Políticas de saúde
Políticas de saúde
Políticas de saúde
Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!
Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.
Ministério da Educação<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso<br />
Reitora<br />
Maria Lúcia Cavalli Ne<strong>de</strong>r<br />
Vice-Reitor<br />
Francisco José Dutra Souto<br />
Direção do Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva<br />
Marta Gislene Pignatti<br />
Coor<strong>de</strong>nador da Editora Universitária<br />
Marinaldo Divino Ribeiro<br />
CONSELHO EDITORIAL<br />
Presi<strong>de</strong>nte<br />
Marinaldo Divino Ribeiro<br />
Membros<br />
Aída Couto Dinucci Bezerra<br />
Eliana beatriz Nunes Rondon<br />
Bismarck Duarte Diniz<br />
Fre<strong>de</strong>rico José Andries Lopes<br />
Janaina Januário da Silva<br />
Karlin Saori Ishii<br />
Marluce Aparecida Souza e Silva<br />
Taciana Mirna Sambrano<br />
Marly Augusta Lopes <strong>de</strong> Magalhães<br />
A<strong>de</strong>mar <strong>de</strong> Lima Carvalho<br />
Moacir Martins Figueiredo Junior<br />
Jorge do Santos<br />
José Serafim Bertoloto<br />
Elisabeth Madureira Siqueira
Copyright © Júlio Strubing Müller Neto, Nina Rosa Ferreira Soares e Fátima Ticianel Schra<strong>de</strong>r (Orgs), 2012.<br />
A reprodução não-autorizada <strong>de</strong>sta publicação, por qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei nº 9.610/98.<br />
A EdUFMT segue o acordo ortográfico da Língua Portuguesa <strong>de</strong> 1990, em vigor no Brasil, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2009.<br />
Supervisão Técnica: Janaina Januário da Silva<br />
Revisão Textual e Normalização: Leslei <strong>de</strong> Almeida Cláudio<br />
Diagramação: Rodrigo Silva<br />
Impressão: Gráfica Print<br />
Capa: Adir Sobré<br />
P769 <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: participação social, <strong>de</strong>scentralização<br />
e regionalização / Júlio Strubing Müller Neto, Nina Rosa Ferreira Soares e<br />
Fátima Ticianel Schra<strong>de</strong>r, organizadores. – Cuiabá : EdUFMT, 2012.<br />
233 p. : il. (algumas color.)<br />
ISBN – 978-85-327-0442-9<br />
1. Saú<strong>de</strong> pública – Mato Grosso – História. 2. <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> – Mato<br />
Grosso. 3. SUS – Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> – Mato Grosso. 4. Mato Grosso<br />
– Política <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. I. Müller Neto, Júlio Strubing, org. II. Soares, Nina Rosa<br />
Ferreira, org. III. Schra<strong>de</strong>r, Fátima Ticianel, org.<br />
CDU – 614 (817.2)<br />
FILIADA À<br />
Editora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso<br />
Av. Fernando Correa da Costa, 2.367.<br />
Boa Esperança. CEP: 78060-900. Cuiabá-MT.<br />
Contato:<br />
edufmt@hotmail.com - edufmt@ufmt.br<br />
www.ufmt.br/edufmt<br />
Fone: (65) 3615-8322 / 3615-8325<br />
Esta obra foi produzida com recurso do Governo Fe<strong>de</strong>ral.<br />
Ministério da Saú<strong>de</strong>
PREFÁCIO<br />
Um SUS para muitos Brasis - a aventura da <strong>de</strong>scentralização<br />
participativa<br />
Recebi com muito orgulho e como uma honra o convite para prefaciar o livro<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO: PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DES-<br />
CENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO, organizado por Júlio Strubing Müller<br />
Neto, Nina Rosa Ferreira Soares e Fátima Ticianel Schra<strong>de</strong>r.<br />
Não sou uma profunda conhecedora do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> construído em Mato<br />
Grosso, mas, <strong>de</strong> alguma maneira, através da convivência inicialmente com o Júlio Muller<br />
e, posteriormente, com seu grupo <strong>de</strong> trabalho na Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Mato Grosso,<br />
na Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e no núcleo do Centro Brasileiro <strong>de</strong> Estudos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> –<br />
CEBES, ganhei não só mais familiarida<strong>de</strong>, mas uma profunda admiração por este trabalho<br />
coletivo.<br />
Quando na Constituição Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> 1988 elaboramos um novo <strong>de</strong>senho para o<br />
sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, construímos junto um projeto <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocracia e <strong>de</strong> estado nacional. Ao<br />
colocarmos a saú<strong>de</strong> como direito <strong>de</strong> todos e <strong>de</strong>ver do Estado, cuja condição é <strong>de</strong>terminada
socialmente, mas cuja atenção <strong>de</strong>ve ser responsabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma autorida<strong>de</strong> única, que<br />
garanta a sua relevância pública e a atenção integral <strong>de</strong> acordo com a necessida<strong>de</strong>, projetamos<br />
uma socieda<strong>de</strong> na qual os direitos sociais teriam, pela primeira vez, primazia sobre<br />
a or<strong>de</strong>m econômica do mercado.<br />
Não se tratava <strong>de</strong> um projeto <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização <strong>de</strong> cunho neoliberal, isentando<br />
o Estado nacional <strong>de</strong> obrigações diante da população. Ao contrário <strong>de</strong>sta maré, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>mos<br />
a <strong>de</strong>scentralização como um novo mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> governança, orientado por dois<br />
princípios: a negociação e pactuação entre as instâncias intergovernamentais por meio <strong>de</strong><br />
comissões <strong>de</strong> gestores (bi e tri partites), e a participação da socieda<strong>de</strong> como motor tanto<br />
do controle social como da formação coletiva da vonta<strong>de</strong> política, através <strong>de</strong> conselhos<br />
paritários e conferências.<br />
Este novo mo<strong>de</strong>lo fe<strong>de</strong>rativo e <strong>de</strong> relação do Estado com a socieda<strong>de</strong> civil organizada<br />
era visto como condição <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> uma cidadania ativa e <strong>de</strong> uma esfera<br />
pública <strong>de</strong>mocrática e plural, participativa.<br />
Apesar <strong>de</strong> ser um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização e participação <strong>de</strong>senhado <strong>de</strong> cima<br />
para baixo, ele buscou condicionar os níveis subnacionais a se capacitarem, técnica e<br />
politicamente, para assumirem a autonomia na gestão dos sistemas locais e regionais <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong>. A experiência do CONASS e CONASEMS como atores políticos cada vez mais<br />
experientes e mais dotados <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong>s, <strong>de</strong>monstrou o acerto <strong>de</strong>sta política.<br />
No entanto, ao adotar um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> fe<strong>de</strong>ralismo simétrico em uma nação assimétrica,<br />
com enormes disparida<strong>de</strong>s regionais, tivemos que pagar o preço <strong>de</strong>sta inflexibilida<strong>de</strong><br />
em nome da unicida<strong>de</strong> da política. Da mesma forma, a opção pela <strong>de</strong>scentralização<br />
como estratégia <strong>de</strong> municipalização enfrentou-se com o vazio legal e institucional <strong>de</strong>ixado<br />
por este <strong>de</strong>senho, em relação ao nível regional.<br />
O <strong>de</strong>senho comum foi fruto <strong>de</strong> um projeto <strong>de</strong> país, mas sua construção foi resultado<br />
do trabalho <strong>de</strong> diferentes atores políticos, que em seu município e região tiveram<br />
que confrontar o projeto da reforma sanitária com a realida<strong>de</strong> local. Esta realida<strong>de</strong> não é<br />
um vazio: ela é cheia <strong>de</strong> histórias, instituições, saberes, relações, li<strong>de</strong>ranças, sujeitos. É<br />
esta construção da singularida<strong>de</strong>, que é uma reprodução sempre específica da dinâmica<br />
estrutural, que hoje nos interessa conhecer.<br />
Por estas razões, o resgate da história da construção do SUS, e antes mesmo<br />
disso, da saú<strong>de</strong> pública em Mato Grosso, em muito po<strong>de</strong>rá contribuir para enten<strong>de</strong>r nossa<br />
questão fe<strong>de</strong>rativa. É em cada espaço singular, em cada subjetivida<strong>de</strong> que se constrói, em<br />
cada institucionalida<strong>de</strong> que se monta, que conheceremos a profundida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ste projeto <strong>de</strong><br />
um país mais <strong>de</strong>mocrático, <strong>de</strong> uma nação mais plural, <strong>de</strong> uma socieda<strong>de</strong> mais atuante e<br />
conhecedora da sua capacida<strong>de</strong> única <strong>de</strong> construir o Brasil <strong>de</strong> nossos sonhos: inclusivo,<br />
<strong>de</strong>mocrático, equânime.<br />
A experiência <strong>de</strong> Mato Grosso po<strong>de</strong> nos ilustrar muito bem como a teia <strong>de</strong> atores<br />
e instituições regionais e locais se articula a um projeto <strong>de</strong>mocrático coletivo e busca vencer<br />
suas limitações e contribuir com sua riqueza, varieda<strong>de</strong> e singularida<strong>de</strong>. O SUS não é
um <strong>de</strong>senho <strong>de</strong> formuladores e burocratas, ele é a história política e institucional que cada<br />
um <strong>de</strong> nós se comprometeu e po<strong>de</strong> criar. Isto nos ensina a experiência <strong>de</strong>scrita neste livro<br />
sobre a política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato Grosso, organizada em três eixos temáticos: histórico, a<br />
<strong>de</strong>scentralização municipal, os movimentos e instituições <strong>de</strong> participação social.<br />
Está na hora <strong>de</strong> ouvirmos estas experiências, <strong>de</strong> enten<strong>de</strong>rmos a polifonia dos<br />
discursos e sujeitos, <strong>de</strong> compreen<strong>de</strong>rmos melhor este país continental que busca um po<strong>de</strong>r<br />
pactuado fe<strong>de</strong>ral, sem negar a singularida<strong>de</strong> e a riqueza da diversida<strong>de</strong>. Isto é o que<br />
materializa o projeto <strong>de</strong>mocrático que almejamos: o <strong>de</strong>senvolvimento local <strong>de</strong> instituições<br />
<strong>de</strong>mocráticas, <strong>de</strong> uma esfera pública inclusiva e plural, <strong>de</strong> novos sujeitos e instituições.<br />
Sonia Fleury<br />
Professora Titular <strong>de</strong> políticas públicas da Escola Brasileira <strong>de</strong> Administração Pública e <strong>de</strong> Empresas<br />
EBAPE da Fundação Getúlio Vargas
APRESENTAÇÃO<br />
Este livro é <strong>de</strong>dicado ao campo da análise das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato<br />
Grosso. A i<strong>de</strong>ia foi oferecer à comunida<strong>de</strong> da saú<strong>de</strong> pública mato-grossense trabalhos<br />
que divulgassem para um público maior tema até então restrito a poucos pesquisadores ou<br />
especialistas da área. Nosso <strong>de</strong>sejo é que esta coletânea <strong>de</strong> textos possa se constituir em<br />
uma referência para estudantes, atores da socieda<strong>de</strong> civil, profissionais e trabalhadores <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> e professores <strong>de</strong>sta área das políticas públicas. Ao mesmo tempo, a proposta visa<br />
instigar a comunida<strong>de</strong> acadêmica da saú<strong>de</strong> coletiva no Estado, relacionada à pesquisa<br />
sobre o tema, a produzir novos conhecimentos ou tornar públicos trabalhos <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong>,<br />
ainda pouco conhecidos.<br />
Os organizadores da coletânea optaram por incluir alguns textos já publicados<br />
em revistas <strong>de</strong> circulação nacional e internacional. A característica comum aos textos<br />
ora publicados é sua produção no âmbito acadêmico da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso (UFMT) a qual pertence ou pertenceu a maioria dos autores, seja como técnicos,<br />
professores ou pesquisadores visitantes. Este fato é ressaltado para sinalizar a importância<br />
da constituição no âmbito da UFMT dos cursos da área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> a partir dos anos 1970,<br />
com o curso <strong>de</strong> enfermagem, e <strong>de</strong>pois os cursos <strong>de</strong> medicina, nutrição e outros, que <strong>de</strong>ram<br />
origem ao Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva (ISC) nos anos 1990. O ISC nasce do Núcleo <strong>de</strong><br />
Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong> (NDS), embrião implantado em 1984, na UFMT, pelo Dr.<br />
Severino Márcio Pereira Meirelles, pioneiro nas pesquisas sobre a área a partir do “Projeto<br />
Polonoroeste”, que investigou a região on<strong>de</strong> foi construída a rodovia BR-364, ligando<br />
Cuiabá a Porto Velho. Esse gran<strong>de</strong> projeto <strong>de</strong> pesquisa foi a incubadora que formou<br />
muitos dos atuais pesquisadores da área, alguns <strong>de</strong>les presentes nesta coletânea.<br />
A escolha dos textos pelos organizadores foi orientada pela necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
propiciar uma visão ampla da constituição do campo das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato<br />
Grosso <strong>de</strong>s<strong>de</strong> sua constituição histórica, o primeiro eixo temático do livro. Foram incluídos<br />
textos que discutem os antece<strong>de</strong>ntes e os primeiros anos da implantação do Sistema Único<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS) em Mato Grosso sempre articulado às políticas nacionais. Neste segundo<br />
bloco <strong>de</strong>mos ênfase às políticas <strong>de</strong> municipalização e regionalização da saú<strong>de</strong> no Estado<br />
nos anos 1990, ressaltando a importância da instituição municipal nesse processo, assim
como as relações <strong>de</strong> cooperação intermunicipal e entre municípios e o governo estadual.<br />
O terceiro eixo temático focou a importância da participação social nas transformações<br />
ocorridas nas políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, sobretudo <strong>de</strong>pois do processo <strong>de</strong> re<strong>de</strong>mocratização do<br />
país nos anos 1980.<br />
Na coletânea estão incluídos textos <strong>de</strong> diferentes períodos e com diferentes<br />
abordagens. Solicitamos autorização para a publicação e a adaptação dos textos aos<br />
autores dos trabalhos aqui publicados e assim a<strong>de</strong>quá-los ao objetivo do livro. Também<br />
pedimos autorização às revistas on<strong>de</strong> foram publicados e, em alguns casos, às instituições<br />
que os editaram. Os organizadores do livro fizeram a revisão dos textos, além <strong>de</strong> inúmeras<br />
reuniões para encontrar a “melhor fórmula” que fosse consenso dos responsáveis pela<br />
edição. Não po<strong>de</strong>mos <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> registrar que a instituição responsável pela edição da<br />
coletânea é justamente o ISC da UFMT por iniciativa do NDS, hoje parte do Instituto e<br />
voltado aos trabalhos <strong>de</strong> extensão, mas ainda vinculado à pesquisa no campo das políticas<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, sobretudo na temática referente à participação social e à gestão municipal<br />
participativa. O apoio obtido da então diretora, Dra. Maria Angélica dos Santos Spinelli,<br />
e da atual, Dra. Marta Pignati, foi <strong>de</strong>cisivo para que esta obra pu<strong>de</strong>sse tornar-se realida<strong>de</strong>.<br />
Do mesmo modo queremos agra<strong>de</strong>cer o apoio do Ministério da Saú<strong>de</strong>, por meio da<br />
Secretaria <strong>de</strong> Gestão Participativa, que financiou a iniciativa, da Fundação Uniselva, que<br />
executou o projeto, e da Editora da UFMT, que tornaram possível nosso antigo sonho.<br />
É evi<strong>de</strong>nte a ausência <strong>de</strong> trabalhos sistemáticos sobre as políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em<br />
Mato Grosso no período compreendido entre 1950-1980, anos durante os quais ocorreram<br />
importantes iniciativas como o combate à malária, relacionada à expansão das fronteiras<br />
agrícolas; a construção do Hospital Adauto Botelho e do Sanatório <strong>de</strong> Tuberculosos, hoje<br />
se<strong>de</strong> do Hospital Universitário Júlio Muller; a implantação do Serviço <strong>de</strong> Assistência<br />
Médica Domiciliar e <strong>de</strong> Urgência (SAMDU) e a criação e expansão da assistência<br />
médica previ<strong>de</strong>nciária, por meio do Instituto Nacional <strong>de</strong> Previdência Social (INPS),<br />
<strong>de</strong>pois Instituto Nacional <strong>de</strong> Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS); a<br />
implantação do Fundo <strong>de</strong> Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL), primeira<br />
iniciativa sistemática <strong>de</strong> levar a assistência médica aos trabalhadores rurais e responsável<br />
pela construção dos primeiros hospitais em pequenos municípios no interior do Estado;<br />
a criação do Pronto-Socorro <strong>de</strong> Cuiabá; a criação e implantação da própria Secretaria<br />
<strong>de</strong> Estado da Saú<strong>de</strong> e das primeiras Secretarias Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, entre tantas outras<br />
iniciativas relevantes para a construção dos serviços e programas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato<br />
Grosso. A recuperação e análise das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>sse período é um <strong>de</strong>safio aos<br />
pesquisadores e estudiosos do tema até para que se faça justiça ao relevante trabalho<br />
dos profissionais e trabalhadores da saú<strong>de</strong>. Os autores e atores que participaram <strong>de</strong>sse<br />
processo po<strong>de</strong>riam nos ajudar a conhecer melhor o período. Outros, já falecidos, <strong>de</strong>ixaram<br />
seus escritos e seus acervos, que po<strong>de</strong>riam ser consultados, ou até mesmo doados ao po<strong>de</strong>r<br />
público, se conseguirmos reestruturar o Centro <strong>de</strong> Documentação e Memória da Saú<strong>de</strong><br />
Pública, criado pela Secretaria <strong>de</strong> Estado da Saú<strong>de</strong> em 2001, mas infelizmente inativado<br />
em 2004.
Sabemos que toda seleção é incompleta e que há muitos outros estudos<br />
importantes que merecem maior divulgação. Mas, como dissemos anteriormente, um dos<br />
objetivos <strong>de</strong>sta iniciativa é instigar os pesquisadores e estudiosos do tema a publicar seus<br />
trabalhos para um público mais amplo e assim fortalecermos o campo da saú<strong>de</strong> coletiva e<br />
os i<strong>de</strong>ais da reforma sanitária em Mato Grosso.<br />
Por fim, agra<strong>de</strong>cemos à O<strong>de</strong>te Marisa Mozzaquatro e Dulcinéia Silva Martins,<br />
do arquivo geral da SES/MT, pela cedência das fotografias utilizadas no livro e à Aline<br />
Paula Motta pela formatação e correção do texto.<br />
Os Organizadores
SUMÁRIO<br />
EIXO TEMÁTICO I: ANTECEDENTES HISTÓRICOS DA POLÍTICA<br />
DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
A Constituição dos Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública em Mato Grosso –<br />
1880 /1940<br />
Laura Antunes Maciel<br />
EIXO TEMÁTICO II : POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO:<br />
MUNICIPALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO NA DÉCADA DE 1990<br />
Leis Orgânicas Municipais em Mato Grosso: Capítulo da Saú<strong>de</strong><br />
Severino Márcio Pereira Meirelles, Maria Angélica dos Santos Spinelli, Elisete Duarte, Janil<br />
<strong>de</strong> Oliveira Azevedo, Benedito Luiz <strong>de</strong> Figueiredo, Ricardo Luiz Chagas, Geraldo Benedito<br />
Abreu, Vanja Jugurtha Bonna, Dalva Midori Hirato <strong>de</strong> Souza, Maria Welter<br />
O Processo <strong>de</strong> Municipalização da Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso: Notas Prévias<br />
Severino Márcio Pereira Meirelles, Maria Angélica dos Santos Spinelli, Janil <strong>de</strong> Oliveira<br />
Azevedo, Elisete Duarte, Dalva Midori Hirato <strong>de</strong> Souza, Vanja Jugurtha Bonna<br />
A Descentralização da Saú<strong>de</strong> no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, Brasil:<br />
Financiamento e Mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> Atenção<br />
João Henrique Gurtler Scatena, Oswaldo Yoshimi Tanaka<br />
Política <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: Dois Mandatos para a Construção<br />
da Regionalização<br />
Luisa Guimarães<br />
EIXO TEMÁTICO III: PARTICIPAÇÃO SOCIAL E<br />
CONFERÊNCIAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O Movimento pela Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso e a Criação do Conselho<br />
Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Nina Rosa Ferreira Soares<br />
Participação Social, Conferências <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e Formulações <strong>de</strong> <strong>Políticas</strong><br />
em Municipios <strong>de</strong> Mato Grosso<br />
Júlio Strubing Müller Neto, Fátima Ticianel Schra<strong>de</strong>r, Nina Rosa Ferreira Soares, Maria José<br />
Vieira da Silva, Aline Paula Motta, Oliani Machado Godoy, Landrimar Trinda<strong>de</strong>, Patrícia<br />
dos Santos Arruda, Diógenes Marcon<strong>de</strong>s, Márcia <strong>de</strong> Campos, Ilva Félix do Nacimento, Lydia<br />
Maria Bocayuva Tavares<br />
15<br />
21<br />
81<br />
85<br />
95<br />
109<br />
123<br />
153<br />
157<br />
169
ANTECEDENTES HISTÓRICOS DA<br />
POLÍTICA DE SAÚDE EM MATO<br />
GROSSO<br />
Eixo Temático I
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
APRESENTAÇÃO<br />
Prefaciar uma publicação não é tarefa fácil. Apresentar o próprio texto, além<br />
<strong>de</strong> fugir ao usual, traz dificulda<strong>de</strong>s extras principalmente quando mais <strong>de</strong> duas décadas<br />
separam a redação da publicação. Pois esta é a tarefa que assumi e da qual procuro me<br />
<strong>de</strong>sincumbir ao escrever estas páginas. Sem saber como iniciá-las, optei por contar<br />
a história <strong>de</strong> como este texto surgiu, não só porque <strong>de</strong>ste modo posso explicar os seus<br />
limites como também reconhecer a contribuição <strong>de</strong> pessoas e experiências fundamentais<br />
em minha formação profissional.<br />
Originalmente este texto foi apresentado, em 1985, como monografia <strong>de</strong><br />
conclusão do Curso <strong>de</strong> Especialização em Saú<strong>de</strong> Coletiva, realizado na Universida<strong>de</strong><br />
Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso, sob a orientação da professora Dra. Geralda Dias Aparecida, no<br />
interior do Projeto “Pesquisa em Saú<strong>de</strong> Pública no Polonoroeste/MT” 1 coor<strong>de</strong>nado pelo<br />
Prof. Dr. Severino Márcio Meirelles. Aquele projeto agregava profissionais das áreas <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong>, ciências humanas e sociais e tinha como principal objetivo avaliar o impacto social<br />
e nas condições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> produzidos pelas ações <strong>de</strong> “<strong>de</strong>senvolvimento rural integrado” –<br />
colonização agrícola, <strong>de</strong>slocamento e assentamento <strong>de</strong> trabalhadores sem terra, abertura e<br />
asfaltamento <strong>de</strong> estradas –, <strong>de</strong>senvolvidas pelo Programa Integrado <strong>de</strong> Desenvolvimento<br />
do Noroeste do Brasil (Polonoroeste), ao longo da BR 364 ligando Mato Grosso a<br />
Rondônia.<br />
Avaliando retrospectivamente, aquela experiência foi marcante em minha<br />
formação profissional e em minhas escolhas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> então. Naquela ocasião, significou o<br />
1 Fruto <strong>de</strong> convênio assinado com a Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso e o então Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong><br />
da UFMT, o projeto se <strong>de</strong>senvolveu entre 1983-1988 e contou com recursos do Banco Mundial e do CNPq. Uma <strong>de</strong> suas marcas foi o<br />
intenso investimento na formação <strong>de</strong> recursos humanos na área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública, e se <strong>de</strong>senvolveu aliando uma ampla pesquisa <strong>de</strong> campo<br />
à capacitação <strong>de</strong> profissionais através <strong>de</strong> cursos <strong>de</strong> especialização. Entre os <strong>de</strong>sdobramentos <strong>de</strong>sse projeto po<strong>de</strong>m ser creditados a reunião<br />
dos cursos <strong>de</strong> Medicina, Enfermagem e Nutrição e a criação do Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong>, embrião do atual Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Coletiva, na UFMT.<br />
17
18<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
primeiro contato com a pesquisa histórica em arquivos e órgãos diversos da administração<br />
pública, explorando acervos e documentação ainda por organizar. Ao mesmo tempo, fui<br />
apresentada à pesquisa <strong>de</strong> campo, com viagens e <strong>de</strong>slocamentos constantes às cida<strong>de</strong>s<br />
localizadas na área impactada pelas ações do Polonoroeste; participei da elaboração <strong>de</strong><br />
instrumentos e metodologias <strong>de</strong> pesquisa e análise, ampliando minha compreensão sobre<br />
a prática <strong>de</strong> investigação, os espaços e os materiais até então utilizados pelos historiadores.<br />
Acima <strong>de</strong> tudo, ali aprendi a fazer parte <strong>de</strong> um projeto verda<strong>de</strong>iramente coletivo,<br />
articulando informações, intenções e reflexões produzidas entre os vários subgrupos do<br />
Projeto, permeado por um intenso convívio entre profissionais com formações e interesses<br />
muito diversos, mas reunidos em torno <strong>de</strong> objetivos e compromissos comuns no presente.<br />
Nos anos 1980, não apenas a autora era recém-graduada, como o próprio Curso<br />
<strong>de</strong> Graduação em História na UFMT ainda estava se consolidando. Naqueles anos, a<br />
realida<strong>de</strong> da formação dos profissionais da área era bem diversa, os programas <strong>de</strong> iniciação<br />
científica engatinhavam, e os primeiros esforços para uma revisão da historiografia sobre<br />
Mato Grosso, buscando abranger outros períodos e temas, apenas começavam. Muita<br />
coisa mudou <strong>de</strong>s<strong>de</strong> então. A historiografia sobre Mato Grosso se ampliou, instituições<br />
<strong>de</strong> pesquisa se consolidaram contribuindo para tornar mais acessíveis os seus acervos,<br />
um programa <strong>de</strong> pós-graduação em História foi criado na UFMT e hoje é responsável<br />
pela renovação das problemáticas, linhas <strong>de</strong> pesquisa e abordagens sobre a história matogrossense.<br />
Também a pesquisa histórica sobre as questões relativas à saú<strong>de</strong> pública e à<br />
higienização das cida<strong>de</strong>s se expandiu e se especializou, e já não representa a novida<strong>de</strong> e<br />
o <strong>de</strong>safio que oferecia em meados dos anos 1980, quando ainda era necessário justificar<br />
o interesse <strong>de</strong> um historiador pelo tema, <strong>de</strong>scobrir acervos e documentos em instituições<br />
<strong>de</strong> pesquisa, e estabelecer diálogo com uma bibliografia em geral produzida por médicos<br />
e outros pesquisadores da área. Des<strong>de</strong> então, não só muitas dissertações, teses e inúmeros<br />
artigos vieram a público, ampliando e reformulando questões e abordagens, como se<br />
constituíram e consolidaram revistas e programas <strong>de</strong> pós-graduação na área <strong>de</strong> História<br />
em torno da relação história e saú<strong>de</strong>.<br />
Por essas razões, aceitar o convite para a publicação <strong>de</strong> um trabalho realizado<br />
há mais <strong>de</strong> duas décadas, foi precedido por muitas dúvidas e questionamentos sobre sua<br />
valida<strong>de</strong> e potencial contribuição para pesquisadores da área. O embate maior foi, sem<br />
dúvida, travado entre a historiadora e orientadora que sou hoje e a jovem aprendiz do<br />
ofício dos anos 1980. À medida que realizava a leitura daquelas páginas datilografadas<br />
essa luta <strong>de</strong>sigual se configurava nas inúmeras anotações, cortes, emendas e inserção <strong>de</strong><br />
notas ao texto original. Mas aos poucos me convenci que os problemas que hoje visualizo<br />
nesta monografia não podiam ser superados apenas com a reescrita do texto, pois é o<br />
próprio modo <strong>de</strong> formular a questão investigada e <strong>de</strong> realizar a análise que hoje coloco em<br />
questão. Seja porque a pesquisa enfatizou os aspectos organizacionais e administrativos<br />
das práticas sanitárias, muitas vezes <strong>de</strong>scolada das relações sociais concretas que sustentam
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
e embasam essas práticas, ou pelo esforço <strong>de</strong> acompanhar esses processos ao longo <strong>de</strong><br />
sessenta anos, muitas vezes a análise resvala na superficialida<strong>de</strong> e linearida<strong>de</strong>. Da mesma<br />
forma, uma compreensão ingênua da legislação se expressa no entendimento do texto <strong>de</strong><br />
leis, <strong>de</strong>cretos e regulamentos como discurso exemplar do po<strong>de</strong>r e <strong>de</strong> autorida<strong>de</strong>s, e não<br />
como resultado e expressão do embate entre grupos e forças sociais diversas em torno <strong>de</strong><br />
diferentes projetos e iniciativas para a higienização da cida<strong>de</strong> e seus moradores.<br />
Por outro lado, ainda consigo ver alguns méritos neste esforço <strong>de</strong> mergulhar<br />
na pesquisa empírica, reunir e lidar com documentos pouco valorizados e até suspeitos<br />
naqueles tempos, seja por seu caráter “oficial” – como os relatórios, Mensagens e legislação<br />
– ou por expressar a voz <strong>de</strong> seus proprietários, no caso dos inúmeros exemplares <strong>de</strong> jornais<br />
locais. Além disso, ao buscar as linhas gerais <strong>de</strong> continuida<strong>de</strong> e transformação no processo<br />
histórico no qual a emergência da legislação, serviços e profissionais especializados em<br />
saú<strong>de</strong> pública ganham sentido no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, este texto ainda sugere muitas<br />
outras possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>de</strong>sdobramento e aprofundamento. Outro aspecto que ainda me<br />
agrada hoje é o entendimento das políticas e práticas sanitárias articuladas às questões<br />
sociais, evitando uma análise episódica ou a busca <strong>de</strong> origens que marcava análises<br />
existentes sobre a saú<strong>de</strong> pública.<br />
Por outro lado, o reconhecimento da existência <strong>de</strong> estudos posteriores que<br />
dialogaram com este texto e do interesse que ele, ao longo dos anos, parece ter preservado,<br />
haja vista os frequentes pedidos <strong>de</strong> cópias e os esforços anteriores para publicá-lo, foram<br />
o empurrão final para a <strong>de</strong>cisão <strong>de</strong> publicar esta monografia tal como foi <strong>de</strong>fendida em<br />
1985.<br />
Aos poucos <strong>de</strong>sisti <strong>de</strong> tentar atualizar e alterar o texto – e aquela reflexão –<br />
para aceitá-los como expressão do tempo, lugar e condições em que foram produzidos.<br />
Já que é impossível amenizar a passagem do tempo e as mudanças radicais verificadas<br />
na historiografia, optei por resistir ao <strong>de</strong>sejo <strong>de</strong> proce<strong>de</strong>r a uma ampla revisão e<br />
aprofundamento do texto original, para apenas revisar a redação e a<strong>de</strong>quar os originais<br />
às normas <strong>de</strong> publicação contemporâneas. Por todas essas razões, a publicação <strong>de</strong>sta<br />
monografia sai com poucas alterações, basicamente correções e atualizações ortográficas,<br />
padronização das notas <strong>de</strong> rodapé e das referências bibliográficas.<br />
Como todo trabalho <strong>de</strong> pesquisa, também este <strong>de</strong>ve muito ao apoio e incentivo <strong>de</strong><br />
pessoas e instituições. Gostaria <strong>de</strong> revalidar os agra<strong>de</strong>cimentos expressos no texto original<br />
à orientadora <strong>de</strong>sta pesquisa, Geralda Dias Aparecida, a quem isento das suas <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong>s<br />
e problemas. À distância, a <strong>de</strong>dicação, paciência e generosida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Geralda, temperados<br />
com humor e leveza, ganharam novos significados para mim. Obrigada, acima <strong>de</strong> tudo,<br />
pelo empurrão em direção ao mundo. Ao professor Márcio Meirelles (in memoriam),<br />
agra<strong>de</strong>ço a oportunida<strong>de</strong> por participar daquele projeto que, entre outras coisas, <strong>de</strong>u bons<br />
frutos individuais e institucionais. À Fátima Ticianel e ao Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva,<br />
agra<strong>de</strong>ço o convite para a publicação <strong>de</strong>sta monografia e os esforços empreendidos para<br />
transformar os originais datilografados em livro. Parece mesmo que esta história tinha que<br />
19
20<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
terminar on<strong>de</strong> começou: na (re)aproximação com profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> oriundos daquela<br />
mesma experiência <strong>de</strong> formação do qual este livro nasceu.<br />
Laura Antunes Maciel
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
A CONSTITUIÇÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE PÚBLICA EM<br />
MATO GROSSO – 1880 / 1940 2<br />
Laura Antunes Maciel 3<br />
As ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública, incluindo medidas da chamada medicina preventiva,<br />
ações <strong>de</strong> saneamento do meio e também algum tipo <strong>de</strong> assistência à saú<strong>de</strong> individual, são<br />
aquelas capazes <strong>de</strong> ter um efeito mais direto sobre as condições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da população.<br />
Embora essas medidas apareçam em quase todos os planos elaborados para o<br />
setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> ao longo das últimas décadas no Brasil, a diminuição dos gastos e a piora<br />
nos níveis <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da população não <strong>de</strong>ixam dúvidas quanto à baixa priorida<strong>de</strong> atribuída<br />
pelo governo à saú<strong>de</strong> pública. A diminuição <strong>de</strong> sua importância como opção <strong>de</strong> política<br />
social se <strong>de</strong>u na medida em que cresceu a ênfase no sistema previ<strong>de</strong>nciário.<br />
Em razão disso, atualmente o quadro da saú<strong>de</strong> pública no Brasil é muito grave<br />
e po<strong>de</strong> ser constatado pela combinação <strong>de</strong> doenças crônico-<strong>de</strong>generativas ao lado das<br />
infectocontagiosas; pela ocorrência, nos centros urbanos, <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias antes apenas<br />
rurais; pelo retorno da tuberculose como enfermida<strong>de</strong> nacionalmente significativa e pela<br />
permanência da <strong>de</strong>snutrição e <strong>de</strong> altas taxas <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> infantil.<br />
Assistimos hoje a uma crise cada vez mais clara do setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>: primeiro no<br />
padrão <strong>de</strong> organização gerado <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a década <strong>de</strong> 1960 com a criação do Instituto Nacional<br />
<strong>de</strong> Previdência Social e a crescente capitalização da medicina e, segundo, na baixa eficácia<br />
da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
No Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, particularmente, o <strong>de</strong>scuido com as medidas<br />
visando à promoção da saú<strong>de</strong> pública, o <strong>de</strong>scaso com as ações <strong>de</strong> medicina preventiva e a<br />
restrição <strong>de</strong> acesso ao saneamento básico por parte <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s contingentes populacionais<br />
permitiram que en<strong>de</strong>mias como a doença <strong>de</strong> Chagas, a esquistossomose, a malária e a<br />
leishmaniose entre outras, <strong>de</strong>ixassem <strong>de</strong> ser apenas rurais e invadissem os centros urbanos<br />
permanecendo como problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública a exigir a atenção por parte dos po<strong>de</strong>res<br />
públicos.<br />
A realida<strong>de</strong> atual da estrutura <strong>de</strong> assistência médica existente em Mato Grosso e<br />
o reaparecimento <strong>de</strong> doenças consi<strong>de</strong>radas erradicadas dos centros urbanos só po<strong>de</strong>m ser<br />
compreendidos através da análise das condições políticas por parte do Estado e das práticas<br />
<strong>de</strong> intervenção historicamente adotadas no que se refere à questão da saú<strong>de</strong> pública.<br />
2 Monografia <strong>de</strong> Conclusão do Curso <strong>de</strong> Especialização em Pesquisa em Saú<strong>de</strong> Coletiva da UFMT, 1985.<br />
3 Historiadora. Doutora em História pela Pontifícia Universida<strong>de</strong> Católica <strong>de</strong> São Paulo. Professora Associada da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral<br />
Fluminense.<br />
21
22<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Nesse sentido, um dos objetivos <strong>de</strong>ste estudo foi verificar como a saú<strong>de</strong> pública<br />
foi concebida e encaminhada por diferentes administrações estaduais em Mato Grosso ao<br />
longo do período <strong>de</strong> constituição dos seus serviços: 1880 a 1940.<br />
A partir da legislação promulgada pelo Estado e <strong>de</strong> relatórios e Mensagens<br />
encaminhados por autorida<strong>de</strong>s, procurou-se analisar as i<strong>de</strong>ias e mo<strong>de</strong>los elaborados sobre<br />
a maneira mais a<strong>de</strong>quada para resolver os problemas sanitários nos centros urbanos e<br />
principalmente, a quem caberia a função <strong>de</strong> promover a saú<strong>de</strong> pública. Em segundo<br />
lugar, o trabalho acompanha o processo <strong>de</strong> constituição dos serviços sanitários – a partir<br />
<strong>de</strong> fins do século XIX até a década <strong>de</strong> 1930 –, analisando sua estrutura, abrangência e<br />
reorganização, buscando apreen<strong>de</strong>r seus limites estruturais.<br />
Finalmente, apresenta uma reconstituição dos surtos epidêmicos ocorridos<br />
no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso naquele período, verificando sua frequência e distribuição<br />
espacial, bem como os argumentos elaborados pelo po<strong>de</strong>r público para justificar os limites<br />
<strong>de</strong> sua intervenção na saú<strong>de</strong> pública.<br />
Assim, a perspectiva adotada neste trabalho preten<strong>de</strong> contribuir para a recuperação<br />
<strong>de</strong> uma parte da história da saú<strong>de</strong> pública do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, abordando um<br />
momento significativo do seu passado. Cabe ressaltar o caráter exploratório <strong>de</strong>ste estudo,<br />
visto tratar-se da primeira aproximação com a questão da saú<strong>de</strong> pública em Mato Grosso.<br />
Em <strong>de</strong>corrência disso, alguns limites tiveram que ser superados no que se refere à falta <strong>de</strong><br />
catalogação e organização <strong>de</strong> fontes primárias e à inexistência <strong>de</strong> investigações específicas<br />
sobre o tema.<br />
1 AS IDEIAS SOBRE SAÚDE PÚBLICA EM MATO GROSSO NO FINAL<br />
DO SÉCULO XIX<br />
O marco inicial da constituição <strong>de</strong> serviços públicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato Grosso<br />
po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>finido em novembro <strong>de</strong> 1892, quando foi votada e sancionada a Lei Estadual<br />
n. 18 criando a Inspetoria Geral <strong>de</strong> Higiene Pública. A regulamentação da Inspetoria e<br />
do serviço sanitário do Estado se <strong>de</strong>u através do Decreto n. 39, <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 1893, pelo<br />
qual se organizava administrativamente o serviço sanitário, explicitando suas funções e<br />
atribuições (MATO GROSSO, 1893).<br />
A criação da Inspetoria <strong>de</strong> Higiene Pública fazia parte <strong>de</strong> um processo mais<br />
amplo <strong>de</strong> intervenção do Estado que abrangia vários setores da vida social, pelo menos<br />
em nível dos instrumentos legais. Era, também, expressão <strong>de</strong> mudanças significativas no<br />
campo econômico e sociopolítico pelas quais passava a socieda<strong>de</strong> mato-grossense. Além<br />
disso, a década <strong>de</strong> 1890 marcou o início da constituição dos serviços específicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
<strong>de</strong>ntro da administração pública, acompanhando a mo<strong>de</strong>rnização <strong>de</strong>stes serviços a nível<br />
nacional.<br />
Antes <strong>de</strong> analisar a estrutura <strong>de</strong> serviços criada por aquela legislação é interessante<br />
mostrar as i<strong>de</strong>ias que se difundiram na década <strong>de</strong> 1880, tanto no que se refere às
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
concepções específicas do campo da saú<strong>de</strong>, como aquelas que marcaram a posição do<br />
Estado frente a essa questão social.<br />
A questão da salubrida<strong>de</strong> das cida<strong>de</strong>s brasileiras cresceu no <strong>de</strong>bate dos políticos<br />
e técnicos ligados à questão do <strong>de</strong>senvolvimento, nas últimas décadas do século XIX. No<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro, porém, somente no início do século XX o po<strong>de</strong>r público passou a tomar<br />
medidas mais efetivas neste setor.<br />
O Código <strong>de</strong> Posturas da cida<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong> Janeiro aprovado na década <strong>de</strong> 1830<br />
revela a mesma preocupação com o controle social das socieda<strong>de</strong>s industrializadas. 4 Esse<br />
Código permaneceu em vigência durante o século XIX, mesmo tendo sido reformulado<br />
algumas vezes. A partir do momento em que o país começou a entrar em uma etapa<br />
<strong>de</strong> mo<strong>de</strong>rnização mais profunda, os problemas urbanos afloraram. Na década <strong>de</strong> 1870<br />
a salubrida<strong>de</strong> pública começou a ser encarada seriamente pelos dirigentes do país,<br />
principalmente no Distrito Fe<strong>de</strong>ral. Sendo o porto mais importante para o comércio<br />
internacional sua insalubrida<strong>de</strong> perturbava a or<strong>de</strong>m econômica do país.<br />
Em Mato Grosso, nas décadas <strong>de</strong> 1870/80 se iniciava um lento processo <strong>de</strong><br />
recuperação econômica que somente se consolidou na década <strong>de</strong> 1890. Após o fim da<br />
Guerra do Paraguai, a Província abriu-se para o comércio internacional através do rio<br />
Paraguai, atraindo investimentos estrangeiros para a agropecuária e para o comércio<br />
importador/exportador.<br />
Essa nova fase correspon<strong>de</strong> à integração <strong>de</strong> forma periférica, do Estado <strong>de</strong><br />
Mato Grosso ao capitalismo em expansão no país. Esse movimento foi acompanhado da<br />
valorização das terras, atraindo compradores platinos e um fluxo migratório em direção ao<br />
sul do Estado, <strong>de</strong>mandando uma nova política fundiária, para regulamentar a concessão,<br />
legitimação e posse da terra. Enfim, é um período <strong>de</strong> transformações importantes para uma<br />
região que, durante muito tempo, viveu em estreita <strong>de</strong>pendência <strong>de</strong> recursos do Governo<br />
Central para fazer frente às necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> sua população.<br />
Num primeiro momento, no entanto, o governo provincial não tratou da criação<br />
<strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, que continuaram limitados basicamente à polícia médica das<br />
embarcações, boticas, mercados e à elaboração <strong>de</strong> medidas sanitárias, funções reservadas<br />
ao Governo Imperial que tentou manter uma uniformida<strong>de</strong> nos serviços sanitários em todo<br />
o Império.<br />
Em 1880 o governo da Província promulgou a Lei n. 574 estabelecendo o Código<br />
<strong>de</strong> Posturas Municipais, expressão das i<strong>de</strong>ias vigentes na época sobre a questão da saú<strong>de</strong><br />
pública (MATO GROSSO, 1884). Percebe-se através <strong>de</strong>sse instrumento legal que o<br />
po<strong>de</strong>r público procurava intervir na organização do espaço físico urbano, elegendo como<br />
questão central a salubrida<strong>de</strong>.<br />
Além da organização do espaço físico encontravam-se entrelaçados outros<br />
elementos, como o controle da qualida<strong>de</strong> dos alimentos, a segurança e a moralida<strong>de</strong><br />
4 Os códigos <strong>de</strong> posturas nas províncias seguiam em linhas gerais os mesmos princípios do código da Capital do Império.<br />
23
24<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
públicas. A regulamentação da saú<strong>de</strong> era parte do controle que o Estado pretendia impor<br />
tanto em nível do coletivo quanto do individual.<br />
1.1 A Questão da Salubrida<strong>de</strong> Pública<br />
No século XIX, nos países em que a industrialização <strong>de</strong>terminou mudanças<br />
significativas na estruturação da vida social, o equacionamento da vida urbana tornouse<br />
um dos problemas fundamentais. O crescimento das cida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>safiava a intervenção<br />
pública para solucionar os graves problemas que a própria expansão capitalista criava. A<br />
saú<strong>de</strong> passou a ser relacionada com os problemas coletivos que <strong>de</strong>pendiam <strong>de</strong> uma ação<br />
estatal (ROSEN, 1979).<br />
Embora as correntes <strong>de</strong> opinião contrárias à intervenção do Estado na<br />
regulamentação da vida social fossem fortes, pouco a pouco a <strong>de</strong>fesa <strong>de</strong> sua ação, com<br />
formas diferenciadas, prevaleceu sobre as <strong>de</strong>mais. A resolução <strong>de</strong> problemas como<br />
saneamento, combate às epi<strong>de</strong>mias e outros se relacionou com a i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> higienização da<br />
socieda<strong>de</strong>, que seria necessária ao controle social.<br />
Mesmo nas socieda<strong>de</strong>s em que a industrialização não constituía o eixo da<br />
economia, mas on<strong>de</strong> se iniciavam mudanças na estrutura econômica, como no caso<br />
do Brasil a partir das décadas <strong>de</strong> 1830/40, o crescimento urbano acarretava certas<br />
preocupações. As i<strong>de</strong>ias europeias muitas vezes serviram <strong>de</strong> base para legislar sobre<br />
problemas que não tinham as mesmas proporções, ou eram diferenciados daqueles criados<br />
nas socieda<strong>de</strong>s em fase <strong>de</strong> expansão industrial.<br />
Pelo menos em termos legais aparece a i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> higienização da socieda<strong>de</strong><br />
tentando controlar todos os fatores que po<strong>de</strong>riam causar danos à saú<strong>de</strong>.<br />
1.1.1 A Organização do Espaço Físico<br />
Por meio do Código <strong>de</strong> Posturas aprovado em 1880 o Estado propõe a organização<br />
do espaço urbano até os mínimos <strong>de</strong>talhes. Regulamentou <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a concessão dos terrenos<br />
a particulares até o tipo <strong>de</strong> construção e reparos que po<strong>de</strong>riam ser realizados nas casas no<br />
perímetro urbano. Chama a atenção o caráter rígido das normas, com exigências sobre<br />
a localização das casas particulares e <strong>de</strong>talhes construtivos como a cor da pintura e a<br />
<strong>de</strong>coração <strong>de</strong> fachadas. Sobre este último ponto, <strong>de</strong>terminava:<br />
Art. 11 – A pintura e <strong>de</strong>coração externa dos edifícios será à vonta<strong>de</strong><br />
dos proprietários, que <strong>de</strong>verão preferir a <strong>de</strong> cor <strong>de</strong> cana e azulejos.<br />
Não <strong>de</strong>verão ser, porém, escuras ou <strong>de</strong> forma a oporem-se as regras da<br />
<strong>de</strong>cência. Os infractores serão multados em <strong>de</strong>z mil reis ou cinco dias<br />
<strong>de</strong> prisão (MATO GROSSO, 1884, p. 34b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
As exigências referentes à altura do pé direito das casas térreas e às aberturas das<br />
janelas e portas mostram a preocupação em permitir a ventilação e a circulação <strong>de</strong> ar e<br />
luz <strong>de</strong>ntro das habitações, consi<strong>de</strong>rados fundamentais para a salubrida<strong>de</strong> e boa higiene, <strong>de</strong><br />
acordo com o conhecimento médico da época. O não cumprimento das normas expunha<br />
o indivíduo às sanções que não eram apenas <strong>de</strong> caráter econômico, mas <strong>de</strong> sua liberda<strong>de</strong><br />
individual.<br />
A proposta <strong>de</strong> organização do espaço implicava não somente na <strong>de</strong>finição <strong>de</strong><br />
normas para a localização e tipo <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> prédios urbanos, como também na<br />
preocupação <strong>de</strong> permitir áreas suficientes para a circulação <strong>de</strong> pessoas e veículos. A<br />
aglomeração <strong>de</strong>stes ou <strong>de</strong> animais nas portas das casas ou nas praças, a manutenção <strong>de</strong><br />
mercadorias à mostra além dos portais das lojas, eram situações passíveis <strong>de</strong> incorrer<br />
em multas ou prisões. Havia a preocupação também com as vias <strong>de</strong> acesso às cida<strong>de</strong>s e<br />
povoações, procurando intervir na conservação <strong>de</strong>ssas vias, obrigando os proprietários<br />
confinantes com as estradas e caminhos <strong>de</strong> utilida<strong>de</strong> pública a conservá-los limpos e<br />
prontos para o trânsito.<br />
Proibia-se toda e qualquer forma <strong>de</strong> obstrução das vias <strong>de</strong> acesso aos núcleos<br />
urbanos, bem como a realização <strong>de</strong> roçados, queimadas ou escavações às margens das<br />
estradas que pu<strong>de</strong>ssem prejudicar a conservação das mesmas. Os infratores ficavam<br />
sujeitos à multa ou prisão, além <strong>de</strong> a limpeza e consertos correrem por sua conta.<br />
A regulação do uso do espaço urbano implicava também na obrigação <strong>de</strong><br />
manutenção da limpeza, por parte da população, tanto dos espaços públicos como dos<br />
particulares. Cabia aos moradores conservar limpas as praças e ruas da cida<strong>de</strong> não sendo<br />
permitido jogar lixo, animais mortos ou entulho fora dos locais <strong>de</strong>signados para o seu<br />
<strong>de</strong>pósito, bem como jogar água, servida ou não, das casas para as ruas.<br />
A regulamentação atinge as proprieda<strong>de</strong>s privadas não apenas no que se refere<br />
ao saneamento, conservação e limpeza dos quintais, mas também no que diz respeito à<br />
preocupação com o controle das doenças contagiosas, proibindo a lavagem <strong>de</strong> roupas <strong>de</strong><br />
pessoas com doenças transmissíveis <strong>de</strong>ntro das casas.<br />
1.1.2 A Qualida<strong>de</strong> da Alimentação<br />
A intervenção do po<strong>de</strong>r público passava também pelo controle da produção e<br />
circulação dos alimentos, estabelecendo medidas preventivas e punitivas para garantir a<br />
qualida<strong>de</strong> dos produtos consumidos. A carne recebia especial atenção com a fiscalização<br />
<strong>de</strong> matadouros e açougues, no que se refere à localização dos mesmos até os cuidados<br />
dispensados à higiene e a verificação dos pesos, o que <strong>de</strong>monstra a tentativa <strong>de</strong> evitar que<br />
a coletivida<strong>de</strong> fosse lesada na compra <strong>de</strong>ste artigo.<br />
O capítulo referente a esta questão <strong>de</strong>terminava:<br />
25
26<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Art. 14 – Não se po<strong>de</strong>rá matar e esquartejar gado algum para o consumo<br />
fora do matadouro público, sem licença da Câmara. O infractor será<br />
punido com a multa <strong>de</strong> <strong>de</strong>z mil reis ou cinco dias <strong>de</strong> prisão.<br />
Art. 15 – É expressamente proibido:<br />
§ 1º - Matar gado que apresentar syntomas <strong>de</strong> moléstia ou que estiver<br />
cansado, estropeado ou muito magro; bem como utilizar-se para<br />
consumo do que for encontrado morto. (...)<br />
§ 3º - Ven<strong>de</strong>r carne fora dos açougues ou dos lugares nos quais não<br />
possa ser fiscalizada a limpeza e salubrida<strong>de</strong> d´ela; assim como a<br />
fi<strong>de</strong>lida<strong>de</strong> dos pezos.<br />
§ 4º - Ven<strong>de</strong>r carne antes das cinco horas da manhã e <strong>de</strong>pois das duas<br />
da tar<strong>de</strong>, ou estando alterada e em mau estado. (...)<br />
Art. 16 – Os proprietários ou administradores <strong>de</strong> açougues são<br />
obrigados:<br />
§ 1º - Conservar sempre limpos e em perfeito estado <strong>de</strong> asseio, os<br />
balcões, balanças e todos os mais aprestos necessários a venda da carne.<br />
§ 2º - Fazer varrer e lavar os açougues todos os dias à tar<strong>de</strong>. (...)<br />
§ 4º - Fazer conduzir a carne do matadouro para os açougues em<br />
grajáos, cestos ou carroças cobertas com pano limpo. O infractor será<br />
multado em <strong>de</strong>z mil reis ou cinco dias <strong>de</strong> prisão (MATO GROSSO,<br />
1884, p. 36b e 37).<br />
Além da carne bovina, o controle sobre a pesca e o comércio <strong>de</strong> peixes também<br />
mereciam <strong>de</strong>staque na lei que <strong>de</strong>terminava os locais permitidos para utilização <strong>de</strong> re<strong>de</strong>s e<br />
para a produção <strong>de</strong> azeite ou óleo <strong>de</strong> peixe. Regulava ainda o comércio <strong>de</strong> peixe fresco,<br />
seco ou em pedaços, cabendo multas e prisão aos infratores.<br />
A comercialização <strong>de</strong> gêneros alimentícios em geral <strong>de</strong>veria ser controlada<br />
através <strong>de</strong> uma central <strong>de</strong> abastecimento, que era o mercado público. Qualquer mercadoria<br />
que entrasse na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong>veria ser exposta no mercado, ou outro lugar <strong>de</strong>signado, durante<br />
24 horas e só então po<strong>de</strong>ria ser vendida por atacado. Esse controle era mais forte no caso<br />
<strong>de</strong> calamida<strong>de</strong> pública, ocasião em que se proibia a venda por atacado, reservando-se esse<br />
direito apenas para a comissão <strong>de</strong> socorros públicos.<br />
O cuidado com a saú<strong>de</strong> pública se expressava também na preocupação em<br />
impedir a poluição das cida<strong>de</strong>s, proibindo o estabelecimento nas zonas urbanas <strong>de</strong><br />
curtumes, salga<strong>de</strong>iras <strong>de</strong> couros, fábricas <strong>de</strong> sabão ou azeite e <strong>de</strong>pósitos <strong>de</strong> sal e sebo.<br />
Essas medidas visavam evitar a contaminação do ar por substâncias ou odores que naquele<br />
momento avaliava que interferissem na salubrida<strong>de</strong> urbana.<br />
A preocupação em preservar o meio ambiente transparece ainda na tentativa <strong>de</strong><br />
evitar a pesca predatória e a <strong>de</strong>vastação <strong>de</strong> matas e cursos d’águas através <strong>de</strong> queimadas<br />
e roçados.
1.1.3 Medidas Sanitárias<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
No campo específico da atuação médica o problema básico era o das epi<strong>de</strong>mias.<br />
O único serviço que o po<strong>de</strong>r público prestava era o da vacinação e o Código <strong>de</strong> Posturas<br />
estipulava:<br />
Art. 28 – Todas as pessoas não vaccinadas, <strong>de</strong>verão ir a casa da Camara,<br />
nos dias por ella marcados, para se vaccinar, levando para o mesmo fim<br />
filhos, tutelados, curatelados, fâmulos, escravos e qualquer pessoa que<br />
esteja sob sua guarda ou <strong>de</strong>pósito. Os infractores serão multados em<br />
vinte mil reis cada um ou oito dias <strong>de</strong> prisão.<br />
Art. 29 – Os vaccinados <strong>de</strong>verão voltar oito dias <strong>de</strong>pois para se<br />
verificar se a vaccina é verda<strong>de</strong>ira ou espúria, e extrahir-se o pus para<br />
ser empregado em outros. Os infractores serão multados em <strong>de</strong>z mil<br />
reis cada um, ou sofrerão cinco dias <strong>de</strong> prisão, salvo havendo motivo<br />
justo e provado do impedimento.<br />
Art. 30 – As creanças <strong>de</strong>verão ser vaccinadas até um anno <strong>de</strong>pois <strong>de</strong><br />
nascidas (MATO GROSSO, 1884, p. 39).<br />
Percebe-se o caráter rígido e compulsório da legislação no que se refere à<br />
vacinação contra a varíola. Apesar <strong>de</strong> o Código <strong>de</strong> Posturas não afirmar explicitamente, a<br />
vacinação se tornava obrigatória já que ela abrangia <strong>de</strong>s<strong>de</strong> as crianças até adultos impondo<br />
vacinação, exame, revacinação, ameaçando com multas pesadas e até com a prisão, não<br />
<strong>de</strong>ixando espaço para <strong>de</strong>fesas ou omissões.<br />
Para evitar surtos epidêmicos, um outro canal <strong>de</strong> prevenção era a inspeção<br />
sanitária das embarcações e o controle da entrada e saída <strong>de</strong> pessoas, através da passagem<br />
pela Polícia Sanitária. Medidas como a vacinação, o isolamento e a vigilância sanitária em<br />
geral, constituíam apenas tentativas <strong>de</strong> respostas aos períodos epidêmicos e calamitosos;<br />
a ação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública, no que diz respeito à assistência médica, estava limitada ainda<br />
pelo baixo nível do conhecimento científico referente ao diagnóstico, prevenção e terapia<br />
das doenças. A regulamentação da construção <strong>de</strong> hospitais e o isolamento das pessoas<br />
suspeitas <strong>de</strong> serem portadoras <strong>de</strong> doenças contagiosas, proibidas <strong>de</strong> andarem pelas ruas,<br />
eram medidas consi<strong>de</strong>radas como parte dos cuidados com a saú<strong>de</strong> da população.<br />
Entretanto, a assistência médica era incipiente, utilizando-se apenas medidas<br />
necessárias ao controle das doenças que pu<strong>de</strong>ssem causar calamida<strong>de</strong>s públicas. Essas<br />
medidas preventivas apontam, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> aquele momento, para a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> uma<br />
concepção <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> baseada na ausência relativa <strong>de</strong> doenças e ela esteve presente em<br />
todo o período, servindo <strong>de</strong> suporte para as práticas <strong>de</strong> intervenção propostas pelo Estado.<br />
1.1.4 O Controle do Indivíduo<br />
As i<strong>de</strong>ias expressas no Código <strong>de</strong> Posturas não visavam apenas o controle do<br />
coletivo, mas também o controle dos indivíduos. Nesse sentido, a legislação ditava as<br />
27
28<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
normas <strong>de</strong> conduta pessoal com o intuito <strong>de</strong> controlar todos os aspectos que pu<strong>de</strong>ssem<br />
atentar contra a segurança e a moralida<strong>de</strong> públicas.<br />
A parte do Código <strong>de</strong> 1880 que trata <strong>de</strong>sta questão proibia: as pessoas <strong>de</strong> andarem<br />
“malvestidas” pelas ruas; a criação e o trânsito <strong>de</strong> animais <strong>de</strong>ntro da cida<strong>de</strong>; as brinca<strong>de</strong>iras,<br />
jogos ou reuniões que ofen<strong>de</strong>ssem os bons costumes; o samba, o cururu e outras danças<br />
que provocassem barulho; o livre trânsito pelas ruas <strong>de</strong> pessoas <strong>de</strong>sequilibradas colocando<br />
em risco a segurança pública; a permanência na própria casa <strong>de</strong> “modo in<strong>de</strong>cente e imoral”<br />
correndo o risco <strong>de</strong> serem vistas por vizinhos ou passantes.<br />
Enfim, perseguia-se animais, mendigos, loucos, bêbados e escravos, tentando<br />
colocar sob vigilância tudo aquilo que fugisse ao padrão <strong>de</strong> higiene e moralida<strong>de</strong> exigido<br />
por alguns para o conjunto dos habitantes das cida<strong>de</strong>s. Destes, exigia-se também que<br />
fossem mo<strong>de</strong>rados no falar, proibindo-se as discussões ou conversas em tom acima do<br />
normal, tanto <strong>de</strong> dia como à noite e ainda não proferir “palavras obscenas ou licenciosas”<br />
que ofen<strong>de</strong>ssem “o pudor das famílias ou a moral pública” (MATO GROSSO, 1884, p.<br />
44).<br />
A população <strong>de</strong>veria submeter-se à nova or<strong>de</strong>m, ajustando-se aos hábitos<br />
higiênicos e condutas morais consi<strong>de</strong>rados necessários pelas autorida<strong>de</strong>s para o bom<br />
convívio <strong>de</strong>ntro das cida<strong>de</strong>s.<br />
O Estado até este momento apenas elaborou e ofereceu normas, colocando-se como<br />
juiz e executor <strong>de</strong> punições no caso <strong>de</strong> não cumprimento da lei pelo indivíduo. Entretanto,<br />
não aparece igual preocupação em oferecer serviços capazes <strong>de</strong> atuar na resolução dos<br />
problemas que a insalubrida<strong>de</strong> pu<strong>de</strong>sse criar. Pelo contrário, a responsabilida<strong>de</strong> pelo bemestar<br />
coletivo era estritamente do indivíduo.<br />
A oferta <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, em nível local, era limitada não apenas pelo que<br />
se concebia como atribuição do Estado nesse momento – a regulamentação <strong>de</strong> medidas<br />
sanitárias e a polícia médica, visando sobretudo o combate <strong>de</strong> doenças importadas –<br />
mas também pelo fato <strong>de</strong> essas iniciativas serem <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> do po<strong>de</strong>r central,<br />
concentradas apenas nos núcleos urbanos mais importantes e nas regiões portuárias.<br />
Esta posição será modificada na medida em que a insalubrida<strong>de</strong> passa a ser<br />
consi<strong>de</strong>rada, realmente, como entrave à mo<strong>de</strong>rnização e como um elemento perturbador<br />
da or<strong>de</strong>m econômica. A intervenção do Estado, no sentido <strong>de</strong> criar serviços eficazes ao<br />
combate às doenças, será feita, então, em nome da própria or<strong>de</strong>m social. Esta foi uma<br />
tarefa que se iniciou a partir da década <strong>de</strong> 1890, no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
2 A SAÚDE PÚBLICA RECEBE ATENÇÃO INDIVIDUALIZADA<br />
A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> o Estado criar serviços específicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolveu-se,<br />
segundo José C. Braga, na Europa no final do século XVIII, com a Revolução Industrial.<br />
Frente ao estado <strong>de</strong> <strong>de</strong>terioração da sua população trabalhadora e às pressões políticas<br />
da classe, a Inglaterra se preocupou em tomar medidas efetivas para diminuir a taxa <strong>de</strong>
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
mortalida<strong>de</strong> que ameaçava o próprio processo <strong>de</strong> acumulação do capital. Além disso, a<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> garantir uma oferta elástica da força <strong>de</strong> trabalho, fez com que se buscassem<br />
mecanismos capazes <strong>de</strong> transformar a i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> medicina social, surgida na França durante<br />
a Revolução, numa prática <strong>de</strong> Estado (BRAGA, 1981).<br />
A medicina aparece então, no século XIX, como um “controle da saú<strong>de</strong> e do<br />
corpo dos pobres para torná-los mais aptos ao trabalho e menos perigosos para os ricos”<br />
(BRAGA, 1981). Esse mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> medicina social inglesa prevaleceu sobre os outros,<br />
segundo Braga, porque permitiu associar três níveis <strong>de</strong> atuação: a assistência médica aos<br />
pobres, o controle da força <strong>de</strong> trabalho e o esquadrinhamento geral da saú<strong>de</strong> pública.<br />
Permitiu, também, <strong>de</strong>senvolver três sistemas médicos superpostos e coexistentes: uma<br />
medicina assistencial, uma medicina administrativa para problemas gerais como a<br />
vacinação, as epi<strong>de</strong>mias etc., e outra privada para quem tivesse meios <strong>de</strong> pagá-la.<br />
A atenção à saú<strong>de</strong> surgiu, então, quando os serviços passaram a ser socialmente<br />
significativos. Nesse sentido, disseminou-se a compreensão <strong>de</strong> que cabia ao Estado a<br />
função <strong>de</strong> promotor da saú<strong>de</strong> pública. A intervenção estatal se <strong>de</strong>senvolveu, a partir <strong>de</strong><br />
então, com base em i<strong>de</strong>ias e práticas <strong>de</strong> medicina preventiva, com <strong>de</strong>staque para a higiene<br />
e o saneamento do meio que, com algumas alterações, persistem até hoje.<br />
No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, a organização dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, por parte do<br />
Estado, não surgiu em consequência <strong>de</strong> problemas como os apresentados nas socieda<strong>de</strong>s<br />
europeias em processo <strong>de</strong> industrialização, mas as i<strong>de</strong>ias e formas <strong>de</strong> atuação são<br />
semelhantes, acompanhando o que ocorria no Brasil.<br />
Há dois elementos que <strong>de</strong>vem ser consi<strong>de</strong>rados para a compreensão da mudança<br />
<strong>de</strong> atitu<strong>de</strong> dos dirigentes mato-grossenses quanto à intervenção pública na área da higiene.<br />
O primeiro, <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m interna, é o receio <strong>de</strong> que as epi<strong>de</strong>mias, principalmente, pu<strong>de</strong>ssem<br />
ameaçar o equilíbrio <strong>de</strong>mográfico e interferissem no <strong>de</strong>senvolvimento econômico do<br />
Estado. O segundo, em nível nacional, foi a alteração da or<strong>de</strong>m política com a instauração<br />
do regime republicano, que transferiu aos governos estaduais responsabilida<strong>de</strong>s maiores<br />
na resolução dos problemas sociais.<br />
2.1 A Constituição dos Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> no Brasil uma Referência para<br />
Mato Grosso<br />
Analisando o trabalho <strong>de</strong> Ma<strong>de</strong>l Luz sobre a constituição <strong>de</strong> instituições e<br />
políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Brasil, po<strong>de</strong>-se i<strong>de</strong>ntificar claramente as diferentes concepções<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que sustentaram as políticas brasileiras, nesse setor, bem como aquelas que<br />
<strong>de</strong>terminaram a <strong>de</strong>limitação das responsabilida<strong>de</strong>s da administração pública (LUZ, 1982).<br />
Naquele último caso, a questão fundamental é a centralização ou <strong>de</strong>scentralização dos<br />
serviços públicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Segundo Luz, a Junta Central <strong>de</strong> Higiene Pública, criada em 1851 e subordinada<br />
ao Ministério do Império, iniciou um período <strong>de</strong> centralização das ações que vigorou até<br />
29
30<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
a proclamação da República. A partir da década <strong>de</strong> 1890 houve uma reorganização dos<br />
serviços e normas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública, e os novos regulamentos e as estratégias <strong>de</strong> controle<br />
das enfermida<strong>de</strong>s passaram a ser elaborados pelas Unida<strong>de</strong>s Fe<strong>de</strong>rativas.<br />
A volta das crises epidêmicas no início do século XX aliada à falta <strong>de</strong> recursos e<br />
pessoal para erradicar as doenças pelo mo<strong>de</strong>lo médico <strong>de</strong>scentralizador levou, segundo a<br />
autora citada, a mudanças centralistas nas instituições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública.<br />
Essa tendência à centralização só foi consolidada na década <strong>de</strong> 1920 quando o<br />
Governo Fe<strong>de</strong>ral passou a ditar normas, saberes e práticas na área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, ampliando<br />
o grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão e interferência do Estado e <strong>de</strong>finindo maior uniformida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação.<br />
Com a reforma Carlos Chagas e a criação do Departamento Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública<br />
(DNSP), em 1923, teve início um crescente movimento <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> órgãos públicos <strong>de</strong><br />
emergência, como a criação <strong>de</strong> postos médicos, laboratórios, assistência médica gratuita,<br />
serviços <strong>de</strong> inspeção escolar e outros, que apontam para a constituição <strong>de</strong> um setor <strong>de</strong><br />
assistência médica estatal.<br />
O saneamento urbano e rural, a higiene industrial, a propaganda sanitária <strong>de</strong><br />
higiene materno-infantil e o combate às en<strong>de</strong>mias rurais, tornaram-se atribuições fe<strong>de</strong>rais<br />
que <strong>de</strong>veriam ser executadas pelo DNSP.<br />
Essas tendências das políticas brasileiras no setor repercutiram diretamente em<br />
Mato Grosso. Assim, com a <strong>de</strong>terminação da República <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralizar a responsabilida<strong>de</strong><br />
com a saú<strong>de</strong>, os dirigentes estaduais criaram os primeiros serviços nessa área, no início da<br />
década <strong>de</strong> 1890. Com essa medida começava a ser <strong>de</strong>lineada a política <strong>de</strong> intervenção do<br />
Estado, que superou a sua posição <strong>de</strong> agir apenas como normatizador e avançou no sentido<br />
<strong>de</strong> oferecer serviços junto com a vigilância da saú<strong>de</strong> pública.<br />
Apesar das intenções, a situação financeira do Estado não permitiu viabilizar<br />
serviços eficientes, mas o discurso oficial, a partir do início do século XX, começou<br />
a expressar a i<strong>de</strong>ia da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> maior intervenção estatal para solucionar os<br />
problemas sanitários. É interessante notar que essa preocupação se expressou no período<br />
em que os problemas causados pelas epi<strong>de</strong>mias, ameaçavam interferir seriamente no<br />
<strong>de</strong>senvolvimento regional.<br />
No que se refere ao conhecimento médico que orientou o discurso e a prática<br />
<strong>de</strong> intervenção estatal nas questões sanitárias em Mato Grosso, prevaleceram as i<strong>de</strong>ias<br />
<strong>de</strong> higienização da socieda<strong>de</strong> e <strong>de</strong> causação social da doença, além <strong>de</strong> outras que se<br />
<strong>de</strong>senvolveram em nível nacional naquele momento.<br />
2.2 Salubrida<strong>de</strong> Pública e Desenvolvimento Social<br />
O discurso que propunha a intervenção do Estado na questão da salubrida<strong>de</strong><br />
pública, em Mato Grosso, caracterizava-se por <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r a necessida<strong>de</strong> da criação <strong>de</strong><br />
condições sanitárias mínimas, indispensáveis não só às relações comerciais com o<br />
exterior, como também para atrair a imigração e, sobretudo, para estimular o crescimento
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
da população. A interferência do Estado na oferta <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> se ligava a um<br />
problema básico <strong>de</strong> Mato Grosso, sua ocupação <strong>de</strong>mográfica.<br />
Em 1901, o Presi<strong>de</strong>nte do Estado, Antonio Pedro Alves <strong>de</strong> Barros, em<br />
Mensagem enviada à Assembleia Legislativa <strong>de</strong>monstrou preocupação com o volume dos<br />
investimentos na saú<strong>de</strong>, sugerindo a criação <strong>de</strong> serviços eficientes para aten<strong>de</strong>r esta área.<br />
Alves <strong>de</strong> Barros afirmava:<br />
Sabeis bem que a vida humana representa por toda parte um capital<br />
precioso, confiado à guarda dos governos e que esse capital sobe <strong>de</strong><br />
preço n’aquelles Estados, como o nosso, on<strong>de</strong> a população é escassa<br />
e o seu augmento é difícil <strong>de</strong> conseguir por meio da immigração. Em<br />
taes condições, <strong>de</strong>ixar per<strong>de</strong>r o valor <strong>de</strong> uma existência que seja, pelo<br />
medo <strong>de</strong> onerar <strong>de</strong>mais os cofres públicos, é, quando não um crime,<br />
pelo menos um erro (MATO GROSSO, 1902, p. 64).<br />
Alves <strong>de</strong> Barros procurava mostrar as vantagens das <strong>de</strong>spesas públicas nessa<br />
área, que <strong>de</strong>veriam ser vistas não como gastos, mas sim como investimentos, cujo retorno,<br />
em vidas, era muito necessário ao Estado <strong>de</strong> Mato Grosso <strong>de</strong>vido ao seu “<strong>de</strong>spovoamento”<br />
e à dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> realizar a imigração.<br />
Para reforçar esta i<strong>de</strong>ia o Presi<strong>de</strong>nte citava a Jules Rochard, que no Congresso <strong>de</strong><br />
Higiene <strong>de</strong> Haya em 1884 argumentou que:<br />
1° - Toda <strong>de</strong>spesa feita em nome da hygiene é uma economia;<br />
2° - Nada é mais dispendioso que a moléstia, a não ser a própria morte;<br />
3° - Para as socieda<strong>de</strong>s não há <strong>de</strong>sperdício mais oneroso do que o da<br />
vida humana (MATO GROSSO, 1902, p. 64).<br />
Alves <strong>de</strong> Barros tentava convencer aos <strong>de</strong>putados da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> o Governo<br />
assumir maiores responsabilida<strong>de</strong>s na organização dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, criando um<br />
Departamento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública que pu<strong>de</strong>sse aten<strong>de</strong>r à capital e às diversas localida<strong>de</strong>s<br />
com serviços permanentes <strong>de</strong> “hygiene das construções, alimentar, industrial, escolástica,<br />
hospitalar e mortuária” (MATO GROSSO, 1902, p. 64).<br />
Enten<strong>de</strong>ndo que a salubrida<strong>de</strong> pública era um fator importante para o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento social, e que Mato Grosso necessitava aumentar sua população para<br />
promover a ocupação econômica, nada mais lógico que se recomendasse e <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>sse<br />
a interferência do Estado nos problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Transformar a saú<strong>de</strong> num problema<br />
<strong>de</strong> administração pública <strong>de</strong>mandava a constituição <strong>de</strong> uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços que fossem:<br />
preventivos e curativos.<br />
Essa i<strong>de</strong>ia da intervenção estava bem clara para Alves <strong>de</strong> Barros, que voltou a<br />
insistir na sua Mensagem do ano seguinte, nestes termos:<br />
Como obtempera um distincto autor <strong>de</strong> direito administrativo, é tão<br />
atrazado o ponto <strong>de</strong> vista <strong>de</strong> Rousseau como o <strong>de</strong> Spencer, um com<br />
31
32<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
a estipulação do seu contracto e outro com a sua applicação da Lei<br />
<strong>de</strong> lucta pela existência, quando concluem ambos pela necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
abandonar o indivíduo ao seu próprio <strong>de</strong>stino, limitando-se o Estado ao<br />
papel <strong>de</strong> juiz do campo no gran<strong>de</strong> torneio da vida político-social, para<br />
recolher os mortos e cumprimentar os vencedores.<br />
Os próprios paízes on<strong>de</strong> mais predomina o espírito <strong>de</strong> individualismo<br />
e nomeadamente a Inglaterra que é o typo clássico do liberalismo<br />
mais intransigente, ahi estão todos, sem excepção <strong>de</strong> um só, a alargar<br />
cada vez mais a esphera <strong>de</strong> ingerência do po<strong>de</strong>r político em todos<br />
os negócios da comunhão. Em particular, no <strong>de</strong>partamento da saú<strong>de</strong><br />
pública, po<strong>de</strong>-se affirmar que o consenso é unânime, augmentando<br />
todos os anos em todos os orçamentos a verba <strong>de</strong>stinada ao custeio do<br />
serviço <strong>de</strong> hygiene. [...] Para Mato Grosso, que está longe <strong>de</strong> soffrer<br />
do pesa<strong>de</strong>lo malthusiano da plethora <strong>de</strong> poulação, essas conclusões,<br />
snrs. Membros da Assembléia Legislativa, sobem <strong>de</strong> preço e <strong>de</strong>vem ser<br />
tomada em particularísssima consi<strong>de</strong>ração (MATO GROSSO, 1911a,<br />
p. 46).<br />
Apesar das consi<strong>de</strong>rações <strong>de</strong> Alves <strong>de</strong> Barros, a verda<strong>de</strong> é que a saú<strong>de</strong> pública<br />
não chegou a participar das opções prioritárias da política <strong>de</strong> gastos do governo – seja pela<br />
sua limitada capacida<strong>de</strong> financeira ou pela ausência <strong>de</strong> pressões sociais que o levasse a<br />
transpor suas limitações.<br />
Comparando a receita e a <strong>de</strong>spesa do Estado e os gastos com a saú<strong>de</strong> pública entre<br />
1906 e 1909 (Quadro 1), observa-se que, da <strong>de</strong>spesa total, em 1906, <strong>de</strong> 1.627:590$327,<br />
foi investido na repartição <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> apenas 17:733$708; em 1908, a <strong>de</strong>spesa foi fixada em<br />
2.734:860$021 e para a saú<strong>de</strong> pública foram <strong>de</strong>stinados 18:566$443.<br />
Quadro 1 – Demonstrativo da receita e da <strong>de</strong>spesa do Estado e dos gastos realizados com<br />
a Saú<strong>de</strong> Pública 1906/1909<br />
Fonte: MATO GROSSO, 1921; CORRÊA, 1981.<br />
Com exceção do ano <strong>de</strong> 1907, quando os gastos com a saú<strong>de</strong> cresceram para<br />
85:409$729 através <strong>de</strong> auxílios e verbas suplementares para aten<strong>de</strong>r a epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> varíola<br />
que ameaçava se generalizar em todo o Estado, a verba <strong>de</strong>stinada aos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
continuava sendo mínima. Segundo as próprias informações oficiais, esse era o serviço<br />
com que o Estado menos dispendia.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Ainda em 1912, a Inspetoria <strong>de</strong> Higiene justificava sua <strong>de</strong>ficiência <strong>de</strong>vido à<br />
exiguida<strong>de</strong> dos recursos que recebia, resultando <strong>de</strong>ssa situação: “não estar a repartição<br />
capacitada a respon<strong>de</strong>r e reagir à invasão <strong>de</strong> uma epi<strong>de</strong>mia” (MATO GROSSO, 1912).<br />
Também o Presi<strong>de</strong>nte Costa Marques, em 1913, continuava reforçando a i<strong>de</strong>ia da<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> melhorar os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e saneamento, porque a sua falta continuaria<br />
“impedindo o aumento da população e o progresso da nossa capital” (MATO GROSSO,<br />
1915). Essa situação permaneceu inalterada em todo o período <strong>de</strong> 1890 até o final da<br />
década <strong>de</strong> 1930.<br />
Dezessete anos <strong>de</strong>pois, o Presi<strong>de</strong>nte do Estado Dr. Aníbal <strong>de</strong> Toledo, afirmava:<br />
É insignificante a <strong>de</strong>speza do Estado com os serviços officiaes <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> e hygiene. Gastou-se com esse ramo da administração em 1929,<br />
20:570$622 e para 1930 está a <strong>de</strong>spesa fixada em 28:916$000, o que<br />
quer dizer que não temos em absoluto nem organização <strong>de</strong>fensiva<br />
contra surtos epidêmicos possíveis, nem aparelhamento algum<br />
offensivo contra as en<strong>de</strong>mias reinantes (MATO GROSSO, 1931a).<br />
O Presi<strong>de</strong>nte do Estado continuava citando ainda os problemas sanitários<br />
existentes no Estado e as razões da sua falta <strong>de</strong> recursos:<br />
Os gran<strong>de</strong>s problemas sanitários <strong>de</strong> Matto-Grosso são, entretanto, mais<br />
<strong>de</strong> engenharia do que <strong>de</strong> medicina propriamente dita. É a instalação<br />
dos serviços <strong>de</strong> esgotos, é a canalização das águas pluviaes, é o<br />
