16.04.2013 Visualizações

gênero, educação e geração em busca do ... - Itaporanga.net

gênero, educação e geração em busca do ... - Itaporanga.net

gênero, educação e geração em busca do ... - Itaporanga.net

SHOW MORE
SHOW LESS

Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!

Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.

GÊNERO, EDUCAÇÃO E GERAÇÃO: IDOSOS E CRIANÇAS<br />

REVIVENDO CANTIGAS DE RODA E BRINCADEIRAS<br />

INFANTIS<br />

Introdução<br />

Adriana Freire Pereira – Departamento de Serviço Social (UEPB)<br />

O trabalho apresenta e discute os primeiros resulta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> projeto de<br />

intervenção que procura resgatar a cultura popular numa comunidade campesina, a<br />

partir da vivência de mulheres e homens i<strong>do</strong>sos e crianças da <strong>educação</strong> infantil da<br />

Escola Municipal de Ensino Fundamental Joaquim Medeiros, to<strong>do</strong>s mora<strong>do</strong>res da<br />

comunidade Alto <strong>do</strong>s Medeiros no município de Juazeirinho-PB.<br />

Esse projeto, que ainda está <strong>em</strong> execução, t<strong>em</strong> como finalidade fortalecer as<br />

relações intergeracionais entre os i<strong>do</strong>sos e as crianças da comunidade Alto <strong>do</strong>s Medeiros<br />

através <strong>do</strong> resgate das cantigas de roda e das brincadeiras infantis. Além disso, pretende<br />

fortalecer o processo ensino-aprendizag<strong>em</strong> através da troca <strong>do</strong> saber <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos e das<br />

crianças da comunidade; elaborar uma cartilha com as cantigas de roda e brincadeiras<br />

infantis resgatadas no decorrer <strong>do</strong> projeto; e publicizar as ações <strong>do</strong> projeto no município<br />

através da rádio comunitária e <strong>em</strong> encontros científicos.<br />

O projeto conta com a participação de duas alunas <strong>do</strong> curso de Serviço Social<br />

(UEPB) e duas <strong>do</strong> curso de Pedagogia (UEPB), todas residentes no município de<br />

Juazeirinho.<br />

Em um primeiro momento realizamos uma reunião com a equipe <strong>do</strong> PSF para<br />

identificar os i<strong>do</strong>sos da comunidade que poderiam participar <strong>do</strong> projeto e reunião com a<br />

equipe da referida escola para apresentação da proposta <strong>do</strong> projeto. Em seguida, através<br />

da aplicação de 17 questionários, procuramos identificar o perfil <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos<br />

participantes <strong>do</strong> projeto. Esse processo se deu no segun<strong>do</strong> s<strong>em</strong>estre de 2006. No início<br />

de 2007 (fevereiro) passamos para a fase <strong>do</strong> resgate das cantigas de roda e das<br />

brincadeiras infantis através de momentos de descontração com os i<strong>do</strong>sos – cantar,<br />

dançar, escrever as cantigas de roda e as brincadeiras infantis.<br />

No momento seguinte (março a maio) os i<strong>do</strong>sos repassaram as cantigas de<br />

roda e das brincadeiras infantis para as crianças da <strong>educação</strong> infantil, utilizan<strong>do</strong> o t<strong>em</strong>po<br />

<strong>do</strong> “recreio” na referida escola. A nossa intenção é utilizar os resulta<strong>do</strong>s desse projeto<br />

para elaborar uma cartilha, conten<strong>do</strong> as cantigas de roda e das brincadeiras infantis, que<br />

possa ser usada pela escola participante <strong>do</strong> projeto e d<strong>em</strong>ais escolas da <strong>educação</strong> infantil<br />

no município.<br />

O mun<strong>do</strong> cont<strong>em</strong>porâneo vive uma fase <strong>do</strong> desenvolvimento <strong>do</strong> capital que<br />

chega a ser assusta<strong>do</strong>ra. A sociedade da informação e <strong>do</strong> conhecimento deixa uma<br />

parcela considerável da população à mercê da ignorância. Se há algumas décadas era<br />

considerada ignorante a pessoa desprovida das habilidades primárias da <strong>educação</strong> – ler,<br />

escrever e contar – hoje se convive com uma nova e perversa forma de ignorância – a<br />

informacional.<br />

Imagin<strong>em</strong>os a configuração dessa realidade na sociedade brasileira, se somos<br />

