Baixe em PDF - Carta da Paz

cartasparapaz.org.br

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Pensamentos, sentimentos e Ações

Para a Cultura de Paz no Planeta

Lívia Cristina Fonseca de Araújo

organizadora

Primeira Edição

Belém, PA

Maio/2012


4 5

Aos que vieram antes de nós pela Vida e pelos caminhos

já percorridos nessa grandiosa e infinda caminhada humana.

Às crianças da Creche Casulo que fazem de nosso

exercício profissional a tarefa sagrada de educá-las

educando a nós mesmos.

Aos que virão depois pela esperança de fazerem

melhor o que não pudemos.


www.artedeeducarcogente.org.br

Conselho editorial

Elpidio Alves Pinheiro

Nelma da Silva Sá

Tassia Felix

Design Editorial e Projeto Gráfico

Contraste Estúdio de Criação

Designer Gráfico

Fabio Gil Nucci

Arte de Capa e Ilustrações

Fabio Gil Nucci

Impressão

Gráfica Grafilar

Tiragem: 2.000

Cartas Para a Paz: Pensamentos, Sentimentos e Ações

Para a Cultura de Paz no Planeta

Organizadora: Livia de Fonseca Araújo

Belém, PA: 2012-04-09

Revisão

Sônia Maria Fernandes dos Santos

Sumário

Prefácio...................................................................................................................................................9

Apresentação................................................................................................................................13

Vinde a mim às criancinhas................................................................................................14

Introdução.......................................................................................................................................17

Cartas Para a Paz

Ana Maria Orlandina Tancredi Carvalho........................................................21

Antonio Juraci Siqueira.................................................................................................23

Celso Eluan..................................................................................................................................25

Cipriano Luckesi....................................................................................................................27

Daniel Leite...............................................................................................................................29

Dirk Oesselmann..................................................................................................................31

Domingos Cunha........................................................................................................................35

Dulce Magalhães......................................................................................................................39

Educadores Creche Casulo..........................................................................................43

Elpidio Alves Pinheiro......................................................................................................47

Ester Sá......................................................................................................................................49

Evânia Astér Reichert.................................................................................................53

Giovana Barbosa de Souza..........................................................................................57

Glaucia Marques.....................................................................................................................61

Heliana Barriga......................................................................................................................63

João Simões...............................................................................................................................65

Kaka Werá..................................................................................................................................69

Katia Mendonça....................................................................................................................73

Ken O’donnel.............................................................................................................................77

Lia Diskin.....................................................................................................................................79

Lucio Camilo Barbosa.........................................................................................................83

Lydia Rebouças......................................................................................................................87

Márcia Bethânia Vinagre Sales..............................................................................89

Marco Mello...............................................................................................................................91

Maria Lucia Dias Gaspar Garcia.............................................................................95

Maria Roseli Sousa.............................................................................................................97

Monja Cohen...........................................................................................................................101

Nelma da Silva Sá..............................................................................................................105

Paulo Assunção ................................................................................................................107

Reinaldo Pontes...............................................................................................................109

Renate Keller Ignácio...............................................................................................113

Rose Marie Inojosa.....................................................................................................115

Ute Creamer......................................................................................................................117

Um pouco mais sobre a Fundação Arte de Educar Cogente....... 119


Prefácio

Paz, uma utopia realizável

“Jogo a garrafa ao mar. Quem a encontrar que apanhe a mensagem

nela contida, e, se quiser e achar oportuno e viável, beneficie a si

mesmo e a própria humanidade. É esse o meu último voto.”

9

PIERRE WEIL (1924-2008)

Uma simbólica trindade de letras e um desafio para todos os nossos passos na trilha

da existência: PAZ.

Pax, em latim, segundo uma opinião geral, designa um estado de tranquilidade, de

calma e de ausência de agitação, de perturbação e de conflito. Entretanto, precisamos

mergulhar além do pensamento binário do senso comum, rumo aos meandros paradoxais

envolvidas nos sentidos e nas experiências contidas no interior desta palavra tão

imperiosa nos tempos de desabamentos e de florescimentos que estamos velejando, ao

sabor de ventanias e de melodias, neste início numinoso do terceiro milênio.

Algumas abordagens da filosofia ocidental focalizam o tema da paz, através de óticas

diversas, geralmente a considerando como um estado oposto ao da guerra. Thomas

Hobbes considerava o ser humano violento por natureza, vivendo num estado permanente

de guerra, homo homini lupis. A existência de um contrato social, neste enfoque,

torna-se imprescindível, para que alguma paz seja possível. Por outro lado, o filósofo do

Iluminismo, Jean-Jacques Rousseau, que sustentava o mito do bom selvagem, considerava

a guerra essencialmente uma realidade social e política e jamais como um estado

natural. Em outras palavras, a belicosidade seria o sintoma de uma perversão causada

por uma sociedade cultivadora de necessidades supérfluas e irreais, que nos tornam

miseráveis, sobretudo pela arraigada rivalidade em torno da propriedade.

A concepção de Hobbes refere-se ao postulado de uma antropologia polemológica

– do grego polemos, que significa guerra –, afirmando um primado desta sobre a paz.

Enquanto a de Rousseau diz respeito a uma antropologia irenista – do grego eirene, uma

divindade mitológica que simboliza a paz, que afirma o primado desta sobre a guerra.

O paradigmático Emmanuel Kant, herdeiro da concepção de Hobbes, no seu texto

clássico, Rumo à paz perpétua, afirma que, entre os seres humanos, o estado da guerra

é natural e que, por esta razão, torna-se necessário que o estado da paz seja instituído.

Para Kant, a paz deve ser estabelecida juridicamente, através de certo número de princípios

destinados a criar a possibilidade voluntária de uma paz permanente, além de uma

simples cessação provisória das hostilidades naturais humanas. De maneira paradoxal, a

abordagem kantiana indica que a guerra pode ser um mal necessário e, mesmo, um prelúdio

à paz, em função da dialética histórica entre o bem e o mal: o bem procede do mal

como a paz se origina da guerra, sem que, por esta razão, o mal e a guerra sejam justificados.

Eis o paradoxo: exercitando a guerra o ser humano busca a vitória, ou seja, a paz.


A dialética entre estes dois conceitos foi formulada, há milênios, através da filosofia

perene de Heráclito de Éfeso, que afirmava a indissociabilidade entre a guerra e a paz.

Para este notável filósofo da transmutação, nem a paz e nem a guerra são fenômenos

puros e dissociados, já que formam uma união viva, segundo o princípio da unidade dos

contrários e a harmonia dos opostos, como a do arco e da lira.

Num movimento convergente, a sabedoria ancestral chinesa, através do seu clássico

I Ching, aponta na mesma direção. Considerado o mais antigo texto chinês entre

as obras de Confúcio com influência taoísta, sustenta-se na visão da interpenetração

dos contrários, contida no vasto e insondável símbolo do Tao. Este tratado singular de

sabedoria investiga os mecanismos cósmicos, sobre a base do jogo do Yin e do Yang,

nos fundamentos de uma perene mutação: não há o que passa, não há quem passa; só

há passagem. É instigante constatar que o hexagrama da Paz do I CHING, número 11,

consiste no princípio do céu, Yang, sustentando o princípio da terra, Yin. O seu oposto,

o hexagrama número 12, indica uma inversão: o princípio da terra sustentando o princípio

do céu. O seu nome, contrariando a expectativa da mente dualista, não é nem

guerra, nem conflito: é estagnação.

Este preceito de sabedoria esclarece que nós perdemos a paz e também a saúde, onde

há uma interdição do processo, um congelamento do devir, uma esclerose da dinâmica. A

imagem de uma poça d’água estagnada ilustra, com eloquência, esta concepção...

Nesta visão aberta e acolhedora da sabedoria do paradoxo, paz não é mera ausência

de tensão e de conflito. Como afirma o poeta, quantas guerras eu terei que viver por um

pouco de paz?... A paz é uma função da consciência do fluxo, do permanente devir, de

uma entrega ativa ao processo infindo do Agora. O seu oposto é um estado de paralisia

do movimento, de petrificação do vir-a-ser e de asfixia da vivência do Instante, causada

pela ilusão do passado e pela ficção do futuro.

Os artesãos da paz, portanto, são militantes e guerreiros do bom combate, seres humanos

que ficam de pé e se atrevem a enfrentar a estagnação típica da normose, com as

armas da consciência, com a infantaria do amor, a espada do discernimento e o batalhão

da fraternidade e do serviço. Nunca é demais lembrar que a palavra japonesa samurai,

na sua acepção original, significa aquele que serve ou servidor da paz.

Por outro lado, o humano é um ser inacabado. Esta concepção remonta ao Confúcio,

que falava da nobreza humana como produto de uma tarefa educativa. Na abordagem

confuciana a originalidade humana é a de ser educável, sendo que as virtudes do belo,

do bom e do bem se encarnam no ideal do nobre, a pessoa que se educa e se desenvolve

na direção da sua plena realização. O que nos diferencia dos demais reinos não humanos

- o mineral, o vegetal e o animal - é que não nascemos humanos; nós nos tornamos

humanos, através de um investimento disciplinado e permanente no potencial de

uma plenitude possível, resultado da ousadia e disciplina dos passos numa trilha com

coração. Como afirma o belo lema do Bildungsroman do romantismo alemão, Torne-se

quem você é!

O eminente educador brasileiro, Paulo Freire, através da sua visão crítica e emancipadora

de uma pedagogia do oprimido, sempre insistiu no fato incontornável do inacabamento

humano. Para Freire, a razão de ser da educação reside na nossa condição

de incompletude, que solicita um processo pedagógico centrado na comunicação e no

diálogo, para que uma pessoa possa evoluir de objeto à sua condição livre de sujeito.

Em total convergência, em hebraico, a palavra que designa paz, shalom, deriva da

mesma raiz de shalem, que significa inteireza – como o termo holístico, derivado do

grego holos, significa totalidade. Já no idioma inglês, a expressão whole – inteiro; total

– se origina da mesma raiz de holy, que significa sagrado. Assim, as virtudes complementares

da paz, da saúde e da plenitude ou santidade implicam, por um lado, na força

dinâmica do processo, do vir-a-ser e, por outro, na conquista da consciência de inteireza,

já que tudo que é inteiro é belo, é justo, é saudável, é pacífico e é sagrado. Neste sentido,

a paz é uma consequência natural de certa integridade lograda, de um mínimo de

completude conquistada. Enfim, paz é integração entre a terra e o céu, entre o imanente

e o transcendente, entre a razão e o coração, entre o pessoal e o transpessoal, entre a

matéria e a Luz...

Necessitamos, com premência, de uma educação para a paz, que nos liberte do fardo

da estagnação, vinculando-nos ao que a sabedoria milenar denomina de Presença,

atenção ao aqui-e-agora. E que também nos propicie um solo fértil, para que o potencial

humano de inteireza e de plenitude floresça, abrindo espaço para a emergência de uma

humanidade mais digna, sábia, amorosa e íntegra.

A Universidade Internacional da Paz, UNIPAZ, por meio da sua teoria fundamental,

alicerçada no paradigma transdisciplinar holístico, há um quarto de século vem desenvolvendo,

de forma ousada e inovadora, uma Escola Superior de Paz, o sonho do nosso

querido e perene Samurai da Paz, Pierre Weil. Esta é a mensagem contida na garrafa

que ele lançou ao mar, após ter dedicado toda a sua existência e obra a uma promessa

feita na sua adolescência: a de desenvolver uma educação que lance pontes sobre todas

as fronteiras que dissociam, fragmentam e dilaceram a humanidade. Um sonho plenamente

realizado, transmutado em Obra Prima, que se irradiou por todo o Brasil e vai se

difundindo mundo afora, humanidade adentro.

Através de uma sensível inspiração de Lívia Araujo, coordenadora desta obra, Cartas

da Paz, é o valioso e fecundo resultado de um projeto desenvolvido pela Fundação Arte

de Educar Cogente. Escritas por reconhecid@s guerreir@s pacífic@s, estas mensagens

são endereçadas à Família Humana, residente no nosso encantado Lar de Gaia. Convocando

todos os seres sensíveis e conscientes a um mutirão do bom combate, pela

reconstrução do projeto humano no jardim da Terra.

“Tudo que não regenera, degenera”, afirma o filósofo da complexidade, Edgar Morin.

Que estas cartas cheguem às mentes sensíveis e aos corações abertos. E que não tardem

as respostas, traduzidas por atitudes construtivas e responsáveis, na tarefa premente

de regeneração do ser humano, essa terra prometida, espaço de Aliança entre todos os

Reinos, onde o Universo pode se saborear e a poesia da Vida nos reencantar. Em marcha!

Roberto Crema

Reitor da Universidade Internacional da Paz, Rede UNIPAZ.

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Apresentação

O Projeto Cartas Para a Paz é uma iniciativa da Fundação Arte de Educar – Cogente

elaborado na ocasião de comemoração do 2° aniversário da Creche Casulo, em outubro

de 2011. Seu propósito é disseminar ideias, desejos e informações com base em pensamentos,

sentimentos e ações voltadas para a Educação da Cultura de Paz no planeta.

O projeto se apresenta por meio de várias manifestações, que pretendem compartilhar

com o mundo 33 Cartas para a Paz redigidas por mensageiros convidados pela

Fundação Arte de Educar – Cogente. Este livro que você tem em mãos agora é uma

dessas manifestações.

A iniciativa do projeto em publicar a coletânea de cartas visa juntar pessoas e experiências,

criar mais uma rede tecida por palavras que revelem importantes práxis em

direção à construção da Cultura de Paz no Brasil e no mundo. Juntar seres humanos,

suas ideias, seus sentimentos e ações, significa juntar força e poder de sensibilização de

outros seres humanos e possibilidades de realização de atitudes, gestos e movimentos

em favor da transformação de velhos paradigmas e em prol da paz planetária.

A comunicação por meio de cartas vem dos primórdios da civilização e nos relembra

que para escrevê-las dedicava-se um tempo, um cuidado com a escolha das palavras e

com o tipo do papel e caneta. Utilizavam-se perfumes e essências para ocasiões de maior

intimidade entre as pessoas. A letra do remetente continha os traços da emoção e dos

sentimentos que carregava no momento da escrita. Mesmo depois de postada, ainda

muitos sentimentos eram vividos por quem a escrevia e por quem esperava recebê-la.

A carta, portanto, é carregada de significados e emoções que transcendem a palavra.

A materialidade que ela descreve é permeada de recursos e de expressões de quem a

escreve. Nossa intenção ao escolher as cartas como meio de comunicação é pelo desejo

de retomar a qualidade afetiva do texto, que guarda e revela notícias importantes.

Além deste livro, o Cartas para a Paz oferece a possibilidade de acesso às cartas por

meio de nosso site www.cartasparapaz.org.br e por meio de 33 garrafas-mensagens

lançadas no mar da vida em busca de navegantes, náufragos, habitantes de terras longínquas

e/ou próximas, para que sejam degustadas com o sabor próprio de cada uma,

somado ao contato com experiências vividas por antepassados distantes, como era o

caso das garrafas que percorriam os mares com mensagens, nos remetendo a valorizar

o sentido-significado dos processos. Veja mais detalhes no site.

E, mais ainda, há o fato de que o ser humano tenta, de várias maneiras e há muitos

anos, se comunicar com o universo que está além de seus limites. Este projeto tem a

proposta de ultrapassar fronteiras para expandir em uma nobre intenção: o novo paradigma

da Cultura de Paz no planeta.

É assim que esperamos sensibilizar o leitor para o engajamento ou o fortalecimento

de suas ações nesta direção.

Lívia Cristina Fonseca de Araújo

Organizadora

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Vinde a mim as Criancinhas!

“E então surge em mim o saber que existe um espaço interno

para uma segunda vida, Maior e sem limites de tempo.”

Rainer Maria Rilke

Segundo ensinamentos das tradições espirituais da Índia, a humanidade cumprindo

um ciclo de experiências, vive atualmente o final da Idade do Ferro (Kali Yuga). Nela

sentimos a degradação dos relacionamentos dos homens entre si e do homem com a

natureza – causas geradoras da desconfiança, fome, epidemias, violência, corrupção, do

medo, do desrespeito aos direitos humanos, da poluição do meio ambiente, da mudança

climática e dos desastres e catástrofes naturais. Fenômenos decorrentes do crescente

desinteresse pelos ensinamentos e vivências espirituais e acentuado apego ao poder e a acumulação

de bens materiais, que passaram a ser símbolos de prestígio e realização social.

O Homem se esqueceu de sua ligação com a divindade e criou-se um vazio existencial

em si que lhe causa angústias e sofrimentos para os quais, muitas vezes, não encontra

leniência. Daí, a ânsia sôfrega e o desejo incontido pela posse e o mais ter. Como se

satisfeitas tais necessidades, pudesse reencontrar a paz.

Um dos caminhos para este apaziguamento interior, segundo Jean-Yves Leloup, sacerdote

hesicaste e fundador do Colégio Internacional dos Terapeutas (CIT), é conferir

sentido a este insuportável sofrimento. Além de eventuais explicações racionais que

possam nos ser dadas, trata-se de caminhar em direção a si mesmo – deixar o conhecido

em direção a um lugar desconhecido dentro de si, instigado por uma promessa de uma

nova vida a ser saboreada.

O convite que se apresenta a humanidade neste ponto do ciclo da Kali Yuga é participar

de sua transformação para a Idade do Diamante (Sangam Yuga): A alquimia do

ferro em diamante; a confluência dos rios com o Oceano (de Deus com Sua criação).

Tarefa exclusiva da fonte de energia de transmutação divina.

Através da prática da não-violência (ahimsa), Mahatma Gandhi ressuscitou o ideal

de estabelecer uma sociedade estruturada em valores humanos e princípios espirituais.

No entanto, este ideal não pode se tornar realidade pois ele viu seu povo se dividir pela

intolerância religiosa. Para a materialização de seu sonho, Gandhi intuiu ser necessária a

profunda transformação interior: “Faça em você a transformação que quer ver no mundo”,

nos ensinou.

Nesta trilha cíclica e evolutiva - caminho árduo e desafiador - cabe-nos desvelar os

sonhos mais recônditos de nossa alma, e buscar forças no Dom que nos foi gratuitamente

presenteado para esta existência. Investiguemos aquilo que nos causava arrepios e

momentos de intensa felicidade, quando tínhamos cerca de 20 anos, recomenda Roberto

Crema, reitor da Universidade Internacional da Paz (UNIPAZ). E que, a partir da recordação

destes momentos de deslumbramentos, poderemos mais facilmente reconhecer

nossa Missão de Vida: o que nos trouxe aqui e nos convoca para a ação. Agora!

em alguns de nós, diante da situação caótica que presenciamos diariamente, o

desejo de se retirar da sociedade e de isolar em comunidades espiritualistas, no afã de

vivermos o mistério e o misticismo e daí, irradiar Luz e compreensão para a humanidade

- forma de se contrapor ao profano. Sinto, entretanto, que transcendendo a este louvável

movimento, há outro que poderá trazer mais força e assertividade para o momento

de transformação que se aproxima inexoravelmente para a humanidade: colocarmo-

-nos no meio do mundo (na praça do mercado), com a integridade e benevolência esquecidas,

criando valores éticos e exemplos vivos de cidadania universal, a partir da

verdade interior de cada um de nós.