abastecimento <strong>de</strong> água potável, é a canalização e cobertura do córrego<br />
da Prainha, cuja necessida<strong>de</strong> ahi está aos olhos <strong>de</strong> todo mundo, mas que<br />
não pu<strong>de</strong>mos e nem po<strong>de</strong>mos atacar ainda, porque as renda do Estado<br />
não bastam. E não bastam, simplesmente, por falta <strong>de</strong> riquezas, que só<br />
o povoamento produz (MATO GROSSO, 1931a).<br />
A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> promover o controle das doenças e da insalubrida<strong>de</strong>, segundo<br />
o discurso oficial, era vital para Mato Grosso solucionar a escassez da população. O seu<br />
aumento continuava sendo o objetivo a ser alcançado, visto que essa seria a condição<br />
necessária para o progresso e o <strong>de</strong>senvolvimento econômico e social do Estado. Com<br />
essa perspectiva, os dirigentes do Estado tentaram fazer da saú<strong>de</strong> um problema <strong>de</strong><br />
administração pública.<br />
3 O ESTADO E OS SERVIÇOS DE SAÚDE<br />
Na década <strong>de</strong> 1890 a concepção sobre a higienização da socieda<strong>de</strong> continuava<br />
vigente como se expressou na década anterior. Entretanto, percebe-se uma mudança<br />
na postura dos dirigentes públicos quanto à intervenção do Estado na área da saú<strong>de</strong>. A<br />
legislação avança no sentido <strong>de</strong> criar serviços que pu<strong>de</strong>ssem efetivar a vigilância sobre a<br />
saú<strong>de</strong> pública.<br />
33
34<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O problema sanitário será objeto <strong>de</strong> regulamentação específica e in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte,<br />
e isso <strong>de</strong>monstra que estava ocorrendo uma diversificação nas funções do Estado, já<br />
que em outros setores se observa, também, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> tratamento específico <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>terminadas questões sociais.<br />
A Inspetoria <strong>de</strong> Higiene criada em 1892 obe<strong>de</strong>cia a uma estrutura burocrática<br />
simples. Entretanto, com a regulamentação do serviço sanitário, no ano seguinte, recebeu<br />
um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> atribuições, muitas <strong>de</strong>las difíceis <strong>de</strong> serem cumpridas <strong>de</strong>vido às<br />
próprias condições materiais do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Em nível legal, o Estado passou<br />
a contar com um instrumento que expressava a vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> um controle mais eficiente<br />
sobre a questão sanitária. Na prática, o próprio discurso oficial, ao propor constantemente<br />
a necessida<strong>de</strong> da intervenção do Estado para solucionar a <strong>de</strong>manda crescente <strong>de</strong> serviços,<br />
<strong>de</strong>monstra a fragilida<strong>de</strong> da atuação da Inspetoria.<br />
A estrutura criada no início da década <strong>de</strong> 1890 permaneceu vigente nos anos<br />
1930. Logicamente naquele período houve mudanças na sua atuação, <strong>de</strong>terminadas pela<br />
natureza dos problemas que a Inspetoria <strong>de</strong>via aten<strong>de</strong>r em diferentes momentos.<br />
A seguir se mostrará a estrutura, atribuições e abrangência <strong>de</strong> Inspetoria<br />
<strong>de</strong> Higiene, primeiro órgão <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> sob a responsabilida<strong>de</strong> da administração pública<br />
estadual.<br />
3.1 A Estrutura dos Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
As funções da Inspetoria <strong>de</strong> Higiene, <strong>de</strong>finidas no Regulamento Sanitário <strong>de</strong><br />
1893, explicitam <strong>de</strong> certa maneira as priorida<strong>de</strong>s para a saú<strong>de</strong> pública e ao mesmo tempo<br />
<strong>de</strong>monstram que elas eram muito abrangentes para a estrutura do serviço criado no ano<br />
anterior. Eram as seguintes as atribuições da Inspetoria:<br />
a) O estudo <strong>de</strong> todas as questões relativas à saú<strong>de</strong> pública do Estado;<br />
b) O saneamento das localida<strong>de</strong>s e habitações;<br />
c) A adoção <strong>de</strong> medidas para prevenir, combater ou atenuar as doenças<br />
transmissíveis, endêmicas e epidêmicas aos homens e animais;<br />
d) A organização, direção e distribuição dos socorros públicos aos<br />
necessitados em períodos normais e epidêmicos;<br />
e) A direção e propagação do serviço <strong>de</strong> vacinação;<br />
f) A indicação dos meios para melhorar as condições sanitárias da população<br />
industrial e agrícola;<br />
g) A inspeção sanitária das escolas, fábricas e oficinas, hospitais, prisões e<br />
outros;<br />
h) A fiscalização da alimentação pública, do consumo e fabricação <strong>de</strong> bebidas<br />
nacionais ou importadas, naturais ou artificiais, bem como do comércio e<br />
exploração das águas minerais;<br />
i) A fiscalização do exercício da medicina, odontologia e farmácia;
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
j) A polícia sanitária sobre tudo que direta ou indiretamente influa na<br />
salubrida<strong>de</strong> das cida<strong>de</strong>s do Estado;<br />
k) A organização da estatística <strong>de</strong>mográfica;<br />
l) A fiscalização sanitária <strong>de</strong> todos os gran<strong>de</strong>s trabalhos <strong>de</strong> utilida<strong>de</strong> pública,<br />
cemitérios e construções que possam comprometer a saú<strong>de</strong> pública.<br />
Para executar essas funções, a Inspetoria <strong>de</strong>veria contar com um Inspetor Geral<br />
na Capital e <strong>de</strong>legados <strong>de</strong> higiene nos municípios se<strong>de</strong>s <strong>de</strong> comarcas, com autorida<strong>de</strong> para<br />
fiscalizar a observância dos preceitos higiênicos do regulamento sanitário.<br />
Embora a estrutura burocrática fosse mínima, o Estado encontrava entraves para<br />
esten<strong>de</strong>r seus serviços ao interior. Um exemplo era a exigência da graduação em medicina<br />
para exercer o cargo <strong>de</strong> <strong>de</strong>legado, o que na prática dificultava o funcionamento <strong>de</strong>sse<br />
serviço <strong>de</strong>vido ao número reduzido <strong>de</strong> pessoas habilitadas nessa área.<br />
Na década <strong>de</strong> 1890, portanto, o Estado preten<strong>de</strong>u assumir só os encargos<br />
materiais para aten<strong>de</strong>r as necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da população, como também o controle<br />
das instituições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública e das práticas preventivas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong>finindo inclusive<br />
as estratégias <strong>de</strong> controle das epi<strong>de</strong>mias, autorizando a prestação <strong>de</strong> assistência pública e<br />
outros.<br />
3.1.1 A Inspeção Sanitária e sua Abrangência<br />
A polícia sanitária ganhou uma melhor <strong>de</strong>finição, recebendo forma e organização<br />
enquanto conjunto <strong>de</strong> medidas e atribuições com o objetivo <strong>de</strong> combater e prevenir as<br />
epi<strong>de</strong>mias. Embora presente <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a década <strong>de</strong> 1880, só naquele momento ela se constituiu<br />
como um ramo da administração pública, voltado para a saú<strong>de</strong> da população.<br />
No entanto, a preocupação maior era com o controle das epi<strong>de</strong>mias e a propagação<br />
das doenças transmissíveis, tendo a autorida<strong>de</strong> sanitária amplos po<strong>de</strong>res para expedir<br />
intimações, aplicar multas e tomar outras providências legais, bem como requisitar <strong>de</strong><br />
outras autorida<strong>de</strong>s, como a policial, todo auxílio <strong>de</strong> que necessitasse. Além das funções<br />
<strong>de</strong> vigilância e fiscalização, a polícia sanitária manteve seu caráter repressor, como na<br />
legislação anterior. Muitas das atribuições das autorida<strong>de</strong>s sanitárias confundiam-se com<br />
as da autorida<strong>de</strong> policial.<br />
Cabia à polícia sanitária inspecionar as habitações coletivas particulares como<br />
hotéis, estalagens e outros estabelecimentos on<strong>de</strong> houvesse concentração <strong>de</strong> pessoas, e<br />
ainda fiscalizar os locais públicos como arsenais, asilos, quartéis e casas <strong>de</strong> carida<strong>de</strong>. O<br />
objetivo era fiscalizar o cumprimento das normas <strong>de</strong> higiene estipuladas pelo regulamento<br />
sanitário, o número <strong>de</strong> pessoas resi<strong>de</strong>ntes no estabelecimento, promovendo <strong>de</strong>sinfecções e<br />
outras medidas on<strong>de</strong> e quando se fizesse necessário.<br />
Outra atribuição da polícia sanitária diz respeito à fiscalização das casas <strong>de</strong><br />
comércio <strong>de</strong> gêneros alimentícios, padarias, açougues, matadouros, mercado e outros,<br />
com a intenção <strong>de</strong> verificar as condições <strong>de</strong> higiene dos prédios e a qualida<strong>de</strong> dos<br />
35
36<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
produtos comercializados, submetendo a exames aqueles que fossem suspeitos <strong>de</strong> conter<br />
substâncias nocivas à saú<strong>de</strong> ou em estado alterado.<br />
Quanto à inspeção das fábricas <strong>de</strong> vinhos, gorduras, conservas e outras, as<br />
autorida<strong>de</strong>s sanitárias além <strong>de</strong> vistoriar as condições <strong>de</strong> higiene <strong>de</strong>veriam fiscalizar a<br />
qualida<strong>de</strong> dos produtos utilizados na fabricação dos mesmos, estabelecendo <strong>de</strong> acordo<br />
com o tipo <strong>de</strong> infração as multas e outras penalida<strong>de</strong>s correspon<strong>de</strong>ntes.<br />
Analisando os po<strong>de</strong>res arbitrários atribuídos a médicos e fiscais na sua atuação<br />
no campo da saú<strong>de</strong> pública, percebe-se uma forma <strong>de</strong> controle social ainda mais ampla<br />
que a policial, na medida em que a fiscalização sanitária não se limitava às ruas e espaços<br />
públicos, mas permitia penetrar na privacida<strong>de</strong> dos indivíduos, suas casas, seus hábitos e<br />
seus próprios corpos.<br />
As casas quando infectadas eram interditadas e <strong>de</strong>sinfectadas, os corpos sob<br />
suspeita <strong>de</strong> contaminação <strong>de</strong>veriam ser isolados e segregados do convívio social. E a<br />
quem cabia <strong>de</strong>cidir quais as casas e quais os corpos passíveis <strong>de</strong> intervenção e controle?<br />
Só à autorida<strong>de</strong> sanitária, que para isso precisava fiscalizar tudo – as reentrâncias das<br />
casas e dos corpos. A questão da saú<strong>de</strong>/doença estava entrelaçada com a disciplina, o<br />
controle e também com a higienização e repressão dos corpos.<br />
Na busca do saneamento, da urbanização e do controle das epi<strong>de</strong>mias, pretendiase<br />
usar técnicas sanitárias extremamente drásticas, que se caracterizavam por um alto grau<br />
<strong>de</strong> discriminação, exclusão e controle social. O caráter repressivo do serviço po<strong>de</strong> ser<br />
observado através das medidas preventivas que as autorida<strong>de</strong>s sanitárias podiam utilizar.<br />
Para evitar as epi<strong>de</strong>mias, a lei <strong>de</strong>terminava:<br />
Art. 20 – Para garantia das medidas <strong>de</strong> policiamento sanitário,<br />
preventivas do <strong>de</strong>senvolvimento das epi<strong>de</strong>mias ficam estabelecidas:<br />
§ 1º - A notificação compulsória e immediata dos casos <strong>de</strong> moléstias<br />
transmissíveis pelo primeiro médico que socorrer o doente.<br />
§ 2º - A <strong>de</strong>sinfecção obrigatória, applicada ao local e aos objetos<br />
infeccionados nos casos <strong>de</strong> moléstias transmissíveis. (...)<br />
§ 4º - Si para <strong>de</strong>sinfecção da casa ou estabelecimento se tornar necessária<br />
a mudança dos moradores para outro prédio, ou si voluntariamente<br />
elles se retirarem, a autorida<strong>de</strong> sanitária procurará visitar taes pessoas<br />
as vezes que julgar conveniente, indagando si alguma <strong>de</strong>llas se acha<br />
contaminada durante o prazo máximo <strong>de</strong> incubação da moléstia,<br />
contado da data da última communicação com o doente ou <strong>de</strong>funto. (...)<br />
§ 6º - O isolamento nosocomial será imposto quando o doente não<br />
estiver em condições <strong>de</strong> receber tratamento no próprio domicílio por<br />
carência <strong>de</strong> recurso. (...)<br />
Art. 21 – A infracção do imposto nos §§ do art. antece<strong>de</strong>nte será punida<br />
do seguinte modo:<br />
§ 1º - O médico, que falta à notificação immediata <strong>de</strong> moléstia<br />
transmissível, incorrerá em multa <strong>de</strong> 100$000;<br />
§ 2º - O proprietário, locatário ou morador <strong>de</strong> qualquer casa que se<br />
oppuzer ao serviço <strong>de</strong> <strong>de</strong>sinfecção ou embaraçá-lo, incorrerá na multa<br />
<strong>de</strong> 100$000, po<strong>de</strong>ndo a autorida<strong>de</strong> sanitária solicitar o auxílio policial,<br />
si necessário (MATO GROSSO, 1893).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
As doenças transmissíveis <strong>de</strong> notificação compulsória eram: a febre amarela, a<br />
cólera, a peste sarampão, a escarlatina, a varíola e a difteria. Estas doenças pestilenciais<br />
eram as morbida<strong>de</strong>s que requeriam a atenção do po<strong>de</strong>r público <strong>de</strong>vido ao caráter epidêmico<br />
que assumiam causando gran<strong>de</strong>s perturbações à or<strong>de</strong>m social.<br />
3.1.2 Outras Funções da Inspetoria Geral <strong>de</strong> Higiene Pública<br />
Apesar <strong>de</strong> não constituir um problema novo, a partir <strong>de</strong> 1893 o serviço <strong>de</strong><br />
vacinação foi alvo <strong>de</strong> maior atenção e controle por parte do po<strong>de</strong>r público. Ao contrário<br />
do que ocorria na década <strong>de</strong> 1880, quando a população era ameaçada com a perda <strong>de</strong> sua<br />
liberda<strong>de</strong> caso não se submetesse à vacinação, o controle realizado por esse serviço a<br />
partir <strong>de</strong> 1893 era mais abrangente e aparentemente menos rígido.<br />
O regulamento sanitário transferiu a prática e difusão do serviço <strong>de</strong> vacinação da<br />
Câmara Municipal para a Inspetoria <strong>de</strong> Higiene, ao mesmo tempo em que tornou explícita<br />
a obrigatorieda<strong>de</strong> da vacina contra a varíola.<br />
Art. 62 – A vaccinação contra varíola é obrigatória em todo o Estado<br />
<strong>de</strong> Matto Grosso.<br />
Art.63 – Todos os habitantes não vaccinados são obrigados a se<br />
apresentar <strong>de</strong>s<strong>de</strong> logo aos funccionários incumbidos <strong>de</strong> tal serviço,<br />
para o serem (MATO GROSSO, 1893, Capítulo 7).<br />
A legislação retirava dos pais o direito <strong>de</strong> <strong>de</strong>cidir qual o melhor momento para<br />
vacinar os filhos, na medida em que estipulava prazo <strong>de</strong> até 6 meses após o nascimento<br />
para submeter as crianças à vacinação, salvo justificativa consi<strong>de</strong>rada legítima.<br />
O controle sobre as crianças passou a ser a maior preocupação. A legislação<br />
or<strong>de</strong>nava aos escrivães do registro civil que fornecessem a relação dos nascimentos,<br />
fixando para isso um prazo <strong>de</strong> 3 meses para que a fiscalização fosse mais eficaz e regular.<br />
A repartição sanitária não ameaçava mais com a prisão, apesar <strong>de</strong> lançar mão<br />
<strong>de</strong> multas para punir os infratores. A maior forma <strong>de</strong> controle e submissão imposta à<br />
população seria realizada através da exigência por parte dos órgãos públicos, escolas<br />
e outros estabelecimentos do certificado <strong>de</strong> vacinação passado pelo médico vacinador.<br />
Legalmente, sem esse atestado, tornava-se impossível matricular-se em colégios, alistarse<br />
para o serviço militar ou preten<strong>de</strong>r empregos públicos.<br />
A novida<strong>de</strong> apresentada pelo regulamento se refere ao controle profissional das<br />
ativida<strong>de</strong>s ligadas à saú<strong>de</strong>. A fiscalização da medicina, farmácia e odontologia passou<br />
a constituir uma preocupação constante por parte do po<strong>de</strong>r público, que regulava estas<br />
profissões, estipulando as atribuições <strong>de</strong> cada profissional.<br />
Para o exercício das profissões médicas, o regulamento exigia certificado <strong>de</strong><br />
habilitação e o registro do mesmo na Inspetoria <strong>de</strong> Higiene:<br />
37
38<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Art. 24 – Só é permitido o exercício da arte <strong>de</strong> curar em qualquer dos<br />
seus ramos por qualquer das suas formas:<br />
§ 1º - As pessoas que se mostrarem habilitadas por título conferido<br />
pelas faculda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> medicina do Brasil;<br />
§ 2º - Às que, sendo graduados por escola ou universida<strong>de</strong> extrangeira<br />
officialmente reconhecida, se habilitarem perante as ditas faculda<strong>de</strong>s<br />
na forma dos respectivos estatutos; [...]<br />
Art. 25 – Os médicos, cirurgiões, pharmaceuticos, parteiras e<br />
<strong>de</strong>ntistas <strong>de</strong>verão matricular-se, apresentando os respectivos títulos ou<br />
licenças na Inspectoria Geral <strong>de</strong> Hygiene do Estado, afim <strong>de</strong> serem<br />
matriculados. [...]<br />
§ Único – Serão consi<strong>de</strong>rados sem valor para o exercício da profissão<br />
os títulos ou licenças que não tiverem sido registrados na forma <strong>de</strong>ste<br />
artigo e equiparados os seus possuidores, para os effeitos das penas<br />
impostas neste regulamento, aos que exercerem a medicina em qualquer<br />
dos seus ramos sem título legal (MATO GROSSO, 1893, Capítulo 5).<br />
As profissões ligadas à saú<strong>de</strong> ainda eram consi<strong>de</strong>radas como arte <strong>de</strong> curar, ou<br />
seja, uma ativida<strong>de</strong> privilegiada e que <strong>de</strong>veria ser exercida pelas pessoas que <strong>de</strong>tivessem<br />
o saber científico e, portanto, “verda<strong>de</strong>iro” sobre a saú<strong>de</strong> e a doença. Está implícita nessa<br />
i<strong>de</strong>ia a repressão contra todas as outras formas <strong>de</strong> conhecimento ou práticas sobre a saú<strong>de</strong><br />
e a doença.<br />
O regulamento sanitário <strong>de</strong> 1893 <strong>de</strong>terminava as ativida<strong>de</strong>s e os limites <strong>de</strong> cada<br />
um dos ramos da ciência médica e quais os procedimentos permitidos a cada profissional.<br />
A legislação sanitária, nesse aspecto, estava <strong>de</strong>svinculada da realida<strong>de</strong>, visto que, mesmo<br />
nos gran<strong>de</strong>s centros urbanos, existiam poucos profissionais habilitados na forma instituída<br />
pelo regulamento estadual.<br />
Também foi objeto <strong>de</strong> regulamentação a profissão farmacêutica e a produção e<br />
comercialização <strong>de</strong> remédios. Os medicamentos mereceram <strong>de</strong>staque e atenção especial<br />
no regulamento sanitário que <strong>de</strong>terminava:<br />
Art. 36 – [...] Para a preparação dos remédios seguir-se-há a<br />
pharmacopéa franceza até que esteja organizada a pharmacopéa<br />
brasileira [...].<br />
Art. 41 – É absolutamente prohibida a venda <strong>de</strong> remédios secretos,<br />
sendo consi<strong>de</strong>rados taes os preparados officinaes <strong>de</strong> formulas não<br />
consignadas nas pharmacopéas e os não approvados pela Inspectoria<br />
Geral <strong>de</strong> Hygiene <strong>de</strong>ste Estado (MATO GROSSO, 1893, Capítulo 5).<br />
O po<strong>de</strong>r público se preocupava já naquele momento, não apenas com a qualida<strong>de</strong><br />
dos remédios, mas principalmente com o comércio paralelo das drogas, caso elas não<br />
fossem fiscalizadas pela Inspetoria. O estabelecimento <strong>de</strong> drogarias e lojas <strong>de</strong> instrumentos<br />
para cirurgia era regulado em <strong>de</strong>talhes. Para as primeiras, foram fixadas atribuições e<br />
limites <strong>de</strong> atuação:
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Art. 56 – As drogarias terão por fim o comércio <strong>de</strong> drogas, preparados<br />
officinaes <strong>de</strong>vidamente autorisados, utensílios <strong>de</strong> pharmacia e<br />
apparelhos <strong>de</strong> chimica, sendo-lhes absolutamente interdicto todo e<br />
qualquer acto que seja privativo da profissão pharmaceutica, como:<br />
§ 1º - Aviar receitas médicas, quer <strong>de</strong> formulas magistraes, quer <strong>de</strong><br />
preparados officinaes;<br />
§ 2º - Ven<strong>de</strong>r qualquer substância tóxica, mesmo em pesos medicinaes<br />
ao público;<br />
§ 3º - Ven<strong>de</strong>r a particulares, em qualquer dose, substâncias<br />
medicamentosas (MATO GROSSO, 1893, Capítulo 6).<br />
Tanto na regulamentação das profissões como na produção <strong>de</strong> medicamentos,<br />
a tendência era impor o que consi<strong>de</strong>ravam o conhecimento “científico”, reprimindo<br />
outras formas <strong>de</strong> saber e atuação. Através da documentação nota-se que as autorida<strong>de</strong>s<br />
procuravam combater o curan<strong>de</strong>irismo e a preparação e venda <strong>de</strong> remédios por pessoas<br />
não habilitadas. A fabricação e comercialização <strong>de</strong> remédios e drogas entravam numa fase<br />
em que se requeria do Estado uma proteção especial.<br />
Essa estrutura dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> permaneceu vigente durante quase quarenta<br />
anos. A partir do final da segunda década do século XX, mais precisamente por volta<br />
<strong>de</strong> 1918, outros serviços foram sendo criados no setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, principalmente aqueles<br />
<strong>de</strong>stinados à área rural, recebendo maior apoio do Governo Fe<strong>de</strong>ral. De modo mais<br />
profundo, somente no final da década <strong>de</strong> 1930 o po<strong>de</strong>r público tratou <strong>de</strong> modificar a<br />
organização dos serviços sanitários.<br />
Naquela legislação marcou a intenção do Estado em interferir diretamente na<br />
organização dos serviços que pu<strong>de</strong>ssem resguardar a or<strong>de</strong>m sanitária nos núcleos urbanos.<br />
Embora o Estado <strong>de</strong> Mato Grosso não contasse com gran<strong>de</strong>s aglomerações urbanas, on<strong>de</strong><br />
essa interferência <strong>de</strong>veria ser mais forte, apresentava problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> semelhantes aos<br />
dos gran<strong>de</strong>s centros urbanos.<br />
As funções da Inspetoria <strong>de</strong>limitadas pela Lei eram, entretanto, muito amplas e<br />
muitas <strong>de</strong>las mostraram-se inviáveis na prática.<br />
4 ALGUMAS INDICAÇÕES SOBRE O ESTADO SANITÁRIO DE MATO<br />
GROSSO 1890/1922<br />
Os surtos epidêmicos se tornaram cada vez mais frequentes no período <strong>de</strong> 1890 a<br />
1920, disseminando-se por todo o Estado. Através da própria documentação oficial po<strong>de</strong>se<br />
perceber indícios do estado sanitário crítico <strong>de</strong> Mato Grosso e, especialmente, da sua<br />
capital. Esse fato, aliado à continuida<strong>de</strong> dos problemas <strong>de</strong> saneamento, como a falta <strong>de</strong><br />
limpeza urbana e <strong>de</strong> re<strong>de</strong> <strong>de</strong> água e esgotos, mostra a incapacida<strong>de</strong> do Estado em intervir<br />
<strong>de</strong> maneira eficaz na área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Este tópico tentará apresentar uma <strong>de</strong>scrição da situação epidêmica <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso mostrando a frequência e distribuição espacial das epi<strong>de</strong>mias, bem como as<br />
39
40<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
limitações por parte do governo para executar suas funções <strong>de</strong> prevenção e controle<br />
sanitário.<br />
Sobre a primeira parte, são necessários alguns comentários sobre as fontes<br />
utilizadas e os problemas para reunir dados sobre as epi<strong>de</strong>mias registradas. Trabalhou-se<br />
basicamente, com as Mensagens dos Presi<strong>de</strong>ntes do Estado encaminhadas anualmente<br />
à Assembleia Legislativa, e os relatórios dos inspetores responsáveis pela repartição <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> pública no Estado. Embora essa documentação permita elaborar um panorama geral<br />
das epi<strong>de</strong>mias, apresenta uma série <strong>de</strong> limitações, tais como: informações incompletas<br />
para algumas localida<strong>de</strong>s, ausência <strong>de</strong> informações para alguns anos e maior ênfase à<br />
incidência <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias na capital do Estado.<br />
Como as Mensagens relatam os problemas da administração pública ocorridos<br />
ao longo do ano anterior, nem sempre registram a duração das epi<strong>de</strong>mias e, por isso,<br />
consi<strong>de</strong>rou-se que cada registro ou notificação correspon<strong>de</strong> a um ano, tal como apresentado<br />
na documentação.<br />
4.1 Quadro Epidêmico <strong>de</strong> Mato Grosso – 1890/1922<br />
O levantamento sobre as epi<strong>de</strong>mias que ocorreram em Mato Grosso no período<br />
<strong>de</strong> 1890 a 1930 foi elaborado com base em informações registradas nas Mensagens dos<br />
Presi<strong>de</strong>ntes do Estado e nos informes da Inspetoria <strong>de</strong> Higiene e, <strong>de</strong> acordo com elas, após<br />
1922, o Estado só enfrentaria outra epi<strong>de</strong>mia em 1930. Por essa razão, para elaboração<br />
<strong>de</strong>sse perfil será consi<strong>de</strong>rado o período <strong>de</strong> 1890 a 1922.<br />
Observando a frequência anual <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias registradas pelas autorida<strong>de</strong>s ao<br />
longo <strong>de</strong>sse período <strong>de</strong> 32 anos, foi possível contabilizar um total <strong>de</strong> 71, causadas por 20<br />
morbida<strong>de</strong>s diferentes.<br />
Quadro 2 – Número <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias registradas em Mato Grosso – 1890/1922<br />
Fonte: Organizado com base em informações esparsas reunidas a partir <strong>de</strong> Mensagens enviadas pelos<br />
Presi<strong>de</strong>ntes do Estado à Assembleia Legislativa entre 1890/1930.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Apenas quatro doenças foram responsáveis por mais da meta<strong>de</strong> das epi<strong>de</strong>mias<br />
que incidiram sobre o Mato Grosso naquele período. A varíola com 24%, o tifo e a gripe<br />
com 11%, e a peste bubônica com 7%, representaram 53% do total <strong>de</strong> casos registrados.<br />
Seguiram como mais representativas a difteria, a disenteria e a febre amarela com quatro<br />
surtos cada uma e com três, respectivamente, o beribéri e o sarampo que totalizaram 25%<br />
das epi<strong>de</strong>mias registradas.<br />
Verificando os registros <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias ao longo do período em estudo, é possível<br />
i<strong>de</strong>ntificar três momentos diferenciados quanto à maior ou menor incidência: 1)1890 a<br />
1906; 2) 1907 a 1913; e 3)1914 a 1922. 5<br />
No primeiro momento ocorreram 24 epi<strong>de</strong>mias, e a varíola representou 37,5%<br />
<strong>de</strong>las. As <strong>de</strong>mais foram: Gripe 12,5%, Coqueluche, Peste Bubônica, Febre Amarela e<br />
Sarampo 8,3% cada, e Malária, Cólera, Bronquite e Febre Catarrais 4,2% cada.<br />
Entre 1890 e 1906, das 24 epi<strong>de</strong>mias que ocorreram em Mato Grosso, 16 foram<br />
em Corumbá, sendo 9 <strong>de</strong>las provocadas pela varíola. Em Cuiabá ocorreram <strong>de</strong>z epi<strong>de</strong>mias<br />
do total, com apenas três <strong>de</strong> varíola e, as <strong>de</strong>mais foram três <strong>de</strong> gripe, uma <strong>de</strong> sarampo e<br />
igual número <strong>de</strong> coqueluche, bronquite e febres catarrais.<br />
Por volta <strong>de</strong> 1900 até 1902 a varíola se espalhou atingindo a região norte, mas foi<br />
somente a partir <strong>de</strong> 1907 que se generalizou por todo o Estado, junto com novas doenças.<br />
Quadro 3 – Distribuição das Epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> Varíola no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso – 1890/1916<br />
Fonte: Organizado com base em informações esparsas reunidas a partir <strong>de</strong> Mensagens enviadas pelos<br />
Presi<strong>de</strong>ntes do Estado à Assembleia Legislativa entre 1890/1930.<br />
5 Em função das limitações e lacunas nas informações, esta periodização po<strong>de</strong>rá sofrer pequenas alterações, principalmente para o primeiro<br />
período.<br />
41
42<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O período <strong>de</strong> 1907 a 1913 foi o mais crítico para Mato Grosso. Durante esses<br />
seis anos foram registradas 35 epi<strong>de</strong>mias, o que significa 49% do total no período <strong>de</strong> 1890<br />
a 1922. Embora a varíola continuasse em primeiro lugar, quanto ao número <strong>de</strong> doenças<br />
registradas, diminuiu em relação ao período anterior representando 20% do total das<br />
ocorrências registradas no Estado, naquele momento.<br />
Ao contrário do período anterior, um maior número <strong>de</strong> localida<strong>de</strong>s foi atingido,<br />
o que indica sua dispersão pelo Estado. Em Corumbá a incidência <strong>de</strong> varíola diminuiu,<br />
apresentando apenas duas das sete epi<strong>de</strong>mias registradas anteriormente, sendo a última<br />
em 1908. Cuiabá sofreu também duas epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> varíola, mas esta doença atingiu com<br />
maior intensida<strong>de</strong> Cáceres entre 1907 e 1909 e novamente em 1912.<br />
Além da varíola, outras doenças provocaram novas epi<strong>de</strong>mias: a peste bubônica,<br />
por três vezes, a febre amarela duas, e uma vez a malária e o sarampo, respectivamente,<br />
representando 20% das epi<strong>de</strong>mias. Naquele momento, houve uma mudança significativa<br />
na natureza das doenças.<br />
Entre 1913 e 1922 os registros <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias diminuíram sensivelmente, e teria<br />
ocorrido um total <strong>de</strong> 12, sendo cinco <strong>de</strong> “influenza” com gran<strong>de</strong> repercussão no Estado,<br />
principalmente a registrada em 1918. As <strong>de</strong>mais morbida<strong>de</strong>s com uma ocorrência cada<br />
foram: varíola, tifo, cólera, ancilostomíase, sífilis e escarlatina.<br />
4.2 Distribuição Regional das Epi<strong>de</strong>mias<br />
4.2.1 Região Sul<br />
A documentação analisada <strong>de</strong>ixa transparecer a i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> que Corumbá era<br />
o centro urbano com maior ocorrência <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias. A explicação para essa realida<strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong> ser buscada em sua posição <strong>de</strong> cida<strong>de</strong> portuária que concentrava a maior parte do<br />
movimento comercial do Estado e era um ponto <strong>de</strong> ligação <strong>de</strong> Mato Grosso com o centro<br />
sul do país e com a região platina. Constituía por essas razões uma porta <strong>de</strong> entrada tanto<br />
para as mercadorias e pessoas quanto para as doenças.<br />
De fato, po<strong>de</strong>-se observar nos dados reunidos no Quadro 4 que na primeira fase,<br />
1890/1906, Corumbá registrou um alto índice <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> varíola.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 4 – Epi<strong>de</strong>mias em Corumbá – 1890/1920<br />
Fonte: Organizado com base em informações esparsas reunidas em: Mensagens enviadas pelos Presi<strong>de</strong>ntes<br />
do Estado à Assembleia Legislativa entre 1890 a 1930; Gazeta Official do Estado <strong>de</strong> Mato-Grosso, entre<br />
1890 e 1917; CORRÊA, 1980.<br />
A varíola era uma das enfermida<strong>de</strong>s que mais preocupava as autorida<strong>de</strong>s<br />
sanitárias naquele momento, que tentavam canalizar seus esforços para eliminá-la, mas<br />
com os serviços <strong>de</strong> vacinação muitas vezes <strong>de</strong>ficientes e também com medidas preventivas<br />
ineficazes, as epi<strong>de</strong>mias tomavam gran<strong>de</strong>s proporções.<br />
Pelas características <strong>de</strong>ssa epi<strong>de</strong>mia e pela fase <strong>de</strong> crescimento pela qual passava<br />
Corumbá, a intensida<strong>de</strong> dos surtos epidêmicos na cida<strong>de</strong> sobressaía. Corumbá se beneficiava<br />
da expansão econômica sulina nas últimas décadas do século XIX e primeiras do<br />
XX e se tornou o maior centro comercial do Estado. Nela se expressava a nova realida<strong>de</strong><br />
econômica e social <strong>de</strong> Mato Grosso. As crescentes ativida<strong>de</strong>s econômicas atraíram um<br />
gran<strong>de</strong> fluxo migratório para a região, e Corumbá além <strong>de</strong> uma população flutuante recebeu<br />
parte <strong>de</strong>ssa imigração que se fixou na cida<strong>de</strong>. Porém, suas condições <strong>de</strong> saneamento<br />
eram precárias, o que a transformava no terreno propício para o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias<br />
(CORRÊA, 1980).<br />
43
44<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
No período <strong>de</strong> maior intensida<strong>de</strong> das epi<strong>de</strong>mias – 1907/1913 – Corumbá<br />
vivenciou oito, das 35 verificadas no Estado. O tifo, com um total <strong>de</strong> três epi<strong>de</strong>mias, foi a<br />
morbida<strong>de</strong> responsável pelo maior número <strong>de</strong> surtos. No período seguinte, dos 12 surtos<br />
ocorridos apenas quatro atingiram Corumbá, sendo três <strong>de</strong> gripe e um <strong>de</strong> tifo.<br />
Com exceção <strong>de</strong> Corumbá, apontada pelas autorida<strong>de</strong>s como o núcleo <strong>de</strong> difusão<br />
<strong>de</strong> surtos epidêmicos no Estado, na região sul on<strong>de</strong> o movimento migratório era intenso,<br />
com a formação <strong>de</strong> novos núcleos populacionais, não teria ocorrido um gran<strong>de</strong> número<br />
<strong>de</strong> surtos epidêmicos naquele período. Com exceção <strong>de</strong> Miranda, que figura apenas com<br />
um surto <strong>de</strong> febre amarela ocorrido em 1890. No extremo sul do Estado, na região <strong>de</strong><br />
fronteira, <strong>de</strong>staca-se Bela Vista, na foz do Rio Apa, que foi atingida pela cólera em 1895<br />
e, no período 1907/13, concentrou o maior número <strong>de</strong> surtos epidêmicos ocorridos no<br />
Estado. Dos 13 surtos <strong>de</strong> varíola, naquele período, Bela Vista foi atingida por dois; das três<br />
epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> peste bubônica, sofreu duas além <strong>de</strong> ter sido a única cida<strong>de</strong> on<strong>de</strong> se verificou<br />
epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> meningite infecciosa em 1912. Além <strong>de</strong> Miranda e Bela Vista, há referência<br />
a Ponta Porã, com apenas dois surtos <strong>de</strong> varíola, no período <strong>de</strong> 1907/13.<br />
Interessante notar que, a partir <strong>de</strong> 1914, diminuíram bastante os surtos epidêmicos<br />
no sul do Estado. Isso coincidiu também com o refluxo, em termos comerciais, verificado<br />
em Corumbá. Lúcia Corrêa assim <strong>de</strong>screve a situação na cida<strong>de</strong>:<br />
Após o ano <strong>de</strong> 1914, quando se iniciou o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>cadência da<br />
navegação fluvial, a ligação da região com o resto do país pelo interior<br />
através da estrada <strong>de</strong> ferro e a gradativa <strong>de</strong>sarticulação <strong>de</strong> Corumbá<br />
como entreposto mercantil <strong>de</strong> Mato Grosso, seu centro urbano sofreu<br />
conseqüentemente um esvaziamento populacional, na medida em<br />
que muitos comerciantes locais <strong>de</strong>slocaram-se para outras praças<br />
ou transferiram sua área <strong>de</strong> investimentos para o campo (pecuária)<br />
(CORRÊA, 1980, p. 101).<br />
Um ano antes do início do <strong>de</strong>clínio da cida<strong>de</strong>, como <strong>de</strong>screve a autora, o<br />
Presi<strong>de</strong>nte Costa Marques, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> uma viagem feita pelo sul, assim se expressou sobre<br />
Corumbá:<br />
O progresso da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Corumbá, já attrai a atenção <strong>de</strong> todos<br />
que alli aportam... as suas ruas e praças são bem traçadas e estão<br />
passando por importantes melhoramentos. A sua população cresce e<br />
o seu commercio <strong>de</strong>senvolve-se <strong>de</strong> um modo animador... Está bem<br />
illuminada à luz electrica, é servida <strong>de</strong> uma re<strong>de</strong> telephonica e a sua<br />
municipalida<strong>de</strong> trata do serviço <strong>de</strong> abastecimento <strong>de</strong> água, já iniciado<br />
e o <strong>de</strong> esgotos que certamente muito melhorarão as suas condições <strong>de</strong><br />
salubrida<strong>de</strong> pública... Está em construcção um hospital <strong>de</strong> carida<strong>de</strong>, já<br />
estando concluído o seu primeiro pavilhão (MATO GROSSO, 1915).<br />
Outro aspecto interessante para a região sul é que os núcleos <strong>de</strong> povoamento<br />
gerados pela construção da estrada <strong>de</strong> ferro Noroeste do Brasil não apareceram citados nas
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
informações como locais <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias. Apenas há uma notícia <strong>de</strong> peste bubônica entre os<br />
trabalhadores que construíam aquela estrada, mas as autorida<strong>de</strong>s afirmavam que não havia<br />
assumido um caráter epidêmico.<br />
4.2.2 Região Norte<br />
As mudanças econômicas no sul e as do próprio norte do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso,<br />
principalmente com a mo<strong>de</strong>rnização da indústria açucareira, fizeram crescer os problemas<br />
sociais no Estado, on<strong>de</strong> se incluía o da saú<strong>de</strong>. Cuiabá, como cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> maior concentração<br />
urbana e centro político-administrativo, viveu <strong>de</strong> forma mais intensa o impacto <strong>de</strong>ssas<br />
transformações.<br />
Acompanhando as Mensagens dos Presi<strong>de</strong>ntes do Estado, po<strong>de</strong>-se afirmar que<br />
as autorida<strong>de</strong>s sempre tentaram preservar a capital dos surtos epidêmicos. Para sua <strong>de</strong>fesa<br />
eram <strong>de</strong>terminadas medidas preventivas como a organização <strong>de</strong> enfermarias, cordões<br />
sanitários, distribuição <strong>de</strong> medicamentos e suspensão da comunicação com outros portos.<br />
Entretanto, a frequência e a varieda<strong>de</strong> das epi<strong>de</strong>mias em Cuiabá <strong>de</strong>monstraram a pouca<br />
eficácia <strong>de</strong>ssas medidas clássica <strong>de</strong> prevenção.<br />
Mas, quando comparamos as informações sobre a incidência dos surtos, observase<br />
que a varíola, causadora <strong>de</strong> um maior número <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias em todo o Estado, atingiu<br />
Cuiabá com menos da meta<strong>de</strong> dos surtos verificados em Corumbá. Mas, ao lado da varíola,<br />
a capital foi afetada por 14 das 20 morbida<strong>de</strong>s que atingiram o Estado entre 1890 e 1922.<br />
Quadro 5 – Epi<strong>de</strong>mias em Cuiabá – 1890/1920<br />
Fonte: Organizado com base em informações esparsas reunidas a partir <strong>de</strong> Mensagens enviadas pelos<br />
Presi<strong>de</strong>ntes do Estado à Assembleia Legislativa entre 1890/1930; e Gazeta Official do Estado <strong>de</strong> Mato-<br />
Grosso, entre 1890 e 1917.<br />
45
46<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Além disso, houve uma gran<strong>de</strong> frequência <strong>de</strong> surtos epidêmicos em Cuiabá que<br />
não passou um ano, <strong>de</strong> 1906 até 1913, sem alguma epi<strong>de</strong>mia, às vezes com dois surtos<br />
diferentes registrados no mesmo ano.<br />
De acordo com os registros oficiais, na região norte as áreas mais próximas a<br />
Cuiabá receberam menos impacto das epi<strong>de</strong>mias. 6 Entre 1890 e 1906, aparecem referências<br />
explícitas apenas a Chapada dos Guimarães, com um surto <strong>de</strong> gripe, e à Colônia Indígena<br />
<strong>de</strong> São Lourenço, com um <strong>de</strong> febre amarela.<br />
Entre 1907 e 1913, quando a disseminação geográfica das epi<strong>de</strong>mias aumentou,<br />
aparecem registros <strong>de</strong> um surto <strong>de</strong> varíola e um <strong>de</strong> disenteria em Livramento, uma <strong>de</strong><br />
sarampo em São Lourenço, três epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> difteria e uma <strong>de</strong> gripe em Poconé, e uma <strong>de</strong><br />
disenteria em Santo Antonio do Rio Abaixo (Leverger). No período seguinte, a gripe se<br />
generalizou nestes municípios vizinhos a Cuiabá.<br />
Em outras áreas do norte do Estado, em regiões também <strong>de</strong> ocupação tradicional,<br />
a cida<strong>de</strong> mais afetada pelas epi<strong>de</strong>mias foi Cáceres, mesmo assim com um número bem<br />
menor <strong>de</strong> doenças, se comparada com Cuiabá.<br />
Quadro 6 – Epi<strong>de</strong>mias em Cáceres – 1890/1912<br />
Fonte: Organizado com base em informações esparsas reunidas a partir <strong>de</strong> Mensagens enviadas pelos<br />
Presi<strong>de</strong>ntes do Estado à Assembleia Legislativa entre 1890/1930; e Gazeta Official do Estado <strong>de</strong> Mato-<br />
Grosso, entre 1890 e 1917.<br />
No primeiro período, Cáceres sofreu apenas uma epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> varíola, mas, a<br />
partir <strong>de</strong> 1907, esta doença aumentou sua incidência <strong>de</strong> forma epidêmica. Depois <strong>de</strong> 1912,<br />
a documentação não revela o aparecimento <strong>de</strong> outros surtos nesta cida<strong>de</strong>.<br />
Além <strong>de</strong> Cáceres, nesta mesma área do Estado somente há referências para 1913<br />
quando Barra do Bugres foi visitada por uma epi<strong>de</strong>mia nova, a ancilostomíase, que se<br />
repetiria em 1916 em Rosário Oeste, ficando circunscrita a estas localida<strong>de</strong>s. Ainda em<br />
Rosário Oeste a varíola fez uma aparição em 1916. Esta região, portanto, só começou a ser<br />
atingida por epi<strong>de</strong>mias no século XX e, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong>sses surtos, somente a gripe voltaria com<br />
gran<strong>de</strong> intensida<strong>de</strong>. Diamantino, outra localida<strong>de</strong> <strong>de</strong> povoamento mais antigo, aparece<br />
mencionada apenas com um surto <strong>de</strong> varíola, em 1907.<br />
6 A documentação refere-se a “localida<strong>de</strong>s vizinhas” à Capital sem <strong>de</strong>nominá-las, o que impe<strong>de</strong> uma avaliação mais precisa sobre a<br />
disseminação das epi<strong>de</strong>mias que po<strong>de</strong>m ter sido mais amplas e intensas do que os informes oficiais revelam.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Uma área com panorama bastante diferenciado do restante da região norte era<br />
o extremo noroeste do Estado que começou a ser ocupado apenas no final do século<br />
XIX. Destacavam-se duas localida<strong>de</strong>s – Porto Velho e Santo Antonio do Rio Ma<strong>de</strong>ira –,<br />
que estiveram ligadas à construção da ferrovia Ma<strong>de</strong>ira-Mamoré. Os surtos epidêmicos<br />
registrados naquelas localida<strong>de</strong>s coincidiram com o <strong>de</strong>sbravamento da área e o intenso<br />
fluxo <strong>de</strong> trabalhadores <strong>de</strong>slocados para as obras da ferrovia já que, em um período <strong>de</strong><br />
tempo muito curto, receberam um gran<strong>de</strong> contingente migratório que criou uma série <strong>de</strong><br />
problemas no campo <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
A partir <strong>de</strong> 1908, a incidência <strong>de</strong> surtos naquela região alterou significativamente<br />
o quadro epidêmico do Estado. Nas duas localida<strong>de</strong>s apareceu naquele ano um surto <strong>de</strong><br />
disenteria que continuou até 1910. No mesmo período, o tifo contribuiu com três surtos.<br />
Em 1910, a varíola manifestou-se nas duas localida<strong>de</strong>s, mas não voltou a provocar outras<br />
epi<strong>de</strong>mias. No mesmo ano, ocorreu um surto <strong>de</strong> febre amarela, que até então só havia<br />
surgido, como epi<strong>de</strong>mia, na região sul do Estado e na Colônia Indígena <strong>de</strong> São Lourenço,<br />
na década anterior. Uma epi<strong>de</strong>mia que ficou restrita aquela área foi o beribéri, com surtos<br />
seguidos <strong>de</strong> 1908 a 1910. Em 1912 houve um surto <strong>de</strong> malária apenas em Santo Antonio<br />
do Ma<strong>de</strong>ira.<br />
O Hospital da Can<strong>de</strong>lária, criado e mantido pela Cia Ma<strong>de</strong>ira-Mamoré, atendia<br />
naquela região, e em 1913 seu diretor, Dr. Lovelace, informou em relatório ao governo<br />
estadual o movimento clínico <strong>de</strong>ssa instituição.<br />
Chama a atenção o índice <strong>de</strong> internação diária, bastante significativo: em 1911<br />
a média diária era <strong>de</strong> 120 a 150 doentes internados, e em 1912 esse índice caiu para<br />
60. Segundo essa mesma fonte, naquele ano, a mortalida<strong>de</strong> também <strong>de</strong>cresceu na mesma<br />
proporção em Santo Antonio do Rio Ma<strong>de</strong>ira.<br />
Quadro 7 – Estatística do Serviço Sanitário do Hospital da Can<strong>de</strong>lária (Cia Ma<strong>de</strong>ira-<br />
Mamoré) em Santo Antonio do Rio Ma<strong>de</strong>ira, 1909/1912<br />
Fonte: Relatório do Dr. Lovelace, Diretor do Hospital da Can<strong>de</strong>lária. Gazeta Official do Estado <strong>de</strong> Mato-<br />
Grosso, 1913.<br />
47
48<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Mesmo sem consi<strong>de</strong>rar informações sobre a população, que se caracterizava<br />
pela gran<strong>de</strong> flutuação <strong>de</strong>vido à chegada contínua <strong>de</strong> trabalhadores para a Cia Ma<strong>de</strong>ira-<br />
Mamoré, o relatório evi<strong>de</strong>ncia uma situação calamitosa durante os anos <strong>de</strong> 1908 a 1912.<br />
O movimento hospitalar ao longo daqueles anos po<strong>de</strong> indicar a intensida<strong>de</strong> do<br />
fluxo migratório para uma área especialmente infestada <strong>de</strong> morbida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> várias naturezas<br />
que, por essa combinação <strong>de</strong> fatores, ganharam caráter epidêmico.<br />
No ano <strong>de</strong> 1909, quando aumentaram os surtos epidêmicos na região, 27.382<br />
pessoas foram internadas no Hospital da Can<strong>de</strong>lária, registrando-se 497 óbitos, ou seja,<br />
2% dos que <strong>de</strong>ram entrada no hospital. Para os três anos seguintes o número <strong>de</strong> óbitos<br />
diminuiu, mas o atendimento em 1910 subiu 33% em relação ao ano anterior; em 1911<br />
aumentou 46% em relação a 1910, e caiu para menos 47% no ano seguinte (MATO<br />
GROSSO, 1913).<br />
O número <strong>de</strong>crescente <strong>de</strong> internações e óbitos verificados no ano <strong>de</strong> 1912 não<br />
indica necessariamente uma melhora nas condições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da região, mas apenas a<br />
diminuição do fluxo migratório, pois naquele momento as ativida<strong>de</strong>s da Cia Ma<strong>de</strong>ira-<br />
Mamoré não se <strong>de</strong>senvolviam no mesmo ritmo.<br />
Diante do relatório do Diretor do Hospital da Can<strong>de</strong>lária e do Delegado Fiscal<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso no Amazonas e Pará, o Presi<strong>de</strong>nte do Estado afirmava, em 1913, que<br />
havia uma melhora no estado sanitário da Vila <strong>de</strong> Santo Antonio do Rio Ma<strong>de</strong>ira: “As<br />
suas condições sanitárias tem melhorado sensivelmente e com a continuação das obras<br />
<strong>de</strong> saneamento é <strong>de</strong> esperar que aquella Villa, que até a pouco constituía um foco <strong>de</strong><br />
epi<strong>de</strong>mias e terror dos viajantes, se torne um centro perfeitamente habitável” (MATO<br />
GROSSO, 1915).<br />
O número <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias e sua diversida<strong>de</strong>, principalmente nos anos <strong>de</strong> 1907 a<br />
1913, indicam para o setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> um momento difícil em Mato Grosso.<br />
A partir <strong>de</strong> 1913, mesmo com a incidência dos surtos epidêmicos <strong>de</strong>crescendo, o<br />
quadro sanitário do Estado não po<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rado “normal”, <strong>de</strong>vido à disseminação das<br />
en<strong>de</strong>mias no interior que, em alguns momentos, atingiram caráter <strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mia, inclusive<br />
nos núcleos urbanos.<br />
4.3 A Gripe em Mato Grosso – 1918<br />
Depois da fase <strong>de</strong> 1907 a 1913 em que o Estado conviveu com um gran<strong>de</strong> número<br />
<strong>de</strong> epi<strong>de</strong>mias, <strong>de</strong> variadas morbida<strong>de</strong>s, mas a epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> gripe em 1918 foi a maior <strong>de</strong><br />
todas as epi<strong>de</strong>mias registradas em Mato Grosso, até 1922.<br />
As informações existentes sobre essa epi<strong>de</strong>mia permitem observar a dimensão<br />
que podia alcançar no Estado. No caso da gripe, o número <strong>de</strong> óbitos foi alto, mas o que<br />
mais chama a atenção é o alto índice <strong>de</strong> pessoas que contraíram a enfermida<strong>de</strong>.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 8 – Epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> Gripe em Mato Grosso – 1918<br />
Fonte: Organizado a partir <strong>de</strong> informações em MATO GROSSO, 1919.<br />
Embora não se tenha dados sobre a população <strong>de</strong> cada município atingido pela<br />
epi<strong>de</strong>mia, po<strong>de</strong>-se afirmar que era significativa a incidência, consi<strong>de</strong>rando-se que a cida<strong>de</strong><br />
mais populosa do Estado, Cuiabá, contava aproximadamente com 12 mil habitantes<br />
naquele ano. 7<br />
Essa epi<strong>de</strong>mia esten<strong>de</strong>u-se praticamente por todos os municípios matogrossenses,<br />
atingindo mais <strong>de</strong> 23.000 pessoas. 8 Corumbá e Vila Bela, juntas, representam<br />
o maior número <strong>de</strong> óbitos, 265, constituindo aproximadamente 39% do total <strong>de</strong> infectados<br />
e, <strong>de</strong> acordo com as informações oficiais, nas duas localida<strong>de</strong>s citadas a gripe atingiu<br />
5.202 pessoas. Pela primeira vez, Vila Bela foi i<strong>de</strong>ntificada com uma epi<strong>de</strong>mia conforme<br />
os registros oficiais.<br />
4.4 Limitações do Governo <strong>de</strong> Mato Grosso para Enfrentar os Problemas<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A insalubrida<strong>de</strong> era um dos pontos mais ressaltados pela administração estadual<br />
nos seus pronunciamentos, mostrando que as condições <strong>de</strong> higiene e saú<strong>de</strong> da população<br />
7 Este número foi <strong>de</strong>finido pelo recenseamento feito pelas cinco Comissões Sanitárias incumbidas da profilaxia e assistência aos indigentes<br />
na capital, por ocasião da epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> gripe.<br />
8 Por falta <strong>de</strong> informações, no Quadro 8 não foram computadas as pessoas que contraíram a gripe em Santana do Paranaíba, Ponta Porã e<br />
Nioaque. Po<strong>de</strong>-se supor que este número foi elevado em função dos óbitos registrados em Santana do Paranaíba.<br />
49
50<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
eram precárias. As epi<strong>de</strong>mias exigiam maiores gastos nos momentos <strong>de</strong> crise, mas havia<br />
doenças endêmicas que também não eram atendidas <strong>de</strong> maneira satisfatória.<br />
Uma Mensagem <strong>de</strong> 1897 assim <strong>de</strong>screvia Cuiabá: “(...) não possui ainda systema<br />
<strong>de</strong> exgottos (...) o exgotto <strong>de</strong> águas servidas feita pelas ruas e ao ar livre não po<strong>de</strong> continuar,<br />
sem prejuízo da saú<strong>de</strong> e do asseio <strong>de</strong> nossa capital” (MATO GROSSO, 1898). O serviço<br />
<strong>de</strong> remoção <strong>de</strong> lixo não era realizado e os restos eram jogados no Córrego da Prainha,<br />
apontado pela população como foco <strong>de</strong> infecções e doenças; o abastecimento <strong>de</strong> água não<br />
atendia toda a população da capital e resumia-se na aspiração da água do Rio Cuiabá que,<br />
sem qualquer tratamento, era distribuída à população.<br />
A Mensagem do Presi<strong>de</strong>nte Costa Marques em 1912, ainda no período mais<br />
assolado pelas epi<strong>de</strong>mias, continua registrando a falta <strong>de</strong> condições mínimas <strong>de</strong> saneamento<br />
e limpeza urbana: “mesmo a capital ainda não tem exgottos nem um serviço regular <strong>de</strong><br />
água e luz. As ruas e praças <strong>de</strong>sta capital e a sua viação urbana dão a quem nos visita a<br />
impressão <strong>de</strong> uma cida<strong>de</strong> em <strong>de</strong>clínio” (MATO GROSSO, 1915). Quatro anos <strong>de</strong>pois, o<br />
Presi<strong>de</strong>nte Faria <strong>de</strong> Albuquerque <strong>de</strong>monstrava que os problemas eram permaneciam os<br />
mesmos:<br />
Como é notório, falta a mais elementar limpeza às ruas e praças <strong>de</strong>sta<br />
capital, que tem as suas vias públicas cheias <strong>de</strong> águas estagnadas,<br />
laboratórios <strong>de</strong> bactérias, quer sejam <strong>de</strong> chuvas quer sejam proce<strong>de</strong>ntes<br />
do uso doméstico (MATO GROSSO, 1921).<br />
No ano seguinte, a Gazeta Official já tentava apresentar uma <strong>de</strong>scrição mais<br />
otimista da capital:<br />
A edificação é, na maior parte das ruas, antiga e primitiva, sem os<br />
recursos mo<strong>de</strong>rnos: entretanto, há alguns edifícios <strong>de</strong> construção<br />
elegante e hygienica, que enbellesam a cida<strong>de</strong>, além dos jardins das<br />
praças Alencastro e Marquez <strong>de</strong> Aracaty (MATO GROSSO, 1936a).<br />
Apesar <strong>de</strong> algumas edificações mo<strong>de</strong>rnas, Cuiabá continuou apresentando o<br />
mesmo quadro <strong>de</strong> falta <strong>de</strong> infraestrutura dos anos anteriores.<br />
4.4.1 O Serviço <strong>de</strong> Vacinação e a Assistência Pública<br />
Além dos problemas apontados, um dos mais graves era o <strong>de</strong>saparelhamento<br />
da Inspetoria <strong>de</strong> Higiene Pública para fazer frente aos problemas sanitários. A Inspetoria<br />
se <strong>de</strong>dicava quase que exclusivamente ao serviço <strong>de</strong> vacinação e, <strong>de</strong> forma precária, à<br />
<strong>de</strong>sinfecção dos locais consi<strong>de</strong>rados insalubres.<br />
Quanto ao serviço <strong>de</strong> vacinação, a Inspetoria fazia constantes apelos à população<br />
para que procurasse se vacinar, porém, nem sempre o serviço foi realizado com êxito, quer<br />
pela falta, quer pela má qualida<strong>de</strong> das vacinas.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Em 1906, durante a epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> varíola que atacava a população da capital, o Dr.<br />
Cesário Alves Corrêa inspetor <strong>de</strong> Higiene naquele período, reconhecia a impossibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> realizar a vacinação em massa, por falta <strong>de</strong> vacinas que <strong>de</strong>ssem para todos. A vacinação,<br />
segundo ele, “foi feita <strong>de</strong> braço a braço – apesar <strong>de</strong> já con<strong>de</strong>nada – único meio <strong>de</strong> que<br />
dispunham os médicos da cida<strong>de</strong>” (MATO GROSSO, 1907).<br />
As vacinas chegavam a Mato Grosso vindas do Rio <strong>de</strong> Janeiro, remetidas<br />
mensalmente pelo Instituto Vacínico ou então eram compradas em Assunção ou Buenos<br />
Aires por intermédio <strong>de</strong> pessoas enviadas para esse fim. Em ambos os casos, a falta <strong>de</strong><br />
conservação a<strong>de</strong>quada e a dificulda<strong>de</strong> dos meios <strong>de</strong> transportes alterava e até mesmo<br />
inutilizava as “lymphas”, não permitindo bom resultado nas vacinações realizadas.<br />
Por todos esses problemas, a criação <strong>de</strong> um Instituto Vacínico em Cuiabá, para<br />
aten<strong>de</strong>r a população do Estado, era uma constante reivindicação da Inspetoria <strong>de</strong> Higiene;<br />
no entanto, ele só foi criado em 1908 e, mesmo assim, no ano seguinte não mais funcionava.<br />
Embora a repartição <strong>de</strong> higiene continuasse mal equipada, segundo as autorida<strong>de</strong>s<br />
teria realizado um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> vacinações, no ano <strong>de</strong> 1913, com uma campanha<br />
nas escolas. Em Cuiabá, foram vacinadas e revacinadas contra a varíola um total <strong>de</strong> 914<br />
pessoas. O interior do Estado não possuía as mesmas condições da capital, e nesse mesmo<br />
ano a Inspetoria <strong>de</strong> Higiene ainda solicitava a criação <strong>de</strong> <strong>de</strong>legacias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Corumbá,<br />
Cáceres, Campo Gran<strong>de</strong> e Santo Antonio do Rio Ma<strong>de</strong>ira. Quanto a esta última, a justificativa<br />
era em função da distância e da gran<strong>de</strong> insalubrida<strong>de</strong>.<br />
A condição <strong>de</strong> “penúria” da saú<strong>de</strong> pública em Mato Grosso se traduzia concretamente,<br />
também, na situação caótica e <strong>de</strong> semiabandono em que eram <strong>de</strong>ixados os dois<br />
únicos hospitais da capital – a Santa Casa <strong>de</strong> Misericórdia e o Hospital São João dos<br />
Lázaros. Herdados do período colonial, foram construídos através da iniciativa particular<br />
e sobreviviam com subscrições populares e parcas subvenções do Estado.<br />
Os Presi<strong>de</strong>ntes do Estado em suas Mensagens à Assembleia Legislativa, sempre<br />
solicitavam o aumento da subvenção dada aos hospitais da capital mantidos pela Santa<br />
Casa, <strong>de</strong>vido à insuficiência da receita dos mesmos para fazer frente às suas <strong>de</strong>spesas<br />
ordinárias. A situação <strong>de</strong>ssas instituições chegou a uma situação tão crítica que, em 1893,<br />
o Presi<strong>de</strong>nte Manoel Murtinho referia-se a ela como “embaraçosa”.<br />
Quatro anos mais tar<strong>de</strong>, o Presi<strong>de</strong>nte Antonio Corrêa da Costa <strong>de</strong>screvia os<br />
hospitais da capital, nestes termos:<br />
O edifício em que se acha installado o hospital dos lazaretos, está<br />
ameaçado <strong>de</strong> completa ruína, convindo, para evitá-la, que se façam alli<br />
alguns reparos. Infelizmente o patrimônio da Santa Casa não ren<strong>de</strong> o<br />
suficiente para aten<strong>de</strong>r, além do custeio dos hospitaes e tratamento dos<br />
doentes, as obras que para sua conservação reclama aquelle edifício. O<br />
patrimônio está onerado <strong>de</strong> dívidas que a socieda<strong>de</strong> vai amortizando, e<br />
não dispõe <strong>de</strong> saldos para acudir às <strong>de</strong>spezas com essa obra, <strong>de</strong> caracter<br />
urgente [...] (MATO GROSSO, 1902, p. 80).<br />
51
52<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O aparelhamento e a manutenção dos hospitais prosseguiam sem solução e,<br />
em 1910, o Inspetor <strong>de</strong> Higiene Dr. Estevão Corrêa chegou a afirmar, em relatório ao<br />
Presi<strong>de</strong>nte do Estado, que “a taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> é alta <strong>de</strong>vido às precárias condições dos<br />
hospitais” (MATO GROSSO, 1911b). A falta <strong>de</strong> recursos financeiros e humanos para<br />
os hospitais <strong>de</strong>terminava sua incapacida<strong>de</strong> para aten<strong>de</strong>r e prestar assistência médica aos<br />
indigentes, que <strong>de</strong>pendiam única e exclusivamente <strong>de</strong>ssas instituições <strong>de</strong> carida<strong>de</strong>.<br />
O tipo <strong>de</strong> assistência oferecido pelos hospitais, aliado aos altos índices <strong>de</strong><br />
mortalida<strong>de</strong> em suas <strong>de</strong>pendências, fazia com que a população da capital relutasse em<br />
internar-se, só o fazendo quando não podia pagar o tratamento domiciliar ou quando o tipo<br />
<strong>de</strong> doença contraída exigia o isolamento nosocomial.<br />
A partir da administração do Presi<strong>de</strong>nte Costa Marques, começaram a ser<br />
tomadas algumas medidas no setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Além da campanha <strong>de</strong> vacinação realizada,<br />
teve início a distribuição <strong>de</strong> comprimidos contra o amarelão e, principalmente, os hospitais<br />
começavam a ser objeto <strong>de</strong> atenção do po<strong>de</strong>r público. A Santa Casa, único hospital a<br />
prestar assistência médica na capital, passou por várias reformas incorporando ao longo<br />
do período enfermarias para alienados e maternida<strong>de</strong>s, gabinete <strong>de</strong>ntário, farmácia, sala <strong>de</strong><br />
cirurgia e a Sala do Banco, on<strong>de</strong> eram realizadas consultas aos pobres, além <strong>de</strong> funcionar<br />
como enfermarias <strong>de</strong> isolamento nos períodos calamitosos.<br />
Mesmo assim, em 1917 um editorial da Gazeta Official <strong>de</strong>screvia a Santa Casa<br />
da seguinte forma:<br />
Suas instalações no que toca a parte exclusivamente da clínica médica<br />
não attingiram ainda o <strong>de</strong>sejado i<strong>de</strong>al. Apena ha ali o necessário para o<br />
tratamento dos pobres, em uma cida<strong>de</strong> do interior: Ha os leitos e a casa,<br />
a dieta e os remédios e sobretudo a <strong>de</strong>votada solicitu<strong>de</strong> dos médicos<br />
(MATO GROSSO, 1936a, p. 4).<br />
Essa situação permaneceria praticamente inalterada, visto que o relatório da<br />
Diretoria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública, sob a direção do Dr. Alberto Novis, alertava em 1913 para a<br />
gran<strong>de</strong> difusão da lepra no Estado e atestava a <strong>de</strong>cadência do hospital São João dos Lázaros,<br />
que se encontrava “sem assistência médica, água, banheiros, ou medicamentos” (MATO<br />
GROSSO, 1931b). Embora o setor da assistência pública fosse legalmente reconhecido<br />
como uma das formas <strong>de</strong> intervenção do Estado, esta não foi capaz <strong>de</strong> constituir um<br />
serviço público que realmente aten<strong>de</strong>sse a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> parte da população.<br />
4.4.2 O Governo Justifica os Limites <strong>de</strong> sua Atuação<br />
Diante da impossibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resolver os problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, os governantes<br />
justificavam a limitada capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> intervenção estatal em dois níveis: a falta <strong>de</strong> recursos<br />
e a atitu<strong>de</strong> da população quanto a essa questão.<br />
O primeiro nível <strong>de</strong> argumentação baseava-se no fato <strong>de</strong> o setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> receber<br />
muito pouco do orçamento do Estado, resultando disso a total incapacida<strong>de</strong> da Inspetoria
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
<strong>de</strong> Higiene em levar a bom termo os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e saneamento básico, principalmente<br />
em Cuiabá.<br />
Até mesmo para a <strong>de</strong>fesa sanitária da capital, era necessária a abertura <strong>de</strong> créditos<br />
extraordinários ou suplementares, ficando a atuação da repartição praticamente restrita<br />
aos períodos calamitosos ou epidêmicos e não passando, portanto, <strong>de</strong> medidas imediatistas<br />
aos problemas agudos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública.<br />
Em um <strong>de</strong>sses momentos <strong>de</strong> calamida<strong>de</strong> pública, ocorrido em 1901 com a epi<strong>de</strong>mia<br />
<strong>de</strong> varíola que atingiu Corumbá e Cáceres, o combate foi realizado graças à população<br />
das duas cida<strong>de</strong>s que, segundo a Mensagem do Presi<strong>de</strong>nte Antonio Pedro Alves <strong>de</strong> Barros,<br />
contribuiu “com dinheiro e serviços, organizando comissões, prestando serviços domiciliares<br />
aos indigentes, fundando uma enfermaria com pessoal e material necessários”<br />
(MATO GROSSO, 1902).<br />
O segundo nível <strong>de</strong> justificativa para a ação limitada do po<strong>de</strong>r público era a<br />
não participação da população na questão da saú<strong>de</strong>. Elaborou-se o argumento <strong>de</strong> que a<br />
população não cooperava para solucionar os problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong>vido à falta <strong>de</strong> hábitos<br />
higiênicos, não sendo capaz <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r ao mínimo estabelecido pelos regulamentos<br />
oficiais.<br />
Esse argumento foi utilizado pelos governantes, seguramente, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1897 quando<br />
o Presi<strong>de</strong>nte do Estado, Antonio Corrêa da Costa ao justificar os surtos epidêmicos, em sua<br />
Mensagem à Assembleia Legislativa, afirmava que “[...] é quasi completa a inobservância<br />
dos preceitos hygienicos por parte da nossa população urbana” (MATO GROSSO, 1902,<br />
p. 80).<br />
Durante todo o período entre 1890 a 1917, esse argumento continuou a ser usado<br />
pelos governantes, para justificar a permanência dos problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública e as<br />
precárias condições <strong>de</strong> vida da população. Como afirmava o Dr. Cesário Alves Corrêa,<br />
Inspetor <strong>de</strong> Higiene, sobre os moradores <strong>de</strong> Cuiabá: “o pouco asseio é observado pela<br />
população inteira da capital” (MATO GROSSO, 1907). Em 1909, o Presi<strong>de</strong>nte Pedro<br />
Celestino Corrêa da Costa, em sua Mensagem enviada à Assembleia, continuava referindose<br />
à questão em termos semelhantes questionando os hábitos alimentares da população:<br />
A nutrição viciada, quer pellos pulmões, quer pello estomago, quando<br />
não leva directamente ao organismo os germens das epi<strong>de</strong>mias<br />
virulentas ou das affecções chronicas, o enfraquece, ou altera<br />
lentamente, tornando-o apto à receptivida<strong>de</strong> mórbida, prejudicando a<br />
salubrida<strong>de</strong> pública (MATO GROSSO, 1911a).<br />
Além disso, a população também era acusada <strong>de</strong> não se submeter à vacinação<br />
antivariólica com a frequência estipulada pelo regulamento sanitário, como afirma o<br />
Presi<strong>de</strong>nte Joaquim da Costa Marques em 1912: “Infelizmente, porém, a nossa população,<br />
apezar <strong>de</strong> tantas vezes flagellada pela varíola, não procura vaccinar-se senão quando o mal<br />
se manifesta” (MATO GROSSO, 1915).<br />
53
54<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
A responsabilida<strong>de</strong> pelos problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> – principalmente epi<strong>de</strong>mias<br />
e en<strong>de</strong>mias – era jogada sobre a população; era ela que, ao não ter consciência da<br />
importância da vacinação, do isolamento, da <strong>de</strong>sinfecção, <strong>de</strong> bons hábitos higiênicos e <strong>de</strong><br />
uma alimentação sadia, acabaria criando as condições necessárias para o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong>stes males.<br />
Esses argumentos, constantemente reiterados pelas autorida<strong>de</strong>s e pela imprensa,<br />
justificaram não só as medidas policialescas instituídas pelos regulamentos dos serviços<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> – que permitiam às autorida<strong>de</strong>s sanitárias fiscalizar a vida privada das pessoas<br />
–, como também a criação <strong>de</strong> regras <strong>de</strong> conduta e higiene e <strong>de</strong> instrumentos para vigiar o<br />
seu cumprimento.<br />
4.5 Outra Versão Oficial sobre o Estado Sanitário<br />
Apesar <strong>de</strong> os governantes reconhecerem os problemas sanitários existentes em<br />
Mato Grosso, como sua insalubrida<strong>de</strong>, a frequência dos surtos epidêmicos, a fragilida<strong>de</strong><br />
dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e a inexistência <strong>de</strong> re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> água e esgotos, <strong>de</strong>senvolveu-se naquele<br />
momento um outro argumento, que tentava passar à população a i<strong>de</strong>ia da excelente situação<br />
sanitária do Estado e particularmente <strong>de</strong> sua capital. Esse esforço foi uma constante nas<br />
Mensagens dos Presi<strong>de</strong>ntes quando, ao final <strong>de</strong> cada exercício, dirigiam-se ao Po<strong>de</strong>r<br />
Legislativo para apresentar as realizações do governo.<br />
O clima quente e o sol foram utilizados para justificar a suposta estabilida<strong>de</strong><br />
das condições sanitárias em Cuiabá, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1895, como atesta o relatório da Inspetoria <strong>de</strong><br />
Higiene, louvando o “saudável ar athmospherico que protege a população <strong>de</strong> Cuyabá, on<strong>de</strong><br />
quase não existem germens morbidos apezar dos gran<strong>de</strong>s focos <strong>de</strong> miasmas insalubres”<br />
(MATO GROSSO, 1895).<br />
Porém, esse argumento está <strong>de</strong> acordo com o quadro sanitário do Estado apenas<br />
até os primeiros anos do século XX, quando Cuiabá apresentou menor número <strong>de</strong> surtos<br />
epidêmicos se comparada a Corumbá, on<strong>de</strong> as epi<strong>de</strong>mias se concentraram naquele<br />
momento. A partir <strong>de</strong> 1906, no entanto, Cuiabá sofreu o impacto das epi<strong>de</strong>mias, sendo<br />
a localida<strong>de</strong>, da região norte do Estado, on<strong>de</strong> se verificou a maior incidência dos surtos,<br />
apesar <strong>de</strong> todas as precauções com que as autorida<strong>de</strong>s cercavam a capital, no que se refere<br />
a sua <strong>de</strong>fesa sanitária.<br />
Mesmo com o estado sanitário crítico, as autorida<strong>de</strong>s continuaram atribuindo<br />
os méritos pela pretensa salubrida<strong>de</strong> da capital, “à causticida<strong>de</strong> do sol que tudo calcina”<br />
(MATO GROSSO, 1907), e às “abundantes chuvas que caíam anualmente sobre a capital”<br />
(MATO GROSSO, 1915), visto que sua população, segundo as autorida<strong>de</strong>s, não observava<br />
nem os mais elementares hábitos <strong>de</strong> higiene e o Estado não contava ainda com um serviço<br />
regular <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública.<br />
À natureza, portanto, era atribuída parte da responsabilida<strong>de</strong> pela manutenção da<br />
saú<strong>de</strong> pública no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Referindo-se à epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong> varíola que atacava
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
todo o Estado em 1908, o Presi<strong>de</strong>nte Generoso Ponce dizia que, não havia atingido gran<strong>de</strong>s<br />
proporções em Cuiabá, “se <strong>de</strong>ve atribuir à reconhecida salubrida<strong>de</strong> do clima <strong>de</strong>sta capital”<br />
(MATO GROSSO, 1911a).<br />
No ano seguinte, o Presi<strong>de</strong>nte Pedro Celestino elogiava o estado sanitário do<br />
ano findo reiterando: “o nosso clima continua a substituir a <strong>de</strong>ficiência hygienica nos<br />
municípios e principalmente nesta capital, garantindo a saú<strong>de</strong> da população” (MATO<br />
GROSSO, 1911a, p. 123).<br />
A imprensa também apelava para o mesmo argumento, e a Gazeta Official ainda<br />
publicava em 1917 o seguinte editorial:<br />
o actual estado sanitário <strong>de</strong> Cuiabá é excelente. Não temos epi<strong>de</strong>mia<br />
alguma.[...] Só um gran<strong>de</strong> hygienista tem vivido a sanear Cuiabá: o sol.<br />
Só com os seus raios beneméritos consegue a maravilha portentosa <strong>de</strong><br />
neutralizar o effeito nocivo <strong>de</strong> tantas causas contrárias à saú<strong>de</strong>: as águas<br />
<strong>de</strong> casa que correm para as ruas, as casas antigas on<strong>de</strong> o renovamento<br />
<strong>de</strong> ar é impossível, a inexistência <strong>de</strong> uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> exgotos e <strong>de</strong> um<br />
bom serviço <strong>de</strong> abastecimento <strong>de</strong> água, a nenhuma providência tomada<br />
contra a disseminação das doenças infecto contagiosas, as difficulda<strong>de</strong>s<br />
da vida que tornam a boa alimentação uma utopia nas classes menos<br />
favorecidas pela fortuna (MATO GROSSO, 1936a, p. 4) [grifo nosso].<br />
Como <strong>de</strong>monstram os próprios documentos oficiais, o Estado sanitário <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso não era excelente como queriam fazer crer alguns Presi<strong>de</strong>ntes do Estado e a<br />
população <strong>de</strong> Mato Grosso viveu sempre sobressaltada <strong>de</strong>vido à frequência dos surtos<br />
epidêmicos. Por isso, as constantes referências dos responsáveis pela administração<br />
pública à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> incrementar a Inspetoria <strong>de</strong> Higiene. O rigor dos regulamentos<br />
sanitários do Estado, no que diz respeito à profilaxia e controle das epi<strong>de</strong>mias, é outro<br />
indício da insalubrida<strong>de</strong> no Estado.<br />
55
Fonte: Arquivo Geral da SES/MT.<br />
Fonte: Arquivo Geral da SES/MT.<br />
56<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Semana da Criança em Cuiabá, 1948<br />
Departamento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> do Estado, 1938<br />
(Rua Pedro Celestino esquina Voluntários da Pátria)
Fonte: Arquivo Geral da SES/MT.<br />
Fonte: Arquivo Geral da SES/MT.<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Trabalhadores <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> do Hospital Geral<br />
Guardas Sanitários, 1942<br />
57
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo Geral da SES/MT.<br />
58<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá, 1942<br />
Decreto n. 171 <strong>de</strong> 7 Junho <strong>de</strong> 1938 –<br />
Reoorganiza os Serviços Sanitários <strong>de</strong> Mato Grosso
Fonte: Arquivo Geral da SES/MT.<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Lei nº 18 <strong>de</strong> 8 <strong>de</strong> Novembro <strong>de</strong> 1892<br />
Estabelece o Serviço De Higiene Pública<br />
59
60<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
5 MUDANÇA E CONTINUIDADE NA ATUAÇÃO DO ESTADO NOS<br />
SERVIÇOS DE SAÚDE<br />
A partir <strong>de</strong> 1917/18 e até o final da década <strong>de</strong> 1930 verificaram-se algumas<br />
mudanças no discurso oficial em relação às políticas e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, ao mesmo tempo<br />
que foram ratificadas i<strong>de</strong>ias presentes <strong>de</strong>s<strong>de</strong> as décadas <strong>de</strong> 80/90 do século XIX.<br />
A concepção <strong>de</strong> que cabia ao Estado a intervenção nos assuntos ligados à saú<strong>de</strong><br />
foi consolidada. Apesar da permanência <strong>de</strong> limitações, como a falta <strong>de</strong> recursos e pessoal<br />
técnico, o po<strong>de</strong>r público começou a assumir a condução das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> constituindo<br />
serviços realmente estatais. A intervenção fe<strong>de</strong>ral nessa área contribuiu para que a partir<br />
da década <strong>de</strong> 1920 fossem criados novos serviços <strong>de</strong> atendimento à saú<strong>de</strong>, diversificando<br />
a assistência prestada pelo Estado e intensificando sua presença neste setor.<br />
Na década <strong>de</strong> 1930, a exemplo do que ocorria em nível nacional, com a<br />
centralização da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, os serviços sanitários em Mato Grosso passaram por<br />
uma reestruturação alterando sua organização administrativa, incorporando órgãos e<br />
atribuições criados pelo Governo Fe<strong>de</strong>ral. Este tópico abordará as transformações ou as<br />
permanências das concepções que orientaram a legislação sanitária e o tipo <strong>de</strong> organização<br />
que passou a vigorar nos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública.<br />
5.1 Outros Rumos da Política Sanitária<br />
Depois <strong>de</strong> um período <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> agitação política, que provocou a intervenção<br />
fe<strong>de</strong>ral em Mato Grosso, o bispo D. Aquino Corrêa foi eleito Presi<strong>de</strong>nte do Estado no final<br />
<strong>de</strong> 1917, conclamando a socieda<strong>de</strong> mato-grossense para um governo <strong>de</strong> união. Buscava<br />
criar um sentimento <strong>de</strong> conciliação entre os grupos políticos divergentes e em disputa,<br />
justificando com a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> promover o <strong>de</strong>senvolvimento do Estado. Essa tentativa<br />
<strong>de</strong> criar um consenso em torno <strong>de</strong> sua eleição repercutiu, também, na atuação da saú<strong>de</strong><br />
pública.<br />
Des<strong>de</strong> os primeiros meses <strong>de</strong> 1917 a Gazeta Official convocava toda a população<br />
a colaborar para o saneamento da capital com o objetivo <strong>de</strong> eliminar os domicílios<br />
insalubres. Apelava para que a população participasse da “obra <strong>de</strong> tranqüilida<strong>de</strong> política e<br />
administrativa iniciada pelo Estado”, afirmando que só a “boa saú<strong>de</strong> das finanças [po<strong>de</strong>ria]<br />
melhorar o estado sanitário da capital”. O editorial continuava dizendo que “a saú<strong>de</strong> das<br />
finanças <strong>de</strong> um Estado é como a saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> um corpo <strong>de</strong> um homem: <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> do bem<br />
estar geral <strong>de</strong> todos os órgãos, o qual só é possível com a or<strong>de</strong>m e o sossego do espírito”<br />
(MATO GROSSO, 1936a).<br />
A partir <strong>de</strong>ste momento os governantes não tentaram negar os limites dos<br />
serviços sanitários, apenas continuaram justificando a pequena capacida<strong>de</strong> financeira<br />
do Estado frente à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> maiores investimentos no setor. Ao menos em nível
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
dos instrumentos legais começaram a propor novos serviços, sendo a cooperação com o<br />
governo fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> fundamental importância para as mudanças verificadas no período.<br />
Os relatórios oficiais continuaram valorizando o combate às epi<strong>de</strong>mias<br />
compreen<strong>de</strong>ndo a ausência <strong>de</strong> surtos epidêmicos como fator <strong>de</strong>terminante para as condições<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da população e do estado sanitário. O cuidado com o controle das epi<strong>de</strong>mias<br />
continuou como priorida<strong>de</strong>, po<strong>de</strong>ndo ser constatado pelas propostas <strong>de</strong> intervenção<br />
feitas pelos dirigentes do Estado: criação <strong>de</strong> postos e comissões para profilaxia e <strong>de</strong>fesa<br />
sanitárias, <strong>de</strong> hospitais <strong>de</strong> isolamento e aquisição <strong>de</strong> remédios e gêneros para prover os<br />
doentes. Essas medidas, porém, só foram tomadas nos momentos <strong>de</strong> calamida<strong>de</strong>, como<br />
ocorreu com a gripe pandêmica em 1918, permanecendo como soluções temporárias.<br />
A partir da década <strong>de</strong> 1920, entretanto, a frequência dos surtos epidêmicos<br />
diminuiu bastante, mas as en<strong>de</strong>mias continuaram se propagando no interior do Estado<br />
ameaçando, inclusive, transformar-se em novas epi<strong>de</strong>mias, a exemplo do que ocorreu com<br />
a sífilis em Cuiabá, no ano <strong>de</strong> 1918. Doenças como verminose, Chagas, lepra e venéreas,<br />
passaram a requisitar maior atenção oficial.<br />
A intensida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ssas en<strong>de</strong>mias <strong>de</strong>terminou a constituição <strong>de</strong> novos serviços<br />
