Ação da Cidadania - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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Ação da Cidadania - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

ANO IV "11

JIJ\HO/94

Ação da Cidadania


Pedidos para Unipop

Avenida Senador Lemos, 557

Fone:(091) 224-9074

(091)225-1668

SDA»^

-O

Jls


o Universidade Popular

Senador Lemos, 557 Telégrafo

Fone (091)224-9074

: (091)225-1668 cx postal 1098

66.050-000 Belém Pará Brasil

COLETIVO DE EDUCADORES

Aldalice Otterloo

(Diretora Geral)

Cristina Alcântara

Elias Araújo

i/l/ rfi

(Dir. Administrativo Financeiro

Francisco Cetrulo Neto

(Coord. Teologia)

Jandir Santin UIVI R?l

João Cláudio Arroyo

(Coord. Editoração e Comunicac

Olinda Charone

(Coord. Arte-Educação)

Rosa Marga Rothe

(coord. Teologia)

CONSELHO DE REPRESENTANTES

2, CBB, PETAGRI# CPB, IECLB, IPAR, IGREJA

ANGLICANA, SDDH, FASE, CIPES,

CENTRO 19 DE JULHO, CAMPOS, CPT, NAEA,

PROEX/UFPA, MOVIMENTO REPÚBLICA DE

EMAÚS, IGREJA METODISTA E CEDENPA.

CAimai

Revista CUIRA uma publicação

quadrimestral do :

Universidade Popular, de caráter

formativo, cjue busca o debate

teórico e político sobre as questões

de interesse dos movimentos sociaií

propondo-se como instrumento de

ação entre a prática e a teoria dos mili- má

tantas que lutam por uma

sociedade <

í, opressões, injustiças e

discriminações.

As matérias assinadas não

representam nec

posições da entidade.

Edição

João Cláudio Arroyo

Fotografia

Arquivo Unipop/colaboradores

Fax/(091)250-3297

Impressão

editoração

Graff/(091)241-512 8

Fax (091)223-3986

Rua Tiradentes, 200

CT A R T A. S IM O T A

^SSgfig"

C=:RI>VISIV & c: I D A D A rsl I A

Fé no Futuro • Edna Nunes

A Crise e a Crlança-trabalhactor • Agência j

Emaús

■SI u ISJ u

1994 Está chegando a hora

João Cláudio Arroyo

l\/l F l\/l E

Ação da Cidadania

Elias Araújo

U L X U

A deliciosa arte da alienação

Manoel do Nascimento

D U C >V O F» XJ

Pedagogia Libertadora

Cristina Alcântara

ISI E V I

Lúcio Fiávio Pinto

I ISI ISI rvi A L

R I A

Nicarágua: A revolução feminista continua j

Jandlr Santin

T R >X T E


. á um calafrio pensar num empresário Que

engendra a recessão, a inflação, o desem-

prego, pue paga um salário de US$70 por mês, com a

sensação de esfar fazendo um grande favor, que exclui

gento cie seus cálculos, pue investe na bolsa e se tranca

nos condomínios, que não se comove com a fome, a

miséria e o desespero. Ou pensar um líder classista ou

político que faz cálculos de sucessos trocando a ética

pela versão de fatos sem cara humana. Ou pensar numa

elite que desfruta de tudo sem se importar com ninguém

e nada. De que serão capazes essas pessoas? Foi algo

qjferente que gerou o nazismo? Essas pessoas... criam as

mil faces da violência, que nem sempre precisa de

sangue para matar

(Herbert de Souza)


6Cuíra

Encontro dos ex-alunos

e monitores

A Unipop está preparando para o dia 18

de junho de 94, das 09 às 17 horas, na Sagrada

Família, o Encontro de Ex-Alunos e Monitores da

Unipop. 0 encontro tem por objetivo a confrater-

nização de todos e recolher dados sobre a influência

da Unipop na prática dos ex-alunos sobre as novas

demandas dos Movimentos Sociais. Além disso,

divulgar e intercambiar as atividades da Unipop e

dos participantes além de pesquisar o perfil do

público do Instituto.

Dentro da programação acontecerá

dinâmicas de reconhecimento com o grupo de

teatro da Unipop; análise de conjuntura, com convi-

dados especiais; almoço e confraternização com

música, bate papo, jogos, brincadeiras, etc. A

Unipop espera a presença de 100 a 120 partici-

pantes. Mais informações você encontra no informa-

tivo interno da Unipop.

O Livro: "A Jumenta do

Padroeiro e Outras Histórias'

Autor: Júlio Maria

Em um livro de contos, nós leitores estamos prestes a optar por uma ou outra estória que se destaca

por seu impressionismo. Só que no livro" A jumenta do Padroeiro e Outras Histórias", de Júlio

Maria, todas têm gradativamente o seu ponto marcante, caracterizando-se por uma linguagem po-

pular e culta ao mesmo tempo. Escritor há seis anos, somente agora, aos 81 anos de idade, o Senhor

Júlio Maria, conseguiu publicar o seu primeiro livro. Nesse

registro, que encantou o jornalista Valter Freitas e escritores

A como Anibal Beca, seu Júlio através da ficção aborda temas

tlürlCn In soc i a i s e acontecimentos do dia-a-dia da nossa região.

A cada estória, esse novo escritor envolve personagens

DO

PADROIO

E OUTRAS HISTÓRIAS

firmes e decididos como "Aspásia", uma mulher determinada

a não se relacionar sentimentalmente com nenhum homem.

E outros inocentes, como "Xandico" do conto "Arraia", que

mata um viajante por ciúmes de sua amada. Um puro regio-

nalista, que surpreende pela fidelidade em escrever o lingua-

jar do caboclo da Amazônia, e principalmente do paraense.

São estórias do cotidiano, onde a sua simplicidade nos leva

a observar o que acontece em nossa volta, misturando na

maioria das vezes o mundo real com o imaginário.

Para quem pensa que o conto "A Jumenta do Padroeiro" é

título do livro por se destacar das demais, está enganado.

W' * v'^. ^W assim como esta, deve-se ficar atento para outras

como "A Camisinha" e "Solidão", onde o escritor narra com

ironia e seriedade a nossa sociedade violenta e desinformada.

0 livro do seu Júlio pode ser adquirido pelo endereço: Rua Dr. Américo Santa Rosa 99 - São

Braz - telefone: 229-2157. Ou em qualquer banca da Presidente Vargas e livraria Jinkings.


Compositores paraenses que participaram da produção do Disco Omami: solidariedade ao pequeno agricultor

DISCO OMAMI

Foi realizado no dia 05 de abril, terça-feira, o lançamento do disco independente que compositores

paraenses, fizeram para FETAGRI- Federação dos Trabalhadores Agrícolas dos Estados Pará e

Amapá. No disco são encontradas músicas que levantam a questão como marginalização, explo-

ração, prostituição e conflitos de terra, mostrando desse modo que a classe musical do Pará não está

alheia a esses problemas.

0 disco é fruto de um projeto coordenado pelo compositor César Escócia e Walter Freitas no

convênio com a FETAGRI, que visam com esse trabalho ser solidários com pequeno agricultor, o mais

prejudicado nos conflitos de terra.

"As pessoas que trabalharam nesse disco abriram mão de qualquer cachê. 0 único direito que

não queremos perder é o de autoria", disse César Escócio. 0 dinheiro arrecadado com a venda do disco

OMAMI (Pai-avô, gerador de todos os seres, na linguagem indígena), será destinado à FETAGRI para

cobrir custos das lutas, por seus direitos, do pequeno agricultor. 0 disco além de ser vendido pelos

próprios compositores, poderá ser encontrado na própria FETAGRI.

No disco OMAMI, são encontrados entre outros, trabalhos de parceria de Salomão Habib e

Paes Loureiro, Walter Freitas e Antônio Moura, Almino Henrique e César Escócio, e Ronaldo Silva e

Cincinato Júnior.

■CARTA-

FOME

Sobre o Editorial da revista

CUÍRA (agosto/93) Eu tive Fome, autoria

do Pe. Guilherme. Me sensibilizou e

deliberei contribuir.

E eu acrescento:

Eu tive fome, e o Governo

brasileiro estocou milhões de toneladas de

feijão, milho e arroz e deixou apodrecer

todo este alimento comprado com o di-

nheiro do POVO afim de que os preços não

baixassem e os especuladores do comércio

de cereais "os empresários" que são o

mesmo "Governo" se locupletassem com os

fabulosos lucros engordando suas contas

bancárias à custa da FOME de milhões de

crianças adolescentes, jovens e idosos habi-

tantes deste imenso e rico Brasil.

E ainda vem estes cretinos

todos, aviltar o POVO, oferecendo-lhe esmo-

las. É como disse o poeta Murilo Teixeira:

" Nababos no poder, que gas-

tam sem pensar.

Salário fabuloso em puro gigan-

tismo.

Aos pobres fecham as mãos e

mostram egoísmo

Como se esmola fosse o seu

direito de dar."

Esmola, é o que oferece ao

POVO, a sociedade capitalista dominante. O

povo não precisa de esmola; precisa de edu-

cação e de trabalho, dignos.

Após ler o Editorial, compulsiva-

mente escrevi o texto, e eu acrescento, com

o mínimo de pontuação... a pontuação é a

emoção... substituindo-a.

Jorge Meira Julião

CuíraT


Desenho de Bronco Vinagre

"Trabalhando com

nanças

0 "Projeto Criança" do Instituto de

Pastoral da Faculdade de Teologia da Igreja

Metodista tem como objetivo apoiar as pessoas

que trabalham com crianças e adolescentes.

0 mencionado projeto está lançando

uma série de cadernos intitulados "Trabalhando

com Crianças". 0 número 1 da série tem o título

"Jogos e Brincadeiras para a Paz"; o número 2,

"Cadê a Criança Brasileira?" (Uma análise de

Conjuntura da Criança e Adolescente no Brasil); o

número 3, " A Cidadania de Crianças e

Adolescentes", abordando o Estatuto da Criança e

do Adolescente; e o número 4, que está sendo

lançado, intitula-se "Uma Criança nos Guiará"

(estudo sobre a criança na Bíblia).

Para obtê-los, dirija-se ao Projeto

Criança, Instituto de Pastoral, Faculdade de

Teologia da Igreja Metodista, Rua do

Sacramento, 230, Rudge Ramos, São Bernardo

do campo, SP, CEP. 09735-460.

Com o pedido, deve vir um cheque

nominal à Faculdade de Teologia no valor de US$

2,00 (o equivalente em Cruzeiros).

SCuíra

Conselho Estadual dos

Direitos da Criança e do

Adolescente

Tomou posse no dia 30 de março, quarta-

feira, no Idesp, o Conselho Estadual dos Direitos da

Criança e do Adolescente. 0 Conselho formado por

dez entidades governamentais e dez não governa-

mentais, é exigido pelo Estatuto da Criança e do

Adolescente, criada em 1990.

As entidades não governamentais foram

escolhidas em Assembléia no dia 15 de março/94,

por vários movimentos sociais de base. Estão fazendo

parte do Conselho Estadual a Unipop, SDDH,

Movimento de Emaús, MMCC, CNBB, MAC, Conselho

Regional de Psicologia, Conselho Regional dos

Assistentes Sociais, APPD e MNMMR, que tem como

principal obietivo, juntamente com órgãos governa-

mentais, formular a política estadual dos Direitos da

Criança e do Adolescente, definindo diretrizes e fixan-

do prioridades para a consecução das ações, a capi-

tação e aplicação de recursos e zelar pela execução

dessa política, atendidas as peculiaridades das cri-

anças e dos adolescentes.Com o Conselho Estadual

será possível um maior reconhecimento do Estatuto

da Criança e Adolescente, visto na maioria das vezes

como uma lei que protege apenas o menor de rua,

distanciando-se do verdadeiro significado do Estatuto.

Movimento República de Emaús

0 Movimento República de Emaús, através do Centro de Defeso do Menor (CDM) e com o

apoio de várias entidades, está iniciando uma campanha publicitária no Pará para esclarecer e mobilizar a

opinião pública quanto à garantia dos direitos das crianças e adolescentes constantes na Lei 8.069/90,

o Estatuto da Criança e Adolescente (Eco). Com o campanha, o Movimento de Emaús pretende colocar

sistematicamente em pauta a situação da criança, de forma a contribuir na formação e esclarecimento da

opinião pública, com acesso ao conhecimento da situação, do Estatuto e dos mecanismos necessários

para sua aplicação.

A campanha vai utilizar diversas formas de divulgação, como cartazes, outdoors e anúncios,

além de debates e palestras. E será utilizada também a estrutura de divulgação existente com a criação,

no final do ano passado, da Agência de Notícias Emaús.

0 Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ser conhecido

de forma vaga, tornou-se o alvo privilegiado de críticas e

ataques infundados, colocando na lei a responsabilidade pelo crescimento

da violência urbana. Distorcendo-se seu conteúdo, fortalecendo

assim uma opinião pública equivocadamente contrária à lei, complacente

frente às arbitrariedades e abusos cometidos contra adolescente,

incapaz de distinguir entre impunidade e inimputabilidade

penal. Confundem-se os níveis de responsabilidade, exigindo-se do

poder público medidas repressivas imediatas mais do que o reordenamento

institucional pelo qual sejam aplicadas e implementadas as

medidas abrangentes estabelecidas pelo Eca.

Para tentar mudar esse quadro foi que o Movimento de

Emaús iniciou essa ampla campanha de esclarecimento. Por tudo que

foi exposto, gostaríamos de contar com a sua colaboração no sentido

de divulgar a campanha e de pajre Bruno:

afixar os cartazes nessa empre- mobilização do

sa. Ficamos muito gratos pelo 0piniã0 pública quanto

apoio a essa campanha que aos direitos da criança e \

deve ser de toda sociedade. do adolescente


PAAR

O Pará vem se destacando nos últimos anos

como um dos Estados com o maior

número de áreas territoriais invadidas

pela população. Uma prova clara desse fato, é

sem dúvida o Conjunto Residencial do PAAR,

localizado no Município de Ananindeua, conside-

rado através de uma pesquisa feita pela COHAB

(Companhia de Habitação) como a maior área

ocupacional da América do Sul.

São áreas invadidas por uma popu-

lação de baixa renda - pouco mais de 10% ga-

nlíam mais de um salário mínimo

(Fonte:C0HAB), sujeita a violência e más

condições de moradia. Ocupado há três anos,

estima-se que o PAAR possui atualmente 45 mil

habitantes, convivendo com falta de escolas,

assistência médica e hospitalar e principalmente,

saneamento básico. Para mudar esse retrato, as

pessoas residentes do PAAR resolveram se reunir

e criar a Associação dos Moradores do PAAR, que

funciona provisoriamente na casa de um dos

moradores.

Com uma Diretoria formada por 7

representantes, eleitos pela comunidade, são dis-

cutidos na Associação os principais problemas

habitacionais do conjunto. Manutenção de ruas e

coletas de lixo, são atividades permanentes dos

membros da associação, isto desde que par-

ticipem pelo menos 80% dos moradores da rua

onde será feito o trabalho.

Mas a luta da associação vai muito

além de arrecadação de lixo. Segundo Djalma

Pereira Ramalho, Diretor Geral da Associação, os

objetivos desse movimento comunitário vão

desde promover desenvolvimento da comu-

nidade, até na busca dos direitos dos moradores

enquanto cidadão.

A violência é um ato constante no

PAAR. 0 único posto policial da localidade, construí-

da há mais de um ano, possui apenas um guarda.

" Nós moradores do PAAR não podemos contar

com um mínimo de segurança que seja. Para se

ter uma idéia da violência,

só aqui no PAAR existem

12 grupos gangues, isso

sem contar os que vêem

de outras comunidades",

disse o Diretor da

Associação.

É em cima

destas e outras questães

que os moradores do PAAR

reúnem-se todos os finais

de semana para discutir e levantar propostas para

solucionarem esses problemas e encaminha-las

para as autoridades municipais e estaduais, mas a

única resposta até agora destas autoridades foi

somente com a arrecadação de lixo.

A próxima luta da Associação, segun-

do Djalma, é conseguir o terreno de uma creche

que foi construída há mais de três anos e hoje se

encontra abandonada e entregue às ruínas."Essa

luta para obter o terreno da creche é para ser

construída outra no mesmo local, já que no con-

junto tem tantas famílias que precisam trabalhar

fora e não têm onde deixarem seus filhos",

encerra Djalma.

Moradores do Paar: união para o

desenvolvimento da comunidade

Cuíra©


A Pastoral da Criança da Arquidiocese

de Belém, que funciona há nove anos, vem tra-

balhando criteriosamente para combater a fome

na nossa cidade. Sob a coordenação da Irmã

Maria do Carmo, a pastoral vem desenvolvendo

treinamentos alternativos que buscam assessorar

adultos para formação de crianças.

Nacionalmente a Pastoral da Criança

vem realizando suas atividades há dez anos,

atingindo 29.389 crianças, 218 comunidades e

17.917 famílias (dados do último trimestre de

1993), que dá atenção a criança logo nos

primeiros dias que se encontra no ventre da mãe.

Em Belém, segundo a Coordenadora da Pastoral

da Criança, são favorecidas 44 pastorais que

englobam 16 municípios.

Para alcançar um dos seus principais

objetivos, reduzir o número de mortes por desnu-

trição de crianças de 0 a 6 anos de idade, a

Pastoral da criança realiza treinamentos essen-

ciais para poder conseguir êxitos em suas ativi-

Edno Nunes:

estagiário de

jornalismo

do Unipop

1 OCuíra

futuro

Edna Nunes

"Temos muito o que

oferecer, porque

antes de surgir a

Campanha Contra a Fome,

nós já estávamos

trabalhando em cima

deste problema"

dades, que são: Ações Básicas; Alternativas

Alimentares; e Evangelização.

