácil liderar e decidir. Vejam

Bush como já envelheceu, FHC.

Todos. Os gigantes do passado tinham

sua parte narcisista como os

chamados líderes de hoje. Só

disputam tais cargos quem se considera

o mais sábio dentre os sábios,

aquele que acha conhece o caminho,

iluminado que ilumina. Pode

ser que alguns hoje tenham o sentido

do serviço público como os

que se foram.

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

A volta do preconceito racial e religioso

Nahum Sirtosky *

Não conheço nome que se possa

pronunciar com respeito como

Churchill e Roosevelt, ou com total

submissão como Hitler. Não é

saudosismo, é carência. Foi colega

quem criou a expressão globalização.

Abriam-se comunicações

livres e ilimitadas entres os bilhões

do mundo. Os praticantes da internet

criariam uma rede de boa vontade

que inviabilizaria a ambição

dos que queriam o poder pelo seu

gozo. Mas, acentuam-se todas as

formas de nacionalismo. E acabaram

nascendo estadinhos que sequer

têm a população de uma cidade

brasileira média. A internet,

curiosamente, fez do homem um

papagaio de fatos. Sabe o que

acontece em Sri Lanka que nem

sabe onde fica. São anti isto e

aquilo sem saberem de que se trata.

O homem de hoje com seu

acesso e massa de informações é

um ignorante que sabe fatos. O conhecimento

ignorante é o grande

perigo dos nossos dias. E o que

alimenta os radicalismos e enfraquece

a liberdade de pensar e o

efeito educacional do debate. Os

indivíduos se dividiram em microcosmos

com opiniões fixas. O papo

é raro. A discussão é que é comum.

Nesta era que deveria esclarecer

estão renascendo os preconceitos.

Ser árabe e maometano

passou a ser um problema. Só

porque existem uns milhares de

deformados mentais, terroristas de

linha islâmica, todo o indivíduo de

nome árabe passou a ser suspeito.

Os maometanos são um bilhão

e meio de indivíduos que querem

viver em tranqüilidade e prosperidade.

Os grupos terroristas são

minorias que assustam seus irmãos

dos quais arrancam dinhei-

ro para suas ações. Quem vive no

meio de bandido não pia e paga.

Os sírio-libaneses praticamente

marcaram e defenderam as nossas

fronteiras com seu pequeno comércio.

Jorge Amado soube reconhecê-lo.

Também ressurge o anti-semitismo.

Como os terroristas que se

destacam, são maometanos, ignorando

que Israel tem o tamanho de

21 mil quilômetros quadrados, cerca

de seis milhões de habitantes

apenas, menos de metade da população

do grande Cairo, os antisemitas

se utilizam, como sempre,

de argumentos ridículos. Leio discursos

de candidatos brasileiros

que me fazem enrubescer de vergonha

tanta ignorância revela. E

o anti-semitismo é um de seus argumentos.

O Brasil tem a lei Afonso

Arinos que classifica de crime

manifestações ou atos de preconceito

de todo o tipo. Há muito candidato

que poderia estar sendo

processado. E nada leio dos candidatos

ao cargo principal condenando

os que promovem o ódio

entre nós. A mesma gente que jogou

os negros escravos nas estradas

e jamais os compensou pelo

que contribuíram para o País. Nem

escolas, nem habitação, nem água

limpa. Os negros que dão ao Brasil

os poucos prazeres como o penta.

”Negro quando não suja na entrada

suja na saída”, dizem estes falsos

liberais, esquerdistas, direitistas,

que nunca se levantaram para

reconhecer que os negros trouxeram

as tecnologias que nos abriram

o mundo: tratar o ferro, fazer açúcar.

E nada se ouve de ajudá-los a

sair donde se encontram desde o

século retrasado, na miséria.

Contra os turcos, anti-semitismo,

antiamericanismo, anti-ricos,

antiproprietários de terras, anti

aqueles graças aos quais se tem

emprego. Anti e anti. Repetem o

passado. Não há criatividade. As

mesmas promessas de sempre.

Chatérrimas, mentirosas ou inviáveis.

Ainda há tempo. Atualizem-se

e se renovem. Digam que vão passar

mais anos sem que se volte a ter

prosperidade. Será que não se pode

ganhar eleições com a verdade?

Sempre me gabo de um Brasil

sem preconceitos quando convidado

a palestrar. Sei que não é toda

a verdade, mas é boa parte dela.

Aliás, o caso judeu é estranho

demais. Num mundo de sete bilhões

de habitantes eles são uns

12 milhões no total. Israel tem menos

população que a cidade do

Cairo e o espaço de Sergipe. Uma

titica no mapa mundi.

E, parte de sua população, que

não esquece o Holocausto no qual

morreram seis milhões, também

assume atitudes anti-semitas. Há

um grupo do ‘Paz Agora “que recolhe

elementos para ver se pode

promover o processo por crimes de

guerra contra oficiais e soldados.

Querem ganhar simpatia do mundo.

Mostrar que são melhores. Sofrem

da velha doença do auto-ódio

pois nem sempre é fácil ser judeu”.

A internet está dividindo povos

e famílias porque informa tudo e

nada explica. Está ajudando a renascer

um mundo de ódios. É o

que sinto nos meus deslocamentos

pela região. Ódio entre seitas

de uma mesma fé. Ódios entre vizinhos.

Este mundo tem de tudo

para acabar com a miséria e promover

solidariedade. Não vejo

isto. Somos mesmo gerações incompetentes.

Nem aos netos queremos

garantir a boa vida.

Há 1 ano Curitiba distribui remédio para mal de Parkinson

Doença se caracteriza pela diminuição do número de neurônios e afeta

aproximadamente 1% das pessoas com mais de 65 anos na população geral

Jorge Magnun

Lima,

presidente da

Associação

Paranaense

dos

Portadores de

Parkinson,

que passam a

receber

gratuitamente

remédios nas

Unidades de

Saúde, após

parceria

firmada com a

Secretaria

Municipal da

Saúde

Desde dezembro do ano passado

os pacientes do mal de Parkinson inscritos

no programa municipal de parkinsonismo

recebem - gratuitamente

- da Prefeitura de Curitiba remédios

para o controle da doença.

O benefício é possível graças a

uma parceria assinada entre a Secretaria

Municipal da Saúde e a Associação

Paranaense de Portadores

de Parkinson.

Em Curitiba, a doença de Parkinson

atinge 5% da população com

mais de 50 anos. Entre os principais

sintomas estão falta de equilíbrio,

rigidez, tremor de repouso, instabilidade

postural e a lentidão nos movimentos

(bradicinesia).

O tratamento exige medicação,

apoio social e reabilitação. “O prefeito

nos deu suporte e condições

de viver com qualidade. Conseguimos

sensibilizar a sociedade. O

apoio da Prefeitura tem sido fundamental”,

disse o vice-presidente da

associação, João Marcelo Alves.

Em junho deste ano, a Prefeitura

incluiu o medicamento pamiprexol

(Sifrol ou Mirapex) entre os remédios

que são distribuídos gratuitamente

aos portadores do mal - cloridrato

de biperideno (Akineton), levadopa

+ carbidopa (Carbidol ou Levocarbi),

amantadina (Mantidan) e

selegilina (Jumexil e outros).

Somente em agosto deste ano

foram distribuídos gratuitamente

33,8 mil comprimidos pela Unidade

de Saúde Ouvidor Pardinho, da Prefeitura

de Curitiba.

A doença de Parkinson se caracteriza

pela diminuição de neurônios

na região cerebral chamada de

substância negra e afeta aproximadamente

1% das pessoas com mais

de 65 anos.

“Garantimos aos portadores de

Parkinson tratamento contínuo, dando

mais qualidade de vida a uma

população formada principalmente

por idosos e pessoas carentes com

dificuldade para mantê-lo por conta

própria”, disse o secretário municipal

da Saúde, Michele Caputo Neto.


Messiânicos e outros

aproveitadores

O modelo ideal do judeu é Paulo, o fariseu

convertido, fundador do cristianismo.

Esta é a idéia que motiva aos movimentos

messiânicos atrair judeus para o cristianismo.

Seus prosélitos são judeus que estão

afastados das suas comunidades ou aqueles

desgostosos, com dificuldades de relacionamento

com membros da sua comunidade,

que não receberam o apoio que julgavam

merecer nos momentos difíceis das suas

vidas, entre outras razões. Estes, então, tornam-se

alvo das ações proselitistas de evangélicos

messiânicos.

Esses grupos se autodenominam “judeus

messiânicos”. Ora, eles não são judeus, portanto,

tal denominação, já pressupõe uma

fraude. Suas origens e motivações são evangélicas

e não judaicas, apesar de explorarem

pretensas “origens israelitas”: nomes de

famílias, supostos hábitos preservados através

de gerações, e coisas do gênero.

Na internet podemos encontrar uma infinidade

de sites dessas igrejas. São sites repletos

de ilustrações judaicas, de textos escritos

em hebraico, de referências às festas,

músicas religiosas e laicas, e assim por diante.

Iludem judeus desavisados e a cristãos

mal informados ou insatisfeitos com as suas

igrejas. Visam atrair membros das duas crenças.

O que cair na rede é peixe. Buscam judeus,

por os julgarem “incompletos” pelo fato

de não terem aceitado o messias cristão.

Atraem aos cristãos porque, oferecem um

“reencontro” com suas origens no contato

com a fé judaica, prometendo uma experiência

religiosa mais completa, profunda, e

a esperanças a um breve “novo tempo”.

O principio dessas igrejas encontra-se na

antiga forma cristã de interpretação das Escrituras

e nos preconceitos originados de tal

interpretação. O fato da salvação ter sido

enviada ao povo de Israel e não ter sida

reconhecida por ele (segundo o cristianismo),

faz com que se entenda que houve,

por parte dos judeus, uma negação às promessas

divinas. Tal fato retarda o tempo

messiânico. Como os messiânicos estão

empenhados em apressar a instalação do

tempo messiânico na terra, assumem como

tarefa, atrair judeus para o seu meio, convertendo-os

a uma espécie de cristianismo

disfarçado de judaísmo.

Assim como os seus sites na internet, são

suas igrejas. Com intuito de gerar confusão,

adotam uma arquitetura própria das sinagogas.

Usam candelabros judaicos, instalam

uma bela arca aos fundos e um “púlpito” semelhante

a uma bimá. Os cultos são semelhantes

aos serviços religiosos das sinagogas.

As datas festivas são guardadas rigorosamente,

cumprindo-se horários de acendimento

das velas de Shabat e das Festas.

O engodo vem com a pregação e com o acolhimento

irreparável. Com argumentos judaicos

o evangelismo messiânico é pregado ao

neocrente, fazendo-o acreditar que aquela

é a forma mais perfeita do judaísmo. Talvez,

então, o judeu atraído pelos estelionatários

da religião, jamais julgue ter sido cooptado

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Antonio Carlos Coelho *

por uma seita evangélica, mas sim, continue

acreditando estar vivendo o judaísmo da forma

mais correta.

Isto não é de hoje. Próximo à porta de

Jafa, em Jerusalém, há uma igreja evangélica,

construída no final do século 19, que segue

os mesmos moldes arquitetônicos das

sinagogas. Tal igreja tinha, na época, o mesmo

intuito das atuais igrejas messiânicas,

converter os israelitas. Não só atraiam judeus

desgarrados pelas palavras, mas também

ofereciam trabalho, acolhimento e sustento

para aqueles que viviam em grande dificuldade

na Jerusalém do domínio turco.

Mas, embora exercessem uma forte atividade

proselitista, parece que nunca se fizeram

confundir com o tal “judaísmo messiânico”.

As atividades proselitistas nunca deixaram

de acontecer entre as igrejas cristãs e

pseudocristãs e seitas de diversas orientações.

Há igrejas que ainda se dedicam fortemente

a essa desrespeitosa atividade, buscando

atrair para o seu meio cristãos de outras

igrejas e também os não-cristãos. Os

canais de TV estão repletos delas, oferecendo

milagres: recuperação financeira, curas,

sucesso empresarial, salvação, etc. Algumas,

hábeis em suas técnicas mercadológicas,

usam e abusam de elementos e práticas

de outras religiões e explorando a simbologia

religiosa, gerando confusão, fazendo

a pressa desavisada acreditar que “tudo

é a mesma coisa”.

Os novos tempos favorecem a multiplicação

das igrejas e religiões proselitistas.

Tal crescimento é facilitado pelo desgaste da

modernidade racional do século 20, da frieza

das relações humanas, da solidão e de

outros males do nosso tempo. Elas oferecem

salvação aqui e agora. Tais igrejas (seitas)

tornaram-se uma preocupação para as religiões

tradicionais (históricas), que há muito

abandonaram o proselitismo e que hoje procuram

estabelecer a convivência harmoniosa

entre si. As seitas, não só agem com

afrontoso desrespeito, mas atrapalham todo

o empenho sério que, ao longo desses últimos

50 anos, se tem feito visando superar

divergências e preconceitos históricos, estabelecendo

assim, relações que visem o

bem das diferentes comunidades.

Enfim, essas igrejas e religiões estão aí

para atrair desavisados, sedentos de uma

vida religiosa mais intensa, carentes de milagres

e de outras “felicidades”. Não há o

que as proíba de comprar espaços nas rádios,

TVs, jornais, na internet ou de bater

nas portas das casas oferecendo salvação

a bom preço. Não acredito que haja alguma

coisa para se fazer contra elas, nem mesmo

há como, apesar das suas perniciosas

atividades proselitistas e das falsas promessas.

Diante disso, só resta tomá-las como

um desafio: descobrir o que as igrejas e religiões

tradicionais estão fazendo, ou estão

deixando de fazer, para que seus membros

cheguem a preferir a ilusão, o milagre fácil,

a felicidade barata ou até mesmo, uma comunidade

artificial?

* Antonio Carlos Coelho é professor e assessor do Governo do Paraná para assuntos fundiários

Feldman defende a paz em

debate sobre Oriente Médio

No dia 11 de setembro, coincidindo com o primeiro aniversário do atentado,

foi realizado um debate no Teatro da Reitoria, entre o jornalista George Bourdoukan,

de origem árabe e o historiador Sérgio Alberto Feldman, de origem

judaica. O tema do debate foi “O Jornalismo no Conflito do Oriente Médio” e o

evento foi promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do

Paraná com apoio da Universidade Federal do Paraná.

O debate contou com um bom público e foi movimentado. Bourdokan criticou

o governo de Sharon e defendeu teses bastante polêmicas, que relacionavam

o conflito com o Holocausto, misturando nacionalismo palestino contra

Israel com o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Interpelado

por alguns dos presentes, justificou suas teses com textos de livros, escritos

por judeus, relatando a distribuição de certificados de imigração (por determinação

do 3º Livro Branco – 1939, criado pelos ingleses). Tentou ainda provar

a responsabilidade indireta dederes judeus no Holocausto, gerando reação

em vários membros da comunidade judaica. No meio de seus comentários,

chamou o respeitado jornal, Folha de São Paulo, “um jornal de m....”

Sérgio Feldman iniciou dizendo que a única democracia existente no Oriente

Médio era Israel, e portanto, falar de liberdade de imprensa nas monarquias

semi-feudais e nas repúblicas de partido único e governantes autoritários

e vitalícios, era no mínimo, levar para o Oriente, conceitos ocidentais.

A existência de movimentos pacifistas e de partidos de oposição, livremente

existentes, fazem de Israel um modelo isolado, na opinião de Feldman. Ele

fez uma detalhada descrição do conflito, mostrando as oportunidades de se

criar um Estado palestino e a maneira como foram desperdiçadas pela liderança

palestina ou árabe. Isso ocorreu em 1948 com a anexação de Gaza (pelo

Egito) e da Cisjordânia (pela Transjordânia) abortando o Estado palestino. Voltou

a ocorrer quando Barak negociava a conclusão do tratado originado com Rabin,

no início da década de 90, e foi recusado por Yasser Arafat, que originou o

atual conflito. Na opinião dele, o maior eleitor de Sharon foi Arafat, com seu

radicalismo, que causou o reinício das hostilidades e da violência. Feldman

declarou-se crítico a Sharon, mas defendeu o caminho das negociações e lamentou

a onda de violência. Justificou a necessidade de se debater para criar

o conhecimento mútuo, estimular o diálogo e a luta pela paz.

