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1 AS MONJAS BENEDITINAS: FÉ E ... - Itaporanga.net

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<strong>AS</strong> MONJ<strong>AS</strong> BENEDITIN<strong>AS</strong>: <strong>FÉ</strong> E RESISTÊNCI<strong>AS</strong> FEMININ<strong>AS</strong><br />

1 INTRODUÇÃO<br />

VANILDA SALIGNAC DE SOUSA MAZZONI 1<br />

Faculdade São Bento da Bahia<br />

vansalignac@ig.com.br<br />

A história da Ordem Beneditina está relacionada aos irmãos gêmeos<br />

italianos São Bento, considerado o Patriarca da Ordem, e Santa Escolástica,<br />

companheira dele na vida religiosa.<br />

Como nas biografias sacras, quase nada é conhecido sobre eles, a não ser<br />

algumas passagens citadas pelo Papa São Gregório Magno, um especialista e estudioso<br />

da vida dos santos. Ela e o irmão sempre foram muito unidos, principalmente pela<br />

vocação que ambos apresentaram desde cedo – embora sua vida consagrada a Deus<br />

tenha se iniciado antes do irmão, ela sentiu-se impelida a acompanhá-lo ao Monte<br />

Cassino, onde São Bento construiu o Mosteiro Monte Cassino, berço do monaquismo<br />

do Ocidente.<br />

Em Monte Cassino ele fundou uma congregação religiosa masculina; e ela,<br />

orientada pelo irmão gêmeo, abriu em Plombariola (a 7 km de distância) um mosteiro<br />

para mulheres, denominadas “Irmãs”, que se chamavam beneditinas por ter sido São<br />

Bento o inspirador. Surgiu, a partir daí, a Ordem das Beneditinas, que primava pelo<br />

rigor da clausura, penitência, trabalho, e foi fiel seguidora da regra criada por São Bento<br />

para a Ordem. Dessa forma, Santa Escolástica é considerada a primeira monja<br />

beneditina. As Regras para os dois Mosteiros eram as mesmas.<br />

Santa Escolástica e São Bento nasceram por volta de 480, em Núrcia, cidade<br />

situada no alto da montanha a nordeste de Roma, Itália. Eram filhos de pais oriundos de<br />

uma família abastada e convicta da formação cristã. Santa Escolástica faleceu em 10 de<br />

fevereiro de 547, aos 67 anos, e foi sepultada no túmulo que São Bento mandou<br />

construir para si no Mosteiro Monte Cassino. Quarenta dias depois, São Bento também<br />

faleceu. As relíquias de Santa Escolástica foram enviadas a Le Mans, França, para o<br />

Santuário da Igreja de São Pedro, na mesma época em que foram levadas as de São<br />

Bento, em 1562.<br />

Na arte sacra, a imagem de Santa Escolástica é de uma freira segurando um<br />

cajado na mão direita; e na mão esquerda, uma bíblia com uma pomba pousada em<br />

cima.<br />

Santa Escolástica não é considerada “fundadora” do mosteiro beneditino<br />

feminino por não ter criado uma Regra, e, conseqüentemente, nenhuma Ordem, ela foi<br />

uma seguidora de São Bento, assim como todas as monjas que entraram no mosteiro. As<br />

monjas não se vêem como “escolasticanas”, e sim “beneditinas”. Santa Escolástica<br />

apenas assumiu as regras, as normas de vida beneditinas.<br />

É imprescindível ter iniciado este artigo apresentando São Bento e Santa<br />

Escolástica, pois a fundação dos mosteiros beneditinos, seja masculino ou feminino,<br />

ocorreu por uma preocupação dos irmãos italianos com a vida contemplativa.<br />

É um assunto que passou a me interessar vida das monjas está A escolha do<br />

tema deu-se, primeiro, por se inserir nos estudos de gênero; segundo, o interesse pelas<br />

monjas beneditinas foi suscitado pelo mistério que envolve a vida religiosa<br />

1


contemplativa, além de representar o preenchimento de mais uma lacuna acerca da<br />

história das mulheres. Entretanto, outras inquietações foram surgindo: As Regras de São<br />