Em Belém os treinamentos são feitos

no Centro de Treinamento de Recursos Humanos

- CTRH, no Centro Pastoral, no Distrito de

Crianças com baixo peso ao nascer

(


1 2Cuíra

Ârecessão econômica eliminou, nos últi-

mos quatro anos, 50% das ocupações

de crianças e adolescentes na Região

Metropolitana de Belém. De 89 a 93,

a população ocupada na faixa etária

de 10 a 17 anos foi reduzida de 34

mil para 17 mil. No mesmo período, sofreu um

pequeno aumento de 438 mil para 470 mil as

ocupações para as faixas etárias acima de 18

anos.

Os dados da pesquisa do Sine-PA

(Sistema Nacional de Empregos no Pará) junto a

700 domicílios na grande Belém revelam o

aumento da inatividade na população jovem. "Os

jovens foram desestimulados a procurar emprego

devido a crescente eliminação de postos para

essa faixa etária", assinala o coordenador do

Sine-PA, Sérgio Fernandes.

crise e a

criança-trabalhador

Agência Emaús

A pesquisa revela que não só o

número de ocupações diminuiu como piorou a

sua qualidade. Mostra "uma tendência do

decréscimo do assalariamento e uma expan-

são do emprego doméstico". Em 89, 35,2%

eram assalariamento e 33,2% empregados

domésticos. Em 93, as posições se inverteram

- o assalariamento caiu para 23,5%, enquan-

to o emprego doméstico registrou 52,9% das

ocupações.

93% sem carteira no

setor privado

A pesquisa informa que, para a popu-

lação ocupada de 10 a 17 anos, são assala-

riadas apenas 4 mil das 17 mil ocupações re-

gistradas até dezembro de 93. 0 setor privado

responde por 95% das vagas. "Entretanto, 93%

do emprego neste setor para esta faixa etária

ocorre sem carteira de trabalho assinada", diz a

pesquisa. 0 setor público, onde os jovens têm

carteira assinada, representa apenas 1,1% do

assalariamento de adolescente.

No seminário "Adolescente: Direito à

Profissionalização e Proteção ao trabalho", rea-

lizado em janeiro, em Belém, o Sine-PA apresen-

tou trabalho em que aponta ausência de carteira

assinada como um "Procedimento comum entre

os empregadores, com intuito de isentar-se dos

encargos trabalhistas e sociais, num flagrante

desrespeito à legislação vigente, ao mesmo

tempo em que se beneficiam de mão-obra barata

e abundante no mercado de trabalho".

As demais ocupações no "limitado

leque ocupacional" para faixa etária de 10 a 17

anos são serviços familiares (em geral, não

remunerados), domésticos e autônomos. Em

pesquisa de 89 até 90, o Sine-PA apurou que

93,1 % das crianças e adolescentes ocupados não

haviam sequer concluído o primeiro grau.

Muito trabalho

pouco dinheiro

Pior ainda: a pesquisa atesta que os

menores trabalham muito e ganham pouco. "A

jornada média semanal cumprida pelo traba-

lhador com idade de 10 a 17 anos foi, em

1990, relativamente similar a do total de ocupa-

indícadores

Populoçõo em idade ativa - PIA

10 o 1/ anos

18 a 24 anos

25 a 39 anos

40 anos a móis

População economicamente ativa - PRA

10 o 1/ onos

18 a 24 anos

25 o 39 anos

40 onos a mais

10 o 17 anos

18 a 24 anos

25 a 39 anos

40 anos o mais

Populaçõo desempregada

10 o 17 anos

18 a 24 anos

25 a 39 anos

40 anos a mais

Fonte: Pesquiso de Emprego e Desemprego no Regiõo Metropolirono

*dodos referente ò médio de íoneiro o dezembro de 1993

dos com 18 anos e mais: 41 e 42 horas,

respectivamente". Ou seja," a criança e o ado-

lescente trabalham, em média, apenas 2,4%

menos que o conjunto de ocupados adultos". E

38% têm jornadas superiores as 44 horas sem-

anais permitidas por lei.

Em 90, o Sine-PA apurou que

77,45% do total de ocupados recebiam menos

do que um salário mínimo. 0 rendimento médio

nesse ano foi equivalente a 70% do salário míni-

mo, que representou uma queda de 6,2% em

relação ao rendimento médio de 89.

Inatividade alta

0s dados do Sine relativos a 93 apon-

tam uma elevada ociosidade na população de 10

a 17 anos. Segundo o coordenador do Sine-PA a

pesquisa conta a idade a partir dos 10 anos

porque nessa idade a criança pobre já é forçada a

desenvolver algum tipo de trabalho para ajudar

na renda familiar." As menores facilidades para

o ingresso no mercado de trabalho aumentam a

quantidade de jovens inativos", disse.

Como inativos são considerados aque-

les que não procuraram o mercado de trabalho

nos últimos 12 meses e não desenvolveram ne-

nhuma atividade nos últimos 30 dias. São os que

desistiram de procurar empregos, até porque os

próprios técnicos do Sine-PA reconhecem que custa

caro e demora muito encontrar um novo emprego.

i Em Belém, Wc das crianças

e adolescentes ocupados trabalham

mais do que os adultos^

0s dados de 93 estimam que 251

mil jovens na Região Metropolitana estavam ina-

tivos, representando quase 50% da população

total em inatividade.

Os dados apontam apenas 4 mil

desempregados, jovens com idades inferior a 18

anos. São os que ainda tendem procurar

emprego, atividade que vem decrescendo desde

89, quando 6 mil jovens tentaram ingressar no

mercado de trabalho.

Segundo Sérgio Fernandes, o Sine-PA

desenvolve a pesquisa em convênio com o

DIEESE (Departamento Intersindical de Estudos

Econômicos Sociais) e a fundação Seade

(Sistema de Análise de Dados), de São Paulo.

A mesma metodologia de pesquisa é

realizada em outras quatro regiões metropoli-

tanas do País - São Paulo, Brasília, Belo

Horizonte e Porto Alegre. ■

Ql mO COMPARATIVO DOS PRINCIPAIS INDICADORES, SEGUNDO FAIXAS ETÁRIAS

(população em 1 .OOO) pessoas

Cuíra 1 3


ESTA CHECANDO A HORA

João Cláudio Arroyo

1994 PARA O BRASIL, MERECE DESTAQUE NA CRISE

QUE VIVEMOS. O DESFECHO DA DISPUTA ELEITORAL

DESCERRARA AS POTENCIALIDES DE ENTRARMOS O

PRÓXIMO MILÊNIO FAZENDO JUS ÀS BENÉFICAS

INFLUÊNCIAS DA ERA DE AQUÁRIUS OU SE CONTI-

NUAREMOS NOS APROXIMAMOS DAS REALIDADE DE

"MAD MAX" O PERSONAGEM DO CAOS.

Era de manhã. Ela, caminhava distraída, a

cabeça conturbada, sanada, o corpo

franzino, enfraquecido, coração apertado

doendo mais que o estômago. Ele, tam-

bém preocupado e em jejum, pegou o

paletó, desceu o elevador com impaciên-

cia e ligou seu BMW ao mesmo tempo em que

digitava em seu celular o número de seu

escritório.

Ela atravessou a rua sem pressa,

chegou ao terreno e, meio sem pensar, começou

a vasculhar os monturos de coisas em busca de

alimento. Confirmada a reunião, ele subiu as

escadas da entrada correndo e atravessou o hall

que o separava do compromisso: o que fazer

diante da possibilidade da queda do preço do

arroz?

Finalmente ela encontra olgo, lhe

pareceu bom, estava cansada de dar sopa de

papelão aos filhos, era carne. Ele, também quase

vai à loucura diante da proposta do governo libe-

rar os estoques estratégicos de alimentos que

estão apodrecendo em seus armazéns - o prejuí-

zo seria incalculável.

Ela voltou e, entre contente e resigna-

da, assou a carne e alimentou os filhos. Ele

votou, na reunião, contra a liberação dos alimen-

tos mesmo que estraguem. A carne era humana,

a decisão, não.

Tudo isso seria menos chocante, se

não fosse realidade. A realidade da indigente que

no Recife virou destaque em todos os jornais do

país e, a dos executivos, que decidem coisas

muito mais nauseantes, sem que ninguém fique

sabendo quem são. Não é mais possível conviver

com o conformismo, só a indignação pode nos

salvar.

0 mundo segue assim, aprofundando

suas duas vertentes, aparentemente contra-

ditórias: a revolução tecnológica, chamada

"Terceira Revolução Industrial" e o "Apartheid

Social" com o aumento do desemprego e da con-

centração de renda a nível planetário.

A hegemonia neoliberal avança sua

globalizada modernização conservadora, fazendo

com que as contradições se ogussem, defenden-

do a aplicação de teses teoricamente razoáveis,

sobre realidades culturais perversas. Levanta a

debatível tese das privatizações, mas a pratica

indiscriminadamente. Segundo o dossiê sobre as

"privatizações" promovidas pela política neolibe-

ral, na própria Inglaterra de Margareth Thacher -

matrona do neoliberalismo -, feito pelo Partido

Trabalhista Inglês, em 1987 foi cortado o forneci-

mento de gás para mais de 60 mil famílias quan-

do até 1985, antes da privatização, este número

girava em torno de 35 mil famílias.

Ainda de acordo com o dossiê, apesar

das empresas de "utilidade pública" da Inglaterra

estarem divulgando recordes de lucratividade

após a privatização, a British Airways anunciou

estar cortando 4 mil postos de trabalho, a Jaguar

1,5 mil, A British Telecom 28 mil. Como se vê, a

promessa de mais empregos é uma falácia.

Aliás, a promessa de melhor atendi-

mento também deixa a desejar, o número de

reclamações aumentou consideravelmente. E a

promessa da "Democracia de Acionistas" tornou-

se um engodo, já que a maioria dos demitidos

são levados a venderem suas cotas, o que faz

com que sofram uma nova dinâmica de concen-

tração.

Para finalizar, o dossiê ainda demonstra

que a privatização não acabou com os

"marajás" nem com a corrupção,

denuncia que os salários pagos aos dire-

tores se afastam cada vez mais dos

pagos aos trabalhadores e listam as

empresas que injetaram mais de 1,5 milhão de

libras no Partido Conservador para que este aju-

dasse a viabilizar o processo de privatização.

No contexto do neoliberalismo, todo

o avanço tecnológico conquistado, não tem sido

capaz de empreender um novo padrão de

desenvolvimento humano, ainda que capitalista,

que viesse a amenizar as contradições sócio-

econômicas.

Isto faz com que a pretensa globaliza-

ção promovida pela badalada "Nova Ordem

Mundial" seja apenas meia verdade. Se de um

lado, em rede, o mundo interliga sua economia e

sua comunicação de maneira simultânea e instan-

tânea produzindo uma cultura universal, de

outro, a polarização Norte-Sul - que substituiu a

Leste-Oeste com o fim da Guerra Fria -, traz

para primeiro plano o fosso que sempre existiu

entre ricos e pobres, dando contornos explosivos

à barbárie que tira o sono do mundo auto-consi-

derado "civilizado", esteja ele acima ou abaixo

do Equador.

Um fato que comprova esta preocu-

pação é a criação, pela ONU de um

novo índice de desenvolvimento que

balizará as relações deste Órgão com

os países, influenciando inclusive os

critérios para financiamentos de proje-

tos governamentais. Trata-se do IDH(índice de

Desenvolvimento Humano) que é uma resultante

de indicadores econômicos como o PIB(Produto

Interno Bruto), educacionais como o alfabetismo

e de saúde como a expectativa de vida. Como

estes indicadores eram vistos isoladamente, mas-

caravam a realidade de um país. Para se ter uma

idéia, antes a principal referência para o desen-

volvimento de um país era o PIB, segundo o que

o Brasil ocupa a nona(9 5 ) posição, adotando-se

o IDH o Brasil despenca para septuagésimo(70 Q )

lugar, abaixo da Jamaica, do Panamá, e muito

abaixo da Argentina. No primeiro lugar está o

Japão.

Mas a verdade é que o IDH ainda pre-

cisa evoluir muito até que chegue a ser um indi-

cador realmente capaz de expressar o desenvolvi-

mento humano. Isto porque mesmo nos países

de maior pontuação como os da Europa ou os

EUA, temos assistido o ressurgimento do nazifas-

cismo, conflitos étnicos, o crescimento do racismo

e do fundamentalismo de diversas naturezas que,

por canais culturais próprios, expressam as mes-

mas dicotomias que afetam o mundo inteiro: a

tensão da exclusão econômica, social, religiosa,

étnica, racial, sexual ou várias destas coisas mis-

turadas pela história dos povos.

O Brasil, como seus parceiros de con-

tinente, além de sofrer com estas tendências

mundiais, sofre ainda com o desrespeito interna-

cional que constantemente ameaça sua sobera-

nia, e que no plano econômico se expressa na ►

Brasil: uma crise de

deixar qualquer um

de cabelo em pé

João Cláudio Arroyo:

educador da Unipop.

Cuíra 1 5


" O ASSASSINATO DO SINDICA-

LISTA DO ABC REVELA QLE A

MESMA DISPUTA DE NATUREZA

ANTI-HUMANISTA QUE

MOU, GRAÇA(?) NO CONJUNTO DOS

MOVIMENTOS SOCIAIS. JUSTA-

MENTE OS QUE SE PROPÕEM COMO

CONSTRUTORES DO NOVO."

16Cuíra

intervenção, consentida pelas elites, perpetrada

pelo FMI, Banco Mundial, G-7 etc, que nos tiram

o direito de tomar as decisões estratégicas, que

nossos governantes, até aqui, tem aberto mão.

No entanto, a intervenção neoliberal

tentada no Brasil ainda não se aprofundou

como no Chile, na Argentina

ou no México. Tidos como exemplos

de sucesso da implementação da

receita neoliberal na América Latina,

estes países, de vitrine, em pouco tempo, passaram

a se constituir no maior argumento de

combate a uma política que não deu certo nem

mesmo em seus próprios países de origem como

EUA e Inglaterra que contabilizam um crescimento

de problemas sociais sem precedentes.

No Brasil, cresce a percepção

de que os modelos

que fizeram com que nos

tornássemos um país

recordista em crescimento

econômico no século XX ao

mesmo tempo em que passamos

a ocupar o terceiro

posto no pódium da concentração

de renda, não podem

mais tanger a nossa história.

Somos um país em que apenas

10% da população vive

acima da linha de pobreza,

segundo o relatório da ONU

de 1992.

Porém, 1994 descortinase

como um ano de possibilidades

históricas. A nível

internacional, o agravamento

da crise neoliberal particularmente

na Europa coloca

em movimento setores e

reivindicações que há muito

não tínhamos notícias, como

a organização de sem tetos na Inglaterra e a

grande mobilização de janeiro deste ano em

Paris em defesa da escola pública. 0 neoliberalismo

começa a mexer com conquistas antigas dos

povos do chamado 1 8 Mundo, abrindo a possibilidade

de intercambiarmos ações estratégicas

globais que inaugurem um novo patamar na solidadriedade

internacional entre os povos.

Talvez agora, como nunca, fique mais

fácil compreender que o chamado 3 ? Mundo é

apenas a banda podre da mesma laranja, ou

seja, um dia a podridão alcançará o todo. E, que

a estratégia capaz de evitar a barbárie absoluta

tem que estar fundada em ações articuladas glo-

balmente e que estejam fundadas na busca do

equilíbrio econômico e da justiça internacional.

A cooperação internacional será sem-

pre limitada enquanto não se abordar de frente a

problemática da Dívida Externa. No Brasil, entre

1983 e 92 a diferença entre o total de ingressos

de capitais e o total de desembolso do período

registra um saldo de US$67,628 bi pró desem-

bolso e, mesmo assim a dívida cresceu de

US$93 bi para cerca de US$135 bi, segundo o

Banco Central, isto é inaceitável. Também não

avançaremos muito, no campo ético, enquanto o

terceiro mundo for criticado como antro de cor-

rupção ao mesmo tempo em que as potências

consentem os paraísos fiscais onde o narcotráfico

e a corrupção política lavam sua renda. Só na

Suíça, que não é exatamente um paraíso fiscal,

existem aproximadamente 61 bilhões de dólares

em depósitos brasileiros, a metade da dívida

externa, segundo o deputado suíço Jean Ziegler.

Em 94, o campo político guarda

ainda uma outra expectativa, particularmente

para a América Latina, as eleições presidenciais

que ocorrerão em importantes países do conti-

nente. Já em 93, em Honduras, Chile e

Venezuela, os candidatas vencedores saíram de

coligações com perfil progressista e atacaram

duramente as políticas neoliberais dos governos

anteriores. A partir de maio deste ano as eleições

em El Salvador e Colômbia apresentam grande

influência dos candidatos à esquerda que atacam

o projeto neoliberal. No entanto, as atenções

estão mesmo dirigidas às eleições que ocorrerão

no México, em agosto, e no Brasil, em outubro.

No México, o hegemonisma, a base

de fraudes eleitorais, de quase um século do PRI

nunca foi tão ameaçado, ainda mais após o

assassinato do seu candidato consensual fato que

abriu divergências sobre o nome que o substituiu.

A oposição com Cardenas defende um combate

efetivo à miséria e sua eleição implicará, nada

mais nada menos, do que na revisão da posição

mexicana no Nafta - o acordo de integração

econômica com os EUA e Canadá.

