corrente contínua corrente contínua - Eletronorte

eln.gov.br

corrente contínua corrente contínua - Eletronorte

corrente contínua

Ano XXXII - nº 227 - Julho/Agosto - 2009 A REVIstA DA ElEtRonoRtE

Waimiri Atroari,

os filhos da esperança

Eletronorte


sumáRIo

corrente contínua

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tRAnsmIssÃo

ONS: as linhas

do desenvolvimento

Página 3

tECnologIA

Inovações que

transformam

Página 11

CIRCuIto IntERno

Corpo técnico

da Eletronorte

leva conhecimento

a outras instituições

do Setor Elétrico

Página 31

EnERgIA AtIVA

Eficiência

e crescimento

Página 36

AmAZÔnIA E nÓs

Rondônia:

diversidade, superação

e desenvolvimento

Página 44

corrente contínua

SCN - Quadra 06 - Conjunto A

Bloco B - Sala 305 - Entrada Norte 2

CEP: 70.716-901

Asa Norte - Brasília - DF.

Fones: (61) 3429 6146/ 6164

e-mail: imprensa@eletronorte.gov.br

site: www.eletronorte.gov.br

Prêmios 1998/2001/2003

mEIo AmBIEntE

Um corredor para a diversidade

Página 38

REsPonsABIlIDADE soCIAl

Waimiri Atroari:

etnia que renasce a cada dia

Página 16

CoRREIo

ContÍnuo

Página 54

FotolEgEnDA

Página 55

Diretoria Executiva: Diretor-Presidente - Jorge Palmeira - Diretor de Planejamento e Engenharia

- Adhemar Palocci - Diretor de Produção e Comercialização - Wady Charone - Diretor

Econômico-Financeiro - Antonio Barra - Diretor de Gestão Corporativa - Tito Cardoso

- Coordenação de Comunicação Empresarial: Isabel Cristina Moraes Ferreira - gerência de

Imprensa: Alexandre Accioly - Equipe de Jornalismo: Alexandre Accioly (DRT 1342-DF)

- Bruna Maria Netto (DRT 8997-DF) - Byron de Quevedo (DRT 7566-DF) - César Fechine

(DRT 9838-DF) - Érica Neiva (DRT 2347-BA) - Michele Silveira (DRT 11298- RS)

- Terezinha Félix de Brito (DRT 954 –RO) - Assessorias de Comunicação das unidades

regionais - Fotografia: Alexandre Mourão - Roberto Francisco - Rony Ramos - Assessorias

de Comunicação das unidades regionais - Revisão: Cleide Passos - Arte gráfica:

Jorge Ribeiro - Foto da capa: Rony Ramos - Arte da contracapa: Alexandre Velloso - Impressão:

Brasília Artes Gráficas - tiragem: 10 mil exemplares - Periodicidade: bimestral

tRAnsmIssÃo

ons: as linhas

do desenvolvimento

Byron de Quevedo

O sistema elétrico brasileiro movimenta

em torno de 66 mil megawatts/dia. Porém, é

a interconexão do sistema, com 93 mil quilômetros

de linhas, e a sua versatilidade que o

tornam único e especial. Esse sistema de vascularização

da energia, com a predominância

de hidrelétricas e com múltiplos proprietários,

se entrelaça por meio do Sistema Interligado

Nacional – SIN, sendo que apenas 3,4% da

eletricidade do País está fora do SIN, em sistemas

isolados na Amazônia. O coração da rede

pulsa em Brasília, mais precisamente no Centro

Nacional de Operação do Sistema – CNOS,

principal agente do Operador Nacional do Sistema

Elétrico - ONS. Mas é nas extremidades

que ele mostra a sua plenitude, iluminando

campos e cidades.

Uma complexa malha de providências está

por trás do simples ato de se ligar uma lâmpada.

Elas começam na sala de comando do

CNOS, que é semelhante a um centro de comando

de voos e aeronaves, como o Sindacta

(foto). A diferença básica é que, enquanto

os pontos luminosos dos painéis do Sindacta

indicam aviões com centenas de pessoas

dentro deles, cada ponto iluminado nas telas

do CNOS significa milhões de pessoas que

também não podem prescindir da energia. A

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semelhança entre os dois centros é tanta que

durante recente crise dos aeroportos, o local

recebeu técnicos da Infraero, que queriam

adaptar o sistema para o controle aéreo.

Hoje, o sistema elétrico em alta tensão

tem capacidade instalada para o transporte

o que significou a criação do

ons para o setor Elétrico brasileiro?

Desde meados da década de 1970 até o final dos anos

de 1990, o sistema elétrico interligado brasileiro teve sua

operação coordenada por organismos colegiados, dos quais

participavam as principais concessionárias do País. Eram os

grupos coordenadores da Operação Interligada Sul/Sudeste

e Nordeste e o Grupo Técnico Operacional da Região Norte.

Em 1998, quando a reforma institucional do Setor Elétrico

criou o Operador Nacional do Sistema Elétrico - ONS, já existiam

as bases metodológicas, os modelos computacionais

e os recursos humanos necessários para assumir a missão

de operar o sistema elétrico de forma centralizada, com o

objetivo de garantir ao mesmo tempo a segurança do atendimento

e a redução dos custos operativos. Com a criação

do ONS, a responsabilidade que era compartilhada pelos

integrantes dos organismos colegiados passou a ser atribuída

a uma única organização, que tem a missão de operar o

Sistema Interligado Nacional - SIN com transparência, equidade

e neutralidade.

Que papel o ons desempenha

no atual modelo do setor Elétrico?

O ONS é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos,

que coordena e controla a operação dos sistemas de

geração e transmissão de energia elétrica no SIN, sob fiscalização

e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica

- Aneel. O Operador é uma associação civil, que tem como

membros associados os agentes de geração, de transmissão,

de distribuição, importadores e exportadores de energia

e consumidores livres. Também participam representantes

do Ministério de Minas e Energia e dos conselhos de consumidores.

Seu papel é cuidar dos múltiplos aspectos técnicos

relacionados à operação do SIN, fazendo a gestão dos recursos

eletroenergéticos disponibilizados pelos agentes, na

busca de prover a sociedade com segurança de suprimento

e respeitando a modicidade tarifária. O ONS está estruturado

com base em três macrofunções, que abrangem as

diferentes atividades que lhe são atribuídas por lei: a administração

dos serviços de transmissão, o planejamento e a

programação da operação e a operação propriamente dita,

executada em tempo real pelos seus centros de operação.

A execução dessas atividades envolve de forma integrada

diferentes campos do conhecimento técnico especializado.

de 98,8 mil MW. O recorde de consumo é

de 65,5 mil MW, evidenciando uma reserva

energética. A energia hidráulica representa

89% do consumo brasileiro; as usinas térmicas

convencionais (carvão, gás e óleo diesel)

fornecem 11.895 MW; e as termonucleares

Diretor-Geral do ONS, Hermes Chipp

Para o ons, que influência têm o tamanho

e a complexidade do sistema elétrico brasileiro?

O sistema elétrico brasileiro é singular, tanto por suas

dimensões geográficas, quanto por seu porte. Mas a característica

que mais nos diferencia dos outros países é a

relevância da hidroeletricidade em nossa matriz energética.

A maior parte da energia produzida no País depende

de um insumo cuja disponibilidade não pode ser completamente

garantida nem prevista em um horizonte extenso.

Em nosso caso, coordenar a operação significa definir, a

cada instante, de que forma os recursos hídricos e termoelétricos

serão utilizados para garantir o atendimento dos

consumidores, com continuidade, segurança e ao menor

custo de produção. E isso deve ser feito analisando-se

um horizonte plurianual, em que possam ser avaliadas as

consequências futuras das decisões tomadas no presente.

Nesse cenário, a rede elétrica e, principalmente, as

interligações entre regiões assumem um papel muito importante,

pois viabilizam o aproveitamento da diversidade

de comportamento entre as diferentes bacias hidrográficas,

bem como o atendimento de regiões em situação de

escassez de recursos hídricos com energia exportada por

outras partes do sistema.

o sIn é um dos mais modernos do mundo.

A sua expansão conta com várias obras do

Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

Qual a importância delas para o futuro do País?

O Plano Anual da Operação Energética de 2009, divulgado

em junho passado e disponível para consulta em

nosso site (www.ons.org.br/), avalia, sob a ótica da operação,

as condições de atendimento ao SIN para o quinquênio

2009-2013, recomendando, se necessário, ações

adicionais para a adequação da oferta ao mercado previsto

de energia elétrica. As avaliações realizadas indicam

uma situação confortável de atendimento ao mercado nos

próximos cinco anos. O critério de garantia de suprimento

preconizado pelo Conselho Nacional de Política Energética,

riscos de déficit de energia abaixo de 5%, é atendido

com folga em todas as regiões, durante todo o quinquênio.

Essa situação favorável de atendimento se deve,

principalmente, à oferta agregada pelos leilões de energia

nova e de linhas de transmissão realizados desde 2005.

No total, nos próximos cinco anos deverão ser acrescidos

Angra I e II e pequenas centrais geradoras

suprem 2.007 MW.

O CNOS possui centros regionais que

conversam com 200 agentes de geração,

transmissão e distribuição 24 horas por dia:

o COSRS, no Sul; o COSRSE, no Sudeste;

ao SIN cerca de 28 mil MW. A oferta de energia elétrica

proveniente das usinas que fazem parte do PAC é extremamente

importante para a manutenção dessa situação

confortável. Ela é composta por 124 usinas e soma

21.900 MW, aproximadamente 78% de toda a expansão

considerada para o SIN no período 2009-2013.

Em relação aos sistemas isolados, qual

a expectativa de interligação deles ao sIn?

A expansão das fronteiras do SIN começa a tornar-se

uma realidade com a integração do Acre e de Rondônia,

cujos testes de sincronização foram realizados com sucesso

no final de julho, de acordo com as condições indicadas

pelos estudos pré-operacionais do ONS. Na prática,

a integração plena da Região Norte contempla diferentes

marcos. Os outros dois são igualmente ambiciosos: a interligaçãoTucuruí-Manaus-Macapá

e o sistema de escoamento

da geração das usinas do Rio

Madeira. Em todos esses casos,

o ONS promove estudos com vistas

a realizar a integração ao SIN.

No caso de Tucuruí-Manaus-Macapá,

os contratos de concessão

com os vencedores dos três lotes

foram assinados em outubro do

ano passado, e a expectativa é

de que a linha - com cerca de

1.800 km de extensão - comece

a operar em 2011. Por fim,

o Complexo do Madeira, considerado

um dos maiores desafios

para o Setor Elétrico, em razão

da magnitude das duas usinas e

da extensão das linhas de transmissão,

tem previsão de início de operação em 2012. O

Operador teve o cuidado de colocar como requisitos do

edital de licitação do Madeira algumas medidas de gestão

do conhecimento na área de transmissão em corrente

contínua, em vista da necessidade de ampliação da formação

especializada nessa área.

A Rede de gerenciamento de Energia - Reger é um

dos projetos relevantes para o setor Elétrico brasileiro.

o que esse projeto mudará nos sistemas de controle?

