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<strong>LUISINHA</strong> e <strong>VIDINHA</strong>:<br />
A REPRESENTAÇÃO FEMININA NO ROMANCE MEMÓRIAS DE UM<br />
SARGENTO DE MILÍCIAS<br />
Jerlyane Dayse Monteiro dos Santos (UFPB) 1<br />
1<br />
jerlyanedayse@yahoo.com.br<br />
Orientadora. Profª. Drª. Serioja Rodrigues C. Mariano (DH/PPGH/UFPB)<br />
Seriojam2@hotmail.com<br />
Era no tempo do rei.<br />
(Manuel Antonio de Almeida)<br />
A epígrafe acima dá início à ficção literária produzida por Manuel Antonio de<br />
Almeida, na obra Memórias de um Sargento de milícias, publicado entre os anos de 1852 e<br />
1853, no suplemento “A Pacotilha” do jornal Correio Mercantil. Este foi o único romance<br />
escrito pelo autor, que morreu ainda jovem. O romance urbano pressagia a obra de<br />
Machado de Assis, ao descrever as atribulações das classes, média e pobre, que residia na<br />
corte do império, o Rio de Janeiro. Buscando retratar a sociedade da época, seus costumes<br />
e sua cultura. Nesse texto pretendemos apresentar duas personagens que estão presentes na<br />
trama do autor: Luisinha e Vidinha.<br />
Este artigo tem por objetivo analisar a representação feminina através de Luisinha e<br />
Vidinha. Por muito tempo a historiografia foi dominada pela perspectiva masculina, que<br />
sempre privilegiou a perpetuação da representação masculina, como a figura dos heróis<br />
viris. Entretanto a partir da década de 1970, através da “nova história”, e seus<br />
desdobramentos dentro do campo da História Cultura, a história das mulheres ganhou<br />
maior visibilidade. Inicialmente a história das mulheres estava diretamente relacionada ao<br />
movimento político, através do movimento feminista, mas ao longo da década de 1980, sob<br />
a influência das ciências sociais, esta se afastou em definitivo do viés político e desviou o<br />
seu campo de interesse para a questão de gênero. Segundo esta perspectiva a história das<br />
1 Estudante do curso de Licenciatura plena em História pela UFPB e integrante do Grupo de Pesquisa<br />
“Sociedade Cultura no Nordeste Oitocentista”, coordenado pelas Profª s . Dr as . Serioja Rodrigues Cordeiro<br />
Mariano e Solange Pereira da Rocha.
mulheres surgiu a partir do debate político avançou para a história especializada e daí<br />
seguiu para a análise de gênero (SCOTT, 1992).<br />
A influência exercida pela ciência social ao estudo de gênero pluralizou a categoria<br />
das “mulheres”, e produziu um vasto campo de histórias e de identidades coletivas. Por<br />
isso, é através dessas novas possibilidades de pesquisa que vem se intensificando as<br />
pesquisas voltadas para as mais diversas representações de gênero. É através dessa nova<br />
perspectiva que pretendemos por intermédio da Literatura analisar a representação e o<br />
imaginário feminino durante a primeira metade do século XIX.<br />
O romance começa a ser narrado no tempo do rei D. João VI, e foi produzido a<br />
partir da Corte, e sobre a Corte, levando em consideração todas as especificidades desta<br />
cidade. Pois o Rio de Janeiro além de servir de cenário para os principais embates políticos<br />
tornou-se também um centro difusor de hábitos e normas de convivência para as demais<br />
províncias (CARVALHO, 2004). O Rio de Janeiro foi o local difusor de regras e costumes,<br />
importados da Europa, e que serviram como modelo para o padrão de comportamento que<br />
marcou o país durante o século XIX. Foi a partir deste momento que, vestimentas,<br />
instrumentos musicais, e acessórios ditaram os usos e costumes e hierarquizaram a<br />
sociedade através da criação de um código de ética, ou melhor, uma etiqueta, que deveria<br />
ser seguida à risca - sinal de civilização (ALENCASTRO, 1997).<br />
Tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro e por protagonistas a sociedade<br />