Já no Brasil, a eleição de Lula, que

avança na liderança com mais de 30%, pode

ser a pá de cao sobre a tentativa neoliberal na

América Latina, instituindo um novo patamar nas

relações dentro e fora do continente. Contudo, no

Brasil as preferências aferidas pelas pesquisas de

opinião confirmam o enorme grau de complexi-

dade do momento em que vivemos, lideram as

pesquisas a campanha contra a fome e a pena

de morte, a democracia e o fechamento do con-

gresso, valendo lembrar que o último crescimento


de Lula se deu em função da adesão de eleitores

vindos da desistência de Maluf seu arqui rival de

direita. Ou seja, os volores como os direitos

humanos e a liberdade estão em conflito com a

ansiedade gerada pela crise em torno de uma

solução custe o que custar. Ficando evidente que

apesar de marcharmos no sentido da consoli-

dação da democracia, este é um caminho escor-

regadio, ainda que incontornável.

Estas aparentes contradições nos desafi-

am, particularmente às 0NG's de

Educação Popular, a entender o porquê

deste comportamento e atuar no sentido

de formar(educar) para o fortalecimento

da democracia e da cidadania. Valendo

ressaltar que no seio dos próprios movimentos

sociais sente-se falta exatamente destas duas

coisas: democracia e cidadania. Exemplo disto é

o clima em que se processam as disputas no PT

do Pará e quando assistimos estarrecidos o assas-

sinato do ex-Presidente do Sindicato dos

Condutores do ABCD em São Paulo, em função

de uma disputa que, em menor intensidade mas

de mesma natureza anti-humanista, graça no

conjunto dos movimentos, ou seja, justamente

entre os que se propõem como construtores do

novo. No Pará, o maior dos desafios, além

do construção da cidadania e da consolidação da

democracia, é o conflito com as oligarquias repre-

sentadas pelo ex-governador Jáder Barbalho e

pelo prefeito da capital. Hélio Gueiros. Os dois

brigam entre si mas juntos dificultam a vida dos

movimentos sociais embora com metodologias

diferentes. Enquanto o prefeito passa mais de

dois anos para nomear o Conselho Municipal de

defesa da Criança e Adolescente, o ex-governador

se antecipa e nomeia, sem ninguém saber e

antes da conferência estadual, o "seu" Conselho

Estadual de Segurança Alimentar. Ou seja, um

reprime, o outro, coopta.

O pior é que há décadas consumidos

por disputas internas, os partidos populares não

criaram nenhum nome eleitoralmente viável

como alternativa - coisa já conquistada em

inúmeros outros estados -, seja por autodes-

gastarem seus nomes históricos seja por não con-

seguirem conviver com novas adesões de

expressão pública. 0 lançamento de Valdir

Ganzer a governador, confirma o drama que vive-

mos com a falta de alternativas viáveis e repre-

senta um enorme sacrifício ao PT que diminui

consideravelmente suas chances de eleger uma

bancada federal - tanto mais sem alianças -

mas, tudo pela estratégia nacional.

0 certo é que mais uma vez se inicia

uma disputa para não ganhar. Os setores popu-

lares no Pará precisam superar sua vocação à

derrota no campo político-partidário, pois por aí

também passa a construção de um projeto políti-

co alternativo para a Amazônia, sem o que, falar

em democracia e cidadania, carecerá sempre de

substância. ■

A evolução da dívida externa brasileira em 10 anos (US$ milhões)

1983

1984

1985

1986

1987

1988

1989

1990

1991

1992

ANO INGRESSO DESEMBOLSO SALDO TOTAL

Fonte: PwUkocões do Banco Centro!

11.689

11.724

2.816

3.231

3.260

7.441

2.963

3.573

6.122

9.651

14.982

13.095

12.818

13.598

9.794

20.331

12.819

8.110

12.016

12.544

-3.293

-1.371

-10.002

-10.367

-6.534

-12.891

-9.856

-4.537

-5.894

-2.893

62.479 130.107 -67.628

93.556

102.039

105.125

111.045

121.174

113.469

115.096

122.828

123.910

135.047

Cuíra 1 T


1 SCuíra

AÇÃO DA

CIDADANIA

Revolucionando a prática política, as relações de poder, a Sociedade e o Estado

(lios Araújo:

é Diretor

Administrativo

da Unipop

Coordenador

do Comitê

Cidadonia

Elios Araújo

ÂAção da Cidadania Contra a Fome, a

Miséria e pela Vida, iniciada em 1993

como campanha, é seguramente,

depois das Diretas Já e das mobiliza-

ções pelo Impeachment de 92, a mais

importante movimento da História

recente do Brasil, com a particularidade de con-

seguir trazer para a cenário político nacional jus-

tamente grandes parcelas daqueles que têm sido

as principais vítimas da fisiologismo, do clientelis-

mo, da manipulação, da autoritarismo e da cor-

rupção das elites dominantes do País: os 32 mi-

lhões de indigentes brasileiros.

A fome e a miséria sempre afetaram

parte significativa de nossa população, entretanto

raramente iniciativas no sentido de combatê-las

gozaram de estatuto político próprio. A exceção

da Campanha contra a Carestia desenvolvida no

início dos anos 40, com comitês organizados em ►

\JIJI

A ação da cidadania é hoje o principal

instrumento popular para a implementação

de um modelo de desenvolvimento justo

socialmente e capaz de garantir

autonomia frente a velha forma

de fazer política. Somente com

a cidadania organizada e participativa

poderemos construir a

democracia sem exclusão

Cuíra 1 9


44 A solidariedade, pluralismo e a

parceria revolucionam os

próprios

conceitos de poder e do

relacionamento entre sociedade

quase todas as cidades do País, esta questão

sempre foi subordinada à outras, sempre a pre-

texto da "globalidade" e "exigências estruturais"

das pautas e programas dos movimentos sociais

e dos partidos políticos.

Os milhões de indigentes e excluídos

que foram se acumulando ao longo deste século

no Brasil jamais foram reconhecidos em seu

potencial de sujeitos políticos. A "direita", em

seus diversos matizes, sempre os encarou como

objetos de manipulação via assistencialismo,

"currais eleitorais", mobilização de "descamisa-

dos", etc. As "esquerdas" os consideravam, no

melhor dos casos, como "massas empobrecidas,

insatisfeitas" ou algo parecido, que eventual-

mente poderiam ser dirigidos para atos revolu-

cionários. No pior caso, enquadravam-se na

perigosa categoria de "lumpemproletariado".

As ações mais sistemáticas e perma-

nentes estiveram a cargo de instituições de cari-

dade de diversas igrejas e de espíritas, nem

sempre infensas ao proselitismo religioso. A soli-

dariedade humana pura e simples diluiu-se,

assim, entre o imperativo do dever Cristão e dos

contingenciamentos políticos do presente e do

futuro.

A fome e a miséria evidentemente

possuem suas raízes estruturais, entretanto,

enquanto componentes da realidade social e

20Cuíra

civil e Estado"

histórica, aliadas à ignorância, passam a compor

também as condições políticas de sua repro-

dução, num quadro totalmente incompatível à

construção de qualquer projeto verdadeiramente

democrático. Isto, todavia, nunca foi seriamente

considerado "estratégico" nos projetos refor-

madores ou revolucionários. A gravidade da si-

tuação atual de milhões de seres humanos

esmaecia em face da importância dos feitos do

futuro. Para alguns a mera defesa e engajamento

na causa de um futuro quase sempre distante os

eximia de quaisquer responsabilidades individuais

perante a tragédia representada pela não-vida,

pelo não-direito de milhões, no presente.

A Ação da Cidadania Contra a Fome a

Miséria e Pela Vida mais do que procurar dar

nome, rosto e endereço para os milhões de

excluídos do país, busca também que estes mani-

festem em suas próprias vozes seus problemas e

alternativas de soluções, reivindicando e afirman-

do o estatuto político próprio deste movimento,

que já transformou a questão da fome e da mi-

séria em questão prioritária da sociedade, e que

também já consegue a partir da mobilização dos

excluídos e em favor destes, mobilizar diversos

segmentos da sociedade, que hoje despertam

para a cidadania, e que, de outra forma, dificil-

mente se disporiam a tomar parte ativa no

cenário político nacional.

jnrv

ftim

Os princípios da Solidariedade, do

Pluralismo, da Descentralização e da Parceria que

orientam o Ação da Cidadania revolucionam não

apenas as relações entre os diversos sujeitos

políticos sociais, porém os próprios conceitos de

poder, de relacionamento entre Sociedade Civil e

Estado.

A força política que a Ação da

Cidadania representa hoje, expressa pelo

Movimento pela Ética na Política, eqüivale à dos

partidos políticos mais organizados e com maior

capacidade de mobilização. A representativi-

dade política e social de Betinho ou de Dom

Mauro Morelli é superior à de qualquer senador

ou ministro da República. Os próprios princípios

do fazer política e do exercício do poder são

colocados sob questionamento pela Ação da

Cidadania.

Betinho e Dom Mauro Morelli certa-

mente fazem política, no melhor sentido que

esta palavra possa expressar; também desfrutam

de um poder de influência considerável.

Entretanto, esta capacidade de fazer

política e de exercer.positivamente poder, não

decorre de eleição. Não passa pela cabeça de

ninguém submetê-los ao sufrágio universal para

comprovar sua representatividade, no entanto,

eles são mais legítimos e representativos do

sociedade brasileira do que qualquer político

eleito. A origem do poder que desfrutam é a Ética

e a Solidariedade.

Durante muito tempo desperdiçaram-

se esforços intelectuais imensos e toneladas de

papel e conferências para definir e defender o

tamanho do Estado. Quanto tempo não se

perdeu debatendo o Estado mínimo e o Estado

máximo! Esta discussão estéril hoje pode ser

superada quando o exemplo da Ação da

Cidadania aponta que o importante não é discutir

o tamanho do Estado porém qual a organização

e participação da Sociedade Civil na definição,

acompanhamento e fiscalização das políticas

públicas.

0 trabalho de parceria desenvolvido

entre instituições dos poderes públicos e da

sociedade civil demonstra que, independente da

conquista do poder político pelo setor "A" ou

"B", as possibilidades de mudanças que interes-

sam aos milhões de excluídos de hoje dependem

fundamentalmente da participação e da quali-

dade da participação da sociedade civil no dire-

cionamento do Estado.

Sem se deixar levar pela ingenuidade

ou pelas armadilhas das proposições de que os

interesses econômicos, políticos e ideológicos

encontram-se superados, é possível perceber de

forma prática que o Estado não é monolítico, que

não é impermeável em suas diversas instâncias

às ações ousadas, criativas e conseqüentes da

sociedade civil. Participam da estrutura do Estado

milhares de pessoas que, independente deste ou

daquele ocupante do Executivo sempre podem

oferecer importante apoio às intervenção da Ação

da Cidadania.

Por outro lado, a partir de uma

questão aparentemente marginal como a miséria

e a fome, tem sido possível fazer com que am-

plos setores da população se voltem para

questões sociais como a saúde, a habitação, o

saneamento, as políticas agrícolas e até mesmo

uma questão polêmica como a reforma agrária.

0 mais importante, entretanto, é que

se aprende a identificar problemas e apontar

soluções dentro da própria sociedade, não no

sentido de absolver o Estado de suas responsabili-

dades, pelo contrário, no de fazer este assumi-las

sob a direção e em parceria com quem deve

presidi-lo: o Cidadão. Com isto abre-se caminho

para se superar algumas das principais marcas do

autoritarismo e do paternalismo tutelar que têm

caracterizado a relação entre Estado e a

Sociedade brasileira: a atitude subserviente, pas-

siva e resignada de amplos setores da população

de excluídos.

0 processo de organização da

Conferência Nacional de Segurança Alimentar,

precedida de conferências municipais e esta-

duais é, de longe, a maior mobilização de am-

plos segmentos da sociedade brasileira voltados

para a discussão de uma das mais importantes

agendas da atualidade: não a fome e a miséria

isoladamente, porém os modelos de desenvolvi-

mento, a refundação da República, a elaboração

e a execução dos orçamentos dos municípios,

dos Estados e da União. Ainda quando limita-

dos, os resultados desta conferência certamente

serão qualitativamente mais representativos e

legítimos por que feitos com a participação da

Cidadania.

Num momento em que o próprio

modelo do Estado representativo moderno dá

mostras de esgotamento, minado pela ineficiên-

cia e a corrupção, seja no Brasil, na Itália, nos

Estados Unidos, ou no Japão, a Ação da

Cidadania aponta a possibilidade da construção

de espaços públicos não estatais, longes da buro-

cracia, da captura do Estado e das elites que o

dominam. De forma prática, construímos, peda-

gogicamente, as bases para a democracia partici-

pativa, responsável, solidária e vigilante. ■

Cuíra21


1994

tem tudo paro ser um dos anos mais quentes dos

últimos tempos. Como se já não bastasse a

promessa de um verão rigoroso e o aumento da

temperatura política a medida em que as

eleições se aproximam, estamos em ano de

Copa do Mundo.

A Copa é o espetáculo de maior

alcance televisivo do planeta, nem o fabuloso

bombardeio contra o Iraque atingiu tanta gente,

são bilhões e bilhões que ficarão em junho gruda-

dos às tv's hipnotizados pela quase exótica dispu-

ta de 22 homens em torno de uma bola. Coisa

capaz de movimentar bilhões e bilhões de

dólares por todo o mundo.

No Brasil, por razões que dispensam

delongas, a questão merece um apreço particu-

lar. Ao lado do carnaval, do jogo do bicho e do

jeitinho, o fute-

bol é mais uma

importante insti-

tuição da identi-

dade nacional

segundo o con-

ceituado antropó-

logo Roberto da

Matta. Contudo,

a polêmica per-

manece. Trata-se

de um fenômeno

cultural que

merece os mais

sérios estudos

sociológicos ou

não passa de

22Cuíra

instrumento de manipulação e alienação das

"massas" pela direita?

Se observarmos alguns fatos, vere-

mos que ambas as posições devem ser conside-

radas. Senão vejamos:

De fato, o futebol já extrapolou, entre

nós, em muito os delimitados muros do esporte

para tornar-se uma importante atividade que

ajuda grande parte da população a extravasar

suas frustrações, angústias e opressões, ao

mesmo tempo em que oferece uma razão de ser

ou de lutar para muitas pessoas. Sem dizer de

toda a atividade econômica que gera.

Esta capacidade do futebol, a de fazer

encontrar um sentido de vida, marca a psicologia

da nação constituindo-se em elemento fundante

de nossa maneira de ser enquanto povo, expres-

sando-se como linguagem, status social e relação

de poder, se projetando para outras esferas como

a da religião, outros esportes etc, até para a

maneira de se fazer política. No Brasil, para

muitos não se escolhe um partido pela identidade

programático-ideológica que se tenha com ele,

simplesmente torce-se por ele.

Ao mesmo tempo, exatamente por

estar profundamente presente no imaginárip da

maioria, e por, a partir daí, estabelecer relações

Este é um ano vocacionado para as multidões. Depois de tanto plano

econômico de tantos escândalos, a política ascende na preferência

popular como esporte nacional neste ano de eleições gerais. Mas,

nada que ameace o trono indispojável que o futebol ocupa dentro do

coração e das mentes brasileiras. Este é o ano da Copa do Mundo, e se

o tetra vier em junho, a euforia será maior em outubro.

A deliciosa arte

Manoel do Nascimento

de poder, é que se abre a possibilidade de haver

manipulação política. E isto não é de hoje. 0

ditador italiano Benito Mussolini, no intuito de

auferir dividendos políticos com a realização da

Copa do Mundo de Futebol em seu país, fez de

tudo para que o selecionado da Itália, a

"Esquadra Azzurra", se sagrasse campeã em

1934. Entre outros expedientes, Mussolini ban-

cou a repatriação de descendentes italianos que

jogavam em outros países para que a Itália for-

masse um time imbatível. Dentre os repatriados

estava Anfilóquio Guarisi, brasileiro que jogava no

Coríntbias. Guarisi para os italianos. Filo para os

daqui, o primeiro brasileiro campeão do mundo.

Também não é novidade o que se fez

por aqui nos idos de 1970, quando a ditadura

faturou com a conquista do tricampeonafo no

México editando, no auge da conquista do título

e do "milagre econômico", idéias do tipo "Brasil

- Ame-o ou Deixe-o". Até Maluf, então prefeito

de São Paulo, tirou sua casquinha, doando um

fusquinha a cada jogador campeão. Mais tarde,

Maluf foi condenado pelo Tribunal de Contas e

teve que ressarcir os cofres da prefeitura por ter

sido generoso com o dinheiro dos outros.

0 certo é que, não é porque o futebol

é futebol, que há manipulação. Os sujeitos que

atuam neste cenário cultural é que podem usá-lo

como instrumento político para a transformação

ou para a conservação das atuais relações de

poder. Valendo ressaltar que a manipulação do

esporte e da cultura não é patrimônio nem da

direita, nem da esquerda - apesar da primeira

ter mais tradição e know-bow. Este tipo de

manipulação freqüenta todos os partidos. Neves

e Dadinho, jogadores daqui de Belém que já

foram candidatos, são exemplos disso. 0

primeiro, em toda a sua trajetória de vereador

pelo PDS, fez um único pronunciamento, quando

pediu autorização à mesa para fechar a janela

pois estava chovendo - conta o folclore. 0

segundo, tinha tanta identidade com o PT, par-

tido pelo qual saiu candidato a Deputado

Estadual, que logo passada as eleições, nunca

mais se ouviu falar, a não ser em campo, é claro.

Mas, deixemos de lado esses

pequenos percalços que não chegam a arranhar a

magia e o encanto provocado pelos infinitos ca-

minhos feitos pela bola até às redes. E sempre

bom ficar com o que existe de maior no mais

popular dos esportes em todo o mundo. A capaci-

dade de transformar personalidades, de fazer luz

onde havia trevas, de fazer alegria onde só havia

tristeza. Ou vice-versa.

