trabalhadores - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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trabalhadores - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

.OPINIÃO

.ANÁLISE .

. INFORMAÇÃO

Publicação

Quinzenal do

CENTRO DE

WXSTORAL

VERGUEIRO


QUINZENA CD' TRABALHADORES

A paralisação total de categorias estra-

tégicas dos principais centros do país, uma

intensa repressão que culminou com a prisão

de cerca de 30 sindicalistas, atos públicos e

passeatas marcaram a greve geral, ontem,

em todo o pa(s. Ãs 20 horas, o Comando

Nacional de Greve divulgou o seguinte

quadro:

SAO PAULO

Apesar da provocação aos trabalha-

dores e da repressío, a cidade funcionou

como se estivesse em pleno feriado. O metrô

parou c os ônibus circularam normalmente

depois de um acordo feito pelo prefeito

Jânio Quadros, que prometeu um aumento

salarial de 70 por cento aos motoristas.

Mosmo assim, circularam vazios. A industria

parou parcialmente e a Polícia Federal

efetuou varias prisões, entre elas a do presi-

demo tio Sindicato dos Bancários. Adauto

Ueriivcgna c a do deputado estadual eleito

pelo PT, Roberto Gouveia.

Km S3o Bernardo, a paralisação foi

lutai Os sindicatos organizaram caravanas

que orculavam pela cidade convocando a

populaçío para o ato público no Paço Muni-

cipal Houve prisões de diretores do Sindica-

to dos Metalúrgicos e de dois vereadores do

PT. Os vereadores foram acusados de portar

bombas de fabricação caseira. Em Itaquera

no interior do Estado, também foram

presas tres pessoas sob a mesma alegaçffo.

A Polida Militar abriu inquérito por danos

ao patrimônio.

RIO DE JANEIRO

As barcas, que transportam 500 mil

pessoas por dia do Rio para Niterói, pararam

por completo. O metrô também parou,

mas os ônibus das empresas particulares

circularam em sua maioria. Os ônibus da

companhia estadual, CMTC, não circularam

até às 8:30. Depois disso, metade deles

P^SSQM 3 funcionatr, mai precariamente.

A PMUSAÇÂO NO Mfe

O Exército ocupou a Central do Brasü, e

embora os trens estivessem funcionando,

havia poucos passageiros.

Em Volta Redonda, os transportes

c o comércio permaneceram parados. Houve

um lulmuto quando tropas do Exército

passaram a cercar a Companhia Siderúrgica

Nacional e a populaçío começou a atirar

predas nos soldados. Em Petropólis, cerca de

20 pessoas foram presas sem motivo aparen-

te. Em lodo o inteior houve uma série de

manifestações.

BELO HORIZONTE

A paralisaçlo foi parcial, üs ônibus

circularam normalmente, mas algumas indús-

trias e órgãos públicos pararam. Havia

policiamento ostensivo era toda a cidade.

PERNAMBUCO

Os transportes não funcionaram, üs

lelelonitos aderiram micgrulmeiuc. assim

como os funcionários públicos e os professo-

res. Não há notícia de prisões.

RIO GRANDE DO NORTE

A paralisação foi de 80 a 90 por cento

em várias categorias, mas os transportes

funcionaram normalmente. Na noite de

quinta-feira, durante uma reunião da CUT.

CGT c sindicatos foram descobertos dois

policiais infiltrados. Estavam armados e os

sindicalistas obrigaram-nos a retirar-se. Do

lado de fora. um Chevottc chapa fria aguar-

dava pelos policiais.

CEARÁ

Os rodoviários pararam completamen-

te. Os eletricitários e bancários pararam par-

dalmenle Os metalúrgicos não pararam

porque os donos das fábricas anunciaram o

pagamento do J3o. salário integral, durante

todo o dia de ontem. Cerca de 70 por cento

do comércio parou

RIO GRANDE DO SUL

Pararam apenas 20 por cento dos

rodoviários, mas o metrô não funcionou.

Há notídas de que houve intervenção no

Sindicato, e, à tarde, os metroviários teriam

realizado uma assembléia geral para resolver

o problema. Em Canoas, os rodoviários e

metalúrgicos aderiram em massa. Em Santo

Claro, 40 mil trabalhadores rurais cruzaram

os braços. Em Santa Cruz e São Leopoldo

a paralisação foi de 80 por' cento dos

trabalhadores.

O presidente do Sindicato dos Bancá-

rios foi preso, por indtamente à greve.

Durante tudo o dia, passeatas ocuparam

parte do centro comercial de Porto Alegre.

Uma manifestação marcada para frente do

Palácio do Govemo não pôde se realizar

porque a Polida Militar cercou o prédio.

A Assembléia Legislativa foi fechada.

BAHIA

A paralisação foi total. Os transportes,

o comércio, os bancos, tudo fechou. Em

função disso, o Pólo Industrial não fundo-

nou. Foram presos três diretores do Sindi-

cato dos Metalúrgicos. Um deles. Salvador

Brito, foi violentamente espancado pela

Polida Militar e teve a perna quebrada.

A comissão formada para negociar junto à

Polida foi impedida de fornecer assistência

jurídica aos def.dus. Com a interferênda da

OAB, os sindicahstas foram soltos à noite.

MATO GROSSO

Houve atos públicos em Cuiabá, Dia-

mantina e Rondonópolís. A repressão foi

muito grande. O' rodoviários, apesar disso,

pararam por completo

ALAGOAS

O presideme do Sindicato dos Rodo-

viários foi à telev.são para convocar à popu-

lação a não aderir a greve, Com isco, os


motoristas n3o pararam. Os previdenciarios,

enfermeiros, funcionários Públicos e professo-

res pararam completamente. A repressão

foi tio violenta que prendeu todo o Coman-

do de Greve, composto por cerca de 100

dirigentes sindicais.

BRASÍLIA

O comercio fechou paicialmente, mas

os funcionários públicos aderiram em massa.

As manifestações programadas para as cidades

satélites contaram com um bom número de

No inicio da tarde, dezenas de

policiais militares impediram,

com espancamentos e prisões,

a realizaçAo da outra passeata no

centro de Camaçari, ainda como

pane das manilestações pelo Dia

da Greve Geral Nacional naquela

cidade da Região Metropolitana.

A denuncia loi teita pelo prefeito

Luiz Caetano, para quem a atitude

óa PM representou "uma postura

arbitrária, lipica da ditadura mili-

tar, e esta não é a Nova nepüblica

que queremos". Os soldados não

respeitaram nem mesmo a S6 •

cretAria de Educação do Municí-

pio, Luiza da Costa Mala, que

chegou a receber voz de prisão

por protestar contra as agressões,

mas as centenas de pessoas que

psnícipavam da manileslação não

permitiram que ela losse detida.

A repressão da PM começou

quando a passeata passava em

frente ao centro comercial do

município, na Praça Montenegro.

Os policiais lormaram uma bar-

reira e passaram a dispersar, à

lorça. os manileslantes. Os que

ensaiaram uma resistência termi-

naram presos. Foi o caso de Da-

vid Felix da Silva. Antônio Carlos

da Silva e José Muniz, detidos

quando reclamaram da lorma

como a PM reprimiu a maniles-

lação.

A GREVE EM CAMAÇARI

Camaçari passou o dia por

conta dos piquetes e das reuniões

animadas no Sindiquimica. Todo

o comércio paralisou atividades,

da mesma lorma que outros se-

tores do município. Entre estes,

os quase seis mil luncionários da

Prefeitura Municipal, que, em as-

sembléia conjunta com represen-

tantes sindicais da cidade, decidi-

ram aderirão movimento. O pre-

leito Luiz Caetano, que desde o

inicio apoiou a dellagração da

greve contra o Cruzado II, tam-

bém ficou ao lado dos servidores

da Prefeitura.

Para Caetano, trata-se de um

movimento justíssimo, que não

devia receber o tratamento que a

PM está dispensando ãs.maniles-

tações em Camaçari. "Nosso po-

vo não quer porrada ou prisão.

paiticipantes.. No Plano Piloto, houve uma

passeata com duas mil pessoas..O presidente

da CUT Estadual. Chico Vigilante, foi preso

dentro do Sindicato. Motivos: segundo

versáo da PM. teria dominado, sozinho,

dois vigilantes de um banco, tomaào suas

armas c tirado suas roupas. Ate o início

da noite ainda não havia sido liberado.

Na noite de quinta-feira, os cartazes

que a CUT nacional havia mandado, foram

apreendidos ainda no aeroporto. A polida

efetuou mais de 10 prisões sob alegações

diversas: portavam coquetel molotov, bom-

bas, material para depredaçSo.

TRABALHADORES

APOIO

O Comando Nacional de Greve rew-

beu telegramas de apoio das seguintes entida-

des internacionais de trabalhadores: Federa-

ção Sindical Mundial, da Tchecoslováquia;

ORIT, do México, CSN, do Canadá, CGTB,

de Portugal; UGT, da Espanha; Cedoc,do

Equador; FederaçSo Sindical, de Paramaribo;

EsaJcajda Grécia.

aornal da Greve (CUT/CGT)-PA

PM prende e espanca em Camaçari

Ouer é liberdade para protestar

quando achar que deve. Ouem

deve ser preso são os agiotas es-

trangeiros e não as lideranças

populares. É preciso que os pre-

feitos, os parlamentares e gover-

nadores agora eleitos, com ban-

deiras de causas democráticas e

progressistas, se levantem com

força e determinação contra essa

arbitrariedade, essa postura dita-

torial".

Numa lanchonete, na rua

transversalá avenida principal da

cidade, o sargento PM Vidal dizia

que aquele era um dia em que a

população se manifestava" com

todo o direito, e acrescentou que

se sentiria mal se losse obrigado

a participar de qualquer ação re-

pressiva, pois, acima de tudo era

um brasiJeiro, burlado pelo pa-

cote. Mas a opinião do PM Vldal

não teve a solidariedade de todos

os seus colegas de farda. Na*

BR.324, além de prender os sindi-

calistas que participavam do pi-

quete lura-pneus, policiais agre-

diam os motoristas dos ônibus

que não conseguiam tirar da pista

os veículos danificados, chegando

a espancar e prender o motorista

Santos (n9254!, da Viaçáo São

Francisco.

Foi a maior greve

da Bahia

A Bahia leve um dos maiores índices de pa-

rafisação no pais durante a greve gerai dos tra-

balhadores, ontem, em protesto ao Piano Cruza-

do tf e è política econômica do Governo Fede-

ral. Conforme balanço das duas centrais sindi-

cais - CUT e CGT - pararem nfo somente os

setores de serviço, mas também os trabalhado-

res do setor produtivo no Póto Petroquímico de

Camaçari e do Centro Industrial de Aratu. Algu-

mas categorias chegaram a f 00 por cento de pa-

ralisaçio e. o mais importante. .» gsisve contou

com a simpatia da população, principalmente

em Salvador, aplaudindo e saudando os pique-

tes organizados pelos trabalhadores em algumas

empresas e no comercio. A seguir, a relação per- ^

centual, por categoria, lornecida pela Central'

Única dos Trabalhadores e pela Central Geral

dos Trabalhadores.

- Comerciános Ida Ribeira ao Jguatemi) -

90%

- RODOVIÁRIOS - 100% ívsnsporte ur-

bano dt massa)

- PÓLO e CIA - 70%

- TAXISTAS - 80% pela manhã e 50% é

tarde

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QUINZENA TRABALHADORES

- BANCÁRIOS - 90% (praticamente não

houve atendimento ao público e no setor inter

no 65% dos funcionários aderiram à grevej

- PROCESSAMENTO OE DADOS (Prodeb.

Serpro. Davaprev e Datamecl — 80%

- PETROQUÍMICOS ~ 70% (só funciona

ram os turnos operacionais)

- OUÍMICOS: Camaçari e Candeias - 70%.

CIA - 80%, Arembepe - 50%

- QUÍMICOS (pequenas empresas de Salva

dorl - 100%

- METALÚRGICOS: CIA - 80%. Jaguarari

- 100%

- EMPREITEIRAS DO PÓLO - 100%

- PROFESSORES (licenciados) - 90%

- PROFESSORES e SERVIDORES da

UFBa e UNEB - 100%

- TELEFÔNICOS: Embratel - 90%, T«4«-

bahia - 85% (manutenção), 50% (técnicos) e

20% (administração)

- FUMAGEIROS- 75%

- ÁGUAS e ESGOTOS (os serviços essen-

ciais de abastecimento foram mantidos): Emba-

sa - 100%. Cetrel - 60% (Não foram forneci-

dos dados da Cerb e Desenvale)

- TÊXTEIS- 80%

- ELETRICITÁRIOS: Coelba - 57%, Chesf

- 70% (capital) (Não foram fornecidos dados

do interior)

- TURISMO - 100%

- STIEP (extração de petróleo). Jequitaia -

50%, Campo (produção) - 70%, Salvador -

20%

- POSTOS DE GASOLINA funcionaram

precariamente, 50% dos empregados não com-

pareceram ao trabalho

- VIGILANTES- 70%

- EMATERBA e CEPLAC- 100%

- REFINARIA - 50%

- CANDEIAS (comércio, rodoviários e em-

preiteiros) - 100%

- JORNALISTAS - 90%

Agrícola

Atividades

Indústria de transformação

Total

Brasil'

15.190

7.847

Região

Norte *

122

173

Região

Nordeste

6.791

1.2.il

Região

Sudeste

3.799

4.901

Região

Sul

3.522

1.277

Kcgião

Centro-.

Oeste

Indústria de construção 3.097 97 737 1.597 425 243"

Outras atividades industriais 839 39 229 355 121 95 ,.

Comércio de mercadorias 5.814 250 1.417 2.850 896 401

Prestação de serviços 8.854 247 1.837 4.860 1.238 674

Serviços auxiliares da atividade econômica 1.433 44 194 840 246

Transporte e comunicação 1.916 73 373 1.032 30ó

Social 4,151 137 988 ,2.102 604 320

Administração pública 2.347 128 571 1,071 312 265

üutras atividades 1 747 52 273 1.014 261 126

Total 53.237 1.359 14.650 24.419 9,229 3.579

t-dwdo o popt/lotòo rurol do fUç-úo No'i< P£ A = TrobolKodorct com dit ou moit onoi d* idúd« Kome: KNAÜ/IÜGE )

957

256

110

133

Ti

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O.

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o

c

00


Nome

Central Geral

dos

Trabalhadores

(CGT)

Central Única

dos

Trabalhadores

(CUT)

Unidade

Sindical

Independente

(USD

Confederação

Nacional da

Agricultura

Confederação

Nacional Uo

Indústria

Confederação

Nacional do

Comércio

FORÇAS EM CONFRONTO

Número de

filiados

Vinte e

cinco

milhões

Quinze

milhões

1,6 milhão

1.800

sindicatos

Seiscentos

sindicato

Seiscentos

sindicatos

Federal

Centrai

O presidente José Sarney é filiado ao

PMDB. Além dos cinco ministérios

militares, o PMDB comanda dezesseis

ministérios e o PFL cinco

Rádios clandeslmas

montam esquema para

cobrir o movimento

Do Reportagem toco!

As rádios "livres" (que náo dis-

põem de concessão do Dentei) irão

Iransmitir entre as frequcntiai KM e

108 MHZ (Freqüência Moduladai,

informações sobre a greve geral

durante todo o dia de hoje. Através

de comunicado endereçado à Folha,

cinco emissoras clandestinas decla-

raram que será instalada uma rede

independente para a cobertura do

movimento, como forma de protesto

Linha ideológica

Ligada ao PMDB e ao Partido

Comunista Brasileiro, sucede à

Confederação das Classes

Trabalhadoras, Conclal

Vinculada ao PT, ao PDT e a

outros grupos de tendências

! variadas de esquerda

Ligada ao PDS, se

autpproclama independente

eraçõesempresaridr"

È caracterizada como de

centro-direita

Ê caracterizada como de centro

È caracterizada como de centro

: ■ G ^ rn ^ s ' ' •

Estaduais

Setores em

que alua

Metalúrgicos,

portuários,

trabalhadores

rurais,

transportes e

serviços

essenciais

Metalúrgicos,

químicos,

bancários e

funcionários

públicos

Comércio

Café, pecuária,

cacaueaçúcar

Metalúrgicos,

aulo-poços e

petroquímico

Alimentação,

vestuário e

eletro-

domésticos

Atualmente, onze governos estaduais

estão nas mãos do PMDB, o PFL

detém dez, o PDS um e o PDT um.

Após dia quinze de março de 87, o

PMDB terá 22 governadores e o PFL

um

ao "boicote" à informação promovi-

do por aquele órgão do Ministério das

Telecomunicações.

As rádios, que segundo o comuni-

cado se denominam 'Xilik". "Ví-

rus", "Dengue". "Invasão" e "On-

das Menores", mudarão constanle-

mente a localização de seus trans-

missores para evitur que os equipa-

mentos sejam apanhados pelos fis-

cais do Dentei. Seus operadores

recomendam por isso. caso uma das

emissoras saia do ar. que os ouvintes

procurem sintonizar outra próxima

no "dia!" para que possam acom-

panhar a programação. "Será man-

tido estado de total utenção para que.

via ondas sonoras. São Paulo possa

ser informada corrctamcnlc". alir-

ma o comunicado.