sanitários para a área rural que começou, então, a integrar-se às priorida<strong>de</strong>s do setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
interiorizando a assistência prestada pelo Estado, antes concentrada fundamentalmente no<br />
meio urbano. Em 1918 foi criado o serviço <strong>de</strong> profilaxia e saneamento do meio rural, com<br />
o objetivo <strong>de</strong> combater as en<strong>de</strong>mias. Entretanto, somente quatro anos <strong>de</strong>pois esse serviço<br />
se efetivou, ocasião em que foi assinado um convênio com o governo fe<strong>de</strong>ral para dar<br />
combate a tais doenças 9 (MATO GROSSO, 1931a).<br />
Obe<strong>de</strong>cendo as diretrizes do governo fe<strong>de</strong>ral, através do Departamento Nacional<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública (DNSP), o serviço <strong>de</strong> saneamento e profilaxia do meio rural <strong>de</strong>via<br />
incumbir-se, principalmente, da profilaxia da lepra e das doenças venéreas, “estabelecendo<br />
o serviço sanitário <strong>de</strong> preferência e com maior amplitu<strong>de</strong>, nas zonas mais atingidas pelas<br />
en<strong>de</strong>mias, <strong>de</strong> população mais <strong>de</strong>nsa e <strong>de</strong> maior riqueza econômica” (MATO GROSSO,<br />
1931a).<br />
O DNSP organizou, então, sob a responsabilida<strong>de</strong> da Diretoria <strong>de</strong> Saneamento e<br />
Profilaxia Rural, duas <strong>de</strong>legacias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> na região norte do Estado sendo uma em Santo<br />
Antonio do Rio Ma<strong>de</strong>ira e a outra em Cuiabá. Nesta cida<strong>de</strong> se localizou a se<strong>de</strong> do distrito<br />
do norte, que <strong>de</strong>veria esten<strong>de</strong>r sua ação aos municípios <strong>de</strong> Santo Antonio do Rio Abaixo,<br />
Livramento, Rosário Oeste e Diamantino, on<strong>de</strong> foram estabelecidos subpostos com<br />
pessoal técnico e recursos terapêuticos (MATO GROSSO, 1931a). Em Campo Gran<strong>de</strong> foi<br />
inaugurado, em 1922, o posto profilático da região sul, aten<strong>de</strong>ndo também Aquidauana e<br />
Três Lagoas.<br />
Esse convênio com o governo fe<strong>de</strong>ral estipulou que, durante dois anos, os<br />
serviços seriam executados pelas Comissões organizadas pelo Departamento Nacional<br />
9 Convênio sanitário assinado entre o Estado e a União para o serviço <strong>de</strong> “prophylaxia rural em Matto-Grosso” em 1º <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 1921.<br />
61
62<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública sem qualquer interferência <strong>de</strong> autorida<strong>de</strong>s estaduais ou municipais. Os<br />
médicos contratados para esse fim foram proibidos <strong>de</strong> exercer a clínica particular. Além<br />
disso, o convênio impunha ao governo estadual várias condições, entre elas:<br />
a) O Estado <strong>de</strong>veria impor aos municípios as leis, disposições e instruções do<br />
DNSP sobre o assunto;<br />
b) Legislar sobre uma taxa <strong>de</strong> valorização sobre os terrenos saneados ou um<br />
adicional sobre o imposto territorial para o financiamento dos serviços;<br />
c) In<strong>de</strong>nizar à União no prazo <strong>de</strong> <strong>de</strong>z anos a meta<strong>de</strong> das <strong>de</strong>spesas realizadas<br />
com o custeio dos serviços, amortizando a dívida a partir do 1º ano do<br />
acordo (MATO GROSSO, 1931a).<br />
O governo <strong>de</strong> Mato Grosso tratou <strong>de</strong> tomar algumas providências no sentido<br />
<strong>de</strong> criar condições para a implantação <strong>de</strong>sses serviços. Em 1922, a Lei Orçamentária n.<br />
873, <strong>de</strong>terminou que “a taxa adicional criada pela Lei n. 846 <strong>de</strong> 3 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1920<br />
(Fundo Escolar), que for cobrada nos municípios <strong>de</strong> Cuiabá, Santo Antonio do Rio Abaixo<br />
e Campo Gran<strong>de</strong>, será aplicada no saneamento dos mesmos” (MATO GROSSO, 1922, p.<br />
40).<br />
Ampliando essas medidas, no ano seguinte baixou novas instruções através <strong>de</strong><br />
outra Lei Orçamentária que dispunha:<br />
Para fazer face às <strong>de</strong>spezas do serviço <strong>de</strong> saneamento e Prophylaxia<br />
Rual do Estado, <strong>de</strong> acordo com o contracto <strong>de</strong>signado com o<br />
Departamento Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública, (...) fica reservada a quota<br />
<strong>de</strong> 10% (<strong>de</strong>z por cento) do total da arrecadação do imposto territorial,<br />
cuja importância será escripturada pelo Thesouro do Estado em verba<br />
especial para ter a applicação acima mencionada (MATO GROSSO,<br />
1923, p. 41).<br />
Essas providências não foram suficientes para que o serviço <strong>de</strong> profilaxia rural<br />
concretizasse seus objetivos. Passados seis anos da assinatura do convênio, em 1927, o<br />
governo do Estado reconhecia que “não correspondiam, pela sua inefficiência, os serviços<br />
<strong>de</strong> prophylaxia rural e da lepra, para os quais [contribuía] o Estado com a quota annual <strong>de</strong><br />
133:540$000” e propunha:<br />
remo<strong>de</strong>lar o regulamento <strong>de</strong> Hygiene do Estado, ampliando-o <strong>de</strong> modo<br />
a ficar esse <strong>de</strong>partamento sufficientemente apparelhado para bem<br />
<strong>de</strong>sempenhar os misteres confiados àquelles serviços ... pois muito<br />
[teria] a lucrar a população rural que mais [necessitava] da assistência<br />
médica e maior zelo [reclamava] dos po<strong>de</strong>res públicos (MATO<br />
GROSSO, 1931a).<br />
Diante das <strong>de</strong>ficiências do serviço <strong>de</strong> saneamento rural o governo sugeria, mais<br />
uma vez, que os <strong>de</strong>putados reformulassem a legislação, concentrando os serviços <strong>de</strong><br />
profilaxia na Inspetoria <strong>de</strong> Higiene.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Isso <strong>de</strong>monstra que, apesar das propostas <strong>de</strong> centralização que buscavam<br />
transformar a saú<strong>de</strong> em questão nacional, elas não tiveram correspondência no plano<br />
regional <strong>de</strong>vido à pequena capacida<strong>de</strong> do po<strong>de</strong>r público <strong>de</strong> viabilizar na prática um<br />
programa <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s intenções. Esses limites se revelam na manutenção dos problemas<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no período e pela continuida<strong>de</strong> do mesmo tipo <strong>de</strong> argumentação, ano após ano.<br />
A falta <strong>de</strong> recursos financeiros aliada ao mo<strong>de</strong>lo sanitarista adotado ao longo dos anos,<br />
muito oneroso <strong>de</strong>vido aos recursos técnicos necessários, explica porque os serviços apenas<br />
foram esboçados em alguns locais do Estado.<br />
Outra questão que recebeu maior atenção por parte do governo foi a assistência<br />
pública. Cresceu a participação do Estado, não só no que se refere à manutenção dos<br />
hospitais como na fiscalização do movimento clínico e dos serviços prestados pelos<br />
mesmos. Além da Santa Casa, prestava assistência médica gratuita a Inspetoria <strong>de</strong><br />
Higiene, on<strong>de</strong> foi instalado um posto médico para realização <strong>de</strong> consultas e um posto para<br />
a profilaxia da sífilis, com os medicamentos necessários.<br />
Quanto à iniciativa <strong>de</strong> esten<strong>de</strong>r os serviços à zona rural, embora estes não tenham<br />
se efetivado na proporção <strong>de</strong>sejada, marcou um novo sentido no discurso oficial sobre a<br />
questão da saú<strong>de</strong> no Estado. Essa nova direção foi <strong>de</strong>finida principalmente, em função do<br />
volume crescente das doenças e a busca <strong>de</strong> estabelecer certo controle sobre as morbida<strong>de</strong>s<br />
tradicionais que provocavam surtos epidêmicos.<br />
O interesse pela zona rural se acentuou no final da década <strong>de</strong> 1930, quando<br />
começou a ser colocada em prática uma das priorida<strong>de</strong>s do Estado Nacional, a política<br />
<strong>de</strong> interiorização <strong>de</strong> contingentes populacionais para regiões mais distantes, inclusive<br />
para Mato Grosso. As políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> também expressaram essa preocupação e vão<br />
se orientar no sentido <strong>de</strong> propiciar o saneamento dos espaços “vazios” que se pretendia<br />
ocupar.<br />
5.2 Determinações sobre os Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na Década <strong>de</strong> 1930<br />
A partir <strong>de</strong> 1930 há uma reorientação da política estatal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no sentido <strong>de</strong><br />
promover a centralização e interiorização dos serviços. A área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> ganhou nova<br />
expressão com a criação <strong>de</strong> um novo órgão: o Ministério da Educação e Saú<strong>de</strong>. Em Mato<br />
Grosso, o Estado incorpora órgãos burocráticos e estabelece leis que especificam e tentam<br />
colocar em prática um novo sentido da saú<strong>de</strong> pública.<br />
As unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong> âmbito estadual se transformaram naquele<br />
período, <strong>de</strong> acordo com as orientações do governo fe<strong>de</strong>ral que em última instância assumiu<br />
sua coor<strong>de</strong>nação, padronizando a estrutura dos serviços.<br />
Em Mato Grosso os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> sofreram modificações em sua organização<br />
administrativa no final da década <strong>de</strong>1930. Em 1936 foi alterado o regulamento sanitário<br />
vigente <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1893 e, dois anos <strong>de</strong>pois, os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> foram reorganizados.<br />
Pelo Decreto n. 84, a antiga Inspetoria <strong>de</strong> Higiene foi transformada em Diretoria<br />
Geral <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública, que passou a superinten<strong>de</strong>r o serviço sanitário, através da sua se<strong>de</strong><br />
63
64<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
na capital e <strong>de</strong>legacias nas <strong>de</strong>mais cida<strong>de</strong>s em todo o Estado (MATO GROSSO, 1936b,<br />
p. 2-19). O mesmo <strong>de</strong>creto dividiu o Estado em <strong>de</strong>z circunscrições sanitárias, <strong>de</strong> acordo<br />
com o quadro a seguir:<br />
Quadro 9 – Divisão Sanitária do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso – 1936<br />
Fonte: MATO GROSSO, 1936b, p. 1-2.<br />
A primeira, a quarta e a sexta circunscrições foram consi<strong>de</strong>radas <strong>de</strong> primeira<br />
classe, e as <strong>de</strong>mais <strong>de</strong> segunda. Nota-se que há um paralelo entre as circunscrições<br />
consi<strong>de</strong>radas <strong>de</strong> primeira classe com as áreas mais importantes para a colonização e para<br />
a economia do Estado.<br />
As atribuições da nova Diretoria Geral eram as seguintes:<br />
1. Profilaxia geral e específica das doenças transmissíveis e das evitáveis,<br />
principalmente a lepra;<br />
2. A polícia sanitária dos domicílios, logradouros públicos, casas <strong>de</strong> habitação<br />
coletiva, estabelecimentos públicos ou particulares <strong>de</strong> qualquer natureza,<br />
fábricas, usinas, colégios, hospitais, restaurantes etc.;<br />
3. A fiscalização dos gêneros alimentícios, inclusive o leite e seus <strong>de</strong>rivados;<br />
4. A fiscalização da venda <strong>de</strong> tóxicos e entorpecentes;<br />
5. Fiscalização das farmácias, vacinas, soros e qualquer remédio feito no<br />
Estado em Laboratórios particulares;<br />
6. Fiscalização do exercício das profissões médica, farmacêutica, <strong>de</strong>ntária e<br />
obstetrícia e repressão ao curan<strong>de</strong>irismo;<br />
7. Educação sanitária da população;<br />
8. Inspeção médica-escolar;<br />
9. Higiene infantil e amparo à maternida<strong>de</strong>;<br />
10. Socorro médico <strong>de</strong> urgência na capital;<br />
11. Inspeção sanitária e assistência aos presos das ca<strong>de</strong>ias públicas na capital<br />
e municípios on<strong>de</strong> houver repartição da saú<strong>de</strong> pública;<br />
12. Assistência aos loucos internados no asilo <strong>de</strong> alienados da capital;
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
13. Fiscalização das obras <strong>de</strong> saneamento e qualquer outro serviço sanitário<br />
do Estado;<br />
14. Inspeções <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> para efeito <strong>de</strong> nomeação, licença, aposentadoria e<br />
outros;<br />
15. Inspeção das estâncias hidro minerais ou termais do Estado;<br />
16. Serviço médico legal;<br />
17. Combate às en<strong>de</strong>mias rurais;<br />
18. Concessão <strong>de</strong> carteiras sanitárias a todos os empregados <strong>de</strong> fábricas,<br />
matadouros, charqueadas, armazéns <strong>de</strong> gêneros alimentícios, escolas,<br />
cafés, bares, etc.;<br />
19. Estudo e auxílio ao combate da epizootia da raiva ou qualquer outra que<br />
ataque os rebanhos do Estado;<br />
20. Inspeção médica dos imigrantes com <strong>de</strong>stino às colônias do Estado e aos<br />
estabelecimentos industriais particulares;<br />
21. Organização da estatística <strong>de</strong>mográfica e publicação <strong>de</strong> boletins. (MATO<br />
GROSSO, 1936b).<br />
Para aten<strong>de</strong>r as novas funções da Diretoria foram criados novos cargos técnicos<br />
e administrativos, como microscopista, analista, secretários, guardas sanitários, <strong>de</strong>legados<br />
<strong>de</strong> 1ª e 2ª classe, e outros. A tendência verificada foi <strong>de</strong> centralização dos serviços e<br />
ampliação da burocracia, criando uma estrutura mais rígida e hierarquizada para a saú<strong>de</strong>.<br />
A abrangência da atuação da Diretoria e o nível <strong>de</strong> <strong>de</strong>talhamento das suas funções<br />
aumentaram em relação à Inspetoria <strong>de</strong> Higiene, num movimento semelhante à nova<br />
direção que estava sendo imprimida nos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> a nível nacional.<br />
5.2.1 Inovações nos Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Comparando as atribuições do novo órgão <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com o anterior, i<strong>de</strong>ntifica-se<br />
certa continuida<strong>de</strong> na concepção dos serviços, mas algumas especificida<strong>de</strong>s começaram a<br />
se impor, e sugerem uma diversificação dos problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e uma reorientação das<br />
priorida<strong>de</strong>s do Estado. As principais inovações foram: a educação sanitária, o cuidado à<br />
maternida<strong>de</strong> e à infância, a assistência aos loucos e presos, a criação dos serviços médico<br />
<strong>de</strong> urgência e médico legal, a expedição <strong>de</strong> carteiras sanitárias para empregados, a inspeção<br />
médica dos imigrantes e a explicitação da repressão ao curan<strong>de</strong>irismo.<br />
Quanto à educação sanitária, a preocupação básica era divulgar os conhecimentos<br />
relativos a higiene e o principal veículo eram os impressos <strong>de</strong> propaganda sanitária que<br />
<strong>de</strong>veriam ser fixados, <strong>de</strong> acordo com o regulamento, em lugares visíveis das habitações<br />
coletivas, estabelecimentos comerciais ou industriais, <strong>de</strong> ensino, embarcações ou qualquer<br />
instituição ou veículo on<strong>de</strong> se concentrasse gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> pessoas.<br />
Está presente a partir daquele momento, não só exigências sobre bons comporta-<br />
65
66<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
mento e hábitos em relação à higiene, mas a própria divulgação e propaganda do que era<br />
consi<strong>de</strong>rado o padrão <strong>de</strong>sejável para os moradores das cida<strong>de</strong>s.<br />
Esse é um indício <strong>de</strong> que a tendência a partir <strong>de</strong> então será a busca do controle<br />
coletivo tentando abranger um número maior <strong>de</strong> pessoas através da propaganda sanitária.<br />
Dentro das escolas, esse controle pretendia ser mais rigoroso criando pelotões<br />
<strong>de</strong> voluntários com o objetivo <strong>de</strong> incutir hábitos higiênicos nas crianças, estando prevista<br />
pelo regulamento a realização <strong>de</strong> inspeções <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> não apenas nos alunos, mas também<br />
em professores e funcionários.<br />
Outro campo no qual a intervenção do po<strong>de</strong>r público foi ampliada concerne à<br />
fiscalização das profissões médicas on<strong>de</strong> se explicita uma prática antiga: a repressão ao<br />
curan<strong>de</strong>irismo, ou seja, a qualquer invasão da área médica por pessoas não habilitadas,<br />
consi<strong>de</strong>rado um dos fatores responsáveis pelo índice <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong>. O novo regulamento<br />
sanitário mantém o controle sobre a titulação e habilitação dos profissionais, na mesma<br />
forma como já vinha sendo realizada.<br />
As novida<strong>de</strong>s apresentadas pela nova legislação se referem a: instituição,<br />
como penalida<strong>de</strong>, da suspensão do exercício da medicina por tempo <strong>de</strong>terminado ou a<br />
cassação da licença e fechamento da farmácia, <strong>de</strong> acordo com a gravida<strong>de</strong> das infrações<br />
cometidas; proibição do exercício das profissões na área, às pessoas portadoras <strong>de</strong> doenças<br />
contagiosas ou <strong>de</strong> cegueira.<br />
O primeiro ponto expressa um rigor mais acentuado no controle das profissões e<br />
do comércio <strong>de</strong> remédios e substâncias tóxicas, que preocupava <strong>de</strong> forma especial o po<strong>de</strong>r<br />
público <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1893. Nesse sentido, o regulamento <strong>de</strong> 1936 estabelecia que as receitas<br />
médicas <strong>de</strong>veriam ser submetidas ao “visto” da autorida<strong>de</strong> sanitária, como forma <strong>de</strong> coibir<br />
“o abuso para alimentar vícios”.<br />
Além <strong>de</strong> o curan<strong>de</strong>irismo ser apontado como causa da mortalida<strong>de</strong> elevada no<br />
Estado, outro fator que influía sobre seu crescimento, segundo a opinião das autorida<strong>de</strong>s<br />
sanitárias, era a falta <strong>de</strong> assistência médica. Com a intenção <strong>de</strong> reverter este quadro, foi<br />
criado em 1936 o serviço <strong>de</strong> socorro médico <strong>de</strong> urgência na capital. Este posto médico,<br />
anexo à Diretoria Geral <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública, <strong>de</strong>veria funcionar com um médico e um guarda<br />
sanitário com as seguintes atribuições: prestar socorro médico cirúrgico, primeiros<br />
socorros em casos <strong>de</strong> aci<strong>de</strong>ntes, curativos etc.<br />
O artigo referente a esta questão esclarece:<br />
Art. 210 – A saú<strong>de</strong> pública prestará a assistência médica gratuita, a<br />
domicílio, para os enfermos privados <strong>de</strong> recursos e organizará, nesta<br />
capital, ambulancias urbanas <strong>de</strong>stinadas a prestação <strong>de</strong> soccorros<br />
immediatos aos que soffrerem <strong>de</strong>sastres e acci<strong>de</strong>ntes nas vias públicas<br />
ou aos que precisarem ser removidos ou conduzidos aos hospitais [...]<br />
(MATO GROSSO, 1936b, p. 18).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
A prevenção da varíola através da vacina, aparentemente assumiu um caráter<br />
menos rígido, a partir <strong>de</strong> 1936, pois o regulamento estipulou prazos mais flexíveis – um<br />
ano <strong>de</strong> vida para a vacinação e, em caso <strong>de</strong> resultado positivo, revacinação <strong>de</strong> 5 em 5 anos.<br />
Além disso, foram isentas da obrigatorieda<strong>de</strong> da vacinação, as pessoas cujo<br />
estado <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> não permitisse a aplicação <strong>de</strong>ssa medida, a juízo da autorida<strong>de</strong> sanitária.<br />
Apesar <strong>de</strong> a incidência dos surtos <strong>de</strong> varíola no Estado haver diminuído sensivelmente,<br />
sendo a última notificação <strong>de</strong> 1916, a legislação não diminuiu a ênfase na prevenção<br />
<strong>de</strong>sta morbida<strong>de</strong>. Não só o controle através das multas permaneceu, como a vacinação<br />
antivariólica se tornou obrigatória também nos períodos não epidêmicos, o que expressa<br />
a intenção <strong>de</strong> praticá-la <strong>de</strong> modo intensivo e sistemático. Essa medida se transformava,<br />
também, pouco a pouco em uma forma <strong>de</strong> controle sanitário sobre a mão <strong>de</strong> obra, na<br />
medida em que o regulamento criou a exigência <strong>de</strong> carteiras sanitárias para a admissão ao<br />
trabalho, em <strong>de</strong>terminados estabelecimentos.<br />
A fiscalização sobre o comércio <strong>de</strong> gêneros alimentícios em geral continuou a<br />
ser realizado pela Diretoria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública nos mol<strong>de</strong>s do estabelecido pela legislação<br />
anterior. Apenas um produto – o leite – passou a receber atenção mais específica, prevendo<br />
a inspeção não só em relação à sua composição e qualida<strong>de</strong>, como também sobre o tipo <strong>de</strong><br />
transporte e a forma como se realizava o seu comércio.<br />
Quanto à fiscalização <strong>de</strong> fábricas e casas <strong>de</strong> comércio <strong>de</strong> gêneros alimentícios,<br />
o regulamento exigia o registro prévio do estabelecimento na repartição sanitária. Para<br />
a concessão <strong>de</strong>ste documento, a Diretoria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública fazia exigências sobre as<br />
condições <strong>de</strong> higiene do prédio <strong>de</strong>s<strong>de</strong> sua construção, revestimentos utilizados e outros.<br />
Outro aspecto controlado pelos órgãos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em relação às fábricas e<br />
estabelecimentos comerciais <strong>de</strong> gêneros alimentícios era quanto à higiene pessoal dos<br />
empregados, fazendo exigências quanto à obrigatorieda<strong>de</strong> da vacinação antivariólica e a<br />
inspeção <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> realizada pela autorida<strong>de</strong> sanitária para comprovação da ausência <strong>de</strong><br />
doenças transmissíveis.<br />
Pelo menos em nível da exigência legal, estava presente, já naquele momento, a<br />
preocupação com a higiene industrial e o controle sanitário sobre os trabalhadores, ainda<br />
que esta última fosse no sentido <strong>de</strong> evitar a transmissão <strong>de</strong> doenças ou alterar a qualida<strong>de</strong><br />
do produto manipulado por eles.<br />
A preocupação com a saú<strong>de</strong> do operário se equiparava com o cuidado dispensado<br />
à higiene dos estabelecimentos e máquinas, verificando seu estado <strong>de</strong> conservação e a<br />
possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um <strong>de</strong>sses “fatores” virem a prejudicar a saú<strong>de</strong> pública.<br />
Uma das maiores inovações verificadas é o controle sanitário que seria efetuado<br />
sobre a força <strong>de</strong> trabalho, obrigando os trabalhadores a se submeterem a exames para<br />
concessão <strong>de</strong> carteiras sanitárias, como requisito para admissão no emprego.<br />
A inspeção médica dos imigrantes também indica a fiscalização que o Estado<br />
pretendia impor sobre a mão <strong>de</strong> obra que era requisitada para as ativida<strong>de</strong>s agrícolas em<br />
estabelecimentos estatais, ou que se dirigiam aos empreendimentos particulares, usinas,<br />
fábricas etc.<br />
67
68<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O Estado se propunha a exercer um verda<strong>de</strong>iro controle sanitário sobre a<br />
população, evi<strong>de</strong>nciando a preocupação com a or<strong>de</strong>nação do trabalho, ou melhor, com a<br />
disciplina do trabalhador.<br />
5.2.2 As Permanências nos Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
O novo regulamento manteve como concepção mais abrangente a i<strong>de</strong>ia da higienização<br />
da socieda<strong>de</strong> que transparecia tanto na tentativa <strong>de</strong> organizar e sanear o meio urbano<br />
e rural, como no controle da higiene pessoal e coletiva. Essas i<strong>de</strong>ias se encontravam<br />
presentes no regulamento anterior, exceto a questão do saneamento rural.<br />
Uma medida que fazia parte do Código <strong>de</strong> Posturas <strong>de</strong> 1880, mas que não foi<br />
regulamentada em 1893 e passou agora a ser objeto <strong>de</strong> controle direto, foi a construção<br />
<strong>de</strong> prédios particulares, consi<strong>de</strong>rando fundamentalmente os aspectos da segurança e higiene<br />
dos mesmos. O novo regulamento sanitário pretendia normatizar <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a espessura<br />
das pare<strong>de</strong>s externas, alicerces, pé-direito, medidas das escadas internas, tamanho dos<br />
compartimentos – cozinha, banheiro, sala <strong>de</strong> visita, dormitório – até o revestimento das<br />
pare<strong>de</strong>s e pisos <strong>de</strong> cozinha e banheiro.<br />
O caráter rígido da lei, sempre justificado em nome da salubrida<strong>de</strong>, permaneceu<br />
e po<strong>de</strong> ser verificado no tom autoritário da legislação no que se refere à polícia sanitária<br />
que continuava intacta no regulamento sanitário <strong>de</strong> 1936. O artigo referente à polícia<br />
sanitária permitia à autorida<strong>de</strong> realizar inspeções domiciliares sistemáticas em todas as<br />
habitações “para verificar se os mesmos se encontram <strong>de</strong> accôrdo com as prescripções <strong>de</strong><br />
hygiene”, cabendo à autorida<strong>de</strong> permitir ou não o “habite-se” do prédio:<br />
Art. 200 – A polícia sanitária tem por fim tornar effetiva a observância<br />
das leis, regulamentos e instrucções referentes à prevenção e repressão<br />
<strong>de</strong> tudo quanto possa comprometer a saú<strong>de</strong> pública.<br />
Art. 201 – Esta polícia é exercida pela autorida<strong>de</strong> sanitária, que terá<br />
livre ingresso em todos os lugares on<strong>de</strong> convenha exercer a acção que<br />
lhe é attribuída (MATO GROSSO, 1936b, p. 17).<br />
Quanto às epi<strong>de</strong>mias, único problema que vinha sofrendo a intervenção direta e<br />
constante dos órgãos públicos, as medidas <strong>de</strong>stinadas à sua prevenção e controle foram<br />
reforçadas também naquele regulamento. Nesse sentido, aumentou o número <strong>de</strong> doenças<br />
<strong>de</strong> notificação compulsória que agora recaía sobre todos os familiares, bem como nos hospitais<br />
on<strong>de</strong> os casos se verificassem. As novas doenças sujeitas à notificação compulsória<br />
eram: peste, tifo, infecção puerperal, oftalmia dos recém-nascidos, lepra, tuberculose,<br />
impaludismo, sarampo, disenterias, meningite, paralisia infantil, tracoma, leishmaniose,<br />
coqueluche, gripe, angina epidêmica, envenenamentos alimentares e encefalite letárgica.<br />
O caráter repressivo da legislação no que diz respeito às medidas <strong>de</strong> prevenção<br />
das doenças e o po<strong>de</strong>r conferido às autorida<strong>de</strong>s sanitárias permaneceram. A polícia
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
sanitária e o isolamento são dois exemplos do controle imposto sobre o indivíduo em<br />
nome da segurança pública.<br />
Outra medida reforçada pelo regulamento é a <strong>de</strong>sinfecção dos locais on<strong>de</strong> tivesse<br />
ocorrido caso <strong>de</strong> doença <strong>de</strong> notificação compulsória:<br />
Art. 193 – Or<strong>de</strong>nada a <strong>de</strong>sinfecção ou <strong>de</strong>sinfestação pela autorida<strong>de</strong><br />
sanitária ninguém po<strong>de</strong>rá <strong>de</strong>lla eximir-se nem embaraçar ou impedir<br />
sua execução, sob penna <strong>de</strong> multa <strong>de</strong> 200$000, <strong>de</strong>vendo a autorida<strong>de</strong><br />
sanitária requisitar o auxílio da Força Pública, quando for necessário,<br />
para que a medida sanitária seja levada a effeito imediatamente (MATO<br />
GROSSO, 1936b, p. 17).<br />
Essa legislação interfere diretamente na proprieda<strong>de</strong> e privacida<strong>de</strong> dos indivíduos,<br />
ampliando os po<strong>de</strong>res das autorida<strong>de</strong>s e submetendo a população aos funcionários e<br />
policiais “a serviço” <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública.<br />
5.3 Reorganização dos Serviços Estaduais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Dando continuida<strong>de</strong> às transformações efetuadas nos serviços estaduais <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> pública, iniciadas em 1936, o governo <strong>de</strong> Mato Grosso, através do Decreto n. 171<br />
aprovado em junho <strong>de</strong> 1938, <strong>de</strong>u nova estrutura aos mesmos.<br />
O governo estadual, sintonizado com as orientações do Estado Novo implantado<br />
em 1937, que tinha entre outras concepções um projeto <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> um novo homem,<br />
forte, sadio e apto para o trabalho, reservava para a saú<strong>de</strong> um papel <strong>de</strong> fundamental<br />
importância. Para cumprir sua tarefa era necessário criar uma estrutura <strong>de</strong> serviços que<br />
cobrisse todo o território nacional e que reforçasse os mecanismos necessários para a<br />
repressão sobre todos os fatores <strong>de</strong> risco para a saú<strong>de</strong> pública.<br />
O governo fe<strong>de</strong>ral pretendia uniformizar a estrutura dos <strong>de</strong>partamentos estaduais<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, estabelecendo um mo<strong>de</strong>lo único <strong>de</strong> organização: uma Diretoria, serviços<br />
especiais <strong>de</strong> combate às en<strong>de</strong>mias, além <strong>de</strong> hospitais e laboratórios, centros <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> nas<br />
cida<strong>de</strong>s maiores e postos <strong>de</strong> higiene na zona rural.<br />
Em Mato Grosso, o Estado <strong>de</strong>u a seguinte organização aos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>:<br />
Art. 1º - A atual Diretoria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública, subordinada diretamente<br />
à Secretaria Geral do Estado, passa a <strong>de</strong>nominar-se Departamento<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, que constituirá o centro <strong>de</strong> administração, coor<strong>de</strong>nação e<br />
execução <strong>de</strong> todas as ativida<strong>de</strong>s relativas à Saú<strong>de</strong> Pública.<br />
Art. 2º - O Departamento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso terá a seguinte<br />
organização:<br />
I – Diretoria Geral, que compreen<strong>de</strong>rá:<br />
a)- Secção administrativa;<br />
b)- Secção técnica.<br />
II – Distritos Sanitários<br />
III – Serviços <strong>de</strong> assistência médico-social<br />
IV – Serviços <strong>de</strong> Laboratório [...] (MATO GROSSO, 1938a, p. 1-2).<br />
69
70<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Pela nova divisão sanitária, os municípios do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso foram<br />
organizados em seis distritos sanitários agrupados em função da facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> comunicação<br />
entre eles e do tipo <strong>de</strong> doenças registradas.<br />
Quadro 10 – Divisão Sanitária do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso em 1938<br />
Fonte: MATO GROSSO, 1938a, p. 1.<br />
A reorganização dos serviços sanitários do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, nas bases<br />
estabelecidas pelo recém-criado Departamento Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, resultou na aprovação<br />
<strong>de</strong> regulamentos sanitários impossíveis <strong>de</strong> serem aplicados no Estado.<br />
Com essa reorganização foram criados serviços específicos para aten<strong>de</strong>r a cada<br />
setor da saú<strong>de</strong>:<br />
[...] Art. 4º - § 3º - Os órgãos distritais <strong>de</strong> higiene serão os Centros <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> e Postos <strong>de</strong> Higiene, que variarão na sua composição <strong>de</strong> acordo<br />
com as possibilida<strong>de</strong>s financeiras, sendo que a <strong>de</strong>nominação <strong>de</strong> Centro<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> ficará limitada à unida<strong>de</strong> sanitária que tiver, no mínimo, os<br />
seguintes serviços dirigidos por especialistas: tuberculose, higiene da<br />
criança, doenças transmissíveis agudas, saneamento e polícia sanitária,<br />
higiene da alimentação e do trabalho. As unida<strong>de</strong>s em que essas<br />
funções forem exercidas cumulativamente conservarão a <strong>de</strong>nominação<br />
<strong>de</strong> Posto <strong>de</strong> Higiene (MATO GROSSO, 1938a, p. 2).<br />
O financiamento da expansão dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> para o interior do Estado foi<br />
estabelecido, <strong>de</strong> acordo com as orientações fe<strong>de</strong>rais, da seguinte forma:<br />
Art. 7º - Fica creada pelo Estado a Caixa <strong>de</strong> Fundos para os serviços <strong>de</strong><br />
assistência e saú<strong>de</strong> nos municípios.<br />
Art. 8º - A Caixa <strong>de</strong> Fundos será constituída por:<br />
I – Contribuição dos municípios;<br />
II – Outras fontes <strong>de</strong> receitas que venham a ser creadas.<br />
Art. 9º - Cada município contribuirá para essa Caixa com 5% sobre<br />
toda a receita arrecadada, <strong>de</strong>vendo a contribuição ser recolhida até o<br />
dia 5 <strong>de</strong> cada mês às Coletorias Estaduais, que imediatamente <strong>de</strong>la<br />
farão entrega ao Tesouro do Estado.<br />
Parágrafo Único – A contribuição à Caixa <strong>de</strong> Fundos a que se refere<br />
o presente artigo começará a ser feita <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o momento em que o
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Departamento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> iniciar a instalação nos Distritos Sanitários,<br />
dos serviços <strong>de</strong> higiene, que irão atuar em caráter permanente nos<br />
municípios que fazem parte da sua composição (MATO GROSSO,<br />
1938a, p. 2).<br />
Apesar <strong>de</strong>ssa preocupação em gerar recursos para serem aplicados nos serviços<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública, a efetivação dos mesmos não aconteceu porque a arrecadação dos<br />
municípios era insuficiente para manter a “especialização” excessiva dos novos serviços<br />
criados. Mais uma vez, o discurso político antecipava-se às condições reais do Estado.<br />
Ainda em 1938, outro <strong>de</strong>creto reforçaria a organização criada neste ano e<br />
regulamentou as atribuições do Departamento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>:<br />
I. Educação sanitária da população;<br />
II. Estudo <strong>de</strong> todas as questões relativas à saú<strong>de</strong> pública;<br />
III. Organização da estatística <strong>de</strong>mógrafo-sanitária do Estado e publicação dos<br />
boletins e anuários;<br />
IV. Estudo epi<strong>de</strong>miológico <strong>de</strong> todas as doenças transmissíveis;<br />
V. Profilaxia geral e específica das doenças transmissíveis e <strong>de</strong> outras<br />
evitáveis;<br />
VI. Polícia sanitária dos prédios, domicílios, edifícios, estabelecimentos<br />
públicos e particulares, <strong>de</strong> qualquer natureza ou <strong>de</strong>stino, <strong>de</strong> proprieda<strong>de</strong> ou<br />
uso individual ou coletivo, templos, teatros, estações, veículos, lugares e<br />
logradouros públicos em geral;<br />
VII. Fiscalização sanitária da produção, <strong>de</strong>pósito, venda e conserva dos gêneros<br />
<strong>de</strong>stinados à alimentação, e inspeção dos mesmos nos entrepostos que<br />
forem criados;<br />
VIII. Inspeção do trabalho operário nas fábricas e oficinas, estudos e inquéritos<br />
sobre higiene industrial e profissional;<br />
IX. Fiscalização do exercício da profissão médica, farmacêutica, <strong>de</strong>ntária e<br />
obstétrica, e repressão ao curan<strong>de</strong>irismo;<br />
X. Fiscalização das farmácias, dos produtos farmacêuticos e biológicos<br />
preparados no Estado, em laboratórios particulares;<br />
XI. Inspeção médica dos imigrantes <strong>de</strong>stinados às colônias mantidas ou<br />
subvencionadas pelo Estado e aos estabelecimentos industriais particulares;<br />
XII. Profilaxia das intoxicações euforísticas e entorpecentes;<br />
XIII. Organização dos centros <strong>de</strong> estudos, e da profilaxia específica da malária,<br />
da lepra e da doença <strong>de</strong> chagas;<br />
XIV. Inspeção das estâncias hidrominerais e termais;<br />
XV. Higiene infantil, e, em colaboração com a Secretaria Geral, inspeção<br />
sanitária escolar (MATO GROSSO, 1938b). 10<br />
10 Este regulamento, composto por 683 artigos, foi publicado em partes na Gazeta Official do Estado <strong>de</strong> Matto-Grosso ao longo <strong>de</strong> um<br />
mês a partir <strong>de</strong> 27 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 1938.<br />
71
72<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Esse novo regulamento ampliava ainda mais as funções do Departamento <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>. No que se refere à regulamentação do trabalhador e do trabalho, criava o serviço<br />
<strong>de</strong> inspeção do trabalho operário nas oficinas e fábricas e pretendia elaborar inquéritos e<br />
estudos sobre higiene industrial e profissional no Estado.<br />
Normatizava também a “educação higiênica” do trabalhador das fábricas,<br />
instituída como responsabilida<strong>de</strong> do proprietário dos estabelecimentos. Regulava o exame<br />
médico para a admissão dos operários, que <strong>de</strong>veria ser renovado periodicamente para os<br />
menores, trabalhadores em fábricas <strong>de</strong> gêneros alimentícios ou <strong>de</strong> substâncias tóxicas.<br />
Também em 1938 ganhou espaço na legislação sanitária do Estado a prevenção<br />
das doenças transmissíveis, que além das medidas clássicas, usadas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> as décadas<br />
anteriores, como: notificação compulsória, isolamento, <strong>de</strong>sinfecção, vacinação e<br />
vigilância, recebeu, agora, o apoio do serviço <strong>de</strong> inquérito epi<strong>de</strong>miológico, com o objetivo<br />
<strong>de</strong> estudar a forma <strong>de</strong> disseminação das doenças e as medidas profiláticas mais indicadas.<br />
Po<strong>de</strong>-se apreen<strong>de</strong>r, a partir <strong>de</strong>sse instrumento legal, que a tuberculose, a lepra e as<br />
doenças venéreas eram os problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública que, naquele momento, constituíam<br />
maior risco ou ameaça para a população, porque para enfrentá-los foram criados serviços<br />
específicos <strong>de</strong> profilaxia.<br />
Naquele período, cresceu o número <strong>de</strong> doenças endêmicas que preocupavam as<br />
autorida<strong>de</strong>s públicas do Estado: a malária, as verminoses, doença <strong>de</strong> Chagas, leishmaniose,<br />
tracoma e bouba, são algumas das morbida<strong>de</strong>s que atingiam o meio rural e para os quais<br />
foram criadas medidas específicas para a profilaxia.<br />
Quanto às questões do saneamento e das normas para as construções, o<br />
regulamento sanitário normatizava <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o tipo <strong>de</strong> terreno a<strong>de</strong>quado e sua preparação até<br />
os tipos <strong>de</strong> revestimentos e coberturas indicados, existindo exigências diferenciadas <strong>de</strong><br />
acordo com a localização da construção: zona rural, zona urbana e suburbana.<br />
As normas sobre o saneamento eram tão rígidas quanto as <strong>de</strong>mais, abrangendo o<br />
abastecimento d’água, escoamento <strong>de</strong> resíduos das casas e, especialmente, o saneamento<br />
das construções coletivas como hospedarias, hospitais, escolas e outros.<br />
Outra atribuição do Departamento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> que mereceu atenção e<br />
regulamentação especial é a <strong>de</strong> Bioestatística; cabia a este serviço a organização da<br />
estatística <strong>de</strong> nascimentos, casamentos, óbitos (com estudo <strong>de</strong>mográfico da mortalida<strong>de</strong>),<br />
doentes tratados e falecidos nos hospitais, os casos <strong>de</strong> doenças transmissíveis <strong>de</strong> notificação<br />
compulsória, além do estudo das morbida<strong>de</strong>s ocorridas em todo o Estado.<br />
Com a legislação da década <strong>de</strong> 1930, a concepção sobre a intervenção do Estado<br />
nas questões sanitárias ficou consolidada em nível <strong>de</strong> instrumento legal. A tendência era,<br />
cada vez mais, controlar cada aspecto da saú<strong>de</strong> pública com serviços específicos, criando<br />
especialida<strong>de</strong>s e ampliando a estrutura <strong>de</strong> serviços.
6 CONCLUSÃO<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Analisando a legislação promulgada pelo Estado, po<strong>de</strong>-se perceber que as<br />
concepções e propostas <strong>de</strong> intervenção no setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública em Mato Grosso não<br />
diferiam das i<strong>de</strong>ias que animavam os <strong>de</strong>bates sobre essa questão nos principais centros<br />
urbanos do país. Concepções como a necessida<strong>de</strong> da intervenção do Estado na saú<strong>de</strong><br />
pública, as vantagens dos investimentos naquele setor, a preocupação com o saneamento e<br />
a organização do espaço físico nos núcleos urbanos já estavam presentes em Mato Grosso<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> fins do século XIX.<br />
Percebe-se inclusive, a antecipação do po<strong>de</strong>r público na regulamentação <strong>de</strong><br />
questões que não se constituíam ainda como problemas concretos em Mato Grosso.<br />
Ao utilizar como mo<strong>de</strong>lo a legislação sobre a questão elaborada no Distrito Fe<strong>de</strong>ral,<br />
os regulamentos sanitários do Estado não copiavam apenas os mo<strong>de</strong>los e práticas <strong>de</strong><br />
intervenção, mas estabeleciam priorida<strong>de</strong>s no campo da saú<strong>de</strong> pública que não se<br />
a<strong>de</strong>quavam à realida<strong>de</strong> sanitária, e financeira, <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
A principal consequência <strong>de</strong>sse fato foi a constituição <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
pública <strong>de</strong>svinculados da realida<strong>de</strong> econômica e política do Estado, exigindo recursos<br />
técnicos e financeiros dispendiosos que dificultavam sua concretização. Um outro fator<br />
que entravava uma prática mais intensa no setor era a dificulda<strong>de</strong> e precarieda<strong>de</strong> da ligação<br />
entre os núcleos urbanos no Estado, tornando impossíveis ou ineficazes as intervenções<br />
temporárias e centralizadas sobre o problema sanitário que se pretendia solucionar.<br />
A ação dos serviços se caracterizou pela incapacida<strong>de</strong> em solucionar os problemas<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública, seja pelo mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> organização adotado ou pelo fato <strong>de</strong> receber muito<br />
pouco do orçamento estadual. Essa limitada capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> intervenção dos serviços <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> pública em Mato Grosso, portanto, é um problema estrutural e sua origem <strong>de</strong>ve ser<br />
buscada no momento mesmo <strong>de</strong> sua constituição.<br />
73
Quadro 11 – Epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> gripe, febre amarela, coqueluche e cólera em Mato Grosso – 1890 / 1922<br />
74<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
APÊNDICES<br />
Fonte: Quadros elaborados com base em informações esparsas reunidas em: MATO GROSSO, 1892, 1898, 1902, 1911a, 1915, 1921, 1931a;<br />
MATO GROSSO, 1936a.
Quadro 12 – Epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> sarampo, difteria, malária e bronquite em Mato Grosso – 1890/1913<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Fonte: Quadros elaborados com base em informações esparsas reunidas em: MATO GROSSO, 1892, 1898, 1902, 1911a, 1915, 1921, 1931a; MATO<br />
GROSSO, 1936a.<br />
75
Quadro 13 – Epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> febres catarrais, beribéri, ancilostomíase, laringite, febre paratífica, sífilis, escarlatina e meningite infecciosa<br />
em Mato Grosso – 1894/1922<br />
76<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Fonte: Quadros elaborados com base em informações esparsas reunidas em: MATO GROSSO, 1892, 1898, 1902, 1911a, 1915, 1921, 1931a; MATO GROSSO,<br />
1936a.
Quadro 14 – Epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> disenteria, tifo e peste bubônica em Mato Grosso – 1900/1930<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Fonte: Quadros elaborados com base em informações esparsas reunidas em: MATO GROSSO, 1892, 1898, 1902, 1911a, 1915, 1921, 1931a; MATO GROSSO, 1936a.<br />
77
REFERÊNCIAS<br />
78<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
BRAGA, José Carlos <strong>de</strong> Souza; PAULA, Sérgio Góes <strong>de</strong>. Saú<strong>de</strong> e previdência – Estudos<br />
<strong>de</strong> política social. São Paulo: CEBES / HUCITEC, 1981.<br />
BRASIL. Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Geografia e Estatística. Anuário Estatístico do Brasil<br />
(1939–1940). Ano V. Brasília: IBGE, 1940.<br />
BRASIL. Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Geografia e Estatística. Anuário Estatístico do Brasil<br />
(1983). Brasília: IBGE, 1984.<br />
COHN, Amélia. Previdência social e processo político no Brasil. São Paulo: Moreira,<br />
1980.<br />
CORDEIRO, Hésio A. A indústria <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Brasil. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Graal, 1980.<br />
CORRÊA FILHO, Virgílio. História <strong>de</strong> Mato Grosso. Rio <strong>de</strong> Janeiro: INL/MEC, 1969.<br />
CORRÊA, Lúcia Salsa. Corumbá: um núcleo comercial na fronteira <strong>de</strong> Mato Grosso,<br />
1870-1920. 1980. 152 f. Dissertação (Mestrado em História), Faculda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Filosofia,<br />
Letras e Ciências Humanas, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo, São Paulo, 1980.<br />
CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e bandidos em Mato Grosso. 1981. 217 f. Tese<br />
(Doutorado em História da Economia Brasileira), Faculda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Filosofia, Letras e<br />
Ciências Humanas, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo, São Paulo, 1982.<br />
FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. São Paulo: Forense, 1978.<br />
LUZ, Ma<strong>de</strong>l Terezinha. As instituições médicas no Brasil: Instituição e estratégia <strong>de</strong><br />
hegemonia. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Graal, 1979.<br />
LUZ, Ma<strong>de</strong>l Terezinha. Medicina e or<strong>de</strong>m política brasileira: políticas e instituições <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> (1850 – 1930). Rio <strong>de</strong> Janeiro: Graal, 1982.<br />
MACHADO, Roberto M. C. Danação da norma. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Graal, 1978.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro das Leis Provinciais <strong>de</strong> Matto-Grosso – Decretos:<br />
1880 a 1883, n. 1. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1884.<br />
MATO GROSSO. O Matto-Grosso, Cuyabá: anos XII e XIII, 1890 e 1891. Cuiabá:<br />
NDHIR/UFMT, 1892.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Decretos do Governo do Estado <strong>de</strong> Matto-<br />
Grosso, 1890 a 1891. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1892.<br />
MATO GROSSO. Colleção <strong>de</strong> Leis e Decretos do Estado <strong>de</strong> Matto-Grosso, 1892 a<br />
1930. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1893.<br />
MATO GROSSO. Relatório <strong>de</strong> Inspectoria <strong>de</strong> Hygiene Pública. Cuiabá: Gazeta<br />
Official n. 694, 1895.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Mensagens do Presi<strong>de</strong>nte do Estado dirigidas<br />
à Assembléia Legislativa no período 1892/1897. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso, 1898.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Mensagens apresentadas à Assembléia<br />
Legislativa no período 1897/1901. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1902.<br />
MATO GROSSO. Relatório <strong>de</strong> Hygiene referente ao ano <strong>de</strong> 1906. Cuiabá: Gazeta<br />
Official, 1907.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Mensagens da Secretaria do Governo,<br />
1902/1910. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1911a.<br />
MATO GROSSO. Relatório <strong>de</strong> Hygiene referente ao ano <strong>de</strong> 1910. Cuiabá: Gazeta<br />
Official n. 3.274, 1911b.<br />
MATO GROSSO. Relatório apresentado ao Secretário <strong>de</strong> Estado do Interior, Justiça<br />
e Fazenda. Cuiabá: Gazeta Official n. 3.378, 1912.<br />
MATO GROSSO. Relatório sobre o estado sanitário da Villa <strong>de</strong> Santo Antônio do Rio<br />
Ma<strong>de</strong>ira. Cuiabá: Gazeta Official n. 3.636, 1913.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Mensagens apresentadas à Assembléia<br />
Legislativa no período 1911/1914. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1915.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Ofícios expedidos pela Inspectoria <strong>de</strong> Hygiene<br />
Pública. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1917.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Mensagens apresentadas à Assembléia<br />
Legislativa no período 1915/1920. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1921.<br />
MATO GROSSO. Colleção <strong>de</strong> Leis e Decretos do Po<strong>de</strong>r Executivo do Estado <strong>de</strong><br />
Matto-Grosso. Cuiabá: Typographia Official, 1922.<br />
MATO GROSSO. Colleção <strong>de</strong> Leis e Decretos do Po<strong>de</strong>r Executivo do Estado <strong>de</strong><br />
Matto-Grosso. Cuiabá: Typographia Official, 1923.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Ofícios expedidos pela Directoria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Pública. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1930.<br />
MATO GROSSO. Livro <strong>de</strong> Registro <strong>de</strong> Mensagens apresentadas à Assembléia<br />
Legislativa no período 1921/1930. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1931a.<br />
MATO GROSSO. Relatório <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso, 1931b.<br />
MATO GROSSO. Indicador das Leis e Decretos do Estado <strong>de</strong> Matto-Grosso,<br />
1880/1935. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1935.<br />
79
80<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
MATO GROSSO. Gazeta Official do Estado, 1890/1917. Cuiabá: Arquivo Público <strong>de</strong><br />
Mato Grosso, 1936a.<br />
MATO GROSSO. Decreto n. 84, <strong>de</strong> 28 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1936. Cuiabá: Gazeta Official<br />
n. 7.353, 1936b.<br />
MATO GROSSO. Decreto n. 171, <strong>de</strong> 7 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 1938. Cuiabá: Gazeta Official, n.<br />
7.770, 1938a.<br />
MATO GROSSO. Decreto n. 186 <strong>de</strong> 23 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 1938. Cuiabá: Diário Oficial do<br />
Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, 1938b.<br />
MATO GROSSO. Ementário da Legislação Estadual 1936-1950. Cuiabá: Arquivo<br />
Público <strong>de</strong> Mato Grosso, 1952.<br />
PECHMAN, Sérgio; FRITSCH, Lilian. A reforma urbana e o seu avesso: algumas<br />
consi<strong>de</strong>rações a propósito da mo<strong>de</strong>rnização do Distrito Fe<strong>de</strong>ral na virada do século.<br />
Revista Brasileira <strong>de</strong> História, São Paulo, v. 5, n. 8/9, 1985.<br />
RIO DE JANEIRO. Directoria Geral <strong>de</strong> Estatística. Recenseamento: 1º <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong><br />
1920. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Typographia da Estatística, 1926. (Synopse).<br />
ROSEN, George. Da polícia médica à medicina social. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Graal, 1979.<br />
(Ensaios sobre a história da assistência médica).
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO:<br />
MUNICIPALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
NA DÉCADA DE 1990<br />
Eixo Temático II
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
APRESENTAÇÃO<br />
O conjunto dos textos apresentados a seguir enfocam as políticas <strong>de</strong><br />
municipalização e regionalização da saú<strong>de</strong> ocorridas no processo <strong>de</strong> implantação do<br />
Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS) nos anos 1990, mas recuperando o <strong>de</strong>bate do final dos<br />
anos 1980 que enfatizava a saú<strong>de</strong> enquanto direito <strong>de</strong> cidadania. De modo geral, todos os<br />
trabalhos evi<strong>de</strong>nciam a importância da esfera municipal <strong>de</strong> governo na nova engenharia<br />
institucional e os limites e obstáculos encontrados para a efetivação <strong>de</strong>sse novo mo<strong>de</strong>lo.<br />
O primeiro trabalho discute o processo <strong>de</strong> implantação do marco normativo do<br />
novo sistema e a luta <strong>de</strong> diferentes atores para ampliar a autonomia e competência dos<br />
municípios na esfera legal. Foi publicado originalmente na Revista Saú<strong>de</strong> em Debates,<br />
do CEBES, em <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1990, quando se discutia nacionalmente a lei orgânica do<br />
SUS, que veio a ser promulgada como Lei n. 8.080/90. Os autores do trabalho, vinculados<br />
à universida<strong>de</strong> e aos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, faziam parte do grupo “Estudo do Processo <strong>de</strong><br />
Municipalização <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso”, do Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong><br />
da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso (NDS/UFMT), coor<strong>de</strong>nado pelo professor<br />
Severino Márcio Meirelles.<br />
O segundo trabalho é a primeira pesquisa sobre a municipalização da saú<strong>de</strong><br />
realizada em Mato Grosso e procura avaliar como se dá o processo tendo como<br />
referência a norma legal, no caso as Leis n. 8.080/90 e 8.142/90, que regulam o processo<br />
<strong>de</strong> organização e gestão do novo sistema. O texto foi publicado na mesma revista, em<br />
<strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1991, pelo mesmo grupo do NDS/UFMT que produziu o trabalho citado<br />
anteriormente. A análise realizada então antecipa alguns dos impasses e obstáculos que<br />
seriam enfrentados no processo <strong>de</strong> municipalização da saú<strong>de</strong>, no estado e no país, nos anos<br />
subsequentes.<br />
83
84<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O terceiro texto também analisa o processo <strong>de</strong> municipalização, mas em período<br />
posterior, 1994-1998, e enfoca os aspectos referentes ao financiamento da saú<strong>de</strong> e sua<br />
influência no processo <strong>de</strong> municipalização, assim como a evolução dos gastos com saú<strong>de</strong><br />
nos municípios. O trabalho foi publicado em 2000, na Revista Panamericana <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Pública, da OPS e foi elaborado apoiado na tese <strong>de</strong> doutorado do professor João Henrique<br />
Scatena, do Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva da UFMT, orientado pelo professor Oswaldo Y.<br />
Tanaka.<br />
O quarto texto enfoca o processo <strong>de</strong> regionalização ocorrido em Mato<br />
Grosso nos anos 1990, mais precisamente no período 1995-2000, a par do processo <strong>de</strong><br />
municipalização. Seu objeto <strong>de</strong> estudo é a política e a gestão estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e o papel<br />
da secretaria estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em relação à cooperação com os municípios e à construção<br />
dos espaços regionais para a formulação das políticas e a organização da atenção à saú<strong>de</strong>.<br />
Foi publicado em 2002 no livro “Regionalização da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: em busca<br />
da integralida<strong>de</strong> da atenção”, publicação pioneira na discussão sobre a regionalização no<br />
âmbito do SUS.<br />
Os organizadores
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
LEIS ORGÂNICAS MUNICIPAIS EM MATO GROSSO:<br />
CAPÍTULO DA SAÚDE 11<br />
Severino Márcio Pereira Meirelles 12<br />
Maria Angélica dos Santos Spinelli 13<br />
Elisete Duarte 14<br />
Janil <strong>de</strong> Oliveira Azevedo 15<br />
Benedito Luiz <strong>de</strong> Figueiredo 16<br />
Ricardo Luiz Chagas 17<br />
Geraldo Benedito Abreu 18<br />
Vanja Jugurtha Bonna 19<br />
Dalva Midori Hirato <strong>de</strong> Souza 20<br />
Maria Welter 21<br />
O estudo apresenta uma análise do Capítulo da Saú<strong>de</strong> nas Leis Orgânicas<br />
Municipais <strong>de</strong> Mato Grosso. Foi apresentada a metodologia <strong>de</strong> orientação que o Núcleo<br />
<strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong> (NDS) da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso (UFMT)<br />
elaborou e realizou junto aos vereadores e socieda<strong>de</strong> civil <strong>de</strong> Mato Grosso. Foram<br />
levantados outros órgãos orientadores, seus mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> leis e tipo <strong>de</strong> intervenção. Foram<br />
analisados os resultados dos vários mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> orientação em 47 dos 95 municípios <strong>de</strong><br />
Mato Grosso, ou seja, 49,5% dos mesmos. São apresentados os padrões e a influência<br />
dos princípios do movimento sanitário nas leis analisadas. O estudo permitiu observar<br />
que há uma base interiorizada do movimento sanitário em Mato Grosso, apesar das<br />
distâncias e dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> comunicação entre os municípios do interior. Verificou-se<br />
que há condições para que no futuro as leis complementares dos municípios materializem<br />
sistemas municipais únicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com base nas lutas do movimento sanitário.<br />
Há um consenso entre sanitaristas e formuladores das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no<br />
Brasil <strong>de</strong> que empreen<strong>de</strong>r um processo <strong>de</strong> reforma sanitária significa atuar com posições<br />
<strong>de</strong> expectativa <strong>de</strong> resultados a longo prazo (TEIXEIRA, 1989).<br />
A VIII Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> constituiu-se em marco neste processo,<br />
colaborando na preparação da Constituinte <strong>de</strong> 1988, que foi marco da luta re<strong>de</strong>mocratização<br />
11 Artigo publicado na Revista Saú<strong>de</strong> em Debate, n. 30, p. 61-65, <strong>de</strong>z. 1990.<br />
12 Professor da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
13 Professora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
14 Professora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
15 Professora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
16 Professor da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso e Técnico da Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
17 Técnico da Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
18 Técnico da Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
19 Técnica da Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
20 Técnica do INAMPS.<br />
21 Técnica do INAMPS.<br />
85
86<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
da socieda<strong>de</strong>, a ampliação dos direitos sociais e políticos e a legalização dos mecanismos<br />
<strong>de</strong> participação popular.<br />
A caracterização da saú<strong>de</strong> como um direito dos cidadãos, as diretrizes para a<br />
reformulação do Sistema <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> caráter universal, hierarquizado e <strong>de</strong>scentralizado,<br />
as bases para o financiamento dos serviços públicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> foram, <strong>de</strong>ntre outros, pontos<br />
que levaram à organização <strong>de</strong> forças sociais que travaram lutas visando assegurar que as<br />
Constituições (Fe<strong>de</strong>ral, Estadual e Municipal) refletissem a posição <strong>de</strong> suas propostas.<br />
Neste campo se posicionaram privativistas, estatistas, sindicalistas, organizações<br />
populares, e outros, que basicamente se polarizam em torno <strong>de</strong> dois projetos: o liberal,<br />
representando os interesses da iniciativa privada; e o sistema único <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, representando<br />
os <strong>de</strong>mais segmentos ligados aos movimentos organizados da socieda<strong>de</strong> civil.<br />
As avaliações da Constituição Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> 1988 (BRASIL, 1988), <strong>de</strong>monstram que<br />
os setores ligados à construção do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS) saíram vitoriosos, com<br />
algumas concessões no que se refere a participação do setor privado como complementar<br />
ao público e não explicitação dos mecanismos <strong>de</strong> participação popular e controle social<br />
(art. 196 a 200, Constituição <strong>de</strong> 1988).<br />
Na mesma perspectiva da construção do SUS, técnicos do setor saú<strong>de</strong>,<br />
professores universitários e setores populares se organizaram em Mato Grosso em torno<br />
da Plenária Popular <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> para garantir posições na Constituição Estadual <strong>de</strong> 1989<br />
(MATO GROSSO, 1989).<br />
Na Constituição do Estado do Mato Grosso <strong>de</strong> 1987 no capítulo referente à<br />
“Saú<strong>de</strong> Pública e Assistência Social” havia apenas um artigo referente à Saú<strong>de</strong>, o 177,<br />
que dizia que o Estado “se incumbirá da Saú<strong>de</strong> da população”, através <strong>de</strong> todos os meios<br />
ao seu alcance.<br />
A Constituição Estadual <strong>de</strong> 1989 introduziu uma seção sobre o tema com 9<br />
artigos que resguardam conquistas já formalizadas na Constituição Fe<strong>de</strong>ral, avançando em<br />
pontos que expressam anseios dos movimentos pró-sistema único, tais como: a criação <strong>de</strong><br />
Conselhos <strong>de</strong> caráter <strong>de</strong>liberativo no nível estadual e municipal, a estatização progressiva<br />
do setor, busca da garantia <strong>de</strong> uma organicida<strong>de</strong> nas competências do SUS, em nível do<br />
Estado. Mantiveram-se em Mato Grosso os limites em relação ao papel do setor privado e<br />
a não garantia <strong>de</strong> recursos para o financiamento do setor, tal como estava na Constituição<br />
Fe<strong>de</strong>ral.<br />
No processo <strong>de</strong> elaboração das leis orgânicas enten<strong>de</strong>-se que os limites gerais<br />
dos princípios legais <strong>de</strong>veriam ser ultrapassados e que a <strong>de</strong>scentralização dos serviços,<br />
da gestão e do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>veria traduzir-se em normas técnicas e administrativas que<br />
garantissem o <strong>de</strong>senho <strong>de</strong> um SUS que se viabilizasse a cada nível, mas principalmente no<br />
município, o mais perto possível do cidadão.<br />
Neste sentido, buscou-se a materialização da observação <strong>de</strong> Campos (1990, p.24-<br />
27): “a questão central a qualquer projeto sério <strong>de</strong> política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> é o da reforma <strong>de</strong> um
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> brasileiro. O importante é efetivamente transformar o sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
num instrumento <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa da vida das pessoas.”.<br />
Engajando-se neste processo, o NDS através do grupo “Estudo do Processo<br />
<strong>de</strong> Municipalização <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso” (1989), <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ou a agregação <strong>de</strong><br />
opiniões, sistematizou, difundiu e discutiu com eles o Capítulo da Saú<strong>de</strong> para as Leis<br />
Orgânicas Municipais.<br />
O presente trabalho visou analisar e interpretar os Capítulos da Saú<strong>de</strong> das Leis<br />
Orgânicas Municipais <strong>de</strong> Mato Grosso, segundo os princípios enunciados nos documentos<br />
básicos formulados para fundamentar a Reforma Sanitária Brasileira, em curso.<br />
1 O PROCESSO DE ASSESSORIA NA FORMULAÇÃO DAS LEIS E<br />
SEUS DETERMINANTES<br />
1.1 O Processo do NDS<br />
O processo <strong>de</strong>senvolvido pelo NDS se <strong>de</strong>u no marco da luta pela Reforma<br />
Sanitária Brasileira segundo os princípios emanados da VIII Conferência Nacional <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> (BRASIL, 1986).<br />
De forma prática representou a coleta <strong>de</strong> propostas oriundas <strong>de</strong> outros núcleos<br />
<strong>de</strong> congêneres, municípios e órgãos <strong>de</strong> assessoria, realizou a análise e a sistematização <strong>de</strong><br />
material obtido. 22<br />
A análise das propostas coletadas nacionalmente conduziu a algumas conclusões.<br />
A maioria <strong>de</strong>las era genérica, reproduzindo a Constituição Fe<strong>de</strong>ral, não avançando na<br />
<strong>de</strong>finição <strong>de</strong> mecanismos que facilitassem a construção do SUS no município.<br />
Não resolviam a contradição entre <strong>de</strong>scentralização (que é um princípio<br />
dispersivo), com a Unida<strong>de</strong> (que exige mecanismos <strong>de</strong> integração e articulação). Não<br />
recuperaram a questão do controle social e da participação popular, <strong>de</strong>fendidos pelo<br />
movimento sanitário e a VIII Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Nas competências do SUS<br />
não <strong>de</strong>senhavam um conjunto que garantisse as características fundamentais <strong>de</strong> uma<br />
estrutura sanitária, neste tópico tendiam a se pulverizar na <strong>de</strong>fesa e competências voltadas<br />
para grupos <strong>de</strong> risco, populacionais ou minoritários, que no enten<strong>de</strong>r dos pesquisadores<br />
estariam asseguradas em um sistema <strong>de</strong>senhado para o atendimento integral e universal, <strong>de</strong><br />
caráter preventivo e curativo, em serviços <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> à disposição <strong>de</strong> toda a população,<br />
segundo perfil epi<strong>de</strong>miológico e os riscos específicos <strong>de</strong> cada região.<br />
A reflexão sobre a construção <strong>de</strong> uma proposta viável passava pelo entendimento<br />
das diferentes realida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Mato Grosso e a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu entendimento e <strong>de</strong>fesa<br />
diante das diferentes forças sociais representadas nos legislativos municipais.<br />
22 As propostas nacionalmente coletadas, que foram discutidas inicialmente foram elaboradas pelas seguintes entida<strong>de</strong>s: Partido Comunista<br />
Brasileiro, Partido dos Trabalhadores (Curitiba/PR), Plenária Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong> Janeiro, I Fórum <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Volta Redonda,<br />
Associação dos Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo, Núcleo <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública da UnB.<br />
87
88<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Algumas peculiarida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Mato Grosso estiveram presentes para o grupo <strong>de</strong><br />
trabalho durante todos os <strong>de</strong>bates.<br />
A situação dos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso era uma <strong>de</strong>las, sendo que cerca <strong>de</strong><br />
50% <strong>de</strong>stes foram criados a partir <strong>de</strong> 1986. As populações dos diferentes municípios<br />
têm uma forte influência das correntes migratórias, que tem apresentado taxas históricas<br />
anuais <strong>de</strong> crescimento populacional <strong>de</strong> 9% ao ano há quase duas décadas. Mesmo com o<br />
crescimento populacional, as distâncias, a dispersão da população no território e o precário<br />
sistema <strong>de</strong> transportes e comunicações representam gran<strong>de</strong> obstáculo para um sistema que<br />
não apresentasse <strong>de</strong>sequilíbrios entre os vários municípios.<br />
As estruturas das prefeituras criadas recentemente apresentam gran<strong>de</strong>s<br />
dificulda<strong>de</strong>s para o fornecimento <strong>de</strong> serviços próprios <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong>vido a: baixa<br />
profissionalização <strong>de</strong> seus quadros <strong>de</strong> pessoal, vícios na formação políticas dos lí<strong>de</strong>res<br />
locais muito comprometidos com uma prática política clientelista e pressão <strong>de</strong> profissionais<br />
e pequenos comerciantes locais para privilegiar seus empreendimentos particulares na<br />
prestação <strong>de</strong> serviços públicos.<br />
Ao lado dos municípios recentes, os antigos, como no caso <strong>de</strong> Cuiabá apresentam<br />
problemas <strong>de</strong> metrópoles com inchamento da cida<strong>de</strong>, favelização e necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
complexas estruturas <strong>de</strong> caráter muito diferenciado do restante do Estado.<br />
O po<strong>de</strong>r legislativo por outro lado, em municípios emergentes, apresenta<br />
li<strong>de</strong>ranças que assumiram a <strong>de</strong>fesa dos interesses públicos muito recentemente, sem<br />
tradição <strong>de</strong> evitar as armadilhas do complexo jogo das re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> interesses que se constituem<br />
na organização social <strong>de</strong> qualquer pequena comunida<strong>de</strong>.<br />
Assim, a diversida<strong>de</strong> dos tipos <strong>de</strong> municípios, <strong>de</strong> seus recursos materiais e humanos<br />
e a condição do jogo e forças políticas dominantes no seio da socieda<strong>de</strong> mato-grossense,<br />
on<strong>de</strong> há o predomínio dos grupos que representam os interesses liberais com pequena<br />
penetração das forças <strong>de</strong> esquerda e populares, levaram a muitas limitações no espectro<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>talhamento da proposta, voltando em muitos tópicos à manutenção do tratamento<br />
genérico. Ficou assim mantida a necessida<strong>de</strong> da elaboração <strong>de</strong> leis complementares para<br />
aten<strong>de</strong>r as especificida<strong>de</strong>s locais.<br />
1.2 Princípios Gerais da Proposta<br />
Em consonância com as diretrizes e princípios extraídos da VII Conferência<br />
Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, a construção da proposta se norteou basicamente em sete pontos<br />
fundamentais:<br />
1. Princípios Fundamentais:<br />
Saú<strong>de</strong> entendida como resultante das condições <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> uma população e,<br />
para tanto, enten<strong>de</strong>ndo-se também que o planejamento das ações e serviços<br />
<strong>de</strong>ve ser realizado <strong>de</strong> forma articulada com os planos <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
municipal tanto para as áreas urbanas quanto para as rurais;
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
O direito à saú<strong>de</strong> e o <strong>de</strong>ver do Estado – visando a cobertura progressiva e<br />
universal dos serviços públicos;<br />
2. Mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> Assistência e <strong>de</strong> Serviços:<br />
Integralida<strong>de</strong> das ações – sendo <strong>de</strong>lineados mo<strong>de</strong>los assistenciais e <strong>de</strong><br />
serviços que garantam a base da integralida<strong>de</strong> do serviço e <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> da<br />
atenção à saú<strong>de</strong> do âmbito do município;<br />
3. Gestão:<br />
Garantindo instância colegiada suprainstitucional com representação da<br />
socieda<strong>de</strong> civil e <strong>de</strong> profissionais do setor para <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s,<br />
políticas, programas, orçamentos e acompanhamento das ações;<br />
4. Financiamento:<br />
Definidos critérios <strong>de</strong> orçamentação que garantam a manutenção dos<br />
serviços implantados e sua expansão gradativa com vistas a atingir a<br />
cobertura universal. Fixação <strong>de</strong> teto mínimo para gastos com a saú<strong>de</strong> com<br />
o patamar <strong>de</strong> garantia para viabilização do setor;<br />
5. Informação e Controle Social:<br />
Garantia <strong>de</strong> direito à população <strong>de</strong> informações <strong>de</strong> natureza administrativa<br />
e técnica através <strong>de</strong> instrumentos compatíveis com o tipo <strong>de</strong> informação.<br />
Direito do cidadão <strong>de</strong> exigir a informação <strong>de</strong> seu interesse e solicitar<br />
abertura <strong>de</strong> sindicância quando se julgar prejudicado individual ou<br />
coletivamente;<br />
6. Participação Popular:<br />
Mecanismos <strong>de</strong> garantia <strong>de</strong> participação popular na produção (práticas<br />
tradicionais e alternativas), gestão (participação em conselhos, escolhas<br />
<strong>de</strong> dirigentes) e controle (acompanhamento e avaliação dos serviços), dos<br />
serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>;<br />
7. Competência do SUS:<br />
O elenco <strong>de</strong> competências que garantisse a construção <strong>de</strong> uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
atendimento <strong>de</strong> caráter integral (curativo, preventivo e <strong>de</strong> controle<br />
ambiental), com cobertura universal e que aten<strong>de</strong>sse as peculiarida<strong>de</strong>s<br />
epi<strong>de</strong>miológicas <strong>de</strong> cada localida<strong>de</strong>.<br />
1.3 Prática Política<br />
A prática adotada pelo grupo foi a da comunicação com os grupos organizados<br />
nacionalmente com representativida<strong>de</strong> na luta pela construção do SUS e localmente a<br />
aglutinação <strong>de</strong> todas as forças que pu<strong>de</strong>ssem a<strong>de</strong>rir ao mo<strong>de</strong>lo que vem sendo construído<br />
nacionalmente.<br />
Nesta prática se articulou o geral ao particular e o particular ao geral, conseguiu-se<br />
introduzir pontos <strong>de</strong> luta dos partidos <strong>de</strong> esquerda e das organizações sindicais e populares<br />
89
90<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong> caráter nacional na proposta e na a<strong>de</strong>são à mesma das variadas correntes políticas. Nas<br />
fases preliminares 23 um arco significativamente variado <strong>de</strong> forças políticas participam,<br />
fases estas em que se conseguiu a disseminação <strong>de</strong> versões da proposta a quase todos os<br />
municípios <strong>de</strong> Mato Grosso, ou através <strong>de</strong> Conselhos <strong>de</strong> Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
(COSEMS/MT) ou através da União <strong>de</strong> Vereadores <strong>de</strong> Mato Grosso (UVEMAT).<br />
A explicitação das posições se <strong>de</strong>u na fase final quando foi organizado um<br />
seminário 24 para vereadores em Cuiabá, com o convite a todas as câmaras e a participação<br />
<strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 30% dos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso. Neste seminário os liberais começaram<br />
a explicar suas resistências ao controle social, apresentado como parte da proposta,<br />
que representava um ponto <strong>de</strong> radicalização do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático no projeto. Se por<br />
um lado houve resistências a um ponto fundamental na construção <strong>de</strong> um controle <strong>de</strong><br />
serviços pela população, por outro diminuiu a resistência em pontos mais discursivos,<br />
mas que garantem e asseguram princípios que representam a luta dos setores populares,<br />
tais como: o princípio <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> como um elenco <strong>de</strong> vários direitos concretos, como por<br />
exemplo o direito a proprieda<strong>de</strong> da terra e a saú<strong>de</strong> no planejamento urbano, bem como na<br />
gestão contando com níveis <strong>de</strong>liberativos colegiados, com participação <strong>de</strong> trabalhadores<br />
e usuários.<br />
A prática política do grupo em torno da Universida<strong>de</strong> contou com a a<strong>de</strong>são dos<br />
mais variados matizes i<strong>de</strong>ológicos nos vários eventos <strong>de</strong> construção da proposta, bem como<br />
na sua difusão e discussão. O processo levado a efeito facilitou a expressão dos interesses<br />
<strong>de</strong>mocráticos e nos <strong>de</strong>bates abertos e livres a a<strong>de</strong>são <strong>de</strong> variados segmentos na <strong>de</strong>fesa da<br />
proposta. No entanto, foi possível <strong>de</strong>sta forma viabilizar a adoção da proposta com seu<br />
conteúdo <strong>de</strong>mocrático e popular em municípios <strong>de</strong> diferentes tendências i<strong>de</strong>ológicas.<br />
A influência na política real po<strong>de</strong> ser avaliada através do resultado obtido nas leis<br />
aprovadas pelas Câmaras Municipais.<br />
1.4 Outros Agentes Intervenientes<br />
Os municípios receberam influência <strong>de</strong> trabalhos realizados diretamente pela<br />
assessoria <strong>de</strong> parlamentares estaduais e fe<strong>de</strong>rais, da Or<strong>de</strong>m dos Advogados do Brasil<br />
(OAB), <strong>de</strong> partidos políticos e <strong>de</strong> agências, tais como: Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Administração<br />
Municipal (IBAM) e outras <strong>de</strong> assessoria municipal.<br />
23 Na 1ª fase dos trabalhos foi realizada uma reunião na UFMT para discussão da primeira versão do anteprojeto em diversas entida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
categoria profissionais, representantes <strong>de</strong> instituições do setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, representante <strong>de</strong> organizações da socieda<strong>de</strong><br />
civil e movimentos populares. Foi também realizada uma segunda reunião com a diretoria do Conselho <strong>de</strong> Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
quando foi fechada a proposta da primeira fase.<br />
24 Na fase final <strong>de</strong> elaboração e discussão da proposta foi organizado um seminário com as seguintes características: O Seminário “A Saú<strong>de</strong><br />
na Lei Orgânica Municipal” foi realizado no período <strong>de</strong> 13 e 14 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 1990, numa promoção do NDS da UFMT, através do Grupo<br />
<strong>de</strong> Estudo do Processo <strong>de</strong> Municipalização da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso, da SES/MT e da UVEMAT, contou ainda com o apoio da AMM,<br />
do IBAM e COSEMS/MT. Os objetivos propostos pelo seminário foram: 1) Apresentar e discutir a proposta da Lei Orgânica Municipal –<br />
Capítulo da Saú<strong>de</strong>, entre presi<strong>de</strong>ntes e relatores das constituintes municipais; 2) Fornecer subsídios técnicos e jurídicos para a elaboração<br />
do Capítulo da Saú<strong>de</strong> nas Leis Orgânicas Municipais, baseados nos princípios gerais e específicos da Constituição Fe<strong>de</strong>ral e Estadual.<br />
O seminário contou com a participação representativa <strong>de</strong> diversos setores da socieda<strong>de</strong> mato-grossense estando assim distribuídos: 34<br />
Vereadores, sendo 31 do Interior e 03 <strong>de</strong> Cuiabá; 04 Assessores Parlamentares do interior do estado; 08 Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
30 Profissionais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, sendo 06 do Interior e 24 <strong>de</strong> Cuiabá; 12 Docentes e Técnicos da UFMT; 20 Alunos dos Cursos <strong>de</strong> Medicina,<br />
Enfermagem e Nutrição da UFMT; 02 Assessores Jurídicos <strong>de</strong> Câmaras Municipais; 16 Entida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Classe e Representantes da Socieda<strong>de</strong><br />
Civil e Organizada.
