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Cervejas especiais atraem os consumidores e ajudam a consolidar ...

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MERCADO

MERCADO

Feito gente

grande

Cervejas especiais atraem

os consumidores e ajudam

a consolidar o segmento

de microcervejarias

Por Nani Soares

12 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


Se a cerveja continua sendo uma das

bebidas preferidas do brasileiro, certamente

o segmento ganhou dinamismo

nos últimos anos com a atuação

das microcervejarias. Enquanto

os grandes conglomerados dominam

a categoria mainstream (ou cerveja

industrial), as microcervejarias

são mais versáteis e voltadas para

outro tipo de consumidor, com perfil

mais exigente, conhecedor dos diversos

tipos de cerveja existentes e

que se dispõe a pagar mais por um

produto diferenciado.

Essa atuação independente,

sem uma concorrência direta com

as cervejas mainstream é o argumento

mais usado pelas microcervejarias

para explicar a boa performance

no mercado brasileiro. A máxima

de que "cerveja é cerveja" aqui

não funciona: todos os mestres-cervejeiros

encarregados pelo desenvolvimento

de cervejas especiais

garantem que elas não podem ser

comparadas com as industriais. O

fato é que mesmo sem grandes investimentos,

este tipo de cerveja

está avançando no mercado e se

ainda não é preferência nacional, no

mínimo está despertando a curiosidade

do brasileiro.

JUNHO/12

De acordo com o Sistema de

Controle de Produção de Bebidas (Sicobe),

da Receita Federal, o setor

cervejeiro cresceu 3,4% em 2011.

Dados da Associação Brasileira de

Bebidas (Abrabe), indicam que as

microcervejarias representam 0,5%

do mercado cervejeiro nacional, o

que correspondeu a cerca de 66,5

milhões de litros no ano passado. E

o crescimento deve se manter acelerado:

a estimativa é alcançar 2% do

mercado brasileiro em 10 anos.

Produzidas por meio de processos

e ingredientes diferenciados, como

mel, rapadura, misturada com

frutas e até café, entre inúmeras outras

combinações, as cervejas artesanais

estão apostando no conceito

de "cerveja quase caseira". O negócio

tem dado tão certo que muitas

aproveitaram para instalar bares

conjugados às fábricas, garantindo

proximidade com o consumidor.

Cerveja da floresta

Umas das que apostaram nesta

estratégia foi a Amazon Beer, que

mantém um brewpub ao lado da fábrica

na Estação das Docas, em Belém

do Pará (PA), como forma de di-

Amazon Beer: ingredientes típicos da região, como o bacuri

13


Brewpub da Amazon Beer: oportunidade de divulgação

vulgar o produto e atrair os consumidores.

Mesmo embasada por um conceito

tão regional, a cerveja já ganhou

espaço em importantes praças de

consumo do País, como São Paulo.

Inaugurada em 2000, a Amazon

Beer produz suas cervejas inspirada

na Lei da Bavaria de 1516 cuja

fórmula básica leva como ingredientes

cevada, água, malte e lúpulo,

mas optou por incluir ingredientes típicos

da região, como o bacuri. Carro-chefe

da cervejaria, a Bacuri Beer

é uma Pilsen com 3,8% de teor alcoólico,

de composição clara e suave,

e marcada pelo aroma peculiar do

fruto, características que lhe renderam

o prêmio internacional Tecno Bebida

Award.

O mais recente lançamento é

uma cerveja do estilo Witbier com

taperebá (também conhecido como

cajá), ingrediente que deve garantir

leveza e refrescância ao produto. Até

o final do ano, outras três cervejas

com ingredientes típicos serão lançadas:

uma à base de açaí, outra

de cumaru (um tipo de semente) e a

última de Priprioca (uma raiz).

"Esperamos que os resultados

sejam os melhores possíveis. Está

havendo, claramente, um forte acréscimo

no número de cervejarias artesanais

nos últimos anos. Atualmente,

as cervejarias brasileiras estão

procurando fazer cervejas com personalidade

e identidade nacional,

não apenas tentando imitar fórmulas

européias ou americanas", afirma

Caio Guimarães, diretor de marketing

da Amazon Beer.

O mercado de microcervejarias

tem crescido principalmente pelo

aumento do poder aquisitivo da população

e pelo aumento do conhecimento

sobre os diversos tipos de cerveja

existentes. Assim, a demanda

deve se manter aquecida ainda por

um bom tempo, segundo ele.

"2011 foi um excelente ano, mas

acredito que este mercado esteja

apenas ‘engatinhando’. Temos muito

para crescer".

Com capacidade de 100.000 litros/

mês, a estimativa é aumentar em 20%

até 2013, segundo ele. Em 2011, a

Amazon Beer cresceu 19% e a previsão

é crescer 30% este ano, estimativa

que deve ser favorecida pela recente

distribuição iniciada em São

Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal,

Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

14 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


Os investimentos em marketing

também são outra estratégia fortalecida

e devem demandar cerca de

R$ 500 mil incluindo campanha televisiva

(a primeira da empresa), mídia

impressa e ações mais focadas,

como degustações e panfletagem

em supermercados, bares e restaurantes.

"A principal estratégia é prover

informação, de forma que o consumidor

perceba a agregação de

valor do produto e valorize as microcervejarias

nacionais", avalia.

JUNHO/12

Marketing

"boca a boca"

Outra que tem sido constantemente

premiada no exterior é a Cervejaria

Bamberg, umas das responsáveis

por elevar as cervejas especiais

à categoria de produto cult. Liderada

pelo cervejeiro Alexandre

Bazzo, a Bamberg mantém a média

de lançamentos de três produtos

por ano. Em maio, foi lançada a Bamberg

Maibaum, uma Bock clara com

6,5% de teor alcoólico, com lupulagem

um pouco mais perceptível que

as bock tradicionais, própria para o

outono. Até o final do ano, outras

duas novas cervejas da marca devem

chegar ao mercado.

Com capacidade de 60 mil litros/

mês, a Bamberg comercializa 60%

de Pilsen e 10% de Weizenbier, enquanto

os outros 30% das vendas

são divididos em outros 11 estilos

de cervejas. Fornecendo principalmente

para bares, restaurantes, empórios

e pequenos supermercados

a marca Bamberg vem se tornando

cada vez mais conhecida. Ainda assim,

a principal área de atuação é

na Grande São Paulo, onde se concentram

80% das vendas, especialmente

nas regiões metropolitanas

de Campinas e Sorocaba.