burguesa e classe baixa carioca pretendemos, a partir desse artigo, analisar o imaginário e a<br />
representação feminina na primeira metade do século XIX, tendo como documento de<br />
análise o romance literário Memórias de um Sargento de Milícias. Esta perspectiva se<br />
tornou possível, pois entendemos que a História Cultural “tem por principal objetivo<br />
identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade<br />
social é construída, pensada e dada a ler” (CHARTIER, 1988, p. 16-17). Tendo em vista tal<br />
entendimento a história passou a fazer uso da Literatura como uma fonte histórica. Não<br />
havendo, portanto, uma posição de hierarquia entre ambas. Mas a partir da história<br />
formulamos as perguntas e colocamos as questões. A literatura oferece ao historiador o<br />
algo a mais que outras fontes não podem fornecer, pois esta busca resgatar as<br />
representações passadas. Ela permite o acesso ao clima de uma época, ao modo como as<br />
2
pessoas pensavam o mundo, a si próprias, quais os valores da sociedade, quais os anseios,<br />
desejos e preconceitos. A literatura representa o real, ao mesmo em que privilegia a leitura<br />
do imaginário (PESAVENTO, 2009). Assim entendemos por representação o conjunto das<br />
formas de teatralização da vida social, tendo em vista que o representado tem que “fazer<br />
com que a identidade do ser não seja outra coisa senão a aparência da representação, isto é,<br />
que a coisa não exista a não ser no signo que a exibe” (CHARTIER, 1988, p. 21).<br />
O romance analisado é dividido em duas partes, uma contém as travessuras da<br />
infância do “pequeno” Leonardo e, a outra, contém suas aventuras de juventude. Nesse<br />
artigo vamos nos concentrar na segunda parte do romance, pois pretendemos analisar a<br />
representação feminina, de Luisinha e Vidinha, as duas moças, as quais a beleza e o amor<br />
encantaram o coração do moço Leonardo. Este último por sua vez, pode ser considerado<br />
pela critica literária como um anti-herói, por representar o estereotipo característico do<br />
malandro carioca. Através da representação pretendemos compreender o imaginário que<br />
gira em torno do ser feminino.<br />
Entretanto, para compreendermos a dicotomia existente entre a representação e o<br />
imaginário que cercam as personagens Luisinha e Vidinha, vamos dissertar brevemente<br />
sobre a infância do personagem Leonardo, pois consideramos relevante que precisamos<br />
conhecer os acontecimentos que se desenrolaram durante a sua infância, pois estes sem<br />
dúvida são determinantes para o desenrolar dessa ficção literária.<br />
O romance descreve que o pequeno Leonardo era filho de um casal de portugueses<br />
que se conheceram durante a viagem para o Brasil, Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça.<br />
Ao chegar ao Brasil, Leonardo Pataca conseguiu uma colocação de meirinho, ou oficial de<br />
justiça como descreve o romance. A narração retrata que o casal lusitano não se casou<br />
formalmente na igreja, pois entre as classes populares os amancebamentos eram narrados<br />
com naturalidade, algo que retrata bem a cultura matrimonial dessa camada social, pois o<br />
costume tradicional de casar na igreja era mais comum entre as mulheres da classe media e<br />
alta. O casal permaneceu “amancebado” durante os primeiros anos da infância do pequeno<br />
Leonardo. Porém, Maria da Hortaliça, ou Maria Saloia 2 , como Leonardo Pataca gostava de<br />
repetir sempre que discutiam, não detinha as características apreciadas nas mulheres<br />
2 Referência a região de Portugal a qual Maria nascera.<br />
3
urguesas da época, apesar de Leonardo Pataca possuir uma boa colocação social como<br />
oficial de justiça.<br />