uma sociedade de desiguais, é de se esperar que a informação chegue desigualmente aos<br />

cidadãos.<br />

O Brasil é uma nação herdeira de uma cultura da desigualdade, desigualdade<br />

essa sentida no social, no econômico e no cultural. Uma maneira de superar esta


ealidade seria, certamente, pela via da <strong>educação</strong>. No entanto, mesmo com to<strong>do</strong>s os<br />

avanços e incentivos na área da <strong>educação</strong>, não conseguimos aniquilar o analfabetismo<br />

no país.<br />

Não pod<strong>em</strong>os fechar nossos olhos às tentativas de “modernização” e<br />

informatização das escolas públicas brasileiras. Dev<strong>em</strong>os l<strong>em</strong>brar que modernização é<br />

diferente de modernidade, o processo de modernidade surge e se desenvolve livr<strong>em</strong>ente,<br />

enquanto que a modernização é um processo imposto de cima para baixo. A tentativa de<br />

informatização das escolas (<strong>educação</strong>) está intimamente ligada às práticas neoliberais<br />

que influenciam a política de <strong>educação</strong> no país, que vê alunos e pais de alunos como<br />

“meros” consumi<strong>do</strong>res.<br />

To<strong>do</strong> esse arcabouço de mudanças ocorridas nos meios de<br />

comunicação/informação t<strong>em</strong> rebatimento imediato na formação (aprendizag<strong>em</strong>) das<br />

crianças. Em conseqüência disso, notamos uma transformação nas formas de brincar das<br />

crianças, ou seja, uma perda significativa da ludicidade na infância e quase que<br />

aban<strong>do</strong>no das brincadeiras tradicionais.<br />

Sobre este aspecto identificamos <strong>do</strong>is enfoques: o primeiro diz respeito às<br />

brincadeiras infantis urbanas (brincadeiras na rua, na escola, na família) que têm<br />

diminuí<strong>do</strong> <strong>em</strong> detrimento <strong>do</strong> aumento <strong>do</strong>s jogos eletrônicos (videogame, jogos <strong>em</strong> rede<br />

e celulares). Assim, apresenta-se uma grande preocupação para as famílias e para os<br />

profissionais que atuam na área (psicólogos, pedagogos) – a tendência das crianças ao<br />

isolamento proporciona<strong>do</strong> por esses jogos. Tais profissionais afirmam que crianças que<br />

são viciadas <strong>em</strong> jogos eletrônicos tend<strong>em</strong> a desenvolver probl<strong>em</strong>as de relacionamento<br />

com outras crianças.<br />

O segun<strong>do</strong> diz respeito às variações ocorridas nas atividades lúdicas no meio<br />

rural. A nosso ver, v<strong>em</strong> se dan<strong>do</strong> uma mudança nas formas de encantamento infantil.<br />

Até poucos anos atrás (duas décadas) era comum encontrar nas frentes das casas rurais<br />

rodas de crianças brincan<strong>do</strong> e cantan<strong>do</strong>, b<strong>em</strong> como no ambiente escolar. Atualmente,<br />

devi<strong>do</strong> a forte influência da televisão, que t<strong>em</strong> alcança<strong>do</strong> os lugares mais distantes, o<br />

brincar v<strong>em</strong> se metamorfosean<strong>do</strong>.<br />

No caso da comunidade Alto <strong>do</strong>s Medeiros, lócus de nosso trabalho, a relação<br />

entre i<strong>do</strong>sos e crianças passa por esta fragilidade cultural citada, pela ausência de<br />

cantigas de roda e de brincadeiras infantis que privilegiam a socialização e desinibição<br />

das crianças.<br />

Gênero, <strong>geração</strong> e cultura: resgatan<strong>do</strong> as brincadeiras infantis e cantigas de roda<br />