Nenhum exemplo é mais representati-

vo deste feitiço dos gramados do que Nelson

Rodrigues, autor das tragédias cariocas. Lúgubre,

funesto e pessimista dramaturgo que quando

empunhava a pena para desempenhar-se como

cronista esportivo, driblava a melancolia e com

alegria suas palavras bailavam comentando as

maravilhosas jogadas de Pele e Garrincha para

entrar com bola e tudo na meta dos críticos do

futebol brasileiro, num quase ufanismo impensá-

vel para Nelson. E como talvez dissesse, ele

próprio, qualquer coisa capaz de transformar

garis em magnatas, servos em reis, ainda que

por instantes, merece bem mais do que atenção. ►

Monoel do Nascimento:

desportista coloborador do Unipop

Cuíra23


Pois bem: - verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autori-

dades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope.

Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: - ponham-se

em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

0 que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pele leva sobre os

demais iogadores uma vantagem considerável: - a de se sentir rei, da cabeça aos pés.

Santos 5 x 3 América, 25/02/1958, no Maracanã, pelo Torneio Rio - São Paulo. Foi a primeira crônica de

Nelson sobre Pele - e a primeira em que o jogador foi chamado de "rei".

Amigos, todo o Chile se levantou para nós. A imprensa, o rádio, a TV, o homem de rua, as crianças

- quiseram triturar emocionalmente a "seleção de ouro". Nunca se fez um massacre

psicológico tão feroz contra alguém. 0 futebol passou para um plano secundário. 0 objetivo

único foi, repito, a liquidação psicológica dos craques brasileiros...

Garrincha! desde o começo da crônica que eu queria falar no Mane. E estou perdendo em floreios

como faria o já referido orador de

gafieira. Garrincha foi a maior figura do

jogo, a maior figura da Copa do

Mundo e, vamos admitir a verdade

última e exasperada: - a maior figura

do futebol brasileiro desde Pedro

Álvares Cabral. Quando eu dizia que

Garrincha era varado de luz como um

santo de vitral, os idiotas da objetividade

torciam o nariz. Reconheço que

faltava ao Mane, realmente um toque,

ou retoque, de martírio.

Desde ontem, porém, o Mane é mártir

oficial, mártir chapado, da cabeça aos

sapatos. 0 lívido, ogelado Eichmann

do apito o expulsou, com hedionda

conivência do bandeirinha Esteban

Marino. É a santidade, amigos. A coisa foi tão indigna como o seria a expulsão de São

Francisco de Assis...

Amigos, como é mais linda a vitória roubada. 0 juiz gatuno deu ao nosso feito uma dimensão

mais comovida e mais deslumbrante. Não faz mal o frango ou, por outra, o peru que Gilmar

engoliu. 0 nosso goleiro come seus frangos, seus perus, mas não se deprime, não se degrada

Não foi apenas a vitória do escrete. Foi sobretudo a vitória do homem genial do Brasil.

(1962)

Foi um assombro. Em pé. Tostão já é pequeno, pequeno e cabeçudo como um anão de

Velasquez. Imaginem agora deitado. Os ingleses ficaram indignados e explico: - um gol como

o de Tostão desafia toda uma complexa e astuta experiência imperial. Um minuto depois, ou

dois minutos depois. Tostão dá três ou quatro cortes luminosíssimos e entrega a Jairzinho. Este

põe lá dentro. Naquele momento ruía toda a pose inglesa. Era a vitória. (1969) ■

Fragmentos extraídos de

"A sombra das chuteiras imortais"

24Cuíra

PRINCIPAIS GOLEADORES

Artilheiros Pais Gols

Müller Alemanha 14

Fontaine Franca 13

Pele Brasil 13

Kocsis Hungria 11

Rahn Alemanha 11

Líneker Inglaterra 10

Cubillas Peru 10

Lato Polônia 10

Eusébio Portugal 09

Jairzinho Brasil 09

Paulo Rossi Itália 09

Rummenigge Alemanha 09

Seeler Alemanha 09

Vavá Brasil 09

Enfim a alegria de

Nelson Rodrigues

Ano Campeão Média de gols

30 Uruguai 3,8

34 ItáRa 4,11

38 Itália 4,66

50 Uruguai 3,8

54 Alemanha 5,38

58 Brasil 3,6

62 Brasil -

66 Inglaterra 2,7

70 Brasil -

74 Alemanha 2,55

78 Argentina 2,68

82 Itála 2,80

86 Argentina 2,54 \

90 Alemanha 2,1 4

As topas de 42 e 46 não se redtiraom em fmçM do Segumia

Grande Goerr o

A-EUA» SUICA. COLÔMBIA» ROMÊNIA

18.06-12h30{Detroit)

18.06-20li30 (Los Angeles)

22.06-20h3O( Los Angeles)

26.06-17ti(Detroit)

26.06-l7ti (Los Angeles)

26.06-l/h (SõoFrancisco)

EUA CZI x CZI SUÍÇA

COLÔMBIA IZZI x CZI ROMÊNIA

EUA CZI x CZI COLÔMBIA

ROMÊNIA [=1 x LZZI SUÍÇA

EUA CZI x (ZTI ROMÊNIA

SUÍÇA CZ) x CZJ COLÔMBIA

B - BRASIL . RÚSSIA . CAMARÕES . SUÉCIA

19.06-20li30 (Los Angeles)

20.06-I7h (Sõo Francisco)

24.06-17h (Sõo Francisco)

24.06-20li30(Delroit)

28.06-17h(Detroit)

28.06-l7li (Sõo Francisco)

CAMARÕES CZI

BRASIL LZD

BRASIL IZZI

SUÉCIA CZI

BRASIL CZI

RÚSSIA I I

CZI SUÉCIA

CZ1 RÚSSIA

CZI CAMARÕES

CZI RÚSSIA

CZI SUÉCIA

IZZ1 CAMARÕES

C - ALEMANHA . BOLÍVIA . ESPANHA • COREA DO SUL

17.06-16li(Cliicogo)

17.06-20li30(Dollos)

21.06-17li (Chicogo)

23.06-17li (Boston)

27.06-17li(Dollos)

27.06-17li (Chicogo)

ALEMANHA LZZI

ESPANHA IZC

ALEMANHA IZC

CORÉIA DO SUL IZZ1

ALEMANHA IZC

BOLÍVIA CZI

D - ARGENTINA . GRÉCIA . NIGÉRIA . BULGÁRIA

21.06-131130 (Boston)

21.06-20li30(Dollas)

25.06-17li (Boston)

26.06-13li30 (Chicogo)

30.06-20h30(Dollos)

30.06 ■20h30(Dollos)

ARGENTINA CZI

NIGÉRIA CZI

ARGENTINA CZI

BULGÁRIA CZI

ARGENTINA CZI

GRÉCIA CZ

E - ITÁLIA • EIRE • NORUEGA • MÉXICO

18.06-1711 (Nora Iorque)

19.06-27h(Woshington)

23.06-20h30 (Novo Iorque)

24.06-13h30(0rlonòo)

28.06-13h30(Wnstiington)

28.06-13h30 (Novo Iorque)

I I BOLÍVIA

CZI CORÉIA 00 SUL

CZI ESPANHA

CZI BOLÍVIA

CZI CORÉIA DO SUL

I I ESPANHA

CZ GRÉCIA

CZ BULGÁRIA

CZ NIGÉRIA

CZ GRÉCIA

CZ BULGÁRIA

CZ NIGÉRIA

ITÁLIA CZ x LZZ EIRE

NORUEGA CZ x CZ MÉXICO

ITÁLIA CZ x CZ NORUEGA

MÉXICO CZ x CZ] EIRE

ITÁLIA CZ x CZ MÉXICO

EIRE IZZ x CZ NORUEGA

F - BÉLGICA . MARROCOS • HOLANDA . ARÁBIA SAUDITA

19.06-13h30(Orolondo)

20.06-20h30(Woshington)

25.06 ■13h30(0rlonòo)

25.06 ■20h30 (Novo Iorque)

29.06-13h30(Woshington)

29.06-13h30 (Novo Iorque)

BÉLGICA CZ x LZ MARROCOS

HOLANDA ZZ x CZ ARÁBIA SAUDITA

BÉLGICA CZ x CZ H0IANDA

ARÁBIA SAUDITA I 1 x CZ MARROCOS

BÉLGICA ZZ x CZ ARÁBIA SAUDITA

MARROCOS ZZ x LZ H01ANDA

OITAVAS DE FINAL

m 03.07-20h30 (Los Angeles) IA

SI 03.07-14h(Dollos) 2r

BI 05.07-171130 (Novo Iorque) U

13 02.07-14h (Chicogo) 1C

[H 05.07-14h (Boston) 1D

[ü 02.07-mSOIWoshington) 2C

m 04.07-13h(0rlon(io) 1F

m 04.07-UhSO (Sõo Francisco) 1B

SI 10.07 ■16h30 (Sõo Francisco)

B 10.07-13h (Novo Iorque)

B 09.07-ISh (Boston)

B 02.07 ■16h30(Dollos)

SEMIFINAIS

QUARTAS DE FINAL

3C, D ou E

2B

2D

3A, B ou F

3B, E ou E

CZ] 2A

2E

I 3A,CouD

13.07-201130 (Los Angeles) 16.07 ■16h30 (Los Angeles)

Dl

13.07-17h (Novo Iorque)

IBl

El

VICE-CAMPEAO

3' lugar (perdedores)

17.07 ■16h30 (Los Angeles)

CAMPEÃO

Cuíra2 5


A pedagogia libertadora ganhou corpo

em nosso país com as práticas de Educação

Popular identificadas como conscientização, orga-

nização e libertação das classes oprimidas.

As experiências de Educação Popular

desenvolvidas fora da escola, criaram e recriaram

esta Pedagogia e hoje levam adiante este modo

PEDAGOGIA

LIBERTADORA

Um esforço teórico-práticopara superar os limites das pedagogias liberais

26Cuíra

1 ■ Este trabalho

infelizmente ainda é pequeno e é

composto por expenências isoladas

de olguns educadores, em suas

salos de aulas, de algumas ativi-

dades de formação realizadas com

profissionais de ensino formal por

educadores populares e de pro-

postos sistematizadas no pensa-

mento pedagógico brasileiro por

educadores a nivel nocionaL

Cristina Alcântara

de pensar e fazer educação, procurando aplicar

os princípios políticos-pedagógicos libertadores na

escola pública. 1

Minha experiência de trabalho educa-

tivo no Instituto Universidade Popular em Belém,

pôs-me em contato ativo com esta pedagogia,

desenvolvendo atividades formativas desde 988

com lideranças dos Movimentos Sociais de

Belém: sindicatos, entidades comunitárias, reli-

giosas, de assessorias, partidos, etc.

E no desenvolvimento destas ativi-

dades e no fazer pensar do Coletivo de Educadores

da Unipop que estamos construindo uma

Pedagogia Libertadora ou uma prática em

Educação Popular ou ainda uma Concepção

Metodológica Dialética. A partir dessa vivência

gostaria de, pretenciosamente, refletir acerca da

Pedagogia Libertadora com relação as pedagogias:

Tradicional, Escolanovista e Tecnicista, no sentido

de colocar a Pedagogia Libertadora, como um

avanço teórico-prático em relação a estas outras.

Para isso julgo ser indispensável enun-

ciar como compreendo esta pedagogia e suas

implicações na prática educativa, para a partir daí

enunciar as demais, tecer algumas considerações

que me fazem crer no avanço da primeira, ao

tomar para si elementos significativos das

demais, superando seus limites.

Princípios

políticos-pedagógicos

A pedagogia libertadora é aquela

"comprometida com a transformação social, que é

primeiramente, tomada de consciência da situação

existencial e, imediatamente, práxis (ação mais

reflexão) social, engajamento e autocrítica".

No processo de conscientização deve

dar-se a libertação do indivíduo com relação aos:

velhos valores e conceitos (preconceitos) "do

fatalismo social inculcado pelas elites domi-

nantes". 0 indivíduo deve principalmente libertar-

se da visão conservadora que o faz pensar e sen-

tir-se incapaz de aprender, de ser sujeito do conheci-

mento e da história, incapaz de lutar e construir

uma vida melhor. Para Paulo Freire: "A ação liber-

tadora... reconhecendo esta dependência dos

oprimidos como ponto vulnerável, deve tentar,

através da reflexão e do ação, transformá-la em

independência. Esta porém não é a doação que

uma liderança, por mais bem intencionada que

seja, lhes faça. Não podemos esquecer que a liber-

tação dos oprimidos é a libertação de homens e

não de coisas. Por isto, se não é auto-libertação -

ninguém se liberta sozinho -, também não é li-

bertação de uns feita por outros..." (Freire, 1987)

A pedagogia libertadora considera:

0 conhecimento - como algo a ser

construído pelo homem em suas relações sociais,

políticas, econômicas, afetivas, culturais...

0 homem - é um ser de relações,

inconcluso, sujeito de sua história, além de ser

individual é um ser coletivo.

A educação - é o processo pelo qual

o homem se conscientiza de sua situação social,

cultural, econômica, política, afetiva... 0 homem

deve ser visto em todas as suas dimensões, o

homem integral.

Como se constrói então, uma ação

educativa a partir de tal pedagogia e em que ela

se diferencia das demais?

Uma prática de educação popular

deve em primeiro lugar, ter consonância entre

teoria e prática libertadora, não como um

encaixe perfeito, (ou como uma teoria comporta-

mentalista) - se eu pensar como um educador

libertador, minha prática será libertadora, pelo

contrário, deve-se buscar desenvolver práticas

educativas libertadoras para tornar-se um edu-

cador libertador. Para tanto é preciso comprome-

ter-se "politicamente com o oprimido", com a

mudança social, econômica, política, cultural,

moral e ética da sociedade e dos indivíduos que a

compõem, com os educandos.

Necessário também, é entender o

papel da educação neste processo de mudança e

seus limites. É fazer educação do contexto, ter

consciência do por quê, com quem e para quê

estamos fazendo educação.

Passado o tempo em que a paixão pela utopia da

transformação social estava acima de tudo, a educação

popular virou escola, virou metodologia, possui

fundamentos teóricos que são rigorosamente testados

constantemente em inúmeras práticas pedagógicas as que se

espalharam pelo país nas duas últimas décadas. A: igora o

desafio é fazer a Escola virar Educação Popular.

Esta opção política não deve, porém

fazer da educação uma atividade desprovida de

prazer, de alegria. Já disse Rubem Alves: "A esco-

la precisa ser mais alegre para ser mais séria".

Consciente de sua opção, o educador

popular deve então, "lançar mão" dos princípios^

Teatro de boneco:

mais um recurso

didático

Ana Cristina Alves de

Alcoôntora: Pedagoga,

educadora popular do Unipop

e do ensino fundamental da

rede municipal de Belém

Cuíra27


28Cuíra

político-pedagógicos que compreendem a peda-

gogia libertadora recriando-a na prática, e numa

ação consciente, construir uma concepção

metodológica que encaminhe suas ações.

Esta construção percorre o mesmo ca-

minho dialético da formação do educador libertador:

prática/teoria/prática ou ação/reflexão/ação, ou

seja, é preciso a partir da prática social dos envolvi-

dos no processo educativo.

A concepção metodológica construída

pelos educadores populares em práticas de edu-

cação popular á a Concepção Metodológica

Dialética. Esta difere de metodologia e de méto-

do porque é mais ampla que estes, compreende,

além das técnicas, dos procedimentos e recursos,

os objetivos a serem alcançados, o conhecimento

(ou conteúdos) a serem produzidos e apropria-

dos, as avaliações... todos ligados a uma

filosofia, a uma teoria do conhecimento que ori-

Jogos e dinâmicas ajudam o processo de aprendizagem estimulando a participatividade

entou a definição dos mesmos dando-lhes sentido

e perspectiva. Num dizer dialético, envolve visão

global do processo e do produto.

Estes fundamentos nos fazem identi-

ficar os limites das pedagogias liberais -

Tradicional, Escola Nova e Tecnicista, em seus

princípios político-pedagógicos que veêm a escola

como "redentora da humanidade" e, ao mesmo

tempo, na neutralidade desta face aos problemas

sociais, a "especificação" da escola. Tais peda-

gogias orientam-se pela doutrina liberal que justi-

fica o capitalismo, haja visto que: "...sustenta a

idéia de que a escola tem por função preparar os

indivíduos para o desempenho de papéis sociais

de acordo com as aptidões individuais, por isso

os indivíduos precisam aprender a se adaptar as

valores e as normas vigentes da sociedade de

classes através do desempenho da cultura indivi-

dual..." (Luckesi, 1992)

Por considerarmos estes princípios

conservadores e portanto antagônicos aos da

pedagogia libertadora, não são esses, logica-

mente, os elementos que encontramos no interior

da Concepção Metodológica Dialética.

Como nosso propósito não é apresen-

tar um quadro completo das tendências pedagó-

gicas enunciarei-as a partir de alguns elementos

que compõem a Concepção Metodológica

Dialética, os quais, julgo estarem presentes nas

pedagogias liberais no seu "como fazer", procu-

rando demonstrar em seguida sob que ótica são

vistos na Pedagogia Libertadora.

Estes elementos são:

1 - Na Pedagogia Tradicional: a questão do co-

nhecimento acumulado e sistematizado historica-

mente pela humanidade.

2 - Na Pedagogia Escalonativa: a preocupação

com o indivíduo e as relações interpessoais.

3 - Na Pedagogia Tecnicista: as técnicas de ensi-

no, os recursos didáticos.

1 - A Pedagogia Tradicional tem como eixo cen-

tral o intelecto, a racionalidade. 0 importante é o

aspecto lógico e a quantidade de conhecimentos

transmitidos ao aluno como forma de igualar-se

aos outros em oportunidades de ascender social-

mente. 0 conhecimento acumulado historica-

mente, seu conteúdo, é a razão de ser dessa

pedagogia. 0 professor transmite os conhecimen-

tos sistematizados logicamente e os alunos

assimilam os conhecimentos transmitidos através

de métodos predominantemente unilaterais,

mecânicos, despossuídos de crítica e criação. Aqui

o saber do aluno não tem lugar pois o professor

é o detentor de todo o saber.


