Tabus lingüísticos e expressões cristalizadas - let.unb.br

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Tabus lingüísticos e expressões cristalizadas - let.unb.br

Artigo publicado em: Revista Acta Semiótica et<br />

Lingüística, v. 12, pp. 115-125, 2007.<br />

Tabus lingüísticos e expressões cristalizadas<br />

1<br />

ORTIZ ALVAREZ, M. L<br />

UNB<br />

Resumen: En este trabajo analizaremos los tabus lingüísticos, a partir de un esbozo y<br />

discusión breve de las particularidades de este fenómeno especialmente en la época<br />

actual enfatizando especialmente las expresiones idiomáticas cristalizadas, las cuales<br />

durante mucho tiempo fueron practicamente excluídas por pertenecer a priori a la<br />

oralidad, mas que desempeñan un papel muy importante dentro de los valores<br />

culturales de una determinada comunidad. A través de este esbozo pretendemos<br />

mostrar una visão de mundo desde el punto de vista psicosociológico que tan<br />

profundamente ha inteferido en la compleja evolución lingüística.<br />

Palavras-clave: tabu lingüístico; expresión idiomática; cultura; significado.<br />

Resumo: Neste trabalho, temos de nos referir ao tabu lingüístico para tentar esboçar e<br />

discutir brevemente as particularidades desse fenômeno especialmente na época<br />

contemporânea fazendo especial ênfase nas expressões idiomáticas cristalizadas as<br />

quais durante muito tempo foram automaticamente excluídas por pertencerem à priori<br />

à fala, mas que desempenham um papel importantíssimo dentro dos valores culturais<br />

de uma comunidade. Através deste esboço pretendemos expor à consideração uma<br />

visão do mundo psicossociológico que tão profundamente tem interferido na complexa<br />

evolução lingüística.<br />

Palavras-chave: tabu lingüístico; expressão idiomática; cultura; significado.<br />

0. Introdução


2<br />

“A linguagem, está sempre à nossa<br />

volta, sempre pronta a envolver<br />

nossos pensamentos e sentimentos,<br />

acompanhando-nos em toda a nossa<br />

vida. Ela não é um simples<br />

acompanhamento do pensamento,<br />

“mas sim um fio profundamente<br />

tecido na trama do pensamento”, é<br />

o tesouro da memória e a<br />

consciência vigilante transmitida de<br />

geração a geração”<br />

Hjelmslev<br />

A linguagem humana presta-se, como outras formas de comunicação, à troca e<br />

à expressão de idéias entre pessoas e como fato social põe em destaque ações,<br />

atividades, valores e referenciais do cotidiano do grupo, as experiências individuais e<br />

culturais que se veiculam por essa própria linguagem humana, codificada em<br />

determinada língua por meio de palavras, frases e textos. Cada povo, portanto, cada<br />

cultura, serve-se de imagens diferentes para contornar ou enfatizar certos assuntos de<br />

maneira figurada verificando-se assim que a língua nos fornece informação cultural,<br />

quer através da sua própria história, quer através da história da cultura que a veicula.<br />

Aquilo que a sociedade nos impede de exprimir, aquilo que a linguagem tem<br />

de vivo e de pessoal e que é sufocado pelos estereótipos encontra no subconsciente um<br />

caminho aberto. Freud mostrou que o inconsciente faz com que sua voz seja ouvida em<br />

todas as mensagens que escapam ao nosso controle: lapsos, sonhos, etc. Aquilo que<br />

desejamos e foi encoberto pelas convenções sociais se exprime numa nova linguagem,<br />

obscura, simbólica, dificilmente decifrável, mas profundamente verdadeira.<br />

No entanto, o poder da palavra, enquanto força comunicadora também governa<br />

a natureza de certas proibições, aceita ou rejeita, dá manutenção ou substitui valores<br />

comuns. Assim, tabus lingüísticos e expressões cristalizadas constituem-se em<br />

representações de atitudes coletivas de maior ou menor impacto social. Existem objetos<br />

- tabu que não devem ser tocados; lugares -tabu, que não devem ser pisados; ações -<br />

tabu que não devem ser praticadas e palavras -tabu que não devem ser proferidas.<br />

