03 - Café de Ontem

cafedeontem.com.br

03 - Café de Ontem

1000

Universos

Número 03 – Agosto de 2011

Organização: Junior Cazeri

Arte da Capa: Marcelo Paschoalin

http://fermmoylle.deviantart.com/

Café de Ontem


Universos:

ALGUÉM QUE A AME ETERNAMENTE

Marcelo Paschoalin

PSICOSE

Valentina Silva Ferreira

A RAINHA DO GELO

Celly Monteiro

O PACTO MACABRO DA VELHA ANTONHA

Afonso Luiz Pereira

SE NUMA NOITE NA ESTRADA

Cindy Dalfovo

CASERNA EM SOBRAS

Tânia Souza

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ALGUÉM QUE A AME

ETERNAMENTE

Marcelo Paschoalin

— Como ousa?

A mulher tinha se desvencilhado de dois guardas que tentavam

agarrá-la. Seus olhos, em fúria, contrastavam com as roupas surradas e

o cinto donde pendiam tintilantes moedas de ouro. Todos a conheciam

ali, mas muitos a evitavam. Incompreendida, cigana, bruxa – e, talvez,

mais.

— Tirem-na daqui – ordenou o duque.

Contudo, o mal já havia ocorrido. A festa comemorando o

primeiro aniversário de Aurora, princesa infante, havia cessado. A

cigana – ou bruxa, caso prefira – ainda olhava em desafio, sua mão

segurando um ramo de acácias.

— Pagã – comentou um dos convidados. Ela vem aqui com suas

crendices...

— Eu trouxe um presente para a princesa! – clamou a mulher,

acácias nas mãos.

Seu brado, todavia, assustara Aurora, que se pôs a chorar. A

rainha correu para junto da filha e o rei, que só tinha deixado o cálice

de vinho de lado quando ouviu a comoção, postou-se diante delas

numa atitude de proteção, não tardando para que ele mesmo

ordenasse que a mulher fosse retirada do castelo.

Isso, porém, era uma afronta para aquela que vinha apenas

honrar a princesa e que, em toda a sua vida, jamais negara

hospitalidade a quem quer que fosse. Ultrajada, enquanto era retirada

pelos guardas arrancou três folhas da acácia e as lançou ao chão.

—Que a rainha adoeça! Que o rei não tenha outros filhos! E que

a princesa Aurora, no dia em que uma gota de seu sangue manchar a

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terra, adormeça até que alguém que a ame eternamente a desperte

com um beijo!

Um tapa de um dos guardas e silêncio. Aquela mulher não mais

falaria contra o rei.

As palavras da mulher – cigana ou bruxa, segundo o povo –

tornaram-se verdadeiras. Em menos de um inverno a rainha adoecera,

nenhum remédio sendo capaz de curá-la. Após sua morte, o rei

procurou consolo em outros dois casamentos, mas em ambos a recém

desposada também perecera – uma das vezes com um filho no ventre.

O rei tornou-se amargo, protegendo ainda mais a princesa, cuidando

para que jamais se ferisse de qualquer maneira.

Com os anos, o desabrochar da formosura feminina em Aurora

despertou em vários pretendentes o desejo de tomá-la para si. Ela,

porém, desprezava a todos, especialmente o filho do cavalariço, que

por ela nutria mais que paixão – verdadeiro amor que somente

aqueles que o sentem de verdade podem percebê-lo. Ainda assim ele a

cortejava – longe dos olhos do rei –, procurando fazer todas as suas

vontades e desejos.

E Aurora o usava. Todavia, mesmo sabendo disso, o filho do

cavalariço tentava fazer com que ela sentisse por ele o que ele

carregava no peito.

Até que, certa manhã de outono, chegou ao castelo o marquês,

vindo de outras terras.

Tinha a mesma idade, um jeito galante e uma aparência

sedutora. As mulheres da corte o queriam, e ele as queria de volta.

Aurora, pela primeira vez, cobiçou um homem – o marquês –

passando a encontrá-lo nos bailes que os conselheiros reais insistiam

que fossem feitos, tanto pelo prestígio como pelo fato de a princesa já

estar na idade de ter um pretendente escolhido pelo rei. E foi num

desses bailes, após algumas taças de vinho e muita dança, que o

marquês a cobiçou de volta.

E, ao longe, vinha o filho do cavalariço que, de pajem a

escudeiro, almejava se tornar cavaleiro um dia, sonhando com uma

donzela para ser salva por ele – uma donzela como Aurora, a mulher

que sempre amara. Carregava uma única rosa, vermelha, para

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presenteá-la como a cortesia ditava. Ao ver o marquês, porém, ele

estacou, deixando a rosa cair no chão enquanto deixava o lugar.

Mas o marquês o vira. Desculpando-se com a princesa, ficou

longe de suas vistas e tomou a bela rosa para si, retornando com o

presente que somente a mais nobre donzela poderia ter a honra de

receber.

Ele tomou sua mão e a beijou. Ela enrubesceu – pelo gesto e pelo

desejo. Ele a quis.

E a rosa que agora a princesa segurava, já tremendo em sua mão,

novamente caiu.

A princesa também, nos braços do marquês. Mas não respirava.

Um dos espinhos havia ferido o dedo de Aurora, uma gota do

sangue real maculando a terra. A maldição da cigana – ou bruxa, se

assim quiser chamá-la – se cumprira.

Medo. Pavor. Tristeza. Mas não culpa. O marquês retornou de

imediato para o baile.

— Meu senhor! – disse ele ao rei, a mentira dissimulada em sua

face. Vi a princesa com uma rosa na mão, e depois a vi tombar. Não sei

o que houve, mas nada que faço é capaz de trazê-la de volta.

— A maldição! – disseram, sabendo que em algum lugar a

cigana, ou a bruxa, ria com prazer.

Curandeiros, médicos, alquimistas, astrólogos... Ninguém pôde

dar vida novamente à princesa. De início o rei prometera um saco de

ouro e, depois, as joias de sua coroa... Até que oferecera a mão da

princesa em casamento e seu reino como paga a quem a despertasse

daquele mórbido sono.

Mas havia medo no povo – no povo daquela região, ao menos.

Com arautos correndo as fronteiras do reino, não tardou até que um

príncipe de uma nação vizinha cruzasse vales e montanhas, cavalgando

um corcel branco enquanto sua armadura reluzia. Diante do rei ele

prometera salvar a princesa e o monarca o abençoou.

Ele subiu a mais alta torre do castelo, adentrando a câmara onde

repousava Aurora.

Solenemente ele tomou sua mão e, com carinho, pousou seus

lábios nos dela, beijando-a...

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...pela derradeira vez.

Primeiro ele sentiu a falta de ar, depois o enrijecer de sua pele.

Ele levou a mão ao pescoço, mas seus músculos já estavam duros. Sua

pele tornou-se rocha, e a rocha tornou-se areia, e a areia se desfez.

Seus ossos saltaram de seu corpo, e nada mais restou, exceto o cheiro

de morte no aposento.

— Alguém que a ame eternamente... – balbuciou o rei, em

desespero, ao saber do ocorrido.

Foi então que o escudeiro, antes pajem, antes filho do cavalariço,

pediu permissão ao rei para tentar salvá-la. Ele não era um nobre, mas

poderia ser a única esperança de sua filha – e de sua linhagem real.

Ele subiu as escadas, viu sua amada e a beijou. Os olhos de

Aurora se abriram.

— O que faz aqui? – perguntou ela, assustada.

E o susto tinha razão de ser, pois para a princesa nenhum tempo

tinha se passado. Ela ainda esperava estar nos braços do marquês, sem

saber que a maldição a afetara.

Mas estava ela, finalmente, livre.

O rei, satisfeito, ordenou que fosse organizada a festa de

casamento. Seda do oriente, tesouros do setentrião, perfumes do

ocidente... nada seria o bastante para comemorar aquela ocasião.

Aurora não estava feliz, mas compreendia a situação. Talvez ela

aprendesse a amá-lo...

Na noite de núpcias, como esperado, ela pediu ao escudeiro,

agora príncipe por laço matrimonial, que aguardasse numa antessala

enquanto se perfumava para ele. O príncipe o fez, certo de que aquela

seria a noite mais feliz de sua vida...

Mas nos aposentos onde Aurora se preparava o marquês havia

se escondido. Vendo-a só, ele se aproximou e a enlaçou – a princesa

não lutou: ao contrário, permitiu que seu desejo se satisfizesse...

E foi quando, estranhando a demora de sua recém desposada

mulher, o príncipe, antes escudeiro, adentrou o lugar. Vendo sua

amada nos braços de outro, sua voz ficou embargada, seus olhos

marejados... mas só por um momento. A mágoa deu lugar à fúria, e a

fúria ao desprezo.

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— Eu jamais a amarei, Aurora! Fique com ele se é o qu...

A frase foi interrompida no meio. Ele não conseguia mais

respirar, sentindo sua pele endurecer, lentamente percebendo as

batidas de seu coração – o que antes era um desabalar sem fim agora

ficava mais lento... Seus olhos não mais o permitiam ver enquanto uma

crosta calcária se formava sobre eles ao mesmo tempo em que sua

pele escamava em pedaços de pedra que se tornavam areia e se

tornavam pó e desapareciam. Seu coração parava, mas ainda assim ele

se mantinha vivo, sua face se contorcendo em riso mórbido enquanto

percebia que sua existência tinha fim. Seus ossos saltaram para fora do

corpo, rompendo o que restava da barreira pétrea, finalmente

deixando de ser.

E, nos braços do marquês, envolta pelo odor pungente da morte,

a princesa Aurora tombava, sem respirar.

Não mais havia quem a amasse eternamente.

Marcelo Paschoalin é um psicólogo andreense casado que assina os

romances de fantasia "Eriana - Filha da Morte e Vida" e "A última Dama

do Fogo" além de ter sido o autor dos RPGs "Anel Elemental: o Legado",

"1887: Sob o sol do Novo México", "Anel Elemental: a Nova Era",

"Aventura e Magia" e "Dark Fate" (este último publicado em inglês).

Escrevendo onde estiver em seu smartphone, costuma dizer que sua

profissão é ser escritor, tendo como hobby o trabalho diário. Contudo,

até agora, é seu hobby que paga as contas.

Blog: http://letraimpressa.com

O autor no Skoob: http://www.skoob.com.br/usuario/269390

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PSICOSE

Valentina Silva Ferreira

Os olhos, entorpecidos pelo mergulho ao inconsciente, abriram

lentamente, tentando não sucumbir ao ardor que aquela luz

provocava. Não sabia onde estava nem porquê lhe doía a cabeça de

uma forma tão desesperante. A última vez que estivera acordada,

lembra-se perfeitamente, estava em casa a regar os pequenos vasos

de plantas aromáticas que a mãe lhe dera nessa semana. Sim, lembrase

de terem tocado à porta e de a ter aberto. Mas a partir daí uma

névoa nebulosa preenchia a sua memória. Tacteou ao seu redor na

esperança de encontrar um objecto familiar. Nada. Jazia numa cama

metálica, sem colchão, coberta apenas por um cobertor que enjoava a

urina. A luz que a incomodava era, de facto, uma lâmpada cor de vinho

verde que, de vez em quando, apagava por milésimos de segundos. O

quarto era minúsculo, sem janelas que dessem para o exterior e nos

cantos das paredes bolorentas, insectos escorregadios deslizavam com

uma demora irritante.

Amélia levantou-se com dificuldade e observou todo o seu

corpo, apreensiva. Os braços doíam-lhe e estavam cobertos de nódoas

negras. O ombro esquerdo, despido pelo top decotado, tinha um

rasgão que, em breve, acabaria por sarar. Os abdominais estavam

doridos e as ancas custavam a mexer. As pernas eram, até então, as

únicas sobreviventes. Levou a mão à boca e foi aí que sentiu o gosto

doce a sangue. Começava, pouco a pouco, a regressar a si como se um

analgésico deixasse de fazer efeito, e as dores que, até ali, eram

suportáveis, tornavam-se cruéis.

- Está aí alguém? - gritou, desesperada, dirigindo-se à única

porta. - Socorro! Está aí alguém?

A porta era cinzenta e alta, com manchas de ferrugem. Em cima,

uma pequena janelinha com grades deixava entrar o único oxigénio.

Amélia tentou espreitar mas a altura era considerável. Olhou outra vez

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em redor, em busca de qualquer coisa que a fizesse chegar lá. Na

extremidade oposta, uma cadeira velha olhava para ela como que a

desafiando. Amélia correu afectadamente até lá e pegou nela. Dava na

perfeição para chegar ao buraco. A rapariga subiu a medo, não fosse a

cadeira partir-se em dois, aproximou-se da abertura e tentou decifrar

o que via. Um corredor estreito, húmido e nauseabundo, ladeado por

tantas outras portas iguais àquela. Alguns dos quartos iluminados,

outros não. Todos num silêncio cortante, excepto um. A três portas do

quarto de Amélia, alguém dizia num tom louco e apressado:

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4

homens e mulheres...

A reza era cada vez mais maníaca e depressiva e Amélia era

capaz de decifrar o rosto do dono daqueles sussurros

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1, 2,3,4 homens e mulheres - por

fim, com uma pancada forte, as palavras sumiram por entre o silêncio

perturbador.

Amélia desceu a cadeira e voltou para a cama. O seu coração

parecia um fugitivo e a bílis ameaçava querer sair cá para fora.

Amélia abriu os olhos e aquela luz invadiu-a de novo até ao

tutano. Uma terrível sensação de Dejá Vú percorreu o seu corpo. Que

horas seriam? O seu estômago roncava de fome e tinha, novamente,

aquela dor de cabeça aguda. Precisava de um banho, de um prato de

comida, de uma aspirina e de explicações.

- Pequeno-almoço - a voz vinha dede fora, ainda que longe. -

Pequeno-almoço.

Amélia moveu-se até à porta e subiu a cadeira. Uma velha, com

aspecto de dona de um talho, empurrava um carrinho com dificuldade.

Tinha o cabelo cinzento todo puxado em cima da cabeça e preso por

uma rede antiga. Na cara gordurosa tinha uns óculos de vista e os três

dentes podres davam-lhe um ar assustador. Vestia uma bata branca,

encardida e manchada por pingas vermelhas. A ideia de ser cortadora

de carnes encaixou-lhe ainda melhor. Era gordíssima e os olhos

amarelados acusavam-na de colesterol.

- Pequeno-almoço - a ladainha estava cada vez mais perto e

Amélia voltou para o chão, puxando o banco para um canto.

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Uma chave entrou na fechadura, girando num som estridente.

- Pequeno-almoço - a velha entrou, sem olhar para a rapariga e

depositou uma pequena bandeja no chão. Amélia olhou, de relance,

para ela. Um papo-seco de aspecto duro barrado com uma substância

castanho-clara e uma xícara de café que nem fumegava.

- Olá. Pode dizer-me onde estou? - perguntou com esperança de

que aquela senhora gorda e feia se transformasse na sua salvação.