2 MATERIAL E MÉTODO<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
O presente trabalho coletou as “Leis Orgânicas Municipais, Capítulo da Saú<strong>de</strong>”,<br />
promulgadas nos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso, por meio da UVEMAT, Secretaria <strong>de</strong><br />
Estado da Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso (SES/MT), NDS da UFMT e Assessorias Parlamentares<br />
<strong>de</strong> Deputados Estaduais.<br />
Foram levadas as fontes, mo<strong>de</strong>los e tipos <strong>de</strong> orientações fornecidas aos<br />
municípios para formulação <strong>de</strong> Leis Orgânicas junto aos agentes políticos, órgãos<br />
estaduais e entida<strong>de</strong>s da socieda<strong>de</strong> civil.<br />
As leis obtidas foram analisadas quanto à influência política <strong>de</strong> sua formulação,<br />
classificando-as e analisando-as segundo padrões dos agentes orientadores. Foram<br />
também analisadas no seu conteúdo, i<strong>de</strong>ntificando sua a<strong>de</strong>são aos princípios da Reforma<br />
Sanitária emanados da VIII Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e dos trabalhos da Comissão<br />
Nacional da Reforma Sanitária.<br />
O padrão <strong>de</strong> interpretação da a<strong>de</strong>são e viabilização dos princípios da Reforma<br />
Sanitária adotado foi o da proposta do NDS.<br />
3 COMENTÁRIOS E CONCLUSÕES<br />
Os dados obtidos representaram 49,5% dos municípios, ou seja, conseguiram-se<br />
as Leis <strong>de</strong> 47 dos 95 municípios <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
Os municípios analisados representam as mais diferentes regiões, tipos <strong>de</strong><br />
cida<strong>de</strong>s em relação ao tamanho da população, diversida<strong>de</strong> ecológica e complexida<strong>de</strong><br />
econômica, social e política. Assim sendo, temos municípios agrícola, extrativista vegetal<br />
e mineral, dirigidos pelos mais diversos partidos políticos, bem com a presença <strong>de</strong> centros<br />
metropolitanos regionais. Enten<strong>de</strong>-se que a amostra analisada foi obtida <strong>de</strong> forma aleatória<br />
e po<strong>de</strong> representar o conjunto <strong>de</strong> municípios do Estado.<br />
Pela investigação realizada verifica-se no Quadro 1 que diversos agentes<br />
políticos, instituições e associações civis tiveram interferência <strong>de</strong>cisiva no formato final<br />
assumido nos Capítulos da Saú<strong>de</strong> das Leis Orgânicas Municipais <strong>de</strong> Mato Grosso. Mesmo<br />
consi<strong>de</strong>rando a existência <strong>de</strong> outras fontes <strong>de</strong> orientação nas próprias localida<strong>de</strong>s, ou<br />
vínculos diretos com outros Estados, pelos resultados observados no Quadro 2 po<strong>de</strong>-se<br />
constatar que foram as instituições i<strong>de</strong>ntificadas como orientadoras no processo as que<br />
contribuíram para os resultados obtidos.<br />
Quanto aos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> proposta, verificou-se que a maior parte dos órgãos<br />
orientadores estabeleceram relações mais ou menos amplas com as propostas do<br />
movimento sanitário, consi<strong>de</strong>rando-se que para tal, partiram pelo menos das <strong>de</strong>finições da<br />
Constituição Fe<strong>de</strong>ral ou Estadual <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
Dentre estas, a mais pobre foi a da Associação Mato-grossense dos Municípios<br />
(AMM) que, ao simplificar as Constituições, excluiu <strong>de</strong> sua proposta avanços já<br />
91
92<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
consolidados, tais como a instância <strong>de</strong>liberativa do SUS, <strong>de</strong> caráter colegiado, o Conselho<br />
Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, e optou pelas competências da Constituição Fe<strong>de</strong>ral que são mais<br />
fragmentadas e não <strong>de</strong>senham um perfil para o sistema, ao inverso da <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
Os tipos <strong>de</strong> intervenção variaram, verificando-se que pelo menos os diversos<br />
órgãos fizeram chegar às Câmaras Constituintes Municipais as suas propostas, em outros<br />
casos houve investimento em Seminários e orientações “in loco”.<br />
A observação da existência <strong>de</strong> padrões <strong>de</strong> lei <strong>de</strong> acordo com mo<strong>de</strong>lo dos órgãos<br />
orientadores (Quadro 2) permitiu verificar a prepon<strong>de</strong>rância <strong>de</strong> certas correntes políticas<br />
em certos municípios. Sendo assim, 5 mo<strong>de</strong>los foram adotados integralmente em 63,8%<br />
dos municípios estudados. A influência mista, que <strong>de</strong>monstrou a composição <strong>de</strong> forças<br />
políticas, verificou-se em 36,2% dos municípios.<br />
Quadro 1 – Caracterização dos processos <strong>de</strong> apoio à construção das Leis Orgânicas<br />
Municipais em Mato Grosso
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 2 – Número e proporções <strong>de</strong> Leis Orgânicas Municipais segundo os padrões dos<br />
órgãos intervenientes (Quadro 1) na orientação da elaboração<br />
(*) Um padrão <strong>de</strong> lei que surgiu <strong>de</strong> um Deputado Estadual foi o que seguiu o mo<strong>de</strong>lo da Cida<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong><br />
Janeiro, com gran<strong>de</strong>s avanços nas lutas do movimento sanitário e construção do SUS.<br />
(**) O padrão misto consiste <strong>de</strong> um grupo <strong>de</strong> leis que seguem parte <strong>de</strong> vários agentes intervenientes na<br />
orientação. Este grupo caracteriza-se por manter os principais avanços conseguidos nas Constituições<br />
Fe<strong>de</strong>rais e do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso na construção do SUS, com ampliações parciais das propostas do<br />
NDS e cida<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong> Janeiro.<br />
(***) O padrão simplista constitui-se <strong>de</strong> leis que não seguiram parte das Constituições Fe<strong>de</strong>rais e Estaduais;<br />
restringindo-se a dois artigos genéricos, simplistas e <strong>de</strong>slocados da discussão atual da reforma sanitária, com<br />
gran<strong>de</strong>s retrocessos na luta do movimento sanitário. Foi elaborado e divulgado pela assessoria <strong>de</strong> um dos<br />
parlamentares estaduais.<br />
Dos padrões analisados, dois eram <strong>de</strong> tendências <strong>de</strong>talhistas que permitem<br />
<strong>de</strong>linear um perfil mais objetivo do SUS, o do NDS e o da cida<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong> Janeiro,<br />
que juntos compreen<strong>de</strong>ram 27,7% dos municípios investigados. Os padrões da<br />
Companhia <strong>de</strong> Desenvolvimento do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso (CODEMAT) e misto, que<br />
compreen<strong>de</strong>m 49%, apresentaram normas gerais, mas garantindo o perfil das lutas dos<br />
movimentos sociais. Somente os padrões da Associação Mato-grossense dos Municípios<br />
e o <strong>de</strong>nominado “simplista” regrediram nas conquistas das lutas do movimento sanitário,<br />
mesmo as já asseguradas nas Constituições, e representam 23,3% dos analisados.<br />
Quadro 3 – Número e proporções <strong>de</strong> Capítulos da Saú<strong>de</strong> (Leis Orgânicas Municipais)<br />
que contêm os princípios da Reforma Sanitária com as categorias <strong>de</strong> sua presença nas Leis<br />
O Quadro 3, que compreen<strong>de</strong> uma análise da presença <strong>de</strong> 7 princípios que<br />
materializariam as lutas da reforma sanitária nas leis, permitiu verificar que a presença<br />
<strong>de</strong>stes se faz diferentemente. No caso do princípio genérico, como o conceito <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
e os princípios fundamentais, apresentados na Categoria 1, foi garantido em 74%<br />
integralmente, bem como a presença <strong>de</strong> instância <strong>de</strong>liberativa colegiada, Categoria 3, foi<br />
garantida em 58% das leis integralmente. Estes dois princípios foram pontos <strong>de</strong> avanço da<br />
Constituição do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso em relação à Fe<strong>de</strong>ração e já estavam assegurados<br />
93
94<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
nela, facilitando sua adoção pelos municípios. Já o Princípio 4, o do financiamento,<br />
apresentou a maior proporção <strong>de</strong> não incorporação, com 66% <strong>de</strong> ausência nas leis. Esta<br />
foi uma questão polêmica na Constituição Fe<strong>de</strong>ral, permaneceu discutida na do Estado<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso, prosperando sempre a tese dos tributaristas que evitavam fixar tetos<br />
<strong>de</strong> financiamento, ou critérios, diante do argumento do dinamismo da vida social e<br />
política, bem como as diferentes priorida<strong>de</strong>s dadas aos governantes para cada tópico<br />
da administração pública. A situação em nível dos municípios refletiu esta tendência.<br />
Algumas categorias, tais como mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> serviços, controle social e direito à informação<br />
e participação popular e as competências do sistema incluíram-se <strong>de</strong>ntre aquelas em que<br />
houve maior proporção <strong>de</strong> presença parcial, o que evitou um comprometimento objetivo<br />
em relação aos mesmos. Conseguiu-se assegurar sua presença <strong>de</strong> forma indicativa, mas<br />
não com aplicação imediata, exigindo leis complementares para sua regulamentação.<br />
Quanto ao conjunto das sete categorias analisadas, consi<strong>de</strong>rando-se que a<br />
presença total ou parcial configurou-se na consolidação <strong>de</strong> avanços <strong>de</strong>ntro do marco do<br />
movimento sanitário, observa-se que suas propostas estão contempladas em seis das sete<br />
categorias analisadas.<br />
Este estudo permite observar que há uma base, até certo ponto articulada, do<br />
movimento sanitário em Mato Grosso. Apesar das gran<strong>de</strong>s distâncias físicas entre os<br />
municípios do interior e os gran<strong>de</strong>s centros que li<strong>de</strong>ram os movimentos sociais, das<br />
dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> comunicação e informação, houve uma presença marcante das propostas<br />
do movimento sanitário nas Leis Orgânicas Municipais – Capítulo da Saú<strong>de</strong> em Mato<br />
Grosso.<br />
Como as Leis exigirão complementação normativa por meio <strong>de</strong> códigos sanitários<br />
municipais, po<strong>de</strong>-se concluir que há uma sustentação objetiva para a materialização <strong>de</strong> um<br />
Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, com base municipal no Estado <strong>de</strong> Mato Groso.<br />
REFERÊNCIAS<br />
BRASIL. Constituição da República Fe<strong>de</strong>rativa do Brasil (1988). Brasília: Senado<br />
Fe<strong>de</strong>ral, 1988.<br />
CAMPOS, G. W. S. Um balanço do processo <strong>de</strong> municipalização dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
do Brasil. Saú<strong>de</strong> em Debate, Londrina, n. 28, p. 24-27, mar. 1990.<br />
CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, VIII, 1986, Brasília. Anais da VIII<br />
Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Brasília: Centro <strong>de</strong> Documentação do Ministério da<br />
Saú<strong>de</strong>, 1987.<br />
MATO GROSSO. Constituição do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Cuiabá: Câmara Municipal,<br />
1989.<br />
TEIXEIRA, S. F. et al. Reforma Sanitária em busca <strong>de</strong> uma teoria. São Paulo: Cortez;<br />
Abrasco, 1989.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
O PROCESSO DE MUNICIPALIZAÇÃO DA SAÚDE DE MATO<br />
GROSSO: NOTAS PRÉVIAS 25<br />
Severino Márcio Pereira Meirelles 26<br />
Maria Angélica dos Santos Spinelli 27<br />
Janil <strong>de</strong> Oliveira Azevedo 28<br />
Elisete Duarte 29<br />
Dalva Midori Hirato <strong>de</strong> Souza 30<br />
Vanja Jugurtha Bonna 31<br />
Este estudo apresenta uma abordagem preliminar sobre o processo <strong>de</strong><br />
Municipalização da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso através da análise <strong>de</strong> informações colhidas<br />
em sete municípios do Estado. São analisados o perfil tipológico dos municípios diante<br />
do processo e as respostas que estão sendo fornecidas em frente das exigências da Lei<br />
n. 8.142 para os municípios receberem recursos diretamente do Instituto Nacional <strong>de</strong><br />
Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS).<br />
O estado <strong>de</strong> Mato Grosso internaliza <strong>de</strong> forma peculiar as políticas nacionais<br />
em seu território como parte do estado fe<strong>de</strong>ral brasileiro. O trabalho “A constituição dos<br />
Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública em Mato Grosso – 1980-1940”, <strong>de</strong> Maciel (1985), <strong>de</strong>monstra<br />
como naquele período as políticas <strong>de</strong> intervenção do Estado na saú<strong>de</strong> da população<br />
por intermédio da criação <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> atendimento correspon<strong>de</strong>ram aos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong><br />
reorganização da saú<strong>de</strong> pública dos anos 90 do século XIX e da reforma <strong>de</strong> Carlos Chagas<br />
<strong>de</strong> 1923. As particularida<strong>de</strong>s históricas, políticas e geográficas sempre se impuseram.<br />
Naquele período do século XIX e início do século XX o Estado recebia gran<strong>de</strong> influência<br />
internacional, principalmente da Europa, <strong>de</strong>vido a sua principal via <strong>de</strong> transporte, a<br />
fluvial, através da bacia do Prata, que o colocava em ligação com as capitais culturais e<br />
econômicas do mundo quase na mesma proporção que com a capital do país.<br />
Com a interrupção das ligações diretas com os gran<strong>de</strong>s centros internacionais<br />
por via fluvial, como resultado da política <strong>de</strong> substituição <strong>de</strong> importações que proibiu o<br />
comércio pela bacia do Prata, a partir dos anos 1930, modificam as formas <strong>de</strong> articulação<br />
com o conjunto da nação. A Marcha para o Oeste no final da década <strong>de</strong> 1940 e início<br />
25 Artigo publicado na Revista Saú<strong>de</strong> em Debate, n. 33, p. 90-93, <strong>de</strong>z. 1991.<br />
26 Professor da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
27 Professora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
28 Professora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
29 Professora da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
30 Técnica da FUNASA.<br />
31 Técnica da Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
95
96<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
da <strong>de</strong> 1950 vai atingi-lo da periferia para o centro, principalmente ao sul, na região <strong>de</strong><br />
Dourados, e a leste na região <strong>de</strong> Barra do Garças e Xavantina. Na década <strong>de</strong> 1960 novas<br />
formas <strong>de</strong> articulação são estabelecidas através <strong>de</strong> projetos rodoviários que integram<br />
Cuiabá mais intensamente ao contexto nacional. Na década <strong>de</strong> 1970 vários projetos<br />
rodoviários rumo à Amazônia atravessam o território <strong>de</strong> Mato Grosso, acompanhados<br />
<strong>de</strong> incentivos fiscais, creditícios e recursos internacionais, que financiam a expansão da<br />
fronteira econômica e agrícola nacional (CANCELLI, 1984). Dos projetos da década<br />
1970, ressalta-se o Programa <strong>de</strong> Desenvolvimento Rural Integrado (PDRI), que aplicou<br />
recursos em infraestrutura, tal como expansão da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública da região ao longo<br />
da rodovia Cuiabá-Porto Velho (MEIRELLES, 1984).<br />
Na questão <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, as mudanças da política nacional <strong>de</strong> assistência médica<br />
realizadas em 1966, com a unificação das caixas e institutos e a criação do Instituto<br />
Nacional <strong>de</strong> Previdência Social (INPS), encontraram condições propícias para imprimir<br />
suas características na região que hoje compreen<strong>de</strong> o Estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Esta região<br />
não contava com mais <strong>de</strong> <strong>de</strong>z municípios <strong>de</strong> pequena expressão em 1966, e hoje tem 94<br />
municípios, na sua maioria criados após 1970.<br />
O mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> resultante da dicotomia assistência médica/saú<strong>de</strong> pública,<br />
correspon<strong>de</strong>nte ao INPS/Secretarias <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, foi reproduzido na unida<strong>de</strong> fe<strong>de</strong>rada que<br />
resultou da divisão do Estado <strong>de</strong> 1979, pois os municípios eram criados sob a égi<strong>de</strong> do<br />
aparato legal e do mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> vigente que resultava no processo em curso no Brasil,<br />
apesar da antiga colonização <strong>de</strong> cida<strong>de</strong>s como Cuiabá, Cáceres, e Vila Bela da Santíssima<br />
Trinda<strong>de</strong>, existentes no território do atual estado <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
Os mesmos problemas <strong>de</strong>correntes do mo<strong>de</strong>lo nacional reproduziram-se<br />
em Mato Grosso, tais como: baixa cobertura populacional, má qualida<strong>de</strong> da atenção à<br />
população previ<strong>de</strong>nciária, re<strong>de</strong> <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública insuficiente para dar conta <strong>de</strong> en<strong>de</strong>mias<br />
como a malária e leishmaniose que assolaram as frentes <strong>de</strong> colonização agrícola e mineral,<br />
bem como esta re<strong>de</strong> era insuficiente para cobrir os novos centros urbanos que passaram a<br />
inchar com o processo migratório.<br />
Os ajustes realizados no mo<strong>de</strong>lo nacional, com abertura <strong>de</strong> convênios do INAMPS<br />
com o setor público criando as Ações Integradas <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (AIS) e posteriormente o<br />
Sistema Unificado e Descentralizado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUDS), foram aceitos. As AIS foram<br />
implantadas nas principais cida<strong>de</strong>s do Estado ainda em 1984, em seu lançamento, e o<br />
SUDS adotado como mo<strong>de</strong>lo por prefeituras <strong>de</strong> expressão como Cuiabá e Rondonópolis,<br />
resultando em sistemas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Tendo em vista as mudanças ocorridas na política nacional <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com a<br />
constituição <strong>de</strong> 1988 que criou o Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS), foi elaborado um estudo<br />
para avaliar o Processo <strong>de</strong> Municipalização da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso.<br />
Este estudo visou estudar os <strong>de</strong>terminantes internos administrativos, gerenciais<br />
e organizacionais ao processo <strong>de</strong> municipalização, já que estudos nacionais como o<br />
realizado por Teixeira et al. (1989) haviam analisado <strong>de</strong>terminantes externos.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
O estudo teve como base uma entrevista estruturada com o Secretário Municipal<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> ou responsável por órgão correspon<strong>de</strong>nte, a análise <strong>de</strong> leis, normas e outros<br />
documentos produzidos pelas secretarias que regem e caracterizam seu funcionamento e<br />
ativida<strong>de</strong>s.<br />
Para escolha <strong>de</strong> municípios que constituíram a amostra representativa dos<br />
municípios <strong>de</strong> Mato Grosso foram elaborados critérios <strong>de</strong> seleção <strong>de</strong> acordo com os<br />
seguintes estratos:<br />
a) Municípios-se<strong>de</strong> <strong>de</strong> polo administrativo da Secretaria Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
b) Três categorias <strong>de</strong> municípios <strong>de</strong> acordo com o tamanho da população,<br />
compreen<strong>de</strong>ndo neste indicador populacional concentração <strong>de</strong> condições<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento econômico-social expressas no tamanho da população;<br />
c) Duas categorias <strong>de</strong> município segundo o critério <strong>de</strong> acessibilida<strong>de</strong>,<br />
consi<strong>de</strong>rando acessibilida<strong>de</strong> o tempo <strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamento do município para a<br />
se<strong>de</strong> do polo regional segundo os meios <strong>de</strong> transporte correntes.<br />
Segundo o critério (a), dois municípios foram consi<strong>de</strong>rados autorrepresentativos<br />
e escolhidos sem sorteio por suas peculiarida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>ntre os municípios-polo. Cuiabá, pela<br />
expressão populacional e por ser capital do Estado, e Porto Alegre do Norte, por distar 23<br />
horas <strong>de</strong> ônibus da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá. Foram sorteados Rondonópolis e Sinop do conjunto<br />
das outras cida<strong>de</strong>s-polo.<br />
Da articulação dos critérios (b) e (c) foram elaboradas 6 listas <strong>de</strong> municípios,<br />
associando critérios <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>, média e pequena população com gran<strong>de</strong> e pequeno tempo<br />
<strong>de</strong> acesso. De cada lista foi sorteado um município, que foram os seguintes: Alta Floresta,<br />
Paranaíta, São José dos Quatro Marcos, Vila Bela da Santíssima Trinda<strong>de</strong>, Dom Aquino<br />
e Campo Novo dos Parecis.<br />
Dadas as condições <strong>de</strong> realização do trabalho ainda não foram levantados os<br />
dados em Cuiabá, Campo Novo dos Parecis e São José dos Quatro Marcos; foi acrescido<br />
um município polo além dos escolhidos – Cáceres; e o município <strong>de</strong> Vila Bela da<br />
Santíssima Trinda<strong>de</strong> foi trocado pelo município vizinho <strong>de</strong> Pontes e Lacerda.<br />
Até o momento foram estudados 72,7% dos municípios <strong>de</strong> uma amostra <strong>de</strong> 11,<br />
representando 12% dos municípios do Estado.<br />
Os dados aqui analisados foram colhidos no período <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1990 a<br />
agosto <strong>de</strong> 1991.<br />
É importante consi<strong>de</strong>rar que no período estudado os municípios já estavam sob<br />
influência da Constituição Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> 1988 e Constituição do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso <strong>de</strong><br />
1989 e das Leis Orgânicas municipais (MEIRELLES et al., 1990), assim como das Leis<br />
n. 8.080, <strong>de</strong> 19/09/1990, e 8.142, <strong>de</strong> 28/12/1990 – que <strong>de</strong>limitaram o perfil do SUS –, e<br />
97
98<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
sob égi<strong>de</strong> dos seis pontos 32 exigidos para inclusão no processo <strong>de</strong> municipalização, para<br />
recebimento das UCA (Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cobertura Ambulatorial).<br />
1 O PROCESSO DE MUNICIPALIZAÇÃO DA SAÚDE EM MATO<br />
GROSSO<br />
O processo <strong>de</strong> municipalização da saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ado em duas etapas em<br />
Mato Grosso. A primeira etapa <strong>de</strong>nominou-se pré-municipalização, <strong>de</strong>senvolvida a partir<br />
<strong>de</strong> convênio entre Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SES) e Prefeituras em maio <strong>de</strong> 1989,<br />
após a elaboração das Constituições e antes das Leis Complementares do SUS. Essa etapa<br />
repassou o gerenciamento das unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> a título precário, pelo prazo experimental<br />
<strong>de</strong> seis meses, às Prefeituras que a<strong>de</strong>riram ao convênio. Os recursos financeiros repassados<br />
aos municípios correspondiam ao convênio SUDS.<br />
A segunda etapa, que se <strong>de</strong>nominou efetivamente <strong>de</strong> municipalização,<br />
compreen<strong>de</strong>u a assinatura <strong>de</strong> três convênios entre as Prefeituras e a SES, em 17/12/1990,<br />
que foram: Termo Administrativo <strong>de</strong> Cessão das Unida<strong>de</strong>s Sanitárias, Convênio <strong>de</strong><br />
Cedência <strong>de</strong> Pessoal e Convênio <strong>de</strong> Implantação do SUS. Nesta etapa a<strong>de</strong>riram 91 dos 94<br />
municípios <strong>de</strong> Mato Grosso. Além <strong>de</strong>sses convênios foram procedidas as novas formas<br />
<strong>de</strong> repasse das Autorizações <strong>de</strong> Internação Hospitalar (AIH) via Secretarias Municipais <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>, ou congêneres. Os convênios da municipalização em Mato Grosso já seguiam a<br />
Lei n. 8.080. Logo a seguir, com a promulgação da Lei n. 8.142, <strong>de</strong> seis pontos exigidos<br />
pela lei para recebimento direto <strong>de</strong> recurso via INAMPS para o SUS.<br />
Como os municípios tinham sua história, com legislações, estruturas e<br />
organizações próprias, o impacto <strong>de</strong>stas medidas sobre os municípios resultou no atual<br />
perfil <strong>de</strong> municipalização da saú<strong>de</strong> em Mato Grosso.<br />
A história da saú<strong>de</strong> nos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso segue um curso<br />
aparentemente espontâneo que acompanha a criação das cida<strong>de</strong>s e sua institucionalização<br />
com a transformação dos povoados em distritos e <strong>de</strong>pois Prefeituras. No caso da saú<strong>de</strong><br />
o aparente espontaneísmo em que profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> procuraram esses povoados<br />
ou para eles foram encaminhados, geralmente obtendo um vínculo empregatício com<br />
a SES ou Prefeitura para um Posto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> local, era seguido pela abertura <strong>de</strong> uma<br />
pequena clínica e <strong>de</strong>pois hospital local, <strong>de</strong> caráter privado ou filantrópico. O resultado<br />
do processo é tão regular que se po<strong>de</strong> enunciar que expressou a lógica da expansão do<br />
sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pela via privada, apoiada pelo Estado e Prefeituras, setor público, on<strong>de</strong><br />
o contrato do profissional respondia a um compromisso político com a saú<strong>de</strong>, e nem<br />
sempre correspondia ao <strong>de</strong>sejo <strong>de</strong> implantar uma estrutura <strong>de</strong> serviços, ao mesmo tempo<br />
32 I- Fundo Único Municipal e Estadual; II- Conselho <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, com composição <strong>de</strong> acordo com o Decreto n. 99.438, <strong>de</strong> 07/08/1990;<br />
III- Plano <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; IV- Relatório <strong>de</strong> Gestão, que permita o controle <strong>de</strong> que trata o parágrafo 4º do art. 33 da Lei n. 8.080, <strong>de</strong> 19/09/1990;<br />
V- Contrapartida <strong>de</strong> recursos para a saú<strong>de</strong> no respectivo orçamento; VI- Comissão <strong>de</strong> elaboração do Plano <strong>de</strong> Carreira, Cargos e Salários<br />
(PCCS) previsto o prazo <strong>de</strong> dois anos para sua implantação.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
permitindo que os profissionais passassem a ofertar um alternativa privada (lucrativa ou<br />
filantrópica) para atendimento das necessida<strong>de</strong>s e <strong>de</strong>mandas das populações.<br />
Os municípios <strong>de</strong> maior porte e algumas Prefeituras com gestão progressista<br />
conseguiram alguma diferenciação neste processo, os <strong>de</strong>mais têm o sistema privado como<br />
sua base quase exclusiva <strong>de</strong> atenção à população.<br />
Três tipos <strong>de</strong> estruturas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> foram encontrados, todos os três<br />
tendo em comum a predominância da re<strong>de</strong> privada sobre a pública.<br />
Grupo I: Municípios com estrutura municipal <strong>de</strong> serviços públicos em saú<strong>de</strong>,<br />
com legislação, estrutura institucionalizada, experiência gerencial e serviços instalados e<br />
funcionando com impacto sobre a <strong>de</strong>manda.<br />
Grupo II: Municípios com precária estrutura municipal <strong>de</strong> serviços públicos em<br />
saú<strong>de</strong>, com alguma base legal e institucionalização <strong>de</strong> estrutura, com pouca experiência<br />
gerencial e pequeno impacto sobre a <strong>de</strong>manda.<br />
Grupo III: Municípios com ausência ou quase ausência <strong>de</strong> estrutura <strong>de</strong> serviços<br />
públicos em saú<strong>de</strong>, com pequena base legal e institucionalização do setor, com precarieda<strong>de</strong><br />
tanto no setor público como privado.<br />
O processo <strong>de</strong> municipalização resultou do somatório da estrutura municipal<br />
com aquela repassada pela Secretaria <strong>de</strong> Estado da Saú<strong>de</strong>.<br />
Nos municípios do Grupo I, que compreen<strong>de</strong>m apenas 6 dos maiores municípios<br />
do Estado, houve condições <strong>de</strong> assimilação da re<strong>de</strong> repassada com a resultante somatória<br />
das duas estruturas constituindo-se no Sistema Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Estes municípios já<br />
<strong>de</strong>tinham condições mínimas para convivência com um Conselho Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e<br />
tarefas tais como distribuição <strong>de</strong> AIH.<br />
Os municípios do Grupo II e III compreen<strong>de</strong>ram juntos quase 90% dos municípios<br />
do Estado, sendo que o presente estudo não conseguiu avaliar qual proporção pertence a<br />
um ou outro tipo, estima-se em torno <strong>de</strong> 60% para o Grupo II e 30%, o Grupo III.<br />
Nos municípios do Grupo II o recebimento da estrutura da Secretaria <strong>de</strong> Estado<br />
da Saú<strong>de</strong> compreen<strong>de</strong>u algo maior ou mais complexo que a estrutura própria. Com uma<br />
ou duas unida<strong>de</strong>s da SES/MT por municípios do Grupo II geralmente, a municipalização<br />
não encontrou pessoal qualificado na Prefeitura para tratar dos programas e ações já em<br />
<strong>de</strong>senvolvimento e assimilou <strong>de</strong> forma efetiva a estrutura repassada. Para esse grupo <strong>de</strong><br />
municípios o repasse alterou significativamente a capacida<strong>de</strong> estrutural e gerencial da<br />
Prefeitura, com a colocação <strong>de</strong> questões novas e <strong>de</strong> difícil administração.<br />
Os municípios do Grupo III, geralmente <strong>de</strong> pequeno porte, tinham serviços<br />
incipientes. Nos casos <strong>de</strong> municípios em que havia serviços do Estado, o repasse <strong>de</strong>stes<br />
representou uma estrutura pesada para uma Prefeitura com pequenas condições e pouca<br />
experiência gerencial. Nos casos em que não havia serviços, a municipalização nada<br />
representou.<br />
Em princípio, po<strong>de</strong>-se observar que o processo <strong>de</strong> municipalização <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ado<br />
por força da lei e pela <strong>de</strong>cisão política da SES tratou a todos os municípios uniformemente,<br />
99
100<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
quando os mesmos eram <strong>de</strong>siguais, po<strong>de</strong>ndo já em linhas preliminares separá-los nos três<br />
grupos i<strong>de</strong>ntificados neste estudo.<br />
Não houve processo <strong>de</strong> diagnóstico ou a enunciação <strong>de</strong> um projeto <strong>de</strong><br />
municipalização que visasse planejar o processo a ser <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ado e resultasse na<br />
construção <strong>de</strong> sistemas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com natureza e eficácia <strong>de</strong>finidas. Houve sim<br />
uma <strong>de</strong>cisão legal, seguida <strong>de</strong> uma <strong>de</strong>cisão política <strong>de</strong> repasse <strong>de</strong> encargos, acompanhados<br />
dos recursos correspon<strong>de</strong>ntes, já que o estado continuou pagando seu pessoal e repassando<br />
material <strong>de</strong> consumo correspon<strong>de</strong>nte às suas unida<strong>de</strong>s para os municípios.<br />
No geral, este processo <strong>de</strong> municipalização vem representando em surpresas<br />
para os municípios que o i<strong>de</strong>alizaram como algo novo, que traria modificações efetivas.<br />
Na prática, continuam referindo aos mesmos problemas colocados nas relações<br />
entre prefeituras e Estado, centrando-se os problemas nos recurso financeiros e na<br />
impossibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> viabilizar planos <strong>de</strong> expansão <strong>de</strong> re<strong>de</strong> física e infraestrutura sanitária.<br />
2 CUMPRIMENTO DAS EXIGÊNCIAS DA LEI N. 8.142<br />
A primeira condição que busca ser viabilizada na maioria dos casos é a criação<br />
ou estruturação da Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Os municípios estudados estão<br />
estruturando suas secretarias nos mol<strong>de</strong>s clássicos <strong>de</strong> administração com centralização <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>cisões e po<strong>de</strong>r, estruturas hierárquicas centradas em chefias e reforço das burocracias<br />
administrativas. Observa-se um processo <strong>de</strong> mimetismo na estruturação <strong>de</strong> prefeituras<br />
menores com relação a maiores, com a busca da diminuição <strong>de</strong> funções e do tamanho da<br />
máquina. Não foram evi<strong>de</strong>nciadas preocupações com a estruturação <strong>de</strong> administrações<br />
que incorporassem a dimensão política nos vários níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão, permanecendo a<br />
centralização <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões políticas <strong>de</strong> toda natureza com Prefeitos e secretários. A questão<br />
da dimensão técnica, ou seja, da qualida<strong>de</strong>, não tem sido privilegiada nas estruturas<br />
analisadas.<br />
Há dificulda<strong>de</strong> técnica e pouco apoio jurídico para a elaboração das leis <strong>de</strong><br />
criação dos Fundos Únicos Municipais.<br />
Os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> encontram-se <strong>de</strong>finidos em gran<strong>de</strong> parte das Leis<br />
Orgânicas Municipais <strong>de</strong> Mato Grosso (MEIRELLES et al., 1990), mas o estudo evi<strong>de</strong>nciou<br />
a dificulda<strong>de</strong> das Prefeituras em implantá-los ou, quando implantados, possibilitar que os<br />
mesmos passem do nível consultivo. Os mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> administração e estrutura gerencial<br />
das Prefeituras, já <strong>de</strong>scritos acima, têm pouca permeabilida<strong>de</strong> à participação e a <strong>de</strong>cisões<br />
<strong>de</strong> colegiadas.<br />
Os planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> seguindo as experiências das Programações Orçamentárias<br />
Integradas (POI) são realizados como cumprimento <strong>de</strong> uma tarefa burocrática por estruturas<br />
que não têm no planejamento um instrumento <strong>de</strong> gestão e administração. Geralmente, os<br />
Planos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, elaborados pelo pessoal local expressam suas necessida<strong>de</strong>s e priorida<strong>de</strong>s,<br />
mas não há base técnica para transformá-los em programação e seus passos consequentes<br />
<strong>de</strong> execução e avaliação controlados.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Até o momento do estudo não havia experiência <strong>de</strong> relatório <strong>de</strong> gestão, com a<br />
tendência <strong>de</strong> entendimento <strong>de</strong> mais um passo em um ritual burocrático.<br />
Quanto à exigência dos 10% <strong>de</strong> recursos orçamentários para a saú<strong>de</strong>, pela sua<br />
concretu<strong>de</strong> e repercussões, verificou-se que as Leis Orçamentárias <strong>de</strong> 1991 buscaram<br />
seguir este parâmetro. É fundamental estipular critérios <strong>de</strong> repasse <strong>de</strong>stes recursos para o<br />
Fundo Único e transparência na prestação <strong>de</strong> contas, esta exigência evitaria a possibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> retorno <strong>de</strong>stes recursos para outras priorida<strong>de</strong>s na medida em que o Secretário, como<br />
pessoa <strong>de</strong> confiança do Prefeito, autorize o pagamento <strong>de</strong> outras <strong>de</strong>spesas.<br />
A exigência <strong>de</strong> Plano <strong>de</strong> Carreira vem conduzindo a que as Prefeituras façam<br />
seus Planos <strong>de</strong> Carreira globais, quando já não os tinham. Verificou-se a falta <strong>de</strong> assessoria<br />
para <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> peculiarida<strong>de</strong>s da gestão <strong>de</strong> pessoal da saú<strong>de</strong> no conjunto <strong>de</strong>stes Planos.<br />
Há uma tendência em não valorizar a gestão técnica em geral e das Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em<br />
particular. Na prática, a gestão dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> ficou ao encargo <strong>de</strong> pessoal <strong>de</strong> nível<br />
médio, com exceções das raras situações em que existem enfermeiras ou assistentes sociais<br />
na equipe. Por exemplo, não há referências às especialida<strong>de</strong>s das ativida<strong>de</strong>s realizadas em<br />
área rural, com suas exigências <strong>de</strong> transporte e outras correspon<strong>de</strong>ntes.<br />
Os planos <strong>de</strong> carreira analisados não permitiram observar critérios que<br />
privilegiassem a prática profissional na re<strong>de</strong> pública permitindo que a mesma seja<br />
estimulada e resulte em trabalho profícuo e eficaz.<br />
O cumprimento das exigências da lei no processo <strong>de</strong> municipalização<br />
<strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ado em Mato Grosso tem vislumbrado mais um ato ritual com pequenos e<br />
tímidos resultados, tais como os resultantes da ornamentação dos 10% e implantação dos<br />
Conselhos Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Não houve revisão e <strong>de</strong>finição do papel da estrutura central da Secretaria <strong>de</strong><br />
Estado da Saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong> suas estruturas intermediárias, os Polos Regionais.<br />
Um plano <strong>de</strong> municipalização que incluísse metas por município exigiria uma<br />
participação ativa e orientada das estruturas estaduais.<br />
3 PERSPECTIVAS<br />
Algumas questões, <strong>de</strong>ntre outras, surgem das informações obtidas, tais como:<br />
este é o resultado esperado do processo <strong>de</strong> municipalização. O projeto <strong>de</strong> municipalização<br />
<strong>de</strong>veria constituir apenas no somatório <strong>de</strong> recursos e ações sob um único gestor, o<br />
município? A municipalização produziu mudanças reais no Sistema <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>? Diante do<br />
processo em curso em Mato Grosso, os recursos repassados pela União e pelo Estado são<br />
poucos, em quê, por quê? Qual o papel das estruturas estaduais e fe<strong>de</strong>rais remanescentes<br />
no novo mo<strong>de</strong>lo?<br />
Em face das <strong>de</strong>fesas históricas do movimento sanitário por integralida<strong>de</strong> e<br />
universalização das ações, hierarquização e regionalização dos serviços, equida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
direitos como base para a “reforma sanitária”, observa-se que o processo em curso em<br />
101
102<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Mato Grosso está longe <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r à perspectiva <strong>de</strong> que o novo sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> contribua<br />
para a melhoria das condições <strong>de</strong> vida da população.<br />
A municipalização em Mato Grosso, partindo <strong>de</strong> pressupostos legais homogêneos<br />
e <strong>de</strong>cisão política uniforme, tratou <strong>de</strong>siguais <strong>de</strong> forma igual e buscou a construção imediata<br />
<strong>de</strong> um sistema que, para tal, exigia um planejamento e o restabelecimento <strong>de</strong> critérios<br />
conforme certas peculiarida<strong>de</strong>s dos municípios.<br />
O passo ocorrido em Mato Grosso não po<strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> ser reconhecido em suas<br />
dimensões positivas, tendo significado um aumento <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r na área da saú<strong>de</strong> em frente<br />
das políticas municipais, produzindo aumento <strong>de</strong> orçamentos e levando à instalação <strong>de</strong><br />
Conselhos Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Para sair do processo formal e conduzir a uma nova situação, é necessário<br />
enfrentar a questão do mo<strong>de</strong>lo assistencial e <strong>de</strong> serviços, <strong>de</strong> tal forma que se recupere<br />
pressupostos técnicos na qualida<strong>de</strong> da atenção e na gestão dos serviços, bem como nas<br />
funções <strong>de</strong> planejamento, administração e avaliação em saú<strong>de</strong> pública.<br />
REFERÊNCIAS<br />
CANCELLI, Elizabeth. Planejamento e Racionalização. Revista da UFMT, n. 3, 1984.<br />
MACIEL, Laura Antunes. A constituição dos Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública em Mato<br />
Grosso – 1880/1940. 1985. 122 f. Monografia (Especialização em Pesquisa em Saú<strong>de</strong><br />
Coletiva) CCBS, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso, Cuiabá, 1985.<br />
MEIRELLES, Severino Márcio P. Fundamentos e Estruturação da Pesquisa em Saú<strong>de</strong><br />
Pública no POLONOROESTE em Mato Grosso. Revista da UFMT, n. 3, 1984.<br />
MEIRELLES, Severino Márcio P. et al. Leis Orgânicas Municipais em Mato Grosso:<br />
capítulo da Saú<strong>de</strong>. Saú<strong>de</strong> em Debate, n. 30, p. 61-65, <strong>de</strong>z. 1990.<br />
TEIXEIRA, Sônia Fleury et al. Reforma Sanitária: em busca <strong>de</strong> uma teoria. São Paulo:<br />
Cortez; Abrasco, 1989.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
SUDS em Cuiabá, 1988<br />
103
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
104<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Promovendo Saú<strong>de</strong> na Praça, 1988<br />
Estan<strong>de</strong> do ISC/UFMT no Congresso da ABRASCO – Recife, 1994<br />
Fonte: Arquivo do ISC/UFMT.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família, 1995<br />
Fonte: Cartilha da SES/MT – O SUS Reconhecido, 2002.<br />
Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família, 1995<br />
Fonte: Cartilha da SES/MT – O SUS Reconhecido, 2002.<br />
105
106<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Iª Mostra Centro <strong>de</strong> Documentação e Memória da Saú<strong>de</strong> Pública<br />
(CEDOCMEM) da SES/MT, 2002<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Escola <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública da SES/MT, 2000
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Inauguração do Hospital Regional <strong>de</strong> Rondonópolis<br />
Irmã Elza Giovanella, 2002<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Formatura dos Técnicos <strong>de</strong> Enfermagem Indigena, 1999<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
107
108<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
A DESCENTRALIZAÇÃO DA SAÚDE NO ESTADO DE MATO<br />
GROSSO, BRASIL: FINANCIAMENTO E MODELO DE<br />
ATENÇÃO 33<br />
João Henrique Gurtler Scatena 34<br />
Oswaldo Yoshimi Tanaka 35<br />
Em meados da década <strong>de</strong> 1970, a crise das políticas <strong>de</strong> proteção social<br />
(welfare state) nos países centrais <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ou estratégias <strong>de</strong> reforma do Estado, entre<br />
elas a <strong>de</strong>scentralização (ABRUCIO; COSTA, 1998; BARROS, 1997; MEDICI, 1991;<br />
MENDES, 1998; TEIXEIRA, 1990; TOBAR, 1991; VIANA, 1997). Da mesma forma, no<br />
Brasil, a crise da previdência social foi um dos elementos propulsores do movimento da<br />
reforma sanitária (MENDES, 1993, 1998; TEIXEIRA, 1990). Esse movimento culminou<br />
com a instituição do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS), homologado pela Constituição<br />
Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> 1988. O SUS assegurou avanços inquestionáveis no campo da saú<strong>de</strong>, expressos<br />
em princípios e diretrizes que salientam a mudança na concepção da saú<strong>de</strong>; o acesso<br />
universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação da<br />
saú<strong>de</strong>; a mudança na forma <strong>de</strong> organização do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, com <strong>de</strong>staque para a<br />
<strong>de</strong>scentralização, passando cada esfera <strong>de</strong> governo a ser a única responsável pela direção <strong>de</strong><br />
seu próprio sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>; a mudança <strong>de</strong> enfoque da lógica curativa para a preventiva,<br />
mediante atendimento integral com priorida<strong>de</strong> para as ativida<strong>de</strong>s preventivas, sem<br />
prejuízo das assistenciais; a participação da comunida<strong>de</strong>, como alimentadora, orientadora<br />
e controladora do sistema; a participação, em caráter complementar, da iniciativa privada<br />
(BRASIL, 1997).<br />
Esses princípios e diretrizes foram regulamentados 2 anos após a Constituição<br />
<strong>de</strong> 1988, através das leis orgânicas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (Leis n. 8.080 e 8.142) (BRASIL, 1990a,<br />
1990b, 1991); contudo, o SUS foi viabilizado, <strong>de</strong> fato, pelas normas operacionais básicas<br />
(NOB), editadas em 1991, 1992, 1993 e 1996 (BRASIL, 1991, 1992, 1993a, 1996). Cada<br />
uma <strong>de</strong>ssas normas incutiu concepção e ritmo distintos ao processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização do<br />
SUS, <strong>de</strong> acordo com o contexto político vigente e com o órgão fe<strong>de</strong>ral emissor da NOB.<br />
A <strong>de</strong>scentralização é um dos pilares <strong>de</strong> sustentação do SUS e, do ponto <strong>de</strong><br />
vista dos 5.507 municípios brasileiros, passou a significar a criação, reestruturação ou<br />
implementação <strong>de</strong> sistemas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> cuja gestão, <strong>de</strong> forma progressiva e<br />
gradual, passaria a ser <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cada município.<br />
A <strong>de</strong>scentralização implica em redistribuição, em transferência <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, e não<br />
33 Artigo publicado na Revista Panamericana <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública, n. 8, v. 4, p. 242-249, 2000.<br />
34 Médico Sanitarista. Doutor em Saú<strong>de</strong> Pública pela Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo. Professor Associado da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso.<br />
35 Médico Sanitarista. Doutor em Saú<strong>de</strong> Pública pela Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo. Professor Titular da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo.<br />
109
110<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
apenas na <strong>de</strong>legação <strong>de</strong> competências sem <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r (JUNQUEIRA, 1997;<br />
UGA, 1991). É um processo político conflituoso e <strong>de</strong> difícil consecução, principalmente por<br />
implicar em atuação sobre interesses <strong>de</strong> grupos <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, sejam eles técnicos, econômicos<br />
ou políticos. Nesse sentido, as duas últimas NOB orientam melhor o processo, uma vez<br />
que não estão centradas apenas no âmbito do financiamento, mas propõem elementos que<br />
visam (respeitados os princípios da flexibilida<strong>de</strong>, gradualismo, transparência e controle<br />
social) (BRASIL, 1993b; LOBO, 1990) a <strong>de</strong>scentralização da gestão dos serviços e ações<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, em consonância com os princípios do SUS.<br />
De acordo com a norma em vigência (NOB 01/96), o nível <strong>de</strong> autonomia<br />
dos municípios sobre seu sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> está relacionado à forma <strong>de</strong> gestão em que<br />
eles se inserem, mediante o cumprimento <strong>de</strong> uma série <strong>de</strong> requisitos. A gestão plena<br />
confere ampla autonomia aos municípios, inclusive sobre as transferências financeiras<br />
intergovernamentais para a saú<strong>de</strong>. Já a gestão plena da atenção básica confere aos<br />
municípios autonomia mo<strong>de</strong>rada, relacionada a serviços e ações voltados para a atenção<br />
básica à saú<strong>de</strong>, inclusive a gerência financeira <strong>de</strong>ssa atenção. Finalmente, os municípios<br />
não habilitados somente têm autonomia sobre os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que eles proveem e<br />
mantêm com seu próprio orçamento. Nesse caso, cabe ao nível estadual a responsabilida<strong>de</strong><br />
pela gerência dos recursos financeiros para a saú<strong>de</strong>, transferidos aos municípios pela<br />
União ou neles alocados pelo próprio governo estadual.<br />
Mato Grosso, localizado na Região Centro-Oeste do Brasil, é o terceiro estado<br />
brasileiro em extensão territorial e tinha, em 1998, uma população <strong>de</strong> 2.300 000 habitantes<br />
(IBGE, 1993, 1997) distribuída em 126 municípios, 80% dos quais com menos <strong>de</strong> 20.000<br />
habitantes. Até 1997, 60 municípios haviam se habilitado à NOB 01/93 (a maioria em<br />
gestão parcial). Ao final <strong>de</strong> 1998, todos, com exceção da capital, Cuiabá (em gestão plena),<br />
haviam se habilitado à gestão plena da atenção básica pela NOB 01/96. Isso implica dizer<br />
que os municípios mato-grossenses são os responsáveis pela gestão <strong>de</strong> seus sistemas<br />
municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, mas, excetuando-se Cuiabá, têm autonomia financeira apenas sobre<br />
os serviços e ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> voltados para a atenção básica.<br />
Des<strong>de</strong> a primeira NOB, os 126 municípios mato-grossenses vêm estruturando<br />
seus sistemas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e estabelecendo relações intermunicipais, buscando<br />
melhorar o acesso, a cobertura e a resolutivida<strong>de</strong> dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. A maior<br />
autonomia financeira, propiciada pela <strong>de</strong>scentralização, tem permitido, principalmente<br />
aos municípios menores, um maior envolvimento em estratégias <strong>de</strong> referência, como<br />
consórcios e convênios. Geralmente, essas estratégias envolvem os municípios maiores<br />
e com melhor estrutura <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, os quais têm conseguido compensação financeira que,<br />
embora insuficiente, era inexistente antes da <strong>de</strong>scentralização.<br />
Tendo o financiamento da saú<strong>de</strong> como foco <strong>de</strong> atenção, o presente trabalho<br />
tem o objetivo <strong>de</strong> analisar a aplicação dos recursos financeiros da saú<strong>de</strong> nos municípios<br />
do estado <strong>de</strong> Mato Grosso. A partir <strong>de</strong>ssa análise, buscamos i<strong>de</strong>ntificar o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
atenção que vem se configurando a partir da implantação do SUS e suas perspectivas <strong>de</strong><br />
sustentabilida<strong>de</strong> financeira.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
1 MATERIAIS E MÉTODOS<br />
Foram estudados 16 dos 126 municípios do estado <strong>de</strong> Mato Grosso, selecionados<br />
segundo porte (pequeno, médio e gran<strong>de</strong>), envolvimento com o SUS (precoce ou tardio)<br />
e nível sociossanitário. Foram consi<strong>de</strong>rados <strong>de</strong> pequeno porte os municípios com menos<br />
<strong>de</strong> 20.000 habitantes, <strong>de</strong> médio porte aqueles com população entre 20.000 e 49.999<br />
habitantes, e <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> porte os municípios com população igual ou maior do que 50.000<br />
habitantes. Os municípios habilitados pelas NOB 01/93 e NOB 01/96 foram consi<strong>de</strong>rados<br />
<strong>de</strong> envolvimento precoce com o SUS, enquanto que aqueles habilitados apenas pela NOB<br />
01/96 (a partir <strong>de</strong> 1998) foram consi<strong>de</strong>rados <strong>de</strong> envolvimento tardio. O nível sociossanitário<br />
foi <strong>de</strong>finido pela composição <strong>de</strong> seis indicadores: renda, analfabetismo, cobertura vacinal,<br />
cobertura do sistema <strong>de</strong> informação sobre nascidos vivos (SINASC), cobertura <strong>de</strong> exame<br />
pré-natal e contrapartida financeira municipal para a saú<strong>de</strong>. O nível sociossanitário foi o<br />
parâmetro que orientou a seleção <strong>de</strong> municípios em diferentes estratos, <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> cada<br />
uma das seis tipificações possíveis a partir da combinação <strong>de</strong> porte e envolvimento com<br />
o SUS. Assim, embora o processo <strong>de</strong> seleção não tenha sido aleatório, permitiu maior<br />
representativida<strong>de</strong> à amostra.<br />
Para esse conjunto <strong>de</strong> 16 municípios foram levantadas as receitas e <strong>de</strong>spesas<br />
correntes constantes dos balanços gerais elaborados pelas secretarias municipais <strong>de</strong><br />
finanças. Os repasses financeiros (fe<strong>de</strong>rais) do SUS para custeio da assistência ambulatorial<br />
e hospitalar foram compilados a partir do banco <strong>de</strong> dados do SUS (DATASUS) (BRASIL,<br />
199). O levantamento englobou o período <strong>de</strong> 1994 a 1998 e não incluiu – por não estarem<br />
disponíveis – dados relativos às transferências <strong>de</strong> recursos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> do governo estadual<br />
para os municípios em estudo. Também foram consi<strong>de</strong>radas apenas as receitas e <strong>de</strong>spesas<br />
correntes, não se incluindo receitas e <strong>de</strong>spesas <strong>de</strong> capital.<br />
2 RESULTADOS<br />
Do ponto <strong>de</strong> vista financeiro, po<strong>de</strong>-se dizer que os municípios mato-grossenses<br />
ainda <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m gran<strong>de</strong>mente <strong>de</strong> repasses intergovernamentais. Essa <strong>de</strong>pendência é maior<br />
entre os municípios com menos <strong>de</strong> 20.000 habitantes, mas também é significativa nos<br />
municípios <strong>de</strong> médio e gran<strong>de</strong> porte. Na capital, Cuiabá, on<strong>de</strong> as transferências financeiras<br />
foram as menores em todo o estado, ainda assim representaram 65% do orçamento<br />
municipal, em 1998.<br />
De 1994 a 1998 houve um aumento do volume <strong>de</strong> recursos financeiros dos<br />
municípios (por transferências ou aumento <strong>de</strong> arrecadação própria) que redundou<br />
em gradual e constante incremento nas <strong>de</strong>spesas correntes com saú<strong>de</strong>. Essas <strong>de</strong>spesas<br />
significam as parcelas que cada município <strong>de</strong>stina para a saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu orçamento próprio,<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente dos recursos transferidos pelo estado e União. Essa contrapartida<br />
municipal foi o componente que mais se elevou no período analisado (Tabela 1).<br />
111
112<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Em relação ao financiamento da assistência ambulatorial, observou-se, no<br />
conjunto dos municípios estudados, incremento tanto nos gastos por atendimento quanto<br />
nos gastos per capita. Cuiabá se <strong>de</strong>stacou como o município que vem apresentando os<br />
maiores gastos, revelando sua importância como se<strong>de</strong> dos serviços ambulatoriais <strong>de</strong> maior<br />
complexida<strong>de</strong> e como polo <strong>de</strong> referência para os <strong>de</strong>mais municípios <strong>de</strong> Mato Grosso e<br />
mesmo da Região Norte.<br />
Em relação às internações hospitalares, houve uma importante redução nos<br />
gastos per capita <strong>de</strong> 1994 para 1995. Tal redução foi <strong>de</strong>terminada por políticas centrais<br />
que ao mesmo tempo normalizaram a redução e fomentaram mecanismos <strong>de</strong> controle<br />
e avaliação das internações. Essas medidas reduziram as frau<strong>de</strong>s e as internações <strong>de</strong><br />
indicação duvidosa (WELTER; SCATENA, 1999), permitindo que se elevassem,<br />
proporcionalmente, as internações com indicação mais criteriosa, geralmente relacionadas<br />
a agravos mais importantes e <strong>de</strong> maior risco que, por sua vez, implicam em maior período<br />
<strong>de</strong> internação ou em maior custo financeiro. Como consequência, observou-se, a partir <strong>de</strong><br />
1995, um incremento gradativo dos valores pagos por internação, com reflexo sobre os<br />
gastos per capita que, a partir daquele ano, elevaram-se discretamente ou se estabilizaram,<br />
conforme o porte do município. Mesmo assim, em 1998, os gastos per capita com<br />
internações hospitalares encontravam-se aquém daqueles efetuados em 1994.<br />
Sintetizando, a análise das três principais fontes responsáveis pelo financiamento<br />
da saú<strong>de</strong> nos municípios, no período <strong>de</strong> 1994 a 1998, revela a redução dos gastos com<br />
internação, acompanhada <strong>de</strong> elevação dos outros dois componentes, <strong>de</strong>stacandose<br />
o importante incremento no volume <strong>de</strong> recursos classificados como contrapartida
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
municipal. Embora em menor escala, também foi expressiva a elevação das transferências<br />
fe<strong>de</strong>rais para o custeio da assistência ambulatorial (Tabela 1). Mesmo que visto somente<br />
da perspectiva do financiamento, esse quadro é <strong>de</strong> algum modo alentador, pois parece<br />
refletir uma inversão no mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção, uma vez que aponta uma redução do peso da<br />
assistência hospitalar, ao mesmo tempo em que revela um maior investimento financeiro<br />
por parte dos municípios (em princípio numa lógica <strong>de</strong> maior racionalida<strong>de</strong> e controle)<br />
e também aumento das transferências <strong>de</strong>stinadas à assistência ambulatorial (que em<br />
princípio privilegiaria a atenção primária à saú<strong>de</strong>).<br />
Uma análise um pouco mais <strong>de</strong>talhada, no entanto, oferece elementos que<br />
suscitam preocupações, uma vez que revelam a manutenção <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção<br />
voltado para a assistência médica, individual, curativa e <strong>de</strong> crescente incorporação<br />
tecnológica, principalmente na capital e nos municípios maiores.<br />
Das três fontes <strong>de</strong> financiamento trabalhadas, a primeira está comprometida com<br />
as internações hospitalares. Como todos os municípios do estado <strong>de</strong> Mato Grosso, com<br />
exceção <strong>de</strong> Cuiabá, estão sob gestão plena da atenção básica, esses municípios gerenciam a<br />
distribuição das autorizações <strong>de</strong> internação hospitalar (AIH), mas não os recursos para seu<br />
pagamento. Cuiabá é o único município mato-grossense com autonomia sobre os recursos<br />
para pagamento das internações hospitalares. Assim, com maior ou menor controle por<br />
parte dos municípios, entre 22 e 31% dos recursos gastos com saú<strong>de</strong> em 1998 <strong>de</strong>stinaramse<br />
a uma ativida<strong>de</strong> voltada à assistência médica hospitalar, curativa e individual.<br />
A contrapartida municipal atualmente respon<strong>de</strong> por 32 a 54% dos recursos<br />
gastos com saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo do porte do município. Porém, a análise da aplicação<br />
<strong>de</strong>sses recursos é dificultada pela forma como são elaborados os instrumentos <strong>de</strong><br />
acompanhamento e prestação <strong>de</strong> contas pelas secretarias municipais <strong>de</strong> finanças.<br />
O financiamento da assistência ambulatorial foi o componente que mereceu<br />
maior atenção, neste trabalho, por três motivos: 1) por teoricamente refletir o maior<br />
compromisso com a promoção da saú<strong>de</strong> e prevenção primária, através da atenção primária<br />
à saú<strong>de</strong>; 2) porque é o componente que <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a NOB 01/93 tem sido transferido (total ou<br />
parcialmente) aos municípios, cabendo a eles utilizar esse recurso conforme o mo<strong>de</strong>lo<br />
<strong>de</strong> assistência adotado; e 3) porque através do DATASUS é possível <strong>de</strong>sagregar as<br />
informações <strong>de</strong> produção e financiamento dos atendimentos ambulatoriais, por município<br />
e item <strong>de</strong> programação, <strong>de</strong> modo a evi<strong>de</strong>nciar tendências.<br />
Para melhor analisar os atendimentos ambulatoriais, eles foram <strong>de</strong>sagregados em<br />
três componentes, que representam itens <strong>de</strong> programação isolados ou aglutinados: l) ações<br />
<strong>de</strong> vigilância epi<strong>de</strong>miológica, imunização e atos não médicos (AVEIANM); 2) consultas<br />
e procedimentos médico-odontológicos; e 3) procedimentos diagnósticos e terapêuticos<br />
<strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> (patologia clínica, radiodiagnóstico, ultrassonografia,<br />
outros exames por imagens, exames hemodinâmicos, terapia renal substitutiva, rádio<br />
e quimioterapia, órteses e próteses, outros exames especializados e outras terapias<br />
especializadas).<br />
113
114<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Observou-se, para o estado <strong>de</strong> Mato Grosso, que os gastos com assistência<br />
ambulatorial <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> foram os únicos que se elevaram <strong>de</strong> forma<br />
constante ao longo dos 5 anos estudados (Tabela 2). Essa elevação, expressa em<br />
termos percentuais, implicou em redução proporcional dos gastos com atendimentos<br />
médico-odontológicos e em comprometimento dos gastos com AVEIANM. Esses<br />
dois componentes, que em 1994 representavam, somados, 73% do total <strong>de</strong> gastos<br />
ambulatoriais, reduziram-se para 51%, enquanto os gastos com atendimentos <strong>de</strong> média e<br />
alta complexida<strong>de</strong> elevaram-se <strong>de</strong> 25% para 39%.<br />
A amostra estudada permite afirmar que é nos municípios maiores, na capital<br />
e nos municípios <strong>de</strong> porte médio, nesta or<strong>de</strong>m, que está ocorrendo o maior incremento<br />
proporcional dos gastos com procedimentos diagnósticos e terapêuticos <strong>de</strong> média e alta<br />
complexida<strong>de</strong>, associado a um <strong>de</strong>créscimo nos gastos dos outros componentes, embora,<br />
excetuando-se Cuiabá, os gastos com AVEIANM somente tenham se reduzido nos<br />
2 últimos anos. Nos municípios <strong>de</strong> pequeno porte, a assistência ambulatorial <strong>de</strong> maior<br />
complexida<strong>de</strong>, embora se elevando discretamente, tem comprometido por volta <strong>de</strong> 10%<br />
dos recursos, não interferindo muito no financiamento dos outros componentes.<br />
Cuiabá tem imprimido gran<strong>de</strong> pressão sobre o comportamento dos gastos da<br />
assistência ambulatorial do estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Em 1998, a capital (que concentra<br />
praticamente 20% da população do estado) foi responsável por 50% <strong>de</strong> todos os gastos<br />
ambulatoriais, dos quais quase 60% foram gastos com procedimentos <strong>de</strong> média e alta<br />
complexida<strong>de</strong>. No outro extremo, a relativa estabilida<strong>de</strong> do financiamento dos três
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
componentes analisados nos municípios pequenos contrabalançou a situação do estado.<br />
Nesses municípios, praticamente 90% dos recursos ambulatoriais foram <strong>de</strong>stinados às<br />
ações e ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> menor complexida<strong>de</strong>, componentes da base da atenção primária à<br />
saú<strong>de</strong>.<br />
Se os gastos com atendimentos ambulatoriais efetuados em 1994 são equiparados<br />
a 100 e utilizados como referência para os anos seguintes (Tabela 3), o quadro que se<br />
apresenta revela que, no estado <strong>de</strong> Mato Grosso, os gastos com atendimentos <strong>de</strong> média<br />
e alta complexida<strong>de</strong> não sofrem incremento apenas proporcional ao total <strong>de</strong> gastos, mas<br />
também absoluto, ao longo dos últimos 5 anos. Esse componente foi o que mais cresceu<br />
no período, principalmente em <strong>de</strong>trimento da elevação observada nos municípios <strong>de</strong><br />
médio e gran<strong>de</strong> porte. Elevação dos gastos com AVEIANM também foi observada nos<br />
três conjuntos <strong>de</strong> municípios, embora <strong>de</strong> menor magnitu<strong>de</strong>. Em relação aos atendimentos<br />
médico-odontológicos, houve redução <strong>de</strong> gastos nos municípios com mais <strong>de</strong> 50.000<br />
habitantes (gran<strong>de</strong> porte). Nos municípios <strong>de</strong> médio e pequeno porte, os atendimentos<br />
médico-odontológicos superaram os gastos com AVEIANM e, <strong>de</strong> fato, ultrapassaram<br />
todos os <strong>de</strong>mais, mas não <strong>de</strong> forma a interferir significativamente no comportamento do<br />
estado como um todo.<br />
Dos três conjuntos <strong>de</strong> municípios estudados, o <strong>de</strong> pequeno porte foi aquele on<strong>de</strong><br />
se <strong>de</strong>u uma evolução mais equitativa nos gastos com atendimentos ambulatoriais (Figura<br />
1), ou seja, o aumento dos recursos financeiros para a ativida<strong>de</strong> ambulatorial nesses<br />
locais redundou em maior aporte financeiro tanto para as consultas médico-odontológicas<br />
e AVEIANM, como para as ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> complementação diagnóstica e terapêutica<br />
<strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>. Isso provavelmente se <strong>de</strong>u porque nos municípios com<br />
menos <strong>de</strong> 20.000 habitantes os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que configuram o SUS local são pouco<br />
115
116<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
complexos e orientados para a atenção primária à saú<strong>de</strong>. Nesses municípios, os serviços <strong>de</strong><br />
patologia clínica, radiodiagnóstico e ultrassonografia geralmente compõem a assistência<br />
<strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> e, por serem menos dispendiosos (e talvez utilizados com<br />
mais critério), acabam comprometendo menos os gastos ambulatoriais.<br />
Superpondo-se a Figura 1 à Figura 2, que mostra a mesma variação em número <strong>de</strong><br />
atendimentos ambulatoriais, observa-se praticamente o mesmo padrão <strong>de</strong> comportamento,<br />
com uma diferença significativa: embora o volume <strong>de</strong> atendimentos <strong>de</strong> média e alta<br />
complexida<strong>de</strong> continue <strong>de</strong>tendo os maiores incrementos, esses são muito menores do que<br />
o incremento observado em relação ao financiamento <strong>de</strong>ssa ativida<strong>de</strong>. Isso mostra (com<br />
mais evidência nos municípios <strong>de</strong> médio e gran<strong>de</strong> porte) que, a cada ponto percentual<br />
elevado no volume <strong>de</strong> atendimentos <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>, elevam-se duas ou<br />
mais vezes os recursos <strong>de</strong>spendidos para esses procedimentos, ou seja, os atendimentos<br />
<strong>de</strong> complementação diagnóstica e terapêutica estão gerando gastos <strong>de</strong>sproporcionais<br />
ao volume <strong>de</strong> atendimentos produzidos <strong>de</strong>vido à incorporação <strong>de</strong> procedimentos mais<br />
caros, ao aumento <strong>de</strong> valores na tabela SUS, ou em <strong>de</strong>corrência da adoção da prática <strong>de</strong><br />
pagamentos diferenciados para <strong>de</strong>terminados procedimentos.
