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danças, cantos e folguedos: as representações da ... - Itaporanga.net

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DANÇAS, CANTOS E FOLGUEDOS: AS REPRESENTAÇÕES DA CULTURA<br />

ESCOLAR NO ORATÓRIO FESTIVO “SÃO JOÃO BOSCO”<br />

NADJA SANTOS BONIFÁCIO (NPGED/UFS)<br />

nad3sb@gmail.com<br />

ANAMARIA GONÇALVES BUENO DE FREITAS (NPGED/UFS)<br />

anagbueno@uol.com.br<br />

APRESENTAÇÃO<br />

O presente trabalho analisa o Oratório Festivo “São João Bosco” nos períodos de<br />

1930 a 1945, procurando evidenciar <strong>as</strong> ativi<strong>da</strong>des culturais elaborad<strong>as</strong> na instituição<br />

como elementos fun<strong>da</strong>mentais para a formação de su<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>. A instituição está<br />

localiza<strong>da</strong> no Estado de Sergipe e foi fun<strong>da</strong><strong>da</strong> em 16 de agosto de 1914, com o fim de<br />

recolher, instruir e educar menin<strong>as</strong> desvalid<strong>as</strong>. Preparando-<strong>as</strong> para viver de maneira<br />

digna e com comportamento aceitável na socie<strong>da</strong>de, educação que segundo seu estatuto<br />

serviriam para “lhes auferir honestamente meios de subsistência”. O recorte faz parte de<br />

pesquisa em an<strong>da</strong>mento intitula<strong>da</strong> “Acolher, Evangelizar e Educar: contribuição do<br />

Oratório Festivo São João Bosco para a educação feminina em Aracaju (1936-1952)”,<br />

objetivando, contudo, investigar <strong>as</strong> prátic<strong>as</strong> pe<strong>da</strong>gógic<strong>as</strong> (religios<strong>as</strong>, educativ<strong>as</strong> e<br />

culturais) desenvolvid<strong>as</strong> para formação d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>. A pesquisa é de cunho bibliográfico<br />

e documental com apoio financeiro <strong>da</strong> Capes.<br />

Para o desenvolvimento deste trabalho foram examinad<strong>as</strong> fontes como: Livros de<br />

Crônic<strong>as</strong> e Relatórios, Cart<strong>as</strong>-Program<strong>as</strong> descrevendo <strong>as</strong> apresentações desenvolvid<strong>as</strong>,<br />

jornais e revist<strong>as</strong>, entre outros documentos encontrados no arquivo <strong>da</strong> instituição e nos<br />

Arquivos Públicos do Estado e do Município. Utiliza-se um viés teórico-metodológico<br />

<strong>da</strong> História Cultural, inserido no campo <strong>da</strong> História <strong>da</strong> Educação e Educação Feminina.<br />

A análise d<strong>as</strong> fontes possibilitou observar – mesmo sendo <strong>da</strong>dos preliminares –<br />

que algum<strong>as</strong> prátic<strong>as</strong> culturais, a saber: apresentações de teatro, números de canto e<br />

<strong>da</strong>nça, apresentações de piano, os p<strong>as</strong>seios, visitações a beneméritos, festejos em época<br />

de carnaval, retiros promovidos pel<strong>as</strong> dirigentes <strong>da</strong> instituição e/ou beneméritos eram<br />

prátic<strong>as</strong> que estavam presentes no cotidiano escolar do internato, ou seja, constituíam-se<br />

em dispositivos modeladores essenciais na formação d<strong>as</strong> acolhid<strong>as</strong>.<br />

1


A pesquisa utiliza como categoria de análise a cultura escolar por entender que<br />

essa categoria pode ser representa<strong>da</strong> pelos processos de propagação d<strong>as</strong> relações<br />

cotidian<strong>as</strong> escolares, por su<strong>as</strong> maneir<strong>as</strong> de agir, su<strong>as</strong> norm<strong>as</strong>, imposições e su<strong>as</strong> prátic<strong>as</strong>,<br />

bem como ampliar a acepção do conceito para fora <strong>da</strong> escola, à relação de<br />

aprendizagem do indivíduo com a religião, a família e outros âmbitos institucionais.<br />

Dominique Julia (2001) entende que estu<strong>da</strong>r a cultura escolar de uma instituição implica<br />

considerar não somente o meio escolar, m<strong>as</strong> preocupar-se com outros campos: o<br />

religioso, político e o social.<br />

O autor define cultura escolar como:<br />

um conjunto de norm<strong>as</strong> que definem conhecimentos a ensinar e<br />

condut<strong>as</strong> a inculcar, e um conjunto de prátic<strong>as</strong> que permitem a<br />

transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses<br />

comportamentos; norm<strong>as</strong> e prátic<strong>as</strong> coordenad<strong>as</strong> a finali<strong>da</strong>des que<br />

podem variar segundo <strong>as</strong> époc<strong>as</strong>. Norm<strong>as</strong> e prátic<strong>as</strong> não podem ser<br />

analisad<strong>as</strong> sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que<br />

são chamados a obedecer a ess<strong>as</strong> ordens e, portanto, a utilizar<br />

dispositivos pe<strong>da</strong>gógicos encarregados de facilitar sua aplicação, a<br />

saber, os professores. [.…] por cultura escolar é conveniente<br />

compreender também, quando é possível, <strong>as</strong> cultur<strong>as</strong> infantis (no<br />

sentido antropológico do termo), que se desenvolvem nos pátios de<br />

recreio e o af<strong>as</strong>tamento que apresentam em relação às cultur<strong>as</strong><br />

familiares. (JULIA, 2001, p. 09-10).<br />

As acepções <strong>da</strong> cultura escolar trouxeram uma produção fecun<strong>da</strong> para o campo<br />

historiográfico <strong>da</strong> educação. “O foco d<strong>as</strong> investigações vai sendo erigido sobre <strong>as</strong><br />

prátic<strong>as</strong> escolares cotidian<strong>as</strong>, o desenvolvimento efetivo do currículo, a construção do<br />

conhecimento escolar, o funcionamento do dia-a-dia d<strong>as</strong> instituições, a organização dos<br />

alunos e dos professores e outros elementos que tentam compreender” o trabalho<br />

histórico em educação. (VADEMARIN; SOUZA, 2000, p. 5).<br />

Direcionando a pesquisa para preocupações n<strong>as</strong> prátic<strong>as</strong> pe<strong>da</strong>gógic<strong>as</strong> do Oratório<br />