O romance descreve Maria como uma portuguesa rechonchuda e bonitona e narra<br />
com naturalidade os inúmeros amores extraconjugais, isso se pensado para o contexto do<br />
século XIX. As traições freqüentes despertaram a desconfiança de Leonardo Pataca, que ao<br />
descobrir as aventuras da esposa forjou-se em bravura e valentia para com ela e o filho. Tal<br />
atitude resultou no esfacelamento da pequena família. Maria retornou a Portugal<br />
acompanhada por um de seus amantes, o comandante do navio que trouxera o casal ao<br />
Brasil. O Leonardo Pataca desapareceu da vizinhança onde residia com a família. O<br />
pequeno Leonardo, após ser abandonado pelos pais ficou aos cuidados do padrinho, o<br />
barbeiro que morava em frente a casa da família e que presenciou o trágico desenrolar dos<br />
acontecimentos.<br />
Criado pelo padrinho, o pequeno Leonardo não mais voltou a ver a mãe que havia<br />
retornado a Portugal; e ao pai só tornou a ver durante a mocidade, pois este permaneceu<br />
ausente durante toda a sua infância. Desse episódio podemos destacar que nesse período<br />
era comum adotar um afilhado ou possuir agregados em casa 3 . Entretanto a vida familiar<br />
sofreu a dissolução das formas tradicionais de solidariedade compartilhada pela<br />
vizinhança, família, compadrio e tutelagem, devido à constituição do Estado Moderno e<br />
das mudanças na economia. Durante toda a infância fartou-se de travessuras e diabruras, e<br />
com o passar do tempo o pequeno tornou-se jovem e, foi durante o início da adolescência,<br />
que se apaixonou por Luisinha, a sobrinha de D. Maria. O autor nos revela que Luisinha<br />
era filha única e foi para aos cuidados da tia que ficou responsável pela tutoria da mesma,<br />
pois esta herdara do pai alguns mil cruzados. A entrada de D. Maria e Luisinha na trama<br />
acrescenta ao romance as características da vida social da classe média, descrevendo a<br />
alcova dos sobrados urbanos cariocas.<br />
É interessante observarmos que o autor não precisa as datas, mas deixa nas<br />
entrelinhas alguns vestígios que permite ao leitor tentar entender qual a conjuntura política<br />
do período narrado. Apesar de pouco revelar sobre conjuntura política a qual os<br />
3 Essa forma de relação familiar e social será abordada, mais a frente, quando o moço Leonardo se tornar<br />
agregado na casa de Tomás da Sé, seu colega de infância.<br />
4
personagens estão inseridos, ao leitor é possível perceber que o momento em que D. Maria<br />
e Luisinha entram no romance, corresponde aos primeiros anos do período regencial 4 .<br />
Através da narrativa podemos pe<strong>net</strong>rar no imaginário sócio-cultural e religioso da época<br />
por intermédio da descrição da festa do divino Espírito Santo. Segundo o autor esta era<br />
uma das festas prediletas do povo fluminense. Almeida descreve que a festa do divino<br />
tinha início nove dias antes do domingo do Espírito Santo, pois os dias de prenúncio eram<br />
marcados por folias. O autor apresenta uma breve narração do que eram as folias que<br />
prenunciavam o divino. Acompanhemos a sua descrição,<br />
Durante os 9 dias que precediam ao Espírito Santo, ou mesmo não<br />
sabemos se antes disso, saíam pelas ruas da cidade um rancho de<br />
meninos, todos de 9 a 11 anos, caprichosamente vestidos à pastora:<br />
sapatos de cor de rosa, meias brancas, calção da cor dos sapatos, faixas à<br />
cintura, camisa branca de longos e caídos colarinhos, chapéus de palha de abas<br />
largas, ou forrados de sêda, tudo isto enfeitados com grinaldas de flores, e com<br />
uma quantidade prodigiosa de laços de laços de fita encarnada. Cada um destes<br />
meninos levava um instrumento pastoril que tocavam formando um quadrado,<br />
no meio do qual ia o chamado imperador do Divino, acompanhados por uma<br />
