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NEGRA - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

JMU 00 mmo 041 Editor

ÓRGÃO INFORMATIVO DO CONSELHO DE PARTICIPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE NEGRA 00 ESTADO DE SÃO PAULO Ano III n. 0 02 maio de 1988

OSVALDO RIBEIRO

1.° SECRETÁRIO

DE ESTADO NEGRO

pag. 3

MANIFESTO

CONTRA

13 DE MAIO

pag.10

e Diretor Responsável - WALTER ROBERTO BRAGA

CMn tt pKfersi Vnwn

*.

\S MA119B8

jeTOI Dl OOTUMEN T ACAO |

13 DE MAIO:

LIBERDADE?

"Os negros são humanos, não super

humanos. Como qualquer um,

possuem personalidades diversas,

interesses financeiros e aspirações

distintas.

Há negros que jamais lutarão pela

liberdade, há outros que procuram

obter com a luta vantagens pessoais e

há outros que colaborarão com os

opressores, tais fatos não devem ser

motivos de desespero. Todo grupo e

todo povo possui a sua parcela de

covardes, oportunistas e traidores; os

golpes do martelo do racismo e da

pobreza fatalmente tem que perverter

e corromper alguns. Não se pode

esperar que o fato de um povo ser

oprimido, leve todos os cidadãos a

serem virtuosos e dignos.

O importante é que as características

da maioria seja a honra, a decência e

a coragem"

MARTIN LUTER KIISG

ALMINO AFF0NS0

APONTA

DESCRIMINAÇAO

ALUNOS

ls A0EXPütS0S

pag. 7 l>a«.S


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jmtiKaamui | i

comiimúB negra.

EDITORIAL

MÃENEGRA

OU

MÃEBRANCA

por Walter Roberto Braga

Há cem anos atrás, a Princesa Isabel assinou a Lei

Áurea, fato que lança diferentes propostas e signifi-

cados nos dias atuais.

As opiniões derivam em diferentes pensamentos.

Os líderes do I.P. C.N. acham que são três visões: I. ")

Os que querem comemorar o Centenário, pois acredi-

tam no gesto beneplácito da, tida magnânima Prince-

sa; são uns idealistas, com uma postura religiosa.

2. 0 ) Os que são contra as comemorações, pois acham

que a propalada Liberdade não existe, e que a verda-

de está expressa na letra do samba-enredo da Man-

gueira/88: "LIVRE DO AÇOITE DA SENZALA,

PRESOS NA MISÉRIA DA FA VELA; esses consi-

deram a Princesa como uma maliciosa personagem

na encenação de uma grande mentira histórica.

3. 0 ) Os que estão em dúvida e que não se acham em

condições de opinar, que são aliás, a maioria.

Não dão importância à História como forma de en-

tender os problemas de suas vidas. São criaturas que

estão perdidas em um mundo de desinformação e

apatia.

Nós ousamos ir mais longe e achamos que existem

também os omissos, os baderneiros, os submissos, os

revolucionários, e os heróicos militantes da causa em

prol de um mundo melhor para todos os homens.

Particularmente, acredito que tudo não passa sim-

plesmente de cosmorama ou seja, uma forma de vi-

são desse problema como um mundo, pois acima de

tudo, "Haver nascido do ventre de mãe branca, não é

nenhum prêmio; assim como, nascer de mãe negra,

não é um castigo.''

OPINIÃO

^. DEMA/O

«LOCAÇÃO GERAI

Aproxima-se rapidamente

o dia em que a Comunidade

Negra do Estado de São Paulo

realizará uma grande manifes-

tação pública na Praça da Sé-

Capital, contra o racismo e a

discriminação racial em nosso

país.

Acreditamos que a forma

pacífica com que protestare-

mos diante da hipocrisia e da

mentira oficial que sempre sig-

nificou o dia 13 de maio, será

o marco histórico de uma nova

mentalidade que norteará a

postura da sociedade brasileira

em geral, e da Comunidade

Negra em espécie, frente à rea-

lidade da longa caminhada ini-

ciada pelos escravos, na busca

da liberdade, da igualdade e

dos direitos civis plenos, metas

ainda não alcançadas.

Esta manifestação buscará

o apoio de todas as entidades

da Comunidade Negra do Es-

tado, para que enviem suas de-

legações, bem como, de outros

setores da sociedade civil, nos-

sos aliados naturais, como os

sindicatos, a igreja, e outros

movimentos populares, bem

como do poder público consti-

tuído que se identifique com as

grandes causas nacionais.

Acreditamos sinceramente ser

esta forma de denúncia públi-

ca o caminho adequado para

se conscientizar o povo brasi-

leiro de sua postura preconcei-

tuosa e dos inúmeros mecanis-

mos racistas vigentes em nos-

sos dias. Por outro lado, esti-

mulará aos negros uma maior

consciência na busca de suas

organizações comunitárias,

pois, na sociedade moderna

que se vislumbra para a nação,

somente organizações sólidas

gerarão lideranças comprome-

tidas com suas bases, para ob-

tenção de conquistas significa-

tivas e permanentes.

Por estas razões, e por to-

das as outras que certamente

você terá, é que o convocamos

a comparecer no dia 13 de

maio, com sua família e seus

amigos, pois esta luta é de to-

dos os brasileiros que sonham

com uma pátria justa e iguali-

tária.

Neste momento, em que se

escreve a nova Constituição do

país, cabe-nos, descendentes

de escravos, a conquista da le-

gislação que assegure a pleni-

tude de nossos direitos civis,

através da mobilização popu-

lar.

HISTÓRIA NÃO SE INVENTA

O Brasil está vivendo o ano

do centenário da Abolição da

Escravatura — 1888/1988. Os

movimentos para a comemo-

ração da data estão sendo ati-

vados no sentido de levar

avante a compreensão do pro-

cesso que culminou com a li-

bertação do trabalho escravo é

de suma importância o sentido

que se vai dar a tudo isto.

É preciso que a mensagem

seja compreendida não só pela

classe dirigente mas abraçada

por todos nós porque a luta

pela liberdade não terminou

no 13 de maio.

Esta página da história tem

que ser passada a limpo.

Algumas entidades negras

não aceitam "festejar" a data,

alegando que o negro ainda

não se libertou. Questionam

com o argumento que a Prin-

cesa Isabel não assinou a Lei

por ser magnânima, bondosa,

procuram lembrar que ela era

representante máxima da bur-

guesia e que na realidade fo-

ram as pressões econômicas

que a levará a assinar a Lei.

Chegou-se mesmo a pro-

por que se substitua o 13 de

maio pelo dia 20 de novembro,

data em que se pretende seja a

única reservada para demons-

trar o Movimento da Cons-

ciência Negra, evocando a

grande figura de Zumbi.

Durante toda a minha vida

de militância aprendi dos mais

antigos respeitar as tradições e

os feitos do nossos antepassa-

dos, sem tirar uma vírgula se-

quer. Não podemos colocar

em dúvida as lutas, os sa-

crifícios, os anseios e as lágri-

mas dos heróicos abolicionis-

tas.

Não queremos jogar no li-

xo tudo o que eles fizeram mas

temos que nos curvar diante

destes fatos; antes mesmo que

os abolicionistas tivessem en-

trado em ação, sabe-se que

através de inúmeros levantes a

liberdade vinha sendo feita pe-

los próprios negros cativos,

muitos a partir da compra da

sua própria alforria, outros,

pela experiência adquirida

com a participação na Guerra

do Paraguai.

Não vejo como abrir mão

das comemorações. Não dese-

jamos que o 13 de maio seja

uma festa, mas que represente

para todo o povo brasileiro

um dia de reflexão a respeito

de preconceitos e racismos.

Não faltarão críticas de

pessoas ou grupos que se ne-

gam a participar, ninguém está

obrigado a isto, estamos vi-

vendo época em que se preten-

de demonstrar evolução no

processo democrático, porque

somente à luz deste regime é

que se poderá conseguir che-

gar a destruição dos privilégios

de elites, acabar com os donos

da verdade.

Temos para mim que a

proposta que está sendo me-

lhor aceita é a da Reflexão e

tenho que reflexão e

integração representam me-

lhor o momento, pois todas as

correntes são unânimes num

ponto: o negro ainda não está

integrado na sociedade brasi-

leira como um todo e na sua

plenitude.

A meu ver e sem pretender

impor coisa alguma penso que

a melhor forma não seria a de

protesto. Protestar contra o

que? contra a sociedade? con-

tra o governo? contra os bran-

cos? Não acredito em nada

disto, acredito que a resposta

seria: protestar contra o pre-

conceito e contra o racismo, a

favor da integração, da refle-

xão e do desarmamento dos

espíritos em busca da verdade

e da justiça.

Em suma: para que a tua

luz brilhe não è necessário

apagar a luz do seu semelhan-

te, estabeleço com este ditado

chinês a seguinte analogia: pa-

ra que a luz do grande Zumbi

brilhe, não é necessário apagar

a luz dos abolicionistas.

Devemos comemorar com

grande ênfase as grandes da-

tas. O dia 13 de maio, o dia 20

de novembro, pois as duas da-

tas convergem para um só

ponto: a Liberdade, tendo os

abolicionistas como reflexão,

tendo Zumbi como bandeira.

Queiram ou não a data está

na memória do povo, nas lem-

branças dos escritos doa aboli-

cionistas, nos nomes gravados

nas escolas públicas. Como

apagar tudo isto, quando os

povos do mundo todo defen-

dem com unhas e dentes o seu

patrimônio, a sua história?

Rui Barbosa quando man-

dou queimar os documentos

referentes a escravidão, não só

foi para tentar esconder as

provas do crime que se come-

teu contra o negro, registros

estes, que hoje se sabe, podem

ser encontrados em outras

fontes originais, nos depoi-

mentos e relatos de viajantes

que por aqui estiveram e mais

ainda nos livros que tratam do

estudo da economia do pais

durante o período colonial, o

fez também para possibilitar a

sonegação dos impostos devi-

dos à nação e mais ainda, para

não assumir o compromisso de

proceder a indenização que

aos negros era devida pelos

trabalhos prestados.

A história não se inventa.

Ela por si só se retrata.

FRANCISCO LUCRECIO

Conselheiro, Ex-Dirirente da

Frente Negra Brasileira, extinta

para o Estado Novo em 1937.

CONSELHO DE PARTICIPAÇÃO E

DESENVOLVIMENTO DA

COMUNIDADE NEGRA

Rua Antônio de Godoy 122

7." e 9.° andares

Fones 223-8477/8674

COMISSÃO EXECUTIVA

PRESIDENTE

Eduardo Joaquim de Oliveira

VICE-PRESIDENTE

Ivair Augusto Alves dos Santos

SECRETÁRIO GERAL

José Roberto Militào Ferreira

I. 0 SECRETARIO

Neusa Maria Pereira Lima

1." TESOUREIRO

Dr. Francisco Lucrécio

2.° TESOUREIRO

Tereza Santos

VOCAL

Vilma Lúcia de Oliveira

CONSELHO PLENO

Aluisio Rodrigues da Silva

Alberto Ferreira

Antônio Roberto de Carvalho Cruz

Antônio Leite

Arnaldo Mathias Seraphim

Ademar Ferreira da Silva

Benedito Cintra

Carmen Lúcia dos Santos

Claudinei Correia Alves

Dejair Martins

Eduardo Joaquim de Oliveira

Eunice Rodrigues Barbosa

Eduardo de Oliveira

Francisco Lucrécio

Hugo Ferreira da Silva

Uma de Fátima de Jesus

José Carlos de Oliveira

José Roberto Militão Ferreira

José Carlos de Oliveira

Jurandir Nogueira

Jurandir Roque Carlos Bitencourt

Milton Santos

Maria Aparecida Bento Teixeira

Neusa Maria Pereira Lima

Oscarlino Marcai

Osmar César Carvalho

Raquel de Oliveira

Ronaldo Simões

Sônia Aparecida de Oliveira

Teresa Santos

Vilma Lúcia de Oliveira

Ivair Augusto Alves dos Santos

muwmmiui i i

mmime negra

EDITOR E

DIRETOR RESPONSÁVEL

Walter Roberto Braga

ASSISTENTE DE DIRETORIA

Maria Estevo

ILUSTRAÇÃO

Rubens Lúcio dos Santos

CIRCULAÇÃO

Maria Antonieta F.B. Ferreira

DISTRIBUIÇÃO

César Ângelo Fernandes

FOTOGRAFIA

Studio 99

SECRETARIA GRAFICA

Doralice Samuel

COLABORADORES

José Roberto Militào Ferreira

Jurandir Nogueira

Neusa Maria Pereira Lima

Ronaldo Simões

Teresa Santos

Ivair Augusto Alves dos Santos

Antônio Roberto de Carvalho Cruz

Antônio Leite

Osmar César Carvalho

$

PROJETO GRAFICO, COMPOSIÇÃO

FOTOLITOS E IMPRESSÃO

IMPRENSA OnOAL

DO ESTADO SAIMESP

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C.O.C. (M.F.) N.° 4Í .0M.04?/0OO1 -8<

GOVERNO


OSVALDO RIBEIRO

.mmáaoe nem

1? SECRETÁRIO DE ESTADO NEGRO

Peter Pan, segundo o

seu autor, Jeymis Matthew

Barril, era um menino que

não tinha família, que vivia

entre as fadas no parque de

Kingstone, em Londres.

Se por um lado ele sen-

tia a necessidade de não in-

gressar na vida adulta per-

manecendo eternamente

criança, freqüentemente

partia para a "Terra do

Nunca", a famosa Chan-

Gri-Lá, onde desfrutava da

companhia de seres mágicos

vivendo em eterna fantasia.

Certamente que isso não

se aplica às histórias de vida

da maioria das nossas crian-

ças aqui no Brasil. Aliás se-

gundo recente dado forneci-

do pela OMS (Organização

Mundial de Saúde) morrem

por dia no Brasil cerca de

mil crianças.

Claro está que o maior

número delas é constituído

por elementos da raça ne-

gra, e quando essas crianças

conseguem driblar a fome,

a miséria e a morte o seu

destino nem sempre é glo-

rioso.

Mas esta é a história

de um menino pobre, de

família humilde, oriundo

do interior, e negro , que

Um dos mais dinâmicos líderes sindicais dos últimos anos,

Osvaldo Ribeiro, relembra animadamente a sua trajetória

de engraxate, quando era crianla, a Secretário de Estado.

pode muito bem

servir de espelho

para outros meni-

nos, nas mesmas

condições que as

suas e até de glo-

riosa redenção de

uma raça que vi-

veu sob o cruel

estigma da escra-

vidão.

De uma fa-

mília de 7 irmãos,

4 mulheres e 3

homens, veio o

menino Osvaldo

Ribeiro. Corria

meados de 1940 e

o mundo conhecia

os horrores da 2. a

Guerra Mundial e

o Brasil estava sob

o regime ditatorial

de Getúlio Vargas.

O seu pai, funcionário

da Empresa de Correios e

Telégrafos na cidade de

Caldas em Minas Gerais,

não gozava de boa saúde o

que acabou fazendo com

que ele e a família toda vies-

sem para São Paulo, indo

morar no bairro de Planalto

Paulista, nos arredores do

Centro.

Nesse ponto a história

de Osvaldo Ribeiro asse-

melha-se a uma infinidade

de outros garotos negros

como ele que passaram a

sua infância em bairros pe-

riféricos.

Foi engraxate, foi uma

criança muito peralta e não

muito apegada aos estudos

durante o primário, o que

lhe acabou valendo ter de

seguir seus estudos em regi-

me de semi-internato na Es-

cola São Judas Tadeu, onde

acabou adquirindo conheci-

mentos didáticos e forma-

ção profissional de marce-

naria, música e artesanato.

Os estudos naquele colé-

gio eram ministrados por

padres alemães e ele perma-

neceu ali até 17 anos de ida-

de.

Assimilou parte da cul-

tura alemã, principalmente

ao que diz respeito à rígida

disciplina de um perfeccio-

nista, e foi ainda através

dos padres que acabou cur-

sando o ginásio e travando

conhecimento com forma-

ção e liderança política.

A vida colocou-o de

frente com um emprego na

Empresa de Aviação Aérea

ti

A educação neste país

deveria passar

por uma reciclagem

e uma remodelação

para que nossas crianças

tivessem orgulho

e não vergonha

desernegras.

fl

VASP, na ocasião como

ajudante de almoxarifado.

Seus estudos permitiram-

lhe ascender na empresa

quando então fez o curso de

Despachante Operacional

de Vôo, em seguida

formou-se professor de na-

vegação aérea, metereoro-

logia e aerodinâmica.

Durante muitos anos le-

cionou no Senai para pilo-

tos privados de linha aérea

comercial.

Transferiu-se após 1970

para a VARIG, onde per-

maneceu por mais de 10

anos na função de despa-

chante de vôo até o final do

ano de 1984, quando foi li-

cenciado para assumir a

presidência do Sindicato

dos Aeroviários.

Do ano de

1970 até os dias

atuais a trajetória

da vida de Osval-

do Ribeiro foi

uma sucessão de

eventos sindica-

listas e políticos

que lhe granjea-

ram notabilidade

entre os seus pa-

res e reconheci-

mento a nível na-

cional das classes

trabalhadoras em

empresas aéreas.

Suas ativida-

des acabaram

derivando-se

também para a

militância dos

movimentos ne-

gros e é ele quem

cita de passagem

um episódio de-

terminante acerca da parti-

cipação do negro nas com-

panhias de navegação aé-

rea: "Da amizade que nas-

ceu de um encontro entre eu

e o Esmeraldo Tarquinio

foi criada a possibilidade do

ingresso e aproveitamento

de cerca de mil negros nas

companhias aéreas de São

Paulo."

Sua dinâmica acabou

valendo-lhe a presidência

da C.G.T. e como tal

lembra-se com ufanismo

quando num 1.° de maio

conseguiu reunir mais de 80

mil trabalhadores na Praça

da Sé.

Candidatou-se ao Sena-

do e hoje é suplente do Se-

nador Fernando Henrique

Cardoso.

Amigo pessoal de Ores-

tes Quércia, a quem conhe-

ce desde a oc, "'ão em que o

atual governador fazia sua

campanha para o Senado

pelo PMDB. Ainda devido

ás suas. inúmeras atividades.

Osvaldo acabou sendo con-

vidado e nomeado para as-

sumir a Secretaria de As-

suntos Fundiários,

consagrando-se como oi. 0

negro na história de São

Paulo a ocupar uma Secre-

taria de Estado.

Esse fato ocorreu em

meados do ano de 1987 e a

15 de outubro daquele mes-

mo ano deixou o SEAF,

sendo nomeado e empossa-

do na Secretaria Especial de

Relações Sociais.

Atualmente, além de Se-

cretário é Vice-Presidente

da Federação Nacional dos

Trabalhadores em Trans-

portes Aéreos, Marítimos e

Fluviais, ocupa cargo no

Diretório Nacional do

PMDB e é Conselheiro no

Instituto de Cultura Latino-

Americana. Participou da

fundação e consolidação do

Conselho da Comunidade

Negra, do qual é membro.

Está empenhado na rea-

lização da "CAMINHADA

DE LUTA E REFLEXÃO"

juntamente com seu compa-

nheiro Eduardo Joaquim de

Oliveira, Presidente do

Conselho da Comunidade

Negra.

Osvaldo Ribeiro acha

que a coragem de Orestes

Quércia em nomeá-lo 1.°

Secretário de Estado Negro

no Estado de São Paulo, em

500 anos, significa o primei-

ro passo para o resgate da

dignidade do negro perante

o universo social e político

de nosso país.

Sua opinião é que a edu-

cação neste país deveria

passar por uma reciclagem e

uma remodelação para que

nossas crianças tivessem or-

gulho e não vergonha de se-

rem negras.

Tais fatos justificam

plenamente a razão pela

qual Osvaldo Ribeiro é o

anti-Peter Pan.


cmamàús negra.

EDUCAÇÃO

EDUCAÇÃO: ALGUÉM FALA POR NÓS

"O menino cresceu entre a

ronda e a cana

Correndo nos becos que nem

ratazana.