Decorridos dois anos de um sonho que tive, em uma vivência terapêutica, inauguramos

dia 18 de outubro passado, a Creche Casulo, em Ananindeua, Estado do Pará, com

recursos da FUNDAÇÃO ARTE DE EDUCAR. Inicialmente, atenderemos 45 crianças de 2

a 5 anos, com os ensinamentos da Pedagogia Waldorf. Nesta faixa de idade (primeiros

sete anos de vida), segundo a Antroposofia, o ser humano está respirando o mundo exterior

e pode internalizar a percepção de que “o mundo é bom”. Gerando a consciência

e o desejo da cooperatividade, empatia, compaixão, amorosidade e confiança na vida.

Vivências e aprendizados que levarão para todas suas existências.

Recentemente tive outro sonho: tinha sido presenteado com um diamante que se

incrustou em meu dedo indicador da mão direita, que imantado pela energia crística da

amorosidade, tinha o poder de tocar os corações mais duros e petrificados de pessoas

de poder e deles fazer jorrar o amor incondicional e a disposição para a caridade e o

altruísmo. E lembrei-me de como me emocionava ao me relacionar com as crianças,

desde minha mais tenra idade – como se invejasse nelas a inocência, a alegria, a beleza,

a entrega e a presença.

Temos a possibilidade de despertar e promover nossa transformação interior a qualquer

momento, por mais difícil e sofrida que ela se torne com o passar dos anos e com a

cristalização de comportamentos repetitivos de nosso ego. Certamente, mais fácil será

construirmos um exército de operários divinos - coroados com ramos de murta (troféu

concedido aqueles que promovem a Paz) - se pudermos acolher as crianças em ambientes

que os inspirem a mudar o mundo a partir de si, em contato com o outro, com a

sociedade e com a natureza.

Talvez seja esta minha Missão de Vida (ou tarefa de casa): tornar-me um empreendedor

social e cuidador de crianças – resgatando em mim as qualidades e o ânimo de

minha própria criança interior. Para ela peço inspiração, compaixão, amorosidade, humildade,

paciência, confiança, coragem, fé e determinação.

Elpidio Alves Pinheiro

Presidente da Fundação Arte de Educar Cogente

Outubro de 2009

14 15


Introdução

Este livro pretende ser uma partilha de sonhos, projetos, quereres, pensares de gente

que faz da sua vida e/ou do seu ofício, a busca pela construção da paz na terra. Cada

uma das 33 cartas, aqui compartilhadas, foram tecidas pelas mãos de trabalhadores incansáveis,

comprometidos com sua força e poder de mudança e, principalmente, com

seu propósito de reunir mais pessoas nessa rede.

Na ocasião da concepção do projeto a pergunta mais recorrente em minha meditação

diária era: “o que posso fazer por nós?”, qual é mesmo a “minha tarefa nessa existência?”

me referindo à necessidade de realizar um trabalho profissional que pudesse

atender ao chamado da minha alma, que inclui aspectos pessoais e coletivos.

Como uma das respostas deste período de muitas descobertas foi o “Cartas para a Paz”.

Gosto da palavra concepção me presenteada pela Professora Drª Ana Tancredi quando

tentava traduzir o que significa para mim esta criação. Ela não é só minha. É como o

bebê que gero no ventre, existe porque tem em sua gênese uma parte minha sim, mas

também a parte de um companheiro que, em nome do amor, se deu tanto quanto eu

por esta criação. E mais, ainda há um Universo de mistérios que são maiores do que nós

para que a Vida se instale. O “Cartas” tem este simbolismo, é uma co-criação de uma

família-equipe que vem construindo um relação de amor na Creche Casulo, da Fundação

Arte de Educar – Cogente, com o intento de construir diariamente um espaço em

que se aprenda e se ensine a viver uma nova cultura, em que o amor e a autoeducação

compõem o fio condutor de um transformação social em favor da paz. Aqui vejo, com

clareza e gratidão, quando se une minha jornada pessoal a este projeto coletivo.

E quando falamos de paz não se trata de algo institucionalizado, não é algo idealizado,

engaiolado, padronizado, importado, congelado... A paz é movimento, é viva, é

pulsante. A paz tem muitas vozes, muitas expressões, a paz se manifesta de múltiplas

maneiras, como múltiplos são os seres humanos, como múltipla é a vida!

Descobri então que o que preciso fazer agora, por mim/nós, é reconhecer que nem

sempre é a mudança de um estado desagradável para o agradável que me dá paz, mas

conviver com consciência, com a minha realidade atual, com o aqui e agora. É reconhecer

o que acontece comigo, o que penso, o que sinto quando leio cada carta que chega,

e percebo uma maneira tão inusitada, tão diferente de olhar para a paz ao mesmo tempo

que reconheço que esta maneira também me habita e me faz sentido. E esta experiência

de encontrar ou reafirmar, ou reconstruir possibilidades de viver a paz todos tem

direito de viver! E tenho/temos como tarefa, na medida do possível, possibilitar acesso a

isto ao máximo de pessoas possíveis.

Os Mensageiros da Paz, como chamamos os autores das cartas, são artistas de várias

linguagens: poesia, música, teatro, assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, filósofos,

antropólogos, sociólogos, administradores, militantes dos movimentos sociais, educadores

de muitas frentes, professores, empresários, cientistas... Gente de todo jeito, com

experiências diversas que nos proporcionaram uma coletânea de cartas com muitas vozes

e muitos sotaques diferentes. O que entendo ser bem expressivo quando se trata

de paz. Tu terás a possibilidade de ver o que é a paz para essa diversidade de pessoas,

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irmãos, tanto quanto nós, de caminho nessa jornada de descobertas e, não tenho dúvidas,

também encontrarás muito delas dentro de ti.

O processo de escritura das cartas foi bolindo/afetando com/a cada um de nós envolvido.

Com o mensageiro, que precisou parar para fazer contado com o mais significativo

deste processo, com cada um de nós desta pequena-grande equipe d’O Cartas, que

arrepiávamos com as cartas e com os feedbacks dos mensageiros... Com a revisora dos

textos que se encontrava e se alimentava à medida que os revisava... Este processo me

provocou uma profunda sensação de unidade com o outro, de muita paz, torço que tua

experiência também seja rica, do teu modo.

Parece que isso tudo nos conta de uma verdade maior, afetamos e somos afetados...

Todos os atos que fazemos por nós-mesmos, fazemos pelo nós-todos, cada respiração

minha/tua me/te põe em comunicação com o pulmão do mundo, cada movimento das

águas do oceano mais distantes, ou dos rios que correm logo aqui pertinho de minha

casa me/te alcança, me/te abala, me/te afeta. Cada gesto, cada palavra, cada pensamento,

cada sentimento mais recôndito de um, afeta o Todo. É a vida!

Desejo que estas cartas sejam lidas da maneira mais prazerosa para cada um: se

todas de uma vez, em uma só tarde, em um gostoso embalo de rede nesse calor úmido

aqui do norte do Brasil, se debaixo de cobertas para proteger do frio do outro lado do

país ou do mundo, se em doses homeopáticas, se sozinho, se em grupo, se em companhia

especial... Não importa. Que o prazer e a paz te tomem na tua leitura.

Desejo também, que estas cartas provoquem outras iniciativas de escrever, declamar,

encenar, cantar, desenhar, pintar, postar nas redes sociais, mandar e-mails, grafitar,

outras vozes em favor da paz. Vozes grandes ou pequenas que falem de ações avassaladoras

ou simples, vozes afetuosas, assertivas, clamores, gritos, sussurros, com amor, com

autorresponsabilidade e pela paz planetária.

Boa leitura! Bons encontros!

Lívia Cristina Fonseca de Araújo

Coordenadora da Creche Casulo e organizadora do livro

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Ana Maria O.

Tancredi Carvalho

Brasileira

BELÉM – PARÁ. BRASIL

Educadora

Professora/Universidade Federal do Pará – UFPA.

Estuda e pesquisa em Educação Infantil e atua na

Formação de docentes. Integra o grupo de Estudos e

Pesquisas em educação Infantil/Instituto de Ciências da

Educação/UFPA. Membro: Forum de Educação Infantil do

Pará – FEIPA e Movimento Interfóruns de Educação

Infantil do Brasil – MIEIB.

Doutora/Educação-Unicamp. Suas experiências objetivando

construir uma sociedade de paz se dão via aulas e

militância no FEIPA, MIEIB e Movimentos Populares.

Caros professores e caras professoras,

20 21

Belém, 03 de dezembro de 2011

Esta carta, dirigida aos professores e professoras de Educação Infantil foi escrita

com muito carinho com o objetivo de dialogarmos sobre algumas formas de ajudarmos a construir

a paz, neste mundo tão conturbado e injusto, a partir das crianças.

Conhecemos o quanto as crianças são fortes, competentes, dinâmicas e poderosas. Elas

têm uma enorme capacidade de fazer amizades, de brincar, de aprender, de observar, de

conversar, de experimentar, de questionar, de formular hipóteses, de construir sentidos,

de relacionar-se com pessoas e ambientes e, nessas diferentes interações,

construir conhecimentos e suas identidades, que queremos que sejam, numa perspectiva

de paz.

Para que na sua constituição esteja presente esse imensurável valor – a paz, que

vem sempre acompanhada pela tolerância, pela disponibilidade ao diálogo, para aceitar o diferente,

para conviver com o outro respeitosamente e para considerar o que tem a nos

dizer –, a criança desde a mais tenra idade deverá frequentar espaços que vivenciem

cotidianamente esses valores.

A creche e a pré-escola estão entre esses espaços.

Para que a criança conviva num ambiente de paz, especialmente na creche e na pré-

-escola, precisa que nós, professores e professoras, nos preparemos para criar esse

ambiente para acolhê-la, para aceitá-la e para ajudá-la a se constituir como ser humano,

cidadã de direitos, sujeito de sua história e militante da paz

Essa preparação docente exige uma sólida formação teórica e ética para o exercício

dessa delicada profissão que é ser professor/a de criança. Calma, paciência e observação

atenta integram também a nossa formação. Tudo isto deve ser experimentado cotidianamente

no ambiente que nos compete organizar para a criança.

Esse ambiente acolhedor, instigante, bonito, claro, limpo, no qual a criança possa agir com

independência, iniciativa, tomando as suas decisões, havendo no chão dessa unidade de educação

infantil relações de respeito, de incentivo, de solidariedade, de alegria, de encontro

e de amor, sem qualquer tipo de preconceito e discriminação e, se acontecerem com a mediação

do/a professor/a fará com que o diálogo, a compreensão e a relação respeitosa seja

imediatamente restabelecida; a criança vivenciando esses princípios estaremos contribuindo

para construir aqui e agora uma cultura de compreensão, de solidariedade e de paz.

A infância é um período que marca indelevelmente a vida do ser humano. É o período em

que o ser humano mais cresce e mais se desenvolve. Assim, as crianças bem cuidadas e

respeitadas, crescendo em ambiente de solidariedade serão sujeitos e autores da paz, da

alegria e da convivência fraterna.

É nesse ambiente, povoado de pedaços do mundo, no qual a diversidade e a riqueza cultural

de cada povo possa ser experienciado pelas crianças por meio de suas brincadeiras,

de suas observações, de suas conversas, de seus questionamentos e mediante a ação

segura de mediação do/a professor/a na valorização dessa diversidade, que as crianças

podem se constituir como pessoas plenas de respeito, de amor e de reverência pelo outro,

pelo diferente.

Nosso objetivo – a construção da paz – será mais facilmente atingido se contarmos com

a participação dos pais, visto que na educação das crianças pequenas, que frequentam

creches e pré-escolas, eles são também protagonistas. Conversar, trazê-los para as reuniões,

estar atento às suas informações e indagações considerar o que têm a nos dizer,

encontrar sempre um espaço para o diálogo atento e construtivo com eles são atitudes

que vêm ao encontro dos objetivos que queremos alcançar.

Esse ambiente de respeito deve ser dedicado a todo planeta, pois nossas ações influenciam

a vida de todos e por ela somos também influenciados.

Caro professor, cara professora, sua ação decisiva, consciente e comprometida com

esses valores e com a criança contribuirá para a construção de um mundo de solidariedade,

de alegria e de paz.

Um grande abraço, Ana Maria Orlandina Tancredi Carvalho


Antonio Juracy

Siqueira

Brasileiro

Belém - Pará

Educação e Cultura

Antonio Juracy Siqueira é marajoara de Cajary, município

de Afuá, onde descobriu a literatura nos folhetos de

cordel. Licenciado em Filosofia pela Universidade Fede-

ral do Pará, pertence a várias entidades literocultu-

rais, entre as quais a União Brasileira de Trovadores,

Centro Paraense de Estudos do Folclore, Malta de

Poetas Folhas & Ervas e Cirandeiros da Palavra, além

de atuar como professor de filosofia, oficineiro de

literatura, perfomicista e contador de histórias.

Possui mais de 80 titulos individuais publicados entre

folhetos de cordel livros e poesias, contos, crônicas,

literatura infantil, histórias humorísticas e versos

picantes. Colabora com jornais, revistas e boletins

culturais de Belém e de outras localidades além de

contar com mais de 200 premiações literárias em

vários gêneros, em âmbito nacional e local.

Carta/canção para adormecer os homens e despertar as crianças

Hoje amanheci em paz com Deus e com os homens. E então, com o peito prenhe

de amor e as mãos ornadas de ternura, resolvi escrever esta carta

em forma de canção às avessas da versão drummoniana, que faça dormir os

homens e despertar as crianças, que soe como o burburinho da água na ribanceira

do rio, o farfalhar do vento nas copas das mangueiras, o trinar dos

pássaros tecendo alvoradas ou o badalar de sinos à distância, na Hora do Ângelo.

Uma canção para despertar, sem sobressaltos, a criança que trazemos

dentro de nós: umas, adormecidas pelo cansaço causado por uma sociedade

cada vez mais individualista e embrutecida pelo imperativo categórico produzir,

consumir e consumir-se; outras, amordaçadas para que suas verdades

não incomodem nem atrapalhem a mentira nossa de cada dia; outras, deixadas

de lado por absoluta falta de tempo e, ainda, as relegadas ao esquecimento

para que seus sonhos de ser não venham se antepor às exigências do ter.

Uma carta/canção que nos abra os olhos para um mundo mágico, belo e possível,

presente em essência mas ausente de fato no mundo caótico em que vivemos.

Uma canção, enfim, que nos faça compreender que o pequeno mundo que vemos

de nossas janelas, não tão belo e colorido como os vistos através das janelas

virtuais, é infinitamente mais real, humano e possível de interferências

e mudanças dentro das possibilidades de cada um, independente da posição

que ocupe na escala social. Um mundo feito de seres e coisas palpáveis onde

um copo d’água possa fazer a diferença, um gesto de amor salvar uma vida

e o pão da palavra saciar muitas almas famintas de afeto. Um mundo onde o

dinheiro não seja tudo, a tolerância seja substituída pela aceitação mútua das

nossas diferenças, sejam elas quais forem e uma palavra possa abrir portas

para mil possibilidades, onde, enfim, a paz deixe de ser três letras esquecidas

nas páginas dos dicionários. Que esta carta/canção nos faça ver o mundo

através dos olhos puros da inocência onde um pássaro seja tão somente um

poema emplumado a cantar nos galhos da manhã e não um item no mercado

negro de animais silvestres, uma árvore deixe de ser um verde pacote com

os dólares da devastação ambiental e passe a ser vista como uma bandeira

desfraldada sobre a esperança, um rio seja a líquida rua do poeta e do

mururé ou os rastros da Cobra Grande e não uma fonte de energia a inundar

belos montes de vida, de cultura e poesia. Talvez alguns vejam nesta carta/

canção apenas um monte de palavras. Mas um monte de palavras que pode

mudar você, que pode mudar o mundo em sua volta. E eu amo as palavras e

nelas acredito.

Por isso é que fabrico, com elas, quixotescamente, meu escudo e minha lança

para investir contra os moinhos da insensibilidade humana, para arrancar

viseiras, derrubar os muros do preconceito, da intolerância e da opressão;

para abrir estradas, construir pontes e rasgar horizontes à demanda de um

mundo mais justo, igualitário e fraterno. Eu acredito na palavra como ferramenta

divina deixada por Deus para formar, informar e transformar o

homem e o mundo. A pá para revolver a lavra revelando o tesouro escondido

no garimpo da alma de cada ser humano. Um tesouro que o tempo não consome

e os ladrões não roubam. Eu acredito, por exemplo, na palavra paz, na palavra

amor, na palavra amizade, na palavra igualdade, na palavra união, na palavra

justiça, na palavra esperança, na palavra sonho, na palavra alegria, na palavra

fraternidade, na palavra fé, na palavra perseverança, na palavra felicidade,

na palavra... Palavra! E você, em que palavra acredita?

Antonio Juraci Siqueira

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Celso Eluan

Brasileiro

Belém - PA

Empresário

Nascido em Xapuri no Acre, viveu até os 17 anos em São

Paulo e desde 1976 reside em Belém. Atua com tecnolo-

gia da informação desde 1977 e em 1989 foi

co-fundador de uma empresa varejista de tecnologia.

Através de sua empresa incentiva a cultura e cidadania

em várias frentes destacando-se o projeto Por amor a

Belém” de recuperação de praças na capital paraense

premiado pelo IPHAN.

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Cipriano Carlos

Luckesi

Brasileiro

Salvador, BA

Professor Universitário

A todos os que vierem a ter esta carta em mãos,

Paz é palavra, desejo e orientação para se levar no coração, para onde cada um for.

Paz é resultado do acolhimento e respeito mútuos, do serviço, ao mesmo tempo, para si e

para o outro. Somos movidos por estados emocionais positivos e negativos. Os negativos nos

retiram da convivência saudável com os outros. Os positivos nos conduzem a ela.

Temos um núcleo em nosso sistema nervoso, sediado em cada um dos hemisférios cerebrais,

denominadas amigdalas devido terem a forma de amêndoas (em grego, “amigdalas” significa

amêndoas), que contém nossa memória emocional e elas atuam por si mesmas.

No primeiro e mais superficial sinal de alguma ameaça --- verdadeira ou não --, elas agem

automaticamente em nossa defesa, o que significa que reagimos automática e intempestivamente

a muitas e variadas situações do nosso cotidiano.

Sobre isso, Freud nos alertou, há aproximadamente cem anos, que qualquer reação

nossa que seja desproporcional a uma determinada circunstância, ela não é do presente,

mas do passado.