Festivo “São João Bosco”, esse recorte procura evidenciar <strong>as</strong> ativi<strong>da</strong>des culturais<br />

desenvolvid<strong>as</strong> na instituição como instrumentos fun<strong>da</strong>mentais para a formação social e<br />

religiosa d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>. O texto foi dividido em dois momentos, no primeiro tecem-se<br />

considerações sobre a instituição, sua criação, evolução; no segundo momento<br />

evidenciam-se <strong>as</strong> <strong>representações</strong> <strong>da</strong> cultura escolar e d<strong>as</strong> prátic<strong>as</strong> culturais na<br />

instituição.<br />

2


CONSIDERAÇÕES SOBRE O ORATÓRIO FESTIVO “SÃO JOÃO BOSCO” –<br />

1914-1952.<br />

Oratório Festivo “São João Bosco”, foi idealizado por um Padre Salesiano – Pe.<br />

Aníbal Lazzari 1 (BONIFÁCIO, 2009), com o auxílio de Dam<strong>as</strong> de Cari<strong>da</strong>de de Aracaju.<br />

A proposta do foi de formar dois núcleos catequéticos femininos nos moldes de D.<br />

Bosco que começaram a funcionar em agosto de 1914 2 . (Resumo Histórico do Oratório<br />

Festivo São João Bosco, 1926, p. 1).<br />

No mesmo ano, no mês de novembro, os núcleos se uniram e sob a direção de<br />

Genésia Fontes, cerca de 30 menin<strong>as</strong> estu<strong>da</strong>vam catecismo aos sábados, domingos e<br />

feriados. Em dezembro de 1914, “após tríduo preparatório, fizeram ell<strong>as</strong> a santa<br />

comunhão em missa celebra<strong>da</strong> pelo Pe. Aníbal ao canto de piedos<strong>as</strong> bo<strong>as</strong>”. (Resumo<br />

Histórico do Oratório Festivo São João Bosco, 1926, p. 2). Assim, <strong>as</strong> menin<strong>as</strong> do então<br />

Oratório Festivo “Beato D. Bosco” (nome inicial <strong>da</strong> instituição), p<strong>as</strong>saram a “freqüentar<br />

encorporad<strong>as</strong>, nos domingos e di<strong>as</strong> santos, a missa pela manhã e a bençam à tarde, na<br />

capella do Collegio Salesiano Maria Auxiliadora”. (Resumo Histórico do Oratório<br />

Festivo São João Bosco, 1926, p. 3).<br />

Essa instituição na déca<strong>da</strong> de 20 conseguiu a permissão final <strong>da</strong> Congregação<br />

Salesiana 3 para celebrar os festejos obrigatórios dos estabelecimentos Salesianos 4 .<br />

1 Segundo Bonifácio o Padre Salesiano Aníbal Lazzari n<strong>as</strong>ceu em Pieve Delmona (Cremona – Itália) em<br />

30 de novembro de 1875. Era filho de Andrea Lazzari e Felicita Vigioli. Aos treze anos iniciou seus<br />

estudos no Oratório São Francisco de Sales ou de Valdocco, primeiro Oratório de D. Bosco, localizado<br />

em Turim. Em 26 de novembro 1892, recebeu o hábito e permaneceu mais dois anos, até 30 de março<br />

de 1894. Estudou filosofia em Valsalice. Em 1901, foi para Recife, onde trabalhou durante 11 anos,<br />

quando foi transferido para Aracaju no ano de 1913, para conduzir o Colégio Salesiano Maria<br />

Auxiliadora e seu anexo – o Oratório Festivo Maria Auxiliadora, para meninos pobres. O Padre faleceu<br />

em Lavrinh<strong>as</strong>/SP, em 7 de fevereiro de 1938, aos 63 anos de i<strong>da</strong>de, 45 de profissão e 36 de sacerdócio.<br />

Período que estava no Colégio São Manuel. Em seus 45 anos de profissão Pe. Aníbal Lazzari trabalhou<br />

seis anos em Aracaju como diretor do Colégio Salesiano, do Oratório Festivo Maria Auxiliadora para<br />

meninos pobres e auxiliou o Oratório Festivo São João Bosco para menin<strong>as</strong> pobres.<br />

2 Os núcleos formados um na “rua do Rosário, regi<strong>da</strong> por D. Gesuína Sandes, auxilia<strong>da</strong> por D. Maria<br />

Almei<strong>da</strong>; o outro, a Av. Barão de Maruim, dirigi<strong>da</strong> por D. Genésia Fontes auxilia<strong>da</strong> por D. Regina<br />

Spinola.” O objetivo era ensinar catecismo, preparar para a primeira comunhão <strong>as</strong> menin<strong>as</strong>.<br />

3 Os Salesianos firmaram sua presença no país elegendo a educação e evangelização como uma de su<strong>as</strong><br />

b<strong>as</strong>es principais no processo de renovação <strong>da</strong> Igreja, principalmente, entre crianç<strong>as</strong> e jovens. Segundo<br />

Riolando Azzi, desde meados do século XIX [foi efetivado] pelo episcopado br<strong>as</strong>ileiro, [para<br />

implantar] um modelo <strong>da</strong> Igreja considerado como socie<strong>da</strong>de hierárquica, preconizado pelo Concílio<br />

Tridentino. (AZZI, 1982, p. 15). Estabeleceram-se também grande número de colégios oferecendo<br />