Certamente, a Reger está hoje entre os trabalhos mais

estratégicos realizados pelo Operador. A implantação desse

novo sistema de supervisão e controle representará um

grande marco para a coordenação do SIN. Isto faz parte

Arquivo ONS

e COSRN, no Nordeste; e o COSRNCO, no

Norte-Centro-Oeste. E o SIN opera em vários

níveis de tensão com milhares de pontos de

torres, o que demonstra a importante função

do ONS, monitorando e supervisionando a extensa

rede. Segundo o engenheiro operador

do contínuo aperfeiçoamento dos processos, inerente à atividade

de uma instituição que precisa lidar com tecnologia

de ponta, no estado da arte. O primeiro passo do projeto

Reger aconteceu com a recente assinatura dos contratos

com o consórcio Siemens-Cepel e com a OSIsoft, para desenvolvimento

do primeiro ciclo. A propósito, o Reger colhe

os frutos do trabalho conjunto desenvolvido no âmbito do

VLPGO (Very Large Power Grid Operators),onde foi estabelecida

uma especificação de referência para sistemas de

gerenciamento de energia. A partir da implantação de uma

plataforma unificada de supervisão e controle, em substituição

aos atuais recursos operacionais providos por diferentes

fornecedores, o ONS terá melhores condições para garantir

a continuidade dos processos de supervisão. Cada um dos

seus centros de operação poderá ter as atribuições assumidas

por outro, sem prejuízo para o sistema.

O projeto tem um horizonte de longo prazo,

dividido em ciclos. A primeira dessas fases

será concluída em 30 meses, o que significa

que a Reger estará em funcionamento

já no segundo semestre de 2011.

o ons tem um corpo de profissionais

qualificados. Como o operador

desenvolve seus recursos humanos?

O cumprimento da missão institucional

do ONS depende de uma bem-sucedida

interação entre o desenvolvimento de

sistemas e recursos tecnológicos e a capacitação

de seus recursos humanos. Ao

longo dos anos, temos investido em programas

de desenvolvimento tecnológico e

de gestão, utilizando o suporte de empresas

de consultoria, centros de pesquisa e

universidades. Além disso, temos tratado

com muito cuidado a questão da gestão do conhecimento

na organização. Em 2005, foi elaborado um Plano Diretor

de Gestão do Conhecimento e, em 2007, iniciou-se a implantação

de um processo estruturado para essa gestão.

Hoje, já identificamos os conhecimentos de foco prioritário

do ONS, isto é, aqueles que são estratégicos ou de

responsabilidade específica do Operador, ou ainda que

apresentem algum aspecto de criticidade, como concentração

em poucos profissionais ou risco de perda desses

conhecimentos. As iniciativas para sua retenção, criação

ou disseminação são importantes para o fortalecimento e

a perenidade do Operador. Afinal, o conhecimento é nosso

maior patrimônio.

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em tempo real do CNOS, João Lúcio Machado

Fernandes, a coordenação começa na sede

do Operador, no Rio de Janeiro, passa pela

operação de tempo real e se conclui no dia

seguinte com o relatório de análises.

Tempo real – Operações em tempo real são

aquelas preventivas para se manter a reserva

operativa, controlar tensão e frequências, os

limites das linhas de transmissão e demais

normas e procedimentos. João Lúcio descreve

a rotina: “Recebemos do Rio de Janeiro as

instruções de operação, que são centenas.

Vamos então para o tempo real. Às 6h30,

recebo o programa de operações, vejo as intervenções

e vou acompanhando, pois pode

haver mudanças. Lidamos com mil unidades

geradoras e 700 circuitos, sujeitos a intempéries

e falhas operacionais e humanas. Temos

a previsão de cargas, mas se há uma frente

fria, a carga diminui; se ocorrer um ‘veranico’,

a carga aumentará. Aí tomamos ações corretivas

e reprogramamos a carga de energia de

uma região para a outra, religamos equipamentos,

flexibilizamos limites operativos, tudo

sem exceder a capacidade de transporte das

linhas de transmissão”.

Os turnos vão se revezando,

trocam-se os operadores e, enquanto

isso, o País realiza suas

atividades normalmente e poucos

sabem daqueles que varam

dias e noites atentos. Rostos iluminados

pelas telas, olhos fixos,

um turbilhão de pensamentos e

um único desejo: que o novo dia

traga a melhor surpresa, ou seja,

nenhuma surpresa. João Lúcio

(ao lado) lembra um caso: “Em

12 de março de 1998, por volta

das 22 horas, horário de cargas

altas, tínhamos as usinas do Rio Paraná cheias

d’água e precisando gerar. Então veio o tal raio

de Bauru, desligando as dez linhas da subestação

que supre São Paulo. Aí, pela sobrecarga e

queda da frequência e tensão, outras subestações

foram sendo desligadas em série. Esse foi

o resultado de dez anos sem investimentos na

expansão da transmissão. O atual modelo do

Setor Elétrico criou o ONS, a ANA, fortaleceu a

Aneel, trouxe novas metodologias, melhorou a

avaliação e a segurança eletromagnética. Dificilmente

a mesma situação se repetirá”.

Brasil x Argentina - No campo da energia

não existe a rivalidade Brasil versus Argentina,

nem contra os tradicionais adversários do futebol,

Uruguai e Paraguai; pelo contrário, todos

se ajudam principalmente em situações de crise.

O CNOS ‘conversa’ com esses países por

meio de acordos internacionais. No caso do

Paraguai, via Itaipu, onde consumimos toda a

energia do lado brasileiro e compramos 90%

da produzida do lado paraguaio. João Lúcio

observa que com a Argentina temos pontos

de conversão em Garabi I e II e Uruguaiana,

porque a nossa frequência é de 60 hertz, e

a dela, 50 hertz. “Melhoramos o intercâmbio.

Agora enviamos a energia para a Argentina no

período do inverno de lá. Depois ela nos devolve,

a partir de outubro, quando as nossas

hidrelétricas estão com cotas baixas”.

O superintendente de

Comercialização de Energia

da Eletronorte, José

Serafim Sobrinho (ao lado),

não vê problema em

interligar o SIN com sistemas

de outros países da

América do Sul. “Basta

um bom acordo de despachos

de cargas. Em

breve, teremos uma série

de usinas na Bolívia, no

Peru, e de lá puxaremos

as linhas, ajudando, inclusive,

os outros países a crescerem. Com a

diversidade climática, as bacias hidrográficas

podem contribuir umas com as outras. No

vale do Rio Orinoco, na Venezuela, o pico de

vazão é em julho, junto, por exemplo, com a

Usina Hidrelétrica Balbina, no Amazonas. Já

na região central do Brasil, o pico das chuvas

acontece entre fevereiro e março. A gestão das

bacias propicia melhor

uso de recursos e investimentos,

pois a eletricidade

pode transitar nos

dois sentidos e garantir

um abastecimento perene

em todo continente ”,

afirma.

Copa do Mundo – O

maior evento esportivo

do planeta também é um

bom termômetro para

testar o sistema elétrico

brasileiro. O coordenador de Certificação do

CNOS, Plínio de Oliveira (acima), conta que

durante os jogos da Seleção Brasileira de futebol

o consumo sobe 11.500 mil MW em

minutos, o equivalente ao que é consumido

pela Região Sul em um único dia.

Quem imaginaria que assistir televisão economiza

eletricidade e que o aumento no gasto

de energia revela perda de popularidade?

Segundo Plínio, no final da novela das 8h da

noite há picos de até 4.500 MW. “Depois dela

todos vão tomar banho, aparelhos e luzes são

ligados e o consumo sobe. Durante o horário

político, as pessoas vão procurar outra coisa

para fazer e o consumo vai às alturas: quatro

mil MW sobem em segundos”.

E por falar em Copa do Mundo, lembram-se

do Zagalo gritando para a Seleção Brasileira:

“Joga pelas pontas!”. Com a eletricidade é a

mesma coisa, mas é o País inteiro que grita:

“Mais energia nas pontas!”. Ouviram o eco da

torcida e as vitórias foram chegando aos consumidores

residenciais, comerciais, industriais

e de serviço público. Mas, como o Garrincha,

jogam muito bem pelas pontas os técnicos dos

centros regionais de operação da Eletronorte

na região amazônica.

De acordo com o superintendente de Engenharia

de Operação e Manutenção da Transmissão,

Sidney Custódio Santana Junior (abaixo),

“com o ONS houve evolução nas formas

de supervisão. Antes tínhamos uma subestação

1, que atendia a uma carga 1; e outra subestação

2 e uma geradora. Havia uma linha

de transmissão unindo essa usina a uma subestação

e mais uma linha. Isto é o que chamamos

de critério ‘N’ de segurança. Significa

que se perdêssemos essa linha o sistema seria

interrompido. Agora temos o critério ‘N-1’, por

meio do qual é possível manter o atendimento

mesmo que se perca uma linha, uma vez que

outra linha fará o abastecimento”.

Segurança sem cochilos - Os operadores

e técnicos da Subestação Presidente Dutra,

no Maranhão, bateram o recorde mundial

em segurança no trabalho em 2009: são 21

anos sem acidentes do trabalho com afastamento

do serviço. Um desempenho assim traz

mais responsabilidades. Odorico Paulo Vieira

Garcez, operador de tempo real do Centro de

Operação Regional do Maranhão, conta que

se sente realizado com sua profissão, tanto é

que abandonou o jornalismo para ficar com ela,

muito embora viva sob tensão. “É verdade: lidar

com tensões é meu trabalho. Mas alivio-as fazendo

trabalhos comunitários voluntários junto

a jovens e idosos. A importância do operador

em tempo real numa regional está na resposta

diante de situações possíveis de causar blecautes.

Um controle mal executado no meu

sistema pode comprometer o fornecimento de

energia elétrica em grande parte do País. Não

posso cochilar. Se na saída de uma carga, por

exemplo, eu cometo uma falha entre a média e

a alta tensão, essa carga provoca rejeições na

geradora, em nosso caso, na Usina Hidrelétrica

Tucuruí. Tenho pouco tempo para restabelecer

o fornecimento, principalmente para os grandes

consumidores industriais que precisam manter

os autofornos perenes. Manter as tensões dentro

das faixas, com o mínimo de oscilações, é o

que determina a qualidade da energia. E ainda

há multas severas se a indisponibilidade do sistema

ultrapassar o tempo previsto nos procedimentos

estabelecidos pela Aneel. Um minuto é

o tempo que tenho para dar uma resposta ao

Odorico

e Hamilton:

decisões

rápidas

em tempo

mínimo

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Secretário Nacional de Energia,

Josias Matos de Araújo

Qual a influência do governo junto ao ONS?

O ONS tem participação junto ao governo no Comitê de

Monitoramento do Setor Elétrico, órgão coordenado pelo

Ministro de Minas e Energia, que conta ainda com a Empresa

de Pesquisa Energética – EPE, ANA, Aneel, ANP e

demais órgãos envolvidos. É nesse Comitê que são tomadas

as deliberações com relação ao Sistema Interligado Nacional

- SIN. O ONS faz os estudos restabelecendo níveis

de armazenamento de reservatório que vêm para o Comitê

deliberar. O Operador tem total independência para operar,

coordenar e verificar as mudanças de regra no setor, pois

é também um órgão fiscalizador do sistema elétrico sob o

ponto de vista de operação. A Aneel, em última instância, é

a fiscalizadora do sistema.