Sem departamento de marketing

(a empresa mantém apenas um

blog na internet), a Bamberg se vale

da força das redes sociais para realizar

suas poucas ações de divulgação.

No mais, a estratégia adotada

há anos é o famoso "boca a boca"

que, ao que parece, tem dado cer-

to. A empresa cresceu 40% em 2011

e prevê crescer entre 35% e 45% este

ano. Em fevereiro de 2011, também

foi eleita a melhor cervejaria do

Brasil e, meses depois, a melhor das

Américas. De quebra, aumentou o

volume produzido em 40%.

"Estamos no meio do boom das

15


cervejas especiais, seja no que diz

respeito ao surgimento de novas cervejarias,

mas também no aumento

do numero de consumidores. Como

em outros países, o consumidor cansou

do produto industrial, sem aroma,

sem sabor e sem cor, e cada

vez mais procura um produto com

personalidade", afirma Bazzo.

O momento é positivo para o setor

em geral e as cervejas artesanais

não são mais um produto de nicho,

na opinião dele. "São mais de 120

estilos diferentes de cervejas no mercado

brasileiro, em mais de 400 rótulos

diferentes". Isso porque a mudança

no perfil do consumidor trouxe à

tona a necessidade da diversidade

e com ela, a qualidade como diferencial.

Ao contrário das cervejarias

industriais, a proposta das microcervejarias

é oferecer um mix ampliado

de bons produtos.

Apesar disso, Bazzo considera

o crescimento do setor ainda lento

quando comparado com mercados

como Itália, Japão, Estados Unidos

e Dinamarca. A justificativa seria a

alta carga tributária (as microcervejarias

pagam 60% de imposto so-

bre o valor da garrafa), ameaça que

ronda as microcervejarias há tempos.

"Pagamos mais que o dobro de impostos

que as grandes cervejarias.

Se isso não mudar em cinco anos, o

Brasil será o único país do mundo

em que as microcervejarias não deram

certo."

Cervejas não

pasteurizadas

Na lista de premiadas também está

a Falke Bier, que tem no currículo o

"Tecnobebida Award 2008", da Nielsen

Business, prêmio que ganhou na categoria

de produto mais inovador com

a Falke Tripel Monasterium, que recria

uma receita dos monges carmelitas

do século XIV e vem em garrafa

de champagne. Também conquistou,

em 2009, o cobiçado Prêmio Paladar,

do jornal O Estado de S. Paulo, na

categoria "Produto do Ano - Cerveja

Artesanal" e este ano já recebeu a

medalha de campeão na categoria

Schwarzbier, com a Falke Bier Ouro

Preto, no South Bier Cup, ocorrido em

março em Blumenau (SC).

Além do reconhecimento e

credibilidade, as premiações servem

para incentivar as microcervejarias

16 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


a se aperfeiçoarem quanto aos aspectos

técnicos, na avaliação de Marco

Falcone, proprietário da cervejaria,

que vê nos empórios, restaurantes

com cartas de cerveja e brew

pubs as melhores oportunidades para

a expansão das cervejas artesanais.

"Estes novos empreendimentos

têm criado um novo elemento no cenário,

a figura do Sommelier de Cerveja.

E tudo isto com uma expansão

incrível pelo interior do país", afirma.

Como tendências, Falcone aponta

as cervejas não pasteurizadas, assim

como as mais ousadas e que

privilegiam aspectos como desenvolvimento

sustentável, qualidade,

pureza e frescor. As embalagens ficarão

cada vez mais atraentes e, a

exemplo do que vem ocorrendo na

Itália, terão design arrojado e elementos

chamativos ao consumidor. "Is-

JUNHO/12

to é diferencial e carrega valor", diz.

A curiosidade do brasileiro sobre

as cervejas especiais despertou o

interesse também por marcas internacionais.

Apesar disso, Falconi não

considera o avanço das importadas

uma ameaça, já que elas não só ajudam

a esclarecer o público sobre as

peculiaridades das cervejas especiais

como servem de parâmetro de

avaliação para as especiais nacionais,

que em nada deixam a desejar,

garante ele.

Três fatores seriam os verdadeiros

entraves para o desenvolvimento

do setor: o primeiro seria a pesada

carga tributária e o empresário

engrossa o coro da maioria, argumentando

ser injusto as microcervejarias

não serem enquadradas no

Simples Nacional em virtude da

“Se a carga tributária não mudar, o

Brasil será o único país onde as

microcervejarias não deram certo”,

afirma Alexandre Bazzo, da

Bamberg

17


Da esq. p/ dir.: Marco Falcone, da Falke Bier e os sócios e irmãos

Juliana e Ronaldo

classificação "bebida alcoólica". O

segundo é a própria cultura cervejeira

brasileira, que ainda é muito restrita

e está diretamente ligada ao terceiro

fator: o monopólio estabelecido

pelas grandes cervejarias, que

impede as pequenas de entrarem em

determinados pontos de venda.

Mesmo assim, as cervejas especiais

continuam cada vez mais aclamadas

pelos consumidores e é justamente

isso que tem garantido a sobrevivência

das pequenas cervejarias. E

o otimismo deve se manter em 2012.

"O mercado de microcervejarias nun-

ca esteve tão em alta. A cada dia mais

pessoas procuram as cervejas especiais

e sempre trazem outras agregadas,

valorizando e aumentando o número

de consumidores", destaca.

Nos últimos anos, a Falke Bier

manteve o crescimento médio de

15% ao ano e entre as cervejas mais

procuradas da marca estão a Estrada

Real India Pale Ale, a Monasterium,

a Falke Ouro Preto e a Falke

Diamantina.

Por conta da diversificação no

portfólio (são sete rótulos e mais três

estilos de cerveja em barril), a Falke

Bier trabalha no limite da capacidade,

atualmente de 10.000 litros/mês,

mas a empresa já desenvolveu um

projeto de expansão que prevê duplicação

da capacidade produtiva e

uma nova unidade. Apesar da fase

de mudança - não devem ocorrer

lançamentos este ano - Falcone conta

que houve renovação do distribuidor

em São Paulo, ainda a principal

área de atuação, o que demonstra

crescimento. A partir da segunda

unidade, a cervejaria pretende turbinar

sua distribuição e estabelecer

novas parcerias no País.