Além disso, há pessoas - tabu e situações ou estados - tabu.<br />

1. O que é tabu?<br />

A palavra tabu de origem polinésia significa sagrado, invulnerável, proibido,<br />

consagrado, misterioso, impuro e perigoso. Geralmente um vocábulo que passa a ser


considerado tabu está apenas refletindo o sistema de crenças e valores de sociedades.<br />

Segundo Wardhaugh (1993) com o recurso aos tabus lingüísticos, a sociedade expressa<br />

sua desaprovação a certos comportamentos considerados nocivos a seus membros por<br />

motivos de ordem sobrenatural ou por uma questão de violar um código moral. Tudo<br />

parte sempre da crença de que a linguagem oculta um poder capaz de subjugar o<br />

homem de forma irremediável. De início seu uso referia-se particularmente a proibições<br />

de caráter sagrado, mas seu significado estendeu-se para outras proibições ou<br />

inconveniências. Por isso, reiteramos, freqüentemente algumas pessoas temem até<br />

pronunciar até o nome de certas doenças. O uso dessas palavras ou expressões,<br />

consideradas como tabus, sempre é evitado ou contornado por meio de outros recursos<br />

lingüísticos. Em geral os termos que os designam são substituídos por expressões<br />

eufêmicas. Segundo Monteiro (1986):<br />

Quanto à substituição do termo por um sinônimo, cumpre ter<br />

em mente que não são os significados ou os referentes dos<br />

vocábulos (seres, doenças, objetos etc.) que justificam a<br />

crença nos efeitos maléficos dos tabus lingüísticos. Por isso é<br />

que as pessoas usam com a maior naturalidade, sem medos<br />

ou maus pressentimentos, termos conceitualmente análogos<br />

às palavras proibidas.<br />

A dimensão pragmática de um fenômeno lingüístico como o eufemismo aponta<br />

para o contexto extra-lingüístico em que ele surge. Na África, por exemplo, nunca se<br />

profere o nome de uma pessoa morta. Por temer à morte, muita gente evita pronunciar o<br />

seu nome. Assim, diz-se: bater as botas, empacotar, descanso, dormir, esticar as<br />

canelas, bater a caçoleta, vestir o pijama de madeira, abotoar o paletó, ir desta para<br />

outra etc. Sigrid Luchtenberg (1975, cap. IV) aponta para duas funções principais que<br />

presidem à utilização do eufemismo. A primeira, explora o potencial atenuante do<br />

eufemismo na referência a tabus sociais ou individuais. É esta a função que o<br />

eufemismo cumpre no discurso da delicadeza, quer no plano da interação individual<br />

(referência ao aspecto físico ou às capacidades intelectuais) ou social (no plano da<br />

designação de profissões menos prestigiadas ou na abordagem de temas socialmente<br />

incômodos, como a doença incurável, a morte ou o sexo). A segunda função proposta<br />

por Luchtenberg é de desvio da atenção do interlocutor para aspectos particulares de um<br />

acontecimento, que o falante quer sobrepor a outros igualmente ou até mais<br />

importantes, mas cuja relevância ele procura estrategicamente atenuar, moldando desta<br />

forma a reação do interlocutor às palavras e ao evento de que elas dão conta. Não se<br />

trata aqui de uma mentira, mas da revelação de uma verdade parcial ou de uma<br />

perspectiva particular sobre um acontecimento que poderia ser visto de um prisma mais<br />

abrangente. Em outras palavras, é uma forma de manipulação (Abrantes, 2001).<br />

Abrantes (2001) considera que os eufemismos podem ser:<br />

3


1. A expressão lingüística de um processo iniciado ao nível conceptual, uma<br />

estratégia de natureza onomasiologia de contorno de uma realidade negativa,<br />

pela seleção de uma designação suavizante.<br />

2. Surge da necessidade da observação de normas que condicionam a interação<br />

social. O respeito pelo Outro e a observação destas regras conduz à<br />

necessidade de evitar uma referência direta e a substituí-la por uma designação<br />

alternativa. Esta é a essência da função de ocultação do eufemismo.<br />

3. Além desta função, o eufemismo cumpre ainda o propósito (menos isento) de<br />

guiar a atenção do interlocutor para aspectos específicos ou particulares da<br />

realidade referida, evitando a menção de partes dessa realidade, que seriam<br />

relevantes para uma visão total e imparcial dos acontecimentos em causa. Esta<br />