VJ indica filme

Amen

Produção: França/Alemanha, 2001

Direção: Constantin Costa-Gavras

Com: UlrichTukur e Mathieu Kassovitz

7

O filme ainda não está sendo exibido nos cinemas de Curitiba, mas fique alerta.

Desde 1964, quando assistiu à peça “Amen”, o cineasta grego Constantin

Costa Gavras, queria filmar a história real do químico alemão que,

apesar de fornecer o gás Zyklon B para matar judeus no campo de concentração,

tentou alertar o Vaticano sobre o Holocausto. “A guerra vista do

lado dos assassinos”, diz Costa-Gavras.

O oficial da SS Kurt Gerstein alertou, mas não foi ouvido. O caso permanece

até hoje como um dos segredos mais bem guardados do Vaticano.

Por que o Papa Pio XII, munido das informações, não denunciou as atrocidades

para o mundo?

“Uma semana depois que ‘Amen’ estreou, o Vaticano disse que abriria

os arquivos em 2005. Veremos”, afirmou Costa-Gavras, diretor de filmes

como “Z” e “Missing, o Desaparecido”.

“O Papa Pio XII era muito pró-Alemanha, mas não pró-nazismo. O que

é certo é que ele não falou. Ele nunca pronunciou as palavras “judeu”,

“cigano”, ou “campo de concentração”. E nunca condenou os nazistas. É

isso o que diz o filme - Constantin Costa-Gavras

O Pianista

Produção: França/Alemanha/Holanda/Polônia/

Inglaterra - 2002

Direção: Roman Polanski

Em vídeo - “O Pianista conta a história de um músico polonês que vê

sua cidade, Varsóvia, ser tomada pelos alemães na Segunda Guerra Mundial.

Sua família é exterminada no campo de concentração de Treblinka.

O filme é baseado na biografia do pianista Wladyslaw Szpilman, que

morreu em 2000, aos 80 anos, dois meses antes do inicio das filmagens.

A historia de “O Pianista” pode ser dividida em duas partes. Na primeira,

Roman Polanski retrata o cotidiano dos judeus no gueto de Varsóvia. É

a metade mais violenta do filme, com espancamentos e mortes mostradas

de forma explicita. A segunda parte segue Szpilman tentando sobreviver

escondido nos prédios abanonados da cidade, até a chegada dos soviéticos,

no fim da guerra.


8

*Gustavo Perednik

é israelense,

historiador e

escritor, graduado

pelas universidade

de Buenos Aires e

Jerusalém, tendo

ainda estudado nas

universidades de

Lock Haven (EUA),

La Sorbonne

(França) San Marcos

(Peru) e Uppsala

(Suécia). O presente

texto é baseado no

artigo “O agressor é

a Europa”,

publicado em

“Libertad Digital”,

Espanha, em abril

2002.

Passatempo

Voltaire, que era rápido em libertar-se

de todos os preconceitos medievais,

de um deles não conseguiu

livrar-se, e nos chamou, aos judeus,

de “o povo mais imbecil da face da

terra, inimigos da humanidade, mais

obtuso, cruel, absurdo....”

Na França, o século 19 não corrigiu

o 18. Nem em sua literatura

socialista pode-se encontrar compaixão

pelos judeus perseguidos,

até mesmo quando houve naquele

lapso de tempo cerca de seiscentos

pogroms. No século 21 o mal

continua. Algumas semanas atrás

uma dupla de embaixadores foi muito

franca: Jacques Huntzinger justificou

o terrorismo contra o Israel, e

Daniel Bernard culpou pelos males

do mundo ao “paisinho sórdido”.

Durante séculos o judeu foi conhecido

na Europa como diabólico,

conspirador, sanguinário. Nossa

religião, tida “como vingativa e

superada pela religião do amor”.

Esses preconceitos atávicos se

lançam hoje contra o judeu do

país mais censurado do planeta,

o único ao qual se questiona seu

direito de existir. Todos os países

nasceram graças a movimentos

nacionais, mas para os olhos europeus

o único movimento bastardo,

é o sionismo.

A campanha anti-israelense

dos meios de comunicação, é um

fruto apodrecido pela perseverante

hostilidade ao povo judeu. O pequeno

Estado, cuja criação foi necessária

para salvar milhões de vidas

das garras da Europa, é o que

recebeu duas terças partes das

condenações das Nações Unidas.

A desculpa são os “territórios

ocupados” em 1967. Mas em 1965

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

As quatro mentiras européias

Gustavo D. Perednik *

O reino animal faz parte da criação do mundo

Encontre no diagrama abaixo vinte e

quatro nomes de animais

a União Soviética já se opunha a

que a Declaração dos Direitos Humanos

da ONU incluísse uma condenação

à judeufobia. Quando o

único pecado de Israel foi existir,

“sem ocupação” alguma, Arafat e

sua OLP já nos assassinavam. A

mídia dissimula que a ocupação foi

conseqüência da agressão árabe;

não sua causa.

Nós teremos paz duradoura

com nossos vizinhos quando estes

se democratizarem, porque

entre democracias nunca há guerras.

No mundo árabe, os regimes

de hoje são inimigos, tanto de Israel

como dos povos árabes. Mas

a judeufobia é européia. Sua gente,

que podia livremente exigir de

seus governos que deixassem de

mortificar Israel por seu esforço

pela sobrevivência, escolheu confrontar

este escasso povo que fez

do deserto um pomar e que sempre

esteve disposto a negociar

para construir a paz com seus vizinhos

que possuem um território

quinhentas vezes maior.

A delegação européia de jornalistas

que foi solidarizar-se com

Arafat, deixou seus escritórios escondendo

entre eles treze terroristas

procurados. Ninguém nos pedirá

desculpas.

A Comunidade Européia deseja

dar a Arafat 50 milhões de euros

para compensar a destruição

israelense. Merecerá algum judeu

reparação pelas mortes do terrorismo

que Arafat desencadeou

com ajuda da Europa?

A União Européia só demanda

pedidos de cessar-fogo quando Israel

se defende; não vê as agressões

contra civis judeus. Agora

mesmo os protegidos da Síria (no

Sul do Líbano) nos bombardeiam,

mas a Europa retarda seus protestos

para quando Israel se defende.

De todos os sofredores do

mundo, o escritor José Saramago

escolheu o povo palestino para

comparar sua situação... com a

dos judeus sob o nazismo!

Assim, a aniquilação deliberada

de seis milhões de inocentes

em terras alemãs, mares britânicos,

traição francesa, bancos suíços

e silêncio do Vaticano, foi equiparada

com um conflito político.

Os estertores do Holocausto

continuam, mas não pela onda de

agressões às sinagogas. Nos

matam os europeus, como meio

de legitimar as ações mais vis

desses que teimam em nos destruir.

E sob a bandeira que é a

máxima hipocrisia do século: a

suposta solidariedade com o

povo árabe palestino.

Para os europeus, os palestinos

pouco lhes importa. O único

país que criou universidades e

serviços municipais para eles foi

Israel. Quando a Jordânia matou

milhares deles ou quando o Kuwait

expulsou dezenas de milhares,

não houve nenhuma solidariedade.

Não motiva o bem-estar palestino,

mas o duvidoso prazer de

castigar Israel.

Também não interessa à Europa

que não tenham seus próprios

Estados os cachemires, os tamiles,

os corsos, os tibetanos, os

curdos, os neocaledonios, os ibos,

os aymarás ou centenas de outras

nações. Só os palestinos, que nunca

tiveram Estado despertam sua

solidariedade incondicional.

Dessa foram, eles validaram

quatro mentiras aceitas universalmente:

1) A pior calamidade de um povo

é a falta de um Estado próprio;

2) os palestinos são os únicos

destituídos;

3) Israel é culpado por essa “deficiência”

(de Barak a Sharon,

ambos os governos israelenses

propuseram aos palestinos que

eles deixassem as bombas e

se dedicassem a criar seu Estado

pacificamente);

4) qualquer meio é permissível

aos palestinos: bombas em pizzarias,

discotecas, aniversários

e escolas. Não há condenação

no caso de a vítima ser judia;

Os líderes de centenas de povos

são ilustres estranhos. Arafat

teve a enorme sorte de escolher o

inimigo perfeito que lhe permitiu

catapultar-se até o estrelato e ao

Prêmio Nobel da Paz. Quem conheceria

Arafat se não fosse

pela Europa? Por que haveria de

deixar de nos matar, se eles o

aplaudem por isso? Com ele, os

europeus esgotam suas condolências;

mas deles não têm partido

nem uma palavrinha aos

pais judeus que perderam seus

filhos no terror palestino.

A judeufobia medieval quis eliminar

o judeu da sociedade; a contemporânea

tende a isolar o Estado

judeu da família das nações.

Israel ofereceu aos palestinos

o território que reclamam, e responderam

com dois anos de atentados,

embora estivessem comprometidos

em cinco tratados de

paz com Israel a renunciar ao terrorismo

e discutir suas demandas

na mesa de negociações. Eles

matam e se matam para destruir

Israel, nem um milímetro a menos.

Mas para a Europa o mal é Israel.

Explosão numa discoteca em

Tel Aviv; e a BBC de Londres descamba

numa guerra de vinte anos

atrás para exigir que seja julgado

por “crimes de guerra” (de cristãos

contra muçulmanos) o primeiro-ministro...

judeu. Os israelenses são

baleados dia após dia e o ministro

norueguês anuncia que está permitido.

Só os produtos israelenses

são boicotados pela Noruega, e

ainda afirma arrepender-se de ter

concedido o Nobel da Paz... para

Shimon Peres! Uma igreja de Belém

dá asilo a terroristas armados

e o Papa exorta a que não se humilhe

a Arafat.

A judeufobia não pode esgotar

a explicação do conflito no Oriente

Médio. Mas desconhecê-la

como fator influente, é no mínimo

ingenuidade.

A contribuição que a Europa

poderia fazer à paz é imensa, se

eles censurassem a incitação nas

escolas. Até hoje, Israel nem figura

nos mapas dos árabes.

Suas crianças aprendem em salas

de aula que Israel deve ser

destruído, e que o modelo a se

imitar é o do “mártir sagrado” que

comete suicídio para matar pedestres

judeus.

A atual ofensiva do exército israelense

tem como objetivo desmantelar

os grupos terroristas que

atuavam com impunidade na região

da Palestina, destruir aquela

infra-estrutura de morte. Cumprindo

os acordos de Oslo, Israel

trouxe de Túnis combatentes palestinos,

proporcionou-lhes território,

dinheiro, armas e prestígio.

Sua resposta não foi desarmar o

aparato terrorista, mas encorajálo

treiná-lo e glorificá-lo. Mas o

que ofende a Europa é a autodefesa

israelense.

O matricídio europeu vem por

milhares de anos matando judeus,

ou perdoando a quem os

mata ou ofendendo judeus porque

não se deixam matar.

Se se investisse na democratização

dos Estados árabes uma

pequena porcentagem do que se

investiu na América Latina, na

África do Sul e no mundo comunista;

se se exigisse a legitimação

de Israel e o respeito aos valores

humanos, teríamos avançado

para a paz. Ainda que esta seja a

essência da questão, a Europa

tem outras prioridades.


Autoridades, membros da comunidade,

representantes das entidades

judaicas e educadores estiveram

dia 1º de outubro na Escola Israelita

Brasileira Salomão Guelmann, de

Curitiba, para assistir ao lançamento

oficial e abertura da mostra do Projeto

Horaá Mut’emet — Educação

para a Diversidade. Pode-se ter uma

idéia da importância do projeto pela

quantidade de convitesque a escola

expediu: Foram 800.

Entre as autoridades presentes

estava Fani Lerner, secretária estadual

da Criança e dos Assuntos

da Família, representando o governador

Jaime Lerner. O governador,

quando menino, estudou na Escola

Israelita, na antiga sede da Rua

Lourenço Pinto. Por esse motivo,

ela ganhou uma cópia do boletim

escolar de seu marido num quadro

especialmente confeccionado. O

detalhe interessante do boletim é que

ele é todo escrito em iídiche. Além

dela, estavam presentes também o

presidente da Kehilá do Paraná, Sérgio

Fisbein; o presidente do Conselho

Deliberativo do Centro Comunitário

do Paraná, Miguel Krigsner e o

presidente da Federação israelita do

Paraná, Simão Blinder.

Além de Fani Lerner, falaram a

diretora geral da escola, Denisi de

Arruda Venci para dar as boas vindas

a todos, o diretor de Departamento

de Cultura Judaica da Kehilá,

Isac Nudelman, que fez um rápido

retrospecto de como a escola se iniciou

no projeto, as capacitadoras

Haia Yaniv e Hany Shilton, representantes

do Matach (Centro Tecnológico

de Educação em Tel Aviv), com

tradução da mora Denise Weishof e

ainda coordenadora da implantação

do projeto, a pedagoga e psicopedagoga

Simone Carlberg.

O que é o programa

O programa Horaá Mut’emet iniciou

em Israel há cerca de 25 anos

para suprir as necessidades educacionais

das diversidades dos grupos

que lá existem. Fora de Israel, e

especialmente na América Latina,

por causa da assimilação e também

das crises econômicas dos últimos

anos as escolas judaicas vem passando

por um processo de esvaziamento.

O Horaá Mut’emet veio

para se contrapor a esse esvaziamento,

com a finalidade de fortalecer

as comunidades judaicas. A coordenação

geral fica por conta do

Matach na pessoa da organizadora

Ester Chachan.

Alguns países já adotaram o programa

de educação para a diversidade.

Em Israel, na Espanha e em

Portugal o processo está mais

adiantado, mas em outros, como no

México, na Argentina e no Paraguai

ainda não está tão avançado. Em São

Paulo as escolas Iavne e Bialik já implantaram

o sistema, assim como no

Rio e em Belo Horizonte. Os resulta-

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Escola Israelita Salomão Guelmann

lança educação para a diversidade

Isac Nudelman fala durante o lançamento

do Programa Horaá Mut´emet na Escola

Israelita Salomão Guelmann

Fotos: Szyja Lorber

dos, de uma maneira geral, parecem

ser positivos em algumas escolas,

mas em outras nem tanto.

O projeto insere mudanças na

concepção pedagógica das escolas,

sempre respeitando as características

locais. Muda a forma das aulas,

sempre observando o princípio

de que nem todos alunos precisam

aprender tudo, o tempo todo e do

mesmo jeito. Cada escola interpreta

às sua maneira o Horaá Mut’emet.

O novo processo educativo utiliza

recursos tecnológicos atuais. A idéia

básica é que os alunos tenham, dentro

da escola, acesso a todas as formas

de pesquisa e que sejam estimulados

a pesquisar, a ter autonomia

moral, social e intelectual, mas

uma autonomia na qual o aluno se

sinta parte de um grupo social e que

deve exercer a cidadania com respeito

mútuo e cooperação.

Em Curitiba, o Horaá Mut’emet,

na verdade já faz parte das atividades

da Escola Israelita desde maio

de 2001. Foi um trabalho paciente.

Houve inicialmente uma aproximação,

por intermédio de informações

e palestras. Depois teve a visita da

Miriam Garf, do Rio de Janeiro, em

seguida veio Ester Chachan. A etapa

seguinte foi uma visita às escolas

do Rio e aos poucos a mudança

foi sendo introduzida na escola até

a instituição de uma coordenação

local para definir as metas com o objetivo

de implantar o projeto.