Pensando

como as grandes

Em 2011, o mercado cervejeiro

brasileiro foi marcado por mudanças

rápidas e frequentes, como fusões,

aquisições e até a confirmação de

que o perfil sensorial do consumidor

realmente já não é o mesmo.

Neste novo cenário, as microcervejarias

têm papel fundamental, pois

estão alinhadas com novas formas

de consumo.

18 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


JUNHO/12

PAKMATIC

19


Para Edite Bazzo, proprietária da

Cervejaria Burgman, elas são as responsáveis

por difundir os diversos

estilos de cerveja, ampliando o leque

de opções para o consumidor, que

já percebeu que não existe somente

a clássica pilsen. "O número de rótulos

que encontramos hoje é superior

há alguns anos. Com as microcervejarias,

o consumidor está aprendendo

não só a beber menos, mas a beber

melhor", afirma.

Embora as grandes indústrias ainda

dominem o mercado cervejeiro,

a atuação destes conglomerados

acaba impactando positivamente to-

do o setor de bebidas, já que as fusões

possibilitam aberturas de novos

mercados, na avaliação dela.

Além disso, há um consenso sobre

as oportunidades que surgem a partir

do interesse do consumidor pelas

cervejas especiais, o que tem

motivado grandes empresas a apostarem

no segmento Premium, o que

abre caminho também para os rótulos

das cervejarias menores.

A única ressalva é quanto à competitividade:

com o mercado aquecido,

sai na frente quem atua há mais

tempo, pois tem grandes chances

de ter sua marca mais conhecida pelo

consumidor, enquanto quem ingressar

agora terá que investir em

diferencial competitivo. Por outro lado,

tem mais chance de se manter

no mercado quem estiver devidamente

preparado para atender aos

anseios do consumidor. De uma forma

ou de outra, não vale se intimidar

diante das grandes cervejarias,

aconselha Edite. "Pagamos impostos

iguais, então temos que pensar

como elas".

Com dificuldade em investir em

segmentação, as microcervejarias

dão um passo de cada vez, apostando

mais em aumento de demanda

a partir do reconhecimento das

marcas em locais de consumo - a

maior parte foca em conseguir novos

distribuidores e atender grandes

redes de autoserviço. Embora o mercado

paulista seja o que mais cresce,

seguido de perto pelo mineiro

(também reduto de microcervejarias),

a aposta de muitas cervejarias

menores tem sido o Rio de Janeiro,

caso da própria Burgman.

"Atualmente, o Rio de Janeiro é a

'menina dos olhos' de muitas cervejarias.

Nosso volume de vendas lá

aumentou muito e, seguindo essa

experiência de mercado, focaremos

em novos distribuidores. O cliente

B2B não quer mais ficar preso às

grandes cervejarias, que exigem diversas

coisas para vender uma caixa

de cerveja", argumenta.

A questão do preço alto, tão alardeada

como fator impeditivo para

vendas, é um fator relativo, segundo

a empresária. Como o brasileiro

ganhou poder de compra, dinheiro

não é mais problema e a questão

agora é quanto às informações sobre

o assunto, associadas às próprias

prioridades do consumidor. Isso

explica, por exemplo, a boa performance

em algumas regiões de

baixa renda, que mesmo sem muita

tradição mantém estabelecimentos

especializados em cervejas especiais

e registram aumento no consumo.

"O brasileiro está mais informado

sobre o que está consumindo, do

que é feita a cerveja que está no seu

copo - e se quer aquilo ou não. Preço

todas têm, valor agregado somente

algumas".

Com capacidade para mais de

100.000 litros/mês, mas ainda sem

utilizá-la por completo, em 2011, a

Burgman manteve-se atenta à chegada

de novos produtos e estabeleceu

metas para não perder espaço

para a concorrência. Focou em ações

de trade, especialmente o staff interno

e externo, bem como o cliente final,

investindo cerca de R$ 300 mil

em projetos de mídia. Em 2012, o

foco são ações in loco, além da intensificação

da atuação na capital

paulista, por meio de novos distribuidores,

além de atuar em pontos

estratégicos com distribuição de

chope delivery.

20 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


Das Bier: expectativa de crescer até 20% em 2012

onalmente e outras que investem no

fornecimento regional. O mesmo

ocorre quanto à decisão de abrir filiais,

estratégia que facilita a logística

e leva a marca a diferentes mercados,

mas que é desafiadora em virtude

da necessidade de padronização.

"Sendo um produto artesanal,

demanda investimentos e custos

muito altos".

Com expectativa de crescer entre

15% e 20% em 2012 e mantendo

um público-alvo regional, a Das Bier

tem como carro-chefe do portfólio o

chope pilsen, seguido do chope weizen

(de trigo e que segue a tradição

alemã, em especial da região da Bavária),

pelo qual a cervejaria recebeu

menção honrosa na South Beer

Cup durante o Festival da Cerveja

de Blumenau (SC). "Foram criadas

nos primeiros anos de atividade da

cervejaria e sofreram pequenos ajustes

de paladar para se adaptar ao

consumo", esclarece Schmitt.

Sendo um produto perecível de

shelf life curto, a maior preocupação

no fornecimento de chope é quanto

à logística, o que demanda muito

planejamento envolvendo as entregas,

para que os clientes não fiquem

sem o produto e para que o mesmo

chegue com qualidade. "Na maioria

das vezes, chega em barris e conforme

o volume produzido", conta.

Para ele, as microcervejarias investem

pouco em marketing, um

erro, já que a divulgação da marca

e dos produtos é fundamental para

garantir a sobrevivência das cervejarias

menores. Mesmo sendo tão

difícil enfrentar as campanhas de

marketing das grandes indústrias

com menos recursos, sem uma divulgação

adequada o consumidor

sequer tem chance de conhecer a

cervejaria e/ou os produtos que ela

oferece. Nesse sentido, um importante

passo ocorreu com a inclusão

das microcervejarias na Oktoberfest,

considerado o maior evento

cervejeiro do País.

“É preciso se aproximar do consumidor

e mostrar por que ele deve

escolher sua marca. A fidelização do

consumidor leva à criação de novos

consumidores dentro de seu círculo

de amizades e assim por diante”.