é a função manipuladora de desvio da atenção para aspectos particulares.<br />

4. No desempenho destas duas funções (alternada ou conjuntamente) destacam-se<br />

várias estratégias lingüísticas ao nível do léxico e da sintaxe, que possibilitam<br />

a reconstrução suavizante de uma referência parcial a uma realidade negativa.<br />

Entre estas estratégias contam-se a metonímia, a metáfora, ou a construção<br />

passiva.<br />

Voltando ao tabu lingüístico, podemos classificá-lo como tabus stricto sensu,<br />

que se referem à proibição de dizer ou falar o nome de alguma coisa ao qual é atribuído<br />

um poder sobrenatural e cuja infração leva a uma sanção. Por sua vez, o tabu lingüístico<br />

lato sensu consiste na proibição do uso de certas expressões consideradas como<br />

grosseiras ou imorais. Desta forma, objetos, animais (serpente, leão, lobo, urso, lebre,<br />

sapo, gato, dentre outros), alguns fenômenos como o fogo, a morte, os deuses, as<br />

doenças, algumas partes do corpo, gestos, ações podem-se transformar em tabus,<br />

também como tocar em certos animais, objetos, praticar determinadas ações e até<br />

proferir certas palavras ou expressões-tabu tornam-se proibidos.<br />

Palavras que são geralmente de origem grega e foram introduzidas no<br />

vocabulário da igreja através do latim eclesiástico ou pelo baixo latim são evitadas por<br />

acreditar-se que sua simples pronuncia têm muito poder para o mal. Por exemplo, a<br />

palavra diabo, satanás ou demônio é odiada e temida. Ela pode ser substituída por um<br />

adjetivo (o maligno, o tinhoso, o malvado, dentre outros, ou foneticamente deformada<br />

(diacho), também é chamado de o dito cujo, anjo mau, droga, coisa ruim, o capeta,<br />

belzebu, etc.. No entanto, a palavra Lúcifer com a qual também se designa o diabo, em<br />

latim significa o que traz luz, a estrela da manhã. O termo sogra tem historicamente<br />

conotação de pessoa má, que interfere na vida do casal infernizando o genro ou a nora<br />

por maldade, por ciúme, pela vontade de proteção do filho ou da filha, por julgar que o<br />

genro (ou a nora) não está à altura e que ela (sogra) é indispensável. Muitos evitam a<br />

referência minha sogra, usando a expressão a mãe de Fulana (nome da mulher) ou<br />

Dona Fulana (nome da sogra). O pior é quando se manifesta desprezo ou até ódio e a<br />

sogra é designada como aquela bruxa, jararaca e outros disfemismos do mesmo estilo.<br />

Já para o vocábulo sogro não existe qualquer tabu, embora muitas vezes se prefira o<br />

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nome, sobrenome ou apelido com que é conhecido em seu meio: o Sr. Fulano (nome)<br />

ou o pai de Fulana (nome da esposa).<br />

O homem não se referirá à mulher que vive com ele sem ser casada como<br />

amante e muito menos como amásia ou concubina. Será namorada, companheira,<br />

amiga. Estes são alguns eufemismos, porém os disfemismos neste tipo de relação<br />

também são muito usados: a mina, o caso, o cacho, a outra, a filial, etc. Por outro lado,<br />

no caso da amante em relação à esposa, esta será a mulher dele, a mãe de meus filhos<br />

ou é citada pelo nome, mas também pode ser designada disfemisticamente como a<br />

encrenca ou algum epíteto semelhante. Já o marido se referirá à mulher como a patroa<br />

ou pelo seu próprio nome. A mulher (esposa) se referirá a ele pelo nome de batismo,<br />

pelo sobrenome ou até por um apelido. Uma mulher considerada sem compromisso<br />

pode referir-se a seu novo par como namorado ou, modernamente, como escort.<br />