9

Aspecto da sala do Jardim, equipada com ambiente de

supermecado, dentro do progarma de educação Horaá Mut’emet

Vista do "espaço mutêmico", na Escola Israelita Salomão Guelmann,

desenhado pela arquiteta Eliane Melnick Fisbein


10

Gente Nossa

O arquiteto Júlio Pechman já tem mais de 400 projetos de

residências a apartamentos que levam sua assinatura

Júlio Pechman nasceu em Curitiba,

filho de David e Esther Paciornik

Pechman, fez seu curso

primário na Escola Israelita Salomão

Guelmann junto com o

Shime, o Conhe e o Etche entre

outros — apelidos dos primeiros

colegas que lhe vêm à memória

— no tempo do professor Bariach,

da d. Zoé, e das professoras

Cirte e Nair, ainda no antigo

prédio da Rua José Loureiro,

bem no centro da cidade, que foi

demolido para que se erguesse

em seu lugar o moderno edifício

que hoje é a sede da empresa

de telefonia GVT. O ginásio foi

completado no Colégio Novo

Ateneu e o científico no Colégio

Estadual do Paraná.

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Júlio Pechman, um arquiteto

cuja fama ultrapassa fronteiras

Foto: Szyja Lorber

A mãe, Esther, também nasceu

em Curitiba, mas o pai,

David, veio da Europa para o

Brasil, ainda antes da 2ª Guerra

Mundial. Era natural da Áustria.

O casal teve mais dois filhos,

seus irmãos. Themis e

Wolf, já falecido.

Muita gente não sabe, mas Júlio

Pechman, antes de estudar arquitetura,

área que domina com

maestria, a ponto de torná-lo um

profissional conhecido internacionalmente,

foi estudar medicina.

Porque era comum nas famílias

judaicas o estímulo aos filhos para

tornarem-se médicos. Mas ele

acabou optando mesmo foi pela

arquitetura e reconhece que foi

graças à sua tia Helena — esposa

de seu tio Moisés Paciornik, médico

famoso, também já entrevistado

pelo jornal Visão Judaica

que lhe deu um “empurrãozinho”.

Pechman prestou vestibular

para cursar Arquitetura na Universidade

de Engenharia e Arquitetura

do Paraná, que hoje faz parte

da Universidade Federal do Paraná.

Mas logo após o vestibular, fim

da década de 50 e início da de 60

viajou para Israel para fazer o Nachon

(uma escola com curso de

um ano em forma de seminário,

que inclui vivência de três meses

em um kibbutz e outros três meses

no Exército) pelo Betar, um

movimento juvenil bastante ativo

na época e que hoje é um afamado

time de futebol em Israel.

Quando retornou a Curitiba,

organizou o conjunto folclórico Kineret,

ainda no início dois anos 60,

que ficou muito conhecido na comunidade

e fora dela, participando

de diversos festivais, com Clarita

Lerner, Suzy Manber, Maly

Warschawiack, Sara Berman, Dico

Blinder z”l, Zezo, Manoel Rosen-

mann, Itamar Spach, Bernardo

Taytelbaum, Betty Froelich, Sheilla

Figlarz, Aninha e Moysés Fuchs,

e muitos outros. O Kineret

participava de todos os festivais

folclóricos no Paraná e eram inesquecíveis

as viagens de apresentação

do grupo em Porto Alegre e

em São Paulo. Mais tarde, recorda

Júlio, o Duda (David Bergman)

“profissionalizou” o Kineret.

De volta a Israel

Em 1967 Júlio Pechman estava

na Europa, visitando Praga, a

bela e inspiradora capital da atual

República Tcheca, repleta de edifícios

e palácios que são verdadeiras

referências em matéria de arquitetura,

arte e bom gosto, durante

sua participação do 1º Congresso

Internacional de Arquitetura,

quando estourou a Guerra dos

Seis Dias no Oriente Médio. Os

países árabes vizinhos, Egito, Síria,

Líbano, Jordânia e mais o Iraque

decidiram atacar Israel, que

não perdeu tempo e contra-atacou

rápida e fulminantemente. Como

muitos jovens judeus que estavam

na Europa, Pechman largou o que

estava fazendo e voou para Israel.

Podiam precisar dele — pensou —,

mas a verdade é que o país já estava

se saindo muito em sua defesa.

Foi para o Kibbtuz Bror Chail,

no Sul, muito conhecido como o

kibbutz dos brasileiros, mas que

também tem muitos sul-americanos,

especialmente argentinos, e

onde a língua que parece predominar

é mesmo o português.

Como Pechman falava hebraico

ficou por lá e acabou se tornando

chefe do grupo brasileiro que

estava fazendo o schnat (período

de um ano de trabalho em kibbutz,

complementado por aulas e viagens

turísticas por Israel), em Iot

Vatá, próximo a Eilat, junto ao Mar

Vermelho. Não demorou muito e

descobriram que ela era arquiteto

e logo foi encarregado de fazer

a exposição comemorativa aos

dez anos do Kibbutz Bror Chail.

O pessoal que lá estava foi embora

após o schnat, mas ele ainda

acabou permanecendo por

mais um ano. Depois disso mais

uma vez retornou a Curitiba e

como ele próprios diz, “as coisas

a partir daí foram fluindo”.

O profissional

De início foi trabalhar com o

Manoel e o Max Rosenmann, na

Joalheria M. Rosenmann, ficando

responsável pela decoração das

lojas. A joalheria e a Revista Vogue

tinham uma parceria e faziam

então festas que marcaram época

em Curitiba. E ele se encarregava

também da decoração. Pechman

não faz segredo que foi ele o primeiro

arquiteto curitibano a fazer

decoração, quando a grande maioria

dos arquitetos de então tinha

vergonha disso. Hoje, diz com seu

sorriso característico no canto dos

lábios, todos fazem decoração.

Também fez decoração nas lojas

Noi e Lá no Luhm.

Seus projetos abrangeram hotéis

como os finíssimos Rayon e

Bue Tree, em Curitiba, os hospitais

Angelina Caron, Paciornik e

Santa Cruz. Só em residências

conta mais ou menos 400 projetos

que levam sua assinatura — uma

verdadeira griffe — pelo Brasil, Israel,

países da Europa e nos Estados

Unidos, como apartamentos

em Nova York, em Los Angeles, e

em Miami. Por cerca de 10 anos

trabalhou também para a C&A a

mundialmente conhecida cadeia

de lojas de roupas. Iniciou aqui

mesmo em Curitiba, quando começou

a construção da loja e

acabou atendendo a rede em todas

as capitais brasileiras.

Além disso, também como arquiteto

fez projetos para escolas,

especialmente as profissionalizantes,

para o Instituto (antiga

fundação) de Desenvolvimento

Educacional do Paraná - Fundepar,

do Governo do Estado e também

para o Governo do Estado

de Goiás. Aliás, observa ele com

uma certa ponta de orgulho, gostou

muito de fazer esses projetos

pois eles atenderam as comunidades,

ajudando a desenvolvêlas

socialmente.

Outros grandes projetos seus

são os dos museus Guido Viaro e

Alfredo Andersen, muito elogiados

em Curitiba. Mais recentemente

fez o restauro da Sinagoga na Bela

Cintra, da família Safra em São

Paulo e atualmente está envolvido

com um de seus maiores desafios,

o projeto da nova sede e da

nova Sinagoga do Centro Israelita

do Paraná – CIP, que ele espera,

seja o centro de aglutinação da

nossa sociedade, e que não dependa

somente da Arquitetura mas

sim da própria comunidade.

O novo CIP

Júlio Pechman conta que seu

grande projeto é o do CIP. A idéia,

diz, partiu do Kive (Jean Pierre

Akiva Brami) e pediram-lhe que

aprontasse o projeto em duas semanas!

Devia reaproveitar a estrutura

da sede atual e ele fez. Mas o

projeto já teve que ser alterado al-


gumas vezes pelas circunstâncias

e para atender as solicitações das

diversas instituições quer compõem

a nossa comunidade. Essas

intervenções vão beneficiar o grupo

folclórico, a Wizo, as crianças

e a sala para carteado. A idéia, no

início, era fazer o projeto contando

com a cooperação de diversos

escritórios, mas o tipo e a quantidade

de solicitações foram tão personalizadas

que o projeto só poderia

ter sido feito mesmo de forma

centralizada, num único escritório

de Arquitetura, caso contrário

não teria sido possível fazê-lo.

Ainda assim, não foi fácil. Para

complicar ele tinha que segurar o

preço por causa do custo de materiais

que vão subindo. Pechman

destaca que graças à colaboração

de Miguel Krigsner, que é o presidente

do Conselho deliberativo do

Centro Comunitário do Paraná, foi

adquirido um terreno ao lado do

CIP para a construção do estacionamento

que terá três pavimentos,

o que vai ajudar em muito no novo

centro comunitário. Além dele, o

arquiteto também destaca o trabalho

de coordenação das obras feito

pelo Eduardo Schulman em conjunto

com o Kive.

O projeto contempla uma sinagoga

nova, ampla o suficiente para

abrigar cerca de 700 pessoas. O

púlpito do rabino ficará no centro

dela, como nas antigas sinagogas

e toda assistência em torno dele.

Também será construída mais uma

mikve, para a purificação pelo banho

de imersão e um amplo salão

de festas para 600 pessoas, que

poderá ter sua capacidade ampliada

para 1.000 com a colocação

prevista de toldos à sua volta,

atendendo dessa maneira a casamentos

e outras grandes festas.

Para isso, a piscina do clube teve

que ser redesenhada e sua posição

modificada. A profundidade

dela também deverá ser alterada,

explicou ele.

“O importante — destaca o ar-

Arquitetura

Patrícia Blinder Teig

Rua Pasteur, 52 - CEP 8025-0080

Fone/Fax 222-4522

Cel. 9103-1846

quiteto Pechman — é que o projeto

satisfaça as necessidades de

toda comunidade. Mas precisamos

de mais educação e ainda educar

nossas crianças para preservar

esse patrimônio, explica ele, preocupado

desde já com o respeito

das pessoas para com os espaços

e as paredes. No centro que foi

praticamente demolido, havia gente

que não dava muita atenção ao

asseio do local. A cada evento realizado,

fixavam cartazes aqui e ali,

de forma desordenada, sujando e

descascando as paredes, que logo

precisavam ser pintadas novamente.

É preciso organizar os lugares

adequados para colocar

avisos e cartazes. É preciso cuidar

para que o espaço não fique

sujo, observa.

O Centro Comunitário terá uma

sofisticação em matéria de cozinhas.

O restaurante kasher, por

exemplo, terá duas: uma de carne

e outra de leite para atender os

preceitos religiosos. Haverá ainda

uma cozinha e espaço para um

restaurante que não será kasher,

bem como outra cozinha para

atender os buffets de fora, contratados

para servir festas. Eles trarão

seus alimentos preparados,

mas precisarão de uma cozinha

para esquentar ou resfriar os pratos

a serem servidos. Além disso,

haverá ainda uma pequena cozinha

para atender os kidushim da

sinagoga e ainda outra para a lanchonete

que atenderá os associados.

O centro estará preparado

para receber deficientes físicos,

com rampas, sanitários especiais e

até elevadores semelhantes aos

que existem nas estações-tubo de

ônibus em Curitiba. Eles terão

acesso a 95% do complexo através

das facilidades inseridas no

projeto, observa Júlio Pechman.

Haverá espaço reservado para

uma biblioteca, que foi doada por

Maurício e Martha Schulman e por

Saul e Sara Schulman com os livros

de Bernardino Schulman. Aliás,

lembra Pechman, que isso deve

servir de exemplo às demais famílias

ou pessoas que queiram fazer

doações aos mobiliários das

salas. A Kehilá espera as contribuições

que serão registradas

em placas especiais. O projeto

arquitetônica ainda contempla a

parte do paisagismo que recebeu

atenção toda especial e que utilizará

o que de mais moderno

existe na área.

Assim é o arquiteto Júlio Pechman,

nosso entrevistado de “Gente

Nossa” desta edição de Visão

Judaica. Um profissional competente,

que sabe e que gosta do que

faz. Umas pessoa de bom gosto,

sensibilidade artística, apaixonado

pelo seu trabalho e com uma personalidade

muito calma que, aparentemente,

difere do arquiteto tão

requisitado que ele é.

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Foto: Szyja Lorber

B’nai B’rith apoiou indicação de Zilda

Arns ao Prêmio Nobel da Paz de 2002

Isac Baril (à direita), presidente da B'nai B'rith do Paraná faz a entrega para Zilda Arns Neuman das

cópias das cartas da BB Internacional para o Comitê de Oslo, indicando o nome da coordenadora da

Pastoral da Terra para o Prêmio Nobel da Paz. À esquerda, Marcos e Clara Guelmann

Centenas de representantes da B´nai

B´rith Internacional de 59 países reunidos

na Convenção bi-anual da entidade realizada

em São Francisco, Estados Unidos,

no final de agosto, decidiram por unanimidade

apoiar a indicação da organização humanitária

brasileira, Pastoral da Criança ao

Prêmio Nobel da Paz de 2002, na pessoa

da médica Zilda Arns Neuman. O prêmio,

entretanto, acabou sendo anunciado, na

última sexta-feira, dia 11/10, para o ex-presidente

norte-americano Jimmy Carter.

No dia 26 de setembro, o presidente da

B’nai B’rith de Curitiba, Isac Baril, na companhia

do casal Marcos e Clara Guelmann,

também da B’nai B’rith, foram até a sede

da Coordenação Nacional da Pastoral da

Criança em Curitiba para entregar a Zilda

Arns cópia das cartas assinadas pelo presidente

internacional da entidade, e pelo

vice-presidente executivo, respectivamente

Joel Kaplan e Daniel S. Mariaschin, endereçadas

ao presidente e aos membros

do Comitê de Oslo propondo a indicação

de Zilda Arns ao prêmio.

A resolução da entidade que há 159

anos batalha pelos Direitos Humanos no

mundo, foi enviada a Gunnar Berge, presidente

do Comitê de Nomeação do Prêmio

Nobel da Paz, em Oslo, ressaltando o

trabalho da Pastoral da Criança na luta

contra a pobreza, trazendo melhor qualidade

de vida e esperança às novas gera-

11

ções. Zilda Arns destacou na ocasião que

se “se quer a paz, devemos começar cedo

com as crianças”.

Edda Bergmann, presidente da Associação

Beneficente e Cultural B´nai B´rith

do Brasil, que em 1999 outorgou a “Medalha

de Direitos Humanos” à. Zilda Arns Neuman,

destacou que “como entidade judaica

apoiamos integralmente a Pastoral da

Criança, ligada à CNBB, pois a paz realmente

começa em casa e estamos plenamente

envolvidos na convivência harmoniosa

entre as religiões”.

A profa. Edda ressaltou a importância

da Pastoral, que desde 1983 atua para reduzir

a mortalidade infantil no primeiro ano

de vida e desenvolve programas sociais

para elevar os valores da família, fé, paz,

solidariedade e vida. Hoje, a Pastoral da

Criança atua nos 27 estados brasileiros e

em 14 países. Na América Latina está presente

na Argentina, Bolívia, Chile, Equador,

Paraguai, Peru, Colômbia e México. Na Ásia,

em Timor Leste e nas Filipinas. Na África,

em Angola, Guiné Bissau e Moçambique.

No Brasil, este trabalho obteve como

resultados a redução da Taxa de Mortalidade

Infantil de 52/1000 (nascidos), em

1991 para 13/1000 em 2001, e assiste

atualmente 32.743 comunidades, 1.635.000

crianças/mês, 76.842 mães gestantes e

conta com 133.000 voluntários, incluindo

deres comunitárias.


Fotos: Beit Chabad Curitiba

12

Anualmente, desde 1994, o Beit

Chabad em conjunto com a

Na’Amat Pioneiras organizam o

seminário “A maravilha de se tornar

mulher” para a turma das B’not Mitzvá

de Curitiba. Idealizado por ambas

as entidades, a partir deste ano

realizado apenas pelo Beit Chabad,

o programa visa proporcionar às

meninas uma experiência dinâmica

no seu preparo para o seu Bat Mitzvá

e para o seu vital futuro papel

de mulher e mãe judia. O seminário

consiste de duas partes, uma aula

de culinária “Casher, um sabor a

mais” e um super Shabaton.