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Ai dos vencidos

i. A greve de anteontem, nem triun/o nem

fracasso, ofereceu aos incautos políticos

patrícios a oportunidade de se mostrarem

em toda sua arrogante fragilidade intelectu-

al e em toda sua ignorância jactanciosa, que

beira o cretinismo; quase todos se afogaram

em sua própria mendacidade; aos partidos,

ou melhor, ao PMDB, pois já agora quase

único, deu a vez para se axibirem em sua

esplendorosa alienação —em coisas sérias,

eles não se metem; e aos militares, ofereceu

a chance de se inserirem de novo na vida

social e política de nouo paii, com eloqüente

vigor, por meio de sua enfática presença

física nas ruas, mesmo se absoiutamenfe

desnecessária.

2. Desse bailado inconseqüente de doudi-

vanas salvaram-se com mérito que exige

destaque, o governador Franco Montoro, sua

secretária do Trabalho A/da Marcoantonio e

seu chefe de Polícia, Eduardo Muylaert, qual

em vez de ameaçar líderes sindicais foi

sentar-se á mesa com eies; e sah-ou-se

igualmente com todo êxito, o ministro do

Trabalho Almir Pazzianotto; todos os quais

mostraram ler entendido o momento, fala-

ram pouco, e com o respeito devido aos

trabalhadores, e com a ausência apropriada

e correta de animosidade, como se deve; os

outros se portaram com o primitivismo

intelectual esperado; a tragédia brasileira é

que a boçalidade é perfeitamente previsível.

3. Em países onde o proletariado é

organizado há mais de um século, fazer uma

greve geral leva meses; aqui, a última, com

êxito, foi a liderada pelos anarquistas, cm

1917, em SP; terminou em vexame dado pelo

governo. Ê bobagem aliás dizer que os

deres grevistas nada conseguiram; conse-

guiram, e bastante, com estas centrais

sindicais embrionárias e com o temor

reverenciai do operário pa tricio pelo paíráo.

4. Para variar, a polícia, a PF e o aparato

de inteligência perseguiram a CUT e o PT,

alvos prioritários, e já agora sem disfarces:

estão procurando um confronto. E também

para variar foi o sr. Jânio Quadros quem

soube quebrar, com a aparente autorização

presidencial, o ímpeto di greve; só que isso

vai custar caro ao povo de Sso Paulo.

Cláudio Abramo

Folha de São Paulo !4.12.86


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A GREVE NA IMPRENSA

^Bom Dia" da Globo

começa mal

A greve dos jornalistas na

Rede Globo de Brasília foi gerai

e começou cedo: três convidados

especiais do programa Bom Dia

Brasil, somados aos inúmeros

funcionários da Rede Globo de

Televisão, provocaram várias

expectativas nos jornalistas que

fizeram piquetes naquela emis-

sora, no horário de 1 às 8 horas.

Mesmo sem contar com sua

equipe de profissionais, a TV foi

ao ar às 6h30min. apresentando

uma série de dificuldades. Por

exemplo, o script do programa

Bom Dia Brasil de ontem havia

sumido, o ministro do Trabalho,

Almir Pazzianotto. não compa-

receu - "fugiu da raia", confor-

me comentários dos jornalistas

-, o presidente da Confederação

Nacional dos Trabalhadores da

Industria, Calíxto Ramos, foi

ludibriado pelos piqueteiros no

portão principal. Disseram que

o programa havia sido suspen-

so, ele acreditou e voltou a sua

casa. Na marra, o apresentador

começa a apresentar o Bom Dia

Brasil e, no final do programa,

às 7h29min, chega à TV o sena

dor Humberto Lucena (PMDB-

PE). Ele cumprimenta rapida-

mente os jornalistas e indaga:

"Ainda há tempo para ir ao

ar?". Todos respondem: "Tal-

vez". Nâo deu tempo.

O apresentador iniciou o pro-

grama vestido com um terno

escuro. Mas um take, para co-

brir buraco(uma antiga entre-

vista com o ex-ministro Fernan-

da Lyra), traz o apresentador

vestindo um terno claro.

O "Bom Dia Brasil" reprisou

antigas entrevistas.

Na primeira delas, no estüdio,

participou o repórter Paulo José

Cunha que nâo se encontrava

ontem na estação. Depois, no

"Café da Manhã", feito também

pelo repórter Paulo José, a en-

trevista já tinha sido apresenta-

da no princípio da semana pelo

mesmo "Bom Dia Brasil". Por

ultimo, o jornal mostrou outra

matéria no estüdio, da qual par-

ticipou além de Carlos Monfor-

te, o repórter Tairo Arreal que

está de férias desde o dia cinco

de dezembro e náo se encontra

em Brasília.

Jornalista tem fotos

confiscadas no Conic

Policial» 4A tropa de choque da

PM, que cercaram o Conjunto Co-

mercial Conic (SOS) durante lodo

o dia de ontem, confiscaram dois

filmes do Jornalista profissional

Francisco Ferreira Lima, que foto-

grafava as manifestações para o

jornal "NOIíCíB*". da Federaçáo

Nacional dos Engenheiros.

O confisco foi feHo sob ameaças

de quebrar a máquina do repórter e

os policiais usaram de linguagem

truculenta, tentando Intimidar o

profissional. Chico Lima havia foto-

grafado a movimentação na iqdo-

viéria, no próprio Conic, no Setcr

Bancário Sul, a passeata dos ban-

cário» até a Praça do Povo e o

comício lá realizado. Em seguida

ao presenciar a prlsào do presl

dente da CUT-DF, Chico Vigilante

Chico Uma acompanhou, fotogra

lando, o deslocamento das pes

soa» em dlreçio à rodoviária, sen

do Interceptado pelos policiais na

altura do Conic.

As loto» destinavam-se a uma

documentação que o jornal da Fe-

deraçáo dos Engenheiro* pretendo

publicar. Chico Uma é jornalista

profitsicnal sindicalizado etn Bta-

sília. . .

TRABALHADORES

Programa da

repressão começa

pela Manchete

O piquete de gráficos e jorna-

listas na Rede Manchete (Edito-

ra Bloch) foi o primeiro a sofrer

a açáo repressiva da tropa poli-

cial comandada pelo tenente

Hellen, o mesmo que comandou

o aparato defronte ao Correio

Braziliense toda a tarde e parte

da noite de ontem. Por volta das

10 horas, a direçào da Manchete

solicitou a presença Policial pa-

ra reprimir o piquete. A polícia

chegou imediatamente, em

duas Kombis do GDF (Governo

do Distrito Federal). Ameaça-

dor, cassetete em punho, o te-

nente foi logo avisando que es-

tava ali para reprimir "a qual-

quer custo, qualquer piquete,

seja ele pacifico ou baderneiro".

O jornalista Marcelo Neto

tentou argumentar que estava

ali numa via publica (fundos da

Manchete, vizinha ao Parque

Piton Farias) e que participava

de uma greve ordeira, argumen-

tação olimpicamente ignorada

pelo tenente. O policial ordenou

que todos (cerca de quinze gre-

vistas) se dispersassem. Tam-

bém os grevistas ignoraram a

ordem e foram intimados pelo

tenente a acompanhá-lo até o

Departamento de Polícia Fede-

ral (DPF). Nova argumentação

de parte dos grevistas terminou

num acordo para dispersão do

piquete (que voltou a se formar

mais tarde).

Ainda na Manchete, o tenen-

te Hellen determinou a apreen-

são de dois veículos dos jorna-

listas Carlos Augusto Gouvéa, o

Carláo, e de Luiz Augusto Men-

donça, o Luizinho, que partici-

pavam dos piquetes. O carro de

Carião linha uma lanterna

queimada e Luizinho estava

sem documentos, posteriormen-

te encontrados em sua casa, o

que levou a polícia a liberá-lo. A

Variant do outro jornalista foi

guinchada e recolhida ao De-

tran.

O grevista do veículo apreen-

dido, observou, com ironia, que

a patrulhinha da Polí-

cia de Trânsito que o

autuou é que estava irregular

e afrontando o Código

Nacional de Trânsito, por difi-

cultar a visão do condutor, De

fato. a patrulhinha portava, no

vidro traseiro, o desenho de

uma árvore de Natal, ladeada

das inscrições "Feliz Natal" e

"Próspero Ano de !987",


1917, a rebelião anarquista

que virou greve geral

Ricardo Kotscho

São PsuJo — "Mataram um operário

em frenie à Mariangtla." Ainda não

havia rádio naquela São Paulo de 300 mi)

habitantes cm julho de 1917, mas no

boca-a-boca feito de muitos sotaques es-

trangeiros a noticia correu cílcre c atra-

vessou a cidade do Brás ao Ipiranga,

onde moravam os Abramo, no meio de

uma chácara de 100 mil metros quadra-

dos com hona, pomar c enações várias,

incluindo um imenso pombal, que terá

um importante papel nesta história, como

se verá mais adiante.

O menino FúJvio, um dos cinco Olhos

do corretor de café Vicente Abramo,

tinha entáo oito anos, mas já entendia as

razões da afliçáo que tomou conta de

toda a família. Desde junho, a cidade

vivia agitada com uma sucessão de greves

e seu avô materno, Bortolo Scarmang-

um, era um dos líderes do nascente

inovimeoio anarco-sindical.

O eslopim

A tnonc do sapateiro espanhol José

Inegucs Martlocz, de 21 anos, assassina-

do com uma bala no estômago em meio a

um conflito entre grevistas e policiais

diante da tecelagem Mariangcla, um dos

tentáculos do grupo Matarazzo, uo Brás,

foi o estopim.

Começava ali, na esquina das ruas

Monsenhor Andrade c Bucolismo, en-

quanto o corpo do operário mono era

levado para sua casa na Caetano Pinto,

alguns quarteirões jeima, a primeira re-

belião operária no Brasil — aquela que

até hoje é considerada pelos historiado-

res como a mais ampla e bem-sucedida

greve geral já dctlajrada no pais.

Às vésperas de uma nova tentativa de

greve geral, o sapateiro e jornalista apo-

sentado José Cubcro, 59 anos, durante

muito tempo companheiro de trabalho de

Edgar Lcuenroth, o principal lider do

movimento de 1917, voltou ontem à Rua

Monsenhor Andrade c encontrou a tece-

lagem Mariangcla exatamente como era

naquele tempo, só que desativada.

Cubcro conheceu Leuenrth quando

trabalhava na fábrica de sapatos Cristal, a

duas quadrai da Mariangcla, c hoje, a

exemplo do também jornalista Fúlvio

Abramo, 77 anos, dedica-se a resgatar a

memória do movimento sindical brasi-

leiro.

Abramo é diretor do Centro de Do-

cumentação do Movimento Operário

Mário Pedrosa. criado em 1981, e Cubcro

dirige o Centro de Cultura Social, funda-

do pelos anarquistas cm 1933, fechado no

golpe de 1937, reaberto na redcniocrati-

zação em 1945, novamente fechado após

o AI-5, cm 19ó9, c com suas portas

abertas sem problemas desde o ano pas-

sado.

Edgar Lcuenroth, desccndcnic de es-

panhóis e alemães, morreu cm 1968, com

86 anos. Gráfico, terminou a carreira

como jornalista, chefiando o arquivo de

redação do jornal O Globo, para onde

levou o amigo Jaime Cubero, que até

hoje mora no Brás e, como Abramo,

procura desmontar a história oficial para

recontar os acontecimentos de 1917 sob a

ótica dos operários.

Apesar de já se terem passado quase

70 anos, tanto o anarquista Cubcro como

o trotkjsta Fúlvio Abramo encontram

semelhanças nas causas que levaram os

trabalhadores à greve geral era 1917 do

começo do século — em sua maioria

italianos, espanhóis, portugueses, ale-

máes e seus descendentes — reivindica-

vam a redução da jornada de trabalho,

aumento de 35%. Nos salários em razáo

da alta do custo de vida, o congelamento

dos preços dos alimentos e a redução de

50% nos aluguéis.

Comilc proletário

Greves pipocavam por toda parte, no

Brás, na Lapa e na Mooca, os principais

centros industriais desenvolvidos às mar-

gens das ferrovias, mas a pauta de reivin-

dicações das ligas operárias formadas por

bairros só seria elaborada ás pressas na

noite do dia 9 de julho, após a morte do

sapateiro, quando foi criado o Comitê de

Defesa Proletária.

O mundo estava em guerra c as

grandes empresas da época — Matarazzo

(alimentos, óleos comestíveis, metalúrgi-

cas, tecidos), Crespi, Jaiet e Gambá

(todas indústrias têxteis) — se limitaram

a chamar a polícia. Quem negociava com

as ligas e uniões operárias era o italiano

Luis Apolonio, trazido ao Brasil pelos

Matarazzo para cuidar da segurança in-

terna das suas empresas e promovido por

Washington Luís a delegado da Ordem

Política c Social.

Como os produtos brasileiros, espe-

cialmente matérias-primas, alcançavam

melhores preços no exterior, o abasteci-

mento entrou cm crise. Com a escassez c

as Qlas, proliferou o ágio — c os salários

não acompanhavam a escalada dos pre-

ços. Quando os seus 2 raü empregados

pediram um aumento de 20%, o comen-

dador Rodolfo Crespi siraplesmcnie rq;

solvcu fechar seu cotoniíicio.

Durante uma manifestação de operá-

rios cm frente-no Coionificio Crespi, a 8

de julho, dois guardas civis foram feridos

a pedradas e a repressão aumentou, le-

vando k prisão de dezenas dederes

sindicais c ao fechamento das entidades

de classe.

Em represália, um grupo de manifes-

tantes atacou no dia seguinte um cami-

nhão da Antárctica, jogando caixas de

cerveja no meio da rua e tomando, cm

seguida, o rumo da tecelagem Marian-

gcla.

A polícia já estava à espera e, quan-

do os tiros cessaram, Martinez eslava.,

caído no cháo, morto. Segundo a versão

oficial, a bala que matou o sapateiro teria

partido dos próprios manifestantes.

As semelhanças com fatos mais re-

centes náo terminam aí. Os industriais

imediatamente se reuniram com o secre-

tário da Justiça, Eloy Chaves, que despa-

chou o delegado geral Tirso Martins

para, junto com Luís Apolonio. propor

uma trégua aos lideres operários, uma

espécie de pacto social da época.

Mas. no dia seguinte, a cidade ama-

nheceu com 15 mil operários em greve.

Embora tivessem sido proibidas manifes-

tações durante o enterro do sapateiro,

mais de 10 mil pessoas romperam os

cordões de isolamento e acompanharam

o cortejo do Brás até o cemitério do

Aracá. no bairro da Con&olaçáo, do ou-

tro lado do velho centro da cidade.

Ao meio-dia, a cidade estava comple-

tamente parada e logo começavam a

chegar adesões de ligas do interior, do

Rio de Janeiro e de outros estados. No

Rio. o movimento era liderado pelo ope-

rário gráfico João da Costa Pimenta.

— O Pimenta lembra um pouco o

Lula, na sua lealdade à classe trabalhado-

ra. O Lula representa com mais veemên-

cia a necessidade histórica de tomada do

poder pela classe operária. Mas o Pimen-

ta era um sábio, porque naquele tempo o

mais importante era organizar a classe

trabalhadora c não disputar uma fatia do

poder, como ocorre hoje — diz Fúlvio

Abramo.

Controlando a cidade

Ele lembra que o Comitê de Defesa

Proletária "era tão poderoso que contro-

lava a entrada e saída de alimentos da

cidade, organizava o racionamento c pra-

ticamente ocupou o lugar do governo

durante quase uma semana". Os trans-

portes também passaram a ser controla-

dos pelo Comitê e Abramo se lembra que

a família ficou sem sair de casa durante a

greve. Como seu pai era um liberal

italiano bem relacionado com os quatro-

centões paulistas, na Chácara do Ipiranga

a vida seguiu sua rotina, sem maiores

problemas. A única preocupação era com

o avó, um velho anarquista, companheiro

de Lcuenroth, que vez ou outra ia se

refugiar lá.

— Passamos muitos dias só comendo

coelhos, pombos c polcnta. Náo havia

farinha, mas tinha fubá. Náo passamos

fome. Só oue quando a greve acabou, o

nosso pombal tinha desaparecido porque

os vizinhos também precisavam comer —

recorda Abramo. No fim, ele só consta-

tou uma baixa na família — a cadela

Viena, abatida pela polfeia porque era

muito brava c assustava os vizinhos.

Dono de uma pequena fábrica de

bolachas sem nome, o avô Bortolo aca-

bou ganhando tanto dinheiro que entrou j


cm conflito com suas convicções anar-

quistas. Foi para a Itália, gastou todo o

dinheiro e voltou para começar tudo de

novo.

Trabalhava-sc naquela.época até 16

horas por dia c o regime era igual para

todos, mulheres e crianças a partir de 8

anos. Após cinco dias de greve geral,

saques, conflitos entre a polícia e os

trabalhadores, a cidade parada, chegou-

se a um acordo. Governo c empresários

resolveram atender a iodas as reivindica-

ções do Comitê de Defesa Proletária:

jornada de oito horas, pagamento de

Considero a greve

gorai tão iegitima

como forma de

pressão política

quanto qualquer

outra forma de

manifestação

democrática.

Ninguém põe em ouestão a legitimi-

dade das campanhas de imprensa,

por exemplo, há algum tempo, a

campanha contra as mordomias do

regime militar. Ninguém põe em

questão a legitimidade de movimen-

tos de opinião de grande escala, por

exemplo a campanha das diretas. E

creio que não ocorrerá a ninguém

negar que estas campanhas sejam

formas de pressão política. Que teria

a greve geral que possibilitasse a

dúvida?