Entre a punga e o afano

Entre a carta e a ficha

Subindo em pedreira que nem

lagartixa.

(...) ídolo de poeira, marafo

e farelo

Um Deus de bermuda e pé-

de-chinelo

Imperador dos morros,

reizinho nagô

O corpo fechado por

babalaôs."

João Bosco — Aldir Blanc

A educação é como a ver-

dade, está em toda parte e em

nenhuma. Aprende-se a viver

numa sociedade através dos

conhecimentos que herdamos,

dos valores que a sociedade

considera necessários para sua

sobrevivência. Os índios Ya-

nomani, os senufos na África,

um camponês da Europa do

século XVI, todos possuem

uma cultura e a transmitem

aos seus membros. As socieda-

des são, portanto, dinâmicas:

ao mesmo tempo que desco-

brem novas técnicas conser-

vam outras com as quais edu-

cam seus novos membros. E

há educação em toda parte, do

velho índio que ensina o jovem

a fazer seu primeiro arco, do

senufo que sai para a floresta

para sua primeira caçada, ou

do camponês que aprende a es-

tação certa para o plantio. As

sociedades humanas somente

existem porque há um elo co-

mum: a educação. Através de-

la, transmite-se conhecimentos

de uma geração a outra, suas

técnicas, seus valores, suas re-

lações de parentesco, sua reli-

gião.

Em todas estas sociedades,

a educação é feita por toda a

tribo, clã ou grupo, ou então

por indivíduos com autoridade

reconhecida, como os feiticei-

ros. Nas sociedades modernas a

educação possui uma institui-

ção que é responsável pela

transmissão da cultura: a esco-

la. Caberá à escola introduzir

os jovens na cultura,

ensinando-lhes, primeiramen-

te, as regras da língua, sua es-

trutura e funcionamento, ou

seja, alfabetizando-os, e de-

pois transmitindo-lhes outros

conhecimentos científicos.

A educação, ao sair da so-

ciedade e ser confiada à "esco-

la", sofre uma alteração pro-

funda. Ao assumir a tarefa de

educar, a escola determina que

o controle das informações de-

ve ficar sob a responsabilidade

de profissionais de educação:

professores, supervisores, di-

retores de escola. Monta-se to-

da uma estrutura cujo objetivo

é controlar e determinar o que

deve, e o que não deve ser co-

Garantir a escolaridade da criança negra é lutar

para que a escola respeite as diferenças étnicas

e culturais dos seus alunos. Este é um dos objetivos do

Grupo de Trabalho para Assuntos Afro-Brasileiros —

GTAAB, da Secretaria da Educação.

nhecído pelos novos membros

da sociedade.

Mas a educação, apesar de

estar confiada á "escola",

continua a existir na vida so-

cial, estando presente na tele-

visão, cinema, rádio e jornal.

As informações hoje dis-

poníveis são muito maiores

que em qualquer outro perío-

do da História. Assim, não é

preciso bater na porta para se

entrar na cultura da sociedade

moderna, ela penetra em todas

as casas sob a forma de nove-

las, filmes, músicas, discursos,

reportagens. A escola, porém,

cumpre um papel central, é ela

que sistematiza estes conheci-

mentos, concedendo diplo-

mas, consagrando os in-

divíduos que estão aptos a

ocupar os postos importantes

na sociedade.

É aqui que está outro pro-

blema. Sendo as sociedades

modernas divididas socialmen-

te, a educação é considerada a

oportunidade que as classes

subalternas possuem de ascen-

der socialmente. Acredita-se

que uma pessoa que tenha fre-

qüentado uma escola e obtido

um diploma terá maiores

oportunidades de trabalho e,

por conseqüência, melhores

salários. Após 1964, a educa-

ção foi encarada como a gran-

de oportunidade de formar

técnicos para o mercado de

trabalho, tornando a educação

um instrumento do "desenvol-

vimento nacional", prometen-

do ser, ao mesmo tempo, a

grande oportunidade demo-

crática de igualdade social e

possibilidade de ascensão. A

escola então se massificou,

multiplicou-se o número de es-

colas de todos os níveis, os

alunos se voltaram para os

cursos de grande apelo no

mercado de trabalho. Porém,

na realidade, o mercado de

trabalho não estava assim tão

receptivo.

Pouco a pouco, os planos

mirabolantes mostravam sua

face verdadeira e a "educação

tecnícista" do Brasil 2000 caía

na sua dura realidade. A "i-

deologia dominante", não

conseguindo decolar do mun-

do das idéias, capotou no de-

semprego, bateu na recessão e

vitimou a concepção de igual-

dade através da educação.

Isto prova que, sem a par-

ticipação da comunidade na

definição de suas necessidades

e interesses junto ás escolas e

aos "profissionais" envolvi-

dos na tarefa de educar, a es-

cola não atingirá seus objeti-

vos de formar pessoas perfei-

tas para a vida social, e ser o

veículo de superação das desi-

gualdades sociais. Apesar das

dificuldades sociais do Brasil,

a educação é o meio mais efi-

ciente para melhoria das con-

dições de vida, e as mudanças

para que ela atenda cada vez

mais aos interesses da socieda-

de depende da participação da

comunidade na definição de

suas necessidades e interesses

junto às escolas e aos "profis-

sionais" envolvidos na tarefa

de ensinar.

0 GRUPO DE TRABALHO PARA

ASSUNTOS AFRO- BRASILEIROS

Criado junto à Secretaria

da Educação do Estado de

São Paulo, por iniciativa do

Conselho da Comunidade

Negra, o GTAAB tem como

objetivo garantir a educação

e a escolaridade das crianças

negras, lutando contra a eva-

são escolar e a repetência. A

educação é a grande oportu-

nidade da comunidade negra

emancipar-se. Sendo neces-

sário garantir que nossas

crianças não sofram discri-

minação ou preconceito ra-

ciais através de livros didáti-

cos, da falta de informação

da história do negro, ou sim-

plesmente pelo preconceito

de professores.

O GTAAB já desenvol-

veu vários trabalhos junto á

rede estadual de ensino, prin-

cipalmente por ocasião do 13

de maio, considerado pela

Secretaria da Educação "Dia

de debate e denúncia contra

o racismo". Através de ma-

terial elaborado para desmis-

ti ficar a data e proporcionar

a consciência da situação do

negro na nossa sociedade,

grande número de professo-

res e alunos tomou conheci-

mento e pôde refletir sobre a

questão racial no nosso País,

e a situação do aluno negro

na sala de aula.

O GTAAB é o instrumen-

to da comunidade negra para

apresentar suas propostas

para a educação e defendê-

las junto á sociedade. A edu-

cação é vital para a comuni-.

dade negra, e através dela é

possível buscar soluções para

problemas como o do menor

abandonado, do desemprego

e subemprego em que vivem

muitos negros.

A educação, abrindo as

portas do mundo da cultura

para as novas gerações, está

colaborando na luta contra o

preconceito e a discrimina-

ção raciais. Incentivando

nossas crianças a estudar, es-

tamos ajudando-as a enten-

der a realidade que nos cerca,

e a herdar nossa cultura.

Há antropólogos que

afirmam que uma cultura

morre quando morre o últi-

mo de seus membros. Outros

afirmam que uma cultura so-

brevive nos restos de

utensílios, de fogueiras e pin-

turas em cavernas ou ruínas.

Transmitir para nossas

crianças, através da educa-

ção, os costumes e valores da

cultura, e, em particular, da

cultura negra, é fazê-las her-

deiras de uma cultura que ja-

mais morrerá.

'... Vou jogar nesses três que nem ele morreu:

num jogo cercado pelos sete lados."

LIVRARIA ESPECIALIZADA NO NEGRO

Apesar de representar

mais da metade da popula-

ção brasileira, a produção

editorial do Negro e sobre o

Negro não encontra locais de

destaque no nosso mercado

livreiro. Além da baixa dis-

ponibilidade de títulos nas li-

vrarias, os vendedores não

estão preparados para orien-

tar o leitor no que se refere a

livros que reflitam a expe-

riência do segmento Negro

no Brasil e no mundo.

Somente recentemente —

a partir de setembro de 1986

— essa lacuna começou a ser

preenchida com o surgimeri-

to da Editora e Livraria

Eboh, em São Paulo (Rua

Conselheiro Ramalho, 688

— Bela Vista, CEP 01325, te-

lefone (011) 289-6086).

A localização da livraria

no bairro do Bexiga não é

por acaso. O bairro se situa

onde existiu no século passa-

do o Quilombo de Saracura,

um quilombo semi-urbano,

para onde se dirigiam os ne-

gros libertos e alforriados,

seus únicos moradores até o

início da imigração italiana.

O Bexiga foi sede de jor-

nais da Imprensa Negra tais

como o "Clarim da Alvora-

da", de José Correia Leite e

Jaime de Aguiar, a partir da

década de 20. Lá está tam-

bém a Escola de Samba Vai-

Vai, uma das mais queridas

de São Paulo. E hoje o Bexi-

ga é o mais famoso bairro

boêmio da paulicéia.

A Livraria Eboh, segun-

do seus sócios, é um projeto

independente, que surgiu da

reflexão que vinha sendo efe-

tuada sobre o que está acon-

tecendo com a cultura negra

no Brasil. "É necessário que

se promova uma reciclagem

na reflexão sobre a experiên-

cia histórica, social e cultural

do segmento negro, e isso de-

verá envolver todos os seg-

mentos raciais e sociais do

Brasil."

Funcionando todos os

dias das 10 às 21 horas, a

Eboh coloca à disposição de

todos mais de mil títulos de

obras das mais diversas áreas

de conhecimento: história,

sociologia, religião, música,

literatura infantil, esporte.

culinária, romance, poesia,

contos, literatura africana

etc. São obras mostrando

tanto a produção do negro,

enquanto autor, quanto te-

ma.

Passear pelas prateleiras

da Eboh significa descobrir a

rica contribuição do negro

para a formação cultural, so-

cial, econômica e histórica

do Brasil.

Para viabilizar o projeto,

seus sócios Izidorio Teles de

Souza, físico. Mareio Dama-

zio, sociólogo, Souza Lopes,

advogado mergulharam du-

rante meses numa pesquisa

íbibliogràfica junto às edito-

ras, universidades e centros

de pesquisas, catalogando os

livros existentes no'mercado,

que tinham o negro como te-

ma e autor. Entraram em

contato também com os au-

tores independentes, visando

reunir a produção existente

em poesia, conto e romance e

o resultado é hoje uma livra-

ria que conta com quase mil e

quinhentos títulos, em todas

as áreas do conhecimento.

muitas das quais não dis-

poníveis em outras livrarias.

Para os sócios da Eboh é

de importância fundamental

que se estimule junto às dife-

rentes organizações da socie-

dade civil (sindicatos, asso-

ciações de bairro, grupos cul-

turais, APM etc.) a criação

de bibliotecas, a fim de am-

pliar o conhecimento em tor-

no da experiência do negro

no País. Essas bibliotecas,

além de fazer com que o livro

cumpra um papel social,

transpõem um problema cru-

cial nos dias de hoje que é o

preço dos mesmos e que tem

tornado o livro um artigo de

luxo, somente acessível 'a

uma minoria previlegiada.

Fazer uma visita à Eboh é

uma experiência ines-

quecível, é a descoberta de

um novo mundo. Ali se en-

contra, ao nosso alcance, a

história da resistência negra

através da luta dos quilom-

bos e sua continuidade com a

imprensa negra e demais for-

mas de organização, inter-

venção e luta em busca ,de

uma vida digna e justa.


REGISTRO MANIFESTO

MiminàúB negra

INTELECTUAL E DISCRIMINADO S.O.S. RACISMO

Celso Prudente é antes de

mais nada um intelectual. Pro-

fessor universitário, cineasta e

representante docente no Con-

selho de Pós-Graduação do

Instituto Metodista de Ensino

Superior.

Mas Celso é negro e como

tal conheceu o amargo sabor

da agressão e discriminação.

Nem é pelo fato de que esse

nosso companheiro seja um

intelectual mas, também, por

esse fato.

Celso se encontrava a ser-

viço na cidade de Itanhaém,

no litoral de São Paulo, traba-

lhando na realização de um fil-

me.

Vésperas do Natal do ano

que se foi, na companhia de

um colega de trabalho, ele pre-

tendeu voltar para São Paulo a

fim de comemorarem as festas

natalinas no seio de suas

famílias. Para tanto comprou

uma passagem de ônibus na

Companhia Breda Turismo.

No horário da saída do

ônibus. Celso verificou que a

poltrona numerada que lhe fo-

ra vendida estava ocupada por

outro cidadão.

Dirigiu-se ao motorista a

fim de esclarecer o fato, e isso

foi o bastante para que ele e

demais passageiros se insurgis-

sem contra, taxando-o de "ne-

gro arruaceiro". Ato

contínuo, a polícia foi chama-

da e arrastado á força e colo-

cado em um "camburão" e le-

vado à presença de um delega-

do de Polícia. Na delegacia,

diante dos protestos de Celso,

a autoridade policial lavrou

um boletim de ocorrência em

que ele figurava como indicia-

do, ou seja, como se de fato

fosse um arruaceiro.

Depois de muitas horas de-

tido na Delegacia de Polícia,

ele foi liberado, mas carregan-

do a enorme dor que tal humi-

lhação provoca.

Celso entrou em contato

com o Conselho da Comuni-

dade Negra, através do seu

Presidente, Eduardo Joaquim

de Oliveira, e também com a

Secretaria das Relações So-

ciais, na pessoa do Sr. Secretá-

rio Osvaldo Ribeiro, que acio-

naram a imprensa, entraram

em contato com o Secretário

da Segurança e outras provi-

dências no sentido de coibir

tais atos. O Sindicato dos Tra-

balhadores na Indústria Cine-

matográfica de São Paulo, en-

tidade á qual Celso é filiado,

tornou público uma "Nota de

Repúdio" referente ao ocorri-

do e nela o seu Presidente, An-

tônio Ferreira de Sousa, lem-

bra a Lei Afonso Arinos e pe-

de punições aos agressores e

discriminadores.

ALUNOS RACISTAS SÃO EXPULSOS

Diretor de escola expulsa alunos por não quererem

assistir a aulas com professora negra

Durante muito tempo, o

sonho de toda menininha era o

de ser professora. Foi durante

muito tempo mesmo. Hoje

não é bem assim, pois o sonho

de muitas menininhas é ser

"XUXA" ou então "MARA

PORRETA" etc, mas naque-

le tempo, que não vai tão lon-

ge assim, uma garotinha so-

nhava ser professora e tudo

fez para consegui-lo, até ver

tornada realidade o seu sonho.

Eliane Leite é professora

de matemática, leciona em um

colégio da Zona Norte da Ca-

pital.

Até aí tudo bem.

O sonho começa a virar pe-

sadelo daí por diante, quando

ela começa a sentir resistência

à disciplina por parte de al-

guns alunos.

Esforça-se por descobrir

qual era o problema e depois

de muita lágrima a revelação

veio, chocante: Racismo!

No seu sonho de cinderela,

Eliane esqueceu apenas do

detalhe de ser NEGRA.

Ela se confessa estarrecida,

pois o colégio onde leciona es-

tá situado em uma região onde

se concentra uma significativa

parecela da comunidade ne-

gra.

E ainda mais, que cerca de

70% de seus alunos são da ra-

ça negra ou descendentes.

O grupinho racista, com-

posto de aproximadamente 10

alunos, foi chamado à direto-

ria e advertido.

Mas isso apenas insuflou

os ânimos deles contra a pro-

fessora e levou-os a hostilizá-

la e ofendê-la moralmente

chamando-a de "preta vaga-

bunda". .

Essa cena foi assistida por

todos os alunos da classe.

A direção da escola infor-

mada a respeito de mais esse

episódio, não teve dúvidas, ex-

pulsou os indisciplinados.

Em seguida expediu uma

declaração, onde enfatiza que

"A falta de cultura leva o ser

humano ao mais vil sentimen-

to de casta e privilégio, fato

que se cristaliza no comporta-

mento de grande parte da so-

ciedade, conduzindo-o a um

elitismo de aparência e vaida-

de". Mais adiante o mantenedor

do colégio, o Sr. Celso de Oli-

veira Andrade afirma que

"declaro ser o preconceito ra-

cial uma postura inaceitável,

tanto da parte discente quanto

da parte docente, pois quere-

mos formar homens e não re-

flexos obscuros de uma socie-

dade retrógrada e isenta de

maturidade.

Eliane recebeu todo cari-

nho e apoio da direção do co-

légio e de seus colegas profes-

sores, mas, mesmo assim, afir-

ma que "dos espinhos de seu

ofício serem esses os mais do-

lorosos".

JUSTIÇA OU

PENA DE MORTE

PARA MEU FILHO

Quando em 1981 era Mi-

nistro da Justiça o Sr. Ibrain

Abi Akel, o Sr. Sebastião José

da Silva, ex-campeão brasilei-

ro de box, escreveu uma pun-

gente e patética carta àquele

ministro narrando o seu dra-

ma e o de seu filho. Nessa car-

ta ele pede ao ministro que

aplique pena de morte para

seu filho e para todos aqueles

que estão presos e amontoados

dentro dos presídios. A solici-

tação vem carregada de uma

forte dose emocional em que

fica delineada toda a revolta

contida nessa missiva que no

fundo tinha por objetivo con-

seguir a liberdade do jovem

Ricardo, que hoje está com 29

anos de idade e que ainda se

encontra nas mesmíssimas

condições, e seu pai tentando

uma fórmula para libertá-lo,

sem nada conseguir.

Explica Sebastião que seu

filho foi preso por ter sido

criado sem mãe e por andar

em más companhias o que cul-

minou com uma prisão em fla-

grante certo dia quando ele

furtava gasolina de um carro

na rua.

A a partir dai, foram im-

pingidos a Ricardo outros in-

quéritos, dos mais variados,

desde assalto até estupro.

Ele, Sebastião, juntamente

com advogados, lutou inutil-

mente para provar que esses

outros crimes foram forjados

contra seu filho, sem nada

conseguir.

A revolta de Ricardo era

grande, e ele só foi solto após

3 anos.

Envergonhado e carregan-

do a pecha de ex-presidiário,

ele tentava encontrar, empre-

go, quando foi novamente de-

tido e levado á delegacia onde

se constatou que estava conde-

nado á revelia por um dos tais

processos fraudulentos. Vol-

tou para a prisão. E continua

o seu drama. Agora, Sebastião

se dá conta de que a semente

da violência se instalou na

mente de seu filho e que me-

lhor de tudo isso é que se aca-

be com o sofrimento do rapaz

aplicando-lhe a "pena de mor-

te".

Durante toda sua explana-

ção ao Ministro da Justiça na-

quela época. Sebastião alegava

que o que estava acontecendo

nada mais era que resquícios

da terrível época da escravi-

dão, quando se impunha ao

negro qualquer tipo de castigo

com o propósito de aniquilá-lo

para a vida e a sociedade.

Hoje, cansado e sem con-

seguir êxito em suas reivindi-

cações, ele torna a apelar para

as autoridades:

"Depois do que fizeram

com meu filho, o melhor é que

os senhores o matem".

Com sede própria na Av. Mem de Sá n. ° 208,

no Rio de Janeiro, e sendo uma entidade

de utilidade pública o Í.P.C.N.

lança um alerta e faz convite

ao negro de modo geral para que participe de um

grande movimento de conscientização.

Violeta, anil, azul, verde,

amarela, laranja e vermelha são as

sete cores que compõem nosso

universo cromático, juntas elas

nos trazem o brilho do sol.

Preto, branco, amarelo, bai-

xo, gordo, japonês, zulu, can-

domblezista, motorista, canhoto,

e tudo o mais, são expressões físi-

cas,, culturais, religiosas, sociais,

econômicas, sexuais e territoriais

dessa gente que forma a nossa so-

ciedade, a eliminação ou discrimi-

nação de quem quer que seja, apa-

ga um pouco o brilho de vida que

recebemos quando nascemos.

Se você participa desta opi-

nião, e comunga com a idéia de

encarar de frente as discrimina-

ções em nosso país, chegue-se a

nós.

Vamos caminhar juntos no

resgate da verdadeira identidade

cultural de nosso país.