Bento são conhecidas por seu rigor na dedicação das orações e do claustro para o<br />

conhecimento interior, e as regras das monjas são as mesmas? Qual a diferença da vida<br />

entre o mosteiro feminino e masculino? Sabe-se que mosteiros sempre foram centros<br />

difusores de cultura e monopólio de ensino pedagógico, haja vista seus acervos<br />

bibliográficos, mobiliário, etc., e por que os mosteiros femininos sempre foram<br />

dedicados à função feminina de assistência social? Desde o século XII, por exemplo,<br />

nas grandes abadias germânicas e na região que atualmente corresponde à Bélgica já<br />

havia grupos de viúvas e mulheres solteiras da classe aristocrática que optavam pela<br />

vida ascética e longe dos prazeres mundanos; e pelo que se sabe, os mosteiros<br />

beneditinos apenas aceitavam mulheres em sua congregação que tivessem a vocação<br />

religiosa, muito diferente de outras congregações católicas, que a recebiam mesmo<br />

diante de suas repulsas pela vida eclesiástica, apenas pela imposição familiar, seria isto<br />

verdade? Como elas vivem hoje? O que pensam das conquistas femininas na<br />

contemporaneidade? Como o mundo laico é visto por elas?<br />

O método de pesquisa escolhido foi o comparativo, por permitir que dois<br />

momentos díspares pudessem ser correlacionados visando a responder aos<br />

questionamentos sobre a vida das monjas beneditinas. A técnica de pesquisa foi a<br />

entrevista e pesquisas bibliográficas. O objetivo geral é dar visibilidade à história das<br />

mulheres religiosas na Ordem Beneditina; e os específicos são fazer circular<br />

informações documentais de grande relevância e interesse para os estudos de gênero no<br />

Brasil; mostrar como vivem as monjas na atualidade.<br />

2 FORMAÇÃO E VIDA MONÁSTIC<strong>AS</strong><br />

No livro Pré-história das monjas da Congregação Beneditina do Brasil – de<br />

Stanbrooke, Inglaterra, a Santa Maria, Brasil, Madre Vera Lúcia Parreira Horta faz<br />

uma pergunta que, creio eu, norteia o trabalho de quem pretende estudar a vida das<br />

monjas beneditinas: “Por que os mosteiros beneditinos femininos só foram fundados no<br />

Brasil no século XX se os mosteiros masculinos já estavam aqui desde o século XVI?”.<br />

Segundo Azzi (1983), a resposta está nos tempos coloniais, pois a Igreja<br />

dependia das decisões da Coroa portuguesa e esta não favorecia a criação de conventos<br />

para impedir que a mulher branca vivesse no celibato, uma vez que a permissão levaria<br />

a uma onda de miscigenação entre os colonos e as africanas e indígenas que aqui se<br />

encontravam. Havia escassez de mulheres brancas até meados do século XVIII, e,<br />

segundo informações, as primeiras só chegarem ao Brasil após 1530. Obviamente esta<br />

não era a única medida tomada pelos colonizadores, também ocorria em grande número<br />

a chegada de órfãs portuguesas, que saíam de Lisboa do Recolhimento da Encarnação,<br />

visando ao casamento com esses colonos.<br />

Destarte, o primeiro Mosteiro Beneditino das Américas foi o Mosteiro de<br />

Santa Maria, em São Paulo, fundado em 1911 por um grupo de 3 monjas brasileiras<br />

(Irmã Gertrudes, Irmã Mectildes Gurjão e Irmã Plácida) e 3 monjas inglesas (Irmã<br />