Os negros durante muito tempo e até hoje são vítimas dos apelativos raciais<br />

como resultado do preconceito e discriminação. Em Cuba e no Brasil utilizam-se<br />

palavras como pessoa de cor, persona de color cartucho, moreno, preto em vez de<br />

negro, mulato ou mestiço para se falar de uma pessoa negra. Assim, a cor da pele ainda<br />

é, infelizmente, fator de preconceito, por isso os substantivos negro e negra são<br />

freqüentemente substituídos por escuro / escura; escurinho / escurinha ou também por<br />

pessoa de cor (sempre se referindo à cor negra). Pode ocorrer também a síncope do r<br />

por imitação da linguagem infantil, para denotar afetividade: nego/ nega; neguinho /<br />

neguinha. Muitos disfemismos são relacionados ao negro/negra, alguns deles ao se<br />

tratar de pessoas corpulentas: negão / negona; negrão/negrona. Algumas definições<br />

injuriosas relacionadas às pessoas de raça negra foram retiradas dos dicionários após a<br />

campanha contra o preconceito.<br />

A palavra velho também se tornou ofensiva, pois ninguém admite mais, salvo<br />

em alguns casos, ficar velho. Essas pessoas preferem ser chamados de companheiro ou<br />

companheira, pessoas de idade, pessoas mais velhas, experientes ou adultas ou<br />

simplesmente da terceira idade. Muitas vezes não nos referimos aos idosos como<br />

velhos, mas como velhinhos. As instituições geriátricas cuidam de velhinhos e<br />

velhinhas. O termo idoso é o mais usado na linguagem oficial, geralmente como<br />

adjetivo: um senhor idoso, uma senhora idosa.<br />

Algo semelhante ocorre com referência aos cegos. Ou se usa o diminutivo<br />

(ceguinho, ceguinha), ou, o que é mais comum, deficiente visual, ainda que a<br />

deficiência não seja completa. Já com os surdos não há essa preocupação, nem essa<br />

complacência. Não se usa diminutivo, embora nas instâncias oficiais se empregue um<br />

eufemismo equivalente ao do cego: deficiente auditivo. As jovens de algumas<br />

profissões ou ocupações são freqüentemente designadas pelo diminutivo:<br />

professorinha, freirinha, costureirinha, empregadinha, etc., o que não ocorre, a não ser<br />

excepcionalmente, com as de outras profissões ou ocupações: cantora, modelo,<br />

cozinheira, faxineira, babá, telefonista, etc.<br />

Segundo Coseriu (1982, p.71) o tabu lingüístico é um fato eminentemente<br />

social que veta o uso de certas palavras por razões de natureza emotiva. O tabu<br />

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lingüístico, porém, é apenas um aspecto de um fenômeno mais amplo, que é a<br />

interdição de vocabulário e que possivelmente se deve não só a superstições ou<br />

crendices, mas também a várias outras razões de índole emotiva ou social; razões de<br />

educação, cortesia, boas maneiras, decência, amabilidade, etc. Evitam-se expressões e<br />

palavras que se consideram demasiadamente cruas ou descorteses ou indecentes. Não<br />

concordando plenamente com este critério do autor podemos dizer que às vezes o que<br />

para alguns representa uma indecência, não necessariamente o seria para outros, pois<br />

cada pessoa representa um mundo, portanto, a mente de cada uma dessas pessoas<br />

representa uma imagem diferente da realidade que será interpretada de maneira<br />

diferente, particular, ou seja, o que é desagradável para alguém será agradável para<br />

outro, o que é admirável para alguém pode ser ridículo para outrem, o que também<br />

depende de condutas e temperamentos, de posturas diferentes dos indivíduos dentro do<br />

seu meio, da sua realidade e de um dado contexto. Daí a opinião de que a linguagem<br />

não é só um fenômeno cultural como constitui, simultaneamente, o fundamento de toda<br />