3 DISCUSSÃO<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Em relação ao financiamento da saú<strong>de</strong>, os dados apresentados permitem<br />
evi<strong>de</strong>nciar que a <strong>de</strong>scentralização, principalmente implementada após a edição da NOB<br />
01/93, tem tido gran<strong>de</strong> impacto sobre os municípios mato-grossenses, constituindo-se<br />
em importante elemento viabilizador da elevação dos gastos com saú<strong>de</strong> por habitante.<br />
Embora em 1998 os gastos per capita com saú<strong>de</strong>, na gran<strong>de</strong> maioria dos municípios, ainda<br />
se mostrassem baixos, não atingindo R$ 100,00 por habitante/ano, em relação a 1994 eles<br />
apresentaram um incremento médio <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 50%.<br />
Das três fontes <strong>de</strong> financiamento analisadas, a contrapartida municipal foi a que<br />
sofreu maior incremento <strong>de</strong> 1994 a 1998: 301% nos municípios pequenos, 227% nos<br />
<strong>de</strong> porte médio, 286% nos <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> porte, e 183% na capital, Cuiabá. No entanto, a<br />
forma como os recursos foram consolidados nos orçamentos e balanços municipais não<br />
permitiu i<strong>de</strong>ntificar o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong> adotado a partir da aplicação <strong>de</strong>sses<br />
recursos. A análise documental e as entrevistas realizadas informaram que a maior parte<br />
117
118<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong>ssa contrapartida (quando não toda, ou, ainda, complementada por recursos transferidos<br />
para o SUS) se <strong>de</strong>stina ao pagamento da folha <strong>de</strong> pessoal. Como os recursos humanos<br />
da saú<strong>de</strong> po<strong>de</strong>m estar distribuídos por todos os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s básicas e<br />
ambulatórios <strong>de</strong> especialida<strong>de</strong>s a prontos-socorros, unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> terapia intensiva e centros<br />
<strong>de</strong> reabilitação, não foi possível, neste trabalho, informar qual o setor (e o mo<strong>de</strong>lo) que tal<br />
contrapartida privilegia.<br />
Já a evolução das outras duas fontes (assistência ambulatorial e assistência<br />
hospitalar) permitiu evi<strong>de</strong>nciar a aparente mudança na prestação <strong>de</strong> serviços, uma vez<br />
que <strong>de</strong> 1994 para 1998 ampliaram-se os gastos com assistência ambulatorial ao mesmo<br />
tempo que se reduziram os gastos com internações hospitalares. Isso, no entanto, não<br />
necessariamente significa uma alteração no mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong>, tendo em vista<br />
que tal incremento <strong>de</strong> gastos, principalmente nos municípios maiores, não redundou em<br />
equivalente implementação da atenção primária à saú<strong>de</strong>, mas sim numa utilização cada<br />
vez mais intensa dos serviços <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>, muitos dos quais migraram<br />
do ambiente hospitalar para os ambulatórios.<br />
Observou-se, principalmente na capital e nos municípios <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> e médio<br />
porte, uma discrepância na evolução do financiamento dos três componentes da<br />
assistência ambulatorial analisados, com aumento significativo do componente <strong>de</strong> maior<br />
complexida<strong>de</strong> e tendência <strong>de</strong> redução proporcional dos outros dois componentes. Como<br />
os recursos financeiros para a assistência ambulatorial aumentaram no período, tanto<br />
<strong>de</strong> forma absoluta como per capita, o que se está observando nesses municípios é uma<br />
migração da aplicação dos recursos das AVEIANM e, principalmente, da assistência<br />
médico-odontológica, para o componente <strong>de</strong> complementação diagnóstica e terapêutica<br />
<strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>. Como reflexo <strong>de</strong>ssa dinâmica, o componente <strong>de</strong> média e<br />
alta complexida<strong>de</strong> cresceu, no estado <strong>de</strong> Mato Grosso, 74% em termos <strong>de</strong> volume e 152%<br />
em termos financeiros. Tal elevação é influenciada pelos altos custos dos procedimentos<br />
que fazem parte <strong>de</strong>sse componente (suscetível à rápida e constante incorporação<br />
tecnológica), pelo aumento <strong>de</strong> valores da tabela SUS e também por políticas <strong>de</strong>finidas<br />
pelas secretarias municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, como a adoção <strong>de</strong> pagamentos diferenciados para<br />
alguns procedimentos mais complexos.<br />
De modo geral, os municípios pequenos do estado <strong>de</strong> Mato Grosso tiveram<br />
uma evolução mais homogênea do financiamento dos três componentes da assistência<br />
ambulatorial, mas a relativa estabilida<strong>de</strong> observada nesses municípios e a baixa<br />
complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seus serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> não são garantia <strong>de</strong> que nesses locais não se possa<br />
reproduzir a situação que se <strong>de</strong>senha nos municípios maiores.<br />
O modo como estão sendo utilizados os recursos financeiros das três principais<br />
fontes i<strong>de</strong>ntificadas neste trabalho suscita preocupações, uma vez que po<strong>de</strong> estar<br />
conduzindo o SUS para um quadro <strong>de</strong> inviabilida<strong>de</strong> financeira, pelo menos no estado<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso. Nesse estado, quase 30% dos recursos financeiros disponíveis já estão<br />
comprometidos com internação hospitalar; outros 35% – <strong>de</strong> contrapartida municipal –
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
estão comprometidos com a folha <strong>de</strong> pagamento dos recursos humanos da saú<strong>de</strong> (sendo<br />
que uma parcela <strong>de</strong>les atua em hospitais municipais e mesmo serviços <strong>de</strong> complementação<br />
diagnóstica e terapêutica). Os restantes 35%, cuja maior parcela <strong>de</strong>veria se <strong>de</strong>stinar à<br />
atenção básica, estão cada vez mais se <strong>de</strong>slocando para um volume relativamente<br />
pequeno <strong>de</strong> atendimentos, com consumo <strong>de</strong> praticamente 40% (em 1998) <strong>de</strong>sse recurso.<br />
O segmento <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> é um segmento que está em constante processo<br />
<strong>de</strong> incorporação tecnológica, normalmente oneroso. Além disso, o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção<br />
hegemônico no país estimula a prática <strong>de</strong> incorporação das tecnologias mais mo<strong>de</strong>rnas e<br />
ainda o faz <strong>de</strong> forma cumulativa (e não substitutiva), o que acaba impondo maior ônus ao<br />
sistema.<br />
Como não há perspectivas <strong>de</strong> incrementos importantes nos recursos da saú<strong>de</strong><br />
e o mo<strong>de</strong>lo atual está gerando redução (absoluta e relativa) do volume <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
atenção primária à saú<strong>de</strong>, acredita-se que essa redução, num ciclo vicioso, fatalmente<br />
redundará em maior <strong>de</strong>manda ao segmento <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>, que por sua<br />
vez implicará em absorção <strong>de</strong> mais recursos financeiros. A perpetuação <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
assistência voltado para a assistência médica, individual, curativa, praticada no hospital<br />
ou nos ambulatórios, com maciça incorporação tecnológica, além <strong>de</strong> mantenedora <strong>de</strong><br />
iniquida<strong>de</strong>, po<strong>de</strong> con<strong>de</strong>nar o SUS à inviabilida<strong>de</strong> financeira.<br />
REFERÊNCIAS<br />
ABRUCIO, F.L.; COSTA, V.M.F. Reforma do estado e o contexto fe<strong>de</strong>rativo brasileiro.<br />
São Paulo: Fundação Konrad-A<strong>de</strong>nauer-Stiftung, 1998.<br />
BARROS, M.E.D. Política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>: a complexa tarefa <strong>de</strong> enxergar a mudança on<strong>de</strong><br />
tudo parece permanência. In: CANESQUI, A.M. Ciências Sociais e Saú<strong>de</strong>. São Paulo:<br />
Hucitec, 1997. p. 13-133.<br />
BRASIL. Lei n. 8.080, <strong>de</strong> 19 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1990. Dispõe sobre as condições para a<br />
promoção, proteção e recuperação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, a organização e o funcionamento dos serviços<br />
correspon<strong>de</strong>ntes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, n. 182, p.<br />
18055, 28 set. 1990. Seção 1.<br />
BRASIL. Lei n. 8.142, <strong>de</strong> 28 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1990. Dispõe sobre a participação da<br />
comunida<strong>de</strong> na gestão do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> – SUS e sobre as transferências<br />
intergovernamentais <strong>de</strong> recursos financeiros na área da saú<strong>de</strong> e dá outras providências.<br />
Diário Oficial da União, Brasília, n. 249, p-25694, 31 <strong>de</strong>z. 1990. Seção 1.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Instituto Nacional <strong>de</strong> Assistência Médica da Previdência<br />
Social. Resolução n. 273, <strong>de</strong> 17 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 1991. Reedita a Norma Operacional Básica/<br />
SUS n. 01/91. Brasília: Diário Oficial da União, 1991.<br />
119
120<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria Nacional <strong>de</strong> Assistência à Saú<strong>de</strong>. Portaria n.<br />
234, <strong>de</strong> 10 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 1992. Edita a Norma Operacional Básica do Sistema Único<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> para 1992 (NOB-SUS/92). Brasília: Diário Oficial da União, 1992. (tenho<br />
referência do Saú<strong>de</strong> Legis)<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Portaria n. 545, <strong>de</strong> 20 <strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 1993. Estabelece<br />
normas e procedimentos reguladores do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização da gestão das ações<br />
e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, através da Norma Operacional Básica – SUS 01/93. Brasília: Diário<br />
Oficial da União, 1993a.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Centro Nacional <strong>de</strong> Epi<strong>de</strong>miologia. Descentralização<br />
das ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>: a ousadia <strong>de</strong> cumprir e fazer cumprir a lei. Informe<br />
Epi<strong>de</strong>miológico do SUS, Brasília, Número Especial, 1993b.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Portaria n. 2.203, <strong>de</strong> 5 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1996. Aprova a<br />
Norma Operacional Básica 01/96. Brasília: Diário Oficial da União, 1996.<br />
BRASIL. Constituição da República Fe<strong>de</strong>rativa do Brasil, 1988. São Paulo: Revista<br />
dos Tribunais, 1997.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Departamento <strong>de</strong> Informática do SUS – DATASUS.<br />
Informações <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Brasília: MS, 1999. Disponível em: . Acessado em: 1999.<br />
IBGE. Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Geografia e Estatística. Censo <strong>de</strong>mográfico 1991: Mato<br />
Grosso. Rio <strong>de</strong> Janeiro: IBGE, 1993.<br />
IBGE. Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Geografia e Estatística. Contagem da população <strong>de</strong> 1996.<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro: IBGE; 1997.<br />
JUNQUEIRA, L.A.P. A <strong>de</strong>scentralização e a reforma do aparato estatal em saú<strong>de</strong>. In:<br />
CANESQUI, A.M. Ciências Sociais e Saú<strong>de</strong>. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 173-204.<br />
LOBO, T. Descentralização: conceitos, princípios, prática governamental. Ca<strong>de</strong>rnos <strong>de</strong><br />
Pesquisa, São Paulo, n. 74, p. 5-10, 1990.<br />
MEDICI, A.C. As fronteiras da universalização: o dilema da política social na virada do<br />
século. Saú<strong>de</strong> em Debate, Rio <strong>de</strong> Janeiro, n. 32, p. 21-6, 1991.<br />
MENDES, E.V. As políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Brasil nos anos 80. In: MENDES, E.V. Distrito<br />
sanitário: o processo social <strong>de</strong> mudança das práticas sanitária do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
São Paulo: Hucitec-ABRASCO, 1993. p. 19-91.<br />
MENDES, E.V. A <strong>de</strong>scentralização do sistema <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Brasil: novos<br />
rumos e um outro olhar sobre o nível local. In: MENDES, E.V. A organização da saú<strong>de</strong><br />
no nível local. São Paulo: Hucitec, 1998. p. 17-55.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do<br />
século XX. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p. 119-120.<br />
TEIXEIRA, S.M.F. Descentralização dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>: dimensões analíticas. Revista<br />
da Administração Pública, n. 24, v. 2, p. 78-99, 1990.<br />
TOBAR, F. O conceito <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização: usos e abusos. Instituto <strong>de</strong> Pesquisa Econômica<br />
Aplicada. Planejamento e <strong>Políticas</strong> Públicas, Brasília, n. 5, p. 31-51, jun. 1991.<br />
UGA, M.A.D. Descentralização e <strong>de</strong>mocracia: o outro lado da moeda. Instituto <strong>de</strong><br />
Pesquisa Econômica Aplicada. Planejamento e <strong>Políticas</strong> Públicas, Brasília, n. 5, p. 87-<br />
104, jun. 1991.<br />
VIANA, A.L. As políticas sociais e as políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no contexto do processo <strong>de</strong><br />
globalização. In: GERSCHMAN, S. A miragem da pós-mo<strong>de</strong>rnida<strong>de</strong>: <strong>de</strong>mocracia e<br />
políticas sociais no contexto da globalização. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Fiocruz, 1997. p. 201-10.<br />
WELTER, M.; SCATENA, J.H. A freqüência <strong>de</strong> internações pelos procedimentos<br />
septicemia, cirurgia múltipla e gran<strong>de</strong> queimado, como indicador para o controle<br />
e avaliação da assistência hospitalar do SUS no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, no período<br />
<strong>de</strong> 1993 a 1998. 1999. 41 f. Monografia (Especialização em Planejamento e Gestão<br />
Estratégica em Saú<strong>de</strong>) - Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso, Cuiabá, 1999.<br />
121
122<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
POLÍTICA DE SAÚDE EM MATO GROSSO:<br />
DOIS MANDATOS PARA A CONSTRUÇÃO DA<br />
REGIONALIZAÇÃO 36<br />
Luisa Guimarães 37<br />
O estudo <strong>de</strong> aspectos da política estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato Grosso, no período<br />
<strong>de</strong> 1995 a 2000, quando o <strong>de</strong>senvolvimento da atenção à saú<strong>de</strong> teve como priorida<strong>de</strong><br />
a organização das ações e serviços sob a lógica da regionalização, traz elementos<br />
relevantes para a discussão da cooperação intergovernamental, necessária ao processo <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>scentralização. 38 No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, os municípios foram estimulados pela gestão<br />
estadual a formar consórcios entre si e a estabelecer parcerias com o Estado e, assim,<br />
viabilizar a provisão da atenção especializada – referência para a atenção básica – <strong>de</strong><br />
uma região <strong>de</strong>finida. Buscava-se, nesse sentido, resolver <strong>de</strong> forma cooperativa problemas<br />
comuns, cuja solução extrapolava a capacida<strong>de</strong> e os recursos <strong>de</strong> cada município ou do<br />
Estado, com benefícios para todos. Os ganhos com a associação ultrapassavam, já em<br />
princípio, aspectos administrativos, porque não se tratava <strong>de</strong> iniciativa isolada, mas<br />
integrante do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização setorial, que, a longo prazo, contribuiria para<br />
o aumento da integralida<strong>de</strong> da atenção no interior do Estado e redução <strong>de</strong> iniquida<strong>de</strong>s no<br />
sistema.<br />
O incentivo à formação <strong>de</strong> consórcios <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> foi um componente da política<br />
<strong>de</strong> Governo <strong>de</strong> Estado, empreendida pela gestão estadual, como integrante da proposta<br />
<strong>de</strong> organização regional do sistema <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong> (MATO GROSSO, 2000f), que<br />
incluía um conjunto <strong>de</strong> transformações, entre as quais: a reestruturação do órgão estadual<br />
gestor da saú<strong>de</strong>, a criação das Comissões Intergestores Bipartite Regionais (CIBR), a<br />
realização da Programação Pactuada e Integrada (PPI), a implantação do Sistema Estadual<br />
<strong>de</strong> Referência (SER) – com as respectivas Câmaras <strong>de</strong> Compensação Regionais (CCR)<br />
e Centrais <strong>de</strong> Regulação Regionais (CRR) – e a organização <strong>de</strong> Câmaras <strong>de</strong> Auditorias<br />
36 Publicação originalmente em: GUIMARÃES, Luisa. Política <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: dois mandatos para a construção da<br />
regionalização. In: MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Regionalização da saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: em busca da integralida<strong>de</strong><br />
da atenção. Mato Grosso: SES, 2002. p. 39-66. Este texto é parte do Capítulo IV da Dissertação <strong>de</strong> Mestrado “Arquitetura da Cooperação<br />
Intergovernamental: os Consórcios em Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso”, <strong>de</strong>fendida pela autora junto à ENSP/Fiocruz. Reprodução autorizada pela<br />
autora.<br />
37 Psicóloga. Doutora em Saú<strong>de</strong> Pública.<br />
38 A pesquisa está <strong>de</strong>limitada no período <strong>de</strong> 1995 a 2000 e foi <strong>de</strong>senvolvida no contexto do Governo Dante Martins <strong>de</strong> Oliveira, <strong>de</strong> 1995 a<br />
1998, reeleito para o período seguinte (1999 a 2002). O Governador, membro do Partido Social Democrata do Brasil (PSDB), foi eleito por<br />
coalizão <strong>de</strong> 10 partidos, com 72,5% dos votos. Dante <strong>de</strong> Oliveira tem longa trajetória política, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> movimentos estudantis e populares,<br />
até <strong>de</strong>putado estadual (1978, pelo Movimento Democrático Brasileiro – MDB), <strong>de</strong>putado fe<strong>de</strong>ral (1982), prefeito <strong>de</strong> Cuiabá (1985 e em<br />
1992, pelo Partido Democrata Trabalhista – PDT), ministro <strong>de</strong> Estado (1986) e governador (1995 e 1999). Alcançou popularida<strong>de</strong> nacional<br />
em 1984, com a autoria da emenda constitucional que propôs a eleição direta para Presi<strong>de</strong>nte da República e que impulsionou a campanha<br />
pelas Diretas-já. Os gran<strong>de</strong>s projetos <strong>de</strong> seu governo no Estado foram empreendimentos energéticos, consórcios intermunicipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
<strong>de</strong>mocratização do ensino e autonomia das escolas. As metas para o segundo mandato incluem investimentos na área social e estímulo<br />
ao <strong>de</strong>senvolvimento econômico e industrial <strong>de</strong> forma sustentável, <strong>de</strong> modo a assegurar o patrimônio ambiental <strong>de</strong> Mato Grosso. Nos dois<br />
mandatos, o governador manteve à frente da pasta da saú<strong>de</strong> Júlio Strubing Müller Neto, médico sanitarista, ex-Secretário Municipal <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá, quando Dante <strong>de</strong> Oliveira foi Prefeito da Capital (MATO GROSSO, 2001a).<br />
123
124<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Regionais (CAR). A ativação <strong>de</strong> todos esses mecanismos, simultânea à efetivação do<br />
processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização, objetivava promover mudança do mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção <strong>de</strong><br />
fragmentado para regionalizado. 39 O <strong>de</strong>senvolvimento da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso, no período estudado, indica, finalmente, que, para a efetivida<strong>de</strong> da implementação<br />
do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização, implantado por meio <strong>de</strong> normas fe<strong>de</strong>rais – <strong>de</strong> caráter<br />
universal –, foi necessária a coor<strong>de</strong>nação e a atuação da gestão estadual na assessoria<br />
e na capacitação dos municípios, na <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> incentivos e, fundamentalmente, na<br />
transferência da <strong>de</strong>cisão referente à gestão <strong>de</strong> sistemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> para espaços regionais<br />
(MATO GROSSO, 2000d).<br />
A situação do Estado e dos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso na construção <strong>de</strong><br />
acordos e pactos, mediante o consórcio e a regionalização na saú<strong>de</strong>, ainda que rica em<br />
potencialida<strong>de</strong>s e expressiva nos resultados, não po<strong>de</strong> ser generalizada para todos os<br />
<strong>de</strong>mais, porque tem um valor agregado, resultante <strong>de</strong> especificida<strong>de</strong>s locais – políticas e<br />
sociais – que confluem, por conseguinte, para um processo <strong>de</strong> organização regional próprio,<br />
baseado na cooperação entre municípios e Estado. 40 Todavia, para analisar o consórcio<br />
como instrumento <strong>de</strong> cooperação intergovernamental no processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização,<br />
o caso <strong>de</strong> Mato Grosso foi i<strong>de</strong>ntificado como significativo, porque nesse Estado seria<br />
possível observar o surgimento e o <strong>de</strong>senvolvimento da cooperação entre os municípios e<br />
<strong>de</strong>sses com o Estado, a partir <strong>de</strong> uma política ativa do governo estadual, adotada em 1995,<br />
e mantida no mandato seguinte. 41<br />
Para alcançar os objetivos <strong>de</strong> pesquisa do consórcio como instrumento <strong>de</strong><br />
cooperação intergovernamental, partiu-se <strong>de</strong> uma panorâmica <strong>de</strong> características do estado<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso e da gestão da saú<strong>de</strong> correspon<strong>de</strong>nte ao período em estudo (1995-2000),<br />
seguida <strong>de</strong> breve revisão do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização nesse Estado, implantado por<br />
meio das NOB’s, que culmina com o seu direcionamento pela via da regionalização,<br />
mediante o estímulo aos consórcios <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
1 MATO GROSSO: BREVE CARACTERIZAÇÃO DO ESTADO<br />
O estado <strong>de</strong> Mato Grosso está situado na Região Centro-Oeste do Brasil e a<br />
estimativa populacional para o ano <strong>de</strong> 2000 era <strong>de</strong> 2.498.150 resi<strong>de</strong>ntes (BRASIL,<br />
39 Mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong> é aqui entendido como a forma em que ocorre o atendimento das necessida<strong>de</strong>s sentidas e não sentidas da<br />
população, que resulta em um tipo <strong>de</strong> relação e <strong>de</strong> interação entre os recursos disponíveis e essa população. Há farta literatura sobre o<br />
tema e opiniões contrastantes. Regionalização, por sua vez, é aqui entendida como articulação e mobilização municipal, que consi<strong>de</strong>ra<br />
características geográficas, fluxo <strong>de</strong> <strong>de</strong>manda, perfil epi<strong>de</strong>miológico, oferta <strong>de</strong> serviços e vonta<strong>de</strong> política expressa pelos municípios <strong>de</strong> se<br />
consorciar ou estabelecer outra relação <strong>de</strong> caráter cooperativo (NOB/93).<br />
40 No caso específico do setor saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong>nota-se que o Secretário Estadual reúne características <strong>de</strong> li<strong>de</strong>rança tradicional, carisma pessoal e<br />
competência técnica, com compromisso social.<br />
41 <strong>Políticas</strong> ativas e contínuas são expressas por níveis governamentais interessados na implementação <strong>de</strong>stas, mediante a indução<br />
eficientemente <strong>de</strong>senvolvida e implementada, que po<strong>de</strong> compensar atributos estruturais dos governos e das próprias políticas, implicando<br />
na redução <strong>de</strong> custos e aumento <strong>de</strong> benefícios. É traduzida em <strong>de</strong>cisões favoráveis aos programas <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização <strong>de</strong> meios e <strong>de</strong> recursos<br />
financeiros, políticos e administrativos necessários para implementar tais políticas. São coor<strong>de</strong>nadas e coinci<strong>de</strong>ntes com outras ações <strong>de</strong><br />
governo e os incentivos são contínuos, compensando obstáculos administrativos (ARRETCHE, 2000).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
2000a). 42 A distribuição <strong>de</strong>ssa população é predominantemente urbana, seguindo a<br />
tendência do País. Contudo, apresenta baixa <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mográfica, em torno <strong>de</strong> 2,5<br />
habitantes por quilômetro quadrado (MATO GROSSO, 1998). Mato Grosso possui 126<br />
municípios, representando 2,3% do total <strong>de</strong> localida<strong>de</strong>s do Brasil, on<strong>de</strong> resi<strong>de</strong>m cerca <strong>de</strong><br />
1,6% da população brasileira. 43<br />
Entre as regiões do Brasil, a Centro-Oeste vem consolidando-se como área <strong>de</strong><br />
produção agroindustrial, impulsionada por forte ação estatal, fundamental para a ocupação<br />
e a transformação produtiva da Região. Os investimentos públicos ocorreram tanto em<br />
infraestrutura <strong>de</strong> transportes, energia e armazenagem, quanto em políticas <strong>de</strong> crédito rural<br />
e <strong>de</strong> preços, programas <strong>de</strong> colonização e incentivo à pecuária. 44 A expansão econômica<br />
<strong>de</strong>corrente foi acompanhada por gran<strong>de</strong>s fluxos migratórios, geradores <strong>de</strong> taxas <strong>de</strong><br />
crescimento populacional superiores às médias nacionais. No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, esse<br />
processo esteve mais concentrado na região central, <strong>de</strong> sul a norte do estado – área <strong>de</strong><br />
maior produção agropecuária e <strong>de</strong> valor da produção industrial –, on<strong>de</strong> os municípios<br />
receberam migrantes provenientes do Centro-Sul e do Nor<strong>de</strong>ste do País (CAMPINAS,<br />
1999). 45<br />
No Centro-Oeste, ainda que expressivo, o crescimento populacional concentrouse<br />
em cida<strong>de</strong>s-polo, atrativas <strong>de</strong> investimentos privados <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> porte e <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>rnas<br />
indústrias com alta produtivida<strong>de</strong>. Tais fatores, ao fim e ao cabo, reforçaram disparida<strong>de</strong>s<br />
existentes, consolidando a economia do Centro-Oeste como complementar à do Su<strong>de</strong>ste,<br />
sem alcançar, portanto, transformações nas relações <strong>de</strong> produção da Região.<br />
Uma heterogeneida<strong>de</strong> espacial marcou a existência <strong>de</strong> cida<strong>de</strong>s pouco estruturadas,<br />
com fracos laços <strong>de</strong> articulação e complementarieda<strong>de</strong>, predominando municípios <strong>de</strong><br />
pequeno porte e baixo grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento das ativida<strong>de</strong>s e dos serviços urbanos,<br />
com pouca inserção no cenário regional e nacional (CAMPINAS, 1999).<br />
As correntes migratórias, por sua vez, foram em busca <strong>de</strong> melhores oportunida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> trabalho e, portanto, apresentam estrutura etária mais envelhecida. No Brasil, os<br />
números referentes ao percentual <strong>de</strong> pessoas resi<strong>de</strong>ntes em estado ou município diferente<br />
daquele em que nasceram são bastante variados entre as cinco regiões, indicando que os<br />
indivíduos, em relação ao local <strong>de</strong> nascimento, mudam mais <strong>de</strong> cida<strong>de</strong> do que <strong>de</strong> Estado.<br />
Na média, em 1999, cerca <strong>de</strong> 16% dos resi<strong>de</strong>ntes eram não naturais do Estado,<br />
enquanto os não naturais no município eram 39%, segundo a Pesquisa Nacional por<br />
42 Mato Grosso ocupa 10,6% da área territorial do Brasil (MATO GROSSO, 2000g).<br />
43 Em 2000, foram criados novos municípios, totalizando 139 no Estado. Os municípios novos tiveram o primeiro governo municipal no<br />
ano <strong>de</strong> 2001.<br />
44 O Governo <strong>de</strong> Estado tem programa <strong>de</strong> incentivos (ampliação, equipamento, pesquisa) direcionado às indústrias atrelado à redução da<br />
carga tributária. Nos últimos anos, a arrecadação tributária do Estado aumentou em nove vezes. No ano <strong>de</strong> 2000, Mato Grosso foi o maior<br />
produtor nacional <strong>de</strong> soja, lí<strong>de</strong>r <strong>de</strong> produção nacional <strong>de</strong> algodão, vice-lí<strong>de</strong>r na safra <strong>de</strong> arroz e o quarto em rebanho <strong>de</strong> rezes. O ecoturismo<br />
está recebendo investimentos internacionais. As características geográficas do Estado impõem que o transporte seja intermodal, utilizando<br />
<strong>de</strong> hidrovias, rodovias e ferrovias em um mesmo percurso. Os investimentos em infraestrutura e serviços refletem diretamente sobre maior<br />
circulação <strong>de</strong> informações e tecnologias. A área <strong>de</strong> serviços públicos representa mais <strong>de</strong> 50% dos investimentos entre os anos <strong>de</strong> 1998<br />
e 2000. Na indústria, no ano <strong>de</strong> 1997, apenas 21% dos investimentos privados se concentraram na Capital (MATO GROSSO, 2000g).<br />
45 O Consórcio Intermunicipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Região <strong>de</strong> Teles Pires está situado nesse corredor produtivo, na região mais central do Estado.<br />
125
126<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Amostra <strong>de</strong> Domicílios (PNAD). Esses números são bem maiores na Região Centro-Oeste,<br />
respectivamente, 35% e 54%, repercutindo significativamente nos perfis populacionais<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> serviços e <strong>de</strong> ocupação territorial. 46 Em <strong>de</strong>corrência da migração, a taxa<br />
<strong>de</strong> crescimento foi <strong>de</strong> 2,39% ao ano, na segunda meta<strong>de</strong> da década <strong>de</strong> 1990 (BRASIL,<br />
2000a).<br />
Em Mato Grosso, os municípios são pequenos em termos populacionais e apenas<br />
três cida<strong>de</strong>s têm populações gran<strong>de</strong>s, em faixas <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 100 mil habitantes (Tabela 1<br />
e Mapas 1 e 2). Dos 126 municípios, 90 localida<strong>de</strong>s (71%) têm população inferior a 15<br />
mil habitantes e, nessas, resi<strong>de</strong>m cerca <strong>de</strong> um terço (27%) da população total do estado.<br />
Na capital, Cuiabá, moram 20% da população do Estado. No interior, por sua vez, há<br />
gran<strong>de</strong> dispersão, com dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> acesso, gran<strong>de</strong>s distâncias e barreiras geográficas<br />
entre as cida<strong>de</strong>s. A população indígena no Estado representa 1,3% da população estadual,<br />
e existem 39 etnias, presentes em 44 municípios. Para essa população étnica, existem<br />
programas específicos <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong> (MATO GROSSO, 1998).<br />
Tabela 1 – Distribuição <strong>de</strong> Municípios, por População, em Mato Grosso, 1998<br />
Fonte: Elaborado com Base em Estimativa Populacional do IBGE (MATO GROSSO, 1998).<br />
Os mapas seguintes ilustram a distribuição populacional no território e a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mográfica, evi<strong>de</strong>nciando a prevalência <strong>de</strong> municípios extensos e pouco populosos,<br />
resultando em baixas <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s populacionais. A região <strong>de</strong> maior <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> existente<br />
no Estado é a capital, Cuiabá. Ao centro do Estado e no sentido norte-sul, observamse<br />
também áreas <strong>de</strong> maior <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> populacional, em geral ao longo <strong>de</strong> rodovias <strong>de</strong><br />
integração, a exemplo da Cuiabá-Santarém.<br />
46 O Centro-Oeste ocupa ainda posição estratégica em relação à Região Amazônica, fator relevante, consi<strong>de</strong>rando que fluxos migratórios<br />
se dirigiram ao interior dos Estados, e novos municípios foram surgindo ao longo <strong>de</strong> rodovias. Proprieda<strong>de</strong>s extensas <strong>de</strong> terras, carentes<br />
<strong>de</strong> infraestrutura e em presença <strong>de</strong> reservas indígenas fazem parte do perfil das novas cida<strong>de</strong>s, modificando profundamente a ocupação<br />
territorial regional. De 1970 a 1995, por exemplo, a área <strong>de</strong> pastagem na Região teve incremento <strong>de</strong> 150% (CAMPINAS, 1999).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Em Mato Grosso, no ano <strong>de</strong> 1997, a População Economicamente Ativa (PEA)<br />
representou 46% da população total e o PIB era <strong>de</strong> R$ 9,08 bilhões, distribuídos entre<br />
ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> agropecuária (45%), indústria (13%) e serviços (42%). O PIB per capita<br />
era <strong>de</strong> R$ 3.971,00 – o do Brasil, no ano <strong>de</strong> 1996, foi <strong>de</strong> R$ 4.503,00 (MATO GROSSO,<br />
2000g). 47<br />
Figura 1 – Distribuição populacional por município <strong>de</strong> Mato Grosso, 1996<br />
Fonte: Extraído <strong>de</strong> Lavras, 1999.<br />
47 O PIB <strong>de</strong> 1997 foi composto <strong>de</strong> 45% para os setores agrícola e pecuária, 42% para serviços e 13% para indústria (Gazeta Mercantil,<br />
2000).<br />
127
128<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Figura 2 – Mato Grosso, Densida<strong>de</strong> Demográfica, 1996<br />
Fonte: Extraído <strong>de</strong> Lavras, 1999.<br />
1.1 Condições <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e Oferta <strong>de</strong> Serviços em Mato Grosso: alguns<br />
indicadores<br />
Alguns dados são mostrados em seguida, com objetivo <strong>de</strong> apresentar a moldura<br />
na qual os consórcios surgem e se <strong>de</strong>senvolvem em Mato Grosso. Quanto aos indicadores<br />
básicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Estado, a expectativa <strong>de</strong> vida no ano <strong>de</strong> 1997 era <strong>de</strong> 65,01 anos para<br />
homens e 71,12 para mulheres. A taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> infantil era <strong>de</strong> 29,3 por mil nascidos<br />
vivos (BRASIL, 1997b, 2000a). Entre a população masculina, a primeira causa <strong>de</strong> morte<br />
foi por causas externas (26%) e a segunda, por doenças do aparelho circulatório (25%).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Na população feminina, esse perfil é distinto: as doenças do aparelho circulatório são a<br />
principal causa <strong>de</strong> morte (28%) e as neoplasias, a segunda (13%). Nos menores <strong>de</strong> um ano<br />
<strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, a principal causa <strong>de</strong> morte são as afecções perinatais e, na faixa <strong>de</strong> um a quatro<br />
anos <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, predominam as causas externas (MATO GROSSO, 1998).<br />
Com referência à <strong>de</strong>pendência do sistema público <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, pesquisa sobre<br />
a população que utiliza exclusivamente o SUS mostra que, na Região Centro-Oeste,<br />
esse percentual encontrava-se em torno <strong>de</strong> 39%, na segunda meta<strong>de</strong> da década <strong>de</strong> 1990<br />
(BRASIL, 2000c). Quanto aos beneficiários <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> suplementar no Estado, no mesmo<br />
período, a estimativa era que apenas 13% da população dispunham <strong>de</strong> algum plano ou<br />
seguro privado <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (BRASIL, 2000a). Com referência aos planos privados <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
outra fonte é o cadastro das operadoras <strong>de</strong> seguros privados, o qual <strong>de</strong>monstra que o<br />
estado <strong>de</strong> Mato Grosso apresenta uma das menores porcentagens (3,85%) <strong>de</strong> beneficiários<br />
do país e a menor (0,35%) da Região Centro-Oeste. Nessa Região, os beneficiários <strong>de</strong><br />
planos privados representam 3,94% do total Brasil (BRASIL, 2001). O predomínio da<br />
<strong>de</strong>pendência do SUS sobre o acesso aos planos privados <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> reforça a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
melhoria dos atributos <strong>de</strong> assistência e cobertura do sistema público <strong>de</strong> atenção no Estado.<br />
Quanto à assistência hospitalar pública, no ano <strong>de</strong> 1995, Mato Grosso tinha uma<br />
taxa <strong>de</strong> 2,89 leitos do SUS por mil habitantes; em 1999, essa taxa sofreu leve redução,<br />
passando para 2,80. Embora Mato Grosso seja o segundo Estado da fe<strong>de</strong>ração em taxa <strong>de</strong><br />
ocupação <strong>de</strong> leitos do SUS, o número <strong>de</strong> leitos está abaixo da média do país, que é <strong>de</strong> 2,99<br />
por mil habitantes (BRASIL, 2000b). Em Mato Grosso, no ano <strong>de</strong> 1998, 86% dos hospitais<br />
tinham leitos contratados pelo SUS, resultando que 75% do total <strong>de</strong> leitos existentes no<br />
Estado (público e privado) estavam disponíveis para o SUS. Os leitos privados contratados<br />
(54%) respon<strong>de</strong>ram por cerca <strong>de</strong> 30% do gasto hospitalar. O número <strong>de</strong> internações estava<br />
em torno <strong>de</strong> 8,6 por 100 habitantes/ano. Quanto à natureza das unida<strong>de</strong>s ambulatoriais e<br />
hospitalares, 104 eram privadas e 44 públicas (MATO GROSSO, 1998).<br />
Quanto à atenção ambulatorial, no ano <strong>de</strong> 1998, 67% das unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
do SUS existentes em MT eram postos e centros <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, sendo que o gasto per capita<br />
ambulatorial totalizava R$ 23,45. Nesses, 55% dos procedimentos realizados eram por<br />
profissionais não médicos (Aveianm – Atos <strong>de</strong> vigilância epi<strong>de</strong>miológica, imunização e<br />
atos não médicos). No período <strong>de</strong> 1994 a 1998, houve incremento <strong>de</strong> 150% na produção<br />
ambulatorial e <strong>de</strong> 280% na alta complexida<strong>de</strong> e no alto custo. Esses números po<strong>de</strong>m<br />
indicar que a estruturação da atenção básica nos municípios, mediante a implantação<br />
<strong>de</strong> ações preventivas e <strong>de</strong> atenção ambulatorial, segundo o mo<strong>de</strong>lo adotado no Estado,<br />
levou ao crescimento progressivo da <strong>de</strong>manda por serviços especializados. Os recursos do<br />
orçamento geral do Estado <strong>de</strong>stinados à saú<strong>de</strong>, em 1998, equivaleram a 4,92% do total e a<br />
execução foi <strong>de</strong> 56% (MATO GROSSO, 1998). 48<br />
48 O valor orçado para a saú<strong>de</strong>, no ano <strong>de</strong> 1998, em Mato Grosso, correspon<strong>de</strong> a cerca <strong>de</strong> 70% do estabelecido para o ano <strong>de</strong> 2000 pela<br />
Emenda Constitucional 29.<br />
129
130<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
No período <strong>de</strong> 1995 a 1999, observa-se redução <strong>de</strong> 58% no número <strong>de</strong> cesáreas,<br />
indicando melhora na assistência ao parto, uma vez que a taxa <strong>de</strong> cesárea era alta no<br />
Estado. No mesmo período, ocorreu o aumento <strong>de</strong> 120% do gasto per capita com alta<br />
complexida<strong>de</strong> (BRASIL, 2000b), indicativo <strong>de</strong> ampliação no acesso a esses serviços. Em<br />
1998, 84% da população <strong>de</strong> MT avaliava positivamente o <strong>de</strong>sempenho da saú<strong>de</strong> no Estado<br />
(MATO GROSSO, 2000c).<br />
Quanto à organização do sistema estadual, na área da saú<strong>de</strong>, em Mato Grosso,<br />
uma divisão administrativa, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1992, agregou conjuntos <strong>de</strong> municípios em nove<br />
Polos Regionais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, transformados em treze no ano <strong>de</strong> 2000. Para incrementar a<br />
<strong>de</strong>scentralização pela via da regionalização, a atuação <strong>de</strong>sses polos foi transformada. A<br />
reconfiguração visou à superação <strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong>s na distribuição do parque assistencial<br />
e no fluxo <strong>de</strong> pacientes (LAVRAS, 1999). 49 O surgimento da articulação <strong>de</strong> municípios,<br />
sob a forma <strong>de</strong> consórcios em algumas regiões do estado, nesse período, modificou o<br />
fluxo <strong>de</strong> paciente entre cida<strong>de</strong>s em Mato Grosso. Com o objetivo <strong>de</strong> prover meios para<br />
a assistência especializada e hospitalar em uma região, os municípios mato-grossenses<br />
foram estimulados pelo Estado a constituir consórcios intermunicipais. Assim, dos 126<br />
municípios do Estado, 74 estão organizados nos <strong>de</strong>z consórcios existentes, no ano <strong>de</strong><br />
2000, cobrindo cerca <strong>de</strong> 30% da população.<br />
Mesmo fortemente estimulados e apoiados pela SES/MT, tais consórcios<br />
buscam a autonomia municipal e a cooperação mútua e com o Estado, com finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
potencializar a capacida<strong>de</strong> gestora do SUS como um todo (LAVRAS, 1999).<br />
2 POLÍTICA ESTADUAL DE SAÚDE: DIRETRIZES, ESTRATÉGIAS E<br />
PROJETOS PRIORITÁRIOS<br />
A gestão estadual, objeto <strong>de</strong> análise <strong>de</strong>sta pesquisa, cumpre o segundo mandato<br />
consecutivo. O primeiro teve início em 1995 e o segundo, em 1999. O titular da SES/MT<br />
foi reconduzido em seu cargo, fator favorável para a continuida<strong>de</strong> da política estadual<br />
assumida no primeiro mandato, que propunha, fundamentalmente, empreen<strong>de</strong>r nova<br />
configuração ao sistema estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. 50<br />
O governo estadual incentivou os municípios a constituírem consórcios<br />
intermunicipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, em parcerias cooperativas com o Estado, mediante apoio técnico,<br />
político e <strong>de</strong>scentralização <strong>de</strong> recursos necessários. A política que incentivou a constituição<br />
49 A nova reconfiguração <strong>de</strong>senvolvida pelo Estado contou, em seu início, com apoio do MS, <strong>de</strong>ntro do Projeto <strong>de</strong> Apoio à Reforma do<br />
Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> – Componente Fe<strong>de</strong>ral, parte integrante da cooperação técnica do Brasil – Reino Unido. O objetivo geral, no caso<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso, naquele projeto foi implantar sistemas microrregionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que contribuam com os municípios no <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong> suas responsabilida<strong>de</strong>s no âmbito no SUS, favorecendo a articulação intermunicipal, a qualificação da atenção à saú<strong>de</strong> e a otimização<br />
dos recursos existentes e possibilitando o exercício pleno das funções gestoras das Secretarias Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e da Secretaria Estadual<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (LAVRAS, 1999). Nesse processo, o aprimoramento dos consórcios para a organização da atenção hospitalar e dos serviços <strong>de</strong><br />
diagnóstico e terapêutico foi um dos objetivos específicos.<br />
50 A <strong>de</strong>scrição da política estadual está fundamentada em documentos <strong>de</strong> várias naturezas do Governo do Estado, os quais expressam o<br />
plano, as estratégias e a <strong>de</strong>cisão política que sustentaram o <strong>de</strong>senho <strong>de</strong> regionalização proposto.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
dos consórcios no estado <strong>de</strong> Mato Grosso teve as bases expressas no documento Política<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: diretrizes, estratégias e projetos prioritários, apresentado<br />
pela SES/MT aos municípios, em julho <strong>de</strong> 1995. Esse documento contém o referencial<br />
geral para o setor saú<strong>de</strong> no Estado e tem, como eixo <strong>de</strong> condução, a “diminuição das<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s social e regional em relação à qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida”, mediante a melhoria das<br />
condições sociossanitárias e ambientais, prioritariamente <strong>de</strong> grupos sociais, municípios e<br />
regiões mais <strong>de</strong>sfavorecidos (MATO GROSSO, 2000c).<br />
No transcurso <strong>de</strong>sta pesquisa, foi assumido que o documento Política <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
em Mato Grosso: diretrizes, estratégias e projetos prioritários continha as diretrizes e<br />
as estratégias propostas pela gestão estadual. A observação das diretrizes explicitadas no<br />
documento revelou que apontavam, fundamentalmente, para a transformação do mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
atenção à saú<strong>de</strong>, com a <strong>de</strong>finição das ativida<strong>de</strong>s e o compartilhamento <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong>s<br />
entre governos municipais e estadual. As estratégias orientavam-se para a organização do<br />
sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pela via da regionalização e o consórcio apresentou-se como a principal<br />
ferramenta para enfrentar problemas comuns, na expansão da integralida<strong>de</strong> da atenção e<br />
da equida<strong>de</strong> no interior do Estado.<br />
O reconhecimento da função <strong>de</strong>sse documento como orientador básico para a<br />
gestão da saú<strong>de</strong> no Estado parte tanto da equipe técnica quanto do titular da SES, o qual<br />
reafirma, ao assumir o segundo mandato, a importância do seu conteúdo para a discussão<br />
das ações do governo e a <strong>de</strong>finição das priorida<strong>de</strong>s.<br />
O documento da SES/MT está organizado em três títulos e um anexo (MATO<br />
GROSSO, 2000c). Do primeiro título – Referências Gerais para a Política Estadual <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> –, consta a articulação e a integração <strong>de</strong> políticas sociais (saneamento, habitação,<br />
educação, promoção social, justiça e segurança, cultura, esporte) com as <strong>de</strong>mais áreas<br />
do governo (energia, transporte, comunicação), referidas como necessárias para a<br />
consolidação do SUS e para a re<strong>de</strong>finição do papel institucional da SES/MT. 51 A<br />
articulação e a integração entre políticas <strong>de</strong> governo buscariam potencializar a ativida<strong>de</strong><br />
pública, para enfrentar problemas relativos à pobreza, à fome, às questões ambientais, à<br />
violência, ao processo produtivo e à urbanização. A consolidação do SUS se expressaria<br />
no estabelecimento <strong>de</strong> novas relações – entre os entes fe<strong>de</strong>rativos, entre o setor público<br />
e o privado e entre o governo e a socieda<strong>de</strong> – e integraria um processo mais profundo <strong>de</strong><br />
reforma <strong>de</strong>mocrática do Estado. A re<strong>de</strong>finição do papel institucional da SES/MT, por sua<br />
vez, traduzir-se-ia na implantação <strong>de</strong> novos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> gestão e na reorganização setorial<br />
para a promoção da saú<strong>de</strong> e o atendimento da <strong>de</strong>manda assistencial.<br />
No segundo título – Diretrizes para a Política Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> – estão<br />
estabelecidas as referências para a implantação da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Estado, que são:<br />
51 O SUS compreen<strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> ações e serviços realizados nos três níveis <strong>de</strong> governo para aten<strong>de</strong>r às <strong>de</strong>mandas sanitárias coletivas<br />
e individuais da população. As ativida<strong>de</strong>s assistenciais realizadas nos serviços se dirigem a indivíduos ou coletivida<strong>de</strong>s e são prestadas<br />
em unida<strong>de</strong>s ambulatoriais, hospitalares ou domiciliares, e realizadas por estabelecimentos públicos e privados. Essas unida<strong>de</strong>s se<br />
organizam em re<strong>de</strong>s regionalizadas e hierarquizadas e conformam subsistemas municipais <strong>de</strong> atenção integral inseridos no sistema estadual<br />
correspon<strong>de</strong>nte (BRASIL, 2000b).<br />
131
132<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong>mocratização e participação social, priorida<strong>de</strong> às ações <strong>de</strong> vigilância à saú<strong>de</strong>, melhoria<br />
quantitativa e qualitativa dos serviços assistenciais, regionalização, <strong>de</strong>scentralização e<br />
novos mo<strong>de</strong>los assistenciais. Para a consecução <strong>de</strong>ssas transformações, os instrumentos<br />
estariam previstos nas políticas <strong>de</strong> ciência e tecnologia e <strong>de</strong> recursos humanos, que<br />
re<strong>de</strong>finiriam o papel institucional da SES/MT e os novos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> gestão e organização. 52<br />
O terceiro capítulo – Estratégias – trata, em última instância, do aumento da<br />
capacida<strong>de</strong> da Secretaria na condução do processo <strong>de</strong> construção e <strong>de</strong> consolidação da<br />
política estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, tais como o estabelecimento e a consolidação <strong>de</strong> parcerias, a<br />
atuação intersetorial, a cooperação técnica e o trabalho orientado por problemas, objetivos,<br />
resultados e projetos. Foi privilegiada a ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> interação intergovernamental para<br />
cooperar na solução <strong>de</strong> problemas comuns, buscar a superação <strong>de</strong> conflitos e formar<br />
consensos. Essa interação ocorre em espaços e fóruns específicos, entre representantes<br />
dos níveis governamentais, <strong>de</strong>stes com a socieda<strong>de</strong> civil organizada, com a representação<br />
dos recursos humanos setoriais e com o setor privado.<br />
O anexo do documento contém os Projetos Prioritários, resultantes da combinação<br />
das diretrizes da política estadual com as linhas estratégicas. São eles: (1) cooperação<br />
técnica e capacitação; (2) vigilância à saú<strong>de</strong>; (3) programação, controle, avaliação e sistema<br />
<strong>de</strong> auditoria; (4) recursos humanos e ciência e tecnologia; (5) organização da atenção<br />
<strong>de</strong>scentralizada e <strong>de</strong> referência regional; (6) mo<strong>de</strong>rnização institucional e gerencial; e (7)<br />
controle social e <strong>de</strong>mocratização do setor.<br />
O documento Política <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: diretrizes, estratégias e<br />
projetos prioritários é conciso, indicativo <strong>de</strong> que o governo estadual preten<strong>de</strong>u explicitar<br />
a intencionalida<strong>de</strong> política da gestão na saú<strong>de</strong>, mediante marcos gerais para a organização<br />
da atenção, <strong>de</strong> forma <strong>de</strong>scentralizada e pela via da regionalização. Nesse sentido, seu<br />
conteúdo não é exaustivo, mas fundamentado nas diretrizes e sistemáticas do SUS. Avança<br />
na medida em que a SES/MT posicionou-se com papel <strong>de</strong> protagonista para mudanças nas<br />
relações fe<strong>de</strong>rativas (entre municípios e <strong>de</strong>sses com o Estado) e para a implantação <strong>de</strong><br />
novos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> gestão e <strong>de</strong> organização dos serviços, objetivando respon<strong>de</strong>r problemas<br />
e necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da população.<br />
O conjunto <strong>de</strong> proposições, por sua vez, expressa que a intenção da gestão<br />
estadual seria a <strong>de</strong> trazer, para o centro das discussões entre os governos, a questão da<br />
organização do cuidado sanitário, com um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção <strong>de</strong>finido. Esse mo<strong>de</strong>lo<br />
reforçaria a responsabilida<strong>de</strong> pela atenção <strong>de</strong> uma população adscrita, na <strong>de</strong>finição <strong>de</strong><br />
priorida<strong>de</strong> para a atenção básica – executada pelo município – e na busca da garantia<br />
da integralida<strong>de</strong>, mediante a parceria intergovernamental. 53 A ação cooperativa entre<br />
municípios, assim fomentada pelo Estado, objetivaria configurar as regiões como espaços<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão e <strong>de</strong> articulação intergovernamental, nos aspectos <strong>de</strong> programação financeira,<br />
52 As diretrizes foram revistas em 1998 e aqui figuram as atuais (MATO GROSSO, 2000c).<br />
53 A integralida<strong>de</strong> é diretriz do SUS que pressupõe articulação entre promoção, proteção, recuperação e reabilitação (GIOVANELLA et<br />
al., 2000).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
contratação <strong>de</strong> recursos humanos, administração <strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> mais especializadas<br />
e ampliação da oferta <strong>de</strong> serviços no interior. A SES/MT, para tanto, passaria a exercer<br />
papel protagonista <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação do sistema estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, mediante política ativa <strong>de</strong><br />
indução <strong>de</strong> mudança <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> organização da atenção e, ao mesmo tempo, assumiria<br />
a li<strong>de</strong>rança setorial, integrando outras áreas do governo, atualizando os processos <strong>de</strong><br />
negociação entre esferas <strong>de</strong> gestão e, <strong>de</strong>ssas, com a socieda<strong>de</strong> e com os prestadores.<br />
A análise do documento sugere, ainda, que a gestão estadual tenha, ao assumir<br />
o governo da SES/MT, a disposição <strong>de</strong> compartilhar com os municípios a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong><br />
mecanismos para contornar dificulda<strong>de</strong>s e ampliar a oferta <strong>de</strong> ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no âmbito<br />
regional e, assim, alcançar a atenção integral. A avaliação do Estado, naquela época,<br />
indica que, se <strong>de</strong> um lado os municípios isolados tinham capacida<strong>de</strong> restrita para assumir<br />
a gestão da atenção básica, <strong>de</strong> outro, o Estado não po<strong>de</strong>ria, sozinho, assumir a provisão<br />
<strong>de</strong> serviços mais complexos (secundários e terciários). Uma forma conciliadora seria,<br />
então, implantar, simultaneamente, processos <strong>de</strong> transferência <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong>s e<br />
<strong>de</strong> recursos referentes à atenção básica, até então centralizados, para o município, bem<br />
como gerar espaços regionais institucionalizados <strong>de</strong> articulação, negociação, pactuação e<br />
cooperação quanto à atenção mais complexa. A proposta da SES baseia-se no consórcio<br />
em saú<strong>de</strong> como instrumento a ser estimulado, para contornar as limitações e fortalecer<br />
a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ambos os gestores em assumir o novo mo<strong>de</strong>lo. Em <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong> seu<br />
caráter cooperativo, cada um se fortaleceria para cumprir a sua responsabilida<strong>de</strong> e todos<br />
se beneficiariam dos resultados alcançados. A pesquisa e o estudo <strong>de</strong> caso <strong>de</strong> Mato Grosso<br />
buscam discutir essa proposição.<br />
3 DESENVOLVIMENTO DA POLÍTICA ESTADUAL NO CONTEXTO<br />
DAS NOB/93 E NOB/96: MORFOLOGIA DO SISTEMA DE SAÚDE EM MATO<br />
GROSSO<br />
As Normas Operacionais Básicas (NOB) são instrumentos editados pelo Ministério<br />
da Saú<strong>de</strong> (MS), que regulamentam, <strong>de</strong> forma universal, o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização da<br />
gestão nas três esferas <strong>de</strong> governo. Para tanto, estabelecem condições <strong>de</strong> gestão às quais<br />
os municípios e os Estados se habilitam, segundo a respectiva capacida<strong>de</strong>, para cumprir<br />
os requisitos previamente <strong>de</strong>finidos e <strong>de</strong> assumir as responsabilida<strong>de</strong>s estabelecidas.<br />
Ainda que regulamentem processos graduais <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização <strong>de</strong> recursos e <strong>de</strong><br />
responsabilida<strong>de</strong>s referentes à atenção à saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o nível central até as esferas<br />
subnacionais, as NOB’s, por seu caráter universal, não dão conta <strong>de</strong> questões específicas<br />
da realida<strong>de</strong> tão diferenciada e complexa <strong>de</strong> quase seis mil municípios brasileiros. Além<br />
disso, estudos <strong>de</strong>monstram que, na saú<strong>de</strong>, como em outras áreas sociais, a assunção, por<br />
parte dos municípios, <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>correntes da <strong>de</strong>scentralização é fortemente<br />
influenciada pela política <strong>de</strong> incentivos adotada pelo gestor estadual (ARRETCHE, 1999).<br />
133
134<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
A implantação efetiva da <strong>de</strong>scentralização da gestão do SUS, prevista nas<br />
NOB’s, no caso <strong>de</strong> Mato Grosso, foi traduzida e expressada nas linhas gerais da Política<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: diretrizes, estratégias e projetos prioritários, consi<strong>de</strong>rando o<br />
plano político da gestão estadual e a realida<strong>de</strong> institucional setorial dos municípios e do<br />
próprio estado. Nesse sentido, a gestão estadual teve ação pró-ativa em duas direções:<br />
na morfologia dos sistemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (estrutura) e nos mecanismos necessários a sua<br />
implantação (organização). No presente estudo, o primeiro aspecto – morfologia do<br />
sistema – será discutido a partir da análise da forma <strong>de</strong> implementação dos conteúdos<br />
das NOB’s, referente à partilha <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong>s entre Estado e municípios, no<br />
<strong>de</strong>senho dos sistemas locais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Quanto ao segundo aspecto – mecanismos –, foram<br />
estudados os instrumentos que a gestão estadual utilizou, para formalizar os processos da<br />
organização regional da atenção no Estado.<br />
No novo mo<strong>de</strong>lo proposto pela SES/MT, o papel do município seria <strong>de</strong>: (i)<br />
elaborar a programação municipal <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> baixa e média complexida<strong>de</strong>;<br />
(ii) gerenciar unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> do seu território; (iii) executar ações básicas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>;<br />
(iv) garantir a prestação <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em seu território; e (v) avaliar os resultados<br />
e <strong>de</strong>sempenho do Sistema Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (MATO GROSSO, 2000e).<br />
No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, avaliações prévias realizadas pelo MS para acompanhar<br />
a implantação da <strong>de</strong>scentralização, no tocante ao estabelecido nas NOB’s, <strong>de</strong>monstram<br />
que, no período anterior ao do governo em estudo – ano <strong>de</strong> 1994, primeiro <strong>de</strong> vigência da<br />
NOB/93 –, a saú<strong>de</strong> no Estado caracterizava-se por forte <strong>de</strong>scentralização da gerência e da<br />
gestão para os municípios, com frágil participação estadual nas funções <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação<br />
do Sistema (BRASIL, 1995a, 1995b), ou seja, por aquela avaliação, embora ocorresse<br />
a <strong>de</strong>scentralização em direção aos municípios, a gestão estadual não exercia papel na<br />
<strong>de</strong>finição <strong>de</strong> estratégias, mecanismos e instrumentos, para promover acordos e pactos<br />
entre os gestores. Tais acordos eram avaliados como favorecedores da implantação da<br />
<strong>de</strong>scentralização e, em consequência <strong>de</strong>ssa lacuna, a municipalização <strong>de</strong>corria <strong>de</strong> iniciativa<br />
isolada do próprio município sem a coor<strong>de</strong>nação do Estado. 54 O governo estadual, que se<br />
inicia em 1995, assumiu com a proposta <strong>de</strong> mudar a condução da <strong>de</strong>scentralização no<br />
Estado, ao preten<strong>de</strong>r passar da situação <strong>de</strong> ausência da gestão estadual para a participação<br />
ativa em nível regional, coor<strong>de</strong>nando o processo <strong>de</strong> programação integrada e o sistema<br />
<strong>de</strong> referência, induzindo e mediando a negociação intergovernamental e avaliando e<br />
controlando os sistemas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e, sobretudo, transformando o espaço<br />
regional, estabelecendo relações intergovernamentais com os municípios. 55<br />
54 De acordo com a tipologia <strong>de</strong>senvolvida pelo Ministério da Saú<strong>de</strong>, o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> gestão mato-grossense, até 1994, era atomizado, porque<br />
cada sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> municipal <strong>de</strong>senvolvia-se <strong>de</strong> forma isolada, não configurando o conjunto dos municípios do Estado um sistema <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> estadual e, nesse sentido, tal mo<strong>de</strong>lo tendia a reforçar as iniquida<strong>de</strong>s históricas dos sistemas locais e regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (BRASIL,<br />
1995).<br />
55 Cabe recordar que esse estudo tem como recorte <strong>de</strong> tempo o período compreendido entre o ano <strong>de</strong> 1995 e o <strong>de</strong> 2000. Assim, o primeiro<br />
mandato do governo estadual em estudo (1995 a 1998) coinci<strong>de</strong> com o período <strong>de</strong> vigência da NOB/93, com exceção do último ano, quando<br />
entrou em vigência a NOB/96, publicada em fins <strong>de</strong> 1996 e operacionalizada em 1998.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
A habilitação <strong>de</strong> municípios em MT, nos termos da NOB/93 – com vigência<br />
no período <strong>de</strong> 1994 a 1997 –, tomada aqui como uma expressão da <strong>de</strong>scentralização,<br />
apresenta situação típica <strong>de</strong> acordos prévios entre os gestores, porque todas as habilitações<br />
ocorreram nos dois primeiros anos <strong>de</strong> vigência da NOB/93 (1994 e 1995) e foram, nas<br />
condições <strong>de</strong> gestão incipiente e parcial, menos avançadas. A exceção foi o município <strong>de</strong><br />
Cuiabá, capital do Estado, que foi habilitado na condição <strong>de</strong> gestão semiplena, modalida<strong>de</strong><br />
mais avançada, o que ocorreu no ano <strong>de</strong> 1995. Tal situação indica que (i) a a<strong>de</strong>são à<br />
NOB/93 no estado <strong>de</strong> Mato Grosso não foi expressiva; (ii) concentrou-se nas condições<br />
<strong>de</strong> gestão menos avançadas; (iii) não evoluiu ao longo da vigência da Norma; e (iv) esteve<br />
condicionada à re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços existente no território, consi<strong>de</strong>rando que apenas a capital,<br />
on<strong>de</strong> se concentram os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, habilitou-se na condição mais avançada <strong>de</strong><br />
gestão (Tabela 2).<br />
O número <strong>de</strong> municípios habilitados nos termos da NOB/93 em MT, como mostra<br />
a Tabela 2, correspon<strong>de</strong>u a 49% do total <strong>de</strong> municípios do estado (19%, na condição<br />
incipiente; 29%, na condição parcial e 1%, na semiplena), nos quais residiam 71% da<br />
população (9% da população do estado residiam em municípios habilitados na condição<br />
incipiente; 42%, na condição <strong>de</strong> gestão parcial e 20%, na semiplena). Cuiabá foi habilitada<br />
em abril <strong>de</strong> 1995 e, portanto, no início do primeiro mandato do governo estadual em<br />
estudo; a partir daí, passou a receber um teto financeiro correspon<strong>de</strong>nte a cerca <strong>de</strong> 32%<br />
do total do teto financeiro estadual. Esse último aspecto sinaliza que a re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços<br />
existente no território <strong>de</strong> Cuiabá era referência para uma população maior que a resi<strong>de</strong>nte<br />
naquela cida<strong>de</strong> (20%) e, por conseguinte, que o acesso a esse tipo <strong>de</strong> serviço permanecia<br />
concentrado na Capital do Estado (Tabela 2). 56<br />
Tabela 2 - Habilitação <strong>de</strong> Municípios na NOB/93 em Mato Grosso, 1994-1997<br />
Fonte: Elaborado com base em informações do BRASIL, 1997a.<br />
56 A procedência das internações realizadas na Capital <strong>de</strong>monstra variação importante entre os anos <strong>de</strong> 1995 e 1998. Em 1995, 47,9% das<br />
internações eram <strong>de</strong> resi<strong>de</strong>ntes em Cuiabá e, no ano <strong>de</strong> 1998, passam a ser 61,6%. O atendimento <strong>de</strong> resi<strong>de</strong>ntes em Cuiabá, no Pronto-<br />
Socorro, em 1998, correspon<strong>de</strong> a 82,1% dos atendimentos. Ambos os dados são fortes indicativos <strong>de</strong> melhoria da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resolução<br />
das re<strong>de</strong>s assistenciais do interior do Estado (MATO GROSSO, 2000c).<br />
135
136<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Ainda que a habilitação <strong>de</strong> Estados, nos termos da NOB/93, não tenha significado<br />
a efetivação da transferência financeira prevista, alguns se habilitaram às condições <strong>de</strong><br />
gestão estabelecidas. Mato Grosso foi um dos poucos que pleiteou e foi habilitado na<br />
condição <strong>de</strong> gestão parcial, em junho <strong>de</strong> 1994, durante o governo anterior. Embora bastante<br />
formal, a habilitação <strong>de</strong> Estados implicava no cumprimento <strong>de</strong> uma série <strong>de</strong> requisitos<br />
por parte da gestão estadual: a aprovação do pleito, no âmbito estadual, pelo Conselho<br />
Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (CES) e pela Comissão Intergestores Bipartite (CIB) e, finalmente,<br />
a apresentação do processo ao MS para análise e aprovação na Comissão Intergestores<br />
Tripartite (CIT). Todo esse trâmite para a habilitação requeria da gestão estadual ações<br />
administrativas, as quais, a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r da <strong>de</strong>cisão política, po<strong>de</strong>riam resultar em mudanças<br />
reais, tais como a formulação e a implantação <strong>de</strong> um Plano Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (PES), o<br />
funcionamento <strong>de</strong> um Fundo Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (FES), <strong>de</strong> um Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
(CES) e da CIB e, ainda, a implantação <strong>de</strong> mecanismos e sistemáticas <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização.<br />
Em 1996, foi aprovada uma nova NOB, que começou a ser operacionalizada<br />
apenas em 1998, porque, no ano <strong>de</strong> 1997, na CIT, foi discutido o valor financeiro do<br />
piso da atenção básica (PAB) – valor per capita, distribuído pelo governo fe<strong>de</strong>ral, para a<br />
cobertura <strong>de</strong> catálogo <strong>de</strong> ações <strong>de</strong> atenção básica –, <strong>de</strong>finição essencial para a efetivação<br />
da habilitação. Esse adiamento compulsório da habilitação marcou um período em que<br />
vários estados, inclusive Mato Grosso, iniciaram a preparação da habilitação, junto aos<br />
municípios, mediante a pactuação <strong>de</strong> requisitos, ainda que provisórios, para orientar o<br />
processo <strong>de</strong> pleito municipal. 57 Tal preparação resultou que, <strong>de</strong> modo similar à Norma<br />
passada, no primeiro ano <strong>de</strong> vigência da NOB/96, ocorressem todas as habilitações do<br />
Estado. Prevaleceu o acordo e somente a Capital foi habilitada na condição <strong>de</strong> gestão mais<br />
avançada (Tabela 3). Assim, se, por um lado, a habilitação foi ampliada para todos os<br />
municípios, por outro, manteve a tendência <strong>de</strong> concentração na condição <strong>de</strong> gestão menos<br />
avançada (plena da atenção básica), ainda que possa implicar em mudanças significativas<br />
no mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção e, no caso da regionalização em Mato Grosso, participação efetiva<br />
dos municípios na gestão do sistema estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Tabela 3 - Habilitação <strong>de</strong> Municípios na NOB/96 em Mato Grosso, 1998-2000<br />
Fonte: Elaborado com base em informações do BRASIL, 2000c.<br />
57 Em 1997, o Estado estava organizado em polos regionais; em alguns, havia CIB Regionais (CIBR), que recebiam os pleitos municipais<br />
e preparavam parecer para apreciação da CIB estadual, conforme estabeleceu a Resolução CIB/MT n. 005/97, <strong>de</strong> 9/5/97 (MATO GROSSO,<br />
2000a).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
A avaliação da SES/MT sobre a habilitação, nos termos da NOB/96, é que ela<br />
foi distinta da anterior e significou, além <strong>de</strong> transformações do mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção, o<br />
incremento da oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> participação social efetivada nas recentes Conferências<br />
Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, que, no processo anterior, não foram realizadas pelos municípios,<br />
apesar <strong>de</strong> habilitados (MATO GROSSO, 2000c). Para a SES/MT, foram também fatores<br />
indicativos dos avanços com a <strong>de</strong>scentralização na NOB/96 as mudanças na organização<br />
da atenção municipal, ilustradas pela implantação dos Programas <strong>de</strong> Agentes Comunitários<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (PACS) e <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família (PSF) nos municípios.<br />
A avaliação da SES/MT é que, nos termos da NOB/96, a habilitação ocorrida<br />
no Estado, em que a Capital esteve na condição plena do sistema municipal e os <strong>de</strong>mais<br />
municípios, na plena da atenção básica, foi uma estratégia que se complementou com a<br />
organização regionalizada pela via dos consórcios. Isso, porque municípios habilitados na<br />
gestão plena da atenção básica tiveram, assim, condições <strong>de</strong> realizar as ações básicas no<br />
próprio território municipal e contar com referência organizada regionalmente e garantida<br />
mediante a cooperação intergestores (MATO GROSSO, 2000a). Nessa perspectiva,<br />
po<strong>de</strong>r-se-ia consi<strong>de</strong>rar que, no caso <strong>de</strong> Mato Grosso, os programas <strong>de</strong> atenção comunitária<br />
foram potencializados pela organização, em âmbito regional, dos serviços especializados<br />
(<strong>de</strong> referência), por intermédio dos consórcios intermunicipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. 58<br />
No ano <strong>de</strong> 1999, o Ministério da Saú<strong>de</strong> realizou nova avaliação do processo <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>scentralização no SUS, a partir <strong>de</strong> indicadores <strong>de</strong> gestão (administrativos, financeiros<br />
e <strong>de</strong> utilização), aplicados a um município <strong>de</strong> cada Estado brasileiro, geralmente a<br />
capital. Nesse estudo, os dados <strong>de</strong> Mato Grosso, em princípio, apresentam resultados<br />
correlacionados à implementação <strong>de</strong>ssa política. Essas mudanças apontam para a<br />
execução da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> proposta em 1995, a qual <strong>de</strong>u nova direção ao processo<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização e, portanto, <strong>de</strong> habilitação. O eixo fundamental foi a or<strong>de</strong>nação da<br />
referência <strong>de</strong> serviços especializados, <strong>de</strong> forma regionalizada, com simultânea organização<br />
municipal da atenção básica.<br />
Em Mato Grosso, o estudo do Ministério da Saú<strong>de</strong> mostrou que a Secretaria<br />
Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá, habilitada na condição <strong>de</strong> gestão plena do sistema<br />
municipal, teve a composição do teto para a assistência revista, com o objetivo <strong>de</strong><br />
incorporar a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> outros municípios, que permaneciam tendo por<br />
referência a re<strong>de</strong> assistencial sediada na Capital. 59 A recomposição do teto <strong>de</strong> Cuiabá<br />
58 A implantação <strong>de</strong> programas <strong>de</strong> atenção básica com experiência local virtuosa <strong>de</strong>manda re<strong>de</strong> regionalizada, resultante<br />
<strong>de</strong> processos <strong>de</strong> articulação e negociação entre sistemas locais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong> complexida<strong>de</strong> crescente para a referência e atenção integral.<br />
Outros fatores influem na resolução dos serviços e incluem a composição tecnológica, a qualida<strong>de</strong> técnica dos profissionais e os recursos<br />
disponíveis. A oferta mais próxima e a <strong>de</strong>finição clara <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong>s, por nível <strong>de</strong> atenção e elenco <strong>de</strong> ações – básico, médio e alta<br />
complexida<strong>de</strong> –, certamente ampliam o alcance dos programas comunitários (SOUSA, 2000). Estima-se que o funcionamento a<strong>de</strong>quado<br />
<strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s básicas é capaz <strong>de</strong> resolver 80% das <strong>de</strong>mandas <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong>. Programas comunitários permitem melhor conhecimento<br />
da clientela, acompanhamento <strong>de</strong> casos, or<strong>de</strong>nação <strong>de</strong> encaminhamentos e racionalização do uso <strong>de</strong> tecnologias. Mesmo com alto grau <strong>de</strong><br />
resolução, esse nível <strong>de</strong> atenção requer uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> referência para especialida<strong>de</strong>s e leitos.<br />
59 Nem todos os níveis <strong>de</strong> complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços estão disponíveis no interior do Estado, consi<strong>de</strong>rando inclusive questões <strong>de</strong><br />
viabilida<strong>de</strong> e economia <strong>de</strong> escala aplicáveis também nesse caso. O estudo do Ministério da Saú<strong>de</strong> parece indicar que os ajustes na pactuação<br />
da referência e na composição do teto da capital resultava <strong>de</strong> melhor organização da prestação <strong>de</strong> serviços assistenciais no restante do<br />
Estado. No entanto, foram mantidos serviços complexos da Capital como referência para todo o Estado.<br />
137
138<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
incluiu a programação da referência do interior, <strong>de</strong>finindo melhor a utilização <strong>de</strong> serviços<br />
e <strong>de</strong> recursos <strong>de</strong>correntes da organização regional. Foi constatado que a Capital gerenciava<br />
91% das unida<strong>de</strong>s ambulatoriais existentes no seu território, as quais significam 54,5% da<br />
produção ambulatorial total do Estado. As <strong>de</strong>mais unida<strong>de</strong>s ambulatoriais existentes no<br />
território da capital estavam sob a gestão estadual, por serem unida<strong>de</strong>s especializadas <strong>de</strong><br />
referência para o interior do Estado. Quanto à gestão hospitalar, o estudo do MS concluiu<br />
que Cuiabá recebia 100% da produção hospitalar das unida<strong>de</strong>s sediadas no município e,<br />
do total <strong>de</strong> internações realizadas na capital, 64% são <strong>de</strong> resi<strong>de</strong>ntes do próprio município. 60<br />
Em síntese, segundo a análise referida acima, a <strong>de</strong>scentralização do SUS em Mato<br />
Grosso, estudada a partir da gestão da re<strong>de</strong> e do aspecto financeiro referentes ao Município<br />
<strong>de</strong> Cuiabá, indicou coerência entre a condição <strong>de</strong> habilitação e o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
gestão em si mesma, visto que toda a re<strong>de</strong> hospitalar e 90% da ambulatorial estão sob<br />
gestão municipal. No âmbito ambulatorial, a re<strong>de</strong> é gerida junto com o Estado, porque<br />
a SES/MT permaneceu com a gestão <strong>de</strong> algumas unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> referência e <strong>de</strong> outras, nas<br />
quais <strong>de</strong>senvolvia programas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> específicos e, ainda, com a gestão da assistência<br />
farmacêutica ambulatorial. O setor ambulatorial é <strong>de</strong>monstrativo também da dinâmica do<br />
processo, em construção, <strong>de</strong> pactuação e negociação entre os governos. No caso <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso, o mo<strong>de</strong>lo regionalizado, à medida que vai organizando a referência no interior,<br />
gera ajustes no teto da capital, para on<strong>de</strong> fluía a totalida<strong>de</strong> das <strong>de</strong>mandas <strong>de</strong> média e<br />
alta complexida<strong>de</strong> até 1996. Os ajustes no teto dos recursos ambulatoriais programados<br />
para Cuiabá, ocorridos no período <strong>de</strong> 1998 a 1999, ilustram o <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> recursos<br />
financeiros assistenciais para custear a ampliação dos serviços no interior. Tais ajustes<br />
tiveram que ser processados, para que a programação da assistência refletisse as melhorias<br />
nos serviços locais e regionais.<br />
4 MECANISMOS INSTITUCIONAIS PARA A ORGANIZAÇÃO<br />
REGIONAL<br />
Em vista do argumento do presente estudo <strong>de</strong> que a adoção, pela gestão<br />
estadual, <strong>de</strong> políticas ativas <strong>de</strong> incentivo promove a assunção, por parte dos municípios,<br />
das responsabilida<strong>de</strong>s advindas com a <strong>de</strong>scentralização (ARRETCHE, 1999), interessa<br />
i<strong>de</strong>ntificar, no caso <strong>de</strong> Mato Grosso, o que – além da proposta política que traduzia para<br />
a realida<strong>de</strong> estadual as normas universais – a gestão estadual precisou por em prática para<br />
as mudanças que propunha e quais foram <strong>de</strong> fato as mudanças alcançadas. A pesquisa<br />
nos documentos da SES/MT, as entrevistas com diversos atores do Sistema e as visitas<br />
<strong>de</strong> campo permitiram observar que a modalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização <strong>de</strong> Mato Grosso<br />
implicava na regionalização <strong>de</strong> mecanismos e instrumentos – <strong>de</strong> gestão do sistema, <strong>de</strong><br />
60 Em Seminário sobre a Gestão Estadual do SUS – tendências e perspectivas, realizado pela Secretaria <strong>de</strong> <strong>Políticas</strong> da Saú<strong>de</strong> do MS, em<br />
parceria com a Opas, em 1999, o Secretário Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso reafirmou as diretrizes da política estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em<br />
implementação <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1995 (BRASIL, 1999).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
construção <strong>de</strong> coalizões e consensos, <strong>de</strong> cooperação, <strong>de</strong> planejamento e programação, <strong>de</strong><br />
regulação e <strong>de</strong> monitoração da assistência – adotados pela SES, em cooperação com os<br />
municípios, para promover a organização regional da atenção à saú<strong>de</strong>.<br />
Tais mecanismos vão sendo adotados em Mato Grosso na lógica regional, e em<br />
processo do qual fazem parte os consórcios em saú<strong>de</strong>: reestruturação do órgão estadual<br />
gestor da saú<strong>de</strong>, a criação <strong>de</strong> comissões intergestores, a realização da programação<br />
integrada, a conformação do sistema <strong>de</strong> referência e contrarreferência e a organização<br />
da auditoria. Quanto aos resultados alcançados, po<strong>de</strong>m ser observados: a ativação <strong>de</strong><br />
espaços regionais <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão consoante à política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, a cooperação intermunicipal e<br />
o financiamento compartilhados.<br />
A seguir, são apresentados e discutidos, brevemente, cada um dos mecanismos<br />
adotados em Mato Grosso no processo <strong>de</strong> organização regional e a conformação dos<br />
consórcios intermunicipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. A implantação e a evolução <strong>de</strong> cada mecanismo<br />
tiveram tempo e dinâmica diferentes. No entanto, foi possível estabelecer uma vinculação<br />
entre eles, no que diz respeito à confluência dos resultados para a organização regional<br />
da atenção e do espaço regional <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão. Esse aspecto ficou evi<strong>de</strong>nte na reorganização<br />
dos polos regionais e, por isto, será visto em tópico separado, <strong>de</strong>pois da abordagem dos<br />
mecanismos. Também será abordado, no contexto da constituição dos consórcios, que, por<br />
estar relacionada ao núcleo da pesquisa, será apresentada com maior <strong>de</strong>talhe.<br />
4.1 Reestruturação do órgão estadual gestor da saú<strong>de</strong><br />
Para realizar as mudanças pretendidas na condução do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização<br />