música de barbeiros, e precedidos e cercados por uma chusma de irmãos de opa<br />
levando bandeiras encarnadas e outros emblemas, os quais tiravam esmolas<br />
enquanto eles cantavam e tocavam (ALMEIDA, 1963, p. 91-92).<br />
No romance Leonardo descobre o amor por Luisinha, por intermédio dos festejos<br />
do domingo do Espírito Santo,<br />
Virando o rosto, viu sobre seus ombros aquela cabeça de menina<br />
iluminada pelo clarão pálido do misto que ardia, e ficou também por sua<br />
vez extasiado; pareceu-lhe então o rosto mais lindo que jamais vira; e<br />
admirou-se profundamente de que tivesse podido alguma vez rir-se dela e<br />
achá-la feia (ALMEIDA, 1963, p. 91-92).<br />
Através da citação acima observa-se o contraste entre esta e a primeira descrição, o<br />
que nos leva a perceber que a representação de Luisinha muda no decorrer da narrativa.<br />
Inicialmente a jovem é descrita como feia e sensaborona, estando na fase em que as<br />
meninas se tornam moças,<br />
4 O período Regencial corresponde ao intervalo entre o primeiro reinado, de D. Pedro I, e o segundo reinado,<br />
D. Pedro II. Este período tem início em 1831 e segue até 1840, quando chega ao fim após o golpe da<br />
maioridade, no qual D. Pedro II assumiu o trono imperial com apenas 15 anos de idade.<br />
5
[...] sobrinha de D. Maria, já muito desenvolvida, porém que tendo<br />
perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça;<br />
era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia as<br />
pálpebras sempre baixas e olhava a furto; tinha os braços finos e<br />
compridos, o cabelo cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e grande<br />
porção lhe caía sobre a testa e olhos como uma viseira, trajava nesse dia<br />
um vestido de chita roxa muito comprido, quase sem roda, e de cintura,<br />
muito curta, tinha ao pescoço um lenço encarnado de alcobaça<br />
(ALMEIDA, 1963, p. 89).<br />
Caracterizada pela avidez e magreza, Luisinha apresenta características comuns as<br />
meninas da recém formada classe média burguesa, características herdadas do período<br />
colonial, pois até o início do século XIX, o Brasil ainda possuía fortes características<br />
rurais, inclusive o Rio de Janeiro, até então não se destacava das outras cidades, mas com a<br />
transferência da corte de D. João VI, em 1808, e com a mudança de status de colônia para<br />
o Reino unido, em 1815, ocorreu uma série de mudanças urbanísticas e paisagísticas, que<br />
mudou, em poucos anos, perfil da cidade carioca.<br />
Apesar de, inicialmente, ser considerada por Leonardo feia e esquisita, o jovem<br />
acaba se deixando persuadir pela beleza “burguesa” de Luisinha. Entretanto, concretizar o<br />
amor juvenil se tornou mais difícil do que se poderia imaginar, pois o romance esboça a<br />
forma como se davam o desenrolar dos relacionamentos amorosos no período. Por ser<br />
Luisinha, órfã e com alguns mil cruzados não lhe faltariam pretendentes.<br />
Nesse período a rua se distinguiu da casa, o lugar público ganhou então uma<br />
conotação oposta ao uso particular. Esse período marcou a passagem das relações sociais<br />
senhoriais às relações sociais do tipo burguês (D’INCAO, 1997, p. 226). A ascensão do<br />
estilo de vida característico da família burguesa pode ser observada através de D. Maria e<br />
Luisinha, pois as duas personagens na maior parte das vezes são retratadas na alcova do<br />
lar, e sempre que o personagem Leonardo desejava ver a personagem Luisinha se dirigia<br />
ao sobrado de D. Maria e passava horas conversando com esta última, na esperança de<br />
trocar um olhar ou uma palavra com a moça.<br />
Durante o século XIX os casamentos das classes, média e alta, envolviam acordos<br />
políticos, econômicos entre as famílias. Dessa forma, a maior parte dos casamentos era<br />