- Mas porquê raios perguntam todos a mesma coisa? - gritou

perto da cara de Amélia. O seu hálito era horrível. Uma mistura de

tabaco com alho. - Eu sou a cozinheira desta espelunca. Não tenho que

responder a ninguém sobre nada! - fechou a porta com força,

trancando-a logo em seguida.

Amélia puxou a cadeira novamente e subiu. Felizmente as

gorduras da mulher impediam-na de andar rápido.

- Pode, ao menos, pedir a alguém responsável que venha falar

comigo? Isto é engano. Eu não pertenço aqui...nesta prisão...isto é um

estabelecimento prisional? Eu não cometi nenhum crime. Por favor,

ajude-me! - o seu pedido de socorro era cada vez menos perceptível.

A gorda voltou-se, limpando o suor da cara com a manga da

bata.

- É melhor calares a boca se não quiseres voltar a dormir. Não te

dou respostas mas posso dar-te três conselhos. Não faças perguntas,

não grites e não deixes de obedecer ao que te pedem. Só assim

poderás sair algum dia - virou-se de novo e dobrou a esquina do

corredor. - Isto se saíres.

Amélia agachou-se na cadeira com uma vontade enorme de

chorar. Não conseguia entender o porquê de estar num sítio tão

horrível. Logo ela que não fazia mal a uma mosca. Tinha 23 anos e

estava no último ano de Economia e Gestão, em Coimbra. Sempre fora

uma boa aluna e, apesar de ter chumbado a algumas cadeiras, estava

na idade perfeita para começar um novo ciclo da sua vida. Iria fazer o

estágio num banco, daria o melhor de si e, quem sabe, ficaria por lá.

Dividia o apartamento com a sua amiga Teresa, estudante de

Sociologia. Namorava com Rodrigo, também do seu curso. Os pais

estavam divorciados e, aos fins-de-semana, ia até Aveiro, local de

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residência da mãe. Encontrava-se poucas vezes com o pai, que vivia no

Algarve, mas davam-se bem. Não tinha irmãos, nem primos e

orgulhava-se de não ser uma menina mimada por esse facto. Não se

metia com ninguém, era pacata e atenciosa e, até nas praxes, tinha

medo de impor-se perante os caloiros. Nunca cometera nenhum

crime, nem sequer alguma vez levara uma multa de trânsito.

- 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4 homens e mulheres. 1,2,3,4

homens e mulheres - os seus pensamentos foram interrompidos por

essa cantoria. Endireitou-se na cadeira.

- Eh. Psiu. Estás a ouvir-me? - a voz calou-se. - Hey, fala comigo.

Sou nova aqui.

- Não te vejo. Quem és? Mais uma mulher? 1,2,3,4 homens e 5

mulheres. 1,2,3,4 homens e 5 mulheres - continuou ele.

- Não. Estou aqui. No outro quarto. Não há nenhuma cadeira por

aí?

Silêncio.

- Estás a ouvir-me?

- Sim, estou sentado nela.

- Então encosta-a à porta e olha pela janela - pediu.

Ouviu um arrastar desnecessário, como se o homem não tivesse

qualquer força para pegar no banco. De repente, viu-o e o que

imaginara dele não se aproximava, sequer, da realidade. Esquelético,

pálido ao ponto de poder ver-se os vasos sanguíneos por debaixo da

pele, as pupilas exageradamente dilatadas, círculos azuis-escuros por

debaixo dos olhos e o cabelo ralo, tão ralo, que lhe faltavam madeixas

pela cabeça.

- Olá - sorriu. - Como te chamas? - achou a pergunta demasiado

estúpida para a ocasião.

- Não sei - respondeu, meio taciturno.

- Hum...está bem...eu sou a Amélia. Há quanto tempo estás cá?

- Não sei.

- E porquê vieste aqui parar?

- Por causa dos homens e das mulheres - respondeu, finalmente.

- Que homens e mulheres?

- Aqueles que aparecem às vezes.

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- Onde?

- Aqui - disse apontando para a cabeça.

- Onde estamos? Sabes? - perguntou a medo.

- Na nossa salvação. Se não estivesse aqui, os homens e as

mulheres já me tinham comido.

Amélia assustou-se com aquela resposta.

- E tu, porquê estás aqui? Também vês homens e mulheres?

- Não. Acho que não. Não sei - disse, confusa.

- Pensas que não vês mas vês. Toda a gente vê. TODA A GENTE! -

gritou e desapareceu no quarto, recomeçando a sua agoniante

lengalenga.

Amélia desceu novamente do banco. Sentou-se ao lado do

tabuleiro e começou a mastigar, ignorando o sabor dos alimentos.

Apenas precisava de algo que reconfortasse o seu estômago. Pensou

nas palavras do louco.

- Louco? - a palavra surgira-lhe no pensamento. - Sim, louco. Se

ele é louco, isto deve ser uma espécie de manicómio. E eu estou aqui

por engano - disse como se estivesse alguém a ouvi-la. Continuou a

comer, imaginando-se na cozinha do seu apartamento, a ouvir as

histórias excitantes de Teresa. - Por falar em Teresa, era ela quem

devia estar aqui. É ela a ninfomaníaca - calou-se e levou a chávena de

café frio à boca.

Acabou a pequena refeição em pouco tempo. Deixou a bandeja

no mesmo lugar e levantou-se com vontade de explorar o cubículo

onde se encontrava. Uma cama, uma cadeira, um vestuário e um

espelho. Não se lembra de tantos móveis, mas também reconhece que

estivera em choque até há bem pouco tempo. Caminhou até ao

armário e abriu-o de par em par. Cheirava a naftalina e uma aranha

habitava-o. Amélia pegou no bichinho e colocou-o no chão. A mãe

sempre lhe dissera que matar aranhas era mau presságio, pois elas

traziam fortuna para o lar. Riu-se da ideia de ter pensado em associar

aquele lugar mofento e deprimente ao conceito de lar. O móvel tinha

cinco cabides a meio. Do lado esquerdo, pequenas prateleiras serviam

lindamente para colocar perfumes, maquilhagem e caixinhas de jóias.

Do outro lado, havia gavetas, quatro no total. Amélia abriu-as na

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expectativa de encontrar qualquer coisa que denunciasse onde estava.

Abriu a primeira. Vazia. A segunda. Idem aspas. A terceira. O mesmo.

Finalmente, na quarta estava um módico cartão, bem lá no fundo,

como que colocado propositadamente para alguém muito curioso

achar. Estava amarelado e ruído pelas traças e a letra era, um tanto ou

quanto, antiquada. Pegou nele e leu “Clínica Pascoal – Reabilitação e

Reintegração Social”. Não tinha qualquer morada ou contacto.

- Que falta de sorte – disse.

Sentia-se mais alarmada. Não era viciada em qualquer tipo de

droga. Aliás, só bebia em convívios académicos, nas Latadas e

Queimas das Fitas. Não fumava. Não tinha qualquer vício. Os amigos,

inclusive, chamavam-na de beata, na brincadeira. E, ainda assim,

encontrava-se ali. Teresa devia estar preocupada, para não falar do

namorado que, com certeza, já telefonara para a mãe. Mas isso era

bom. Daí a nada, alguém estaria à sua procura e aquele grave malentendido

teria um final feliz.

Fechou o armário e viu, bem encostado a ele, uma mala preta e

enorme. Amélia franziu o sobrolho. Mais uma coisa que não se

lembrava de ter visto. Arrastou a mala até à cama e jogou-a lá para

cima, abrindo-a logo em seguida. As suas roupas, as predilectas ainda

por cima, estavam todas lá dentro. Arrumadas, cheirosas e passadas a

ferro. Pegou na primeira, um vestido branco com as bainhas em

croché. Rodrigo oferecera-lhe no dia do seu aniversário, em Agosto do

ano passado. Abandonou os pensamentos e concentrou-se na mala.

Mas era difícil. A sua cabeça buscava, sempre, qualquer coisa em que

pensar. Não tinha sido raptada então. Quem poderia fazer a mala, com

as suas roupas favoritas, senão alguém que a conhecesse muito bem?

Sentiu um aperto no coração. Não queria pensar nessa possibilidade.

Não, era uma ideia tola. As pessoas adoravam-na. Tinha sido raptada

por um louco estranho. Essa era a verdade.

Tirou todo o vestuário de dentro da mala e guardou-o no

roupeiro. Não pretendia ficar ali durante muito tempo mas, ao menos,

distraía-se e não pensava em absurdos. Guardou tudo por peça e cor.

Era muito organizada, demais até, segundo a sua mãe. Na casa de

Coimbra, tudo estava arrumado, no lugar certo, etiquetado e nada,

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naquele espaço, assemelhava-se a uma casa de estudantes. Acabou

em pouco tempo, perdida nos seus pensamentos. Queria falar com

alguém, resolver a sua situação ali, entender aquele equívoco e ir

embora. Tinha saudades de Rodrigo, de Teresa, da mãe e de Papuska.

- Bom dia. Passe-me ao Dr. Pascoal, por favor – a voz era dura.

- Com certeza. Aguarde um momento – responde outra, eficiente

e bem-disposta, alheia à dor daqueles que telefonavam para saber

notícias.

O telefone tocou duas vezes e uma música brasileira

desconhecida acompanhava.

- Pronto – atende um homem.

- Sr. Dr., como está? É a Olga. Olga Martins – a voz continuava

desconsolada com um certo tom de preocupação.

- D. Olga, como vai? – pergunta.

- Como sempre. Gostava de saber novidades sobre a Andreia –

pronunciou o nome com uma certa dificuldade.

- D. Olga, receio que não seja um assunto a ser tratado por

telefone – advertiu.

- Gostava apenas de saber se a minha filha já reage de alguma

maneira ao internamento, se há alguma melhoria e se posso visitá-la

esta semana.

- A Andreia é um caso complicado. Já a temos cá há muito

tempo e ainda não conseguimos com que ela mantivesse uma

conversa lúcida por muito tempo. Há vezes em que acorda e fala

correctamente. Arrisco-me até a dizer que vocaliza frases pouco

próprias para a sua idade e maturidade. Porém, nessas mesmas vezes,

parece-me que se faz passar por outra pessoa. Não sei, alguém mais

culto, mais inteligente e com uma grande capacidade de comunicação.

Noutras alturas, até, balbucia palavras imperceptíveis. Raramente

comunica com os outros pacientes e reage mal quando tem que tomar

a medicação. Tem ataques de pânico e tenta agredir-se. O seu esposo

esteve cá há poucas semanas…

- Ex-marido – corrigiu Olga.

- Sim, desculpe. Como dizia, ele esteve cá há pouco tempo e a

Andreia nem sentiu a sua presença. Ele tentou falar-lhe, transmitir

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algum carinho mas a Andreia simplesmente ignorou que alguém

estivesse ali.

Olga fungou baixinho. Sentia um nó que apertava demasiado na

garganta. – Então não há melhorias desde a última vez. Às vezes

questiono-me se não será melhor trazê-la para casa. Quem sabe se

junto de mim, dos avós e das coisas que lhe são familiares, ela tivesse

qualquer tipo de recuperação.

- D. Olga, já tivemos esta conversa antes. Tirar a Andreia daqui,

agora, seria um enorme recuo. É certo que a rapariga não fala nem

interage mas acho que ambos estamos de acordo que é melhor ela

estar assim do que da maneira que estava quando vivia convosco. Não

acha?

- Sim, Sr. Dr. Mas custa tanto… - as lágrimas teimosas já corriam

pela face.

- Eu sei, D. Olga, eu sei. Custa a todos. O que mais desejo é que

todos os pacientes deste hospital, ultrapassem os seus problemas e

voltem para as suas famílias – a afirmação saíra-lhe realmente sincera.

- Passo esta semana por aí. Boa tarde, Dr. Pascoal. Com licença –

desligou o telefone ainda antes do médico poder despedir-se. Pousou

o auscultador e fechou os olhos, rendida pelo silêncio exaustivo.

Há muito tempo que vivia assim. Num profundo e deprimente silêncio.

Sentia a falta da voz doce de Andreia, a contar as aventuras do dia, das

gargalhadas que intercalava entre os episódios pitorescos. Queria, por

demais, a sua cria debaixo da sua asa.

Deveria ser perto da hora do almoço. Sentia o estômago roncar e

o tédio começava a apoderar-se de si. Sabia que daí a nada, alguém

levar-lhe-ia um prato de comida e essa seria a sua oportunidade para

resolver aquela infeliz confusão.

Ouviu passos no corredor. Eram pesarosos e lentos. Era aquela

mulher outra vez. A carniceira. Endireitou os fios de cabelo que

estavam desalinhados e olhou rapidamente para a roupa que vestia.

Precisava de um banho urgentemente.

- Toca a levantar. O almoço está pronto – disse a velha.

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A porta abriu e Amélia viu a mesma figura sebenta que vira de

manhã. Não trazia qualquer tabuleiro e vinha sozinha, carregando

apenas o molho de chaves com que abria as portas.

- Vamos. O almoço está a ser servido na cantina – ordena.

Amélia apressa-se a sair e a colocar-se, em fila, por detrás das

outras pessoas. Não queria dar nas vistas mas somente comer e

encontrar o responsável por aquela instituição. O corredor que os

levava para a sala de refeições era longo e frio. Em algumas partes,

caíam pingos de água que, ao tocarem nos canos, ecoavam num som

terrorífico. Cheirava a ratos e a ferro enferrujado. À sua frente seguiam

cinco pessoas. Quatro homens e uma rapariga. O louco do “um, dois,

três, quatro” ia praticamente dobrado sobre si, abanando a cabeça em

várias direcções. Um outro, mais velho, andava completamente direito

com os olhos fixos no oculto. Mais à frente ia um jovem com ar de

delinquente ameaçador, seguido por outro que gaguejava, para si

próprio, cantilenas desconexas e imperceptíveis. Formavam, os quatro,

um grupo interessante e, ao mesmo tempo, perturbador. Cada um

encaixava no outro na perfeição. Se se retirasse um deles, aquela

pintura perderia o interesse. Era como se, naquele corredor, ladeado

por quartos, fosse imprescindível a presença daqueles quatro homens

tão diferentes mas igualmente doidos. A rapariga era a única que

estava a mais no cenário louco que Amélia via diante de si. A rapariga e

ela própria, claro. Deveria ter mais ou menos a sua idade. Usava o

cabelo pelos ombros, cortados a direito e a cor assemelhava-se à cor

da casca de um kiwi. Era baixa, com seios pequenos, cintura e ancas

largas. O rabo parecia-lhe um tanto ou quanto grande e as coxas

grossas. Tinha olhos castanhos e pouco expressivos. Era uma rapariga

bonita mas não possuía aquele brilho capaz de virar cabeças nas ruas.

Andava normalmente, se bem que parecia um pouco alheia à

realidade. Parecia, por vezes, que não sentia o chão que pisava, dando

a sensação que flutuava. Não olhava para ninguém, ignorando toda a

gente e, no entanto, não se encaixava naquele lugar.