Mectildes Knight, Irmã Domitilla Tolhurst e Irmã Agnes Wood).<br />

Existem muitas indagações sobre a vida das monjas beneditinas, entre elas,<br />

como se tornar uma monja? Como elas vivem nos Mosteiros? Existe clausura? Elas<br />

saem? Tentar-se-á buscar as respostas.<br />

2


Em primeiro lugar, ao decidir pela vida monástica, a iniciante escolhe,<br />

primeiro, em qual mosteiro quer servir, pois ela deve fazer votos de estabilidade naquela<br />

comunidade. A formação das monjas tem início com o postulado, que é de 1 ano; seguese<br />

o noviciado, que dura 2 anos; e mais 3 de profissão treinal, depois disso, faz-se o<br />

voto perpétuo ou profissão solene.<br />

Antes dos votos todas já recebem o título de monjas, mas aquelas de votos<br />

perpétuos são reconhecidas pelos leigos porque usam uma aliança no dedo da mão<br />

esquerda, que é o símbolo de entrega à profissão religiosa.<br />

Após fazerem os votos perpétuos as monjas beneditinas devem fazer uma<br />

lista de 3 nomes de santas com as quais gostariam de ser identificadas. Depois devem<br />

entregar essa lista à Abadessa, que tem o poder de decidir qual o nome que ela adotará a<br />

partir daquela data. No entanto, isto não é regra rígida, os critérios dependem da<br />

superiora, por exemplo, existem Mosteiros em que não se escolhe, a Madre decide qual<br />

será o nome da monja.<br />

Após os votos de estabilidade, uma monja só pode ser transferida se essa for<br />

a sua vontade.<br />

É possível desistir da vida religiosa? Sim, porém, a desistente deve<br />

comunicar seu desejo à Abadessa, que o comunica ao Abade-Presidente; a Madre dá à<br />

religiosa um tempo (cerca de 1 ano) para ela pensar melhor, refletir se a decisão é<br />

consciente; depois desse ano, às vezes um pouco mais, se ela decidir sobre sua saída,<br />

ela, juntamente com a Abadessa, escreve oficialmente para o Vaticano e pede a licença<br />

ao Papa para sair da Ordem. Não importa o tempo que leve o processo, ela não precisa<br />

retornar para o Mosteiro de origem: pode aguardar a resposta no local em que escolheu<br />

para refletir melhor.<br />

Alcançar o maior posto religioso na Ordem Beneditina, ou seja, ser<br />

Abadessa, está apenas relacionado ao merecimento, uma vez que é a própria<br />

comunidade quem escolhe sua candidata através de voto secreto. Significa que a<br />

democracia é o regime escolhido pela comunidade: deve existir um consenso em torno<br />

daquela que reúne as qualidades exigidas para o cargo, independente da idade, por isso<br />

há Abadessas muito jovens, com cerca de 40 anos.<br />

Segundo a Constituição, a eleita permanece no cargo até completar 70 anos<br />

(para os monges a idade é 75 anos), quando tem o dever de apresentar uma carta de<br />

renúncia, que é lida no Capítulo, e apresentada ao Abade-Presidente. Mesmo após a<br />

aposentadoria, a monja não perde o título de Madre nem deixa de usar o crucifixo que a<br />

diferencia das monjas, pois ainda que ela deixe de exercer o cargo, o título continua<br />

porque ela já foi consagrada.<br />

Após a aposentadoria, a Madre pode optar em permanecer no Mosteiro de<br />

voto de estabilidade, voltar para o de origem (se for o caso) ou escolher para onde<br />

deseja descansar. Mas é comum que ela escolha o lugar onde tem raízes familiares.<br />

As Regras de São Bento são muito rígidas, mas, no final dos capítulos diz<br />

que, na verdade, são apenas normas para quem quer iniciar uma vida monástica, e que<br />

fica ao critério do Abade fazer as modificações, contanto que ele não fuja e não deixe<br />

perder o essencial – a vida de silêncio, de oração, de disciplina e de obediência. No<br />

entanto, no que diz respeito ao comportamento, o século XX trouxe inovações – antes<br />

do Concílio do Vaticano (1963) elas não podiam entrar em contato físico com as<br />

pessoas que não fossem da comunidade interna, havia uma grade para separar o mundo<br />

religioso do mundo laico; as visitas médicas eram obrigatórias porque elas não tinham<br />

permissão para sair em função da obediência da clausura, agora elas já podem ir ao<br />

consultório.<br />

3


As monjas, diferentes dos monges, não rezam missas, batizados e nem<br />

casamentos e tampouco se interessam ou gostariam de exercer essas funções. Primeiro,<br />

porque a Igreja não dá permissão a nenhuma Ordem ou Congregação feminina para<br />