A cor de sua pele, seu sexo,

sua profissão, sua diferença/de-

feito físico; ser assaltado, conse-

guir emprego, ser garção, arranjar

táxi, freqüentar na geral a torcida

do seu clube, ser garota-

propaganda, andar de metrô, ter

seus filhos de volta da escola, re-

ceber beijos de seus parentes ou

dos parentes de quem você gosta

podem significar vantagens ou

desvantagens.

Sua expressão de nascença ou

opção de vida podem ao mesmo

tempo significar as chaves do pa-

raíso, ou as trancas dos portais do

inferno. Tudo depende de que vo-

cê saiba com quem está falando.

Vivemos com a ameaça de ser-

mos considerados cidadãos de se-

gunda classe. O anjo discrimina-

dor pode estar vivendo ao seu la-

do, pode estar vivendo dentro de

você.

Vivemos com você este drama

em segredo enquanto nossas cida-

des explodem. Nossas crianças

saem para as ruas e morremos de

medo de não retornarem, vítimas

de alguma forma de discrimina-

ção.

Podemos ter formas diferentes

de manifestar nossos medos, ou

de encararmos a questão, mas

nosso medo é o mesmo.

— "Pai, ai ficamos nos olhan-

do, ali sem saber o que fazer, e

corremos um para cada lado, fica-

ram com tanto medo quanto eu,

não compreendendo."

— "É, eles sabem ganhar di-

nheiro como ninguém..."

— "Acho que naquela escola

não aceitam nossas crianças."

— "Você viu o listão do vesti-

bular, eles são muito inteligen-

tes".

— "Não fosse o pessoal do

banco, o "camburão" me arrasta-

ria."

— "É, foi aquela tensão toda

viagem no táxi, não trocamos pa-

lavras, além do necessário, ainda

bem que estou em casa.''

— "Ficamos mudos, cada

qual desceu no seu ponto sem

olhar para os lados, o constrangi-

mento era geral."

— "Não deu para empregar

quem você mandou, eu também

não avisei, tudo bem."

Nossas crianças, as pessoas,

nossa gente vive repetindo diálo-

gos como estes porque nós ainda

não encaramos de frente os confli-

tos gerados pelo preconceito.

Nossas crianças estão repetin-

do nossos preconceitos, só que as

cidades cresceram e os conflitos

estão sendo resolvidos a bala, ca-

nivete e prisão.

Estamo-nos nos fechando nu-

ma imensa gaiola de intolerância

onde o preconceito não escolhe

hora nem lugar para agir, e não

discrimina quem vai agir em nome

do racismo.

Racismo é mais que atacar os

pretos, amarelos ou índios, racis-

mo é não se reconhecer como par-

te do gênero humano. Somos um

país de muitas culturas: diferentes

entre brancos, diferentes culturas

entre os índios, diferentes culturas

entre os negros.

Aceitar esta visão é começar a

dissipar o medo de nosso cheiro.

É resgatar nossa dignidade huma-

na. É eliminar a tortura da intole-

rância. É participar da raça huma-

na. É deixar de ser oprimido. É

arrebentar com as cadeias das de-

sigualdades que oprimem nosso

povo.

Junte-se a nós, ao IPCN —

Direitos Humanos e Civis/SOS —

Racismo.

Não é complicado, você não

precisa nem sair de casa, mudar

de emprego, abondonar suas ami-

zades, deixar de freqüentar sua re-

ligião, mudar de sexo ou de cor.

Você pode agir onde está, bas-

ta olhar em volta e perguntar se

está tudo bem, se em seu espaço

não existem discriminações. Se es-

ta situação lhe indignar, não se

acanhe, converse, e verá como as

pessoas estão dispostas a conver-

sar sobre este grande mistério, que

é a intolerância e a discriminação

nessa terra de deserdados, nessa

ilha de silêncio.

Você verá como junto a outras

pessoas fica mais tolerável cami-

nhar pelas imagens de opressão

que povoam os subúrbios de nos-

sas mentes. Nós todos não esta-

mos gostando das coisas como es-

tão.

Querendo mais, seja ativista.

Venha, temos muita ação e esta-

mos apenas começando, conta-

mos com suas idéias.

Se você sofreu ou está sofren-

do algum tipo de discriminação,

venha, e se acha que a discrimina-

ção não é problema, que não exis-

te, que o problema é social e eco-

nômico, venha também. Muitos

são os caminhos para acabar com

a opressão.

Precisamos de muitas crian-

ças, velhos, donas-sem-casa,

donas-de-casa, garçãos, soldados,

motoristas, bancários, mães-de-

santo, pastores, terapeutas, psicó-

logos, assistentes sociais, advoga-

dos, todos em geral sem

discriminações. Não se deixe cair

nas armadilhas do racismo. Antes

de tudo você deve se defender bem

como os que estão à sua volta.

Basta de covardia!!!

Você pode se tornar agente po-

pular de justiça onde quer que se

encontre. Juntos podemos trilhar

um belo caminho para o resgate

de nossa dignidade de ser huma-

no.

Pode chegar, junte-se a nós, as

portas estão abertas, entre sem

bater.

Ligue para SOS — RACISMO

TELEFONE (021) 252-6683

JOÃO MARCOS AURORE

RAMÃO

IPCN — DIREITOS HUMANOS

E CIVIS


jauananui j l

mmmwfim

CRIADO

CONSELHO

PINDENSE

Em Pin-

damonhanga-

ba foi oficia-

lizado o Con-

selho Muni-

icipal de Parti-

cipação e De-

senvolvimen-

Ito da Comu-

nidade Negra. A ata de oficia-

lização ocorreu no Bosque da

Princesa, com a presença de

Dona Uva Fonseca, atual dire-

tora do Sindicato dos Metalúr-

gicos do Estado de São Paulo,

vereador Vitor Ardito Lerário,

a Dra. Carmem Lúcia, do

Conselho Estadual, e Eduardo

Joaquim de Oliveira, Presi-

dente do Conselho Estadual.

A fim de assistir e participar

da solenidade, estiveram tam-

bém presentes todas as socie-

dades amigos de bairros, atra-

vés de seus presidentes ou re-

presentantes.

Na ocasião o vereador Vi-

tor Ardito Lerário fez a doa-

ção de uma área de terra no

município onde será cons-

truída a sede própria da enti-

dade. O presidente eleito José

Avelino Pereira, carinhosa-

mente chamado de "Chine-

lo", falando em nome dos de-

mais companheiros empossa-

dos, mantém uma enorme ga-

ma de trabalhos que serão rea-

lizados pela comunidade negra

de Pínda. Afirmam: "O negro

sempre foi marginalizado no

Brasil. Sendo que no mu-

nicípio de Pinda a situação

não é em nada diferente do

resto do povo. isso moti-

va, a mim e a meus compa-

nheiros, a que conquistemos

nossos espaços em todas as

áreas de atividades sociais. Na

arte, no esporte, na política

etc."

E para mostrar que a luta

será para valer, o Conselho

Pindense já se mobilizou e rea-

lizou uma grande manifesta-

ção de mulheres negras co-

mandadas pela Conselheira

Dra. Carmem Lúcia. Chinelo

promete muito trabalho aos

negros irmãos da cidade e vai

além quando afirma que a luta

é de todos, dos negros e dos

brancos menos favorecidos.

SÃO JOSÉ DORIO PRETO

O VI Encontro dos Agen-

tes da Pastoral Negra do inte-

rior ocorreu desta feita em São

José do Rio Preto e conta com

a participação de mais de 30

cidades, o que demonstra a

força que dia-a-dia ganha esse

movimento religioso em todo

Estado.

JUND1AI

No final do mês de março

o Centro de Cultura Afro-

Brasileiro, Congada de São

Carlos, promoveu o I Encon-

tro Jundiaiense de Cultura e

História do Negro. Este En-

contro começou discutindo

educação, história e religião e

finalizou com debates sobre a

importância da literatura na

conscientização do negro e

perspectivas para sua ascensão

social e econômica no Brasil.

Participaram dos debates o

professor Hélio Santos, Maria

Cristina Castilho de Andrade,

e o escritor Luiz Silva o popu-

lar CUTI, contando uma vez

mais com a participação t

apoio do Conselho da Comu-

nidade Negra, na pessoa de

conselheiro Jurandir Noguei-

ra.

BARRETOS

No início deste ano o Club

Estrela D'Oriente comemorou

52 anos de existência, fato esse

que ensejou grandes festivida-

des, além de missa em ação de

graças.

A população negra de Bar-

retos está para ser brindada

com a instalação de um núcleo

do Conselho Municipal da Co-

munidade Negra.

Quem anda agitando as

coisas por lá é a professora El-

za Fonseca, e o Senhor Swami

Brítto, juntamente com o pre-

feito Milton Ferreira.

ITAPIRA

A cem anos atrás morria,

vítima de bárbara agressão por

parte de fazendeiros o delega-

do de polícia Joaquim' Firmi-

no. A sua morte deu-se em

conseqüência de sua recusa em

sair à captura de negros fugi-

dos. Um pedestal foi erguido e

inaugurado para reverenciar

sua memória. Ao evento com-

pareceram os senhores, Juran-

dir Nogueira e Milton Santos,

ambos membros do Conselho

da Comunidade Negra de São

Paulo.

SAO PAULO

Numa promoção conjunta

do Instituto do Negro, com

apoio do Conselho da Comu-

nidade Negra, e Secretaria do

Interior, foi realizado no audi-

tório do Conselho da Comuni-

dade Negra, um importantíssi-

mo debate sobre Sincretismo

Religioso. O tema é muito po-

lêmico e ultimamente, face às

declarações de várias autorida-

des religiosas sobre o assunto,

ele tem sido muito debatido.

Na ocasião estiveram presen-

tes o jornalista, e pesquisador,

João Clodomiro, o Frei Davi,

católico, e o Pastor Paulo Ro-

meiro, evangélico. O evento,

organizado pelo conselheiro

Jurandir Nogueira e Vanderci

do Carmo do IN, contou com

a presença do padre Batista do

CCN e do presidente do Con-

selho, Eduardo Joaquim de

Oliveira.

UNS

Com amplo apoio da Pre-

feitura e da Câmara Munici-

pal, encontra-se em andamen-

to projeto que visa a instala-

ção nesta cidade do Conselho

Municipal da Comunidade

Negra.

INTERIOR

A iniciativa de tal projeto

partiu do Conselheiro Zé Car-

linhos, que manteve contato

com os vereadores e também

com o prefeito Luiz Antônio

Melges, que se propuseram a

envidar todos esforços no sen-

tido de viabilizar esse legítimo

anseio da comunidade negra

local.

Câmara Municipal lançou

concurso de monografia com

o tema: "Centenário da Aboli-

ção da Escravatura; os interes-

sados devem comparecer á se-

cretaria da Câmara.

MOGi MIRIM

A Câmara Municipal desta

cidade comemorou também o

centenário da morte do delega-

do Joaquim Firmino com a

aposição em seu recinto de tra-

balho.de uma placa alusiva á

data. Em função desse evento,

foi inaugurada uma rua com o

nome do herói assassinado.

ARAÇATÜBA

Esteve presente ao Conse-

lho da Comunidade Negra o

senhor Alael Simplício, de

Araçatuba, membro da Dele-

gacia Regional da Comunida-

de Negra. Na ocasião, foi

apresentado ao presidente do

Conselho, uma série de even-

tos em andamento e outros em

fase de esquematização acerca

do Centenário da Abolição.

PIRACICABA

A Sociedade Beneficente

13 de Maio de Piracicaba, en-

tidade que conta com 80 anos

de fundação e que é reconheci-

da como de utilidade pública

estadual enviou para a redação

do nosso jornal "O calendário

de eventos do bimestre da

Consciência Negra".

Consta do referido calen-

dário uma intensa programa-

ção envolvendo palestras, de-

bates, exposições, desfile de

moda afro-brasileira, desfiles

de cortes de cabelo, bale, pa-

lestras sobre religião, peça tea-

tral, filmes, encerrando com

baile nostálgico voltado para

as pessoas de 3. a idade intitu-

lado o baile dos anos doura-

dos. Trata-se sem dúvida de

uma programação imperdi-

velspois essa entidade repre-

sentantiva da Comunidade

Negra é uma das mais antigas

e atuantes de que se tem

notícia em todo Brasil.

As pessoas interessadas em

participar dessa programação

devem ligar para 220-6146.

MOGI DAS CRUZES

Através da Secretaria Mu-

nicipal de Cultura e SENEC,

da Prefeitura Municipal de

Mogi das Cruzes em conjunto

com grupos e comunidade ne-

gra da cidade, estarão promo-

vendo de 8 a 12 de maio deba-

tes sobre o tema: O Negro Bra-

sileiro e 100 anos da Abolição.

O objetivo desse projeto é

traçar uma trajetória do negro

na história do Brasil, a preser-

vação da sua identidade vincu-

lada á formação cultural brasi-

leira.

Os convidados para expo-

sição dos temas serão grupos e

comunidade negra, artistas ne-

gros, pesquisadores etc.

Maiores informações fone:

469-1000.

MATÃO

A cidade vive o clima de

comemorações alusivas ao

Centenário da Abolição. Uma

ampla programação foi previs-

ta e está sendo realizada. Dan-

do cumprimento a uma delas,

TAUBATÉ

Aloisio Rodrigues da Silva

é membro do Conselho da Co-

munidade Negra e presidente

do Centro de Estudos Comu-

nitários Cultural Afro-

Brasileiro e manda contar que

os membros da comunidade

negra local se sentiram honra-

GUAIANASES

A associação cultural Mor-

ro do Poeta da Cohab Castro

Alves em Guaianeses, fará rea-

lizar no dia 15 de maio soleni-

dade comemorativa de 100

anos de liberdade.

O evento contará com a

participação de artistas, espor-

o presidente do Conselho da

Comunidade Negra, Eduardo

Joaquim de Oliveira, compa-

receu para uma visita, onde

uma vez mais afirmou a sua

posição em colaborar ampla-

mente com a ínterlândia no

sentido de consultar acerca do

Centenário da Abolição.

dos com a presença do Presi-

dente do Conselho da Comu-

nidade Negra, Eduardo Joa-

quim de Oliveira e esposa, por

ocasião da celebração da Mis-

sa dos Quilombos.

Este evento operalizou e

inaguraçãoda Praça Zumbi

dos Palmares. Na ocasião, es-

tiveram presentes também o

conselheiro José Carlos e es-

posa.

tistas, professores e maciça-

mente a comunidade negra lo-

cal. O sr. José A. Salles, vice-

presidente da entidade convida

a todos para que compareçam

ao centro esportivo e de lazer

da cidade Tiradentes para que

acompanhem a vasta comemo-

ração que terá início ás 10:00

horas daquele dia.

ESTADUAL

MOVIMENTO NEGRO

EM JOÃO PESSOA

O Movimento Negro de

João Pessoa M.N.J.P., inseri-

do nas atividades do Centená-

rio da Abolição, teve seu pro-

jeto Arte e Cultura Negra.

Cem Anos de Resistência,

aprovado pelo Programa do

Centenário de Abolição, liga-

do ao Ministério da Cultura.

Em ^ontato com o Presi-

dente da comissão e coordena-

ção do programa, Carlos

Moura, tivemos notícia da

aprovação integral do projeto.

SÃO ATIVIDADES

DESTE PROJETO:

Prêmio Zumbi de redação,

destinado a estudantes de 1.° e

2.° graus das redes de ensino

Estadual, Municipal e Privado

da cidade de João Pessoa.

Seminários para professo-

res e alunos de 1. 0 e 2. 0 graus.

Mostra da beleza negra.

Mostra de cinema sobre a

temática negra.

Pesquisa em todos os mu-

PAULA FRASSIN1TE (M.N.J.P.)

nicípios do Estado, da produ-

ção artística negra (artes plás-

ticas, escultura, cordel, poe-

sia, música, dança etc.)

Elaboração de cartilha

com base nas redações produ-

zidas, para serem usadas nas

escolas do Estado da Paraíba.

Em São Paulo, tivemos o

apoio do Conselho da Comu-

nidade Negra, através do Gru-

po de Interferência da Comu-

nidade Negra da Secretaria do

Trabalho, com doação do

deo "O Negro no Mercado

de Trabalho", do Conselho

Estadual da Condição Femini-

na, com os vídeos, "A Mulher

Negra Zulu", da Assessoria de

Arte Afro, Secretaria de Cul-

tura, com a doação de livros,

agendas e cartazes lá produzi-

dos, o que com certeza nos au-

xiliará bastante nas discussões

e debates que iremos empreen-

der durante todo este ano, pa-

ra tentarmos, desta forma, re-

verter a história do negro em

nosso País.


ACONTECE

—cmúnmà negra

ALMINO AFFONSO APONTA DISCRIMINAÇÃO

A primeira comemoração dos

cem anos da abolição da escra-

vatura no Brasil aconteceu

com uma grande festa na Ca-

pital, no dia 6 de janeiro, na

quadra da Escola de Samba

Unidos do Peruche, quando

também foi homenageado o

vice-Governador Almino Af-

fonso, reconhecido defensor

da causa negra em nosso País.

O candidato a candidato pelo

PMDB à Prefeitura e Secretá-

rio de Obras do Estado de São

Paulo, João Leiva, foi outra

personalidade que prestigiou o

evento.

A Zona Norte da Capital, on-

de está localizada a quadra, se-

gundo pesquisa realizada pelo

Conselho da Comunidade Ne-

gra, possui o maior contingen-

te populacional de negros da

Capital e é uma região onde a

manifestação cultural de ori-

gem africana é sempre mar-

cante. Possui cinco escolas de

samba, só no Grupo I: Rosas

de Ouro, Unidos do Peruche,

Acadêmicos do Tucuruvi, Ca-

misa Verde e Branco e Moci-

dade Alegre, inúmeras outras

escolas de samba e blocos car-

navalescos, dezenas de acade-

mias de capoeira e diversas

tendas de umbanda e candom-

blé. Toda a diversidade das ex-

pressões culturais negras da re-

gião se fez representar na co-

memoração.

A União das Mulheres da Zo-

na Norte, principal promoto-

ra, foi quem organizou a festa

na quadra da Escola de Samba

Unidos do Peruche — hoje um

pólo de incentivo á cultura ne-

gra — e por onde desfilaram

durante cinco horas ininter-

ruptas grupos de capoeira e

afoxé, blocos, escolas de sam-

ba e suas baterias com a apre-

sentação e o "axé" das tendas

de umbanda e candomblé. O

ritmo forte e contagiante fez a

alegria dos presentes que lota-

ram a quadra e que atenta-

mente ouviram um breve dis-

curso do vice-Governador Al-

mino Affonso, logo na abertu-

ra do evento.

ALMINO APONTA A

DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Almino Affonso questionou a

liberdade dos negros neste pri-

meiro século: "Eu pergunto:

Será que hoje os negros, que

têm direito à liberdade, a rigor

se sentem livres numa socieda-

de que ainda não lhes dá ga-

rantia de emprego, um salário

digno, escolas, saúde e respei-

to à sua própria dignidade?"

Enfatizou a questão racial ao

afirmar que "as nossas leis di-

zem que todos somos iguais,

mas qualquer moleque de rua

sabe que alguém grita "pega-

ladrão" o policial corre para

pegar o primeiro negro que es-

teja à frente ou, que no merca-

do de trabalho em geral, se for

PRESIDENTE ATENTO

AOS PROBLEMAS

DA COMUNIDADE %\J i/L. VI

Todos sabemos da importânia

das Sociedades Amigos de

Bairros e evidentemente da

pessoa de seus presidentes, co-

mo é o caso de Eunice Rodri-

gues Barbosa, que é também

conselheira aqui do CCN. Mu-

lher participativa que é, trouxe

ao conhecimento do Presiden-

te do Conselho Eduardo Joa-

quim de Oliveira os problemas

que vêm enfrentando as comu-

nidades de Vila Hermínia,

Morro Grande e Freguesia do

Ó, que de pronto a acompa-

nhou para averiguar de perto

esses problemas. Ficou indig-

nado com a situação de cerca

de 1.500 famílias ali precaria-

mente instaladas e disse: — "É

de competência do Governo

Federal providenciar moradias

dignas e melhorar as condições

de vida do negro brasileiro.