A proposta de trabalhar com a discussão de <strong>gênero</strong> prioriza, <strong>em</strong> um primeiro<br />

momento, a participação de mulheres e homens i<strong>do</strong>sos da comunidade, na tentativa de<br />

perceber de que forma as brincadeiras e cantigas de roda fizeram parte da infância<br />

destes. Em um segun<strong>do</strong> momento, o repasse dessas cantigas e brincadeiras para as<br />

crianças (meninos e meninas), consideran<strong>do</strong> o que fora construí<strong>do</strong> socialmente como<br />

brincadeira para menino e para menina.<br />

Entenden<strong>do</strong> que <strong>gênero</strong> é um conceito útil para explicar os comportamentos de<br />

mulheres e de homens <strong>em</strong> nossa sociedade e nos ajuda a compreender grande parte <strong>do</strong>s<br />

probl<strong>em</strong>as e dificuldades que as mulheres enfrentam no trabalho, na vida pública, na<br />

sexualidade, na reprodução, na família (Gouveia & Camurça, 1999: 11).<br />

A d<strong>em</strong>arcação <strong>do</strong>s espaços transita<strong>do</strong>s entre homens e mulheres foi<br />

historicamente responsável pela formação de inúmeros preconceitos e discriminações


elativos às mulheres. Pois, às mulheres, estava reserva<strong>do</strong> o lugar da casa (priva<strong>do</strong>) e<br />

aos homens to<strong>do</strong>s os outros espaços (público). É evidente que a nossa sociedade<br />

repugna esta separação e que as mulheres conquistaram os espaços, até certo t<strong>em</strong>po,<br />

inimagináveis. Isso não significa que a mulher está ocupan<strong>do</strong> o espaço <strong>do</strong> hom<strong>em</strong> na<br />

sociedade, muito menos está invadin<strong>do</strong> profissões masculinas e/os espaços<br />

historicamente determina<strong>do</strong>s para os homens. Pelo contrário, a mulher, nas últimas<br />

décadas, v<strong>em</strong> ocupan<strong>do</strong> o lugar que era seu, porém, fora, durante muito t<strong>em</strong>po, nega<strong>do</strong>.<br />

O universo da brincadeira também tenta separar o que é permiti<strong>do</strong> para o menino<br />

e para a menina. Na verdade, qu<strong>em</strong> faz essa separação são os pais e/ou responsáveis<br />

pelas crianças, pois se depender das crianças, a brincadeira seria um el<strong>em</strong>ento<br />

socializa<strong>do</strong>r e promotor de igualdade de <strong>gênero</strong>.<br />

A t<strong>em</strong>ática da cultura popular está na agenda <strong>do</strong>s projetos educacionais<br />

desenvolvi<strong>do</strong>s no país. Neste caso, procuramos fazer o resgate das cantigas de roda e<br />

brincadeiras infantis nesta comunidade.<br />

Sen<strong>do</strong> assim, consideramos que as cantigas de roda são basicamente folclóricas.<br />

Suas letras, ritmos e melodias são bastante lúdicas, envolven<strong>do</strong>, de forma coletiva,<br />

várias brincadeiras. Além <strong>do</strong> mais, as cantigas de roda são ótimas para promover a<br />

socialização e desinibição da criança, ao promover o olhar frente a frente com o outro, o<br />

toque corporal e a exposição consentida 1 , b<strong>em</strong> como desenvolv<strong>em</strong> o senso de<br />

organização coletiva através da roda e <strong>do</strong> senso rítmico pela música e pelo movimento<br />

corporal que ela cria.<br />

O outro eixo <strong>do</strong> projeto é o enfoque intergeracional. A distância estabelecida<br />

entre as gerações t<strong>em</strong> causa<strong>do</strong> muitos probl<strong>em</strong>as relacionais entre as pessoas. Não são<br />

raras as vezes que ouvimos conflitos verbais entre pessoas de gerações diferentes, ao<br />

ex<strong>em</strong>plo <strong>do</strong> que as crianças/a<strong>do</strong>lescente diz<strong>em</strong> ao se referir<strong>em</strong> ao t<strong>em</strong>po <strong>do</strong> “roncocon”<br />

ao fazer<strong>em</strong> referência ao t<strong>em</strong>po de seus avôs/avós.<br />

Dessa forma, o passa<strong>do</strong>, ao invés de ser valoriza<strong>do</strong> como referência para<br />

construção <strong>do</strong> presente e <strong>do</strong> futuro, chega a ser ridiculariza<strong>do</strong> como algo atrasa<strong>do</strong> e/ou<br />

ultrapassa<strong>do</strong>. E estamos falan<strong>do</strong> de um passa<strong>do</strong> muito recente.<br />

Vale ressaltar que a relevância <strong>do</strong> projeto consiste no fortalecimento das relações<br />

intergeracionais na comunidade, b<strong>em</strong> como numa mudança na auto-estima <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos<br />

participantes <strong>do</strong> projeto. Além disso, o resulta<strong>do</strong> <strong>do</strong> projeto poderá servir de subsídio<br />

para a escola envolvida no projeto e para outras escolas rurais <strong>do</strong> município.<br />