Isso significa que, nessas circunstâncias onde atuamos intempestivamente, reagimos

com base em nossas dores e traumas do passado, assim como com base em crenças errôneas,

com as quais fomos impregnados ao longo de nossas vidas através de nossas etnias, nossas

culturas, nossas heranças familiares, educacionais e religiosas. Esse conjunto de fatores nos

faz agir e reagir, muitas vezes, sem estarmos atentos à razão pela qual assumimos esta ou

aquela atitude, o que pode ferir o outro e estimular a violência, ao invés da paz.

Certa vez, assistindo a um jornal pela televisão, ouvi um homem, que vivia numa dessas

regiões conflitadas do mundo, dizer: “A única coisa que eu, minha mulher e meus dois filhos

queremos é viver. Por que temos que nos matar? É tão simples; é só permitir que o outro

viva. Nada mais que isso”.

Afinal, no mundo, há lugar para todos e a paz é expressão do desejo e do investimento

para que todos tenham o seu lugar e vivam. Para isso, necessitamos cuidar de nossas impregnações,

sejam elas traumáticas ou decorrentes de nossas crenças herdadas de nossa

etnia, de nossa família, de nossa educação, cultura e religião.

A mais significativa de todas as formas de ser é a do amor, que é aquela que assume

que todo ser humano é um ser humano e, como tal, tem o seu lugar, seu direito de ser acolhido,

amado, alimentado, de viver bem, de ir e vir, de praticar suas crenças educacionais,

religiosas ou sócio-culturais.

Não há um ser humano melhor nem mais merecedor que outro. Todos, afinal, somos filhos

da mesma expressão da Vida, chame-se ela Deus, Nirvana, Vazio, Yaveh, Energia Universal,

ou qualquer outra expressão. No dizer atribuído a Jesus de Nazaré se diz que “a casa do

Pai tem muitas portas”. Se assim é, porque não admitir e trabalhar para que todos possam

seguir pelas suas sendas, de forma igual e irmanados?

A paz não é dada. É construída. Esse é o convite dessa carta: estarmos atentos aos

nossos estados emocionais e às nossas crenças, evitando a violência e a exclusão... sejam

elas de que espécies forem..., incluindo a todos, para vivermos como uma grande família local,

regional, nacional, mundial, planetária.

Juntos, de mãos dadas e corações unidos, podemos construir a paz, caso assumamos

essa meta como nossa tarefa no seio de nossa família, no local onde moramos, no nosso local

de trabalho, em nossos templos, em nossas escolas, em nossos parlamentos, em todos os

lugares. Esse é o meu convite e creio que de todos: para onde for, leve em seu coração o

desejo da paz.

Cipriano Luckesi

Professor da Universidade Federal da Bahia, Brasil.

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Daniel Da Rocha

Leite

Brasileiro

Belém – Pará

Direito e Letras.

Daniel Leite é Licenciado Pleno em Letras, com Habilitação

em Língua Alemã. Possui Especialização em Língua

Portuguesa e Análise Literária. Atualmente, cursa

Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura. No ano

de 2007, em nível nacional, venceu o Prêmio Carlos

Drummond de Andrade, do SESC-DF. No mesmo ano,

também pelo SESC do Distrito Federal, foi finalista do

Prêmio Machado de Assis. Tem seis livros publicados.

Acredita – muito – que a leitura e as palavras fazem

um bem enorme a todas as pessoas. São um instante

de (re)encontros, vestem-se das mãos, acendem um

olhar, escrevem uma esperança no mundo. Leitura

sempre, para toda a gente.

Em algum lugar do mundo, dezembro de 2011.

Prezado Estranho,

Hoje, em algum lugar da Terra, na correria do mundo, nossos olhos se encontraram.

Nas ruas, pelos vidros espelhados dos prédios, pelas janelas e grades das casas, dentro

da solidão dos automóveis, nas mãos que pedem das muitas crianças nos semáforos

de uma metrópole, eu passei por ali. Eu estava lá. Tu estavas lá. Na poluição do medo

dentro do ar das nossas cidades, na pressa nossa de todos os dias e no silêncio destas

minhas palavras, nós nos encontramos.

Tu és o Outro. Eu, aos teus olhos, sou, também, o Outro.

E o mundo se revela assim: atmos(fera) impossível.

Há, entre nós, este olhar armado. Feito de pressas e estranhamentos, preconceitos

e sentenças prévias. Tu és o Outro. Eu sou o Outro. Cada um em sua tribo, sozinho

ou em pequenas multidões sozinhas. Passaste por mim. E eu quase não te percebi. És o

Outro, aquele diferente de mim. Aquele que meus olhos não conseguem compreender. Sou

o teu Outro. Na ponta do teu olhar, aquele que parece impossível entender. Mundo de

Outros. Mundos de diferenças, mundos de pessoas diferentes, mundo de incompreensões.

Tu és o Outro. Eu sou o Outro.

É para ti esta carta. É para mim esta carta.

É para um nosso Outro Mundo possível.

Prezado Estranho, este nosso mundo de agora foi capaz de nos levar à Lua, de inventar

as máquinas mais incríveis, de reinventar um tempo e um espaço para se viver

mais e com mais conforto. Parece-me, entretanto, que compreender a ti independe de

máquinas e outros inventos.

Em algum lugar da nossa história, em algum tempo, não nos ensinaram que nós somos o

outro. Eu sou tu. Tu és o que eu sou. E nós somos a Vida.

Somos capazes de fazer a guerra. Esta parece fácil e lucrativa. Acredito, também,

que somos capazes de fazer a Paz. Este mundo, muitas vezes, impossível, meu Caro

Estranho. Talvez precisemos, urgentemente, voltar a ser crianças. Ouvir histórias da

vida e de outros mundos. Contar histórias da gente. Entender que somos, naturalmente,

diferentes e que as nossas diferenças fazem parte da verdade e da ficção da

vida. Eu sou o outro. Tu és o outro. Entre nós, o que sonhamos da vida: a paz.

PAZ, meu Amigo Estranho, é um mundo que se aprende. Solidariedade, fraternidade

e paz, eu acredito, verdadeiramente, que são mundos que se ensinam e se aprendem,

enfim, mundos que se compartilham. Talvez por isso, velhos possam voltar a ser crianças,

gente grande possa compreender gente pequena. E possamos perceber, quase no

último instante, que há uma guerra silenciosa em toda criança abandonada nos semáforos

de uma metrópole ou esquecida nas carvoarias de um lugar esquecido onde infâncias

ardem mais do que árvores derrubadas. E uma vida, a vida de uma pessoa, de uma

criança ou de um velho, possa ser um meu mundo teu. Mundo de Outros. Mundo de todas

as gentes. Responsabilidade de todo o mundo. Mundo nosso. Paz para vencer todas as

guerras. Paz para se aprender e ensinar. Paz para se viver. Paz viva, levantada dos

silêncios de uma simples palavra. Uma paz de todos.

Prezado Estranho, talvez possamos compreender, um dia, que PAZ não é uma simples

palavra. PAZ é verbo. Verbo que se aprende e se conjuga. Verbo essencial da Vida. Verbo

de todos. Infinitivo Esperança. Verbo compartilhado. Verbo que faz da gente Gente

Viva. O verbo PAZ semeado dentro da gente. Plantado para florir fora. Em nome do outro.

Florir uma flora de todos. Flores da PAZ no exercício da vida, em todas as ruas do

mundo, nas quais, quando a gente se encontrar, Caríssimo Estranho, eu possa te olhar e

te dizer:

- Como vai, meu irmão?

Irmão de uma mesma, toda e vária humanidade.

Eu sei o que irei ouvir de ti. Tu, que já me procuravas há tempos.

- Onde eu estava?

Daniel da Rocha Leite.

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Dirk Jurgen

Oesselmann

Alemão

Freiburg - Alemanha

Professor universitário

Professor universitário da Universidade Protes-

tante de Freiburg. Áreas: Educação comunitária

religiosa; educação global; internacionalização; diversi-

dade; global governance; sustentabilidade; ecumenismo.

De 1987 a 2004 no Brasil (São Paulo e Belém).

Acompanhamento e consultoria de projetos sociais em

São Paulo e Belém; educador e professor em Belém.

Carta para a Paz

Queridos!! Queridas ...!!

Eu não sei para quem estou escrevendo. Quem será? Neste

momento ao criar estas palavras e linhas, estou imaginando

vocês: rostos com cabelos pretos, alguns lisos e outros encaracolados.

Será que há pessoas com cabelo amarelo-branco que

nem eu? Olá gente alta, magra! Oi, vocês baixinhos, talvez

fofinhos! E os olhos! Olhos pretos enormes, olhos azuis, olhos

verdes e castanhos – será? Deve ter gente grande e, tomara,

também gente pequena que queira ler esta carta. Sim, agora

sei para quem estou escrevendo: pessoas diferentes, cada uma

especialmente bonita na sua forma e no seu jeito de ser.

Olhando para toda essa diversidade de pessoas lindas, descubro

uma coisa que temos todos em comum – e isso é um

tesouro, não para ser guardado a sete chaves, mas para espalhar

pelo mundo: somos todos humanos! O que é humano?

Bom, não são deuses, nem coisas, nem bichos. É algo muito

precioso: cada um tem, porque nasceu humano. E ninguém

pode ser excluído disso. Além disso, humano é para mim um

sentimento de estar ligado a todos vocês, a todas as pessoas.

Sem conhecer a cada um, a cada uma posso dizer mesmo assim,

que faço parte desta grande família humana! Não somos

Deus, por isso podemos e devemos assumir as nossas falhas e

deficiências. Não somos coisa nem bicho, por isso temos potenciais

de criar, descobrir e pensar – cada um de seu jeito,

mas todos nós temos. Podemos nos encontrar na saudade e no

sonho de amar e ser amado, de dar felicidade e de ser feliz.

Tenho certeza que todos nós – negros, brancos, amarelos,

altos, baixos, jovens e velhos – temos este sentimento: amor

e felicidade como expressão de vida plena.

Lembro de palavras de Desmond Tutu, Bispo Sulafricano e

ganhador do Prêmio Nobel para a Paz:

Tenho um sonho – e acho que Deus também tem este sonho.

Todos nós temos este sonho, pois somos todos filhos de Deus.

É o sonho de fazer parte de uma grande família. Parece ser

simples, mas no fundo é bem radical. Não há ninguém que

está fora, sem exceção. Mas, se todos pertencem à mesma

família, como podemos então gastar tanto dinheiro para armas

que destroem os outros em vez de gastar para comida, água,

casa, saúde e escola?

Neste sonho não existem mais fronteiras entre nós humanos.

Pois a minha humanidade depende da sua e vice-verso.

Chamamos isso Ubuntu em nossa cultura. Significa: Um ser

humano somente se torna humano através de outros seres humanos.

Este é uma carta de paz. Existe uma expressão maior da

paz do que viver a nossa humanidade cheia de vontade para

amar e ser feliz? Mas há algo que nos impede de viver a humanidade.

Vocês mesmos estão sentindo isso: há muitos con-

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flitos e violências, muita miséria e pobreza. Qual é o problema?

Há um problema de fundo. É que muitos querem amor e

felicidade somente para si. Esquecem ou não sabem que são

dois estados-de-ser que dependem da relação com outros -

Ubuntu. Amor e felicidade existem somente em encontros com

outros, em comunhão, em paz. Se eles, ao contrário, são

construídos sob custos de outros, tem que defender o meu com

violência contra outros. Dinheiro tirado de outros não pode trazer

felicidade porque outros vão querer tirá-lo também. Amor

e felicidade só para si é puro engano. Este engano é difícil de

ser desmascarado, mas parece poder ser alcançado mais rapidamente.

Mas ele provém também um outro sentimento: o poder

sobre outros, um sentimento de poder mandar sobre outros e

satisfazer (aparentemente) os seus desejos a qualquer momento.

Lembrar de que somos humanos ajuda a desmascarar este

engano porque deixa claro que, no fundo, ao mesmo tempo,

todos nós somos iguais, somos também diferentes, cada um,

cada um do seu jeito, mas permanecemos, mesmo assim, todos

humanos. A lembrança deste fundo igual deve provocar uma

profunda solidariedade de sermos criaturas vivas que dependem

uns dos outros para viver, para ter uma vida digna de amor e

felicidade.

Só se descobrirmo-nos como parte da humanidade podemos

tornarmo-nos verdadeiramente humanos, pessoas responsáveis

pelos outros.

É esta a minha mensagem de paz. Paz vem de uma responsabilidade

pelo outro, mais ainda de um sentimento de uma

profunda com-paixão com o outro: Eu estou apaixonado pela

outra pessoa, por isso eu sofro com ela, por isso sinto felicidade

com ela.

Precisamos sempre de novas mensagens de paz, para lembrar

da nossa tarefa, para lembrar de sermos humanos.

Despeço-me de um lugar muito longe. Mas, sei que este

sentimento que tenho em mim não conhece distâncias nem diferenças

de língua, raça ou classe social.

Com este sentimento envio para vocês um abraço cheio de

amor e felicidade.

Dirk Oesselmann

Freiburg/ Alemanha, 20 de novembro de 2011

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Domingos Albino

Dos Santos Da Cunha

PortugUês

Fortaleza-ceará-brasil

Padre Católico, professor de

Eneagrama, de Meditação e

de Respiração.

Domingos Cunha. Padre da Comunidade Shalom. Jovens –

Eneagrama – Meditação: três paixões ligadas na mesma vida.

Três livros de Eneagrama e mais um chegando. Um de

Meditação. Desde 1995, mais de 15.000 pessoas tiveram

contato com o Eneagrama através de cursos com

ele. Centenas de pessoas foram atendidas individualmente.

Essa é sua grande fonte e escola de conhecimentos.

Fundou o Instituto Eneagrama Shalom, que

pretende ser uma pequena semente de libertação a

serviço do crescimento integral da pessoa e da transformação

da sociedade, proporcionando a vivência do

Eneagrama como oportunidade de autoconhecimento,

transformação e relacionamento interpessoal, despertando

um olhar compassivo sobre si e sobre os outros,

para que todos tenham vida e vida em plenitude.

Eneagrama como caminho de transformação espiritual

com destino social — é uma marca sua. Uma tradição de

17 anos vivenciando e ensinando Eneagrama, na perspectiva

da transformação pessoal pelo autoconhecimento,

no horizonte da espiritualidade. Membro Fundador

da IEA Brasil (Associação Internacional de Eneagrama –

Afiliada Brasil). Foi Diretor de Projetos Sociais e

Diretor de Congresso e depois Presidente. Palestrante

internacional. Professor de Espiritualidade. A

Meditação veio depois, na continuidade. Eneagrama e

Meditação se juntaram no seu itinerário pessoal e no

processo de trabalho. Escreve o que experimenta na

sua vida e escuta na vida das pessoas.

Querida Criança linda que existe em cada pessoa,

Me deixe lhe dar um abraço, segurar você em meus braços

e rodar com você, sorrindo, até ficarmos tontos e cairmos na

grama e ficarmos rindo abraçados!

Escrevo para você, criança linda que existe dentro de cada

pessoa! Sei que você está aí, no mais profundo de cada pessoa,

escondida por trás de um rosto triste, das rugas sofridas

ou da testa franzida, dos olhos sem brilho... mas você está

aí, mesmo que tenham esquecido de você!

Sei de você! Me encantei, quando descobri você em mim,

habitando-me de forma misteriosa e silenciosa e amorosa. Em

você, descobri o meu ser, a minha essência, a parte de mim

que é o todo das partes que eu era. Você me ensinou a ser eu,

me falou de ser amado e capaz de amar, de ternura e encantamento,

de paixão pela vida e por tudo o que vive, de sonho

e poesia, de apenas saborear a vida porque ela é bela, seja

ela como for. Quando abracei você, respirei a luz do Divino

que me habita, porque você é a Criança Sagrada, presença de

Deus em mim.

Peço perdão, com os olhos banhados em lágrimas de compaixão,

pelas máscaras que sobre você coloquei ao longo da

vida. Elas desfiguraram e distorceram e encobriram e afastaram

de mim a sua beleza encantadora. Quantas vezes e por

quanto tempo deixei de enxergar você por trás de tanta coisa

que deixei a vida colocar entre eu e você!

Agradeço, com o coração suando ternura, por você persistir e

resistir e me esperar... para me ensinar o melhor de mim,

que permaneceu puro e intocável, esperando despertar no beijo

que você me deu quando eu acordei para dentro de mim!

Resolvi ser pedagogo, quando encontrei você. Pedagogo é

aquele que cuida de criança, que ensina criança a andar,

que cuida dos pés da criança cansada que existe em cada

ser humano.

Andei anos a aprender e a ensinar a cuidar da criança que

habita em nós... e descobri depois que precisava aprender a

cuidar da criança que há em cada pessoa. Em cada pessoa,

você está, criança linda e sagrada... e, em cada pessoa,

cada criança chora e tem os pés cansados.

Quero aprender a ver você, criança que há em cada irmão e

irmã... e a entender suas lágrimas e a cuidar de seus pés...

quero aprender a ser pedagogo!

Sonho, porque você me ensinou a sonhar, com você sorrindo

feliz e pulando livre, por entre os olhos brilhando de todas

as pessoas, como te vi e me deixei encantar com o teu

jeito lindo, quando visitei a Creche Casulo, da Fundação Arte

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de Educar Cogente, em Belém do Pará... e chorei. Chorei de

encantamento, ao sentir na liberdade amorosa das crianças

cuidadas, a utopia linda de um dia ver cada pessoa, jovem,

criança ou adulta, resgatar a criança que existe dentro dela...

e brincar com ela... e soltar essa criança para brincar com as

outras crianças nesse jardim imenso que o mundo pode ser!

O autoconhecimento me apresentou a você. Depois de percorrer

longos e escuros labirintos interiores, encontrei você acuada e

triste num canto escuro dentro de mim. Seus olhos me pediram

um abraço e eu, sem jeito, chorei. Depois abracei e sorri.

Fernando Pessoa me emprestou seus versos para explicar: ‘a

criança que eu fui, chora na estrada. Deixei-a ali, quando resolvi

ser quem sou. Mas hoje, vendo que o que eu sou é nada,

quero ir buscar quem fui,onde ficou’. Hoje porém, sou poeta de

mim e falo para você: a criança que eu sou, vai comigo pela

estrada. Encontrei-a, quando acolhi ser quem sou. Ela vai comigo,

aceita e amada, ensinando a estrada por onde eu vou!

Hoje, minha vida é andar por aí, caminhando pela vida das

pessoas, criando situações e oportunidades, para que cada pessoa

descubra você dentro dela mesma. A criança que mora em

mim, fica feliz quando acorda nas outras pessoas a criança

que as habita. O Eneagrama tem sido um mapa, humano

e divino, nessa aventura de resgatar crianças desaparecidas

na selva que somos. A essa sabedoria, agradeço por ajudar a

descobrir o endereço perdido de tantas crianças! A Meditação...

tem sido a arte de ficar sentado ao seu lado, criança

que há em mim, sentindo seu abraço, respirando sua luz e

curtindo paz!

Querida Criança que mora em mim e em cada pessoa...

nunca me deixe só! Segure sempre a minha mão e me leve

ao encontro de outras crianças, por esse jardim imenso que o

mundo é, como espaço para todos brincarem!