As turmas são recebidas pelo

casal Rabino Yossef e Tila Dubrawsky

e a dedicada equipe do Chabad.

Participam primeiramente na

quinta–feira da atividade culinária

quando aprendem gostosas receitas

para a mesa de Shabat e Yom

Tov, a arte de trançar as chalot

(pães) e detalhes sobre cashrut (leis

dietéticas judaicas) na prática: como

examinar ovos e folhas, reconhecer

os peixes que são adequados, se-

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Projeto Bat Mitsvá – 9 anos de sucessoB”H

As meninas que fizeram curso do Bat Mitzvá, na hora da despedida do Shabat, Melave Malcá. À esquerda, em

pé, a rebetsin Tila Dubrawsky e Kutzi Segall

*Tila Dubrawsky é

esposa do Rabino

Yossef Dubrawsky,

responsável pela

área de ensino para

mulheres e crianças

e coordenadora da

Divisão Feminina

Chabad.

Tila Dubrawsky*

parar a massa antes de

fazer o pão e planejar

cardápios respeitando

a separação de carne

e leite. As meninas levam

amostras das

iguarias aprendidas e

a sua chalá, orgulhosamente,

para casa

junto com um livrinho

de receitas.

As meninas voltam

para o Shabaton na

sexta-feira antes do

pôr-do-sol arrumadas

para o dia santificado e

animadas para uma vivência nova

e especial. Logo com o acendimento

das velas, são “transferidas” à

“ilha mágica” do Shabat onde estarão

durante as próximas 25 horas.

Deixando as atividades e preocupações

mundanas para serem resolvidas

depois deste dia especial,

criam um espaço para a Neshama

Yeteira, a alma adicional que recebemos

a cada Shabat. Liberadas

dos afazeres cotidianos, que repre-

sentam meios para viver, podem focalizar

os seus pensamentos e atenção

ao objetivo de viver, ao estudo

da Torá, à oração e contemplar o

que D-us quer de nós.

Durante o Shabat (sexta-feira à

noite e sábado de dia) as meninas

cantam, dançam, participam de gincanas

culturais, dramatização, falam

de D-us, prioridades, luz que

afasta a escuridão, a grandeza do

papel feminino e amor ao próximo.

Participam dos serviços religiosos,

aprendem sobre as brachot (bençãos)

anteriores e posteriores, convivem

com monitoras experientes

que podem satisfazer as suas curiosidades

e responder às suas duvidas

e se deliciam com fartas refei-

As particpantes do curso de Bat Mitzvá 2002 logo após uma aula de

culinária no Beit Chabad

ções dignas do dia festivo. Dormem

também, lá por 4h da madrugada...

Com tanto para curtir, quem vai perder

tempo dormindo?

Um momento muito aguardado

durante o Shabat é a palestra da dra.

Melissa Faintych, uma médica religiosa,

convidada especial de São

Paulo. anualmente, que aborda o

tema “a maravilha de se tornar mulher”

com muita delicadeza. As meninas

se sentem à vontade para fazer

Visão indica livro

De Beirute a Jerusalém –

Thomas L. Friedman

Ed. Bertrand Brasil S.A.

as suas perguntas e comentários.

O Shabat termina com a Havdalá,

que todas podem acompanhar

em textos especialmente preparados,

com cravo para cheirar e animar

o nosso espírito ao “aterrissarmos”

novamente no mundo das preocupações

e “stress’. Como foi bom

o Shabat! Aguardaremos a sua volta

semana que vem!

As meninas têm a oportunidade

de visitar a moderna mikve na sede

de Chabad. Tomam conhecimento

deste instituto sagrado do judaísmo

e a sua ligação intima com a mulher

judia. Levam consigo uma emocionante

história gravada em seus

corações e brindes perfumados

(cortesia de O Boticário).

Após um gostoso Melave

malcá (refeição de

despedida da “Rainha

Shabat”) as meninas ganham

seus kits de lembranças

que certamente

serão úteis para colocar

em prática algumas coisas

bonitas que aprenderam

nestes últimos dias. As B’not

Mitzvá se despedem calorosamente,

agradecidas pela

vivência autêntica e alegre

de judaísmo. As sementes

foram plantadas...

Queridas meninas

B’not Mitzvá: Se nós ao

menos conseguimos ajudá-las a desenvolver

um senso de auto-estima,

um senso de justificado orgulho em

quem vocês são e em saber que

não precisem beber de poços estranhos

pois o nosso próprio está cheio

de águas doces e sustentadoras de

vida, teríamos cumpridos o nosso objetivo.

Façamos votos que terão um

brilhante futuro, iluminado por amor

a D-us, a Torá e ao próximo. Desejamos

para vocês e seus pais e familiares

Mazal Tov e muito nachat!

Thomas L. Friedman, jornalista, recorreu à

década que passou no Oriente Médio para

escrever o livro mais incisivo, vívido e

provocante publicado até agora sobre a

região.

De Beirute a Jerusalém é um trabalho

jornalístico da maior importância, uma

obra extremamente necessária para o

entendimento do Oriente Médio – ontem, hoje e amanhã – e

que também foi laureada, em 1990, com o National Book

Award, como o melhor livro de não-ficção publicado no ano.


Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Receitas com grife

Clara Blinder Guelmann nasceu em Curitiba, Paraná. Filha de Isaac

e Ester Blinder e irmã de Anna e Dico z”l. Seu pai sempre foi um grande

sionista e tradicionalista e transmitiu a ela o ydishkait e o amor a Israel.

Casou-se com Marcos Guelmann que também recebeu de seu avô paterno

o despertar pelo trabalho comunitário. É mãe de três filhos, Márcio,

Marcelo e Giselda, todos casados e que lhe deram seis netos. Atualmente

dedica-se ao estudo do envelhecimento mas sempre recorre à

culinária para baixar a ansiedade e evitar se estressar a qualquer coisa.

2 quilos de filé de

peixe (usar 3

qualidades de

peixe: sendo um

quilo e meio de

pescada branca,

robalo, linguado ou

similar e meio quilo

de tainha);

GUEFILTE FISH

Ingredientes:

4 cenouras cruas

raladas em ralo

fino;

4 cebolas cortadas

em rodelas e

refogadas;

2 cebolas cruas

cortadas em

rodelas;

Modo de fazer:

Moer duas vezes todos os ingredientes. Põe-se no fogo uma panela

com água; colocar algumas cascas de cebola, sal, pimenta e açúcar

à gosto. Quando ferver retirar as cascas. Fazer os bolinhos e jogar na

água fervendo. Deixa-se cozinhar por duas horas em fogo lento. Depois

de pronto servir quente ou frio.

GALINHA CAMPONESA

Uma galinha ensopada (deixar

com um pouco de molho).

Massa:

2 xícaras de trigo;

1 xícara de araruta;

2 colheres de sopa de fermento

Royal;

Ingredientes:

Trabalhar o mais rápido possível com a massa. Colocar a galinha

cortada em pedaços junto com o molho e colocar em um pirex grande

ou forma refratária. Estenda a massa com 1cm de espessura. Corte

em quadrados e coloque sobre o frango. Asse em forno bem quente,

cerca de 15 minutos.

TORTA DE MAÇÃ:

1 ½ xícara de farinha

de trigo;

1 ½ xícara de açúcar;

3 colheres (chá) de

fermento em pó;

3 ovos batidos

(inteiros);

Modo de fazer:

Ingredientes:

8 ovos;

sal e pimenta à

gosto;

2 colheres de sopa

(rasa) de farinha de

matzá;

Se gostar de peixe

adocicado, colocar

açúcar à gosto.

1 colher de chá de sal;

6 colheres de sopa de manteiga;

3/4 de xícara de leite;

2 colheres de sopa de salsa picadinha;

1/2 xícara de cenoura crua ralada.

100 gramas de

manteiga derretida;

3 maçãs (nacionais)

descascadas e

fatiadas;

açúcar e canela;

nozes picadas e

passas à vontade.

Modo de fazer:

Misture a farinha de trigo, o açúcar e o fermento e reserve. Bata os

ovos. Derreta a manteiga. Descasque as maçãs na água com limão.

Unte uma forma ou refratário. Distribua a maçã fatiada e polvilhe o

açúcar com a canela. Espalhe a mistura da farinha com o açúcar e o

fermento. Em cima distribua a manteiga derretida e depois os ovos

batidos, tente espalhar por toda a superfície. Polvilhe um pouco de

açúcar com canela e leve ao forno para assar por aproximadamente

25 minutos.

Em 1932, há eleições na Alemanha. O

perdedor é Adolf Hitler, um pintor de paredes

nascido na Áustria, cujo partido pregava

o racismo e a “solução de todos os

problemas da Alemanha”. Curiosamente,

ele é preso justamente por esta linha de

pensamento. Na prisão, escreve o livro

Mein Kampf (Minha Luta), no qual detalha

todos os procedimentos para erradicar o

“problema” judaico e a justificativa para tal

solução: os judeus eram culpados pelo desemprego

da época, o qual gerava fome,

angústias e sofrimento. A pergunta que fazemos

é: como alguém poderia acreditar

em tamanho absurdo? Basta lembrarmos

que após a Primeira Guerra Mundial (1914-

1918), a depressão financeira e social tomou

conta dos países envolvidos, entre

eles a Alemanha.

Em 1933, Hitler é solto da prisão e seu

partido faz um levante, expulsando o partido

anteriormente vencedor. Ele sobe ao

poder e publica o livro, o qual é vendido

por todo o país. Aí se inicia a ascensão

do nazismo (Nazi – Partido Nacional Socialista

Alemão).

De 1933 a 1936, o povo alemão passa

por uma lavagem cerebral, com a criação

da juventude nazista. Ele ouve inflamados

discursos a favor da riqueza, empregos,

comida, artes e divertimento – tudo isso

podendo acontecer “se e quando o judeus

fossem aniquilados”.

A partir de 1936, surgem leis contra

negros, judeus, homossexuais e ciganos.

Cada mês, novas folhas com leis são coladas

nos postes, portas e paredes. As universidades

não mais podem ter professores

judeus (e um grande número o era);

alunos judeus em faculdades só em quantidades

reduzidas (numerus clausus) inicialmente

para, depois, serem proibidos de

freqüentar qualquer escola; os alemães

estão proibidos de comprar em lojas de

propriedade judaica (muitos eram comerciantes)

ao mesmo tempo que os judeus

são proibidos de entrar nas lojas alemãs,

bem como restaurantes, cinemas, teatros,

museus e exposições. Como se não bastasse,

é promulgada a lei que obriga o

uso da estrela amarela costurada nas roupas

ou em tarjas nos braços, diferenciando-os

dos outros. Há a permissão para

que qualquer alemão cuspa e chute alguém

que porte tal insígnia. Os judeus

são proibidos de andar nas calçadas, ou

seja, só podem andar nas ruas “como

cachorros”. Em resumo: os judeus ficam,

a cada dia que passa, mais constrangidos,

humilhados e indefesos; e os alemães,

mais fortes e vingativos.

Desde 1934, judeus alertas emigram,

deixando para trás seus bens, amigos e

pátria. Outros, incrédulos, esperam a derrota

do nazismo. Outros, ainda, não têm

Kristallnacht – A

Noite dos Cristais

13

dinheiro para comprar a passagem, tirar

passaporte e visto; e vão ficando. Muitos

alemães, na maioria intelectuais, não vêem

com bons olhos o que ocorre na Alemanha

e também a abandonam, apoiando os judeus

e minorias perseguidas.

Em junho de 1938, o Papa Pio XI encomenda

a três jesuítas – um americano, um

francês e um alemão – o projeto de uma

encíclica destinada a denunciar o racismo

e anti-semitismo. Entregue em Roma, no

final de setembro, o documento nem chega

a ser publicado ou utilizado. Por quê? Como

seria diferente o desfecho...

Entretanto, um fato foi decisivo para pintar

de negro nossa passagem por aquele

território. Em 8 de novembro do mesmo ano,

Von Rath, um nazista político e funcionário

da Embaixada Alemã em Paris, é morto por

um jovem judeu desesperado ao ver os pais

poloneses que moravam na Alemanha serem

deportados para a fronteira e estarem

morrendo à míngua, como expulsos da Alemanha

e não aceitos pela Polônia, destino

este compartilhado por centenas de outras

famílias judias.

Na noite de 9 de novembro, há exatos

64 anos, Hitler manda a SS destruir e saquear

as lojas dos judeus por todo o território

alemão e incendiar as 1500 sinagogas

do país. Rolos da Torá e cortinas

são arrancados da Arca Santa, jogados

na rua e queimados. Sidurim e outros livros

sagrados, idem. Inúmeros judeus

são assassinados. Este vandalismo estende-se

por mais dois dias.

Não há a quem recorrer. Toda a polícia

é nazista. A insegurança judaica era total.

Ver suas sinagogas incendiadas, lojas depredadas

e não ter o que fazer: era o início

do fim do judaísmo europeu.

Como os estabelecimentos comerciais

estão sob o controle de comissários alemães

e as contas congeladas nos bancos estatais,

as companhias de seguro são obrigadas a

pagar os estragos. Indiretamente, os próprios

alemães arcam com os danos. Para compensar

os prejuízos, Göering condena a coletividade

judaica a pagar uma multa de 1

bilhão de marcos. Por causa das janelas e

vitrines quebradas, este pogrom foi denominado

Kristallnacht – a Noite dos Cristais.

Por que este dia foi tão importante para

o nazismo? Os nazistas testaram sua força.

Diante da omissão do resto do mundo,

Hitler percebeu que poderia ir mais além em

seus horrendos planos.

Kristallnacht simboliza o início do Holocausto.

Lembrar este dia é, antes de

mais nada, celebrar nossa vida. Pois “Am

Israel Chai”, o povo, apesar de tudo, ainda

está de pé!

Que a memória daqueles mártires seja

uma eterna benção para nós, Amén.

* Sami Goldstein é professor e líder espritual da Sinagoga “Francisco Frischmann”

Sami Goldstein *


14 O Leitor Escreve

Cartas para a Redação fone/fax: 3018-8018

e-mail: visaojudaica@visaojudaica.com.br

Cumprimentos

Senhores editores:

Eu acabo de receber o número 7 de

Visão Judaica e gostaria de cumprimentar

a redação e os colaboradores pela excelência

do seu conteúdo. Saudações e

um atrasado Shanah Tovah.

Hans Borger

Temas muito bons

Prezados redatores:

É bom receber todos os meses, em

casa, meu exemplar do Visão Judaica, um

jornal que tenho apreciado bastante porque

os temas abordados em suas páginas

são muito bons, despertando interesse

nas questões ligadas ao judaísmo. Parabéns

a todos vocês e continuem com

essa formidável publicação.

Herbert Viezzer, São Paulo

Contra o preconceito

Aos diretores:

A leitura de Visão Judaica, especialmente

no que se refere à política e as eleições,

nos faz meditar sobre a tolerância

de nossa sociedade democrática com

certos partidos políticos como é o caso

do PSTU. Democracia também é sinônimo

de responsabilidade e não deveríamos

dar espaço para agremiações que

pregam o preconceito e, embora se apresentem

como sendo de esquerda, agem

como os movimentos radicais de direita

da Europa em suas manifestações nazifacisctóides.

Alessandra Gomes da Fonseca, Curitiba

Ignorância

É realmente revoltante ver como determinados

candidatos se comportaram

durante a campanha eleitoral em relação

aos judeus. Mas o pior de tudo, foi o PSTU

que chegou às raias do absurdo, para

negar a existência do povo judeu, acaba

de iniciar seu 5763º ano. É só ignorância

ou será também anti-semitismo? Devemos

ficar atentos contra esses indivíduos

que se disfarçam de preocupados com as

questões sociais do país para destilar o

veneno do ódio e do preconceito neste

belo País multirracial. Foi assim na Alemanha

de 1936.