da gestão, o governo do Estado re<strong>de</strong>finiu as funções e a estrutura organizacional da SES/<br />
MT. A gestão estadual operou mudanças nas funções, <strong>de</strong> modo a redirecionar as suas<br />
ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação, cooperação, redistribuição, oferta especializada. As funções<br />
que passou a assumir foram <strong>de</strong> (i) formulação, coor<strong>de</strong>nação e fomento da política estadual<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>; (ii) cooperação para a municipalização e organização dos sistemas municipais;<br />
(iii) formação e <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> recursos humanos; (iv) redistribuição regional <strong>de</strong><br />
recursos financeiros com critérios equitativos; (v) condução do processo <strong>de</strong> construção<br />
<strong>de</strong> novos mo<strong>de</strong>los, que dão priorida<strong>de</strong> às ações <strong>de</strong> promoção da saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong> prevenção,<br />
com reorientação da assistência ambulatorial e hospitalar; (vi) garantia da oferta <strong>de</strong><br />
serviços terciários <strong>de</strong> referência regional e estadual; (vii) controle e avaliação da prestação<br />
<strong>de</strong> serviços públicos e privados; (viii) apoio e realização <strong>de</strong> pesquisas operacionais e<br />
<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> tecnologias para a implantação do SUS/MT (MATO GROSSO,<br />
2000f). Assim, foram estruturadas cinco coor<strong>de</strong>nadorias: (i) técnica, (ii) vigilância<br />
sanitária e epi<strong>de</strong>miológica, (iii) planejamento, (iv) administração hospitalar e ambulatorial<br />
e (v) administração financeira (MATO GROSSO, 2000b).<br />
As mudanças no órgão gestor da saú<strong>de</strong> em MT foram incorporadas ao<br />
organograma oficial da SES, a partir da estrutura estabelecida em 1993 (Decreto n.<br />
139
140<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
2.923) e revista em 1997 (Decreto n. 1.476), o qual incluiu novos cargos e funções <strong>de</strong><br />
assessoria ao gabinete e criou a área <strong>de</strong> planejamento e auditoria. Em 1998, o Regimento<br />
Interno da SES/MT foi aprovado (Decreto n. 2.636), o qual <strong>de</strong>screvia as funções dos<br />
organismos da estrutura, <strong>de</strong>monstrando a articulação interna para além da estrutura formal<br />
<strong>de</strong> organogramas. Um ano <strong>de</strong>pois, em 1999, a estrutura da SES/MT foi alterada <strong>de</strong> forma<br />
mais profunda (Decreto n. 7.236), organizando as funções por processos e incorporando as<br />
transformações instituídas pelo Regimento Interno. Além <strong>de</strong>ssa mudança, a organização<br />
regional da assistência em processo espelha-se na estrutura da SES, mediante a ampliação<br />
da estrutura <strong>de</strong> administração dos hospitais regionais, com a inclusão das unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
Cáceres e Rondonópolis às já existentes (<strong>de</strong> Sorriso e <strong>de</strong> Colí<strong>de</strong>r). Finalmente, em 2000,<br />
é conferida, formalmente, autonomia financeira à SES (Decreto n. 1.129), com a inclusão<br />
do Fundo Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (FES) no organograma e formaliza também as estruturas dos<br />
Polos Regionais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá, Alta Floresta, Juara, Peixoto Azevedo e Água Boa,<br />
totalizando 13 polos (MATO GROSSO, 2000b). 61<br />
4.2 Criação das Comissões Intergestores Bipartites Regionais (CIBR)<br />
Com a reestruturação do órgão gestor da saú<strong>de</strong> em processo, era necessário<br />
encaminhar acordos com os governos municipais para por em prática as mudanças contidas<br />
na política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e, assim, efetivar a <strong>de</strong>scentralização pela via da regionalização. 62<br />
Em Mato Grosso, a SES ativou a função <strong>de</strong>sse fórum, estabelecendo seu<br />
Regimento Interno e correlacionando sua atuação aos temas correspon<strong>de</strong>ntes ao<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da política estadual (Portaria SES/MT n. 085/93; SES/MT, 2000d) e,<br />
em seguida, começa a estimular a constituição <strong>de</strong>ssas instâncias <strong>de</strong> negociação no âmbito<br />
regional. A opção <strong>de</strong> organização <strong>de</strong> CIB regionais, à semelhança <strong>de</strong> outros estados, tinha<br />
o intuito <strong>de</strong> viabilizar a construção <strong>de</strong> consensos em espaços mais próximos ao municipal<br />
e facilitar a <strong>de</strong>scentralização frente à gran<strong>de</strong> extensão territorial. Discutidas nesse fórum,<br />
as propostas são assumidas como pactos entre os governos e transformadas em resoluções,<br />
isto é, formalizadas por ato específico (entrevista com assessores da SES/MT).<br />
Esse foi o segundo mecanismo utilizado pela gestão estadual, para proporcionar<br />
as condições técnicas e políticas necessárias. A Resolução CIB/MT n. 003/95 <strong>de</strong>u início<br />
ao processo regionalizado <strong>de</strong> programação, controle e avaliação, no âmbito da atenção<br />
61 No ano <strong>de</strong> 2000, novo Plano <strong>de</strong> Carreira da SES/MT – Plano dos Profissionais do SUS – (Lei n. 7.360) sintetiza as dimensões da<br />
Política <strong>de</strong> Recursos Humanos Estadual, institucionalizando mudanças implementadas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1995. Entre as quais, admissão por concursos<br />
públicos; regularização do quadro <strong>de</strong> pessoal (em 1995, 65% dos servidores da saú<strong>de</strong> estavam contratados sem concurso público);<br />
capacitação <strong>de</strong> profissionais; a implantação do Projeto Xamã, <strong>de</strong> formação <strong>de</strong> auxiliares <strong>de</strong> enfermagem indígenas; criação da residência<br />
em Saú<strong>de</strong> da Família: e implantação da Escola <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública.<br />
62 Des<strong>de</strong> a NOB/93, Comissões Intergestores foram <strong>de</strong>finidas como espaços privilegiados <strong>de</strong> formação <strong>de</strong> consensos para a<br />
operacionalização dos sistemas. Formalizadas na NOB/93, foram reforçadas na NOB/96, como organismos colegiados <strong>de</strong> negociação<br />
entre gestores, nos âmbitos fe<strong>de</strong>ral e estadual. No fe<strong>de</strong>ral, é constituída, <strong>de</strong> forma paritária, por representantes do Conselho Nacional <strong>de</strong><br />
Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (Conasems), do Conselho Nacional <strong>de</strong> Secretários <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (Conass) e do Ministério da Saú<strong>de</strong>. No âmbito<br />
estadual, é integrada por igual número <strong>de</strong> representantes do Conselho <strong>de</strong> Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (Cosems) e da SES, em cada<br />
estado da fe<strong>de</strong>ração. A principal característica <strong>de</strong>sse tipo <strong>de</strong> fórum é a participação <strong>de</strong> gestores do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos respectivos níveis e,<br />
portanto, a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> discussão e <strong>de</strong> pactuação <strong>de</strong> aspectos operacionais para a implantação da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
ambulatorial e hospitalar, e estabeleceu ainda que a regionalização <strong>de</strong>veria ser realizada<br />
<strong>de</strong> forma gradual, com a participação da CIB (MATO GROSSO, 2000a). Tal <strong>de</strong>cisão<br />
condicionou <strong>de</strong> forma favorável a pactuação e a participação da CIB/MT na organização<br />
regional. Com a aprovação <strong>de</strong>sse mo<strong>de</strong>lo, os gestores mato-grossenses <strong>de</strong>cidiam, em<br />
última instância, quanto à modalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> funcionamento dos processos <strong>de</strong> planejamento,<br />
<strong>de</strong> programação, <strong>de</strong> avaliação e <strong>de</strong> controle.<br />
A reorganização da estrutura do órgão gestor estadual em curso e a constituição<br />
das CIB regionais consolidam-se no espaço regional, que é incrementado com a realização<br />
da programação integrada, a organização do sistema <strong>de</strong> referência, a execução do controle<br />
e avaliação, a reengenharia dos polos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e os consórcios intermunicipais, conforme<br />
<strong>de</strong>scrito à frente. Tais processos tanto impulsionam a organização municipal quanto<br />
condicionam a articulação intergovernamental nos consórcios e, por fim, favoreceram o<br />
avanço da <strong>de</strong>scentralização.<br />
4.3 Realização da Programação Pactuada e Integrada (PPI)<br />
Mais lenta e complexa, a programação integrada da assistência ambulatorial e<br />
hospitalar foi o terceiro mecanismo que a SES/MT ativamente utilizou para estimular<br />
o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização pela via da regionalização. 63 No caso <strong>de</strong> Mato Grosso,<br />
a programação das ações ambulatoriais e hospitalares ocorreram em momentos<br />
distintos, <strong>de</strong>vido tanto às informações disponíveis para dar base à programação em si<br />
mesma, quanto à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>finição e <strong>de</strong> acordo dos parâmetros para programar a<br />
atenção hospitalar e ambulatorial. Algumas características <strong>de</strong> concepção do Sistema <strong>de</strong><br />
Informação Ambulatorial do SUS (SIA/SUS), tais como o tipo e a extensão dos dados,<br />
a não i<strong>de</strong>ntificação procedimento-usuário e o nível <strong>de</strong> agregação, retardaram e tornaram<br />
mais complexas, na prática, a eleição <strong>de</strong> parâmetros para esse nível <strong>de</strong> assistência.<br />
Quando os parâmetros para a assistência ambulatorial no Estado foram<br />
aprovados, começou a ser realizada a programação das ações ambulatoriais no município<br />
<strong>de</strong> Cuiabá e nas regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (Resolução CIB/MT n. 007/97). 64 Na CIB, também,<br />
os gestores acordaram que tais parâmetros seriam estabelecidos a partir da análise dos<br />
dados da produção, no período <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1995 a setembro <strong>de</strong> 1996, e com base na<br />
antiga Portaria Inamps n. 3.046/82, consi<strong>de</strong>rando a capacida<strong>de</strong> instalada e os recursos<br />
humanos disponíveis. Como alguns consórcios já estavam atuando no interior do estado,<br />
63 A programação prevista <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a NOB/93 e reforçada na NOB/96 funcionou como um ícone que, ao ser adotado pelos gestores, daria<br />
racionalida<strong>de</strong> na alocação <strong>de</strong> recursos em face às necessida<strong>de</strong>s (NOB/96, item 9). Coerente com a lógica universalista das normas, foi<br />
elaborado um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> programação <strong>de</strong>nominado Programação Pactuada e Integrada (PPI), cujo formulário seria aprovado na CIT.<br />
Contudo, apesar <strong>de</strong> esforços <strong>de</strong> todos, <strong>de</strong>corridos quatro anos <strong>de</strong> vigência da NOB/96, não se logrou consenso quanto à forma <strong>de</strong>sse<br />
instrumento. Contudo, o processo <strong>de</strong> programação avançou em vários estados da fe<strong>de</strong>ração, os quais <strong>de</strong>senvolveram instrumentos próprios<br />
e os utilizaram para o planejamento da assistência ambulatorial e hospitalar, bem como para a negociação da distribuição dos recursos<br />
financeiros fe<strong>de</strong>rais e estaduais entre os municípios.<br />
64 Vale notar que no caput <strong>de</strong>ssa Resolução, está referido que os parâmetros estabelecidos eram para a cobertura ambulatorial e, no Anexo<br />
I, constam parâmetros para a cobertura ambulatorial e hospitalar (MATO GROSSO, 2000a).<br />
141
142<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
os gestores <strong>de</strong>cidiram, na CIB/MT, que todos os serviços prestados passariam a constar<br />
da programação da assistência, com a indicação da população <strong>de</strong> referência (MATO<br />
GROSSO, 2000a).<br />
Quanto à organização da atenção hospitalar, o processo pareceu mais simples,<br />
visto que, apesar <strong>de</strong> envolver mais recursos financeiros, o Sistema <strong>de</strong> Informações<br />
Hospitalar do SUS (SIH/SUS) dispunha <strong>de</strong> acervo <strong>de</strong> dados sobre esse nível <strong>de</strong> assistência,<br />
favorecendo a discussão e o estabelecimento <strong>de</strong> parâmetros físicos (quantitativo <strong>de</strong> ações).<br />
No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, já em 1996, foram <strong>de</strong>finidas rotinas e fluxos <strong>de</strong> referência,<br />
mediante resolução da CIB, que dispunha sobre troca <strong>de</strong> laudos médicos por AIH.<br />
Essa gerência da atenção hospitalar era feita em âmbito regional com um instrumento<br />
precursor da câmara <strong>de</strong> compensação – embora existissem câmaras nos Polos Regionais<br />
<strong>de</strong> Rondonópolis e <strong>de</strong> Cáceres, criadas pela Resolução CIB/MT n. 009/95 –, com a<br />
participação das CIBs e dos municípios que tinham a gerência das AIH, <strong>de</strong> acordo com a<br />
Resolução CIB/MT n. 002/96 (MATO GROSSO, 2000a). 65 Os parâmetros para esse nível<br />
<strong>de</strong> atendimento foram, assim, ajustes <strong>de</strong> séries históricas e <strong>de</strong>correram das negociações e<br />
pactos do processo <strong>de</strong> regionalização da atenção, organização da referência, constituição<br />
dos consórcios e <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> tetos.<br />
A aprovação dos parâmetros da atenção ambulatorial e hospitalar forneceu os<br />
insumos para o processo <strong>de</strong> programação integrada e, no caso <strong>de</strong> Mato Grosso, a SES<br />
optou por realizá-la por meio <strong>de</strong> grupo técnico, integrado por representantes das CIB<br />
regionais, do COSEMS/MT, da Fundação <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá (FUSC) e da própria<br />
SES/MT. 66 Esse grupo foi incumbido, ainda, <strong>de</strong> apresentar proposta <strong>de</strong> normalização da<br />
referência para a assistência <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> (Resolução CIB/MT n. 015/97).<br />
No ano seguinte, em 1998, o Estado concluiu a programação da assistência.<br />
O conjunto <strong>de</strong> resoluções relativas aos diversos mecanismos mostra,<br />
fundamentalmente, o dinamismo da CIB/MT. A programação é, todavia, um tema <strong>de</strong><br />
intenso dinamismo e requer ajustes frequentes. Assim, a Resolução CIB/MT n. 024/98<br />
re<strong>de</strong>finiu os parâmetros da assistência ambulatorial, por município, com base na<br />
população estimada e contemplando a criação <strong>de</strong> novos municípios. A programação físicoorçamentária<br />
da assistência <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>, por sua vez, foi aprovada pela<br />
CIB, que ainda incluiu os critérios para a ficha cadastral dos consórcios intermunicipais<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (Resolução CIB/MT n. 030/98, <strong>de</strong> 20 <strong>de</strong> agosto <strong>de</strong> 1998). Naquele momento,<br />
em vários polos já estavam em operação as câmaras <strong>de</strong> compensação regionais (MATO<br />
GROSSO, 2000a).<br />
65 A gradualida<strong>de</strong> da implantação da <strong>de</strong>scentralização no SUS permitiu a existência simultânea <strong>de</strong> situações variadas <strong>de</strong> gerência<br />
(administração) e gestão (política, administrativa e financeira) das cotas hospitalares por parte dos municípios, em <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão<br />
acordada entre Estado e municípios na CIB. Em alguns casos, foi estabelecido que o município, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente da condição <strong>de</strong> gestão,<br />
teria a gerência da cota <strong>de</strong> AIH, o que significava o conhecimento, por parte <strong>de</strong> gestor municipal, do número <strong>de</strong>ssas Autorizações <strong>de</strong>stinado<br />
para a população municipal e a distribuição entre os prestadores <strong>de</strong> serviços do território, bem assim a cota <strong>de</strong> referência. Com respeito a<br />
essa última, ao gestor municipal era <strong>de</strong>legada a responsabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> autorizar a emissão da AIH <strong>de</strong> referência pelas regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, a<br />
partir <strong>de</strong> laudos médicos. O processo era <strong>de</strong>nominado gerência, porque não implicava no manejo dos recursos financeiros correspon<strong>de</strong>ntes.<br />
66 Para a gestão da saú<strong>de</strong> no Município <strong>de</strong> Cuiabá, foi constituída pelo governo municipal, há alguns anos, a Fundação <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> (FUSC).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
4.4 Conformação do Sistema <strong>de</strong> Referência Estadual (SER)<br />
A programação ascen<strong>de</strong>nte e integrada é, potencialmente, um mecanismo que<br />
busca equalizar as necessida<strong>de</strong>s dos usuários e a oferta <strong>de</strong> serviços, frente aos recursos<br />
financeiros transferidos pelo nível fe<strong>de</strong>ral. No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, a programação<br />
incluiu os recursos dos municípios e do estado, inclusive as ações realizadas pelos<br />
consórcios faziam parte da programação integrada. Além <strong>de</strong> organizar a atenção<br />
ambulatorial e hospitalar, a programação reforçou o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> organização da atenção,<br />
cujos fundamentos foram a atenção básica assegurada pelos municípios e o atendimento<br />
<strong>de</strong> referência, assegurado <strong>de</strong> forma regional pelos consórcios. 67<br />
Para muitos municípios, a prestação da atenção básica é o nível máximo <strong>de</strong> escala<br />
possível <strong>de</strong> ser garantido, sendo que a resolução <strong>de</strong>sse nível <strong>de</strong> atenção fica comprometida<br />
se não há disponibilida<strong>de</strong> para a referência aos outros níveis mais complexos. Os consórcios<br />
encontram sua razão <strong>de</strong> ser na solução <strong>de</strong>ssa dificulda<strong>de</strong> comum dos municípios e ocupam<br />
função <strong>de</strong> prover meios para a prestação <strong>de</strong> serviços mais complexos e especializados<br />
em uma região, <strong>de</strong> acordo com as necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>finidas na PPI e acordadas na CIBR. 68<br />
Era urgente, então, <strong>de</strong>finir fluxos entre os serviços e, para tanto, fazer operar um Sistema<br />
Estadual <strong>de</strong> Referência (SER). 69 O sistema <strong>de</strong> referência, no caso <strong>de</strong> MT, objetiva qualificar<br />
a prestação <strong>de</strong> serviços no SUS, mediante a organização do fluxo <strong>de</strong> pacientes na re<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
serviços, interligando os sistemas municipais, regionais e estadual para realizar as ações<br />
<strong>de</strong> atenção básica e comunitária, <strong>de</strong> controle <strong>de</strong> enfermida<strong>de</strong>s transmissíveis, <strong>de</strong> doenças<br />
crônico-<strong>de</strong>generativas, <strong>de</strong> assistência especializada e <strong>de</strong> alta complexida<strong>de</strong>. As bases da<br />
organização da referência foram a programação pactuada e integrada e a sua implantação<br />
gradual (MATO GROSSO, 1998, 2000c). 70<br />
As informações da PPI, por sua vez, propiciaram a <strong>de</strong>finição das unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
referência, por níveis <strong>de</strong> complexida<strong>de</strong>, para suporte às priorida<strong>de</strong>s da política estadual,<br />
a saber: programas estratégicos, enfermida<strong>de</strong>s transmissíveis, enfermida<strong>de</strong>s crônico<strong>de</strong>generativas,<br />
especialida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>. O Sistema Estadual <strong>de</strong><br />
Referência (SER) dividiu o estado em 15 microrregiões, acompanhando a regionalização<br />
dos consórcios, as afinida<strong>de</strong>s geopolíticas e as condições <strong>de</strong> acesso. Em cada microrregião,<br />
existe um hospital <strong>de</strong> referência <strong>de</strong> natureza estadual, municipal ou filantrópica, cuja<br />
67 A referência a partir dos consórcios tem funcionado ainda com algumas imperfeições, mas representa mudança significativa na busca <strong>de</strong><br />
leitos <strong>de</strong> especialida<strong>de</strong>s, na hierarquização e na integração da re<strong>de</strong> (entrevista com Diretora <strong>de</strong> Polo Regional).<br />
68 Os consórcios foram formalizados como instrumento <strong>de</strong> organização da assistência à saú<strong>de</strong> no interior do estado pela Resolução CIB/<br />
MT n. 021/98 (MATO GROSSO, 2000a).<br />
69 Sistema <strong>de</strong> referência é um artifício <strong>de</strong>corrente do processo <strong>de</strong> programação em sistemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> organizados <strong>de</strong> forma hierarquizada.<br />
No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, significa a regulação do atendimento executado fora e <strong>de</strong>ntro do território <strong>de</strong> origem do paciente para assegurar a<br />
atenção integral, os recursos e o pagamento dos custos previstos, mediante a i<strong>de</strong>ntificação da origem, do serviço prestado e encaminhamento<br />
a serviço existente na se<strong>de</strong> <strong>de</strong> origem do usuário. O fundamento <strong>de</strong>sse sistema é garantir que o conjunto <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> funcione<br />
como re<strong>de</strong>s, com porta <strong>de</strong> entrada e interconexões previamente <strong>de</strong>finidas. As câmaras <strong>de</strong> compensação são complementares ao sistema <strong>de</strong><br />
referência, pois a essas compete transferir recursos financeiros entre municípios, após a realização da assistência a usuários, enquanto o<br />
sistema <strong>de</strong> referência normaliza o fluxo <strong>de</strong> pacientes ou trajetos <strong>de</strong> recursos para a assistência.<br />
70 As referências prioritárias foram: o atendimento <strong>de</strong> transplantes renais, urgência e emergência, gestante <strong>de</strong> alto risco e programas<br />
específicos da SES/MT (MATO GROSSO, 1998, 2000c).<br />
143
144<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
unida<strong>de</strong> foi priorizada para investimentos, reformas, contratação <strong>de</strong> pessoal e capacitação,<br />
com o objetivo <strong>de</strong> ampliar a sua resolução e a<strong>de</strong>quar as finalida<strong>de</strong>s, integrando-a ao SER.<br />
As bases institucionais e a criação do SER, com objetivos <strong>de</strong> reorganizar o<br />
fluxo <strong>de</strong> pacientes na re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços e garantir o atendimento, foram aprovadas na CIB<br />
(Resolução CIB/MT n. 021/98). Coor<strong>de</strong>nado, controlado e avaliado pela SES e um grupo<br />
técnico interinstitucional (GTI), o SER realiza a conferência entre o que foi programado e o<br />
realizado – ativida<strong>de</strong>s programadas na PPI e a assistência efetivamente prestada – e propõe<br />
as correções necessárias para a superação <strong>de</strong> problemas eventualmente i<strong>de</strong>ntificados. A<br />
regulamentação dos fluxos internos está orientada pelo estabelecido na regulamentação<br />
da CIB e dos próprios serviços, sendo os municípios orientados a informar qualquer<br />
alteração (inclusão, fechamento ou implementação <strong>de</strong> serviços), com vistas à atualização<br />
permanente do sistema estadual <strong>de</strong> referência. Para agilizar, as comunicações são via<br />
internet (MATO GROSSO, 2000a).<br />
A expressiva redução <strong>de</strong> encaminhamentos para Cuiabá tem sido indicador<br />
positivo da ação do sistema <strong>de</strong> referência, embora existam dificulda<strong>de</strong>s ainda não<br />
superadas para o seu pleno funcionamento fora da região respectiva. 71 Os consórcios<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> funcionam como centrais <strong>de</strong> marcação <strong>de</strong> consultas e <strong>de</strong> regulação <strong>de</strong> fluxos<br />
em <strong>de</strong>corrência do sistema <strong>de</strong> referência, fator que imprime uma lógica hierarquizada<br />
na organização regional, com <strong>de</strong>finições claras <strong>de</strong> porta <strong>de</strong> entrada nos municípios, por<br />
intermédio da atenção básica e, na re<strong>de</strong> estadual, via consórcios (MATO GROSSO,<br />
2000c). Essas <strong>de</strong>finições favorecem a redução <strong>de</strong> custos, inclusive sociais, porque<br />
distribui a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> acordo com disponibilida<strong>de</strong>s mais racionais e indica a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> melhorar o grau <strong>de</strong> resolução <strong>de</strong> cada região. 72<br />
Centrais <strong>de</strong> marcação e <strong>de</strong> regulação são formas <strong>de</strong> controle do uso e da vaga<br />
<strong>de</strong> leitos <strong>de</strong> referência, bem como da disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> agenda <strong>de</strong> consultas e exames<br />
especializados, <strong>de</strong> acordo com o programado e o pactuado entre os gestores. Nas centrais,<br />
existe algum tipo <strong>de</strong> tecnologia (internet, telefone, intranet, rádio), que permite agendar<br />
previamente os serviços necessários ao usuário (exames, consultas especializadas ou<br />
ocupar leitos). Funcionam como regulação, porque estão sediadas em unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> maior<br />
complexida<strong>de</strong> regional e controlam a indicação e a oportunida<strong>de</strong> dos encaminhamentos<br />
para outras unida<strong>de</strong>s mais complexas fora da região, interligando serviços em re<strong>de</strong>. No<br />
71 Um dos fatores <strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong> apontados foi o limite do número <strong>de</strong> AIH’s programadas, implantado a partir <strong>de</strong> 1996, por resoluções da<br />
CIB/MT, em atendimento às <strong>de</strong>cisões fe<strong>de</strong>rais. Impostos <strong>de</strong> forma gradativa, tais limites forçaram tanto os municípios quanto as unida<strong>de</strong>s<br />
aos ajustes às necessida<strong>de</strong>s e à ampliação do grau <strong>de</strong> resolução <strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s que referenciam pacientes. A busca por maior grau <strong>de</strong> resolução<br />
dos níveis básico e intermediário, aliada ao mecanismo <strong>de</strong> compensações entre sistemas regionais, foi um meio <strong>de</strong> alcance do atendimento<br />
da necessida<strong>de</strong> estimada regional. Para isso, o pacto entre municípios e Estado foi um dos instrumentos adotados.<br />
72 A central <strong>de</strong> regulação da referência ambulatorial e hospitalar mais importante é a da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços próprios, conveniados e contratados<br />
<strong>de</strong> Cuiabá. Criada pela Resolução n. 31/99, <strong>de</strong> 16 <strong>de</strong> agosto <strong>de</strong> 1999, essa central visa ao acompanhamento e à avaliação permanentes da<br />
PPI. Objetiva também controlar a oferta <strong>de</strong> vagas <strong>de</strong> leitos, exames e consultas, para integrar as ativida<strong>de</strong>s ambulatoriais e hospitalares<br />
e aten<strong>de</strong>r aos tratamentos fora <strong>de</strong> domicílio (TFD). Por se tratar <strong>de</strong> mecanismo para garantir o funcionamento da referência do interior<br />
para a capital, a gestão <strong>de</strong>ssa central é compartilhada entre a SES/MT, o Cosems/MT e a Fundação <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá (FUSC) (MATO<br />
GROSSO, 2000a).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
caso <strong>de</strong> Mato Grosso, as unida<strong>de</strong>s dos consórcios exercem esse papel. 73<br />
Já a câmara <strong>de</strong> compensação integra o sistema <strong>de</strong> referência como instrumento<br />
<strong>de</strong> realocação dos recursos financeiros ou para apoiar a organização da atenção regional,<br />
porque funciona como mecanismo <strong>de</strong> controle financeiro do fluxo <strong>de</strong> pacientes entre<br />
municípios. 74 No caso <strong>de</strong> Mato Grosso, a câmara <strong>de</strong> compensação estadual foi criada<br />
por resolução da CIB e constituída <strong>de</strong> parte das cotas municipais, programadas para<br />
cobrir atendimentos fora do município <strong>de</strong> origem; à semelhança da central <strong>de</strong> marcação,<br />
era gerenciada pelo consórcio <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong> acordo com a Resolução CIB/MT n. 001/98<br />
(MATO GROSSO, 2000a). 75 Segundo o estabelecido nessa Resolução, as cotas <strong>de</strong><br />
internação correspon<strong>de</strong>ntes aos municípios teriam gerenciamento variado, a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r<br />
da disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> unida<strong>de</strong> hospitalar no município, do seu grau <strong>de</strong> resolução e da<br />
presença <strong>de</strong> consórcio. 76 A autorização <strong>de</strong> tratamento fora <strong>de</strong> domicílio (TFD), para fora<br />
do Estado, no entanto, seria sempre via câmara <strong>de</strong> compensação; o controle <strong>de</strong> fluxo <strong>de</strong><br />
internação <strong>de</strong> indígenas, por seu turno, seria estabelecido pela Funai e, posteriormente,<br />
informado à SES/MT, conforme estabeleceu a Resolução CIB/MT n. 003/96 (MATO<br />
GROSSO, 2000a). 77<br />
4.5 Organização <strong>de</strong> Câmaras <strong>de</strong> Auditorias Regionais (CAR)<br />
O Sistema Estadual <strong>de</strong> Auditoria (SEA) <strong>de</strong> Mato Grosso foi criado em 1997<br />
e manteve estrutura organizacional e <strong>de</strong> funcionamento bastante similar às do Sistema<br />
Nacional <strong>de</strong> Auditoria, com fluxos e documentos já instituídos na regulação anterior. 78<br />
A Resolução CIB/MT n. 006/97 dispõe sobre a implantação das câmaras <strong>de</strong> auditoria<br />
regionais, em municípios ainda sem condições <strong>de</strong> executar ações <strong>de</strong> controle, avaliação e<br />
auditoria nos serviços <strong>de</strong> seu território (MATO GROSSO, 2000a). Essas câmaras seriam<br />
73 Central <strong>de</strong> marcação, <strong>de</strong> regulação, <strong>de</strong> leitos ou <strong>de</strong> vagas não é um mecanismo previsto em normas do Ministério da Saú<strong>de</strong>, mas muitos<br />
municípios e estados organizaram a referência dos atendimentos do interior para os centros e polos, utilizando esse mecanismo. Na central,<br />
existem listas atualizadas da disponibilida<strong>de</strong> dos serviços estimados como necessários à população <strong>de</strong> referência, utilizados no momento <strong>de</strong><br />
encaminhar pacientes, dispensando, assim, a negociação caso a caso. Na prática, a central regula o encaminhamento <strong>de</strong> paciente, que passa<br />
a ser feito serviço-serviço, com base na programação prévia e disponibilida<strong>de</strong> atual e não mais na busca espontânea ou errática do usuário.<br />
74 Ainda que não estabelecida nas Normas <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização, a câmara <strong>de</strong> compensação foi criada pelos próprios gestores e está presente<br />
em vários estados, respon<strong>de</strong>ndo à <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> regulação dos atendimentos <strong>de</strong> referência, gerador <strong>de</strong> copiosos custos sociais. São compostas<br />
<strong>de</strong> cotas <strong>de</strong> atendimento, que se originam <strong>de</strong> parte da programação integrada – geralmente aquela correspon<strong>de</strong>nte à atenção <strong>de</strong> média e alta<br />
complexida<strong>de</strong> hospitalar e ambulatorial – que não é atendida no município <strong>de</strong> origem. Cada cota é trocada na câmara por laudo médico dos<br />
municípios <strong>de</strong> origem e o atendimento prestado é compensado com os recursos previstos nos tetos municipais dos municípios <strong>de</strong> origem,<br />
para cobrir esses tipos <strong>de</strong> atendimento. Acordos prévios po<strong>de</strong>m <strong>de</strong>finir que parte da cota <strong>de</strong> referência seja incorporada na programação<br />
ao montante do município <strong>de</strong> atendimento. O conjunto <strong>de</strong> cotas dos municípios da região compõe, finalmente, a câmara <strong>de</strong> compensação<br />
regional e objetivava garantir o acesso daquelas populações aos atendimentos mais escassos sem necessitar negociação caso a caso. A<br />
agenda era via central <strong>de</strong> vagas e a compensação, posterior ao serviço prestado.<br />
75 Resolução CIB/MT n. 010/00 dispõe sobre a ampliação da competência <strong>de</strong>ssas Câmaras para a Compensação <strong>de</strong> Consultas<br />
Especializadas, Serviços <strong>de</strong> Apoio Diagnóstico e Terapia (SADT), órteses, próteses e medicamentos <strong>de</strong> alto custo, <strong>de</strong>finidos na PPI (MATO<br />
GROSSO, 2000a).<br />
76 Outra Resolução, CIB/MT n. 006/00, dispõe sobre a <strong>de</strong>finição do teto físico do SIH/SUS por municípios em MT, estabelecendo que o<br />
teto municipal anual será composto por 7% da população resi<strong>de</strong>nte, gerenciado pelo município; 1,5% da população resi<strong>de</strong>nte, gerenciado<br />
pela câmara <strong>de</strong> compensação regional; 0,5% da população resi<strong>de</strong>nte, gerenciado pela câmara <strong>de</strong> compensação estadual (MATO GROSSO,<br />
2000a).<br />
77 A Resolução CIB/MT n. 039/99 estabeleceu as unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> referência para o atendimento aos indígenas (MATO GROSSO, 2000a).<br />
78 Decreto Estadual n. 1.473, <strong>de</strong> 12 <strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 1997, institui o Sistema Estadual <strong>de</strong> Auditoria do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e aprova o<br />
regimento <strong>de</strong> sua atuação junto ao Sistema Nacional <strong>de</strong> Auditoria do SUS.<br />
145
146<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
compostas por dois representantes da SES e dois do Cosems, mais um suplente <strong>de</strong> cada<br />
uma <strong>de</strong>ssas instâncias, que executam as ativida<strong>de</strong>s (quando comprovadas irregularida<strong>de</strong>s<br />
na aplicação <strong>de</strong> recursos, encaminhavam à CIBR para apuração). A SEA, quando<br />
constatava a malversação dos recursos públicos, aplicava as sanções previstas em lei. A<br />
Resolução CIB/MT n. 008/97 <strong>de</strong>fine as competências do SEA e da auditoria municipal<br />
(MATO GROSSO, 2000a).<br />
4.6 Implantação dos cinco mecanismos: morfologia do espaço regional<br />
A conjunção dos mecanismos vistos acima – reestruturação do organismo gestor,<br />
implantação das Comissões Intergestores Bipartites Regionais, elaboração da programação<br />
pactuada e integrada, a <strong>de</strong>finição do sistema estadual <strong>de</strong> referência, a constituição das<br />
câmaras <strong>de</strong> auditoria regional – foram instrumentos facilitadores da reengenharia dos polos<br />
regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, no processo <strong>de</strong> organização regional. Essa reengenharia significou<br />
tornar os polos atuantes nas novas funções <strong>de</strong> assessoria, planejamento, gerenciamento,<br />
controle e avaliação, como estruturas <strong>de</strong>sconcentradas da SES/MT existentes nas regiões.<br />
Para tanto, houve investimento por parte da SES/MT no fortalecimento da capacida<strong>de</strong><br />
das equipes técnicas, <strong>de</strong> modo que pu<strong>de</strong>ssem prestar cooperação aos municípios, o que<br />
propiciou ao Estado o exercício <strong>de</strong> papel coor<strong>de</strong>nador regional <strong>de</strong> ações <strong>de</strong>senvolvidas em<br />
conjunto com os municípios, bem como a prática dos incentivos para a <strong>de</strong>scentralização.<br />
Nos polos regionais, foram organizadas pelos municípios, com a assessoria da<br />
SES/MT, as Comissões Intergestores Bipartites Regionais. Estas viabilizaram a negociação<br />
e a pactuação, que resultaram na discussão e na <strong>de</strong>finição da programação integrada,<br />
na implantação das centrais <strong>de</strong> regulação e das câmaras <strong>de</strong> compensação, para regular<br />
o fluxo regional <strong>de</strong> pacientes entre os serviços e na organização da câmara regional <strong>de</strong><br />
auditoria, para a avaliação e o controle dos serviços regionais. Os municípios <strong>de</strong> um polo<br />
ou microrregião foram ainda estimulados a organizar consórcio em saú<strong>de</strong>, para, mediante<br />
a cooperação, gerar benefícios a todos. Os incentivos foram financeiros, implantação <strong>de</strong><br />
projetos prioritários, redirecionamento <strong>de</strong> investimentos e <strong>de</strong>scentralização <strong>de</strong> recursos.<br />
A<strong>de</strong>mais, a capacitação e o apoio político da SES/MT.<br />
A implantação dos mecanismos para a consecução da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> resultou,<br />
em última instância, na construção <strong>de</strong> novas relações dos municípios entre si, <strong>de</strong>stes com<br />
o Estado, com os prestadores e com a socieda<strong>de</strong>. A Figura 1 busca ilustrar alguns espaços<br />
institucionais <strong>de</strong> negociação, controle e pacto setoriais existentes em uma região, com<br />
os respectivos agentes integrantes. A transferência <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões para espaços regionais<br />
po<strong>de</strong> ser vislumbrada como a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ampliar a participação <strong>de</strong> atores e ativar<br />
estruturas <strong>de</strong> articulação e negociação previstas no SUS, entre outras. As estruturas<br />
formais têm composição e função distintas, embora, em muitos casos, sejam os mesmos<br />
atores ou combinações diferentes <strong>de</strong>sses. O conselho <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> segue configurando-se<br />
como a instância com representação mais ampliada <strong>de</strong> segmentos <strong>de</strong> governo, socieda<strong>de</strong>
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
e prestadores. A complexida<strong>de</strong> da negociação regional parece refletir a necessida<strong>de</strong><br />
crescente <strong>de</strong> aprofundamento da discussão e da <strong>de</strong>cisão, que a cooperação entre os<br />
governos vai impondo.<br />
Figura 3 – Composição dos agentes integrantes dos espaços institucionais <strong>de</strong> negociação<br />
do SUS em Mato Grosso<br />
Fonte: SES/MT.<br />
Finalmente, o funcionamento integrado, no polo regional, dos cinco mecanismos<br />
abordados anteriormente, gerou duas transformações políticas fundamentais no estado <strong>de</strong><br />
Mato Grosso: consensos regionais prévios às <strong>de</strong>mandas encaminhadas à gestão estadual e<br />
a gerência cooperativa <strong>de</strong> sistemas. Tais transformações <strong>de</strong>correm do fato <strong>de</strong> que a edição<br />
dos mecanismos possibilitou que os municípios tivessem espaços reais <strong>de</strong> discussão e <strong>de</strong><br />
construção <strong>de</strong> consensos, para orientar e articular suas <strong>de</strong>mandas à gestão estadual. Desse<br />
modo, afastaram, formalmente, a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> adoção <strong>de</strong> soluções atomizadas ou<br />
isoladas, as quais fragmentam os investimentos no sistema estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (MENDES,<br />
1999).<br />
A gerência cooperativa da atenção <strong>de</strong> referência pelo conjunto <strong>de</strong> municípios<br />
consorciados resultou em uma forma <strong>de</strong> regulação interna ao sistema, que se expressou<br />
na formalização <strong>de</strong> compromisso entre os governos. A partir do mo<strong>de</strong>lo pactuado, os<br />
municípios passam a comprometer-se a garantir, no mínimo, a atenção básica em seu<br />
território e, em contrapartida, teriam a referência <strong>de</strong> atendimento especializado, <strong>de</strong>finida<br />
e garantida pelo consórcio. 79 A <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> cada município por serviços <strong>de</strong> referência<br />
regional indicava, em certa medida, o grau <strong>de</strong> organização da atenção básica. Como a<br />
assistência prestada pelo consórcio é previamente programada e custeada pelo conjunto <strong>de</strong><br />
municípios, o compromisso <strong>de</strong> cada governo municipal frente ao conjunto <strong>de</strong> municípios<br />
79 Todos os municípios <strong>de</strong> Mato Grosso têm PACS, e 89 <strong>de</strong>les, equipes <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da família (ESF); consi<strong>de</strong>rando que, <strong>de</strong> acordo com a<br />
população, a maioria dos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso não possui viabilida<strong>de</strong> para serviços <strong>de</strong> maior complexida<strong>de</strong> (LEVCOVITZ, 1997), é<br />
esperado que a questão da referência para esse atendimento seja mobilizadora da cooperação intermunicipal.<br />
147
148<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
é permanentemente checado, segundo o princípio implícito na cooperação <strong>de</strong> controle<br />
mútuo. 80<br />
As transformações geradas com a implantação dos mecanismos <strong>de</strong>scritos<br />
implicaram, por fim, na recomposição do tipo e da amplitu<strong>de</strong> das <strong>de</strong>cisões entre os<br />
atores local, regional e estadual (Quadro 1). Com a reorganização regional, a discussão,<br />
a negociação e a <strong>de</strong>cisão quanto a uma série <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s foram transferidas para o<br />
espaço regional, vindo a conferir mais autonomia e efetivida<strong>de</strong> à <strong>de</strong>scentralização. Na<br />
representação do Quadro 1, por espaço regional foi entendido o conjunto <strong>de</strong> municípios<br />
junto com o estado, a SES/MT. Nos cinco aspectos <strong>de</strong>stacados, referentes à organização<br />
regional da atenção, observa-se que a maior autonomia <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão está no âmbito regional.<br />
Quadro 1 - Autonomia dos Espaços <strong>de</strong> Decisão, em Mato Grosso, 2000<br />
Fonte: Elaborado com inspiração em Bossert (1998).<br />
Observações: os graus revelam diferenças na extensão da transferência <strong>de</strong> atributos <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão em cada ação.<br />
+ Baixa: <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> sobre os interesses individuais e necessida<strong>de</strong>s<br />
++ Média: <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> sobre aspectos especiais que impliquem o conjunto <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s<br />
+++ Alta: <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> todos os aspectos referentes a maioria das necessida<strong>de</strong>s.<br />
5 REENGENHARIA DOS POLOS REGIONAIS: REGIONALIZAÇÃO<br />
DA ATENÇÃO ESPECIALIZADA<br />
A proposta política do estado <strong>de</strong> Mato Grosso para a implantação da<br />
<strong>de</strong>scentralização teve, então, como fundamento, a morfologia (organização) do sistema<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, <strong>de</strong> acordo com os marcos contidos na NOB/96, e utilizou mecanismos previstos<br />
80 A cooperação ocorre, quando agentes se empenham em empreendimento conjunto, para o qual são necessárias ações <strong>de</strong>finidas <strong>de</strong><br />
cada um, estabelecidas previamente em espécie <strong>de</strong> contrato, embora o conjunto <strong>de</strong> regras e acordos possa <strong>de</strong>senvolver-se no <strong>de</strong>correr da<br />
interação cooperativa. Em certo sentido, a cooperação leva à monitoração entre os agentes cooperadores das ações, uns dos outros, porque<br />
o resultado da cooperação envolve a execução da parte <strong>de</strong> cada um no contrato. A ação cooperativa inclui, portanto, certo grau <strong>de</strong> risco e <strong>de</strong><br />
fragilida<strong>de</strong>, em que a confiança no cumprimento da regra do jogo pelo outro seria o ingrediente fundamental para contrapor às incertezas.<br />
A complexida<strong>de</strong> sociológica do tema da cooperação, todavia, é ressaltada com a inclusão da questão da confiança. No campo das ciências<br />
econômicas, por sua vez, a confiança é equiparada a um recurso, escasso e não reproduzível à vonta<strong>de</strong>. Outras correntes contestam essa<br />
posição e <strong>de</strong>monstram que a confiança não seria como os <strong>de</strong>mais recursos, porque, ao contrário, esgota-se se não for usada, e po<strong>de</strong> ser<br />
produzida. Cooperação e confiança interagem permanentemente <strong>de</strong> variadas formas no cotidiano; contudo, para se obter cooperação, a<br />
confiança mútua sempre está implícita. Ainda que a cooperação possa ocorrer sem a confiança, no fim, influencia <strong>de</strong> modo positivo a<br />
confiança. Entre outros motivadores da cooperação está o cálculo, pelos agentes, das perdas, no fracasso da cooperação, nas interações<br />
presentes e futuras (OUTHWAITE e BOTTOMORE, 1996).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
no SUS, como os consórcios e as instâncias <strong>de</strong> pactuação, controle e avaliação, para<br />
criar alianças em espaços regionais (CIB Regional, PPI, SER e CAR). Ao transferir o<br />
planejamento, a regulação e a monitoria do sistema para o âmbito regional, a proposta<br />
ativou estruturas promotoras <strong>de</strong> consensos intergovernamentais e <strong>de</strong>stes, com os<br />
prestadores e a socieda<strong>de</strong> (CIBR, conselhos municipais e consórcio). A arquitetura dos<br />
polos regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, por sua vez, teve dois eixos estruturais: a organização da atenção<br />
básica, a ser <strong>de</strong>senvolvida pelo município, e a organização da atenção especializada, a<br />
ser compartilhada entre um conjunto <strong>de</strong> municípios e o Estado, nos consórcios. Cada<br />
município, <strong>de</strong>ntro dos marcos do novo mo<strong>de</strong>lo, responsabilizar-se-ia pela atenção básica<br />
<strong>de</strong> sua população, valendo-se, para tanto, <strong>de</strong> programas como o PACS e o PSF. Com a<br />
<strong>de</strong>manda <strong>de</strong> atenção básica organizada e atendida, restava a organização da referência<br />
da atenção especializada – <strong>de</strong> escala econômica distinta – a qual carecia da cooperação<br />
intergovernamental e, na modalida<strong>de</strong> proposta, o instrumento foi o consórcio. Para<br />
promover a a<strong>de</strong>são dos municípios a esses eixos, o Estado <strong>de</strong>stinou incentivos financeiros<br />
às prefeituras e conferiu priorida<strong>de</strong> aos investimentos em regiões que abrigavam<br />
consórcios.<br />
Se os eixos <strong>de</strong>ram os traços <strong>de</strong> conformação dos polos, os mecanismos utilizados<br />
para fomentar a organização da atenção básica e <strong>de</strong> referência, tratados anteriormente,<br />
forneceram o seu conteúdo. Criados em 1992, por Decreto Estadual, os nove polos<br />
existentes até o ano <strong>de</strong> 2000 atuavam como entes <strong>de</strong>sconcentrados, exercendo funções<br />
restritas à distribuição <strong>de</strong> medicamentos e <strong>de</strong> vacinas. Até 1995, portanto, os polos<br />
não executavam ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cooperação técnica com os municípios ou atuavam na<br />
organização da atenção à saú<strong>de</strong>, ainda que estivessem presentes em todo o interior do<br />
Estado. 81<br />
A transformação <strong>de</strong>sses polos em espaço <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão concertada, aqui <strong>de</strong>nominada<br />
reengenharia, foi um processo ocorrido a partir <strong>de</strong> 1995, <strong>de</strong>corrente da implantação da<br />
política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> estadual, <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização pela via da regionalização. Na prática,<br />
significou que estruturas <strong>de</strong>sconcentradas do governo estadual fossem reatualizadas com<br />
finalida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> supervisão, coor<strong>de</strong>nação e assessoria aos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> existentes na<br />
região <strong>de</strong> abrangência. Os polos regionais passaram então a funcionar como se<strong>de</strong> da<br />
articulação e integração intergovernamental (MATO GROSSO, 1998). 82<br />
81 A partir <strong>de</strong> 1995, portanto, para albergar o <strong>de</strong>senvolvimento da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, a estrutura dos polos regionais foi revista em face<br />
das priorida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização da gestão assumidas pelo governo, buscando caracterizá-los como instâncias <strong>de</strong> operacionalização da<br />
cooperação para a mudança no sistema. Com a transformação, os polos passavam a assumir, em âmbito regional, atribuições coerentes<br />
com a execução e a coor<strong>de</strong>nação <strong>de</strong> funções da gestão estadual, tais como: (i) a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> profissionais e realização<br />
<strong>de</strong> capacitação e <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> recursos humanos, (ii) a <strong>de</strong>tecção <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> geração <strong>de</strong> informações para avaliação <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sempenho e crítica das ações, (iii) a elaboração <strong>de</strong> relatórios técnicos e gerenciais, (v) a assessoria para a implantação <strong>de</strong> consórcios, (vi)<br />
a assessoria para a implantação e a implementação <strong>de</strong> conselhos municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, (vii) a participação ativa nas câmaras regionais <strong>de</strong><br />
compensação <strong>de</strong> AIH, e (viii) a participação na CIB regional (MATO GROSSO, 1998).<br />
82 A SES/MT realizou investimentos para capacitação permanente <strong>de</strong> equipes lotadas nos polos, para aten<strong>de</strong>r, em nível regional, <strong>de</strong>mandas<br />
dos municípios, à medida que assumiam responsabilida<strong>de</strong>s. A partir do polo, a capacitação foi estendida aos governos municipais,<br />
consoante à Resolução CIB/MT n. 002/97 (MATO GROSSO, 2000a). No mesmo período, foram capacitados conselheiros municipais <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> e realizada a formação, na lógica <strong>de</strong> território regional, <strong>de</strong> auxiliares <strong>de</strong> enfermagem e outros profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. De acordo com a<br />
IV Oficina para Avaliar Priorida<strong>de</strong>s e Repactuar Compromissos Rumo à Gestão Plena da Saú<strong>de</strong>, realizada pela SES/MT, em abril <strong>de</strong> 2000,<br />
149
REFERÊNCIAS<br />
150<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
ARRETCHE, M. T. S. <strong>Políticas</strong> Sociais no Brasil: <strong>de</strong>scentralização em um Estado<br />
fe<strong>de</strong>rativo. Revista Brasileira <strong>de</strong> Ciências Sociais, v. 14, n. 40, p. 111-141, 1999.<br />
ARRETCHE, M. T. S. Estado Fe<strong>de</strong>rativo e <strong>Políticas</strong> Sociais: <strong>de</strong>terminantes da<br />
<strong>de</strong>scentralização. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Revan, 2000.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria <strong>de</strong> Assistência à Saú<strong>de</strong>. Segundo Relatório<br />
sobre o Processo <strong>de</strong> Organização da Gestão da Assistência à Saú<strong>de</strong>. Brasília: MS,<br />
1995a.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria <strong>de</strong> Assistência à Saú<strong>de</strong>. Terceiro Relatório<br />
Sobre o Processo <strong>de</strong> Organização da Gestão da Assistência à Saú<strong>de</strong>: a Programação<br />
Hospitalar Integrada. Brasília: MS, 1995b.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Portaria MS/GM n. 2203, <strong>de</strong> 05 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1996.<br />
Norma Operacional Básica do SUS 01/96. Gestão plena com responsabilida<strong>de</strong> pela gestão<br />
do cidadão, 1996. Brasília: MS, 1996.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria <strong>de</strong> Assistência à Saú<strong>de</strong>. Dados da Habilitação<br />
NOB/93. Brasília: MS, 1997a.<br />
BRASIL. Banco <strong>de</strong> Dados do Ministério da Saú<strong>de</strong> (DATASUS). Indicadores <strong>de</strong> Dados<br />
Básicos (IDB). Brasília: MS, 1997b.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria <strong>de</strong> <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Gestão Estadual do SUS<br />
– Tendências e Perspectivas. Brasília: MS, 1999. (Relatório Final do Seminário realizado<br />
em Brasília).<br />
BRASIL. Pesquisa Nacional por Amostra <strong>de</strong> Domicílios – PNAD. Síntese <strong>de</strong> Indicadores<br />
1999. Rio <strong>de</strong> Janeiro: IBGE, 2000a.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria <strong>de</strong> Assistência à Saú<strong>de</strong>. Assistência Hospitalar<br />
no SUS 1995/1999. Brasília: MS, 2000b.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Secretaria <strong>de</strong> Assistência à Saú<strong>de</strong>. Consulta Pública n. 1,<br />
<strong>de</strong> 08 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2000. Brasília: MS, 2000c.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Relatório Final da 11ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Brasília: MS, 2000d.<br />
BRASIL. Agência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Suplementar. Distribuição Geográfica dos<br />
Beneficiários do Brasil. Rio <strong>de</strong> Janeiro: ANS, 2001.<br />
no Projeto <strong>de</strong> Capacitação <strong>de</strong> Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e Socieda<strong>de</strong> Civil, foram capacitados 1.642 conselheiros, oriundos <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 90% dos<br />
municípios <strong>de</strong> MT (MATO GROSSO, 2000c).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
CAMPINAS. Universida<strong>de</strong> Estadual <strong>de</strong> Campinas. Instituto <strong>de</strong> Economia. Caracterização<br />
e tendências da re<strong>de</strong> urbana do Brasil. Campinas: UNICAMP, 1999. (Coleção Pesquisas<br />
3, v. 1-2).<br />
GIOVANELLA, L.; LOBATO, L. <strong>de</strong> V. C.; CARVALHO, A. I. <strong>de</strong>; CONILL, E. M.;<br />
CUNHA, E. M. da. Integralida<strong>de</strong> da Atenção em Sistemas Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>:<br />
metodologia <strong>de</strong> avaliação e intervenção. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Fiocruz, 2000. (Relatório <strong>de</strong><br />
Pesquisa, Programa <strong>de</strong> Pesquisa Estratégica – Papes).<br />
LAVRAS, C. C. C. Relatório Referente às Ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Consultoria Desenvolvidas<br />
junto à Secretaria <strong>de</strong> Estado da Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso–Brasil. Brasília: MS, 1999.<br />
(Projeto Apoio à Reforma do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>).<br />
LEVCOVITZ, E. Transição x Consolidação: o dilema estratégico da construção do SUS,<br />
um estudo das reformas da política nacional 1974-1996. 1997. 302 f. Tese (Doutorado em<br />
Saú<strong>de</strong> Coletiva) - Instituto <strong>de</strong> Medicina Social, Universida<strong>de</strong> do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro,<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro, 1997.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Saú<strong>de</strong> em Números 4, Cuiabá: SES,<br />
1998.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Resoluções da Comissão Intergestores<br />
Bipartite:1995 a 1999. Cuiabá: SES, 2000a. (Série Legislação da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso,<br />
número 4).<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Leis e Decretos. Cuiabá: SES, 2000b.<br />
(Série Legislação da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso, n. 2).<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Avaliação da Política <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> do<br />
Estado <strong>de</strong> Mato Grosso: 1995 a 1998. 2. ed. Cuiabá: SES, 2000c.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Plano Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> 2000-2003.<br />
Cuiabá: SES, 2000d.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Ações da SES. Cuiabá: SES, 2000e.<br />
Disponível em: . Acesso em: 11/06/2000.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Consórcios: Informações. Cuiabá:<br />
SES, 2000f. Disponível em: . Acesso em: 11/06/2000.<br />
MATO GROSSO. Balanço Anual: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Gazeta Mercantil,<br />
ano 3, n. 3, nov. 2000g.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Projeto para a Implementação do<br />
Sistema <strong>de</strong> Microrregionalização <strong>de</strong> Ações e Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Cuiabá: SES, 2000h.<br />
MATO GROSSO. Governo do Estado. Curriculum do Governador Dante Martins <strong>de</strong><br />
151
152<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Oliveira. Cuiabá: SES, 2001a. Disponível em: . Acesso em: 05/03/2001.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. O SUS reconhecido. 2 ed. Cuiabá:<br />
SES, 2001b.<br />
MENDES, E. V. Uma Agenda para a Saú<strong>de</strong>. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1999.<br />
OUTHWAITE, W.; BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento Social do Século<br />
XX. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Jorge Zahar, 1996.<br />
SOUSA, M. F. <strong>de</strong>. Gestão da Atenção Básica: re<strong>de</strong>finindo contexto e possibilida<strong>de</strong>s.<br />
Divulgação em Saú<strong>de</strong> para Debate, n. 21, p. 7-14, 2000.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL E CONFERÊNCIAS<br />
DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Eixo Temático III<br />
153
154<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
APRESENTAÇÃO<br />
Os textos apresentados neste eixo temático, diferentemente dos anteriores,<br />
ressaltam a importância da participação social nas transformações ocorridas nas políticas<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, sobretudo <strong>de</strong>pois do processo <strong>de</strong> re<strong>de</strong>mocratização do país nos anos 1980.<br />
Também, i<strong>de</strong>ntificam elementos e estratégias para a qualificação da gestão participativa<br />
do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS) em municípios <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
O primeiro texto caracteriza a participação dos Movimentos Sociais nas lutas<br />
pela saú<strong>de</strong> e na construção do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso. Recupera<br />
a atuação dos movimentos sociais no período que antece<strong>de</strong> a criação do SUS e faz<br />
parte <strong>de</strong> um estudo que analisa a participação dos Movimentos Sociais nos Conselhos<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> cujo objetivo foi avaliar, em uma perspectiva político-pedagógica, como se<br />
efetiva a participação <strong>de</strong>mocrática no controle das ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Resultou<br />
na Dissertação <strong>de</strong> Mestrado “CONSELHOS DE SAÚDE: espaço <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratização das<br />
políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> ou <strong>de</strong> cooptação dos movimentos sociais?” (um estudo do significado<br />
político-pedagógico da participação popular no Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> – gestão<br />
95/97), apresentada ao Programa <strong>de</strong> Pós-Graduação em Educação do Instituto <strong>de</strong> Educação<br />
da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso, em agosto <strong>de</strong> 1999.<br />
O segundo texto estuda as Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em municípios<br />
<strong>de</strong> Mato grosso e analisa a sua influência na incorporação das <strong>de</strong>mandas populares às<br />
políticas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Permite uma visão mais atual do processo <strong>de</strong> organização<br />
do SUS com foco na gestão e planejamento municipal na área da saú<strong>de</strong> evi<strong>de</strong>nciando a<br />
forma como esta valoriza, muito ou pouco, a participação popular. É resultado da pesquisa:<br />
“Incorporação das <strong>de</strong>mandas populares às políticas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em Mato Grosso:<br />
2003-2006”, realizada pelo grupo <strong>de</strong> pesquisadores do Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em<br />
Saú<strong>de</strong> no período <strong>de</strong> 2005 a 2010.<br />
Os organizadores<br />
155
156<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
O MOVIMENTO PELA SAÚDE EM MATO GROSSO E<br />
CRIAÇÃO DO CONSELHO ESTADUAL DE SAÚDE 83<br />
Nina Rosa Ferreira Soares 84<br />
O presente texto caracteriza a participação dos Movimentos Sociais nas lutas<br />
pela saú<strong>de</strong> e na construção do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso (CES/MT)<br />
e, para tanto, utilizamo-nos, além <strong>de</strong> textos <strong>de</strong> autores locais, 85 das atas das Comissões<br />
Intergestores <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, e dos <strong>de</strong>poimentos <strong>de</strong> pessoas<br />
que tiveram expressão na militância pela construção do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS),<br />
no Estado. 86<br />
Com base nos dados coletados, po<strong>de</strong>mos apontar que, em Mato Grosso, até a<br />
realização da VIII Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, em 1986, não existia uma mobilização<br />
social mais ampla, em torno <strong>de</strong> uma proposta <strong>de</strong> atenção à saú<strong>de</strong> que trouxesse mudanças<br />
estruturais nos rumos da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvida até então.<br />
Com isso, não estamos afirmando que não havia lutas populares por saú<strong>de</strong> no<br />
Estado, só que eram <strong>de</strong> forma bastante pontuais e por questões específicas (construção<br />
<strong>de</strong> postos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, saneamento etc.). Fazia-se, também, um trabalho com mulheres, com<br />
plantas medicinais, homeopatia popular, entre outros. Porém, não havia articulação com<br />
outros movimentos e nem a discussão <strong>de</strong> uma política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> forma mais abrangente,<br />
conforme se <strong>de</strong>preen<strong>de</strong> do seguinte <strong>de</strong>poimento: “Assim, como movimento <strong>de</strong> resistência<br />
ou <strong>de</strong> discussão <strong>de</strong> política, eu não lembro, conhecia outras experiências localizadas, que<br />
faziam um trabalho muito mais ligado a agentes <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, como Poconé, por exemplo, [...]<br />
a Pastoral, a Igreja, tiveram uma base <strong>de</strong> trabalho importante.” (F.T.).<br />
Existiram, ainda, a partir <strong>de</strong> 1983, algumas experiências diferenciadas como a do<br />
Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Escola, em Cuiabá, ligado naquela época, à Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso (UFMT), que era gerenciado por um Conselho Deliberativo com participação da<br />
comunida<strong>de</strong>. Havia, também, a Comissão Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, em Rondonópolis, sendo<br />
que esta foi criada com:<br />
83 Capítulo da dissertação <strong>de</strong> mestrado em Educação, Instituto <strong>de</strong> Educação da UFMT, 1999.<br />
84 Assistente Social. Mestre em Educação pela Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso. Pesquisadora do Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em<br />
Saú<strong>de</strong> da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso<br />
85 MATSUBARA, (1997); MEIRELLES et al. (1991); MEIRELLES et al. (1992); SILVA (1997); PRIETCH (1986); VELASCO et al.<br />
(1990).<br />
86 Foram realizadas 03 (três) entrevistas. Os entrevistados foram: a Coor<strong>de</strong>nadora do MOPS estadual na época <strong>de</strong> sua criação, enfermeira<br />
Fátima Ticianel Schra<strong>de</strong>r; o médico sanitarista Júlio Strubing Müller Neto, Secretário Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá – 1986/1989, 1º<br />
Presi<strong>de</strong>nte e um dos fundadores do COSEMS/MT e Secretário Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e Presi<strong>de</strong>nte do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> – 1995/2002;<br />
e a professora Maria Angélica dos Santos Spinelli, pesquisadora do Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong>/UFMT. Esses <strong>de</strong>poimentos<br />
encontram-se gravados e transcritos.<br />
157
158<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> nortear um programa <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrático e viável<br />
[...] e tinha como funções: trazer assuntos <strong>de</strong> seus bairros, à busca <strong>de</strong><br />
soluções práticas e regionais, discutir assuntos <strong>de</strong> política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e<br />
técnicos, participar dos projetos na área da saú<strong>de</strong> em todos os níveis<br />
(planejamento, edificação e execução) e participar do processo<br />
educativo [...] (PRIETCH, 1986, p. 05).<br />
Pelo lado dos profissionais, principalmente aqueles ligados à UFMT, no final<br />
dos anos 1970, já se sentia a influência do Movimento Sanitário, como po<strong>de</strong>mos observar<br />
na fala seguinte:<br />
[...] o Movimento Sanitário, ele teve alguma presença em Mato Grosso<br />
mais pelo lado dos profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, especialmente os médicos,<br />
no final da década <strong>de</strong> 70 e início da década <strong>de</strong> 80, grupos <strong>de</strong> médicos<br />
mais articulados, mais conscientes, naquele momento vinculados, inclusive,<br />
politicamente ao antigo MDB e que promoveram as primeiras<br />
medidas, as primeiras mudanças, as primeiras reivindicações relacionadas<br />
ao Movimento Sanitário. Evi<strong>de</strong>nte que era um movimento também<br />
corporativo, tinha as reivindicações médicas mas, já com a refundação<br />
do Sindicato dos Médicos em 79 e 80 e, posteriormente, com a<br />
vitória <strong>de</strong>sses grupos renovadores da Associação Médica Brasileira, da<br />
Associação Médica <strong>de</strong> Mato Grosso e mais tar<strong>de</strong> com o Conselho Regional<br />
<strong>de</strong> Medicina, a gente começou a ter uma discussão sobre Política<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, sobre priorida<strong>de</strong>s, etc. no âmbito <strong>de</strong>sses grupos, vamos dizer<br />
assim, grupos <strong>de</strong> vanguardas do Movimento Médico. Nesse momento,<br />
ele coincidiu um pouco com aquele movimento da renovação médica<br />
que tinha a nível nacional e havia uma articulação, inclusive, com esse<br />
movimento nacional. Esses grupos médicos, ele teve algumas expressões<br />
importantes que inclusive se repetiram no próprio meio médico na<br />
Universida<strong>de</strong> [...] pessoas ligadas a esses movimentos também tinham<br />
ou passaram a ter condições <strong>de</strong> influenciar, seja nas organizações sociais,<br />
associações médicas, etc., seja através da formulação <strong>de</strong> políticas<br />
<strong>de</strong> algumas instituições públicas, principalmente, num primeiro<br />
momento na Universida<strong>de</strong>, num segundo momento com a queda do<br />
regime militar e o início da Nova República, houve uma mudança e<br />
esses grupos, eles passaram a ter posições já <strong>de</strong>ntro da estrutura, no<br />
aparelho do Estado, no antigo INAMPS; na própria Secretaria Municipal<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá pra on<strong>de</strong> eu fui como Secretário em 85, [...] e se<br />
passou, então, aí sim, a ter uma articulação, uma ponte maior com esses<br />
movimentos nacionais e um entrosamento, vamos dizer assim, com a<br />
discussão no âmbito nacional a respeito da Reforma Sanitária. Além<br />
<strong>de</strong>sses núcleos, eu diria que <strong>de</strong>ntro da Universida<strong>de</strong> tinha um pequeno<br />
núcleo que se formou, principalmente, a partir do primeiro curso que<br />
teve <strong>de</strong> especialização em Saú<strong>de</strong> Pública dado aqui na Universida<strong>de</strong>. E<br />
esse pequeno núcleo que procurava articular a linha das ações <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Pública que foi quem implantou, por exemplo, o Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Escola<br />
e que procurou, vamos dizer assim, formular projetos e <strong>de</strong>senvolver<br />
algumas ações voltadas para uma mudança – naquele momento não era<br />
nem tanto mudança – eu me lembro que a discussão era mostrar que<br />
era viável o mo<strong>de</strong>lo da Saú<strong>de</strong> Pública, o mo<strong>de</strong>lo sanitário, um mo<strong>de</strong>lo<br />
diferente daquele hegemônico, absoluto, que era do INAMPS, da as-
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
sistência hospitalar. Esse núcleo era constituído <strong>de</strong> alguns professores<br />
vinculados ao Departamento <strong>de</strong> Medicina, ao Departamento <strong>de</strong> Enfermagem,<br />
etc. e mais tar<strong>de</strong> ele teve, vamos dizer assim, uma participação<br />
importante do Severino Márcio Meirelles, quando veio para Universida<strong>de</strong>,<br />
terminou a pós-graduação <strong>de</strong>le e <strong>de</strong>senvolveu aqui aquele trabalho<br />
<strong>de</strong> pesquisa relacionado ao POLONOROESTE e on<strong>de</strong> po<strong>de</strong> se<br />
aglutinar; também, um outro grupo importante <strong>de</strong> pessoas a partir <strong>de</strong>sse<br />
trabalho. Então, eu acho que isso foram embriões que no caso <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso <strong>de</strong>ram o ‘START’, a saída, o início para esse processo <strong>de</strong> discussão<br />
da questão, da mudança do mo<strong>de</strong>lo da assistência e da Reforma<br />
Sanitária no Estado (J.M.).<br />
O <strong>de</strong>poimento acima transcrito reforça a observação <strong>de</strong> que, até então, não<br />
havia a participação da população usuária na discussão a respeito <strong>de</strong> uma reforma no<br />
setor saú<strong>de</strong>, situação, essa, corroborada pelo <strong>de</strong>poimento seguinte: “Em Mato Grosso, um<br />
Estado conservador, o peso, inclusive, da oposição era mínimo. Essas organizações da<br />
socieda<strong>de</strong> civil eram muito frágeis. Na área da saú<strong>de</strong>, praticamente, não existia nenhuma<br />
tradição diferente do mo<strong>de</strong>lo hegemônico. Na primeira meta<strong>de</strong> da década era isso.” (J.M.).<br />
Segundo Meirelles et al. (1989), quando da implantação das Ações Integradas <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> (AIS), a partir <strong>de</strong> 1984, em Mato Grosso, o governo do Estado, do mesmo partido<br />
político do Governo Fe<strong>de</strong>ral, não tinha entre as suas priorida<strong>de</strong>s as políticas sociais, não<br />
dando a esse projeto o mesmo apoio que lhe foi dado em outros Estados, pelos governos <strong>de</strong><br />
oposição. Não bastassem as dificulda<strong>de</strong>s políticas para a implantação das AIS, registrouse<br />
um pequeno número <strong>de</strong> técnicos comprometidos com a proposta, além da falta <strong>de</strong> apoio<br />
técnico-administrativo. Eram poucos os sanitaristas no Estado, os técnicos dos serviços<br />
eram, na sua maioria, especialistas que atuavam na Saú<strong>de</strong> Pública, com dupla militância<br />
profissional, no setor público e no setor privado.<br />
Todavia, com as mudanças no cenário político através da vitória do Partido<br />
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), em alguns municípios do Estado, foi<br />
dado início à implantação <strong>de</strong> algumas questões municipais diferenciadas, fazendo uma<br />
articulação com a população organizada, como por exemplo,<br />
Rondonópolis começou a implantar programas <strong>de</strong> agentes comunitários<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, no ano <strong>de</strong> 82, 83, na primeira gestão lá que o PMDB ganhou.<br />
Cuiabá, também, começa a fazer uma interface e mesmo antes,<br />
inclusive, da Constituinte, mesmo antes até da 8ª Conferência, nós aqui<br />
já fazíamos trabalho com a população em bairros através <strong>de</strong> cursos<br />
populares <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, eram feitos em Associações <strong>de</strong> Bairros durante<br />
os finais <strong>de</strong> semana, sábado e domingo e esse trabalho envolvia todas<br />
as entida<strong>de</strong>s, associações daquele <strong>de</strong>terminado bairro pra se discutir<br />
priorida<strong>de</strong>s, discutir os problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, a questão da consciência<br />
sanitária, etc. que eram abordados (J.M.).<br />
159
160<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Em Cuiabá, embora a composição da Comissão Interinstitucional Municipal <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá (CIMS/Cuiabá) 87 não contemplasse nenhuma representação da socieda<strong>de</strong><br />
civil, esta Comissão, também, fazia reuniões com representantes das associações <strong>de</strong><br />
moradores, em caráter permanente, todas as terceiras sextas-feiras <strong>de</strong> cada mês. Pelo<br />
que se <strong>de</strong>preen<strong>de</strong> das atas, as reuniões eram bastante abertas, porém, nelas, não eram<br />
elaboradas propostas, já que funcionavam mais como uma prestação <strong>de</strong> contas daquilo que<br />
o Executivo vinha realizando na área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
[...], essa era uma característica que a gente percebeu no município.<br />
Eles tinham uma abertura, aconteciam reuniões nos bairros muito<br />
interessantes, abertas mas, não se consolidavam e ficavam reuniões<br />
muito abertas. As várias que eu fui, eu tentei até sugerir algum<br />
encaminhamento para que a gente pu<strong>de</strong>sse <strong>de</strong>finir coisas, mas isso foi...<br />
era o jeito <strong>de</strong>les fazer (F.T.).<br />
A partir <strong>de</strong> 1983, entra em cena um ator importante, que vai apontar para a<br />
organização e mobilização da população na discussão da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Começou a<br />
consolidar-se, em Mato Grosso, o Movimento Popular <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (MOPS), que surgiu a<br />
partir <strong>de</strong> um grupo <strong>de</strong> pessoas ligadas à Pastoral da Saú<strong>de</strong>, que em contato com esse<br />
movimento, em nível nacional, foi chamado a participar do IV Encontro Nacional. “Lá,<br />
nós fomos numa equipe <strong>de</strong> participantes aqui <strong>de</strong> Cuiabá, <strong>de</strong> Rondonópolis, [...] algumas<br />
pessoas da própria Secretaria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, na época. Praticamente esses dois municípios que<br />
foram para esse encontro. E, a partir daí a gente começou a constituir um nucleozinho do<br />
movimento aqui em Mato Grosso.” (F.T.).<br />
Em um primeiro momento, o MOPS <strong>de</strong>senvolvia um trabalho <strong>de</strong> forma ainda<br />
localizada, “ligado às conjunturas concretas da população <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminados bairros, nem<br />
por isso menos importante, só que ainda não tinha uma visão e uma participação no âmbito<br />
mais da <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> políticas, das priorida<strong>de</strong>s, enfim, da discussão mais ampla da saú<strong>de</strong>.”<br />
(J.M.), suas ações eram mais no sentido <strong>de</strong> resgatar experiências. “Das experiências que<br />
mais tinham e apareciam naquele momento eram <strong>de</strong> mulheres que trabalhavam com<br />
saú<strong>de</strong> [...] tratamento a base <strong>de</strong> plantas, <strong>de</strong> ervas, alimentação alternativa e faziam algum<br />
trabalho engajado em bairros <strong>de</strong> periferia.” (F.T.).<br />
Foi, então, aprovado um primeiro projeto <strong>de</strong> organização popular, inicialmente,<br />
em Cuiabá.<br />
Ali começou a constituir, discutir o papel do MOPS e da Pastoral. E o<br />
MOPS trazia, pela discussão que já estava começando a nível nacional,<br />
um outro componente, que não só trabalhar com a questão localizada,<br />
mas com a questão das <strong>Políticas</strong> Públicas, <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, na época<br />
87 As instituições que compunham a CIMS/Cuiabá eram a Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá, a Fundação <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá,<br />
a Secretaria Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, o Instituto Nacional <strong>de</strong> Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), a UFMT (Hospital<br />
Universitário) e a Superintendência <strong>de</strong> Campanhas (SUCAM).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
já começava a discutir a VIII Conferência, a preparação, o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> que se esperava (F.T.).<br />
Em 1985, como etapa preparatória da VIII Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>,<br />
aconteceu, em Mato Grosso, a I Conferência Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Esta Conferência teve,<br />
porém, uma participação praticamente <strong>de</strong> técnicos. 88<br />
Embora o MOPS/Nacional tenha participado como <strong>de</strong>legado na Conferência<br />
Nacional, aqui no Estado não foi chamado a participar das discussões que a antece<strong>de</strong>ram,<br />
como se <strong>de</strong>preen<strong>de</strong> do <strong>de</strong>poimento abaixo:<br />
Em 86, a gente organizou a participação do Movimento Nacional na<br />
Conferência. [...] Participamos da discussão do encontro que aconteceu<br />
em São Luiz. É que São Luiz foi o quinto encontro perto da Conferência.<br />
Foi próximo à Conferência [...] Conferência, aqui, em Mato Grosso?<br />
Não me lembro e se teve nós também não fomos... (F.T.).<br />
Mesmo em Cuiabá, município que, à época da Conferência, tinha uma<br />
administração que contemplava a participação popular, não houve nenhuma mobilização<br />
no sentido <strong>de</strong> discutir-se, com a população, <strong>de</strong> forma mais ampla, os problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Quando surgiu a convocação da VIII Conferência em Mato Grosso<br />
houve uma discussão na Comissão Interinstitucional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (CIS),<br />
que era equivalente a CIMS, mas no âmbito do Estado. [...] E lá saiu<br />
uma discussão, inclusive, sobre representação e tinha um <strong>de</strong>terminado<br />
número <strong>de</strong> vagas que eram <strong>de</strong>stinados à administração, aos órgãos<br />
públicos, etc. (J.M.).<br />
Percebemos, assim, que as discussões ficaram mais restritas a um grupo <strong>de</strong><br />
técnicos e dirigentes das instituições públicas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Após a VIII Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, as diretrizes propostas para o SUS,<br />
passaram a ser alvo, em Mato Grosso, das discussões <strong>de</strong> intelectuais e profissionais da<br />
área da saú<strong>de</strong>, bem como <strong>de</strong> alguns movimentos organizados da socieda<strong>de</strong> civil, porém,<br />
ainda, com pouca a<strong>de</strong>são da população usuária, propriamente dita, conforme ilustra o<br />
seguinte <strong>de</strong>poimento:<br />
A partir <strong>de</strong>sse envolvimento, a gente começou a entrar numa discussão<br />
mesmo, através <strong>de</strong> organização <strong>de</strong> plenárias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, começou<br />
acontecer a partir daí. A gente viu que tinha o setor dos trabalhadores<br />
que tinham importância no processo; tinha o trabalho próprio do<br />
movimento que tinha que articular as duas coisas e era difícil porque<br />
você falar <strong>de</strong> política, é uma coisa muito abstrata para as pessoas que<br />
estão no dia a dia. Como, o que que é AIS, o que que é SUDS e não<br />
88 Sobre essa Conferência, embora alguns técnicos da Secretaria Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> tenham feito referência, não encontramos registros,<br />
tais como: convocação, relatório final, etc.<br />
161
162<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
sei o quê. A gente preparava todo um tipo <strong>de</strong> material didático e as<br />
pessoas dormiam nas reuniões. Não conseguiam ver a resolutivida<strong>de</strong><br />
pra eles mesmos e isso acabava sendo assim uma linguagem muito<br />
difícil <strong>de</strong> ser trabalhada. Mas nesse corpo menor, que a gente chama <strong>de</strong><br />
grupo <strong>de</strong> assessoria ou <strong>de</strong> grupo <strong>de</strong> militância, esse <strong>de</strong>bate era muito<br />
quente. Então, a gente talvez não conseguia fazer com que a massa,<br />
o movimento tivesse uma visão mais política da coisa, mas tinha um<br />
grupo <strong>de</strong> militância que foi se consolidando, que foi cada vez crescendo<br />
mais (F.T).<br />
Outro grupo que teve participação importante, naquele momento <strong>de</strong> discussão e<br />
implantação <strong>de</strong> uma nova proposta <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, foi o Grupo <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Popular (GSP) que,<br />
ao contrário do MOPS, não atuava como movimento, mas, sim, propunha-se a fazer<br />
um trabalho <strong>de</strong> assessoria e <strong>de</strong> articulação. Constituiu-se, em 1986, como uma entida<strong>de</strong><br />
jurídica, não governamental, <strong>de</strong> caráter filantrópico, “porém os seus membros eram os<br />
mesmos que já organizavam o MOPS.” (MATSUBARA, 1997, p. 155).<br />
Dessa forma, o GSP, com a finalida<strong>de</strong>, entre outras, <strong>de</strong> apoiar a construção do<br />