As brincadeiras infantis e as cantigas de roda urbanas são modificadas ao<br />

chegar<strong>em</strong> ao meio rural. Como nos coloca Sousa (2003: 145) “as cantigas urbanas<br />

sofr<strong>em</strong> alterações para uma adaptação da própria comunidade. As brincadeiras evocam<br />

el<strong>em</strong>entos <strong>do</strong> Sítio como animais, plantas e tarefas agrícolas”.<br />

Brincadeiras infantis<br />

Boneca, anel, o coelho passa, o grilo, esconde-esconde, casinha, burrica,<br />

barra-bandeira, gata pintada, cad<strong>em</strong>ia, pular corda, toca, tô no poço, bombaquinha.<br />

Brincadeiras que nos r<strong>em</strong>et<strong>em</strong> à nossa infância e a infância de nossos pais. As<br />

brincadeiras de outros t<strong>em</strong>pos estão presentes na vida das crianças hoje? “A experiência<br />

de brincar cruza diferentes t<strong>em</strong>pos e lugares, passa<strong>do</strong>s, presentes, futuros, sen<strong>do</strong><br />

marcada ao mesmo t<strong>em</strong>po pela continuidade e pela mudança” (Borba, 2006, p. 33).<br />

1 Em muitas cantigas deve-se ir ao centro da roda individualmente e ser visto por to<strong>do</strong>s.


Continuidade no senti<strong>do</strong> <strong>em</strong> que por mais “avançada” que esteja a sociedade, a<br />

criança, de qualquer lugar <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, sente a vontade de brincar, de partilhar com outras<br />

crianças o mun<strong>do</strong> encanta<strong>do</strong> de sua imaginação e de sua fantasia. A mudança no cenário<br />

da ludicidade pueril está localizada nas formas de brincar, nas brincadeiras e nos<br />

brinque<strong>do</strong>s que acompanhan<strong>do</strong> o ritmo veloz das mudanças informacionais impõ<strong>em</strong> às<br />

crianças brincadeiras individualistas.<br />

De acor<strong>do</strong> com Borba (2006) a brincadeira é uma palavra estreitamente<br />

associada à infância e às crianças. No entanto, essa atividade está sen<strong>do</strong> cada vez mais<br />

restrita, ora por causa <strong>do</strong> próprio estilo de vida a<strong>do</strong>ta<strong>do</strong> pelas famílias cont<strong>em</strong>porâneas<br />

que induz a substituição de brincadeiras coletivas nas ruas por TV, vídeo, inter<strong>net</strong>, DVD<br />

que “prende” as crianças dentro de casa, isoladas <strong>do</strong> contato com outras crianças reais e<br />

entran<strong>do</strong> <strong>em</strong> contato com crianças e adultos virtuais. Essa tendência foi identificada por<br />

uma pesquisa divulgada no Jornal Hoje (rede globo) no dia 24 de fevereiro de 2007.<br />

A pesquisa supracitada apresentou, ainda, um da<strong>do</strong> preocupante: 84% <strong>do</strong>s<br />

entrevista<strong>do</strong>s afirmam que as crianças estudam mais <strong>do</strong> que brincam. Dessa forma, não<br />

se leva <strong>em</strong> conta que a brincadeira é uma fonte privilegiada de aprendizag<strong>em</strong> das<br />

crianças. Assim, as escolas deveriam a<strong>do</strong>tar as brincadeiras tradicionais nas salas de<br />

aula, no entanto, as brincadeiras nas escolas se limitam “a hora <strong>do</strong> recreio”, que<br />

normalmente t<strong>em</strong> a duração de 15 minutos.<br />

Não pod<strong>em</strong>os esquecer que as brincadeiras tradicionais, cada vez mais raras no<br />

universo infantil <strong>do</strong>s grandes centros urbanos, ocupam um espaço muito importante no<br />

repertório lúdico popular brasileiro. Faz<strong>em</strong> parte das chamadas brincadeiras que,<br />

passadas de pai para filho, carregam fortes traços culturais característicos de cada<br />

região.<br />

Na primeira etapa <strong>do</strong> nosso trabalho identificamos um leque de brincadeiras<br />

infantis que tiveram um papel de suma importância na infância <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos que<br />

participam <strong>do</strong> projeto. Depois da catalogação das brincadeiras infantis, julgamos<br />

necessário fazer uma classificação das mesmas:<br />

• Brincadeiras competitivas – são aquelas que exig<strong>em</strong> das crianças a formação de<br />