Noah Rosenberg, Rio de Janeiro

Sejamos honestos

Prezados senhores:

Pessoalmente sou um homem de esquerda,

votante do Meretz e antigo líder

do Hashomer Hatzair. Nos anos anterio-

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

res ao acordo de Oslo eu também apoiei

o Shalom Achshav (Paz Agora) daqueles

tempos.

Sobre o assunto dos assentamentos

é falso afirmar que 56% de israelenses

concordam com a idéia do Shalom

Achshav, de evacuação forçada de todos

os assentamentos e a volta para a fronteira

de 1967. Isto não quer dizer que esta

maioria não queira paz.

O Paz Agora está fazendo o jogo da

propaganda árabe em querer a retirada de

todos os assentamentos. Na tese árabe,

os bairros de Jerusalém, tais como Gilo,

ou Ramat Eshkol, no caminho do Monte

Scopus, são também assentamentos.

Reconhecer a fronteira de 1967 significaria

que os sírios voltariam para as

margens do lago Kinneret e Israel teria

uma largura de 14 quilômetro na faixa

costeira de Netanya até Hedera. O plano

Bush-Clinton, que agora é aceito de boca

para fora por Arafat (depois de milhares

de mortes inúteis!) prevê uma retirada

para fronteiras “seguras e reconhecidas”

como estipulam as resoluções 242 e 336

da ONU (elas não falaram da linha de

1967!). Israel pretendia devolver “somente”

97% dos territórios ocupados, para

ampliar a faixa costeira e manter as cidades

satélites de Jerusalém, compensando

os palestinos por estes 3%, com

terras vizinhas à faixa de Gaza que é super

povoada. Esta era uma posição a ser

rejeitada pelos palestinos?

É irreal acusar somente os governos

de Israel pelos assentamentos. Nenhum

regime democrático podia manter territórios

vazios por 35 anos, quando uma boa

parte da população e dos partidos

políticos quiseram a expansão. Isto não

significa que justifico em principio a expansão.

Mas me mostrem por favor o país que

teria sido capaz de proibir tal expansão

“fisiológica”, sem usar métodos ditatoriais

e a mão armada. Acusar somente Israel

pelos assentamentos e não mencionar os

árabes e os palestinos é um desserviço. A

declaração pan-árabe de Khartum

em 1967 estipulava: “não às tratativas, não

à paz, não ao reconhecimento de Israel”.

Os famosos três não de Khartum.

Francis Dov Por, Jerusalém

Mais cumprimentos

O jornal Visão Judaica recebeu cumprimentos,

via telefone, de dois leitores da

comunidade israelita de Curitiba: Thelma

Mazer e Marcos Axelrud. Thelma disse que

Visão é um jornal diferente de todos os

outros e que prima pelo seu conteúdo”. Por

sua vez, Axelrud destacou os artigos sobre

política internacional que diferem de

tudo e que leva a debates. Ele declarou

que considera o jornal “muito bom”.

Se você não recebeu seu exemplar de Visão Judaica,

entre em contato conosco pelo telefone 3018-8018 ou

então pelo e-mail visaojudaica@visaojudaica.com.br

Nosso destino: o

caminho “longo e

curto” da vida

O Rebe Bunim de Peshischa dizia

que cada pessoa devia ter dois bolsos;

um para conter “Eu sou apenas pó e

cinzas” (Gênesis 18:27) e outro para

conter “O mundo foi criado por minha

causa” (Sanhedrin 37 a). Às vezes devemos

por a mão dentro de um bolso

e outras vezes dentro do outro. O segredo

de viver corretamente é saber o

momento certo para cada bolso.

A humildade é a mais bela de todas

as virtudes e a fonte de todas as

características admiráveis. Entretanto,

se uma pessoa se considerar totalmente

insignificante, poderá não se importar

quanto às suas ações. Ela pode

pensar, “o que importa o que eu faço?

Que diferença faz, enquanto não machuco

ninguém.” Tais sentimentos poderão

até levar a uma conduta imoral.

Quando uma pessoa não percebe

a importância de seus atos, ela, ou

permite que seus impulsos a dominem

ou sucumbe à inércia. Nesta hora

deve colocar a mão no bolso da magnificência

pessoal e ler: Eu fui especialmente

criado por D-us. O Criador

tem uma missão que somente eu posso

realizar e assim sendo, o universo

inteiro foi criado para permitir que eu

realize esta tarefa Divina. Saber que

fomos delegados por D-us deve nos

encher de um profundo senso de responsabilidade

e orgulho para levar a

cabo o nosso objetivo da melhor maneira

possível.

“Hithaleich lefanai veheyei tamim”

“Ande diante de Mim e seja perfeito”,

foram as palavras de D-us ao primeiro

patriarca Avram (Gênesis 17:1). É

óbvio que nenhum ser humano pode

aspirar a se igualar ao grau da perfeição

Divina. O que está no alcance do

homem é viver de acordo com os ensinamentos

de D-us e assim corresponder

ao seu potencial humano. D-us

não disse apenas “Seja perfeito”; Ele

disse, ande diante de Mim- e assim

será perfeito. O comentarista Rabino

Shimshin Rafael Hirsch explica que o

uso da palavra hithaleich em vez de

teilech implica “Vá no seu caminho

apesar de encontrar oposição, não

deixe que o seu progresso dependa de

circunstâncias externas mas seja levado

por sua livre e espontânea decisão,

que vem de dentro de você. Aprendemos

então, que, quando alguém usa o

seu livre arbítrio para escolher obedecer

à Divina vontade e tentar viver com

acordo as orientações de D-us, isto se

constitui em perfeição humana.

O percurso que D-us traçou para

nós, através do cumprimento dos seus

mandamentos, pode parecer longo e

complicado, mas quando nós nele

B"H

Rabino Yossef Dubrawsky *

embarcamos descobrimos quão agradável

e benéfico é.

O Talmud (Eruvin 53b) relata que

uma vez Rabi Yehoshua pediu a direção

de uma cidade a uma criança.

“Este caminho é curto e longo. O outro

é longo e curto,” indicou o sábio

jovem. Rabi Yehoshua primeiramente

tomou o caminho curto. Apesar de

logo se encontrar nos arredores da cidade,

pomares cercados bloquearam

a entrada e ele foi obrigado a voltar e

pegar o caminho mais longo que finalmente

o trouxe ao seu destino.

Na nossa pressa muitas vezes procuramos

caminhos mais curtos. Quem

já não dirigiu em uma área desconhecida,

encontrando no mapa o que parecia

ser um atalho e o seguiu, apenas

a descobrir que pegou uma via

bem lenta, e se tivesse escolhido a estrada

principal teria talvez percorrido

alguns quilômetros a mais, mas chegado

ao destino muito mais rápido?

As vezes um atalho pode ser a maneira

mais ligeira de chegar onde você

não queria chegar.

Este princípio é ainda mais relevante

na jornada da vida. Temos que

seguir o caminho “longo e curto”. Seguindo

as orientações do nosso Criador,

apesar de nos parecerem às vezes

difíceis ou pesadas, andaremos

com segurança e confiança e a garantia

de chegar mais rápido ao nosso

destino - uma vida de verdadeira felicidade

física e espiritual.

*Yossef Dubrawsky é rabino do Beit

Chabad de Curitiba


O projeto Ovo realiza atividades

domingos à tarde na Vila

Pantanal, zona de invasão situada

no bairro do Boqueirão. São

atividades educativas com um

pano de fundo lúdico. O projeto

está completando quase dois

anos de existência. Desde sua

fundação, no inicio do ano passado,

cerca de quarenta crianças

e jovens da Vila Pantanal

participam das atividades realizadas

todos os domingos. Vocês

ainda não devem entender direito

o que é esse projeto, por isso

tentarei aqui, brevemente, explicar

o que é o Ovo (Organização

Vida e Oportunidade).

O Ovo nasceu do Dror, e

como seu filhote segue a mesma

estrutura desse Movimento

que completa 57 anos no Brasil.

E é nessa palavra que está a

essência do Dror, e conseqüentemente

do Ovo: Movimento.

Movimento em hebraico é Tnuá.

Aquilo que não pára, que sempre

está se renovando. O Dror

funciona há tanto tempo dessa

maneira – os mais velhos saem,

e entram os mais novos. Para

cada boguer¹ que sai sempre há

um tzofe, que entra em seu lugar.

E pode ter certeza, essas crianças

que vão hoje ao Dror apenas

para brincar, serão os líderes da

Tnuá do amanhã. Em Pêssach,

comemos a beitzá, o ovo. Uma

das explicações religiosas para

esse símbolo é que o formato arredondado

dele representa um

ciclo, algo que não acaba.

O projeto Ovo pretende ser

essa beitzá da keará (prato) de

Pêssach, pois pretende ser cíclico,

como a própria vida. Nascer,

crescer e morrer. Essa é a

ordem das coisas. Mas a morte

não simboliza o fim, pois vai ter

sempre alguém nascendo, renovando,

dando continuidade. Portanto,

essa é a idéia central do

Projeto Ovo: auto-sustentabilidade.

Que fique bem claro, não

queremos seguir realizando atividades

na Vila Pantanal o resto

de nossas vidas. Nossa idéia é

sair de lá. Mas não sair de mãos

vazias, e jogar o Ovo no chão

para que ele se quebre. Devemos

jogar lentamente o Ovo no

chão para que ele deslize e role

suavemente, sem parar. Hoje,

cerca de 40 crianças têm atividades

conosco. Elas correm e

pulam sem parar, é uma bagunça.

No entanto, elas um dia crescerão,

se tornarão jovens, e serão

os líderes do Ovo. Então haverá

chegada a hora de sair, deixando

as coisas fluírem naturalmente.

Eles caminharão com as

próprias pernas.

Aí está nosso objetivo. Ele

está distante. É um objetivo a

longo prazo. As crianças mais

velhas com as quais trabalhamos

têm 13 anos. Calculem o

tempo para elas se tornarem líderes.

É um trabalho lento, difícil.

Mas isso apenas nos anima

a continuar, a não desistir.

O Ovo, como tentativa de implantar

a estrutura do Dror dentro

de uma outra realidade, vem

tentando criar símbolos necessários

para a identificação de um

movimento. Há poucos domingos

atrás foi feita uma atividade

com as crianças na qual foi criada

a bandeira do Ovo. Ela não é

vermelha, pois escolheram azul

como cor. No centro não tem

uma estrela, pois o desenho

mais votado era o de um ovo estrelado.

Nosso mifkad, a gente

chama de quadrado. A peulá

(aula), as crianças chamam de

rodinha, e que por falta de espaço

físico são feitas no terreno

baldio ou em baixo do toldo do

mercado. Aos poucos, vão sendo

criados símbolos, e uma identidade

vai sendo construída.

Mas o que pretendemos ao

implantar esse movimento? Aonde

queremos chegar com tudo

isso? Bom, existem dois pontos

a serem pensados em relação a

isso. O primeiro diz respeito ao

benefício que as crianças de Vila

podem ter ao participar do projeto.

A infância e a adolescência

em locais de baixa renda são

um período complicado. Os pais

trabalham o dia todo e deixam

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Projeto Ovo — Educando

e sendo educados

A tentativa de implantar a estrutura do Dror na periferia de Curitiba

Ariel Feldman*

seus filhos sozinhos, soltos. Então

se abrem as fronteiras do

“mundo cão”, convidando as

crianças a entrar no crime, convidando

as crianças a cheirar

cola ou até mesmo traficar drogas.

O limite entre uma infância

sadia e uma infância violenta é

tênue, frágil. No entanto, ao dar

um lugar para a criança, ao inseri-la

em um contexto, tentamos

afastá-la da dura realidade desse

inferno periférico. Oferecemos

ao jovem da Vila Pantanal a oportunidade

de ser um líder comunitário

e ajudar a desenvolver o local

em que mora.

O outro lado da moeda é a

educação que estamos dando a

nós mesmos, pois estamos nos

deparando com uma realidade

completamente diferente da nossa.

Que valor tem realizar uma

peulá que fale sobre desigualdade

social se continuamos fechados

em nossos apartamentos

sob a guarda 24 horas de um

porteiro? Discursos que pregam

igualdade social não faltam. Falar

é muito fácil. Mas a verdadeira

educação deve ser a união

entre a teoria e a prática, a fusão

entre o discurso e a ação.

Mais do que nunca estamos educando

nossos chanichim. Esse

projeto tem o valor de centenas

de peulot. São quase 40 quilômetros

que separam uma margem

da sociedade à outra. Ou

melhor, que separam o centro da

margem. O que pretendemos ao

viajar essa longa distância todo

o domingo é romper com as barreiras

desse apartheid social. Só

o fato de um jovem da coletividade

pisar numa favela da periferia

já é muito significativo. Como disse

John Lennon: “vivendo em um

mundo sem fronteiras”.

Projeto Ovo conta com a ajuda

de chaverim (colegas) do

Dror, ex-chaverim, jovens da comunidade

e recentemente abriu

suas portas às pessoas de fora da

coletividade judaica. Jovens que

gostem de trabalhar com crianças

e adolescentes e tenham disponibilidade

são bem-vindos.

Boguer¹, bogrim – Educador jovem que já estagiou em Israel e atua na educação informal do Dror (Movimento Juvenil). Bogrim, é plural de boguer.

* Ariel Feldman é um dos bogrim do Dror e membro da Equipe Ovo. Proferiu este discurso

jantar de aniversário do Dror dia 5/10 no restaurante Madalosso, em Santa Felicidade.

15

PSTU: o pequeno dono

da verdade absoluta

Edda Bergmann*

Existe entre todos os partidos brasileiros, um pequeno

partido que postula as eleições de forma a

não se saber exatamente ao que se referem, se às

eleições no Brasil ou no Oriente Médio.

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados

(comunista-marxista), resolveu distribuir no Brasil

um livreto de 48 páginas a respeito daquilo que

não conhece, não sabe onde começa, nem para

onde se dirige e é realmente muito importante para

a solução dos problemas brasileiros, especialmente

no caso do tráfico, das favelas e dos menos favorecidos

pelo destino e de seus familiares.

Tal livreto, “Palestina história de uma heróica resistência”,

que ninguém sabe contra quem, pois de acordo

com o livro o judaísmo é um mito que nunca existiu.

Distribuído no meio político, o livreto foi provavelmente

executado com verba e gráfica do partido e

editado por Joseph Weil, dirigente do PSTU que se

diz judeu e tendo pertencido ao movimento sionista.

O PSTU tem uma posição tão radicalizada de

fazer inveja aos chefes nazistas mais refinados da

história européia. Segundo ele, a religião judaica é

apenas um mito, portanto, não se pode exigir terra

por causa de uma lenda.

Se o judaísmo é uma lenda, que dizer do catolicismo

criado por um judeu, Jesus, apegado a uma

lenda que não tem pé nem cabeça de acordo com o

PSTU e que é nada mais nada menos do que formadora

das raízes do maior país católico do mundo,

o Brasil. Justamente daquele país que o tal Joseph

Weil quer dirigir.

Se o judaísmo é uma lenda por que o amiguinho

usa um tal Abraham Leon que teria morrido em campo

de concentração? Os campos de concentração

foram contra uma lenda, contra um mito. Adolf Hitler

foi tão ridículo assim a ponto de ter destruído

em câmaras de gás um mito que não existia?

De acordo com o PSTU em seu livreto, e conforme

Karl Marx, qualquer um pode ser “judeu” pois

“judeu” se caracteriza por uma relação econômica

comercial de usura, especulação e empréstimos,

coisas que evidentemente o PSTU passou ao largo,

pois favorecia o seu partido com dinheiro limpo

que ninguém sabe de onde vem.

Defende o uso de terroristas suicidas, conclama

toda a esquerda a lutar pelos palestinos aqui no

Brasil evidentemente, pois estamos num ano eleitoral

e isto é a coisa mais importante.

Até poucos dias atrás o texto completo estava

na Internet, disponível no site do PSTU. Mas na proximidade

das eleições foi retirado, pois ninguém

sabe quem atingiria.

Levanta fantasia! Levanta ilusão!