celebrações oficiais; segundo, porque elas acreditam que isto atrapalharia a vida delas,<br />

que é muito diferente da vida dos monges porque eles são menos preservados do que<br />

elas.<br />

Cada Mosteiro tem sua característica peculiar, que é respeitada pelas Regras<br />

de São Bento. Estas são as mesmas para qualquer Mosteiro, no entanto, podem ser<br />

adaptadas desde que não firam os princípios básicos de comportamento e de vivência da<br />

vida monástica.<br />

Quanto à clausura, é hoje vista como uma necessidade orgânica e não mais<br />

como regra oficial: como qualquer instituição ou empresa, o funcionário não pode sair a<br />

qualquer hora e nem as pessoas estarem em visitação à parte interna desses espaços.<br />

Assim elas se vêem também – as monjas não devem sair na hora que querem, pois isso<br />

atrapalharia o andamento dos trabalhos nos Mosteiros.<br />

Na vida monástica nascente, a clausura era obrigatória, em função do roubo<br />

e fugas de mulheres colocadas contra a vontade em internatos dentro dos Mosteiros. O<br />

Concílio do Vaticano II deu por encerrado a “clausura papal” para as monjas, ou seja,<br />

àquela em que as monjas poderiam sair apenas com a autorização do Papa, mesmo para<br />

irem ao médico. A partir daí, a Abadessa pode autorizar mediante a necessidade da<br />

monja em se ausentar. Cada Mosteiro pode ter sua convenção sobre as regras da<br />

clausura, isto é, alguns são mais severos outros, não. Mas, pela pesquisa, no Brasil, não<br />

há nenhum mosteiro beneditino feminino de clausura total.<br />

Os Mosteiros masculinos, em sua grande maioria, são centros difusores de<br />

cultura, possuem escolas, faculdades, bibliotecas, museus, por outro lado os Mosteiros<br />

femininos são dedicados a trabalhos manuais; elas fazem círios, paramentos, biscoitos e<br />

vinhos. Eles realizam ritos de sacramento em sua Igreja, as monjas não. Mas isto é<br />

explicado pelas monjas: elas não têm bibliotecas ou museus porque os mosteiros<br />

femininos são muito recentes, e os móveis e livros são frutos de doações, assim, não<br />

possuem acervo relevante. Isto também ocorre no Mosteiro masculino quando é muito<br />

jovem.<br />

Alguns Mosteiros possuem serviço social para a comunidade, mas nem todos<br />

são obrigados ou se sentem coagidos a prestar este tipo de atividade, pois há alguns em<br />

que as monjas optaram apenas pela vida contemplativa.<br />

Ao contrário do que se pensa, a vida monástica feminina permite a visitação<br />

de amigos e familiares, bem como receber telefonemas e cartas, e responder a e-mails.<br />

Pede-se apenas cautela na freqüência em que essas situações podem ocorrer – não se<br />

deve manter contato todos os dias ou todas as semanas, pois deve haver a consciência<br />

monástica, uma vez que a escolha foi pessoal, e não imposta, por um estilo de vida que<br />

prioriza a contemplação.<br />

No que diz respeito à vida civil, monja vota, portanto, tem título de eleitor;<br />

CPF, carteira de identidade; e só não declara imposto de renda porque o teto das<br />

aposentarias não alcança o mínimo valor estipulado pela Receita Federal para<br />

descontos. Já a Igreja não é isenta, pois um Mosteiro é uma sociedade civil sem fins<br />

lucrativos, assim, deve declarar impostos, ter conta corrente jurídica, o que implica na<br />

existência de contrato social, atas de reunião, estatutos e associadas, não devendo a<br />

Abadessa ser chamada por esse título e sim, presidente, tesoureira, secretária, ou<br />

qualquer outro cargo que exerça.<br />

O título “Dom” é um apelativo muito antigo dado aos monges, desde a época<br />

em que as monjas também eram chamadas de “Dona”, e equivale a Senhor e Senhora,<br />