Criatividade em alta

Em março deste ano, a Brewers

Association (BA) dos EUA divulgou

dados relativos a 2011, sobre a indústria

cervejeira americana. Os

cervejeiros artesanais representaram

5,68% do volume do mercado de

cerveja dos EUA , em 2011, em comparação

com os 4,97% registrados

em 2010. Enquanto o mercado de

cervejas em geral sofreu uma diminuição

do volume de 1,32% em 2011,

as cervejas artesanais tiveram um

crescimento significativo, ultrapassando

os 5% do volume total do

mercado pela primeira vez. O número

de microcervejarias/brewpubs em

operação já chega a 2.000.

No Brasil, só agora o consumidor

está desenvolvendo o gosto por

cervejas especiais, movimento que

teve início na década de 1990, mas

que ganhou musculatura a partir de

2005. Atualmente, o mercado brasileiro

detém 175 microcervejarias

registradas no país, localizadas principalmente

no Sul e Sudeste. Na

avaliação de Katia Jorge, cervejeira,

sommelier e vice-presidente da Associação

Brasileira dos Profissionais

em Cerveja e Malte (Cobracem), o

setor está encerrando uma década

de ‘renascimento das cervejas artesanais

no Brasil, o que, se por um

lado demonstra o potencial de mercado,

ainda é pouco se avaliado no

contexto internacional.

Apesar disso, Katia prefere não

comparar o mercado brasileiro com

No Brasil, o setor está

encerrando uma década

de renascimento e está

mais maduro, Kátia

Jorge, da Cobracem

22 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


outras economias e diz que são histórias

e mercados muitos diferentes.

Países como Bélgica, Holanda, Alemanha

ou EUA são tradicionais na

cultura cervejeira e têm cervejarias

muito dinâmicas e inovadoras. No

caso dos Estados Unidos, o perfil

do consumidor e os incentivos fiscais

foram fatores que fizeram diferença,

beneficiando o crescimento.

"Os cervejeiros artesanais e os

consumidores norte-americanos fizeram

realmente uma revolução por lá,

e eu acredito que aqui no Brasil

estamos fazendo essa revolução

agora, no tempo certo, num momento

de amadurecimento do mercado",

diz. O diferencial do mercado brasileiro

é a criatividade, apontado por

Katia como o ponto alto de quem

investe. "É possível encontrar fórmulas

nacionais com os mais diversos

ingredientes e processos".

O momento atual é crucial para

um desenvolvimento sustentado,

garante ela, pois requer avaliações

cuidadosas na escolha de qual estratégia

deve ser adotada para o produto

avançar no mercado e se conso-

JUNHO/12

lidar de vez. Para isso, muitas microcervejarias

estão procurando unificar

mais o segmento, tanto para fortalecê-lo

quanto para vencer os empecilhos,

inclusive em prol de interesses

comuns, como a incessante

luta para alteração na tributação e

agilidade na obtenção de licenças

necessárias às operações fabris.

No entanto, cada fabricante ainda

precisa encontrar sua própria forma

de atrair o consumidor. E aí vale

usar todas as armas possíveis, da

participação nos diversos eventos

cervejeiros do País, até ficar em evidência

e aproveitar a crescente onda

de blogs e sites sobre cervejas. O

interesse do consumidor pelo assunto

também resultou em inúmeros cursos

e palestras, que vão de temas

simples como a harmonização até

técnicas para aprender a fazer cerveja

em casa, especialização como

sommelier de cervejas e formação

acadêmica em cervejaria.

Os eventos específicos para a categoria,

aliás, vem chamando a atenção

dos consumidores a cada edição.

Além da tradicional Brasil Brau,

realizada pela Cobracem, há também

a Degusta Beer, além de diversos

outros eventos destinados a expor

mais o universo cervejeiro, inclusive

divulgando cervejeiros caseiros.

"As cervejas especiais estão associadas

ao prazer do consumo, e

não ao volume. Como recai uma carga

tributária enorme sobre as microcervejarias

- além da logística de distribuição

individual -, algumas cervejas

chegam ao consumidor com preços

altos, mas a margem de lucro

do produtor ainda é baixa", revela,

ressaltando que a meta é a otimização

de toda a cadeia, obtendo lucros

satisfatórios para o fabricante e um

preço justo para o consumidor.

23


QUALIDADE

QUALIDADE

Dos tubos de

ensaio para o copo

24 _www.engarrafadormoderno.com.br Engarrafador Moderno


JUNHO/12

Fabricantes de bebidas investem em

modernas técnicas de análises

para garantir qualidade

e segurança ao consumidor

A

Por Nani Soares

complexa arte de transformar matérias-primas

em bebidas de qualidade

e ainda garantir a padronização

dos produtos em diferentes unidades

fabris é um desafio para qualquer

fabricante. Entre os mecanismos

que garantem a eficiência dos

processos produtivos está a análise

técnica de bebidas, sistema que

se firmou como a melhor alternativa

para garantir a qualidade do produto

acabado, que deve chegar ao

mercado com suas características

preservadas.

As técnicas variam conforme cada

bebida e precisam estar rigorosamente

dentro dos padrões estabelecidos

pela legislação. Assim, mais

do que conhecimento técnico sobre

processos típicos de cada uma, como

destilação, fermentação, maturação

e carbonatação, bem como diversas

outras reações químicas, as

empresas precisam investir em sistemas

eficientes de verificação e checagem

de todas as etapas que envolvem

o processo produtivo.

Um produto como a água, que

tem como principal atributo a potabilidade,

aparentemente demandaria

um processo mais simples do que

as outras bebidas, mas a realidade

está longe disso. Entre outras análises,

estão técnicas avançadas e fundamentais,

como a avaliação de

agentes biológicos patogênicos e a

presença de substâncias tóxicas que

podem comprometer as propriedades

organolépticas, como as orgânicas

ou minerais em excesso.

Controles sistemáticos de avaliação

da qualidade da água são fundamentais

para garantir a segurança

do consumidor. Para isso, as empresas

investem em análises físicoquímicas

e microbiológicas determinadas

pelos órgãos oficiais, como a

25


Organização Mundial de Saúde

(OMS), Departamento Nacional de

Produção Mineral (DNPM) e a própria

Agência Nacional de Vigilância

Sanitária (Anvisa). No entanto, muitas

preferem se respaldar por meio

das certificações emitidas por órgãos

específicos e internacionais,

como a United States Food and Drug

Administration (FDA), agência que

administra drogas e alimentos nos

Estados Unidos, reconhecida e aceita

mundialmente.