A greve é utilizada como forma de

pressão política quando ela própria

nasce de motivos e de condições

políticas. A greve de ontem é o

melhor exemplo. Ela se voltou contra

o Cruzado 2, tanto na sua forma

quanto no seu conteúdo. Ela se

voltou, portanto, contra os métodos

autoritários usualmente adotados pe-

la área econômica do governo fede-

ral, e também contra o ônus que esta

política de governo faz recair sobre a

população. A greve de ontem tomou,

portanto, o caráter explicito de urri

movimento político dü toctedada di-

rigido contra determinad* política ('.:■

governo. Tem, deste modo, o mesmo

direito de outras formas de expressão

da opinião pública ás quais não

ocorreria a ninguém negar legitimi-

dade. Neste aspecto, eu me incluo,

entre os 70% da opinião pública que,

segundo pesquisa desta Kolh», consi-

deram justa a greve de ontem.

Os que pretendem negar legitimi-

dade à greve gpral como recurso de

presnào política prendem-se a um

raciocínio de caráter fonr.alista so-

bre as relações entre a economia e a

política na sociedade moderna. A

greve —legitima enquanto greve

ecoiiòM.ica, isto é enquanto recurso

de pressão econômica do trabalhador

contra o patrão no mundo da empre-

sa privada—, perderia seu significa-

do quando dirigida contra o Estado.

Como qualquer greve, ela paralisaria

as atividades econômicas


O TRT condenou 99%

das greves deste ano

B. VIDAL LANNES

De janeiro deste ano aU a úitlma

aexte-teira 480 greves realizadas em

84o Paulo passaram pelo "martelo" do

Tribunal Regional do Trabalho (TRT-

SP) — 99% dessas parallsaçdet íoram

consideradas Uesaia. Para um Estado

■onde 38.3% da população economica-

mente ativa recebe até dois salários

■mínimos por mis (CzJ 1.608,00) — em-

bora seja o mais Industrializado do

•Pais — e abriga, ao mesmo tempo, 709

mtl potenciais trabalhadores que pre-

.ferem viver i margem do mercado de

trabalho, pois sequer procuram empre-

'go, é sinal de que algo está errado.

Pela primeira vez uma questão

aproxima, mesmo que seja apenas na

forma e nâo no conteúdo, autoridades

'Judiciárias, catedrátlcos em direito do

itrabalho. e sindicalistas. Eles acham

ique a próxima Constituição deve con-

ceder maiores liberdades ao trabalha-

dor, acompanhando a evolução de to-

a a sociedade

O professor da Universidade Fede-

al da Bahia e da PUC de'Salvador,

José Martins Catharlno, é taxativo: "A

próxima Constltulçáo, deve trazer o

seguinte artigo: ninguém será punido

por fazer greve".

Para o professor, a greve é um íato

Social que nâo pode ser evitado por lei

alguma. "Eu também Já fiz duas gre-

ves", afirma. Mas ele está pessimista

em relaç&o á Carta Magna.

1 Coqueljo Costa, mlnlstro-presl-

dente do Tribunal Superior do Traba-

llho (T8T), náo concorda que a llberda-

.de deve ser total para os trabalhado-

res. Justificando que "em nenhum lu-

!Srar do mundo o direito de gr«ve é abso-

luto" Com reUçâo à ilegalidade, dia-

riamente declarada pelos vários tribu-

nais do pais, Coqueljo só vé um cami-

nho para modificar esta sltuaçáo: "A

mudança do texto da lei atual para ura

mais adequado k realidade do Pais".

'Ele acredita que o direito de greve de-

ve ser reconhecido pelos tribunais,

"mas na forma da lei", ressalva. Esta

lei, segundo seu ponto de vista, seria

regulamentada mais tarde,

"Depois que uma greve é Julgada

ilegal, o empregador passa a ter direi-

tos de demitir sumariamente", recla-

ma o secretário de política sindical da

Central Única dos Trabalhadores

(CUT), Lula Alves de Azevedo. Segun-

do ele, o ano de 1988 lot marcado por

demlisões de várias comissões de íá-

brica e membros das Clpas. O caso

mais grave foi o da Tora, no ABC pau-

Jista O mesmo problsma foi verificado

Junto aos sindicatos filiados á Central

Oeral doe Trabalhador** (COT), com

base na Capitai Ouarulhoc e Osasco

Segundo DanUCs, assessor da COT, es-

te problema seria .-««olvido caso fosse

garantido o direito de greve, Inclusive

para os servidores púbUco*. Ao afir-

mar que esta é a proposta da Central

para a Constituinte, ele garante que os

governantes náo precisais se preocu-

par, porque o trabalhador "náo faz gre-

ve pela greve, pois só deeeja trabalhar.

Par* Luiz Alves de Azevedo, da

CUT. hfto basta mudar a lei, mas a sua

interpretaç&o pelo* tribunal*. "Quem

nomeia os ministros do* tribunal* é o

Presidente da República. Esses Juizes

s&o representante* dos empresários e

latifundiário*, embora digam que ape-

nas cumprem a lei". O membro da

CUT diz que baista uma preasáo do

Executivo para se processar uma mu-

dança de rumo. Ele exemplifica: o* Jui-

zes do TRT-BP Iniciaram um proce**o

de reposição salarial no segundo se-

mestre do ano pasaado — na época o*

bancários conseguiram 12,5%. "Perce-

bendo o que estava ocorrendo" — res-

salta o sindicalista — "o ministro DO-

son Funaro, da Fazenda, se reuniu

com os magistrado* e proibiu que no-

vos reajuste* fossem concedidos, ale-

gando uma pressão InflaclonAriá". O

membro d* executiva da CUT critica o

projeto de lei de greve elaborado pelo

Mlnl*Urio do Trabalho. "O ministro

Pazzianotto pretende que os trabalha-

dores continuem cumprindo a* forma-

lidades previstas na lei atual (n* 4.330).

Entretanto, basta uma penada do Tri-

bunal para que a greve seja suipen**".

Tal proposta, esbraveja, "é caso de po-

licia",

O presidente do TRT-8P, Rubens

Ferrari, náo quer entrar em questões

polêmica*. Ma* acha que, enquanto o

texto da lei atual náo tor modificado, o

judiciário náo poderá agir de outra

maneira. Segundo o Juiz. muita* gre-

ve* s&o considerada* Uegals porque

"falta legitimidade à* reivindicações,

pouca consistência no mérito da greve

e, na maioria do* eaiso*, o* sindicatos

náo cumprem a* formalidades exigi-

das pela leglslaçáo". Embora tenha

lembrado que é contra os movimentos

que afetem a comunidade, "aqueles

que transpõem o portáo da fábrica",

Rubens Ferrari também defende uma

revLs&o na leglslaçáo atual "Espero

que nossos constituintes tenham a

sensibilidade para escrever uma legls-

laçáo trabalhista que atenda ao* tem-

pos atual*, respeitando a* tnn*forma-

çõea do Pais".

O Estado de SSo Paulo - 30.11.86

cvms


criação de fundo de greve,

comissSes de fábrica,

moralização do departamento

jurídico do sindicato,

congelamento de preços e

garantia de abastecimento.

A posse será em 12 de janeiro.

DEU CUT EM CAMPINAS -SP

A eleição para o Siidicato da

Construção Civil de Campinas,

em 25 escrutíneo, deu vitória à

chapa 2 da CUT. A eleição

ocorreu nos dias 19/11 e 26/11

e a chapa 2 obteve 571 votos

contra 553 da chapa 1 somados

aos brancos e nulos.

ACIDENTES DO TRABALHO

O Brasil continua sendo um

recordista em acidentes do

trabalho com uma freqüência

de um a cada 30 segundos,

sendo que as mortes ocorrem

uma a cada 2 horas.

Há manipulação de dados,

segundo denúncia de José

Alberto Curado, gerente da

Cia Paulista de Força e Luz,

pois as empreiteiras,

principalmente, conseguem

esconder os acidentes sem

vítimas.

CIM LANÇA CATALOGO

O CIM - Centro de

Informação da Mulher, conseguiu,

depois de anos de trabalho,

editar e lançar, com uma festa

no Paço das Artes do Museu

da Imagem e do Som, em São

Paulo, o seu catálogo 1985 -

uma obra que pela primeira

vez sistematiza o seu acervo de

trabalhos escritos sobre a

condição feminina, em centenas

e centenas de livros e periódicos.

ROMARIA DA TERRA EM SC

Reunindo mais de 20 mil

participantes, Santa Catarina

realizou também a sua 1§

Romaria da Terra, com destaque

para: 1. A luta pela terra no

passado: A Guerra do Contestado;

2. Realidade e Luta: Os Sem-

Terra; 3. Realidade e Luta: a

luta dos pequenos agricultores;


prendendo outros.

A carta de denúncia é

assinada pela Igreja de

através de D. Antônio

Passamai, seu bispo que

reafirma a decisão de não

abandonar os posseiros

oprimidos.

ÍNDIOS E TRABALHADORES

Sete povos indígenas de

Rondônia e Mato Grosso se

reuniram em assembléia no mês

de outubro para discutir desde

a situação das áreas até

questõs referentes à saúde.

Representantes do movimento

dos Sem-Terra também

estiveram presentes, resultando

em uma aliança entre índios

e trabalhadores.

Fonte: Porantim No v/86

ASSASSINATO DA UDR - GO

Em fins de outubro foi

assassinado Vilmar José de

Castro agente de pastoral de

Jutai-GO que vinha sendo

constantemente ameaçado após

a organização da UDR de Caçu.

A polícia, vendida aos

latifundiários, afirmou que o

"acidente foi comum" e

prejudicou investigações

retirando o corpo do local.

CAMUCIM

A VITORIA, AFINAL!

Depois de oito anos de luta e

muito sofrimento, na região

de Camucim - PA, os posseiros

conseguiram a desapropriação

de 930 ha. para 42 famílias

PRIMEIRA CAMINHADA

DA TERRA

Na diocese do 3ardim-MS,

cerca de 3 mil pessoas

participam dessa primeira

caminhada no dia 21 de

setembro. Vinham de todos os

municípios, com o bispo

diocesano à testa, D. Onofre.

O lema: "Terra de Deus, Terra

de Irmãos". " As palavras de

ordem, os cânticos, as orações,

as faixas e os cartazes falavam

da realidade do povo, dos seus

direitos e das injustiças que

são cometidas contra os

pequenos" (Participativo-8/9/I0/86)

Ajuste do Cruzado

leva custo de vida

a 4,43%

•1.2

Konlr Kip*

OPESODOrRUZADO?

t índice de ^Mçwi oo Consuniidor/

Ki|x> - íW % mrnail'

I I I i i i

[ *AI AM wAt rj" u. *0C Vt ^■.^ upi )

Da Redoção Ho folha

ü peso parcuii das medidas de

ajuste do Fiam.. Cruzado, efetuadas

pelo governo no último dia 21 foi de

1.13% no custo de vida dos paulista

nos em novembro, segundo Juarez

Rizzien 42. coordenador do índice de

Preços ao Consumidor da Fundação

Instituto de Pesquisas Econômicas

(Fipe). A taxa toíai do més foi -4 43%.

bem superior uos .1 OH% de outubro e

1,43% de setembro.

De março a novembro, o custo de

vida dos paulistanos que ganham de

dois a seis salários mínimos, univer-

so da pesquisa da Fipe, atingiu

17,21%. Para dezembro, Rizzieri pre-

vê uma alta entre H% e 9% no índice

taxa que se for confirmada elevará o

acumulado de marco até o final do

ano entre 26,6% e 27.8%

A previsão de taxa para este més,

estimada inicialmente em 9.5%, náo

deverá se confirmar, segundo Jua-

rez, uma vez que os aumentos dos

cigarros começarão a pesar no índice

de maneira* mais acentuada apenas

no inicio de 19H7 Ao contrário da

gasolina e álcool, que passam a

entrar no índice logo no dia seguinte

ao do aumento o cigarro só é captado

integralmente pelo índice em três ou

quatro semanas devido aos estoques

com preços velhos nos pontos de

revenda E o aumento só deve

vigorar a partu do dia 2ü de

dezembro.

No mês passado, o maior peso na

taxa do custo de vida veio da

alimentação. Dos 4,43% de alta, os

alimentos foram responsáveis por

1,67 ponto percentual, seguidos dos

transportes (1,04 ponto), habitação

(0,60), vestuário (0.55) e despesas

pessoais (0,45). Saúde e educação

tiveram peso de apenas 0,04 e 0,08

ponto percentual.

Entre os alimentos, as maiores

pressões de preços continuam nos

produtos "in nalura" (mais 8,88%).

Os alimentos semi-elaborados (car-

nes e cereais) aumentaram 6,12% e

os industrializados. 1,92%. Em se-

tembro e outubro estes haviam subi-

do 0,16% e 0.28%, respectivamente.

Juarez explica a elevação dos indus-

trializados como efeito dos reajustes

de preços do úllimo listão da Sunab e

à maior ocorrência de ágio.

Com as novas medidas de ajustes

do Plano Cruzado os gastos com

transporte ficaram 10,17% mais ca-

ros, puxados pela elevação dos custos

na manutenção dos veículos próprios

(mais 17,44%). As medidas refleti-

ram também sobre os preços dos

profissionais liberais. Os paulistanos

passaram a pagar, em novembro,

6,01% mais pelos serviços pessoais

(barbeiros, costureiras etc), en-

quanto os médicos e dentistas au-

mentaram em 2,09% as consultas.

Folha de São Paulo - 10.12.86

PARA DIEESE O GATILHO

DEVE SER ACIONADO JÁ.

O índice de Custo de Vida

da família assalariada paulistana

subiu 5,^ í 4-% em novembro,

acumulando uma variação de

20,12% pós-Plano Cruzado,

valor que acionaria o gatilho

da escala móvel dos salários,

isso levando em consideração

os preços médios da última

semana de fevereiro. Tomando

os preços médios do mês de

fevereiro, o índice atingiria

23,87%. Os dados são do

DIEESE.

Os fatores que mais

influenciaram a alta do custo

de vida foram as despesas com

saúde (11,47%), em função do

aumento nos preços médios

das consultas médicas, e

habitação (9,87%), pressionados

pela elevação dos preços do

material de construção. A

pesquisa do DIEESE indicou

que apenas o item vestuário

registrou uma queda em

novembro, da ordem de 0,21%.

Durante os últimos quatro

meses, as famílias com faixa

de rend.i superior a CZ$

6.976,36, foram as mais

atingidas pelo aumento do

custo de vida. >


alimentação

O oreço dos alimentos

apresentou uma alta de 5,72%.

ressaltando que em novembro

houve uma oequena recuperação

no número de coleta

comparado ao mês anterior.

Os grupos de produtos que

apresentaram aumento

significativo, segundo o DIEESE,

foram as frutas (13,^6%).

bebidas (11,13%), e carnes e

derivados (9,55%).

últimos doze meses

Nos últimos doze meses.

19 de dezembro ds 1985 a 30

de novembro d


Nível de emprego avança 1,5% ao mês

A olcna de emprego industrial na Grande

São Paulo registrou em outubro, pelo terceiro

mês consecutivo, uma expansão mensal de

I 5% Com esse resultado, o emprego indus-

trial atingiu naquele mes um patamar apenas

0.3% inferior à media de 1980. Caso permane-

ça a mesma taxa de crescimento mensal em no-

vembro e dezembro, o nível de emprego, ao fi-

nal do ano, superará em 2J c /c a média de 1980

Neste ano, até outubro, a oferta de trabalho já

se expandiu 12,2% em comparação com os dez

primeiros meses do ano passado.

Entre os ramos industriais que mais amplia-

ram a oferta de empregos em outubro destaca-

se o de perfumaria, com avanço de 3.9% cm

D

nível

porCéllo Rosemblum

de Sâo Paulo

A taxa de desemprego na

regiêo metropolitana da

Grande São Paulo alcançou

no trimestre agosto, setem-

bro e outubro deste ano seu

nível mais baixo desde ja-

neiro de 1S85: 9%. A queda

de 0,5% em relação ao

período anterior fez com

que o contingente de de-

sempregados se reduzisse

de 709 mil para 675 mil pes-

soas, segundo pesquisa di-

vulgada ontem pelo Depar-

tamento Intersindicál de

Estatística e Estudos

Sócio-Econômicos (DIEE-

SE) e Fundação Sistema

Estadual de Análise de Da-

dos (Seade).

Até o final do ano, a ten-

dência 6 a manutenção das

quedas no nivel de desem-

prego Segundo Walter Ba-

relli, diretor-técnico do

DIEESE, novembro e de-

zembro são meses em que

tradicionalmente alguns

setores, como o comércio,

reforçam seus quadros.

Mas ele prevê que a partir

de janeiro já serão

relação a setembro, seguido pelo de borracha

(3.7%), têxtil (2,2%) e couros e peles

(2 1%). Embora esses segmentos tenham

apresentado as maiores taxas de crescimento

no mês, os ramos de mobiliário, borracha c

química continuam sendo os detentores das

mais expressivas recuperações cm relação aos

níveis de emprego de 1980, já tendo superado

esse marco em 30,7%. 27% e 16.8%. respec-

tivamente. Em sentido contrário, os segmen-

tos de madeira, couros e peles e minerais

não-metãlicos são os que ainda exibem os

mais baixos índices de nível de emprego, si-

tuando-sc respectivamente. 21.7%. 13% e

12,2% abaixo do nível de 1980.

esemprego em São Paulo atmge

mais baixo desde janeiro 1985:

sensíveis os efeitos dos,

ajustes no Plano. Cruzado.