Chegaram à cantina e foram encaminhados para uma larga mesa

que tinha cadeiras para todos eles. As restantes já estavam ocupadas

por outras pessoas que aguardavam a chegada dos tabuleiros com

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1000 Universos 03

alguma ansiedade. Homens e mulheres, todos eles com o mesmo

uniforme azul claro, os cabelos despenteados e no rosto aquela

expressão de monstro lunático. Amélia sentiu-se ainda mais deslocada

e procurou sentar-se perto da outra rapariga, a única que desbotava

daquele quadro alucinado.

- Olá. Importas-te que me sente aqui? – perguntou.

Os olhos da rapariga invadiram os de Amélia de uma forma

realmente constrangedora e não houve qualquer resposta. Deixou-se,

então, ficar ali. Tinha a esperança que durante o almoço conseguisse

estabelecer um diálogo.

Os tabuleiros chegaram, distribuídos por senhoras de meia-idade

cobertas dede arroz e os cabelos presos numa rede muito fininha.

Não espalhavam sorrisos mas não eram desagradáveis. Cumpriam o

trabalho com facilidade e com um certo ar de pressa, desejosas de sair

dali e encontrar o marido ou o amante em casa. A sopa rala e insonsa

caiu bem a Amélia mas o segundo prato, um macarrão demasiado

cozido com pedaços de carne quase cruas, reviraram o seu estômago.

Preferiu avançar para a sobremesa, uma laranja perfumada. Olhou de

relance para a companheira de mesa e, novamente, os olhares

penetraram um no outro. Desta vez sentiu algo diferente. Já não teve

aquela sensação de estar despida diante dela, pelo contrário, era como

se a conhecesse melhor que ninguém. Era como se partilhassem as

mesmas memórias e os mesmos receios.

- Como é o teu nome? – perguntou, instintivamente.

A outra não respondeu mas via-se nos seus lábios que as

palavras estavam ali, desejosas de escorregar cá para fora.

- Não tenhas medo, eu não sou como eles – pediu, olhando em

direcção aos restantes. – Eu também estou aqui por engano.

- Andreia – disse como que cuspindo.

- Olá Andreia, eu sou a Amélia – levantou a mão para que

Andreia a apertasse mas esta baixou os olhos e continuou bebericando

a sopa. – Então, estás há muito tempo aqui?

Andreia acenou que sim, sempre cabisbaixa.

- Tens família? – insistiu.

Repete-se a mesma cena.

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1000 Universos 03

- E porquê estás aqui? Sabes? – perguntou encostando a sua mão

à de Andreia como que a protegendo contra a sua própria resposta.

Andreia estremeceu com o toque. Não estava habituada a esse

tipo de intimidade. Sentia-se sequiosa de contacto, de alguém que a

abraçasse e aquela mão macia era tudo o que precisava naquele

momento. Deixou-se ficar assim, amparada por uma mão que não

conhecia mas que lhe sabia tão bem. Não disse nada. Desejou apenas

ficar de mãos dadas para sempre.

- É-te difícil falar sobre isto, não é? – interrompeu Amélia,

retirando a mão que pousara sobre a de Andreia.

Andreia sentiu-se perder no vácuo novamente. O apoio tinha-lhe

sido tirado sem avisos mais uma vez e aqueles tremores que a

assombravam de quando em quando pareciam crescer dentro de si.

Empurrou o tabuleiro para Amélia que saltou da cadeira com os braços

em riste e uma expressão de admiração. Andreia correu, tropeçando

nas pessoas que entravam em pânico. Em segundos, aquele lugar onde

só se ouviam burburinhos desconexos e talheres a bater em loiça foi

substituído por uma algazarra perturbante. Andreia foi, finalmente

agarrada por dois enfermeiros que a arrastavam pelo corredor

enquanto gritava e esperneava até, finalmente, desaparecer. Os

restantes enfermeiros tentavam acalmar quem por ali gritava e, por

fim, foram levados novamente para os seus quartos.

Amélia teve uma vontade espontânea de dormir como se

estivesse acordada há muito tempo, ou até, como se nunca o tivesse

feito em toda a sua vida.

Andreia queria correr, libertar toda a sua fúria. Sentia um

desespero crescente dentro de si, um rugido escondido que aos

poucos se soltava para a posterioridade.

Amélia deitou o corpo entorpecido na cama fria e aconchegou a

cabeça na almofada que não se lembrava de existir. Respirou

suavemente, fechou os olhos numa calma quase irreal e deixou-se

levar pela fada dos sonhos.

Andreia andava de um lado para o outro no interior do seu

quarto. Respirava pela boca. Um ar que lhe sabia a vidro, que cortava a

sua garganta, que a encrespava os pêlos do corpo. Queria sair dali e

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perder-se nas suas coisas. Aquela falta era um tormento na sua alma.

Não conseguiria aguentar por muito mais tempo. A cabeça doía-lhe, o

corpo retesava-se pelo frio, pela culpa de não se curar, pelo

sentimento de fracasso. E, por fim, gritou. Gritou até a voz sumir-lhe

no pensamento. Ou até uma agulha penetra-lhe na veia do braço

esquerdo. Não sentiu dor. Já conhecia aquela sensação há mais tempo

do que queria. Deixou-se cair no chão, amparada por uns braços que a

seguravam quase todos os dias. Adormeceu.

No outro quarto, em outro corredor, Amélia acordava. Dormira

pouco mas sentia-se reestruturada, pronta para enfrentar os seus

inimigos. Encostou a cadeira à porta e chamou por quem a ouvisse.

- Entre – disse o médico. – Parece que precisamos de conversar.

- Sim, precisamos. Estou aqui há não sei quanto tempo, sem

saber como e porquê. Exijo que telefone à minha família para que me

venha buscar – pediu com voz de comando. Chamara por alguém

durante uns quantos minutos. O enfermeiro disse-lhe que gritara mas

Amélia não se recordava disso.

O Dr. Pascoal remexeu nos papéis que tinha diante de si. Fungou

e bebeu um gole da água que a secretária trazia-lhe a cada duas horas.

- Como se sente? – perguntou, ignorando o pedido da rapariga.

- Como me sinto? – deu uma gargalhada irónica. Deu uma vista

de olhos pelo consultório. O verde lunar daquelas paredes pareceramlhe

familiares, intimas até. Pesquisou na sua cabeça de onde vinha

aquela proximidade mas não encontrou. Ignorou aquela questão e

concentrou-se no homem que tinha perante si. – Acho que essa

pergunta é muito inconveniente dado que estou aqui contra a minha

vontade. Aliás estou aqui sem qualquer razão – cruzou os braços numa

atitude mimada, de quem é filha única.

- Anda muito confusa. Precisa de se acalmar. Encontrar um

equilíbrio – sugeriu, ignorando mais uma vez as palavras da jovem.

- Vejo que consigo não vou a lado nenhum. Poderá chamar o

responsável por esta… - calou-se, olhando em volta, tentando

encontrar o termo certo.

- Este hospital psiquiátrico.

Amélia sentiu um soco na barriga.

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1000 Universos 03

- E o responsável sou eu – respondeu o médico, como se aquela

resposta já lhe tivesse sido dada imensas vezes. – Sente-se ansiosa?

Com saudades de casa? – perguntou, agarrando numa caneta e num

bloco.

Amélia franziu o sobrolho e sentou-se na cadeira. Estava

demasiado confusa para refutar sobre o que quer que fosse.

- Pode, pelo menos, telefonar à minha mãe? Sinto-me

excessivamente cansada para fazê-lo ver que estou aqui por engano.

Por favor chame cá a minha mãe. Ela há-de resolver isto – pediu, com

olhos esbugalhados numa expressão de aflição.

- Com certeza. Ligo-lhe ainda hoje. Vá para o seu quarto

descansar. EsCá com ar de quem precisa.

Amélia levantou-se e saiu. O Dr. dera-lhe a certeza que

telefonaria à mãe. O que a incomodava era o facto de ele ter o seu

número telefónico. Isso só poderia dizer que a conhecia. Mais um soco

empurrou-a contra a realidade. Precisava urgentemente de dormir. O

cansaço apoderava-se de si novamente.

No consultório, Dr. Pascoal discou um número no telefone

cinzento da sua secretária. Ouviram-se três toques até que uma voz

feminina atendeu.

- Estou? A sua filha quer vê-la. Pareceu-me bastante consciente,

tirando a confusão habitual que a medicação provoca. Quando pode

cá vir?

A mulher sorriu, tanto por dentro como por fora. Uma alegria

excitante invadiu as suas células.

- Estou aí amanhã bem cedo. Às 9 horas, pode ser? – perguntou,

ansiosa.

- Pode. Venha ter ao meu consultório. Prefiro que o encontro

seja aqui para poder registar as reacções.

Ela suspirou. Queria poder abraçar a sua menina na intimidade

de quatro paredes vazias. Desejava dizer-lhe que lamentava tudo

aquilo mas que era o melhor a ser feito. Ansiava olhar no fundo dos

seus olhos e pedir perdão. Perdão por tê-la levado para aquele lugar,

por ter falhado como mãe e, sobretudo, por não ter tido força

suficiente para fazê-la melhorar.

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1000 Universos 03

- Ok. Até amanhã, Dr. Pascoal.

- Até amanhã.

A noite passou tranquila no hospital. Muitas vezes ouviam-se

lágrimas reprimidas pelos corredores, ou então, gritos aflitos de quem

quer a liberdade. Nessa noite não. Pairava no ar uma certa magia de

lua cheia, como se cada paciente tivesse a certeza que um herói

entraria ali e resgataria toda a gente. Um misto de expectativa e

ansiedade flutuava pelos corredores como gases que deambulam

pelos esgotos.

Amélia dormia profundamente. O seu rosto revelava sonhos

inquietos. As pálpebras saltitavam e pequeníssimos gemidos

trespassavam os lábios cerrados.

Andreia estava acordada. Pensava em tudo e, ao mesmo tempo,

em nada de concreto. As recordações da família eram escassas. Não

guardava sentimentos bons em relação a ela. A mãe não compreendia

aquele seu lado, aquela ânsia de sangue, de mentira e traição. Os avós

olhavam para as cicatrizes do seu corpo com desdém, como se aquela

neta que estranhavam tivesse o diabo no corpo. Eram católicos, uma

coisa que Andreia detestava. Não entendia a história desse que dizem

ser Deus e, muito menos, encontrava nele uma força superior em que

se agarrar em situações de crise. Essa força só conseguia quando

mutilava o seu corpo, quando rasgava a sua carne branca com

pequenos objectos cortantes. O sangue vermelho-vivo a deslizar, a

pele aberta e as mucosas expostas eram tudo o que precisava para

sentir-se viva, energética, real e humana. Mais nada. Desejava poder

amar, ser amada mas simplesmente não o conseguia. O único

namorado que conhecia era o pequeno caco de vidro que escondia na

mesa-de-cabeceira da sua casa. E cortar-se com ele seria a única

relação sexual que teria em toda a sua vida. O êxtase do rasgar era

semelhante ao poder de um orgasmo. Os gemidos eram os mesmos, o

prazer era idêntico e a realização que sentia ao terminar era similar.

Tudo o que a transtornava era o facto de ninguém entender isso. E

essa situação tornava-a agressiva. Sentia tanta falta dessas sensações.

Ali não havia nada que a pudesse ferir. Uma lasca de madeira, um

prego, uma tesoura, nada. Estava frustrada. Subiu a camisola até expor

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os seios e encostou os dedos à pele. Arranhou-se de cima abaixo mas o

comprimento das unhas só permitiu que riscos brancos marcassem a

sua barriga. Riscos que aos poucos desapareciam. A frustração impeliua

para fazer mais pressão com as unhas. Sentiu um arrepio mas nada

que se assemelhasse ao retalhar de um corpo. Desistiu daquela luta

patética que só dava mais sensação de fracasso. Ajeitou a camisola,

cobriu-se com o lençol e fechou os olhos. Nessa noite sonhou com uma

faca aguçada.

O dia amanheceu como tantos outros em Coimbra, naquela

altura do ano. Ventoso, nublado e carregado de uma pressão que

só Janeiro trazia: os exames. Porém, naquele hospital, tudo isso

passava ao lado. Ali, o tempo escorregava demasiado devagar. Os dias

eram longos, as noites pesarosas. Não havia sol nem ar puro. Apenas

nuvens e um cheiro de morte.

Amélia acordou de um sono restaurador. Uma enfermeira jovem

veio despertá-la e dissera-lhe que tinha que se lavar porque a mãe

estaria no consultório do Dr. Pascoal dali a nada. Amélia obedeceu

como se disso dependesse a sua saída. Sentiu-se incomodada pelo

facto dessa mesma enfermeira vigiar-lhe o banho mas, em pouco

tempo, relaxou. Talvez devido à água quente ou, quem sabe,

à esperança de sair daquele lugar em breve. Esfregou o seu corpo

energeticamente. Queria limpá-lo daquele cheiro a éter. Deteve-se na

barriga. Doía-lhe ligeiramente como se tivesse sido arranhada ao de

leve por um gato, na brincadeira. Estranhou esse facto pois não se

lembrava de se ter magoado. Esqueceu rapidamente o assunto e

concentrou-se nas palavras que diria à mãe. Ou melhor, nas perguntas

que borbulhavam na sua mente e que precisava de colocar

à progenitora.

Vestiu uns jeans e uma camisola de gola alta, limpa. Era

vermelha, a sua cor favorita. Arranjou o cabelo para que a beleza do

seu rosto ficasse mais evidente. Infelizmente não tinha qualquer

maquilhagem para disfarçar as olheiras e a palidez dos lábios. A

mesma enfermeira conduziu-a até ao consultório. Estranhamente, os

corredores que antes pareciam caminhos que conduziam a uma

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1000 Universos 03

cadeira eléctrica, estavam agora limpos e arejados com um certo

cheiro, até, de desinfectante no ar.

O Dr. Pascoal encontrava-se sentado no mesmo lugar, por detrás

da secretária de madeira. Vestia uma bata branca com uma caneta de

luxo no bolso direito. Olhava fixamente para o bloco de notas que

tinha em frente e pensava em algo que o perturbava. Amélia via isso

no brilho preocupado que os seus olhos escuros de pantera reflectiam.

Esperou que ele desse pela sua presença, mantendo-se rígida diante

dele. O médico não tardou em levantar a cabeça e fez sinal para que

Amélia se sentasse numa das cadeiras vagas.

- Então, como se sente? – perguntou de uma forma

verdadeiramente expectante como se a resposta àquela pergunta

valesse a Amélia um milhão de dólares num concurso televisivo.

- Contente…acho. Ao menos poderei falar com a minha mãe –

olhou para o relógio de parede, o único naquele hospital. – A que

horas ela chega?

- Deve estar quase. Não se apoquente.

Nesse momento um toc-toc invadiu a sala. Os olhos do médico

penetraram o da jovem. Amélia sentiu um fogo queimar-lhe as

entranhas. Repentinamente ficou nervosa. As mãos gelaram e o

coração acelerou ao mesmo tempo que os joelhos batiam um no

outro. Se não estivesse sentada provavelmente tombaria a meio do

chão. O Dr. Pascoal notou o desconforto de Amélia e empurrou uma

garrafa de água que estava em cima da mesa, por abrir. Esboçou-lhe

um sorriso de esperança e Amélia tomou um gole. O toc-toc repetiuse,

desta vez com mais vigor.