sociedade é a expressão social mais perfeita do homem ( Paz, 1993, p.15).<br />

Cada comunidade desde a época primitiva, operando com a lógica, fazia as<br />

associações de objetos com valores expressivos dando-lhe um significado a cada coisa<br />

de acordo com os níveis de abstração e da realidade que se apresenta fora do nosso<br />

cérebro, o que leva a uma certa conexão mística entre a palavra e o objeto por ela<br />

designado. Por exemplo, certos animais poderiam estar relacionados a coisa ruim,<br />

desgraça, azar, (serpente, aura, o latido do cão, gato preto, o uivo do lobo), pronunciar<br />

uma palavra tabu também poderia atrair desgraça, infelicidade, para quem a proferisse,<br />

o que significa que por trás delas existe o preconceito ou a superstição.<br />

Havers (1946), Kany (1960), Gueirós (1979), Ullmann (1973, 1977), Coseriu<br />

(1982) e outros autores pesquisando esse campo apontam as características dos tabus.<br />

Para Havers existem seis tipos de tabus classificados da forma seguinte: 1) nomes de<br />

partes do corpo; 2) fogo; 3) Sol e Lua; 4) nomes de animais; 5) doenças, lesões e<br />

anormalidades; 6) nomes de deuses e demônios.<br />

Kany, (op.cit.), no entanto, os classifica em tabus de: 1) interdição sexual; 2)<br />

interdição de decência; 3) interdição mágico-religiosa; 4) interdição social; 5)<br />

interdição política; 6) vícios e defeitos morais e físicos.<br />

Ullmann (op.cit), por exemplo, estabelece uma classificação dos tabus<br />

alegando que existem três tipos: 1) tabus de medo ou superstição; 2) tabus de<br />

delicadeza; 3) tabus de decência ou decoro. No primeiro grupo, o autor inclui as<br />

restrições respeito aos mortos, e aos maus espíritos, também como tabus de animais.<br />

Aqui também entraria a superstição da palavra esquerdo sendo que em alguns países é<br />

muito comum ouvir expressões do tipo levantar com o pé esquerdo que significa má<br />

sorte, azar, revelando o sentido pejorativo da palavra. No segundo grupo, segundo o<br />

autor, estariam os nomes de doenças, a morte, as deficiências físicas, atos criminais<br />

(roubo, assassinato). Em Cuba, por exemplo, essa pode a razão pela qual o câncer é<br />

chamado muitas vezes de caranguejo ou tumor maligno, a lepra de problemas da pele<br />

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ou mal de São Lázaro, a AIDS de doença ruim ou isso que anda ou doença<br />

sexualmente transmissível.<br />

O terceiro e último grupo abrange nomes das partes e funções do corpo, sexo e<br />

palavras de juramento. No Brasil, por exemplo, para o ato sexual em si, é mais fácil<br />

dizer afogar o ganso, molhar o biscoito, fazer João e Maria. Assim, vão-se criando<br />

novos nomes, apelidos e eufemismos, para driblar ou adaptar alguns nomes tidos como<br />

feios, obscenos, grosseiros. Nesse contexto, a genitália, tanto masculina quanto<br />

feminina, são campos férteis para a invenção, a construção do novo, do tabu, do<br />

eufemismo social. Por vezes, surgem palavras curiosas, engraçadas, todas nascidas da<br />

imaginação humana. Em Cuba, por exemplo, para os órgãos genitais existem varias<br />

designações na linguagem coloquial. fondillo, trasero, nalgas (tabu culo) chocho, pipi,<br />

la cosita , perilla para designar o órgão genital feminino, em vez de usar a palavra bollo<br />

que, em muitos países latinos significa pãozinho. No caso do órgão masculino se usa<br />

pito, rabo, miembro, pois é um tabu nomear pelo nome verdadeiro que seria pinga, que<br />

no Brasil não tem conotação negativa, é uma bebida alcoólica, a tão conhecida cachaça.<br />

Ao tratar-se de relações sexuais, é de praxe o uso de eufemismos ou disfemismos: fazer<br />

amor, transar, ficar com alguém, dormir com alguém, levar alguém para a cama,<br />

etc..Conseqüentemente, no que se refere às relações sexuais é um tabu usar o verbo<br />

singar (transar) e no caso é substituído por hacer el amor, estar (ficar). No Brasil o<br />