A parcela variável, calculada

pelo ONS, é outra forma

de multar as empresas?

De fato a parcela variável acaba incidindo sobre o faturamento

das empresas. Os cálculos são feitos pelo ONS, baseados

na saída de atividade do equipamento e de acordo

com o período que ele ficará indisponível. Se um equipamento

ficar fora de ação por 20 horas, por exemplo, então

ao ser feito o pagamento da receita anual permitida, o valor

da penalização será automaticamente deduzido da receita

da empresa.

O sistema de transmissão

brasileiro é suficiente para atender

ao crescimento da demanda?

Sim. Mas é necessário que o Brasil continue investindo

no setor. Têm acontecido os leilões, os denominados A-3,

das usinas térmicas; e os A-5, para geração hidráulica. Significa

que a partir do momento em que a empresa vence

ONS, avisando-o da disponibilidade do equipamento

para a religação”.

Já para o operador em tempo real, Hamilton

Caldas da Silva, o seu trabalho é especial porque

está à frente da atividade-fim da Empresa.

“Só no Maranhão coordenamos nove subestações,

além de instruir os operadores locais. Já

vivemos situações de emergência resolvidas

sob a coordenação do ONS para recompor o

sistema. Há três anos perdemos duas linhas

simultaneamente. Ver uma cidade apagada

para nós é algo muito sério. E mesmo que

a culpa não seja diretamente nossa, se não

soubermos administrar esse sentimento, ele

o leilão, ela tem cinco anos para entregar as obras. Para

usinas térmicas, a entrega é prevista para três anos e temos

os leilões para se criar reservas energéticas. O Brasil

cresce a uma taxa de 4,5% a 5% ao ano; ou seja, é

necessário colocar todos os anos no sistema mais quatro

mil MW. Por isto o Programa de Aceleração do crescimento

- PAC já prevê obras vitais como Belo Monte, a

ser leiloada ainda este ano; os projetos do Rio Tapajós,

usinas térmicas e usinas alternativas, como é o caso das

eólicas, com leilão previsto para novembro próximo.

O SIN poderá vir a ser um sistema

internacional na América do Sul?

Queremos estreitar o relacionamento com os países

vizinhos. Estamos negociando com o Peru uma linha de

transmissão entre os dois países e a construção de várias

hidrelétricas no lado peruano, cujo potencial é de 20 mil

MW. Destes, seis mil já podem ser explorados por usinas

de médio porte. Há um estudo sendo feito pela Aneel

para regulamentar o atendimento energético às nossas

áreas de fronteiras. Essas interligações não nos prejudicariam,

pois nossas linhas já possuem boa margem de

segurança, fazendo com que as linhas de um sistema

interligado internacional adquiram o mesmo perfil.

A solução para os sistemas

isolados está a caminho?

O objetivo do governo é interligar os sistemas do Acre,

Rondônia, Amapá, Roraima e Manaus, hoje abastecidos

por usinas térmicas na sua quase totalidade. Temos as

hidrelétricas Balbina (AM), Samuel (RO) e Coaracy Nunes

(AP), mas o restante é atendido com energia vinda

de usinas térmicas caras, movidas a derivados de petróleo,

o que leva as concessionárias, principalmente a Ele-

perdurará. Temos que nos conscientizar que

somos profissionais capacitados e momentos

como esse surgirão, não é um processo fácil.

Mas é bom saber da nossa importância”.

O gerente do Centro Regional, Décio Bueno,

lista os principais clientes atendidos no

Maranhão: a distribuidora estadual Cemar e

os eletrointensivos Alumar e Vale. “Hoje o consumo

da Alumar é uma vez e meia o consumo

diário de todo o Maranhão, de 800 MW, em

decorrência do processo de eletrólise durante

a fabricação de alumínio, onde 85% do custo

é energia elétrica. Mas o consumo do estado

também tem crescido. Hoje nós temos duas

tronorte, a terem sérios problemas financeiros. Com

o objetivo de eliminar o problema, a primeira decisão

foi interligar o Acre a Rondônia, e Rondônia a Mato

Grosso, o que será feito ainda este ano. Em 2011 teremos

a interligação de Tucuruí com Manaus e Amapá.

Já existem projetos de interligação de Roraima com o

Amazonas. Quando essas providências se tornarem

realidade, reduziremos muito o prejuízo, o que é chamado

pela Aneel de custo evitado; ou seja, a cada

linha construída, se evita custo de mais geração térmica.

É bom lembrar que o valor aprovado, este ano,

para a conta CCC, pela Aneel, é de R$ 2,5 bilhões.

Ano passado esse valor foi superior a R$ 3,8 bilhões.

Ou seja, já fizemos uma economia em torno de R$ 1

bilhão. Mas a CCC, pela lei atual, só encerrará seus

benefícios no ano de 2023. Na região amazônica, certos

locais serão atendidos por sistemas isolados específicos

de unidades de células fotovoltaicas, energia

eólica, bioenergia, biomassa, já contempladas pelo

programa Luz para Todos.

linhas de transmissão para São Luís, que estão

sendo recapacitadas e expandidas. Os nossos

operadores são muito exigidos, mas a modernização

dos equipamentos e sistemas ajuda

na tomada de decisões”.

Luzes da cidade – Num apagão há dois

momentos periclitantes: quando o problema é

técnico, vem o sentimento de desgaste devido

à responsabilidade pela manutenção. Quando

a falha é humana, o sentimento é pior. “A solução

é dialogar com os companheiros e manter

a tranquilidade, lembrando que as próximas

ações devem ser mais cuidadosas, mas não

podemos perder de vista a importância de

tudo que fizemos e que ainda faremos. Nesses

momentos valorizamos ainda mais os treinamentos.

E não podemos desvalorizar o profissional,

derrubando a sua autoestima, pois não

dá para formar técnicos desse nível da noite

para o dia. E a despeito do erro, temos que

contar com o profissional de mente saudável

e pronto para agir. Por exemplo, minha válvula

de escape para aliviar as tensões é fazer trilha

e mergulhar”, conta Décio.

O gerente da Regional de Transmissão do

Maranhão, Mauro Luiz Aquino dos Santos,

no intuito de reduzir os problemas de comunicação

entre os operadores de tempo real,

instalou há alguns anos placas e câmeras de

vídeo para gravar as instruções aos técnicos

durante as trocas de turnos. “Desde então, as

imagens gravadas não só servem como instrução

de rotina, mas também se transformaram

em importantes documentos de consulta e de

aprendizado”.

Como as luzes da cidade não podem se

apagar, a energia dos nossos técnicos não

pode esmorecer. Ninguém quer ficar no escuro.

Afinal, a escuridão pode nublar a visão dos

homens e roubar o brilho das cidades.

Décio, à esquerda, e Mauro, à direita: valorizando treinamentos

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Hamilton e família

Mulheres

em tempo real

Quando elas caíram na real, já estavam casadas

com operadores de tempo real. Aí foi um Deus nos

acuda. Eram homens diferentes: sumiam no meio da

noite para áreas de alta periculosidade. “Nós trabalhamos

em subestações!” explicavam eles. Só que

como elas nunca podiam entrar lá, por algum tempo

pensaram que as subestações eram algum tipo de

submundo. “Tá vindo aí um blecaute, tô indo para

uma operação especial!”, gritavam eles lá de fora da

casa, já entrando no carro. “Ahn han, eu ainda vou

descobrir quem é esse ‘black’ e essa tal de ‘out’. É só

faltar a luz que esses dois telefonam pra cá!”, murmuravam

as jovens esposas daqueles operários tão apaixonados

pelo trabalho de manter acesa as luzes da

cidade. Agora são recordações e as famílias felizes,

com os filhos já criados e encaminhados, juntam-se

para rir, mas no início foi difícil, muito difícil. É o que

dizem elas.

Discussões, risos, lágrimas e abraços: foi assim. Alguns

já calvos, outros com os cabelos brancos. Mas o

que nunca mudou entre eles foi a amizade. Arcelino da

Silva Nascimento, José Martins Soares, José Antônio,

Joaquim Carlos Brito, Hamilton Caldas da Silva e Odorico

Paulo Vieira Garcez são operadores em tempo real

do Centro de Operações do Maranhão. Sim senhor, e

suas mulheres, ‘operadoras da realidade do tempo’.

Dona Valma Fontes Ribeiro Garcez é casada com

Odorico há 21 anos. O casal tem dois filhos, Marcos

Paulo e André Luiz. Ela conta que foi difícil adaptarse

ao sistema de trabalho de turno do marido, pois

impedia que eles participassem de festas, casamentos

e encontros de casais. São religiosos e ficava difícil

para ela ser conselheira com um marido que faltava

Odorico e família

muito aos encontros. “Procuro entender a profissão

dele, mas os treinamentos são em locais tão distantes.

O André Luiz só conheceu o pai quando tinha

quatro meses. O Odorico estava fazendo um curso

em Tucuruí. Mas olhando para trás, vendo tudo que

construímos, mesmo com tudo que passamos, eu

agradeço a Deus!”.

Já dona Isabel Cristina, casada há 20 anos, a esposa

do Hamilton, é mãe do Daniel e da Débora Cristina.

Ela comenta como a rotina de sua família é diferente

das demais: “Todo mundo vai ao cinema no final

de semana, a gente não, só na quarta-feira. Este ano

nem fizemos festa de Ano Novo, ele sempre trabalha

nessa data!”. A família conseguiu adaptar-se à rotina

de trabalho do pai, o mesmo não se pode dizer dos

seus cães. Hamilton e Daniel chegaram à conclusão

que é melhor não tê-los para não perdê-los. E Débora

Cristina relata uma triste história: “Já tivemos quatro

cães e foi um fracasso. As duas cadelas morreram

logo, um fugiu e jamais foi encontrado e o outro enlouqueceu.

Este último, um fila brasileiro enorme, de

uma hora para outra começou a destruir tudo dentro

de casa, possesso. Tivemos que sacrificá-lo!”.

Hamilton adorava seus cães e seus cães o adoravam;

mas agora vai explicar para um cachorro o sistema

de turnos da Eletronorte! Já a Débora, que na sua

meninice assistiu tantos cães partirem, sem dúvida

hoje busca na ciência a resposta de tal incompatibilidade

do seu lar com o lar dos seres caninos. Está estudando,

ao mesmo tempo, veterinária e biologia. “Eu

amo cães!” diz ela com uma ponta de saudade. Mas

dona Isabel retruca. “Que nada, ela quer os coitados

é para dissecar. Aqui cachorro não entra!”.

tECnologIA

César Fechine

“E como é que vocês conseguiram imprimir

essa dinâmica, que parece típica de empresa

privada? Porque isso não é comum.” A pergunta

é feita pelo editor da revista Época Negócios,

Marcos Todeschini, em entrevista realizada

em Brasília, da qual participaram Neusa

Maria Lobato Rodrigues, superintendente de

Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico e

Eficiência Energética da Eletronorte, e os empregados

João Nilson de Oliveira, de Tucuruí,

e Raimundo Nonato de Oliveira Guimarães,

de Macapá.