44 E pensar o homem enquanto indivíduo, em suas

subjetividades, não para individualizá-lo. Mas

para integrá-lo numa caminhada de

transformação social, política, econômica,

cultural e das relações humanas".

A pedagogia Libertadora e as práticas

de Educação Popular, são comumente acusadas

de serem desprovidas de conteúdos definidos, de

haver um "politização" ou "ideologização" da

educação e que a cultura, ou conhecimento cien-

tífico acumulado seria reieitado ou relegado nas

práticas educativas.

Isso para nós não constitui uma ver-

dade senão vejamos:

Em sua concepção metodológica e

pedagogia libertadora, tem como eixo nas práti-

cas de Educação Popular a práxis

(reflexão/ação) que se traduz em partir da práti-

ca social do educando que:

"...Supãe basear-se nos elementos

objetivos que surgem na vida cotidiana de um

grupo ou segmento da sociedade: os elementos

provenientes de sua prática produtiva concreta,

de sua prática organizativa, do contexto econômi-

co social em que se desenvolve sua atividade.

Além disso, supõe partir também de ele-

mentos subjetivos: os conhecimentos e interpre-

tações que este setor social já adquiriu em sua expe-

riência. Isto implica considerar suas formas de

expressão, sua linguagem, suas manifestações cultu-

rais e artísticas, seus valores." (Jara, 1985)

Todo esse saber adquirido no ser

social, no vivido, deve sofrer um processo de

reflexão para possibilitar sua recriação.

Deste ponto de partida, a apropriação

do conhecimento científico passa a ter sentido, já

que: "... a primeira tarefa do trabalho de edu-

cação... consiste em romper aquele monopólio

do conhecimento universal criando com as maio-

rias trabalhadoras ou marginalizadas, mecanis-

mos e formas de aprendizagem que conduzam:

- à compreensão científica articulada, profunda

do seu próprio saber, no contexto do universo cul-

tural do seu povo.

- à apropriação e utilização do conhecimento uni-

versal acumulado, segundo a lógica das suas próprias

necessidades e interesses." (Arruda, 1987)

Isso porque "este saber não nasceu

da cabeça de alguns iluminados, mas foi gerado

e teorizado a partir de segmentos da

humanidade em diferentes épocas e etapas de

desenvolvimento da história e da consciência.

(Arruda, 1987)

Neste sentido, o conhecimento acumula-

do tem seu lugar na Pedagogia Libertadora. Não é

entretanto, como na Pedagogia Tradicional, o conteú-

do único e nem um fim em si mesmo, mas é articu-

lado com a situação existencial do educando. Não é

visto também como algo pronto para ser transmitido,

mas deve ser dado a conhecer e sofrer um processo

de problematização para ser validado, negado ou

recriado.

2 - A Pedagogia Escolanovista pre-

tendendo se contrapor ao academicismo e aos

métodos mecanicistas da Pedagogia Tradicional,

centra sua atenção no aluno e nas relações inter-

pessoais. 0 trabalho de grupo é privilegiado

enquanto técnica. 0 relacionamento e as expe-

riências vividas pelos alunos, através das ativi-

dades escolares, são enfatizados como conteúdo.

0 aluno deve "aprender a aprender", pensar por

si próprio. "Só se aprende a fazer, fazendo".

Na relação professor-aluno o papel do

professor é o de auxiliar o desenvolvimento livre

e espontâneo do aluno. 0 interesse individual é o

que move a ação educativa.

Contudo, não podemos esquecer que a

Pedagogia Escolanovista inspirada nos princípios

(ideais) liberais não tem a preocupação política

com a transformação social e nem a de preparar

indivíduos para nela intervir de forma crítica e

democrática e sim ajustá-los à sociedade, desenvol-

vendo cada um a partir de seus interesses e

aptidões. 0 objetivo principal é a realização pessoal,

o desenvolvimento das aptidões, a individualidade. ^

Cuíra29


30Cuira

Os processos educativos libertadores

também consideram os alunos-educandos em seu

processo de aprendizagem como elementos

importantes, o trabalho em grupo é sempre bus-

cado como uma forma de construir coletivamente

o conhecimento onde recupera-se o saber de

cada um, confrontando-os entre si e com o co-

nhecimento científico acumulado. 0 saber de

cada um torna-se o saber de todos.

Como vemos é uma visão diferenciada

que considera o aluno-educando como ser social de

relações mas, as relações sociois são antes de tudo

relações humanas, feitas por homens.

Assim acreditamos ser necessário que

o educação caracterize-se como uma ação

humana, não individualizante; é preciso contribuir

no desenvolvimento do ser indivíduo paro pensar

e agir (se relacionar) na sociedade/comunidade,

distinguindo e aceitando diferenças (ação plura-

lista); buscando engajar-se na construção de um

projeto social, econômico, político e cultural, coletivo,

para a humanidade, tornando-se um ser social,

sujeito consciente engajado nas lutas de seu tempo.

Emprestando a fala de Marcos Arruda

(1990):"... devemos pensar num processo de

libertação que não é só material, político e social,

mas também de libertação integral do ser

humano. Queremos construir desde já uma nova

sociedade, e junto com ela uma nova

humanidade, o que nos obriga a pensar neste

projeto em oposição ao projeto capitalista... E

fundamental entendermos essa dialética do social

e do indivíduo para que nosso projeto envolva

todas essas dimensões ao mesmo tempo..."

A questão da autonomia do educando

e do "aprender a aprender" tem aqui o objetivo

de construção da independência intelectual, da

auto-educação, como condição para que estes

possam dar continuidade a sua educação a partir

dos processos educativos a que estão sujeitos em

sua vido social, familiar, escolar, etc. Significa

dizer que não se descarta com isso a necessidade

e a importância do conhecimento científico acu-

mulado, das contribuições dos educadores sejam

eles professores, companheiros de luta, fami-

liares, amigos... Como bem disse Paulo Freire

(1987): "Ninguém educa ninguém, ninguém

educa a si mesmo, os homens se educam entre

si, mediatizados pelo mundo", (p. 68)

Daí pensarmos que é preciso pensar o

homem enquanto o indivíduo, em suas subjetivi-

dades, não para individualizá-lo, para fragmentar

a humanidade, como pensamos acaba por fazer

a Pedagogia da Escola Nova. Mas para integrá-lo

numa caminhada de transformação social, políti-

ca, econômica, cultural e das relações humanas

como se propõe as ações educativas da

Pedagogia Libertadora.

3 - A Pedagogia Tecnicista empenha-

se em produzir bons profissionais, tecnicamente

capazes de fazer bem o que o sistema produtivo

capitalista necessita: realizar com eficiência

"partes" do processo produtivo. À escola é reser-

vado portanto, o papel de preparar tais profissio-

nais no menor espaço de tempo possível. 0 ensi-

no busca a eficiência técnica, a produtividade.

Inspirada no positivismo, na

Psicologia Behaviorista, na informática, a escola

procura para alcançar os seus propósitos: objeti-

var o trabalho pedagógico, suprimindo com isso a

subjetividade, colocando a tecnologia educacional

como um meio de obter os resultados esperados

- racionalidade, eficiência e produtividade.

0 importante nesta pedagogia é

aprender a fazer. Seu conteúdo, o que deve ser

aprendido, origina-se da ciência objetiva, o que é

observável, mensurável., "são informações, princí-

pios científicos, leis... encontam-se nos manuais,

nos livros didáticos, nos módulos de ensino, nos

dispositivos audiovisuais, etc." (Luckesi, 1992)

Não são considerados o debate, os

questionamentos, as relações afetivas e emo-

cionais que se manifestam no processo ensino-

aprendizagem.

0 planejar, executar e avaliar busca-

vam garantir o controle do comportamento dos

alunos os quais, deviam dar respostas adequados

aos estímulos externos dados pelo professor. Ao

professor cabe o papel de selecionar e aplicar téc-

nicas adequadas para atingir os objetivos

definidos no planejamento, ficando subjugado a

estas ao transmitir conhecimento ao aluno.

Na Pedagogia Libertadora as técnicas

de ensino não são vistas como um meio mecâni-

co (mesmo tendo estas o caráter prático) mas

sim dinâmico, participativo, democrático de

desenvolver o processo ensino-aprendizagem;

devem estar articulados como dissemos no início

deste texto, num projeto global de umo prática

educativa libertadora.

Neste sentido, consideramos também

que: "Toda técnica é tecida e envolvida por deter-

minados ideais educativos. Não é a técnico que

define o ideal educativo, mas o contrário. Assim

é possível usar do retroprojetor sem ser tec-

nicista. É possível realizar estudo dirigido sem

aquela auréola planificante que o definia. É pos-

sível a aula expositiva sem ser tradicional... E

sempre significativo para o processo pedagógico

concreto que as técnicas de ensino não


obscureçam ou não enevoem a necessária subje-

tividade entre professor e aluno e entre os

próprios alunos em virtude do que os reúne..."

(Araújo, 1991)

Nas práticas de Educação Popular as

técnicas têm sido consideradas como instrumen-

tos, e estão em função dos objetivos que se quer

alcançar. São usadas para diagnosticar, para reve-

lar problemas ou situações (mímica, teatro,

jogos, etc); para obter informações rápidas

(entrevistas informais, individuais e coletivas);

para integrar, motivar grupos de estudo (jogo

lúdico, dinâmicas de grupo); para motivar análi-

ses, veicular conhecimentos, informações, desen-

volver a criticidade e a criatividade (filmes, audio-

visuais, análise individual e coletiva de textos e

documentos, cartazes, flanelógrafos, debates,

exposição dialogada, etc.)

Acreditamos que na Pedagogia

Libertadora as técnicas ganham uma importância

coerente com o papel que podem e devem

desempenhar no processo educativo, tornando-se

"aliados" de educadores e educandos no proces-

so de apropriação e recriação do conhecimento,

diferentemente do papel de "aprisionadora"

destes sujeitos na pedagogia tecnicista.

Considerações finais

Um pensamento pedagógico deve ser

entendido em sua origem, autores e contexto

histórico-social. Seus elementos, dentro de uma

visão global, da orientação filosófico-pedagógica

que permeia tal pensamento.

Daí pensarmos que:

1 - Mesmo com nuances modern-

izantes com relação a Pedagogia Tradicional, o

Escolanovismo e o Tecnicismo não avançaram

nos princípios pedagógicos apenas mudaram seus

eixos de trabalho, ajudando a burguesia da época

(e de hoje) a assegurar seus propósitos haja

vista que, mesmo com seus métodos autoritários

a Pedagogia Tradicional estava elevando a cultura

do povo, e conseqüentemente seu processo orga-

nizativo e reivindicativo.

"...Uma vez organizadas, as clas-

ses populares lutavam pela redução da jorna-

da de trabalho, o que fatalmente iria lhes pos-

sibilitar maior tempo de lazer e de estudo.

Isso, certamente, não agradava aos setores

mais retrógrados da burguesia. Eram precisas

modificações para estancar esse processo. E,

sem dúvida, algumas modificações passavam

pela pedagogia." (Ghiraldelli, 1987)

A Pedagogia Libertadora vem se

construindo enquanto projeto político-pedagógico

através de experiências concretas de entidades

não governamentais e de educadores no ensino

formal que se contrapõem aos propósitos políti-

cos-pedagógicos das Pedagogias Liberais; procu-

rando através de ações educativas libertadoras,

democratizar o acesso das camadas populares ao

conhecimento científico acumulado, a processos

educativos que libertem e liberem suas consciên-

cias oprimidas pelas idéias dominantes, construin-

do sua auto-valorização e participação na luta

pelos seus direitos de cidadão.

Quanto ao seu projeto pedagógico, os

elementos a ele incorporados não são peças

acessórios, para construir um belo e democrático

"mosaico pedagógico" mas sim compõem um

projeto global articulado em construção pelos

educadores-educandos, sujeitos do processo

educativo.

E ainda, por considerarmos esta

pedagogia e as ações educativas decorrentes

desta um avanço teórico-prático em relação as

pedagogias liberais, acreditamos ser

necessário um amplo movimento de edu-

cadores que numa perspectiva dialética, ve-

nham a praticá-la, refleti-la e recriá-la no infe-

rior da escola pública brasileira. ■

ALVES, Rubem. Conversa com quem gosta de Ensinar. 2' edição, São Paulo, Cortez, 1986.

ARRUDA, Marcos. Metodologia da Práxis e Formação dos Trabalhadores. PRIES-CONO SUR, Textos para reflexão n ?

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CANDAU. Vera Moria e LELIS. Isabel Alice. A Relação Teoria-prática na formação do educador in: CANDAU, V. Maria

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DOURADO. Luis Fernandes. Tendências atuais da Pensamento Educacional Brasileiro: Abordagens Progressistas, uma

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VEIGA, lima P. Alencostro. at. ai. Técnicas de Ensino: Porque não? 3 ? ed.. Campinas, Papirus, 1991.

Cuíra3 1


ENTREVISTA

Jornalista há mais de 25 anos.

Lúcio Flávio Pinto esti

ando hoje

uma das suas piores batalhas: uma queixa-

crime protocalada no ano de 1992 pela

a administrativa do grupo Liberal.

Rosângela Maiorana Kzam.

Em entrevista exclusiva à Cuíra,

;ta lula, abordando

principalmente e de forma taxativa, a

de Imprensa, que para que

Rosângela Maiorana Kzam abrisse um

processo contra ele, pedindo a sua conde-

nação por crime de calúnia, injúria e

Mostrando-se indignado com

acontecimentos, este jornalista "solitário,

individualista e anarquista" como ele

mesmo se define, declara que sua paciência

está se esgotando e a partir do momento

que a "ilegitimidade"' dos latos se tornar

"patética", ele falará muito mais e tem

certeza que o escândalo causará um

impacto muito maior.

Para Lúcio Flávio a grande

imprensa da região ao invés de lazer o seu

papel, enquanto veículo de comunicação, se

confunde entre os atores dos acontecimen-

tos, resultando deste

puramente comercializado e funcionando

mais como um balcão de negócios.


Cuíra: Lúcio, você está sendo processado pela

família Maiorana e uma arma forte para que isso acontecesse foi

a Lei de Imprensa. Qual a sua opinião diante disso?

Lúcio: É uma lei de 1967, originária do período mili-

tar. Ela possui suas particularidades, porque favorece aquele que é

irresponsável, leviano, que vai a juízo, quando é acionado, e se

retrata. Qualquer pessoa, seja jornalista ou empresário que fez

alguma declaração sem fundamento para a imprensa, tem o di-

reito de ir até a justiça e se retratar, ficando assim o "dito pelo

não dito".

A verdade é que essas pessoas se aproveitam de algu-

mas sutilezas da lei e conseguem evitar um processo contra elas.

Entre estas está o ex-presidente do sindicato dos Bancários, Carlos

Levy, que foi processado inúmeras vezes e conseguiu escapar.

Outro também, é o sr. Silas Assis, que tem um jornal, "Jornal

Popular", que não apura nada, é um jornal de agressão e até hoje

não foi processado.

Diante disso a Lei de Imprensa é uma lei que procura

fazer apenas controle político da imprensa. Para se ter uma idéia

um dos dispositivos, do qual fui acionado também, exige a identi-

ficação da gráfica onde o jornal é impresso, o que é uma aber-

ração se compararmos com outros países, que exigem somente o

nome do responsável pelo jornal.

0 que se pode tirar disso é que na época, devem ter

surgido alguns jornais que tinham como ponto fraco, apenas a grá-

fica. Através desse dispositivo fez-se uma pressão contra as gráfi-

cas conseguindo que esses jornais não fossem impressos. É uma

lei absurda que aprofunda e agrava o código penal, o único capaz

de regular a imprensa, mesmo sendo ruim e impreciso.

Como tomamos de exemplo a imprensa dos Estados

Unidos, deve-se destacar que após ter sido concluída e aprovada a

Constituição Norte-americana, foi criada a primeira emenda, que

garantiu a liberdade de imprensa acima de qualquer princípio de

organização do Estado. Eu não sei porque não tomamos esse dis-

positivo como melhor exemplo, eliminando qualquer ação tutelar

do Estado.

Cuíra: E qual seria a melhor forma para que a liber-

dade de imprensa fosse possível?

Lúcio: A minha idéia é que as empresas a partir de

um certo volume de faturamento, deveriam ser obrigadas a abrir

o capital e desse capital, ninguém teria mais que 1%, o qual

seria oferecido ao público paro se tornar também proprietário da

empresa.

As empresas familiares não teriam mais que 51%, que

garante o controle da empresa. Os outros 49%, aberto ao público,

daria direitos a fazer substituição de capital em períodos anuais,

seja por via direta ou indireta, consangüínea ou afins, garantindo

assim o direito da minoria. Com isso evitaria que as empresas jor-

nalísticas se tornassem um instrumento de negócios e de política

dos donos.

Em segundo lugar, todas as empresas desse porte, que

são obrigadas a se transformarem em sociedades anônimas, deve-

riam ter um conselho consultivo em que metade fosse da empresa

u

I

I

I

IM

e a outra metade dos acionistas minoritários. Este conselho

serviria para acompanhar e fiscalizar a empresa pelos seus pro-

prietários.

Esses ao meu ver, seriam os dois pontos fundamentais,

porque é muito melhor a liberdade de imprensa, do que uma lei

de imprensa, mesmo que seja bem elaborada.

Cuíra: Há mais de cinco anos você publica o jornal

"Pessoal", um jornal alternativo. Por que você optou pelo jornalis-

mo alternativo?