acertada pelos pais do cônjuge, porém isso não impedia que os jovens enamorados<br />
6
continuassem a encontrar oportunidades para aproximações mais intensas (D’INCAO,<br />
1997). Este fato pode ser analisado através da representação do romance entre Leonardo e<br />
Luisinha, os dois trocavam olhares, ao mesmo tempo em que a personagem comadre 5 toma<br />
a frente à causa dos amores de Leonardo e passa a interceder por ele frente a D. Maria. A<br />
interseção de um padrinho para os jovens enamorados era tão importante que o romance<br />
apresenta um para cada candidato a pretendente de Luisinha, dessa forma o mestre de reza<br />
toma partido na causa de José Manuel.<br />
Através desse romance adentramos na representação sócio-cultural da primeira fase<br />
no Brasil do século XIX, fonte inestimável, para compreendemos como se davam os<br />
acordos amorosos e os enlaces matrimoniais no período.<br />
Em oposição a Luisinha, Vidinha entra no Romance de modo inesperado e revela a<br />
exuberante beleza da mulata carioca.<br />
Vidinha era uma mulatinha de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros<br />
largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos, tinha os olhos muito<br />
pretos e muito vivos, os lábios grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a<br />
fala era um pouco descansada doce e afiada (ALMEIDA, 1963, p. 128).<br />
A beleza de Vidinha despertou o interesse no moço Leonardo, que de imediato o<br />
fez esquecer Luisinha.<br />
[...] passando-lhe rápido pela mente um turbilhão de idéias, admira-se ele<br />
de como é que havia podido inclinar-se por um só instante a Luisinha,<br />
menina sensaborona e esquisita, quando havia no mundo mulheres como<br />
Vidinha (ALMEIDA, 1963, p. 146).<br />
A beleza mulata de Vidinha revela características consideradas comuns a classe<br />
baixa do Rio de Janeiro. Assim o autor revela a dicotomia entre Luisinha e Vidinha, a<br />
diferença entre as personagens fica evidente no momento em que o autor retrata Vidinha<br />
tomada pelo ciúme, pois como o próprio autor destaca, não há nada mais prosaico do que<br />
uma mulher enfurecida (ALMEIDA, 1963, p. 180), pois este se opõe completamente ao<br />
5 Madrinha de Leonardo.<br />
7
perfil da mulher da elite, haja vista que esta tinha que controlar as suas emoções, sem<br />
deixar transparecer os seus sentimentos. Dedicado a um romance realista, com personagens<br />
comuns e a margem da alta sociedade, Almeida narra as formas como se davam as relações<br />
sociais e como os indivíduos e os grupos percebem a si próprios, e aos demais.<br />
O Romance entre Leonardo e Vidinha deixa transparecer que o controle das<br />
aproximações entre os populares fosse mais relaxado, provavelmente porque entre estes<br />
não havia interesses em recursos a serem trocados pelas uniões conjugais. Através da<br />
literatura percebemos que a mulher das classes baixas, ou sem tantos recursos, deteve<br />
maior liberdade ao poder amar pessoas de sua condição social, uma vez que o amor, ou<br />
expressão da sexualidade, caso levasse a uma união, não comprometeria as pressões de<br />
interesses políticos e econômicos, em oposição às mulheres de mais posses, pois talvez<br />
para estas o amor tenha sido mais um alimento da alma do que uma prática física. Para as<br />
mulheres da elite a rígida vigilância era um instrumento fundamental para garantir a<br />
manutenção do sistema de casamento por aliança política e econômica, pois para tais<br />
casamentos a virgindade era um requisito fundamental. Sendo assim, como chama atenção<br />
D’incão, “Independente de ter sido ou não praticada como um valor ético propriamente<br />
dito, a virgindade funcionava como um dispositivo para manter o status da noiva como<br />
objeto sobre o qual se assentaria o sistema de herança de propriedade (D’INCAO, 1997).<br />