Domingos Cunha, CSh.

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Dulce Magalhães

Brasileira

Florianópolis - SC

Filosofia, educação,

palestras e livros

Eleita uma das 100 lideranças da paz no mundo pela

Geneve for Peace Foundation, através de eleição feita

com as ONGs de cultura de paz credenciadas na ONU.

Integra o cômite de 80 lideranças da paz coordenado

pelo ex-presidente americano Bill Clinton para elaboração

de um programa global de cultura de paz.

Recebeu o certificado de reconhecimento como Embaixado-

ra da Paz, no Senado Argentino, marco do Projeto

"Despertando Consciência de Paz" promovido pelas

instituições argentinas Mil Milênios de Paz e Fundação

Paz, Ecologia e Arte, parte dos eventos da Década

Internacional por uma Cultura de Paz, da Unesco.

Ph.D. em Filosofia com foco em Planejamento de Carreira

pela Universidade Columbia (USA);

Mestre em Comunicação Empresarial pela Universidade

de Londres (Inglaterra);

Especialização em Educação de Adultos pelas Universida-

des de Roma (Itália) e Oxford (Inglaterra);

Tecelã da Rede UNIPAZ; Autora de diversos livros.

Querida Paz,

Hoje é um dia de celebração, pois nasceu a Nova Consciência,

filha caçula da Sabedoria.

Fico feliz em enviar essas notícias e dizer que nossa amada

irmã, a Generosidade, acaba de chegar ao porto da essência

perene. Fui com meu coração buscá-la e fiquei preocupada

que não houvesse espaço suficiente para colocar toda a bagagem,

mas a Generosidade veio leve, de mãos livres e até sobrou espaço

para outros membros da família, como a Harmonia, que

anda bem zen esses dias e a Justiça, que acabou nos atrasando

um pouco, distribuindo abraços indistintamente pelo caminho

e dizendo que aprendeu com o avô Tempo, tão antigo,

que tem seu próprio ritmo e não anda pelo nosso.

Minha querida Paz, como você sabe bem, a Sabedoria é a

filha favorita do Tempo e como é também sua afilhada, esperamos

que não deixe de comparecer para o batismo da Nova

Consciência. Fiquei impressionada com a alegria reinante hoje,

que parece ser uma qualidade que essa menina traz consigo.

Quero lhe dizer que aquele lindo moço, o Amor, por quem

você é apaixonada, também virá, espero que isso a entusiasme

a vir ainda mais rápido. Já fico sonhando com as bodas da

Paz e do Amor, imagino que festa fantástica seria esta e que

lindos filhos viriam dessa união.

Uso meus poderes para antecipar que terão uma filha tão

bela como vocês e poderão chamá-la Verdade, gostou do

nome? Era a heroína de um romance antigo que me encantou.

Desculpe, se estou divagando, mas estou tão entusiasmada

com essas boas novas e ansiosa pela sua chegada. Em que

trem virá? Sugiro que venha logo cedo, naquele expresso que

chega com o nascer do sol e não há lugar mais lindo do que

aquela estação no alto do morro, banhada de luz. Ah, e por

favor, venha para ficar, nada de ir e vir, já é hora de você

habitar essa nossa casa comum, uma verdadeira taba, que

apelidamos carinhosamente de Terra, esse recanto abençoado

do cosmos.

Aliás, sentimos que sua presença será valiosa para a educação

de nossa filha do meio, a Humanidade. Há tempos queremos

lhe passar valores fundamentais e condutas de bem viver,

mas ela anda naquela fase rebelde, quem sabe com a chegada

da priminha Nova Consciência, tudo fique mais fácil. Crianças

não são fáceis e não vemos a hora da Humanidade adquirir

maior maturidade e poder cuidar de si mesma, de suas coisas e

de nossa casa com zelo e apreço.

Ela é uma boa menina, mas anda às turras com todos os

outros amiguinhos que também moram na Terra. Ainda bem

que essas fases passam. A vovó Solidariedade, naquele seu jeito

sempre gentil, nos disse para pedirmos ajuda à Paciência, que

entende tudo sobre como lidar com as pessoas. Ligamos ontem

e ela já se dispôs a vir, mas tem que resolver algumas coisas

antes. Hmmm, teremos que ser pacientes, mas já sabemos

que tudo vai dar certo. É coisa de mãe mesmo, a gente quer

que os filhos sejam felizes, especialmente a Humanidade que tem

tantos talentos e dons para ofertar ao mundo.

Esperamos que ela siga o exemplo do irmão mais velho, o

Entusiasmo, e se dedique a aprender com o mesmo afinco que

ele demonstra em tudo o que faz. Nossa caçulinha, a Esperança,

está cada dia mais cheia de graça e nunca nega nada,

é um doce de criatura.

38 39


Por falar nisso, posso lhe pedir uma encomenda? Por gentileza,

traga pães frescos daqueles que só você sabe fazer, queremos

celebrar a chegada da Nova Consciência com uma festa

e vamos pedir à Humanidade que distribua pães entre toda a

vizinhança. O vinho o Amor já trouxe - só pra lembrá-la

que ele está aqui à sua espera.

Paz, minha querida, venha logo, estamos contando e desejando

muito a sua presença. Nenhuma festa tem graça quando

você não está. Você anima qualquer grupo e sempre ensina

aqueles divertidos jogos cooperativos.

Ahimsa, aquele nosso amigo indiano, ficou dias falando das

danças circulares que você ensinou. Todo mundo adorou participar.

Antes que eu me esqueça, nosso irmão, o Diálogo, manda

dizer que você fez toda a diferença no trabalho dele. Viu, já

tem até ocupação pra você aqui. Venha o mais breve possível

minha amada Paz, sei que você não tem encontrado muitos

espaços para atuar por aqui, mas isso vai mudar, você verá.

Com tantos talentos, logo verão seu valor e você ocupará um

espaço cada vez maior no coração de todos. Sei que esse é seu

desejo e fico muito feliz ao saber que muito em breve poderemos

desfrutar de sua presença e inspiração.

Abraços fraternos de sua irmã,

Compaixão

Dulce Magalhães

Manifeste sua Paz!

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Creche Casulo - Educadores

Brasileiros

Ananindeua, PA

Educação infantil e Serviço social

Somos pessoas atraídas pela fé em um mundo melhor

com mais justica e igualdade, amor, esperança,

fraternidade e paz para todas as pessoas. Trabalha-

mos neste espaço sagrado onde estão em formação

humanistica crianças, famílias e educadores que

ensinam e aprendem diariamente a construir um

mundo de paz, a partir do desenvolvimento da paz,

consigo com o outro e com o mundo.

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EDUCADORES da Creche Casulo.

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Elpidio Alves

Pinheiro

Brasileiro

Campinas/Sp

Empresário

Formado em engenharia civil e administração de empresas,

na Universidade Mackenzie, em São Paulo, fez

pós-graduação em “Transdisciplinaridade em Saúde,

Educação e Liderança”, na Universidade Holística Internacional

(UNIPAZ), fundada por Pierre Weil, e curso de

Biopsicologia, orientado pela psicóloga e monja iogue,

Susan Andrews. É terapeuta social do Colégio Internacional

dos Terapeutas (CIT), sob inspiração e coordenação

de Jean-Yves Leloup. Atuou durante 18 anos como

executivo em empresas construtoras de grande porte,

na área de infraestrutura, no Brasil, e há 18 anos é

empresário nesta atividade. Motivado por angústias

interiores e desejos anímicos, há sete anos iniciou

estudos transdisciplinares na UNIPAZ e, há quatro

anos, participa da Escola SAT, fundada pelo psiquiatra e

terapeuta Cláudio Naranjo. É autor do livro “Condenados

a amar – o Eneagrama sagrado como caminho para o

despertar da amorosidade”.

CARTA À CRIANÇA DE RUA

Confesso que as exigências da vida (as naturais e as muitas

outras que criei) me fizeram esquecer de você. Quando pequeno,

sentia-me descuidado e sem privacidade, pela presença de tantas

pessoas estranhas ao núcleo familiar em minha casa. Muito

precocemente, isolei-me na leitura de enciclopédias e livros e

passei a construir “um mundo só meu”: com muito empenho,

comprometimento, seriedade e foco em resultados.

Com o passar dos anos, já adulto, em muitos momentos

sentia uma dolorosa saudade de algo e uma tristeza profunda

pela ausência de alguém, para as quais não sabia dar

nome ou reconhecer a face. Sei agora que era de você, minha

criança de rua, que tanta ausência lamentava e de quem tantas

saudades sentia.

Venha correndo para os meus braços e para o meu colo.

Abrace-me e se entregue confiante. Respire e sorria. Perdoe-

-me pelo esquecimento e pelos sofrimentos que lhe causei, por

minha inconsciência e pelas tribulações do cotidiano que me impus.

Agora lhe reconheço como parte essencial de meu corpo e de

minha alma. Sem sua presença não quero mais viver.

Comigo está seguro e tem permissão para expressar seus sentimentos:

brincar, correr, jogar bola na rua, tomar a primeira

chuva da primavera, subir na mangueira, rolar pelo chão,

comer muito brigadeiro e fazer todas as estripulias que tiver

vontade. Minha alegria será ver sua espontaneidade, ouvir seus

risos e tentar responder suas misteriosas perguntas.

E, quando se machucar, venha correndo para o meu colo,

para que eu cuide de suas feridas e possa consolar seu choro.

Agora, reunidos em comunhão, o adulto e a criança em um

só corpo, temos a bênção e o convite para retornar de onde

viemos. E ali, redimidos pela Consciência Plena, gozarmos a

felicidade e a bem-aventurança.

Sigamos caminhando adiante, a passos firmes, apreciando a

paisagem: alegres e despertos. Muito serviço nos espera.

Elpidio Alves Pinheiro

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Ester Sá

Brasileira

Belém - PA

Teatro

Artista. O teatro é o meu caminho para descobrir e

reinventar o mundo, amo e observo as pessoas que

são o tema e os destinatários de meu trabalho.

Procuro ser um ser humano melhor, e considero

viver um grande exercício.

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Evania Astér

Reichert

Brasileira

Novo Hamburgo – RS

Terapeuta, escritora,

professora, conferencista

Coordenadora do Valo do Ser-Desenvolvimento Humano,

Arte e Cultura, no Rio Grande do Sul. Professora de

Psicologia dos eneatipos da equipe brasileira de Cláudio

Naranjo. Autora dos livros Infancia , a idade sagrada,

Sat na educação e co-autora de O Amor à Arma e a

Química ao Proximo.

Aos que fazem o mundo em que vivem

"Os delicados inícios da vida são de grande importância.

São os fundamentos do bem-estar da alma e do corpo. Gostaria

de pedir-lhes apoio a esses esforços. Precisamos de paz

sobre a Terra, paz que começa no ventre da mãe."

Eva Reich (*)

É durante a Primeira Infância que formamos uma espécie

de fundo de reserva que nos permitirá dar conta de tudo o que

virá depois. Se esse fundo de reserva for suficiente, teremos os

recursos necessários para lidar com os desafios e os embates da

vida. Porém, se ele for raso ou nem chegar a formar-se, a

sua falta se tornará um campo fértil para a brotação da

violência e do mais doloroso sofrimento humano, o desequilíbrio

psíquico.

A violência não surge de repente, na adolescência ou na juventude.

Ela chega muito antes, já no nascimento e ao longo

da primeira infância. Da mesma forma, o humanismo também

não se constitui quando nos tornamos jovens ou adultos.

Ele nasce muito cedo, no primeiro ano de vida, quando somos

reconhecidos e tratados como humanos pela primeira vez.

O registro primordial de paz, ou de violência, já se dá no

útero de nossa mãe. Se o útero materno é um ambiente calmo,

inicia-se um ciclo vital ancorado na autorregulação, no

bem-estar e na humanização. Porém, se a mãe vive em

ansiedade, o cortisol, que é o hormônio do estresse, alcança

o bebê por meio do cordão umbilical, causando aceleração dos

movimentos fetais, hiperatividade e tensão.

Se na hora do parto a equipe de assistência não considerar

a subjetividade infantil e materna, o bebê sofrerá uma carga

de violência impressionante. Isto ocorre, por exemplo, nas cesarianas

desnecessárias, agendadas antes das quarenta semanas

de gestação, nos partos normais desrespeitosos, no afastamento

abrupto do bebê de sua mãe, na mecanicidade inflexível dos

procedimentos de rotina, que geram os maus tratos hospitalares.

Depois do nascimento, enfim, quando a paz poderia começar

a florescer dentro do bebê, surgem novas ameaças. Nos

primeiros trinta dias o recém-nascido necessita de silêncio para

que, aos poucos, comece a vir de dentro de si mesmo para

fora, para o mundo. Gradativamente, ele integra corpo e psique.

Porém, é comum vermos recém-nascidos em shoppings,

na beira da praia, em festas, enfim, expostos em excesso aos

estímulos externos. Desta forma, um bebê pequeno não consegue

desenvolver a capacidade primária de autorregulação, comprometendo

a sua condição futura de lidar com o estresse.

Quando não há respeito biopsicológico no início da vida, o

recém-nascido se defende do jeito que pode: ou se desconecta,

criando a matriz dos núcleos psicóticos, ou se estressa ao extremo,

fazendo nascer a semente da violência, da autodestruição

e da depressão. Não teremos adultos sadios sem prevenção biopsicológica

desde o começo da vida. Quando as crianças pequenas

recebem afeto, respeito biopsicológico e cuidados suficientes,

elas têm grandes possibilidades de se tornarem pessoas pacíficas e

amorosas; saudáveis em seu desenvolvimento físico, emocional e

cognitivo.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde alertou

sobre a urgência de medidas de prevenção no início da vida.

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Segundo a OMS, em vinte anos, a depressão será a doença

dominante em todos os países, superando o câncer e as doenças

cardiovasculares. Essa já é a doença mais incapacitante do

mundo, afastando milhares de trabalhadores de suas funções.

Ora, se sabemos que a matriz da depressão surge no primeiro

ano de vida, o que acontece conosco - enquanto sociedade

- que não relacionamos a causa com a consequência?

Nem mesmo fazemos as tradicionais análises de custo-benefício

entre os encargos altíssimos do afastamento do trabalho por

depressão, e os custos, infinitamente menores, dos projetos de

prevenção na criação e educação de crianças.

A verdade é que estamos em uma situação de emergência. As

sirenes estão tocando em todos os lugares: lares, escolas, delegacias

de polícia, campos de futebol, empresas, hospitais. A crise

nos modos de educar, de viver e de se relacionar tomou vulto.

O consumo de drogas está alarmante. O uso regular de

medicamentos psiquiátricos, inclusive por crianças, assim como

a prática do bullying, dentro e fora das escolas, alcança patamares

antes nunca vistos. Crescem os casos de autismo, de

bulimia, de anorexia. Crescem os suicídios infantis e juvenis. E

os adultos se deprimem, cada vez mais.

Enfim, as notícias não são boas. Porém, enquanto esse tipo

de mundo mostra sua queda vertiginosa, outro está sendo erguido,

em plena construção. Enquanto o velho agoniza sua

insustentabilidade, inclusive psicológica, um novo tipo de mundo

emerge com uma energia forte, cheia de inspiração, vitalidade

e criatividade. São centenas e centenas de comunidades, virtuais

ou não, mundo afora, que estão a trabalhar por mudanças,

por uma cultura de paz e de humanização. É uma espécie de

canteiro internacional de obras, com milhares de pessoas, cada

uma fazendo a sua parte. Muitas dedicam suas vidas à proteção

das crianças, a tarefa mais importante desta época.

Enquanto o mundo velho sofre sua falência, há outro se

erguendo, criando corpo. Basta nos conectarmos a ele para

sentir o volume de pessoas, entidades, grupos, comunidades, enfim,

é muita gente realizando trabalhos magníficos pela humanização

do nascimento, pela mudança na educação, na política,

na medicina, na ciência, na arte; pelo respeito às crianças e

aos velhos; pela proteção dos animais e das florestas, pelo resgate

do sentido de viver e de ser de jovens e adultos.

É claro que, diante do caos gerado por esse mundo em

derrocada, há muito por fazer. Parece decisivo, entretanto, escolher

onde vamos investir a nossa energia pessoal: trabalhar

sobre um solo estéril, ainda tentando salvar um cadáver andante,

um projeto insustentável de sociedade, evidentemente falido?

Ou, plantar onde há terra fértil, saúde, vida, infância, sonhos,

fé e humanismo? É certo que viver em qualquer um desses

dois mundos vai consumir toda a nossa energia de trabalho e

de criação. A diferença é que apenas um deles nos devolve em

dobro tudo o que lhe oferecemos. Somente um deles é capaz de

nos trazer paz. Somente um deles tem futuro.

Terapeuta, professora, escritora, autora do livro Infância, a

Idade Sagrada e coordenadora do Vale do Ser - Desenvolvimento

Humano, Arte e Cultura (RS)

*Eva Reich, pediatra e filha de Wilhelm Reich. Eva dedicou

sua vida à sensibilização de gestantes, ao nascimento e à

humanização na criação das crianças.

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Giovana Barbosa

de Souza

Brasileira

São Paulo - SP

Gestora Institucional da

Aliança pela Infância

Giovana Barbosa de Souza é Relações Públicas, sua

atuação é voltada a área social com foco na infân-

cia, especialmente a projetos sobre politicas publicas

para infância e cultura de paz e na primeira infância.

Responsável pela gestão institucional da rede Aliança

pela Infância no Brasil. Membro do Conselho Consultivo

da UMPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e

Cultura de Paz em São Paulo. Membro do Conpaz -

Conselho Parlamentar pela Cultura de Paz, órgão da

Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Caro leitor,

Você deve estar espantado ao encontrar esta carta, ela veio

de um lugar distante até as suas mãos.

Sou uma mulher que nasceu em uma cidade pequena chamada

Neves Paulista, no interior do estado de São Paulo no

Brasil. A cidade onde nasci tem por volta de cinco mil habitantes.

Um lugar bastante quente, a temperatura é por volta

sempre de 38 graus. Os dias são ensolarados e alegres. As

pessoas solidárias e muito observadoras, como são sempre as

pessoas que nascem em locais assim.

Fui uma criança que brincou na rua e fez muita peraltice.

Tenho duas irmãs, um pai e uma mãe muito especiais. Desde

pequena ouvia uma voz dentro de mim que me impulsionava

para o mundo, sabia que precisava conhecer novos lugares e

fazer muitas coisas.

Quando tinha 15 anos fui estudar em uma cidade um

pouco maior que a cidade onde nasci, na sequência fui fazer

meu curso universitário em outra cidade também de porte médio

chamada Bauru.

Depois de completar meu curso fui morar e trabalhar na

cidade maior do meu país, São Paulo. Neste lugar tive a

oportunidade, por meio do meu trabalho, de conhecer quase todos

os estados do meu Brasil. Uma diversidade maravilhosa de

pessoas e de lugares. Com o tempo tive a oportunidade de conhecer

vários países.