MOPS, passou a ter, como espaço <strong>de</strong> atuação, as Comissões <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, formadas por<br />
membros da comunida<strong>de</strong>, em alguns bairros periféricos <strong>de</strong> Cuiabá, assim:<br />
O Grupo <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Popular, enquanto instância on<strong>de</strong> se exerce a função<br />
pedagógica <strong>de</strong> subsidiar, informar, sensibilizar, programar ações<br />
conjuntas com outras organizações e movimentos buscando meios para<br />
viabilizá-las, vem contribuindo não só na Assessoria aos movimentos<br />
organizados nos bairros periféricos, dando-lhes suporte e sustentação,<br />
como também, incentivando a formação <strong>de</strong> novos, que se proponham<br />
a discutir a questão da saú<strong>de</strong> em toda a sua dimensão (MATSUBARA,<br />
1997, p. 140-141).<br />
A relação entre o MOPS e o GSP marcaram suas trajetórias nas lutas pela<br />
saú<strong>de</strong> no Estado. Embora o MOPS viesse se organizando <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1983, consolidou-se<br />
como movimento; todavia não possuindo caráter jurídico, não teve acesso a entida<strong>de</strong>s<br />
financiadoras. Por essa razão, o GSP:<br />
apóia e assume o processo <strong>de</strong> construção do MOPS, responsabilizandose,<br />
juridicamente pelos seus projetos e assessorando-o em suas<br />
ações diretamente. O MOPS passa, então, a dispor <strong>de</strong> recursos<br />
tanto financeiros quanto humanos, mas não suficientes para os seus<br />
propósitos, consi<strong>de</strong>rando que já se estruturava em gran<strong>de</strong> parte dos<br />
municípios <strong>de</strong> Mato Grosso. A complementação <strong>de</strong>sses recursos tem<br />
sido assumida pelo GSP (MATSUBARA, 1997, p. 156).<br />
Ainda em 1986, um outro importante ator pela <strong>de</strong>fesa do SUS começou a<br />
aparecer. Os Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, do Estado, articularam-se e formaram<br />
o Conselho <strong>de</strong> Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso (COSEMS/MT). Esta<br />
entida<strong>de</strong> congrega, ainda hoje, os Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, representando-os em
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
todas as esferas públicas, tendo como objetivo <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r os interesses municipais na área<br />
da saú<strong>de</strong>.<br />
Assim, o COSEMS/MT, passou a discutir com maior ênfase o princípio<br />
da municipalização do SUS, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>ndo a importância <strong>de</strong>sta para a implantação e<br />
operacionalização do mesmo, reforçando a tese <strong>de</strong> que as questões da saú<strong>de</strong> só serão<br />
efetivamente resolvidas em nível local, e que a <strong>de</strong>scentralização política, administrativa e<br />
financeira é imprescindível para o setor.<br />
Para Meirelles et al. (1989), outro momento importante, foi a posse, em 1987, do<br />
PMDB no governo <strong>de</strong> Mato Grosso. Este governo tinha entre suas metas, o planejamento<br />
participativo que levou à organização dos Conselhos <strong>de</strong> Desenvolvimento Municipais,<br />
em todos os municípios. A composição <strong>de</strong>sses Conselhos era semelhante à da CIMS,<br />
diferenciando um pouco, quanto às suas atribuições. Um dos resultados dos trabalhos<br />
dos Conselhos, somados aos Grupos <strong>de</strong> Trabalho ligados à CIS/MT, foi o Plano Trienal<br />
para a Saú<strong>de</strong> 87/90, que priorizava os investimentos no Estado e que foi seguido técnica<br />
e politicamente.<br />
Também, em 1987, em <strong>de</strong>corrência da Reforma Sanitária Nacional, foi proposta<br />
pelos Ministério da Saú<strong>de</strong> e Ministério da Previdência e Ação Social a consolidação das<br />
AIS através do Sistema Unificado e Descentralizado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUDS). Mato Grosso,<br />
então, integrou o SUDS, em 1988, e realizou um estudo para uma nova política estadual<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que abrangia, entre outras questões, a criação do CES/MT. Este documento foi<br />
discutido no I Encontro Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, ainda em 1988, com a participação <strong>de</strong> 70% dos<br />
municípios mato-grossenses.<br />
A partir <strong>de</strong> então, <strong>de</strong> acordo com Meirelles et al. (1990), houve uma forte<br />
mobilização a fim <strong>de</strong> garantir posições <strong>de</strong> diversos setores ligados à área da saú<strong>de</strong>, durante<br />
a discussão da Constituição Estadual. Técnicos da área da saú<strong>de</strong>, professores da UFMT e<br />
setores populares se organizaram em torno da Plenária Popular <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. 89<br />
Segundo pessoas que participaram daquela plenária, a participação era mais <strong>de</strong><br />
profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e professores universitários, sendo que o movimento popular era<br />
representado, basicamente, pelo MOPS e pelo GSP.<br />
A partir daí, foi possível garantir que a Constituição <strong>de</strong> Mato Grosso, promulgada<br />
em 1989, introduzisse nove artigos que resguardam as conquistas já formalizadas na<br />
Constituição Fe<strong>de</strong>ral, avançando em alguns pontos, tais como a criação dos Conselhos<br />
<strong>de</strong> caráter <strong>de</strong>liberativo nos níveis estadual e municipais, o que em nível nacional só foi<br />
possível através da Lei Orgânica da Saú<strong>de</strong>, em 1990.<br />
No processo <strong>de</strong> elaboração das leis orgânicas municipais, houve o engajamento<br />
do Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong> (NDS) 90 da UFMT, o qual <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ou a<br />
89 Essa plenária, além <strong>de</strong> estar citada no texto Leis Orgânicas Municipais em Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso: Capítulo da Saú<strong>de</strong>, Revista Saú<strong>de</strong> em<br />
Debate n. 30, foi também referenciada por atores participantes à época, porém nenhuma documentação foi encontrada.<br />
90 O NDS agregava professores das áreas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> pública dos cursos <strong>de</strong> Medicina, Enfermagem e Nutrição da UFMT, bem como técnicos<br />
ligados aos serviços públicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
163
164<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
agregação <strong>de</strong> opiniões, sistematizou, difundiu e discutiu com diversos setores da socieda<strong>de</strong><br />
o Capítulo da Saú<strong>de</strong> para estas leis.<br />
Meirelles et al. (1990) ressaltam que a prática política do NDS contou com a<br />
a<strong>de</strong>são das mais variadas matizes i<strong>de</strong>ológicas em vários eventos <strong>de</strong> construção da proposta.<br />
O primeiro momento do processo se constituiu em uma reunião em que participaram<br />
diversas entida<strong>de</strong>s representativas <strong>de</strong> categorias profissionais, representantes <strong>de</strong><br />
instituições do setor saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong> organizações da socieda<strong>de</strong> civil e movimentos populares.<br />
Na fase final <strong>de</strong> elaboração e discussão da proposta, foi organizado um seminário<br />
com o objetivo <strong>de</strong> fornecer subsídios técnicos e jurídicos para a elaboração do Capítulo<br />
da Saú<strong>de</strong> nas Leis Orgânicas Municipais. Deste Seminário participaram vereadores,<br />
assessores parlamentares, secretários municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
docentes, discentes e técnicos da UFMT, assessores jurídicos <strong>de</strong> câmaras municipais,<br />
entida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> classe, e representantes da socieda<strong>de</strong> civil organizada.<br />
Após a criação das leis orgânicas nos municípios mato-grossenses, foi realizado<br />
um estudo, a partir da qual percebemos que as propostas do movimento sanitário estavam<br />
difundidas em Mato Grosso. “Apesar das gran<strong>de</strong>s distâncias físicas entre os municípios<br />
do interior e os gran<strong>de</strong>s centros que li<strong>de</strong>ram os movimentos sociais, das dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
comunicação e informação, houve uma presença marcante das propostas do movimento<br />
sanitário nas Leis Orgânicas Municipais – Capítulo da Saú<strong>de</strong> em Mato Grosso”<br />
(MEIRELLES et al., 1990, p. 64), conforme ilustra o quadro a seguir:<br />
Quadro 1 – Número e proporções <strong>de</strong> Leis Orgânicas Municipais segundo os padrões dos<br />
órgãos intervenientes na orientação da elaboração<br />
Fonte: MEIRELLES et al., 1990, p. 65<br />
(*) Um padrão <strong>de</strong> lei que surgiu <strong>de</strong> um <strong>de</strong>putado estadual foi a que seguiu o mo<strong>de</strong>lo da cida<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong><br />
Janeiro, com gran<strong>de</strong>s avanços nas lutas do movimento sanitário e construção do SUS.<br />
(**) O padrão misto consiste <strong>de</strong> um grupo <strong>de</strong> leis que seguem parte <strong>de</strong> vários agentes intervenientes na<br />
orientação. Este grupo caracteriza-se por manter os principais avanços conseguidos nas Constituições<br />
Fe<strong>de</strong>rais e do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso na construção do SUS, com ampliações parciais das propostas do<br />
NDS e cida<strong>de</strong> do Rio <strong>de</strong> Janeiro.<br />
(***) O padrão simplista constitui-se <strong>de</strong> leis que não seguiram parte das Constituições Fe<strong>de</strong>rais e Estaduais;<br />
restringindo-se a dois artigos genéricos, simplistas e <strong>de</strong>slocados da discussão atual da reforma sanitária, com<br />
gran<strong>de</strong>s retrocessos na luta do movimento sanitário. Foi elaborado e divulgado pela assessoria <strong>de</strong> um dos<br />
parlamentares estaduais.<br />
Porém, uma pesquisa realizada pelo NDS, em 1991, <strong>de</strong>monstrou que, embora<br />
os Conselhos Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> encontrem-se <strong>de</strong>finidos em gran<strong>de</strong> parte das Leis<br />
Orgânicas, há dificulda<strong>de</strong> das Prefeituras em implantá-los, “ou quando implantados
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
possibilitar que os mesmos passem do nível consultivo. Os mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> administração<br />
e estrutura gerencial das Prefeituras [...] tem pouca permeabilida<strong>de</strong> à participação e a<br />
<strong>de</strong>cisões colegiadas” (MEIRELLES et al., 1990, p. 90), situação, esta, que parece-nos<br />
perdurar até o momento. 91<br />
1 CONSELHO ESTADUAL DE SAÚDE: ESPAÇO DE PARTICIPAÇÃO<br />
SOCIAL E DE DEMOCRATIZAÇÃO DAS POLÍTICAS DE SAÚDE<br />
1.1 A Participação no Setor Saú<strong>de</strong><br />
Para analisarmos a participação dos movimentos sociais no CES/MT, julgamos<br />
necessário fazer uma breve <strong>de</strong>scrição da noção <strong>de</strong> participação, na saú<strong>de</strong>, nas três últimas<br />
décadas.<br />
No setor saú<strong>de</strong>, a prática da participação começou a se <strong>de</strong>senvolver a partir dos<br />
anos 1970. Primeiramente, intitulada <strong>de</strong> participação comunitária, vinculada à i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong><br />
medicina previ<strong>de</strong>nciária, 92 buscava envolver a população na execução dos serviços <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> a fim <strong>de</strong> legitimá-los.<br />
Num segundo momento, <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> uma conjuntura <strong>de</strong> “abertura” política,<br />
a participação passou a ser <strong>de</strong>nominada <strong>de</strong> participação popular. Nesse contexto, a<br />
participação começou a ser institucionalizada e a ser entendida, então, como ampliação da<br />
consciência sanitária da população, a qual seria construída a partir <strong>de</strong> seu engajamento nas<br />
lutas mais gerais da socieda<strong>de</strong> e também nas lutas pela saú<strong>de</strong>.<br />
Com o advento das AIS, surgiram as Comissões Intergestores <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, que,<br />
embora <strong>de</strong> cunho interinstitucional, previam a criação das Comissões Setoriais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
(COSS) como uma forma <strong>de</strong> participação direta da população nos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Por último, a partir <strong>de</strong> 1990, através da Lei Orgânica da Saú<strong>de</strong>, foi fixado o<br />
conceito <strong>de</strong> participação social, passando os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> a fazer parte do<br />
arcabouço jurídico do SUS. Esta concepção <strong>de</strong> participação vai ao encontro da noção <strong>de</strong><br />
cidadania, levando o eixo central da discussão para o controle social da socieda<strong>de</strong> sobre<br />
o Estado.<br />
Assim, a participação nas <strong>de</strong>cisões é cada vez mais valorizada, como forma <strong>de</strong><br />
garantir o redirecionamento das ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> para o atendimento das reais aspirações da<br />
socieda<strong>de</strong>. O espaço <strong>de</strong> participação <strong>de</strong>ixou, então, <strong>de</strong> ser as ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, ultrapassando<br />
os limites do setor e atingindo o conjunto da socieda<strong>de</strong> e do Estado.<br />
91 Sobre a composição e participação dos conselhos nas <strong>de</strong>liberações das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos municípios, o GSP, juntamente com a<br />
Secretaria Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, vem <strong>de</strong>senvolvendo um levantamento <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1998.<br />
92 Essa i<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> medicina comunitária vincula-se a uma mudança <strong>de</strong> paradigma na compreensão do processo saú<strong>de</strong>-doença. Tratava-se<br />
da implantação <strong>de</strong> programa <strong>de</strong> extensão da cobertura <strong>de</strong> ações básicas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dirigidos a pessoas, na época <strong>de</strong>sassistidas pela medicina<br />
previ<strong>de</strong>nciária. Essas ações, quase sempre, reproduziam experiências norte-americanas, através <strong>de</strong> agências oficiais do Estado. A esse<br />
respeito, consultar George Rosen (Da polícia médica a medicina social. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Graal, 1980).<br />
165
166<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
1.2 A Construção do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
De acordo com Velasco et al. (1990), no Estado <strong>de</strong> Mato Grosso, a criação do<br />
CES/MT é resultado <strong>de</strong> um processo, <strong>de</strong> luta on<strong>de</strong> a socieda<strong>de</strong> civil organizada teve um<br />
papel importante, através das entida<strong>de</strong>s civis e populares. Essa participação ocorreu <strong>de</strong><br />
forma mais acirrada quando a, então existente, Comissão Interinstitucional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
(CIS/MT) criou, para atuar junto à sua secretaria técnica, uma comissão da qual faziam<br />
parte representantes do MOPS, da Pastoral <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Popular, da Central Única dos<br />
Trabalhadores (CUT/MT), da Central Geral dos Trabalhadores (CGT/MT), do Sindicato<br />
dos Farmacêuticos, da Operação Anchieta e das Associações dos Assistentes Sociais, dos<br />
Enfermeiros, dos Nutricionistas e dos Servidores da Previdência e Assistência Social.<br />
Do processo <strong>de</strong>flagrado em 1988, resultou uma minuta <strong>de</strong> criação do CES/<br />
MT, bem como uma proposta preliminar <strong>de</strong> seu Regimento Interno, o qual <strong>de</strong>finia para<br />
o Conselho uma composição paritária entre os órgãos governamentais e entida<strong>de</strong>s civis;<br />
atribuía-lhe po<strong>de</strong>res <strong>de</strong>liberativos; e dava à CIS/MT a função <strong>de</strong> executar as <strong>de</strong>cisões <strong>de</strong>le<br />
emanadas.<br />
No entanto, tais propostas, quando encaminhadas à CIS/MT, não encontraram<br />
ressonância e, após um longo embate, em sinal <strong>de</strong> <strong>de</strong>srespeito ao movimento das entida<strong>de</strong>s<br />
civis, aquela Comissão propôs ao Executivo – o que <strong>de</strong>pois foi aprovado através do<br />
Decreto Governamental n. 1.055/88 – uma composição que parecia ter excluído todos os<br />
sindicatos, associações e o MOPS, e incluía os Conselhos Profissionais, os prestadores <strong>de</strong><br />
serviços privados e filantrópicos, Fe<strong>de</strong>ração das Indústrias etc., reforçando sobremaneira<br />
a participação da iniciativa privada e afastando, justamente, a maioria das entida<strong>de</strong>s<br />
engajadas na luta pela <strong>de</strong>mocratização do setor saú<strong>de</strong> em Mato Grosso (VELASCO et<br />
al., 1990).<br />
Essa composição, que não tinha sequer proporcionalida<strong>de</strong> entre os segmentos, 93<br />
permaneceu mesmo após a promulgação, em 1989, da Constituição do Estado <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso, que garante, no seu artigo 222, a criação dos Conselhos compostos paritariamente<br />
“por um terço <strong>de</strong> entida<strong>de</strong>s representativas dos usuários, um terço <strong>de</strong> representantes <strong>de</strong><br />
trabalhadores do setor <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e um terço <strong>de</strong> representantes <strong>de</strong> prestadores <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong>”. É importante ressaltar que a Constituição mato-grossense assegura, também, que<br />
os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> serão regulamentados pelo Código Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Quando da posse do Governo do Estado, em janeiro <strong>de</strong> 1991, o Conselho<br />
Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong>stituído, sendo editado, então, outro <strong>de</strong>creto, o qual <strong>de</strong>finia uma<br />
nova composição que, mais uma vez, contrariava as expectativas das entida<strong>de</strong>s civis.<br />
Novamente, essas entida<strong>de</strong>s reuniram-se postulando a criação do Código<br />
Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Para tanto, o Secretário Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, à época, formou uma<br />
93 Conforme o Decreto n. 1.055/88, o Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> era composto por 23 representantes do governo e prestadores <strong>de</strong><br />
serviços, 07 representantes dos Trabalhadores <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e 08 representantes dos Usuários.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
comissão composta, exclusivamente, por técnicos da Secretaria Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> para<br />
a sua elaboração. Naquele período, o Estado ficou sem Conselho <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, sendo as<br />
<strong>de</strong>cisões tomadas ad referendum pelo Secretário Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
A proposta foi apresentada à socieda<strong>de</strong> civil na II Conferência Estadual <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>, em agosto <strong>de</strong> 1991, gerando <strong>de</strong>scontentamento entre as entida<strong>de</strong>s ali representadas,<br />
principalmente no que se referia à composição do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, uma vez<br />
que mantinha parte das entida<strong>de</strong>s até então criticadas por não representarem os usuários do<br />
sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, como no caso as Fe<strong>de</strong>rações do Comércio e da Indústria.<br />
Foi realizada, então, uma audiência pública na Assembleia Legislativa, na<br />
qual foi apresentado um substitutivo do então <strong>de</strong>putado estadual Roberto França. Como<br />
o substitutivo também não satisfazia totalmente as partes envolvidas, criou-se, naquele<br />
momento, outra comissão, <strong>de</strong>sta vez, composta por técnicos <strong>de</strong> governo, representantes<br />
do MOPS e dos Sindicatos dos Assistentes Sociais e dos Enfermeiros e, também, um<br />
representante do gabinete daquele Deputado. A proposta resultante, conforme acertado<br />
naquela audiência, foi encaminhada ao Legislativo através do Executivo, e não sofreu<br />
nenhuma alteração.<br />
A composição do CES/MT, oriunda <strong>de</strong>ssa proposta, satisfazia os interesses dos<br />
movimentos sociais e técnicos que vinham fazendo parte das discussões, pois contemplava<br />
a maioria dos segmentos da socieda<strong>de</strong> civil organizada no Estado.<br />
Em 09 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1992, o Código Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi aprovado através<br />
da Lei Complementar n. 22, que estabelece a seguinte composição do Conselho Estadual<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, no que se refere ao segmento dos usuários:<br />
• Fe<strong>de</strong>ração dos Trabalhadores da Agricultura (FETAGRI);<br />
• Fe<strong>de</strong>ração Mato-grossense <strong>de</strong> Associações <strong>de</strong> Moradores (FEMAB);<br />
• Associação dos Deficientes;<br />
• Associação dos Portadores <strong>de</strong> Patologias;<br />
• GSP / MOPS;<br />
• Entida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente;<br />
• Associação dos Aposentados do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso;<br />
• Conselho Indigenista Missionário (CIMI);<br />
• Movimento Ambientalista e Ecológico;<br />
• Sindicato dos Garimpeiros;<br />
• Núcleo <strong>de</strong> Estudos e Organização da Mulher (NEOM);<br />
• Sindicato dos Profissionais <strong>de</strong> Educação (SINTEP);<br />
• Centrais Sindicais;<br />
• Associação <strong>de</strong> Proteção das Vítimas <strong>de</strong> Aci<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> Trabalho e Trânsito;<br />
• Movimento <strong>de</strong> Raças.<br />
167
168<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O primeiro grupo <strong>de</strong> conselheiros representantes <strong>de</strong>ssas entida<strong>de</strong>s foi empossado<br />
em fevereiro <strong>de</strong> 1993, não sofrendo até esse momento alteração em sua composição. Des<strong>de</strong><br />
então vem funcionando regularmente, com reuniões ordinárias mensais, tendo apoio <strong>de</strong><br />
uma secretaria executiva, uma ouvidoria e comissões temáticas.<br />
REFERÊNCIAS<br />
MATO GROSSO. Decreto n. 1.055 <strong>de</strong> 1988. Cuiabá: Assembleia Legislativa, 1988.<br />
MATO GROSSO. Constituição Estadual <strong>de</strong> 1989. Cuiabá: Assembleia Legislativa,<br />
1989.<br />
MATO GROSSO. Lei Complementar n. 22, <strong>de</strong> 09 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1992. Dispõe sobre<br />
o Código Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Cuiabá: Diário Oficial do Estado, 1992.<br />
MATSUBARA, Marilda C. Esteves. Tecendo Cidadania. Cuiabá: EdUFMT, 1997.<br />
MEIRELLES, Severino Márcio P.; SPINELLI, Maria Angélica dos Santos; AZEVEDO,<br />
Janil et al. Projeto <strong>de</strong> Pesquisa Estudo do processo <strong>de</strong> municipalização <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em<br />
Mato Grosso. Cuiabá: UFMT, 1989. (Mimeo.).<br />
MEIRELLES, Severino Márcio P.; SPINELLI, Maria Angélica dos Santos; DUARTE,<br />
Elisete; et al. Leis Orgânicas Municipais em Mato Grosso: Capítulo da Saú<strong>de</strong>. Saú<strong>de</strong> em<br />
Debate, Londrina, n. 30, p. 61-65, <strong>de</strong>z. 1990.<br />
PRIETCH, Luiz Carlos. Experiência em Atenção à Saú<strong>de</strong> fundamentada na<br />
organização popular. Rondonópolis: Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, 1986.<br />
VELASCO, Erivã, et al. O processo <strong>de</strong> participação popular na construção do<br />
SUS em Mato Grosso: Análise preliminar do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. 1990. 83 f.<br />
Monografia (Especialização em Saú<strong>de</strong> Pública) – Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento em Saú<strong>de</strong>,<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso, Cuiabá, 1990.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, CONFERÊNCIAS DE SAÚDE E<br />
FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS EM MUNICÍPIOS DE MATO<br />
GROSSO 1<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
Júlio Strubing Müller Neto 2<br />
Fátima Ticianel Schra<strong>de</strong>r 3<br />
Nina Rosa Ferreira Soares 4<br />
Maria José Vieira da Silva Pereira 5<br />
Aline Paula Motta 6<br />
Oliani Machado Godoy 7<br />
Landrimar Trinda<strong>de</strong> 8<br />
Patrícia dos Santos Arruda 9<br />
Diógenes Marcon<strong>de</strong>s 10<br />
Márcia <strong>de</strong> Campos 11<br />
Ilva Félix do Nascimento 12<br />
Lydia Maria Bocayuva Tavares 13<br />
Este artigo faz parte da pesquisa que analisou a incorporação das <strong>de</strong>mandas<br />
populares às políticas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, e i<strong>de</strong>ntificou elementos e estratégias para a<br />
qualificação da gestão participativa no Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (SUS) em municípios <strong>de</strong><br />
Mato Grosso. Sua realização <strong>de</strong>u-se no contexto das práticas e experiências dos gestores,<br />
conselheiros e profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e do compromisso das instituições envolvidas na luta<br />
pelo direito à saú<strong>de</strong> no Brasil.<br />
O campo <strong>de</strong> análise da pesquisa compreen<strong>de</strong>u as Conferências Municipais<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> realizadas em 2003, etapa municipal da 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>,<br />
o contexto político-institucional das secretarias municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e seus processos<br />
1 Este capítulo é uma versão ampliada e modificada do artigo publicado originalmente em Müller Neto, J.S.; Schra<strong>de</strong>r, F.T.; Pereira,<br />
M.J.V.S.; Nascimento, I.F.; Tavares, L.B.; Motta, A.P., 2006.<br />
2 Médico Sanitarista. Doutor em Saú<strong>de</strong> Pública pela Escola Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública Sérgio Arouca. Professor Adjunto da UFMT e<br />
Pesquisador do NDS/ISC/UFMT.<br />
3 Enfermeira. Mestre em Saú<strong>de</strong> Coletiva pela UFMT. Técnica da SES/MT e da SMS <strong>de</strong> Cuiabá. Pesquisadora Associada do NDS/ISC/<br />
UFMT.<br />
4 Assistente Social Sanitarista. Mestre em Educação pela UFMT. Pesquisadora do NDS/ISC/UFMT.<br />
5 Enfermeira Sanitarista. Especialista em Administração Hospitalar pela UFMT. Técnica da SES/MT e da SMS <strong>de</strong> Cuiabá. Pesquisadora<br />
Associada do NDS/ISC/UFMT.<br />
6 Bacharel em Direito. Técnica da SES/MT.<br />
7 Administradora Hospitalar. Especialista em Economia e Gestão <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> pela UNICAMP. Técnica da SES/MT.<br />
8 Administradora. Especialista em Administração Hospitalar pela UFMT. Técnica da SES/MT.<br />
9 Biomédica. Especialista em Gestão <strong>de</strong> Sistema e Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> pela UFMT. Técnica e Pesquisadora do NDS/ISC/UFMT.<br />
10 Pedagogo. Especialista em Gestão Pública pela UNIC. Técnico da SES/MT.<br />
11 Assistente Social. Especialista em <strong>Políticas</strong> Públicas pela UFMT. Técnica da SES/MT e da SMS <strong>de</strong> Cuiabá.<br />
12 Assistente Social. Especialista em Saú<strong>de</strong> Pública pela UFMT. Técnica da SMS <strong>de</strong> Cuiabá.<br />
13 Médica. Mestre em Saú<strong>de</strong> e Ambiente pela UFMT. Técnica do MS.<br />
169
170<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong> gestão e planejamento, o Conselho Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (CMS) e as relações <strong>de</strong>ssas<br />
instituições entre si e com os atores sociais. Na medida em que os conselhos e as<br />
conferências são espaços públicos com legitimida<strong>de</strong> para influenciar as políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
o principal objetivo foi analisar se as <strong>de</strong>mandas e as diretrizes aprovadas nas conferências<br />
municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> estavam sendo priorizadas pelos próprios conselhos e pelas equipes<br />
gestora, responsáveis pelo processo <strong>de</strong> formulação e planejamento, implementação e<br />
avaliação da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Partiu-se do pressuposto <strong>de</strong> que a Conferência Municipal<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>via ser o espaço institucional para a aprovação da agenda <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s, os<br />
planos <strong>de</strong>viam incorporar as priorida<strong>de</strong>s aprovadas nas conferências e os relatórios <strong>de</strong><br />
gestão <strong>de</strong>veriam referir-se às mesmas priorida<strong>de</strong>s.<br />
O estudo foi realizado em 16 municípios do estado <strong>de</strong> Mato Grosso, das diferentes<br />
regiões <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e portes populacionais, incluindo a capital, Cuiabá, oito municípios polos<br />
regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e sete municípios não polos regionais. Foi <strong>de</strong>senvolvido pelo Grupo <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> Popular (GSP), 14 em parceria com o Núcleo <strong>de</strong> Desenvolvimento da Saú<strong>de</strong> (NDS)<br />
do Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva (ISC) da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso (UFMT) e o<br />
Conselho <strong>de</strong> Secretários Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso (COSEMS/MT), com apoio<br />
financeiro do Ministério da Saú<strong>de</strong> (MS), por meio da Secretaria <strong>de</strong> Gestão Participativa.<br />
As principais questões que nortearam o <strong>de</strong>senho da pesquisa foram: 1) Os atores/<br />
sujeitos sociais representados nas conferências estão conseguindo ou não influenciar a<br />
construção da agenda da política municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>? 2) O processo <strong>de</strong> construção da<br />
agenda é <strong>de</strong>mocrático e permite a participação social? 3) A agenda <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> é <strong>de</strong>terminada<br />
pela agenda nacional ou há um espaço para sua elaboração no interior do município, a<br />
partir das <strong>de</strong>mandas sociais locais? 4) Os instrumentos <strong>de</strong> planejamento e gestão do SUS<br />
estão contribuindo ou não para a incorporação das <strong>de</strong>mandas sociais à política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>?<br />
E como previa a metodologia, a <strong>de</strong>volução dos resultados aos municípios e a<br />
discussão dos mesmos com os sujeitos locais ocorreram em dois momentos: primeiramente,<br />
no XIII Encontro <strong>de</strong> Secretarias Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso, organizado pelo<br />
COSEMS/MT e realizado em Cuiabá em 30/06/2007, com a participação <strong>de</strong> secretários<br />
municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, membros da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), estadual e<br />
regionais, do Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, do Polo <strong>de</strong> Educação Permanente e da Re<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> Apoio SUS – COSEMS/MT, ocasião em que também foi repassado um conjunto<br />
<strong>de</strong> subsídios e recomendações para preparação da etapa municipal da 13ª Conferência<br />
Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; posteriormente, em cada um dos 16 municípios estudados, durante<br />
a realização das conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, etapa municipal da 13ª Conferência<br />
Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, no período <strong>de</strong> junho a agosto <strong>de</strong> 2007, com <strong>de</strong>bate e apresentação <strong>de</strong><br />
sugestões para o fortalecimento da gestão do SUS e da participação social na formulação<br />
14 O GSP é uma Organização Não Governamental, fundada em 1986, que tem atuado, historicamente, em projetos <strong>de</strong> fortalecimento da<br />
participação popular para efetivação do SUS, sobretudo na capacitação <strong>de</strong> conselheiros da saú<strong>de</strong>. A parceria do GSP com o Movimento<br />
Popular <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (MOPS) e outros movimentos sociais, com a UFMT e o COSEMS/MT é uma prática histórica e propiciou eventos<br />
significativos, como os dois cursos <strong>de</strong> capacitação <strong>de</strong> conselheiros, realizados com apoio da gestão estadual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, no período <strong>de</strong> 1996<br />
a 2002.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
e implementação das políticas municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. O estudo também foi apresentado no<br />
VIII Congresso Brasileiro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva no Rio <strong>de</strong> Janeiro, em 2006, no IV Congresso<br />
Brasileiro <strong>de</strong> Ciências Sociais e Humanas em Saú<strong>de</strong>, realizado em Salvador em 2007, e no<br />
XXIV Congresso Nacional <strong>de</strong> Secretarias Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> que aconteceu em 2008,<br />
em Belém/PA.<br />
A seguir são apresentados os conceitos e <strong>de</strong>finições sobre tema, percurso<br />
metodológico, caracterização do Estado e dos municípios pesquisados e os resultados<br />
referentes às conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Entre eles o processo <strong>de</strong> organização, a<br />
representativida<strong>de</strong> e as características das <strong>de</strong>liberações aprovadas nas mesmas; a análise<br />
comparativa <strong>de</strong>ssas <strong>de</strong>mandas com as ações incluídas no plano municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e<br />
implementadas pela gestão municipal.<br />
2 PERCURSO METODOLÓGICO<br />
Quanto ao <strong>de</strong>senho metodológico, optou-se pelo estudo <strong>de</strong> casos múltiplos,<br />
utilizando material e método da pesquisa quantitativa e qualitativa, cujas estratégias<br />
<strong>de</strong>senvolvidas contemplaram:<br />
• Constituição do grupo <strong>de</strong> pesquisa do nível central, seleção e treinamento<br />
dos pesquisadores <strong>de</strong> campo, sendo alunos do I e II Cursos <strong>de</strong> Especialização<br />
em Gestão <strong>de</strong> Sistemas e Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> realizados pelo ISC/UFMT<br />
e COSEMS/MT, como estratégia <strong>de</strong> formação da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> cooperação e<br />
educação permanente do SUS no estado;<br />
• Pesquisa exploratória no campo teórico-metodológico para a construção<br />
do <strong>de</strong>senho do estudo, sua dimensões e variáveis;<br />
• Seleção da amostra <strong>de</strong> municípios, consi<strong>de</strong>rando a distribuição regional e<br />
o porte populacional;<br />
• Seminário para discussão e nivelamento teórico-conceitual e apresentação<br />
do projeto com o envolvimento dos professores e alunos do ISC/UFMT,<br />
profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, conselheiros <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e gestores;<br />
• Caracterização dos 16 municípios da pesquisa por meio <strong>de</strong> análise<br />
documental em fontes <strong>de</strong> dados primários e secundários;<br />
• Análise dos relatórios da etapa municipal da 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>, dos Planos Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> ou Planos Operativos Anuais e<br />
dos Relatórios <strong>de</strong> Gestão do ano subsequente à realização das conferências<br />
municipais;<br />
• Entrevistas semiestruturadas com os atores do período da realização<br />
da conferência e do ano da pesquisa, incluindo gestores, conselheiros<br />
municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e vereadores;<br />
• Sistematização dos dados, produção dos relatórios <strong>de</strong> cada município<br />
171
172<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
e análise dos dados <strong>de</strong> acordo com os eixos: 1) Determinantes<br />
socioeconômicos e políticos; 2) Caracterização institucional; 3) Processo<br />
<strong>de</strong>cisório; 4) Percepções e valores dos atores institucionais; 5) Conteúdo<br />
das agendas. Cada eixo compreen<strong>de</strong>u diversas variáveis e seus respectivos<br />
indicadores e a análise foi feita no âmbito das três instituições objetos do<br />
estudo: a Secretaria e o Conselho <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e o Legislativo Municipal.<br />
As <strong>de</strong>liberações aprovadas constantes dos relatórios finais das conferências<br />
municipais e as ações incluídas nos planos e nos relatórios <strong>de</strong> gestão foram classificadas <strong>de</strong><br />
acordo com os termos <strong>de</strong> referência dos <strong>de</strong>z eixos temáticos da 12ª Conferência Nacional<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (BRASIL, 2004), in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da classificação dada no relatório da conferência<br />
municipal e do recorte do plano. Foram elaborados e validados protocolos <strong>de</strong> consenso<br />
para a classificação das <strong>de</strong>liberações e das ações, assim como para a análise dos planos <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> e relatórios <strong>de</strong> gestão.<br />
O tema da 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi “Saú<strong>de</strong>: Um direito <strong>de</strong><br />
todos e <strong>de</strong>ver do Estado – A Saú<strong>de</strong> que temos, o SUS que queremos” (BRASIL, 2004),<br />
subdividido em <strong>de</strong>z eixos temáticos: 1) Direito à Saú<strong>de</strong>; 2) A segurida<strong>de</strong> social e a Saú<strong>de</strong>;<br />
3) A intersetorialida<strong>de</strong> das Ações <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; 4) As três esferas <strong>de</strong> governo e a construção<br />
do SUS; 5) A organização da Atenção à Saú<strong>de</strong>; 6) Controle social e gestão participativa;<br />
7) O trabalho na Saú<strong>de</strong>; 8) Ciência e Tecnologia e a Saú<strong>de</strong>; 9) O financiamento da Saú<strong>de</strong>;<br />
10) Comunicação e Informação em Saú<strong>de</strong>.<br />
Algumas ressalvas <strong>de</strong>vem ser feitas: a análise dos planos e relatórios refere-se<br />
apenas ao primeiro ano após a realização das conferências; a análise dos planos consi<strong>de</strong>rou<br />
a diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los encontrados; não se preten<strong>de</strong>u estabelecer a intencionalida<strong>de</strong><br />
das ações, ou seja, afirmar que as ações idênticas ou equivalentes encontradas nos planos<br />
e relatórios <strong>de</strong> gestão foram incluídas ou implementadas em função das <strong>de</strong>liberações<br />
ocorridas nas conferências. Para a elaboração do artigo, ainda foram feitos alguns recortes<br />
<strong>de</strong> análise: os municípios não foram comparados por porte e região, não foram incorporados<br />
todos os eixos <strong>de</strong> análise, como também não foi analisado o papel dos conselhos e do<br />
legislativo referentes às conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
3 CONCEITOS E DEFINIÇÕES<br />
3.1 A <strong>de</strong>scentralização e a <strong>de</strong>mocratização: princípios que materializam a<br />
participação popular no SUS<br />
A gestão <strong>de</strong>mocrática no âmbito do SUS é uma luta da socieda<strong>de</strong> brasileira,<br />
concebida por meio do movimento da Reforma Sanitária, como processo social e político<br />
permanente, movimento que influenciou a organização da 8ª Conferência Nacional <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> e a formulação do anteprojeto do setor saú<strong>de</strong>, aprovado no texto da Constituição<br />
<strong>de</strong> 1988.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
A formulação do SUS como política <strong>de</strong> Estado reafirmou a saú<strong>de</strong> como direito e<br />
a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fortalecer o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização, já iniciado antes, para garantir<br />
a equida<strong>de</strong> e a universalida<strong>de</strong> do acesso. A Constituição avança também na <strong>de</strong>finição<br />
das competências da gestão dos sistemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> das três esferas <strong>de</strong> governo, ficando o<br />
município como principal executor das ações e dos serviços (CÔRTES, 2006).<br />
A municipalização da saú<strong>de</strong> foi a principal estratégia adotada para o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da <strong>de</strong>scentralização da saú<strong>de</strong> ao longo da década <strong>de</strong> 1990, propiciando<br />
maior responsabilização dos prefeitos e secretários municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, no gerenciamento<br />
do sistema local (VIANA, 1998).<br />
Em período mais recente, observou-se o esgotamento das normas operacionais<br />
como instrumento <strong>de</strong> operacionalização do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Os Pactos em Defesa da<br />
Vida, do SUS e <strong>de</strong> Gestão, formalizados em 2006 pelos gestores do SUS, estabelecem<br />
diretrizes orientadas para a construção <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> gestão mais <strong>de</strong>mocráticos e flexíveis,<br />
sensíveis à diversida<strong>de</strong> e às diferentes realida<strong>de</strong>s do país (BRASIL, 2006d).<br />
No contexto geral da <strong>de</strong>scentralização e do aperfeiçoamento do SUS, a<br />
participação popular teve um espaço importante na agenda da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. O cadastro<br />
nacional <strong>de</strong> Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, elaborado pela Secretaria <strong>de</strong> Gestão Participativa do MS,<br />
contabilizou a existência <strong>de</strong> 5.559 Conselhos Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> no país no ano <strong>de</strong> 2005<br />
(BRASIL, 2005; LABRA, 2005). O número <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados presentes nas conferências <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> também cresceu: dos mil <strong>de</strong>legados presentes na 8ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>,<br />
subiu para quatro mil <strong>de</strong>legados na 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (ESCOREL e<br />
BLOCH, 2005).<br />
Estes dados revelam que a existência dos conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e a mobilização em<br />
torno das conferências colocaram no cenário numerosos atores sociais, que contribuíram<br />
para a formação <strong>de</strong> um tecido social <strong>de</strong> reflexão, negociação e <strong>de</strong> formação <strong>de</strong> opinião.<br />
Espaços políticos <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocracia direta e <strong>de</strong> manifestação <strong>de</strong> interesses divergentes e<br />
conflitos (CÔRTES, 2006).<br />
3.2 Conferências e Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> como espaços públicos <strong>de</strong><br />
processamento das <strong>de</strong>mandas populares: limites e <strong>de</strong>safios<br />
A relação entre a <strong>de</strong>scentralização e a participação social no país tem sido<br />
abordada por vários autores. Gohn (2005, p. 30) <strong>de</strong>fine: “participação social como o<br />
processo <strong>de</strong> vivência que imprime sentido e significado a um grupo ou movimento social,<br />
tornando-o protagonista <strong>de</strong> sua história”.<br />
Gohn (2003) assinala a mudança ocorrida nos processos <strong>de</strong> participação social<br />
no Brasil: nos anos 1970-1980, o movimento popular adotava posição antagônica e<br />
externa ao Estado, enquanto na década <strong>de</strong> 1990 prevalece a tendência à inserção ativa dos<br />
movimentos sociais nos processos <strong>de</strong> formulação e implementação das políticas públicas.<br />
Constitui-se outro campo, no âmbito da esfera pública, em que se articulam diferentes<br />
173
174<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
atores sociais, criando re<strong>de</strong>s e um novo tipo <strong>de</strong> associativismo. São diferentes tipos <strong>de</strong><br />
conselhos; re<strong>de</strong>s locais, nacionais ou internacionais; fóruns temáticos; assembleias<br />
organizadas pela socieda<strong>de</strong> civil. O termo ‘participação popular’ tem sido usado em<br />
contraposição a outras expressões <strong>de</strong> participação social, como forma <strong>de</strong> participação que<br />
enfatiza a expressão política <strong>de</strong> grupos representativos da socieda<strong>de</strong> civil junto a espaços<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> políticas públicas <strong>de</strong> cunho social (ACIOLI, 2005). Acioli enfatiza, a<br />
partir <strong>de</strong>ste conceito, a relação que se estabelece entre participação popular e disputa por<br />
espaços <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, incluindo a disputa por controle das verbas públicas e sua importância<br />
na construção do processo <strong>de</strong>mocrático.<br />
Na mesma linha, Santos Junior, Azevedo e Ribeiro (2004) chamam <strong>de</strong><br />
“governança <strong>de</strong>mocrática” os padrões <strong>de</strong> interação entre as instituições governamentais,<br />
agentes do mercado e atores sociais que realizam a coor<strong>de</strong>nação e, simultaneamente,<br />
promovem ações <strong>de</strong> inclusão social e asseguram a participação social na formulação <strong>de</strong><br />
políticas e nos processos <strong>de</strong>cisórios. Tal padrão entre governo e socieda<strong>de</strong> se expressa<br />
em canais ou arenas, institucionalizadas ou não, <strong>de</strong> intermediação entre as instituições<br />
governamentais e atores sociais. Os autores referidos apontam a riqueza da experiência<br />
dos conselhos municipais nas regiões metropolitanas, com base em extensa pesquisa<br />
empírica, e afirmam ser os conselhos municipais espaços institucionais com potencial<br />
<strong>de</strong> se transformarem em instrumentos da constituição da governança <strong>de</strong>mocrática dos<br />
municípios. Enfatizam vários aspectos do funcionamento dos conselhos, em especial,<br />
a evidência <strong>de</strong> que eles estão se constituindo em arenas <strong>de</strong> interação entre governo e<br />
socieda<strong>de</strong>s, nos quais os diferentes interesses são expressos. Há o reconhecimento e<br />
legitimação dos atores sociais e a permissão para a criação <strong>de</strong> uma agenda legitimada<br />
<strong>de</strong> problemas, objetivos e <strong>de</strong>mandas, que passa a exercer uma “pressão moral” sobre os<br />
governantes. Mas, para isso, ressaltam, seria necessário tanto o investimento nesse mo<strong>de</strong>lo<br />
participativo, como uma política <strong>de</strong> incentivo à associação cívica, no sentido atribuído<br />
por Putnam (2000), para superar os limites dos conselhos, assinalados por eles, enquanto<br />
canais <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratização da gestão municipal: um conjunto significativo <strong>de</strong> segmentos<br />
sociais, sobretudo os mais vulneráveis, não tendo sua agenda <strong>de</strong> <strong>de</strong>mandas representadas<br />
nessa arena pública; a abertura dos canais <strong>de</strong> participação seria mais fruto <strong>de</strong> políticas do<br />
governo fe<strong>de</strong>ral, das políticas públicas <strong>de</strong>scentralizadoras, que do governo e da socieda<strong>de</strong><br />
local; capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong>cisória insuficiente e <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte; <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> econômico-social<br />
entre os municípios, o que ocasionaria diferentes respostas às <strong>de</strong>mandas.<br />
Também Fleury (2004, p. 44) afirma que a atual complexida<strong>de</strong> da socieda<strong>de</strong><br />
brasileira, com a emergência <strong>de</strong> numerosos movimentos <strong>de</strong> base popular,<br />
permite a introdução <strong>de</strong> novos temas na agenda pública, vocaliza as<br />
<strong>de</strong>mandas sociais emergentes e constitui-se em recurso organizacional<br />
que produz o a<strong>de</strong>nsamento da socieda<strong>de</strong> civil e o aumento do capital<br />
social.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Côrtes (2006) analisa diferentes concepções na literatura em relação à questão<br />
do impacto <strong>de</strong> fóruns participativos sobre gestão e implementação <strong>de</strong> políticas públicas,<br />
principalmente no Brasil, relação entre participação e governança, na articulação entre<br />
gestores e burocracia governamentais e os interesses dos usuários, trabalhadores. Alguns<br />
autores são céticos em relação às possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> os fóruns participativos contribuírem<br />
para a <strong>de</strong>mocratização da gestão pública e o aprimoramento <strong>de</strong> políticas. Outros respon<strong>de</strong>m<br />
a esta questão <strong>de</strong> forma esperançosa.<br />
No campo da saú<strong>de</strong>, Labra (2005, p. 379) <strong>de</strong>staca que os conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
constituem uma “inovação política, institucional e cultural da maior relevância para o<br />
avanço da <strong>de</strong>mocracia e uma singularida<strong>de</strong> no contexto latino-americano”.<br />
Carvalho (1995), em trabalho pioneiro, conclui que os conselhos emergentes<br />
assumiram, ao lado <strong>de</strong> atribuições <strong>de</strong> planejamento e controle das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, um<br />
papel <strong>de</strong> proteção dos direitos e aperfeiçoamento <strong>de</strong> políticas sociais universalistas, com<br />
forte indução legal e administrativa originada na esfera fe<strong>de</strong>ral.<br />
Entretanto, como assinala Viana (1998), os Conselhos têm seu funcionamento<br />
limitado e condicionado pela realida<strong>de</strong> concreta das instituições e da cultura política<br />
dos municípios brasileiros, <strong>de</strong> modo que a característica da gestão local po<strong>de</strong> interferir<br />
na dinâmica do funcionamento do Conselho. A gestão centralizada não favorece a<br />
dinâmica autônoma dos conselhos, que na maioria das vezes passam a existir como<br />
instância burocrática. O impacto do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> direcionamento do executivo municipal<br />
po<strong>de</strong> ser minorado pelas formas <strong>de</strong> organização e grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento das<br />
estruturas administrativas das Secretarias <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Municipais. Quanto mais autonomia<br />
administrativa e financeira, gestão e organização <strong>de</strong>scentralizada dos serviços tiverem<br />
as Secretarias Municipais, maior é a influência dos conselhos existentes na política<br />
local <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e novas modalida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> participação <strong>de</strong> usuários e profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>m surgir, afirma a autora, para quem o conselho é um espelho da política local e da<br />
representação dos interesses políticos.<br />
Apesar do reconhecimento dos aspectos positivos e inovadores da participação<br />
em instâncias <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, é preciso ter claras as possibilida<strong>de</strong>s<br />
concretas <strong>de</strong> participação dos usuários no controle dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. A participação<br />
dos usuários constitui numa tarefa complexa (PINHEIRO e DAL POZ, 1998). Para<br />
eles, essa complexida<strong>de</strong> é dada, primeiramente, pela responsabilida<strong>de</strong> do conselho na<br />
formulação <strong>de</strong> estratégias e no controle da execução da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>; segundo, pela<br />
diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> temas, problemas e conflitos relacionados à organização do sistema e dos<br />
serviços; terceiro, pela diversida<strong>de</strong> dos atores e interesses envolvidos na composição dos<br />
conselhos.<br />
Outros mecanismos formais <strong>de</strong> controle social foram incorporados ao SUS na<br />
<strong>de</strong>fesa do direito à saú<strong>de</strong>, tais como ouvidorias e disque-<strong>de</strong>núncia, criando novas formas<br />
<strong>de</strong> expressão e <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa dos interesses dos indivíduos, grupos e comunida<strong>de</strong>. O voto<br />
sufragado na escolha dos governantes (executivos e legislativos), plebiscito, projeto <strong>de</strong> lei<br />
175
176<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong> iniciativa popular, Ministério Público, órgãos <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa do consumidor, mobilização<br />
popular, e a mídia em geral são outras formas <strong>de</strong> controle social (MATTOS, 2005).<br />
Decorridos 17 anos <strong>de</strong> implantação do SUS, os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> resistem,<br />
acumulam cultura <strong>de</strong> gestão e <strong>de</strong>mocracia e são sujeitos políticos na política local. De<br />
acordo com Costa e Barros (2000), a realização <strong>de</strong> seus fins pressupõe a existência <strong>de</strong><br />
sujeitos políticos e sociais dotados <strong>de</strong> representativida<strong>de</strong> e <strong>de</strong> legitimida<strong>de</strong>, pois a ação<br />
individual ainda não é suficiente para a ação política. Na opinião <strong>de</strong> Barros (1994), o<br />
reconhecimento da representação confere legitimida<strong>de</strong> e po<strong>de</strong>r. A representação só po<strong>de</strong><br />
exercitar o po<strong>de</strong>r que lhe é facultado. Para Dallari (1994), a legitimida<strong>de</strong> se manifesta<br />
na permeabilida<strong>de</strong> que o Conselho adota quanto às questões que são colocadas pelos<br />
diversos segmentos sociais representados, em especial, os usuários dos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Apesar da íntima relação com o conceito <strong>de</strong> participação, as questões <strong>de</strong> legitimida<strong>de</strong> e<br />
representativida<strong>de</strong> política dos conselhos e <strong>de</strong> seus membros, participantes do processo<br />
do controle social, têm sido pouco aprofundadas nas análises teóricas e nos estudos<br />
empíricos. A representação pressupõe um conjunto <strong>de</strong> direitos políticos (liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
expressão, <strong>de</strong> associação etc.), que permite a formação e manifestação da vonta<strong>de</strong> política<br />
dos representados, e constitui um fenômeno complexo, cujo núcleo consiste num processo<br />
<strong>de</strong> escolha <strong>de</strong> governantes (ou representantes <strong>de</strong> segmentos sociais) e <strong>de</strong> controle sobre<br />
sua ação por meio <strong>de</strong> eleições competitivas. Segundo Urbinati (2006), a representação<br />
política é um processo circular (suscetível ao atrito) entre instituições estatais e as práticas<br />
sociais. Argumenta que a representação não pertence apenas aos agentes ou instituições<br />
governamentais, mas <strong>de</strong>signa uma forma <strong>de</strong> processo político que é estruturada nos termos<br />
da circularida<strong>de</strong> entre as instituições e a socieda<strong>de</strong>, e não é confinada à <strong>de</strong>liberação e<br />
<strong>de</strong>cisão na assembleia. Também, <strong>de</strong> acordo com ela, a <strong>de</strong>finição mais próxima dos<br />
princípios <strong>de</strong>mocráticos pertence à Hannah Pitkin: “a representação aqui significa agir<br />
no interesse dos representados, <strong>de</strong> uma maneira responsiva a eles” (PITKIN, 1967,<br />
p. 209 apud URBINATI, 2006, p. 202). Sua natureza ambivalente – social e política,<br />
particular e geral – <strong>de</strong>termina a ligação inevitável com a participação. O funcionamento da<br />
representação beneficia-se <strong>de</strong> uma cultura <strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong> participação. Do mesmo modo,<br />
a legitimida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sses novos espaços públicos <strong>de</strong> participação social está ancorada, <strong>de</strong> um<br />
lado, no próprio processo participativo e sua representativida<strong>de</strong> política, e, <strong>de</strong> outro, na<br />
crença dos sujeitos <strong>de</strong> que são legais as normas do Estado (ou do regime) e seus aparelhos,<br />
assim como o direito <strong>de</strong> comando <strong>de</strong>las <strong>de</strong>rivado.<br />
A maioria dos trabalhos sobre os novos espaços <strong>de</strong> participação social na saú<strong>de</strong><br />
tem como objeto os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Entretanto, um trabalho <strong>de</strong> Escorel e Bloch<br />
(2005) enfatiza a análise das conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e sustenta que as conferências e os<br />
conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> materializam e qualificam o princípio e o valor da <strong>de</strong>mocracia no<br />
projeto da Reforma Sanitária e, portanto, integram um mesmo componente <strong>de</strong> análise.<br />
São fóruns nos quais se i<strong>de</strong>ntificam alterações no padrão <strong>de</strong> recepção e processamento<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>mandas na área da saú<strong>de</strong>. As autoras ressaltam, porém, que os conselhos são fóruns
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
permanentes e com atribuições bem <strong>de</strong>finidas e ampliadas, enquanto as conferências são<br />
fóruns pontuais, com atribuições pouco claras e cujos resultados são, sistematicamente,<br />
<strong>de</strong>sconsi<strong>de</strong>rados. As conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> vêm ocorrendo na maioria dos municípios,<br />
embora por indução nacional. Cresce o número <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados presentes na etapa nacional e<br />
é cada vez maior o número <strong>de</strong> etapas municipais, configurando espaços próprios <strong>de</strong> <strong>de</strong>bate<br />
e formulação <strong>de</strong> políticas, com direito à participação dos usuários.<br />
As conferências nacionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> fazem parte da história oficial da política<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> brasileira <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1937, com a Lei n. 378/1937, que instituiu a Conferência<br />
Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e Educação. No Brasil foram realizadas 12 conferências até 2003,<br />
sendo a 8ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> consi<strong>de</strong>rada como marco <strong>de</strong> transformação<br />
que estabeleceu a nova dinâmica e alterou a composição dos <strong>de</strong>legados, incorporando a<br />
participação da socieda<strong>de</strong> civil organizada e uma nova institucionalida<strong>de</strong> e vida própria às<br />
conferências (ESCOREL e BLOCH, 2005). Para estas autoras, as conferências são fóruns<br />
que conformam espaços <strong>de</strong> formação <strong>de</strong> opinião e vonta<strong>de</strong> política e atuam na tematização<br />
da agenda pública. Uma forma <strong>de</strong> organização inovadora que trabalha com conflitos e<br />
interesses. Fórum <strong>de</strong> negociação política e <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocracia direta, <strong>de</strong> manifestação <strong>de</strong><br />
interesses divergentes e conflitos, que possibilitam a ampla divulgação <strong>de</strong> temários para<br />
discussão na socieda<strong>de</strong> em geral e interferem no rumo da política. A conferência é um<br />
espaço <strong>de</strong> trocas <strong>de</strong> informação, experiência, cooperação e apoio mútuo, um tecido social<br />
comunicativo, como mencionado por Luz (2005).<br />
Para Müller Neto (2010), a Conferência Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> é uma miniesfera<br />
pública temática, parte da esfera pública, on<strong>de</strong> representantes da socieda<strong>de</strong> civil, da<br />
socieda<strong>de</strong> política e do po<strong>de</strong>r administrativo encontram-se em condição <strong>de</strong> <strong>de</strong>liberação<br />
real, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que cumpridos os requisitos referentes à publicida<strong>de</strong>, pluralida<strong>de</strong> e igualda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> condição para <strong>de</strong>liberação. O autor citado i<strong>de</strong>ntifica sete diferentes discursos coletivos<br />
sobre as conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>: 1) Conferência como fórum <strong>de</strong> participação<br />
e <strong>de</strong>liberação para levantamento <strong>de</strong> problemas, anseios e <strong>de</strong>mandas; 2) Conferência<br />
como instrumento e subsídio para o planejamento e a <strong>de</strong>finição das políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>;<br />
3) Conferência como espaço público para representação <strong>de</strong> interesses e <strong>de</strong> sujeitos sociais;<br />
4) Conferência como instrumento legal, normativo, do controle social; 5) Conferência<br />
como fórum <strong>de</strong>liberativo pouco prático e efetivo; 6) Conferência como fórum educativo;<br />
7) Conferência como espaço político para efetivação da <strong>de</strong>mocracia. Em sua visão,<br />
os discursos coletivos sobre as conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> são um amplo painel da opinião<br />
pública sanitária, contendo aspectos complementares e concorrentes, enquanto a gestão<br />
municipal apresenta autonomia e capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> governo razoáveis para encaminhamento<br />
das soluções <strong>de</strong>mandadas nestes fóruns (MÜLLER NETO, 2010).<br />
Para além dos conselhos e conferências, muitos espaços são criados e<br />
reformulados no cotidiano da vida das comunida<strong>de</strong>s – seja <strong>de</strong> reflexão, autoajuda,<br />
resistência, solidarieda<strong>de</strong>, reivindicação e mobilização em torno <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s concretas<br />
da população. Essas iniciativas formam uma expressão viva da socieda<strong>de</strong> civil em torno<br />
177
178<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
das relações sociais, do cotidiano e da cultura e atuam para além dos espaços institucionais<br />
<strong>de</strong> participação popular, no microespaço <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r local, inclusive nos serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
(LACERDA et al., 2006).<br />
3.3 Planejamento e gestão do SUS: O que os conselhos e as conferências têm<br />
a ver com isto?<br />
A construção da gestão <strong>de</strong>mocrática dá-se no cotidiano da gestão, na relação<br />
Estado/socieda<strong>de</strong>. É resultante <strong>de</strong> troca <strong>de</strong> saberes e pressupõe a existência <strong>de</strong> conflitos<br />
<strong>de</strong> interesses, um campo <strong>de</strong> diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> opinião e percepção quanto ao mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
socieda<strong>de</strong> e do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Este caminho cria possibilida<strong>de</strong>s para se construir<br />
novas metodologias <strong>de</strong> planejamento e avaliação, diálogos, pactos e articulações entre<br />
os diferentes atores e re<strong>de</strong>s sociais <strong>de</strong> relacionamento que po<strong>de</strong>rão influenciar na<br />
implementação do SUS e incorporar as <strong>de</strong>mandas da população e suas necessida<strong>de</strong>s<br />
biológicas, sociais e culturais (PINHEIRO e MATTOS, 2006).<br />
Para os autores citados, no processo <strong>de</strong> gestão <strong>de</strong>mocrática valorizam-se<br />
também os espaços já estabelecidos <strong>de</strong> controle social no SUS, sobretudo os conselhos<br />
e conferências, incorporando linhas <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong> para seu fortalecimento, enquanto<br />
espaços públicos <strong>de</strong> formulação da política, avaliação e acompanhamento. Isso requer o<br />
uso <strong>de</strong> tecnologias <strong>de</strong> comunicação, informação para a formação da consciência crítica da<br />
população, enquanto sujeitos <strong>de</strong>sta construção, e metodologias <strong>de</strong> educação permanente,<br />
para promover o relacionamento entre os indivíduos e os grupos <strong>de</strong> diferentes i<strong>de</strong>ologias e<br />
interesses, capaz <strong>de</strong> diminuir as <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s existentes entre eles, referentes ao domínio<br />
do conhecimento e das tecnologias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Bordin (2002) enfatiza a complexida<strong>de</strong> do processo <strong>de</strong> planejamento e gestão<br />
em saú<strong>de</strong> e sua relação com a participação dos conselhos municipais, o que favorece<br />
a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> múltiplas necessida<strong>de</strong>s e problemas no interior do sistema, como<br />
recursos escassos, mal utilizados e mal distribuídos. Reafirma a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> processos<br />
<strong>de</strong>cisórios, com base na informação, na epi<strong>de</strong>miologia e na avaliação.<br />
Para Merhy, Cecílio e Nogueira Filho (1991), o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> gestão <strong>de</strong>mocrática<br />
<strong>de</strong>ve se basear em metodologia do planejamento e <strong>de</strong> administração que alie agilida<strong>de</strong><br />
gerencial com a participação dos interessados. Isto só po<strong>de</strong> acontecer se houver capacitação<br />
dos dirigentes, organização <strong>de</strong> um processo <strong>de</strong>mocrático e informação ampla e disponível.<br />
O planejamento constitui campo <strong>de</strong> investigação da saú<strong>de</strong> coletiva e uma função<br />
da gestão, que inclui a formulação, execução e avaliação da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (LEVCOVITZ<br />
et al., 2003; SCHRAIBER et al., 1999; TEIXEIRA e MOLESINI, 2002). O plano <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
é o principal instrumento <strong>de</strong> gestão e expressa a responsabilida<strong>de</strong> municipal com a saú<strong>de</strong><br />
da população, a síntese <strong>de</strong> um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão sobre o que fazer diante <strong>de</strong> problemas<br />
e disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> recursos (TEIXEIRA, 2001). A coor<strong>de</strong>nação do planejamento e<br />
avaliação do sistema <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> é uma atribuição do gestor público, do dirigente municipal
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
(TEIXEIRA e MOLESINI, 2002), cabendo à conferência analisar a situação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
e propor as diretrizes para a formulação da política e, ao conselho, atuar na formulação<br />
<strong>de</strong> estratégias e no controle da execução da política (BRASIL, 2001a). In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da<br />
obrigatorieda<strong>de</strong> <strong>de</strong>finida na legislação, o planejamento, a avaliação e a prestação <strong>de</strong> contas<br />
são necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> qualquer instituição pública, como as Secretarias <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
A Constituição Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> 1988 (BRASIL, 1988) <strong>de</strong>finiu que “[...] as ações e<br />
serviços públicos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> integram uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços e constituem um sistema único<br />
com participação da comunida<strong>de</strong>”.<br />
A Lei n. 8.080/1990, no artigo 15, <strong>de</strong>finiu como competência <strong>de</strong> cada nível <strong>de</strong><br />
direção do SUS a elaboração e atualização periódica do plano <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e a articulação<br />
política para sua viabilização. Assim, os planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> se tornaram os instrumentos <strong>de</strong><br />
programação e orçamento <strong>de</strong> cada nível <strong>de</strong> direção do SUS. O artigo 36 da Lei n. 8.080/1990<br />
regulamentou o processo <strong>de</strong> planejamento e orçamento do SUS como ascen<strong>de</strong>nte, do nível<br />
local até o fe<strong>de</strong>ral, ouvidos seus órgãos <strong>de</strong>liberativos, compatibilizando-se as necessida<strong>de</strong>s<br />
da política com a disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> recursos em planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (BRASIL, 2001a).<br />
A Lei n. 8.142/1990 regulamentou a participação da comunida<strong>de</strong> na gestão do<br />
SUS, por meio da realização da Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, a cada quatro anos, para<br />
avaliar a situação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e propor diretrizes para a formulação da política e instituiu o<br />
Conselho <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> como órgão colegiado, em caráter permanente e <strong>de</strong>liberativo, com<br />
composição paritária entre representantes dos usuários e dos <strong>de</strong>mais segmentos, para atuar<br />
na formulação <strong>de</strong> estratégias e no controle da execução da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> na instância<br />
correspon<strong>de</strong>nte (BRASIL, 2001a). A referida lei condicionou a transferência <strong>de</strong> recursos<br />
da União aos municípios ao cumprimento <strong>de</strong> requisitos como a criação do Fundo <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
e do Conselho <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, a existência <strong>de</strong> plano <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e relatório <strong>de</strong> gestão, e a comissão<br />
<strong>de</strong> elaboração do Plano <strong>de</strong> Carreira, Cargos e Salários (PCCS).<br />
A Norma Operacional Básica (NOB) 01/96, instrumento <strong>de</strong> regulação do SUS,<br />
acelerou a municipalização da saú<strong>de</strong> e reforçou a importância do planejamento e da<br />
Programação Pactuada Integrada (PPI) nos três níveis <strong>de</strong> gestão, sobretudo a integração das<br />
programações dos sistemas municipais e estaduais, como responsabilida<strong>de</strong>s e requisitos<br />
para a habilitação dos municípios em Gestão Plena do Sistema Municipal (BRASIL,<br />
2001a; VIANA, 2000). Posteriormente, a Norma Operacional da Assistência (NOAS)<br />
atualizou os requisitos para a habilitação dos municípios e estabeleceu o processo <strong>de</strong><br />
regionalização da saú<strong>de</strong> no âmbito do SUS. Introduziu a agenda municipal e o quadro <strong>de</strong><br />
metas, como parte do plano municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, em consonância com as agendas nacional<br />
e estadual, e o acompanhamento dos relatórios <strong>de</strong> gestão, a ser efetuado com base no<br />
quadro <strong>de</strong> metas (BRASIL, 2001a). O sistema <strong>de</strong> planejamento do SUS <strong>de</strong>ve compor o<br />
sistema nacional <strong>de</strong> planejamento, fe<strong>de</strong>rativo, que respon<strong>de</strong> às exigências constitucionais<br />
e legais, entre as quais a elaboração dos Planos Plurianuais (PPA), das Leis <strong>de</strong> Diretrizes<br />
Orçamentárias (LDO) e do Orçamento (LO), além <strong>de</strong> outras ações.<br />
A Portaria n. 548/2001 veio orientar o processo <strong>de</strong> elaboração e a aplicação da<br />
179
180<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
agenda e do plano <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, dos quadros <strong>de</strong> metas, e do relatório <strong>de</strong> gestão. De acordo com<br />
a referida portaria, o plano municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> ou plano plurianual da saú<strong>de</strong> resulta do<br />
processo <strong>de</strong> planejamento no âmbito do sistema municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, realizado <strong>de</strong> quatro<br />
em quatro anos, contendo a análise da situação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> da população, as políticas e as<br />
diretrizes do sistema, as ações prioritárias e as estratégias <strong>de</strong> implantação, bem como o<br />
orçamento previsto para a execução das ações propostas no âmbito do SUS municipal.<br />
Deve estar em consonância com o plano plurianual do governo. O quadro <strong>de</strong> metas ou<br />
plano <strong>de</strong> trabalho anual é parte integrante dos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, base para a elaboração<br />
dos relatórios <strong>de</strong> gestão. O relatório <strong>de</strong> gestão <strong>de</strong>ve avaliar o cumprimento dos objetivos<br />
e das metas explicitadas no quadro <strong>de</strong> metas, bem como da aplicação dos recursos, e ser<br />
disponível aos órgãos <strong>de</strong> controle social como legislativo, ministério público e a socieda<strong>de</strong><br />
como um todo (BRASIL, 2001b).<br />
Em 2006 foram firmados os Pactos pela Saú<strong>de</strong>, pela Vida e <strong>de</strong> Gestão, que<br />
incluíram o processo <strong>de</strong> planejamento como ativida<strong>de</strong> relevante no aprimoramento do<br />
SUS. A Portaria n. 699/2006, que regulamentou os pactos, estabeleceu o sistema <strong>de</strong><br />
planejamento do SUS – PlanejaSUS – e <strong>de</strong>finiu vários instrumentos para operá-lo, nas<br />
três esferas <strong>de</strong> governo.<br />
O Conselho Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, por meio da Resolução n. 333/2003 <strong>de</strong>finiu que<br />
os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e o Po<strong>de</strong>r Executivo <strong>de</strong>veriam acolher as <strong>de</strong>mandas da população,<br />
consubstanciadas nas conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, e aprovar proposta <strong>de</strong> operacionalização das<br />
diretrizes <strong>de</strong>finidas nas conferências e as diretrizes para elaboração dos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
(BRASIL, 2003).<br />
Como observado, o arcabouço jurídico institucional do SUS estabeleceu um<br />
mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong> gestão e colocou as representações da socieda<strong>de</strong> no campo das<br />
instituições com po<strong>de</strong>r e responsabilida<strong>de</strong> na formulação e o acompanhamento da política<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Os conselhos e as conferências passaram a constituir espaços <strong>de</strong> recepção e<br />
processamento das <strong>de</strong>mandas populares e, portanto, potencialmente capazes <strong>de</strong> influenciar<br />
a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s na construção da agenda da política da saú<strong>de</strong>.<br />
Em Mato Grosso, a primeira Conferência Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi realizada<br />
em 1986 como etapa da 8ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. As primeiras conferências<br />
municipais ocorreram em 1991, como etapa da 9ª Conferência Nacional realizada em<br />
1992, cujo tema central – “Municipalização é o Caminho” – marcou o novo período da<br />
<strong>de</strong>scentralização da saú<strong>de</strong> no Brasil. Como observado a seguir, em Mato Grosso ocorreu<br />
o processo <strong>de</strong> municipalização, organização e institucionalização das secretarias, dos<br />
fundos e conselhos municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com suas especificida<strong>de</strong>s.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
4 CARACTERIZAÇÃO DO ESTADO DE MATO GROSSO, DA REDE<br />
DE SERVIÇOS E DO FINANCIAMENTO DE SAÚDE NOS MUNICÍPIOS<br />
ESTUDADOS<br />
O estado <strong>de</strong> Mato Grosso localiza-se na região Centro-Oeste do território brasileiro<br />
e possui uma população resi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> 2.910.264 habitantes (IBGE, 2007) distribuída em<br />
141 municípios, dos quais apenas três possuem mais <strong>de</strong> 100 mil habitantes. O estado<br />
ocupa uma área <strong>de</strong> 903.357km², com baixa <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mográfica, com 3,22 habitantes<br />
por km², sendo o terceiro maior em extensão territorial do país. É o único a possuir<br />
características dos três biomas: Pantanal, Cerrado e Amazônia (MATO GROSSO, 2010).<br />
A taxa geométrica <strong>de</strong> crescimento anual entre 1991/2000 foi <strong>de</strong> (+) 3.07% <strong>de</strong>crescendo<br />
entre 2000/2006 para (+) 1,90% (IBGE, 2006; MATO GROSSO, 2007). Em 1991 o grau<br />
<strong>de</strong> urbanização era <strong>de</strong> 73,26%, e em 2000 aumentou para 79,37% (IBGE, 2000). O Índice<br />
<strong>de</strong> Desenvolvimento Humano (IDH) <strong>de</strong> Mato Grosso em 2000 era <strong>de</strong> 0,767, e do Brasil<br />
<strong>de</strong> 0, 766 (BRASIL, 2000).<br />
A economia baseia-se na agropecuária, sobretudo na produção <strong>de</strong> soja, algodão,<br />
arroz, carne, ma<strong>de</strong>ira, sendo exportador <strong>de</strong>sses produtos. A ativida<strong>de</strong> econômica<br />
concentradora <strong>de</strong> renda, as gran<strong>de</strong>s distâncias e a precarieda<strong>de</strong> da infraestrutura <strong>de</strong><br />
comunicação e transporte, somados à insuficiente estrutura urbana das suas cida<strong>de</strong>s e <strong>de</strong><br />
serviços essenciais nas áreas da educação, saú<strong>de</strong> e segurança pública, além dos sérios<br />
problemas ambientais e <strong>de</strong> violência, configuram um quadro <strong>de</strong> extrema <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
social e regional. Essa situação é consequência <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> crescimento econômico<br />
implantado a partir da década <strong>de</strong> 1970, durante o regime militar, que estimulou processos<br />
<strong>de</strong> migração, sobretudo <strong>de</strong> pessoas dos estados do sul do país, com a política <strong>de</strong> ocupação<br />
<strong>de</strong> fronteiras, por meio da colonização. Atualmente, mais da meta<strong>de</strong> da população do<br />
estado é constituída <strong>de</strong> migrantes.<br />
A re<strong>de</strong> geral <strong>de</strong> esgoto ou pluvial atendia em 2000 apenas 15,4% dos moradores,<br />
sendo que 60% tinham fossa rudimentar e 20,9% tinham o lixo queimado no próprio<br />
domicílio, o que caracteriza como insatisfatório os serviços <strong>de</strong> infraestrutura. A proporção<br />
<strong>de</strong> população alfabetizada no ano <strong>de</strong> 2000 em Mato Grosso era <strong>de</strong> 76,41 %, e a taxa <strong>de</strong><br />
analfabetismo em 2000 era <strong>de</strong> 12,36% (IBGE, 2000).<br />
Em Mato Grosso, 3.228 unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> constavam no Cadastro Nacional dos<br />
Estabelecimentos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (CNES) em 2007. Analisando o total <strong>de</strong> serviços, 40,27% dos<br />
estabelecimentos eram conveniados ao SUS, 20,43% correspondiam aos seguros e planos<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> públicos e privados, e 39,29% a estabelecimentos particulares (BRASIL, 2007).<br />
A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família (PSF) em 2007 era<br />
<strong>de</strong> 55%, totalizando 501 equipes aten<strong>de</strong>ndo a 138 municípios (IBGE, 2007).<br />
A re<strong>de</strong> hospitalar contava com 182 estabelecimentos assistenciais, sendo<br />
57,7% com até 30 leitos (pequenos hospitais). Dos hospitais existentes 64% eram <strong>de</strong><br />
natureza privada, 32% públicos municipais, e apenas 4% público estadual e<br />
181
182<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
fe<strong>de</strong>ral, caracterizando uma predominância do setor privado na prestação <strong>de</strong> serviços.<br />
Ressalta-se que 56% dos estabelecimentos encontravam-se em municípios com até 30.000<br />
habitantes. Do total <strong>de</strong> 7.458 leitos existentes no estado, 5.281 e r a m <strong>de</strong>stinados ao SUS<br />
( 70,8%) e 52,6% <strong>de</strong> 365 leitos <strong>de</strong> Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Terapia Intensiva eram cre<strong>de</strong>nciados ao<br />
SUS (BRASIL, 2007).<br />
4.1 Caracterização da Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços e do Financiamento dos Municípios<br />
pesquisados<br />
Na caracterização dos municípios <strong>de</strong>stacamos a re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
e o perfil do financiamento, indicando a importância e o crescimento dos mesmos na<br />
organização e consolidação do SUS. A opção <strong>de</strong>corre do objetivo do estudo que é avaliar<br />
a influencia da conferência na formulação da política e na gestão municipal do SUS, o<br />
que implica autonomia e governabilida<strong>de</strong> da esfera municipal para formular e implantar<br />
política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Os 16 municípios envolvidos na pesquisa estão localizados em 14 diferentes<br />
regiões <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> do estado, sete são se<strong>de</strong>s administrativas da SES e a maioria é <strong>de</strong> pequeno<br />
ou médio porte (quadro 1). A ativida<strong>de</strong> econômica primária com base na agropecuária é<br />
predominante nesses municípios, em apenas dois predominavam os serviços e o comércio.<br />
A taxa <strong>de</strong> urbanização em 2000 estava abaixo <strong>de</strong> 60% em quatro municípios;<br />
entre 60 e 80% em sete; e acima <strong>de</strong> 80% em cinco, evi<strong>de</strong>nciando um equilíbrio entre<br />
municípios mais e menos urbanizados. A emancipação <strong>de</strong> 11 municípios é recente, entre<br />
20 e 30 anos: um na década <strong>de</strong> 1990, sete na década <strong>de</strong> 1980 e três na década <strong>de</strong> 1970.<br />
Dos outros quatro, dois têm mais <strong>de</strong> 200 anos, um entre 100-200 anos e outro entre 50 e<br />
100 anos (quadro 1).<br />
Quadro 1 – Municípios com população e ano <strong>de</strong> emancipação, Mato Grosso, 2007.