3


Nesse ponto, a participação do padre salesiano Aníbal na criação <strong>da</strong> instituição e nos<br />

encaminhamentos para integração desta, a família salesiana foi decisiva e marcante para<br />

o reconhecimento do Oratório feminino de Aracaju. Com a aceitação do Oratório<br />

feminino ficaria a cargo d<strong>as</strong> Filh<strong>as</strong> de Maria Auxiliadora (FMA) 5 , no entanto, est<strong>as</strong> não<br />

vieram <strong>as</strong>sumir a direção, permanecendo, Genésia Fontes por trinta e oito anos no<br />

cargo, quando em 1952, a Congregação d<strong>as</strong> Irmãs Ministr<strong>as</strong> dos Enfermos de São<br />

Camilo – Irmãs Camilian<strong>as</strong> 6 <strong>as</strong>sumiram a proprie<strong>da</strong>de.<br />

O objetivo do texto, portanto, é evidenciar <strong>as</strong> ativi<strong>da</strong>des culturais elaborad<strong>as</strong> na<br />

instituição como elementos fun<strong>da</strong>mentais para a formação de su<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>. Desse modo,<br />

entendendo prátic<strong>as</strong> culturais como “form<strong>as</strong> institucionalizad<strong>as</strong> e objetivad<strong>as</strong> em virtude<br />

d<strong>as</strong> quais ‘representantes’ (instânci<strong>as</strong> coletiv<strong>as</strong> ou indivíduos singulares), marcam de<br />

educação feminina: o “Colégio Sion, o Sacré-Coeur, os d<strong>as</strong> Ursulin<strong>as</strong>, os d<strong>as</strong> irmãs do Santo<br />

Sacramento, os d<strong>as</strong> irmãs de São Vicente de Paulo, os d<strong>as</strong> freir<strong>as</strong> de São José de Chambéry”.<br />

(FREYRE, 2004, p. 839).<br />

4 Os festejos eram: comemoração <strong>da</strong> morte de D. Bosco, dia 31 de janeiro; festa de N. S. Auxiliadora, no<br />

mês de maio; comemorar o dia 15 de agosto em homenagem do 1° diretor e fun<strong>da</strong>dor, com missa e<br />

comunhão; o aniversário natalício de D. Bosco em 16 de agosto; a festa do natal, com missa à meianoite,<br />

árvore de natal e outr<strong>as</strong> diversões; retiro anual de três di<strong>as</strong>, encerrando com festa e primeir<strong>as</strong><br />

comunhões; distribuição anual de prêmios, p<strong>as</strong>seios, visit<strong>as</strong> de cumprimento; carnaval com lausperene<br />

e diversões variad<strong>as</strong> durante os três di<strong>as</strong> e ain<strong>da</strong> os certames catequéticos, o auxílio na direção dos<br />

padres salesianos, a participação de algum<strong>as</strong> festivi<strong>da</strong>des no Colégio Salesiano.<br />

5 As FMA encontraram espaço para propagação de su<strong>as</strong> prátic<strong>as</strong> na formação feminina, “preparando a<br />

mulher para o importantíssimo desempenho <strong>da</strong> sua missão no lar e na socie<strong>da</strong>de”. Para isso,<br />

mantinham um programa de ensino contemplando, além <strong>da</strong> ‘instrução primária e secundária, os<br />

trabalhos de agulha, os recamos em se<strong>da</strong> e ouro, o canto, o piano, o violino, o bandolim e a<br />

declamação”. Somente no ano de 1892, el<strong>as</strong> implantaram 3 colégios em São Paulo – Colégio Nossa<br />

Senhora do Carmo em Guaratinguetá, Externato Maria Auxiliadora em Lorena, e em<br />

Pin<strong>da</strong>monhangaba; e em outr<strong>as</strong> locali<strong>da</strong>des como o Asilo de Nossa Senhora Auxiliadora, Escola<br />

Normal Maria Auxiliadora em Ponte Nova/MG, Colégio Maria Auxiliadora em Ouro Preto, entre<br />

outr<strong>as</strong> missões em Mato Grosso. (BOLETIM SALESIANO, 1909, p.106).<br />

6 A Congregação d<strong>as</strong> Irmãs Ministr<strong>as</strong> dos Enfermos foi fun<strong>da</strong><strong>da</strong> pela Irmã Maria Doming<strong>as</strong> Brun<br />

Barbantini, em Lucca – Itália no ano de 1829. A congregação, atualmente, possui além de missões no<br />

Br<strong>as</strong>il; missões na Tailândia, Quênia e Taiwan. No Br<strong>as</strong>il, <strong>as</strong> Irmãs Camilian<strong>as</strong> se estabeleceram pela<br />

primeira vez em Salvador, no ano de 1950. Operam atualmente, em São Leopoldo no Rio Grande do<br />

Sul (Sede), Rio de Janeiro, Salvador, atuando no Hospital Juliano Moreira, e Aracaju, no Oratório<br />

Festivo São João Bosco, a única instituição <strong>da</strong> Congregação que cui<strong>da</strong> de menin<strong>as</strong> carentes e<br />

abandonad<strong>as</strong>. A vin<strong>da</strong> d<strong>as</strong> Camilian<strong>as</strong> para Sergipe aconteceu no ano de 1952. O motivo era a criação<br />

de uma C<strong>as</strong>a de Formação para jovens vocacionad<strong>as</strong> na ci<strong>da</strong>de de Estância/SE, porém o então Bispo de<br />

Aracaju, Dom Fernando Gomes, cogitou <strong>da</strong> possibili<strong>da</strong>de de abrir o convento na capital, Aracaju – no<br />

Oratório Festivo São João Bosco. Assim feito, <strong>as</strong> camilian<strong>as</strong> p<strong>as</strong>saram a administrar a Instituição. A<br />

administração do Oratório começou com <strong>as</strong> Irmãs Mad<strong>da</strong>lena Benedetti, Valéria Bertolini e Gesual<strong>da</strong><br />

Ghedini. Três anos depois a Reveren<strong>da</strong> Madre Geral, na época, Irmã Eletta Perfetti enviou mais cinco:<br />

Irmã Ubal<strong>da</strong> Contrisceri (para <strong>as</strong>sumir <strong>as</strong> jovens noviç<strong>as</strong>); Irmã Clara Avesani (para cui<strong>da</strong>r d<strong>as</strong><br />

crianç<strong>as</strong> intern<strong>as</strong>); Irmã Ana Savoia; a Irmã Alfonsa Piccin que <strong>as</strong>sumiu a cozinha, e a Irmã Roberta<br />