Em oposição à vigilância exercida sobre as mulheres da classe media e classe alta,<br />
os romances entre casais das camadas populares poderiam ter início com trocas de olhares,<br />
pisadelas no pé, ou beliscões, como pode ser ilustrado através da representação de como<br />
teve início o romance dos pais do moço Leonardo,<br />
[...] o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o<br />
ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria,<br />
como se já esperasse por quilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo,<br />
e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da<br />
mão esquerda. Era isso uma declaração em forma, segundo os usos da<br />
terra; levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a<br />
mesma cena de pisadela e beliscão, com diferença de serem desta vez um<br />
pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão<br />
extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos (ALMEIDA,<br />
1963, p. 5).<br />
8
Os personagens populares são capazes de namorar e beijar sem que seu<br />
comportamento seja descrito como imoral ou cômico.<br />
Depois da morte do padrinho e dos desentendimentos com o pai, com o qual foi<br />
morar após a triste perda, Leonardo tornou-se agregado na casa de Tomás da Sé, seu<br />
colega nas travessuras de infância. A entrada de Vidinha no romance reforçou o caráter<br />
anti-herói do rapaz. Como agregado o personagem Leonardo reforçou o caráter de refinado<br />
vadio, o que acarretou conseqüências negativas, pois durante o império forjava-se uma<br />
nova cultura, no qual não havia espaço para vadios e malandros, como dissemos<br />
anteriormente, estavam sendo impostos novos hábitos e costumes, a rua e a praça se<br />
opunham a ordem da casa.<br />
A boa sociedade competia ao mundo do governo 6 . Um mundo que não apenas se<br />
via como tendendo a ser naturalmente ordenado, mas também portador da incumbência de<br />
ordenar o conjunto da sociedade. Nesta sociedade em formação não havia espaço para os<br />
desocupados. Desse modo Leonardo veio a sofrer as conseqüências da falta de ocupação,<br />
segundo a descrição do narrador, por malsinação, tornou-se granadeiro do major Vidigal, o<br />
que reforça o imaginário da época, pois ser soldado raso da polícia, durante o império, não<br />
trazia prestígio.<br />
Leonardo enquanto esteve enamorado por Vidinha, não se lembrou mais de<br />
Luisinha, contudo, esta última sofria as desventuras comuns ao casamento burguês, “a vida<br />
de Luisinha, depois de casada, representava com fidelidade a vida do maior número da<br />
moças que então se casavam: era por isso que as Vidinhas não eram raras” (ALMEIDA,<br />
1963, p. 208).<br />
citação,<br />
A representação do casamento burguês pode ser analisada através da seguinte<br />
Depois que havia se mudado da casa de D. Maria, nunca mais Luisinha<br />
vira o ar da rua senão às furtadelas, pelas frestas da rótula: então chorava<br />
ela aquela liberdade de que gozava outrora; aqueles passeios e aquelas<br />
6 Ilmar Mattos (2004) ao analisar a política no século XIX propôs a divisão da sociedade em três mundos, o<br />
mundo do governo, o mundo do trabalho e o mundo da desordem. Ao mundo do governo (sociedade política<br />
por vezes confundiam-se com a boa sociedade) e ao mundo do trabalho perpassava a ordem, em quanto o<br />
mundo da desordem era composta por mestiços, e libertos, que não tinham lugar, nem ocupação, não<br />
pertenciam ao mundo do trabalho e muito menos ao mundo do governo.<br />
9
palestras a porta em noite de luar; aqueles domingos de missa na Sé<br />
(ALMEIDA, 1963, p. 207).<br />
A personagem Luisinha só se viu livre de tamanha infelicidade após a morte<br />
prematura do marido. Mas o romance ainda reserva uma última surpresa, o casal, Leonardo<br />