Foi com base nos rigorosos critérios

estabelecidos pelas FDA que o

Grupo Edson Queiroz resolveu realizar

as análises laboratoriais de seus

produtos. As empresas Indaiá e Minalba,

pertencentes ao grupo, utilizam

equipamentos de monitoramento

com a técnica ATP (bioluminescência),

além de técnicas

rápidas também para

Grupo Edson Queiroz:

monitoramento por

bioluminescência e substratos

cromogênicos

26 _www.engarrafadormoderno.com.br

identificação de microrganismos,

como os substratos cromogênicos,

que possibilitam redução no tempo

de liberação dos resultados.

Ambas adotam o programa de

certificação de qualidade de bebidas

da National Sanitation Foundation

(NSF), organização líder em segurança

alimentar e proteção da saúde

pública nos Estados Unidos, reconhecida

pela FDA e pela OMS, e

homologada pelo American National

Standards Institute (ANSI) e pelo

Standards Council of Canada (SCC).

A fim de garantir o cumprimento

dos requisitos estabelecidos pela

NSF, são realizados testes dos produtos

acabados e inspeções in-loco

anuais para checagem do sistema

de gestão de qualidade, sistemas

de gestão de segurança de alimentos

(Boas Práticas de Fabricação e

APPCC), gestão do processamento

de bebidas e segurança e proteção

de alimentos. Foi a adoção destes

mecanismos que garantiu aos produtos

Indaiá/Minalba serem aceitos

em toda a América do Norte.

"Os métodos de análise estão cada

vez mais práticos e simples, com

resultados mais rápidos, precisos e

com menor custo, fato extremamente

importante na cadeia produtiva,

pois tem como vantagem a redução

no tempo de retenção dos produtos

na indústria", explica Francisco Sales,

superintendente de Águas do

Grupo Edson Queiroz.

Ele destaca os luminômetros (medidores

de ATP) e cromatógrafos

como equipamentos de ponta para

a análise da água. Considerados

rápidos, simples e confiáveis, os luminômetros,

por exemplo, são indicados

para verificar a eficiência do

processo de higienização e mostra

os resultados em apenas 15 segundos.

Com isso, é possível identificar

rapidamente as áreas com problemas

e fazer o rastreamento dos

resultados.

Além de respostas rápidas,

Sales afirma que a evolução dos

equipamentos permitiu redução nos

custos, simplicidade nas atividades

e facilidade de leitura e interpretação

dos resultados. Alguns ainda

agregam outras vantagens, como

maior sensibilidade e especificidade

em relação aos equipamentos e

métodos tradicionais. "Todo o processo

deve ser monitorado desde a

extração da água ao produto embalado",

conta.

A automação também é outro

importante mecanismo na eficiência

dos processos de monitoramento de

qualidade, com o menor consumo de

energia e matérias-primas, além de

ser uma aliada no cumprimento dos

padrões estabelecidos para o processo

e/ou produto. "Permite detectar

e corrigir com rapidez os desvios

que possam ocorrer durante o

processo. Fazemos uso de sistemas

de detecção de metais de alta sensibilidade

e de controladores de

peso", diz, ressaltando que os diagnósticos

devem ser precisos e

confiáveis, já que falhas podem causar

prejuízos à saúde do consumidor

e comprometer a reputação da

empresa.

Padrão europeu

Resultado da fermentação alcoólica

de uma fórmula composta por

água, cevada e lúpulo, a cerveja é

outro produto que requer um acompanhamento

rigoroso de qualidade.

Conhecida pela excelência nos processos,

a Heineken mantém um mi-

Engarrafador Moderno


nucioso programa de calibração dos

equipamentos, além de realizar treinamentos

específicos da equipe técnica

e validar os resultados diretamente

no laboratório central da cervejaria,

na Holanda, para o qual são

enviadas mensalmente amostras específicas

de verificação.

Todas as análises padrões de

acompanhamento e desenvolvimento

dos processos de produção de

cerveja são realizadas internamente

por meio de técnicas como a cromatografia

gasosa, iônica e líquida,

estectrofotômetria automática e a absorção

atômica. "Antigamente tínhamos

medições analógicas, hoje temos

digital. Esta mudança foi um

avanço muito significativo na evolução

dos equipamentos. De uma maneira

geral, acreditamos que a principal

contribuição é com relação ao

JUNHO/12

tempo e a precisão, ou seja, resultados

estão mais rápidos e confiáveis",

explica João Arizono, diretor

de Suporte e Engenharia da Heineken

Brasil.

Por ser um processo que depende

de muitas variáveis, a fabricação

da cerveja requer cuidados criteriosos

quanto ao controle e monitoramento

por meio das análises físicoquímicas,

já que inúmeros problemas

podem ocorrer ao longo do processo

de produção.

Arizono conta que a Heineken

aprimorou ainda mais o monitoramento

das concentrações de metais

“Os resultados de análises estão

cada vez mais rápidos e

confiáveis”, João Arizono,

diretor da Heineken Brasil

27


pesados, pesticidas e microtoxinas,

item que ainda demanda

atenção especial.

Embora sem revelar valores,

o executivo garante que

os recursos investidos pela

Heineken em pesquisa, desenvolvimento

e inovação são

vultosos, já que além de garantirem

a qualidade dos produtos,

são fundamentais para

a padronização das cervejas.

Como a maior parte das cervejarias,

a empresa trabalha

com padrões de medidas internacionais,

alguns desenvolvidos

para áreas específicas,

como a EBC, responsável

pela cor da bebida. "Todas

as análises são muito importantes

para nós, pois até

a análise mais simples pode

revelar alterações no processo

de produção", reforça.

Performance e

confiabilidade

Líder de mercado

ao lado da AmBev,

(ambas detém cerca

de 80% do

mercado), a Coca-Cola

estima

investir R$ 11 bilhões

no mercado

brasileiro entre 2010

e 2014. Com cerca

de 150 produtos no

portfólio, incluindo

sucos e refrigerantes,

os investimentos

no Sistema Coca-

Cola por aqui já somaram

mais de R$ 8

bilhões nos últimos

seis anos.