<strong>do</strong>is grupos, <strong>em</strong> que um disputará com o outro. Vale l<strong>em</strong>brar que esse tipo de<br />

brincadeira não induz às crianças a se tornar<strong>em</strong> adultos competitivos e<br />

individualistas. Ao contrário, faz com que a criança entenda o senti<strong>do</strong> de ganhar<br />

e perder. Estão nesta categoria as brincadeiras: barra-bandeira, jogar pedrinhas<br />

para o alto, acad<strong>em</strong>ia (cad<strong>em</strong>ia), pião e outras;<br />

• Brincadeiras de faz de conta – são aquelas brincadeiras que mex<strong>em</strong> com a<br />

criatividade e imaginação da criança possibilitan<strong>do</strong> que a mesma se projeto no<br />

futuro (vida adulta). Não pod<strong>em</strong>os negar a importância dessas brincadeiras para<br />

o desenvolvimento <strong>do</strong> processo de aprendizag<strong>em</strong> da criança. Pois, esta t<strong>em</strong> a<br />

capacidade de antecipar ações de adultos para as suas brincadeiras, como se<br />

fosse realmente, uma preparação para a vida adulta. Brincar de boneca seria uma<br />

preparação para cuidar de crianças (ser mãe), brincar de casinha seria uma<br />

preparação para ser <strong>do</strong>na de casa (casamento) e brincar no roça<strong>do</strong> (subir <strong>em</strong><br />

árvores, limpar mato com uma enxadinha, plantar, matar passarinho com<br />

baladeira/balineira) seria uma preparação para trabalhar na agricultura. Essa<br />

última brincadeira está direcionada às comunidades rurais, como é o caso da<br />

comunidade envolvida no nosso projeto;<br />

• Brincadeiras de descobertas – são aquelas que despertam na criança a<br />

curiosidade, a dúvida e o senso de descoberta, preparan<strong>do</strong>-o para a descoberta <strong>do</strong><br />

mun<strong>do</strong> (conhecimento). As brincadeiras de descobertas são coletivas: escondeesconde,<br />

quente-frio, anel, trinta e um batida e outras;


• Brincadeiras de confiança e colaboração – são aquelas que além de ser<strong>em</strong><br />

coletivas, na maioria das vezes, exig<strong>em</strong> o contato direto com o outro através <strong>do</strong><br />

toque, <strong>do</strong> olhar e de deixar ser conduzi<strong>do</strong> pelo outro (olhos fecha<strong>do</strong>s, mãos<br />

dadas). Esse tipo de brincadeira valoriza a amizade e a solidariedade, uma vez<br />

que o bom andamento da brincadeira depende <strong>do</strong> respeito e da ajuda mútua entre<br />

as crianças. Pod<strong>em</strong>os classificar como brincadeiras dessa categoria: toca (gelo,<br />

recanto, livre), gata pintada, o grilo, burrica, coelho, quebra panela, cobra<br />

cega, pular corda;<br />

• Brincadeiras musicalizadas – são aquelas que brincadeiras cantadas, que<br />

mistura a fala com a música, são brincadeiras coletivas e na maioria exige a<br />

formação de <strong>do</strong>is grupos, ou de uma criança que começa sozinha e depois se<br />

junta às d<strong>em</strong>ais. Como por ex<strong>em</strong>plo: pobre e rico, to no poço, Seu Lobo, Rei<br />

Davi, Bombaquinha e as cantigas de roda.<br />

Expressão da infância dentro <strong>do</strong> contexto de uma vida <strong>em</strong> comunidade, esse<br />

vasto repertório lúdico corre o risco de se perder com o t<strong>em</strong>po.<br />

Cantigas de roda<br />

As cantigas de roda são danças infantis transmitidas por uma peculiar camada<br />

da sociedade que, nāo utilizan<strong>do</strong> a escritura como meio de transmissāo, ass<strong>em</strong>elha à<br />

sociedade rural adulta. No Brasil são geralmente de orig<strong>em</strong> européia e reduz<strong>em</strong>-se<br />

praticamente às danças de roda.<br />

As Cantigas de roda integram o conjunto das canções anônimas, que faz<strong>em</strong><br />

parte da cultura espontânea, decorrente da experiência de vida de qualquer coletividade<br />

humana.<br />

Do ponto de vista pedagógico, estas danças infantis são consideradas<br />

completas: brincan<strong>do</strong> de roda a criança exercita naturalmente o seu corpo, desenvolve o<br />

raciocínio e a m<strong>em</strong>ória, estimula o gosto pelo canto. Poesia, música e dança un<strong>em</strong>-se<br />