"Se BI medidas der governo

derem certo, as oportuni-

dades de emprego serão re-

duzidas", analisou o econo-

mista.

O levantamento

DIEESE-Seade indica que

a redução no desemprego

ocorreu porque o número

de novas vagas oferecidas

(G9 mil) foi superior ao

crescimento da População

Economicamente Ativa

(PEA), que variou em 35

mil pessoas. Para esse re-

sultado contribuíram prin-

cipalmente a indústria de

transformação, que au-

mentou em 45 mil seu nú-

mero de vagas, e setores

como a construção civil e

serviços domésticos, com

crescimento de 2.6% ao

nível de ocupação, corres-

pondente a 22 mil postos de

trabalho, FIESP

O nível de emprego in-

dustrial no Estado de Sâo

Paulo registrou um cresci-

mento de 0,67%, correspon-

dente à criação de 13.950

postos de trabalho no mês

m

X

tu

3

n

K>

00

OS

de novembro, segundo pes-

quisa realizada pelo depar-

tamento de documentação

(Decad) da FIESP. No

ano, a taxa acumulada fi-

cou em 10,34%, represen-

tando 206.600 vagas aber-

tas, segundo apurou a re-

pórter Stela Campos Pinto.

O índice de novembro é

0,37 ponto inferior ao regis-

trado em outubro e o menor

registrado desde abril des-

te ano. O diretor do Decad,

Carlos Eduardo Uchôa Fa-

gundes, atribui esse de-

sempenho à sazonalidade:

"Nesta época, muitas em-

presas dão férias coletivas

para manutençãodos equi-

pamentos". Além disso, as

indústrias não têm mais

tempo para treinar pessoal

para atender às encomen-

das de fim de ano.

Segundo Fagundes, as

medidas de ajuste do Cru-

zado ainda não surtiram

efeito nos índices. A pers-

pectiva é que no mês de de-

zembro a taxa de emprego

continue em declínio, devi-

do às mesmas peculiarida-

des do mês de novembro.

Gazeta Mercantil - 9/12/86


Escolha sua inflação

As [immos.sas do govcino de medir a

inflarão por uni único e conliável

índice parecem abandonadas após a

edição do úllimo paccjle econômico.

A substituirão do 1PC amplo pelo IFC

restrito provocou uma perda de credi-

bilidade nas estatíslicas oficiais e a

instabilidade do mercado. L\UC não

sabe mais por quais parâmetros se

guiar,

No mundo dos inslilulos de

pesquisa, onde se supõe a aplica-

rão de métodos científicos para

apurar a real evolução dos preços,

os índices obtidos servem a todos

os gostos. De março a outubro, a

F(iV contabili/.ou a taxa mais mo-

desta (apenas 3.75'/; ) e o Dicesc

apurou a mais elevada (13.92'/;),

No meio ficaram o IPC amplo

(Kl.lWf) c o IHC restrito

(.^.HòOr) Mas. na vida real das

empresas e das pessoas, a sensa-

ção é a de um aumento de preços

bem mais encorpado, levando-se

cm conta a cobrança de ágios e

outros expedientes para burlar o

congelamento. O ex-ministro Del-

Muito vai ser es-

crito ainda sobre

o impacto negati-

vo do Cruiado 2.

Medidas drásti-

cas e in/eiizes fo-

ra m tomadas,

arbitrária e auto-

ritariamente, poucos dias após o

encerramento do processo eleitoral,

em que a quase totalidade dos

candidatos defendiam posições com-

pletamente diferentes das que vie-

ram a ser decretadas. Não há dúvida

que se discutiam ajustes a serem

feitos no Plano Cruzado. No entanto,

todas as propostas que amadureciam

eram desmentidas: nâo se aumenta-

riam impostos, não acabaria o conge-

lamento, os salários seriam protegi-

dos. Poupança compulsória ou o fim

da escala móvel apareciam como

"bodes" acrescentados à constnjçáo

das chamadas medidas corretivas

para serem retirados no momento

oportuno, como vitória daqueles que

visavam preservar os interesses dos

assalariados.

Surpresos, vimos todos que o que

foi desmentido, virou norma e que a

preservação dos interesses da maio-

ria, transformou-se mais om frase

retórica.

A condenação do Cruzado 2 nasce

de sua forma. Os execráveis "decre-

fim Netto por exemplo, considera que

de março a outubro a inflação ficou en-

tre 25% c 30%

• MUIUS APOSTAS - Daqui para a frente, a

situação deve ficar ainda mais confusa,

com o governo carregando nos reajustes

de preços que tem pouco ou nenhum

A danqa dos índices

(vonoçao ocumuloda no penodo

morço o outubro de 1986; em %)

10,25

V

13,92 12,24

3,75

FIPE

EESE

1 PC Amplo (IBGE)

IPC Restrito (IBGE)

FGV

Respeitem a consciência popular

WAl.TKU UAKKI.U

tos-leis" (que foram abolidos da

Constituição no esboço elaborado

pela Comissão provisória de Estudos

Constitucionais, a indicar uma posi-

ção que pretendemos seja majoritá-

ria na Constituinte) foram acionados

mais uma vez, sem pejo e spm

necessidade. Um governo que conta-

va com a presunção do apoio da

maioria do povo brasileiro e de seus

representantes no Congresso, facil-

mente poderia conseguir aprovar

seus projetos, caso as justificativas

convencessem a todos de sua neces-

sidade. Nâo se teve esse cuidado e o

apoio transformou-se em questiona-

mento. Essa forma de legislar macu-

la todo o projeto Cruzado 2. Certa-

mente se poderia discutir as necessi-

dades governamentais de gerar re-

cursos, via impostos ou outras for-

mas, para buscar o desenvolvimento

sustentado. Mas a aulo-suficiència

repugna a discussão. O comercial

feito pelos pecuaristas diz mais ãs

razões sobre a atual escassez de leite

do que todas as explicações até hoje

dadas pelos diversos ministros de

Estado. E o leite não é o único

exemplo que se pode construir para

mostrar a sonegação de informações

sobre as dificuldades atuais da eco-

nomia brasileira

No entanto, tnmlxím us próprias

medidas adotadas mostram ainda

peso no IPC restrito. As negociações

salariais, por exemplo, tenderão a

passar por cima desse índice enquan-

to o mercado de trabalho estiver

aquecido. Com a provável desacele-

ração da demanda, no entanto, a le-

gislação deverá se fazer valer, resul-

tando em perdas para os trabalhado-

res. Da mesma forma, ficará tênue a

fronteira entre o lucro e o prejuízo

no mercado financeiro, dependendo

da inflação considerada.

Com o Cruzado II, as expectati-

vas de inflação voltaram a ser ele-

vadas. Os mais pessimistas refe-

rem-se a taxas próximas de 10%

em dezembro, o n-.és de maior im-

pacto das medidas. Uma media cm

torno de 6% a 1%. no entanto, não

está fora de cogitação. Já no exer-

cício da oposição ao governo, pela

qual foi eleito constituinte. Delfim

Netto. por exemplo, conta com

uma taxa acumulada de aproxima-

damente 40% entre março e de-

zembro. Para 1987, as apostas são

ainda mais variadas. Alguns em-

presários, que haviam colocado em

seus orçamentos para o exercício

taxas da ordem de 30% a 40%.

simplesmente dobraram suas previ-

sões depois do pacote.

Exame - 10/12/86

que não se leva muito em considera-

ção a opinião pública. O maior

exemplo é o questão do. novo índice

de inflação. A população inteira foi

desinformada pela afirmação de que

se tratava simplesmente de substi-

tuir o IPC amplo i calculado com

base no orçamento de famílias com

renda de um a trinta salários míni-

mos) pelo IPC restrito (baseado em

famílias com rendimentos entre um e

cinco salários mínimos) Não é essa a

proposta do governo, embora o dis-

curso de alguns ministros levem a tal

conclusão. 0 que se quer é construir

um indicador em que não entrem

todos os artigos de consumo popular.

O decreto-lei fala que nesse indicador

só entram os itens alimentação,

habitação e transporte. Alertado, o

ministro disse que o decreto estava

errado, pois estava faltando vestuá-

rio. Alertado mais uma vez no dia

seguinte disse que faltava também

saúde e educação. No entanto, nesse

indicador não entrarão bebidas, ci-

garros e impostos indiretos, ou seja o

que foi aumentado pelo Cruzado 2.

Também não integrarão o indicador

aumentos irregulares, frutos de aci-

dentalidades. Tudo que aumonta não

entra no índice. Essa construção

repugna aos princípios profissionais

devendo ser apreciada pelos Conse-

lhos de Ética das profissões envolvi-

das.


Nos Es(ados Unidos, uma romiüsáo

do Congresso fiscnüza. até iiuísmo. w

lipos de formulários uliliz-ados tio

levantamento de preços. Na Itália,

mudanças na cesta básica (oram

objeto de piebiscito No Brasil, ess"

cuidado não existiu Oai não se poder

acreditar no discurso dt- (|ue c»

interesses dos trabalhadores loran.

preservados. Ao contrário, Iodos o>

salários serão reduzidos. s« os sindi

calos não tiverem condj(,-6es di-

negociar com base em uma realidad'

diferente do que a apresentada |>ei.

fievâo numérica governamemal

Ksses fatos todos levam a deseor.

fiar dos motivos aprcseniAdos pelo

governo. Assim, a chamada feduçwi'

de consuino pode significar «UHVMüIV

a capacidade de |iagamcnto do |^i-

verno; a necessidade do reajustar

alguns preços pode esconder a iH'ce>-

sidade de acalmar prcsSfVí ilii5

multinacionais, hetcrotloxia pode 5e

con\'erter em ortodoxia: indepoule»

cia pode encobrir a adovào do

receiluário do Banco .Nlor|jai>. Mijki

semelhanea com o conjunto do ('rv

iat\o 2 talvez seja algo mtiis (|ii'-

mera comcidèoeia

Folha de SSo Paulo - 29.11.86

Aparentemente, os economistas em

sua maioria concordam que a

economia brasileira sofra ds dois

problemas fundamentais: excesso de

demanda e desajuste de certos preços

relativos. Com relação ao excesso de

demanda, de forma geral, argumenta-

se que o mesmo incide mais fortemente

nos chamados bens de consumo devido

ao,crescifriento bastante acentuado na

massa salarial. Por outro lado, o

congelamento dos preços efetuado des-

de o início do Plano Cruzado defasou

certos preços que, portanto, necessitam

ser reajustados. Os exemplos normal-

mente citados referem-se aos preços de

alguns bens de consumo, como, por

exemplo: carne, leite, automóveis etc,

bem como preços dos principais servi-

ços públicos.

A expansão da economia brasileira

com estes problemas acarretou duas

conseqüências extremamente indesejá-

veis. De um lado, o excesso de demanda

tem pressionado positivamente os pre-

ços. De outro, o congelamento de preços

foi mantido às custas de uma desacu-

mulaçâo bastante acentuada de reser-

vas. O ministro Funaro anunciou que as

reservas estão na casa dos USJ 5 bilhões

e que o saldo da balança comercial de

outubro ficou abaixo dos USJ 300

milhões.

Estes dois aspectos ameaçam por

completo todo o programa econômiéo,

pois colocam novamente as contas

externas como problema principal a ser

resolvido, além de ameaçar diretamen-

Cruzado 2. Nâo perca

essa nova emoção no seu bolso.

A dança dos planos

te qualquer tentativa de controle de

preços. Este quadro, percebido por boa

parte da populaçlo, levnnUva umn

série de dúvidas quanto às possíveis

medidas que seriam adotadas pelo

governo. Seria extinto o congelamento

de preços? O gatilho seria eliminado?

Qual o caminho da política cambial?

Isto já nos proporciona um primeiro

indicador para a avaliação do pacote

anunciado na última sexta-feira. E

impossível para o bom andamento da

economia que se permita a criação de

ondas especulativas sobre assuntos tão

importantes. Afinal de contas, não se

pode viver numa situação na qual se

discutem as regras que prevalecerão

sem que você exerça nenhum papel. As

incertezas geradas adiam planos de

investimentos, conduzem os consumido-

res a estocarem uma série de produtos

etc. Em última instância, os agentes

paralisam suas decisões e procuram

simplesmente se resguardar do futuro

totalmente incerto. Assim, sem entrar-

mos no próprio mérito do pacote, já

podemos antecipar que o mesmo veio

com atraso, pois permitiu que uma onda

de boatos se apossasse de todos nós.

Segundo o ministro Funaro, estas

medidas deveriam ser tomadas apenas

em fevereiro de 1987, mas a gravidade

da situação obrigou-os a anteciparem o

ajuste. Tal falo nos parece um pouco

estranho, pois de maneira geral perce-

bia-se que a situação econômica se

deteriorava e não se podia aguardar o

mês de fevereiro. Na realidade, esse

pacote, ou talvez algum substituto,

deveria ter sido efetuado antes de

fevereiro, a nío de \W ms», «Im, de

1986. Ou seja, era necessário que o

Plano Cruzado fosse precedido por

algumas modificações que evitassem ou

pelo menos atenuassem as distorções

que já se caracterizavam naquela

altura. Basta lembrar que o processo de

recuperação econômica iniciado em

1984 tinha como base o setor exportador

e assim era mais ou menos claro que o

setor produtor ds bens de consumo

sofreria um impacto muito forte, pois a

demanda por esses bens cresceria mais

rapidamente do que a produção.

Afora os efeitos negativos que a

expectativa de pacotes acarretam sobre

os agentes podemos analisar o atual

conjunto de medidas nos seguintes

termos. Ele era necessário? Haviam

alternativas? Qual o seu impacto sobre

a taxa de inflação, balanço de pagamen-

tos e distribuição de renda?

Quanto à sua necessidade, cremos que

não existe a menor sombra de dúvidas,

pois a situação realmente exigia a

tomada de medidas que diminuíssem a

demanda por bens de consumo a fim de

gerar maiores saldos exportáveis e

maior capacidade da economia para

efetuar investimentos no setor produti-

vo.

Uma alternfiüva seria a adoção de

uma elevação dos impostos diretos (por

exemplo, o Imposto de Renda), pois

assim a demanda seria cortada em ^

'•• y


Juros da dívida levarão em 5 anos

Wilson Thimoleo

O país transferiu para o exterior um total

de»24,7 bilhões de dólares, entre 1982 e 1985,

sob a forma de juros da divida externa, de

lucros e dividendos das empresas estrangeiras

radicadas no pais e de outros fatores. Este ano,

secundo as projeções de Banco Central, deverá

transferir mais 11,8 bilhões de dólares.

Sem contar o valor das transferências

estimadas para este ano, os governos do perío-

do remeteram, na prática, o equivalente a 25%

d No^^-nj HJIIMJ Júnior

173

1 059

-886

US$ 36,5 bilhões

A fuga do capital estrangeiro N

/A A* Ns

'J*^~W /?• y; Sv

/^•Sr r*} «.< ,■ >v

^?Pr ^t^^é X' /

^^J /,- ■ ^r f

^-^^^--r-—*-^~~^-^

No^w/^ •

J^^ Í 3

xk''/

\ ^y

(Em USi milhóesl

1982 ^1983 1984 1985 1986

1) Juros Ihq ) 11 3S3 9 S5S 10 203 9 589 9 000

2) Lucros t Dividendos' |liq.| 58S 7S8 796 1 059 1 100

31 Outros Serviços da Fttores

(liq.l 939 839 496 627 500

4) Ingresso Liquido de Capital

Estrangeiro 10 213 3 778 8 811 -732 -1 226

51 Transferência de Recursos

Financeiros (5 - 1 + 2 + 3-4) 2 664 7 374 2 684 12 007 11 826

6) Eportaçôes de Bens a Ser-

viços Não Fatores 21 432 23 197 28 S29 27 346 26 760

7) Transloréncia/ Exportações

17 • 5 (em %) 12,4 31.8 9,4 43,9 44.2

' n«dui ptaltmtnarvs.

' PrOfvtMlo com tui-a am dadoi divulg doi (MIO lUnco CanUal.

* (U«lui lucre* rvInvwMiüot.

' tnclui ufWuit •tstAnomoi. •TOS • om ti-6«» • uprtalt comp«nMtãnoi, Cxctu rainvvtllmtnlo*.

FOBU; HJ/W.. Çt»\u\ J.' áfa»3

1 JC«IJ» (IIIJKUI OO oiutk* wtt


QUINZENA ECONOMIA

0 Brasil,

como em

No final de 1982, o Brasil estava fa-

lido: só com as importações de pe-

tróleo e o pagamento de juros aos

banqueiros deveria gastar US| 26 bi-

lhões por ano, isto é, só esses dois

compromissos representavam mais

do que o total de exportações brasi-

leiras em um ano, então na faixa dos

US$ 20 bilhões. Era a bancarrota, a

impossibilidade de fugir às exigên-

cias dos credores, mesmo. Agora,

com a queda nos preços e nos gastos

com o petróleo, e com a queda das

taxas de juros internacionais, a si-

tuação é radicalmente diferente: ju-

ros e petróleo não consumirão, por

ano, mais do que US$ 10 bilhões

(contra US$ 26 bilhões em 1982,

repita-se) isto é: com as exporta-

ções atualmente na faixa de US$ 23

bilhões, ainda sobram US$ 13 bilhões

por ano — depois de pagos os juros e

os gastos com petróleo, repita-se —

para atender aos demais compro-

missos do Pais.