As respostas enchem de lágrimas os olhos

do entrevistador e entrevistados. “O amor que

eu tenho pela Eletronorte é uma coisa maravilhosa.

Nós, ‘eletrossauros’, somos apaixonados

pela Empresa e esse amor consegue romper

todos os problemas e percalços que temos.

Divulgação

Inovações que transformam

Eletronorte é a única estatal entre as

25 empresas mais inovadoras do Brasil

Cada pessoa aqui dentro sabe da importância

do seu papel”, responde Neusa.

“Com o tempo, a gente vai criando amor

pela equipe de trabalho e tem as pessoas

como se fossem parentes, familiares nossos.

Nós desenvolvemos as atividades juntos e, às

vezes, se um colega precisar, ele está à vontade

para ligar, porque me considera como irmão.

Em nossa Divisão nós temos um slogan: o

fácil foi feito, o difícil nós estamos fazendo e o

impossível demora um pouco. E tudo isso vai

alavancar o processo como um todo”, ensina

Guimarães.

João Nilson acrescenta: “Nós fazemos por

amor à Empresa. Queremos ver uma Eletronorte

que não para, que continue funcionando

e gerando energia. Como eu tinha isso de

Wady Charone (à direita) recebe prêmio de Kátia Militello e Nelson Blecher

corrente contínua

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12

inventar coisas para mim, não foi difícil pensar

em como melhorar os processos empresariais.

O principal é o reconhecimento. A Empresa

pede o registro da patente, divulga a inovação

e divide o lucro com o empregado.”

A entrevista foi feita para o Anuário de

Inovação de Época Negócios, que teve edição

lançada em julho de 2009 com a primeira edição

do prêmio ‘As empresas mais inovadoras

do Brasil/2009’. A Eletronorte ficou entre as

25 primeiras e foi reconhecida com o prêmio,

uma parceria da revista e o Fórum de Inovação

da Fundação Getúlio Vargas - FGV, juntamente

com o instituto Great Place to Work - GPTW,

e apoio técnico da Fundação Nacional de

Qualidade - FNQ, na categoria Processo de

Inovação.

“Fizemos esse levantamento em parceria

com a FGV para o anuário sobre inovação, que

aborda os fenômenos que estão acontecendo

nas empresas, processos e novos negócios. É

a primeira vez que fazemos esse especial. Os

pesquisadores visitaram as empresas, distribuíram

os questionários e recebemos o resultado

com os destaques”, explica o jornalista Marcos

Todeschini (acima, ao lado de João Nilson), 28

anos, com passagens por veículos como Veja,

Exame, 4Rodas e Superinteressante, trabalhando

em Época Negócios desde o início deste

ano como editor. “A primeira coisa que chama

a atenção é a Eletronorte ser a única empresa

estatal na pesquisa”, diz o jornalista. Por isso a

pergunta citada no início desta matéria.

Após a premiação, o diretor de Produção e

Comercialização, Wady Charone, afirmou que

um dos fatores mais importantes para uma

organização é manter a equipe motivada. “Um

dos fatores que levam a isso é o reconhecimento,

ver o brilho nos olhos dos empregados. Esse

prêmio valoriza a Eletronorte, a única empresa

do governo a ser agraciada, o que aumenta o

nosso desafio para construir, inovar, crescer,

agregar valor e mostrar que podemos fomentar

a inovação.”

O diretor-presidente, Jorge Palmeira, lembra

que o processo de inovação na Eletronorte começou

há anos, ou seja, com o programa TPM

e vem se aprimorando. Hoje, com a carteira

de projetos de pesquisa e desenvolvimento,

temos não só no nível interno, mas também

no externo, várias tecnologias e procedimentos

que promovem a inovação, principalmente nos

processos produtivos da organização e nos

diversos pedidos de patentes.”

Investimentos - Desde 2002, a Eletronorte

celebrou contratos de projetos de P&D com

uma rede de universidades e centros de pesquisa

sediados em 20 estados, com o envolvimento

de mais de 700 pesquisadores. Além

dessa rede de instituições, a Empresa também

executa pesquisas em seu Centro de Tecnologia,

em Belém (PA), e no Centro de Pesquisa

do Sistema Eletrobrás - Cepel (RJ).

Atualmente, a Empresa faz a gestão direta

de 205 projetos de P&D e participa de outros

Diferenciais importantes

A primeira lista anual de Época Negócios com as empresas

mais inovadoras do Brasil foi formada a partir de uma pesquisa

feita por professores do Fórum de Inovação da Fundação

Getúlio Vargas/ Escola de Administração de São Paulo – FGV-

Eaesp. O Fórum conduz há sete anos estudos a respeito dos

fatores que contribuem para que uma empresa ou instituição

seja permeada por um processo contínuo de inovações, tanto

tecnológicas quanto organizacionais. “O que se busca com a

investigação é uma visão integrada da companhia”, sintetiza

Marcos Vasconcellos, coordenador do Fórum.

Mais de cem empresas

se inscreveram para

o prêmio e o levantamento

foi resultado de

14 meses de trabalho.

As candidatas preencheram

extenso questionário

que, no conjunto,

radiografa todos os processos

internos, capazes

de levá-las – ou não – à

condição de ‘organização

inovadora’. Para se

assegurar da precisão

das informações enviadas,

examinadores da

Fundação Nacional da Qualidade – FNQ, juntamente com o

instituto Great Place To Work – GPTW, deram apoio técnico

ao levantamento e visitaram as 35 finalistas.

Cinco dimensões foram analisadas pelos especialistas,

cada uma com peso diferente no cômputo final: o papel

da liderança na definição das estratégias e no incentivo

à criatividade; o meio inovador interno, que estimula a

iniciativa e o envolvimento das pessoas; as pessoas que

87. Os projetos de inovação já geraram 111

produtos, sendo 22 protótipos, 34 softwares

e 55 métodos. Esses projetos também resultaram

em 31 soluções tecnológicas para a

Empresa, sendo 20 na área de geração e 11

na de transmissão.

Os investimentos em inovação não param

de crescer. “O investimento médio da Empresa

é de R$ 10 milhões por ano.

E há R$ 50 milhões provisionados

para os próximos três

anos”, informa Álvaro Raineri

(ao lado), gerente dos programas

de P&D da Eletronorte.

Mais de R$ 410 mil foram

distribuídos aos empregados

conduzem o processo de inovação; o processo de inovação,

que se inicia com a alocação de recursos e compreende as

etapas de geração de ideias, desenvolvimento e implementação

das inovações; e os resultados, evidenciados pelos ganhos

financeiros gerados pelas dimensões anteriores.

“A pesquisa procurou identificar os fatores que conferem

a determinadas companhias diferenciais importantes em

um mercado cada vez mais padronizado”, declarou ao final

do evento de premiação o diretor-geral da Editora Globo,

Frederic Zoghaib (acima). O Anuário de Inovação Época

Negócios contém o perfil das 25 empresas vencedoras e de

como foi feito o estudo que buscou entender os processos

de produção para que as companhias fossem consideradas

continuamente inovadoras. A maneira holística com que

analisa as empresas possibilita ao Fórum de Inovação da

FGV-Eaesp conciliar as modernas visões das práticas de

inovação e da ‘arte de fazer a diferença’.

que desenvolveram projetos inovadores

por meio do Prêmio Muiraquitã.

“Tudo isso levou ao aumento do número

de pedidos de patentes da Empresa,

que chegam hoje a 51 solicitações.

Os autores dos projetos ganham

20% sobre o que for comercializado”,

relata Neusa Lobato (ao lado).

Retífica - Na entrevista com os

nossos dois ‘professores pardais’

depreende-se que o dom para a invenção

manifesta-se ainda na infância. O auxiliar

técnico de manutenção João Nilson, desde

pequeno inventa coisas e diz que nas empresas

em que trabalhou sempre procurou um

Divulgação

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jeito para melhorar o trabalho. Na Eletronorte

desde 1984, João Nilson (à direita) tem várias

inovações registradas, como o dispositivo para

a usinagem de eixos mecânicos em tornos de

pequeno porte.

“Os equipamentos disponíveis na Usina

Hidrelétrica Tucuruí não suportavam o diâmetro

do anel coletor das máquinas da primeira

etapa, que era maior do que o torno que nós

temos para manutenção. E sem o anel a máquina

não gera energia. Nós estamos falando

de uma unidade geradora de 350 MW de

potência, com três anéis, cada, totalizando

36”, detalha.

Para fazer a retífica do anel coletor, a unidade

geradora chegava a ficar parada por 30

dias e uma verdadeira operação de guerra era

montada para transportar a peça com mais de

dois metros de diâmetro até São Paulo, por

meio de balsas e caminhão, muitas vezes em

estradas intransitáveis. O custo total evitado

pela Empresa após a utilização do dispositivo

para usinagem é estimado em mais de R$

28 milhões. “Eu pensava: já fiz tanta coisa e

para eu fazer isso não vai custar. Falei para

as pessoas que ia fazer, algumas duvidaram,

O futuro da inovação

O engenheiro Luis Cláudio Silva Frade (foto), chefe

do Departamento de Gestão Tecnológica da Eletrobrás,

está participando de um projeto iniciado em 2008 (estilo

wikipédia), coordenado pelas professoras Anna Trifilova e

Bettina von Stamm, ligadas

ao Innovation Leadership

Forum (ILF), que resultará

na publicação de um livro

sobre ‘O Futuro da Inovação’.

O projeto contou

com a contribuição de 350

profissionais de 60 países,

sendo que cerca de 200

foram escolhidos para a

publicação do livro que será

lançado em novembro.

No mês passado, o site

do livro foi lançado na 20th

Conference of The International

Society for Professional Innovation Management

(ISPIM), em Viena, na Áustria, e contém um artigo escrito

por Frade, que retrata o pensamento sobre o futuro da

inovação no Brasil. O site traz artigos sobre inovação de

diversas vertentes, países e pessoas e pode ser consultado

no endereço http://thefutureofinnovation.org/.

e eu disse, dá. Quando retifiquei o primeiro

anel o pessoal disse, agora você concluiu a

sua ideia. Eu tinha certeza que ia fazer e fiz”,

diz o coautor de outras inovações.

Após o dispositivo ser criado, o tempo máximo

de manutenção dos anéis passou para três

dias, tudo feito na própria Usina. “E o melhor

é que, depois que nós começamos a fazer a

retífica, a máquina parou de dar problema

no anel coletor, aparece uma vez ou outra”,

acrescenta Nilson.

Escavadeira - O paraense Raimundo Nonato

de Oliveira Guimarães (abaixo, ao centro)

só foi registrado aos dois anos de idade. “Eu

sou paraense, mas fui para o Amapá com dois

anos e a minha mãe deixou para me registrar

lá porque o meu avô era tabelião. Eu nasci

em Belém, mas sou amapaense”, diz, num

paradoxo compreensível para quem conhece

o imenso ‘nortão’ do País.