<strong>em</strong> uma síntese de el<strong>em</strong>entos imprescindíveis a <strong>educação</strong> global. Vale l<strong>em</strong>brar que, a<br />

atividade lúdica constitui o aspecto mais autêntico <strong>do</strong> comportamento da criança.<br />

Ao brincar, a criança está corresponden<strong>do</strong> a necessidades vitais suas, dan<strong>do</strong><br />

vazão a impulsos que a permit<strong>em</strong> desenvolver-se como ser pleno e afirmar a sua<br />

existência singular. É um movimento que faz parte <strong>do</strong>s seus esforços de compreender o<br />

mun<strong>do</strong>, e que a torna capaz de lidar com probl<strong>em</strong>as até complexos e que muitas vezes<br />

t<strong>em</strong> dificuldade de compreender.<br />

Dentre as brincadeiras infantis classificadas anteriormente, as cantigas de roda<br />

aparec<strong>em</strong> nas brincadeiras musicalizadas. Assim sen<strong>do</strong>, não pod<strong>em</strong>os esquecer o fato de<br />

que as cantigas de roda pod<strong>em</strong> variar de região para outra b<strong>em</strong> como da cidade para o<br />

campo, ou seja, as cantigas de roda, que são transmitidas pela oralidade, são<br />

constant<strong>em</strong>ente recriadas pelas crianças de acor<strong>do</strong> com o meio <strong>em</strong> que viv<strong>em</strong>.<br />

Na comunidade Alto <strong>do</strong>s Medeiros, encontramos, a partir da fala <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos da<br />

comunidade, um lista considerável de cantigas de roda, que, de acor<strong>do</strong> com esses, não<br />

faz<strong>em</strong> parte da vida das crianças de hoje. Partin<strong>do</strong> <strong>do</strong> pressuposto que as cantigas de<br />

roda mex<strong>em</strong> com a afetividade, a espontaneidade, a exposição consentida e a expressão<br />

corporal das crianças, dividimos as cantigas resgatadas no projeto da seguinte forma:<br />

• Cantigas amorosas – são aquelas que falam de declarações de amor, de saudade<br />

e falta <strong>do</strong> ser ama<strong>do</strong> ou falam <strong>em</strong> casamento, são alguns ex<strong>em</strong>plos: cirandacirandinha,<br />

Terezinha de Jesus, viuvinha da mata da lenha;<br />

• Cantigas para ser<strong>em</strong> dramatizadas/expressão corporal – esse tipo de cantiga<br />

desperta a criatividade e a expressão corporal da criança, uma vez que improvisa


dramatizações e exige a atenção máxima da criança, muitas vezes com a ajuda<br />

de brinque<strong>do</strong>s (quengas de coco). Estão nesta categoria as seguintes cantigas:<br />

escravos de Jô, fui à Espanha, cocadinha, o circo pegou fogo, dança da<br />

carrocinha, oh, que bela laranja, pesinho, ai, eu entrei na roda, a canoa virou e<br />

tornou a virar;<br />

• Cantigas que resgatam a relação com plantas e animais – são aquelas mais<br />

fortes no imaginário das crianças rurais, pois evocam os animais e plantas que<br />

faz<strong>em</strong> parte de sua região e por isso são constant<strong>em</strong>ente modificadas. São<br />

ex<strong>em</strong>plos dessas cantigas: minha gatinha parda, sapo cururu, atirei o pau no<br />

gato, meu limão meu limoeiro, lá <strong>em</strong> cima daquele morro.<br />

O encantamento pelas cantigas de roda v<strong>em</strong> sen<strong>do</strong> substituí<strong>do</strong> pelo<br />

encantamento <strong>do</strong>s desenhos anima<strong>do</strong>s e brincadeiras influenciadas/copiadas pela<br />

programação televisiva.<br />

Consideran<strong>do</strong> que as cantigas de roda e brincadeiras infantis são culturais e<br />

repassadas de <strong>geração</strong> <strong>em</strong> <strong>geração</strong>, acreditamos que o afastamento dessas atividades <strong>do</strong><br />

dia-a-dia lúdico-infantil v<strong>em</strong> refletir <strong>em</strong> mudanças nas relações intergeracionais. Pois,<br />

outrora havia uma valorização maior das pessoas i<strong>do</strong>sas na família, ou seja, essas<br />

pessoas eram responsáveis pela continuidade e repasse da cultura popular, através da<br />

oralidade, incluin<strong>do</strong> as cantigas de rodas e brincadeiras infantis.<br />