E bom ter esses dados na cabeça,

neste momento em que, da noite pa-

ra o dia, começam a ressurgir entre-

vistas e pronunciamentos oficiais fa-

lando no "peso insuportável da divi-

da externa" e na necessidade de

"endurecer com os credores inter-

nacionais". Se a opinião pública não

estiver atenta às diferenças entre

1982 e 1986, o Pais corre o risco de

submeter-se desnecessariamente a

uma série de ameaças: O Governo

pode adotar "pacotes" ou "paco-

tões" descabidos, exagerados, com

a desculpa de que "não há outro ca-

minho, por causa da divida exter-

na". Ou ainda, o Pais corre o risco

de ver a opinião pública ser manipu-

lada, em seus sentimentos naciona-

listas, atribuindo-se os problemas

econômicos aos "inimigos externos"

— no caso, o FMI e os credores inter-

nacionais. Quando, na verdade, os

problemas econômicos do Brasil se

agravaram nestes últimos meses

por culpa única e exclusiva dos pró-

prios governantes brasileiros, — ha-

vendo tempo, ainda, para soluções

que não tragam explosões sociais e,

até, riscos de "fechamento político"

(é bom lembrar que a crise da divi-

da externa serviu de pretexto para o

Aloysio Biondi

à beira do abismo

1982? Nada disso.

fechamento do regime em 1968, e

subsequentes anos de repressão

política).

Para que não pairem dúvidas so-

bre os números que mostram as di-

ferenças brutais entre 1982 e 1986, é

bom mastigar bem os valores men-

cionados acima lembrando-se ainda

outros fatores que reforçam a dife-

rença de situação entre 1982 e 1986:

• JUROS INTERNACIONAIS:

Em 1982, estavam na faixa dos 16

por cento ao ano, no primeiro semes-

tre, eqüivalendo portanto a USJ 16

bilhõespor ano, sobre a dívida exter-

na brasileira, na faixa dos US$ 100

bilhões. Hoje, os juros internacio-

nais (libor) estão na faixa dos 7 por

cento ao ano (contra 16 por cento ao

ano em 1982, repita-se), represen-

tando gastos de USJ 7 bilhões por

ano, contra USJ 16 bilhões em 1982.

• PETRÓLEO: Em 1982, o Brasil

produzia apenas 260 mil barris de

petróleo por dia, e a contribuição do

proàlcool apenas começava a cres-

cer, na substituição do petróleo. Por

isso, gastou algo como US$ 10 bi-

lhões em importações líquidas (isto

é, já "descontadas" as exportações

nacionais de gasolina e outros deri-

vados) com o petróleo. Hoje, em

1986, o Brasil produz cerca de 500 mil

barris por dia (o dobro do volume de

1982), e o Proàlcool representa enor-

me contribuição á redução das im-

portações mais ainda, o preço do pe-

tróleo estava na faixa de US$ 32 o

Barril, em 1982, e hoje vem custando

a metade disso, algo em torno de

US$ 15 o barril. Por isso mesmo, as

importações de petróleo, que consu-

miram US$ 10 bilhões em 1982, não

chegarão aos US$ 3 bilhões, em 1986.

• ECONOMIA DE DIVISAS: em

1982, portanto, o Brasil gastava USJ

16 bilhões com juros, e USJ 10 bi-

lhões com petróleo. Em 1986, essas

despesas caem para USJ 7 bilhões e

USJ 3 bilhões. Total de gastos com

juros e petróleo: em 1982, USJ 26 bi-

lhões, em 1986, USJ 10 bilhões. Quase

um terço do que representavam em

19o2

ECONOMIA MUNDIAL: Lembre-

se, finalmente, que em 1982 a econo-

mia mundial estava em recessão,

provocada pelos altos juros implan-

tados pelo Presidente Reagan, não

havendo condições de obter mais dó-

lares através das exportações nem

mesmo para os países em desenvol-

vimento. Eles estavam "quebra-

dos", soterrados pelo peso dos vio-

lentos juros que incidiam sobre a

dívida externa. Hoje, a situação é

diametralmente oposta.

Todos esses argumentos, mos-

tram, á larga, que o Brasil não está

á beira do abismo. Como mostram,

também, que o Pas não eslá sendo

"esmagado" nem pelos juros inter-

nacionais, nem pelos preços do pe-

tróleo. Não há motivo para pânico,

nem para "tratamentos de choque".

Há condições para sentar na mesa

de negociações com o FMI c credo-

res internacionais.

O Globo - 30/11/86

■■ " : 'v: : : ; :v; : : ; ; : . :


Os comunistas

e a luta contra

o "pacote"

de novembro

A Comissão Diretora Nacional Provisória do Partido Comunista Brasileiro (PCB), reunido

no dia 4 último, emitiu a seguinte nota a respeito da luta contra o "pacote" de novembro e da

greve de protesto convocada pelas entidades sindicais, marcada para o dia 12.

Desde o anúncio do "pacote" de

novembro, o PCB posicionou-se con-

tra a sua forma e o seu conteúdo e lo-

go apelou às forças políticas e sociais

democráticas para a luta contra ele,

pela sua substituição por soluções

positivas (a renegociação soberana

da dívida externa, a penalização do

monopólio e a reforma agrária). E is-

to porque os efeitos do "pacote" já

contribuem para estreitar a base de

apoio ao Governo Sarney.

A larga e unitária mobilização do

movimento sindical, programando

para o próximo dia 12 uma greve ge-

ral (24 horas) de protesto contra o

"pacote", é uma iniciativa apoiada

pelo PCB. Mas os comunistas enten-

dem que a insistência reiterada neste

método de luta (a greve geral) pode

levar água ao moinho das forças con-

trárias aos interesses do povo e da na-

ção.

Por isto mesmo, apoiando a greve

do dia 12, o PCB lutará para que ela

deflagre um amplo movimento popu-

lar e de opinião pública, que acresça

a mobilização sindical com o conjun-

to da população interessado no redi-

recionamento da ordem econômica

herdada da ditadura. Assim, a luta

QUINZENA

Publicação quinzena! do Centro de Pastoral

Vergueiro - Endereço: Rua Vergueiro. 7290

São Paulo CEP 04272 Circulação Interna

deve avançar lançando mão de meios

que corespondam ao nível de organi-

zação e consciência das massas (co-

mícios, passeatas) e envolvendo as

forças políticas e sociais comprometi-

das com as mudanças.

O grande movimento de opinião

pública a ser dinamizado deve ter co-

mo eixo a criação de condições que,

revertendo o "pacote", fortaleçam o

governo federal para que realize uma

operação inadiável.' reduzir unilate-

ralmente a sangria de recursos para o

exterior — renegociando a dívida

sem travar o desenvolvimento e a ur-

gente redistribuição da renda.

É com esta perspectiva que o PCB

soma-se às manifestações do dia 12,

querendo-as organizadas de tal for-

ma que impeçam a sua utilização por

provocadores de direita ou elementos

irresponsáveis (como ocorreu em

Brasília) c, neste sentido, apela à vigi-

lância cívica dos trabalhadores.

Trata-se, para o PCB, de levar o

governo da transição democrática a

recuperar e a alargar a sua base social

de apoio, imprescindível para a con-

solidação da democracia política —

um objetivo central do povo brasilei-

ro.

A QUINZENA NAO SAIRÁ NO DIA 19 DE

JANEIRO EM VIRTUDE DOS FERIADOS.

A PARTIR DE 16 DE JANEIRO A

CIRCULAÇÃO ESTARÁ NORMALIZADA.

<

l

c


Vale a pena formular uma hipó-

tese: qual teria sido a reação

popular ao pacote M «xcluidas

as eleições de 15 de novembro? O

exame das pesquisas de opinião

pública, que atestaram o desabamen-

to da popularidade presidencial, é

insuficiente para o desate da indaga-

ção. Quem anda na rua e freqüenta

os ônibus sabe da resposta. O eleitor

sentiu-se literalmente traido com o

súbito peso das medidas que lhe

murcharam o bolso. NAo foi a classe

média a que se sentiu ferida, atrain-

do, com malícia e esperteza, o

protesto do operariado. O encareci-

mento dos bens e, em especial, do

financiamento à sua aquisição, atin-

giu toda a esfera assalariada, sem a

seletividade anunciada. Sobre os pre-

ços dobrados, recaíram os juros, tão

escorchantes e mordentes como an-

tes da inauguração do pais das

maravilhas.

Diante do fato incontestável, ex-

presso na decepção pós-eleitoral,

verifica-se que as urnas aceleraram

a deslegitimação do governo federal.

Explico o aparente paradoxo. As

eleições elegeram governadores —

elegeram enfaticamente os governa-

dores e sem entusiasmo os congres-

sistas, como dizem os votos nulos e

em branco — para que velassem pelo

congelamento dos preços, com a

garantia do abastecimento. Em São

Paulo, ao que afirmam comentaris-

tas políticos respeitáveis, o apelo

para que se confiscassem os Dois

gordos rendeu uma avalanche de

votos. Em outros estados, diferente

não foi o quadro: o povo queria que a

ilusão se fizesse realidade, nomean-

do, para a empresa, seus gestores.

Depois de vencidas as indecisões do

apoio aos adesistas que se infiltra-

ram na oposição, tudo muda. O

congelamento de preços — a parte

popular do Plano Cruzado — sofre

um revés, multiplicado pelos valores

extorsivos das vendas a prazo. De

A voz do povo

RAYMUNDO FAORO

outro lado, pela impotência instituci-

onal, os preços dançam de acordo

com o ágio • o doMpamclmsnto dai

prateleiras. A frustração tem direto

vínculo ao fato eleitoral, que corres-

pondeu a uma confiança não corres-

pondida.

Confiança não correspondida por

Suem? Os governadores, depoistários

as esperanças populares, eximi-

ram-se da responsabilidade. O parti-

do deles, o PMDB, depois de alguma

hesitação, fugiu sem pagar a conta. 0

Chefe do Governo, experiente e com

atuação em muitos times e estádios,

entregou seus ministros à ira popu-

lar. O expediente foi inócuo: a sua

popularidade desceu a níveis assus-

tadores. O eleitor delimitou, dentro

do nevoeiro artificialmente criado, o

alvo. A fala de quinta-feira teve,

nessas circunstâncias, caráter defen-

sivo.

Está nela o reconhecimento da desle-

gitimação, agravada pelo texto do

revide. Depois de dizer que construiu

um novo país, para a felicidade doe

negativamente privilegiados, assu-

miu o papel de vítima. "Tenho de

pagar um preço por isso. Hoje eu sei

como é difícil trabalhar pelos mais

pobres". Depois a denúncia contra os

"inimigos" — os radicais e os

especuladores. Um golpe inesperado

atingiu o fígado doe "técnicos . O sr.

Samey revelou á nação estarrecida

que esses vilões lhe trouxeram mui-

tas sugestões terriveis, algumas que

recairiam "brutalmente sobre a

classe média, onde se situa o maior

número de contribuintes". Sabiamen-

te, sem falsa modéstia, escolheu o

caminho acertado, diante de tantas

alternativas pérfidas.

O sintoma do pânico presidencial

se revela nos indicadores do apoio

popular: O sistema, afora suas raízes

e apelos ocultos, ocultos mas vivos,

depende dos ibopes. Sem os ibopes

POLÍTICA NACIONAL

favoráveis, ele procurará outras

águas majs navegáveis, mas de

maior custo na travtula, NIQ é

normal em qualquer governo, perío-

dos de popularidade alternados a

períodos de desfavor? O estadista,

muitas vezes, afronta a incompreen-

são momentânea para resgatar com-

promissos públicos. 0 fato é comum

em toda parte e mesmo aqui. O

regime representativo prevê a cir-

cunstância ao atribuir, sempre, tem-

po certo ao mandato de seus repre-

sentantes. A responsabilidade presi-

dencial não depende doe ibopes, mas

da camada mais profunda da opinião

pública, camada mais pétrea ao que

arenosa. IA vem, em contrário, o

modelo norte-americano, com Wa-

tergate e as atuais dificuldades de

Reagan. Comparam-se, no caso, coi-

sas heterogêneas. A opinião pública

americana, em ambos os episódios,

sentiu-se e sente-se agravada por

grossas patifarias, que aponUm, no

corretivo, a destruição legal do

Presidente. O temor não nasce da

falta de popularidade, variável e

cíclica, mas das sanções constitucio-

nais ao descumprimento da lei e do

dever moral de falar a verdade. A

política econômica de Reagan — a

"reagomomies" — sofreu duras con-

testações na imprensa e nos demais

meios de comunicação, pondo em

risco os índices de aprovação popu-

lar, sem que o próprio se abalasse no

seu conhecido e cinematográfico bom

humor. A diferença é institucional.

Lá, perdida a confiança do pais.

depois da voz do Congresso, o

presidente pode perder o cargo,

assumindo em seu lugar o vice, com

sérias projeções sobre o partido.

Aqui, sem ibope, que é o Presiden-

te? Que solidariedade com o povo

pode invocar, ele que não foi escolhi-

do pelo povo? O Congresso não o

destituirá. A alternativa é outra: o

golpe presidencial ou o golpe anti-

presidencial. A complicaçãp toda )


está em que o golpe presidencial

passa pela faixa de incertezas do

golpe anti-presidencial, 'ab' 'ovo', ou

depois.

O freio para as aventuras, as do

desespero e as da ambição, está no

resultado eleitoral. A orquestra, que

até aqui tinha um regente consentido,

desafinou-se, perplexa com os maes-

tros indicados pela voz popular.

Como se lembrou, a batuta está

entregue a um colégio — os governa-

dores. Da direção coletiva surgirá

um ou surgirão muitos lideres, que se

instrumentaráo dentro ou fora do

Congresso. O que eles — os novos

dirigentes — ainda afio sabem é o que

fazer com o chefe do Governo, nem o

chefe do Governo sabe o que será

feito dele. De um lado, para garantir

o 'status quo', ele luta para garantir o

aplauso, há pouco farto e esponlloe*.

De outro lado, as fórmulas ainda-

estio sendo gestadas, para que sév

decidam antes dos debates do Coo-.

gresso constituinte. O assunto é ] o,

mandato presidencial. Qualquer qiie..

ele venha a ser, dependederumá -

deliberação dos governadores,-..eflV

manifestação constitucional de .(9to.:

Em troca, há muitos acordos' a tecei?,.

os quais entram ministérios, cargos e,.

verbas. Teremos, em lugar deum

chefe do Governo dependente: dos'

inquéritos de opinião pública; um'

chefe do Governo dependente de um!

colégio de chefes. Em lugar de um*

presidente consentido e plebiscilirío,

um presidente oligarquizado, còtiíir-,

mado mediante pacto de ofeediénci^.'

Na dltima hipótese, a pressão popu-

lar se deslocará do mandaláríoiparâ^

os mandantes, sempre assente «'■

premissa da náo instituciotvlizaçáo..

Há a transferência do risco, náo sua,-

eliminarão. O perigo esUriiT na,

natural preocupação do prisioneiro'

de escapar ao cerco, explorando as

dificuldades de seus avalistas, divi-

dindo-os e, com sua divisáo, rearticu-

lando os subterrâneos mais consis-

tentes da tradição republicana, aque-

les que o sr. Sarney, na sua "fala

televisionada, qualificou de "tulé-

las".

A eleição de 15 de novembro níb

trouxe a paz. Ela construiu um'

enigma, dentro do qual, como dizia o.

velho Churchill, há uma charad^.r

Quem vai decifrá-la serio os gover:v

nadores, os destinatários da. cohfian-

ça popular. Se lhes faltar decisão,'

enredados pelas preocupaçóe^,, .ad-

ministrativas de suas províncias, 4:

imobilismo não .resolverá b pfóblç-

ma. Remota é a poesibilidade^de o

Congresso constituinte tomae o-^refo^

nos dentes. Talvez sobre o nó górdio,

não para ser cortado grossfeiramenle

pela espada de Alexandre, mas,para

ser desatado com paciência e,à»tú-i

cia. *"■

pmlómiH éo Orétm 4M A4vo«a4M da bmll' IOAl|

Folha de São Paulo

07.12.86

Os provocadores têm cara

No badernaço de Brasília,

a direita agiu e a esquerda levou a culpa

Jorge Henrique Cartaxo

Os s;u|iic's. iiuciulios r deprecia-

ções que maiairam as maiiiii-sia-

tões (onna o Piano Cru/iulo II, no

iiliimo dia 27, t-m Brasília, iorain

aiiibuitios, pelo pona-vo/da Pivsi-

(iciuia da República, Kniiandi)

Cósai Mfs!ir!;i

Assim, a CUT só loi condenada

até a^ora nas versões oliciais, em-

bora esteja em atividade, há uma

semana, uma comissão lómiada

pelo governo do Distrito Federal

para investigar cabalmente os acon-

tecimentos. Os membros dessa co-

missão, diga-se, já revelam o seu

constrangimento, porque os dados

colhidos ate' - agora apontam justa-

mente na direção da policia cio go-

vernador José Aparecido - que teria

sido, alinal, a principal protagonista

dos atos de violência.