E o partido ainda se diz brasileiro. Brasileiro de

que? Da propaganda em ritmo judaizante da inquisição

ou de que trabalhadores o partido fala? Será

que em nome do presidente deste mesmo partido

que já declarou alto e em bom som:

Quem é? A que veio? Para onde vai?

Tudo disponível num site da Internet claro,

cristalino e visível aos olhos dos eleitores.

Quem sou eu?

* Edda Bergmann é presidente da B’nai B’rith do Brasil


16

* Khaled Abu

Toameh é

jornalista árabe e

publicou este

artigo no

Jerusalem Post,

onde escreve, em

19 de setembro

de 2002, por

ocasião do 2º

ano da Intifada.

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Como começou a guerra

* Khaled Abu Toameh

Uma cronologia de passos palestinos

que levaram à irrupção da violência

há dois anos, mostra que ela

foi planejada de antemão e desencadeada

pela questão de Jerusalém.

Uns poucos dias após o fracasso

da reunião de cúpula de Camp

David, em julho de 2000, a revista

mensal da Autoridade Palestina, Al-

Shuhada (Os mártires), publicou a

seguinte carta de 25 de julho: “Da

delegação de negociação (em Camp

David), liderada pelo comandante e

símbolo, Abu Ammar (Yasser Arafat),

ao bravo povo palestino: estejam

preparados, a batalha por Jerusalém

começou.”

A carta apareceu em seqüência

aos relatórios emanados de Camp

David, sugerindo que a reunião de

cúpula havia fracassado por causa

da intransigência de Arafat. De acordo

com as fontes da AP, a carta foi

escrita por um conselheiro de alto

escalão de Arafat e aprovada de antemão

pelo presidente da AP.

A carta foi publicada em uma revista

distribuída apenas ao pessoal

de segurança da AP. Não apareceu

em nenhum dos jornais diários de

Jerusalém ou de Ramallah. A mensagem

que Arafat estava enviando

aos seus homens armados era clara:

“Estejam preparados para um

confronto resoluto com Israel, porque

me recuso a aceitar as injunções

israelenses e americanas.”

Um mês mais tarde, bem depois

de Arafat ter retornado a Gaza, o

(antigo) comissário de polícia da AP,

General Ghazi Jabali, disse ao jornal

oficial palestino Al-Hayat al-Jadida,

em 14 de agosto: “A polícia

palestina liderará junto com os nobres

filhos do povo palestino, quando

a hora do confronto chegar.”

Freih Abu Middem, ministro da

justiça da AP, disse que podia prever

o que iria acontecer. Em uma

entrevista ao mesmo jornal, publicada

em 24 de agosto de 2000, prevenia:

“A violência está próxima e o

povo palestino esta desejoso de sacrificar

até cinco mil pessoas.” A declaração

veio após uma série de

encontros que Arafat manteve com

seus ministros de gabinete.

Uma outra publicação oficial da

AP, Al-Sabah (A Manhã), em 3 de

agosto de 2000, repetia o tom de

escalada quando declarou uns dias

mais tarde: “Avançaremos e declararemos

uma Intifada geral por Jerusalém.

A hora da Intifada chegou,

chegou a hora do jihad.”

A escalada retórica começou ainda

antes que Arafat e seu séqüito

deixassem Camp David. Uma personalidade

da AP, que estava com Arafat,

disse que o presidente da AP

estava furioso com Israel e com os

Estados Unidos porque o haviam

acusado de ser responsável pela

reunião de cúpula arremedada. Ele

sentiu que tanto o primeiro-ministro

Ehud Barak como o presidente Bill

Clinton estavam agora procurando

isolá-lo declarando que o povo palestino

merecia uma liderança melhor.

Com seu retorno de Camp David,

Arafat gozou de uma recepção de

herói por parte de seu povo, porque

ele estava sendo retratado como o

der árabe e muçulmano que recusou

aceitar um acordo sobre seus

direitos histórico, nacional e religioso.

Pesquisas de opinião pública

mostraram um crescimento dramático

de sua popularidade e até os

seus rivais seculares e religiosos

estavam agora elogiando-o por não

fazer acordo. Arafat disse aos que

vieram saudá-lo em Ramallah que

ele se recusou a tornar-se o (presidente

egípcio Anuar) “Sadat n° 2”,

que foi denunciado por muitos árabes

por assinar um tratado de paz

em separado com Israel.

“Bem-vindo, Arafat, o herói de

guerra e herói de paz”, dizia uma

faixa nas ruas de Gaza quando a

caravana de Arafat seguiu do aeroporto

local ao seu gabinete. Em outra

faixa lia-se: “Jerusalém está em

nossos olhos, amanhã ela estará em

nossas mãos.”

Neste mesmo dia, mais cedo,

centenas de palestinos marcharam

na cidade exigindo um retorno à Intifada

contra Israel. Animados pelo

fracasso de Camp David, o Hamas

e o Jihad Islâmico emitiram declarações

instando Arafat a abandonar as

conversações de paz com Israel e a

voltar à luta armada.

Os dois grupos islâmicos radicais

viam o colapso de Camp David como

mais uma evidência de que Israel

não era sério no que tange a atingir

uma paz justa e abrangente com os

palestinos. Seus porta-vozes também

disseram a Arafat que se a reunião

de cúpula provou algo, foi que

os Estados Unidos continuavam totalmente

tendenciosos pendendo

para Israel.

Após o fracasso de Camp David,

Arafat visitou quase todos os países

árabes, exceto a Síria e o Iraque,

pedindo aos seus líderes apoio à sua

posição. Ele também visitou alguns

países europeus em um esforço para

explicar a sua posição.

“Jerusalém e seus locais sagrados,

especialmente, a mesquita al-

Aksa, pertencem a um bilhão de

muçulmanos e eu não tenho o direito

de desistir deles para ninguém”,

teria ele dito aos reis e presidentes

árabes.

Os líderes árabes asseguraram

a Arafat que eles o apoiavam, mas

a sua viagem a outras capitais do

mundo, após Camp David, ilustraram

o fato de que, pela primeira

vez em vários anos, as simpatias

internacionais favoreciam agora

Israel. Para Arafat, isto assinalou

o início de seu isolamento na arena

internacional.

Por aproximadamente três décadas,

o líder da OLP acostumou-se a

ser alvo de recepção nobre por parte

de reis e chefes de estado pelo mundo.

Também acostumou-se a ouvir

palavras simpáticas a ele e à causa

que ele representa. Agora, as coisas

estavam começando a parecer diferentes

para Arafat no ocidente.

O secretário assistente de estado

americano, Edward Walker, foi despachado

numa viagem regional de 14

escalas na tentativa de último momento

de persuadir seus aliados árabes e

retirar o seu apoio à posição de Arafat,

mas então já era muito tarde.

À medida que a pressão sobre

ele aumentava, Arafat tornou-se ainda

mais provocador quando declarou

que seguiria com planos para

anunciar a criação do Estado da

Palestina em 13 de setembro de

2000. Em uma entrevista a um jornal

saudita de primeiro de agosto,

Arafat disse: “Não há recuo quanto

à data fixada de declaração do estado.

Ele será declarado na data

marcada, em 13 de setembro, independentemente

daqueles que concordam

ou não.”

Quase todos os países árabes

deram a Arafat a sua anuência para

a idéia do estado. O presidente da

AP recebeu também um compromisso

de reconhecimento diplomático

do Presidente Thabo Mbeki da África

do Sul, cujo país tinha então um

grande impacto sobre as decisões

de muitos outros países do Terceiro

Mundo. Arafat estava tão confiante de

que obteria apoio amplo que ordenou

ao Ministério de Planejamento e Cooperação

Internacional da AP que

começasse a treinar palestinos para

cargos diplomáticos no exterior.

Mas, em 10 de setembro, Arafat

e o comitê central da OLP foram forçados

a adiar, mais uma vez, a planejada

declaração do Estado. A decisão

somente ampliou o senso de

amargura dentre as maiores personalidades

da AP que acusaram os

Estados Unidos de apoiar cegamente

Israel e de enganar o resto do

mundo a respeito das razões do fracasso

da reunião de Camp David.

Em conjunção com a ofensiva

política, que começou quase imediatamente

após Camp David, a AP

esteve também se preparando para

um possível confronto militar com

Israel. As autoridades de segurança

da AP entrevistadas na mídia local

falaram abertamente sobre um confronto

armado ameaçador. Alguns

até advertiram que as áreas da AP

se transformariam em um “cemitério”

para o Exército de Defesa de Israel

se Israel decidisse reocupar a

Margem Ocidental e a Faixa de Gaza.

Suas declarações vieram em resposta

a observações feitas pelo antigo

chefe do Estado Maior israelense,

Shaul Mofaz, que advertiu que Israel

usaria tanques e jatos se os

palestinos lançassem uma ofensiva

armada.

De acordo com relatórios de

Gaza em meados de agosto, algumas

das forças paramilitares da AP

estavam efetuando exercícios de

treinamento em nível de batalha.

Além disto, muitas altas personalidades

de segurança da AP estavam

sendo enviadas a fazer cursos de

treinamento militar em países como

o Egito, Iêmen, Argélia e Paquistão.

Por estas razões, os palestinos começaram

a sentir a tensão quando

membros da Força 17, a guarda presidencial

de elite, foram vistos cavando

trincheiras e reforçando intensamente

as suas posições com sacos

de areia. Em poucos dias, a

maior parte dos postos e bases policiais

pareciam fortalezas militares.

Enquanto se realizava a reunião

de cúpula de Camp David, a organização

Fatah de Arafat, a maior facção

da OLP, começou a treinar adolescentes

palestinos para a violência

crescente em quarenta campos

de treinamento na Margem Ocidental

e na Faixa de Gaza.

Algumas figuras de destaque da

AP e comentaristas de jornais também

começaram a exigir a adoção

da estratégia do Hezbollah, que,

acreditavam eles, levou à retirada do

exército israelense do sul do Líbano

alguns meses antes. Líderes do Hezbollah,

incluindo o secretário geral

Hassan Nasrallah, apareceram em

redes árabes de televisão por satélite

para zombar de Arafat e de seus

negociadores, argumentando que a

Palestina podia ser libertada somente

pelo uso da força e não em reuniões

de cúpula como a realizada em

Camp David.

Nesta altura, a atmosfera pública

palestina era de “véspera de guerra”.

Ministros e representantes da AP

intensificaram a crítica a Israel e aos

Estados Unidos como parte dos esforços

da AP de refutar acusações de

que ela era responsável pelo colapso

das negociações de Camp David

e de que os palestinos tinham perdido

mais uma oportunidade histórica.

Os imãs das mesquitas na Margem

Ocidental e da Faixa de Gaza,

nomeados pela AP, começaram a

referir-se a Israel como o “inimigo

sionista” e instavam todos os muçulmanos

a mobilizar-se para a guerra

contra os “infiéis”. Nas palavras de

um pregador de Gaza, “Todas as armas

devem ser dirigidas aos judeus,

aos inimigos de Alá, a nação amaldiçoada

no Corão, a quem o Corão

descreve como macacos e porcos,

adoradores do bezerro e de ídolos”.

Outros imãs falaram da necessidade

e dever de libertar a Palestina

dos agressores sionistas. Desta vez,

a fala não foi apenas sobre libertar

a Margem Ocidental e a Faixa de


Gaza. Agora, a exigência era por Jerusalém,

Jafa, Haifa e Ashkelon.

Israel também estava sendo acusado

de distribuir drogas a jovens palestinos

a fim de corrompê-los e causar

a desintegração da sociedade palestina.

Além das drogas insinuou-se

que os israelenses estavam por trás

da distribuição de uma goma de mascar

que desperta o apetite sexual, encontrada

em lojas palestinas. O propósito

alegado: transformar as mulheres

palestinas em prostitutas.

À medida que as tensões se intensificaram,

autoridades palestinas acusaram

desta vez Israel de disseminar

“cintos radioativos” que causam câncer.

Em 3 de agosto, uma pesquisa realizada

pelo organismo independente

Centro Palestino de Pesquisa e Estudos

Políticos indicou que 2/3 dos palestinos

apoiavam uma nova Intifada contra Israel.

Esta foi a primeira vez desde a assinatura

dos acordos de Oslo que uma

maioria de palestinos diziam que apoiavam

a violência contra Israel.

Em uma tentativa de evitar o choque

inevitável, autoridades israelenses

e palestinas de alto escalão, incluindo

o secretário geral da AP, Tayeb Abdel

Rahim e o vice-ministro da Defesa de

Israel, Efraim Snê, encontraram-se

para reduzir tensões e evitar a irrupção

da violência em seqüência ao colapso

das conversações de Camp David.

Os encontros foram autorizados

por Arafat sob pressão de Washington.

Depois de mais de um ano, no primeiro

aniversário da Intifada, o líder

da Fatah da Margem Ocidental, Marwan

Barghouti, deu uma entrevista em

22 de outubro ao jornal árabe de Londres,

al-Sharq al-Awsat, em que ele

admitia que representado um papel

direto na irrupção da Intifada.

Ele disse: “Eu sabia que o final de

setembro era o último período (de tempo)

antes da explosão, mas quando

Sharon chegou à Mesquita al-Aksa,

este foi o momento mais apropriado

para a irrupção da Intifada. Na noite

que antecedeu a visita de Sharon, participei

de um painel em uma estação

local de televisão e usei a oportunidade

para convocar o público para ir à

mesquita de al-Aksa pela manhã, porque

não era possível que Sharon chegasse

ao al-Haram al-Sharif (a Colina

do Templo) simplesmente assim e fosse

embora pacificamente. Eu conclui

e fui à al-Aksa pela manhã... Tentamos

criar choques, sem sucesso, por causa

das diferenças de opinião que surgiram

com outros no complexo al-Aksa

naquele momento... Depois que Sharon

partiu, permaneci duas horas com

as outras pessoas, discutimos o modo

de responder e como era possível reagir

em todas as cidades e não somente

em Jerusalém. Contatamos todas as

facções (palestinas).”

Barghouti viajou naquele dia, mais

tarde, para a área do Triângulo, dentro

de Israel, onde deveria participar

de uma conferência. Ele explicou: “Enquanto

estávamos no carro a caminho

do Triângulo, preparei um folheto em

nome do Alto Comitê da Fatah, coordenado

com os irmãos (ou seja, Hamas),

em que conclamávamos uma rea-

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

ção ao que acontecera em Jerusalém.”

Imad Faluji, ministro de Comunicações

da AP, admitiu, em 11 de outubro

de 2001 que a violência havia sido planejada

em julho, muito antes da “provocação”

de Sharon. Ele disse: “Quem

quer que pense que a Intifada irrompeu

por causa da desprezível visita de

Sharon à Mesquita al-Aksa, está enganado,

mesmo se esta visita foi a

desculpa para incitar o povo palestino.

Esta Intifada foi planejada antecipadamente,

desde a volta do presidente

Arafat das negociações de Camp

David, quando ele virou a mesa do presidente

Clinton. (Arafat) Permaneceu

firme e desafiou (Clinton). Rejeitou os

termos americanos e fez isto no coração

dos Estados Unidos.”

Sakher Habash, membro do Comitê

Central da Fatah, disse em uma entrevista

ao diário Al-Hayat al-Jadida da

AP em 7 de dezembro de 2000: “Após

a reunião de cúpula de Camp David,

tornou-se claro para o movimento Fatah,

como o irmão Abu Ammar (Arafat)

havia advertido, que a próxima

fase exigiria que nos preparássemos

para o conflito (com Israel), porque o

primeiro-ministro Barak não é um parceiro

capaz de sujeitar-se às aspirações

de nosso povo. Em vista de nossa

estimativa, a Fatah era o mais preparado

para um conflito dentre todos

os outros movimentos nacionais (palestinos).

(Na reunião de cúpula de

Camp David) Pensamos que o presidente

Clinton seria capaz de exercer

pressão sobre o governo israelense

antes de deixar a Casa Branca, de

modo que Barak concordasse com

uma solução política aceitável para

nós. Mas tornou-se claro que a posição

americana coincidia com a israelense:

compartilhar a soberania sobre

o al-Haram al-Sharif conosco, e dividir

Jerusalém oriental em quatro ou

cinco partes a fim de garantir o controle

israelense ali.”