4


espectivamente. O Concílio do Vaticano II entendeu que chamar as monjas de Dona<br />

não era conveniente porque não cabia mais o título. Antigamente, para serem chamados<br />

de Dom ou Dona era necessário o curso superior em Teologia, hoje basta fazer o voto<br />

solene. Quando iniciam são postulantes, porém, elas são chamadas de Irmã após os<br />

votos, e eles passam de Irmãos para Dom.<br />

Caso as monjas desejem estudar em curso superior, a preferência é que<br />

façam cursos intensivos dados pela Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), que<br />

mantém um curso de Teologia para as contemplativas de qualquer Ordem ou<br />

Congregação. Em cada época ocorre em uma cidade diferente, seja Belo Horizonte,<br />

Petrópolis, São Paulo. São dois módulos por ano, onde elas ficam no máximo 3<br />

semanas, assistem às aulas, levam para casa as atividades e depois as enviam. Elas<br />

preferem dessa forma porque já tentaram aulas diárias em cursos presenciais, todavia,<br />

acham que isto atrapalhava a vida monástica.<br />

3 MOSTEIROS DE OLINDA, SALVADOR E BELO HORIZONTE<br />

Esses três Mosteiros foram escolhidos para ilustrar esse artigo porque<br />

fizeram parte da minha pesquisa de pós-doutoramento sob a coordenação e orientação<br />

da Profa. Dra. Constância Lima Duarte, na Universidade Federal de Minas Gerais, sob o<br />

tema da vida das monjas no Brasil.<br />

O Mosteiro das Irmãs de Olinda tem o nome oficial de Mosteiro Nossa<br />

Senhora do Monte. Em 15 de agosto de 1963 chegou o grupo fundador a convite de D.<br />

Basílio Penido (1915-2003). Inicialmente, elas se instalaram na Casa São Bento, das<br />

Oblatas beneditinas. Em 8 de setembro deste mesmo ano, já se encontravam no<br />

Mosteiro do Monte. O lema do Mosteiro é Quasi Signum (Como um sinal).<br />

Elevou-se à Abadia em 1974, pelo Padre Paulo VI. A primeira Abadessa do<br />

Mosteiro do Monte foi Madre Mectildes (Belo Horizonte, 1924), que recebeu a benção<br />

pelas mãos de Dom Helder Câmara (1909-1999), Arcebispo de Olinda e Recife.<br />

Hoje, o Mosteiro de Nossa Senhora do Monte tem 23 monjas beneditinas em<br />

regime de clausura. E a vida das monjas beneditinas de Olinda segue a mesma Regra<br />

ditada por São Bento: uma vida de clausura, de silêncio e de orações.<br />

As monjas beneditinas de Olinda têm como Abadessa a Madre Verônica, 40<br />

anos, natural de Pernambuco, Chá de Alegria. Exerce o cargo de Prioresa a Irmã Maria<br />

Regina Menezes.<br />

Financeiramente, o Mosteiro é mantido pelos hóspedes da Hospedaria Betel,<br />

da venda de círios, bricellets, licores e paramentos, além de doações da comunidade<br />

local.<br />

O Mosteiro do Salvador foi fundado a convite do cardeal D.Avelar Brandão<br />

Vilela (1912-1986). Em 1977, as monjas beneditinas saíram do Mosteiro Nossa Senhora<br />

das Graças, Belo Horizonte, e chegaram a Salvador para fundarem um mosteiro<br />

beneditino feminino.<br />

Madre Joana, (Maria Julieta Calmon Villas-Boas, 1920-2005) que chegou<br />

como fundadora e primeira Prioresa Conventual, teve grande participação na construção<br />

do Mosteiro. Ela faleceu em 2005 e não chegou a ser Abadessa, pois na sua época só<br />

havia 10 monjas e o Mosteiro estava impossibilitado, pelas regras, a se tornar uma<br />

Abadia. Em 1995, aos 75 anos, solicitou sua renúncia ao cargo, embora a praxe seria<br />

solicitar aos 70 anos, mas, a pedido das monjas, o Capítulo Geral permitiu que ela se<br />

mantivesse por mais um tempo.<br />

5


Em 1997 o Mosteiro foi eleito à Abadia, e Irmã Vera Lúcia, que chegou<br />

como Subprioresa da Madre Joana, elegeu-se Abadessa; passando a se chamar Madre<br />