Laiolo, professora e responsável pel<strong>as</strong> ativi<strong>da</strong>des recreativ<strong>as</strong>.<br />

4


modo visível e perpétuo a existência do grupo, <strong>da</strong> comuni<strong>da</strong>de ou <strong>da</strong> cl<strong>as</strong>se”<br />

(CHARTIER, 1991, p. 183), consideramos nesse trabalho, <strong>as</strong> apresentações teatrais e<br />

musicais, a <strong>da</strong>nça, os p<strong>as</strong>seios, visitações, festejos em época de carnaval e ritos<br />

religiosos como prátic<strong>as</strong> <strong>da</strong> cultura escolar que significavam instrumentos essenciais na<br />

formação d<strong>as</strong> acolhid<strong>as</strong>, para constituição de “prátic<strong>as</strong> que visam fazer reconhecer uma<br />

identi<strong>da</strong>de social, a exibir uma maneira própria de ser no mundo” (CHARTIER, 1991,<br />

p. 183). Prátic<strong>as</strong> “produtor<strong>as</strong> de sujeitos e de seus respectivos lugares no interior do<br />

campo pe<strong>da</strong>gógico”. (FARIA FILHO E VIDAL, 2004, p. 151)<br />

AS REPRESENTAÇÕES DA CULTURA ESCOLAR NO ORATÓRIO FESTIVO<br />

“SÃO JOÃO BOSCO” – 1930 a 1945<br />

O recorte escolhido para análise 1930 a 1945, tem su<strong>as</strong> razões específic<strong>as</strong>. Em<br />

1929, p<strong>as</strong>sa a residir na instituição para ensinar piano e teoria musical <strong>as</strong> alun<strong>as</strong>, a<br />

senhorita Áurea Vitória de Amorim, professora de aul<strong>as</strong> de postura e de piano<br />

diploma<strong>da</strong> pelo Conservatório <strong>da</strong> Bahia. Sua presença no Oratório foi providencial,<br />

pois, nesse mesmo ano foi organizado por ela um concerto beneficente para arreca<strong>da</strong>r<br />

fundos para a compra de um piano. Registra os Anais <strong>da</strong> instituição no dia 04 de<br />

outubro de 1929 o seguinte:<br />

A nossa professora de música, D. Áurea Vitória Amorim e o maestro<br />

Damásio Fraga promoveram um concerto litero-musical na Biblioteca<br />

Pública com o fim de comprar um piano para o Oratório. Para o bom<br />

êxito desta festa muito trabalharam D. Adília Rocha Santiago,<br />

Cândi<strong>da</strong> de Meneses Viana, Professor Tenisson Ribeiro e Dr. Enoch<br />

Santiago. Deram um realce especial o poeta Artur Fortes e a schola<br />

cantorum salesiana. (Anais do Oratório Festivo São João Bosco,<br />

1929, p. 24).<br />

O piano de marca “Pleyer” foi adquirido no mês de novembro por 1:500$000. O<br />

instrumento foi de grande utili<strong>da</strong>de e auxílio na formação estética d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>, bem<br />

como, n<strong>as</strong> fest<strong>as</strong> do internato. Aprender a tocar piano foi privilégio somente d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong><br />

intern<strong>as</strong>. Em Relatório de 1933, nota-se a observação: “a aula de piano aos cui<strong>da</strong>dos <strong>da</strong><br />

5


maestrina Áurea do Amorim […] está em franco progresso como também o curso de<br />

música-teorica extensivo a tod<strong>as</strong> <strong>as</strong> alun<strong>as</strong> intern<strong>as</strong>”. Nesse período, o Oratório D.<br />

Bosco, contemplava além <strong>da</strong> música <strong>as</strong> seguintes ativi<strong>da</strong>des escolares: curso primário<br />

completo, curso regular de costura, pren<strong>da</strong> e <strong>da</strong>tilografia.<br />

Na déca<strong>da</strong> de 30 também foi construído todo o prédio seguindo os padrões de<br />

higiene do período. Era formado por:<br />

Três pavilhões: um sobrado, onde estão no an<strong>da</strong>r inferior: capela, sala<br />

<strong>da</strong> diretoria, du<strong>as</strong> sal<strong>as</strong> de aula, refeitório, rouparia, copa, dispensa,<br />

cozinha, banheiro e serviços sanitários; no an<strong>da</strong>r superior dois<br />

espaçosos salões para dormitórios, divididos em dois vãos num dos<br />

quais se encontram o palco onde se fazem <strong>representações</strong> teatrais, 18<br />

leitos de ferro; no outro espaço com 9 leitos há uma pequena divisão –<br />

a enfermaria, um armário para roup<strong>as</strong> de cama e farmácia. De um<br />

lado, ao fundo do mesmo pavilhão, estão 2 divisões para o serviço<br />

sanitário e 2 para banhos. A sala de visit<strong>as</strong> tem alguns quadros e dois<br />

mostradores para trabalhos manuais d<strong>as</strong> educand<strong>as</strong> e um sofá com 6<br />

cadeir<strong>as</strong> de palhinha. Na sala de aula: o relógio, 16 carteir<strong>as</strong>, uma<br />

banca e uma cadeira, um quadro negro, um armário, um crucifixo de<br />

metal e um quadro do Bem-aventurado D. Bosco. O atelier aberto em<br />

1932 conta com 3 máquin<strong>as</strong> Singer, 1 mesa para contar, 1 manequim,<br />

1 espelho de 0m,87 x 0m,60, 1 pequeno armário e mala. [O espaço<br />

seve para aula de costura e de <strong>da</strong>tilografia]. O refeitório contem 2<br />

mes<strong>as</strong>, 1 guar<strong>da</strong>-louç<strong>as</strong> e 6 bancos. (RELATÓRIO, 1934, p. 1-2)<br />