Têm chegado ao conhecimenio

da tomissão, por exemplo, cenas

como a c|ue loi lilmada pela TV

Brasília, mosirando um policial es-

magando a cabeça e o pescoço de

um molo(|ueiro, ao colocá-lo, à

lorça, num camburão. Ou outras,

não lilmadas mas tesienuinhadas -

como ac|uela em que se envolveu o

coronel Almeida, da Polícia Militar

(que se recusa a lórnecer o seu

nome completo). Possesso, ele loi

visto, por testemunhas, incitando

aos berros os seus comandados á

violência, durante o confronto da

polícia com os manirestantes, no

Ministério da Fazenda. Sua lúria

provocou a reação do presidente da

Fcnaj, Armando Rollembcrg, que o

chamou de "leviano e inesponsá-

vel".

Menos constrangidos do que a

comissão de Aparecido, os sindica-

lisias vêm mantendo suas invesiiga-

ções da primeira hora, paralela-

mente. E já não têm mais dúvidas

sobre a ação de policiais provoca-

dores á paisana, ciurame os protes-

tos. Consideram possível, também,

a ação da direiia no episódio, con-

tando com a coníséncia da polícia.

Nesse sentido, algumas peigunias

aigumentativas até aqui têm-se

mostrado irrespondíveis:

1) Por que a polícia ficou parali-

sada das 18h00 às 20h30, exata-

mente c|uando houve os quebra-

quebras, saques e incêndiosP

2) Por que o seu principal alvo,

quando recomeçou a ação repres-

siva, loi jusiamenie os fotógrafos,

que tudo viram e registraram?

Neste momenU), embora man-

tendo a prudência necessária, os

sindicalistas já se aniscam a inlbr-

mar que há elementos para se com-

provar a participação, nos acomeci-

mentos, de um certo policial, co-

nhecido apenas pelo primeiro

nome, Kléber. Pois esse Klébei, um }


QUINZENA POLÍTICA NACIONAL

) Imincm nc-gvo, cie calca escura e tê-

nis, apaiccr muna das loios que es-

capou à sanha dos policiais, parlid-

pando de um giupo c]ue inicia a

destruição de um microônibus do

Exército.

Alem desse possivel suspeito, o

único baderneiro já identilicado,

para a/ar dos ministros e de Fer-

nando César, também não é mili-

tante sindical. Trata-se do apolítico

Rogério Sousa Santos, íuncionário

da Caesb (Companhia de Águas de

Brasília). c]ue. reconhecido nas lo-

tos, já se apresentou à policia e con-

léssou ter participado do quebra-

quebra sem motivac,ão maior do

que a de la/cr parte de um movi-

mento contra o governo que bai-

xara os execrados decretos do Cru-

zado II.

Assim, a comissão lonnada pelo

governador Aparecido, agora, além

de constrangida, pode até se trans-

lormar num bumerangue poliiico

para o governo Sarney. Seus inte-

giantes parecem dispostos a investi-

gar, na verdade, os acomecimeiuos

e, por isso, já encaminharam olicios

ao SNI, à Policia Federal e ao Co-

mando Militar do Planalto, solici-

tando inloimacões, documemos e

loiogralias sobre as inanilestações.

O coronel Olavo de Castro, se-

ciciário de Segurança do Disniio

Federal e membro da comissão,

conlidem iou a um dos seus colegas

de investigação que já tem certeza

sobre a participação cie alguns poli-

ciais á paisana nas manilestações. li,

embora não tenha conlinnado a in-

lonuação para Senhor, revelou-se

certo de que "havia grupos de Ibra

nas manilestações, ligados à violên-

cia". Quando perguntado se esse

pessoal seria da CUT, ele simples-

mente não quis conlinnar a hipó-

tese.

Na verdade, a história do "ba-

dernaço de Brasília" tem uma ori-

gem muito menos conspiratória do

que se possa pensar. Tudo começou

na manhã do dia 21 de novembro

passado, quando o Sindicato dos

Professores do Distrito Federal,

presidido por Walter Valente, di-

vulgou uma dura nota contra as

novas medidas econômicas, na qual

o próprio presidente José Sarney

era criticado pessoalmente.

No linal da nota. o Sindicato

convocava todas as entidades, asso-

ciações e demais sindicatos para

participarem de uma reunião no

dia seguinte, sábado. 22, ás 14hüÜ,

na sua sede, no Setor Comercial

Sul. A convocação teve uma res-

posta inesperada: cerca de 80 enti-

dades se iizeram representar na reu-

nião, e no encontro licou decidido

que no dia 27, ás 14h00, teria inicio

na rodoviária uma grande passeata

contra o Pacote.

As IShÜO da quarta-leira. 26, na

véspera do dia da manilestação, o

secretário da Segurança, coronel

Olavo de Castro, convocou ao seu

gabinete o comando da manilesta-

ção: Chico Vigilante, da CUT; Ge-

raldo Bernes, do Senalba - Sindi-

cato dos Empregados de Entidades

Culturais, Recreativas e de Assistên-

cia Social de Orientação Piolissio-

IUü; José Sanjai Jr., do Sindicato dos

Bancános; Pedro Celso, do Sindica-

to dos Rodoviáiios; Antenor Gen-

til Jr., da CGT; Walter Valente, do

Sindicato dos Prolessores; Ivan

Benjomea, do Coclenut - Conlérên-

cia Nacional dos Mutuários; e Ru-

bens Paiva Filho, da Associação dos

Funcionários do BNFI.

O coronel Olavo de Castro, no

melhor estilo das casernas, abriu a

reunião decretando: "Estou aqui

para dar um recado do governador,

que recebeu ordens do ministro da

Justiça, para não permitir que haja

manilestações no dia 27, porque o

presidente vai á missa c ele não

pode ser importunado."

O presidente da CUT, Chico Vi-

gilante - que revelou esse diálogo

para Saiítor -, respondeu ao secre-

tário dizendo que não era intenção

de a majulcstação incomodar o presi-

dente, até porque tudo deveria aca-

bar antes da missa. E muitos católi-

cos deveriam comparecer á pas-

seata. O coronel Castro não alon-

gou mais a conversa. "Ê uma deter-

minação e eu vou reprimir", disse

ele. No dia marcado, duas ho-

ras atues do inicio da passeata, o

presidente do Sindicato dos Proles-

sores, Walter Valente, comandou

uma comissão de sindicalistas e loi

até o gabinete do ministro do Tra-

balho, Almir Pa/zianotto.

-. .tin :MII > ; i.uc

Eles queriam a inteiieiènt ia do

ministro do Trabalho para impedii

a icpressãò policial durante as ma

nilesiaiõrs. Depois de uma ioidi.il

lioi.i de agiessões, o minisiio P.i/-

ziaiiotlo. e\-.idvo^.ido sindu.il. de

sou oi,i|ou seus visitanu-s. "Ku não

vou inieivir, não. Minha lunião

não é essa. Votes estão pedindo ai •

icglo . . . Vocês são homens e sa-

bem o que la/.ein, e o que li/ei.un.

agora, têm de assumir."'

Já na rodoviária, ás IHlcíl) do dia

27, os manilestanies apressam uni

pomo a saida, tentando evitai um

conlronto com a policia, que já se

encontrava na Esplanada dos Mi-

nistérios. E it passeata loi rumo

ao Supremo Tribunal. Passou pela

policia, descendo pelos jardins do

único viaduto da Esplanada. E. até

chegar na praça dos Três Poderes.

ganhou uma inesperada adesão po-

pular: dos dois mil manilestantes

do início, já eram quase cinco mil

os que chegaram ao Palácio do Pla-

nalto. E ali lotam reprimidos pela

primeira vez pela policia, com cas-

setetes, cães e gás lacrimogêneo.

Em meio ao tumulto, com muito

esloiço, o deputado eleito pelo PC.

Augusto Carvalho, o jornalista

Hélio Doyle, do PDT, e o comando

da manilestação conseguem condu-

zir a passeata para o gramado da

tampa do Congresso sem novos in-

cidentes.

O jornalista Paulo Fona, da dire-

ção do Sindicato dos Jornalistas do

Distrito Federal, vê quando provo-

cadores tentam levar alguns mani-

lestantes a agredirem a equipe da

Globo, cheíiada pela repórter Ana

Terra, e chama o presidente da

CUT, Chico Vigilante, para ajudá-

lo a conter a agressão. E já aí novos

provocadores lotam vistos, ' ten-

tando convencer os manifestantes a

invadir e destruir o Congresso, e

manter a tensão, agredindo lisica-

mente os policiais.

Apesar de tudo, a ordem ê par-

cialmente conquistada. Realiza-se

um comício em Irente ao Con-

gresso Nacional e. ás 16h30. o co-

mando convoca os manilestantes

para o Ministério da Fazenda. No

caminho, vai ao ministro Brossard e

ao ministro Antônio Carlos Maga-

lhães. Quando os manilestanies es-

tão chegando ao Ministério da Fa-

zenda, a tropa de choque cerca a

entrada principal do prédio. Nesse

momento, vem chegando o senador

eleito pelo PDT, Maurício Correia.

(|ue conduz a população para a cal-

çada oposta á posição dos guardas,

procurando evitai violência. "Eles

itam lá e nós aqui, e se eles vierem

terão de nos matar", esbraveja Cor-

reia, liei ao seu estilo neopopulista.

Os ânimos se acalmam e uma co-

missão sobe em busca de uma au-

diência com o ministro Dilson lu-

naio. dei\.mdo h.igili/ado u to-

mando da manilestação. Pois é e\.i-

lamente nesse momento, enquanto

as principais lideranças do movi-

meitio estão pertoirendo os gabi-

netes do Ministério da Fazenda, que

a polícia láz o cerco. São cerca de

l7hH0. e a manilestação ê pulveri-

zada com bombas e cassetetes. En- )


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QUINZENA ROUTICA NACIONAL

) (juaiiU) a pancadaria vortv solla, as

liiltT.uiaus do nKMinfmo, iiuliisivc o

senador Maitncio Conria, singcin

110 hall do mlnisicVio. Temam sair c

nuoniram as ponas iccliadas c os

scguiamas rtuiaiuio cm abri-las.

Alegando ordens superiores, Cor-

reia chega a perseguir um segu-

rança paia conseguir a chave da

poria principal do ministério. Fi-

nalmente consegue a chave, pela

lorça.

O comando então se articula um

pouco e consegue levar os manilés-

tanies até a rodoviária, onde. às

ISh2ü - enquanto o presidente da

República assiste a uma missa na

catedral -. encena-se a passeata.

Maurício Correia, Chico Vigilante,

Alerte Sampaio e Ceraldo Bentes,

iodos lalam oondo lim às maniles-

uuões, ao s«m de vaias e assobios

ao presidente Sarney c seus minis-

iros.

A partir dai, a at,àü da policia ter-

mina e cümei;a a escalada dos sa-

ques, incêndios e depredações. Já

reunidos no Sindicato dos Prolesso-

res, os sindicalistas passam a receber

ameaças por telelone. "Evacuem a

área, que nós vamos botar logo em

tudo", anuncia um telelònema anô-

nimo. Kntão, os sindicalistas se diri-

gem para a OAli c o movimento

chega ao lim.

A verdadeira história do resto

dos acontecimentos nós saberemos

se o governador José Aparecido

cumprir aquilo que disse na au-

diência com o comando da mani-

iéstacão, conseguida na última

terça-léira, pelo presidente da Fe-

narj. Armando Rollemberg. "Doa a

quem doer nós vamos apurar. Eu

ciurmo com a minha consciência v

eü não estou aqui para ser guarda

preioriana de ninguém", disse o

governador do Distrito Federal, se-

lando o compromisso.

Senhor - 09,12.86

Jânio de Freitas —

A segunda invasão em menos de

dois meses, por tropas do Exército.

da Companhia Siderúrgica Nacional

e suas adjacências em Volta Redon-

da, sempre a pretexto de impedir a

ocorrência de greve nos fornos de

[undição, diz muito mais da realidade

institucional e política do que todas

as declarações de fundo democrático

dos chefes militares.

A ilusão, ao contrário da greve, é

um direito. Mas a mesmice dos

procedimentos é de evidência incon-

testável. Tal como no regime militar

explicito, nem o ministro do Traba-

lho, nem os dirigentes das siderúrgi-

cas, nem qualquer outro dos que

representam os deveres do Estado

sem os cumprir, ninguém procurou

0 dedo dos profissionais

A democracia no forno

fórmulas de entendimento prévio

com os comandos grevistas para

assegurar, por meios democráticos, o

necessário funcionamento dos fornos.

Tal como no regime militar explícito,

em lugar do entendimento prévio vão

as tropas, com sua estética da

ferocidade nas formas dos uniformes

de combate, dos fuzis, das baionetas,

dos carros blindados.

A Companhia Siderúrgica Nacional

é um dos casos mais monstruosos de

dilapidação do patrimônio nacional

pelo regime militar. Nem mesmo a

sede da CSN ficou a salvo, incluída

que foi èm suspeitas transações

jamais investigadas pelas vestàis,

fardadas ou paisanas,, dó regime

anterior e de sua cria atual. 0

arruinamente de toda a companhia

que custou ao Brasil a entrada na

Segunda Guerra, com participação

de penosa memória, não teve e não

tem a importância de repente atribu-

ída só aos fornos. A parte, pois, vale

mais do que o todo de que é um dos

■ componentes. Nesta violação da lógi-

ca reside, porém, a lógica absoluta,

intocada —e já com características

de permanente— da dominação: não

há leis para cima, nem para baixo.

Para cima, porque não são aplicadas.

Para baixo, porque são violadas.

Como subproduto desta lógica é

que o governo oferta ao país esta

explicação, tão oficial quanto fantás-

tica, do episódio de ontem na CSN: a

usina foi "invadida pela diretoria do )


QUINZENA

Sindicato dos Metalúrgicos", que

forçou "a paralisação de unidades".

Um punhadinho de pessoas não só

venceu a numerosa segurança da

CSN, como paralisou enormes "uni-

dades de acabamento de chapas de

aço". Para enfrentar esses comandos

terríveis só mesmo com a ocupação

da usina e adjacências por oitocentos

soldados.

E, no entanto, são tão dispensáveis,

estas notas oficiais. Porque quem

quer se iludir, continuará iludido,

crente que caiu na democracia. E

quem quer ver não encobrirá a

' realidade com umas poucas palavras

anedóticas.

O risco do presente

A greve ordeira é sçmpre uma

derrota do governo. A greve com

incidentes é, na melhor das hipóteses

para os grevistas, uma vitória dividi-

da pelos dois lados. Porque, mesmo

que a greve tenha êxito, o governo é

que dispõe dos instrumentos de

propaganda para atribuir á greve

propósitos desordeiros, subversivos e

por aí. E de cada vez que faz isso —e

não perde oportunidade de fazê-lo—

mais fortalece a resistência da elite

dirigente ao reconhecimento do direi-

to à greve originária dos princípios

democrá ticos e por eles regida.

Incidentes, hoje, serão como pre-

sentes natalinos para o governo

Sarney e para a antidemocracia

militaresca.

Folha de São Paulo - 12.12.86

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POLÍTICA NACIONAL.

Salário de militar provoca

desacordo entre ministros

Brasília — Ao seu estilo, silenciosamente,

os três ministros militares discordaram pela

primeira vez na Nova República. De um lado,

ficou o ministro da Aeronáutica, Moreira

Lima, convencido de que o aumento que o

presidente José Sarney concedeu às Forças

Armadas desgastaria os militares. De outro, os

ministros do Exército, Leõnidas Pires, e da

Marinha, Henrique Sabóia, certos de que

mostravam à tropa que não estavam alheios à

sua dura situação.

Moreira Lima perdeu, mas acertou na sua

previsão. Nos violentos protestos que abala-

ram a capital na quinta-feira passada, algumas

poucas faixas que a polícia não conseguiu

apreender apresentavam uma comparação:

"Parlamentares 110%, militares 50% e 100%

e o povo congelado". Como os vencimentos

dos parlamentares não foram aumentados, só

os salários dos militares foram reajustados,

mas não nos percentuais da faixa. Ontem, o

general Carlos Olavo Queiroz Guimarães,

chefe do Centro de Comunicaçào Social do

Exército, enviou uma carta ao JORNAL DO

BRASIL, preocupado com "informações errô-

neas a respeito de um suposto aumento de

vencimentos que teria sido concedido aos

militares".

Antes, dezenas de canas enviadas aos

jornais já apontavam a insatisfação com o

aumento indireto, via auxilio-moradia, que o

ministro Moreira Lima combatia, alegando ser

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HARRY SCHLAUDEMANN

O especialista

A diplomacia norte-americana se orgu-

lha do embaixador no Brasil, Harry Schlau-

demann, por ser um dos melhores, senâfo

o melhor, especialista de seu pai's em as-

suntos da América Latina. Interessado em

conferir a qualificação do diplomata, um

pesquisador brasileiro pode verificar que

esse orgulho é justificável. Além de pro-

fundo conhecedor das questões latino-

americanas, a folha de serviços de Schiau-

demann revela que ele participou dos mo-

mentos mais críticos do Continente nas

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INTERNACIONAL

COMUNIDADE LATINO AMERICANA

Durante a sua intervenção na Assembléia

Geral das Nações Unidas, o presidente do Méxi_

co, Miguel de La Madrid, focalizou o problema

da unidade latino-americana como uma empresa

essencialmente política, resumindo dessa manei-

ra o estado de espírito que moveu as delibera-

ções do SELA (Sistema Econômico Latino-Ame-

ricano) em Lima.