órgão masculino é chamado de piu-piu, peru, aparelho, arame, arma, banana, bicho,<br />

bimba, bordão, cacete, canivete, caralho, chouriço, cobra, espada, ferramenta, ganso,<br />

instrumento, lenha, lingüiça, mastro, membro, minhoca, minhocão, negócio, nervo,<br />

passarinho, pau, pau-de-cabeleira, piça, picha, picolé, pirulito, pistola, pito, porrete.<br />

Já no caso do órgão feminino encontramos aranha, bacalhau, barata, bichochota,<br />

bixoxota, bombril, buceta, chochota, concha, crica, gruta-do-amor, lacraia, lasca,<br />

negócio, passarinha, perereca, periquita, periquito, xoxota. Para expressar a qualidade<br />

ou características seria aranha, barata para o feminino e mastro, espada para o<br />

masculino.<br />

Assim, ainda há tabus na vida social, sob os efeitos de repressão dos costumes,<br />

principalmente aqueles que se referem às práticas sexuais. Muitas vezes as palavras são<br />

disfarçadas, por exemplo, puta e prostituta, ramera (quenga em português) por mujer<br />

de la vida (mulher da vida, as trabalhadoras da noite, damas da noite). Até os anos 60<br />

do século passado eram proibidas as palavras: puta, aborto, masturbação, sexo oral,<br />

sexo anal, etc. No caso da palavra transar é comum nestes últimos tempos ouvir o verbo<br />

nhanhar, que apareceu na boca de um dos personagens de telenovela. Em Cuba a<br />

palavra menstruação é substituída por regra, ou pela expressão estar con la cruz roja<br />

(estar com a cruz vermelha). Os homossexuais do sexo masculino são chamados de<br />

pato, pássaro, invertido, maricón e as de sexo feminino de invertidas, tortilleras,<br />

entanto que no Brasil são chamadas de sapatão, o que mostra o preconceito da<br />

sociedade com relação a essas pessoas. Se uma mulher está grávida é comum ouvir<br />

está em estado, mas em estado de que?<br />

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Em Cuba, pronunciar as palavras salación, maldito, desgraça pode atrair a má<br />

sorte, derramar o sal no chão significa azar, se por acaso cai no chão uma faca e a ponta<br />

dela está indicando para a pessoa, significa que lhe vai acontecer alguma coisa ruim. A<br />

vassoura atrás da porta também é motivo de superstição.<br />

Também palavras de cunho político tendem a tornar-se tabu, por exemplo,<br />

terrorista, guerrilheiro.<br />

Alguns tipos de fantasias ou de fantasmas originais são transculturais e por que<br />

não dizer, universais: existe um compartilhar de elementos tais como a cena primeira, a<br />

gravidez, o nascimento, o incesto, a bissexualidade. Essas fantasias originárias vêm<br />

sempre envoltas em efeitos de sentido de algo misterioso, perigoso, proibido, impuro e<br />

de algo inabordável, e por isso mesmo, pleno de restrições e proibições, isto é, são<br />

tabus. Mas pode-se afirmar que, por trás de tais proibições, parece haver um elemento<br />

essencial - o poder e que, segundo Freud (1995) está ligado a todos os indivíduos<br />

especiais, como reis, sacerdotes ou recém-nascidos, a todos os estados excepcionais,<br />

como os estados físicos da puberdade ou nascimento, e a todas as coisas misteriosas,<br />

como a doença ou a morte. Wundt, que é citado por Freud (idem, ibidem) liga o poder<br />

do tabu, cuja fonte são os instintos humanos mais primitivos ao poder exercido por<br />

chefes, reis e sacerdotes que privilegiam as diferenças sociais. Daí a primeira lei<br />

totêmica, não matar o animal totêmico, representado pelo chefe. Assim, proibições de<br />

uma antigüidade primeva foram externamente impostas a uma geração anterior.<br />