Pois a comunidade a caminho

do centenário da abolição con-

tinua sem emprego, comida e

moradia.

Por isso temos assistido a la-

mentáveis ocorrências envol-

vendo velhos, mulheres e

crianças que, sem recursos,

acabam invadindo terras para

obter um lugar para seus abri-

gos: Eduardo se comprometeu

a envidar todos os esforços no

sentido de que a comunidade

negra também seja beneficiada

com os Programas de Habita-

ção que estão sendo criados, e

se solidarizou com o estado de

penúria dessas famílias desa-

brigadas.

"A abolição não é produto da bondade da

princesa Isabel. Foram os negros que lutaram

pela sua liberdade" lembra Almino Affonso

possível dar emprego a um

branco, não se dá emprego ao

negro". Almino confirmou

com dados estatísticos a discri-

minação do negro no mercado

do trabalho: "Ainda há pou-

co, eu fazia uma leitura sobre

o número de empregos em ati-

vidades superiores — advoga-

dos, engenheiros, médicos:

não vai além de 1 % o número

de negros", expôs.

"Nós devemos enormemente

ao negro", continuou Almino,

"no esporte, no futebol. Aí es-

tão os grandes heróis, na

maioria negros. O que somos

em grande parte, a nossa his-

tória, as nossas tradições, as

nossas festas populares...

Agora mesmo, no carnaval,

esses batuques, esses tambo-

res, tudo o quanto ressoa ao

longo das festas de carnaval

são músicas vindas da alma do

negro.'Mas nós não temos da-

do, enquanto sociedade, aqui-

lo que o negro merece, aquilo

que o negro tem direito".

Por fim, Almino Affonso

alertou os presentes para a dis-

torção que há na documenta-

ção da história da escravidão

que, segundo afirmou, "é con-

tada normalmente como o

produto da bondade da prin-

cesa Isabel. Eu quero dizer a

vocês quf por trás da bondade

da princesa Isabel houve a luta

do negro, houve a luta de Pal-

mares. Dezenas e dezenas de

anos os negros deixavam as

senzalas e iam para Alagoas

resistir, inclusive de arma na

mão, para defender sua pró-

pria liberdade". Dando por

aberta a festividade, o vice-

Governador enfatizou o moti-

vo principal que o fazia parti-

cipar daquele evento. "É esta

a liberdade que queremos fes-

tejar hoje, uma liberdade de

luta, uma liberdade que não

pede benção, que não pede

proteção, mas que pede respei-

to aos direitos que os homens e

as mulheres negras têm e que a

sociedade tem o dever de res-

peitar."

ATE

Entidades carnavalescas

O Conselho de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra

do Estado de São Paulo comunica a todos

os interessados que está orientando e encaminhando,

para providências junto ao Ministério da Cultura,

o cadastramento na "Lei Sarney", para entidades carnavalescas.

Para tanto deverão dirigi-se à Assessoria Especial

de Projetos Populares, que atende diariamente

das 14 as 17 horas na sala 71 do 7.° andar do n. 0 122

da rua Antônio de Godoy, munidos da Ata de Fundação da Entidade

e da Ata da última Assembléia e do CGC

CANDOMBLÉ NÃO É CATOUCISMO

Qual seria a reação da maioria

dos católicos se ao entrar em

sua igreja se deparasse com

imagens como: A de um orixá,

de guias, pretos velhos ou ca-

boclos?

Porém, quando se freqüenta

um terreiro de candomblé

nota-se muito a presença de

santos católicos que, por sinal,

são muito bem aceitos por seus

adeptos.

Entendamos então como co-

meçou o sincretismo: (A intro-

dução de imagens de santos

católicos nos terreiros).

Por causa da repressão exerci-

da pelos fazendeiros no senti-

do de que os negros escravos

não desenvolvessem seu ritual

aos orixás e, por sabedoria, os

chefes religiosos negros usa-

ram do subterfúgio de colocar

santos católicos e ladainhas

para que não fossem castiga-

dos e destruídos seus locais re-

ligiosos.

Ainda assim, o candomblé en-

controu muitas dificuldades

para sobreviver, mas com o

cuidado em manter os cultos

em segredo e dificultando a

ação dos informantes dos fa-

zendeiros e da polícia, o can-

domblé pôde chegar ao ano de

1988 praticamente intacto,

com sua filosofia, cânticos,

danças, a culinária de extremo

bom gosto e as mais de 70 er-

vas usadas nas cerimônias.

Para a transmissão sistemáti-

ca, o conhecimento foi passa-

do de avós para netos, fazendo

com que o candomblé preser-

vasse uma cultura milenar,

espalhando-a a partir do re-

côncavo baiano aos lugares

mais longínguos do Brasil.

Pode-se afirmar que o can-

domblé é hoje uma religião na-

cional, com núcleos em todo

território. Mas é principal-

mente no Rio e em São Paulo

que vem ganhando mais adep-

tos a cada ano.

Mas a mancha do sincretismo

permanece, vai-se a qualquer

terreiro e lá estão os santos ca-

tólicos misturados aos Exus,

Pombagiras, e Orixás. Por que

as Ialorixás não afastam defi-

nitivamente os santos católicos

de seus terreiros, mantendo

apenas as representações de

entidades cultuadas pelos ne-

gros?

Já alguns Pais-de-Santo afir-

mam que a decoração não tem

nenhum valor, pois os pontos

energéticos de qualquer terrei-

ro são sua entrada principal e

nenhum filho-de-santo jamais

será instruído a fazer reverên-

cia diante do altar.

Mãe Stella proferindo palestra

JOÃO CLODOMIRO DO CARMO

em São Paulo condenou for-

temente o candomblé submis-

so ao cristianismo.

A casa de candomblé de Omin

Deuá diz que em seu novo bar-

racão só haverá imagens de

Orixás.

Já Mãe Cirila que dirige o ter-

reiro Jeje em São Paulo quer

corrigir outra distorção, "le-

manjá é negra e tem Apangê

Grande", diz Mãe Cirila do al-

to de sua sabedoria respeitável

de quase 80 anos.

Portanto, o fim do sincretismo

depende do fortalecimento dos

negros enquanto força política

e descobrindo que sua cultura

é rica e que em muitos casos

supera em muito o que a "civi-

lização ocidental" tem a ofere-

cer.

JOÃO CLODOMIRO DO

CARMO

37 anos, é jornalista e diretor da

Tha Academia Brasileira de

deo e autor do livro "O que é

candomblé."

NOTA: A partir do dia 7/3/88 o

Sr. João Clodomiro do Carmo

estará dando um curso sobre

candomblé, abrangendo todos os

tópicos, incluindo até o vídeo

"O QUE É O CANDOMBLÉ".

Informações pelo telefone 280-

1222, ramal 31


jMUMUCHMUf f ■

CONHEÇA UM POUCO DA HISTORIA

DO NEGRO NO BRASIL

MARGINALIZAÇÃO

Nossos antepassados che-

garam ao Brasil a partir do

ano de 1540, trazidos à força,

escravizados e sofrendo toda

forma de violência e humilha-

ção. A escravidão, aliada aos

maus-tratos, à tortura e à ne-

gação de sua dimensão huma-

na, transformou a história do

negro no Brasil no maior mas-

sacre que houve contra um po-

vo em todos os tempos. Nem

as barbaridades do "mons-

tro" Hitler contra o povo ju-

deu chegaram próximo do

nível de opressão por que pas-

sou o povo negro.

SETE ATOS OFICIAIS

QUE DECRETARAM A

MARGINALIZAÇÃO DO

POVO

NEGRO DO BRASIL

Bula Papal de 1454

Através dessa bula o Papa

Nicolau V dá exclusividade

aos portugueses para aprisio-

nar negros para o Reino, pois

lá eles eram batizados. Segun-

do outro documento papal

mais recente, Carta Encíclica

"In Plurimis", de 5 de maio

de 1888 assinada pelo Papa

Leão X11I, a metade dos apri-

sionados eram barbaramente

assassinados ao resistir à cap-

tura. Da viagem do navio ne-

greiro, de cada 10 irmãos ne-

gros embarcados 4 morriam

ao longo da viagem pelos

maus-tratos e eram jogados ao

mar. Os registros oficiais do

Brasil (bastante omissos) di-

zem que entrou no Brasil um

total de 3.532.300 escravos.

Lei da Terra de 1850

Todo o território brasileiro

estava povoado por quilom-

bos. Os quilombos eram for-

mados por negros que, através

de diferentes formas, conquis-

tavam a liberdade. Lá viviam

uma alternativa de sociedade,

tendo tudo em comum. As

grandes sobras de produção

eram vendidas aos brancos nas

vilas da redondeza. Os pode-

rosos do sistema percebendo

que os negros se estavam suce-

dendo bem, e que os brancos

das vilas estavam sem mão-de-

obra para o trabalho, sendo

uma ameaça à estabilidade do

sistema, decretam a Lei da

Terra. A partir dessa lei era

proibido ocupar terras no Bra-

sil. Para ter a terra seria preci-

so comprá-la do governo.

O "glorioso" exército bra-

sileiro teria como tarefa des-

truir os quilombos e levar os

negros de volta às fazendas

dos brancos. Décadas depois,

essas mesmas terras negadas á

trabalhadora população negra

são dadas de graça aos imi-

grantes europeus, ou em troca

de abertura de estradas. Con-

tra os imigrantes europeus não

aplicavam a lei da terra de

1850.

8.

Decreto de 1854

Proíbe o negro de aprender

a ler e escrever. Os poderosos

do Brasil sabiam que, junto

com o acesso à terra, o acesso

ao saber era a outra alavanca

de promoção social, econômi-

ca e política de um povo. Com

esse decreto n." 1.331, artigo

69, § 3.°, o grupo do poder en-

curralava a população negra

nos porões da sociedade. As

conseqüências desse decreto

vêm até nossos dias. Dos 23

milhões de crianças sem acesso

ao estudo no Brasil, 20 mi-

lhões são crianças negras.

Guerra do Paraguai (1860-

1875)

Foi um dos instrumentos

usados pelo poder para reduzir

a população negra no Brasil.

Foi difundido que os negros

que fossem lutar na guerra, ao

retornar receberiam a liberda-

de e os já livres receberiam ter-

ra. Além do mais, chegava a

convocação para o filho do fa-

zendeiro, ele o escondia e, no

lugar do filho, enviava cinco

negros.

Antes da guerra, em 1860,

a população negra do Brasil

era de 2.500.000 pessoas (45%

do total da população brasilei-

ra). Depois da guerra, em

1875, a população negra do

Brasil se reduz para 1.500.000

pessoas (15% do total da po-

pulação brasileira).

No fim da guerra o Co-

mandante Duque de Caxias es-

creve ao Imperador

comunicando-lhe que era

grande o número de negros vi-

vos. Dizia que o negro era

muito ágil e desenvolvia gran-

de habilidade no manejo das

armas. Ele estava com medo

de que, retornando com eles

ao Brasil, poderiam tomar o

poder, como fizeram no Haiti.

Lei do Ventre Livre (1871)

Essa lei até hoje é ensinada

nas escolas como uma lei boa:

"Toda criança que nascesse a

partir daquela data nasceria li-

vre." Na prática, esta lei sepa-

rava as crianças de seus pais,

desestruturando a família ne-

gra. O governo abriu uma casa

para acolher essas crianças. De

cada 100 crianças que lá entra-

vam, 80 morriam antes de

completar um ano de idade. O

objetivo desta lei foi tirar a

obrigação dos senhores de fa-

zendas de criar nossas crianças

negras, pois já com os 12 anos

de idade as crianças saiam a

procura da liberdade negada

nas senzalas. Com essa lei sur-

giram os primeiros menores

abandonados.

Lei do Sexagenário (1885)

Também é ensinada nas es-

colas como sendo um prêmio

Muitas são as histórias

acerca das condições do negro no Brasil.

A qui mais uma proposta de reflexão sobre essas histórias

do coração bom do senhor pa-

ra com o escravo que muito

trabalhou. Na verdade, essa lei

era a forma mais eficiente en-

contrada pelos opressores para

jogar na rua os velhos doentes

e impossibilitados de conti-

nuar ganhando riquezas para

os senhores de fazenda, sur-

gindo, assim, os primeiros

mendigos nas ruas do Brasil.

Decreto das imigrações euro-

péias (1890)

Foi assinado em 28 de ju-

nho de 1890 e abria o território

brasileiro aos imigrantes euro-

peus.

A terra negada á comuni-

dade negra foi dada de graça

aos imigrantes europeus ou

passada por um valor simbóli-

co. Até hoje, se os descenden-

tes dos imigrantes europeus

podem custear estudos supe-

riores para seus filhos, a fonte

da renda é aquela terra.

Neste período inicia-se a

agressão no Brasil do novo sis-

tema político, o capitalismo.

As primeiras indústrias se ins-

talam e marginaliza a mão-de-

obra da comunidade negra,

dando preferência aos imi-

grantes. Os imigrantes, que

eram pobres, passaram a ser a

mão-de-obra predileta, e o po-

vo negro é jogado nas favelas,

a catar papel e a executar ou-

tros serviços desqualificados.

DESAFIOS COLOCADOS

PELA SITUAÇÃO DO NE-

GRO HOJE

A Nível Político:

Nenhum partido político

assumiu a questão do negro

como desafio nacional. Dos

559 constituintes que tiveram

acesso ao Congresso Consti-

tuinte, apenas 6 são negros.

Tanto na África do Sul (país

declaradamente racista) como

no Brasil, não há nem 1 (um)

negro participando do primei-

ro escalão do governo federal.

A Nível Econômico:

Os negros no Brasil rece-

bem os menores salários para

desenvolver os mesmos traba-

lhos. Exemplo:

— Os pedreiros brancos

ganham em média 65% mais

que os negros;

— Os engenheiros brancos

ganham em média 115% mais

que os engenheiros negros.

A Nível Social:

Aproximadamente 90 em

cada 100 pessoas negras mo-

ram nas periferias das cidades,

nas favelas, on são trabalha-

dores rurais semterra.

A Nível Psicológico:

Aproximadamente 70 em

cada 100 pessoas negras, em

níveis diferentes, rejeitam a

sua origem negra. Sua perso-

nalidade está seriamente afeta-

da com esse conflito de identi-

dade imposto pelo sistema.

Não conhecem quase nada da

história de seu povo negro.

A Nível Jurídico:

Dos 995 assassinados em

Nova Iguaçu, Rio de Janeiro,

de janeiro a maio de 1987, 720

são membros do povo negro.

Quase todos os crimes estão

registrados como sendo de au-

tores desconhecidos.

Assassinam-se cinco vezes

mais pessoas negras em Nova

Iguaçu do que na África do

Sul.

A Nível Educacional:

De 23 milhões de crianças

sem estudo, 20 milhões são

crianças negra. De cada 100

negros, 42 ficam sem estudar e

só 1 consegue furar o bloqueio

e chegar às universidades.

Há mais negros nas univer-

sidades racistas da África do

Sul do que nas universidades

ditas democráticas do Brasil.

Desafio a Nível Eclesial:

O Brasil tem 12.700 pa-

dres. Se a Igreja não tivesse

práticas racistas deveria ter em

seu seio uma proporção de pa-

dres negros de acordo com a

proporção da população negra

na sociedade, ou seja, 7 mil

padres. No entanto, só tem

200 padres negros. Dos 370

bispos, só 6 são de origem ne-

gra.

PADRE CATÓLICO FALA

DE RACISMO NA IGREJA

Foi da Paróquia do Carmo

de Rio Preto a iniciativa do

Movimento Negro em São Jo-

sé do Rio Preto, programan-

do: a) uma Missa Negra por

mês em cada Paróquia (são

12), tendo sido a primeira cele-

brada no dia 1.° de janeiro na

Paróquia do Carmo, com im-

pressionante Liturgia Católica

própria.

Um Congresso Estadual (o

VI) que foi realizado no dia 31

de janeiro, com a presença de

representantes dos núcleos

mais expressivos de todo o Es-

tado. Terminou com Missa. E

o movimento desencadeado

continuará. É preciso evitar

todo e qualquer atrito que pre-

judique o despertar do negro e

ainda entorpecido pelos sécu-

los, de escravidão: como vou

provar por experiência própria

a) Em Jundiaí, há 20 anos,

tentei despertá-los. Vinha um

Monsenhor de Minas para o

Encontro... Compareceram 50

brancos e 1 negro: b) Agora

iniciei o movimento em São

José do Rio Preto, com a pri-

meira missa negra, dia primei-

ro... Vieram tão poucos ne-

gros que mal deu pra fazer o

Ofertório, tão impressionante

e significativo: havia 600.

brancos. No congresso tam-

bém a participação foi míni-

ma: o negro ainda tem o com-

plexo e o medo (e vergonha) de

responder '' Presente''....

E deixem de falar da Igreja

Católica e do Papa, que estão

dando todo o apoio ao movi-

mento negro, haja vista a pro-

gramação da CNBB, — e o

Papa pedindo perdão, em no-

me da Igreja na África Negra:

falam dos que ainda conti-

nuam segredando e exploran-

do o negro.

Não confundam ecumenis-

mo litúrgico com ecumenismo

de propósitos a colimar: traba-

lhamos juntos na promoção

do negro mas continuemos ca-

da um com sua religião e litur-

gia próprias, exceto em se tra-

tando de um culto ecumênico

adrede preparado. Não dá pa-

ra cantar e incensar lemanjá

na Missa Católica. Hoje os

próprios mentores do Can-

domblé e de outros cultos dei-

xaram bem claro que o tão ba-

dalado "sincretismo religioso

afro-brasileiro" não passa de

um grande á equívoco...com

fundo COMERCIAL, como

demonstrei na TEORIA DA

REINTEGRAÇÃO (note o

termo) 1.° vol. pág. 120.

Consta também da edição pas-

sada do Jornal do Conselho na

pág. 7. Pde. Antônio Toloi

Stafuzza.


comnmêB negra

"20 ANOS APÔS SEU ASSASSINATO,

O SONHO ESTÁ VIVO EM CADA NEGRO"

No dia 4 de abril de

1968, os negros de todo o

mundo choraram o assassi-

nato do Reverendo Dr.

Martin Luther King, um

dos maiores lídejes negros

dos tempos modernos, ao

lado de Agostinho Neto (de

Angola), Samora Machel

(Moçambique), e Nelson

Mandela (África do Sul). O

Dr. King foi assassinado em

Memphis, Tenessee — Esta-

dos Unidos, na varanda de

um quarto de hotel, atingi-

do por um tiro de fuzil. An-

tes de ser derrubado crimi-

nosamente, o Dr. King lide-

rou o mais bem-sucedido

movimento pacifico de lu-

tas contra a discriminação

racial, que chamava "direi-

tos civis"... "A injustiça

em algum lugar é uma

ameaça à justiça em toda a

parte... As pessoas oprimi-

das não podem permanecer

oprimidas para sempre. O

anseio da liberdade acaba-

se manifestando e foi isso

que aconteceu ao negro. Al-

guma coisa lá dentro

lembrou-lhe seu direito ina-

to à liberdade e algo lá fora

lembrou-lhe que ela poderia

ser obtida", foram pensa-

mentos emitidos pelo Dr.

King.

Ação direta não violenta:

Uma carta escrita pelo

Dr. Martin Luther King Jr.,

da prisão de Birmingham,

tem grande valor histórico,

por ser um documento de

testemunho de sua filosofia

pessoal, inspirado pelo

exemplo de Gandhi.

"A Ação Direta Não

Violenta procura criar e ali-

mentar tal tensão que a so-

ciedade, constantemente se

tenha recusado a negociar,

seja forçada a enfrentar a

questão. Procura-se drama-

tizar de tal modo a questão

do racismo que ela não pos-

sa mais ser deixada de la-

do... Eu me oponho fervo-

rosamente à tensão violen-

ta, mas há um tipo de ten-

são, de protesto não violen-

to, que é necessário para o

crescimento dos movimen-

tos que lutam contra a dis-

criminação", dizia o Dr.

King.