Para Miguel de La Madrid, é necessário

fortalecer os mecanismos regionais como o

SELA, Parlamento Latino-americano e o ALADI

"com o objetivo final de criar uma comunidade

de nações latino-americanas, integradas política

e economicamente, que não excluirá, em um íu

turo talvez ainda remoto, o estabelecimento de

autoridades supra-nacionais com capacidade de

iniciativa e decisão".

A intervenção do presidente mexicano, as^

sim como as manifestações dos representantes

dos 26 países signatários do Sistema Econômico

Latino-Americano parecem avaliar que existe

uma conjuntura favorável para o esforço integra

dor da região apesar da evidente assimetria dos

processos de cada país e as limitações impostas

por uma conjuntura econômica e financeira ca-

tastrófica.

Um polo integracionista

Mais além da vontade política de desen -

volver e consolidar espaços de discussão políti-

ca, fator essencial e predominante no proces-

so de unidade regional, as ações concretas con

tinuam respondendo a uma lógica econômica e

de curto prazo.

Quando a ALALC foi substituída pela ALA

Dl, em J980, já existia plena consciência das

das dificuldades reais enfrentadas pelo processo

de integração regional. As formas multilaterais

foram substituídas pelos acordos de complemen-

tação bilaterais.

Este novo mecanismo integrador, até ago-

ra, só conheceu um caso de aplicação exemplar,

em julho, quando a Argentina e o Brasil assina

ram uma série de acordos de complementação.

Convênios similares foram assinados posterior-

mente entre a Argentina e Uruguai e entre Uru

guai e Brasil.

A constituição, ainda que formal, de um

polo integrador desta dimensão provocou uma s

série de reações nos países protagonistas destes

acordos e no restante da região que vão do ce-

ticismo até a adesão plena. Para muitos comen

taristas, a proximidade entre Argentina e BrasTl

altera mais uma vez e de forma significativa o

equilíbrio de forças regionais.

Em primeiro lugar, porque vem confirmar

a liderança brasileira na América do Sul; em

segundo lugar, porque vai gerar uma soma de-

terminante de recursos econômicos, técnicos e

científicos amplamente desproporcional em rela_

ção aos outros países sul-americanos.

As opções do México

A importância a longo prazo dos acordos

entre a Argentina e o Brasil, estimulou a sen-

sibilidade dos funcionários do governo mexicano

diante da necessidade de redefinir o papel do

México diante de três situações concretas:

1) Suas relações com os Estados Unidos e

Canadá (com este último país divide fronteiras

com a maior economia do mundo).

2) Seu papel político e econômico na re-

gião do Caribe.

3) Sua posição diante da conretização de

um polo de integração argentino-brasileiro.

Ainda que o problema principal da política

exterior mexicana passa na forma e no conteú-

do pelas suas relações com os EUA, a vocação

nacionalista indica para a necessidade de reíor-

çar as relações com o Canadá, "por razões de

simetria". Por outro lado, mantém uma posição

de liderança não dividida em parte da região

caribenha.

Mas hoje, diante da aguda e prolongada

crise na América Central e a ausência canadejn

se de cena no hemisfério, a diplomacia mexica

na não consegue ir além dos enunciados, entre

os quais está seu interesse por um multilatera-

lismo ativo. Isto é,, por uma participação con-

crta no projeto integrador argentino-brasileiro.

As mudanças

Na década de oitenta, diversos componen-

tes presentes no cenário regional experimenta-

ram mudanças importantes sob o efeito de três

situações distintas:

1) A rebolução sandinista;

2) A crise econômica; e

3) A intervenção inglesa no Atlântico Sul.

O equilíbrio de forças foi alterado. Os fa-

tos mais recentes permitem constatar que dian-

te dessas alterações o Brasil se apresenta como

o único país da América Latina com um proje-

to definido, projeto que, ainda que pareça para-

doxal, mais cedo ou mais tarde pode o colocar

em posição antagônica com o restante dos paí-

ses da região.

■■■ ; .. ■ ■., v, ,■,...■

ALAI - De2embro/86


Ao final do almoço que reuniu,

no Palácio da Alvorada, dia

10, Oí presidenta do Brasil,

da Argentina e do Uruguai, o

presidente Sarney observou que

não há i-egistro, em época recente,

de um outro encontro semelhante

ao de BrasQla e Buenos Aires.

Concordando com a observação, o

presidente Sanguinetti lembrava

que a última reunião dos chefes de

Estado dos três países (o impera-

dor do Brasil, o general Mitre e o

general Flores) ocorreu hi mais de

120 anos e foi motivada por uma

guerra.

A troca de evocações históricas

sublinha bem o c^ue há de ineditis-

mo na atual imeiativa de fazer

mais intensas e assíduos os conta-

tos entre os presidentes das três

nações atlânticas da América do

SuJ.

Poucos se dâo conta de que,

efetivamente, ss excluirmos os

episódios das duas guerras mundi-

ais, nas quais fomos envolvidos por

motivos de ordem global. Já trans-

correram 116 anos em que vivemos

em completa paz com nossos Vizi-

nhos.

Mais do que isso, a área do

Prata, tradicionalmente zona de

conflitos e antagonismos, onae par-

ticipamos, entre 1811 e 1870, de sele

campanhas militares, converteu-se

no espaço preferencial de colabo-

ração política e econômica entre o

Brasil, a Argentina e o Uruguai.

Náo é preciso recuar multo no

tempo para recordar que nem

sempre foi assim. As décadas de 60

e 70 foram marcadas, no relacio-

namento brasileiro-argentlno, pela

acrimônia da controvérsia sobre o

aproveitamente dos recursos hídri-

cos dos rios do Prata, que contami-

nou todos os demais setores. Com o

Uruguai, ainda há poucos anos

atrás, o que dava o tom às relações

era a frieza e o ressentimento,

tomados públicos pelas campanhas

de imprensa e gerados por episódi-

os da crônica da repressão, como

os casos Flávia Schllling e os

sequestros de Porto Alegre.

Nesses campos é que se percebe

com clareza como a democracia

interna gerou as condições para

uma diplomacia de paz e fraterni-

dade.

Essa diplomacia se construiu a

partir de duas decisões íundaman-

tais que limparam o terreno dos

escombros e das desconfianças do

passado. A primeira foi a assinatu-

ra, cm outubro de 1979, do acordo

tripartite entre «o Paraguai, a

Argentina e o Brasil sobre Ilaipu e

Corpus. O acordo resistiu a provas

Brasil, Argentina e Uruguai

da disputa à integração

RUBENS RICUPERO

difíceis como o enchimento do

reservatório de Itaípu, a mudança

de governo na Argentina e a

campanha eleitoral naquele pais e

hoje, com sete onoa de aplicação,

já se pode considerar como defini-

tivamente consolidado. Para todos

os efeitos, o tema da controvérsia

passou das páginas dos tornais

para as dos livros de história. A

segunda decisán foi a de manter

em circunstâncias difíceis uma

política de solidariedade k Argen-

tina durante a guerra das Malvi-

nas, culminando com a aceitaçío

pelo Brasil da representação e

defesa dos interesses argentinos

em Londres após o rompimento de

relações diplomáticas argentlno-

- britânicas.

A quase sincronia do retomo a

regimes constitucionais, primeiro

na Argentina,'depois no Uruguai e

no Brasil, realçou o multo de

comum na experiência que oe três

povos passaram a viver. A supera-

ção dos traumas do passado recen-

te, a consolidação do poder civil,e

democrático, o controle da infla-

ção, a retomada do desenvol-

vimento, a recuperação do salário

real sao objetivos idênticos e idên-

tica é a conjuntura internacional

adversa que faz pesar sobre a

nossa experiência atual uma in-

quietante incerteza Até oue ponto

será, com efeito, possível consoli-

dar a democracia, retomar o cres-

cimento, distribuir melhor a renda

quando somos obrigados a transfe-

rir para o Exterior parcelas exces-

sivas da poupança e do PIB?

Deve-se creditar á intuiçio e

vontade política do presidente Sar-

ney muito do impubo inicial desse

movimento de coincidência entre

os três países. Foi ele que resolveu

que sua primeira viagem ao Exte-

rior seria ao Uruguai, pais fora das

considerações de poder e cuia

dimensão mais de qualidade que de

quantidade afastava de plano qual-

quer suspeita de motivação egoísta

ou interesseira. Foi ele também

que, logo no início de 85, mandou

reunir os ministros da área econô-

mica e pessoalmente lhe transmi-

tiu instruções em favor de um

tratamento favorável capaz de

corrigir o desequilíbrio crescente

que se desenhava no comércio com

a Argentina

Dai passou-se ao encontro de

Iguaçu, onde simbolicamente se-

dobrou a página das divergências

com a espontaneidade do gesto de

Alfonsln de visitar a usina de Itaipu

e se tomou a decisão de lançar o

programa de integração e colabo-

ração. Em Buenos Aires, em julho

deste ano, o programa foi estrutu-

rado em doze protocolos. Muito

desses documentos náo eram de

aplicação automática e dependiam,

para sua implementação, de provi-

dências posteriores. Nos seis meses

que se seguiram houve negociações

quase semanais, que absorveram

?;rande parte da capacidade de

ormulaçfio e negociaçio dos dois

governos. Chegou-se, assim, ao

encontro de Carajás e Brasília com

um resultado raro nessas iniciati-

vas: os prazos foram obedecidos e

a maioria doe protocolos foi inte-

gralmente cumprida,

Os frutos concretos sâo impressi-

onantes: conseguiu-se reverter a

tendência declinante do comércio

bilateral, que vinha se agravando

desde 1982. Vamos este ano aumen-

tar sensivelmente o nível do inter-

câmbio (de cerca de USJ 1 bilhão a

US$ 1,5/1,6 bilhões), com equilíbrio

entre exportações e importações O

protocolo sobre bens de capitai,

peça estratégica da integração, foi

completado com a lista de em tomo

de quinhentos produtos que come-

çam a ser intercambiados com

tarifa zero a partir de primeiro de

janeiro. O protocolo sobre expan-

são do comércio possibilitou a

renegociação do acordo que vai

regular o comércio nos próximos

seis anos e que inclui mais de três

mil produtos com tarifa máxima de

30%. Entra agora em funcionamen-

to o fundo financeiro de US$ 200

milhões para corrigir deseouilíbri-

oe eventuais no comércio de bens

de capital. Avançou-se muito no

domínio do abastecimento de ali-

mentos, biotecnologia, transportes,

comunicações, siderurgia, indús-

tria aeronáutica.

Fato também sem precedentes:

o presidente do Uruguai participou

dos encontros de Buenos Aires e

Brasília e seu país vem se associ-

ando pela via bilateral ao dina-

mismo argentino-brasileiro. No ca-

so Brasil-Uruguai, o comércio

cresceu em 1986 cerca de 70%,

concedendo-se aos uruguaios au-

mentos significativos de cotai de

produtos como o arroz, onde se

passou de 36 mi! a 200 mil toneladas

(a produção uruguaia é de 250 mil

toneladas).

A criação desse espaço preferen-

cial de entendimento político e

integração econômica entre os trfts

ises é talvez uma das característi-

cas mais marcantes e originais da

diplomacia na Nova Republica. A

seu lado, destacam-se outras reali-

zações: a retomada da autonomia

na condução do problema da divida

sem renúncia ao crescimento, a

adesão aos tratados internacionais )


QUINZENA INTERNACrONAU

contra a tortura e em defesa doei

direitos humanos, a criação no

Atlântico Sul de uma zona de paz,

imune a armas atômicas e ao

conflito Leste-Oeste, a candidatura

do Brasil para voltar ao Conselho

de Segurança da ONU, o reatamen-

to com Cuba, o revigoramento da

política africana,

A redemocratizaçáo é a força

que impulsiona essas mudanças de

política externa, renovadoras do

panorama diplomático da América

Latina.

Como a própria vida, o programa

de integração nâo se esgota nas

etapas vencidas. A cada encontro


QUINZENA INTERNACIONAL

mais distribuir favores, na forma de

nomeações ou de programas gover-

namentais generosos e sua capacida-

de de punir adversários também está

diminuindo. Por causa disso, depu-

tados e senadores começaram a de-

safiar c a atacar tanto o presidente

quanto seus assessores.

Até mesmo alguns membros de

seu ministério demonstram agora

que estáo mais preocupados em sal-

var suas próprias carreiras e interes-

ses do que em preservar o prestígio

de Reagan. É isso que explica os

gestos tanto do secretário de estado

George Shultz, quando do chefe do

Estaoo-Maior Conjunto, Almirante

Crow, denunciando publicamente a

venda de armas para o Irà. A buro-

cracia governamental também sabe

que não tem nada a ganhar amarran-

ao seu destino a um presidente em

fim de mandato e começou a vazar

todas as informações compromete-

doras de que tem conhecimento, a

fim de ganhar favor com os novos

deres que viráo.

Críticas

Até mesmo líderes estrangeiros

que mantiveram baixo seu perfil nos

últimos seis anos, dando sempre o

melhor lugar para Reagan, aprovei-

tam para consolidar e ampliar suas

próprias posições no ocaso do presi-

dente americano. Do presidente Mu-

barak, do Egito, ao rei Hussein, da

Jordânia, passando por Margareth

Thatcher, por Jacques Chirac c por

Hclmut Kohl as críticas a Washing-

ton começaram a ficar mais impie-

dosas.

Em muitos países, são poucos os

3ue conseguem acompanhar e enten-

er a sübita mudança dos ventos.

Durante a crise de Watergate, gran-

des contingentes da população, tanto

nos Estados Unidos, quanto em ou-

tros continentes nunca perceberam o

que foi oue transformou o poderoso

Richard Nixon numa figura patética,

vítima de ataques contínuos enquan-

to se refugiava na Casa Branca,

tentando dar comandos que ninguém

obedecia.

Em parte, a crosáo de Ronald

Reagan é apenas a repetição de um

conhecido ntual americano, a prepa-

ração da sucessão. O ataque de Tet,

no Vietnã, precipitou o ocaso de

Lyndon Johnson, a espionagem do

Comitê Nacional do Partido Demo-

crata, no edifício Watergate, fez a

mesma coisa para Richard Nixon, e a

tentativa desastrada de resgatar os

diplomatas da embaixada americana

em Teerã foi o começo do fim de

Jimmy Carter.

No caso de Reagan, a queda

parece estar sendo mais vertigmosa

porque esse presidente tinha conse-

guido um feito excepcional — sus-

tentar níveis altos de popularidade

independentemente do desempenho

de seu governo. Além de ser ura

mago de relações públicas, as reali-

zações foram muito modestas. Se-

gundo o líder da maioria democrata

na Câmara, a maior realização de

Reagan foi convencer o povo de que

era um grande presidente tendo tão

poucas provas para apresentar disso.

No campo da política externa, á

única meta importante que anunciou

em sua primeira campanha eleitoral

e parece ter alcançado foi a de impe-

dir que as forças do comunismo

conquistassem mais um centímetro

de território no planeta. O período

de Reagan coincidiu também com

um crescente desencanto com a ca-

Eacidade do socialismo resolver pro-

leraas sociais. Mas a outra meta

paralela, de reverter conquistas an-

teriores do comunismo, só foi conse-

guida na minúscula ilha de Granada.

Violação da lei nos EUA:

Reagan não é o primeiro

Martin Tolchin

The New YoiV Times

Washington — "Nas grandes ocasiões, todo

bom funcionário deve estar pronto a se arriscar e

ultrapassar o limite restrito da lei quando a preser-

vação do interesse público o exigir", afirmou o

presidenle Thomas Jefforson, ao justificar a compra

de munição sem auiorização do Congresso. "Seus

motivos seráo sua justificaliva", acrescentou ele.

A revelação de uma operação para suprir os

centras nicaraguenses com milhões de dólares da

venda de armas para o Irã, lendo Israel como

iniermediário, íez surgir a crítica de que o governo

Reagan de vez em quando menospreza as leis. Até

agora, nenhum tribunal ou comissão de inquérito

declarou as vendas de armas ou o desvio de verbas

ilegais. Algumas raposas de Washington alé afir-

Nas regiões onde se travam as

mais acirradas batalhas entre os capi-

talistas e os comunistas, contudo —

os países pobres da calota sul — a

maior recessão dos últimos 50 anos e

uma sucessão de confrontos naturais

aumentaram os problemas sociais. A

ideologia nesses países continua in-

tensa. Especialmente na América

Central e na África os esforços de

Reagan não têm produzido resulta-

dos fulgurantes.

A imagem de Reagan será defi-

nida pelos resultados de suas políti-

cas nos Estados Unidos. Nesse país,

esses resultados continuam sujeitos a

grandes controvérsias. O presidente

conseguiu diminuir substancialmente

a inflação causada principalmente

pelos aumentos dos preços do petró-

leo na década passada, à custa de

uma recessão. Desde então, sua polí-

tica conseguiu produzir quatro anos

de crescimento econômico. Mas os

críticos de Reagan afirmam que esse

período de prosperidade vem sendo

sustentado pelo maior endividamen-

to da história, mais de 1 trilhão c 200

bilhões de dólares, até agora, em

apenas 6 anos. "Quando os america-

nos perceberem o tamanho da conta,

a popularidade de Reagan"vai cair

substancialmente", afirma o tx 1 -

presidente Jimmy Carter.