Fonte: IBGE, 2007.<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
O mapa a seguir mostra a distribuição geográfica regional dos municípios e os<br />
i<strong>de</strong>ntificam por letras que foram utilizadas em tabelas e quadros no artigo.<br />
Mapa - Municípios pesquisados por região <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Mato Grosso, 2007.<br />
Fonte: SES/MT, 2007.<br />
A <strong>de</strong>scentralização da saú<strong>de</strong> também contribuiu com a expansão da re<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
serviços e ampliação do acesso da população do estado às ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. A<br />
Saú<strong>de</strong> da Família tem <strong>de</strong>staque nesse contexto, sendo implantada em todos os municípios<br />
estudados, com cobertura crescente em todos eles, tendo oito municípios com cobertura<br />
acima <strong>de</strong> 80%; quatro entre 60 e 80%, e quatro menor <strong>de</strong> 60%. Ocorreu também a<br />
implantação <strong>de</strong> Centros <strong>de</strong> Reabilitação em 87% dos municípios, Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Hemoterapia<br />
(coleta e/ou transfusão) em todos eles, Centro <strong>de</strong> Testagem e Aconselhamento (CTA)<br />
em 50% e Centro <strong>de</strong> Atenção Psicossocial (CAPS) em 56% dos municípios. Quinze dos<br />
municípios estudados concentram estabelecimentos hospitalares, assim distribuídos: onze<br />
<strong>de</strong> natureza municipal, um estadual, cinco filantrópicos e seis privados. Os municípios<br />
<strong>de</strong> Cuiabá, Várzea Gran<strong>de</strong> e Sinop apresentam maior número <strong>de</strong> leitos em hospitais<br />
filantrópicos ou privados.<br />
183
184<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
A criação dos Consórcios Intermunicipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (CIS) nos municípios se<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> região, assim como dos hospitais <strong>de</strong> referência, coroou o processo <strong>de</strong> organização dos<br />
serviços <strong>de</strong> maior complexida<strong>de</strong> nas regiões, sobretudo <strong>de</strong> assistência médica especializada<br />
e hospitalar em áreas mais <strong>de</strong>mandadas, como cirurgia, traumatologia, cardiologia e<br />
neurologia. A Baixada Cuiabana é a única região que não organizou consórcio.<br />
Os gastos com saú<strong>de</strong> pelos municípios também cresceram, consi<strong>de</strong>rando<br />
principalmente a aplicação <strong>de</strong> recursos próprios. Todos os municípios pesquisados<br />
aplicaram em 2006 mais <strong>de</strong> 15% da receita própria, sete <strong>de</strong>les, ultrapassaram o percentual<br />
<strong>de</strong> 20% da receita municipal.<br />
4.1.1 Alta Floresta<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> treze Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>,<br />
dois na área urbana e onze na rural; nove Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família; um Centro <strong>de</strong><br />
Atenção Psicossocial; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Coleta e Transfusão<br />
<strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados; um Centro <strong>de</strong> Triagem e Aconselhamento; um Centro <strong>de</strong><br />
Atendimento Especializado; um Laboratório <strong>de</strong> Análises Clínicas <strong>de</strong> exames <strong>de</strong> baixa<br />
e média complexida<strong>de</strong> (ALTA FLORESTA, 2004). A proporção <strong>de</strong> população coberta<br />
pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família (PSF) era <strong>de</strong> 62,18% em 2004 e 64,08% em 2006<br />
(BRASIL, 2006c).<br />
A atenção hospitalar foi organizada no Hospital Municipal do Consórcio<br />
Intermunicipal Alto Tapajós, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 86 leitos e atendimento <strong>de</strong> urgência e<br />
emergência 24 horas; internação nas clínicas médica, cirúrgica, pediátrica, ginecológica,<br />
obstétrica, ortopédica, otorrinolaringologia e neurologia; e Serviços <strong>de</strong> Apoio Diagnostico<br />
e Terapia (SADT) em Ultrassonografia (US), Raio-X e Endoscopia, referenciando as<br />
<strong>de</strong>mandas <strong>de</strong> alta complexida<strong>de</strong> para o município <strong>de</strong> Cuiabá (ALTA FLORESTA, 2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado através da Lei n. 381/1991 (ALTA<br />
FLORESTA, 1991). De acordo com o Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos<br />
em Saú<strong>de</strong> (SIOPS), o percentual da receita própria municipal alocado em saú<strong>de</strong> foi 8,22%<br />
em 2000, 13,65% em 2003 e 19,08% em 2006, atingindo em 2004 a meta prevista na<br />
Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do municípiovinculado.<br />
A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong> R$ 76,05<br />
em 2000 para R$ 217,14 em 2006, quadro 2 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 2 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Alta Floresta - MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.2 Barra do Garças<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 dos Serviços <strong>de</strong> Vigilância<br />
Sanitária, Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica; Programas Especiais <strong>de</strong> Controle à Tuberculose<br />
e Hanseníase, DST/AIDS, Viva mulher, Prevenção do Câncer <strong>de</strong> Colo do Útero,<br />
Saú<strong>de</strong> Bucal, Saú<strong>de</strong> Indígena e Planejamento Familiar; duas Policlínicas; um Centro<br />
<strong>de</strong> Referência Regional em Especialida<strong>de</strong>s Médicas; um Centro <strong>de</strong> Reabilitação; um<br />
Centro Odontológico Regionalizado; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue<br />
e Hemo<strong>de</strong>rivados; um Laboratório Central; um Centro <strong>de</strong> Atenção Psicossocial e um<br />
Hospital Dia (BARRA DO GARÇAS, 2005). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo PSF<br />
era <strong>de</strong> 80,12% em 2004 e 80,34% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
Os serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> especializados <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> eram<br />
referência para municípios da micro e macrorregião. A atenção hospitalar era organizada<br />
prioritariamente no Hospital Municipal <strong>de</strong> Referência Regional (Garças-Araguaia),<br />
com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 57 leitos, atendimento em urgência e emergência, terapia intensiva<br />
e internações nas especialida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cardiologia, psiquiatria, buco-maxilo, cirurgia geral,<br />
cirurgia plástica, clínica médica, gastroenterologia, neurocirurgia, neurologia, ortopedia,<br />
pediatria, proctologia, psiquiatria, urologia e angiologia. O SUS municipal tinha oferta <strong>de</strong><br />
leitos cre<strong>de</strong>nciados complementares em dois hospitais privados (BARRA DO GARÇAS,<br />
2005).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado através da Lei n. 1.406/1991 (BARRA<br />
DO GARÇAS, 1991). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi 11,43% em 2000, 15,5% em 2003 e 21,79% em 2006, atingindo<br />
em 2002 a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong><br />
impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também<br />
aumentou <strong>de</strong> R$ 71,21em 2000 para R$ 338,39 em 2006, quadro 3 (BRASIL, 2006b).<br />
185
186<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Quadro 3 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Barra do Garças, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.3 Cáceres<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> oito Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
da Família, sete urbanas e uma rural; um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e seis Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; três<br />
Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Odontologia, uma na área rural; Centro <strong>de</strong> Zoonose, quatro Unida<strong>de</strong>s Móveis<br />
Terrestres (ambulâncias); Vigilâncias Epi<strong>de</strong>miológica, Ambiental e Sanitária; um Pronto<br />
Atendimento; um Centro <strong>de</strong> Atenção Psicossocial; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação; um<br />
Laboratório <strong>de</strong> Análises Clínicas com oferta <strong>de</strong> exames <strong>de</strong> baixa e média complexida<strong>de</strong>;<br />
um Laboratório <strong>de</strong> Fronteira e Serviços <strong>de</strong> US, Raio-X, Endoscopia e Tomografia<br />
Computadorizada, ambos localizados no Hospital Regional para atendimento ambulatorial<br />
e internação (CÁCERES, 2004). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo PSF em Cáceres<br />
era <strong>de</strong> 30,23% em 2000, 33,34% em 2003 e 34,39% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
A atenção hospitalar era organizada principalmente no Hospital Estadual<br />
<strong>de</strong> Referência Regional, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 100 leitos, internação <strong>de</strong> média e alta<br />
complexida<strong>de</strong>, terapia intensiva e atendimento <strong>de</strong> urgência e emergência nas 24 horas.<br />
O SUS municipal tinha cre<strong>de</strong>nciamento <strong>de</strong> leitos em dois hospitais filantrópicos, um<br />
especializado em <strong>de</strong>rmatologia e o outro em assistência materno infantil.<br />
Recursos Financeiros<br />
De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal alocado em<br />
saú<strong>de</strong> foi 14,85% em 2000, 17,74% em 2003 e 21,75% em 2006, atingindo em 2001 a<br />
meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do<br />
município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong><br />
R$ 49,03 para R$ 100,15 em 2006, quadro 4 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 4 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Cáceres-MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.4 Campo Ver<strong>de</strong><br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> seis Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> da Família; cinco Equipes <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Bucal; cinco Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na área<br />
rural; Centro <strong>de</strong> Zoonoses; três Unida<strong>de</strong>s Móveis Terrestres (ambulâncias); Vigilância<br />
Epi<strong>de</strong>miológica, Ambiental e Sanitária; uma Central <strong>de</strong> Regulação <strong>de</strong> Vagas para<br />
encaminhamentos <strong>de</strong> usuários; um Centro <strong>de</strong> Especialida<strong>de</strong>s com consultas em pediatria,<br />
ginecologia e obstetrícia, cardiologia, ortopedia e otorrinolaringologia; um Centro <strong>de</strong><br />
Atenção Psicossocial; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação com atendimento em dois turnos em<br />
fisioterapia e fonoaudiologia; um Laboratório <strong>de</strong> Análises Clínicas que realizava exames<br />
<strong>de</strong> baixa e média complexida<strong>de</strong>; Serviços <strong>de</strong> US, Raio-X e Endoscopia, localizados no<br />
Hospital Municipal, para atendimento ambulatorial e hospitalar. O município apresentava<br />
pouca <strong>de</strong>pendência do setor privado, na maioria das especialida<strong>de</strong>s e dos procedimentos<br />
<strong>de</strong> média complexida<strong>de</strong> (CAMPO VERDE, 2004, SCHRADER, 2007).<br />
A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa Saú<strong>de</strong> da Família em Campo<br />
Ver<strong>de</strong> era <strong>de</strong> 36,51% em 2000, 63,09% em 2003 e 82,05% em 2006 (BRASIL, 2006c). O<br />
Hospital Municipal “Coração <strong>de</strong> Jesus” era a principal unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> referência em internação<br />
nas clínicas básicas, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 36 leitos e atendimento <strong>de</strong> urgência e emergência<br />
nas 24 horas. O SUS municipal contava com 11 leitos cre<strong>de</strong>nciados no hospital geral <strong>de</strong><br />
natureza privada, incluindo atendimento em ambulatório e internação (CAMPO VERDE,<br />
2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado através da Lei n. 130/199 (CAMPO<br />
VERDE, 1992). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi 9,66% em 2000, 14,61% em 2003 e 21,2% em 2006, atingindo<br />
em 2002 a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita<br />
187
188<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
<strong>de</strong> impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante também<br />
aumentou <strong>de</strong> R$ 75,06 em 2000 para R$ 333,02 em 2006, quadro 5 (BRASIL, 2006b).<br />
Quadro 5 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Campo Ver<strong>de</strong>, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.5 Comodoro<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na<br />
área urbana; oito Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na rural; cinco Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família, quatro<br />
urbanas e uma rural itinerante; Serviços <strong>de</strong> Vigilância Sanitária <strong>de</strong> baixa complexida<strong>de</strong>,<br />
Vigilância Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica; um Pronto Atendimento Municipal com 13 leitos<br />
<strong>de</strong> observação; um Laboratório Municipal <strong>de</strong> Análises Clínicas; um Ambulatório privado<br />
cre<strong>de</strong>nciado ao SUS; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação; dois Consultórios Odontológicos e<br />
uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados (COMODORO, 2004).<br />
A atenção hospitalar era realizada no hospital geral cre<strong>de</strong>nciado ao SUS com<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 31 leitos para internações nas clínicas médica, obstétrica, cirúrgica e<br />
pediátrica (COMODORO, 2004). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong> 46,73% em 2000, 51,37% em 2003 e 59,34% em 2006 (BRASIL,<br />
2006c).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado através da Lei n. 392/1997 (COMODORO,<br />
1997). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal alocado em<br />
saú<strong>de</strong> foi 11,58% em 2000, 16,86% em 2003 e 17,25% em 2006, atingindo em 2001 a<br />
meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do<br />
município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong><br />
R$ 65,82 em 2000 para R$ 178,35 em 2006, quadro 6 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 6 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Comodoro - MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.6 Cuiabá<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2005 <strong>de</strong> serviços próprios e <strong>de</strong><br />
terceiros, assim configurada (CUIABÁ, 2005):<br />
Atenção Básica: 30 Centros <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na área urbana, 29 Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
da Família, 04 Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na área rural e 10 Clínicas Odontológicas. Serviços <strong>de</strong><br />
Vigilância Sanitária <strong>de</strong> baixa, média e alta complexida<strong>de</strong>, Centro <strong>de</strong> Zoonoses, Vigilâncias<br />
Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica. A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
da Família era <strong>de</strong> 6,52% em 2000, 14,37% em 2003 e 28,15 % em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
Atenção Especializada: 05 Policlínicas (duas na região Sul e uma em cada<br />
região - Norte, Leste e Oeste), um Centro <strong>de</strong> Especialida<strong>de</strong>s Médicas (CEM), um Serviço<br />
Ambulatorial Especializado, cinco Centros <strong>de</strong> Testagem e Orientação em DST/AIDS, seis<br />
Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Reabilitação (cinco em Policlínicas e uma no CEM), um Laboratório Central,<br />
um Hospital Pronto-Socorro Municipal (HPSMC), com 162 leitos.<br />
Na área <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> mental: três Centros <strong>de</strong> Atenção Psicossocial, sendo dois para<br />
problemas mentais e um para adolescentes em uso <strong>de</strong> álcool/drogas e 10 Residências<br />
Terapêuticas.<br />
A re<strong>de</strong> assistencial municipal é composta também por unida<strong>de</strong>s públicas<br />
sob gerência da Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da União, e por serviços contratados e<br />
conveniados pela Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (CUIABÁ, 2005), abaixo <strong>de</strong>scritos:<br />
Re<strong>de</strong> estadual: Dois CAPS, sendo um para tratamento <strong>de</strong> álcool e outras drogas<br />
para adulto e um infantil, um Centro Integrado <strong>de</strong> Assistência Psicossocial – CIAPS<br />
Adauto Botelho, que realizava atendimento <strong>de</strong> urgência e internação –, um Centro<br />
Estadual <strong>de</strong> Referência <strong>de</strong> Média e Alta Complexida<strong>de</strong> (CERMAC), um Hemocentro, um<br />
Centro <strong>de</strong> Reabilitação Estadual (CRIDAC).<br />
Re<strong>de</strong> fe<strong>de</strong>ral: Hospital Universitário Júlio Müller.<br />
189
190<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Re<strong>de</strong> contratada: 29 estabelecimentos ambulatoriais, 9 hospitais privados e<br />
dois filantrópicos.<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 2820/1990, atualizada pela<br />
Lei Complementar n. 94/2003 (CUIABÁ, 1990, 2003). De acordo com o SIOPS, o<br />
percentual da receita própria municipal alocado em saú<strong>de</strong> foi 24,07% em 2000, 19,08%<br />
em 2003 e 21,92% em 2006, atingindo em 2000 a meta prevista na Emenda Constitucional<br />
29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total<br />
com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong> R$ 178,17 em 2000 para R$ 307,21 em<br />
2006, quadro 7 (BRASIL, 2006b).<br />
Quadro 7 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em Saú<strong>de</strong><br />
Cuiabá-MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.7 Diamantino<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> três Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; um<br />
Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; cinco Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família; Serviços e Ações <strong>de</strong> Vigilância<br />
Sanitária <strong>de</strong> baixa complexida<strong>de</strong>, Vigilância Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica; um Centro <strong>de</strong><br />
Reabilitação; um Centro <strong>de</strong> Apoio Psicossocial; um Centro <strong>de</strong> Testagem e Aconselhamento<br />
em DST/AIDS; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados; um<br />
Laboratório Municipal; nove Farmácias para dispensação <strong>de</strong> medicamentos, uma Unida<strong>de</strong><br />
Móvel Odontológica; uma Unida<strong>de</strong> Móvel Básica e oito Consultórios Odontológicos<br />
(DIAMANTINO, 2004).<br />
A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong><br />
14,99% em 2000, 70,43% em 2003 e 70,37 % em 2006 (BRASIL, 2006c). O Hospital e<br />
Ambulatório “São João Batista,” instituição filantrópica, com característica <strong>de</strong> unida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> referência para a microrregião Centro Norte realizava atendimento ambulatorial,<br />
exames <strong>de</strong> Raio-X, US, ECG e internação na clínica geral, pediátrica, obstétrica, cirúrgica<br />
e ortopédica. O Hospital disponibilizava 72 leitos ao SUS através <strong>de</strong> convênio com a<br />
Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (DIAMANTINO, 2004).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
CONFERÊNCIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE EM 2007<br />
ONDE FORAM APRESENTADOS OS RESULTADOS DAS PESQUISAS<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
3ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Comodoro<br />
3ª CMS <strong>de</strong> Guarantã do Norte - MT<br />
191
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
192<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
4ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Barra do Garças<br />
5ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cáceres
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
4ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Campo Ver<strong>de</strong><br />
4ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Várzea Gran<strong>de</strong><br />
193
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
194<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
5ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Cuiabá<br />
6ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Diamantino
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
5ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Alta Floresta<br />
3ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Juruena<br />
195
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
196<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
3ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Lucas do Rio Ver<strong>de</strong><br />
4ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Nova Marilândia
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
Fonte: Arquivo do NDS/ISC/UFMT.<br />
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
2ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Félix do Araguaia<br />
5ª Conferência <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Sinop<br />
197
198<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi instituído pela Lei n. 93/1993 (DIAMANTINO,<br />
1993). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal alocado em<br />
saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong> 10,69% em 2000, 17,72% em 2003 e 16,96% em 2006, atingindo em 2002 a<br />
meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do<br />
município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong><br />
R$ 67,49 em 2000 para R$ 310,90 em 2006, quadro 8 (BRASIL, 2006b).<br />
Quadro 8 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Diamantino – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.8 Guarantã do Norte<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
um Posto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Rural; seis Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família, cinco urbanas e uma<br />
rural; Serviços <strong>de</strong> Vigilância Sanitária, Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica; um Ambulatório<br />
Especializado; Serviço <strong>de</strong> ECG; US e Raio-X; um Laboratório <strong>de</strong> Análises Clínica; um<br />
Centro <strong>de</strong> Reabilitação; um Centro <strong>de</strong> Atenção Psicossocial (GUARANTÃ DO NORTE,<br />
2004). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong><br />
8,69% em 2001, 33,12% em 2003 e 70,34% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
O Hospital Municipal “Nossa Senhora do Rosário” era a unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> referência<br />
em internação em clínica geral, pediátrica, obstétrica, cirúrgica e ortopédica, urgência<br />
e emergência nas 24 horas, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 40 leitos, sendo três <strong>de</strong> observação<br />
(GUARANTÃ DO NORTE, 2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 49/1991 (GUARANTÃ<br />
DO NORTE, 1991). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong> 12,9 % em 2000, 21,81% em 2003 e 16,9% em 2006, atingindo
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
em 2003 a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong><br />
impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também<br />
aumentou <strong>de</strong> R$ 53,83 em 2000 para R$ 176,63 em 2006, quadro 9 (BRASIL, 2006b).<br />
Quadro 9 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Guarantã do Norte – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.9 Juruena<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por três Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
da Família, duas urbanas e uma rural; Serviços <strong>de</strong> Vigilância Sanitária, Ambiental e<br />
Epi<strong>de</strong>miológica <strong>de</strong> baixa complexida<strong>de</strong>; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados e duas Unida<strong>de</strong>s Móveis; Serviços <strong>de</strong><br />
US, Raio-X e Laboratório <strong>de</strong> Análises Clínica (JURUENA, 2004). A população coberta<br />
pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong> 96,73% em 2000, 97,19% em 2003 e 128,4%<br />
em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
O Hospital Municipal <strong>de</strong> Juruena era a unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> referência em urgência<br />
e emergência nas 24 horas, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 20 leitos para internação em clínica<br />
médica, pediátrica, obstétrica e cirúrgica. As <strong>de</strong>mais especialida<strong>de</strong>s eram realizadas pelo<br />
Consórcio Intermunicipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> ou encaminhadas pela Central <strong>de</strong> Regulação <strong>de</strong> Juína<br />
(JURUENA, 2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 158/1991 (JURUENA, 1991).<br />
De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal alocado em saú<strong>de</strong> foi<br />
<strong>de</strong> 12,58 % em 2000, 10,02 % em 2003 e 15,83 % em 2006, atingindo em 2004 a meta<br />
prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do<br />
município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong><br />
R$ 135,41 em 2000 para R$ 303,65 em 2006, quadro 10 (BRASIL, 2006b).<br />
199
200<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Quadro 10 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Juruena – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.10 Lucas do Rio Ver<strong>de</strong><br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>; seis<br />
Equipes <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família na área urbana; dois Postos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> na zona rural; Ações <strong>de</strong><br />
Vigilância Sanitária, Epi<strong>de</strong>miológica e Ambiental <strong>de</strong> baixa a média complexida<strong>de</strong>; uma<br />
Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação; um Centro <strong>de</strong> Especialida<strong>de</strong>s; Serviços <strong>de</strong> Raio-X, Laboratório,<br />
ECG e Ambulância (LUCAS DO RIO VERDE, 2004). A cobertura do Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
da Família era <strong>de</strong> 109,81% em 2004 e <strong>de</strong> 97,16% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
A atenção hospitalar era organizada em dois hospitais <strong>de</strong> pequeno porte, uma<br />
fundação pública e um <strong>de</strong> natureza privada com internação em clínica médica, obstétrica,<br />
cirúrgica e pediátrica, sendo 20 leitos na fundação pública e 18 leitos cre<strong>de</strong>nciados no<br />
hospital privado. As referências para outras especialida<strong>de</strong>s eram realizadas no Hospital<br />
Regional <strong>de</strong> Sorriso, através do Consórcio Intermunicipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Teles Pires, ou<br />
encaminhadas para Cuiabá pela Central <strong>de</strong> Regulação (LUCAS DO RIO VERDE, 2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 128/1991 (LUCAS DO<br />
RIO VERDE, 2004). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong> 9,96% em 2000, 18,43 % em 2003 e 19,67 % em 2006, atingindo<br />
em 2003 a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong><br />
impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por<br />
habitante/ano também aumentou <strong>de</strong> R$ 101,5 em 2000 para R$ 290,45 em 2006, quadro<br />
11 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 11 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Lucas do Rio Ver<strong>de</strong> – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.11 Nova Marilândia<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família na área urbana; Serviços <strong>de</strong> Vigilância Sanitária,<br />
Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica <strong>de</strong> baixa complexida<strong>de</strong> (NOVA MARILÂNDIA, 2004). A<br />
proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong> 71,59% em<br />
2001, 87,78% em 2003 e 104,36% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 34/93 (NOVA MARILÂNDIA,<br />
2004). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal alocado em<br />
saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong> 11,01 % em 2000, 16,63% em 2003 e 19,67% em 2006, atingindo em 2003<br />
a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos<br />
do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por habitante/ano<br />
também aumentou <strong>de</strong> R$ 110,09 em 2000 para R$ 369,03 em 2006, quadro 12 (BRASIL,<br />
2006b).<br />
201
202<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Quadro 12 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Nova Marilândia - MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.12 Novo Horizonte do Norte<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
na área urbana; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família; dois Postos na área rural; Serviços<br />
<strong>de</strong> Vigilância Sanitária, Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica <strong>de</strong> baixa complexida<strong>de</strong> (NOVO<br />
HORIZONTE DO NORTE, 2005). A cobertura do Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong><br />
121,14% em 2004 e 123,99% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
O Hospital Municipal <strong>de</strong> Novo Horizonte do Norte era a referência em<br />
urgência e emergência, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 19 leitos para internação e um <strong>de</strong> observação,<br />
aten<strong>de</strong>ndo nas especialida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> clínica médica, obstétrica, cirúrgica e pediátrica (NOVO<br />
HORIZONTE DO NORTE, 2005).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 221/94 (NOVO HORIZONTE DO<br />
NORTE, 1994). De acordo com o SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong> 11,85 % em 2000, 14,35 % em 2003 e 18,8 % em 2006, atingindo<br />
em 2001 a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong><br />
impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por<br />
habitante/ano também aumentou <strong>de</strong> R$ 157,27 em 2000 para R$ 416,14 em 2006, quadro<br />
13 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 13 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Novo Horizonte do Norte – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b<br />
4.1.13 Porto Alegre do Norte<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família; Centro Odontológico; Serviços <strong>de</strong> Vigilância Sanitária,<br />
Ambiental e Epi<strong>de</strong>miológica <strong>de</strong> baixa complexida<strong>de</strong>; Serviços <strong>de</strong> Laboratório <strong>de</strong> Análises<br />
Clínicas, ECG, US e Raio-X; Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados<br />
(PORTO ALEGRE DO NORTE, 2004). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo<br />
Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong> 40,13% em 2002, 65,76% em 2003 e 97,19% em<br />
2006 (BRASIL 2006c).<br />
O Hospital Municipal <strong>de</strong> Porto Alegre do Norte era a referência em urgência<br />
e emergência, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 20 leitos nas clínicas médica, pediátrica, obstétrica e<br />
cirúrgica (PORTO ALEGRE DO NORTE, 2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi instituído pela Lei n. 304/98 (PORTO ALEGRE<br />
DO NORTE, 1998). De acordo como SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi 13,47% em 2000 para 20,93% em 2006, atingindo em 2002 a meta<br />
prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do<br />
município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por habitante também<br />
aumentou <strong>de</strong> R$ 93,41 em 2000 para R$ 229,65 em 2006, quadro 14 (BRASIL, 2006b).<br />
203
204<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Quadro 14 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Porto Alegre do Norte – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.14 São Félix do Araguaia<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por um Centro <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
três Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família com duas Equipes <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Bucal; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Reabilitação (SÃO<br />
FÉLIX DO ARAGUAIA, 2004). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong> 30,96% em 2000, 62,33% em 2003 e 82,54% em 2006 (BRASIL,<br />
2006c).<br />
O Hospital Municipal era se<strong>de</strong> do Consórcio Intermunicipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> do<br />
Araguaia, e funcionava como referência em urgência e emergência, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 40<br />
leitos nas clínicas médica, ginecológica e obstétrica, ortopédica, pediátrica, anestesiologia<br />
e cirúrgica (SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA, 2004).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi instituído pela Lei n. 170/1991(SÃO FÉLIX DO<br />
ARAGUAIA, 1991). De acordo como SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi 12,32% em 2000, 18,98% em 2003 e 17,42% em 2006, atingindo<br />
em 2001 a meta prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong><br />
impostos do município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por<br />
habitante/ano também aumentou <strong>de</strong> R$ 81,03 em 2000 para R$ 501,35 em 2006, quadro<br />
15 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 15 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, São Félix do Araguaia – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.15 Sinop<br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 por três Centros <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>; 16 Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família; um Centro <strong>de</strong> Especialida<strong>de</strong>s; uma Unida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> Reabilitação; uma Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Coleta e Transfusão <strong>de</strong> Sangue e Hemo<strong>de</strong>rivados; um<br />
Laboratório <strong>de</strong> Análises Clínicas; Serviço <strong>de</strong> Raio-X médico e odontológico; um Centro<br />
<strong>de</strong> Atenção Psicossocial; dois Centros Odontológicos; um Centro <strong>de</strong> Especialida<strong>de</strong>s<br />
Odontológicas; um Pronto Atendimento; um Hospital Filantrópico e dois Privados<br />
(SINOP, 2005). A proporção <strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família<br />
em 2001 era <strong>de</strong> 73,02%, diminuindo para 64,06% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 508/1997 (SINOP, 1997). De<br />
acordo como SIOPS, o percentual da receita própria municipal alocado em saú<strong>de</strong> foi <strong>de</strong><br />
16,25% em 2000, para 24,92% em 2006, atingindo em 2000 a meta prevista na Emenda<br />
Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do município-vinculado.<br />
A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por habitante/ano também aumentou <strong>de</strong><br />
R$ 63,34 em 2000 para R$ 221,55 em 2006, quadro 16 (BRASIL, 2006b).<br />
205
206<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Quadro 16 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Sinop – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
4.1.16 Várzea Gran<strong>de</strong><br />
Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Serviços <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
A Re<strong>de</strong> <strong>de</strong> Atenção à Saú<strong>de</strong> era constituída em 2004 <strong>de</strong> sete Centros <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>;<br />
três Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família; um Centro <strong>de</strong> Especialida<strong>de</strong>s Médicas; quatro<br />
Policlínicas; dois Centros <strong>de</strong> Atenção Psicossocial (CAPS II e CAPS ad); um Centro <strong>de</strong><br />
Reabilitação; um Centro <strong>de</strong> Testagem e Aconselhamento em DST/AIDS; um Hospital<br />
e Pronto-Socorro Municipal, Hospitais Privados Conveniados, Laboratório <strong>de</strong> Análises<br />
Clínicas Clínica, Serviços <strong>de</strong> Raio X e outros (VÁRZEA GRANDE, 2005). A proporção<br />
<strong>de</strong> população coberta pelo Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família era <strong>de</strong> 2,77% em 2001, 4,57%<br />
em 2003, e 17,27% em 2006 (BRASIL, 2006c).<br />
Recursos Financeiros<br />
O Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi criado pela Lei n. 1327/1993 (VARZEA<br />
GRANDE, 1993). De acordo como SIOPS, o percentual da receita própria municipal<br />
alocado em saú<strong>de</strong> foi 14,73% em 2000, para 25,92% em 2006, atingindo em 2001 a meta<br />
prevista na Emenda Constitucional 29, <strong>de</strong> no mínimo 15% da receita <strong>de</strong> impostos do<br />
município-vinculado. A <strong>de</strong>spesa total com ações e serviços <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> por habitante/ano<br />
também aumentou <strong>de</strong> R$ 67,3 para R$ 164,66 em 2006, quadro 17 (BRASIL, 2006b).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Quadro 17 – Indicadores do Sistema <strong>de</strong> Informações sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>, Várzea Gran<strong>de</strong> – MT, 2000-2006.<br />
Fonte: Brasil, 2006b.<br />
5 INSTITUCIONALIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO E DA GESTÃO DA<br />
SAÚDE NOS MUNICÍPIOS<br />
5.1 Institucionalização do setor saú<strong>de</strong> nos 16 municípios<br />
A institucionalização do setor saú<strong>de</strong> ocorreu em todos os municípios, a partir<br />
da implantação das estruturas organizacionais das secretarias municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, e<br />
regulamentação do SUS nas Leis Orgânicas municipais. São estruturas relativamente<br />
recentes, sendo que em oito municípios (50 %) foram criadas na década <strong>de</strong> 1990, período<br />
pós-SUS.<br />
Com a regulamentação das Leis 8080 e 8142/1990 e das Normas Operacionais<br />
do SUS (NOB/SUS) que estabelecem as regras da <strong>de</strong>scentralização dos recursos e as<br />
competências e responsabilida<strong>de</strong>s dos entes fe<strong>de</strong>rativos na prestação <strong>de</strong> serviços aos<br />
usuários, os municípios implantaram instrumentos e mecanismos <strong>de</strong> gestão na saú<strong>de</strong>,<br />
incluindo fundos e conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e plano <strong>de</strong> cargos, carreiras e salários (PCCS).<br />
Os municípios foram habilitados para assumir as responsabilida<strong>de</strong>s da gestão da atenção<br />
básica ou da atenção básica e especializada <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>.<br />
Analisamos a condição <strong>de</strong> habilitação dos municípios às NOBS do SUS,<br />
conforme tabela 1, buscando i<strong>de</strong>ntificar a autonomia da gestão sobre o fundo municipal<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e sobre a gestão <strong>de</strong> pessoas, e a existência <strong>de</strong> estruturas e mecanismos <strong>de</strong> gestão<br />
participativa e <strong>de</strong> controle social.<br />
A maioria dos municípios (68,75%) está habilitado na condição <strong>de</strong> Gestão<br />
Plena da Atenção Básica, e 31,25% na Gestão Plena do Sistema Municipal, conforme<br />
requisitos da NOB/SUS 01/96. A gestão integral do fundo <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> ocorre em 37,5% dos<br />
municípios, e <strong>de</strong> pessoas, em 31,25%, caracterizando um quadro <strong>de</strong> autonomia limitado<br />
do gestor da saú<strong>de</strong>.<br />
207
208<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Em relação à gestão <strong>de</strong> pessoas, apenas três municípios possuem PCCS próprio<br />
da saú<strong>de</strong>, sendo que em treze, os servidores da saú<strong>de</strong> são contemplados nos planos <strong>de</strong><br />
cargos, carreiras e salários das Prefeituras Municipais. A realização <strong>de</strong> concurso público<br />
ocorreu em 68,75% dos municípios no período <strong>de</strong> 2000 a 2005.<br />
A implantação dos Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> também po<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rada um<br />
avanço do Projeto <strong>de</strong> Reforma Sanitária do SUS. Os conselhos foram criados por lei<br />
em todos os municípios, garantindo a parida<strong>de</strong> dos segmentos dos usuários em relação<br />
aos <strong>de</strong>mais (trabalhadores, gestores e prestadores). A maioria <strong>de</strong>les possuía regimento<br />
interno e 68,75% contava com estrutura formal no organograma da secretaria municipal<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Em 56,25% dos municípios, o conselho dispunha <strong>de</strong> secretaria executiva e em<br />
31,25% possuíam infraestrutura administrativa própria. Apenas 18,75% dos conselhos<br />
tinham orçamento próprio e a eleição para presi<strong>de</strong>nte do conselho ocorria em 43,75% dos<br />
mesmos.<br />
A maioria dos municípios (87,50%) tem participação em Consórcio Intermunicipal<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, indicando uma prática institucionalizada e a disseminação <strong>de</strong>ste mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><br />
organização e cooperação intermunicipal. Destaca-se também a participação <strong>de</strong> todos os<br />
secretários <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> entrevistados em Comissões Intergestores Bipartites regionais (CIBs<br />
Regionais). Quanto à existência <strong>de</strong> estruturas e mecanismos <strong>de</strong> fortalecimento do controle<br />
social e da gestão participativa nas secretarias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, somente Cuiabá contava com<br />
ouvidoria e conselho gestor <strong>de</strong> unida<strong>de</strong> funcionando.<br />
Tabela 1 – Institucionalização, gestão e controle social do setor saú<strong>de</strong> em 16 municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso, 2005.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Fonte: Banco <strong>de</strong> dados da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em<br />
Municípios <strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2005.<br />
*Apenas 15 municípios informaram.<br />
** Apenas 11 municípios informaram.<br />
5.2 Capacida<strong>de</strong> institucional <strong>de</strong> planejamento das Secretarias Municipais<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
Todas as Secretarias <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> elaboraram os principais instrumentos <strong>de</strong><br />
planejamento do SUS, plano municipal e relatório <strong>de</strong> gestão, referentes ao período<br />
analisado, sendo que meta<strong>de</strong> <strong>de</strong>las apresentou o plano plurianual <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> que, em todos<br />
os casos, guarda relação com o plano plurianual do governo (PPA). O plano operativo ou<br />
plano <strong>de</strong> trabalho anual foi elaborado por 75% <strong>de</strong>las. O plano <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos 16 municípios<br />
foi aprovado em seu respectivo conselho <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, cumprindo os requisitos legais do SUS.<br />
Observou-se que apenas sete conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>finem as diretrizes para a elaboração<br />
do plano e apenas seis realizam seu monitoramento, conforme <strong>de</strong>termina a Lei n. 8.142/90,<br />
tabela 2 (BRASIL, 1990).<br />
Quando analisada a estrutura dos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, apenas dois estavam a<strong>de</strong>quados<br />
à Portaria do Ministério da Saú<strong>de</strong> GM n. 548/01 (BRASIL, 2001b), incluindo introdução,<br />
diagnóstico situacional, priorida<strong>de</strong>, estratégias, análise estratégica, programação, quadro<br />
<strong>de</strong> metas e conclusão. Os planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> analisados, <strong>de</strong> maneira geral, <strong>de</strong>screvem <strong>de</strong><br />
modo superficial a situação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> do município, por meio <strong>de</strong> alguns indicadores<br />
epi<strong>de</strong>miológicos e <strong>de</strong> produção <strong>de</strong> serviços, a capacida<strong>de</strong> instalada dos serviços e a<br />
previsão orçamentária. A diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los foi a regra encontrada.<br />
Em relação à <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> metas, ações e programação <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s, verificouse<br />
em todos os planos analisados a ausência <strong>de</strong> análise situacional, que orienta a <strong>de</strong>finição<br />
das priorida<strong>de</strong>s, assim como dos responsáveis pela execução dos objetivos e das ações<br />
programadas. Por serem escritos em linguagem excessivamente técnica, apresentaram<br />
relativa dificulda<strong>de</strong> para a i<strong>de</strong>ntificação das <strong>de</strong>liberações das conferências que estariam<br />
contempladas entre as ações priorizadas. Nenhum plano fez referência ao relatório final<br />
da conferência. Também não se encontrou em nenhum dos planos referências a estratégias<br />
ou medidas com vistas a integrá-lo ao processo <strong>de</strong> planejamento municipal e ao processo<br />
<strong>de</strong> participação social das conferências e conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
209
210<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Sete secretarias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> apresentaram estrutura administrativa <strong>de</strong> planejamento<br />
em seus organogramas. Os técnicos do nível central participaram na elaboração do<br />
planejamento em 68,75% dos municípios, os profissionais das unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em<br />
81,2%, e uma comissão ou membros do CMS em 75%, evi<strong>de</strong>nciando, em alguma medida,<br />
processos e metodologias participativas.<br />
Os relatórios <strong>de</strong> gestão referentes ao período do estudo apresentaram um<br />
mo<strong>de</strong>lo padrão que foi orientado pela SES/MT, ainda em 2001, com um diagnóstico da<br />
situação geral e <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, como no plano municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, as metas alcançadas do<br />
pacto <strong>de</strong> atenção básica e das vigilâncias em saú<strong>de</strong> (exigências da habilitação), a produção<br />
<strong>de</strong> serviços e, sobretudo, o <strong>de</strong>monstrativo contábil da execução financeira e algumas<br />
ativida<strong>de</strong>s administrativas. Relacionavam as ativida<strong>de</strong>s realizadas durante o ano, mas não<br />
apresentavam uma análise que permitiria a comparação direta entre o previsto no plano<br />
e o realizado efetivamente, a correlação entre as metas, os resultados e a aplicação <strong>de</strong><br />
recursos. Tampouco assinalam os problemas e dificulda<strong>de</strong>s da gestão. As exceções foram<br />
os relatórios <strong>de</strong> dois municípios que, apesar <strong>de</strong> utilizar o mo<strong>de</strong>lo proposto, acrescentaram<br />
informações que facilitaram a comparação entre o programado e as ações executadas.<br />
Partindo do pressuposto <strong>de</strong> que o relatório <strong>de</strong> gestão <strong>de</strong>veria ser o instrumento do<br />
processo <strong>de</strong> planejamento <strong>de</strong>stinado a avaliar o cumprimento dos objetivos, das metas e das<br />
ações, bem como da aplicação dos recursos <strong>de</strong> acordo com a Portaria n. 548/01 (BRASIL,<br />
2001b), constatou-se que 14 dos municípios cumpriam o aspecto formal e as exigências<br />
das outras esferas <strong>de</strong> gestão, <strong>de</strong>ixando em segundo plano a avaliação do cumprimento das<br />
priorida<strong>de</strong>s da gestão municipal. Nenhum dos relatórios analisados fez referência direta às<br />
<strong>de</strong>liberações das conferências ou resoluções dos conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Em síntese, po<strong>de</strong>-se<br />
afirmar que os relatórios <strong>de</strong> gestão foram <strong>de</strong> pouca utilida<strong>de</strong> para avaliar a implementação<br />
das ações prioritárias e das <strong>de</strong>liberações aprovadas nas conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>.<br />
Tabela 2 – Capacida<strong>de</strong> institucional <strong>de</strong> planejamento nas 16 Secretarias Municipais <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso, 2005.<br />
Fonte: Banco <strong>de</strong> Dados da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em<br />
Municípios <strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2005.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
6 MATO GROSSO: CONFERÊNCIAS DE SAÚDE E PROCESSOS<br />
DECISÓRIOS NOS 16 MUNICÍPIOS<br />
Como observado por Escorel e Bloch (2005), a partir da 8ª Conferência Nacional<br />
configurou-se um novo processo <strong>de</strong> institucionalização das conferências, que passou a ter<br />
vida própria, autônoma e in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte. Com a criação do SUS e regulamentação da Lei<br />
n. 8.142/90 (BRASIL, 1990), as conferências passaram a compor a agenda dos Conselhos<br />
Estaduais e Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em todo país. A 8ª e 9ª Conferências Nacionais abordaram<br />
temas do <strong>de</strong>bate emergente da reforma sanitária e o processo <strong>de</strong> municipalização e<br />
implantação do SUS. As <strong>de</strong>mais aprofundaram os gran<strong>de</strong>s temas e <strong>de</strong>safios da implantação<br />
e consolidação do SUS. Nesse contexto, as conferências estaduais surgiram no cenário<br />
político com o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratização do país, ocorrido na década <strong>de</strong> 1980, período<br />
que antece<strong>de</strong> a criação do SUS, e em que o <strong>de</strong>bate sobre a saú<strong>de</strong> como direito universal e a<br />
participação popular na <strong>de</strong>finição das políticas públicas adquiriu impulso nacional. Como<br />
observado anteriormente, as conferências nacionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> tiveram início em 1941.<br />
Em Mato Grosso, as conferências estaduais tiveram início com a 8ª Conferência<br />
Nacional e até 2003 vêm ocorrendo <strong>de</strong> quatro em quatro anos, seguindo o calendário e<br />
temários das conferências nacionais. A primeira conferência foi realizada em fevereiro <strong>de</strong><br />
1986, ainda sem etapas municipais e regionais. A partir da 2ª Conferência ocorreram as<br />
etapas municipais e ou regionais, aumentando gradativamente a a<strong>de</strong>são dos municípios.<br />
O quadro 18 i<strong>de</strong>ntifica as principais características das conferências estaduais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Mato Grosso e os atores no contexto nacional e local.<br />
A 3ª Conferência Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> marca um novo período na história do SUS<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso, <strong>de</strong>vido a gran<strong>de</strong> mobilização e <strong>de</strong>bate ocorrido em todo estado, atingindo<br />
90 municípios dos nove polos regionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, envolvendo gestores, trabalhadores<br />
e socieda<strong>de</strong> civil. Outro <strong>de</strong>staque foi a inclusão da estratégia da saú<strong>de</strong> da família e do<br />
programa <strong>de</strong> agentes <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> como temas estratégicos pela gestão estadual na reversão<br />
do mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> atenção e a inclusão <strong>de</strong> <strong>de</strong>zessete temas específicos, abordando a realida<strong>de</strong><br />
loco-regional, incluindo a questão do sangue e hemo<strong>de</strong>rivados, medicamentos e a<br />
regionalização da atenção, e outros gran<strong>de</strong>s problemas do período.<br />
A 4ª Conferência introduziu a inovação <strong>de</strong> prestação <strong>de</strong> contas pela gestão estadual<br />
em relação às propostas aprovadas na 3ª Conferência aos <strong>de</strong>legados e participantes. A 5ª<br />
Conferência mobilizou 480 participantes e <strong>de</strong>legados dos municípios <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
211
Quadro 18 – Características das Conferências Nacional e Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> no período <strong>de</strong> 1996 a 2003. Mato Grosso, 2007.<br />
212<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Fonte: NDS/ISC/UFMT (2007). Quadro adaptado <strong>de</strong> Escorel e Bloch (2005).
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Plenária Final da III Conferência Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso, 1996.<br />
Fonte: Anais da III Conferência Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso.<br />
213
214<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
O estudo das conferências apresentado a seguir refere-se à etapa municipal da<br />
5ª Conferência Estadual e 12ª Nacional, e aponta algumas características do processo <strong>de</strong><br />
organização e preparação das conferências municipais: o processo <strong>de</strong>cisório; a influência<br />
das conferências nacionais no nível local; o mapa das <strong>de</strong>mandas e <strong>de</strong>liberações das<br />
conferências municipais, com <strong>de</strong>staque para a relação das resoluções das conferências e<br />
sua inserção no planejamento e gestão do SUS. As sugestões e recomendações encerram<br />
a reflexão sobre o processo conferencista, como uma contribuição ao setor saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato<br />
Grosso e à socieda<strong>de</strong> em relação ao tema da gestão participativa.<br />
6.1 O Processo Decisório das Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
As conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, etapa municipal da 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>, foram realizadas em 2003 em 15 municípios analisados, à exceção <strong>de</strong> um, que<br />
a realizou em 2004, seguindo calendário próprio, bianual. Nos <strong>de</strong>mais, as conferências<br />
vinham ocorrendo, via <strong>de</strong> regra, a cada quatro anos, conforme calendário da nacional,<br />
mas 12 <strong>de</strong>les organizaram três ou menos Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> (gráfico<br />
1). Nota-se que, apesar <strong>de</strong> a lei orgânica municipal normalizar o prazo da realização<br />
das conferências a cada dois anos, em alguns municípios este prazo não foi cumprido.<br />
Assim, a influência da conferência nacional tem sido <strong>de</strong>terminante para <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ar as<br />
conferências municipais.<br />
A maioria dos municípios organizou a conferência em dois dias, totalizando 2.486<br />
participantes e 807 <strong>de</strong>liberações aprovadas. O processo <strong>de</strong> organização da conferência<br />
pela gestão, com apoio dos conselhos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, envolveu recursos <strong>de</strong> logística, pessoal,<br />
articulação e divulgação, gráfico 1.<br />
Gráfico 1 – Conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> realizadas em 16 municípios <strong>de</strong> Mato Grosso, 1990-<br />
2004.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Na tabela 3, <strong>de</strong>stacam-se algumas características da organização e do<br />
processo <strong>de</strong>cisório que ocorreram antes, durante e após a realização das conferências.<br />
A formalização da conferência por meio <strong>de</strong> ato legal <strong>de</strong> convocação e <strong>de</strong> instituição da<br />
comissão organizadora ocorreu em todos os municípios, e a aprovação do regimento da<br />
conferência no conselho <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em apenas <strong>de</strong>z. A divulgação foi prática em todos os<br />
municípios, <strong>de</strong> forma mais ampla, por meio <strong>de</strong> rádio e carro <strong>de</strong> som em 14, e mais restrita,<br />
por meio <strong>de</strong> cartaz e fol<strong>de</strong>rs em dois.<br />
Tabela 3 – Caracterização do Processo Decisório em 16 Conferências Municipais <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>, Mato Grosso, 2003-2004.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.<br />
No entanto, a realização <strong>de</strong> pré-conferência ou fóruns <strong>de</strong> segmentos dos usuários<br />
e trabalhadores para preparação dos temas e eleição prévia <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados às conferências<br />
só ocorreu em dois municípios, e é fato preocupante. As regras e os processos <strong>de</strong><br />
preparação da conferência, o critério <strong>de</strong> escolha, indicação ou eleição <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados não<br />
foram registrados nos relatórios das conferências municipais em nenhum dos municípios<br />
analisados.<br />
A representativida<strong>de</strong> dos <strong>de</strong>legados nas conferências, com base no critério <strong>de</strong><br />
parida<strong>de</strong> entre o segmento <strong>de</strong> usuários (50%) e os <strong>de</strong>mais segmentos, trabalhadores (25%)<br />
e governo e prestadores (25%) – conforme Resolução n. 333 do CNS, que <strong>de</strong>termina a<br />
215
216<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
organização dos Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> –, ocorreu em apenas cinco conferências e, como<br />
apresenta o gráfico 2, a proporção <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados eleitos representou apenas 16,56%,<br />
predominando a forma <strong>de</strong> representação <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados por indicação (47,69%), seguida <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>legados natos (29,50%).<br />
Gráfico 2 – Modalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> escolha dos <strong>de</strong>legados às 16 Conferências Municipais <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>, Mato Grosso, 2003-2004.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.<br />
A gestão municipal e os conselhos empenharam-se em cumprir as obrigações<br />
legais e normativas, como evi<strong>de</strong>ncia a tabela 3. Por outro lado, o processo <strong>de</strong> escolha<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>legados e a representativida<strong>de</strong> aparecem como o maior problema das conferências<br />
analisadas, tanto pelo <strong>de</strong>scumprimento da norma da parida<strong>de</strong>, como pela predominância<br />
<strong>de</strong> formas <strong>de</strong> representação <strong>de</strong> <strong>de</strong>legados por indicação, comprometendo o processo<br />
<strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong>fendido no mo<strong>de</strong>lo institucional <strong>de</strong> gestão do SUS e a legitimida<strong>de</strong> do<br />
processo <strong>de</strong>cisório das conferências. Por fim, outro dado que merece ser <strong>de</strong>stacado é a<br />
quase inexistência <strong>de</strong> registro do processo <strong>de</strong> organização prévia e do próprio transcurso<br />
das conferências municipais.<br />
6.2 Influência da agenda nacional nas conferências locais<br />
A agenda local das conferências foi fortemente influenciada pela agenda<br />
nacional, sendo que 15 municípios utilizaram o tema central da 12ª Conferência Nacional<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>: “O SUS que temos e o SUS que queremos” (BRASIL, 2004). No entanto, na<br />
composição dos relatórios finais, as disposições das <strong>de</strong>liberações das conferências não
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
seguiram obrigatoriamente os <strong>de</strong>z eixos temáticos da nacional. Em apenas dois municípios<br />
(tabela 3) houve <strong>de</strong>liberação com base nos eixos, e ainda assim, <strong>de</strong> modo parcial.<br />
A cooperação técnica para a realização das conferências ocorreu em todos os<br />
municípios, sendo a mais frequente proveniente da SES/MT e do Conselho Estadual <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> (46,1%), seguida do Conselho Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e dos órgãos <strong>de</strong> representação <strong>de</strong><br />
secretários municipais, estadual (COSEMS) e nacional (CONASEMS) (15,3%).<br />
Outro aspecto que <strong>de</strong>monstrou a influência do processo <strong>de</strong> organização da<br />
Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> foi o <strong>de</strong>stino dado aos relatórios das conferências<br />
municipais, todos eles enviados como subsídios à etapa estadual. Em contrapartida,<br />
quando foram analisados os processos <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão do órgão gestor da saú<strong>de</strong> em relação à<br />
formalização dos resultados das conferências (tabela 3), observou-se que o ato legal <strong>de</strong><br />
aprovação do relatório ocorreu em apenas seis municípios, sendo cinco <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong><br />
dos conselhos e um da secretaria. A divulgação local dos relatórios por meio impresso<br />
também foi incipiente e ocorreu em seis municípios (37,6%), indicando circulação e<br />
divulgação limitadas das <strong>de</strong>liberações das conferências, para <strong>de</strong>ntro e para fora da gestão<br />
municipal, e, consequentemente, baixo grau <strong>de</strong> institucionalização dos resultados no<br />
processo <strong>de</strong> gestão e formulação da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Indicou, ainda, o acesso restrito<br />
da população em geral às informações, além da dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> monitoramento <strong>de</strong> seus<br />
encaminhamentos por parte dos órgãos <strong>de</strong> controle social, incluindo o próprio conselho, o<br />
Legislativo e o Ministério Público.<br />
Reafirma-se a importância da agenda nacional na tematização das conferências<br />
municipais e da cooperação das instâncias estaduais e nacionais <strong>de</strong> gestão e do controle<br />
social na indução das mesmas, na orientação dos conteúdos e dos processos <strong>de</strong> organização,<br />
mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> regimento, atos legais, entre outros. Entretanto, percebe-se um <strong>de</strong>sequilíbrio<br />
na relação, como se as Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> fossem apenas mais uma etapa<br />
da nacional, valorizando-se pouco a agenda política e os interesses dos atores locais.<br />
Essa falta <strong>de</strong> sintonia fica patente também na <strong>de</strong>finição do calendário: as conferências<br />
municipais ocorreram em 2003, enquanto os planos plurianuais municipais (PPA) foram<br />
elaborados em 2002.<br />
6.3 Mapa das <strong>de</strong>mandas<br />
Dentre as <strong>de</strong>mandas <strong>de</strong>liberadas nas Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> dos 16<br />
municípios, 809 foram transformadas em <strong>de</strong>liberações. Nas Conferências as <strong>de</strong>mandas<br />
apareceram, majoritariamente, como reivindicações não estruturadas e pontuais, e<br />
os relatórios finais das Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> refletiram esse quadro:<br />
as <strong>de</strong>liberações aprovadas são em sua maioria expressão <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s, refletindo<br />
problemas percebidos pelos sujeitos e respon<strong>de</strong>ndo aos interesses <strong>de</strong> numerosos atores.<br />
Mais que diretrizes, quase todas as <strong>de</strong>liberações das Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
foram reivindicações.<br />
217
218<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Demandas <strong>de</strong>liberadas nas conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
A classificação das <strong>de</strong>liberações das conferências municipais foi realizada com<br />
base nos <strong>de</strong>z eixos temáticos da 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e por subeixo: para o<br />
Eixo 5, <strong>de</strong>mandas relativas à atenção básica e às <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>, e para o<br />
Eixo 7, <strong>de</strong>mandas relativas às reivindicações trabalhistas e às da educação na saú<strong>de</strong>.<br />
Em relação às 807 <strong>de</strong>liberações das conferências analisadas, os resultados<br />
indicam, conforme a tabela 4, maior concentração das <strong>de</strong>mandas do Eixo 5, relativas à<br />
organização da atenção à saú<strong>de</strong> (40%), seguida das <strong>de</strong>mandas do eixo 7 (17%) referentes<br />
à gestão do trabalho na saú<strong>de</strong>, do Eixo 3 (13%), intersetorialida<strong>de</strong> das ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, e do<br />
Eixo 4 (11%), as três esferas <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r e a construção do SUS.<br />
As <strong>de</strong>mandas relacionadas ao Eixo 6 (controle social e gestão participativa) e ao<br />
Eixo 10 (comunicação e informação em saú<strong>de</strong>) somaram 14% do total das <strong>de</strong>liberações.<br />
Os eixos temáticos que apresentaram menor número <strong>de</strong> <strong>de</strong>mandas foram aqueles relativos<br />
ao direito à saú<strong>de</strong>, à ciência e tecnologia e segurida<strong>de</strong> social, caracterizando um perfil <strong>de</strong><br />
reivindicações muito mais próximo do cotidiano das pessoas e pouco orientado para a<br />
formulação <strong>de</strong> princípios e diretrizes.<br />
Tabela 4 – Classificação por eixo temático das <strong>de</strong>liberações das 16 Conferências<br />
Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, Mato Grosso, 2003-2004.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.<br />
Quando analisados os subeixos da organização da atenção à saú<strong>de</strong> (tabela 5), as<br />
<strong>de</strong>liberações <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> representaram 36% do total e a atenção básica
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
29%. As outras <strong>de</strong>liberações <strong>de</strong>ste eixo (34%) incluem ações <strong>de</strong> assistência farmacêutica,<br />
vigilâncias, saú<strong>de</strong> do trabalhador, relação público-privado, entre outras.<br />
Nos subeixos do trabalho na saú<strong>de</strong> (tabela 5) as <strong>de</strong>liberações relativas às<br />
reivindicações trabalhistas representaram 50% do total <strong>de</strong>ste eixo e as relativas à educação<br />
na saú<strong>de</strong>, 50%. Esta contempla <strong>de</strong>liberações <strong>de</strong> capacitação e qualificação do profissional<br />
da saú<strong>de</strong>, entre outras. As reivindicações trabalhistas incluem PCCS, condições <strong>de</strong><br />
trabalho, estabilida<strong>de</strong>, previdência social, entre outras.<br />
Estes resultados sinalizam a importância dada pelos representantes dos usuários<br />
e trabalhadores da saú<strong>de</strong> na organização da atenção à saú<strong>de</strong> no SUS, incluindo atenção<br />
básica e média e alta complexida<strong>de</strong>, confirmando a insuficiência <strong>de</strong>stes recursos<br />
tecnológicos no SUS, principalmente <strong>de</strong> média complexida<strong>de</strong>, e a importância da<br />
estratégia da regionalização da saú<strong>de</strong> para superação das <strong>de</strong>ficiências nas diversas regiões.<br />
A política <strong>de</strong> qualificação e valorização dos profissionais e trabalhadores <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> também<br />
é incentivada nas conferências municipais.<br />
Destaca-se ainda a existência <strong>de</strong> algum tipo <strong>de</strong> <strong>de</strong>liberação focada na<br />
intersetorialida<strong>de</strong> na maioria dos municípios, com <strong>de</strong>staque para os municípios F e G e<br />
N, <strong>de</strong>stacando a importância <strong>de</strong>stas políticas na garantia do direito à saú<strong>de</strong>. Observa-se<br />
também a significação do eixo relacionado às três esferas <strong>de</strong> governo e à construção do<br />
SUS (Eixo 4), que também teve <strong>de</strong>liberações na maioria dos municípios, principalmente<br />
B, F, G, A, P e N, todos municípios-se<strong>de</strong> <strong>de</strong> polos regionais, indicando a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
maior presença das esferas estadual e fe<strong>de</strong>ral na gestão <strong>de</strong>stes municípios e regiões <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong>.<br />
Tabela 5 – Classificação por subeixo temático das ações do Plano <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e do Relatório<br />
<strong>de</strong> Gestão relacionadas às <strong>de</strong>liberações das 16 Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, Mato<br />
Grosso, 2003-2005.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.<br />
219
220<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Comparação das ações constantes nos planos municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com as<br />
<strong>de</strong>liberações das conferências<br />
A classificação das ações constantes dos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em relação às<br />
<strong>de</strong>liberações aprovadas nas conferências (tabela 6) foi realizada por meio <strong>de</strong> análise<br />
comparativa entre elas, o que revelou a existência <strong>de</strong> 197 ações idênticas ou equivalentes<br />
às aprovadas nas conferências. O eixo da atenção à saú<strong>de</strong> apresentou o maior número<br />
<strong>de</strong> ações, enfatizando sua predominância na agenda <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s da gestão municipal<br />
(47%). Em segundo lugar <strong>de</strong>stacam-se as ações do eixo do trabalho na saú<strong>de</strong> (18%), na<br />
terceira posição o eixo da comunicação em saú<strong>de</strong> (13%) e na quarta, o eixo referente à<br />
intersetorialida<strong>de</strong> das ações <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, com 11% do total <strong>de</strong> ações constantes nos planos.<br />
Quando analisados os subeixos da organização da atenção à saú<strong>de</strong> (tabela 5), as<br />
ações <strong>de</strong> atenção básica representaram 44% e as <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong> 27% do total<br />
das ações. Este resultado aponta uma inversão em relação ao resultado das conferências<br />
que apresentaram maior número <strong>de</strong> <strong>de</strong>liberações <strong>de</strong> média e alta complexida<strong>de</strong>.<br />
Nos subeixos do trabalho na saú<strong>de</strong> (tabela 5) as ações relativas à educação na<br />
saú<strong>de</strong> representaram 32% e as reivindicações trabalhistas apenas 4% do total do eixo,<br />
resultados que assinalam a importância dada pela gestão municipal às ações <strong>de</strong> capacitação<br />
dos trabalhadores e profissionais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. A pouca inclusão <strong>de</strong> ações referentes às<br />
reivindicações trabalhistas nos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> po<strong>de</strong> estar relacionada à autonomia restrita<br />
das secretarias municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> neste setor da gestão.<br />
Tabela 6 – Classificação das ações dos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, presentes nas <strong>de</strong>liberações das 16<br />
Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, Mato Grosso, 2004-2005.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Comparação das ações constantes nos relatórios <strong>de</strong> gestão com as<br />
<strong>de</strong>liberações das conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong><br />
A classificação das ações constantes nos relatórios <strong>de</strong> gestão relativas às<br />
<strong>de</strong>liberações das conferências (tabela 7) foi realizada com o auxílio da análise comparativa<br />
entre elas e revelou a existência <strong>de</strong> 52 ações idênticas ou equivalentes às <strong>de</strong>liberações das<br />
conferências. A disposição das ações implementadas constantes nos relatórios <strong>de</strong> gestão<br />
indica a tendência apresentada em relação às <strong>de</strong>liberações e às ações dos planos, ou seja,<br />
predominância das ações <strong>de</strong> organização da atenção à saú<strong>de</strong> (63%), e do trabalho na saú<strong>de</strong><br />
(13%).<br />
Tabela 7 – Classificação das ações realizadas, constantes nos relatórios <strong>de</strong> gestão e<br />
relacionadas às <strong>de</strong>liberações das 16 Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, Mato Grosso,<br />
2004-2005.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.<br />
Finalmente, na tabela 8, verifica-se a comparação do percentual das ações<br />
contidas nos planos com equivalência às <strong>de</strong>liberações das conferências (24,4%) e ao<br />
relatório <strong>de</strong> gestão (6,45%).<br />
A opção metodológica <strong>de</strong> utilizar o relatório <strong>de</strong> gestão como referencial para esta<br />
análise <strong>de</strong>parou-se com os limites e insuficiências dos mesmos, já referidos, <strong>de</strong> modo que<br />
os resultados encontrados <strong>de</strong>vem ser tomados com o <strong>de</strong>vido cuidado e consi<strong>de</strong>rados como<br />
indicações ou tendências.<br />
Tabela 8 – Percentual das ações do Plano <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e do Relatório <strong>de</strong> Gestão, relacionados<br />
às <strong>de</strong>liberações das 16 Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, Mato Grosso, 2003-2005.<br />
Fonte: Relatório da Pesquisa “Incorporação das Demandas Populares às <strong>Políticas</strong> <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> em Municípios<br />
<strong>de</strong> Mato Grosso”. Mato Grosso, 2007.<br />
221
222<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
7 CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÃO<br />
Os resultados confirmaram a importância das conferências na luta pela<br />
<strong>de</strong>mocratização do SUS, como espaço <strong>de</strong> participação social e representação política dos<br />
diversos segmentos nelas representados, mobilizando centenas <strong>de</strong> pessoas, mesmo em<br />
pequenos municípios do interior, como se observou nos municípios estudados. Apesar<br />
disso, há pouca literatura e raros trabalhos empíricos sobre o tema, constituindo um campo<br />
a ser investigado que envolve diferentes conhecimentos e saberes, práticas sociais <strong>de</strong><br />
participação e <strong>de</strong> gestão, a relação governo e socieda<strong>de</strong> e as possibilida<strong>de</strong>s da governança<br />
<strong>de</strong>mocrática.<br />
Nas conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> as <strong>de</strong>mandas apareceram, majoritariamente,<br />
como reivindicações não estruturadas, não sistematizadas, muitas vezes pontuais e<br />
localizadas, reflexos dos problemas percebidos pelos sujeitos e respostas aos interesses dos<br />
numerosos atores. A análise dos relatórios finais das 16 Conferências Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>monstrou que a maior parte das <strong>de</strong>liberações das conferências foram reivindicações e não<br />
diretrizes. Os relatórios finais são pré-agendas, que incorporaram um temário composto<br />
<strong>de</strong> reivindicações muito mais próximas do cotidiano das pessoas e pouco orientado para<br />
a formulação <strong>de</strong> princípios e diretrizes da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> municipal, entretanto, sem<br />
<strong>de</strong>sconsi<strong>de</strong>rá-los. A análise <strong>de</strong> conteúdo das <strong>de</strong>liberações mostrou uma frequência muito<br />
maior daquelas que tratam da atenção à saú<strong>de</strong> e, em menor proporção, daquelas referentes<br />
à gestão do trabalho e às políticas intersetoriais, temas relevantes <strong>de</strong> interesse local.<br />
O processo <strong>de</strong>cisório nas conferências estudadas mostrou-se a<strong>de</strong>quado às normas<br />
legais, mas também evi<strong>de</strong>nciou limitações em relação aos aspectos da representativida<strong>de</strong><br />
e da escolha <strong>de</strong>mocrática dos <strong>de</strong>legados enquanto representantes <strong>de</strong> segmentos e grupos<br />
sociais.<br />
Observou-se um baixo grau <strong>de</strong> institucionalização dos resultados das conferências:<br />
a formalização, a publicida<strong>de</strong> e a divulgação dos relatórios não são práticas rotineiras nos<br />
municípios estudados, o que contribui para as dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> recepção das <strong>de</strong>liberações<br />
por parte da gestão municipal, fragiliza o controle social e impe<strong>de</strong> o acesso da população<br />
às informações <strong>de</strong> seu interesse. Por outro lado, os relatórios das conferências <strong>de</strong> todos os<br />
municípios foram encaminhados ao Conselho Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> como subsídio à etapa<br />
estadual.<br />
Os municípios, em sua maioria, seguiram o calendário da conferência nacional e<br />
foram muito influenciados pelas instâncias estadual e nacional do controle social quanto<br />
ao tema, às normas, aos processos <strong>de</strong> organização e mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> regimento, e relegaram<br />
a agenda política e os interesses dos atores locais, como, por exemplo, na <strong>de</strong>finição do<br />
calendário: as conferências municipais ocorreram em 2003 enquanto os planos plurianuais<br />
municipais entraram em vigência em 2002. Apenas um, <strong>de</strong>ntre os municípios pesquisados,<br />
tinha calendário próprio e realizava suas conferências com autonomia.<br />
A totalida<strong>de</strong> dos municípios analisados possuía planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e relatórios <strong>de</strong>
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
gestão. Os planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> eram utilizados como instrumentos <strong>de</strong> análise da situação da<br />
saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong> <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> governo, portanto, uma agenda governamental. Dos<br />
relatórios <strong>de</strong> gestão analisados, em apenas dois municípios observou-se uma relação do<br />
seu conteúdo com as priorida<strong>de</strong>s elencadas nos respectivos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Os relatórios<br />
<strong>de</strong> gestão foram <strong>de</strong> pouca utilida<strong>de</strong> para <strong>de</strong>terminar o cumprimento das priorida<strong>de</strong>s da<br />
gestão municipal da saú<strong>de</strong> e, por extensão, para o objeto da pesquisa.<br />
Nas secretarias municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> existe capacida<strong>de</strong> institucional <strong>de</strong> gestão<br />
e planejamento, mas elas ainda estão muito limitadas ao cumprimento das exigências<br />
formais do SUS. A autonomia <strong>de</strong> gestão na maioria das secretarias <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> é restrita no<br />
que se refere à gestão financeira e <strong>de</strong> pessoas, o que, seguramente, afeta seu <strong>de</strong>sempenho.<br />
No planejamento das secretarias, não há compatibilização entre o processamento das<br />
<strong>de</strong>liberações das conferências e os momentos <strong>de</strong> elaboração dos planos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, tempos<br />
e linguagens diferentes, o que po<strong>de</strong> contribuir também para a pequena proporção em que<br />
as <strong>de</strong>liberações são incorporadas ou incluídas como priorida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> governo.<br />
A baixa frequência <strong>de</strong> incorporação das <strong>de</strong>liberações das conferências municipais<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> às agendas <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s dos governos municipais estudados está relacionada a<br />
um conjunto complexo <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminações, como a ação dos conselhos e do legislativo, que<br />
precisam ser <strong>de</strong>svendadas para que, com base nesse conhecimento, as práticas sociais <strong>de</strong><br />
participação possam ser melhores articuladas às práticas da gestão.<br />
Os resultados do estudo <strong>de</strong> caso <strong>de</strong> cada município foram apresentados durante a<br />
realização das respectivas conferências municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, no período <strong>de</strong> julho a agosto<br />
<strong>de</strong> 2007, com sugestões e recomendações, entre as quais:<br />
1. Realizar pré-conferência ou fóruns por segmentos, para escolha dos seus<br />
representantes (<strong>de</strong>legados);<br />
2. Estimular o conselho <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> a <strong>de</strong>liberar sobre as políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> com<br />
base no relatório da conferência para elaboração dos planos municipais,<br />
em cumprimento do art. 37 da Lei n. 8.080/90;<br />
3. Sugerir ao gestor municipal da saú<strong>de</strong> a apresentação, no início da<br />
conferência <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, da análise da situação <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> do município e do<br />
relatório contendo o grau <strong>de</strong> cumprimento das <strong>de</strong>liberações da conferência<br />
anterior;<br />
4. Integrar mecanismos <strong>de</strong> gestão participativa ao processo <strong>de</strong> planejamento,<br />
fortalecendo a participação dos técnicos, trabalhadores <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e<br />
usuários, propondo a criação <strong>de</strong> comissão municipal, eleita na conferência,<br />
com as atribuições: levar o <strong>de</strong>bate com os resultados da conferência ao<br />
conselho, ao legislativo e ao executivo; fazer o monitoramento dos seus<br />
encaminhamentos; participar com outros órgãos <strong>de</strong> governo no <strong>de</strong>bate das<br />
ações intersetoriais;<br />
5. Sugerir ao prefeito municipal encaminhar ao legislativo o relatório final<br />
da conferência para ser apresentado à socieda<strong>de</strong> e <strong>de</strong>batido em audiência<br />
223
224<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
pública;<br />
6. Dar publicida<strong>de</strong> ao relatório da conferência, publicando em órgãos <strong>de</strong><br />
comunicação oficial e outros meios <strong>de</strong> divulgação local;<br />
7. Fazer a conferência coincidir com os momentos <strong>de</strong> elaboração do Plano <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> e o Plurianual (PPA), garantindo a incorporação das <strong>de</strong>liberações<br />
às políticas <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Exemplo: 2009, quando da elaboração do PPA –<br />
primeiro ano da nova gestão;<br />
8. Sugerir a criação <strong>de</strong> calendário bianual para as conferências municipais<br />
<strong>de</strong> saú<strong>de</strong> para que, a cada quatro anos, os temários priorizados sejam, <strong>de</strong><br />
modo alternativo, nacional e local.<br />
E como parte da <strong>de</strong>volutiva da pesquisa e dos seus resultados aos atores do SUS,<br />
foi produzido um ví<strong>de</strong>o “Saú<strong>de</strong> e Protagonismo Popular” organizado pelos pesquisadores<br />
e editado pelo Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso, com<br />
apoio do Ministério da Saú<strong>de</strong>.<br />
REFERÊNCIAS<br />
ACIOLI, Sonia. Participação Social na Saú<strong>de</strong>: revisitando sentidos, reafirmando<br />
propostas. In: PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben Araújo <strong>de</strong> (Orgs.). Construção<br />
Social da Demanda: direito à saú<strong>de</strong>, trabalho em equipe, participação e espaços públicos.<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro: ABRASCO, 2005. p. 293-303.<br />
ALTA FLORESTA. Lei n. 381, <strong>de</strong> 30 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1991. Institui o Fundo Municipal<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e dá outras providências. Alta Floresta: Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Alta Floresta,<br />
1991.<br />
ALTA FLORESTA. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Alta<br />
Floresta: SMS, 2004.<br />
BARRA DO GARÇAS. Prefeitura Municipal. Lei n.1406, <strong>de</strong> 18 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1991.<br />
Dispõe sobre a criação do Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Barra do Garças: Prefeitura<br />
Municipal <strong>de</strong> Barra do Garças, 1991.<br />
BARRA DO GARÇAS. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Barra<br />
do Garças: SMS, 2005.<br />
BARROS, Elizabeth. O Controle Social e o Processo <strong>de</strong> Descentralização dos Serviços <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong>. In: BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Incentivo à Participação Popular e Controle<br />
Social no SUS: textos técnicos para conselheiros <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Brasília: IEC/MS, 1994. p.<br />
29-37.<br />
BORDIN, Ronaldo. Definição <strong>de</strong> Priorida<strong>de</strong>s em Saú<strong>de</strong>: Os conselhos Municipais <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> e os critérios para hierarquização <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s. Programa <strong>de</strong> Desenvolvimento da
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Gestão em Saú<strong>de</strong> – PDG. Porto Alegre: Dacasa, 2002.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Relatório Final da 8ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Brasília, 17 a 21 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 1986. Brasília: Ministério da Saú<strong>de</strong>, 1986. (Relatório Final).<br />
BRASIL. Constituição, 1988. Constituição Fe<strong>de</strong>ral. Brasília: Senado Fe<strong>de</strong>ral, 1988.<br />
BRASIL. Lei n. 8142, <strong>de</strong> 28 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1990. Dispõe sobre a participação<br />
da comunida<strong>de</strong> na gestão do Sistema Único <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e sobre as transferências<br />
intergovernamentais <strong>de</strong> recursos financeiros na área da saú<strong>de</strong>. Brasília: Senado Fe<strong>de</strong>ral,<br />
1990.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. IX Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório Final.<br />
Brasília, 14 <strong>de</strong> agosto <strong>de</strong> 1992. Brasília: Ministério da Saú<strong>de</strong>, 1993.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. 10ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório Final.<br />
Brasília, 2 a 6 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1996. Brasília: Ministério da Saú<strong>de</strong>, 1998.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Gestão Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>: leis, normas e portarias<br />
atuais. Rio <strong>de</strong> Janeiro: 2001a.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Portaria n. 548, <strong>de</strong> 12 <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2001. Aprova o<br />
documento <strong>de</strong> orientações gerais para a elaboração e aplicação da Agenda <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, do<br />
Plano <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, dos Quadros <strong>de</strong> Metas, e do Relatório <strong>de</strong> Gestão como Instrumentos <strong>de</strong><br />
Gestão do SUS. Brasília: Diário Oficial da União, 2001b.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. 11ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório Final.<br />
Brasília, 15 a 19 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2000. Brasília: Ministério da Saú<strong>de</strong>, 2001c.<br />
BRASIL. Conselho Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Resolução n. 333, <strong>de</strong> 04 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2003.<br />
Aprovar as diretrizes para a criação reformulação, estruturação e funcionamento dos<br />
Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Brasília: Diário Oficial da União, 2003.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. 12ª Conferência Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório Final.<br />
Brasília, 7 a 11 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2003. Brasília: Ministério da Saú<strong>de</strong>, 2004.<br />
BRASIL, Ministério da Saú<strong>de</strong>. Política Nacional <strong>de</strong> Gestão Participativa para o SUS.<br />
Brasília: Ministério da Saú<strong>de</strong>, 2005.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Cadastro Nacional <strong>de</strong> Estabelecimento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Disponível em: . Brasília: CNES, 2006a. Acesso em: 23 jun.<br />
2008.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Sistema <strong>de</strong> Informação sobre Orçamentos Públicos em<br />
Saú<strong>de</strong>. Brasília: SIOPS, 2006b. Disponível em: . Acesso em:<br />
23 jun. 2008.<br />
225
226<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Sistema <strong>de</strong> Informação da Atenção Básica. Disponível<br />
em: . Brasília: SIAB, 2006c. Acesso em: 30 jun. 2008.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Portaria n. 399, <strong>de</strong> 12 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2006. Divulga o<br />
Pacto pela Saú<strong>de</strong> 2006 – Consolidação do SUS e Aprova as diretrizes operacionais do<br />
referido pacto. Brasília: Diário Oficial da União, 2006d.<br />
BRASIL. Ministério da Saú<strong>de</strong>. Cadastro Nacional <strong>de</strong> Estabelecimento <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Disponível em: . Brasília: CNES, 2008. Acesso em:<br />
10/11/2009.<br />
CÁCERES. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Cáceres: SMS,<br />
2004.<br />
CAMPO VERDE. Prefeitura Municipal. Lei n. 130, <strong>de</strong> 12 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 1992. Institui o<br />
Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e dá outras providências. Campo Ver<strong>de</strong>: Prefeitura Municipal<br />
<strong>de</strong> Campo Ver<strong>de</strong>, 1992.<br />
CAMPO VERDE. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Campo<br />
Ver<strong>de</strong>: SMS, 2004.<br />
CARVALHO, Antônio Ivo <strong>de</strong>. Os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> no Brasil: participação cidadã e<br />
controle social. Rio <strong>de</strong> Janeiro: FASE/IBAN, 1995.<br />
COMODORO. Prefeitura Municipal. Lei n. 392, <strong>de</strong> 25 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong>1997. Institui o<br />
Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e dá outras providências. Comodoro: Prefeitura Municipal <strong>de</strong><br />
Comodoro, 1997.<br />
COMODORO. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Comodoro:<br />
SMS, 2004.<br />
CÔRTES, Soraya Vargas. Céticos e Esperançosos: perspectivas da literatura sobre<br />
participação e governança na área da saú<strong>de</strong>. In: PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben<br />
Araújo <strong>de</strong> (Orgs.). Gestão em Re<strong>de</strong>s: práticas <strong>de</strong> avaliação, formação e participação na<br />
saú<strong>de</strong>. Rio <strong>de</strong> Janeiro: CEPESC, 2006. p. 401-25.<br />
COSTA, Ana Maria; BARROS, Elizabeth. A Saú<strong>de</strong> da Mulher e o Controle Social.<br />
Brasília: Abrasco, 2000.<br />
CUIABÁ. Prefeitura Municipal. Lei n. 2820, <strong>de</strong> 19 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1990. Criação do<br />
Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Cuiabá: SMS, 1990.<br />
CUIABÁ. Prefeitura Municipal. Lei Complementar n. 094, <strong>de</strong> 03 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 2003.<br />
Dispõe sobre a consolidação das leis municipais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e dá outras providências.<br />
Cuiabá: SMS, 2003.<br />
CUIABÁ. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão<br />
2004. Cuiabá: SMS, 2005.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
DALLARI, Sueli Gandolfi. Incentivo à Participação Popular e Controle Social no<br />
SUS: textos técnicos para conselheiros <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, Brasília: IEC/MS, 1994.<br />
DIAMANTINO. Prefeitura Municipal. Lei Municipal n. 093, <strong>de</strong> 04 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong><br />
1993. Cria Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Diamantino: Prefeitura Municipal, 1993.<br />
DIAMANTINO. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Diamantino:<br />
SMS, 2004.<br />
ESCOREL, Sarah; BLOCH, Renata Arruda <strong>de</strong>. As Conferências Nacionais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong><br />
na construção do SUS. In: LIMA, Nísia Trinda<strong>de</strong> et al. (Orgs.). Saú<strong>de</strong> e Democracia:<br />
histórias e perspectivas do SUS. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 83-11<br />
FLEURY, Sonia. <strong>Políticas</strong> sociais e po<strong>de</strong>r local. Administração Municipal, Rio <strong>de</strong><br />
Janeiro, IBAM, n. 246, ano 49, p. 39-48, mar.-abr. 2004.<br />
GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais na atualida<strong>de</strong>: manifestações e categorias<br />
analíticas. In: GOHN, Maria da Glória. (Org.). Movimentos sociais no início do século<br />
XXI: antigos e novos atores sociais. Petrópolis: Vozes, 2003.<br />
GOHN, Maria da Glória. O protagonismo da socieda<strong>de</strong> civil: movimentos sociais, ONGs<br />
e re<strong>de</strong>s solidárias. São Paulo: Cortez, 2005. (Coleção Questões da nossa época, v. 123).<br />
GUARANTÃ DO NORTE. Prefeitura Municipal. Lei n. 049, <strong>de</strong> 01 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1991.<br />
Cria o Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Guarantã do Norte: Prefeitura Municipal, 1991.<br />
GUARANTÃ DO NORTE. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004.<br />
Guarantã do Norte: SMS, 2004.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Dados Estatísticos<br />
dos Municípios Brasileiros. Brasília: IBGE, 2000.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Dados Estatísticos<br />
dos Municípios Brasileiros. Brasília: IBGE, 2006.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Dados Estatísticos<br />
dos Municípios Brasileiros. Brasília: IBGE, 2007.<br />
JURUENA. Prefeitura Municipal. Lei n. 158, <strong>de</strong> 03 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1991. Institui o fundo<br />
e dá outras providências. Juruena: Prefeitura Municipal, 1991.<br />
JURUENA. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Juruena: SMS,<br />
2004.<br />
LABRA, Maria Eliana. Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>: dilemas, avanços e <strong>de</strong>safios. In: LIMA, Nísia<br />
Trinda<strong>de</strong> et al. (Org.). Saú<strong>de</strong> e Democracia: histórias e perspectivas do SUS. Rio <strong>de</strong><br />
Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 353-83.<br />
227
228<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
LACERDA, Alda et al. As re<strong>de</strong>s participativas da socieda<strong>de</strong> civil no enfrentamento<br />
dos problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>-doença. In: PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben Araújo <strong>de</strong><br />
(Orgs.). Gestão em Re<strong>de</strong>s: práticas <strong>de</strong> avaliação, formação e participação na saú<strong>de</strong>. Rio<br />
<strong>de</strong> Janeiro: CEPESC, 2006. p. 445-58.<br />
LEVCOVITZ, Eduardo et al. Produção <strong>de</strong> conhecimento em política, planejamento e<br />
gestão em saú<strong>de</strong> (PP&G) e políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Brasil (1974-2000). Brasília: OPAS;<br />
Ministério da Saú<strong>de</strong>, 2003.<br />
LUCAS DO RIO VERDE. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004.<br />
Lucas do Rio Ver<strong>de</strong>: SMS, 2004.<br />
LUZ, Ma<strong>de</strong>l T. Novos saberes e práticas em Saú<strong>de</strong> Coletiva: estudo sobre racionalida<strong>de</strong><br />
médicas e ativida<strong>de</strong>s corporais. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2005.<br />
MATTOS, Ruben Araújo <strong>de</strong>. Direito, Necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e Integralida<strong>de</strong>. In:<br />
PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben Araújo (Orgs.). Construção Social da Demanda:<br />
direito à saú<strong>de</strong>, trabalho e espaços públicos. Rio <strong>de</strong> Janeiro: CEPESC/UERJ; ABRASCO,<br />
2005. p. 33-89.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. II Conferência Estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Mato Grosso. Relatório Final. Cuiabá, 24 a 27 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 1991. Cuiabá: SES, 1991.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Anais da III Conferência Estadual<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso. Relatório Final. Cuiabá, 23 a 27 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 1996. Cuiabá:<br />
SES, 1996.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Anais da IV Conferência Estadual<br />
<strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso. Relatório Final. Cuiabá, 17 a 20 <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 2000. Cuiabá:<br />
SES, 2000.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Anais da V Conferência Estadual <strong>de</strong><br />
Saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mato Grosso. Relatório Final. Cuiabá, 4 a 7 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2003. Cuiabá:<br />
SES, 2003.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> do Estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Plano Diretor <strong>de</strong><br />
Regionalização. Cuiabá: SES, 2005. Disponível em: . Acesso<br />
em: 02 <strong>de</strong>z. 2010.<br />
MATO GROSSO. Secretaria <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Planejamento e Coor<strong>de</strong>nação Geral. Dados dos<br />
municípios. Cuiabá: SEPLAN, 2007. Disponível em: . Acesso<br />
em 20 jun. 2008.<br />
MATO GROSSO. Mato Grosso e seus municípios: Geografia. Cuiabá: 2010. Disponível<br />
em: . Acesso em: 02 <strong>de</strong>z. 2010.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
MERHY, Emerson Elias; CECÍLIO, Luis Carlos <strong>de</strong> Oliveira; NOGUEIRA FILHO,<br />
Roberto Costa. Por um mo<strong>de</strong>lo tecno-assistencial da política <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> em <strong>de</strong>fesa da vida:<br />
contribuição para as conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>. Saú<strong>de</strong> em Debate, Rio <strong>de</strong> Janeiro, v. 33, p.<br />
83-9, <strong>de</strong>z., 1991.<br />
MÜLLER NETO, Júlio Strubing et al. Conferências <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e formulação <strong>de</strong> políticas<br />
em 16 municípios <strong>de</strong> Mato Grosso, 2003-2005. Saú<strong>de</strong> em Debate, Rio <strong>de</strong> Janeiro, v. 30,<br />
n. 73/74, p. 248-274, mai./<strong>de</strong>z., 2006.<br />
MÜLLER NETO, Júlio Strubing. A relação entre <strong>de</strong>mocracia, <strong>de</strong>scentralização e<br />
políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> no Brasil: atualização do <strong>de</strong>bate e estudo <strong>de</strong> caso em uma perspectiva<br />
comunicativa. 2010. 321 f. Tese (Doutorado em Ciências na Área <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública),<br />
Escola Nacional <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Pública Sérgio Arouca, Rio <strong>de</strong> Janeiro, 2010.<br />
NOVA MARILÂNDIA. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2004. Nova<br />
Marilândia: SMS, 2004.<br />
NOVO HORIZONTE DO NORTE. Lei n. 221 <strong>de</strong> 1994. Dispõe sobre a criação do Fundo<br />
Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Novo Horizonte do Norte: Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Novo Horizonte<br />
do Norte, 1994.<br />
NOVO HORIZONTE DO NORTE. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão<br />
2004 e 2005. Novo Horizonte do Norte: SMS, 2005.<br />
PINHEIRO, Roseni; DAL POZ, Mario Roberto. A Participação dos Usuários nos<br />
Conselhos Municipais <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e seus Determinantes. Ciência & Saú<strong>de</strong> Coletiva, Rio<br />
<strong>de</strong> Janeiro, v. III, n. 1, p. 28-35, 1998.<br />
PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben Araújo <strong>de</strong>. Implicações da integralida<strong>de</strong> na<br />
gestão da saú<strong>de</strong>. In: PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben Araujo <strong>de</strong> (Orgs.). Gestão<br />
em Re<strong>de</strong>s: práticas <strong>de</strong> avaliação, formação e participação na saú<strong>de</strong>. Rio <strong>de</strong> Janeiro:<br />
CEPESC, 2006. p. 11-26.<br />
PORTO ALEGRE DO NORTE. Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Lei n. 304/98. Institui o<br />
Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Porto Alegre do Norte: Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Porto Alegre<br />
do Norte, 1998.<br />
PORTO ALEGRE DO NORTE. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão<br />
2004. Porto Alegre do Norte: SMS, 2004.<br />
PUTNAM, Robert. Comunida<strong>de</strong> e Democracia: a experiência da Itália mo<strong>de</strong>rna. 2. ed.<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro: FGV, 2000.<br />
SANTOS JÚNIOR, Orlando Alves; AZEVEDO, Sergio; RIBEIRO, Luis César <strong>de</strong><br />
Queiroz. Democracia e gestão local: a experiência dos conselhos municipais no Brasil.<br />
In: SANTOS JUNIOR, Orlando Alves; AZEVEDO, Sergio; RIBEIRO, Luis César <strong>de</strong><br />
229
230<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO<br />
Queiroz (Orgs.). Governança <strong>de</strong>mocrática e po<strong>de</strong>r local: a experiência dos conselhos<br />
municipais no Brasil. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Revan; Fase, 2004. p. 11-56.<br />
SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA. Prefeitura Municipal. Lei n. 170, <strong>de</strong> 20 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong><br />
1991. São Félix do Araguaia: Prefeitura Municipal <strong>de</strong> São Félix do Araguaia, 1991.<br />
SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão<br />
2004. São Félix do Araguaia: SMS, 2004.<br />
SCHRADER, Fátima Ticianel. A implementação do Programa <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> da Família<br />
no Município <strong>de</strong> Campo Ver<strong>de</strong>: <strong>de</strong>safios e perspectivas para o gerenciamento e a gestão.<br />
2007. 226 f. Dissertação (Mestrado em Saú<strong>de</strong> Pública). Instituto <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva,<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Mato Grosso, Cuiabá, 2007.<br />
SCHRAIBER, Lilia Blima et al. Planejamento, gestão e avaliação em saú<strong>de</strong>: i<strong>de</strong>ntificando<br />
problemas. In: ABRASCO. Ciência & Saú<strong>de</strong> Coletiva, Rio <strong>de</strong> Janeiro, v. 4, n. 2, p. 221-<br />
42, 1999.<br />
SINOP. Prefeitura Municipal. Lei n. 508 <strong>de</strong> 26/12/97. Dispõe sobre a instituição do fundo<br />
municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>, dá outras providências e revoga a Lei n. 242/92, <strong>de</strong> 16/12/92. Sinop:<br />
Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Sinop, 1997.<br />
SINOP. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2005. Sinop: SMS, 2005<br />
TEIXEIRA, Carmen Fontes. Manual <strong>de</strong> Planejamento Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Salvador:<br />
UFBA, 2001.<br />
TEIXEIRA, Carmen Fontes; MOLESINI, Joana Angélica. Gestão Municipal do SUS:<br />
atribuições e responsabilida<strong>de</strong>s do gestor do sistema dos gerentes <strong>de</strong> Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>.<br />
Saú<strong>de</strong> Pública, Salvador, v. 26, n. 1, p. 29-40, 2002.<br />
URBINATI, Nadia. O que torna a representação <strong>de</strong>mocrática. Lua Nova, São Paulo, n.<br />
67, p. 191-228, 2006.<br />
VÁRZEA GRANDE. Prefeitura Municipal. Lei n. 1327, <strong>de</strong> 06 <strong>de</strong> Agosto <strong>de</strong> 1993. Dispõe<br />
sobre a criação do Fundo Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> e dá outras providências. Várzea Gran<strong>de</strong>:<br />
Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Várzea Gran<strong>de</strong>, 1993.<br />
VÁRZEA GRANDE. Secretaria Municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Relatório <strong>de</strong> Gestão 2005. Várzea<br />
Gran<strong>de</strong>: SMS, 2005.<br />
VIANA, Ana Luiza d’Ávila. Desenho, modo <strong>de</strong> operação e representação <strong>de</strong> interesses<br />
– do sistema municipal <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> – e os Conselhos <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>. Ciência & Saú<strong>de</strong> Coletiva,<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro, v. III, n. 1, p. 20-2, 1998.<br />
VIANA, Ana Luiza D’Ávila. As políticas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> nas décadas <strong>de</strong> 80 e 90: o (longo)<br />
período <strong>de</strong> reformas. In: CANESQUI, Ana Maria. Ciências Sociais e Saú<strong>de</strong> para o<br />
Ensino Médico. São Paulo: Hucitec, 2000. p. 113-33.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
231
232<br />
POLÍTICAS DE SAÚDE EM MATO GROSSO
PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DESCENTRALIZAÇÃO E REGIONALIZAÇÃO<br />
Sobre o livro:<br />
Formato: 15,5 cm por 22,5 cm<br />
Tipologias Utilizadas: Kokila (8/10/12/pt), Lao UI (14/18)<br />
Papel: Couchê 90g/m² (miolo) e Cartão Supremo 250g/m² (capa)<br />
233