"Precisamos ver a ne-

cessidade de manifestações

críticas não violentas para

criar na sociedade a espécie

de tensão que ajudará os

homens a elevar-se das es-

curas profundezas do pre-

conceito e do racismo para

as majestosas alturas da

compreensão e da fraterni-

dade." Foram magníficas

lições do Dr. King aos ne-

gros de seu pais e do resto

do mundo.

Dessa forma, os princi-

pais protestos, consistiram

na insistência de freqüenta-

rem restaurantes, escolas,

comércio, ônibus, etc, on-

de negros não fossem acei-

tos. Exigiram também o di-

reito de alistamentos como

eleitores e legislação que

obrigassem as empresas a

contratar trabalhadores ne-

gros, em igualdade de con-

dições.

Prêmio Nobel da Paz

Em 10 de dezembro de

1964, Martin Luther King

recebe o Prêmio Nobel da

Paz, em reconhecimento de

sua luta e de sua filosofia

pela não violência. Nesses

20 anos, desde sua morte, a

violência racial foi pratica-

mente eliminada nos Esta-

dosUnidos. Hoje

questionam-se novos méto-

dos racistas que passaram a

ser adotados, a exemplo do

que ocorre no Brasil.

Mas, emergiu nos Esta-

dos Unidos uma classe mé-

dia negra poderosa e in-

MARTIN LUTHER KING

fluente, composta até por

alguns negros milionários,

com empresas, indústrias,

jornais, emissoras de rádio

e diversos canais de televi-

são com programação intei-

ramente feita por negros.

Uma rigorosa legislação

acabou com a discrimina-

ção no trabalho. Os negros

integraram-se na vida

político-partidária,

registraram-se eleitores e

possuem uma representação

política forte no Legislativo

e em diversos executivos.

Em 1955 só havia 100 ne-

gros era funções públicas,

hoje, são quase 7.000, entre

os quais muitos juizes, pro-

motores e altos oficiais.

Sendo apenas 11 % do

eleitorado, elegeram 23

congressistas federais, 400

parlamentares estaduais e

303 prefeitos. No Brasil, os

descendentes de negros são

45% da população e no

Congresso possuímos ape-

nas 6 congressistas, isto é,

1% da representação.

O Sonho Está Vivo

Da vida e da morte do

Dr. Martin Luther King fi-

cou o legado de sua obstina-

ção na luta pela igualdade,

pelos direitos civis, pela so-

lidariedade entre os ho-

mens, pela não violência,

pelo acesso à escola e pelo

sagrado direito ao trabalho

em condições de igualdade.

Foi em reconhecimento

das prodigiosas realizações

do Dr. King que o Congres-

so americano aprovou uma

lei criando um feriado na-

cional em homenagem ao

seu nascimento, no mês de

janeiro de cada ano.

Em seu mais brilhante

discurso, pronunciado no

dia 28 de agosto de 1963,

durante a histórica marcha

sobre Washington, que reu-

niu mais de 100.000 pessoas

vindas de todo o país, o Dr.

King dizia:

"Eu tenho um sonho:

Não procuramos satis-

fazer a nossa sede de liber-

dade bebendo na taça da

amargura e do ódio...

Precisamos conduzir a

nossa luta, para sempre, no

alto plano da dignidade e da

disciplina.

Precisamos não permitir

que nosso protesto criativo

gere violência física...

E a maravilhosa e nova

combatividade que engol-

fou a comunidade negra

não deve levar-nos á des-

confiança de todas as pes-

soas brancas.

Isso porque muitos de

nossos irmãos brancos vie-

ram a compreender que seu

destino está ligado ao nosso

destino...

Não podemos caminhar

sozinhos.

E quando caminhar-

mos, precisamos assumir o

compromisso de que iremos

adiante. Não podemos vol-

tar. Digo-lhes hoje, meus

amigos, defronte ás dificul-

dades de hoje a amanhã.

Que eu ainda tenho um

sonho.

Eu tenho um sonho de

que, um dia, esta nação se

erguerá e viverá o verdadei-

ro significado de seus

princípios: a de que todos

os ' homens são criados

iguais.

Eu tenho um sonho de

que, um dia, os filhos de

antigos escravos e os filhos

de antigos senhores de es-

cravos poderão sentar-se à

mesa da fraternidade...

Eu tenho um sonho de

que os meus quatro filhí-

nhos, um dia, viverão numa

nação onde não serão julga-

dos pela cor de sua pele e

sim pelo conteúdo de seu

caráter..." (28.agosto. 1963

— Washington).

Agora, em 1988, seu jo-

vem companheiro no dia

em que o Dr. King foi assas-

sinado, o reverendo Jesse

Jackson, é um dos mais for-

tes candidatos á presidência

dos Estados Unidos, fato

que sequer poderia ser cogi-

tado naquele pais, antes dos

sonhos do Dr. King.

Assim, ao registrar o

20. 0 aniversário de seu bru-

tal assassinato, pelo fanatis-

mo histórico de um atirador

de tocaia que realizava o

ódio de todos os que não

aceitavam a igualdade, co-

lhemos, de sua história, os

grandes exemplos de obsti-

nação, protestos e não vio-

lência, refazendo a nossa fé

de que no Brasil a nossa lu-

ta contra a discriminação e

o racismo revestir-se-á de

renovadas estratégias, e que

devemos assumir o compro-

misso de que iremos sempre

adiante. Não podemos vol-

tar...

JOSÉ ROBERTO

MILITÃO, advogado.

Comissão de Direitos

Civis/Secretário-Geral do

Conselho Estadual da

Comunidade Negra e Vice-

Presidente do Instituto do

Negro/SP.


Mãéaáe negra

Baseando uma compreensão

dos objetivos coloniais na África,

Amílcar Cabral, o grandeder da

revolução africana, classificou em

três tipos de comportamento colo-

nizador, a saber: primeiro, des-

truição total, com a liquidação

imediata ou progressiva da popu-

lação nativa e sua substituição por

uma população de fora — euro-

péia —; segundo, destruição par-

cial, com a fixação de uma popu-

lação de fora mais ou menos nu-

merosa; terceiro, conservação

aparente, condicionada pela re-

clusão da população nativa em zo-

nas geográficas ou reservas pró-

prias, geralmente desprovidas de

possibilidades de vida.

No caso especifico da África

do Sul, assim chamada pelo inva-

sor, já que a população nativa

denomina-o de Azânia — a exem-

plo da ex-Rodésia, atual África

Zimbábwe — se insere exatamente

na terceira categoria proposta por

Cabral. Um dado ainda importan-

te acerca do nome, con^o o objeti-

vo precípuo do invasor é a nega-

ção da cultura do povo nativo, en-

tão nada mais eficaz, seguindo a

lição do mestre deles, Nicolau

Maquiavel, de que para desmemo-

rizar um povo, o primeiro ato é a

mudança do nome do lugar usur-

pado, dai a África ter sofrido uma

mudança brusca na sua lingua-

gem. A reconquista da África pe-

los africanos tem também essa co-

notação, quando Kwame Nkru-

mah toma o poder na Costa do

Ouro, muda o nome para Gana,

um dos mais importantes impérios

da África pré-còlonial. Assim, a

África do Sul será a futura Azâ-

nia. A implantação da chamada

"tribo branda" no extremo Sul da

África, no Cabo das Tormentas

depois Cabo da Boa Esperança,

deu-se no ano de 1562.

Ali se fixou uma centena de

holandeses ligados á Companhia

das índias Orientais. Nessa época

estavam estabelecidos na região

dois grupos étnicos africanos: os

Koisan ou bosqui manos e os ho-

tentotes, organizados em clãs e

desenvolvendo uma economia na-

MANIFESTO

MORRA A ÁFRICA

DO SUL

LUIZ CARLOS S. SANTOS

Luiz Carlos S. Santos, professor licenciado

em história pela UFBA, nos dá um instantâneo do quadro

que levou todo um processo colonizador a esmagar a África

e o povo africano. Com a exposição desse instantâneo,

tem-se uma melhor noção do que está ocorrendo na África do Sul

e da validade e importância da luta

de nossos irmãos do grande continente negro.

tural. Não é correta, portanto, a

afirmação dos brancos sul-

africanos de que haviam precedi-

do os bantos na ocupação da área

que, segundo eles, lhes daria direi-

to histórico na região. Os povos

da lingua banto, de estrutura mais

complexa e que hoje constituem

70% da população sul-africana,

apenas alguns outros povos esta-

vam ausentes na época do estabe-

lecimento do entreposto comer-

cial. ,

A necessidade de apropriação

de terras para a criação de gado

havia originado a dominação dos

hotentotes pelos bôeres — desig-

nação dada aos holandeses e seus

descendentes. O estilo de vida des-

ses bôeres tornou-se predominan-

temente nômade e frugal. De

ideologia calvinista puritana e sec-

tária, estavam sempre com a

Bíblia em uma mão e o fuzil na

outra para combater os africanos.

A escassez de mulheres européias

obrigou a miscigenação entre eu-

ropeus e africanos. De tais cruza-

mentos proibidos a partir de 1700,

quando a imigração se ampliou,

originou-se a população mestiça,

predominante na cidade do Cabo

e atualmente designada de "co-

loured". Por volta de 1814, os in-

gleses passam a substituir os ho-

landeses. Com a chegada dos bri-

tânicos, foi abolida a escravidão e

suprimidas em termos legais a dis-

criminação contra os "coloureds"

e asiáticos. As terras expropriadas

aos africanos, e até então cedidas

gratuitamente aos europeus, pas-

sam a ser vendidas pela adminis-

tração britânica.

A partir de então, vários con-

flitos anglo-boer sucedem-se,

muitas vezes solucionados com a

emigração dos hotentotes para

outras regiões que, por sua vez,

desestruturaram impérios africa-

nos, a exempo dos Zulus e cria-

ram os estados Orange e Trans-

vaal. As relações entre os holan-

deses e ingleses atingiram um pon-

to crítico com a descoberta das ja-

zidas diamantí feras nos novos es-

tados e a transformação destes em

domínio britânico. Junto com Ca-

bo e Natal, os novos estados pas-

saram a se chamar União Sul

Africana. Foram reconhecidas

duas línguas oficiais: inglês e ho-

landês. Este, em 1925, foi trans-

formado em afrikaans. Os bôeres

passaram a se denominar de afri-

kaneers, designando os nativos de

bantos. A independência viria em

1931, e a República trinta anos

mais tarde, adotando o país o no-

me de República Sul Africana.

Com a consolidação e a união

dos europeus, acelara-se a explo-

ração dos recursos sul-africanos.

A agricultura bôer moderniza-se e

os setores da produção sucumbem

aos setores financeiros. Tendo os

agricultores brancos se deslocado

para minas de ouro, oferecendo

sua força de trabalho em concor-

rência com os negros. Apoiando-

se em um forte movimento sindi-

cal, os mineiros brancos assegura-

ram, através de greves, o mono-

pólio das atividades qualificadas e

semi-qualificadas. Foi quando

surgiu também a lei das zonas dos

subúrbios. Era a institucionaliza-

ção do "apartheid". As zonas, si-

tuadas em terras férteis, tiveram

sua superfície gradualmente redu-

zida e hoje não ultrapassam 13%

do território nacional. São atual-

mente chamados de bantustans —

o maior campo de concentração

que a humanidade tem conheci-

mento. Não possuindo, como se

poderia pensar a primeira vista,

uma agricultura de subsistência; a

população cresce dez vezes mais

que a população branca, enquan-

to a superfície do território se

mantém inalterada. Cada bantus-

tan pertence propositalmente a

um grupo étnico diferente.

Em 1912, foi criado o Con-

gresso Nacional Africano. O

CNA se propõe a lutar pelos direi-

tos políticos dos africanos inde-

pendente de raça ou credo religio-

so, promover a consciência, edu-

cação e qualificações industriais

do povo africano. Combatendo a

lei que estabeleceu os bantustans e

a obrigatoriedade do "passe",

lançou-se a atividade sindical

criando, em 1919, a União Indus-

trial e Comercial. É posta na ile-

galidade em 1960, quando sua di-

reção passa das mãos dos velhos

notáveis para uma liderança jo-

vem de formação universitária e

sindical. Na época o presidente

era Nelson Mandela, que foi preso

e condenado á prisão perpétua,

onde está até hoje. O atual presi-

dente é Oliver Tambo, que basea-

do na "Carta da Liberdade" de-

fende uma África do Sul para to-

do o povo do país.

Na África Austral, reúnem-se

as condições para a concentração

de um projeto Pan-Africanista,

pois apresentam-se as experiências

de enfrentamento contra o neoco-

lonialismo. Os governos de Mo-

çambique, Angola, Zimbábwe,

Zâmbia, Tanzânia e outros for-

mam os "Estados da Linha de

Frente" no combate ao "apar-

theid". Em novembro de 1981, na

cidade de Maputo, foi criada a

conferência de coordenadores da

África Austral. Projeto que o pio-

neiro do Pan-Áfricanismo tentou

desenvolver na África Ociental.

Porém a inconseqüência de alguns

deres de países daquela região

aliados às forças imperialistas im-

pediram a sua consecução. Nova-

mente as condições se põem para

que a utopia se transforme em

realidade. Então mostrar-se-á ao

mundo que a África não é só ca-

paz de conquistar sua independên-

cia política como também cons-

truir a sua independência econô-

mica. Portanto, Viva a Azânia,

morra a África do Sul!

MANIFESTO NACIONAL CONTRA 13 DE MAIO

1988 — Ano do Centenário da

Lei Áurea assinada pela Princesa

Isabel no dia 13 de Maio de 1888.

Um final feliz para a classe domi-

nante; com a assinatura desta Lei,

desobrigavam-se os senhores de

escravos de pesados encargos. A

economia baseada no trabalho es-

cravo passava por grandes dificul-

dades devido à proibição do tráfi-

co de escravos, encarecendo a

compra de mão-de-obra escrava e

sofrendo fortes pressões das po-

tências coloniais.

Já nesta época, a grande maio-

ria de negros eram "livres", e os

escravos eram minoria em todo o

país. As lutas contra o trabalho

escravo avançaram, com a massa

escrava lançando mão de vários

meios para combater a escravi-

dão, compra de carta de alforria

para livrarem-se do trabalho es-

cravo, fugas em massa, suicídios,

greves de fome Cbanzo), assassina-

tos de senhores de escravos, assal-

tos, e formação de quilombos.

LUIZ GAMA, negro abolicionis-

ta, que morreu em 13 de maio de

1882, dizia que todo escravo que

mata seu senhor, seja em que cir-

cunstância for, mata em legitima

defesa. Este era o clima em que vi-

viam os senhores de escravos da

época, e entendemos por que as

classes dominantes fazem festa

nos dias atuais.

Para nós, do Movimento Ne-

gro Unificado, 13 de Maio não é

um dia de festa, é o Dia Nacional

de Denúncia Contra o Racismo.

Denúncia da forma golpista como

foi realizada a Abolição da Escra-

vatura, sendo o negro desalojado

do processo produtivo da nação,

IDi

O Movimento Negro Unificado, um dos mais importantes organismos

de resistência da Comunidade Negra, faz um Manifesto Nacional

acerca do 13 de maio. Aqui, a íntegra desse manifesto.

sem trabalho para garantir o seu

sustento, sem terra para morar e

produzir, sem escolas para garan-

tir a sua educação, enfim, sem

condições de realmente se integrar

à nova sociedade que surge a par-

tir de 1888.

A vida da maioria negra após

a Lei Áurea não passa de traba-

lhador escravizado social, entre-

gue a sua própria "sorte". Nada

foi feito para retirar a população

negra do atraso social, econômi-

co, político e cultural, resultado

de quatro séculos de escravidão.

Nestes 100 anos da malfadada

abolição pouca coisa mudou na

essência.

A grande maioria negra habita

as regiões mais pobres e insalubres

do país, constituindo 77% na Re-

gião Norte, 73% no Nordeste,

50% no Centro-Oeste, 32% no

Sudeste e 15% no Sul. Mesmo

sendo contingente majoritário em

tão vasta região como o Nor-

te/Nordeste, inexiste como pro-

prietária de terras, integrando a

categoria de posseiros, meeiros,

invasores, favelados, sem terras e

outras formas precárias de

ocupaçãode terras e moradias.

Nós negros somos ainda apenas

30% dos que conseguem concluir

o curso primário, 25% dos que

concluem o segundo grau e so-

mente 1 % dos que chegam ás uni-

veridades. Somos ainda 60% dos

que recebem até meio salário

mínimo enquanto os brancos são

42%: somos 10% dos que ganham

até 10 salários mínimos enquanto

os brancos são 87%.

As polícias e os grupos para-

militares funcionam sobre nós co-

mo agentes repressores do Estado,

praticando toda a sorte de violên-

cias; crueldades, humilhações,

torturas.

As mulheres negras, nas sua

grande maioria são empregadas

como domésticas, realizando tra-

balhos de semi-escravidão, rece-

bendo baixos salários e sem os di-

reitos trabalhistas conquistados

pelos trabalhadores, como cartei-

ra assinada, assistência médica,

fériase 13.° salário.

Em outros tipos de trabalho

são pessimamente remuneradas e

sempre desrespeitadas.

Abolição de fato pressupõe

transformações profundas na so-

ciedade brasileira, como acesso ao

trabalho e uma justa distribuição

de renda, reforma agrária sob

controle dos trabalhadores, devo-

lução aos seus descendentes das

terras conquistadas pelos quilom-

bolas e estabelecimento de uma

nova ordem de comunicação.

Antes dos discursos, carece-

mos do fim á violência policial,

fim ao desemprego, fim às doen-

ças e à mortalidade infantil.

Torna-se óbvia então, nossa au-

sência e falta do entusiasmo ao re-

verenciar os "Cem anos da aboli-

ção", uma vez que entre o enun-

ciado e o resultado prático da fra-

se não existe praticamente ne-

nhum elo.

Os homens e mulheres negras,

as entidades negras culturais, reli-

giosas, beneficentes, recreativas e

políticas têm de tomar consciência

da nossa situação e não participar

das festas de comemoração do

centenário da abolição. Devemos

aproveitar este ano para refletir

sobre nossa situação, denunciá-la

e criarmos novas formas de com-

bater o racismo e a exploração.

Devemos mobilizar a comunidade

negra para avançar nossa luta e

organizar o Movimento Negro,

tornando-o cada vez mais forte,

representativo e combativo.

Os vários agrupamentos de

poder político da sociedade brasi-

leira já se preparam para intervir

no centenário da Abolição. A No-

va República, a Igreja Católica,

os Partidos Políticos, cada um a

sua forma.

Mas por experiência histórica,

sabemos, salvo raras exceções,

quais são seus interesses era rela-

ção à população negra.

O Movimento Negro

Unificado fará atividades pró-

prias, independentes. Denunciare-

mos a situação do negro em toda a

história do nosso país, bem como

a atual, de como fomos e conti-

nuamos sendo escravizados, espe-

zinhados e dominados. Trabalha-

remos em conjunto com o Movi-

mento Negro Independente e as

organizações democráticas e pro-

gressistas de todos o país, no sen-

tido de que a população negra e

nossos aliados não negros se cons-

cientizem efetivamente da necessi-

dade de profundas transforma-

ções neste país, para que uma so-

ciedade livre se construa, onde as

diferenças raciais e sexuais não se-

jam usadas para a exploração de

um ser sobre o outro e sejam abo-

lidas as diferenças de classe.

Nossas atividades no "Cente-

nário da Abolição" se realizarão

nas ruas, nas manifestações públi-

.cas, nas indústrias, nas escolas,

nas associações de moradores e

nas entidades negras em geral,

realizando grandes concentrações

de negros e trabalhadores, setores

oprimidos dessa sociedade que

realmente têm interesse que se

acabe com todo tipo de opressão.

Convocamos a todos que par-

ticipem das reuniões e encontros

municipais, estaduais, regionais e

nacionais, locais onde se dão im-

portantes discussões para se apro-

fundar projetos que realmente

mudem a vida dos negros e de to-

dos os oprimidos. Convocamos

pessoas e organizações que junto

conosco levem à frente lutas co-

muns do Programa de Ação do

Movimento Negro Unificado,

programa amplo que busca a li-

bertação para todos, independen-

te de sexo, raça ou cor.