Vera Lúcia, cargo que ocupa até hoje. Atualmente, o Mosteiro possui 18 monjas<br />

morando lá, e este ano comemora 30 anos de fundação.<br />

As Irmãs fundaram, juntamente com a comunidade local e os oblatos, uma<br />

sociedade civil, Associação São Francisco de Assis, a fim de atender enquanto serviço<br />

social. Além do Mosteiro, existe uma creche – Creche Zeza Calmon de Sá, – que atende<br />

a quase 200 crianças; uma escola de ballet, Projeto Esperança, que atende a 250<br />

crianças; uma cooperativa de mulheres que trabalham com artesanato, além de aulas de<br />

inglês de informática, e reforço escolar para as crianças do bairro. É interessante<br />

esclarecer que, embora a comunidade se localize em zona praieira, não existe uma<br />

associação ou um projeto de alguma comunidade pesqueira, as monjas somente se<br />

interessam pela educação infantil.<br />

O Mosteiro sobrevive da hospedaria, fabricação de bricellets, venda de CDs<br />

(elas gravaram cantos gregorianos), da produção de vestes sacras (paramentos, casulas,<br />

túnicas, estolas, estandartes, etc) e de doações.<br />

Hoje não é mais permitida a entrada de postulantes sem elas terem, no<br />

mínimo, o segundo grau e ser maior de idade. Quando há interesse de ambas as partes,<br />

das Irmãs e da Abadessa, é possível até mesmo sair do país visando ao aprofundamento<br />

em uma área em que a monja mostrou-se tendenciada.<br />

A Abadia de Belo Horizonte tem o nome oficial de Mosteiro Nossa Senhora<br />

das Graças e foi criado em 1949 por um grupo de 12 monjas vindas do Mosteiro de<br />

Santa Maria, em São Paulo.<br />

A primeira Prioresa foi Madre Luzia Ribeiro de Oliveira (1901-2004), e em<br />

1953, quando o Mosteiro tornou-se uma Abadia, ela foi eleita a primeira Abadessa.<br />

Altos muros e um eficiente sistema de alarmes garantem a tranqüilidade do<br />

mosteiro já que nunca houve casos de invasão à área interna.<br />

Além do Mosteiro, da Abadia, há o Pavilhão de Ação Social, onde existe<br />

enfermaria e cursos livres e uma Casa de Oração.<br />

Até 1982 teve como Abadessa Madre Luzia cujo lema era Credidimus<br />

caritate (Cremos pelo Amor), sucedendo-lhe Madre Inês Cançado Bahia, que teve como<br />

lema Magis prodesse (Ser mais útil), que ficou até 2000. A atual Abadessa é Madre<br />

Estefânia Vieira, com o lema Sicut ancila Domini (Eis a escrava do Senhor).<br />

Atualmente moram 47 monjas no Mosteiro, entre postulantes, ativas e<br />

aposentadas. É um Mosteiro peculiar pelo grande número de idosas que ele mantém,<br />

inclusive uma das fundadoras ainda está viva, Irmã Maria, com 94 anos.<br />

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />

A vida de fé e oração diária (no total de 6) foi preservada pelas monjas,<br />

entretanto, pode sofrer alterações de mosteiro para mosteiro. Embora tenham como<br />

prioridade a vida contemplativa, as monjas beneditinas seguem a regra maior da Ordem<br />

de São Bento: “Ora e trabalha”. Todas elas têm uma vida muito ativa dentro dos<br />

Mosteiros, acessam Inter<strong>net</strong>, assistem aos programas de jornalismo na televisão,<br />

assistem a filmes em DVD, recebem visitantes e são extremamente delicadas, educadas,<br />

pacientes e amigas. Também são intelectuais, preservam a leitura, falam mais de dois<br />

idiomas, estão atentas a tudo aquilo que ocorre fora dos muros dos Mosteiros. A vida é<br />

igual a de uma mulher que tem responsabilidades domésticas, pois cada monja tem uma<br />