“Diante da informação, (após) analisar

as posições políticas em seqüência

à reunião de cúpula de Camp David

e de acordo com o que o irmão Abu

Ammar disse, tornou-se claro para o

movimento Fatah que o estágio seguinte

necessitaria preparação para

confronto, porque o primeiro-ministro

Barak não é um parceiro que pode responder

às aspirações do nosso povo.

Baseada nestas avaliações, a Fatah

estava mais preparada do que os outros

movimentos para este confronto.

A fim de representar o papel que lhe

foi conferido, a Fatah coordenou seus

aparatos administrativo, civil e soberano,

e não se surpreendeu com a irrupção

da atual Intifada. O movimento

Fatah acreditava que o fenômeno de

luta abrangente surgiria no estágio final

do entendimento.”

Em outubro, quase dois meses depois

que a Intifada começou, Arafat foi

a uma reunião de cúpula em Sharm el-

Sheikh, contra a vontade da maior parte

das facções palestinas e de alguns

dos ministros de seu gabinete. Fontes

da AP disseram que a decisão de Arafat

de ir para a reunião veio amplamente

em resposta à pressão do Egito e

da Arábia Saudita, que temiam que a

crise israelense-palestina estivesse fi-

cando fora de controle. No que se refere

a Arafat, o primeiro-ministro Ehud

Barak e seu governo não eram mais

parceiros da paz.

Como esperado, o “acordo de cessar-fogo”

alcançado em Sharm el-

Sheikh atraiu fogo de muitos palestinos

que acreditavam que Arafat estava

sob uma imensa pressão de Washington

para obedecer. Personalidades

da AP disseram a jornalistas palestinos

que a aceitação por parte de

Arafat do acordo “foi mais por cortesia

ao presidente Clinton e ao presidente

egípcio Hosni Mubarak, que lançaram

a iniciativa da reunião de cúpula.” O

próprio Arafat mais tarde negou que

tivesse feito qualquer acordo com Barak.

Ele rejeitou uma solicitação israelense

e americana para apelar direta

e pessoalmente aos palestinos nas

ruas para mostrar contenção e restaurar

a calma. “Arafat estava realmente

ofendido pelas acusações de que ele

era responsável pelo fracasso das conversações

de Camp David,” explicou

um negociador palestino. “Este é o

motivo pelo qual ele não estava preparado

para se humilhar conclamando

o fim da violência.”

A Intifada foi realmente a melhor coisa

que poderia ter acontecido para Arafat.

Chegou na hora certa, porque desviou

a fúria dos palestinos do regime

corrupto e inepto que ele tinha estabelecido

em 1994. Além disto, a violência

uniu as facções palestinas contra o inimigo

comum, Israel, e reagrupou o

povo sob a liderança de Arafat. Em um

certo sentido, a Intifada salvou Arafat e

seu governo de auto-gestão porque direcionou

a raiva e a frustração contra

Israel ao invés de fazê-lo contra a AP.

Uma outra razão porque Arafat não

se mexeu rapidamente para acabar

com a violência nos primeiros dias da

Intifada é o fato de que ele acreditava

que ela realçaria a sua posição em

quaisquer negociações futuras de paz.

Arafat tinha esperança de usar a Intifada

que ele esperava que durasse alguns

dias, ou, no máximo, umas poucas

semanas, para dizer a Israel e ao

mundo que isto é um dos resultados

do colapso das conversações de paz.

Uma das conclusões de Arafat, em

seqüência a Camp David, é de que o

melhor meio de extrair mais concessões

de Israel seria envolver mais países

no processo de paz. Um de seus

objetivos principais agora era arrastar

os países árabes para o conflito com

Israel. Ele repetidamente lembrava os

países árabes e muçulmanos que Jerusalém

e seus lugares sagrados eram

também de sua responsabilidade.

Arafat e os palestinos ficaram novamente

muito desapontados pela falta

de apoio da reunião de cúpula árabe,

realizada no Cairo em outubro de

2000. Houve muito falatório mas uma

falta de vontade de fazer qualquer coisa

prática por este motivo.

É agora claro que os últimos dois

anos de violência foram desencadeados

como parte de uma estratégia de internacionalizar

o conflito e forçar Israel a

fazer mais concessões. Mas as táticas

violentas escaparam ao controle em um

momento fatal por conta própria. O que

resta ser visto é se há uma saída.

TURISMO

17

Rodovias, caminhos e

pontos turisticos de Israel

ROTEIRO 5

Acre – Haifa 24 km

Salomão Figlarz

Após visitarmos, com muito cuidado,

a cidade de Acre (Acco) com tempo,

pois tem muito a ser visto, falaremos

no futuro apenas desta maravilhosa

cidade. Saímos de Acre e logo no

trevo da saída já seguimos por alguns

minutos no sentido de Karmiel até chegarmos

a Tel Akko, local da bíblica Acre.

Foi deste local que a artilharia de Napoleão

bombardeou Acre em 1799.

Voltando para a rodovia principal e

seguindo no sentido Sul notaremos ao

nosso lado esquerdo que a região possui

vários lagos artificiais com criações

de peixes, e a nossa direita passaremos

pelo vale de Zebulum, região com

balneários na Costa Mediterrânea. Seguindo

alguns quilômetros mais ao sul

veremos do nosso lado esquerdo a entrada

para um lugar chamado de Afek

(Tel Afek), local constituído provavelmente

no final da idade do bronze e no

começo da idade do ferro, possivelmente

local da bíblica Afek. Existe no local

ruínas de fortificações cruzadas, aonde

na parte mais baixa aparentemente

era utilizada como moinho de farinha e

no lado Leste existe uma reserva com

bosque natural.

Continuando no sentido Sul constatamos

que existe uma extensa área industrial.

Quando estamos nos aproximando

de Haifa, a nossa direita está

localizado o aeroporto que atende toda

a região e a nossa esquerda, toda uma

área industrial aonde nos chama atenção

as refinarias de petróleo. Um pouco

mais adiante chegamos à Junção

Hakiryot e a nossa esquerda está a rodovia

para Nazareth e a nossa direita

tomamos o caminho de Haifa.

Localidade judaica desde o ano 300,

em 1100 caiu na mão dos cruzados que

trucidaram os habitantes judeus. Por

muito tempo foi menos importante que

a cidade de Acre. Foi conquistada pelos

turcos em 1517 e em 1750 foi totalmente

arrasada por Dahar el Omar,

e reconstruída por ele mesmo. Foi

construída a rede ferroviária no sentido

Leste (oriente), ajudando o desenvolvimento

das cidades localizadas ao

lado do seu leito. Após a conquista dos

britânicos em 1918 foi construído o

porto de Haifa.

Existem vários locais turísticos a serem

visitados tais como o santuário

Bahai, o museu Naval e da Imigração

“ilegal”, e a Caverna de Elias.

Salomão Figlarz é arquiteto


18 Visão panorâmica

Yossi Groisseoign

Censura no Canadá

O governo canadense ficou sob fogo

cruzado depois que a alfândega daquele

país confiscou boletins informativos que

defendiam o direito de existência de Israel,

conforme noticiou o jornal National Post.

Os folhetos, entitulados “Em Defesa Moral

de Israel”, foram preparados pelo Instituto

Ayn Rand, sediado na Califórnia, EUA e

enviados pelo correio para o Canadá, para

uma conferência na Universidade de Toronto

pelo presidente da organização. As

autoridades que podem apreender qualquer

material suspeito consideraram que

artigos como “Israel têm um direito moral a

sua existência”, podiam conter ódio racial,

mas liberaram o material quase 48 horas

depois que constataram que eles não constituíam

“propaganda de ódio.” Yaron Brook,

presidente do Instituto Ayn Rand, que publicou

as brochuras disse tratar-se de um

caso claro de censura. “É o Canadá censurando

material intelectual. É prejudicial

à liberdade de expressão.”

Mea culpa

“Houve muitos erros que não deveriam

ter sido cometidos. Eu disse freqüentemente

que o uso de armas na Intifada

era errado”. A declaração foi feita à Agência

pelo negociador da Autoridade Palestina

Mahmoud Abbas, tido como um possível

sucessor de Arafat. Foi por ocasião

do segundo “aniversário” da Intifada.

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Reconhecimento

Em Washington, o presidente George

W. Bush sancionou projeto aprovado pelo

Congresso identificando Jerusalém como

capital de Israel e pedindo à administração

para iniciar o processo de mudança

da embaixada de Tel-Aviv para lá. A Casa

Branca informou, porém, que o país mantém

a posição oficial de que o futuro de

Jerusalém (cuja parte oriental, árabe, é

reivindicada pelos palestinos) terá de ser

decidido no processo de paz. A lei vai

além das exigências anteriores do Congresso,

que pressionou durante anos vários

presidentes a aprovar a mudança da

embaixada dos Estados Unidos de Tel

Aviv para Jerusalém. Os presidentes sempre

prometeram tomar a iniciativa, mas

adiavam a decisão por medo de aumentar

as tensões com o mundo árabe, que considera

Jerusalém Oriental como território

ocupado e a capital de um futuro Estado

palestino em Gaza e na Cisjordânia.

Não são judeus

A Comunidade Judaica de Londrina,

que congrega também judeus de Rolândia

e Maringá, cujas famílias são, em sua

maioria, sobreviventes do Holocusto, está

relatando um problema. Têm observado

a presença de messiânicos no Norte do

Paraná, dizendo-se judeus sem, de fato,

o serem. Segundo as lideranças, isso tem

causado grande confusão na opinião pública

local que os toma como pessoas que

nasceram e viveram, de fato, como judeus.

E colocado a comunidade local

frente a situações embaraçosas no que

tange a opiniões emitidas, pensamentos

e ou conclusões sobre as mais diversas

situações. Os que vivem a fé judaica autêntica

estão se sentindo não só ameaçados

mas também ultrajados. Há até o

caso de uma professora que leciona hebraico

básico em escolas de teologia

evangélicas locais fazendo-se passar por

judia. Seu conhecimento do hebraico, entretanto,

é muito rudimentar.

Não são judeus II

Também em Curitiba observa-se ação

semelhante daqueles se dizem judeus,

mas não o são. No dia 24 de setembro, o

jornal Gazeta do Povo publicou aviso informando

que a Beth B´nei Tsion – Tempo

Judaico Adventista realiza todas as

sextas-feiras “palestras gratuitas abertas

ao público sobre as escrituras na visão

judaica”. Esse “templo” funciona na sobreloja

de um prédio no centro da cidade.

Fernando Egypto condenado

Condenado pela Justiça por crime de

preconceito contra o povo judeu, com a publicação

de artigos em jornais brasileiros,

especialmente do Interior, Fernando Cezar

Egypto Bezerra, residente em Petrópolis e

que se diz bancário, tentou obter redução

da pena, mas teve sua apelação negada.

No Paraná, seus artigos costumam aparecer

no jornal Gazeta do Paraná,

de Cascavel. Segundo a

Justiça, ele cometeu delito de

indução e incitação à discriminação

ou preconceito de raça

e etnia, através da imprensa

(incurso no artigo 20 parágrafo

2º da Lei nº 7.716/89, e na

Lei nº 9.459/97, artigo 49, parágrafos

primeiro e segundo do

Código Penal). Foi condenado

a prestação de serviços à razão

de uma hora por dia. “Acordaram

os desembargadores da

Sexta Câmara Criminal do Tribunal

de Justiça do Estado do

Rio de Janeiro, à unanimidade,

em negar provimento à apelação

para confirmar a bem lançada

sentença que se confirma

por seus próprios e jurídicos fundamentos

que ficam integrando

este na forma regimental, esclarecendo

que, em caso de descumprimento

das obrigações impostas,

o regime prisional é o

aberto”, escreveu o desembargador

presidente e relator Salim

José Chalub, do Rio de Janeiro.

Egypto II

Num artigo publicado em

21 de agosto de 1997, o agora

condenado por crime de racismo

Fernando Egypto, no

jornal Diário de Petrópolis, segundo

o Ministério Público

praticou e incitou à discriminação

e preconceito de raça,

etnia e religião, contra os judeus,

referindo-se a eles, entre

outras coisas como o “cân-

cer do Oriente Médio”. A peça acusatória diz

que ele procedeu de forma preconceituosa e

discriminatória, aduzindo, ainda, ao final que

“com o decorrer dos séculos, dos milênios,

eles estão aí, infernizando como sempre a

alguém. Roubam, torturam, matam, destroem,

dominam, atacam e sempre são defendidos,

aqui e no mundo inteiro. Quando chegará

o dia do castigo final para eles? (...).” O

acusado chegou a pretender retratação perante

as pessoas ofendidas e por isso a juíza

de direito Florentina Ferreira Bruzzi Porto, de

Petrópolis, não viu necessidade de fixação

da pena-base acima do patamar mínimo e

fixou a mesma em dois anos de reclusão e

em dez dias-multa, fixado o valor unitário do

DM no mínimo, legal, com a devida atualização

no momento da execução. Beneficiado

pela Lei nº 9.714/98 a pena privativa de liberdade

foi substituída de prestação de serviços

à comunidade (com tarefas gratuitas de

uma hora por dia em asilo der idosos) e multa.

Sem procuração

O rabino Henry Sobel, presidente do

rabinato da Congregação Israelita Paulista,

e o presidente da Confederação Israelita

no Brasil, Jack Terpins, foram recebidos

pelo primeiro-ministro Ariel

Sharon. ”Compartilhamos a indignação da

população israelense e compreendemos

o impulso de reagir militarmente, mas

vamos dizer que os judeus que vivem no

Brasil têm dúvidas quanto à eficácia de

uma linha de ação que depende do uso

da força”, disse o rabino antes da reunião,

defendendo a convocação de tropas da

Otan para supervisionar a retirada dos

tanques israelenses e assegurar o fim dos

ataques palestinos. Sobel falou em nome

dos judeus brasileiros, mas ele não os representa,

causando uma certa irritação.

De Israel, o colaborador de Visão Judaica,

Moshe Rosenblatt escreveu a Sobel:

“O uso da força parou quase por completo

os ataques suicidas, provando que

suas 'dúvidas quanto à eficácia de uma

linha de ação que depende do uso da força',

não tem nenhuma base real. Graças

a D-us, Mordechai Anilevitch e Aba Kovner

não pensavam como o senhor”. Paz,

prezado rabino, só pode existir entre duas

democracias. Os déspotas são obrigados

a fazer guerra por razões internas. Nunca

houve uma só guerra entre duas democracias

(quando as duas eram democracias).

A razão de todas as guerras do

mundo é sempre a mesma: a mera existência

de regimes não-democráticos.

Nobel de Literatura

O romancista húngaro Imre Kertesz foi

o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura

2002 por sua obra que trata “da frágil experiência

do indivíduo diante das bárbaras arbitrariedades

da história”. Sobrevivente de

Auschwitz, Kertesz é pouco conhecido no

Brasil — seu único livro traduzido para o

português foi “Kadish por uma criança não

nascida”. Graças à literatura, ele sobreviveu

à guerra e tornou-se um dos intelectuais

mais importantes de seu país. Também

é o autor da obra que é considerada a

maior criação literária já feita sobre o tema

dos campos de concentração: “Romance

de um sem destino” - sobre o drama de um

judeu húngaro que na primavera de 1944 é

arrancado de um ônibus por policiais e levado

em um trem de carga para Auschwitz.


Em Israel, o maior sucesso

atualmente na TV é a novela

Terra Nostra, produzida pela

Globo. Segundo israelenses

que estiveram em Curitiba, o

programa está cativando a

população. Os capítulos são

exibidos na língua original, o

português, mas com legendas

em hebraico.