Temos de dar um basta defini-

tivo a esta situação e o tal centená-

rio da Abolição pode ser um im-

portante começo para pormos fim

a essa dominação.


CAMINHADA DE LUTA PÕE

ABDUÇÃO EM DÚVIDA

Caminhada de Luta e Re-

flexão, marcha que cobrirá o

trajeto Largo Paissandu-praça

da Sé reunindo negros e bran-

cos de todo o Estado, às 13 ho-

ras do dia 13 de maio, abrirá o

programa elaborado para

marcar os 100 anos da Aboli-

ção, que se comemoram este

ano em todo o País. Da cami-

nhada, que tem como objetivo

principal suscitar a reflexão de

toda a sociedade brasileira e

mundial sobre a situação da

comunidade negra no Brasil,

participarão entidades do mo-

vimento negro (sócio-

recreativas, culturais, de mu-

■ lheres, religiosas etc), além de

delegações estaduais, interio-

ranas, de centrais sindicais e

partidos políticos e personali-

dades nacionais e internacio-

nais.

Oswaldo Ribeiro, secretá-

rio de Relações Sociais do Go-

verno do Estado, que esteve

recentemente nos Estados Uni-

dos para divulgar o centenário

e convidar personalidades

americanas para a programa-

ção da qual é coordenador em

todo o Estado, diz que este é o

momento de todas as minorias

discutirem e tornarem públi-

cos seus problemas e reivindi-

cações. "Não é só o negro que

sofre os vexames da discrimi-

nação — afirma ele. Toda a

pobreza é discriminada e ela,

como bem sabemos, é com-

posta de negros, brancos,

amarelos, migrantes e outros

segmentos. Eis por que espera-

mos um grande compareci-

mento à nossa caminhada."

PROGRAMA

O programa é bastante ex-

tenso, cobrindo todos os me-

ses do ano. Destaca-se a Corri-

da para a Liberdade São Paulo

— Brasília, com saída do mar-

co zero da Praça da Sé, dia 1. 0

de maio. Serão feitos vários

revezamentos ao longo do per-

curso e, em cada cidade onde

isso acontecer, haverá uma ce-

rimônia cívica.

Ainda em maio (dias 26, 27

e 28) será realizado oi. 0 Con-

gresso Internacional dos Tra-

balhadores Negros, que discu-

tirá os problemas enfrentados

pelos negros no mercado de

trabalho, além de proporcio-

nar relacionamento e organi-

zação desses trabalhadores a

nível mundial. Os organizado-

res pretendem ainda que o

congresso deflagre campanha

mundial contra a discrimina-

ção e preconceito raciais, com

ênfase no combate ao "apar-

theid" da África do Sul.

De 2 a 27 de maio, a Uni-

versidade de São Paulo (USP)

estará realizando Ciclo de De-

bates, para discutir a imagem

do negro nos meios de comu-

nicação e, de 7 a 11 de junho,

promoverá um congresso in-

ternacional sob o tema "Es-

cravião". Mostra de cinema,

também na USP, será realiza-

da de 27 de junho a 1.° de ju-

lho. O Congresso Nacional da

Tradição e Cultura dos Orixás

ocupará o espaço entre os dias

12e 18, também de junho.

Para julho, está marcada a

Olimpíada dos 100 anos, que

vai propiciar a participação de

atletas negros, amadores e

profissionais do País e do Ex-

terior. Esse certame será ini-

ciado dia 12 e encerrado dia

19. Nos meses seguintes serão

efetivados outros itens do pro-

grama, desenrolando-se, até

sezembro, o Concurso Esta-

dual de Poesias. Em agosto

haverá a Festa da Comunidade

da Boa Morte (de 14 a 20),

Mostra Internacional do Cine-

ma Negro (21 a 26) e várias

promoções culturais no anfi-

teatro de convenções e con-

gresso da USP.

Em setembro, período de

14 a 21, será a vez do Encontro

Nacional de Entidades Carna-

valescas e no dia 15 de outubro

será escolhido o "Cidadão

Samba", em concurso que ho-

menageará o melhor sambista

do Estado, resultado de dispu-

ta aberta a todas as cidades.

ZUMBI

A 20 de novembro. Dia da

Consciência Negra, será ho-

menageado Zumbi dos Palma-

res, herói nacional não con-

templado pela história oficial

e, de outro lado, a comemora-

ção propiciará a denúncia das

condições do povo afro-

brasileiro no Brasil. Desse

evento participarão artistas

negros, representantes das en-

tidades negras, de centrais sin-

dicais, de partidos políticos e

do movimento negro. Esse

ato, a realizar-se na Praça da

Sé, terá manifestações cultu-

rais e sócio-políticas, permitin-

do uma reflexão sobre a ques-

tão racial brasileira.

ESCOLA RECEBE NOME DE LÍDER NEGRA

A Prefeitura Municipal de

Cuiabá, através do Decreto

n. 0 1.833 do mês de março,

criou a denominação da Esco-

la Municipal de 1.° Grau "Te-

reza Benguela" e nos comuni-

ca essa decisão através de

ofício onde anexa uma peque-

na biografia dessa líder negra,

de Vila Bela, e que durante 27

anos foi rainha do Quilombo,

às margens do rio Piolho,

afluente do rio Guaporé.

Tereza, com a atitude de

entregar sua vida como um úl-

timo protesto contra o massa-

cre e destruição da comunida-

de do referido Quilombo, deu

mostras do altruísmo de que

era capaz.

O Prefeito Dante Martins

de Oliveira, num gesto de alta

sensibilidade, amplia o signifi-

cado histórico-político da vida

de Tereza Benguela e

notabiliza-a!

TEREZA BENGUELA

Nasceu na África, na re-

gião de Benguela: pertencia ao

grupo Bantu. Foi trazida para

o Mato Grosso como escrava.

Conseguiu fugir para o Qui-

lombo de Quariterê, situado às

margens do rio Piolho, afluen-

te do Guaporé. Durante anos

esta comunidade foi governa-

da por seu marido e quando

este veio a falecer Tereza assu-

miu o comando do Quilombo

e o governou por 27 anos.

O Quilombo ou Quariterê

foi o maior e mais duradouro

da história de Mato Grosso.

Diferia de outros quilombos

conhecidos, a exemplo do de

Palmares, em sua organização

político-administrativa. For-

mado de escravos fugidos das

minas de Mato Grosso, de pre-

tos livres e índios, adotou co-

mo forma de governo a reale-

za. Assistia a rainha Tereza

uma espécie de parlamentar,

com capitão-mor e conselhei-

ro.

No tocante à organização

econômica do Quilombo, o

mesmo possuía uma agricultu-

ra farta e variada, a ponto de

ser notada pelos destruidores

que chamaram a atenção em

seus registros pela quantidade

de mantimentos que encontra-

ram, contrastando com a mi-

séria existente em Vila Bela e

em outras localidades de Mato

Grosso nessa época.

A rainha Tereza adminis-

trou o Quilombo, exigindo de

seus integrantes uma rígida

disciplina; condição necessária

para o enfrentamento do ini-

migo branco.

Tereza Benguela pode ser

considerada mais um símbolo

da resistência negra contra a

exploração e a violência bran-

ca, a ponto de se matar, por

ocasião da invasão e do massa-

cre dos inúmeros componentes

do Quilombo (1770), ao invés

de render-se diante da opres-

são e da autoridade dos bran-

cos.

A "REMISSÃO" DA IGREJA CATÓLICA

Durante muitos anos, e

principalmente durante o

período escravocrata no Bra-

sil, a Igreja Católica se mante-

ve ao lado do "Sistema Domi-

nador". No entanto hoje,

quando o centenário da "Abo-

lição da escravatura" é pseu-

damente comemorado por al-

guns segmentos da sociedade

brasileira, a Igreja assume

uma nova postura perante o

conceito público encampando

uma campanha da fraternida-

de voltada para a "questão do

negro no seio da Igreja Católi-

ca e no contexto social". Essa

é uma posição que visa recupe-

rar um "rebanho perdido".

Perdido por estar defasado no

universo religioso e mais pro-

priamente voltado para outros

setores da crença. Cabe aqui

algumas considerações:

gMMMM

Não pretendemos criticar

essa nova postura do clero,

mas antes devemos observar

que, para os militantes dos

movimentos negros, isso pode

representar a conquista de

mais um espaço de onde lançar

os seus anseios na luta por me-

lhores tempos. Porém, simul-

taneamente é preciso que se es-

teja alerta ao comportamento

daqueles que pretendem em-

punhar uma bandeira em prol

da problemática das questões

raciais no Brasil.

Se não houver um rigoroso

critério de unidade e perseve-

rança na conquista de cada

passo rumo à verdadeira igual-

dade, uma fenda poderá pro-

vocar uma divisão no seio da

comunidade a um virtual re-

trocesso.

O racismo no Brasil, ape-

sar de toda a negação, subsiste

de maneira solapante sob nos-

sas estruturas e está tão enrrai-

zado no subconsciente de mui-

tas pessoas, que se faz necessá-

rio um tratamento verdadeira-

mente homeopático para que

esse cancro seja extirpado das

entranhas da nossa sociedade.

É preciso que se acompa-

nhe de perto essas tentativas,

caso contrário, estarrecidos

como sempre, veremos serem

quebradas as alianças que nós

dos movimentos negros busca-

mos junto aos setores mais

progressistas da sociedade.

Nesse ponto toda a discussão

envolve até mesmo fatores

econômicos além dos sociais.

Portanto carece que os compa-

nheiros militantes da causa ne-

gra sejam verdadeiros guar-

diãeo de nossas questões, pois

não se pode aquilatar os reais

interesses de determinados de-

fensores da democracia racial

no Brasil.

ANTÔNIO LEITE

Prof. de Ciências Sociais,

Membro do Conselho Part.

Desen. Com. Negra,

Coordenador do Movimento

Negro Socialista Democrático do

Estado de São Paulo

-Eomniilaoe negra

MIKE TYSON

R0CKIII

A fantasia sempre concorren-

do com a realidade. Não precisa-

mos dizer quem vence. Com o

tempo, a resistência se afrouxa e

a mentira mostra que o "buraco

negro" era "branco" e a porta

não estava fechada com o trinco

do "Discreto Charme da Bur-

guesia".

A ditadura racial americana

continua produzindo negras loi-

ras, e o sucesso jovem, através

de operações plásticas, michael

jackson ia os espíritos. Por outro

lado, heróis e mais heróis da vio-

lência.

Atrás das pálpcbras Hitler

sorri e Josef Mengele está con-

victo de que seus ossos sào mais

brancos e puros. Sâo também

arianos. Tarzan, "rei dasselva

africana". Bem ao gosto dos

brancos do sul daquele continen-

te que se dizem (absurdo!) nati-

vos e não invasores de longa da-

ta. Nenhum progresso africano

fica impune à violência do apar-

theid (com seu poder bélico) e

aos States com sua "di-pluma-

Cia". A fome fabricada no Ter-

ceiro Mundo tem na África seu

manancial de justificativas racis-

tas. Os produtores bebem lucros

de canudinho e se regozijam com

o gostinho de sangue.

Quem não conhece o Fantas-

ma da revista em quadrinhos?

Com seu mistério e poder, que

passa de geração para geração de

dominadores, continua justifi-

cando no imaginário a sede insa-

ciável do neocolonialismo bran-

co. A fantasia de um "Fantas-

ma" assusta e ilude não apenas

os nativos dos gibis, mas condi-

ciona os ativos do trabalho que

gera o capital e massageia a cul-

pa inevitável.

E qualquer ídolo, que venha

fornecer concorrência (visual

que seja) à supremacia branca,

encontrará o seu contrário, mais

forte, no imaginário.

Assim, veja se isso é coinci-

dência:

Realidade: Mike Tyson (ne-

gro) X Tony Tubbs (negro) —

domingo - 20/3/88 — 23h30 —

TV Bandeirantes direto do Ja-

pão. Cinema: Rock (111) Balboa

(branco) X Clubber Lang (ne-

gro) dia seguinte -- 21h30 — TV

Globo.

PUNIPLIN!...

No ringue japonês, comple-

tamente lotado, não houve des-

taque para um grande pugilista

branco. Tyson nocauteou Tubbs

no segundo round. Negro venceu

negro. Os comentaristas da luta

não deixaram de lançar ao ven-

cedor, os adjetivos pobres e, por

que nâo dizer, racistas: "fera,

instinto animal, bicho etc..."

Sem chance de vitória, contudo.

Porém, no filme, Rock depois de

ser vencido por Clubber (tam-

bém vítima do adjetivo "sádico"

e comparado a um "armário em-

butido" — veja a Veja) pede re-

vanche e se desforra.

Taí! Um branco, campeão

dos pesos pesados, personagem

ficitício, indo pro vídeo em 98

minutos de projeção, após luta

real entre dois negros que nâo

durou 10.

Ingênuos acreditam que

Rock III (Globo) apenas lutou

contra Jô Soares (TVS) pela

atenção dos espectadores. Mas o

buraco é mais embaixo. E bran-

co. O racismo se disfarça mas

não falha.

Essa luta teria sido melhor se

MikeTyson não fosse "mudo" e

pronunciasse os discursos de

Mohamed Ali. Ai sim, teria ven-

cido, no domingo, o Rock 111 da

segunda-feira. Nào por nocaute.

Os fantasmas sâo vencidos por

pontos.

CUTI (Lufs Silva)

Autor dos livros Poemas da

Carapinha (1978); Batuque de Tocaia

(poeinai — 1982): Suspensão (Teatro

—• 1983); Flash Crioulo sobre o

Sangue e o Sonho (poemas — 1987);

Qui/ila (contos — 1987) c Terramara

(Teatro— 1988),

.11


ímãiúaile negra.

O

NEGRO

NO

BRASIL

Portugal não descobriu o

Brasil — Invadiu o Brasil, que

tinha cinco milhões de

aborígenes, erradamente cha-

mados de "índios", confun-

dindo o Brasil com a índia.

Eram eles os donos legítimos e

indiscutíveis de todo o atual

território nacional.

O português desalojou os

aborígenes, tomou-lhes as ter-

ras, e não lhes deu nada!... É

chamar isto de "descoberta" e

de "conquista" do território

do Brasil.

Não contentes com isto, es-

cravizaram os índios porque

Portugal não tinha gente bas-

tante para povoar e ocupar o

Brasil imenso! Mas os aboríge-

nes não estavam acostumados

a este sistema (capitalista sel-

vagem) de trabalho, e por isto

não rendiam muito e resistiam

à opressão, como o provam

em inúmeras guerras contra

eles para tomar suas terras e os

escravizar.

E então os portugueses fo-

ram buscar escravos na Áfri-

ca, onde os negros também

eram os únicos e legítimos do-

nos de todo o Continente, ex-

ceto o norte, "conquistado"

por outros brancos.

Sendo os negros mais ingê-

nuos que os aborígenes — me-

nos organizados, mais dóceis

foram também escravizados e

trazidos para o Brasil. Quem

não conhece a verdadeira his-

tória (sem estórias teleguiadas)

não faz a mínima idéia do que

isso significa! Analisemos,

pois: primeiro a luta e carnifi-

cina na África onde os Negros

resistiam para não se entregar.

Depois o confinamento em

porões infectados dos navios e

caravelas, em que eram trans-

portados como animais. Vinte

por cento morriam no trans-

porte da África para o Brasil.

Calcula-se que no mínimo seis-

centos mil defuntos foram lan-

çados ao mar!

Os oitenta por cento que

chegavam vivos ao Brasil eram

vendidos nos mercados de ne-

gros como se vendem animais!

Ninguém levava em conta sua

família, seus costumes, suas

religiões. Marido para cá mu-

lher para lá — filho com outro

dono! Quem os compra era o

dono, "senhor" absoluto de

seu destino! Baseado em que

direitos? Em nenhum! Na for-

ça só! Há muito a dizer e é um

nunca terminar. E foi graças

aos negros e aborígenes

(índios) que o Brasil cresceu,

até como "povão" — com mi-

12.

Ihões de negros, mestiços e

mulatos que enchem o Brasil.

E apesar de tudo e todos con-

tra, o negro ainda conseguiu

manter boa parte de suas

raízes africanas e de sua identi-

dade cultural.

Vieram depois as "colô-

nias" dos imigrantes — e ago-

ra os "bóias-frias" e os imen-

sos latifúndios, produtivos só

para os patrões (não para o

Brasil), continuando a

escravatura (mitigada, embo-

ra) dos campos e das metrópo-

lis...

As Igrejas Cristãs, tanto

protestantes como a católica,

não concordavam (em tese)

com a escravidão — e muito

menos com os desmandos e

abominações praticados pelos

patrões. Mas não tinham força

moral, e muito menos política,

para se opor ao Governo es-

cravagista — e muito menos

para exigir a abolição da escra-

vatura, considerada indispen-

sável ao "progresso" material

de Portugal e depois do Brasil.

Libertados todos os escravos,

quem é que produziria tanta

riqueza (para tão poucos) de

graça, e como os aborígenes

(índios) e os negros escravos

faziam? Esta razão do Estado,

que apesar de nominalmente

cristão, mantinha como base

insubstituível de seu sistema

político a escravidão. E os

protestantes e católicos, donos

de escravos, só se preocupan-

do em batiza-los (fazer cris-

tãos) mantinham-nos na mais

ínfima degradação! Vozes es-

parsas, porém, tanto protes-

tantes como católicas,

fizeram-se ouvir, tanto em de-

fesa dos aborígenes (índios)

como dos negros, que nem al-

ma tinham, nem gente eram,

na opinião de muitos donos,

políticos e professores. Opi-

nião que ainda subsiste no am-

biente cristão, como o provam

esteriótipos vazados no in-

consciente: "índio e preto não

são gente", etc. etal...

A Santa Fé respondeu com

uma Encíclica famosa, repu-

diando esta opinião mas tudo

MEMÓRIA

ficou no papel, como também

outras medidas isoladas toma-

das no Brasil pela Igreja local.

Exatamente como aconteceu

com o Apóstolo Paulo, que

não só não pôde condenar a

escravidão (seria pior) mas até

manda a Tito que exorte os es-

cravos a serem dóceis e obe-

dientes a seus patrões! (Tit. 2,

9 e 10). Mas teoricamente

iguala servos (escravos) e pa-

trões perante Cristo (Gal. 3, 28

— Coloss. 3, 11). Mas tendo

convertido Onésimo na prisão,

manda a Filomen, patrão de

Onésimo, uma carta que pode

ser considerada a primeira car-

ta de alforria cristã. (Filomen,

10a21).

ANDRÉ REBOUÇAS

Aqui, um pouco da vida de ANDRÉ REBOUÇAS,

uma das mais expressivas figuras abolicionistas.

André Pinto Rebouças —

Engenheiro baiano, nascido

em 13.1.1838 e falecido em

9/5/1898, em Funchal —

Ilha da Madeira. Era o pri-

meiro filho de Antônio Pe-

reira Rebouças; seu pai se or-

gulhava de ter sido no Parla-

mento o representante da ra-

ça negra, na época do Impé-

rio. Seus irmãos, Antônio

Pinto Rebouças, o principal

construtor da Estrada de Fer-

ro Paranaguá-Curitiba, e Jo-

sé Pinto Rebouças, também

se destacaram, como enge-

nheiros.

André Rebouças tirou

carta de militar em 1860, e

durante dois anos permane-

ceu na Europa

especializando-se na constru-

ção de docas e vias férreas.

Foi o construtor das pri-

meiras docas não só no Rio

de Janeiro, como no Mara-

nhão, Paraíba, Pernambuco

e Bahia.

Rebouças foi professor

de nível superior, na Escola

Central, depois Politécnica, e

seu nome projetou como

ideólogo na campanha aboli-

cionista.

"Da Abolição" — escre-

veu Joaquim Nabuco — ele

foi o maior, não pela ação

exterior, ou influência direta

sobre o movimento, mas pela

força, altura da sua projeção

cerebral, Rebouças possuía

uma rotação vertiginosa de

idéias e sensações em torno

do eixo consumidor e can-

dente, que era para ele o so-

frimento de seus irmãos es-

cravos. Não há exageros nes-

tas palavras.