Celise Ritto, da Femsa: laboratórios

terceirizadosos homologados pela matriz

americana

O processo de controle de refrigerantes

também é rigoroso, envolvendo

desde análises sensoriais, microbiológicas

até físico-químicas, pelos

quais são checados aspectos como

turbidez, acidez, dosagem de açúcar

ou edulcorantes. Já na fase final,

são avaliados aspectos como cor,

brix (concentração) e a carbonatação.

Para seguir à risca o protocolo determinado

pela The Coca-Cola Company

(TCCC), a Coca-Coca FEMSA

Brasil optou por realizar ela mesma a

maior parte dos testes de processos

e produtos. Testes em laboratórios

terceirizados só são realizados como

adicionais e/ou complementares em

determinados casos e mesmo assim

só podem ser feitos em laboratórios

reconhecidos e homologados pela

TCCC, que compara sistemicamente

o nível de qualidade das unidades produtoras.

Os programas complementares

acontecem paralelamente aos

programas analíticos internos,

sem interferir no andamento dos

processos ao longo das produções.

Outra característica do sistema

Coca-Cola é a avaliação

constante de quais áreas e setores

demandam mais investimentos,

o que inclui as análises

laboratoriais. Através do

Sistema de Gestão Integrado

implementado e certificado nas

unidades fabris, determina-se

a organização dos níveis de

padronização requeridos inclusive

a níveis laboratoriais.

"Trabalhamos com ferramentas

da qualidade para identificar

as oportunidades de melhoria

contínua nos processos e implementá-las

de forma sistêmica,

buscando níveis de excelência

desejados pelos nossos

consumidores", afirma Celise Ritto,

gerente de Qualidade e Meio Ambiente

da Coca-Cola FEMSA Brasil.

Um problema muito comum nas

linhas de enchimento de alguns refrigerantes

é a formação de espuma

durante o processo. A utilização cada

vez maior de ingredientes naturais

(sensíveis à oxidação) nas composições

ainda não é um problema,

mas também pode significar alguns

entraves. Para Celise, o resultado final

de cada produto acaba diretamente

ligado à performance e

confiabilidade dos equipamentos e

as análises devem constatar a representação

mais provável do resultado

especificado, sendo capazes

de identificar situações de desvio no

processo produtivo.

Na FEMSA, só depois de identificar

as características intrínsecas do

produto ao longo das etapas (no pro-

Engarrafador Moderno


cesso e na cadeia), é que são avaliadas

as necessidades de implantação

de novas tecnologias, seja para

otimizar a produção ou simplesmente

para atender algum ponto específico

que precisa ser corrigido.

"A tecnologia tem apoiado de forma

positiva para que as análises tenham

maior nível de confiança baseado

em equipamentos de maior

exatidão e precisão. Pode-se citar

uma análise simples que é a determinação

do nível de acidez de uma bebida.

Para realizar este processo de

análise, dispomos de equipamentos

automatizados, mais avançados para

titulometria", afirma ela.

Desafio na padronização

Integrante da divisão de sucos da

The Coca-Cola Company, a SAAB Coca-Cola

realiza controles e análises

JUNHO/12

ao longo de toda a cadeia produtiva

- do início do recebimento das matérias-primas,

passando pela elaboração

do produto até o produto

acabado. Dentre

as várias técnicas estão

os equipamentos

"in-line", que analisam

o produto durante o

próprio processo. Para

garantir a padronização,

são usados equipamentos

como espectrofotômetros,densímetros

digitais de última

geração e BactAlert,

entre outros.

"Esses equipamentos

são mais confiáveis e

mais eficientes. Hoje podemos ter

uma frequência maior de análises

com maior confiabilidade. Ano após

ano, estamos investindo em tecnologia

e buscando aumentar a confiabilidade

e a eficiência dos controles",

afirma Vinícius Guimarães

Faleiro, Gerente Corporativo

de Qualidade em

SGI (Sistema de Gestão

Integrado) da SAAB.

As análises de controle

de qualidade do produto,

tanto em processo

como acabado, são realizadas

na própria empresa,

por meio de um

acompanhamento contínuo.

Os equipamentos

"in-line", por exemplo, permitem

um monitoramento

de 100% do processo no

qual estão instalados, impedindo que

o produto chegue ao mercado com

as características alteradas.

29


Laboratório da Vinícola Salton: equipamentos importados e check-up mensal do produto em cada recipiente

"Somente algumas análises específicas,

como a de água, é feita em

laboratório externo", reitera ele.

No caso dos sucos de frutas, o

erro mais comum é na formulação, por

isso é fundamental análises de concentração

do produto, bem como acidez,

análise sensorial, de cor e análise

microbiológica, entre outras. "Esse

erro de formulação poderia levar a

um produto desbalanceado, com suas

características originais alteradas, tais

como odor e sabor, levando ainda a

um produto com concentrações diferentes,

mais diluídas ou mais concentradas",

explica Faleiro.

No caso das fabricantes que trabalham

com grandes volumes e que

são obrigadas a manter a padronização,

as análises servem para acompanhar

e garantir o cumprimento das

30 _www.engarrafadormoderno.com.br

especificações pré-determinadas do

produto, segundo ele. A coisa fica

ainda mais complicada quando a

matéria-prima é tão suscetível à variações

naturais, como as frutas, fator

que o executivo classifica como

o maior desafio na padronização da

bebida.

Check-up para

evitar bebida doente

Lucindo Copat, diretor-técnico e

enólogo da Vinícola Salton, explica

que no caso do vinho o processo é

delicado, pois a bebida é orgânica

e qualquer alteração pode deixá-la

"doente". Assim, a qualidade de um

vinho é resultado de uma força-tarefa

que envolve conhecimento técnico

e sensorial, e tecnologia de ponta.

Ou seja, é preciso profissionais

especializados e com o devido conhecimento

sobre a bebida (como

os enólogos, responsáveis por inúmeras

degustações, que visam avaliar

as propriedades organolépticas),

bem como o monitoramento de todo

o processo, que deve ser feito por

meio de equipamentos avançados.

"Como o vinho é uma bebida viva,

fazemos uma vez por mês um checap

em cada recipiente (barricas).

Assim, intensificamos a qualidade

do produto que será consumido posteriormente",

diz.