- Entre – disse, por fim.

- Sr. Dr., aqui está a marcação das 9h. Posso deixar entrar? – a

secretária era bonita, com um tom de pele mulato e cabelos longos.

- Sim. Não nos incomode depois, Vitória.

- Com certeza – deu um passo atrás. – Faça o favor de entrar.

Uma mulher na casa dos 50 entrou. Usava o cabelo apanhado.

Não o pintava porque os fios brancos estavam bem evidentes. As rugas

eram mais carregadas que as comuns à idade e, pior, a senhora não as

disfarçava com maquilhagem. Vestia-se de forma bastante simples,

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escura e sem adornos. Notava-se que era uma mulher sofrida e que

queria transpor isso para todo o mundo. Na verdade, achava que o

simples facto de pintar os lábios com uma cor qualquer faria com que

toda a gente achasse que ela era afortunada e que pouco se importava

com o estado de saúde da sua única filha. Não podia permitir isso.

Permaneceria de luto como uma mãe que perdera o filho na guerra até

que o mundo lhe devolvesse a faculdade de ser feliz.

- Bom dia – cumprimentou o médico, olhando imediatamente

depois para Amélia. – Olá filha – os seus olhos estavam molhados.

- Mãe… - Amélia não se recordava de ver a sua progenitora

daquela forma. A mãe sempre fora uma mulher atraente e vaidosa

com algumas tendências para o luxo. Gostava de gastar dinheiro em

boas roupas e jóias caras. O bom emprego permitia-lhe dar-se a

algumas extravagâncias. Não saía de casa sem maquilhagem e nunca

descurava do cabelo. E ali estava ela, totalmente diferente, sem

ostentações ou caprichos, envergando umas calças largas e uma

camisola desbotada. O casaco não condizia com o conjunto e os

sapatos eram rasos. O rosto encontrava-se fechado, dividido entre a

alegria de estar tão perto da filha e o suplício de não poder levá-la

consigo.

- Sente-se, por favor – aconselhou o médico. Encontrava-se

diante de duas mulheres que, interiormente, pareciam estar a cair

num precipício. Ambas tremiam e suavam das palmas das mãos. Tanto

uma como a outra tinham dificuldade em respirar. A jovem parecia

querer falar mas a voz escondia-se. A mãe não encontrava nem as

palavras nem o tom certo para comunicar. O Dr. Pascoal decide-se a

dar o primeiro passo. – Vejo que não sabem o que dizer uma à outra.

Era verdade. E Amélia não entendia o porquê disso. Estava

naquele lugar há dois dias. Sabia que não havia qualquer razão para

esse enclausuramento. Tinha estudado mentalmente, vezes sem

conta, o que perguntar à mãe no primeiro encontro. Estava ali para ter

todas as justificações que lhe deviam ser dadas por direito.

- Olá mãe – arriscou Amélia.

- Filha, como te sentes?

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1000 Universos 03

- Quero sair daqui – aproximou-se da sua mãe, rodeando o seu

pescoço com os braços. – Porquê estou aqui? Quem me trouxe? Eu

não entendo.

- Querida, eu não posso responder-te a essas perguntas sempre

que cá venho para depois as esqueceres. Se estás aqui é por motivos

de segurança, para que fiques boa e voltes lá para casa – respondeu a

senhora, com as pequenas rugas no canto dos olhos bem salientes e os

lábios trémulos.

- Sempre que cá vens? – desprendeu-se do regaço da mãe. – Mas

eu só cá estou há três dias… - olhou para o Dr. Pascoal que,

instintivamente, baixou a cabeça, deixando o olhar de Amélia suspenso

no ar.

- Não são três dias, filha. Nem três semanas ou meses. Não te

lembras da nossa conversa quando fizeste 18 anos? Que seria melhor

vires para cá e curares esse mal. Tu concordaste, filha. Tu também

achaste que era o melhor para ti – a sua voz era aguda e aflita.

Amélia decidiu-se a cair no chão. Achou a atitude mimada mas

não queria a cadeira. Estar no chão dar-lhe-ia a atenção que queria

naquele momento.

- Que estás a fazer? – perguntou a mãe. – Levanta-te. Estamos a

conversar.

Amélia cruzou as pernas, dobrando os braços sobre si e levantou

a cabeça, com os olhos bastante arregalados.

- Não me levanto - a maneira como pronunciou cada sílaba foi

um tanto ou quanto assustadora.

A progenitora suspirou. Já travara aquela batalha vezes sem

conta e nunca a ganhara. Quando a filha decidia-se àquelas atitudes,

ninguém era capaz de a detonar.

- Nem sei porquê me dou ao trabalho de cá vir. Tu não fazes um

esforço, um mínimo esforço que seja – o tom de voz aumentara. Já não

era triste. Saíam carpidos irritados, duros até.

- Vamos tentar acalmar – sugeriu o Dr. Pascoal. – Brigar não nos

leva a lado nenhum.

Porém, já por essa altura, Amélia entrara num transe profundo.

Via tudo o que se passava mas era como uma paisagem distante em

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que ela não entrava ou sequer podia tocar. Não ouvia os sons,

somente as bocas a movimentarem-se. Tudo numa lentidão mórbida.

A imagem era pastosa. Assemelhava-se a uma pintura feita a óleo. As

faces alongavam-se e os queixos distorciam-se. Era possível verem-se

os poros e todas as deficiências da pele das duas pessoas que ali se

encontravam. Pessoas que ela não conhecia. Eram feios. Quase

demoníacos. De repente, teve medo. Não um medo de aranhas ou

alturas mas um medo que fere todo o sistema nervoso e nos joga para

o fundo de um buraco asqueroso. Amélia tremia. Aquelas pessoas que

agiam e falavam em câmara lenta, com os seus queixos pontiagudos e

os olhos a escorrerem pela cara, tinham ar de querer matá-la de uma

forma bastante dolorosa. Amélia não via outra solução. Tinha de gritar

o mais alto possível. Alto o suficiente para que a pessoa do outro lado

do mundo a escutasse. Mesmo que disso resultasse o romper das suas

cordas vocais. E assim o fez. Um grito animalesco, corrompido de

sentimentos bons ecoou por toda a imediação psiquiátrica. Um grito

de horror, de alguém que é ferido brutalmente por emoções

cavernosas.

Andreia estava deitada, a mirar o panorama que a sua janela

permitia. Via duas pessoas discutirem lá fora. Um homem e uma

mulher. Não entendia o que diziam mas pareciam bastante zangados.

As suas feições eram cómicas. Andreia gostava quando as pessoas

brigavam pois, assim, sabia que, naquele momento, eles sentiam

aquilo que ela experienciou toda a sua vida. Foi aí que ouviu um grito.

Aquele berro, vindo do inferno, sabia-lhe a um doce veneno que

avançava lentamente pelo sangue e o tornava morno. As suas veias

despertaram e o coração acelerou como há muito não acontecia. Que

grito fantástico aquele. Era o guincho mais prazeroso que alguma vez

experimentara. Sentia-se atiçada, com a imaginação a mil e capaz de

todas as insanidades mundiais para saciar a sua fome. Procurou no

quarto. Os olhos vaguearam pelo cubículo feito doidos. Olhos capazes

de enxergar para lá da cama de ferro e do móvel de metal forrado por

um tecido acolchoado, sem cabides, somente com três prateleiras que

continham todas as suas roupas. Deu apenas três passos e chegou

até ele. Tacteou as roupas iguais, uniformes de hospital pouco

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elegantes mas estupidamente confortáveis. Tocou num soutien, usado

unicamente quando recebia visitas, e sentiu-lhe a armação. Sorriu de

uma tal maneira que suavizou as linhas rudes do seu rosto.

- Parvos. Tanta segurança para deixarem cá esta merda –

sussurrou, dando a sensação que haviam esquecido uma bomba que

rebentaria dentro de pouco tempo.

Desembaraçou-se do tecido que protegia o pequeno suporte e

tirou-o para fora, delicadamente, como se de uma relíquia se tratasse.

Mirou-a de uma ponta a outra, com aquele mesmo sorriso, agora

misturado com uma ponta de preocupação. Tinha medo de si própria,

essa era a verdade. Sempre que o fazia, sentia que a sua alma dividiase

em duas pessoas. Andreia, a que se extasiava com o corte e uma

outra, bem escondida e tímida, que se escondia num canto escuro com

os braços a taparem-lhe a cara e os olhos fugidos do sangue que sentia

escorrer. Empurrou a voz da sua consciência para o fundo da gaveta da

moralidade que raramente era aberta. Sentou-se na extremidade

oposta à porta e absorveu o cheiro daquele hospital com força. Se

já não estivesse habituada àquela essência química, a inspiração que

acabara de fazer seria suficiente para dopá-la. Cerrou as pálpebras de

um modo semelhante a uma criança que finge que dorme quando os

pais a vão cobrir com o lençol, e puxou a manga da camisola para cima.

O braço estava todo cheio de marcas. Feridas cicatrizadas mas feias.

Algumas muito antigas, outras mais recentes. O espaço para uma nova

cicatriz era limitado e fora de mão. Cortar-se ali, perto do cotovelo, e

ver ao mesmo tempo o sangue a eclodir da carne, era demasiado

acrobacista para alguém com um corpo pouco dado ao exercício físico.

Dobrou o braço o máximo que conseguiu e esticou o pescoço por cima

do ombro. Doía mas conseguia avistar o que pretendia. Pegou na

armação e escolheu a ponta mais aguçada, encostando-a à pele.

Forçou a entrada da extremidade e sentiu a cútis romper. Doeu pouco.

- Malditas drogas!

Pressionou mais um pouco e começou a rasgar. O sangue

demorou a aparecer e a espera foi agoniante até que, por fim, ele

espreitou, atrevido, apaixonante e quente. Tudo o que um amante

deve ser. Deslizava pela pele, sorvendo-a, incitando-a a pecar mais, a

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1000 Universos 03

pedir por mais. Escorria, pegajoso, pelo braço, passando pela mão,

indo cair ao chão. Sangrou o máximo que pôde e rebolou por cima

dele, misturando sangue e poeira na roupa. Grunhia de forma

desumana e o corpo saltava do chão em espasmos cada vez mais

seguidos. Conseguia ver a sua outra metade lá ao fundo. Cabra! Fingiase

inocente, com medo daquilo que a si dava alegria. Estava ali,

encolhida que nem um rato caçado, tremendo e escondendo a cara de

uma maneira ridícula.

- Olha para mim, cabra! – gritou, ainda no chão, ainda em

convulsões surreais.

A outra não olhou ou sequer pestanejou. Permaneceu no mesmo

lugar escuro.

- Olha para mim e admite que gostas, admite! Pára de fingir que

sou só eu a má, a louca. Eu sei que tu amas sangue da mesma forma

que eu amo. Eu sei que só vives da mentira. Aliás, tu sugas a mentira

muito mais do que eu. Ao menos, sou sincera naquilo que gosto. Tu

não, sua cabra. Interpretas quem não és. OLHA PARA MIM, MERDA!

A rapariga olhou, por fim. Tinha o mesmo rosto, o mesmo olhar,

os mesmos traços. Eram idênticas.

- Finalmente! Finalmente. Agora admite, admite que adoras isto

quanto eu – pediu, apontando para o sangue que escorria feito um rio

furioso depois de um dia de chuva intensa.

Lentamente, balbuciando com coragem. – Andreia! Eu amo tudo

aquilo que adoras. Eu sou melhor que tu. Eu vibro com sangue mas

não o mostro. Tu és tonta e por tua causa é que estamos aqui. –

Levantou-se sem demoras e correu até à sua semelhante, dando-lhe

um pontapé com toda a força do mundo.

- Amélia! Amélia! – gritava a mãe, histérica.

- Calma, os enfermeiros vêm a caminho – sugeriu o Dr. Pascoal

tentando esconder a preocupação que carregava o seu semblante.

Por fim, três homens de bata branca apareceram no escritório.

Um deles trazia um estojo e sacou de lá uma agulha cheia de líquido

transparente. Enquanto os outros dois agarravam na maluca que

guinchava e arroubava no chão, o enfermeiro-chefe injectou-a no

braço sem demoras. Amélia adormeceu de forma instantânea e foi

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1000 Universos 03

levada para o quarto de repouso. A D. Olga sumiu atrás dela, deixando

o Dr. Pascoal sozinho. Incrédulo, pegou no caderno que estava à sua

frente e anotou.

Quarta-feira, dia 17 de Janeiro de 2008. 10h34.

A paciente não aguentou o encontro com a mãe. Inicialmente,

falou de forma coerente apresentando um estado clínico pouco comum

ao que costuma estar. Demonstrou afectos de carinho, nomeadamente

abraçar a progenitora. Porém, sentiu-se contrariada e regrediu.

Sentou-se no chão e entrou em transe. Ouvi-a chamar por uma

Andreia. Não conheço tal pessoa mas não é a primeira vez que isso

acontece. Talvez Amélia sofra de personalidade dupla. O meu maior

receio é que esse diagnóstico se confirme. Pelo que já me apercebi,

essa outra pessoa é muito perigosa. Suponho que se chame Andreia. E

ela gosta de sangue e dor.

Valentina Silva Ferreira é natural da Ilha da Madeira (Portugal), nascida em

1988. Licenciada em Direito. Apaixonada por Literatura. Participa em antologias das

editoras Estronho, Infinitum Littera, Literata e Oito e Meio. Colaboradora das

revistas JA, Benfazeja (http://www.benfazeja.com), Magazon

(http://magazon.netmadeira.com/autor/valentina-silva-feereira) e Infektion

Magazine (www.infektionmagazine.info).

Blog www.paraisobiblioteca.blogs.sapo.pt

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A RAINHA DO GELO

Celly Monteiro

Uma estrela caiu enquanto eu fitava o céu. Seu rastro luminoso

feriu meus olhos. Se fechá-los ainda terei sua marca abaixo das minhas

pálpebras. Cortou o céu negro em uma fenda de fogo. E a visão do

fogo, apenas sua visão, foi capaz de derreter um pouco do gelo do meu

coração e me trazer uma esperança a muito abandonada. Mas foi tão

fugidio que ainda me pergunto se não foi apenas uma miragem. Se não

fitei em demasia o céu na ânsia de vencer o frio do universo e tocar o

calor de uma estrela.

Sim, certamente o mirei em demasia, e de tanto insistir posso ter

derrubado uma delas. Aquela que mais cobiçava? Que nada. Decerto

minha visão estava viciada daquele mirar estático. Ou quem sabe não

é minha loucura congênita que me engana. Ainda que seja é tarde

demais. Já estou tomada por essa febre – nem mesmo a febre em mim

é quente -, a febre por trilhar aquele caminho.

Quem sabe por lá não encontre algum movimento, e quem sabe

por sorte não possa me deitar nas cinzas que ainda não se entregaram

e roubar um pouco de seu débil calor para mim.

Desço do meu mirante descalça, apenas a pele adere ao gelo.

Como se a rainha do gelo pudesse se quebrar. Mas não me pergunto

por que a cautela.