A vida é muito interessante no tempo em que vivo, o

grande desafio é descobrir como viver da melhor forma, em

especial neste tempo da humanidade em que todos trabalham;

homens e mulheres gastam a maior parte das horas de suas

vidas neste planeta trabalhando para poder viver.

Desde cedo, por volta dos meus oito anos, percebi que poucas

pessoas gostam muito do que fazem, algumas fazem seu trabalho

até mesmo sem perceber por quê fazem?

A única justificativa é o dinheiro para poderem viver. A

maior parte das pessoas que conheci não percebe que suas vidas

são o seu bem mais valioso.

Existem pessoas que até fazem um lindo trabalho, importante

para muitos, como alguns médicos que tive a chance de conhecer,

mas muitos também vivem como se estivessem no piloto

automático. Ou seja, não tem nem mesmo um brilho no

olhar. Bom humor então?

Designei para mim, ainda criança, a tarefa de descobrir

no que poderia trabalhar para viver de forma que eu gostasse

muito, onde tivesse a possibilidade de viver alegremente sem ser

censurada, que eu pudesse ter bons amigos, em que eu pudesse

ter criatividade, sem rotinas e, simplesmente, ser feliz.

Criei um caminho onde, com muita coragem e força de

vontade, pude experimentar algumas formas de viver bem diferentes

da referência que tinha a minha família.

Quando cursei a universidade fui vendedora em uma loja

de roupas no shopping da cidade, me formei em comunicação,

estudei teatro, trabalhei em um laboratório médico como Relações

Públicas, depois fui trabalhar em uma produtora de filmes,

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estudei cinema, comecei a fazer mestrado em educação até, finalmente,

descobrir para que vim ao mundo.

Graças a uma amiga muito especial e uma professora maravilhosa

tive a chance de trabalhar em um lugar que mudou

minha vida, tive a oportunidade de trabalhar com projetos

voltados à infância e, finalmente, todo caminho que percorri

se encaixou.

Nesta descoberta coube todo o meu caminho. Minha vontade

de viver com arte, com alegria, meu engajamento social,

minha fé, vontade de contribuir para um mundo melhor, a

oportunidade de ter amigos que me ensinam e que, acima de

tudo, estão comigo nos momentos alegres, tristes... E quando

a vida me traz desafios audaciosos eles me ajudam a lembrar

quem realmente sou.

Aprendi, neste caminho, que nem tudo foi e é lindo sempre,

que existem momentos muitos doloridos para todos os seres

humanos na vida. A vida humana é difícil e pesada. Aprendi

que o bem mais valioso que qualquer moeda, é a atenção que

damos ao ser humano que está diante de nós. Que este pequeno

momento, mesmo que seja comprando um sorvete, não

vai mais voltar, por isso, dê atenção às pessoas que estão com

você no lugar onde você está.

Aprendi que a alegria natural da alma incomoda muito,

muitas pessoas perdem muito cedo esta forma de trazer sua luz

para a vida e quando reconhecem esta ação nas pessoas, logo

as censuram.

Muitas vezes, ao longo da minha vida, fui censurada e

desvalorizada porque sempre fui muito alegre. Dá muito trabalho

ser respeitada e alegre, mas vale à pena. Nunca deixe de celebrar

qualquer conquista, a vida tem mais cor para quem

é alegre.

Aprendi que ser verdadeira também exige muito esforço. Verdadeira

e delicada então, meu Deus! Mas este é o único caminho

para avançarmos no processo de evolução humana.

Hoje, no início do século XXI, acredito que a nós é dada

a chance de ampliarmos nossa consciência sobre nós mesmos,

sobre o processo de convívio com nossos pares e com nossa

casa chamada Terra. Aprendi que só é possível seguir adiante

sendo verdadeira e, para isso, é necessário confiar e respeitar

você e os outros.

Caro leitor, depois deste breve relato sobre minha biografia e

meus aprendizados, tomo a liberdade de desejar boa sorte à sua

caminhada na Terra.

Lembre-se que, independente dos anos que você já viveu e

das coisas que você já experimentou, tenha ainda sempre:

Liberdade e espaço na sua vida para sua criatividade; tempo

para observar e para viver com alegria e verdade cada minuto

do teu tempo na Terra.

Um abraço!

Giovana Barbosa de Souza

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Gláucia Marques

Moreira

Brasileira

Belo Horizonte - MG

Professora / Educação Infantil

Gláucia Marques Moreira, nascida em 1959 em Belo

Horizonte- MG. Professora de Jardim de Infância

Waldorf, formada em Magistério, cursou Seminário

Básico de Antroposofia pelo instituto ELO e o SEPAPA

IV (seminário para professores atuantes de

Pedagogia Waldorf).Iniciou seu trabalho na Educação

Infantil em Belo Horizonte nas Escolas Pólen e Lume

e desde 2002 atua na Escola Aitiara em Botucatu. Em

2010, iniciou um trabalho de Assistência Pedagógica

na Creche Casulo em Belém- PA, onde também ministrou

cursos de capacitação para professores com

os princípios da Pedagogia Waldorf.

Botucatu, 19 de Novembro de 2011.

Às Pessoas do Mundo.

Quando pequena, os sentimentos que moravam dentro de mim, ajudaram-me a construir

um desejo, que seguiu comigo ao longo dos anos. Esse desejo cresceu e encontrou um caminho:

Estar diante das crianças pequenas.

Minha busca e pedido de alma, para tal, me levaram ao encontro da Antroposofia, que

me trouxe o entendimento e reconhecimento da criança como uma entidade espiritual. Este

princípio fortaleceu e deu sentido ao que vivia por trás da minha decisão:

Sonhar com um Mundo melhor.

As crianças vieram ao meu encontro. Chegaram e continuam chegando a cada ano, vindas

de todos os cantos do mundo.

É como receber o Céu no Jardim de Infância.

Elas trazem consigo lembranças bem fresquinhas do nosso passado, nossa vida no plano

espiritual. Carregam em seu ser uma vontade grande, disponível para conhecer e aprender,

sobre o nosso Presente, o mundo da Terra, do humano.

Com uma abertura de alma, comparada a abertura do Céu sobre a terra, cada uma delas,

querem e precisam fazer parte desse mundo, da vida dos homens.

Junto à disponibilidade da Vontade, está também a força da Imitação, para com muito

esforço, conquistarem passo a passo, a consciência de seu corpo e construírem a moralidade

para sua vida futura.

Essa abertura de alma é particular da criança. É esse momento que considero o mais

precioso na vida dos homens, a Infância.

É diante da Infância que me coloco à disposição, com todo o meu Ser, o de dentro e o de

fora, trabalhando para que o fazer parte, se torne possível a elas.

Elas aprendem muito brincando, mas são sapequinhas; como esponjinhas, absorvem tudo

ao seu redor. Trabalham o tempo todo, imitando tudo. Nada mais, nada menos, do que tudo

que o mundo oferece.

Todo o meu ser e o Jardim de Infância, são a “casa”, que preparo para recebê-las.

São o mundo. Elas vivenciam e absorvem tudo o que mora no físico e na alma desses

dois “ambientes”.

Esse preparo é a minha grande e difícil tarefa enquanto educadora e enquanto pessoa

que ainda sonha com um mundo melhor.

Considero-me a maior abençoada neste encontro com as crianças. Conto a elas muitos

segredos, com atitude e gesto.

Elas me contam o maior e o mais significativo dos segredos, com inocência: O amor.

Às crianças que vivem na terra e as que estão por vir, agradeço pela preciosa possibilidade

de transformação, que representam no mundo dos homens.

À vocês, pessoas do mundo, quero me unir, para juntos protegermos com amor a Infância.

Pois acredito nelas: O amor é o grande segredo, para construirmos um mundo mais humano

e em paz.

Com Amor,

Professora Gláucia.

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Heliana Barriga

Brasileira

Castanhal – PA

engenheira agrônoma,

trabalha com arte,

terapia infantil e projetos

na área da saúde

Heliana Barriga é Engenheira Agrônoma pela FCAP/UFRA,

mestra em melhoramento genético de plantas pela USP.

Reside na OIKOS TIS POESIAS entre plantas e poemas,

cultivando-os com prazer e alegria. Sua oikos é lugar de

ficar, refletir, criar, e sair para repartir os conhecimentos

adquiridos. Dedica-se a dois grandes projetos de

vida criativa: o MALA SEM FUNDO, de onde tira tudo para

a alegria das crianças, e o TERRA MULHER, onde sai das

páginas do livro que se transformam em quintais, nos

quais estuda a vida cultural das mulheres e suas

famílias. Reparte a sua morada com outros artistas como

fonte de relaxamento e inspiração. É autora dos livros

A PERERECA SAPECA e A ABELHA ABELHUDA, COM A EDITORA

FTD, há 30 anos, com distribuição nacioal, e dos livros

TRAVA TROVA LÍNGUA, ACREDITE QUEM QUISER, O LIVRO DO

PALAHÇO, O LIVRO DA BRUXA, PARQUE DE DIVERSÃO DAS

PALAVRAS, CLARIA, com a editora KROMOS, é compositora e

intérprete dos cds infantis LETÍCIA COÇA-COÇA, A

FILHA DO JABUTI, SE EU FOSSE VOCÊ EU BRINCAVA, ALICE,ME

NINA. É contadora de história para crianças e oficinaeira

de arte da palavra.

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João Simões

Cardoso Filho

Brasileiro

BELÉM-PA

Desde os 11 anos comecei meu processo de buscador

pela religião. Estudei Filosofia e Teologia em Seminários

Católicos. Os conflitos com a Teologia Católica e algumas

posturas da Igreja, me levarão a abandonar o seminá-

rio e procurar outros caminhos espirituais. Dentre

outras coisas, fiz 13 módulos da UNIPAZ, em Belém.

Recebi iniciação em Reiki, primeiro e segundo níveis.

Desde 2005 trilho um outro Caminho Espiritual que

vem provocando ainda mais transformações toda a

minha vida: o Pathwork. Atuo profissionalmente como

professor universitário.

Filosofia, Mestre em

Antropologia Social e

Ciências Sociais.

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Belém, Novembro de 2011.

Queridas crianças,

PAZ!

Paz, não é apenas uma palavra, é também um conceito, pois

encerra dentro dela várias coisas, ações, sentidos, consciência,

mas que não se..... eu ia dizer que paz não se pode tocar. Mas

acho que estaria errado, pois quando ela existe em algum lugar

ou ambiente, ela se torna palpável, e todo mundo entende o que

ela é. Paz é também um sentimento.

Conceito é como um quebra cabeças, está cheio de sentidos

e caminhos a serem encontrados. É um conjunto de inúmeras

palavras, cuja definição é bastante difícil. Podem se escrever

livros para tentar explicá-lo. Você sabe o que é PAZ? Então,

pode me ajudar?

Quando eu era pequeno, bem pequeno mesmo, e ouvia falar de

Paz, me vinha raiva.

Meus pais brigavam quase todos os dias, e me batiam muito,

e eu ficava com muito medo, muito mesmo. Tinha medo de

morrer, medo de me machucar, medo de não ser amado por

eles, medo que eles se separassem e me deixassem desamparado.

Esse medo era sempre acompanhado de raiva, que aumentava

ainda mais quando eu ouvia da boca deles ou de algum

sacerdote, a palavra PAZ.

Então essa palavra parecia completamente sem sentido para

mim. Eu morava bem, tinha o que comer todos os dias, roupas

limpas e uma cama pra dormir. Mas eu sabia que outras

crianças, não tinham um lugar pra morar, e se proteger, um

lar. Então eu ouvia na televisão ou no rádio muitos políticos que

falavam PAZ. Que palavra esquisita aquela, que no meu mundo

nato tinha nenhum sentido, PAZ.

Até mesmo aqueles representantes de nações que vivem promovendo

intervenções e guerras em várias nações dizem que suas

ações são em benefício de encontrar a Paz.

PAZ??? Uma mentira, me parecia, isto é, um cinismo.

Com o tempo eu fui percebendo que quando eu brincava com

meus irmãos, ou na escola, ou com meus vizinhos, jogando bola,

subindo em árvores, ou correndo num “esconde-esconde”, eu

machucava, batia, humilhava. Fui tomando contato com minha

crueldade, então não ousava dizer essa palavra, PAZ. Afinal eu

era muito parecido com o mundo que me rodeava.

Tornei-me depois na adolescência e juventude um militante

religioso e político. Proclamava a igualdade econômica entre as

pessoas e o fim da pobreza, mas odiava tanto que não me dava

conta que isso tudo me impedia de pronunciar essa palavra, PAZ.

Sempre soube acusar todo mundo, dizendo que iriam para o

inferno ou que seriam condenados à prisão, depois que a revolução

para a igualdade triunfasse. Afinal o inferno que eu habitava e a

prisão que o ódio me conferia não podiam deixar de se oferecer

a quem estava ao meu lado. Por isso mesmo, eu não conseguia


nem ousava dizer PAZ.

Meus olhos estavam cegados por mim e pelos outros, eu só

via a fome, a guerra, o cinismo e a exploração do homem pelo

homem; por isso eu só podia oferecer o inferno ou um julgamento

e a pena na prisão.

MAS, depois que eu encarei tudo isso de frente, e comecei a

me aceitar exatamente como eu sou, comecei a descobrir dentro

de mim um grande coração e uma grande luz, A Compaixão.

Parei de fazer guerra comigo, deixando a culpa e a auto comiseração.

Percebi que eu sou maravilhoso, tanto como uma gota

de água na chuva, ou um por do sol, ou um luar, uma flor ou

um passarinho a voar. Eu sou natureza com a Natureza, eu sou

tão bonito quanto você minha amiguinha, ou você meu amiguinho,

que agora está lendo esta minha carta.

Como agora eu posso me ver, eu também te vejo. Então porque

eu gosto muito de mim, tanto quanto eu gosto de você, eu posso

dizer contigo PAZ; pois só quem aprendeu a amar pode dizer sem

medo, sem fingimento, numa dança de amor e de Luz, PAZ.

Hoje já sou um senhor, quase um ancião, continuo socialista,

continuo espiritualista, mas como aprendi a amar e a confiar no

amor, já posso dizer pra todo mundo, PAZ.

Você gosta das plantas, dos rios, do sol? Você gosta dos bichos,

da terra, do ar? Eu também amo todas essas expressões

da natureza, que está fora de mim, e também dentro de mim,

se relacionando comigo. Por isso também posso dizer à natureza

quando cuido dela, e a amo, PAZ!. PAZ!

Muita paz a todos vocês.

João Simões

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Kaká Werá

Brasileiro

São Paulo, SP

Escritor. Ambientalista. Especialista na cosmovisão e

filosofia tupy-guarani. Terapeuta e Empreendedor

Social. Focaliza cursos, imersões e vivências á 15 anos

na Unipaz (Universidade da Paz) e no Instituto

Arapoty. Conferencista internacional, já percorreu mais

de 10 países discorrendo sobre diversidade

cultural,sabedoria ancestral, sustentabilidade e

responsabilidade social. Entre eles: Inglaterra, França

e Estados Unidos.

Conselheiro da Bovespa Social, membro do Colégio Internacional

dos Terapeutas, membro-fundador da URI

(United Religions Initiative), da Ashoka Empreendedores

Sociais, conselheiro da Fundacion France libertes

Danielle Mitterrand.

Fico tentando entender como o chamado o mundo palestino,

egípcio, árabe, ou africano conseguem aceitar em seu cotidiano

tanta agressividade, tantos desastres e mortes, tantos conflitos

e intervenções externas em nome de soberania, pátria,

deus, poder, território, defesa de castas, dogmas, orgulho,

supremacia e muitos outros motivos supostamente justos. E no

Brasil, “o novo mundo”, assim como nas Américas, tantos

conflitos gerados a partir de inúmeros fatores de desigualdades

sociais que por sua vez são tão contundentes e graves como nos

velhos continentes.

Fico tentando entender como entre as nossas famílias também

se gera mágoas, distorções, ódios, dores e insatisfações.

E entre pessoas, mesmo aquelas que possuem vida econômica

estável e status social considerável, frequentemente entram nas

mais diversas situações de desarmonia. Digo isso observando

a mim mesmo e as minhas relações pessoais e sociais; vendo

como não é difícil desestabilizar as emoções e em determinadas

circunstâncias gerar insatisfação, ou mesmo raiva, nervosismo,

ou tons variados de agressividade.

Existe alojado em diferentes níveis de cada um de nós memórias

de situações, coisas e fatos que causaram o oposto da

paz. Seja na dimensão coletiva ou individual. Fico tentando

entender tudo isso. Qual a causa dessa gama interminável de

manifestações que se opõe ao estado pacífico? E a resposta que

silenciosamente ouço é: você se afastou da sua natureza.

Não é a natureza étnica, nem a natureza cultural, nem

tampouco a bucólica natureza dos diversos ecossistemas que se

expressa em beleza diante dos nossos olhos. A clareza com que

o silêncio disse foi: “ você se afastou da sua natureza essencial”.

Então perguntei, qual é esta natureza essencial? E a voz

do silêncio disse:” a natureza do espírito. Você é espírito. Sopro

vivo e luminoso. Emanação de uma fonte misteriosa e inesgotável

em abundância de vida. Exatamente como tudo que existe.

Portanto, quando entenderes de verdade que tudo se irmana,

se iguala nas mais diversas diferenças, e comunga-se a

mesma respiração, saberás o que é a natureza essencial.”

A natureza essencial conduz ao estado de paz. Este, por sua

vez, não é passividade e nem ausência de conflito. Ás vezes

distorcemos o sentido da palavra paz e a entendemos como

omissão, como inércia, e negligenciamos o aprendizado primevo

e ancestral, que deveria ser o enraizamento em nossa natureza

essencial, verdadeira fonte de onde emana a vida que se manifesta

através de nossos pensamentos, palavras, gestos e ações.

A verdade é que vamos vivendo a vida de acordo com nossas

crenças de escassez, de desafetos, de necessidades básicas,

decorridos da ideia de separatividade da vida-fonte-única

que foi introjetada em nossa consciência desde tempos remotos.

Vivemos de acordo com nossas soberbas pessoais e coletivas,

criando ideias de superioridade perante pessoas, povos, nações.

Passamos nossas vidas correndo para atender necessidades de

riqueza por não reconhece-la diante do nosso interior. Passamos

68 69


a vida correndo atrás de amor, por não reconhece-lo antes de

mais nada, em nós mesmos. Passamos a vida correndo atrás

de posições sociais muitas vezes por insegurança e medo. E o

espírito da paz pede silenciosamente para recobrarmos a nossa

natureza essencial, eternamente disponível em nossa própria

respiração, em nosso próprio ritmo cardíaco, em nossos próprios

passos quando passeiam pelos parques verdes, ruas silenciosas

pujantes de horizontes entre belezas ímpares de nascentes

e poentes. Quem já não sentiu o prazer da vida que a natureza

espelha? Quem já não sentiu o bem estar em uma simples

caminhada? Quem já não sentiu paz ao brincar como criança ou

quando era criança? Em um abraço? Em mãos que se tocam?