A Salton mantém laboratório próprio,

mas investiu também nos modernos

Wine Scan e Fiaastar, importados

da Dinamarca, para auxiliar na

obtenção de análises laboratoriais

precisas, otimizando o tempo dos

processos de qualificação. O primeiro

Engarrafador Moderno


é um software que faz uma espécie

de varredura no vinho, avaliando inclusive

a quantidade de dióxido de

enxofre, enquanto o segundo faz análises

químicas automáticas, podendo

analisar até 50 amostras por hora.

"Esses equipamentos têm uma

precisão muito grande. No começo

dos processos era possível fazer apenas

análises qualitativas, mas atualmente

é possível fazer análises quantitativas,

em miligramas, por exemplo.

Hoje os aparelhos são extremamente

sofisticados, movidos por correntes

de energia regulares, tudo com

muita precisão", diz, ressaltando que

esse tipo de tecnologia possibilita que

os dados sejam inseridos no sistema

sem precisar digitá-los, sendo armazenados

automaticamente no banco

de dados da vinícola e podendo ser

rastreados com facilidade.

JUNHO/12

Na avaliação do enólogo, as vinícolas

têm incorporado a evolução da

ciência e tecnologia em seus processos,

garantindo novas práticas enológicas

e análises precisas. Sem revelar

o montante destinado a este

fim, ele garante que a Salton está

atenta a esse movimento e investe

constantemente em melhorias e pesquisas

para preservar a qualidade

da bebida. "Para um futuro próximo

estamos estudando a inclusão de

cromatografia, fase líquida e fase gasosa

e espectrofotometria", conta.

Prevenir para

não remediar

Para Pedro Paulo Moretzsohn de

Mello, especialista em Alimentos e

Bebidas do Centro de Tecnologia

SENAI Alimentos e Bebidas do Rio

31


de Janeiro, o setor de bebidas

está passando pelo fenômeno

da diversificação, o

que garantiu o ingresso e/

ou o fortalecimento de certas

categorias, como bebidas

à base de frutas, energéticos,

bebidas lácteas e

à base de soja. O resultado

foi uma necessidade crescente

de monitoramento dos

processos e controle de qualidade

das matérias-primas,

insumos e produto acabado,

como forma de preservar

a integridade e segurança

do consumidor.

Atualmente, é comum o

uso de cromatografias gasosas

e líquidas de alto desempenho,

por exemplo,

nos segmentos de cervejaria

e destilados, bem como

de espectroscopia de absorção atômica

para análise de metais dissolvidos

em água. Surgiram também técnicas

avançadas, como a de titulação

de partículas carregadas/ partículas

coloidais, bem como novos

equipamentos (que determina o tamanho

de partículas coloidais, ou nanopartículas

por eletroforese) e até

um aparelho que determina a permeabilidade

de containers e garrafas

plásticas, sem destruir ou invadir

a embalagem, foi lançado há pouco

tempo.

O mesmo acontece quanto aos

controles microbiológicos, nos quais

a preferência é por técnicas de respostas

rápidas: kits rápidos de DNA

para identificação de bactérias lácticas

(espécies dos gêneros Lactobacillus,

Pediococcus e Leuconostoc),

leveduras selvagens e outros

microrganismos deteriorantes de alimentos

e bebidas em até três ho-

32 _www.engarrafadormoderno.com.br

Cris Berger

Lucindo Copat, da Salton: “Os equipamentos

atuais são sofisticados e movidos por correntes

regulares, tudo muito preciso”

ras, após cultivo em caldo ou em placa

específicos para cada microrganismo.

O Kit rápido PCR para isolamento

e kit rápido para a detecção

de bactérias e leveduras contaminantes

de bebidas também são muito

utilizados.

"Em virtude dos controles cada

vez mais restritivos, o controle analítico

de processo é uma realidade,

mesmo em empresas de pequeno

porte. Normalmente, empresas de

grande porte possuem uma central

analítica corporativa extremamente

bem aparelhada, na qual é feito o

controle e validação de matérias-primas,

insumos e produto acabado.

Em geral, as demais unidades do

grupo cuidam dos controles mais

simples e do dia a dia de processo.

Já em empresas de médio e pequeno

portes é comum a terceirização

das análises mais complexas, utilizando

laboratórios particulares",

observa, José Gonçalves Antunes,

especialista em Serviços

Tecnológicos do CTS / Senai.

Como cada bebida apresenta

seu próprio padrão de identidade,

as análises são necessárias

para garantir a qualidade

em cada uma das categorias.

No caso das cervejarias, a

preocupação é em relação a fatores

como teor de oxigênio no

produto, nível de carbonatação,

estabilidade de espuma, teor alcoólico,

amargor, coloração e

nível de diacetil, entre outros.

Já para os fabricantes de refrigerantes,

a atenção redobrada

é quanto ao brix do produto, sua

acidez e conteúdo de conservantes.

"O conjunto de análises

necessárias para garantir a qualidade

de uma bebida ocorre

em função direta de sua regulamentação

legal e das variáveis chaves

na garantia da qualidade sensorial

do produto ao longo de todo o

seu shelf-life".

Caso ocorra falhas em alguma etapa

do processo e sendo a mesma

detectada ainda na unidade fabril, o

estrago não é tão grande. Geralmente,

cada empresa tem um procedimento

padrão, mas os caminhos

usualmente adotados são o reprocessamento

ou mesmo o descarte

do produto ou insumo inadequado.

O mais grave, na avaliação de Gonçalo,

é quando o problema só é diagnosticado

quando o produto já está

no mercado. Além de procedimentos

complexos e dispendiosos de recall,

normalmente há fortes danos à

marca. "Já foram relatadas situações

extremas, onde falhas no controle de

qualidade levaram à morte de consumidores",

conclui Antunes.

Engarrafador Moderno


LÁCTEOS

LÁCTEOS

Oportunidade

à vista

38 _www.engarrafadormoderno.com.br

Consumidores de baixa renda são a

próxima grande oportunidade para a

indústria de laticínios

Da Redação

Engarrafador Moderno


As perspectivas para o mercado lácteo

no Brasil são bastante otimistas,

com projeção para aumento na produção

de leite, passando de cerca

de 31 bilhões de litros produzidos

em 2011 para algo em torno de 32,3

bilhões de litros neste ano.

Uma nova pesquisa da Tetra Pak,

líder mundial em soluções para processamento

e envase de alimentos,

identifica que 2,7 bilhões de novos

consumidores serão a próxima grande

oportunidade de mercado para a

JUNHO/12

indústria de laticínios. Essa expectativa

surge da população de baixa renda

que deve emergir nos países em

desenvolvimento, graças ao esperado

aumento da prosperidade, do

poder de compra e do desejo de consumo

de produtos lácteos líquidos.