Diante <strong>da</strong> descrição arquitetônica e do inventário dos bens móveis do Oratório,<br />

ressalta-se a importante <strong>da</strong><strong>da</strong> ao palco e o pátio para apresentações divers<strong>as</strong>. Conforme<br />

explica Adão para “D. Bosco, a vi<strong>da</strong> do pátio é ti<strong>da</strong> como fator essencial para a<br />

educação de adolescentes e jovens, bem como uma coluna de seu sistema”. (ADÃO,<br />

1996, p. 56). O Pátio, segundo Scaramussa “expressava na vivaci<strong>da</strong>de […] momentos<br />

de recreação”. Assim, “o teatro, a declamação, <strong>as</strong> excursões, a música e o canto” eram<br />

elementos geradores de um ambiente educativo e de alegria em função de congregar ao<br />

jovem “maturi<strong>da</strong>de religiosa, moral e cívica, a glória de Deus e a salvação <strong>da</strong> alma”.<br />

(SCARAMUSSA, 1977, p. 94).<br />

O ano de 1941 foi uma <strong>da</strong>ta muito importante para <strong>as</strong> alun<strong>as</strong>, pois participaram <strong>da</strong><br />

celebração do centenário <strong>da</strong> ordenação de D. Bosco. Num folheto comemorativo do<br />

centenário sacerdotal de D. Bosco, realizado nos di<strong>as</strong> 2, 3 e 4 de junho de 1941, no<br />

Colégio Salesiano observa-se à participação d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>, registra o folheto: “A parte<br />

6


ecreativa está a cargo d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong> do Oratório São João Bosco. No salão de atos – às<br />

18,30 hor<strong>as</strong>: 1 – O anjo <strong>da</strong> guar<strong>da</strong> – esboço dramático; 2 – A Bon<strong>da</strong>de – diálogo; 3 –<br />

Na ci<strong>da</strong>de, na roça – dueto; 4 – O Chocolate – comédia; 5 – Palminh<strong>as</strong> – coro; 6 –<br />

Hino a D. Bosco por todos os alunos”.<br />

Segundo Chartier, “[…] representação mostra o ‘objeto ausente’ (coisa, conceito<br />

ou pessoa), substituindo-o por uma ‘imagem’ capaz de representá-lo adequa<strong>da</strong>mente”<br />

(CHARTIER, 2002, p. 165). Em todos os momentos festivos a imagem de D. Bosco era<br />

reverencia<strong>da</strong>, evidencia<strong>da</strong> e perpetua<strong>da</strong> em seus atos de humani<strong>da</strong>de e abdicação através<br />

de encenações teatrais, <strong>cantos</strong> e apresentação de sua vi<strong>da</strong> no aparelho cinematográfico<br />

adquirido pela instituição em 1935, dessa forma “representar é, pois, fazer conhecer <strong>as</strong><br />

cois<strong>as</strong> mediatamente ‘pela pintura de um objeto’, ‘pel<strong>as</strong> palavr<strong>as</strong> e pelos gestos’, ‘por<br />

algum<strong>as</strong> figur<strong>as</strong>, por algum<strong>as</strong> marc<strong>as</strong>’ – como enigm<strong>as</strong>, os emblem<strong>as</strong>, <strong>as</strong> fábul<strong>as</strong>, <strong>as</strong><br />

alegori<strong>as</strong>” (CHARTIER, 2002, p. 165)<br />

Os jornais também contribuíam conclamando a participarem e descrevendo para<br />

socie<strong>da</strong>de o momento festivo acontecido. O Jornal “A Cruza<strong>da</strong>” expressa uma nota: “O<br />

Oratório Festivo São João Bosco”, nela, o jornal descreve a festa do quadragésimo<br />

quinto aniversário <strong>da</strong> instituição:<br />

O Oratório Festivo São João Bosco que vem <strong>da</strong>ndo <strong>as</strong>sistência, abrigo<br />

e educação <strong>as</strong> pobres mocinh<strong>as</strong> e órfãs desta capital e até do interior,<br />

celebra amanhã seu 45º aniversário […]. As soleni<strong>da</strong>des constam de<br />

um tríduo que já vem sendo realizado na capela do Oratório, <strong>da</strong> festa<br />

d<strong>as</strong> ex-alun<strong>as</strong>, hoje realiza<strong>da</strong>, às 16 hor<strong>as</strong>, sorteio de brindes para <strong>as</strong><br />

extern<strong>as</strong>, à tarde, e, amanhã, Missa Festiva, celebra<strong>da</strong> na mesma<br />

Capela, às 17 hor<strong>as</strong>, pelo Sr. Bispo Diocesano e Missa novamente à<br />

tarde, segui<strong>da</strong> do beijamento d<strong>as</strong> relíqui<strong>as</strong> de Dom Bosco. A festa<br />

marca também o 114º aniversário natalício de São João Bosco,<br />

patrono do oratório e fun<strong>da</strong>dor d<strong>as</strong> obr<strong>as</strong> salesian<strong>as</strong>. (A CRUZADA,<br />

Ano XXIV, nº 1.105, ago./1959, p. 04).<br />

Dentre <strong>as</strong> <strong>representações</strong> teatrais vári<strong>as</strong> peç<strong>as</strong> eram encenad<strong>as</strong> destacamos:<br />

“Alvora<strong>da</strong>”, “A missionária”, “Myriam” – drama, “Minha Mestra” – poesia.<br />

Em 1934, por motivo do festejo do dia <strong>da</strong> canonização de D. Bosco, houve,<br />

além <strong>da</strong> parte religiosa – a parte teatral, prescrevia que <strong>as</strong> 17 hor<strong>as</strong> haveria oito<br />

apresentações.<br />

1° - Quanto o amavam (poesia); 2° - O quarto mal <strong>as</strong>sombrado<br />

(comédia); 3° - O segredo de Stª Terezinha (Poesia); 4° - A distraí<strong>da</strong><br />

7


(entremeio cômico); 5° Maria Auxiliadora e D. Bosco (poesia –<br />

quadro vivo); 6° Puxa o boi! (samba); 7° - No campo <strong>da</strong> imprensa<br />

(peça infantil); 8° - Hino <strong>da</strong> Boa Imprensa. – Apoteose. (CARTA-<br />