Rebouças entendia que,

após a libertação, tornava-se

Redenção da Serra

urgente a reestruturação da

sociedade brasileira ou, co-

mo disse: a triangulação do

Brasil.

A divisão de terras era

um dos objetivos desse pla-

nejamento. Chegou mesmo a

usar a expressão "Democra-

cia rural", antecipando-se

assim ao que hoje se denomi-

na reforma agrária. Comba-

teu violentamente a chamada

"Lei de Terras" que fora im-

posta em 1850 pelos latifun-

diários da época. Sendo um

homem de idéias mais avan-

çadas de seu tempo (um pro-

gressista), quase um socialis-

ta, não aceitaria contudo, a

República, sendo fiel a D.

Pedro II, a quem acompa-

nhou no exílio, prontificou-

se a servi-lo com a "dedica-

ção africana". Não voltaria

jamais ao Brasil. Depois da

morte do imperador, procu-

ra, ao contrário, encontrar as

suas origens, refugiando-se

na África, por um novo ideal

a que se dedicou em seus últi-

mos dias: o de libertar o con-

tinente negro. Viveu seis

anos na África, percorrendo

principalmente as possessões

portuguesas, para fixar-se

por fim na Ilha da Madeira,

onde faleceu misteriosamen-

te em Funchal, tendo sido en-

contrado, boiando no mar,

ao pé de uma escarpa de mais

de 60 metros, sem ter ficado

esclarecido se fora acidente,

suicídio ou atentado crimino-

so. O certo é que aos 60 anos

possuía muita energia e um

invejável ideal de luta pela li-

bertação do continente afri-

cano. Deixou entretanto o

seu exemplo, e, em São Pau-

lo, a Av. Rebouças lhe presta

a devida homenagem.

1? MUNICÍPIO A UBERTAR EM SP

Redenção da Serra, Cida-

de do Vale do Paraíba, a al-

gumas dezenas de quilôme-

tros distante de Taubaté, tem

sua história ligada á liberta-

ção dos escravos. No começo

do século XIX, o Governa-

dor da Província ordenou ao

capitão-Mor Francisco Fer-

raz de Araújo e sua mulher

Francisca Galvão da Fontou-

ra, que penetrassem no ser-

tão hoje denominado Sa-

mambaia, até encontrar o rio

Paraitinga. Cumprindo tais

determinações o casal de ser-

tanistas, acompanhado de

grande número de escravos, e

depois de longa peleja, pôde

estabelecer-se às margens do

rio procurado. Faleceu um

dos escravos na abertura do

caminho ficando sepultado a

nove quilômetros do local

onde Francisco Ferraz de

Araújo fizera sua casa. Foi

erguida uma grande cruz, pa-

ra assinalar a sepultura do es-

cravo desbravador. Ferraz de

Araújo, a todos que lhe soli-

citavam terras, mandava que

construíssem nas proximida-

des da cruz sendo esta a úni-

ca condição por ele imposta.

Em breve ali está uma cape-

la. Uma modesta plantação

de linho, à frente das primei-.

ras choupanas, deitava o li-

nho a secar em pequeno

paiol. Nasceu, assim, espon-

taneamente, o nome do luga-

rejo que crescia: Paiol + li-

nho, Paiolinho, designação

que ficou até 1877, quando

foi criada a paróquia.

A idéia de libertação da

escravatura de há muito esta-

va em marcha. Publicistas,

jornalistas e parlamentares

porfiavam em acender o en-

tusiasmo nacional. Em todas

as cidades, tanto nas grandes

quanto nas pequenas, a idéia

libertadora era a preocupa-

ção de conservadores e libe-

rais. Ora, em Paiolinho che-

gavam ecos da campanha

abolicionista, logrando fazer

prosélitos. População peque-

na, de hábitos sossegados,

em breve se torna uma fo-

gueira cívica. Urgia libertar

os escravos, importava aos

paiolenses que os pretos não

continuassem sob o látego

impiedoso dos grandes se-

nhores rurais. E, então, de-

pois de muitas cogitações en-

tre os homens mais impor-

tantes do lugar, foi tomada

esta decisão histórica: Paioli-

nho daria a todo o Pais um

extraordinário, um imenso

exemplo de civismo, libertan-

do seus escravos. O gesto se-

ria feito sem alardes, em uma

reunião, de fazendeiros, que

ficaria memorável nos fatos

da história pátria. E no dia

10 de fevereiro de 1888 foi re-

digido, na reunião anuncian-

do o seguinte documento:

"Os abaixo-assinados lavra-

dores do município de Re-

denção, declaramos que nes-

ta dacta damos liberdade a

todos os nossos escravos,

continuando no trabalho me-

diante salário convencional.

Redenpção 10 de fevereiro de

1888. Maria L. D'Almeida,

Gabriel Ortiz Monteiro, Joa-

quim A. Camargo Ortiz, An-

tônio A. da Palma & Irmão,

PP. do Exmo. Sr. Monse-

nhor João Alves Coelho Gui-

marães, José Lopes Leite de

Abreu, Joaquim Antônio

dos Santos, Lourenço Ottoni

de Gouveia Castro.''

Se Paiolinho seria o pri-

meiro trecho do território

paulista a dar liberdade aos

escravos, por que continuar

com a designação primitiva?

Merecia bem uma designação

que eternizasse o feito gran-

dioso. E foi assim que ao

mesmo tempo tomou o novo

nome sob aplausos Reden-

ção.


ASSESSORIAS DO CONSELHO

à DISPOSIÇÃO DA COMUNIDADE

Encontram-se atuante e em

pleno funcionamento à dis-

posição da comunidade ne-

gra e de toda a população

em geral, várias Assessorias

e Comissão Permanente

com o propósito de dar am-

plo atendimento e encami-

nhamento em suas áreas es-

pecíficas.

Os serviços prestados por

tais assessorias e comissões

são gratuitos e o atendimen-

to ocorre em horário nor-

mal de expediente diurno.

Encontrando-se em dificul-

dades você poderá recorrer

a um destes serviços nos res-

pectivos endereços:

ASSESSORIA DE AÇÃO COMUNITÁRIA

Rua Antônio de Godoy, n. 0 122 - 7.° andar/sala 74

NEUSA MARIA PEREIRA LIMA

ASSESSORIA ESPECIAL DE PROJETOS POPULARES

Rua Antônio de Godoy, n." 122 - 7.° andar/sala 71

CARLOS BENEDITO DA SILVA (CARLÃO)

COMISSÃO DE ADVOGADOS

Rua Antônio de Godoy, n." 122-9.° andar/sala 97

JOSÉ ROBERTO MILITÃO FERREIRA

COMISSÃO DE APOIO ADMINISTRATIVO

Rua Antônio de Godoy, n. 0 122-9.° andar/sala 96

ANTÔNIO LEITE / JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA /

OSMAR CÉSAR DE CARVALHO

COMISSÃO DE EMPRESÁRIOS "GRANDES, PEQUENOS

E MICROS"

Rua Antônio de Godoy, n.° 122 - 7.° andar/sala 75

ANTÔNIO ROBERTO DE CARVALHO CRUZ

COMISSÃO DA JUVENTUDE

Rua Antônio de Godoy, n. 0 122 - 7.° andar/sala 76

MÁRIO LUIZ CORTES

COMISSÃO DE MULHERES NEGRAS

Rua Antônio de Godoy, n.° 122 - 7.° andar/sala 78

VILMA LÚCIA DE OLIVEIRA

COMISSÃO DA PASTORAL DO MENOR

Rua Antônio de Godoy, n.° 122-7.° andar/sala 71

SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA

Rua Libero Badaró, n.° 39 - CEP 01009

Representante: TEREZA SANTOS

SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO

Praça da República, n.° 53 - CEP 01045

Representante: Raquel de Oliveira

SECRETARIA DE ESTADO DE GOVERNO

Av. Morumbi, n.° 4.500

Representante: MILTON SANTOS

SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DE JUSTIÇA

Pátio do Colégio, n." 148 - CEP 01016

Representante: CARMEN LÚCIA DOS SANTOS

SECRETARIA DE ESTADO DO MENOR

Rua Bela Cintra, n." 1.032 - CEP 0I4I5

Representante: OSCAR LUIZ GARD1ANO

SECRETARIA DE ESTADO DA PROMOÇÃO SOCIAL

Rua Bela Cintra, n.° 445 - CEP 01415

Representante: ADEMAR FERREIRA DA SJLVA

SECRETARIA DE ESTADO DE RELAÇÕES DO

TRABALHO

Av. Brigadeiro Luiz Antônio, n.° 554 - CEP 01318

Representante: MARIA APARECIDA S.B. TEIXEIRA

SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE

Av. Dr. Arnaldo, n.° 351 - CEP 01246

Representante: CLAUD1NE1 CORREIA ALVES

SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA

SEGURANÇA PÚBLICA

Av. Higienópolis, n. 0 758 - 01238

Representante: Ten. Cel. PM JURANDIR ROQUE CARLOS

BITTENCOURT

CORREGEDORIA ADMINISTRATIVA DO ESTADO

Representante: DULCE SALGADO AMOROSO

É preciso que todo traba-

lho a ser desenvolvido pelo

conselho seja elaborado a par-

tir de dois princípios básicos:

O aumento da participação

da comunidade e a transparên-

cia dessas medidas.

Somente a participação

efetiva da comunidade fortale-

cerá o movimento em suas rei-

vindicações, trazendo em seu

bojo o surgimento de novas li-

SERVIÇOS

munéie negra

COMUNIDADE NEGRA E 0 MERCADO

Com o objetivo de contri-

buir para a urgente inserção da

comunidade no mercado na-

cional, buscando espaços que

nos assegure a crescente parti-

cipação da riqueza interna ge-

rada e a conseqüente melhoria

de padrões de vida e capacida-

de de investimento,

permitindo-nos sonhar com a

luta pelo poder, foi criada no

Conselho a Comissão de Arre-

gimento Empresarial.

Os iniciadores do trabalho

buscam arregimentar, para

discussões preliminares, com-

panheiros com preocupações

empreendedoras. Dessa for-

ma, algumas reuniões já ocor-

reram, com a presença do mais

variado público, entre os quais

jornaleiros, cabeleireiros, cos-

tureiros, contadores, adminis-

tradores, serralheiros, vende-

dores de doces, pipocas, cons-

trutores, agenciadores, consul-

tores, publicitários, altos exe-

cutivos, etc.

Diante da realidade de es-

tarmos juntos, as primeiras

iniciativas buscando a criação

de uma associação que nos

permitisse uma participação

conjunta mais organizada fo-

ram surgindo.

A idéia vem prosperando e

o número de adeptos crescen-

do. Hoje, já temos um número

superior a duzentos micro, pe-

queno e médio empresários ca-

dastrados. Alguns grupos de

trabalho foram criados, os ca-

dastrados estão sendo segmen-

tados para uma análise ade-

quada sobre as formas de

atuarmos em conjunto, sem

utopias e sonhos.

Nessa dinâmica, levanta-

mentos e sondagens, estão sen-

do efetuados, buscando apoio

a essa proposta gerada no

Conselho. Entidades estatais,

privadas, associações de em-

presários, autoridades públi-

cas, líderes comunitários têm

sido contatados.

Um plano de ação está sen-

do elaborado, assim como a

proposta de estatutos, visando

ao surgimento de um organis-

mo forte, moderno, coerente,

dinâmico, que fomente a for-

mação de novos empresários

negros, e apoio em todas as

áreas possíveis, os já existen-

tes.

No último dia 28 de janei-

ro, a Comissão realizou mais

uma reunião, quando estive-

ram presentes: Dr. Antônio

Carlos Bonetti — Secretário-

executivo do CEAG/SP;

Dr. Jair Lopes — Diretor

da Secretaria da Fazenda;

Dr. Élvio Aliprandi — Su-

perintendente do Cons. Peq.

Médias Empresas da Associa-

ção Comercial de São Paulo;

Renato Donatelo Ribeiro

— Representante do Banco do

Brasil;

Walter José Baschini Filho

— Representante do Banespa;

Ulysses Alves de Sousa —

da Secretaria da Ciência e Tec-

nologia.

O encontro contou ainda

com técnicos do CEAG, que

exibiram um vídeo sobre o tra-

balho do órgão.

Com o desenvolvimento da

proposta, inúmeros eventos

estão sendo programados,

buscando contribuir para o

aprimoramento e maior apro-

ximação de nossos empresá-

rios, assim como os candida-

tos a empresários, com o mer-

cado e suas engrenagens.

Profissionais das mais di-

versas áreas estão-se apresen-

tando para também contribuir

com a iniciativa, fato que nos

tranqüiliza quanto aos resulta-

dos que em breve se farão pre-

sentes.

Aos interessados em infor-

mações complementares, a

Comissão tem realizado um

plantão de informações no 7.°

andar, sala 75, do próprip pré-

dio do Conselho.

Coordenador

Antônio Roberto C. Cruz.

COPA: CENTENÁRIO DA ABOLIÇÃO

O Conselho de Participa-

ção do Desenvolvimento da

Comunidade Negra do Estado

de São Paulo, em alusão ao

ano do Centenário da Aboli-

ção do Negro no Brasil, reali-

zará, nos próximos meses

maio/junho de 1988, a

"COPA CENTENÁRIO DA

ABOL1ÇÁO DE FUTEBOL

DE CAMPO".

A Copa Centenário da

Abolição será desenvolvida em

7 (sete) fases, com 24 (vinte e

quatro) partidas, envolvendo

64 (sessenta e quatro) equipes

e 1.024 (mil e vinte e quatro)

atletas.

A disputa da Copa Cente-

nário da Abolição será realiza-

da por zonas: Norte/Sul/Les-

te/Oeste, com 16 (dezesseis)

equipes cada.

As equipes campeã e vice-

campeã de cada zona passará a

disputar as fases seguintes,

que apontará a equipe vence-

dora da Copa Centenário da

Abolição.

A organização e coordena-

ção da Copa Centenário da

Abolição serão de total com-

petência da Assessoria Espe-

cial de Projetos Populares do

Conselho da Comunidade Ne-

gra.

A Assessoria Especial de

Projetos Populares responsá-

vel pela organização da Copa

Centenáro da Abolição no-

meará uma subcomissão, que

atuará em todos os setores.

Em cada zona será escolhi-

do um campo pela organiza-

ção do evento, onde realizará

as disputas.

COMISSÃO DA JUVENTUDE

A PARTICIPAÇÃO COMO COMPROMISSO

deranças, novas idéias e maior

dinâmica. E a transparência

ao iniciarmos qualquer traba-

lho participativo não deverá

ter outro rumo, senão o da

conquista de nossos direitos e

anseios; a igualdade.

Em todos esses anos surgi-

ram aqueles que,

conclamando-se líderes num

processo espúrio que signifi-

cou como se sabe o descrédito

generalizado, prejudicaram as

verdadeiras lideranças e os que

trabalhavam com seriedade.

Tais líderes nada representa-

vam, objetivavam apenas be-

nefícios pessoais, certo tam-

bém que essa espécie de lide-

rança não é privilégio apenas

da nossa comunidade.

Todos os segmentos do

movimento negro entendem

que é necessária uma maior re-

presentatividade política da

nossa comunidade em todos os

níveis, gerando compromissos

com aqueles que realmente

procuram o avanço da comu-

nidade negra e da sociedade

em busca da justiça social.

Não podemos temer a par-

ticipação, já que somente uni-

dos teremos condições de atin-

gir nossos objetivos.

O temor faz parte dos fra-

cos e aproveitadores que com

a participação efetiva vêem en-

Através de sorteios é que se

dará o conhecimento dos con-

frontos das equipes.

As equipes participantes da

Copa Centenário da Abolição

não terão nenhum tipo de en-

cargo, taxa ou contribuição.

Será de inteira responsabi-

lidade da equipe inscrita na

Copa Centenário da Abolição

a condução dos jogadores ao

local do jogo.

As inscrições serão feitas

na sede do Conselho da Co-

munidade Negra, na rua Antô-

nio de Godoy, 122, 7.° andar,

sala 71, em horário comercial.

As equipes e jogadores recebe-

rão certificados e medalhas pe-

la participação na Copa Cen-

tenário da Abolição.

As equipes, até o 4.° lugar,

receberão troféus de classifica-

ção.

cerrar seu ciclo de desmazelos.

As cobranças que virão fa-

zem parte do aprimoramento.

A discriminação não dife-

rencia o negro partidariamen-

te, e nós também não devemos

fazê-lo.

O livre pensar é um direito

e o direito é anseio de todos,

não importa com quem andas,

mas apenas o que sempre se-

rás: Negro.

.13


mmmmm.

jwiaanwiii i i

ECONOMIA E POLÍTICA

POLíTICA E INDEPENDêNCIA

Uma das condições mais

importantes para a promoção

e o desenvolvimento do ser hu-

mano gira em torno das opor-

tunidades, que ele tem de ex-

ternar suas idéias e de contri-

buir com sugestões e traba-

lhos, antes que o sistema prati-

que atos que o afetem.

Por uma participação des-

sa ordem o ser humano torna-

se cada vez mais consciente

dos problemas seus e de seus

semelhantes e obtém legítima

satisfação ao saber que suas

opiniões e pontos de vista são

levados em consideração na

procura de soluções, que de-

terminarão o bem comum.

Essa espécie de participa-

ção prevalece, de certa manei-

ra em níveis bem inferiores na

comunidade negra, e é inexis-

tente, ou quase, em níveis mé-

dios e superiores, onde acordo

de manipuladores, imaturos e

insensatos prevalecem em de-

trimento de toda uma comuni-

dade.

Algumas pessoas insistem

em que os partidários de uma

participação vinda das bases

da comunidade são sonhado-

res, que estão fora da realida-

de.

Entretanto, pudemos cons-

tatar a existência de casos bem

sucedidos na Velha República,

como Bandeira do Custo de

Vida, a luta empenhada por

dirigentes sindicais para a con-

solidação da Central Geral dos

Trabalhadores, que com novas

táticas e renovado discurso se

identificaram com a classe tra-

balhadora e hoje arrebata para

suas hostes mais de trinta mi-

lhões de trabalhadores. Sabe-

mos que estes espaços foram

abertos a partir da organiza-

ção, cooperação, e que atual-

mente ele encontra ressonân-

cia nos meios políticos, social

e econômico.

Sabemos que a questão da

participação não poderá lo-

grar êxito, se as condições de

proteção não forem abordadas

de maneira adequada. Todos

os malogros para estímulo de

nossa comunidade, verificados

em debates, nos centros de lu-

ta negra, seminários, conven-

ções partidárias, podem ser ex-

plicados pelo fato primordial

de que a independência políti-

ca, econômica e social, não

pode ser alcançada, quando

não há a devida proteção para

que se supram necessidades

básicas de qualquer segmento

populacional, isto quer dizer

que, a liberdade, desenvolvi-

mento e participação da comu-

nidade negra, não passa sim-

plesmente, pela comunidade

negra, passa sim por todos ho-

mens e mulheres negras e não

negros, preocupados na con-

cretização da verdadeira de-

mocracia neste País.

Dentro desta perspectiva

coloco a responsabilidade,

que, também, deve ser exigida

a todos os negros, pois a co-

munidade negra deseja a parti-

cipação e a procura em todos

os espaços, e sabemos, que ele-

mentos inseguros ou rebeldes

buscam a nossa independência

e participação no sentido reati-

vo: não aceitam responsabili-

dade, procuram liberdade e

não dão oportunidade de reali-

zação e desenvolvimento da

comunidade. A boa vontade

em assumir ou dar responsabi-

lidade é um fenômeno, que ad-

vém da maturação.

O processo de confiar res-

ponsabilidade a novos elemen-

tos é delicado e preocupante

para os dois lados. A confian-

ça dada por setores paternalis-

tas, exige cabresto, e a sua

aceitação esta sujeita a uma di-

ferenciação individual de tole-

rância atinente a inevitáveis

pressões e insegurança, e dian-

te deste quadro podemos afir-

mar: que algumas pessoas pa-

recem se contentar em alcan-

çar um alto grau de proteção

individual, sem independên-

cia, em detrimento da coletiva,

que busca a sua independên-

cia.