Sim, todas estas sensações não são desconhecidas para nós.

Muitos de nós acreditamos que o estado de paz é ocasional,

fortuito, eventual e raro. Muitos de nós associamos a paz á um

ganho, uma conquista, um premio, e até mesmo um dom. Na

verdade é a estrutura de todo o universo, pois sem ela a rotação

dos planetas, as estações da natureza, ou seja, o ritmo

harmônico da vida não seria possível. A paz não é ocasional,

ela é causal. A causa de toda inspiração e expiração da vida.

O grande dilema de nós, seres humanos, é que valorizamos

tanto os estados de desarmonia, que acreditamos que eles se

sobrepõem ao estado de harmonia. Tudo isso porque não reconhecemos

e não cultivamos a nossa natureza essencial, que é paz.

Que a paz esteja conosco!

Eu sou Kaká Werá, eu falei.

70 71


KATIA MARLY

LEITE MENDONÇA

Brasileira

BELÉM-PA

Ensino E Pesquisa

Possui doutorado em Ciência Política pela Universi-

dade de São Paulo (1997). Pós-Doutorado em Ética na

Universidad Pontificia Comillas(Madrid/Espanha-2007

e 2010). É Professora associada da Universidade

Federal do Pará atuando principalmente nos

seguintes temas: ética, nao-violência, alteridade,

violência e instituições. Coordenadora do Projeto de

Extensão Universitária Peregrinos da

Paz.Coordenadora do Projeto de Formação em Ética

para o Diálogo/Programa Novos Talentos/CAPES na

UFPA. Bolsista de Produtividade do CNPQ.

Da Paz

Para Paul Ricoeur, de um ponto de vista marcado pela ética de Aristóteles, não

seria o medo, nem a desconfiança, nem a vaidade que gerariam a Paz, como o foi para

Hobbes, mas, pelo contrário, “imaginar a Paz é livrarmo-nos dessa motivação profunda:

a conservação da vida, a desconfiança, a vaidade e o medo da morte violenta que nos

levam a construir um monstro”.

Imaginar a Paz exige, sob esse viés, que busquemos libertar o fundo de bondade que

em cada um de nós. Em todo ser humano há uma orientação primeira para o Sim, dirá Ricoeur.

Somos orientados, antes de tudo, pelo “desejo de encontro e de reconhecimento”.

O “percurso do reconhecimento”, em vez de assentado na luta o é na vida ética,

que nada mais é do que o ensinamento de Aristóteles de um “desejo de viver uma

vida boa, com e para os outros e em instituições justas”, portanto dando conta do

pessoal, do interpessoal e do social. Esse reconhecimento buscado pelo homem dá-se

em três dimensões: afetiva, judicial e social. O primeiro gera autoconfiança, o segundo

respeito próprio e o terceiro é a síntese de todos. O reconhecimento tem por origem

o reconhecimento de si mesmo por meio da autorreflexão ou autoconsciência de si.

Um estado de Paz, no sentido grego, é um “estado de ágape”. Como lembra Ricoeur,

“é digno de nota que os ‘estados de Paz’ com a ágape encabeçando-os sejam globalmente

opostos aos estados de luta [...]”. A ágape não é orientada pelo julgamento e nem

pelo cálculo, ela perdoa as ofensas, não no sentido de afastá-las ou reprimi-las, mas

de “deixá-las ir”. A ágape é gratuidade e “possui um olhar em favor do homem que é

visto [...]”.

Mas, um estado de Paz é também um “estado de shalom”, no sentido judaico-cristão.

Aqui o termo hebreu para Paz, shalom,

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tem um significado profundo e complexo e mais do que simplesmente

a ausência de hostilidade ou guerra entre os homens, refere-se às

ideias de cura e de saúde, de inteireza, de harmonia, de completude e

de bem-estar. Significa assim harmonia, estabilidade e segurança dentro

de uma comunidade. Diz respeito às relações baseadas na verdade e na

retidão das pessoas.

O imaginário mais completo de shalom encontramos no quadro Bíblico descrito por Isaías, no qual

Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas

raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria

e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de

ciência e de temor ao Senhor. Sua alegria se encontrará no temor ao

Senhor. Ele não julgará pelas aparências, e não decidirá pelo que ouvir

dizer; mas julgará os fracos com equidade, fará justiça aos pobres da

terra, ferirá o homem impetuoso com uma sentença de sua boca, e com

o sopro dos seus lábios fará morrer o ímpio. A justiça será como o cinto

de seus rins, e a lealdade circundará seus flancos. Então o lobo será

hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o

leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá; a vaca e o urso

se fraternizarão, suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha

com o boi. A criança de peito brincará junto à toca da víbora, e o menino

desmamado meterá a mão na caverna da áspide. Não se fará mal nem

dano em todo o meu santo monte, porque a terra estará cheia de ciência

do Senhor, assim como as águas recobrem o fundo do mar.

(Isaías 11:1-9).

A Paz verdadeira, sob a perspectiva cristã, não é a Paz dos homens. Esta é frágil

e submetida aos interesses imediatos e egoístas da humanidade. A Paz verdadeira

é fruto do amor, principal ensinamento do cristianismo. Tudo o mais, incluindo a Jus-


tiça, decorre dessa Paz que é dada pelo diálogo entre o homem e Deus e que exige,

portanto, a oração e a consagração dos atos e das vidas dos homens. A crise da

humanidade reside na não-graça do ódio, da inveja, da disputa, da cobiça, do desamor.

O homem é analfabeto do sentimento do amor. Uma educação para a Paz deve necessariamente

poder despertar a humanidade e conduzi-la ao amor e à misericórdia de

uns para com os outros, como Deus tem para com ela, tentando, mesmo em meio à sua

fragilidade, retomar o sentido da vida e o diálogo. Daí que se deve ter um cuidado com

a banalização e perda de sentido de expressões como cultura de Paz, muito usadas

institucional e mercadologicamente, porém, nem sempre tendo um real alcance, podendo

cair na vulgaridade e na perda de sentido.

Há, contudo, uma íntima ligação entre Paz e Justiça: “só se pode estabelecer uma

Paz vital, verdadeira, entre sociedades internamente justas”. Ou seja, quando se

instaura, segundo Buber, uma verdadeira vida comunitária.

A Paz exige o renascimento do diálogo, da relação Eu-Tu no coração dos homens,

“requer o florescimento dessa dimensão, acima de tudo. É nela que se torna possível

a ‘mudança dos corações’ pela qual passa necessariamente o caminho para Paz”. Essa

mudança nos corações é também enfatizada pela tradição cristã: “Eu vos deixo a Paz,

eu vos dou a minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração,

nem se atemorize” (Jo 14:27).

Do ponto de vista do cristianismo, em Jesus a mensagem de Paz é o elemento

central pelo qual se orienta Sua palavra. Paulo descreve Deus como o Deus de Paz, a

mensagem cristã é chamada de o Evangelho da Paz, e Paz é um dos frutos do Espírito

de Deus. A visão cristã a esse respeito é de longo alcance e desafiadora: harmonia

entre os seres humanos, entre estes e Deus e com toda a criação. A Paz está entre

as bem-aventuranças proclamadas por Jesus: “Bem aventurados os que promovem

a Paz, pois serão chamados de filhos de Deus” (Mr 5.9).

Sendo um estado de tranquilidade entre pessoas - diferindo da Paz social, a qual

envolve justiça e a eliminação de guerras, de conflitos e de violência -, a Paz pessoal

é assentada na Caridade. Esta orienta os homens para conter e renunciar a

seus apetites, buscando o amor e Supremo Bem que é Deus. Não há Paz interior sem o

direcionamento da pessoa para o bem. Mesmo sendo pessoal, a Paz atinge o próximo,

envolve-o no sentido do amor e alcança, desse modo, a sociedade. Ela é, assim, pré-

-requisito para a Paz social.

Belém, Pará, fevereiro de 2012

Kátia Mendonça

1. Este texto é parte integrante de MENDONÇA, Kátia. Valores para a Paz. Belém: Paka Tatu,

2011, no prelo.

2. Vide RICOEUR, Paul. Percurso do reconhecimento. São Paulo: Loyola, 2006, p. 234.

3. Vide AHLMARK, Per, et al. Imaginar a Paz. Unesco: Ed. Paulus, 2006, p. 139.

4. Vide RICOEUR. Paul. Op. cit., 2006; vide também SANTANA. I. C. de. A resposta de Paul Ricoeur

ao contratualismo hobbesiano e a impossibilidade de uma ética sem metafísica. Pensar – Revista

Eletrônica da FAJE v.1, n.1, 2010.

5. RICOEUR. Op. cit., 2006, p. 234.

6. Ibidem, p. 235.

7. Ibidem, p. 236.

8. Vide PEACE. In: Christian Values for Schools. Disponível em: .

Acesso em 25.06.2011

9. DASCAL. M. A idéia de Paz na filosofia de Martin Buber apud BUBER, Martin. Op. cit., 1982, p. 25.

10. Ibidem. grifos meus.

11. CHRISTIAN VALUES... Op. cit.

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Kenneth Graeme

O'Donnell

Austráliano

São Paulo, Brasil

Escritor

Seus estudos em ciências aplicadas e sua prática de

meditação durante mais de trinta anos, o ajudaram a

guiar outros nos mundos corporativo, governamental e

acadêmico. Nascido na Austrália e residente no Brasil,

tem trabalhado como um consultor em desenvolvimento

organizacional, gestão avançada de qualidade e execução

estratégica em mais de 30 países. Atualmente Ken é

diretor para a América do Sul da Brahma Kumaris World

Spiritual University, que ajuda indivíduos a explorar seu

potencial interno. Este trabalho é 100% voluntário.

Profissionalmente ele é Vice-Presidente para América

Latina da Oxford Leadership Academy. É também autor

de 14 livros sobre desenvolvimento pessoal e organi-

zacional, alguns dos quais publicados em 9 idiomas com

vendas de mais de 400,000. Os rendimentos destes

livros tem sido usados para seu trabalho voluntário.

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Lia Diskin

(Leonor Beatriz Diskin

de Pawlowicz)

Argentina

São Paulo - SP - Brasil

Magistério

Formada em Jornalismo, com especialização em Crítica

Literária. Co-fundadora da Associação Palas Athena e

criadora de dezenas de programas culturais e

sócio-educativos. Coordenadora do Comitê para a

Década da Cultura de Paz – uma parceria UNESCO -

Palas Athena. Conferencista no Brasil e no exterior.

Articulista e editora, é também autora de: Cultura de

Paz – Redes de Convivência, (SENAC), Não-violência

Doméstica (Instituto Avon) e Vamos Ubuntar – um

convite para cultivar a paz (UNESCO), entre outros.

Co-autora de Paz, como se faz? (UNESCO) e de Cultura

de Pazda reflexão à ação (UNESCO). Recebeu, na

celebração de 60 anos da UNESCO, o Diploma de Recon-

hecimento pela sua contribuição na área de Direitos

Humanos e Cultura de Paz. Recebeu em 2010 os

prêmios Trip Transformadores e o de difusão de

valores Gandhianos fora da Índia da Jamnalal Bajaj

Foundation. Integra o Conselho Gestor do Sarvodaya

International Trust.

Endereço estas linhas aos jovens e crianças que ingressaram

no palco da vida não faz muito tempo, mas o suficiente para

sentirem e compreenderem que neste palco há muito mais incertezas,

contrariedades e ameaças do que nós adultos teríamos

desejado legar.

Contudo, deitamos alicerces que podem ser úteis a um projeto

cosmopolita transnacional de respeito e solidariedade, que abrigue

a diversidade das culturas, das crenças e tradições, dos valores e

modos de vida. Projeto que celebre as diferenças como fonte de

abertura ao novo, ao nunca antes imaginado, porque as possibilidades

de encontro e descobertas, através das redes de conhecimento,

são hoje de todo inusitadas.

Entre esses alicerces, encontramos algumas pedras angulares,

a saber:

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1941) é

talvez a construção social mais importante da história, onde se

afirma a dignidade inalienável de todo ser humano, sem distinção

alguma, seja de raça, credo, cultura, sexo, condição

social ou partidária.

O diálogo inter-religioso, que teve seu impulso mobilizador

com o Concílio Vaticano II (1962), é outra significativa

contribuição em vistas ao novo, que se vê reafirmado

no Parlamento das Religiões do Mundo em Chicago (1993),

oportunidade na qual 200 representantes da maioria das religiões

em vigência assinaram um compromisso onde consta que as

diferentes religiões e tradições espirituais devem opor-se a todas

as formas de desumanidade, e que todas as autoridades religiosas

têm uma responsabilidade comum pelo bem estar da humanidade.

Desse modo, o exercício do diálogo inter-religioso visa

desenvolver um olhar partilhado no tocante ao humano e ao

fenômeno singular da vida. Dando continuidade a esse processo,

a URI - Iniciativa das Religiões Unidas (2000) criou uma

extensa base de mobilização mundial em 97 países através dos

Círculos de Cooperação, que se formam a partir da reunião

de pelo menos 7 membros de 3 religiões diferentes que mantêm

encontros periódicos com o intuito de cooperar pela paz e

o entendimento entre as tradições espirituais promovendo o pleno

exercício da liberdade religiosa.

A Carta da Terra (2000) salienta a responsabilidade que

cada indivíduo tem para com a comunidade universal da vida,

selando um pacto com quatro princípios interdependentes: 1)

Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade; 2) Cuidar

da comunidade de vida com compreensão, compaixão e

amor; 3) Construir sociedades democráticas que sejam jutas,

participativas, sustentáveis e pacíficas; 4) Garantir as dádivas e

a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.

A Década Internacional da Cultura de Paz e Não Violência

para as Crianças do Mundo (2001 - 2010), cujos

propósitos desencadeiam uma visão de futuro que articula iniciativas

do mundo todo unindo povos, tradições espirituais e

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comunidades convivem em um espaço de reflexão e ação de

significativa abrangência. Esta mobilização ganhou vida própria

e a sociedade civil, as organizações não governamentais,

universidades, escolas, sindicatos e igrejas criam e recriam programas

e projetos que, de maneira promissora, se traduzem

em políticas públicas e participação cidadã. Cabe salientar que

este programa potencializou iniciativas anteriores, já iniciadas

em meados do século XX. Notadamente, os estudos sistemáticos

sobre a paz ganharam status acadêmico, na Noruega, por

iniciativa do Prof. Johan Galtung (hoje unanimidade e referência

mundial nesta área) que criou a disciplina de Estudos

da Paz e Transformação de Conflitos; nos Estados Unidos,

através do Prof. Gene Sharp que fundou, na Universidade de

Massachusetts, e mais tarde em Harvard, a cadeira de Ciências

Políticas Centradas em Metodologias Não Violentas. Sua

influência internacional fica evidenciada pela trajetória via internet

de uma de suas obras, Dos Totalitarismos à Democracia

(1993), que se tornou a inspiração e fundamento

conceitual dos recentes movimentos de protesto na Tunísia,

no Egito e em parte do mundo árabe sob ditaduras. Na

América Latina é a Costa Rica que abriu as portas da

Universidade para la Paz das Nações Unidas, tornando-se

a partir de sua fundação, em 1980, a incubadora teórica

e mobilizadora de todo o continente.

Foi graças a todo este fermento de ideias e de experiências

corajosas que se abriu um novo espaço à compreensão da

paz. Confinada durante milênios ao exercício solitário de pessoas

vocacionadas à vida espiritual ou, ainda, ao autoconhecimento;

confinada, igualmente por milênios, ao período de trégua

entre guerras e contendas bélicas. Esta compreensão nos permite

agora implementar a paz no cenário da vida privada e

da vida pública, por livre aspiração e reunião de propósitos dos

cidadãos cientes de seu poder na construção de uma sociedade

pacífica, justa e solidária. A assimetria no exercício do poder,

a naturalização da dominação e a exclusão dos diferentes, os

preconceitos enraizados e as intolerâncias de toda ordem tocam

com mais força a sensibilidade das gerações mais novas. Percebemos

uma crescente consciência das injustiças que vão se tornando

evidentes no seio das dinâmicas sociais, sobretudo aquelas

que promovem desigualdade de oportunidades e dificultam o acesso

às fontes de informação e conhecimento, afrontando os princípios

norteadores da própria Declaração Universal dos Direitos

Humanos - portanto, a visão ampliada de cada cidadão desta

Terra de todos, de nossos antepassados, e igualmente daqueles

que nos sucederão no cenário da vida, e que chegam à certeza

do acolhimento, do respeito e da legitimação.

Lia Diskin

Co-fundadora da Associação Palas Athena

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Lucio Camilo

BRasileiro

Belo Horizonte - MG

Psicólogo

Desejei fazer Psicologia para me compreender melhor,

desenvolver e ajudar as pessoas nestes mesmos

propósitos. Havia pensado em Engenharia antes. Mudei

depois de investir muito no esforço para me tornar

engenheiro. De repente, pouco antes do vestibular,

senti que não seria o meu caminho. Ao me despedir de

um professor de Química, muito querido, no cursinho que

fazia, tive que responder à pergunta dele. – Mas,

então, Lúcio, se você não quer mais fazer Engenharia o

que gostaria de seguir? Respondi que gostaria de

fazer algo na linha da Psiquiatria que não tivesse

Medicina. Ele foi uma luz para mim quando me perguntou:

- Por que não faz Psicologia? Minha esposa está

fazendo este curso na PUC, no segundo ano. Ainda não

formaram ninguém! A intervenção dele foi luz para o

meu caminho, pois o Curso era novo e não havia formado

ninguém na PUC-MG. Fiz o vestibular, passei e acabei

desenvolvendo mais minha profissão em empresas de

engenharia. Pude me adaptar melhor e desenvolver

processos mais práticos destinados ao autoconhecimento

e evolução. A vida, realmente, é cheia de magias.

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Lydia Rebouças

Brasileira

Brasília-DF

Educadora e Psicóloga

Lydia Rebouças é educadora e co-fundadora da

Universidade da Paz, onde está atualmente como

Vice-reitora. É também psicóloga e Mestra em Psicolo-

gia, jardineira, plantadora de árvores, artesã de

patchwork, velejadora, peregrina, aprendiz da arte

de viver a vida.

Aos humanos habitantes de Gaia

por Lydia Rebouças*

Vocês nos chamam de árvore, e é o ponto de vista de uma árvore que desejo compartilhar

com todos vocês. Se estão surpresos com minha fala é porque ainda não descobriram que

a inteligência está dentro e fora de cada um de nós, é parte de todos os reinos, é vida.