Algumas Considerações<br />

Não quer<strong>em</strong>os, portanto, com este trabalho decretar o fim das formas lúdicas<br />

coletivas no meio infantil, n<strong>em</strong> tampouco a morte definitiva da relação entre avôs/avós e<br />

crianças no que se refere à continuidade da cultura popular pueril. Quer<strong>em</strong>os, pois,<br />

despertar para um risco que se corre: o aban<strong>do</strong>no <strong>do</strong> encantamento e da fantasia infantil.<br />

Constatamos que os i<strong>do</strong>sos são porta<strong>do</strong>res de uma sabe<strong>do</strong>ria espetacular, mas a<br />

influência “encanta<strong>do</strong>ra” da televisão nos lares tende a calar a voz desses sujeitos que<br />

têm tanto a ensinar. Outra constatação é que, por um la<strong>do</strong>, as cantigas de roda e<br />

brincadeiras infantis ainda estão b<strong>em</strong> vivas nas l<strong>em</strong>branças <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos da comunidade.<br />

Por outro la<strong>do</strong>, há um desconhecimento das crianças <strong>em</strong> relação a essas brincadeiras<br />

tradicionais.<br />

Constatamos, ainda, que as l<strong>em</strong>branças da infância <strong>do</strong>s i<strong>do</strong>sos participantes <strong>do</strong><br />

projeto são fort<strong>em</strong>ente marcadas pelas relações familiares, de amizade e pelas<br />

brincadeiras e cantigas de roda.<br />

Daí, a importância de dar continuidade a este projeto colocan<strong>do</strong> os i<strong>do</strong>sos e as<br />

crianças face a face. Pois, os i<strong>do</strong>sos têm muito a ensinar e aprender com as crianças e<br />

vice-versa.<br />

Consideran<strong>do</strong> que as cantigas de roda e brincadeiras infantis são culturais e<br />

repassadas de <strong>geração</strong> <strong>em</strong> <strong>geração</strong>, acreditamos que o afastamento dessas atividades <strong>do</strong><br />

dia-a-dia lúdico-infantil v<strong>em</strong> refletir <strong>em</strong> mudanças nas relações intergeracionais. Pois,<br />

outrora havia uma valorização maior das pessoas i<strong>do</strong>sas na família, ou seja, essas<br />

pessoas eram responsáveis pela continuidade e repasse da cultura popular, através da<br />

oralidade, incluin<strong>do</strong> as cantigas de rodas e brincadeiras infantis.


Referências Bibliográficas<br />

BORBA, Ângela Meyer. O brincar como um mo<strong>do</strong> de ser e estar no mun<strong>do</strong>. In: Brasil.<br />

Ministério da Educação. Ensino Fundamental de nove anos: orientações para a inclusão<br />

da criança de seis anos de idade. Brasília: FNDE, Estação Gráfica, 2006.<br />

GOUVEIA, Taciana, CAMURÇA, Silvia. O que é <strong>gênero</strong>. Recife: S.O.S. Corpo:<br />

<strong>gênero</strong> e cidadania, 1999.<br />

MINAYO, Maria Cecília de Souza. (org.). Pesquisa social teoria, méto<strong>do</strong> e<br />

criatividade. Petrópolis (RJ): Vozes, 2000.<br />

SOUSA, E. L. MALDONADO, S. A aprendizag<strong>em</strong> das crianças Capuxu: um processo<br />

da escola para o roça<strong>do</strong>. In: IV Colóquio Internacional Paulo Freire. Paulo Freire: ética,<br />

política e <strong>educação</strong>. Recife: Centro Paulo Freire, 2003.<br />

FREIRE, Paulo. Pedagogia <strong>do</strong> oprimi<strong>do</strong>. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1980.

Hooray! Your file is uploaded and ready to be published.

Saved successfully!

Ooh no, something went wrong!