De acordo com o estudo Tetra Pak

Dairy Index - que acompanha em todo

o mundo fatos, números e tendências

na indústria de laticínios - o consumo

de lácteos da população de baixa

renda em mercados em desenvolvimento

deve aumentar de 70 bilhões

de litros em 2011 para quase 80 bilhões

de litros em 2014. Muitos destes

consumidores passarão a comprar

o leite embalado, ao invés do leite cru.

Segundo Dennis Jönsson, Presidente

e CEO da Tetra Pak, os consumidores

de baixa renda representam

quase 40% da população mundial e,

além de viverem em economias que

impulsionam o crescimento da indústria,

o poder aquisitivo dessa classe

está aumentando. “Isso representa

uma das maiores oportunidades de

crescimento para a indústria láctea e

a chave para o sucesso de amanhã

está em atingir esses consumidores

hoje”, defende Jönsson.

Atualmente estes consumidores

têm uma renda média de US$ 2 a US$

8 por dia e são virtualmente inalcançados

pelos produtores de lácteos.

Chamados pela Tetra Pak de “consumidores

do meio da pirâmide” –

ou Deeper in the Pyramid (DIP), em

inglês - representam cerca de 50%

da população dos países em desenvolvimento

e consomem 38% dos

produtos lácteos líquidos. Metade destes

consumidores DIP vivem na Índia

e na China. A pesquisa da Tetra Pak

foi focada em seis países, que representam

mais de 76% do consumo

dos produtos lácteos líquidos destes

consumidores na Índia, China, Indonésia,

Brasil, Paquistão e Quênia.

39


Muitos destes consumidores DIP

devem ter melhor renda, passando

da classe baixa para a média até o

final da década, aumentando seu poder

de compra e a gama de produtos

que compram. O aumento do poder

aquisitivo vem acompanhado de

uma maior consciência da segurança

alimentar e a busca por conveniência,

de produtos prontos para beber,

o que deverá aumentar a demanda

por produtos embalados.

A população mundial DIP deverá

cair a uma taxa composta anual de

3% de 2009-2020. A população que

vive com mais de US$ 8 por dia deverá

crescer 4% anualmente (CAGR),

de acordo com a Boston Consulting

Group, que ajudou a Tetra Pak a desenvolver

a classificação DIP.

De acordo com Jönsson, os consumidores

de baixa renda de hoje

são a classe média de amanhã.

“Consideramos que esta é uma oportunidade

de ouro para os produtores

de lácteos cultivarem a lealdade

desta parcela da população e criarem

uma nova geração de consumidores

de lácteos nos países em

desenvolvimento”, afirma.

A Tetra Pak identificou que os laticínios

devem superar três desafios

fundamentais. Desde já, os produtos

devem ser economicamente acessíveis,

atraentes e estarem disponíveis

para os consumidores com rendas limitadas.

Isso significa que as indústrias

de lácteos devem oferecer produtos

saudáveis, seguros, nutritivos

e embalados, sem adição de custos

insustentáveis. Eles também devem

disponibilizá-los em pequenas lojas

tradicionais em áreas rurais remotas

ou em cidades congestionadas, onde

os consumidores DIP compram.

Inovação e eficiência serão soluções

vitais para ajudar a indústria a

desenvolver produtos, embalagens e

40 _www.engarrafadormoderno.com.br

processamento para atender às necessidades

desses consumidores de

baixa renda, de acordo com o relatório.

"Temos de desenvolver produtos

de maneira diferente, distribuí-los e

vendê-los de forma diferente para aumentar

a disponibilidade de uma boa

nutrição nos países em desenvolvimento",

afirma Jönsson.

A Tetra Pak identificou algumas

maneiras de tornar os produtos mais

acessíveis. Dentre elas está a mudança

na forma como os produtos

lácteos e as embalagens são desenvolvidos.

É possível utilizar, por exemplo,

alternativas ao leite integral, como

o soro de leite ou ácido lácteo, na

produção de bebidas lácteas nutritivas

e saudáveis com menor custo.

Outra forma é reduzir o tamanho das

embalagens, ou optar por formatos

mais simples.

Descobrir maneiras de tornar os

produtos lácteos embalados amplamente

disponíveis aos consumidores

DIP é também um desafio. Cerca de

70% das compras deste público são

realizadas nos comércios tradicionais

e em pequenas lojas familiares. Para

atingi-los, as empresas estão chegando

de formas inovadoras e estão produzindo

localmente onde a demanda

por produtos lácteos líquidos em-

balados está crescendo. Além de

unir-se com os distribuidores que têm

um histórico de trabalhar com lojas

tradicionais, os fabricantes também

investem no uso dos transportes adequados,

como bicicletas, para distribuir

seus produtos.

Tornar os produtos atraentes para

os consumidores DIP, que se concentram

em oferecer o melhor para seus

filhos e, muitas vezes, reduzem outras

despesas antes de comprometer

a alimentação nutricional básica,

como leite, é o desafio final. De acordo

com o estudo, as empresas precisam

gerar vendas significativas para

alcançar as economias de escala necessárias

para fornecer melhor custo-benefício

e qualidade nutricional

para os consumidores DIP. Os fabricantes

precisam também criar

conscientização das suas marcas e

envolvimento para produtos destinados

às crianças que compram bebidas

lácteas e lanches com seu próprio

dinheiro.

Crescimento de lácteos

líquidos acelera

Ainda de acordo com a pesquisa,

a demanda por produtos lácteos

líquidos será acelerada até 2014, principalmente

pelo aumento do consumo

na Ásia, África e América Latina.

Este consumo global deve aumentar

cerca de 2,9% ao ano (CAGR) entre

2011 e 2014, liderado por uma forte

procura nos mercados emergentes.

O consumo de bebidas à base de

ácido láctico (LAD), leites infantis e leites

aromatizados deve crescer à rápidas

taxas. Os LAD que tendem a

ser bebidas acessíveis e preferidas

entre os consumidores DIP da Àsia,

devem crescer cerca de 11,9%

(CAGR), seguidos pelos leites infantis

9,0% (CAGR) e leites aromatizados,

com 4,8% (CAGR).

Engarrafador Moderno

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