PROGRAMA de 1934).<br />

O encerramento do ano letivo na instituição festejava-se com prêmios, certames e<br />

peç<strong>as</strong> teatrais, outros festejos ou <strong>folguedos</strong> e distribuição de doces e biscoitos. Realizouse<br />

o certame do catecismo maior e do menor: no primeiro saíram vitorios<strong>as</strong> <strong>as</strong> alun<strong>as</strong><br />

intern<strong>as</strong> Maria de Jesus P<strong>as</strong>sos, Clotildes Campos Menezes 7 e Maria José Góis que<br />

receberam me<strong>da</strong>lh<strong>as</strong> como prêmios. No catecismo menor foi vencedora a interna<br />

Jovelina Guerra <strong>da</strong> Silva, recebendo como prêmio, me<strong>da</strong>lha. Ain<strong>da</strong> foram agraciad<strong>as</strong><br />

por comportamento Josepha F. Barreto e por aplicação na aula primária Clotildes<br />

Campos Menezes; n<strong>as</strong> aul<strong>as</strong> de religião receberam prêmios <strong>as</strong> alun<strong>as</strong> Maria de Lourdes<br />

Leite, Maria de Jesus P<strong>as</strong>sos e Josepha Góis.<br />

Destacaram-se no exame final e “receberam o diploma do curso primário”,<br />

realizado em novembro de 1937, às 15:00 hor<strong>as</strong>, <strong>as</strong> alun<strong>as</strong>: Jovelina Guerra <strong>da</strong> Silva,<br />

Maria <strong>da</strong> Conceição Costa e Maria de Lourdes Pereira que diante <strong>da</strong> banca<br />

examinadora, composta pel<strong>as</strong> professor<strong>as</strong> Leonor Teles de Menezes (renoma<strong>da</strong><br />

professora em Aracaju), Edite Menezes Hora e Esmeral<strong>da</strong> Batista Oliveira (professora<br />

do curso primário do Oratório). (ANAIS DO ORATÓRIO FESTIVO SÃO JOÃO<br />

BOSCO, 1937, p. 14). A festa de encerramento de 26 de novembro de 1937 propunha a<br />

seguinte no programa-convite:<br />

6 ½ hor<strong>as</strong> - Missa festiva com comunhão geral d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>.<br />

8 hor<strong>as</strong> – Abertura dos trabalhos manuais; jogos recreativos.<br />

15 ½ hor<strong>as</strong> – Benção d<strong>as</strong> imagens de Santa Terezinha do Menino<br />

Jesus e de S. Luiz; Prática e benção do S. S. Sacramento.<br />

16 ½ hor<strong>as</strong> no Salão do Teatro:<br />

1 – Hino Nacional (unissono); 2 – Minha Mestra (poesia); 3 – Leitura<br />

<strong>da</strong> Ata de Promoções; 5 – Madrigal ingênuo e Galinha par<strong>da</strong> (côro a 2<br />

vozes); 6 – Entrega d<strong>as</strong> Prov<strong>as</strong> do 1° e 2° anos; 7 – Canção do berço e<br />

Sinos (côro a 2 vozes); 8 – Entrega d<strong>as</strong> Prov<strong>as</strong> do 3° e 4° anos; 9 –<br />

Acordei de madruga<strong>da</strong> (côro a 2 vozes)e Alegria de viver (cânone<br />

perpétuo); 10 – Prêmios de aplicação à intern<strong>as</strong> e extern<strong>as</strong>; 11 –<br />

7 A aluna interna Clotildes Campos Menezes Monteiro escrevia poem<strong>as</strong>, dentre eles: “Genésia Fontes”<br />

(s/d), “Aos boníssimos comerciantes” (s/d), “Mãezinha” (1952), e “Inesquecível Mãezinha” (escrito<br />

em 1960 no dia <strong>da</strong> morte <strong>da</strong> fun<strong>da</strong>dora por atropelamento automobilístico). São poem<strong>as</strong> específicos,<br />

m<strong>as</strong> registram <strong>as</strong> percepções <strong>da</strong> aluna para determinado <strong>as</strong>sunto.<br />

8


Eterna sau<strong>da</strong>de (côro a 2 vozes), Nôzani (unissono); 12 – Entrega dos<br />

prêmios de comportamento <strong>as</strong> alun<strong>as</strong> interna e extern<strong>as</strong>.<br />

13 – Discurso de despedi<strong>da</strong>; 14 – Adeus! (côro a 2 vozes)<br />

(PROGRAMA-CONVITE, 1937)<br />

Os p<strong>as</strong>seios, retiros e visitações constituíam-se em ativi<strong>da</strong>des culturais<br />

constitutiv<strong>as</strong> para a formação d<strong>as</strong> menin<strong>as</strong>. Os p<strong>as</strong>seios e os retiros faziam parte <strong>da</strong><br />

formação <strong>da</strong> mente e do espírito e ocorriam no mês de setembro ou dezembro. Os<br />

p<strong>as</strong>seios realizavam-se em c<strong>as</strong>a de praia pertencente à instituição, sítios ou fazend<strong>as</strong> de<br />

beneméritos nos finais de semana ou em féri<strong>as</strong> escolares (somente <strong>as</strong> intern<strong>as</strong>). Como<br />

exemplo: o “sítio <strong>da</strong> viúva Teixeira no Carro Quebrado para p<strong>as</strong>sar à tarde” ou no<br />

“Engenho Salgado” para p<strong>as</strong>sar <strong>as</strong> féri<strong>as</strong> do mês de junho/julho.<br />

Já <strong>as</strong> visitações eram feit<strong>as</strong> a beneméritos, a padres doentes ou que chegavam à<br />

ci<strong>da</strong>de, principalmente se salesianos. Visitavam, em época de Natal para apresentação<br />

do “coral d<strong>as</strong> menin<strong>as</strong> cantor<strong>as</strong> do Oratório Festivo São João Bosco”, a penitenciária<br />