Silêncio, silêncio. Ninguém ouve meus passos. Faz tanto tempo

que os cristais não tintilam e as estalactites não despencam do céu

como chuva. Melhor assim, ou o que seria da minha coleção de

estátuas?

Muitos foram os que se sentiram desafiados e cometeram o

pecado derradeiro de se deixarem arrebatar pela beleza da rainha do

gelo. E todos aqueles corações inflamados de amor pereceram sobre a

gelidez dos meus lábios. O calor deles não fora suficiente para vencer o

meu gelo. Meu gelo, minha solidão, minha maldição.

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1000 Universos 03

Ah, o olhar deles emitia uma luz reconfortante. Seus fios de

cabelo tinham tantas cores, seus cílios. Eram dourados, vermelhos,

castanho, negro como o céu. A boca sempre rosada. A pele macia e

quente. Eu não resistia diante do fogo daquele olhar. Diante daquela

promessa que parecia dizer: Tudo bem meu amor, eu cheguei. Todo o

frio acabou, deixe-me aquecê-la.

Eu acreditava. Me iludia e o tocava. E com o meu toque sua

beleza se tornava a minha. Assumia aquela palidez cintilante, mas se

tornava rígida a pele antes macia. O meu salvador se tornava uma

estátua inanimada. Silente. E meu salão estava novamente vazio de

vida. Eles parecem todos iguais depois de tanto tempo. Nem me

lembro mais o gosto de cada beijo.

O ultimo deles não beijei. É o único cuja pose não é igual. Sem

mais qualquer esperança o repeli com desprezo. Fazia pelo seu bem,

mas o tolo estava perdido pela rainha do gelo, puxou meu manto

implorando meu amor, o repeli mais uma vez, agarrou-me o pulso, me

tocou, foi seu erro. É a única estátua que não está intacta. Deste eu

não tenho culpa. Entretanto, se forem perguntar qual é a minha culpa,

direi; ter tido esperança, apenas, por que aqueles que estavam ali não

chegaram por acaso. Ou foram atraídos pela riqueza ou pela beleza.

Pela riqueza que ostenta meu mundo frio, meu suntuoso, mas insípido

castelo de gelo que parece firmado sobre bases de diamantes, ou pela

beleza que ostenta minha face incólume, minha figura cintilante e

quase etérea. Ah, chega de me culpar.

O fogo parece vivo na minha lembrança. O fogo trouxe cor ao

meu mundo pálido. E o salão é tão grande para se transpor. Seu piso

espelhado insiste em me mostrar a face dos meus condenados. Mas

enfim já vejo a escadaria. As colossais pilastras que sustentam a

entrada. As paredes exibem desenhos magníficos. E o teto é tão

delicado e transparente que através dele posso ver o céu. Meu mundo

é lindo, mas é frio.

Não ouso gritar para os ursos polares mesmo estando tão

ansiosa. É preciso lembrar das estalactites e das estátuas de gelo.

Também a delicada cúpula do meu palácio pode não resistir a minha

voz argentina. E nem seria preciso, eles já me esperam apostos em

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1000 Universos 03

seus lados no trenó. Se não me temessem a ponto de jamais ousar

chegar perto poderiam me proporcionar companhia. O que posso

dizer; são mais espertos que os tolos humanos.

Não digo nada, eles sabem para onde quero ir. Correm tão

depressa como se sentissem minha ânsia. O vento gélido faz minhas

palavras emitidas ao nada chisparem como cristais. A noite e o gelo se

entendem tão bem. Dois deuses frios que me conceberam em um

momento de loucura. Se entregaram um ao outro e eu nasci. É essa a

minha origem? Não sei. Sei apenas que desde que nasci eles foram às

únicas companhias que me suportaram. Que permanece enquanto

todos foram corrompidos pelo gelo e se quebraram.

As vezes o vento sussurra trazendo mensagens de seus senhores.

Pobre vassalo, não sabe a língua da senhora do gelo. Pobre senhora do

gelo...

Não consigo acreditar no que meus olhos vislumbram. Meu

coração parece bater dentro do meu peito. Vejo a luz. Uma luz se

insinua além. Nada dessa luz argentina de que sou formada, é uma luz

que parece arder mesmo de longe. Os ursos correm mais velozes. Eu

na os incito, pois estou muda de emoção. Eles apenas sabem. Algum

lugar no chão adiante ainda arde. Meus olhos não me enganaram, uma

estrela caiu. Desço trêmula do trenó. O calor, mesmo de longe, bafeja

minha face.

Meus passos são cautelosos enquanto me aproximo. Do que

tenho medo, da felicidade? Do calor que derreterá meu gelo mesmo

que por um instante? Jamais fui acalentada. Apenas o tilintar de

cristais de gelo embalaram minhas noites. Todos me temeram até

perecerem. Jamais um afago. E o calor me afaga agora assim como

esperava. É exatamente como eu sonhava. Ah como é bom sentir o

que é tepidez!

Essa luz vermelho-dourado me cega. Como é difícil fitá-la. Parece

langorosa, movimenta-se com sensualidade. O que tenho a minha

frente? Achei que estava a fitar uma grande fogueira de pedra. Mas há

vida animando esse fogo que arde distante, tenho certeza. Meu medo

cede à ansiedade. Diminuo a distância entre nós. Já não escapa mais

neblina da minha boca. Minha pele está úmida, goteja. Largo meu

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1000 Universos 03

manto que me incomoda. Mas ainda está frio aqui dentro, anseio por

esse ardor que fere meus olhos.

Vejo a chama se erguer. Tornar-se delgada. Por um minuto

penso que uma figura humana me fita. Não estou enganada. Línguas

de fogo ardem a sua volta, lambem a pele. Ele parece exalar calor

assim como transpiro flocos de gelo. A figura é dotada de um par de

longas asas. Assim ele traspôs os céus e chegou até aqui? Não sei.

Parece que o vejo abrir os braços para mim. O senhor do fogo me

convida a um abraço. Oferece-me calor; tudo o que ansiei em toda a

minha vida. Como não me entregar? Continuo sem hesitar e quanto

mais faço minha pele queima enquanto o que anseio é arder por

dentro. Esse frio não me larga. Meu coração ainda é uma pedra gélida.

Precisará esse bloco de gelo ser consumido por inteiro? Que assim

seja.

Volto-me uma ultima vez para os ursos polares. Ah, quanta

expectativa vejo em seus olhos. Erguem-se sob as patas traseiras com

ansiedade. Quanta satisfação estampada em suas faces. Parecem

heróis experimentando a sublime mistura de alivio e jubilo após uma

longa e penosa batalha. Enfim percebo. Meus providentes ursos

polares que tão prontamente me trouxeram até onde meu coração

ansiava. Antes tão indolentes e arredios. Hoje fervem de ansiedade.

Últimos sobreviventes do meu mundo frio.

Sinto-me envolta pelo braço do senhor do fogo. Seu ardor

devora-me a pele. Deixo-me ser enlaçada. Ele encosta-me ao seu peito

flamejante, envolve-me para que eu não fuja, para que eu prove de

um abraço, do carinho que jamais tive. Quanta ironia, uma primaria e

derradeira ternura. Sinto seu afago, a afabilidade que vem daquela

quentura. Entrego-me a esse conforto, um conforto que sempre ansiei,

e esse mesmo anseio vejo se estampar no olhar dos ursos de uma

outra forma.

Ainda que esteja me liquefazendo nos braços do providente

senhor do fogo, não protesto. Ainda que sinta cada vez seu abraço me

acercar mais e mais à medida que minha carne esvai-se em constante

sublimação, permaneço. Não recuo assim como parece ser o temor

dos ursos polares. Conhecer o calor foi o que sempre quis, mesmo que

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1000 Universos 03

não soubesse o que significava para mim. Entrego-me ao desejo que

regou meus dias e firmou os meus sonhos. Pois sem ele eu sempre

serei essa inóspita senhora do gelo.

Celly Monteiro é aracajuana formada em Turismo. Escreve desde a adolescência.

Respira e transpira fantasia. Já publicou em algumas antologias de contos fantásticos.

Expõe seus contos no blog: http://afantasista.blogspot.com/ e coordena a seção de

contos fantásticos da revista virtual http://www.benfazeja.com/

Contato marcellym90@gmail.com

Twitter @Cellymonteiro

Recanto das Letras http://www.recantodasletras.com.br/autores/cellymonteiro

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1000 Universos 03

O PACTO MACABRO

DA VELHA ANTONHA

Afonso Luiz Pereira

O caboclo Bentinho era homem de coragem. Ah, era sim! Não

havia vivente neste mundão de meu Deus que botasse dúvida de sua

macheza na frente das fuças dele. Não, senhor! E matador também!

Sim, pois não se criava encrenca braba com a qual o cabra da peste

não resolvesse na ponta da faca. Nas suas costas já se botava por riba

uma boa dezena de desafetos, que ele tinha mandado desta pra

melhor. A fama do homem corria longe. Muito além das terras que

faziam fronteira com a pequena cidade de Itaúba, onde ele morava, no

meio do sertão agreste, contavam-se os causos de sua valentia. Era

assim o caboclo Bentinho: não tinha medo nem de homem nem de

bicho e, dizia-se inté, tampouco de assombração!

Bentinho e o folclore em torno de sua figura só tinham rival em

outro sertanejo de igual fama conhecido como “Tonhão dos Espíritos”.

Deste, então, pouco se sabia, a não ser que tinha parte com o Demo, o

Capeta, o Coisa Ruim! Vivia isolado numa casinha esturricada, feita de

madeira velha e escura, sempre vestido de paletó e calça marrom,

surrados pela poeira acachapante dos ventos que esmerilhavam os

elementos naturais da caatinga. Mas não era Tonhão um capiau

qualquer. Não, senhor! Era homem versado nas letras dos cafundós

dos infernos porque a criatura falava com gente morta através dos

papéis. Ô se isso lá era coisa de gente certa!

Um dia, diz que a mãe de Bentinho, de quem o marvado puxou a

ruindade, bateu a caçuleta sem aviso, de supetão, coisa de coração

cansado que pede sossego pelo avanço da idade! Da boca do povo

corria o cochicho que a velha já ia tarde. Ninguém gostava dela porque

a cobra coral carecia de freios na língua, falava mal de todo mundo. Ela

derriçava o cacete nos animais e nos empregados da fazenda fácil,

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1000 Universos 03

fácil, assim, sabe? Como quem joga lavagem pra porco. O baque da

morte da santa mãezinha pro coitado do Bentinho foi grande. Ah, se

foi! Ficou o homem inconformado de um tal jeito que, mal o corpo da

defunta tomou gosto dos bichos da terra, veio ele ter comigo, antes da

lua fazer assento naquela fatídica noite cheia de acontecimentos

sombrios que ainda me acompanham por onde vou neste sertão sem

porteira.

— Vadico, quero que vosmecê me leve inté no cafua do Tonhão

dos Espríto.

— Oxênte homi! Vosmecê tá de miolo mole, é? Abilolou de vez?

Aquilo lá tem parte com o cão!

— Arre égua, deixe de sê abestado, homi! E eu lá tenho medo de

lidá com criatura bisonha feito ele? Minha santa mãezinha finou-se

num repente. Não deu tempo de nada, visse? Não chegou a dá o

último suspiro, a pobre coitada! É capaz que ela teja percisada de

alguma coisa lá do outro lado, né? Diz que o Tonhão é de falá com

quem bate a caçuleta! Pois então?

— Ô meu padim padi Ciço! Lá vou não! Cruz credo!

— Deixe de sê cagão homi! Diz que vosmecê é dos pouco que

conhece o caminho inté lá. Se vosmecê não vai, vosmecê tá me

fazendo uma desfeita! E homi, mesmo sendo amigo meu, que me faz

uma desfeita, eu deito a faca no gorgomio sem dó nem piedade!

Pois, então, foi assim que Bentinho me deu o convencimento de

ir ele, mais eu, cada qual encarapitado no seu jegue pachorrento pras

profundas da caatinga, em noite escura que nem carvão. Bom... lá,

depois de umas tantas horas, já de destino certo e enveredando por

trilhas e atalhos num sobe e desce da cachorra, calhou a gente de ver

ao longe a morada do malacabado, filho do Tinhoso. A luz

tremelicante de vela a mercê do vento, que se escapava das gretas das

paredes pregueadas do casebre, batia nos olhos da gente como uma

parecença de farol maligno dentro do negrume da noite! Eita visão dos

infernos! A vontade que me deu era carcá dali rapidinho, feito calango

que foge de caboclo morto de fome. Olhei pra peixeira escorrida ao

lado do Bentinho e desisti do pensamento.

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1000 Universos 03

Mal invadimos a mangueira do casebre sombrio, Bentinho não

contou passo. Desmontou do seu jumento raquítico e mandou pernas

na direção da porta de entrada do cafua do Tonhão! Não chamou o

vivente pelo nome, tampouco bateu palmas pra se fazer anunciar.

Empurrou a entrada do batente e mergulhou lá dentro, emproado, que

nem galo velho quando faz presença pra galinha nova! E eu, na cola

dele, fui junto, não com a mesma empáfia porque sou criatura de paz,

temente ao nosso senhor Jesus Cristo!

Lá estava o Tonhão bem do aboletado atrás da velha mesa de

carvalho!

Cruz credo! Não conhecia o cabra de presença porque dele só

ouvira falar estórias! E, de fato, como se dizia nas conversas, o homem

mais parecia um cão chupando manga de tão feio. O ambiente funesto

do cômodo escuro, a vela de chama tremeluzente próxima dele, mais

as folhas de papéis em desalinho por todos os lados, não lhe faziam

melhor a figura. De começo, após nossa entrada de supetão, ele não

nos deu atenção, ou fez que não viu, não sei dizer. Bentinho tomou

aquilo como uma afronta. O porquêra pigarreou forçando o barulho de

engasgamento de quem puxa catarro pra limpar o gorgomio e cuspiu

no chão de madeira tosca da sala. Os olhos negros da cara amassada e

empalamada de Tonhão, estando de pouso nos papéis por cima da

mesa, tomaram prumo e buscaram nossa direção. Só da mirada que o

caboclo me deu veio um sopro de frio forte que me arrepiou todo o

corpo, dos pés à cabeça! Bentinho não tomou tento de apresentar-se,

foi logo intimando:

— Tonhão, comi muita poeira nestas estradas pra mode de

vosmecê me dizê cumé que tá a minha santa mãezinha, que bateu a

caçuleta não faz nem cinco dias! Quero sabê se a pobre tá percisada de

alguma coisa?

A vosmecê que me ouve, não sei direito como explicar o

acontecido. Tenho pra mim que Tonhão já devia dede conluio com

o Sacripanta, em meio d'algum tipo de ritual, porque assim que

Bentinho deu intimação, ele começou a rabiscar a folha de papel num

apressamento desembestado, os olhos se fugiram pra não sei d'onde

e, por pouco, não me borrei nas calças, quando ouvi a voz espremida e

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1000 Universos 03

roufenha, da velha Antonha, mãe de Bentinho, saindo da boca da

criatura molambenta!