Ensaios garantem

confiabilidade

de equipamentos

O Centro de Tecnologia da Eletronorte, em Belém (PA),

montou um laboratório a céu aberto para ensaios com alta

tensão em buchas de transformadores e reatores de até

500 kV. O laboratório foi montado para propor soluções de

modo a aumentar a confiabilidade das buchas de reatores

e transformadores de potência de alta tensão, armazenados

em almoxarifados da Empresa. E após a ocorrência

de três sinistros no biênio 2008/2009 em reatores da

Empresa, causados por avarias originadas nessas buchas.

“Como resultado, foi emitido um relatório sugerindo maior

eficiência e eficácia no armazenamento, padronização da

especificação técnica e a realização de ensaios periódicos

para avaliar o estado das buchas de reserva”, esclarece

Francisco Roberto Reis França, superintendente do Centro

de Tecnologia.

Segundo Lídio Nascimento, gerente da Divisão de Tecnologia

de Ensaios, a realização desses estudos pela equipe

interna da Eletronorte evitará um gasto aproximado de R$

1,4 milhão. “A Eletronorte, ao atuar dessa forma, reduz

significativamente a possibilidade de ocorrência de novos

sinistros e, portanto, de multas impostas pelo Operador

Nacional do Sistema - ONS, de valor bastante elevado,

conhecidas como parcela variável.”

A opção por realizar os testes em laboratórios externos

foi descartada em função do custo elevado, além da

complexidade na logística de transporte das buchas, já

que os principais laboratórios se situam nas regiões Sul e

Sudeste do País. Frente a esse novo desafio, a equipe do

processo de ensaios elétricos com alta tensão montou o

Técnico industrial de engenharia, Guimarães

está há 32 anos na Eletronorte e trabalha

na Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes, a

primeira hidrelétrica da Amazônia, localizada

no município de Ferreira Gomes (AP). Ele é

outro dos inventores premiados da Empresa.

E pensar que tudo pode ter começado com

uma brincadeira de menino. “Quando eu era

criança, via aquelas pás carregadeiras. Aí eu

peguei uma lata de leite, enchi de terra, furei

do lado, inseri um arame, peguei uma lata de

óleo, daquelas retangulares, cortei de fora a

fora, amarrei um fio e um arame e ela puxava

e ‘basculhava’”, conta.

Hoje, Guimarães é autor de projetos como

o reservatório para uso em máquinas pesadas,

com sistema de retrolavagem, que permite a

laboratório para realizar os ensaios. Os técnicos já realizam

diversas atividades, tais como ensaios de tensão suportável

à frequência industrial, medição de capacitância e fator de

dissipação, medição de descargas parciais e medição de

radiointerferência, limitados ao nível de tensão de 800 mil

Volts em corrente alternada.

Após a entrega do novo laboratório, que está em construção,

também serão realizados ensaios de impulso atmosférico

(simulação de uma descarga atmosférica) e ensaios de impulso

de manobra (simulação de um chaveamento), em até

2.400.000 Volts. Além de reduzir as despesas operacionais,

o laboratório possibilitará a prestação de serviços para outras

empresas, o que já acontece, por exemplo, com a Alunorte.

“Executar esses ensaios é motivo de orgulho para a equipe

e serve de estímulo à determinação na superação de novas

dificuldades para ajudar a Eletronorte a atingir as suas metas

de ser uma Empresa lucrativa”, finaliza Lídio.

limpeza dos radiadores sem a necessidade de

parada da máquina, entre outros. O projeto

diminuiu significativamente os custos relativos à

perda de produção, com uma economia estimada

para a Empresa em R$ 440 mil por ano.

Mas, afinal, como surgem essas inovações?

Guimarães responde: “A inovação cai como

se fosse uma tela, um quadro na frente da

gente. De acordo com os problemas, aquilo

vem na hora. A gente visualiza a solução e

coloca em prática essa percepção. É um dom

e uma aptidão.” E que dependem também

de muito trabalho e observação. O mérito

pelas inovações e melhorias que mudam a

Empresa é, principalmente, de vocês, Guimarães,

João Nilson e tantos outros valorosos

empregados.

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REsPonsABIlIDADE soCIAl

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Waimiri Atroari: etnia

que renasce a cada dia

Érica Neiva

“Em 1986, quando retomei os contatos

com os índios Waimiri Atroari, após um afastamento

de cerca de 12 anos, os encontrei

numa situação muito difícil. Estavam doentes,

tristes, perambulando pela rodovia BR-174,

pedindo carona a caminhoneiros, dependentes

de alimentação e doações. Morriam, em

média, 20% ao ano. Podia-se dizer que es-

tavam caminhando para o extermínio. Aquele

povo que conheci em 1969, de guerreiros

altivos, defensores do seu território e de suas

vidas, estava triste, aguardando algo que não

sabia exatamente o que era... Ainda não havia

demarcação nem definição dos limites de

suas terras”.

A descrição feita pelo consultor indigenista

da Eletronorte, José Porfírio Carvalho, não

é apenas a constatação de um especialista

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Arco

e flexa,

o maior

símbolo

do povo

Kinja

e estudioso das questões indígenas. São as

palavras de um kaminja, expressão da língua

materna Waimiri Atroari que provém da família

linguística Karib e significa pessoa não-índia,

que há 42 anos acompanha ativamente a vida

da etnia, cujo território se localiza nas regiões

sul do Estado de Roraima e norte do Amazonas.

Com a construção da BR-174, rodovia

construída entre 1974 e 1977, que liga Manaus

(AM) a Boa Vista (RR) e atravessa a terra

indígena Waimiri Atroari no sentido sul-norte,

a situação piorou. A rodovia trouxe o contato

com o homem branco e doenças como sarampo,

malária, verminose

e leishmaniose, matando

inúmeros kinja, autodenominação

dos Waimiri Atroari

para si mesmos. Além desse

empreendimento, a vida da

comunidade foi afetada pela

Mineração Taboca, instalada

na parte leste da terra indígena,

e pela construção da Usina

Hidrelétrica Balbina. Entre

1974 e 1987, a população

Waimiri Atroari foi reduzida

de 1.500 para 374 pessoas

distribuídas em sete aldeias.

Na década de 1980 foram

realizados estudos para

identificar o nível de impacto ambiental que o

reservatório de Balbina causaria à terra indígena

Waimiri Atroari. O resultado mostrou que

seriam inundados 30 mil hectares. O líder dos

índios, Parwe Mário (acima), lembra-se que,

em 1986, a comunidade passou a exigir me-

Proteção ambiental

preserva espécies

em Balbina

Percorrer o Centro de Proteção Ambiental – CPA da

Usina Hidrelétrica Balbina é deparar-se com um universo

de cores, sons e imagens vivas. Nos finais de tarde,

essas sensações intensificam-se com a chegada gradativa

de araras que realizam performances e provocam

admiração. Após algum tempo, elas saem em revoada,

deixando no céu a impressão de um dia multicor. Nesse

cenário, encontramos a médica veterinária Stella Maris

Lazzarini (na foto, com o peixe-boi), que em 1987 iniciou

o trabalho de resgate de fauna em Balbina. Quando

o CPA começou a funcionar efetivamente, em 1992,

ela passou a trabalhar no local e hoje é a coordenadora

dos programas ambientais da Usina.

Para a veterinária, apesar da construção da hidrelétrica

ter inundado uma floresta primária de terra firme

e impactado várias espécies animais e vegetais, houve

medidas compensatórias importantes como a Reserva

Biológica Uatumã, que preserva intacta uma floresta

com extensão duas vezes maior do que a área alagada

pelo reservatório da Hidrelétrica; o Centro de Preservação

e Pesquisa de Quelônios Aquáticos – CPPQA

e o Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos

Aquáticos – CPPMA. “Além do Programa Waimiri

Atroari e da Reserva Biológica Uatumã, foram preconizados

programas ambientais já prevendo o impacto

ambiental de Balbina, com o objetivo de mitigar os impactos

negativos da hidrelétrica. São os programas de

mamíferos e quelônios aquáticos que surgiram devido

à interrupção da migração desses animais com a construção

do empreendimento”, esclarece Stella.

Em 1986, descobriu-se que cerca de 370 tartarugas

da Amazônia (podocnemis expansa) agruparam-se

didas que mitigassem os danos da inundação.

“Quando soubemos da hidrelétrica procuramos

conhecer os impactos e começamos a

cobrar os nossos direitos. Ao serem feitos os

estudos, ficamos sabendo que duas aldeias

seriam alagadas - a Tapypyna e a Taquari.

Em 1988, a Eletronorte implantou o Programa

Waimiri Atroari, que trouxe os benefícios

que consideramos os mais importantes para

nosso povo - saúde, educação, fiscalização

e demarcação. A nossa terra foi demarcada,

homologada e registrada em cartório”, recorda

Parwe. É importante frisar que após o contato

com os brancos, como forma de facilitar a co-

perto da futura barragem, sem poder subir o rio para desovar

nos tabuleiros a montante. Em função disso, foram

criadas praias artificiais para permitir a desova das tartarugas.

Hoje o Centro possui 315 quelônios. “As tartarugas

vêm entre os meses de agosto e outubro, encontram as

praias artificiais e desovam em tabuleiros. Os ovos são

cuidados e em janeiro e fevereiro são devolvidos à natureza.

É um programa em que rapidamente se pode vislumbrar

uma melhoria”, afirma a veterinária. De 1986 a 2008

já foram soltos cerca de 100 mil filhotes de tartaruga no

Rio Uatumã e nos lagos da região.

municação, eles passaram a usar dois nomes,

um indígena e outro em português, a exemplo

de Parwe Mário; antes disso possuíam apenas

o nome indígena.

Anterior à implantação do Programa, como

parte das ações mitigadoras, a Eletronorte se

responsabilizou pelo financiamento da demarcação

da área Waimiri Atroari que culminou na

sua homologação em junho de 1989, por meio

do Decreto nº 97.837/89, com uma área de

2.585.911 ha. Na mesma ocasião, no Estado

do Pará, como forma de compensação pelos

impactos causados pela Usina Hidrelétrica Tucuruí,

a Eletronorte criou o Programa Paraka-

Usina não impediu a desova da tartaruga da Amazônia

Em busca da liberdade – Os peixes-boi são outra espécie

impactada pela construção de Balbina, pois são habitantes

naturais do Rio Uatumã. Hoje estão isolados em duas populações

– uma está acima da barragem, e talvez fique no

futuro como uma reserva genética da espécie; há também

os que estão abaixo e provavelmente vão acompanhar os

nativos e ganhar o Amazonas.

O CPPMA foi criado para reabilitar esses animais, mas um

dos dilemas é a sua superpopulação. Hoje são 45 peixes-boi,

número considerado excessivo pela veterinária. “No início, o

objetivo era apenas fazer a reabilitação, mas hoje é soltá-los

para aumentar sua variabilidade genética. Mas para isso precisamos

de mais apoio do Sistema Eletrobrás para monitorálos

por meio de radiotransmissores, experiência que outras

instituições realizam com grande êxito. Gastamos anualmente

cerca de R$ 2 milhões com alimentação, mão de obra

e medicamentos para mantê-los. Com a soltura seria R$ 1

milhão por ano. Eles viveriam um tempo no Uatumã e depois

acompanhariam a migração dos nativos”, destaca Stella.