Sabemos que nossa casa própria comum nasceu há pouco mais de quatro bilhões de anos

e, a vida, um bilhão de anos depois. Durante muito e muito tempo nossa espécie não conheceu

a de vocês. Sei que um cientista do mundo humano, a que chamam Carl Sagan, já disse que se

reduzíssemos a história da vida em nosso planeta ao período de um ano, a espécie humana

teria surgido nos últimos cinco minutos (ou seriam nos últimos três minutos?). Vocês

são tão jovens! Ao constatar isso, compreendo que vocês ainda estão na infância, respiro

mais profundamente e penso que nós, vegetais, precisamos mais ainda cultivar a paz-ciência. Na

maioria das vezes, não sabem o que fazem, as consequências de suas ações para todos, a vocês

inclusive. Parecem não ter a menor noção de que tudo está interligado. Peço que me escutem!

Quando vocês chegaram aqui todos convivíamos em paz. Foi na época em que ofertávamos

nossos frutos e vocês os colhiam. Época da caça e da pesca, quando animais eram sacrificados

apenas para que matassem a fome. Lembro que a dor iniciou com a devastação, com

a ganância, cresceu proporcionalmente à implantação e desenvolvimento da indústria e do

que chamam de agricultura moderna, e maior ficou com a construção de selvas de pedra, a

que denominam “cidades”, e com, até mesmo, o controle do clima.

Neste momento, todos nós estamos sofrendo as graves consequências dos atos descuidados

e destrutivos da espécie humana. A minha espécie sofre muito. Como somos todos

inteligentes, podemos juntos buscar novas formas de vivermos em paz, de com-vivermos.

Vejo que alguns de vocês já estão mais conscientes e cuidadosos. Isso faz renascer a

confiança de minha espécie e que todos nós poderemos voltar a viver em paz em nosso

planeta, tão rico, tão generoso, tão amoroso.

Depois de muito pensar, tenho dois importantes pedidos a fazer. Na verdade são

muitos os pedidos da espécie vegetal, mas irei começar com os dois que, com-fio, serão possíveis

para todos vocês:

1º Não desperdicem alimentos. Peço que, em suas refeições diárias, iniciem essa prática

de não desperdiçar nenhum alimento. O que sobra em um prato falta no outro. Muitos seres

são sacrificados à toa, enquanto tantos outros passam fome. Há muito, muito desperdício.

Cuidem disso. Hoje. Agora.

2º Plantem sete bilhões de árvores. Como vocês já são, hoje, sete bilhões de pessoas,

sugiro que sete bilhões de árvores sejam plantadas. Que cada qual possibilite o nascimento

e cuide do desenvolvimento de uma árvore. Há espaço para todos nós. Árvores para

subir, colher frutos, brincar de casinha, pendurar balanços. Árvores que alegram e embelezam.

Árvores sempre abertas ao com-tato amoroso com vocês. Árvores amigas íntimas.

Árvores que curam, que inspiram. Confio que cada qual lançará muitas garrafas no mar, com

mensagens traduzidas em várias línguas, lançando essa campanha - VAMOS PLANTAR SETE

BILHÕES DE ÁRVORES.

Com amor de meus frutos, a beleza de minhas flores, o aconchego de minha sombra, receba

meu abraço de árvore.

*Lydia Rebouças é educadora e co-fundadora da Universidade da Paz, onde está atualmente

como Vice-reitora. É também psicóloga e Mestra em Psicologia, jardineira, artesã de

patchwork, velejadora, peregrina, aprendiz da arte de viver a vida.

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Márcia Bethânia

Vinagre Sales

Brasileira

BELÉM – PARÁ

Direito Educacional

Pedagoga, Bacharel em Direito, especialista em

Ensino Superior, Professora dos Cursos de Pedagogia

e Direito, Assessora Pedagógico Jurídico do

Ministério Público do Estado do Pará. Trabalha em

prol da paz social para crianças e adolescentes

auxiliando na implantação e implementação do Estatuto

da Criança e do Adolescente – ECA, por meio da

fiscalização e acompanhamento dos direitos fundamentais,

das medidas de proteção e das mediadas

sócio educativas.

A todas as pessoas do planeta,

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Belém, 06 de dezembro de 2011.

Ao longo desses anos trabalhando em prol do cumprimento dos Direitos da Criança e do

Adolescente, mais especificamente, atuando para a garantia do Direito Educacional percebo

que todos somos responsáveis pela cultura da paz, ou seja, é de fundamental importância o

envolvimento e o comprometimento dos pais, professores, crianças, adolescentes, jovens,

juízes, promotores de justiça, psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, e etc. Porque sozinhos,

dificilmente teremos a capacidade e os meios para enfrentar a violência que muitas

vezes impera no planeta.

Firma-se, como objetivo desta carta, refletir acerca da cultura da paz, à luz dos Direitos

Humanos, dos Direitos Fundamentais das Crianças e AdoIescentes e do Direito à

Educação para todos.

Para tanto, se toma necessário considerar o que está expresso na Declaração Universal

dos Direitos Humanos, que foi adotada e proclamada pela Resolução 217A (III)

da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948. Que expressa, em

seu preâmbulo, de maneira muito clara, o reconhecimento da dignidade inerente a todos

os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis. É o fundamento da

liberdade, da justiça e da paz no mundo.

Além disso, “a presente declaração Universal dos Direitos Humanos tem como o ideal

comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada

indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce,

através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades,

e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar

o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos

próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição”.

Como se vê, muitos países adotam o que está expresso na Declaração Universal dos

Direitos Humanos, e não distante disso o Brasil acompanha os preceitos mundiais, pois adota

o ideário de cidadania.

Compreende-se cidadania como sendo um processo em constante construção, que tem

sua origem histórica a partir do surgimento dos direitos civis. A liberdade de pensamento,

de religião, de opção sexual, de reunião, pessoal, política e econômica, passando de um estado

feudal para busca da participação efetiva em sociedade.

Dessa forma, fácil perceber que, no discurso jurídico pedagógico predominante, a cidadania

atrela-se aos Direitos Fundamentais Humanos, que, por sua vez, atrela-se à Cultura da

Paz. Visto que, para o desenvolvimento de uma cultura de paz é imprescindível a garantia

dos Direitos Fundamentais e o exercício pleno da cidadania.

Assim, a compreensão de educação para a paz, como um Direito Humano, a Educação em Direitos

Humanos, são questões de responsabilidade de todos os atores sociais, pois o papel

da Educação para a paz no processo de solidificação dos Direitos Humanos e da cidadania,

também, se encontram no contexto constitucional brasileiro.

Consagrou à universalização e a invisibilidade dos Direitos Humanos, exigindo do Estado e

do cidadão, de forma explícita, a função de educar (como um dever) e ser educado (como um

direito) em Direitos Humanos e para a cidadania, e compreende que através da colaboração

de todos os atores sociais da sociedade e do Estado, é que os Direitos Humanos fundamentais

alcançarão a plena efetividade. O papel e os limites jurídico-pedagógicos, de cada um na

construção desta nova concepção de cidadania, é fundamental para o êxito dos objetivos

desejados pela Declaração Universal de 1948 e pela carta Constitucional brasileira.

À consolidação da cultura de paz e da cidadania plena deve ser o fator principal da criação

de uma cultura em direitos humanos, visto que a Educação em Direitos Humanos poderá

garantir um maior número de adeptos à luta pela erradicação do analfabetismo, pela erradicação

da desigualdade social, pelo enfrentamento à violência e, por fim, na melhoria da

qualidade de vida em sociedade.

Saudações Cordiais.

Márcia Bethânia Vinagre Sales


Marco Antonio

Lirio De Mello

Brasileiro

Porto Alegre-RS-BR

Educação, História, Assessoria em

Educação Popular junto a Movimentos

Sociais e Populares e Administrações

Públicas.

Historiador, Educador e Coordenador Pedagógico na

Rede Pública Municipal de Educação de Porto Alegre-RS.

Atua na área de formação de educadores e processos

de reconstrução curricular junto à administrações

públicas e como assessor junto a diversos movimentos

sociais e populares, do campo e da cidade e organi-

zações não-governamentais que trabalham com crianças

e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Tem

trabalhado ao longo dos últimos quinze anos com um

amplo leque de temáticas em torno da educação popular,

educação do campo, educação de jovens e adultos,

educação e relações étnico-raciais, teologia da liber-

tação e ecumenismo, direitos humanos, educação para a

paz, gestão democrática, projeto político-pedagógico,

currículo, planejamento pedagógico interdisciplinar,

avaliação educacional e planejamento estratégico situa-

cional. Tem ainda diversos artigos e livros publicados,

entre eles “Pesquisa Participante e Educação Popular:

da intenção ao gesto”, “A educação na cidade de Porto

Alegre”, “Paulo Freire e a Educação Popular”.

Para as crianças, grandes e pequenas, de todas as idades...

“De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes aprendi, sobretudo,

que a Paz é fundamental, indispensável, mas que a Paz implica lutar por ela.

A Paz se cria, se constrói na e pela superação de realidades sociais perversas.

A Paz se cria, se constrói na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio

em nenhum esforço chamado de educação para a Paz que, em lugar de desvelar

o mundo das injustiças o torna opaco e tenta miopizar as suas vítimas.”

Espero encontrar-te bem.

90 91

Paulo Freire

Te envio esta carta, que chega à tuas mãos na forma de um livro ou em pdf, mas que

foi remetida por e-mail e antes disso, escrita com lápis em papel (à moda antiga, lembras

como era antes?) desejando saúde, força e luz na tua jornada. Saudade de ti e dos teus.

Te escrevo para contar do quanto temos avançado por aqui na área de formação de

educadores junto às escolas, grupos populares, OnG´s e Movimentos Sociais do campo e da

cidade na difusão e vivência de uma verdadeira Educação e Cultura de Paz: dialética, crítica

e contrahegemônica.

Então quero partilhar contigo essas nossas pequenas e grandes conquistas. Como lutadores

e lutadoras do povo, sabemos que a paz é um fruto saboroso e nutritivo que nasce,

cresce, se desenvolve e nos alimenta quanto vence as pragas e intempéries da injustiça

social e da nossa própria ignorância e imperfeição. A propósito, viste que belo o texto de

Freire que transcrevi acima? Achei que irias gostar.

Daí, sabes, estou cada vez mais convicto de que é preciso, o que chamo do “bom-combate à

nossa vida alienada”. Por que, sem a superação da ideologia dominante, expressa no senso

comum - essa forma de pensar e explicar o mundo que em grande medida reproduz a

exploração, a exclusão e as formas de opressão como o racismo, o sexismo, a homofobia

e a intolerância religiosa - não conseguiremos romper com a hegemonia burguesa em

nossa sociedade.

Mas, enfim, vamos às boas notícias: ombro a ombro nos campos, nas florestas, nas águas,

nas cidades, a opção de estarmos com nossa classe, a classe que vive do seu trabalho, organizados,

solidários e em movimento, bem o compreendes, tem nos humanizado, nos aproximando,

nos tornando mais gente. Esse tem sido uma aprendizado realmente extraordinário.

São tempos difíceis. Estamos construindo passo a passo um novo projeto de sociedade

no qual a justiça seja a medida de todas as coisas. E nesse processo também nos reconstruímos,

cultivando valores e princípios orientados para a solidariedade, o trabalho coletivo

e a emancipação humana. Não tem sido um caminho fácil, como te relatei na outra carta, mas

creio que é assim mesmo, para grandes transformações, grandes lutas.

Desde há muito, mais de 500 anos, nossos ancestrais têm lutado: para assegurar o sagrado

direito à existência, por dignidade, por respeito às nossas culturas, por soberania,

por direitos ainda tão distantes... Essa resistência indígena, negra, feminista e popular

precisa ser lembrada, quando tombam nossos irmãos por não se acorvadarem e dizerem

não aos senhores do capital. Como aconteceu ontem com o Cacique Kaiowá Nísio Gomes, morto

com vários tiros de espingarda, calibre 12, por pistoleiros a mando dos latifundiários da

região de Amambaí, Mato Grosso do Sul. Como caíram ainda anteontem os trabalhadores rurais

José Cláudio Silva e Maria do Espírito Santo Silva, no sudoeste do Pará, também assassinados

pelo agronegócio. E assim tem sido aqui em nuestra America com Dorothi Stang, Chico

Mendes, Bolívar, José Marti, Bertha Lutz, Sandino, Luiza Mahin, Zapata, Zumbi, Sepé Tiaraju,

as Mães da Praça de Maio, Tupac-Amaru, Olga Bernário e Che Guevara e tantos outros mártires

anônimos da luta popular, nossa gente.

É preciso lembrar nossa história, pois a memória é um campo privilegiado de disputa

ideológica. A Utopia Socialista não é um discurso para os dias de festa. É uma questão a ser

efetivada desde o cotidiano – no trabalho de auto-organização da sociedade, inclusive da

escola, e sabemos o quanto vale a pena esse esforço cada vez que nos encontramos com o

brilho do olho de um pequeno que, cúmplice, sabe que somos seu parceiro de caminhada.


Haverá um tempo de reencontro que talvez consigamos dimensionar melhor o que vimos

fazendo. Estamos construindo um novo mundo, ainda que entre soluços e greves como disse

o poeta. Sigamos juntos, portanto, em nossas utopias libertárias, sem esquecer do que é

de inarredável responsabilidade individual, nossas escolhas e nosso livre-arbítrio.

Como tu bens sabes o que penso, estamos aqui de passagem, nessa pele que hoje habitamos,

em mais uma etapa de desafios e de convites à aprendizagem e evolução. Oxalá nosso

reencontro permita, de forma límpida e transparente, dar umas boas risadas algum dia

com esses anjos, arcanjos, espíritos, guias, seres mágicos e mitológicos que nos acompanham

pacientemente nessa jornada...

Sei dos teus tantos afazeres, mas quando puderes me responde: num papel-manteiga

com aquela tua letra caprichada, com envelope e selo, ou na velha máquina de datilografia

(ainda a tens?), num cartão postal, que sabes que tanto aprecio, num bilhete entregue em

mãos, num e-mail ou numa simples postagem nas redes sociais. Não importa como. Me dizes,

o que tens feito nesse grande mutirão que nos propomos a realizar? Lembras de nossos

combinados? Contribuir na construção desse mundo onde caibam todas as diferenças e

nenhuma desigualdade? Em que fileira te encontra na luta popular? Contes-me um bocado de

teus desafios e conquistas, tuas paixões e devaneios. Tenho sonhado contigo e acho que é

um bom presságio!

Àqueles que, como nós, se reivindicam como educadores populares coloca-se um grande

desafio. Penso que devemos, como dizem os companheiros da Via Campesina, globalizar a luta

e esperança, com a socialização das boas práticas de resistência e afirmação de nosso

projeto. Porque sabemos que a vida só é possível mudar significativamente com a superação

do modelo sócio-econômico dominante do capitalismo que aí impera.

Se te falo assim, nesse tom de quem está encharcado do suor das frentes de trabalho,

não quero que pareça a ti que não precisemos do aconchego, da ternura e da delicadeza.

É claro que não!

Somos centelhas de um fogo divino que em nós habita desde sempre. Lembremos disso.

Somos predestinados a ser livres, radicalmente libertos, sedentos de oportunidades de

“ser-mais”. Mas somos ainda seres de medo e desejo, tão sujeitos a erros, com uma incorrigível

vocação ontológica para a felicidade.

As palavras me escapam agora, teimosamente, e esta lágrima desgarrada está a escorrer

incorrigível em direção à folha, e ao coração... Talvez seja o cansaço e a emoção de

escrever a ti que quero tão bem... Amanhã preciso sair cedo para mais uma jornada de

trabalho, mas não imaginas o quanto me conforta saber que, apesar das distâncias, estamos

juntos à pachamama, à Terra-mãe, sintonizados com o espírito de justiça, na mesma

estrada, no mesmo rio, na mesma senda.

Saudades de ti e do muito que ainda faremos juntos.

Força e Luz, sempre

Deste teu camarada que tanto te estima

Marco Mello

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Maria Lucia Dias

Gaspar Garcia

Brasileira

Belém, Pará

Assistente Social –

Professora Universitaria

Mulher, 56 anos de idade, mãe de 3 filhos com

experiência profissional na área de assistência

social, especialmente com atuação na área com crian-

ças e adolescentes, mulheres, famílias e educação do

ensino superior. Ao longo de sua vida profissional

tem persistido em lutar para que a população em

geral e de modo especial crianças e adolescentes

tenham acesso e garantia de direitos sociais previs-

tos na Constituição Federal de 1988.

Ao leitor,

Hoje estou sendo desafiada a escrever sobre a paz. Palavra tão

pequena, mas de um significado imenso. Tarefa difícil e ao mesmo

tempo instigante visto que venho em busca desta tão propalada

paz ao longo de minha vida. Será que existe alguém que não

a quer?

E depois de tanto tempo, não é que descubro que aquilo que

tanto procuro pelo mundo afora, de forma incessante, preciso

primeiro encontrar dentro de mim, por uma razão tão simples:

a lei da causa e efeito.

A vida me levou para caminhos que fez com que cada vez

mais eu trabalhasse com pessoas, e assim eu tivesse a oportunidade

de ver e me encontrar e, hoje sou o que sou em busca da paz

e da beleza de cada um porque este exercício é diário.

Para encontrar a paz foi preciso transformar a minha história

de vida, foi preciso ver o mundo com olhos de criança, com

a inocência da criança. Percebi que quando transformo como e

com as crianças tranquilizo os adultos e aí, de repente, vice-versa

também pode ser verdadeiro. Foi possível perceber que para encontrar

a paz, é preciso descobrir formas, cor e cheiro das emoções.

Assim, para desvendar as diferentes manifestações de violência

na sociedade em geral é preciso diminuir o potencial criador desta

violência para transformar este potencial em agente de paz, de

relações solidárias e até cidadãs. É preciso compreender o ambiente

e a composição do cenário: complexo, ambivalente, difuso que

gera predisposições emocionais, comportamentos e atitudes em diferentes

circunstâncias e situações que se concretizam nas relações e

interações, especialmente quando, no dia-a-dia as pessoas buscam

reconhecimento, poder, vontade de realizar sonhos, seja de que

forma for, a que preço for.

Desta forma, romper círculos de violência é aprendizagem sobre

si e o outro, sobre a sua situação social e cultural, mas também

é ação, na medida em que ocorre aproximação ao outro e

construção do que é comum.

Este tem sido o meu caminho: educar, pois com base em meu

percurso tenho aprendido que educação é um ato ético-político de

mudança, que é possível na medida que atua no cognitivo, no

emocional e no espiritual de cada um e que quando ajo assim,

contribuo para o desenvolvimento da capacidade de cada pessoa e

que serve para beneficiar o coletivo.

Este é o grande círculo benigno que pode gerar a paz que

tem sido um exercício cotidiano: reconhecer o meu potencial, e

a partir dele, reconhecer o potencial que cada um traz em si e,

portanto, consequentemente as relações mudam. Quando deixa de

desconfiar para acreditar, quando deixa de julgar para valorizar,

quando deixa de impor regras para estimular, é possível criar um

ambiente favorável que gera prazer, empodera as pessoas.

Muito ainda falta para que se concretize um clima de paz

e não posso ser ingênua e não destacar que especialmente a

concentração da riqueza nas mãos de poucos desencadeia situações

violentas, mas me coloco como uma militante da dignidade humana

com muita esperança para criar um mundo novo.