— Fio... meu fio... Bentinho... meu menino... Eu já tava te

esperando! Tô nas profunda dos inferno e não tô gostando nadica de

nada desse diacho de lugar! Vosmecê tem que me tirá daqui, meu fio!

— Oxênte, mas como mãezinha?

— Meu fio, meu menino, já fiz um “combinado” aqui com o

Belzebu, só que vosmecê tem que me ajudá!

Naquele exato momento, Tonhão dos Espíritos começou a se

estrebuchar. Vixe Maria, mãe do céu! O homem ficou feio! As mãos

que bolinavam o papel pareciam querer abandonar o serviço da escrita

exigido pelo Capeta. Deu dentro das minhas idéias, assim, no meu jeito

de pensar, que o traquinas malacabado tava num esforço pra mode de

se livrar do encosto maligno... mas não tava conseguindo, não! Daí,

vosmecê, caboclo atencioso nessa minha contação do fato assucedido,

vai botá dúvida no que vou te contar agora. Mas te adianto que não

sou cabra dado a mentiras e nem invencionices, não! Pode acreditar!

Por riba da cabeça do Tonhão começou a se formar uma nuvem

empanturrada, meio escurecente, tal qual se assucede no começo das

tempestades brabas, quando no raro, desabam por aqui! E dentro da

sala, veja vosmecê! É isso mesmo! Uma nuvem dentro da sala, homem

do céu! Vosmecê acredita nisso? Mas espere que o pior mesmo vem

por aí. De dentro da nuvem começou aparecer um mundaréu de

criaturas medonhas que, decerto, vinham das profundas. Um arrepio

me cutucou forte a espinha de baixo pra cima, que nem choque

elétrico!

Nossa Senhora dos Desvalidos, Tonhão tinha aberto a porteira

dos infernos!

As criaturas bisonhas se misturavam as carnes, ou estavam

ligadas umas nas outras: homens, mulheres, morcegos, esqueletos

humanos, bichos que não dei conta de atinar. Todos mal formados.

Um por riba do outro, o outro por riba de um. Olha, era uma

misturança que fazia inté mal pros olhos do vivente. Nunca vi daquilo,

nem em pesadelo, se vosmecê quer saber. E no meio daquele mafua

das profundas, entre almas e demônios, num é que apareceu as fuças

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1000 Universos 03

da velha Antonha estampada no bucho do Bode Preto. Vixe Maria,

mãe do céu! Foi nessa hora que, por pouco, quase arriei os intestinos

ali mesmo! Quis me escafeder dentro do pretume da noite, mas meus

gambitos fizeram birra! De lá de riba a cobra coral mandou recado pra

Bentinho botando minhoca na cachola dele.

— Fio, o Belzebu me aprometeu que se vosmecê sangrá, esfolá,

matá de morte bem matada, pra mais de 30 cabras, ele vai me

adevolvê pra vida de novo! Olhe só, meu fio! O gramuião me faz vivê

de novo! Ele bota minha alma no corpo outra vez!

— Mãezinha, a senhora tem certeza?

— Oxênte, se não tenho! E tem de sê pra ontem, meu fio. Pode

começá com o Tonhão aí, esse fio d’uma égua parideira, que não tá

fazendo gosto d'eu proseá com vosmecê, fio. Mata ele! Mata! Cutuca a

peixeira velha no bucho desse empalamado! Mata ele!

Não deu tempo de nada. Foi como o pensamento. Bentinho,

esporeado que nem galo de briga, correu com a peixeira na mão

mergulhando por riba da mesa e, num corte de banda, sangrou o

gorgomio do Tonhão dos Espíritos que emborcou de cabeça, virado de

pernas pro ar, o desenfeliz. Bentinho não parou o serviço

encomendado, não! O sangue velho espirrou pra tudo quanto foi

canto. Eu vi! Vi sim! Vi com os olhos que esta terra há de comer!

Enquanto Bentinho golpeava o corpo estrebuchado do outro

estatelado no chão, lá de riba, dentro da nuvem, as criaturas dos

infernos se agitavam, se moviam, parecendo um amontoado de cobras

ao redor do Tinhoso que levava a cara da velha Antonha pregueada no

bucho. Ela se ria alto, feliz, feito passarinho preso que foge da gaiola, a

maldita. E, de repente, os olhos negros dela caíram por riba de mim.

Ai, ai, meu Senhor Jesus Cristo! Senti que a coisa ia ficar mais preta

ainda! Um sorriso murcho da boca chupada da velha me estremeceu o

prumo e quase desmaiei.

— Bentinho, meu fio! Esse aí já se foi. Larga dele! A alma já

desencarnou e tá vindo pra cá! Agora, pega aquele estrupício lá, ó.

Vadico é fuxiquero! Estripa esse disgramado, fio d'uma porca,

tumém!

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1000 Universos 03

Daí pra diante pouca coisa posso dizer. Não sei o que foi que deu

no meu amigo Bentinho, meu compadre, meu parceiro de

traquinagens da infância. Ele se levantou num pulo e virou-se pra mim.

Não disse palavra, mas os olhos dele diziam: vosmecê vai morrer

cabra! Eu, que não sou bobo nem nada, não pedi explicação. Não,

senhor! Tomei o vão da porta escancarada pra noite e deitei cabelo

pra fora do casebre do Tonhão! Deixei o meu jegue na mangueira e

garrei o mato da caatinga, sem olhar pra trás. Enquanto corria

desesperado, caindo e levantando, ainda podia ouvir o riso da velha

Antonha azucrinado os meus ouvidos.

Ninguém, que sobreviveu àquela noite, esquece da tragédia. Não

se comenta, mas ninguém esquece. Corri até a cidade. Fiz o maior

barulhão que já se tinha visto na história daquele povo. Eu berrava

alucinado nas ruas empoeiradas de Itaúba, que Bentinho vinha

estripá gente de bem pra resgatar a velha Antonha dos infernos.

Muitos fugiram, outros não acreditaram. No entanto, um grupo se

armou de facas e armas de fogo pra esperar o lazarento nos limites

fronteiriços da cidade. Foi assim que vimos o Bentinho, acompanhado

da velha Antonha, desenterrada, apodrecida e amarrada no meu

jegue. Quando ele desmontou do seu jumento estropiado, a faca

rombuda e os olhos do cabra tomaram brilho dentro da noite. Não

fizemos muxoxo. Começamos a atirar! Os animais de carga, e a velha

também, desempacotaram-se no chão, mas Bentinho, não! O homem

tava de corpo fechado, pelas graças do Capeta, de uma tal maneira

que nem bala entrava na carcaça do vivente! Ele berrou, correndo pra

cima de “nóis”. Eita que foi um Deus nos acuda, um desespero sem

tamanho! Era gente espalhada correndo pra tudo quanto era canto!

Quem corresse mais, chorava menos, porque Bentinho ia passando a

faca em todo mundo. Era no pescoço, nas costas, nos braços, nas

pernas... vixe, foi uma gritaria que se ouviu de longe. Na confusão, o

caboclo que Bentinho não lanhava uma boa ferida pro resto da vida,

morria estrebuchado, segurando as tripas no meio da caatinga. Olha

esta cicatriz aqui nas minhas fuças. Não nasci zarolho, não! Foi ele

quem fez!

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1000 Universos 03

Bem... vou dar o “causo” por terminado porque não tenho mais

o que dizer. Esta estória que eu te contei já vai há muito, sabe? Jamais

voltei a botar os pés lá pras bandas de Itaúba, mas estou bem

informado do que acontece naquele “eitão” de terra! É verdade! O

Belzebu, o Demo, o Coisa Ruim, o Bode Preto, faz questão de me

deixar inteirado a quantas anda o combinado dele com a cobra coral.

Em algumas noites, escuras que nem carvão, me bate um encosto

maligno, fico em transe, assustando os meus amigos, meus filhos e

parentes. Nestas horas, sou tomado pelo sentimento de desespero de

alguém, vítima de Bentinho, que não conhecendo a região acaba

estripado e abandonado pra morrer sozinho dentro da noite, em meio

à caatinga. Então, vejo claramente, pelos olhos do agonizado,

esvaindo-se em sangue, o casebre isolado. E lá no vão da porta,

alumiada pelas velas tremeluzentes, alcanço com a vista boa, escorada

no batente, a figura apodrecida da velha Antonha sorrindo seu sorriso

mucho e me dizendo:

— Falta pouco, Vadico! Falta pouco!

Afonso Luiz Pereira, 43 anos, é professor de Inglês do Ensino Fundamental da

rede municipal de Itajaí – SC. Afonso tem verdadeira paixão pelo gênero conto, como

expressão literária, e desde 2008 adotou a literatura fantástica como preferência de

leitura. Afonso é um dos Membros Fundadores do site “A IRMANDADE” (

www.airmandade.net ) e, também, gerenciador do site de literatura de gênero

“Contos Fantásticos” (www.contosfantasticos.com.br ), onde tem alguns textos

publicados, em meio a um acervo de mais de 220 contos de FC, Terror e Fantasia de

escritores amadores e profissionais.

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1000 Universos 03

SE NUMA NOITE NA

ESTRADA

Cindy Dalfovo

I.

Uma da manhã. Naquela região e, especialmente, naquela

estrada, isso significava solidão – Ana Luz dirigia sozinha, os faróis

baixos por conta da neblina.

O frio, a neblina, a escuridão envolvente por conta da estrada

sem postes e sem nada ao redor, apenas imensos campos cheios de

mato, abandonados - tudo, tudo conspirava para que Ana Luz se

sentisse solitária e melancólica, mas, ainda assim, em um profundo

estado de paz. Era isso, ou o copo de vinho que ela havia tomado

naquele restaurante italiano.

Nhoque ao molho de quatro queijos acompanhado de uma bela

taça de vinho - simples, cliché, mas maravilhosamente bem feito no

melhor restaurante italiano daquela região e que, por um infortúnio do

destino imobiliário, ficava do outro lado da cidade. Quarenta e cinco

minutos para ir, outros quarenta e cinco para voltar - e o pior é que

valia a pena.

Os garçons já a conheciam pelo nome, e a cumprimentavam com

um alegre "Luz, Luz, minha Luz!" e a levavam até sua mesa favorita. "O

de sempre?" eles perguntavam, e ela sempre respondia com um

tímido sorriso: "o de sempre". Na saída, depois de pagar a conta, um

dos garçons sempre a levava até o carro, abria a porta e dizia, em um

tom de irmão mais velho: - Luz, vá com cuidado, as estradas são

perigosas.

E ela dava um sorriso triste. - Eu sempre tomo.

Despediam-se, e eles continuavam sem saber quão verdadeiras

eram aquelas palavras, o quanto ela tomava cuidado, andando pelas

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1000 Universos 03

ruas olhando para trás, guardando spray de pimenta na bolsa e

frequentando aulas de defesa pessoal.

Ana Luz sempre se cuidava.

II.

Quando ela parou o carro no acostamento, as palavras do

garçom ecoaram em sua mente. “Luz, vá com cuidado.”

Cuidado, cuidado. Vá logo para casa. Não pare à noite em uma

estrada deserta. É perigoso, muito perigoso.

Pelo retrovisor, ela tentou ver algum movimento, mas a neblina

a impedia de ver qualquer coisa. Não via nem mesmo o carro que

estava parado no acostamento e pelo qual ela passara menos de cinco

minutos atrás.

Visto de relance, não era possível distinguir a cor do carro

parado, apenas que era de alguma cor escura, um modelo de carro

sedã bem cuidado. Ao lado do carro, um homem encostado e olhando

para baixo, para a parte da frente do carro, talvez para o pneu.

Deixa para lá, não é seu problema.

É um homem, de noite, em uma estrada deserta, faz todo o

sentido não parar. Pode ser um golpe. Deve ser um golpe.

Talvez seja apenas um cara muito azarado, cujo pneu furou em

uma estrada deserta durante a madrugada.

Quando deu por si, Ana Luz se viu parada no acostamento,

pensando no que fazer. Outra voz sussurrou em sua mente, no tom

irritante e ligeiramente arrogante de Clarice: "Seja racional, Ana. Vença

o medo com a razão".

E o que era mais provável? Que se tratasse de uma pessoa má

preparando uma emboscada em um horário pelo qual não costumava

passar ninguém, mas ninguém mesmo, ou apenas uma pessoa

voltando para casa e que teve o azar de furar o pneu?

Oras, mas aquela estrada era mesmo uma porcaria, e se fosse

uma emboscada seria muito mais sensato colocar pregos na estrada

para que ela furasse o seu pneu, ao invés de esperar que uma das

únicas pessoas a passar por ali tivesse coragem de parar o carro e

descer.

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1000 Universos 03

A indecisão fez seu estômago girar, e ela voltou a sentir gosto de

vinho e queijo na boca.

Deveria ir logo para casa...

...ir para casa?

...lar dos monstros e pesadelos?

Engatou a primeira marcha, segurou o volante... e deu meia

volta. Alguns poucos quilômetros depois, ela voltou a avistar o carro

parado no acostamento. Diminuiu e parou um pouco atrás dele,

descendo do carro enquanto se encolhia pelo frio.

O homem a olhou, surpresa estampada em seu rosto. - Eu não

imaginei... que você iria parar.

Ela deu de ombros.

- Ninguém costuma parar, né? Não numa estrada, não de noite.

O homem assentiu, as mãos enfiadas nas calças jeans, um grosso

casaco protegendo-o do frio.

- Obrigado por parar, eu acho.

- Bom... o que aconteceu?

Ele apontou para o pneu da frente, visivelmente murcho. - Deve

ter sido em algum buraco... eu tentei continuar, mas simplesmente...

ele esvaziou muito rápido. Você tem um estepe?

Claro, só um estepe. Bastava dar o estepe e ir embora, e Ana Luz

teria feito sua boa ação do dia.... não, do mês. Ou melhor, seria a sua

boa ação do ano. Sim, ela seria uma boa menina.

Assentiu com a cabeça, e foi até o carro. Abriu o porta-malas e

então olhou para o homem, apontando para dentro.

Ele foi até ela e, olhando para o estepe, sorriu.

- Você é mesmo uma boa pessoa - inclinou-se e mexeu até

conseguir tirar o pneu, puxando-o com as duas mãos. Ao colocá-lo no

chão, voltou a olhar para Ana Luz. - Sabe, você parando de noite e me

chamando para vir olhar seu porta malas... se isso fosse um filme, você

me empurraria para dentro do porta malas, o fecharia e me levaria

embora.

Por um momento, ela não respondeu, a expressão fechada,

indecifrável. Ele já se preparava para pedir desculpas pela piada

inconveniente.

45


1000 Universos 03

- Minha terapeuta sempre me diz para ser uma pessoa racional,

lógica... e isso não seria muito lógico, não é mesmo? Como eu teria

forças para conseguir colocá-lo no meu porta malas?

Era verdade. Quem visse Ana Luz, baixinha e franzina,

certamente não a veria como uma ameaça para o homem ao seu lado,

alto e, mesmo de casaco, visivelmente forte.

Ele pareceu achar graça, pois seu sorriso se abriu. - É, eu acho

que você tem razão - e começou a rolar o pneu na direção do seu

carro. Ao encostá-lo no carro, voltou a se virar para Ana.