Lúcio: Tem um escritor, Bernardo Recinski, que fala

sobre a imprensa alternativa no livro "Jornalistas e

Revolucionários", que diz no início do livro que no Brasil alguns

jornalistas fizeram tanto jornalismo alternativo, que criaram um

estilo alternativo de se fazer jornal. Entre estes estão Paulo Francis

e eu, mesmo possuindo diferentes posições mas que se tornaram

alternativos na imprensa.

Comecei a fazer jornalismo alternativo ainda na déca-

da de 60. Participei dos maiores empreendimentos alternativos do

Brasil, "Opinião" e "Movimento", 1973. Em Belém criei

"Caderno 2", um suplemento dos grandes jornais. Depois

"Bandeira 3".

Mas em 1987 eu estava numa situação muito cômoda

na grande imprensa. Era correspondente do Estado de São Paulo,

onde trabalhei 17 anos. Era o principal jornalista de "O Liberal",

escrevia a coluna "Repórter 70". Tinha um programa de televisão,

na TV Liberal, onde tinha toda a liberdade para fazer o que

quisesse.

Nessa época foi assassinado o Paulo Fonteles. Não só

por ser amigo, mas a forma como ele foi morto me chocou muito

e diante disso, eu não queria que esse crime fosse mais um a ficar

impune. Então resolvi apurar o que tinha acontecido de fato, dedi-

cando-me dia-a-dia, colhendo tudo sobre o caso.

Após três meses de apuração e com todas as infor-

mações, resolvi escrever a matéria para 0 Liberal contando sobre

o crime. Só que O Liberal recusou

"A lei de

imprensa

favorece

aciueie

que é

irresponsável,

leviano,

ciue -vai a

juízo

ciuando

é acusado.

publicar, porque envolvia dois

empresários, um deles o mais rico da

terra, Jair Bernardino de Souza, da

Belauto, e Joaquim Fonseca, da

Jonasa.

0 Liberal se recusou a publicar

minha matéria na página do jornal,

mas como a matéria era boa, decidiu

publicar a matéria num jornal sob a

minha responsabilidade. A matéria

saiu com tudo e isso causou muito

impacto, proporcionando-me o

respeito de muitas pessoas.

0 segundo jornal o grupo Liberal

não quis publicar, porque eu contei o

rombo do Banco da Amazônia, de 30

milhões de dólares. Eu achei um

retrata." absurdo porque ninguém falava do^

Cuíra33


caso e estava todo mundo tranqüilo. 0 Liberal se recusou, porque

o chefe da quadrilha que tinha feito o rombo era o presidente

interino do Banco e procurador do Liberal, Augusto Barreira

Pereira.

A Província não dava nada porque um dos envolvidos

era Billy Blanco, compositor de música popular, irmão do superin-

tendente do jornal. 0 Diário não tocou no assunto porque Barreira

Pereira era apoiado por Jáder. Diante disso a minha saída era

procurar uma gráfica e publicar a matéria.

0 número três foi uma matéria sobre o narcotráfico em

Belém. Levantando essa questão, passei a ter problemas com a

gráfica que publicou o número dois, e mais uma vez fui atrás de

outra gráfica.

A partir daí vi que era necessário cada vez mais fazer o

jornal, porque eram assuntos gravíssimos que precisavam ser

divulgados. Dentro do assunto narcotráfico, se fosse solucionado

na época, o Pará não seria hoje o principal ponto de passagem de

cocaína no Brasil.

Eu vi que cada vez mais estavam surgindo fatos que o

público não podia ficar sem saber. 0 problema disso tudo é que eu

fui me desgastando e quebrando relações com pessoas pelas

quais nutria muita consideração.

Cuíra: Dizem que você não tem mais entrada nos

grandes veículos de comunicação em Belém. Isso te afeta de que

forma?

Lúdo: Fazer o Jornal Pessoal é

sacrificante e não tem viabilidade nenhuma. Se

eu pudesse escrever para a grande imprensa,

escreveria, porque nela, teria um contato maior

com o público e não iria me expor tanto.

Aqui na região fui o único jornalista

que fez uma matéria denunciadora do narcotráfi-

co. Sei com quem estou me envolvendo e não

queria estar nessa luta. Dei algumas das minhas

informações a outros jornalistas, mas não foi

publicado nada, talvez porque não quiseram ou

não puderam publicar.

Na grande imprensa eu não iria me

expor desse jeito, porque ela dilui isso e antes

de chegar até você há uma instituição jurídica

por trás.

Há pouco tempo atrás eu me ofereci

a escrever numa empresa fornalística, sem

cobrar nada. Achei que seria bom para ambos.

Só que os diretores não aceitaram, alegando que

a hora que entrasse na empresa iria sair um

certo número de publicidade.

Na imprensa nacional eu tenho

espaço, só que não quero sair da minha terra e

mesmo porque não tenho mais disposição para

trabalhar na grande imprensa.

Cuíra: 0 fato das pessoas estarem

solidárias contigo, não te incentiva? Você deve

ter sentido no dia em que foi feito um ato públi-

co em sua homenagem.

34Cuíra

"Um ainnigo

me ligou

e> disso c|ue

cobririci a

despesci do

jornol p>ossool

todo mõs.

Podi ouo

aguardasse

o próximo

númoro.

O riúmoro

seguinte foi

uma

F>ut>iioação

oontra a

oonstrutora

dele e

logioamente,

ele se

recusou a

ajudar."

Lúcio: Eu só tenho é que agradecer. Mas no fundo

não me incentiva tanto, porque tenho um trabalho solitário, faço o

jornal sozinho, e não quero expor ninguém além de mim. Desse

modo passo a ter todos os ônus desse trabalho, que vão desde

problemas financeiros, rompimento com velhos amigos e uma

solidão que é cada vez maior, isso tudo por eu querer fazer um

jornalismo sério.

Existem pessoas que querem me ajudar a escrever o

jornal sem cobrar nada, mas não aceito, porque vai contra a

minha consciência profissional.

Teve uma vez, quando eu ia publicar o número seis do

Jornal Pessoal, um amigo me ligou e perguntou o custo do jornal.

Eu disse que era x, ele imediatamente disse que cobriria as despe-

sas do jornal todo mês. Mas não aceitei e disse que esperasse até

o próximo número para conversarmos sobre o assunto. 0 número

seguinte foi uma publicação contra a construtora dele e logica-

mente, ele se recusou a me ajudar. Ele não queria me ajudar e

sim me dor parte de uma ajuda, é por esse motivo que não aceito

publicidade no meu jornal.

Cuíra: Você é formado em Sociologia. 0 que lhe

levou a atuar na área de jornalismo?

Lúcio: Meu pai era jornalista e tinha um jornal

"Baixo Amazonas", em Santarém-PA. Ele fazia tudo nesse jornal,

desde a produção até escrever as matérias. Então isso vem no

sangue mesmo.

Nem me lembro quando comecei a escre-

ver. Eu fiz jornal infantil, juvenil, de estudante,

jornal do Movimento da Trindade, um jornal

mimeógrafo para o curso de Letras, enfim todo

tipo de jornal. Tive primeiro vocação, pensei em

ser jornalista e sou até hoje.

0 meu primeiro trabalho foi na Província do

Pará, aos 16 anos, totalmente cru, o que resul-

tou numa matéria que foi um fiasco, isso me

desanimou muito. Mas o redator-chefe da

Província, Cláudio de Sá Leal, hoje do jornal 0

Liberal, disse para eu ir para casa e escrever

sobre o final da Segunda Guerra, já que era um

assunto, história, que eu gostava e que tinha

domínio. No outro dia entreguei a matéria, e no

dia seguinte o meu artigo saiu na primeira pági-

na do jornal a partir daí comecei a trabalhar na

Província.

Após um tempo fui para o Rio de Janeiro,

trabalhei no Correio da Manhã, que fechou na

época militar. Depois de voltar para Belém e tra-

balhar na Província novamente, é que fui para

São Paulo, onde trabalhei na Vejo, Realidade e

outros veículos de comunicação como a rádio El

Dourado.

0 curso de Sociologia foi porque acredito

ser importante um curso de nível superior, para

que seja valorizada a profissão de jornalista,

que sem nível superiror será muito mais desva-

lorizado.


Não acho que seja necessário o curso superior para a

área de comunicação, digo isso aos meus alunos. Acredito ser

importante o curso de Comunicação, não a cobrança do diploma

de nível superior. Isso só acontece aqui no Brasil, fora daqui quem

define quem é bom ou mau jornalista é o mercado.

Cuíra: Quando começou e quem está realmente

envolvido na briga entre você e a família Maiorana?

Lúcio; Começou em outubro de 1992, em duas

frentes. Em uma estava Rômulo Maiorana Júnior, o principal exe-

cutivo da empresa, que entrou com uma representação, pedindo

ao Ministério Público me forçar, através de registro, dizer qual a

gráfica que era impresso o meu jornal. E na outra, Rosângela

Maiorana Kzam, que entrou com uma queixa-crime, com base na

lei de imprensa, por eu ter feito uma matéria mostrando as brigas

internas entre ela e o "Rominho". Desde então, ela é a única

autora da ação.

Foi proposto por ela cinco ações, quatro penais

baseadas na lei de imprensa e uma maluca, ação cautela, paro

me impedir de falar o nome dela no meu jornal.

Desde aí vem se arrastando uma série de processos

com uma série de recursos e medidas proteladoras. Venho perden-

do muito tempo com isso. Tudo por causa de uma ação maluca e

caprichosa da Sra. Rosângela Maiorana Kzam.

Se 0 Liberal cumprisse com o seu papel, enquanto

veículo de comunicação, sério, não era preciso eu mostrar as con-

tradições do grupo.

É em cima disso que eu me revolto. Eu que tenho 28

anos de profissão, fazendo jornalismo com seriedade, não posso

continuar porque tenho que preencher o meu tempo no Fórum,

verificando cada passo do processo.

Cuíra: E como está o andamento do processo?

Lúcio: Sofre interferência do poder. Se fosse um

exame do direito, do mérito, não precisava dar esse desgaste

todo. Mas não é, e tem acontecido coisas comigo que um dia eu

vou ficar cheio de indignação e vou contar todas as sujeiras que

eu sei. 0 que tenho a falar são fatos muito mais sérios e tenho

certeza que causará um escândalo muito maior.

Eu estou sendo vítima de um complô. Por enquanto

estou aceitando as regras, só que elas serão aceitas até o seu li-

mite. Por causa do meu conceito ético, quando chegar o ponto em

que a ilegitimidade se tornar tão patética que não poderei ficar

calado, vou falar tudo, porque nessa hora terei certeza que não

dará mais para ocultar nada.

Cuíra: Como você vê o jornalismo na região

amazônica?

Lúcio: Com muita tristeza. Não quero ser o herói do

jornalismo da Amazônia, o que eu quero é que tenha jornalistas

fazendo o que eu faço, mais e melhor. Isso infelizmente não acon-

tece.

0 que vejo é que há alguns anos me empenho a for-

mar jornalistas, onde a maioria se frustra ou renuncia a mostrar a

realidade da sua região. 0 jornalista da Amazônia tem uma

função muito importante, porque antecede, precede e substitui os

outros cientistas.

Os jornalistas da nossa região têm uma dificuldade

ISI

I

T

enorme, porque ninguém pode saber o que está acontecendo na

Amazônia se não viajar para o interior, onde acontece muita coisa

importante. 0 que sai nos grandes jornais da Amazônia é só mate-

rial coletado das agências de notícias.

Jornalista tem que estar na rua, não em um gabinete.

Jornalista que não viaja não é jornalista. As empresas jornalísticas

são as que mais contribuem com isso, porque não investem mais

nos seus profissionais, se transformando tudo num balcão de

negócios.

Cuíra: 0 Jornal Pessoal parou durante seis meses,

para que serviu essa parada?

Lúcio: Em nada. 0 que tinha de pensar ou refletir

sobre o jornal já foi feito. Eu tenho clareza que é um jornal inviá-

vel economicamente, que alcança pouca gente e que não estou

fazendo tudo que um jornalismo poderia fazer, porque é um tra-

balho solitário, "onde eu nado contra a maré". Sei que um dia

poderei ser sufocado, mas é uma compulsão do meu senso de

dever que é mais forte que o meu instinto de sobrevivência.

Cuíra: Algumas pessoas sentem dificuldades em

chegar contigo e prestar solidariedade. Umas atribuem isso a um

certo estrelismo de tua parte. 0 que você tem a falar a essas pes-

soas?

Lúcio: Não acho que sou estrela no sentido de

atribuir um brilho que não tenho. Eu sei o brilho e a opacidade

que existe em mim. 0 que acontece é que sou uma pessoa muito

solitária e não gosto de manifestações ou atos públicos. Sempre

preferi o papel de repórter, porque não sou personagem, sou o

cronista que relata. Raramente aceitei isso e quando aconteceu foi

muito estranho para mim.

Detesto o contato com o público. A minha realização é

uma máquina de escrever, ela é o meu mundo e eu me projeto

atrás dela. Nunca gostei de aparecer. 0 meu primeiro discurso foi

quando assumi a diretoria do sindicato dos jornalistas, isso porque

acharam que seria bom.

Sou absolutamente individualista e tenho uma

afinidade com o anarquismo, porque sou só e considero a minha

vontade e o meu poder limitado apenas pela minha consciência

ética.

Isso dificulta que as pessoas se cheguem comigo, não

há dúvidas. Sei também que faz eu ficar cada vez mais só. Muitas

amizades perdi, porque não poupo ninguém e não entenderam o

que escrevi. Os poucos amigos que tenho sabem disso.

Essa difi-

culdade é própria

da minha personali-

dade, não que eu

seja o maior jorna-

lista, o iluminado,

do Pará. Eu sei do

meu valor e

ninguém precisa

me dizer. Tudo isso

é tão transitório

quanto a poeira no

tempo.!

Cuíra35


©ofca

SEJA ASSINANTE DA ÚNICA REVISTA DA

AMAZÔNIA QUE FALA DO MOVIMENTO

POPULAR,DO MOVIMENTO SINDICAL,

DA ECOLOGIA, DA QUESTÃO

DE GÊNERO, DA DEMOCRACIA,

FAZ ANÁLIZE DE CONJUNTURA, INFORMA

SOBRE O QUE ACONTECE NOS

MOVIMENTOS E ESTÁ ENGAJADA NA

CAMPANHA CONTRA A FOME.

ABORDANDO O MUNDO DO PONTO DE

VISTA DA CIDADANIA, DE QUEM ESTÁ

CUÍRA, OU SEJA, COM A

INQUIETAÇÃO DOS QUE SE EMPENHAM NA

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Mcarogua;

o revolução

femimt

Jandir Santin


Jandir Sanlin:

teólogo Católico,

Educador Popular,

Coordenador do

Programo de

Formação de

Formadores do

Unipop.

O processo rovolucionario nicaraoüons© oonfirma

quo muito alõm d© sua dimonsão polítioa &

oconômica a luta da mullior. om aualciuer parto do

mundo. & uma ciuostão oultural. Na Nicarágua sao


Vocês lembram que promete-

mos voltar e aqui estamos

novamente para falar de um

aspecto da Nicarágua revolu-

cionária. E, para anunciar-

lhes o assunto, tenho que

contar-lhes uma feliz coin-

cidência: estava eu querendo

falar sobre mulheres uma da

Nicarágua, buscando docu-

mentos, análises, artigos de

revistas e materiais que

trouxemos ou que nos

enviaram de Centroamérica,

quando recebemos um tele-

fonema da Maria Auxiliadora

(a" Chilito", uma brasileira

que vive em Nicarágua desde

1985, que convive com mu-

lheres camponesas, traba-

lhando numa cooperativa,

plantando tomates, criando vacas, incentivando

as mulheres a cultivar a tradição da cerâmica e

educando os casais sobre o planejamento fami-

liar). Pois ela trazia vários vídeos sobre o traba-

lho das mulheres e muitas novidades para nos

contar a respeito da situação das mesmas na

Nicarágua "pós-governo sandinista".. De modo

que vocês e eu tivemos muita sorte de encontrá-

la, pois é dela muitas das coisas que encon-

tramos neste artigo... Chilito, Deus lhe pague

pela colaboração!

Algumas

generalidades

Alguns dados iniciais nos ajudarão a

compreender a situação e a luta das mulheres

nicaragüenses:

l 9 Um pouco mais de 40% dos

lares nicas são sustentados por mulher, sendo

que as causas são muitas:

a) Uma economia de "safras" (do

café, do algodão, da cana-de-açúcar, do fumo)

que leva os homens a se deslocarem constante-

mente em busca de trabalho. Nesses desloca-

mentos nem sempre a mulher acompanha e ele

acaba formando outra(s) família(s) nos dife-

rentes locais de trabalho;

b) A morte de muitos homens no

período da guerrilha sandinista, na insurreição

anti-somocista e na guerra com a contra-re-

volução armada pelos EUA, assim como nos

inúmeros acidentes com armas e carros motiva-

dos, em grande parte, pelo alcoolismo;

c) 0 alcoolismo que faz de muitos

"chefes de família" um peso morto e um estorvo

para o desenvolvimento do lar, motivando a mu-

lher a abandoná-lo e a enfrentar sozinha a con-

dução da casa;

d) 0 sentido absoluto da procriação e

da maternidade, fazendo com que toda mulher

sinta a necessidade de ter filhos, tendo ou não

um companheiro para criá-los e educá-los. Isto

faz com que a maioria das mulheres se tornem

mães entre os 14 e 18 anos. Como conseqüên-

cia dessa "cultura" dos filhos e da maternidade,

não existe a figura da "mãe solteira". É relativa-

mente fácil encontrar quem estranhe que uma

moça de 20 anos ainda não tenha filhos. Mas

ninguém estranhará se ela não vive com o pai de

seus filhos. A mesma "cultura", unida ao machis-

mo, faz com que o homem se orgulhe de ter

feito muitos filhos, embora o mesmo não reco-

nheça os laços que os unem aos filhos e à mãe,

dos mesmos; tanto assim que o homem do povo,

ao ser perguntado quantos filhos têm, não

responde: "tenho tantos...", mas: "ela ou elas

me têm tantos filhos". Nós tínhamos um amigo

lavador de carros que convivia com três mu-

lheres e tinha filhos com as três. E o pai de

outro amigo, tinha 35 filhos com várias mu-

lheres e se orgulhava disso.