O Departamento de Educação e

de Cultura Judaica da Kehilá do

Paraná e a Escola Israelita

Brasileira Salomão Guelmann

representará nos dias 15 e 16

(terça e quarta-feira) o filme “O

Segredo”, na Cinemateca de

Curitiba às 20h30. E se quiser

ganhar uma passagem para Foz

do Iguaçu é só participar do

bingo na Escola dia 3/11 (domingo)

às 15h30. Haverá muitos

outros prêmios, perfumes,

quadros, jantar, eletrodomésticos,

luminárias, óculos, etc.

A Escola Israelita Brasileira

Salomão Guelmann avisa

também que as matrículas para

o ano letivo de 2003 já estão

abertas e poderão ser efetuadas

na secretaria da escola

pela manhã das 8h às 11h30, e

à tarde das 14h às 17h. Para

dezembro, a escola está

preparando as formaturas do

Jardim III e 8ª série.

Alunos das 7ª e 8ª séries da

Escola Israelita Brasileira

Salomão Guelmann foram os

primeiros a receber, no dia 8/

10, exemplares do livro “Vinte

Séculos de Vida Judaica na

Terra de Israel – As Gerações

Esquecidas”, editado pela B’nai

B’rith do Brasil em São Paulo,

com autorização do Keren

Kayemet Leisrael. A entrega foi

feita aos alunos durante o

lançamento do concurso de

dissertações a partir da análise

do livro, uma obra que retrata a

luta do povo judeu para permanecer

na terra de Israel mesmo

após a diáspora. Os cinco

melhores trabalhos selecionados

pela escola serão encaminhados

à B´nai B´rith em São

Foto:Szyja Lorber

Paulo até o dia 8 de novembro e o

classificado em primeiro lugar no

âmbito nacional ganhará como

prêmio um computador. Isac Baril,

presidente da B’nai B’rith do Paraná

antes de falar aos alunos foi

recebido pela professora Maria

Luiza Moreira da Rocha Diniz

Lacerda e pela morá Denise

Weishof. Cada família que possui

filho estudando na Escola também

receberá um exemplar do livro.

Os meninos cantores de Angola,

que são atendidos pelo Instituto

Paranaense de Cegos de Curitiba,

vão se apresentar dia 20 deste

mês no Clube ‘A Hebraica´, de

São Paulo, durante o 1º Festival

da Música Judaica, uma realização

conjunta do Departamento de

Educação da Agência Judaica de

Intercâmbio Cultural e do Departamento

de Juventude de ‘A Hebraica’.

O festival acontece entre os

dias 18 e 20 de no Teatro Arthur

Rubinstein, com objetivo divulgar

a música judaica e estimular a

cultura, através de apresentações

musicais e de um concurso

dividido em duas categorias, uma

premiando a melhor interpretação

de canções já consagradas e a

outra, a melhor composição

inédita com temática judaica.

Desde agosto de 2001, no Brasil,

18 crianças e adolescentes cegos

de Angola, alguns inclusive vítimas

de maus-tratos, vêm sendo atendidos

pelo Instituto Paranaense de

Cegos, comandado por Regina

Boscardin, com apoio de pessoas

da comunidade israelita de Curitiba

através do Grupo Apoio. O desenvolvimento

deles vem sendo

satisfatório, e graças à maestrina

Patrícia aprenderam a cantar

músicas judaicas. Todos os participantes

do festival receberão um

certificado, e os classificados, um

troféu, além de terem sua música

gravada no CD do Festival. O

grande vencedor na categoria de

melhor ‘música inédita’ receberá

uma passagem de ida e volta a

Israel, e os demais serão premiados

com aparelhos de som.

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

Isac Baril, terceiro a partir

da esquerda, entregou aos

alunos das 7ª e 8ª séries

da Escola Israelita

Salomão Guelmann

exemplares do livro "Vinte

Séculos de Vida Judaica

na Terra de Israel - As

Gerações Esquecidas",

editado pela B'nai B'rith

com autorização do Keren

Kayemet Leisrael

No início deste mês esteve em

Curitiba o professor Ely Ben Gal,

para proferir conferência no

auditório da Faculdade Curitiba,

no bairro Rebouças, sobre o tema

“O conflito atual entre o Estado

nacional e o Estado multinacional”,

com apoio do Consulado de Israel e

do Departamento de Cultura do

Centro Comunitário Judaico. Gal é

professor de História Judaica da

Universidade Bar-Ilan, diretor do

Museu Bar-David de Arte Judaica,

encarregado do projeto de criação

do Instituto Nacional da Cultura e

Tradições dos Judeus Etíopes, em

Jerusalém, editor-chefe da Enciclopédia

multimídia “Jewish Nobel Hall

of Fame”. Formado na Sorbonne

em Sociologia

e Estudos

Políticos, foi

assistente do

filósofo Jean

Paul Sartre.

Entre 1962 e

1964 dirigiu o

Colégio

israelita de

Porto Alegre

Ely Ben Gal

e por isso fala

português.

Bernardo e Isabel Taytelbaum

ainda comemorando o 13º aniversário

da Idade do Ouro, também

conhecida como Terceira Idade.

Foi na gestão de Bernardo Tockus,

na presidência do CIP, que em 10

de agosto de 1989, por iniciativa

de Rosalind Tockus e de Bernardo

Taytelbaum que o grupo se reuniu

pela primeira vez com pessoas

que freqüentavam o CIP, cuja

idade estava na faixa dos 50 e

depois dos 60 anos. Nesses anos

todos a programação foi intensa,

com filmes, bingos, teatro, passeios.

Mas o maior êxito foi a promoção

do “Show do Milhão” realizado

no ano passado com festa de

encerramento no Hotel Tibagi.

Hoje o grupo é composto de 28

membros 1ue inclusive já colaboraram

com o Lar dos Idosos do

Tarumã doando alimentos não

perecíveis. Para o ano quer vem,

Taytelbaum, que dá vida à Idade

de Ouro está preparando o “Quem

sabe, sabe”, também com perguntas

sobre cultural geral e judaica,

no estilo do “Show do Milhão”.

Ainda no dia 20 deste mês terá

lugar a 23ª edição do Carrossel da

Alegria, promovido pela Na´Amat

Pioneiras Centro Curitiba, no

Grande Auditório do Teatro

Guairá, com duas apresentações

(as 15 e às 18 h) e renda revertida

a entidades beneficentes. Desta

vez mais de duas dezenas de

grupos farão o show, representando

escolas,

academias de

dança e de

ginástica. O

Carrossel da

Alegria é parte

integrante da

programação

da cidade e do

Teatro Guaíra.

Os ingressos

estão à venda

nas escolas

participantes e

na bilheteria do teatro.Ao fundo,

como sempre, a coordenadora e

presidente de honra da Na’Amat

de Curitiba, Geny Aizemberg.

Os VII Jogos Macabeus Nacionais

de Escolas Judaicas, maior evento

esportivo da comunidade judaica

do Brasil, foram abertos na sede

da Hebraica dia 11 e vão o dia 15

de outubro. Houve desfile dos

alunos das 12 escolas judaicas,

prosseguindo com hasteamento

de bandeiras e hinos nacionais,

acendimento da pira olímpica pelo

atleta e técnico macabeu Mauro

Chasilew, e dois jogos válidos

pelo campeonato. Participamcerca

de mil alunos, sendo que 430

serão de escolas de São Paulo,

Belo Horizonte, Curitiba e Porto

Alegre. Há competições de futsal,

futebol soçaite, voleibol, basquetebol,

handebol e tênis de mesa.

Yehudit Ben Natan, diretora do

Colégio Ayanot, em israel, e Betty

Zimmermann, coordenadora do

Programa das Classes Brasileiras

de Ayanot, estiveram no Brasil

para divulgar o trabalho realizado

lá. Em parceria com a Na´Amat

Pioneiras do Brasil e do departamento

de Educação da Agência

Judaica, o programa oferece a

oportunidade de estudo, no

mínimo por um ano em Israel,

aproveitando para conhecer o país

de Norte a Sul. O detalhe é que as

aulas são

em português,

com

professores

brasileiros.

Além São e

Curitiba,

elas visitaramtambém

Rio de

Janeiro,

Porto

Alegre e

Belo

Horizonte.

19

Foto: Arquivo

Apresentação do

Carrossel da

Alegria no ano

passado: Crianças

ajudando crianças

Foto: Sílvia Perlov

Lançamento do Programa 2003 de Ayanot. Da

esquerda para a direita Yehudit Ben Natan (diretora

de Ayanot), Betty Zimmerman (coordenadora das

classes brasileiras), Danny Wolach Departamento

de Educação da Agência Judaica) e Myrian Roth

(presidente da Na`Amat Brasil)


20

Manifestações anti-semitas em

jornais no interior do Paraná

“Quem diria que da nossa amada

Paranaguá sairia tamanha mediocridade”.

Com estas palavras, de justa indignação

o jovem Charles Chapaval Wikler,

respondeu em carta ao vereador

Alceu Maron (PPB), o pronunciamento

anti-semita que este fez na Câmara

Municipal e que foi publicado no jornal

Gazeta Parnanguara.

Maron usou da tribuna para referirse

ao “massacre que ocorre no Oriente

Médio”. Declarando ser homem de posições

definidas, disse que o “que existe

no Oriente Médio é ‘a maldição judaica

que paira sobre o mundo há séculos’”.

Entre outras parlapatices, o aprendiz de

nazista ainda falou que ”Israel não só

não quer deixar o território que não lhe

pertence ser ocupado pelo povo palestino

como ainda espanta e surpreende

com sua ousadia e desfaçatez ao não

permitir que Jerusalém seja ocupada

pelos palestinos”.

Reação

Surpreso, Charles Wikler respondeu

ao vereador: “Não nos conhecemos pessoalmente

e nem faço a mínima questão

que isso ocorra, pois pessoas como

você merecem apenas o desprezo”.

“Mesmo assim” — prosseguiu — “faço

isso em homenagem ao meu querido avô

Leão Chapaval, que orgulhoso contava

histórias de fraternidade entre os descendentes

de árabes e judeus de nossa

Paranaguá. Mal sabia meu avô que um

dia alguém desprovido de bom senso e

com o coração transbordando de ódio,

tentaria trazer à nossa comunidade problemas

que a distância nos impede de

compreender em sua totalidade”.

“Pessoas das famílias Akim, Buffara,

Farah, Mattar, Cecy entre outras, devem

estar como nós, tentando entender onde

você quer chegar com esse racismo, pois

nossa família Chapaval sempre conviveu

em paz, como verdadeiros irmãos da comunidade

árabe de Paranaguá”. Mais

Visão Judaica - outubro de 2002 Chesvan / Kislev 5763

adiante observa: ”Malditos, não são os

judeus que você mencionou (e que na

sua falta de conhecimento confunde com

israelenses), mas pessoas como você,

que com sua ignorância impedem o mundo

de ser melhor. Finalizando, Wikler

acrescenta que o vereador merece um

processo por racismo, incurso na Lei

Afonso Arinos.

Em Cascavel

Também na imprensa de Cascavel se

registraram manifestações anti-semitas.

O jornal Gazeta do Paraná vem publicando

artigos (como os de Fernando

Egypto, que por sinal acaba de ter sua

condenação por racismo confirmada em

sentença da Justiça do Rio de Janeiro)

e cartas de cunho anti-semitas. Recentemente,

uma dessas cartas expressava

revolta pela morte de um palestino

sem as duas pernas, pelo Exército de

Israel e acusando os judeus de barbarismos

e monstruosidades.

Reagindo a isso, o curitibano Leon

Hirsch escreveu carta ao jornal observando

que as acusações “continham

meias verdades, omissões e desinformação”.

Omitiu-se, por exemplo, que

o palestino morto era terrorista e que

ficara sem as pernas ao montar uma

bomba como as que “mataram inocentes

que estavam numa discoteca, numa

pizzaria, num hotel, numa universidade

e nos ônibus”. “Não li no jornal nenhuma

carta condenando esses atos

terroristas”, disse Hirsch.

Ele lembrou do caso do seqüestro do

navio de passageiros Achilles Lauro,

quando um inválido em cadeira de rodas,

com 78 anos de idade foi jogado ao

mar pelos terroristas, morrendo afogado.

Recordou ainda os ataques a escolas,

como em Maalot onde crianças foram

mortas e ainda o assassinato dos

atletas israelenses nas Olimpíadas de

Munique há 30 anos atrás quando não

havia ocupação alguma.

A Cabala e a nova Era

Shmuel Lemle*

Há muito tempo anunciada, segundo todos os mestres cabalistas finalmente

chegamos à Era de Aquário, a Era da Iluminação. O que isto significa?

Desde o princípio da Criação o homem busca respostas para suas mais

profundas indagações. Por que estamos aqui? Por que o mundo foi criado?

Por que existe o caos, o sofrimento e a dor? Onde está D-us?

Muitas pessoas, ao longo da história, tiveram acesso às respostas a tais

perguntas.Mas a humanidade ainda não estava pronta para receber um conhecimento

tão poderoso. Era preciso uma maior evolução espiritual.

Abraão, nosso Patriarca, revelou pela primeira vez a compreensão cabalística

do universo no Livro da Formação, o Sefer Ietsirá (recentemente foi

lançada uma versão em português deste livro, pela Editora e Livraria Sefer).

Isaac e Jacob também receberam esses ensinamentos, assim como Moshe

Rabeinu, que no Monte Sinai recebeu o corpo revelado da Torá, e também a

parte oculta, a Cabala. A Cabala está para a Torá assim como a alma está

para o corpo, o corpo não possui vida sem o sopro da alma, a Torá não pode

ser compreendida sem o conhecimento da Cabala. A Torá oculta, a Cabala

revela. De acordo com a Cabala, a Torá é um código cósmico, todo o conhecimento

do universo está contido na Torá, mas é preciso saber decifrar esse

código. E o Zohar, a principal obra da Cabala, é a chave mestra que decifra

este código. Escrito em aramaico por Rabi Shimon Bar Yochai há cerca de

2.000 atrás, o Zohar permaneceu restrito, até a nossa época, a um pequeno

grupo de sábios por geração. Mas o próprio Zohar previu que isto iria acontecer,

e previu também que chegaria a hora em que seus segredos e maravilhas

seriam revelados a toda humanidade.

E esta hora chegou. Na primeira metade deste século o fundador do Centro

de Cabala, o Rabino Yehuda Ashlag, dedicou-se à incrível tarefa de traduzir o

Zohar inteiro para o hebraico, tornando seus ensinamentos muito mais acessíveis.

E nos últimos vinte anos, com a direção do Rav Berg e de sua esposa

Karen, os diversos Centros de Cabala ao redor do mundo inteiro têm trabalhado

para transmitir a antiga sabedoria da Cabala em uma linguagem acessível a

qualquer pessoa, sem que seja precisa ter nenhum conhecimento prévio, apenas

um desejo sincero de aprender e de se transformar.

O Zohar afirma que somente através do estudo da Cabala a humanidade

poderá sair do exílio espiritual no qual atualmente se encontra de forma misericordiosa,

sem sofrimento. As respostas para as perguntas que formulamos

acima, e que todos os seres humanos têm feito ao longo dos últimos

milhares de anos, estão agora ao alcance de todos, nesta Era de Aquário,

através da revelação da sabedoria cósmica da verdade, a Cabala.

O Centro de Cabala está lançando pela primeira vez na história uma tradução

completa do Zohar em inglês, abrindo as portas desta sabedoria para

cada vez mais pessoas. Com os ensinamentos da Cabala disponíveis, e com

a própria energia que o Zohar emana, a humanidade tem agora as ferramentas

para tomar controle do seu destino e eliminar o caos e o sofrimento da

paisagem humana. Só através do conhecimento espiritual e da conexão com

a imensa Força da Luz do Criador podemos remover por completo a desumanidade

e o ódio de nosso meio, e revelar o bem estar e a felicidade que são

um direito de nascença de todos os seres humanos.

* Shmuel Lemle é professor do Centro de Cabala do Rio de Janeiro e aluno do

cabalista Rav Berg, diretor internacional do The Kabbalah Centre –

www.kabbalah.com Contato: Telefax: 0**(21)2525-3353 – e-mail:

shmuel.lemle@kabbalah.com

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