- Mas... por que uma jovem bonita como você precisa de

terapeuta?

Dessa vez, Ana Luz não respondeu.

O homem ergueu as mãos, em um pedido defensivo de

desculpas.

- Desculpe-me, eu sou meio inconveniente.

Ana deu de ombros, e abriu a porta do carro, pronta para ir

embora.

- Bom, eu acho que isso resolve o seu problema, não é mesmo?

Tenha uma boa noite...

- Na verdade... - ele começou, como se estivesse com muita

vergonha do que ia dizer a seguir. - Você tem um macaco e uma chave

de roda?

Ela o encarou, ligeiramente incrédula.

- Eu não sei. Esses são itens obrigatórios?

- Na verdade... sim, são.

- E por que você não tem?

Um olhar cheio de pânico e medo passou pela expressão do

homem.

- Eu... eu, na verdade, eu...

Ela revirou os olhos.

- Tanto faz. Isso costuma estar onde, no porta malas? Pode ir

pegar - e se sentou no banco do motorista, as pernas para o lado de

fora enquanto virava o pescoço para ver o homem.

- Obrigada, você é mesmo um anjo.

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1000 Universos 03

Quando ele voltava, o macaco e a chave de roda em mãos, ou ao

menos o que Ana Luz supôs que seriam o macaco e a chave de roda,

ela deixou escapar a resposta que estava segurando.

- Eu fui estuprada.

Ele parou ao lado dela, uma expressão de choque e

incompreensão em seu rosto que nem mesmo sua grande barba e

bigode foram capazes de esconder.

- Hein?

- É por isso que eu tenho uma terapeuta - continuou ela, olhando

para os pés. - Por causa disso... por causa disso eu perdi o meu

namorado. Dois empregos. Meus pais vieram, lá de São Paulo, para me

fazer prometer que eu iria a uma terapeuta. Antes que eu... antes que

eu... bom, você sabe.

Ele assentiu, sabendo o que ela tinha medo de dizer. Mas não

sabia o que falar.

- Eu... caramba, moça. Você parece ser uma pessoa legal. Não

merece isso.

Ela ergueu o olhar.

- Obrigada.

Desconcertado, ele balançou as ferramentas e foi até o carro,

ajoelhando-se ao lado do pneu furado. Voltou a erguer a cabeça na

direção do outro carro.

- Está difícil de enxergar, será que você poderia...

- Sim, claro - virou o corpo e se inclinou para acender o farol. -

Assim está bom?

Ele baixou a cabeça, e voltou a erguê-la.

- Sim, melhorou - e voltou a mexer no pneu, afrouxando as

porcas. Continuou trabalhando, até que todas as porcas estavam

frouxas e ele pôde erguer o pneu com o macaco, para então retirar a

roda. Pegou o pneu furado e o girou com dificuldade até o carro de

Ana Luz.

- Olha, pode ficar com esse pneu... se der para consertar, talvez

ele ainda valha uns trocados. Eu me ofereceria para trocar telefones,

que amanhã mesmo eu te devolvo esse estepe...

- Não, é melhor não.

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1000 Universos 03

- Foi o que eu imaginei - abriu o porta malas com uma das mãos,

e então colocou o pneu lá dentro, fechando o porta malas com força.

- Eu... como você teve coragem de parar de noite, depois de ter

passado por isso? Digo...

- Ele era um amigo. Sabe, eu li que boa parte dos estupros são

cometidos por conhecidos das vítimas - ela balançou a cabeça,

novamente evitando contato visual com o homem. - Então, que

diferença faz? Todos esses cuidados? Se o monstro pode ser um

conhecido, que pode me estuprar à luz do dia - deu de ombros. - Sabe?

Ele passou a mão pela cabeça, como se tentasse compreender.

- Eu acho que sei. Mesmo assim...

- E eu provavelmente bebi mais do que deveria.

- Eu fico muito grato por você ter parado. Aqui não tem sinal de

celular, então...

Ela assentiu com a cabeça. Ele pareceu se lembrar do pneu que

ainda deveria trocar, e voltou ao trabalho.

III.

- Ana Luz - ela estendeu a mão quando ele finalmente devolveu o

macaco.

Ele a segurou com firmeza.

- Lúcio. Novamente, muito obrigado. Sua terapeuta ficará

orgulhosa de você.

- Ou me achará louca - mas ela deu um sorriso. - Boa noite,

então.

- Boa noite.

Ela se sentou, mas voltou a se levantar.

- Sabe - apoiou-se na porta do carro. - Obrigada. Por não fazer

perguntas sobre... aquilo - esforçava-se para manter contato visual

com o homem enquanto falava. - Sabe? Encontrar justificativa no meu

modo de me vestir, de agir...

- Isso não me parece uma coisa... - ele procurou a palavra certa. -

Sensível, de se dizer. Certamente não foi sua culpa.

Ela sorriu ao ouvir isso, talvez o único sorriso caloroso que deu

naquele acostamento.

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1000 Universos 03

- Obrigada... acho que você tem razão. Acho que você é uma boa

pessoa.

Ele devolveu o sorriso.

- Às vezes boas pessoas se encontram.

Ela assentiu.

- Boa noite.

E dessa vez ela entrou no carro e fechou a porta, ligou o motor e

foi embora. Ao passar com o carro ao lado dele, acenou.

Ele devolveu o aceno, e a viu sumir na neblina.

Depois de vê-la partir, ele suspirou, olhando o pneu como se

ainda estivesse admirado com sua sorte.

Foi até o porta malas e o abriu, observando a mulher que ainda

estava desacordada, amordaçada e amarrada. Por um momento ele

quis que ela estivesse acordada, para ter a quem contar o que acabara

de acontecer.

- Sabe... é uma pena que esse porta malas seja tão pequeno - e

voltou a fechar o porta malas.

Começou a cantarolar uma de suas músicas favoritas, The Devil

Went Down to Georgia.

Johnny did you ever know

That time keeps marching on

The coldest hour is the one

Comes just before the dawn

IV.

Ana Luz estacionou o carro na garagem, desligou-o e então olhou

o teto. Sim, aquela havia sido a sua boa ação do ano. Ela era uma boa

menina. Suspirou.

Saiu do carro e entrou em casa, tirando os sapatos e os jogando

longe. Ouviu um grunhido abafado vindo do seu quarto, e foi até lá

com impaciência.

- Sabe, eu não queria te ver hoje. Eu estava de bom humor

quando sai do restaurante, e não queria voltar para casa e te ver....

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1000 Universos 03

Em resposta, o homem nu e amarrado na cama apenas a olhou

com desespero, suplicando e se debatendo.

- Eu conheci uma pessoa hoje, na estrada. Azarado, mas pareceu

ser uma boa pessoa - sentou-se ao lado dele na cama. - Ao contrário

de você, que é um menino muito, muito mau.

Agora ele se debatia com ainda mais violência, inutilmente.

- E você sabe o que acontece com meninos maus, não sabe? -

olhou para o criado-mudo, onde algumas facas e bisturis estavam, um

ao lado do outro de maneira perfeitamente organizada.

- Agora, o que será essa noite...

O olhar de Ana Luz se iluminou, e ela se decidiu, pegando o

bisturi. Enquanto se virava para o homem, começou a cantar The Devil

Went Down to Georgia...

The devil's back in Georgia

Will you stand up to the test

Or will you let the devil be the best?

Cindy Dalfovo tem 24 anos e, como qualquer escritor, tem uma tremenda dificuldade

de falar dela mesma e prefere que seus textos falem por ela. Se quiser conhece-la em

pequenas fatias de 140 caracteres, é só segui-la em @princessmiwi

Para conhecer textos mais longos da autora, visite o seu blog pessoal, o Disk

Chocolate (http://www.diskchocolate.com/blog)

E, caso se interesse sobre o que ela tem a dizer sobre livros e literatura, pode

conferir seu novo projeto, o Disk Livros (http://www.diskchocolate.com/livros)

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1000 Universos 03

Caserna em Sombras

Tânia Souza

Poderia ser mais um conto das casernas. Poderia...

Mas esta não é apenas uma destas histórias de sombras e medo,

também de melancolia e sonhos desperdiçados. Por que lembrá-la se

aconteceu há tantos anos? Não seria melhor deixá-la perdida nas

memórias falhas dos homens e guardada pelos que repousam

infinitamente? No entanto, há certas marcas na alma dos homens que

não podem sumir, as histórias então as renovam para que a dor não

seja esquecida, para que os mortos - os que dormem e os que andam -

sejam honrados e toda injustiça, cobrada até o fim.

Uma melodia ao alvorecer

O sol nascera há pouco e podia-se ouvir o clarim chamando, o

toque melancólico da alvorada marcava o início da manhã. Na casa de

madeira, a luz invadia a janela e uma voz fina e doce cantarolava“...

por mais terras que eu percorra não permita Deus que eu morra, sem

que volte para lá...” 1 a mulher no fogão, sem parar de virar os

bolinhos que fritava, sorriu para o menino magro que cantava. O rosto

miúdo se levantou e ele disse, olhos brilhantes: mãe, vou ser capitão.

No Exército, aquele garoto marcado pela fome teria a chance de

mudar uma história de pobreza e privações. O pai, um soldado

desaparecido, a mãe na luta diária como lavadeira.

Muitos anos depois, a farda dobrada e engomada, os coturnos

brilhantes: o sonho da carreira militar tornara-se real. O período de

instruções foi difícil, a hierarquia militar, muitas vezes cruel, entretanto

os meses de treinamento no mato forjaram o homem e ele superara o

primeiro ano. Pedro Fagundes da Silva. Nome de guerra: Fagundes; já

existiam muitos Silvas no quartel. Fora engajado e com a transferência

1

Canção do Expedicionário - Letra: Guilherme de Almeida. Música: Spartaco Rossi

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1000 Universos 03

para o Destacamento de São Miguel, o soldo aumentaria, as

promoções viriam. Eu vou ser capitão, costumava repetir nos

momentos mais difíceis. Essa era sua oração. A Canção do

Expedicionário fora seu hino matinal por muitos anos, costumava

ainda cantarolar os versos quando a solidão da maturidade perturbava

o ar corado de um rosto de menino, onde a barba só se fizera ver pelo

uso constante do barbeador.

Onde os anjos não moram

Destacamento São Miguel. No horizonte, o sol tingia o céu de

vermelho quando o jipe parou próximo à guarda, no portão central.

Dois soldados e um oficial desceram do veículo. Fagundes era um

deles. Seus olhos percorreram o local. Alguns jovens estavam em

instrução e um grupo jogava futebol num campo mais afastado. As

vozes se misturavam com sons da natureza. São Miguel localizava-se

em uma região de mata fechada em Mato Grosso, próximo a uma

importante fronteira. Alguns anos depois, com a divisão do estado,

seria Mato Grosso do Sul. Os três homens atravessaram a clareira em

busca do oficial responsável e foram seguidos por murmúrios baixos.

Fagundes, no seu primeiro dia percebeu a tensão constante e

indisposição geral para conversar.

Se fosse influenciável, teria previsto uma temporada sombria a

partir daquela noite. No alojamento vazio, se preparou para um banho.

A ducha era forte e a água, apesar de salobra, eliminava o calor de um

dia cansativo. Perdido em lembranças, ouviu o som do interruptor

sendo desligado. A luz se apagou e, ao mesmo tempo, a água parou de

cair. Fagundes riu, então era isso, uma prova para os novatos, mas ao

virar-se, a luz acendeu-se e a porta bateu violentamente. Procurou,

mas não havia ninguém no longo corredor, apenas um inesperado

vento frio.

Quando entrou no rancho para o jantar, perguntou sobre o autor

da brincadeira. Mas recebeu apenas olhares apreensivos como

resposta e uma reprimenda do oficial do dia. Diferente do que já vira

em outros quartéis, comiam em silêncio. Homens que haviam

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1000 Universos 03

aprendido desde cedo a respeitar a hierarquia, mantinham-se quietos,

sobressaltados e ariscos. Os dias passavam, mas a animosidade

permanecia.

Os jovens logo desistiram de entender o estranho

comportamento geral e se adaptaram à rotina militar. Uma calma que

não duraria muito tempo. Certo domingo, Fagundes levantou cedo e

foi para o rio. Na verdade, um riacho que deveria ser a diversão nas

horas de folga e permanecia abandonado. Descobriram-no ao acaso e

muitas vezes, pescaram ali nas horas de ócio. O sol ainda não havia

nascido quando ele mergulhou. Aproveitou o silêncio inesperado

debaixo das águas, a sensação do rio o acolhendo. E, quando menos

esperava, afogou-se.

Acordou quando era arrastado pela margem, vomitando a água

que ardia em seus pulmões. Para todos, fora um infeliz acidente, um

quase afogamento. Mas naquela noite, sozinho em sua cama,

Fagundes viu em sua pele nua duas marcas de fogo. Não fora um

delírio. Algo o segurara e queimara suas pernas. Um voz angustiada lhe

pedira que fosse embora para sempre. Lembrou-se da ferocidade com

que tentara fugir e de um zumbido crescendo a ponto de parecer

estourar seus tímpanos. Pela primeira vez, a vida na caserna lhe

pareceu sombria e um sentimento angustiado impediu que dormisse.

Posto cinco

O destacamento era bem guardado e essa guarda se dava em

pequenos postos numerados, as guaritas serviam de abrigo a quem

tirasse o serviço noturno. Naquela noite, após a última troca de

sentinela, a ronda caberia ao soldado Fagundes. Caminhou lentamente

quando viu alguém se movendo próximo ao portão lateral. A pessoa

parou junto ao portão que batia violentamente, Fagundes se

aproximou, mas simplesmente não havia ninguém lá. Um violento

arrepio o acometeu, tinha certeza do que vira. Chamou, mas o silêncio

foi sua resposta. Não havia para onde ir além da mata e quem quer

que ali estivesse, boas intenções não teria.

53


1000 Universos 03

Ainda perturbado pelo estranho acontecimento, continuou seu

caminho, responsabilizando a tensão dos últimos dias pela visão. Às

duas da madrugada, ao iniciar outra volta, encontrou as guaritas em

ordem, no entanto, ao passar pela guarita cinco, notou que estava

vazia. Chamou pelo soldado que ali deveria estar e nada. Chamou mais

uma vez e se aproximou.

As árvores moveram-se de forma agitada. O zumbido que lhe

atordoara no rio parecia estar de volta. Em um resquício do menino

que fora, sentiu o medo oprimindo-lhe o peito, entretanto, o soldado

que se tornara aproximou-se da pequena estrutura circular, caiada e

manchada pelo tempo. Estava vazia, apenas um fuzil jazia,

abandonado no chão.

Um soldado jamais abandona sua arma, nem seu posto.

Procurou pelo amigo até reconhecer que era preciso chamar

ajuda. Naquela noite, buscaram por horas o soldado desaparecido,

mas De Souza só seria detido dois dias depois, balbuciando nas

encostas de uma estrada do outro lado da cidade próxima. Trazia um

descalço e outro ainda com coturno, as mãos segurando um punhal

e a pele coberta por longos arranhões. Os olhos vagos ocasionalmente

brilhavam de pavor e ele então gritava sobre um fuzil perdido.