“Modelo”; colégios <strong>da</strong> ci<strong>da</strong>de como o Salesiano N. S. Auxiliadora em époc<strong>as</strong> de fest<strong>as</strong> e<br />

o Patrocínio São José; hospitais como o Augusto Leite ou Cirurgia e o Santa Isabel.<br />

Nesse ínterim, recebiam visit<strong>as</strong> de colaboradores, como representantes dos jornais:<br />

“A Cruza<strong>da</strong>”, “A República”, “A Thebaidinha” (dos salesianos), “A Boa Nova” e<br />

“Correio de Aracaju”, bem como, frequentemente a visitavam a instituição, <strong>as</strong> alun<strong>as</strong> do<br />

Curso Normal do Colégio “Francina Menezes”, dirigido pela Profª. Leonor Teles de<br />

Menezes, benemérita <strong>as</strong>sídua <strong>da</strong> instituição. Ness<strong>as</strong> oc<strong>as</strong>iões distribuíam-se bal<strong>as</strong>,<br />

biscoitos, sabo<strong>net</strong>es e jogos educativos confeccionados pel<strong>as</strong> alun<strong>as</strong> do curso normal e<br />

complementar.<br />

Outra soleni<strong>da</strong>de importante aconteceu no dia 13 de outubro de 1943, quando se<br />

comemorou a “Semana do Menor Abandonado”. Em meio às festivi<strong>da</strong>des <strong>da</strong> Semana <strong>da</strong><br />

Criança. No Oratório Festivo “São João Bosco” a ênf<strong>as</strong>e foi à chega<strong>da</strong> do Interventor<br />

Augusto Maynard Gomes e sua comitiva no estabelecimento.<br />

Os ilustres visitantes foram ali recebidos pela diretora do orfanato D.<br />

Genésia Fontes, pel<strong>as</strong> internad<strong>as</strong> e pelos corpos docente e discente do<br />

Colégio N. S. Auxiliadora, tendo a frente à ban<strong>da</strong> de música <strong>da</strong>quele<br />

estabelecimento de ensino. O dirigente sergipano foi recebido com<br />

viv<strong>as</strong> e palm<strong>as</strong> dos presentes, empunhando <strong>as</strong> pequenin<strong>as</strong> orfans<br />

bandeir<strong>as</strong> nacionais agitad<strong>as</strong> no espaço, num espetáculo magnífico e<br />

9


comovente. (Diário Oficial do Estado de Sergipe. Ano XXV, n°<br />

8.959, out./1943, p. 07).<br />

Conforme registra os Anais <strong>da</strong> Instituição (1942-1944), o Interventor chegou às<br />

nove hor<strong>as</strong> e trinta minutos e foi recebido pel<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>, formad<strong>as</strong> em fil<strong>as</strong>, com<br />

“caloros<strong>as</strong> palm<strong>as</strong> e gritos de viv<strong>as</strong>”. Depois <strong>da</strong> acolhi<strong>da</strong> o Interventor fez uma visita<br />

n<strong>as</strong> acomo<strong>da</strong>ções <strong>da</strong> instituição e na exposição de trabalhos manuais feito pel<strong>as</strong> órfãs e<br />

alun<strong>as</strong> extern<strong>as</strong>. Para completar o espetáculo ocorreram três apresentações no salão de<br />

teatro: a primeira, <strong>as</strong> órfãs sentad<strong>as</strong> no palco em ordem e ‘posição apropria<strong>da</strong>’,<br />

executaram diversos números de canto orfeônico; a segun<strong>da</strong> parte aconteceu depois <strong>da</strong><br />

Conferência do Dr. Juiz de Menores, José Rodrigues Nou, <strong>as</strong> órfãs apresentaram<br />

números de “canço<strong>net</strong><strong>as</strong>, declamação e dramatização”; a terceira apresentação <strong>as</strong> alun<strong>as</strong><br />

órfãs veteran<strong>as</strong> apresentaram um número de educação física que foi executado também<br />

depois dos discursos do Dr. Antônio Campelo e do Pe. Diretor do Colégio N. S.<br />

Auxiliadora. Aos esportes estava incluído a ginástica, sendo professora Eurídice Assis.<br />

Destacando-se também os jogos de bola, “voleibol” e “bola ao centro”, disputados entre<br />

os “clubs verde e vermelho” integrados d<strong>as</strong> pel<strong>as</strong> intern<strong>as</strong>.<br />

Ess<strong>as</strong> festivi<strong>da</strong>des cívic<strong>as</strong> e escolares e <strong>as</strong> celebrações religios<strong>as</strong> do Oratório<br />

Festivo cumpriam <strong>as</strong> determinações tanto <strong>da</strong> Congregação Salesiana n<strong>as</strong> comemorações<br />

de seus rituais que ocorria praticamente durante todo ano, <strong>as</strong>sim como, <strong>as</strong> obrigações<br />

pátri<strong>as</strong> e cívic<strong>as</strong> inserid<strong>as</strong> na política e no imaginário educacional do Estado Novo. A<br />

política visava que a educação <strong>da</strong> mulher deveria <strong>as</strong>sentar-se no aprendizado do<br />

civismo, na religião e na disciplina. Capanema, Ministro <strong>da</strong> Educação no período,<br />

advertia que a educação feminina exigia cui<strong>da</strong>dos especiais. No seu entender o “homem<br />

era preparado com a têmpera militar, para os negócios e <strong>as</strong> lut<strong>as</strong>, a educação feminina<br />

terá outra finali<strong>da</strong>de, que é o preparo para a vi<strong>da</strong> do lar.” (HORTA, 1994, p. 170). Esse<br />

preparo incluía-a ativi<strong>da</strong>des físic<strong>as</strong> modelador<strong>as</strong> <strong>da</strong> mente e do corpo para formação de<br />

filhos sadios.<br />

CONCLUSÃO<br />

10


O ensino na instituição até aqui observado, oferecia instrução religiosa e moral,<br />

ensino primário, economia doméstica, trabalhos manuais e aul<strong>as</strong> de postura, aul<strong>as</strong> de<br />

teoria musical, piano e ativi<strong>da</strong>des complementares como canto, <strong>da</strong>nça, ginástica e outros<br />

esportes com bola e ain<strong>da</strong> o aprendizado de ativi<strong>da</strong>des doméstic<strong>as</strong> que eram<br />

desenvolvid<strong>as</strong> pel<strong>as</strong> própri<strong>as</strong> alun<strong>as</strong> intern<strong>as</strong>.<br />