e Luisinha se “casaram e viveram” felizes para sempre. É no último ato que surgi a terceira<br />
representação de Luisinha, “Leonardo achou Luisinha uma moça espigada 7 , airosa 8<br />
mesmo, os olhos e cabelos pretos, tendo perdido todo aquele acanhamento físico de<br />
outrora” (ALMEIDA, 1963, p. 222). Ainda mais bela, a personagem com a típica beleza<br />
burguesa prevalece, ao final, sobre a mulata Vidinha, cuja beleza é típica das mulheres das<br />
classes baixas.<br />
O final do romance se opõe completamente ao Romantismo, pois neste estilo<br />
literário o herói e a mocinha geralmente têm um fim trágico, pois “as histórias de heroínas<br />
românticas e sentimentos platônicos acabaram alimentando a idealização do<br />
relacionamento amoroso” (D’INCAO, 1997, p. 235), que não se concretizam por contato<br />
físico.<br />
Apesar do estilo Romântico contemporâneo a escrita desse romance, podemos<br />
perceber as especificadas urbanas contidas na escrita por Manuel Antonio de Almeida, pois<br />
este romance revela características presentes na sociedade da época, haja vista que o amor<br />
idealizado pelo Romantismo não existia de fato no dia-a-dia da sociedade. O romance<br />
literário conquistou o público leitor eminentemente feminino. Os romances dos folhetins<br />
eram amplamente consumidos pelas mulheres da elite.<br />
Através das personagens, Luisinha e Vidinha, buscamos ao longo deste texto<br />
analisar a representação feminina no século XIX, representações que nos mostram um<br />
pouco o que é ser mulher no Oitocentos, a partir do olhar masculino. Não podemos deixar<br />
de mencionar e lembrar que é uma produção sobre mulheres, mas escrita por um homem<br />
que fala de um lugar. Mas a literatura abre essa possibilidade de dar uma maior<br />
visibilidade às mulheres, pois ao longo da história inúmeras mulheres não receberam a<br />
devida atenção. Dessa forma é imprescindível compreendermos os comportamentos e o<br />
7 Moça alta, crescida.<br />
8 Esbelta e elegante.<br />
10
imaginário que giram em torno do universo feminino, principalmente sob o auxilio de<br />
novas fontes históricas, como a literatura.<br />
REFERÊNCIAS:<br />
ALENCASTRO, Luiz Felipe de, NOVAIS, Fernando A, SOUZA, Laura de Mello.<br />
História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2005;<br />
ALMEIDA, Manuel Antonio. Memórias de um Sargento de Milícias. Brasília: Editora<br />
Universidade de Brasília, 1963;<br />
_________. Memórias de um Sargento de Milícias. São Paulo: Martin Claret, 2010;<br />
_________. Textos Escolhidos. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1966;<br />
AMORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora. 1 ed. São Paulo: Saraiva, 1997;<br />
CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite imperial; Teatro de<br />
Sombras: a política imperial. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Relume-Damará, 1996<br />
CHARTIER, Roger. A História Cultura: entre praticas e representações. Rio de Janeiro:<br />
Sociedade Brasil, 1990;<br />
DEL PRIORI, Mary. História das Mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997;<br />
D’INCAO, Maria Angela. Mulher e Família Burguesa. IN: DEL PRIORI, Mary. História<br />
das Mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997;<br />
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema. 5 edição, São Paulo: Hucitec, 2004.<br />
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autentica<br />
2003;<br />
SCOTT, Joan. “História das Mulheres”. IN: BURKE, Peter (Org.). A Escrita da História:<br />
novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992;<br />
SOIHET, Raquel. “História das Mulheres”. IN: CARDOSO, Ciro F. VAINFAS, Ronaldo<br />
(Org.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus,<br />
1997.<br />
11