6


função específica no Mosteiro e a Abadessa é a “mãe” das outras monjas, deve cuidar<br />

delas e estar atenta às necessidades pessoais de cada uma.<br />

O mundo laico oferece às mulheres inúmeras oportunidades de trabalho,<br />

estudos, formar famílias, mas também as expõem a muitas dificuldades do dia-a-dia,<br />

inclusive a manutenção pessoal e financeira, o que me faz pensar, inicialmente, que um<br />

dos motivos que leva uma jovem, hodiernamente, a querer entrar na vida religiosa seja o<br />

fato de “fugir” ou “resolver” seus problemas pessoais. Porém, as monjas estão muito<br />

atentas a esse problema, sendo auxiliadas por psicólogas e muita conversa com as<br />

postulantes sobre a vocação que cada uma demonstra, mas não deixa de ser uma<br />

preocupação constante:<br />

A vida monástica continua a atrair muitas mulheres desejosas da vida<br />

religiosa porque os mosteiros beneditinos vêm dos primórdios da Igreja, então, guarda<br />

aquilo que é essencial, sem muito devocionismo.<br />

O que nos chamou atenção na pesquisa foi a confiança, a certeza delas na<br />

opção de vida independente do que as pessoas ligadas a elas achavam. Ao contrário do<br />

que se pensa, as monjas não se recolhem nos Mosteiros porque não arranjam maridos,<br />

porque ficaram “encalhadas”, porque são feias, mal amadas, vêm de famílias<br />

desorganizadas e infelizes. As monjas beneditinas chamam atenção pela doçura, pela<br />

paz que emanam, pela certeza de que escolheram seus destinos, pela resistência ao<br />

mundo laico que seduz as mulheres todo o tempo, pela felicidade que demonstram no<br />

olhar por terem escolhido seus destinos e feitos a própria história.<br />

Na atualização do Diretório Litúrgico, as monjas beneditinas brasileiras são<br />

maioria na Congregação – são 308 monjas e 214 monges, omitindo-se apenas os<br />

postulantes; 12 mosteiros masculinos para 17 femininos, incluindo a Arquiabadia, as<br />

Abadias e os Priorados, Simples e Conventual.<br />

NOTA<br />

1<br />

GRIMAL, Pierre. O amor em Roma. São Paulo: Martins fontes, 1991. p. 6.<br />

2<br />

Idem, ibidem, p. 23.<br />

3<br />

Idem, ibidem, p.14-15.<br />

4 GRIMAL, Pierre. Op. cit., p. 18.<br />

5<br />

Idem, ibidem, p.26.<br />

6<br />

Idem, ibidem, p.319.<br />

7<br />

VEYNE, Paul (org.). História da Vida Privada: Do Império Romano ao Ano Mil. São Paulo:<br />

Companhia das Letras, 1990.<br />

8<br />

GRIMAL, Pierre. Op. Cit., p.270.<br />

9<br />

CARCOPINO, Jérome. Roma: No Apogeu do Império. São Paulo: Companhia das Letras; Circulo do<br />

livro, 1990.<br />

10<br />

CARCOPINO, Jérome. Op. Cit., p.110.<br />

11<br />

Idem, ibidem, p.116.<br />

12<br />

GRIMAL, Pierre. O amor em Roma. São Paulo: Martins fontes, 1991, p.332.<br />

13<br />

VEYNE, Paul (org.). História da Vida Privada: Do Império Romano ao Ano Mil. São Paulo:<br />

Companhia das Letras, 1990.<br />

14<br />

CARCOPINO, Jérome. Roma: No Apogeu do Império. São Paulo: Companhia das Letras; Circulo do<br />

livro, 1990, p.124.<br />

15 GRIMAL, Pierre.Op. Cit., p.334<br />

BIBLIOGRAFIA<br />

7


CARCOPINO, Jérome. Roma: No Apogeu do Império. São Paulo: Companhia das<br />

Letras; Circulo do livro, 1990.<br />

GRIMAL, Pierre. O amor em Roma. São Paulo: Martins fontes, 1991.<br />

VEYNE, Paul (org.). História da Vida Privada: Do Império Romano ao Ano Mil. São<br />

Paulo: Companhia das Letras, 1990.<br />

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