Como conseqüência, há um ver-

dadeiro matriarcado nas famílias nicas: a matri-

arca é, muitas vezes, a avá que passa a criar

os netos nascidos fora do casamento. E a ho-

menagem à mãe é,frequentemente, home-

nagem à avó.

2 5 ) 0 machismo é, sem dúvida, o

caldo propício em que nasce se desenvolve toda

essa situação: o homem tem como única tarefa

familiar conseguir o dinheiro para a comida da

família. De resto, é um ilustre ausente da casa.

Só chega para comer e dormir, recebendo o prato

e a bebida servidos. Nos sábados e domingos ele

se reúne a beber com os amigos e a mulher e fi-

lhas, a servi-los, sem participar dos "comes e

bebes". Desde a infância os meninos são educa-

dos a ser como o pai e as meninas, como a mãe.

Como conseqüência, o nascimento de uma

menina é considerado quase uma desgraça,

pois "vem ao mundo para sofrer". Enquanto

isso, o nascimento de um menino é uma

bênção! Nós sentimos isso nas palavras e ati-

tudes da senhora que nos ajudava nos trabalhos

da casa quando nasceu nossa filha... Mas tive-

mos a confirmação cabal e estarrecedora no

gesto das porteiras que cobravam (e ainda

cobram! como nos confirmou Chilito) duas

vezes mais pelo parto do menino.

3 g ) Por outro lado, a mãe é a grande

figura do lar, o laço familiar e o grande símbolo

da família. Todos cultuam a figura da mãe, seja

na mãe, seja na avó, seja na "Puríssima" (a

virgem imaculada). Explorando essa cultura da

"Mãe e da Puríssima", a direita ganhou as

eleições, lançando uma candidata. Violeta

Chamorro, que era identificada como "mãe"

exemplar e se vestia com as cores da

"Puríssima".

Um dos sinais desse matriarcado, está

na celebração solene do dia das mães, enquanto

nem se comemora o dia do pai...

Sobre este tema do visceral "machis-^

inúmeras as vitórias oonciuistaclas, mas ainda

convivo com o fato do quo as p»artoiras cobram o

dobro por um parto do monino. porquo nascor mu-

it-ior, "ainda so considora quaso uma dosgraça"


O artesanato de barro ainda é visto como trabalho feminino

mo nica" (mas também, centro-americano e

caribenho) teríamos incontáveis casos para con-

tar e ilustrar. Mas nossa intenção é falar da luta e

conquistas das mulheres e achamos que os

dados acima são suficientes para entender me-

lhor o esforço feminista dessas mulheres e de

alguns dos seus companheiros...

Conquistas

feministas

0 primeiro grande passo dado pelas

mulheres nicas foi sua participação na luta pré e

insurrecional: algumas universitárias e membros

da classe média, foram quadros destacados nos

partidos e entidades revolucionárias, participando

ativamente nas atividades insurrecionais (guerri-

lha, greves, sabotagens, etc); muitas outras,

mulheres do povo, apoiando a luta dos filhos,

irmãos, maridos, parentes e vizinhos.

Após a vitória da insurreição, aquelas

ocuparam os mais variados postos de direção;

estas se incorporaram às milícias e ò todas as

tarefas de reconstrução da pátria e desenvolvi-

mento da revolução. Todos os que visitaram a

Nicarágua revolucionária foram testemunhas da

presença das mulheres em todas as frentes de

construção da nova sociedade!

As conquistas iniciadas no campo

político foram se estendendo ao econômico, pois

as mulheres passaram a se organizar em coope-

rativas, a receber títulos de terras, empréstimos,

a produzir bens de consumo interno e para a

exportação. Além de mulheres/soldados, mili-

cianas, policiais,surgiram mulheres tratoristas,

motoristas, coletoras de café, de algodão de

cana-de-açúcar, etc.

Outras conquistas se deram no campo

jurídico, como: o direito de ser "chefe de

família", o de reconhecer como "filhos legítimos"

os nascidos de uniões não legalizadas, o direito

das filhas à herança em igualdade com os filhos,

a possibilidade de eliminar o "de" possessivo do

sobrenome das casadas... Esses e outros direitos

foram consignados na Carta Magna da nação

elaborada com a participação de toda a

sociedade civil no ano de 1986.

A Associação Nicaraguense de

Mulheres "Luiza Amanda Espinoza" - ANMIAE

-, nascida no seio do sandinismo, foi a entidade

protagonista das lutas das mulheres nicaragüen-

ses, conseguindo organizar-se em quase todo o

território nacional. Mas não demorou em ser

seguida por outras associações feministas com

objetivos semelhantes, embora mais específicos.

Assim surgiram os tribunais de defesa dos direitos

da mulher, as associações de mulheres cristãs e

outras que continuam se multiplicando e buscan-

do conquistar mais espaços para a mulher na

sociedade nicaraguense. Nos últimos tempos,

com a perda do apoio governamental e a crise

econômica agudíssima (60% de desemprego!).

a luta das mulheres têm se dado mais no campo

econômico e dos direitos ao planejamento fami-

liar. No campo econômico, com a fundação de

cooperativas e coletivos de mulheres, com proje-

tos de produção para garantir o sustento e/ou

melhoria da situação financeira da família. Para

esse aspecto, as ONGs são o grande apoio das

mulheres, conseguindo empréstimos a baixíssimo

custo e organizando/supervisionando projetos

familiares e cooperativos de produção/comercia-

lização.

Na questão do planejamento familiar,

a "inimiga" continua sendo a igreja católica que

condena qualquer método "não-natural". Os alia-

dos são novamente ONGs e "internacionalistas"

que trabalham na educação, informando e consci-

entizando as mulheres, investindo na luta contra

o machismo e conseguindo, inclusive, o aumento

considerável de pais de família que aderem à

vasectomia.

Mas isto não foi suficiente para

vencer as barreiras do machismo e recolocar a

mulher no lugar que lhe é devido na sociedade.

Além de encontrar muita resistência dos próprios

companheiros sandinistas para ocupar cargos de

direção no partido, não conseguiram transportar

para o lar, para a vida a dois e da família, as con-

quistas alcançadas no campo da política e econo-

mia. 0 lar, a casa, a relação afetivo/sexual

homem X mulher continua marcada pelo pre-

domínio machista introjetado em homens e mu-

lheres. Imaginem, por exemplo, que fazer arte-

sanato de barro continua sendo visto como tra-

balho de mulheres. E não só: o preço das artesa-

nias (no campo), é medido pelo valor pago ao

homem durante as horas gastas pela mulher na

elaboração das mesmas! Esses são indícios de

que as mudanças sócio-econômico e políticas

alcançadas por uma revolução não mudam neces-

. sariamente as relações culturais (ou melhor, de

gênero!) de um povo... e de que o caminho a

andar na busca da igualdade de direitos e

respeito pelas diferenças de gênero ainda é

longo!... Por isso mesmo não pode ser deixado

para amanhã! A mulheres nicaragüenses enten-

deram isto e já começaram há 20 anos!...

Até o próximo número! Espero poder

contar-lhes boas novas sobre a Nicarágua! ■

"Oom o sandinismo, dopois das mulhioros soldadas,

surgiram as mumoros tratoristas, motoristas, cole-

toras do oafó & o diroito do sor onofo do famlília"


Elementos teóricos para o

estudo de suas relações

Francisco Cetrulo Neto

os propomos, neste traba-

lho, a verificar a questão

teórica em torno da relação

Igreja-Estado. Buscaremos

compreender a Igreja enquanto apa-

relho ideológico do Estado, con-

siderando a sua autonomia, conforme

a posição de Antônio Gramsci. Antes de

estudarmos a relação Igreja-Estado

fazemos uma elaboração sobre o

entendemos ser o Estado, e, em segui-

da, também fazemos uma abordagem

da relação Estado-Sociedade Civil, tam-

bém apoiados em Gramsci, chegando

finalmente à relação Igreja-Estado.

^L 131

" /

*M •

v 1

9 • 9 * 1


O que é o

Estado?

0 Estado é "um produto da sociedade

quando esta chega a um determina-

do grau de desenvolvimento".

Iniciamos com esta afirmação de

Engels porque ela se opõe ao idea-

lismo, principalmente hegeliano, que

afirma ser o estado um produto das idéias. 0

Estado é criado por relações sociais concretas e

"de modo algum, um poder que se impôs à

sociedade de fora para dentro: tão pouco é a

"realidade da idéia moral", ou "a imagem e a

realidade do razão" como afirma Hegel.

0 surgimento do Estado, então, se dá

pelo caminho que vai do realidade à superestrutu-

ra e não o inverso, como quer Hegel, ao afirmar

que o Estado é um "um superorganismo",

"uma realização do Espírito divino". Já neste iní-

cio podemos notar a relação entre igreia e

Estado, pois para a Igreja todas as afirmações

são as mesmas. Tanto Igreja como Estado

nascem e se desenvolvem nas relações sociais

projetando-se para a superestrutura com o objeti-

vo de legitimar-se, para conseguir esse objetivo

procuram afirmar-se enquanto instituições que

estão "por cima da sociedade".

Perceber o Estado como produto das

idéias é ficar na "aparência das coisas", fruto da

alienação pois em realidade "todos os tipos de

organização e de instituição que encontramos

são objetivações do homem"

E isso exatamente que vem aconte-

cendo desde Platão. 0 Estado vem sendo conce-

bido como algo vindo de fora da sociedade, do

céu à terra. Em sua República "existe um mode-

lo nos céus". S. Agostinho, saltando para os pais

da Igreja, ao espelhar tudo a partir da "cidade

de Deus" segue na mesma direção. Locke,

dando mais um salto, atribui a Deus inclusive a

propriedade privada. Diz ele: "Assim, Deus, man-

dando dominar, concedeu autoridade para apro-

priação; e a condição da vida humana, que exige

trabalho e material com que trabalhar, necessa-

riamente introduziu o propriedade privada".

Rousseau, mesmo iniciando com a sua teoria do

"contrato social", partindo da iniciativa dos

homens, acaba por afirmar que "a ordem social

é um direito sagrado" (sagrado aparecendo aí

como algo superior ao indivíduo e que, não

obstante, se processa no próprio homem")

42Cuíra

Chegamos, então, a Hegel com a idéia de uma

"encamaçõo do Espírito divino".

Maquiavél inicia uma outra tradição,

materialista e não metafísica, a respeito do

Estado. Ele vai ensinar que " o poder, o poder

político, real e de fato, é tudo menos divino".

Essa tradição vai ser seguida pelos socialistas

utópicos, chegando até Marx.

Em Marx chegor-se-á a uma definição

do Estado como uma estrutura criada nas (e a

partir das) relações sociais concretas inseridas

nas relações de classe, como elemento de medi-

ação, ou mais propriamente, como instrumento

para garantir a hegemonia de uma classe sobre a

outra. Numa palavra de "0 Capital": "violência

concentrada e organizada da sociedade" essa

característica Engels lhe atribui desde seu nasci-

mento.

0 Estado, assim como a Igreja, é

uma instituição que busca se colocar acima das

relações sociais paro ter o poder de servir de

mediador nessas relações, para manter através

da "violência organizada", no caso do Estado, e

através do consentimento, no caso da Igreja, a

relação de hegemonia de uma classe sobre outra.

Afirmamos primeiro que o estado surgiu da

"terra" e não do "Céu", agora estamos afirman-

do que, ao se entender o Estado como um

mediador colocado fora e acima das relações

sociais, ele é um instrumento na mão da classe

que hegemoniza a sociedade.

Situando Marx como "escritor realista

que conduz a concepção realista do Estado até as

últimas conseqüências" Norberto Bobbio o con-

trapõe a Maquiavél, outro teórico realista, para

quem o Estado tem por fim promover o "bem

comum", o "interesse geral", a "justiça".

Para Bobbio: "Marx denuncia com

extremo clareza o aspecto ideológico desta pre-

sumível teoria: 0 Estado não é apenas um instru-

mento, um aparato, um conjunto de aparatos,

dos quais o principal é aquele que serve ao exer-

cício da força monopolizadora, mas é um instru-

mento que serve à realização de interesses não

gerais, mas particulares (de classe)".

Esta afirmação também não pode ser

verificada se analisarmos apenas a aparência

pois aí, de fato, o Estado aparece como entidade

autônoma, suprasocial, imparcial... "0 Estado

não aparece como o que ele é. Sua natureza de

classe é encoberta". A burguesia não pode reve-

lar a natureza de classe do Estado pois isso "sig-

nificaria denunciar que o Estado burguês -

mesmo em sua forma mais democrática - é, na

verdade, a dominação de uma minoria contra a

maioria; seria admitir que essa liberdade não é a

liberdade para todos; que essa igualdade é pura-

mente formal, não real, para a maioria dos

cidadãos".

0 Estado, para Marx só existe

enquanto durar a divisão em classe. No momento

em que as classes forem extintas se extinguira,

por conseqüência lógica, o Estado. Vejamos o

que diz Engels:

0 primeiro ato pelo qual o Estado se

manifesta realmente como representante de toda

a sociedade - a posse dos meios de produção

em nome da sociedade - é, ao mesmo tempo, o

último ato próprio do Estado. A intervenção do

Estado nas relações sociais se vai tornando supér-

flua daí por diante e desaparece automatica-

mente. (...) 0 Estado não é "abolido": morre.

0 Estado, para Marx, deve ser con-

quistado pela classe proletária, chegando-se a

uma "ditadura do proletariado", período tran-

sitório findo o qual se chegaria a uma sociedade

sem classes, e, portanto, sem Estado.

Em Gramsci a noção de Estado é

ampliada. A diferença estará na ênfase dada a

superestrutura e a autonomia que esta assume

em relação à infraestrutura. Para ele o Estado

vai ser "todo o complexo de atividades práticas e

teóricos com o qual a classe dominante não

somente justifica e mantém o seu domínio, mas

procura conquistar o consentimento ativo daque-

les sobre os quais exerce sua dominação".

São dois elementos importantes que

compõem esta ação: a coerção (busca de

manutenção do domínio pela força) e o consenti-

mento (busca de manutenção do domínio

através da ideologia). Sua preocupação estará

centrada mais no segundo elemento.

Um conceito importante para se

entender a noção de Estado em Gramsci é o de

hegemonia, que para ele significa "o predomínio

ideológico dos valores e normas burguesas sobre

as classes subalternas". Em Gramsci o Estado é

muito mais do que aparelho repressivo da bur-

guesia; o Estado inclui a hegemonia da burguesia

na superestrutura.. Ele vai enfatizar o papel das

ideologias, dos ideólogos (intelectuais) na busca

do consentimento, daí, muitas vezes, a transfor-

mação histórica iniciar-se, em primeiro lugar, no

plano intelectual.

Essa noção ampliada de Estado para

nós é importante pois implicará em um novo

entendimento sobre a questão da igreja. Aqui a

Igreja vai ser parte dos aparelhos ideológicos do

Estado, e também campo de ação dos intelec-

tuais, que se relacionarão com o Estado, ou com


a classe dominante, de acordo com a situação

histórica de cada época. Ambos, Igreja e Estado

estão incluídos na noção de Sociedade Civil,

como passaremos a ver. Com a aproximação de mais

Estado

Sociedade Civil

Vamos agora verificar a relação que

existe entre sociedade civil e

sociedade política. Hegel põe "o

Estado como fundamento da

sociedade civil e da família, e não

vice-versa (...) pois é o Estado que

funda o povo e não o contrário". Teóricos ante-

riores a ele como Hobbes e Rousseau, afirmavam

a teoria do contrato social e a criação do Estado

a partir da livre associação entre os homens, que

existem inicialmente como indivíduos para,

então, constituírem um contrato que lhes garanta

a sobrevivência. Para GRUPPI ambos os pontos

de vista não são científicos pelo fato de não con-

siderarem o conteúdo de classe do Estado.

0 Estado é entendido como a

negação (Hobbes-Rousseau), a conservação-regu-

lamentação (Locke-Kant) ou a superação (Hegel)

da sociedade pré-estatal, estado da natureza,

onde reinava a barbárie para se chegar a uma

situação de Sociedade Civil (aqui entendida como

sociedade civilizada).

Para os iusnaturalistas (Hobbes,

Locke, Rousseau) a sociedade civil é vista em

antítese com a sociedade natural, sem o Estado.

"Assim, a sociedade civil era o estado da

natureza organizado e governado pela vontade

coletiva, pelo Estado" A sociedade civil (entendi-

da como sociedade civilizada) não é outra coisa

senão o próprio Estado. Hegel dará um novo sen-

tido ao conceito chamando sociedade civil justa-

mente a sociedade pré-estatal. "Para Hegel, a

sociedade civil era o reino da "dissipação, da mi-

séria e da corrupção física e ética". É devido a

essa concepção que Hegel vê o Estado como

superação do estado de natureza, ou seja, da

sociedade pré-estatal para ele entendida como

sociedade civil.

Para Marx e Engels o Estado está su-

bordinado à sociedade civil. Diz Engels: "não é o

Estado que condiciona e regula a sociedade civil,

mas a sociedade civil é que condiciona e regula o

uma eleição, novamente vem a

tona a questão do papel dos

cristãos com relação à política.