Uma atuação eficaz hoje,

passa pela comemoração do

Centenário da Abolição, que

deve ser comemorado com vo-

tos conscientes e organizados,

pois estamos vendo neste ano

histórico, onde procura-se

concretizar um novo texto

constitucional, que dará as re-

gras básicas ao país para

adequá-lo a evolução das rela-

ções sociais, políticas e econô-

micas da população brasileira

e, infelizmente, nas casas legis-

lativas onde se processam

RONALDO SIMÕES

aquelas mudanças, muito pou-

cos afro-brasileiros lá estão, e

daquele diminuto grupo, pou-

cos são os que realmente têm o

rabo amarrado com nossa co-

munidade. Mas isto são águas

passadas, que a lembrança nos

dá uma única e verdadeira li-

ção: o que não devemos fazer.

Por outro lado, devemos

nos preocupar em desestimu-

lar procedimentos individua-

listas, que é difícil devido à

forma arraigada como este

comportamento se encontra

em algumas "lideranças" ne-

gras, mas acredito que com o

empenho de todos os negros

progressistas da nossa comuni-

dade, consigamos demover es-

te grande obstáculo, que vem

interferindo no processo de

participação efetiva de toda a

comunidade negra no cenário

político paulista. Quiçá, que

seja em 1988. Axé!

RONALDO SIMÕES

Psicólogo, conselheiro

membro da equipe técnica da Se-

cretaria do Menor

PUPILOS DO PODER PARTICIPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

A ausência de real poder

econômico da Comunidade

Negra, constituí o maior obs-

táculo para que o Negro parti-

cipe ativamente nos destinos

da Nação.

O sucesso de alguns poucos

negros na Administração Pú-

blica não quer dizer que exista

Democracia Econômica. Cada

dia se deterioram as condições

sócioeconômicas da massa ne-

gra.

A Comunidade Negra não

pode cometer o suicídio de se

tornar um Colosso com os pés

de barro! Somos a maioria em

população e pouco influímos

na administração pública.

Atravessamos um momen-

to histórico onde a contradi-

ção entre castas e classes é par-

ticularmente aguda: de um la-

do um poder político emergen-

te e do outro a falta de diálogo

entre as massas e os líderes da

Comunidade Negra, fato este,

que impede um aprofunda-

É médica formada pela Esco-

la de Medicina e Saúde Pública

de Salvador. Ex-coordenadora

das Unidades de Medicina Pre-

ventiva da Fusan. Em Osasco

trabalhou: no Posto de Saúde de

Vila Yolanda, Jd. Baronesè, Jd.

Sto. Antônio. Pronto-Socorro

Infantil eJ.K.

Trabalhou como Secretária

da Saúde do Município de Osas-

co. Lá instalando a Casa da

Mulher, que mantém um pro-

grama de atenção específico aos

problemas da mulher. Implan-

tou o programa de saúde do tra-

balhador em conjunto com sin-

dicatos e outras associações de

classe. Promoveu reformas no

Hospital J.K., acionou a campa-

nha contra a Dengue e a Febre

14,

mento na reflexão política e na

tomada de consciência dos

problemas da maioria negra

neste país.

Urge conhecer e combater

os mecanismos de discrimina-

ção que atuam fortemente na

sociedade brasileira. Nós, ne-

gros, precisamos entender que

negociar, é preciso, a entrada

de Grupos Negros no cenário

nacional. Não podemos per-

manecer como pupilos do po-

der público, queremos assumir

a condição de cidadãos brasi-

leiros, por conseguinte, côns-

cios de nossos direitos e res-

ponsabilidades. "TAKE CA-

RE BUSINESS". Cuidemos

de nossos negócios. Trata-se

de incluir os Negros em todos

os níveis de decisão. Os Ne-

gros não devem somente aca-

tar decisões, mas participar da

elaboração das que condicio-

nam suas vidas.

ALBERTO MELO

Hoje quando a comunida-

de negra é colocada no centro

das atenções, tendo como pa-

no de fundo o "Centenário da

Abolição", é forçoso que se

faça algumas reflexões acerca

da sua insecção no panorama

nacional.

A ênfase com a qual é pres-

tigiada hoje, não foi e não é a

mesma quando a discussão

passa pelos programas de de-

senvolvimento econômico e

social implemantados durante

décadas. À luz das experiên-

cias desenvolvimentistas leva-

das a efeito nesses anos,

observam-se profundas altera-

ções no perfil da sociedade

brasileira. Os esforços econô-

micos geram redistribuições,

sofisticaram-se as relações so-

ciais e assistiu-se ao surgimen-

to da "8." Economia do Mun-

do". Planos de estabilização

sucederam-se, mas o decanta-

do desenvolvimento econômi-

co não se concretizou no senti-

ESPECIAL/MULHER

do de transformar em afluente

parcela da população. Ao

mesmo tempo em que novas e

modernas unidades produtivas

foram criadas e segmentos ou-

tros puderam ter acesso à ri-

quezas e rendas, a comunidade

assistiu como que impassível á

contabilização, para nós todos

de prejuízos inamortizáveis

mas em contra partida para

outros segmentos de fatores

multiplicadores de lucros e be-

nefícios.

Em vista disso, faz-se ne-

cesario que se estabeleça um

planejamento global com ob-

jetivos de longo prazo defini-

dos com vistas postas na con-

secução de avanços nas áreas

econômicas, com acesso a or-

ganização de unidades produ-

tivas e geradora de empregos e

renda institucional, atuando

para atingir a representativida-

de política, social, consolidan-

do os avanços já obtidos e de-

sobstruindo os canais inibido-

UM EXEMPLO DE MULHER NEGRA!

Amarela, entre outas coisas, exi-

gindo do Ministro de Saúde um

pedágio para tirar os motoristas

que entrassem na cidade.. Pro-

moveu aplicação no PS do Jd.

Sto. Antônio para prestar me-

lhor atendimento a população.

Participou da VIII Confe-

rência Nacional em Defesa do

Consumidor em Brasília. Auto-

ra do projeto da Reestruturação

do Código Sanitário. Foi res-

ponsável pela implantação de

ações simples em Postos de Saú-

de para facilitar o atendimento a

pessoas mais carentes.

Como mulher política, foi

fundadora do PMDB em Osasco

e logo em seguida assumindo os

cargos de secretária, vogai,

membro e delegada do Diretório

Municipal. Fundadora das So-

ciedades Amigos de Bairros do

Jd. Veloso, Jd. Lofredo, funda-

dora também de associações de

Mulheres do Jd. das Rosas, Jd.

Aliança, Jd. Oriental e Uniào

dos Moradores em defesa de

suas áreas. Participou de diver-

sas lutas por melhores condições

de moradia, por iluminação pú-

blica, creches, canalização de

córregos e esgotos, asfaltamento

etc. Promoveu palestras educati-

vas a respeito de Higiene e Saúde

com temas sobre sexualidade na

infância, prevenção do câncer,

planejamento familiar, relacio-

namento entre casais. Dengue e

Febre Amarela, os direitos de

mulher, adolescência e seus pro-

blemas, alcoolismo, tóxicos,

AIDS, alimentação e nutrição,

meio ambiente.

É lutadora, organizou até ca-

ravana para Brasília, para parti-

cipar da Campanha pelas Dire-

tas Já.

res da efetiva participação e

desenvolvimento.

A ausência de uma estraté-

gia global com esses objetivos

de longo prazo fez com que

nesses anos todos desperdiçás-

semos nossos escassos recursos

materiais em perdulárias e im-

produtivas atuações, provo-

cou a subutílização de recursos

humanos (que a comunidade

demora anos para formar rela-

tivamente a outros segmentos)

com atuações equivocadas e

individualistas.

Em suma, a ausência dessa

vontade política fatalmente

deixará passar novas oportuni-

dades de avanço que dificil-

mente se repetirão a curto pra-

zo. Por outro lado a eventual

priorização da Comunidade,

hoje, perderá espaço para a

discussão dos graves proble-

mas econômicos associados ao

debate das questões relativas

ao reordenamento institucio-

nal do País.

Organizou a Semana da Cul-

tura Negra. É presidente do Clu-

be dos Amigos do Samba. Orga-

nizou diyersos debates sobre dis-

criminação racial e Direitos da

Mulher. Participou de diversas

manifestações públicas. Verea-

dora atuante luta para conseguir

um sistema de saúde que tire o

Brasil dos primeiros lugares em

mortalidade infantil.

Sabe de quantas mulheres es-

tamos falando? Só de Sônia

Cruz. Mulher com fôlego de ga-

to. Mulher com garra. Mulher

de fibra. Mulher que causa inve-

ja a muitos homens, pelo seu de-

sempenho, pela sua coragem.

Enfim, um exemplo de mulher

negra!


LITERATURA

mmmmm

mmHaamuij j

UM ARAUTO DIVINO "V"» A w* 0 "ã»

Um negro ex-oficial da

Alguém disse uma vez, que

Deus demonstra sua existência

através de pequenos milagres,

que devem ser interpretados

por nós. No sorriso de uma

criança, no brilho de uma es-

trela, no colorido das flores.

E ele fala:

Fala nas notas musicais.

Fala nas poesias.

Nascido com o dom de ser

um arauto dos Deuses, Santia-

go Dias cumpre de maneira

brilhante o seu papel.

Autor de 3 livros e um li-

vreto, Santiago aponta como a

sua principal obra, o livro de

poesias Estradar, lançado re-

centemente na livraria EBOH,

na rua Conselheiro Ramalho,

688.

É certo que quando alguém

tem uma missão a ser cumpri-

da, não importa a sua origem,

ele será naturalmetne encami-

nhado para ela.

Santiago nasceu em pleno

sertão mineiro, na localidade

MULHER |

NEGRA: AJ

UMA Ir

FORÇA

NA

LITERATURA

A Dra. Maria do Carmo

Valério Nicolau, além de tra-

balhar pela mulher, na Delega-

cia da Mulher, é também uma

brilhante escritora.

Escreve para o jornal o

Trovão, órgão oficial da Asso-

ciação dos Negros Progressis-

tas, onde em sua coluna defen-

de com muita garra a saúde e o

fortalecimento da família.

É também autora do livro

Correnteza.

Seu livro de estréia retrata

aspectos da raça africana e a

contingência da miscigenação

nos dias atuais.

Mas muito mais, mostra

uma mulher que coloca em

seus versos toda sua sensibili-

dade e sensualidade, num pro-

fundo amor acima de tudo pe-

la raça humana.

Sua ligação com a família

fica explicitada através de seu

neto que com apenas 9 anos de

idade, faz parte da apresenta-

ção do livro da avó iuntamen-

te com figuras ilu- JS como:

Dra. Rosmary Correia (da 1.°

Delegacia da Mulher), Eduar-

do de Oliveira (literato), Frei-

tas Nobre (político e literato) e

Antônio Lúcio (advogado e

jornalista), que com seus elo-

gios colocam em evidência o

valor desta obra literária bem

como a sua escritora.

Eles, assim como nós, re-

conhecemos em Dna. Maria

do Carmo, uma das mais pro-

missoras forças da nossa lite-

ratura.

chamada nova Belém, sua

família era muito humilde, seu

pai lavrador, gente simples vi-

via naquela casa, ele era o 4. 0

irmão de um total de sete.

Aos doze anos, a família

dele se mudou para Belo Hori-

zonte. Era a fascinação da ci-

dade grande.

Com ela a primeira decep-

ção.

Crianças abandonadas,

mendigos, e a sua vida na fa-

vela.

A dor foi a mola propulso-

ra de sua veia artística. Dispa-

rou no peito o desejo incontro-

lável de extravasar seus an-

seios, frustrações e medos.

Aos 15 anos o lápis corria

rápido sobre a folha de papel

para registrar a sua grita por

um mundo melhor.

Quem primeiro o incenti-

vou foi sua única professora,

dona Dioguina Augusta San-

tana.

Desde então, Santiago,

agora o poeta, um "arauto di-

vino", conta em versos e pro-

sas as "coisas e causos" que

lhe dão arrepios.

Estradar merece ser lido

por pessoas sensíveis e suscetí-

veis de tais e quais arrepios.

UMA ESCRITORA

AFRICANA NO BRASIL

Juliana Gongolo, é, sem

sombra de dúvida, uma dessas

mulheres de fibra.

Nascida em Angola, filha

de pais extremamente religio-

sos, veio para o Brasil há 15

anos, se radicando em São

Paulo. Aqui trabalha com o

funcionária municipal e man-

tém empresa de representações

culturais.

Membro da U.B.E. (União

Brasileira de Escritores), da

Casa do Poeta e da Academia

Internacional de Letras e Arte,

possui também poesias e arti-

gos publicados em diversos

jornais de todo o Brasil. É

conferencista, tem pronuncia-

do palestras sobre a Arte e a

Cultura Africanas. Publicou

em 1980 seu livro "Juliana

Sem Censura", "Ao Encontro

da Felicidade", em 1984, tra-

duziu o L.p. "Canções e Fol-

clore de Angola" que foi gra-

vado pela Rádio Eldorado.

É porém seu próximo livro

"A Cólera dos Famintos" de

extrema importância, muito e

principalmente para a comuni-

dade negra, pois levará a todos

os leitores a conhecerem a

África e sua história colonial

de 500 anos.

Marinha Mercante Brasileira

que viajou durante vinte anos

pelos quatro cantos do mun-

do. Um jovem jornalista que

há quatro anos é membro do

Quilombhoje, grupo de escri-

tores negros, responsável, en-

tre outras atividades, pela pu-

blicação da conhecida série

Cadernos Negros. Estes são os

principais ingredientes que es-

tão sendo utilizados na confec-

ção de um livro que procura

discutir a condição do negro

no mundo durante a última

metade deste século, narrando

a trajetória de Renê Pedro, o

ex-oficial, desde a infância até

os seus atuais 56 anos de ida-

de. Abílio Ferreira, que está

redigindo os originais — ainda

sem título — espera a publica-

ção para os próximos meses.

Aqui, um trecho do capitulo

intitulado "Retorno":

"Pela manhã, logo depois

que lavantamos, vi Hekoh

friccionando os dentes com

um pequeno pedaço de madei-

ra. Dois dias antes, quando o

Presidente Deodoro atracava

no cais de Port-Gentil, de ma-

nhã, eu tinha visto as pessoas a

bordo de pequenas embarca-

ções fazendo a mesma coisa.

Concluí que aquela maneira de

escovar os dentes era costume

por ali. Aquela, aliás, devia

ser uma técnica muito eficiente

de limpar os dentes, porque

não havia dentista na cidade.

Por outro lado, balas, choco-

late ou refrigerantes eram im-

possíveis de ser encontrados

na região.

"Isso é coisa de branco",

disse-me Hekoh, em francês, o

único dos oito idiomas domi-

nados por ele — mais os diale-

tos bantu, falados no sul e os

dialetos fang, falados no norte

do país — que eu podia com-

preender. E era assim que He-

koh explicava diversas ques-

tões. O homossexualismo, por

exemplo, era sinal da 'degene-

ração da raça branca'. Não

havia homossexuais em Port-

Gentil e, se aparecesse algum.

seria 'apedrejado até a morte'.

O mesmo acontecia com as

mulheres adúlteras.

Comemos a primeira refei-

ção do dia, constituída de raiz

doce e café. Depois, Hekoh

pôs-se a trabalhar numa porta

colocada sobre dois cavaletes

no meio do espaçoso e únic

cômodo de terra batida. Ele

estava entalhando os desenhos

de cinco íbis e algumas plantas

aquáticas na porta, um traba-

lho espiritual, segundo ele,

que devia ser feito com muito

amor, porque as figuras nas

portas afastam o mal olhado.

Por isso Hekoh trabalhava

cantando, interrompendo-se

às vezes para falar comigo. Es-

palhadas pelo chão, havia ain-

da diversas esculturas em éba-

no, também feitas por ele.

(...) Hekoh queria saber

como era o lugar onde eu mo-

rava. Para os gaboneses com

quem tive contato, o Brasil

simplesmente não existia no

mapa. Logo no primeiro dia

em que pisamos o solo do país,

quando, a pedido do Coman-

dante Sotero, eu servia de tra-

dutor para alguns oficiais do

navio, fomos abordados pela

polícia, com suas bermudas e

jaquetas caqui que me parece-

ram muito pitorescas. Um sol-

dado me perguntou de que na-

ção eu era.

Que nação o que, cara! Je

sui brasilian! Expliquei.

O soldado não entendeu

nada. Que tribo, afinal, era es-

sa? Informei que o Brasil era a

terra de Pele. 'Ah! Pile!',

admirou-se o soldado. Mesmo

assim, tive que repetir a expli-

cação na delegacia. O Gabão

estava em plena luta pela inde-

pendência, o que fazia de

mim, único negro no meio de

um monte de brancos e falan-

do francês, uma espécie de

traidor. Os negros gaboneses

estavam proibidos de freqüen-

tar qualquer evento ou reunião

de brancos e mesmo, como fi-

cou evidente para mim, de an-

dar no meio deles."

MAESTRO DA POLÍCIA MIUTAR

FATOS CURIOSOS

O Major P.M. João Antão

Fernandes, comandante do

corpo musical da P.M.E.S.P.

é um homem querido e estima-

do por seus comandados, ao

adentrar seu P.C. (posto de

comando) percebemos um

aparelho de som de onde se

ouve música clássica pela FM,

este homem vive e respira mú-

sica.

Irradiando atenção e sim-

patia o Major Antão detalha-

nos a criação do musical da

P.M.E.S.P., onde se destacou

vivamente seu avô e antecessor

Major P.M. Joaquim Antão

Fernandes.

O efetivo do corpo musical

da P.M.E.S.P. conta com cer-

ca de 500 elementos em todo o

Estado divididos por cerca de

14 bandas no Interior e Capi-

tal, inclusive a banda sinfônica

e coral com 24 vozes masculi-

nas.

O quarteto de trompas da

banda sinfônica da

P.M.E.S.P., é composto ex-

clusivamente por músicos de

raça negra, sendo que o major

P.M. Antão não ocupa elogios

aos músicos militares negros

de uma maneira geral. O avô

do Major Antão, seu

Hermínio tem no cartel de

composição uma específica e

relativa à raça negra, denomi-

nada Aurora da Liberdade, te-

ma do alvorecer de um novo

dia para este Brasil negro.

Este ano de centenário da

abolição, o corpo musical está

agendado para todas as come-

morações oficiais que exijam

sua participação.

Comandante técnico de to-

da a corporação musical da

P.M.E.S.P., o major Antão é

pessoa de intensa atividade.

Supervisionando a tudo com

atenção, respeitando o caráter

específico de um corpo que

realiza naturalmente a integra-

ção Policia = Povo há mais de

130 anos (cento e trinta anos),

aplaudidos e benquistos, ver-

dadeiros embaixadores da boa

vontade da Polícia Militar do

Estado de São Paulo.

ADAURI ALVES LANÇA

MAIS UM UVR0

Adauri Alves, cantor,

compositor, escritor, está lan-

çando o seu 3.° livro.

Desta feita trata-se do livro

"Cem anos sob suspeita",

que, segundo o autor, trata-se

de um trabalho que aborda de

maneira realista algumas si-

tuações a que o negro tem sido

exposto nestes cem anos de

abolição.

Adauri tem publicado ou-

tro dois livros que são: "Reta-

lhos de rainha saudade" e

"Palavras ao vento", ambos

coletâneas e poemas do autor.

Já era "Cera anos sob sus-

peita", Adauri, esse paranaen-

se de Arapongas coloca na

praça, através da Editora Es-

cortec, ura livro cora uma lin-

guagem muito aberta e auda-

ciosa, capaz de chocar pelo seu

realismo.

.15


i

O BRASIL TAMBÉM

SOMOS NÓS" Sr.

5? SÉCULO

• •

Raimundo Gomes dos Santos

Nascido em 1860. Hoje com 127 anos.

Conhecido como "Chapéu de Couro"

Foto de Mário TaKenobu K azuo.

TRABALHO

NEGRO PARA O BRASIL

Em 1531 já existiam escravos negros no Brasil.

(Fonte MALHEIRO Perdigão A Escravidão Africana no Brasil p. 17)

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