Apesar disso, entre <strong>cantos</strong> De Angelis e Magnificat, a educação d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong><br />

intern<strong>as</strong> do Oratório Festivo São João Bosco concentrava-se, principalmente, n<strong>as</strong><br />

prátic<strong>as</strong> d<strong>as</strong> festivi<strong>da</strong>des tanto religios<strong>as</strong> quanto cívic<strong>as</strong>. A prática do catecismo, por<br />

exemplo, desenvolvido o ano inteiro tinha sua apoteose no final do ano com a realização<br />

dos ‘certames catequéticos’. A disputa era <strong>as</strong>sisti<strong>da</strong> pel<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>, professores, o padre<br />

diretor do Colégio Salesiano e algum<strong>as</strong> vezes, beneméritos e comuni<strong>da</strong>de, autori<strong>da</strong>des<br />

polític<strong>as</strong>. Prátic<strong>as</strong> que possibilitavam além <strong>da</strong> apropriação <strong>da</strong> doutrina e <strong>da</strong> fé; a<br />

disciplinar, conduta e modelação d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong>.<br />

As aul<strong>as</strong> de música, que p<strong>as</strong>saram a fazer parte do currículo em 1930, tornaramse<br />

fun<strong>da</strong>mentais para celebrações d<strong>as</strong> miss<strong>as</strong> cantad<strong>as</strong>. O coral d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong> participava de<br />

divers<strong>as</strong> apresentações na ci<strong>da</strong>de, como: comemorações cívic<strong>as</strong>, fest<strong>as</strong> beneficentes para<br />

a própria instituição, em c<strong>as</strong>a de beneméritos, n<strong>as</strong> praç<strong>as</strong>, na Biblioteca Pública do<br />

Estado e em Colégios Particulares <strong>da</strong> ci<strong>da</strong>de.<br />

Assim, ess<strong>as</strong> ativi<strong>da</strong>des <strong>da</strong> cultura escolar foram elementos colaboradores para a<br />

formação de <strong>representações</strong> cultural e social d<strong>as</strong> alun<strong>as</strong> dessa instituição.<br />

REFERÊNCIAS<br />

A CRUZADA, Ano XXIV, nº 1.105, ago./1959.<br />

ADÃO, Kleber do Sacramento. A Pe<strong>da</strong>gogia do Pátio de Dom Bosco: o lazer no<br />

contexto <strong>da</strong> escola e <strong>da</strong> educação. In: VERTENTES, São João del-Rei, n° 8, p. 56-70,<br />

jul./dez. 1996.<br />

ANAIS DO ORATÓRIO FESTIVO SÃO JOÃO BOSCO, 1929.<br />

ANAIS DO ORATÓRIO FESTIVO SÃO JOÃO BOSCO, 1937.<br />

11


AZZI, Riolando. Os Salesianos no Br<strong>as</strong>il: à luz <strong>da</strong> história. São Paulo: Ed. Salesiana<br />

Dom Bosco, 1982.<br />

BONIFÁCIO, Nadja Santos. Da Mihi Anim<strong>as</strong> Cætera Tolle: A Obra de D. Bosco em<br />

Aracaju através <strong>da</strong> Atuação do Pe. Anibal Lazzari (1913-1919). In: FERRONATO,<br />

Cristiano de Jesus; NUNES, Maria Lúcia <strong>da</strong> Silva. Anais do 19° EPENN: educação,<br />

direitos humanos e inclusão social. João Pessoa - PB: Editora <strong>da</strong> UFPB, p. 1-12.<br />

BOLETIM SALESIANO, ANNO X, Vol. IV – N. 5, out./1911, p. 251.<br />

CHARTIER, Roger. À beira <strong>da</strong> falésia: a história entre incertez<strong>as</strong> e inquietudes. Porto<br />

Alegre: Ed. Universi<strong>da</strong>de/UFRGS, 2002.<br />

CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Estudos Avançados, nov./1991,<br />

n° 5, p.173-191.<br />

Colégio Salesiano N. S. Auxiliadora. Carta programa do Centenário de D. Bosco.<br />

1941.<br />

Diário Oficial do Estado de Sergipe. Ano XXV, n° 8.959, 15 de outubro de 1943, p.<br />

07<br />

FARIA FILHO, L. M.; VIDAL, D. G. et. al. A cultura escolar como categoria de análise<br />

e como campo de investigação na história <strong>da</strong> educação br<strong>as</strong>ileira. Educação e<br />

Pesquisa, vol. 30, n. 1, pp. 139-160.<br />

FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso. São Paulo: Global, 2004.<br />

HORTA, José Silvério Baia. O hino, O sermão e a ordem do dia: regime autoritário e<br />

a educação no Br<strong>as</strong>il (1930-1945). Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994.<br />

JULIA, Dominique. A Cultura Escolar como Objeto Histórico. In: Revista Br<strong>as</strong>ileira<br />

de História <strong>da</strong> Educação. Campin<strong>as</strong>: Autores Associados, nº 1, p. 08-43, jan./jul.,<br />

2001.<br />

ORATÓRIO FESTIVO SÃO JOÃO BOSCO. RELATÓRIO DO ORATÓRIO<br />

FESTIVO SÃO JOÃO BOSCO, 1934.<br />

Oratório Festivo São João Bosco. Carta Programa do dia <strong>da</strong> canonização de D.<br />

Bosco, 1934.<br />

Oratório Festivo São João Bosco. Programa-convite <strong>da</strong> festa de encerramento de<br />

final de ano, nov./1937.<br />

RESUMO HISTÓRICO DO ORATÓRIO FESTIVO SÃO JOÃO BOSCO, 1926.<br />

12


SCARAMUSSA, Tarcísio. O sistema preventivo de Dom Bosco: um estilo de<br />

educação. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1977.<br />

13

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