Vários filhotes que estão no Centro tiveram as mães mortas

por caçadores que ainda hoje capturam os animais, não

mais pelo valor do couro, mas pela carne. O fato de a espécie

reproduzir em cativeiro não diminui o risco de ser extinta.

“Há filhotes que reabilitamos e conseguiram reproduzir. Agora

queremos soltá-los para que se reproduzam na natureza

e a espécie tenha uma chance de sobrevivência. Sabemos

que manter o animal reproduzindo em cativeiro não tira o

perigo de ser extinto”, explica Stella.

nã, adotando a mesma filosofia do Programa

Waimiri Atroari.

Invertendo a situação – Fruto de um convênio

entre a Eletronorte e a Funai, o Programa

Waimiri Atroari é um conjunto de ações

indigenistas e ambientais voltado à valorização

cultural, melhoria da qualidade de vida e

preparação dos índios para se relacionarem

de forma igualitária, esclarecida e autônoma

com a sociedade à sua volta. Criado em 1988,

com duração prevista de 25 anos, reúne 96

colaboradores nas áreas de saúde, educação,

proteção ambiental, apoio à produção, docu-

corrente contínua

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mentação e memória, e administração.

“O excelente desempenho

dos colaboradores, a boa aplicação

dos recursos e a continuidade das

ações garantem o sucesso alcançado.

Os Waimiri Atroari saíram de

um índice de mortalidade de 20%

ao ano para um crescimento de

5,8% ao ano. Hoje sua população

é de 1.330 pessoas”, frisa o gerente

do Programa, Marcelo de Sousa

Cavalcante (à esquerda).

A sede do Programa fica em Manaus,

mas para as atividades em campo foi

estruturado um centro denominado Núcleo de

Apoio Waimiri Atroari – Nawa que possui múltiplas

funções: infraestrutura de apoio, realização

de reuniões, treinamentos, e projetos demonstrativos

e experimentais. Localizado nas

proximidades da BR-174 com o Rio Alalaú,

o Nawa é um ponto estratégico no apoio às

aldeias e postos de serviço. Existem ainda na

terra indígena escolas, postos de saúde, laboratórios,

casas de apoio e postos de vigilância

que dão o suporte necessário às ações do Programa.

Todas as instalações citadas, inclusive

as aldeias, contam com energia solar para o

desenvolvimento das atividades.

Para Porfírio Carvalho, idealizador do Programa

Waimiri Atroari, o trabalho mudou a

vida dessa comunidade indígena. “Não é um

trabalho qualquer, mas de sentimento, de

amor. Hoje, os Waimiri Atroari são um povo

orgulhoso da sua vida, do seu território e da

sua cultura. Tenho que agradecer à Eletronor-

Alfabetização em duas línguas

Porfírio, ao centro, de braços dados com os índios

te que pode se orgulhar de salvar uma etnia.

Como branco, sou o homem mais feliz por

chegar onde chegamos. São pessoas que poderiam

não existir, poderiam ter morrido. É um

trabalho em grupo, de dedicação e carinho”,

emociona-se o indigenista.

Educação – “Tenho 32 anos e comecei

a estudar com 12, no início do Programa,

quando conheci a gramática Waimiri Atroari.

A nossa língua materna é chamada de kinja

iara, que significa pessoa verdadeira. Depois

de escrever a língua materna fui aprendendo

aos poucos a falar e escrever o português. Temos

uma escola diferenciada. Aprendemos a

nossa língua, depois o português. Temos que

aprender a nossa língua para respeitarmos a

nossa própria identidade. Há o rodízio de ma-

térias como ciências, geografia, matemática, e

aquelas que a comunidade julgar importante

conhecermos. Desde menino tinha o sonho de

ser inpany, professor”.

A declaração acima é de Tuwadja Joanico

(ao lado), coordenador de Educação das aldeias

do ‘eixo-rio’, e ilustra um pouco o processo

educativo implantado com o Subprograma

de Educação, cujo maior objetivo é a alfabetização

de todo o povo

Waimiri Atroari na língua

materna, orientados por

princípios básicos da procura

contínua por uma

pedagogia e metodologias

apropriadas à sua

cultura. Isto significa que

eles têm uma educação

bilíngue com o principio

básico da troca de conhecimentos

entre o kinja

e o kaminja. É importante

destacar que toda a educação reflete a

realidade dos Waimiri Atroari por meio de suas

manifestações culturais, do seu trabalho e da

sua língua. As aulas não se limitam à escola,

mas podem ser explorados outros espaços

como recurso didático, a exemplo de caçadas,

pescarias, construção de malocas.

Hoje há 801 alunos nas 22 aldeias, 61,85%

da população. O índice de alfabetização é de

38,66%. Existem 19 escolas, 54 professores

Waimiri Atroari e sete não-índios que auxiliam

em disciplinas como ciências, geografia e matemática.

É fundamental destacar que, no início

do Programa, não havia professores da etnia, o

que foi acontecendo com a realização de cursos

de capacitação e formação. “A importância

da educação é aprendermos para registrarmos

nossa cultura e defendermos nossas terras.

Preparamos os nossos jovens para aprender,

mas para isso não precisam ir à cidade. Tivemos

uma oportunidade muito grande com a

força da Eletronorte. Sem essa oportunidade

a educação não ia andar. Essa força é fundamental

na formação do povo Waimiri Atroari”,

confirma Tuwadja.

Saúde – O objetivo do Subprograma de

Saúde é garantir boas condições de vida à po-

Irineide, à direita, e parte da equipe de saúde

As aulas

não se

limitam

à escola

corrente contínua

21


corrente contínua

22

Funai vivencia últimas demarcações de terras indígenas

Hoje, no Brasil, de acordo

com a Fundação Nacional

do Índio – Funai, vivem

cerca de 460 mil índios,

distribuídos entre 225 sociedades

indígenas, que

perfazem cerca de 0,25%

da população brasileira.

Além desse número, existem

entre 100 mil e 190

mil vivendo fora das terras

indígenas, inclusive em áreas

urbanas. À Funai cabe

estabelecer e executar a

Política Indigenista no Brasil. O antropólogo e ex-presidente

da Instituição, que hoje coordena a área de Documentação

e Tecnologia da Informação, Artur Nobre Mendes (foto), fala

um pouco sobre a política indigenista brasileira.

Qual o papel da Funai na atual

política indigenista brasileira?

Além de demarcar a terra, a Funai procura desenvolver

alguns projetos econômicos, de autosustentação, visando

a garantir a segurança alimentar dos índios. A atenção às

questões culturais e educacionais é muito deficiente se compararmos

com a demarcação das terras, onde a Fundação

avançou muito. Há tempos a questão da terra era a mais urgente

e vital, por isso se concentraram recursos humanos e

financeiros nessa tarefa. Nessa época, a missão era salvar

os índios que estavam se acabando. Com a demarcação de

Raposa Serra do Sol (RR), é o momento de refletir sobre o

que foi feito e canalizar os esforços para garantir a permanência

dos índios nessas áreas com qualidade de vida, tentando

construir um conceito de desenvolvimento que seja adequado

à realidade indígena.

De que maneira os índios são compensados

com a construção de grandes obras, a exemplo

de usinas e projetos minerometalúrgicos?

No início da década de 1980, começou-se a questionar o

pulação Waimiri Atroari, valorizar a medicina

tradicional e repassar conhecimentos das outras

formas de medicina. Ao ser implantado, o

Subprograma desenvolveu ações de inquérito

epidemiológico, atendimento médico de urgência

a toda a comunidade, vacinação contra

todas as doenças imunopreveníveis, instalação

de banco de dados visando ao monitoramento

do grupo, instalação de postos de saúde para

atendimento primário na terra indígena e mecanismos

para atendimento secundário e terciário

na cidade.

impacto que as grandes obras trariam ao meio ambiente

e às populações indígenas. Naquela época as terras indígenas

não eram demarcadas. Antes dos programas, os

índios recebiam indenizações, mas logo depois o dinheiro

acabava. Os impactos eram potencializados, ao invés de

mitigados. Programas indígenas como o Waimiri Atroari e

o Parakanã mudaram essa realidade.

Qual a importância desses programas

desenvolvidos em parceria com a Eletronorte?

Os programas introduziram medidas mitigadoras que

reduziram os impactos decorrentes da construção de usinas

hidrelétricas, com uma filosofia de educação, saúde,

meio ambiente e apoio à produção que modificou a vida

dos índios. Eles viabilizaram a vida dos Waimiri Atroari e

dos Parakanã, que está em total equilíbrio. As pessoas

falam que os programas têm muitos recursos, mas não é

bem assim. Se contabilizarmos o que o Governo Federal

investe nos índios por meio da Funai, ministérios da Saúde,

Educação e Desenvolvimento Social, não é mais do

que os programas investem. O investimento não tem que

ser alto, mas bem pensado e aplicado. Nesse momento

de reflexão, esses dois programas têm um papel muito

importante a cumprir, pois podem apontar um caminho.

Eles poderiam ser replicados

em outras etnias indígenas?

Cada caso é um caso. Os índios são muitos diferentes,

a exemplo dos Waimiri Atroari e Parakanã. Eles têm características

particulares que determinam algumas diferenças

entre um programa e outro. No entanto, o modelo

de gestão, de aplicação dos recursos, pode ser replicado

e aproveitado. E, principalmente, acho que os programas

são inovadores e exemplares na questão do tratamento

indigenista. O diálogo que temos é o fiador do sucesso deles.

Se impuséssemos nossa visão, o programa fracassaria,

pois os índios não nos aceitariam como interlocutores;

por outro lado se déssemos tudo nas mãos deles, seria

um fracasso, pois repetiríamos os erros que nos propusemos

a não repetir, como os cometidos no projeto Carajás,

a exemplo das indenizações financeiras.

Atualmente, a saúde da comunidade está

equilibrada, inclusive não se constatam doenças

que são muito comuns em nossa sociedade.

“Fazemos o controle de todas as ações de

saúde que são desenvolvidas na terra indígena

Waimiri Atroari, por meio de atividades preventivas

dos programas de tuberculose, imunização,

malária e doenças crônicas, de acordo

com as normas do Ministério da Saúde. Há

também o programa de saúde bucal com

atendimentos preventivo, curativo e corretivo.

As doenças mais comuns são as verminoses

e as infecções respiratórias. É importante destacar

que na comunidade não há hipertensão,

diabetes, doenças sexualmente transmissíveis,

hanseníase ou mesmo tuberculose”, afirma a

médica Irineide Assunpção Antunes.

Na reserva existem 19 postos de saúde e

oito laboratórios. As atividades são realizadas

por 21 profissionais

- uma médica, uma enfermeira,

uma odontóloga,

18 agentes técnicos

de saúde, um motorista;

contando ainda com

o apoio de 39 agentes

técnicos de saúde e 12

laboratoristas indígenas.