Aqui pretende-se apenas

oferecer elementos para

esta reflexão no maior

e mais importante contingente

religioso de nosso povo.

Pois sem que Protestantes,

Estado". Aqui a sociedade civil é vista como

antítese do Estado. A sociedade civil é entendida

como o total das relações de produção:

"A sociedade civil engloba o con-

junto do intercâmbio material dos indivíduos,

no interior de um estágio determinado de

Pentecostais e Católicos

avancem sobre este

desafio, muito pouco

será transformado.

desenvolvimento das forças produtivas. Ela

engloba toda atividade comercial e industrial

de um dado estágio de desenvolvimento, e,

portanto, ultrapassa o Estado e a nação, em-

bora, por outro lado, ela novamente se faça

valer para fora como nacionalidade e tenha ►

Cuíra43


Assembléia de Deus:

mais de 100 mil fiéis

no Pará onde sua

história começou

que se estruturar como Estado para dentro."

Para Marx, a sociedade civil é equiva-

lente a infraestrutura da sociedade enquanto o

Estado faz parte da superestrutura. É nesse senti-

do, enquanto infraestrutura, que a sociedade civil

determina o Estado.

Em Gramsci a noção de sociedade

civil sofre uma mudança radical em relação a

Marx. Bobbio ao fazer essa distinção tão contun-

dente do conceito de sociedade civil em Gromsci

vai ser alvo de inúmeras críticas principalmente a

de que ele estaria retirando Gramsci da tradição

marxista. A principal diferenciação, para ele seria

que Gramsci inclui a sociedade civil, porque

entendida como os organismos ditos privados: a

igreja, os sindicatos, a escola, etc no campo da

superestrutura, juntamente com Estado.

Ele cita Gramsci:

44Cuíra

"Podem ser fixados, por enquanto.

dois grandes planos

superestruturais: o que

pode ser chamado de

"sociedade civil", ou

seja, o conjunto de

organismos habitual-

mente ditos privados, e o

da sociedade política ou

Estado. E eles correspon-

dem à função de hege-

monia que o grupo domi-

nante exerce em toda a

sociedade; e à do

domínio direto ou de

comando, que se expres-

sa no Estado e no gover-

no jurídico".

Para Gramsci,

portanto, a sociedade

civil, entendida aqui

como o "conjunto dos

organismos ditos priva-

dos" compõe um dos

planos superestruturais.

Mas o que são, para

Gramsci, esses "organis-

mos ditos privados"?

Numa das cartas da

prisão ele explicita: "...organizações assim

chamadas privadas, como a igreja, os sindicatos,

as escolas, etc...". Clareado este ponto, que

diferença há entre o pensamento de Marx e

Gramsci? Ambos situam o Estado no plano

superestrutural. Também para Marx a Igreja, os

sindicatos, a escola, se situam no campo super-

estrutural. A diferença está no conceito de

sociedade civil. Para Marx, sociedade civil é a

infraestrutura, o conjunto das relações materiais

(relações industriais e comerciais) , enquanto

que, para Gramsci, é formada pelo Estado e

pelos aparelhos ideológicos do Estado (os

organismos ditos privados).

Os intelectuais são ponto fundamental

no conceito gramsciano. É através dos intelectu-

ais da sociedade civil (Igrejas, sindicatos.

Escolas,) que o Estado obtém o consentimento,

ou seja, mantém a hegemonia da classe domi-

nante sabre os dominados.

Gramsci trabalha, portanto, com a

noção de autonomia da esfera religiosa. "O

marxismo de Gramsci parece ser um dos

poucos que reconhece ao problema religioso

esta dimensão de autonomia". Reconhecendo

a autonomia, afirma também a determinação

da superestrutura sobre a infraestrutura.

Essa nova conceituação de sociedade

civil vai ser fundamental com relação ao estudo

da Igreja. Em Gramsci, pelo fato de ele colocar a

sociedade civil no plano da superestrutura, como

decorrência imediata entende-se que é necessário

alterar a superestrutura para revolucionar o Bloco

Histórico, enquanto que, em Marx, a preocu-

pação deve estar voltada apenas para a

infraestrutura, que, uma vez transformada, alte-

raria a superestrutura.

Se as nossas idéias jurídicas, filosófi-

cas e religiosas são produtos mais ou menos dire-

tos das condições econômicas vigentes numa

sociedade, a longo prazo essas idéias não

poderão manter-se uma vez que se operou uma

transformação radical nessas condições.

Esse é o pensamento central de Marx

e Engels sobre esse ponto. Há uma determinação

do econômico sobre as idéias que existem. Ou

seja a infraestrutura determina a superestrutura e

uma vez transformada a primeira a segunda se

desfaz ou se refaz, conforme a nova situação do

momento.

Mas, voltemos a Gramsci, pois é dele

que estávamos tratando.

"Para Gramsci ela (a sociedade civil)

é superestrutura, que representa o fator ativa e

positivo no desenvolvimento histórico; é o com-

plexo das relações ideológicas e culturais, a vida

espiritual e intelectual, e a expressão política

dessas relações torna-se o centro da análise, e

não a estrutura"

Essa, enfim, é a definição de Gramsci

sobre sociedade civil. Representa ela "o fator

ativo e positivo no desenvolvimento histórico,

não sendo apenas reflexo da infraestrutura.

Estado e

Igreja

Caberia, inicialmente, uma tentativa

de conceituar a Igreja neste momento. A Igreja

vem a ser a organização da religião. Religião é

crença. Igreja é estrutura, dogmas, hierarquia,

etc. Enquanto a religião se restringe ao campo

das idéias, da fé, do sentimento a Igreja vem a

ser essas idéias, fé e sentimentos estabelecidos,

isto é, tomados organização a partir das idéias,

fé e sentimento religioso.

A religião, que aqui estamos distin-


guindo de Igreja, é relacionada à consciência,

ao imaginário, ao sentimento coletivo, ao con-

senso. Por esses canais é que ela vai se

tornar instituição:

"Religião passa a ser uma instituição

pois se consolida culturalmente, se impõe como

hábito, costume, norma social da sociedade a

ponto de não ser possível imaginar, em certas

épocas e certas sociedades, a existência de pes-

soas não religiosas".

Religião, então, passa pelo cultural,

pelo simbólico. Igreia, em contrapartida, são as

estruturas organizacionais advindas a partir da

religião. Religião é o simbólico. Igreja é o mate-

rial. Religião é Instituição, Igreja é organização.

Entrando na relação Igreja-Estado, a

Igreja é aparelho ideológico. Para conseguir o

consentimento da sociedade a classe hegemônica

utiliza-se da religião, da política, da escola, etc.

Há, uma distinção entre reprimir e persuadir.

Ou, se quisermos, distinção entre os aparelhos de

Estado (que detêm o monopólio da força) e os

Aparelhos ideológicos de Estado.

Não encontrei voz discordante dentro

da corrente materialista quanto ao fato de Igreja

e Estado se inserirem ambos na superestrutura (a

discordância acontece a respeito da inclusão ou

não da sociedade civil na superestrutura, como

vimos). Partindo, do entendimento de Gramsci,

fica mais claro os possíveis relacionamentos que

existirão entre os dois aparelhos, pois, mesmo

que haja distinção entre a natureza de cada um,

a igreja trabalhando ideologicamente e o Estado

repressivamente, o objetivo é o mesmo, repro-

duzir a dominação da classe dominante sobre o

restante da sociedade.

Reconhecido esse passo as formas de

aliança serão as mais diversas possíveis depen-

dendo do contexto histórico. Por exemplo diz

Gramsci quando está estudando a concordata:

"0 Estado consegue (e neste caso dir-

se-ia melhor o governo) que a Igreja não dificulte

o EXERCÍCIO do poder, mas favoreça-o e sus-

tente-o assim como uma muleta sustenta o inváli-

do. A Igreja, assim, compromete-se com uma

determinada forma de governo (que é determina-

da do exterior, como documenta a própria concor-

data) a promover aquele consentimento de uma

parte dos governados que o Estado, explicita-

mente, reconhece não poder obter com os seus

meios".

Houve, na concordata, um convênio

entre o Estado e a Igreja que, segundo Gramsci,

seria "o reconhecimento explícito de uma dúplice

soberania num mesmo território estatal"

Na Concordata,

um convênio

entre o Estado e a Igreja,

segundo Gramsci, houve o

reconhecimento explícito

de uma dúplice soberania

As formas históricas que a relação

Igreja-Estado tomou são bem diferentes em cada

época ou situação. Thales de Azevedo vai carac-

terizar esses diversos matizes de modelos. Há,

segundo ele, o modelo constantiniano "nos quais

o soberano é, ao mesmo tempo, chefe de uma

igreja particular". Aqui a Igreja é submissa ao

Estado. Semelhantemente pode existir o

cesaropapismo "quando o Estado, se faz, em

lugar de instituto religioso, uma espécie de igre-

ja". 0 contrário também pode acontecer. Ocorre

uma teocracia quando a Igreja assume o poder

secular além do religioso.

Outro aspecto é o fato da Igreja não

ser una. Há várias "igrejas" dentro de uma

Igreja. Várias tendências de pensamento. Várias

correntes teológicas. Várias posições políticas.

Dependendo da prevalência de uma dessas cor-

rentes sobre as demais, haverá uma maneira

diferente de se relacionar com a sociedade e com

o poder estabelecido. Um exemplo seria o confli-

to entre Regalistas e Ultramontanos no primeiro

império. Assim, a relação Igreja-Estado vai ser

determinada pelo grupo eclesiástico hegemônico

num mesmo

território estatal

em certa época, e, do outro lado, vai ser determi-

nada pela força política hegemônica na mesma

época. 0 cristianismo, passa de Igreja persegui-

da a Igreja Oficial a partir da disposição diferente

de imperadores (Constantino por exemplo...).

Outro exemplo que clareia essa

divisão dentro da Igreja é o reação frente ao

Golpe de 64 no Brasil. Enquanto uma parte da

Igreja promovia uma "Marcha com Deus" apoian-

do o Estado contra a "invasão comunista" outra

ala da mesma Igreja inicia um processo de colo-

car-se ao lado dos pobres e oprimidos assumindo

papel profético e de resistência frente a

repressão. Aqui percebe-se que a relação Igreja-

Estado não é sempre de alianças harmônicas.

Pode caminhar por discordâncias e até antagonis-

mos. Por outro lado, a divisão que existe no seio

da sociedade perpassa também a Igreja. Afinal,

em grande parte, o mesmo cristão que vai à

missa milita num partido, numa associação de

moradores, num sindicato, etc.

"(Seria necessário) entender a Igreja

em seu contexto histórico, e em interação com as

demais tendências que constituem contraditória-►

Curra45


mente o conjunto da sociedade civil brasileira,

entrecruzando-se inclusive no interior da própria

Igreja. Desta nova perspectiva, os desenvolvimen-

tos internos da Igreja passariam a ser considera-

dos em sua recíproca relação com as mudanças

vividas no conjunto da sociedade. Em outras

palavras, seria necessário considerar a Igreja

simultaneamente como instituição cultural de

uma determinada ordem sócio-política, e como

canal e cenário de mútua interação e con-

frontação entre tendências sociais que lhe são

simultaneamente internas e externas".

Ainda poderíamos acrescentar,

como exemplo, o caso da Nicarágua, onde

Igreja e grupos revolucionários fizeram

aliança contra o Estado burguês buscando a

Referências bibliográficas

implantação de um Estado Socialista.

Conclusão: A relação Igreja-Estado

ocorre, via de regra, a nível de alianças entre

dois aprelhos do Estado (repressivo e ideológico).

A situação histórica e os grupos no poder (em

ambas as instituições) é que vão dar o conteúdo

específico de cada época.

Portanto, pode acontecer o Padroado,

a concordata, a cristandade e a separação formal

entre ambos. Em certos momentos a Igreja pode

servir-se do braço do Estado para a sua tarefa de

Evangelização e, em contrapartida, o Estado

poderá servir-se da Igreja para estender ou man-

ter os seus domínios.

Acontecem também momentos em

que a Igreja pode colocar-se contra o Estado e a

1. ENGELS, F. A Origem da Família, da propriedade privada e do Estado, S.P. Global, 1984.

. SOUZA, D. A ideologia, os ideólogos e a política, Lisboa, Livros Horizonte, 1978, pg.l 36

favor da classe oprimida, resguardando os seus

intereses institucionais. Vale repetir, entretanto

que a Igreja é composta por diversas correntes tal

qual a sociedade política.

Ao situarmos a Igreja ao nível da

sociedade civil, seguindo Gramsci, estamos afir-

mando sua autonomia, embora que relativa,

em relação à infraestrutura. Nesse sentido a

relação que existe entre Estado e Igreja, são de

duas instituições da socieadade civil, a nível

superestrutural, que são determinadas pela

infraestrutura, mas, que, em sua autonomia,

determinam também o processo histórico. ■

Francisco Cetrulo Neto:

Educador Popular do Unipop.

. REILCHELT,H., Sobre a teoria do Estado nos primeiros escritos de Marx e Engels, in: REICHELT,H. e outros, A teoria do Estado - materiais para a recon-

strução da teoria marxista do Estado, RJ. Tempo brasileiro, 1990, pg. 22-23

. LOCKE, J., Segundo tratado sobre o governo, in: Os pensadores, S.P. Abril Cultural, 1978. pg.,48.

. ROUSSEAU, JJ. O contrato social, in: os pensadores, SP., Abril cultural, 1978., pg 22.

. SOUZA, D. pag. 125, citando CASSIRER, E, O mito do Estado, Pub. Europa-América, Lisboa, 1971, pag. 171.

. in: BOBBIO, Norberto, O conceito de sociedade civil, RJ, Graal, 1982., pg. 21.

. BOBBIO, N. Existe uma doutrina marxista do Estado? in BOBBIO, N., et. ai, O marxismo e o Estado, RJ, Graal, 1979, pag. 30;

. MATHIAS, Gilberto e SALAMA, Pierre, O Estado superdesenvolvido - ensaios sobre a intervenção estatal e sobre as formas de dominação no capitalismo

contemporâneo, SP., Brasiliense, 1983., pag. 19.

v.1.,pg.09.

. GRUPPI, L, Tudo começou com Maquiavel, Porto Alegre, 1986, pag. 25.

. ENGELS, F. Anti-Dubring, in; LENIN., V.l. O Estado e a Revolução, SP, Hucitec, 1985, p. 21.

. GRAMSCI, A., Selections from prison notebooks, citado por CARNOY, M., Estado e Teoria Política, p. 90.

. GRUPPI, L. op cit, pag. 24.

. GRUPPI, L, op cit, pag 25.

. BOBBIO, N. 0 conceito de sociedade civil, cit, p. 20-21.

. CARNOY, M., Estado e Teoria Política, Campinos, Papiros, 1980, p. 91.

. MARX k., A ideologia Alemã, In: CARN0Y,M., op cit, p. 92

. GRAMSCI, Antônio, Lettere dal cárcere, Torino, Giulio Einaudi Editore, 1971, p.166.

. ORTIZ, R. Gramsci/Weber: contribuições para uma teoria da religião, In: ORTIZ, R. A consciência fragmentada, RJ., Paz e Terra, 1980, p. 127.

. CARNOY M.,op cit, p. 93.

. SOUZA, Mário Nazareno, Burocracia e desenvolvimento, em busca de uma teoria da organização da zona periférica, mimeografodo, tese, FGV, 1977,

. PORTELLI, Hugues, Gramsci e a questão religiosa, SP., ed. Paulinas, 1984, p. 35-36.

. GRAMSCI, Antônio, Maquiavel, a política e o Estado Moderno, RJ., Ed. Civ. Brasileira, 1989, p. 304.

. AZEVEDO, Thales de, A religião civil Brasileira, Petrópolis, Vozes, 1981., p. 15

. KRISCHKE, Paulo José, Problemas teóricos das relaçães entre a Igreja e o Estado na crise de 1964, in SOARES, Ricardo Prata e outros. Estado, partici-

pação política e democracia, Brasília, CNPQ, SP ANPOCS, 1985. p. 369

46Cuíra


As diversas atividades

desenvolvidas pela Unipop

requereram a seu tempo, o

apoio de fontes bibliográficas

que, ao serem adquiridas pela

entidade, avolumaram-se num

pequeno, mas considerável

acervo de livros, jornais, revistas

especializadas, etc. Juntaram-se

a este material diversas outras

doações.

E assim nasceu o que

chamamos de Biblioteca da

Unipop. Um espaço para

estudos e pesquisas dos

educadores e educandos da

Unipop; um apoio didático ao

planejamento e execução das

atividades de formação aqui

desenvolvidas.

Compondo a biblioteca,

temos ainda o arquivo da

entidade e uma hemeroteca

(arquivo de periódicos e

recortes de jornais).

É este espaço que

estamos colocando à

disposição, esperando sua

colaboração no sentido de

enriquecê-lo e conservá-lo.


VIDA, TEMPO E M ENTO

Eu,

passageiro di

e hóspede do

debruço-me s

e contemplo i

em todas as s

de coisas e p

ao lon

rios, li

por br

wesi

E quak

de me

ou qui

fecho

para o

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mas

pois

todo

com

ou

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próprio corpo

as janelas de me

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m milhares d

m as trilha

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.uzem da experir

•rias

lontanhas

ff üo Universo.

ra m

e bastam

Agora sei que sou efunufapenas por existir

tanto quanto i luz brilhante que ainda vejo

daquela estre a que já desapareceu há milhões de anos

e a única cert íza que carrego

iue na ia nem níngfim { no m

11 [

nave Tempo não há espaço definide em qu

lajada é apenas outro ponto de part da

tirar o melhor proveito desta vlage n

^r dentro de mim

Itidez possível f

ade e rlgueza do que acontece

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