Como se percebe alguns pesquisadores acreditam que esses nomes tabus<br />

pertencem a dois grandes campos: a) sociais ou morais -substituição de palavras<br />

consideradas grosseiras ou imorais (como se vê com os nomes dos órgãos sexuais); b)<br />

supersticiosos - substituição de nomes temidos por medo de desgraças, doenças etc. São<br />

exemplos: doença do peito (para tuberculose), ramo (para paralisia), macumba,<br />

mandinga, urucubaca (para feitiço), mal da pele (para lepra).<br />

Gueirós (1965, p.16) apresenta uma classificação mais extensa dos tabus,<br />

dividindo-os da maneira seguinte:<br />

• tabus em nomes de pessoas<br />

• tabus em nomes de parentes<br />

• tabus em nomes de autoridades<br />

• tabus em nomes religiosos<br />

• tabus em nomes de mortos<br />

• tabus em nomes de animais<br />

• tabus em nomes de membros do corpo<br />

• tabus em nomes de lugares e circunstâncias<br />

• tabus em nomes de doenças e defeitos físicos<br />

• tabus em nomes de alimentos<br />

• tabus em nomes vários<br />

Evidentemente a classificação de Ullmann (op. cit.) seria baseada na divisão<br />

feita por Gueirós (op. cit) que, embora mais detalhada e extensa, carece de visão mais<br />

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explícita e de exemplos mais concretos. Em 1979, Gueiros estabelece dois tipos de<br />

tabus lingüísticos, o próprio e o impróprio. O primeiro, se refere à proibição de dizer<br />

certos nomes e palavras, Caracterizando-se por seu aspecto mágico, religioso ou de<br />

crença. Já o segundo tipo, refere-se à proibição de dizer qualquer expressão imoral ou<br />

grosseira, sendo, portanto de caráter moral ou de sentimento (Almeida 2007, p. 140)<br />

Como é vedado pronunciar uma palavra ou expressão, se esta é tabu, então é<br />

preciso achar um recurso ou processo de que se lance mão para exteriorizar a idéia<br />

expressa por ela, uma vez que é proibido exprimi-la. Por tal razão, ao nosso ver, os<br />

processos seriam:<br />

• substituição por meio da gesticulação<br />

• substituição por um sinônimo<br />

• substituição por uma expressão genérica (doenças graves que são conhecidas por<br />

coisa, coisa má, doença ruim; em vez da palavra diabo se usa pecado)<br />

• substituição por um estrangeirismo ou dialetismo (na Rússia denominam o cão de<br />

sobaka, de procedência irânica.<br />

• substituição por um disfemismo (no português são exemplos disfêmicos coisaruim,<br />

malvado, maldito referentes ao demônio; no Brasil a lepra é chamada de<br />

mal-bruto, a tuberculose de doença ruim).<br />

• substituição por termo científico (em vez de nomes grosseiros que designam a<br />

matéria expelida pelo ânus, termo científico, empregam-se os vocábulos dejeto ou<br />

excremento; em vez da palavra cuspir ou escarrar empregam-se os termos salivar,<br />

expectorar).<br />

• substituição por vocábulos da linguagem infantil (os termos são usados como<br />

usualmente aparecem na boca da criança xixi, pipi, etc.)<br />

• substituição por antônimo (o termo gravoso pode ser por decência ou por<br />

prudência, substituído pelo seu antônimo, por exemplo, de um estúpido (babaca)<br />

diz-se não raro é inteligente!<br />

• substituição por hipossemia (a necessidade de dissimular determinadas idéias ou<br />

reações sentimentais, cuja manifestação nos desconvenha; convite pouco<br />

agradável em vez de convite desagradável ).<br />

2. As expressões idiomáticas<br />

A alta incidência e freqüência de uso das expressões idiomáticas (EIs) no<br />

cotidiano explica-se pelo desejo do falante de suavizar eufemísticamente o que poderia<br />

chocar, reforçar o que se deseja enfatizar, ironizar ou sugerir sutilmente o que não se<br />

ouse pedir ou criticar diretamente.<br />

O uso ou não de uma determinada expressão justifica-se por corresponder a<br />

certas expectativas do usuário em relação ao interlocutor e também por ser apropriado<br />

ou não ao nível de linguagem em que os falantes estiverem envolvidos. Dessa forma,<br />

uma EI pode ser substituída em virtude de outra expressão que se enquadre no padrão<br />

culto da língua, segundo a evolução dos costumes e a redistribuição das classificações<br />