“No início todos os laboratoristas

eram brancos,

mas depois os primeiros

kinja foram sendo treinados

e repassaram os conhecimentos

para outras

pessoas da comunidade.

Hoje somos 12 escolhidos

pelo nosso povo. O Programa é muito importante,

pois trouxe o estudo para que pudéssemos

trabalhar e assim proteger nossa gente,

que antes morria muito”, diz o laboratorista

Djawa Rubens (acima).

Apoio à produção – Antes do Programa, os

Waimiri Atroari viviam a desagregação de seus

processos produtivos, passando para uma dependência

alimentar. Agora, os índios voltaram

a realizar seus roçados tradicionais e sua independência

alimentar foi resgatada. No entanto,

surgiu a necessidade de manter os sistemas

produtivos ativos e incrementar outros. Assim,

nasceu o Subprograma de Apoio à Produção,

que vem adotando técnicas simples de criações

de animais e produções agrícolas.

As atividades produtivas - Projetos de frutíferas

e plantas ornamentais; bovinocultura;

coturnicultura - criação de codornas; ovinocultura

- criação de carneiros; avicultura - galinha

de corte e de postura; cunicultura - criação de

coelhos; piscicultura; e quelônios - manejo de

tartarugas, criação de jabutis e animais silvestres

- são desenvolvidas por um engenheiro

florestal supervisor de produção, três técnicos

agrícolas, cinco agentes operacionais e 45 colaboradores

indígenas. Os alimentos produzidos

são destinados ao consumo das aldeias,

do Nawa, dos oito postos de vigilância da reserva

e das 19 casas de apoio que abrigam os

profissionais da saúde e educação. As mudas

de plantas frutíferas, medicinais e nativas também

são levadas para as aldeias.

Esses projetos experimentais e demonstrativos

também capacitam os Waimiri Atroari.

Entre eles, está Pikirida Paulistinha, que trabalha

nas atividades produtivas desde 2000.

“Comecei como técnico agrícola na produção

de mudas frutíferas e nativas, depois passei

para a área de hortas, avicultura e manejo de

coelhos. Participei de todos os treinamentos

ministrados por técnicos agrícolas. Estou inserido

nas equipes que trabalham 15 dias no

Núcleo e 15 na aldeia. Na minha aldeia, trabalho

na produção de bananeiras, macaxeira e

melancia. É bom aprendermos e levarmos os

conhecimentos para a comunidade”, esclarece

Pikirida.

Para o coordenador das atividades produtivas

do Nawa, Antônio Carlos Andrade do

Nascimento, o trabalho ao lado dos índios é

encantador. “Trabalho aqui desde 1989. Sintome

da família dos índios. Eles nos emocionam

Antônio

Carlos e

Pikirida:

garantindo

a produção

e repassando

conhecimentos

corrente contínua

23


corrente contínua

24

com sua alegria e companheirismo. É algo

que nos contagia. Todos passam uma energia

muito positiva. Isso faz com que você cresça e

continue junto deles. Aqui é outra vida. Eles vivem

realmente em comunidade. É uma união

que não vejo em nosso mundo”, reflete.

Proteção ambiental – Com o objetivo de

manter a integridade do território Waimiri Atroari

e garantir o usufruto

exclusivo de suas

riquezas naturais foi

criado o Subprograma

de Proteção Ambiental.

A equipe de

trabalho é composta

por um biólogo, dois

coordenadores de

área – ‘eixo-rio’ e ‘eixo-estrada’,

18 agentes

de proteção, três

agentes operacionais,

55 fiscais índios e dez

não índios. Os fiscais

trabalham nos oito

postos de vigilância

- Trairi, Jundiá, Abonari,

Mahoa, Waba

Manja, Ariné, Vicinal I e Vicinal II, região atravessada

pela BR -174.

Entre as atividades realizadas estão a vigilância

e a proteção ambiental; o controle de

tráfego de veículos na rodovia, no trecho em

que atravessa a reserva; e campanhas de sen-

Mingau de buriti, iguaria que alimenta a todos

sibilização por meio de folhetos educativos,

alertando sobre a importância da preservação

ambiental. A BR-174 atravessa a terra indígena

Waimiri Atroari em um percurso de 125 km

de extensão, trecho em que a mata se encontra

bem preservada devido às ações de proteção

ambiental.

Mesmo assim, são comuns os atropelamentos

de animais na estrada e a presença do lixo

deixado pelos motoristas que trafegam na BR.

O fiscal de estrada, Alcenir Pereira dos Santos

(à esquerda), conta um pouco da sua rotina

de trabalho: “Saio às 7h para a fiscalização de

carros. Recolhemos o lixo jogado e pegamos

os dados dos animais atropelados. De agosto

de 1997 a maio de 2009, foram 4.723 animais

atropelados, como cobras, cutias, capivaras,

pássaros e até jacarés. A fiscalização é feita

no trecho que corta a reserva. Retiramos, em

média, 500 quilos de lixo por mês. Hoje as

pessoas estão mais conscientes. Abordamos

e explicamos que é uma reserva indígena. Há

campanhas nos finais de semana. Entregamos

panfletos, alertando para a questão do lixo e

dos animais mortos. Costumamos também

distribuir água de coco gratuitamente para os

motoristas como forma de sensibilização, o

que trouxe uma ótima resposta no sentido de

diminuir a quantidade de lixo na rodovia”.

Dia a dia na aldeia – “Na aldeia temos o

costume de dormir por volta de 19h30. Todos

dormem numa grande mydy, maloca. No caso

da minha aldeia, Iawara, são 85 pessoas. Geralmente

levantamos às 5h e tomamos banho

de água encanada ou igarapé. As mulheres

acordam mais cedo para preparar a alimentação.

Pela manhã comemos mingau de buriti,

açaí ou patoá, uma espécie de palmeira. Depois

nos dividimos em grupos para caçar, pescar

e ir para a roça. O nosso trabalho é sempre

coletivo. Plantamos banana, abacaxi, mamão,

cana, mandioca, macaxeira e batata. As weri

(mulheres) cozinham e tiram lenha. O artesanato

como redes de fibra de buriti, adornos e

panelas de barro é desenvolvido pelas mulheres;

já os wykyry (homens) fazem as cestarias

com o arumã. É importante que todos saibam

que nossa vida e alimentação estão ligadas à

natureza. Vivemos de acordo com o que ela

nos oferece”.

Esse depoimento é de

Wame Viana (à esquerda), 42

anos, o primeiro índio Waimiri

Atroari a aprender o português

e um dos primeiros da

nova geração a ter contato

com os brancos. Ele conta

que foi um choque a sua

primeira viagem fora da reserva

indígena: “Quando tive

contato com o mundo fora

da reserva fiquei muito triste.

Me senti numa caverna e não enxergava nada

no mundo dos brancos. Dói muito para quem

nasceu no mato ver o desmatamento e saber

que várias pessoas só querem saber da riqueza

da terra, prejudicando a natureza. Foi estranho

também quando vi os brancos pagando

pela alimentação. Não circula dinheiro entre

nosso povo. Vivemos do que a natureza nos

oferece”, esclarece Wame.

Apesar da dificuldade de Wame no seu primeiro

contato com o mundo dos brancos há

mais de 20 anos, ele continua mantendo relacionamentos

quando necessário e sabe da importância

de se respeitar as diversas culturas.

“Temos que conhecer culturas diferentes da

nossa. Precisamos saber o que essas pessoas

fazem. Posso viajar, conhecer a cultura deles

e respeitar. Somos indígenas, nascemos no

mato. Devemos saber usar os rios, os recursos

da natureza, a riqueza da vegetação e da fauna.

Mas lá fora temos que saber que a cultura

dos brancos é diferente. Às vezes as pessoas

acham que não temos uma cultura rica. Não

posso falar isso da cultura deles, pois estão no

seu espaço”, analisa.

Organização – A reunião mais importante

das lideranças das 22 aldeias Waimiri Atroari é

a de prestação de contas anual que, em 2009,

ocorreu nos dias 18 e 19 de julho, no Nawa.

Reunião

de prestação

de contas,

a mais

importante

do ano

corrente contínua

25


corrente contínua

26

Alguns líderes das aldeias do ‘eixo-rio’ chegam

a viajar 15 horas de barco para estarem presentes.

Mas esse esforço parece pouco diante

da alegria e satisfação de abrirem a reunião

cantando o maryba, festa-ritual mais importante

da etnia. Os 135 líderes dão boas-vindas

aos 24 não-índios presentes,

e recebem uma cópia da

prestação de contas dos seus

gastos durante 2008.

As reuniões de prestação

de contas acontecem desde

1994. Segundo Warakaxi Zé

Maria (ao lado), da aldeia

Paryry, a reunião é feita para

que haja um controle dos

gastos e um planejamento

dos recursos. “É o momento

de acompanharmos nossos

gastos. Se não fizermos a

prestação de contas não saberemos

como está sendo

gasto o nosso recurso para

que possamos economizar. As reuniões são

muito comuns nas nossas aldeias, onde nos

reunimos três vezes por semana. Uma com a

comunidade geral, com jovens e adolescentes

para que eles possam entender que devemos

Vocabulário kinja iara

Conheça o significado e a pronúncia

de algumas palavras da língua falada

pelos Waimiri Atroari: índio Waimiri

Atroari – kinja (quinhá); mulher – weri

(ueri); homem – wykyry (ukuru); maloca

– mydy (mudu); ritual – maryba (marubá);

idosos – txamyry (tiamuru); brancos

– kaminja (caminhá); convite – katyba

(katubá); antepassados – tahkome (takome);

guerreiros – itxi iapyna (ithi iapuná);

professor – inpany (impanu); flecha

– pyruwa (puruá); língua materna – kinja

iara (quinhá iara).

Mais informações e contatos, nos

endereços www.eletronorte.gov.br

e www.waimiriatroari.org.br.

estar sempre juntos para nos fortalecer. Outra

com as mulheres, e a terceira, que discute a

saúde e educação da comunidade. Temos orgulho

da nossa união e vamos nos fortalecer

cada vez mais”, destaca.

Os recursos financeiros dos Waimiri Atroari

provêm da comercialização de artesanato, produtos

agrícolas, criação de peixes, galinhas e

carneiros, e também da taxa pelo uso de uma

estrada que dá acesso à Mineração Taboca.

Com os recursos, eles compram utensílios domésticos,

roupas, equipamentos de navegação,

material de pesca e combustível.

Ao fim dos dois dias de reunião foi a vez da

equipe de trabalho do Programa se reunir e

fazer uma avaliação das atividades. Para Porfírio

Carvalho, toda reunião envolve um esforço

conjunto. “O nosso trabalho é de todos. Se o

trabalho está dando certo é porque todos estamos

dando certo. O gesto dos Waimiri Atroari

de cantarem no início e final da reunião é uma

expressão de carinho demonstrada por poucos

povos. É bom lembrarmos que esse povo

alegre um dia já foi triste e que a transformação

foi resultado de um trabalho de amor e

respeito”, reafirma.