Agradeço a cada um de vocês por oportunizarem a me perceber

e convido para um desafio de engrossar fileiras neste espaço fértil

para germinar a paz e fazer a terra girar para descobrir, neste

labirinto, novos caminhos e formas de caminhar para alcançar

este sonho que não é só meu.

Com muito amor, Maria Lucia Dias Gaspar Garcia

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Maria Roseli

Sousa Santos

Brasileira

Belém Do Pará

Educação – ensino superior

Poeta, doutoranda em educação, pesquisadora em

arte e design. A Paz eu construo diariamente na

família, no trabalho, no Comitê Interreligioso. A poesia

nutre a poeta que se une a muitas outras pessoas na

luta pela PAZ.

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Claudia Dias

Batista de Souza

(Monja Cohen)

Brasileira

São Paulo-Sp

Missionária Zen Budista

Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto

Shu - Zen Budismo com sede no Japão e é a Primaz

Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001,

com sede em Pacaembu. Iniciou seus estudos budistas

no Zen Center of Los Angeles - ZCLA. Foi ordenada

monja em 1983. Foi, em 1997, a primeira mulher e

primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a

Presidência da Federação das Seitas Budistas do

Brasil, por um ano.

Participa de encontros educacionais, inter religiosos e

promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o

objetivo de divulgação do princípio da não violência e a

criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de

todos os seres vivos.

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Nelma Sá

Brasileira

Osasco - SP

Nelma da Silva Sá é mãe, educadora, administradora e

voluntária de projetos de cultura de paz. Atual-

mente está como Coordenadora Geral da Fundação

Arte de Educar Cogente que atua com crianças no

Norte do Brasil, Presidente da Universidade

Internacional da Paz – Unidade de São Paulo e

Coordenadora Geral do III Festival Mundial da Paz

que ocorrerá de 6 a 9 de setembro de 2012. Em

2011 foi reconhecida pela Federação para a Paz

Universal (UPF – Universal Peace Federation)

Embaixadora da Paz pelos serviços prestados a

comunidade em Prol da Cultura de Paz.

Acalenta o sonho pela construção de um mundo mais

justo, igualitário e sem fronteiras.

Gestão Educacional

e Cultura de Paz

Aos cidadãos do Planeta Terra,

Queridos cidadãos do Planeta Terra! Espero de coração não decepcioná-los. Fui convidada

a escrever uma carta para a paz. No momento do convite sinto um enorme frio na barriga

e imediatamente penso: e agora? A minha primeira reação foi não aceitar o convite e até

tentei argumentar apresentando nomes de pessoas muito mais importantes e muito mais

preparadas para escrever a carta. Não obtive nenhum sucesso com os meus argumentos e

aqui estou... com os prazos todos estourados para a entrega da carta.

Enquanto a minha imaginação trabalha para dar início a uma carta para a paz, me vem à

lembrança a imagem da minha amiga Silvia, cujos encontros aconteceram durante todo o ensino

médio. Eu a admirava pela sua capacidade de transformar em poesias e poemas grandes

pensamentos. Aos meus olhos, uma verdadeira poeta. Enquanto ela escrevia textos maravilhosos,

eu brincava de fazer versos de quatro a seis linhas aproximadamente. Todos

os dias entregava, de presente para a Silvia, a “mensagem do dia”. Após ler, ela sorria

gostosamente e me perguntava de onde saía tanta capacidade para escrever “besteira”. E

assim, passaram-se três anos e essa foi toda a minha experiência com a escrita de poesias

e poemas.

Peço ajuda ao meu anjo da guarda e intuo que a minha carta para a paz precisa ser

recheada com os sentimentos vividos nas trilhas que me levaram a vivenciar momentos de

paz. Então me pergunto: quando me senti em Paz?

Essa pergunta me leva a viajar pela minha história e me vêm imagens da infância. Lembro-me

primeiramente da sensação de liberdade quando corria pelo campo como se fosse

possível voar e que com esse voo eu poderia abraçar o mundo. Lembro-me da inocência, da

coragem, do sentimento de alegria em cada vitória conquistada, como por exemplo, chegar ao

topo de uma árvore, alcançar um ninho de passarinho. Lembro-me da primeira pedalada da

bicicleta, do cuidado com os bichinhos de estimação, das brincadeiras com os irmãos, da primeira

querida professora. Lembro-me da sensação de que o mundo não tinha fronteiras e

que tudo era possível.

Continuo a minha viagem ao momento presente e em alguns trechos da trilha encontro

grandes dificuldades, mas também grandes vitórias, grandes emoções, sucessos e alguns

redirecionamentos. Chego no aqui e no agora e me pergunto novamente: e hoje quando me

sinto em Paz? A resposta me surpreende. Sinto-me verdadeiramente em paz quando estou

com as crianças. Com as crianças que brincam livremente, que amam incondicionalmente,

que perdoam instantaneamente, que não têm medo dos desafios, que estão abertas às

novas experiências, que sorriem umas com as outras, que não têm medo do “não” e que choram

quando precisam de um carinho. Da criança que vive intensamente todos os momentos.

Nesse momento, tomo consciência do quanto me sinto preenchida e plenamente em paz.

E esse é o meu convite a vocês, cidadãos deste Planeta. Que possamos, juntos, co-criar

um mundo de paz para a nossa criança e para todas as crianças deste Planeta.

Que esse mundo seja co-criado pelo olhar da criança!

Um olhar que não julga,

que não exclui,

que não tem preconceitos.

Um olhar de alegria,

de pureza,

de serenidade e encantamento.

Um olhar que integra

o Olhar da Alma com o Olhar do Amor.

Nelma da Silva Sá

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Paulo Sérgio

Assunção

Brasileiro

Belém,Pará

Artístico Cultural

Paulinho Assunção, Sociólogo, músico autodidata

(percussionista). Desenvolve trabalho musical com foco

na função social da música, atuou como diretor do

departamento cultural da Pró-reitoria de Extensão da

Ufpa, atuou como Coordenador de Artes Cênicas e

Musicais do Instituto de Artes do Pará- IAP, atual-

mente coordena os grupos Artísticos da Fundação

Carlos Gomes e o departamento de Ações artísticos

culturais da Empresa Sol Informática e desenvolve

trabalho de arte educação juntamente com o músico

Waldney Machado “ Sons, Sensações a arte de ouvir”.

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Reinaldo Nobre

Pontes

Assistente Social (UFPa, 1984), doutor em Sociologia

pela Universidad Complutense de Madrid (2007),

mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade

Católica de São Paulo (1993). Professor Adjunto da

UFPa na graduação e mestrado em Serviço Social. É

autor de Mediação e Serviço Social (Cortez, 7a. ed.) e

de outros livros e artigos publicados em periódicos

especializados. Líder do Grupo de Estudos e Pesqui-

sas em Serviço Social, Política Social e Formação Pro-

fissional (Ufpa).

Brasileiro

Belém - PA

serviço social e educação

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Renate Keller Ignacio

Alemã

São Paulo - SP

Educação Infantil,

Educação Musical

Renate Keller Ignacio, formada em Arte-educação pela

Academia de Belas Artes em Hamburgo-Alemanha. Residente

no Brasil desde 1974. Co-fundadora da Associação

Comunitária Monte Azul. Atuação durante 12 anos

como professora de educação infantil e coordenadora

pedagógica das creches da Monte Azul. Atualmente

Gestora de Desenvolvimento Institucional desta

associação. Professora de violino e regente da

Orquestra Infanto-Juvenil da Monte Azul. Autora dos

livros "Criança Querida" o dia-a-dia nas creches e

jardins de infância, "Aprendendo andar - aprendendo

a confiar" e "Transformar é Possível".

Educação para o Futuro

Para enfrentarmos os desafios do século 21 devemos desenvolver

UM PENSAR claro, conectado com a vida e com o espírito.

UM SENTIR confiante, amoroso e sensível.

UM QUERER forte, corajoso, persistente e autônomo.

Como nós podemos contribuir para isto na educação na primeira infância?

Na idade adulta não nos lembramos da maior parte da nossa primeira infância.

Por isso, temos dificuldades de compreender realmente o jeito da criança pequena

agir, sentir e pensar. No adulto estas três faculdades se encontram relativamente

separadas, tendo como bases físicas o sistema neuro-sensorial (cérebro, sistema

nervoso, órgãos de sentido) para o pensar, o sistema rítmico (pulmão, coração, corrente

sanguínea, respiração) para o sentir e o sistema metabólico-motor (músculos,

sistema digestivo) para o agir.

Na criança pequena estas três esferas não são distintas, mas se confundem

como num grande caldeirão. O movimento das forças vitais que plasma o organismo e

deixa-o crescer está em toda parte. O sistema neuro-sensorial ainda não está maduro

para servir de suporte para a memória e a autoconsciência. A criança ainda não

construiu a “casinha fechada” de sua cabeça, para onde ela possa se retirar e refletir

sobre os seus atos (como nós adultos o fazemos). A cabeça está aberta (moleira)

e o cérebro ainda está permeado de forças vitais, de movimento plasmador. Isto é

confirmado hoje pela neurociência que estuda a formação das sinapses durante os

primeiros anos de vida.

Esta condição faz com que a criança pequena não consiga se perceber ainda como

um ser separado do mundo, mas ela se percebe una com tudo o que está ao seu redor.

Ela IMITA tudo. Ela está entregue ao ambiente que a rodeia, principalmente

às pessoas. Isto pressupõe uma enorme confiança. Para a criança pequena o mundo

é BOM.

Que consequências tem isto para a educação infantil?

Precisamos fazer de tudo para que a criança não perca esta confiança. Por isso,

precisamos propiciar vínculos fortes e duradouros entre educadora e crianças. O

ideal é que a mesma educadora possa cuidar por vários anos das mesmas crianças.

Assim, a confiança da criança no mundo pode se transformar em autoconfiança. Se a

criança é um ser que imita, o adulto educa através do seu exemplo, através de seus

movimentos, de seus gestos.

Considerando que o pensar e o sentir da criança ainda estão mergulhados dentro

do corpo e unidos ao agir, ao movimento, temos que nos perguntar quais os movimentos

que devemos propiciar às crianças para através deles educá-las de forma

integral? Movimentos que carregam dentro de si um sentido (pensar), uma beleza

(sentir) e uma força de transformação (querer). Tais movimentos estão em todas

as ações que fazem sentido para a manutenção da vida. Nesse sentido, os ofícios

primordiais do ser humano: plantar, colher, cozinhar, lavar, fazer utensílios para a

casa, cuidar de outros seres humanos, construir, fazer roupas, todas estas atividades

são movimentos que têm começo meio e fim, gestos que a criança pode acompanhar

e se sentir unida a eles. Ela imita estas ações inconscientemente no seu

brincar. Quando, por exemplo, fazemos pão, esta ação tem uma sequência certa, lógica

e compreensível, e é necessária para a nossa vida. Os gestos são firmes, rítmicos,

cuidadosos, alegres e devotos (não quando usamos a batedeira). A criança participa

com alegria nesta ação. Não precisa explicar nada a ela, mas a vivência pura da ação,

cheia de sentido, prepara o futuro pensar. E a atitude amorosa do adulto diante de

seu trabalho prepara o solo na criança para o futuro sentir.

Educamos assim as crianças pequenas, construímos os alicerces para uma cultura

de paz, resgatamos a infância como fonte de forças para a vida toda. Pois, quando

adultos, estas crianças terão confiança na sua força de vontade, amor no seu coração

e clareza na sua mente.

Renate Keller Ignacio

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Rose Marie Inojosa

Brasileira

São Paulo, SP

educação socioambiental;

saúde; gestão pública

Sou vivente, mãe, aprendiz, trabalhadora. Gosto de compar-

tilhar idéias, conversas, leituras, visões. No processo de

formação andei pelos saberes da Comunicação Social, da

Administração, da Saúde Pública, do Terceiro Setor. Na

última década mergulhei nos fazeres da Educação Socioambi-

ental, onde esses e outros saberes dialogam pelo respeito

à vida, núcleo central da Cultura de Paz. Desde 2006,

estou dirigindo a UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio

Ambiente e Cultura de Paz, uma semente de cultura de paz

em São Paulo, de cuja concepção tive a alegria de participar.

A Cultura de Paz vem permeando essa caminhada, aprendi-

zado e atuação, e me apresenta, cotidianamente, o desafio

de ser coerente com seus pressupostos no pensar e no

agir: “que a Paz prevaleça na Terra, a começar por mim”.

MENSAGEM A UMA VIVENTE

Era uma vez um grupo de jovens de várias partes do mundo que veio à Universidade

Aberta do Meio Ambiente e da Cultura de Paz, em São Paulo. Dançaram no parque, com as

bandeiras dos povos, instalaram um marco da paz e nos ensinaram um belo mantra: “Que a

paz prevaleça na Terra, a começar por mim”.

Por isso, dirijo-me a mim mesma, parte dos trilhões de viventes, com a firme esperança

de que a paz prevaleça na Terra e a certeza de que, para isso, preciso cultivá-la, com

o cuidado de um jardineiro, diariamente, com sol e com chuva e sempre com amor.

Cada um de nós, cidadãos planetários, olha o mundo do lugar onde vive. Alguns presos a

ele por circunstâncias, outros por uma escolha amorosa. Apesar das maravilhosas máquinas

de voar, da grande asa que é a internet e dos amados livros que nos franqueiam o

acesso a contatos, imagens, vozes, ideias de todo o mundo, somos também um aqui e agora

singular, como indivíduos e como povos.

Ações locais e redes globais mantêm um diálogo, harmônico e caótico, caórdico. Esse diálogo

modela o nosso mundo contemporâneo.

HundertWasser, artista ambientalista, vê o homem com cinco peles: a sua epiderme,

seu vestuário, sua casa ou abrigo, o meio social em vive e a morada ecológica - a nossa

pele planetária.

Assim é que, à minha volta, vejo e sinto uma de minhas peles, a cidade de São Paulo. Uma

megalópole, mais cinza do que verde, se vista de longe. De perto, berço de transformação.

As mesmas mãos que destruíram matas, retificaram sinuosos rios, expulsaram patas

e asas, hoje, meio encardidas de poluição, quebram cimento para plantar árvores, protegem

mananciais, acercam-se dos bichos, redescobrem a convivência.

É um movimento silencioso, às vezes hesitante, surpreso com ele mesmo, deslumbrado

quando as árvores cobrem o asfalto de flores. Um dia, São Paulo amanhecerá mais verde

do que cinza, fruto de um movimento de paz. Assim também essa nave azul a que chamamos

Terra, liberta da poluição que tolda a visão dos tripulantes. Ecos de HundertWasser:

“Quando deixamos a natureza repintar as paredes, elas tornam-se humanas e nós podemos

voltar a viver.”(RESTANY, 2003:45).

Atualmente, a corrente de vida é puxada por crianças e jovens, invertendo um processo

milenar de transmissão de cultura. As novas gerações estão tomando o futuro em suas

mãos. Eu observo isso acontecendo ao meu redor, com alegria. Respeitar a vida e preservar

o planeta são dois dos seis compromissos do Manifesto 2000 pela cultura de paz e

não-violência. Eles também estão no cerne da Carta da Terra. Dois manifestos da nossa

era, que se complementam - a Carta da Terra buscando expressar um compromisso dos

povos, o Manifesto 2000, o compromisso de cada pessoa.

Ah, mas esse Manifesto 2000 traz um compromisso muito original: ouvir para compreender.

Gene Knudsen Hoffman que trabalha com Escuta Compassiva (2003) ensina que o inimigo

é alguém cuja história não conhecemos e explica que, quando nos dispomos a ouvir a história

daquele que nos é contrário, autor de algo que repudiamos, que pensamos ser inimigo,

encontramos ali um pedaço de nós, da nossa humanidade comum. E, então, pode ser possível

o diálogo e, até mesmo, a justiça restaurativa.

Somos todos filhos do “era uma vez”, porque carregamos nossas histórias, gravadas a

luz ou a fogo. Amamos nossa própria história. Justificamo-nos por meio dela. Mas nem sempre

temos a generosidade de ouvir a história do outro. Se não ouvimos, vamos julgar seus

atos apenas pela nossa visão, pela nossa história.

Será que estou escutando para compreender?

Vou prestar mais atenção ao que vocês, meu irmão, minha irmã, me contarem. Estarei atenta

não somente à sua fala, mas ao seu silêncio. Vou ouvir atentamente com meus ouvidos, com a

minha mente, com o meu coração. E se ainda assim não os compreender, vou pedir para recontarem

a sua história, até que esse “era uma vez” seja meu também; até que tal como uma criança

eu possa vestir seu personagem, rir e chorar com vocês e, afinal, vivermos em paz.

Rose Marie Inojosa

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Ute Else

Ludovike Craemer

Alemã

São Paulo - SP - Brasil

Educação Infantil

Ute Elsa Ludovike Craemer tem 72 anos e esta no

Brasil há 40 anos, tempo em que desenvolveu uma das

mais conhecidas referencias de transformação comunitária

em favelas no Brasil. É fundadora da Associação

Comunitária Monte Azul e atualmente se dedica ao

Movimento Mundial Aliança pela Infância, onde, entre

outras coisas, compartilha o conhecimento adquirido

durante muitos anos atuando na área do desenvolvimento

infantil e comunitário.

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Um pouco mais sobre a Fundação Arte de Educar

“Cultivando a Cultura de Paz na Educação Infantil no Norte do Brasil”

A Fundação Arte de Educar foi constituída em junho de 2008, com

o objetivo de contribuir socialmente para a Educação do Norte do país,

vindo a conceber o Programa “Cultivando a Cultura de Paz na Educação

Infantil no Norte do Brasil”. Tem como essência a construção da cultura

de paz entendida como um conjunto de valores, atitudes, tradições,

comportamentos, garantia e defesa de direitos que se baseiam, entre

outros, no respeito à vida, ao ser humano e à sua dignidade; no combate

à violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação; e na

adesão aos princípios da liberdade, justiça, solidariedade e tolerância,

buscando a compreensão entre a comunidade e as pessoas.

O programa tem como principal ação a Creche Casulo, projeto social

na área de Educação Infantil, localizada na Rua Santa Fé, nº 74 - Icuí-

-Guajará, Ananindeua - PA, a qual realiza um trabalho gratuito na comunidade

atendendo 160 crianças de 2 a 8anos e seus familiares, que vivem

em situação de vulnerabilidade pessoal e risco social. Propondo-se ao

desenvolvimento integral (sentir, pensar e agir) na Educação Infantil (em

regime integral) atua em 4 eixos fundamentais: Acolhimento Afetivo, Alimentação

Adequada e Saudável, Ambientes de Interações Sociais com

Vivências de Valorização da Individualidade na Coletividade e Movimento

(brincadeira) e Descanso, inspirados nos princípios da Pedagogia Waldorf.

Também tem como proposta inspirar outras instituições a contribuírem

socialmente para projetos de educação integral para a construção

da Cultura de Paz.

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