Terrores indescritíveis o acometiam ao lembrar-se do posto cinco.

Teria sido uma mente impressionada com o silêncio da noite

assustando-se com as brincadeiras que, em segredo, alguém

continuava a realizar? Não seria a vítima que informaria, a razão

parecia haver deixado definitivamente o jovem militar.

Por muitos dias, se falou em voz baixa sobre o fato, Fagundes

soube então que não fora a primeira vez que acontecia algo insólito no

destacamento, dois dias antes de sua chegada, alguém havia sido

ferido gravemente em condições até então ignoradas... Havia uma lista

de ocorrências terríveis e abafadas do conhecimento público.

Um soldado perde seu fuzil

O soldado Fagundes conhecia De Souza, serviram e foram

transferidos juntos, sabia da firmeza do colega. Por isso não aceitava

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1000 Universos 03

que simplesmente ele perdesse o juízo. Algo havia acontecido naquela

guarita. A mesma guarita onde ele estava de guarda naquela noite.

Ergueu o queixo, aprumou os ombros e segurou o fuzil bem junto

de si. Podia sentir o frio inesperado e fora de época se intensificando.

Algo roçou em seu ombro, mas quando se virou, nada viu. Medo. Eu

vou ser capitão, repetiu como um mantra, tentando esquecer o pavor.

Pensou na mãe, no rosto suave e risonho por estar enfim aposentada

com sua ajuda. Todavia, o medo se tornava palpável, sentia a garganta

apertar-se com a impressão de que algo terrível estava para acontecer.

O frio aumentou quando ouviu uma voz perguntar vagamente a frase

que seria sua tormenta até os últimos dias da sua vida

Você viu meu fuzil?

Virou-se e estremeceu ao ver o soldado que o indagava.

Finalmente, o pavor explodia, imobilizando-o. No pescoço que pendia

de forma anormal para o lado, uma mancha arroxeada espalhava-se; a

cabeça parecia quebrada naquela estranha posição. Nos cabelos, lama

e sangue formavam uma crosta imunda. Esconderam meu fuzil, você

pegou meu fuzil? A ladainha era repetida enquanto o outro se

aproximava. Nas mãos, uma corda enrolada.

Frio, cada vez mais frio. O concreto em suas costas, o frio

gelando os ossos... as paredes foram sumindo e muitas vozes, vozes de

outras épocas pareciam invadir o local num caleidoscópio sombrio...

Você viu meu fuzil? A voz agora era um lamento, as mãos

gelavam seu ombro e ele não conseguia se mover. Os ossos doíam e a

carne queimava com o contato. Vozes cruéis, debochadas. Vai, paga

dez, vamos lá mocinha! De novo!

A sua volta as imagens se confundiam, preso em um estranho

delírio, sentiu a chuva em sua pele e as risadas dos comandantes. Os

raios cortavam o céu e o vento fustigava as árvores. Você é a nossa

piada... Chama o papai, chama! Os ossos doíam com o frio da chuva,

mas ele continuava com as flexões. No entanto, as horas passavam e a

punição prosseguia. Você é uma vergonha para sua família, uma

vergonha para o exército! Onde está? Vamos, diga!

Eu não sei onde está sargento, não sei... alguém pegou...

Fagundes tremia e encolhia-se perante o homem abrutalhado que

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1000 Universos 03

gargalhava na desolação da noite iluminada por raios. Você dormiu

soldado? Você perdeu seu fuzil? Não senhor, não perdi não, senhor,

alguém pegou, senhor... E era ele ali, ajoelhado, negando

desesperadamente. O rosto cheio de ódio crescia a sua frente Você é

uma vergonha soldado. Fagundes tentou encolher a barriga para se

proteger do chute, a boca enchendo-se de terra quando gritou de dor.

Uma vergonha para o exército. Um soldado sem fuzil é um

homem sem alma.

Você é uma vergonha, frangote!

O vento uivava desesperadamente entre os galhos quando

Fagundes viu-se de repente em casa, acorde meu filho, acorde... e o sol

invadindo a janela ao som choroso do clarim iluminou o rosto suave da

mãe. Não, eu não sou uma vergonha, berrou Fagundes, eu vou ser

capitão.

Voltou a si e viu-se na velha guarita, encolhido num canto.

Tremendo de frio, quando tentou se mover, a dor foi aguda. A farda

na região do ombro estava queimada, onde a mão do soldado o tocara

latejava terrivelmente. O estômago doía-lhe. Fagundes duvidava da

sua sanidade, mas a boca suja de terra, o gosto do sangue, a farda

molhada e o frio intenso tornavam tudo ainda mais enigmático. Com

movimentos frágeis, levou o apito aos lábios em busca de socorro e

saiu aos tropeços da guarita, sentindo nos músculos a violência sofrida.

Cambaleou e antes de desmaiar, pareceu-lhe ainda ouvir a voz

chorosa.

Você viu meu fuzil?

Um fantasma quer falar

Quando o dia nasceu, Pedro empurrou as cobertas, mas

permaneceu na cama, preso ao que pensava ser um sonho.

Entretanto, quando olhou ao seu redor, viu-se cercado por camas de

campanhas. Tentou se levantar, mas o corpo doía-lhe. Sede, sentia

muita sede. Ao virar-se, estremeceu, um velho caminhava em sua

direção, oriundo de uma das camas do lado oposto. Estavam numa

enfermaria.

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1000 Universos 03

Você o viu, meu filho? Você viu o fantasma do posto cinco? O

velho que lhe perguntava mancava em sua direção. Sei que o viu. Há

muito tempo ele não vem, você precisa me contar o que ele queria

filho... se você o viu, seu sangue também estava lá. Pedro arrepiou-se

com a face cadavérica do homem, olhos fundos circundados por

olheiras, a boca quase despida da carne parecia pronta para partir-se

em finas linhas. Era o rosto de um maldito, assombrado por indefinidas

sombras. Um rosto que lhe era familiar. Ao vê-lo se aproximar, desejou

gritar para se afastasse, mas o pavor o envolveu. Um jovem

traumatizado e em choque tentava calçar os coturnos e confundia-se

com o cadarço, a mente anuviada só desejava uma coisa. Fugir! Mas

logo um enfermeiro entrou e o medicou. Pedro tremeu até perder a

consciência.

Naquela mesma noite, acordou de um sono sem sonhos e ao

abrir os olhos, o velho o observava da cama ao lado, uma jarra com

água estava a sua esquerda e quando fez menção de alcançá-la, o

homem o serviu. Bebeu a água lentamente, a garganta dolorida. É a

febre, vai melhorar...

Eu estava lá, murmurou o velho, eu estava lá naquela noite...

Mas a voz rouca foi desaparecendo quando a névoa do sono mais uma

vez o tomou. É a febre, vai passar...

Como explicar o inexplicável? O ser humano sempre agia de

forma surpreendente frente a acontecimentos assim, alguns com

sarcasmo e descrença, outros temerosos e com respeito. Os que são

valentes podem tornar-se covardes, os cruéis, arrependerem-se. Mas

nem sempre o tempo os favorece. Nem sempre há tempo para

escolher.

Os dias na enfermaria passaram rapidamente, o mais

constrangedor para Pedro era explicar o que havia acontecido e

enfrentar o ar de incredulidade de quem o ouvia. Sempre se temeu os

elementos, os espíritos e aparições, mas nunca existira uma prova

sequer desses eventos. Entretanto, o estado da farda coberta de lama

e o tecido queimado no local na altura dos ombros eram de certa

forma a prova de que o inusitado acontecera. O ferimento no ombro

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1000 Universos 03

impressionava, queimava e parecia que haviam arrancado um naco de

carne. Os golpes e a humilhação sofrida ainda o atormentavam.

Depois do acidente, o posto cinco fora abandonado, ninguém

aceitara ficar de guarda ali no local. Por algumas noites, Pedro

acordava suando e a ferida no ombro doía-lhe com intensidade. A

infecção descia como um raio avermelhado pelo corpo. Em outras

horas, ele apenas dormia e tinha pesadelos com as vozes daquela noite

odiosa. Elas voltavam e mais uma vez, ele sentia na pele a angústia de

outro.

Nem todo verão pertence ao sol

As horas foram passando e lentamente, a febre diminuiu. Para

Fagundes, dormir já não era tão atraente. Até que finamente, o

paciente que aguardara por muitos dias por sua melhora, pôde enfim

lhe falar. E lhe ouvir. Somente aquele paciente de olhos perdidos como

ele acreditava em sua história e dispunha-se a ouvi-lo quando o

desespero lhe invadia. Não importava que o julgassem louco, mais

uma vítima do destacamento. Pedro precisava falar. Precisava

entender. E todas as noites, dava-se início a uma palestra sombria.

Sentados nas camas da enfermaria, com os olhos baixos de terror ou

fixos de espanto, dois homens foram aos poucos tecendo os fatos de

uma tragédia cujas ramificações assolaram aquela região com desgraça

e dor e ainda agiam. Um oficial linha dura, um pai intransigente e um

jovem que não seria jamais talhado para a vida militar completariam o

cenário narrado na voz baixa do ancião.

Foi no verão que o recruta Afonso Saldruany chegou ao

acampamento trazido pelo pai, o major. Aquele homem era capaz de

matar os inimigos da pátria a unha. Com todos os requintes de

crueldade possíveis. Ao mesmo tempo, saltava aos olhos a postura

desengonçada e a ausência do caráter militar no guri. Um frangote! O

pai impôs mais uma vez que fosse aceito, recomendou que ali no mato

forjassem o homem que o filho deveria ter sido desde sempre. Afonso

teria que aprender as duras regras da rotina militar. Mas as

perseguições, as humilhações em nada ajudavam a moldar o homem

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1000 Universos 03

de armas que esperavam, antes, a infelicidade parecia-lhe constante.

Ocasionalmente, o velho interrompia a narrativa, os olhos perdidos no

horizonte. Eu estava lá, ele repetia então, eu estava entende, era

minha obrigação estar lá...

Valha-me deus, pensava Fagundes, aquele sim era um fantasma.

Um fantasma que andava e falava, a personificação do inquietante. O

velho a sua frente tinha os olhos vagos, a face encovada perdia-se em

um silêncio de pavor à medida que a narrativa prosseguia, mas em

seguida, com um longo suspiro ele retomava a história que o soldado

Fagundes aprenderia a conhecer em cada nuance.

Uma noite choveu, meu filho. A tempestade veio com força.

Muitas árvores caíram na mata, mas no acampamento ninguém

dormia. Aquele pobre garoto foi um recruta descuidado. Um soldado

jamais abandona sua arma e deve zelar por ela, mas Afonso teve o fuzil

roubado, alguém escondeu em mais uma brincadeira maliciosa. E no

frio da noite chuvosa, ele pagou as flexões necessárias como punição.

Quando não conseguiu mais, simplesmente caiu e permaneceu com o

rosto na lama, virado para o lado tentando respirar. Aquele olhar,

jamais poderei esquecer aquele olhar. O velho secou uma lágrima e

prosseguiu, meneando a cabeça. Depois? Depois disso, nunca mais foi

visto com vida, se enforcou em uma das árvores do acampamento.

Mas antes lançou sua maldição. Uma maldição que nos atingiu como a

peste e não deixaria nenhum de nós, nem nossos descendentes, terem

paz novamente.

Nestas horas, Fagundes permanecia calado, imerso no horror do

que lhe contava o homem, tomado por lembranças de uma noite

insana. A memória presa a um homem que gritava punições,

acompanhando-as com empurrões e chutes. Podia senti-los

novamente, mas o que lhe causava mais dor eram as ofensas, a certeza

de que estava preso naquele mundo desumano.

Sim, eu estava lá, murmurou o velho, eu estava lá naquela noite,

quando o frio foi nos envolvendo e o corpo do garoto balançava no pé

de tamarindo, um frio gelou minha alma e nunca mais me deixou. Ele

vem nos sonhos sabe, os olhos mudos, as mãos geladas me queimam e

vivo atormentado, pois sei que não poderei morrer enquanto ele não

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encontrar a paz. Derrubaram a árvore e construíram o posto cinco, mas

não adiantou. Você o viu? A corda nas mãos? Desde então, muitas

mortes ocorreram no destacamento São Miguel. Muitas mortes.

Acidentes, eventos inexplicáveis, um terror velado que ninguém ousa

comentar. Ele procura o que lhe foi roubado. Nem todos podem vê-lo,

mas quando a tempestade cai, eu sei que sua força cresce e ele então,

ele vem... Eu preciso do fuzil. Entende garoto, eu preciso do fuzil. Você

também precisa do fuzil ou o preço do sangue será cobrado.

Eu estava lá, entende? Era minha obrigação estar lá... Cumprindo

meu maldito dever. Era o olhar de um fugitivo do inferno. Noite alta e a

tempestade açoitava as janelas enquanto um frio inusitado crescia na

enfermaria. O velho chorava e repetia incansavelmente sua culpa.

Na enfermaria solitária, eram apenas dois homens, dois internos

conversando à luz ocasional dos raios em um ambiente impregnado

pelo terror que cada palavra trouxera. Um, cabeça baixa, lamentandose,

o outro, murmurando baixinho.

Não é o fuzil que ele deseja...

Quase não se ouviam as palavras de Pedro. Os raios iluminavam,

através da janela, o rosto e o corpo se balançando na escuridão. O

preço do sangue continuaria sendo cobrado. Ele levantou-se da cama,

que rangeu levemente, e caminhou em direção ao ancião, repetindo

seu refrão amaldiçoado, enquanto a presença do Inominável tomava

forma.

Nunca foi o fuzil...

Dizem - os que dizem sobre o que nem sempre entendemos -,

que muitas vezes, quando soa o toque da alvorada, pode se ver

surgindo pela estrada um andarilho. Este traz a farda rota, o andar

lento e os trapos que carrega não escondem coturnos em frangalhos.

Um louco? Um ladrão? Um herói da pátria? Sobre ele, contam-se

histórias e lendas. Com a cabeça inclinada ele segue, murmurando

uma canção nem sempre compreensível...

**

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1000 Universos 03

Por mais terras que eu percorra... Não permita Deus que eu

morra...

Tânia Souza nasceu em Bela Vista, Mato Grosso do Sul. É professora, escreve

poesias, crônicas e contos. Gosta mesmo é de literatura, música, chocolate e alguma

melancolia. Alguns dos seus textos podem ser encontrados nas antologias: À Sombra

do Corvo - Poesias Sombrias, Contos sombrios de Natal (e-book), Histórias

Fantásticas Vol. 1, Cursed City – onde as almas não têm valor, Olympus – Histórias

da Mitologia, Ventos Poéticos e 501 poetrix para ler antes do amanhecer.

Atualmente, escreve no site A Irmandade, no blogue À LitFan e outros espaços

virtuais. Contato pelo e-mail tania.mara.ms@gmail.com e twitter @tania_souzza.

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Café de Ontem

Horror – Fantasia – Ficção Científica

http://cafedeontem.wordpress.com/

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