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sociais. Por exemplo, dar a volta por cima num registro formal da língua comum ou no<br />

padrão culto seria reagir; meter os pés pelas mãos intervir de maneira errada; sair de<br />

fininho (sair sem ser percebido) acabar em pizza, virar pizza (dar em nada); ser<br />

tagarela, falar pelos cotovelos, abrir a torneira ( falar muito); ter língua de trapo, dar<br />

com a língua nos dentes ( ser indiscreto); morder a língua, engolir a língua, fechar a<br />

torneira (parar de falar); ajustar as contas, pôr em pratos limpos, pôr as cartas na mesa<br />

( tirar satisfação de alguém) ficar um arara, cuspir fogo, perder as estribeiras<br />

(manifestar ira). Na linguagem comum morrer é deixar a vida, partir para outro<br />

mundo, dormir o último sono, fechar os olhos, descansar em paz, partir para uma<br />

melhor, deixar o mundo, já não se conta no número dos vivos e outros eufemismos,<br />

mas na linguagem popular seria bater as botas, esticar as canelas, vestir o pijama de<br />

madeira, abotoar o paletó, esticar o pernil, fechar o balaio, ir para a terra dos pés<br />

juntos, esticar o molambo, dar o ré.<br />

3. Considerações finais<br />

Existem muitas frases tabus que não são nem devem ser proferidas, objetos<br />

que não podem ser tocados, lugares que não deveriam ser visitados. Tudo isso, toda<br />

essa proibição é convencional e imposta pela tradição e costume das diversas<br />

comunidades diante de certos atos, modos de vida, modos de vestir, fatos, palavras que<br />

têm sido considerados como sagrados, religiosos, impuros e que afinal de contas até<br />

hoje não poderiam ser violados, pois com certeza seriam sancionados socialmente.<br />

Portanto, o tabu é: 1) um fenômeno universal de todos os tempos que aparece em<br />

qualquer língua; 2) um resultado da evolução semântica e da interelação axiológica das<br />

culturas; 3) uma das formas em que pode ser manifestada a escala valorização dos<br />

povos e comunidades; 4) uma via que serve para a motivação na busca das mudanças<br />

acontecidas a nível fônico e léxico dentro de uma língua respeito à formação,<br />

substituição ou modificação de vocábulos ou frases, por exemplo, a palavra gauche<br />

adotada pela língua francesa e de origem germânica, cujo significado inicial era<br />

caminho errado; left no inglês tinha antigamente o significado de fraco e indigno; 5) é<br />

criador de metáforas.<br />

O assunto é vasto e interessa não só os lingüistas, mas também antropólogos,<br />

etnólogos, psicólogos e sociólogos, portanto, é necessário impulsar as pesquisas sobre<br />

esse tema. Tabus lingüísticos e expressões cristalizadas constituem-se em<br />

representações de atitudes coletivas, de maior ou menor impacto social, envolvem-se<br />

com as noções do sagrado e se caracterizam pela marca negativa do procedimento.<br />

Independentemente de acreditarmos ou não em palavras místicas, mágicas,<br />

encantatórias ou tabus, o importante é que existam, pois sua existência revela o poder<br />

que atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que as palavras são núcleos,<br />

sínteses ou feixes de significações, símbolos e valores que determinam o modo como<br />

interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas e suas relações conosco. Na<br />

medida em que o homem viaja cada vez mais em torno de si mesmo e pelo espaço nu de<br />

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suas relações com o mundo que o circunda, a linguagem tenderá a se firmar como o<br />

grande espelho de sua consciência e de seu universo.<br />

Bibliografia consultada e referências bibliográficas<br />

ABRANTES, A M. Guerra, paz ou pacificação?Aspectos semânticos e pragmáticos do<br />

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