No período de Reagan foi que-

brado o recorde estabelecido no pt- ^

ríodo de Richard Nixon, de escândá- °

los, julgamento e prisão de assessrá Ü

governamentais. Por corrupção dü —

outros tipos de crime, mais de 300 §■

funcionários do governo já foram

submetidos a julgamento, vários dç- S?

les cumprem sentenças de prisão.. ^

Até agora, nenhum desses pro- ""

blemas tinha atingido o presidente.

De repente, no fim do mandato, sua o

acumulação tornou mais grave o epi- —

sódio da venda de armas para o Irá. ôe

A sorte de Reagan acabou. ^

mam que violações da lei, de fato ou em espirito,

são um lugar comum na maioria dos governos e são

geralmente criticadas sob circunstâncias que tèm

mais a ver com o contexto político do que com as

violações em si.

"Violações da lei, como vírus, estão presentes

a lodo momento. Todo mundo faz", comentou um

veterano com 20 anos de política.

Mas os críticos de Reagan afirmam que neste

governo o desrespeito á lei é generalizado, abran-

gendo questões de política externa e interna. "Esta-

mos presenciando uma oscilação diária nüo apenas

das leis, mas também dos regulamentos c costu-

mes", disse o deputado Don Edwards, um demo-

crata liberal da Califórnia que preside o Subcomitê

Constitucional do Comitê Judiciário da Câmara.

Os críticos argumentam, espcciBcamente, que

o governo Reagan iginorou a proibição do Congres-


so à ajuda militar aos contras (que só foi suspensa

em junho deste ano); náo cumpriu as exigências da

Resolução sobre Poderes de Guerra quando enviou

soldados ao Líbano e Granada; desafiou decisões da

Justiça Federal sobre benefícios da previdência

social; designou o Escritório de Gerencia e Orça-

mento como órgão supervisor, sem passar pelo

crivo do Congresso; e implementou de má vontade

leis relacionadas á proteção dos direitos civis, ao

meio ambiente, à saúde pública e à segurança.

"É coerente com sua visão das prerrogativas

presidenciais", constatou o advogado liberal Alan

Morrison. "Eles pensam: nós fomos eleitos para

governar e é assim que decidimos fazé-lo".

Mas um advogado que já trabalhou no gover-

no e pediu para não ser identificado, afirmou que,

num contexto histórico, este govemo respeitou

tanto as leis quanto a maioria de seus predecesso-

res. Ele lembrou que o Departamento de Justiça

está ivestigando as operações no Irá e na Nicarágua.

"Muitas leis", disse ele, " sáo ambíguas, intencio-

nalmente ou nâo, e dão a um governo um amplo

leque de opções para sua aplicação". Peter Walli-

son, conselheiro da Casa Branca, quando pergunta-

do se o governo ignorou as leis que acha inconve-

nientes, respondeu apenas; "Sem comentários".

Os que apoiam o presidente Reagan dizem

que a maioria dos presidentes tende a escolher as

leis que pretendem obedecer. De fato, Abraham

Lincoln suspendeu o bebeas corpus durante a Guer-

ra Civil, explicando que às vezes é preciso amputar

um pé para salvar o corpo. Andrew Jackson orde-

nou que o presidente do Supremo Tribunal John

Marshall fizesse cimprir sua própria decisáo num

caso envolvendo a remoção brutal de índios chero-

Itees. Harry Truman. Lyndon Johnson e Richard

Nixon enviaram tropas para combates sem uma

Declaração de Guerra do Congresso.

Em outra frente, os integrantes republicanos e

democratas do Comitê Judiciário do Senado se

uniram para impedir que o governo promovesse o

chefe da Divisão de Direitos Civis do Departamen-

to de Justiça, alegando que ele falho na aplicação

das leis dos direitos civis.

Especialistas dizem que muitas leis são propo-

sitalmente vagas, para dar opções ao presidente.

"As leis estão sempre expostas à ambigüidade e às

interpretações", afirmou o professor Fred Greens-

tein, da Universidade de Princcton.

O governo Reagan seguiu o exemplo de seus

antecessores ao enfatizar a interpretação semântica

para justificar suas medidas por várias leis. Como o

governo Truman chamou a Guerra da Coréia de

"ação policial", para evitar uma necessidade de

uma Declaração de Guerra, Reagan disse uma vez

que sua ajuda aos rebeldes oicaragüenses é parte de

uma estratégia para "interromper" as linhas de

abastecimento dos guerrilheiros de El Salvador,

mais do que para minar o governo sandinista.

Em qualquer caso, os especialistas dizem que

o Congresso sempre pode ter as políticas do gover-

no sob seu controle simplesmente se recusando a

aprovar verbas. O professor Richard Neustadt, da

Universidade de Harvard, que trabalhou na Casa

Branca quando Truman era presidente, lembrou

que aquele governo mantinha freqüentes contatos

cora o presidente do Comitê de Verbas. "Sempre

conversávamos com ele. Sempre o mantinhamos

informado que estávamos fazendo. A questão é

saber até que ponto o Congresso está insatisfeito"

Irã-Iraque, uma guerra sem fim-

Drew Middleton

Thí Naw Vpr* Tlmat

Muscat, Omá — Aqui, na fronteira da guerra entre Irá e

Iraque líderes militares e políticos acreditam firmemente que

nenhum dos dois governos pode dar-se ao luxo de terminar a

guerra. Os homens que conhecem intimamente a situação

político-militar dos dois países argumentam que a paz pode

levar a pressões internas ainda maioes que Teerã e Bagdá não

podem enfrentar. Prevêem, portanto, a continuação da guer-

ra, caracterizada por uma intensificação de ataques aéreos de

ambos os lados, com a batalha terrestre do lado iraniano

limitada a ações conta alvos específicos ao longo da frente

iraquiana.

A expectavia é que o Irã dará continuidade a esses

ataques com ofensivas mais profundas — a serem realizadas

por unidades especiais, transportadas por helicópteros —

contra linhas de comunicação, postos de comando, bases de

artilharia e concentrações de tanques. Essas operações substi-

tuirão a lã o esperada ofensiva final.

Oficiais com grande conhecimento sobre o alto comando

iraniano e o atual estado do Exército e da Força Aérea desse

país estão convencidos de que a ofensiva foi adiada por tempo

indefinido porque os comandantes militares concluíram que as

forüficações da linha de frente iraquiana não podem ser

vencidas e subjugadas com as forças e armas de que o Irã

dispõe no momento. Os líderes políticos cm tomo do aiatolá

Khomeini temem que o número de mortes que resultaria de

uma ofensiva — mesmo que fosse bem-sucedida — exacerba-

ria o atual npivel de insatisfação no país.

Enquanto isso, o Irã faz o possível para melhorar a

mobilidade de suas forças c sofisticar sua defesa antiaérea. Os

poucos aviões iranianos serão utilizados, segundo fontes

militares, contra alvos navais no Golfo Pérsico. Alguns desses

aviões estão agora equipados com mísseis italianos ar-terra.

Omá é um pais bem armado, independente ao extremo,

e seus líderes normalmente adotam posição mais objetiva em

relaçáo à política americana do que os outros países árabes. A

proximação encetada pelo presidente Reagan com os modera-

tfot no ira foi um exemplo dl eel» mui feiia, sdmlte-nc em

Omâ. Mas nenhum funcionário do governo critica aberta e

oficialmente a iniciativa. A maioria alega, na verdade, que

Reagam mostrou de sabedoria e sensatez ao buscar um laço

com os moderados dentro do governo rramano. "Eles são

muitos", comentou um funcionário em Omi, "e devem ser

encorajados."

Tem Omã e no resto do mundo árabe, a preocupação é

grande em relação ao que pode acontecer no Irã após a morte

de Khomeini. A expectativa geral é que haverá tumultos e

arruaças e que, se o novo govemo for tão extremista quanto o

atual, o fundamentalismo islâmico será estimulado em todo o

mundo árabe. Alguns acreditam que um novo regime que siga

a atual política dos aiatolás intensificará a campanha contra os

atuais governos do Golfo Pérsico, tirando proveito de sua

situação econômica em deterioração.

Funcionários em Omã e em outros países árabes também

estão preocupados cora a restauração dos laços econômicos

entre a União Soviética e o Irá. Técnicos soviéticos voltaram

recentemente ao Irá para retomar seus lugares nas indústrias

de gás e óleo, c a embaixada soviética era Teerã tem estado

ocupada adulando a nova geração de políticos que pode

substituir Khomeini no poder quando ele morrer.

Finalmente, existe uma grande apreensão em relação ao

futuro comportamento do Irã com as novas armas obtidas da

China, Coréia do Norte, Bulgária, Israel e Estados Unidos.

"Na sua situação atual, desesperada", começou um experien-

te observador da guerra, "quem pode dizer o que o Irã vai

fazer com essas armas? Os iranianos podem se voltar contra os

países como a Arábia Saudita e o Kuwait que ajudaram o

Iraque financeiramente desde o início da guerra."

A situação é táo instável e grave que forçou os menores

países do golfo a pensar seriamente cm suas defesas. A retória

do conselho de cooperação do golfo está a ?s poucos sendo

substituída por um sforço concreto para mooemizar os apara-

tos militares da região.

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QUINZENA INTERNACIONAL

África do Sul

resposta a seu embaixador no Brasil

Em carta publicada pela Folha

em 29/08/86, página 3, o em-

baixador da África do Sul

omitiu uma série de verdades que

devem ser postas publicamente e

conhecidas por todos aqueles que

se solidarizam com Desmond Tutu,

Nelson Mandela e outros tantos que

lutam pela emancipação do povo

sul-africano e o fim do "apar-

theid".

Em primeiro lugar, nâo é b fato

da África do Sul ter lutado conjun-

turalmente contra a Alemanha

nazista que desqualificaria o regi-

me dominante do neonazista. O

ex-primeiro ministro sul-africano

John Voster, antecessor de Pieter

Botha declarara em 1942 "que

somos por um socialismo cristáô

que é um aliado do nacional-socia-

hsmo (leia-se, nazismo, NT). Na

Itália é chamado fascismo, na

Alemanha nacional-socialismo e na

África do Sul nacionalismo cristão,

(cit. de J. Hople "Os Trabalhado-

res sob o Apartheid", Johannes-

burg, 1974).

Quanto aos bantustôes é mister

considerar que eles só sáo reconhe-

cidos como 'Estados nacionais', na

definição do embaixador, pelo go-

verno de minoria branca que V. Sa.

serve. Este governo detém o poder

de Estado acima desses 'Estados',

que foram criados por decreto e

náo têm por fundamento a sobera-

nia popular como base de sua

criaçáo.

Contrariamente à visáo do sr.

embaixador, a Organização da

Unidade Africana —a OUA— defi-

ne que a soberania dos povos

africanos é reconhecida nos limites

das fronteiras nacionais, definidas

no processo de ocupação colonial

da África. Tais fronteiras não

podem ser confundidas com as

fronteiras étnicas, impostas aos

negros nos 'bantustôes', criadas

pela minoria branca que detém o

poder econômico, social e político

na África do Sul.

È importante que o leitor saiba

que "apartheid" náo é só racismo

nos esportes, teatros segregados ou

hotéis cujo acesso é baseado na cor

da pele. Isso existia há séculos

antes da invenção do termo "apar-

theid". Também não é só a exclu-

são dos negros de determinados

postos de trabalhos, contra a qual

muitos empresários insurgiram-se

desde a década de 20. Muitos dos

elementos constituintes do "apar-

theid" encontram-se na origem da

África do Sul.

Desde sua origem a África do

Sul, dominada pela minoria bran-

ca, funda-se na exploração das

reservas de máo-de-obra barata,

na negação de direitos civis e

políticos à população de cor, nas

limitações do direito de ir e vir aos

negros, na perseguição política

contra organizações operárias e de

libertação nacional e na monopoli-

zação pela minoria branca de 87%

da terra produtiva do país.

A desocupação e esgotamento

das terras nos bantustôes chega a

tirar o trabalho de 20% dos homens

lá confinados e 55% das mulheres.

A migração interna, considerada

'ilegal' pela minoria branca domi-

nante, leva um negro à prisão a

cada dois minutos, estimula a

formação da 'vilas-miséria'. Uma

delas, "Crossroads", por exemplo,

agrupa nada menos que sete mi-

lhões de negros urbanos (cf. "Le

Monde" de 09/09/84).

Desde os inícios da década de 60

crê-se que o governo transferiu à

força 3,5 milhões de negros aos

bantustôes. Há uma Lei da Imora-

lidade, que desde os anos 50 proíbe

relações sexuais entre brancos com

outros grupos étnicos. Desde 1965

há uma lei que permite a tortura

sobre os detidos. Acresça-se o fato

de que os chefe dos bantustôes sáo

militares mercenários que servi-

ram a África do Sul na guerra da

Rhodésia, hoje Zimbábue. Por tudo

isso é que Samora Machel define o

"apartheid" como o nazismo de

nossa época.

Uma política que expulsa os

negros das cidades arrasando suas

casas à buldôzer, que converte os

lares negros em prisões e os

quartos em celas, que concede

atestados de 'suicídio' a negros

detidos, só pode ser qualificada de

nazista.

O que necessita ficar claro é que

há um complexo militar industrial

na África do Sul que promove a

integração estatutária de todo o

sistema industrial na 'economia de

guerra', centralizando todas as

armas do aparelho de segurança

nas mãos do primeiro-ministro.

Efetua o recrutamento e doutrina-

ção da juventude branca no racis-

mo, utiliza as emissoras de rádio e

TV para promover uma psicose de

guerra e incrementa os ataques a

Angola e Moçambique, apesar da

assinatura dos acordos de Komati e

Lusaka.

Existe uma ilusão de caráter

liberal, segundo a qual o sistema

será obrigado a reformar-se se-

gundo a lógica da necessidade

econômica. Isso é muito discutível.

Devemos lembrar-nos de que a pior

repressão sobre os negros se deu

quando dominava o Partido Nacio-

nalista e a economia conhecera um

grande'boom'.

Insinua-se que mudanças impor-

tantes estão sendo feitas por Pretó-

ria. P. que pressionado pela crise

interna resultante em grande parte

da guerra com seus vizinhos e das

dificuldades de intercâmbio eco-

nômico com a maioria dos países

de 3° Mundo, P. Botha andou pela

Europa prometendo 'abertura'. Na

realidade houve mudança de tática

da África do Sul.

Em vez de guerrear com o

próprio exército sul-africano, o

regime do "apartheid" atua medi-

ante fantoches como a "UnitáV

(Angola) e a "Renamo" (Moçam-

bique). Em Angola, os compromis-

sos de evacuação das áreas ocupa-

das não foram cumpridos, o gene-

ral Malan optou pela infiltração

despejando lá dezenas de grupos

armados com pessoal treinado na

África do Sul.

Para a diplomacia européia, a

África do Sul aparentava cum^r'

as promessas de paz, pois Stf

retirava de parte das áreas ocupa-

das guerreando por outros meios., A

retirada da África do Sul implicava,

na devastação das terras abando-

nadas e na prática pela "Unitá" de

ações armadas isoladas, como

seqüestro de pessoas, sabotagens n

barcos no porto de Luanda. Dur^rl''

te muito tempo a África do Su).

eximia-se da responsabilidade dev

sas ações, qualificando-as de 'mo*

vimento nacionalista', fruto. c[o

grupos inconformados com o cará-

ter socialista do MPLA. Porém; nit :

festa nacional de Pretória, o líder

da "Unitá", Savimbi, foi desenga'-.

vetado e apareceu ao lado de.seu,

mentor sul-africano: Bolha.

Enquanto isso, contrariando toe-

solução da ONU (n. 0 435), a Afriça.

do Sul continua ocupando a Na/n^,-

bia, mantendo cem mil soldatítís'

sul-africanos para uma populaçãí/-

de um milhão de habitantes. ,;;:V

Por outro lado, no interior: dn

África do Sul, assiste-se a progm*!

siva transferência de empfé!>á's'

multinacionais do país. Nem"»'

General Motors nem a IBM, quaide

lá se retiraram, suportam a lensjjó,

gerada pelo "apartheid", mesmo]

maquiado com a eleição paratis

três Câmaras de brancos, negros'i^

mestiços. 1 ,:. •

Por tudo isso, sr. embaixador, é

impossível tapar o sol com- a

peneira. V. Sa., ao defendemob

regime dominante cumpre com;si)j|,

obrigação profissional, mantem'

seu cargo diplomático e essa dciV

sa, quem sabe, pode ser iUII"à J

rápida ascensão na sua carroini 1

diplomática. Porém, desserv^.ji;

maioria negra da África do Sulç a

todos aqueles para quem a disx;rl : '

minação pela cor constitui : «íh

cadáver que é preciso enterran

para ter vida. ;;/ i

MAUSICIO TtAOUNilaO ii. t lo^ilo^u p.ol,.»».

do D«poflom«nio d* C.im.o, oo>k dti '.."ÍK"*

Cvlúlio Vorgo» (SP) « du Un.y. ,.ouuu l.uid^.ii ■•■•

Cumpinm (Umcomp)

Folha de São Paulo - 01/12/86

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