Maryba – Após a reunião de prestação de

contas, os Waimiri Atroari convidaram todos a

participarem do maryba. No momento do convite,

nossa reportagem não conteve a felicidade,

pois a cobertura jornalística previa a visita a

duas aldeias, mas a decisão sobre a realização

de rituais festivos cabia somente aos índios.

Na aldeia Iawara, as weri itxi iapyna, mulheres

guerreiras, nos recepcionaram com o símbolo

dos Waimiri Atroari empunhado, a pyruwa,

que quer dizer flecha. Elas tomam conta da

aldeia quando os líderes estão ausentes.

Depois da recepção das guerreiras, todos os

85 membros da aldeia pintados com tinta de

jenipapo no corpo, nos aguardavam alinhados

e cantando. Saudamos um a um antes de en-

trarmos na maloca onde aconteceria o ritual. O

canto de um maryba impressiona. A força e a

reverência das vozes provocam a sensação de

que uma cultura milenar se consolida a cada

momento. O canto está plantado no coração e

representa a força de uma identidade que se

fortalece continuamente.

Eles iniciam a manifestação saudando os

convidados e agradecendo à Eletronorte pelo

Programa Waimiri Atroari. Homenageiam os

guerreiros que foram mortos devido aos problemas

trazidos com a construção da BR-

174. A kinja Tamy Paula (abaixo) destaca

que eles precisam ser sempre fortes e que

corrente contínua

27


corrente contínua

28

No ritual

do Marayba

Kinjas e

Kaminjas

se juntam

numa

grande

roda

Presidente da Eletrobrás foi um dos impulsionadores do Programa Waimiri Atroari

O presidente da Eletrobrás,

José Antonio Muniz

Lopes, fala sobre a sua experiência

no Programa Waimiri

Atroari, quando esteve

na presidência da Eletronorte,

e comenta o contexto

da implantação da Usina

Hidrelétrica Balbina.

Em que condição

Balbina foi criada?

Muitas pessoas criticam,

sem conhecer as

condições em que as decisões

sobre a criação de

Balbina foram tomadas. No momento vivíamos uma crise de

petróleo que mudou a história do mundo. Desde que entrou

em operação, em 1989, Balbina já produziu quase 23 milhões

de MWh. Isso significa que se fôssemos gerar essa

energia a óleo diesel, teríamos que gastar R$ 10 bilhões.

E ainda teríamos produzido 1,2 milhão de toneladas de

CO2. Esses números credenciariam Balbina como um dos

importantes instrumentos de desenvolvimento, pois assegurou

a existência da Zona Franca de Manaus.

Qual das medidas compensatórias pela

construção de Balbina teve grande destaque?

Até pelo meu envolvimento pessoal, foi o Programa Wai-

Jorge Coelho/Eletrobrás

miri Atroari. Na década de 1990 fui presidente da Eletronorte

e juntamente com o Porfírio Carvalho impulsionei

o Programa. Fica até suspeito falar. Costumo dizer que

a etnia Waimiri Atroari é a comunidade social do Brasil

que tem a melhor qualidade de vida proporcional à sua

cultura, hábitos e valores. Acho impossível detectarmos

núcleos que têm a mesma organização. O Programa faz

o acompanhamento contínuo da saúde, situação escolar

e demais atividades, mas não perdendo de vista a tradição,

a cultura e os valores. Tenho pelo Programa uma admiração

que não sei qualificar. É um dos trabalhos mais

perfeitos que já vi na área de tratamento de comunidades

atingidas por empreendimentos hidrelétricos.

Como foi a sua visita à

terra indígena Waimiri Atroari?

Foi emocionante. São surpreendentes as atividades

produtivas ali desenvolvidas, as instalações para cuidar

da saúde. Fomos às aldeias. Vimos a organização em

que vivem, as escolas com professores filhos dos índios

que foram treinados e capacitados ali mesmo na aldeia.

O brasileiro que conhecer aquilo vai mudar a concepção

sobre o modo como devíamos tratar as comunidades

indígenas.

Seria possível surgir outros programas

semelhantes como forma de compensação pela

construção de novos empreendimentos hidrelétricos?

Existem especificidades. É difícil dizer se teremos

outros programas como este, mas a vontade de dar o

sua tradição deve ser passada de pais para

filhos. “Os nossos tahkome, antepassados,

sempre estarão vivos em nossas memórias.

Não somos homens brancos, não bebemos,

não fumamos, nem andamos com dinheiro.

Somos índios. Sempre pegamos nosso

alimento. Nunca estudamos na cidade.

Aprendemos a falar português aqui na nossa

aldeia. Sempre vamos nos fortalecer e lutar

pelo nosso território”, frisa.

Os homens abrem o ritual cantando e dançando

e, em seguida, é a vez das mulheres.

Logo depois, elas oferecem mingau de buriti

e tapioca aos convidados. Neste dia os cantos

contaram histórias dos antepassados, falaram

dos sofrimentos passados, mas, sobretudo,

evocaram a paz e liberdade que os Waimiri

Atroari vivem agora. Ao final do ritual, kinja e

kaminja se juntam numa imensa roda, mostrando

que o respeito e a tolerância à diversidade

são possíveis e muito saudáveis.

melhor tratamento possível às comunidades indígenas

está nos genes da Eletronorte e Eletrobrás. Pretendemos

apoiar outras etnias por meio de outros programas. Dificilmente

teremos como replicar um Programa Waimiri

Atroari, mas podemos utilizar as mesmas bases em situações

diferentes.

Qual a preocupação da Eletrobrás com os índios

que serão afetados por novos empreendimentos?

Ao contrário do que aconteceu com os Waimiri Atroari,

que tiveram de ser deslocados das suas terras, não temos

hoje projetos que alaguem aldeias. Por isso não teremos

que replicar na íntegra o Programa. Mas desejamos implantar

uma estrutura que contemple as áreas de educação,

saúde, cultura e produção voltada para as etnias

que serão, por exemplo, indiretamente afetadas com a

construção de Belo Monte, por exemplo.

O senhor se sente feliz por

ter ajudado a salvar uma etnia?

Sinto-me muito feliz. Hoje tenho 64 anos e penso que

não tenho esta idade, pois olho para trás e vejo tanta coisa

feita; e olho para frente e vejo que tenho condições de

fazer tantas outras coisas. Olhando para trás, o Programa

Waimiri Atroari é uma das coisas que mais me orgulha,

pois não é uma ação que faça parte da atividade direta

da Eletrobrás. Isso é maravilhoso. O Programa é o exemplo

de sucesso maior desse trabalho, por isso tenho uma

amizade inquebrantável com o Porfírio Carvalho. Ele é um

grande parceiro, o grande batalhador do Programa.

Entendendo o maryba – O maryba é uma

festa-ritual que cada aldeia habitualmente promove,

convidando as demais a participarem.

Geralmente dura de três a sete dias, período

em que os Waimiri Atroari cantam, dançam,

tocam flauta e chocalho. É também o momento

de iniciação das crianças do sexo masculino,

de idade entre dois e cinco anos, para

que se tornem bons guerreiros, trabalhadores,

caçadores e pescadores.

Antes do maryba há uma verdadeira preparação

do pai do menino que será iniciado.

Ele sai para as várias aldeias levando o katyba,

um convite feito de capim flecheira, que marca

exatamente o dia da festa. Deve também,

juntamente com os outros pais que terão filhos

iniciados, caçar, pescar e colher alimentos

para todos os dias da celebração, além de

confeccionar cestarias, flechas e lanças para

os convidados. Como no maryba várias aldeias

estão reunidas, é também a ocasião dos casamentos

e reuniões políticas.

Crianças

alegres

e fortes:

muito mingau

de banana

com tapioca

corrente contínua

29


corrente contínua

30

As festas são lideradas pelos cantores,

homens que durante muitos anos aprendem

a dominar todos os cantos do ritual. Esses

cantos falam de todos os aspectos da cultura

Waimiri Atroari, desde a origem das plantas

da roça e dos animais até as estrelas e mitologia

em geral. Para o cantor de maryba, Kabaha

Paulo (abaixo), que foi iniciado no ritual

por seus pais e recentemente iniciou o seu

filho, é o momento de tornar a criança um

guerreiro forte e com muita saúde.

“Essa é uma tradição do nosso

povo. Quando era menino, os

meus pais fizeram o meu katyba

para convidar os parentes de

outras aldeias. Caçamos, pescamos,

colhemos alimentos e preparamos

as comidas para o ritual.

No ano passado houve o maryba

do meu filho. Durante o ritual nos

pintamos, nos enfeitamos com

cocás e trocamos flechas com

os outros guerreiros. Cantamos e

tomamos muito mingau de banana.

Os cantos reverenciam a natureza,

como as árvores, plantio,

peixe, porco, anta, gavião, tatu e

pássaros”, ilustra Kabaha.

Vídeo nas aldeias – “Vamos levantar gente.

Quem vai buscar comida para nós? Vamos

sair para a mata e buscar caça para nossos

filhos”. Esse diálogo abre o documentário

Kinja Iakaha – Um Dia na Aldeia. O vídeo de

40 minutos foi realizado durante uma oficina

do projeto Vídeo nas Aldeias, na aldeia Cacau,

em 2003. É importante destacar que a

produção, filmagem e direção do filme foram

realizadas pelos Waimiri Atroari. Tiveram auxílio

externo somente no processo de legendagem,

uma vez que a história é contada na

língua materna kinja iara com legendas em

português. O resultado é o olhar do próprio

índio sobre a sua cultura, que geralmente é

mostrada nos filmes sob a ótica da sociedade

não-índia.

Um dos responsáveis pelo documentário,

Sanapyty Gerôncio (abaixo), aprendeu a filmar

com o kinja Wame, em 1988. “Tínhamos

interesse em fazer um vídeo do dia a dia

da aldeia, para que as pessoas lá fora pudessem

conhecer a nossa vida. Como somos da

própria comunidade, conversamos com os

kinja e pedimos que agissem com espontaneidade.

No filme mostramos a pesca, caça,

a coleta das frutas pelas mulheres e o preparo

dos alimentos”, explica.

O objetivo do projeto Vídeo nas Aldeias é

possibilitar aos índios que documentem a

sua história, mostrando manifestações culturais

co mo o maryba e as atividades que

desenvolvem no cotidiano. Depois de prontos,

os vídeos são exibidos nas televisões das

22 aldeias. Sim! Todas as aldeias possuem

TVs que funcionam com energia solar, mas

não veiculam as programações que estamos

acostumados a ver. O objetivo é apenas exibir

os vídeos feitos pelos Waimiri Atroari. “Queremos

uma televisão que mostre a nossa

realidade. Fazemos imagens do nosso dia a

dia, escolhemos as mais importantes e editamos.

Depois exibimos em todas as aldeias

para que possamos ter a nossa memória. Os

txamyry, mais velhos, falam que temos que

fazer nossos próprios filmes, pois estes sim

mostram a nossa cultura”.

CIRCuIto IntERno

Corpo técnico da Eletronorte leva conhecimento

a outras instituições do setor Elétrico

Empregados cedidos ou aposentados contam sobre a nova

experiência e lembram da época em que estiveram na Empresa

Bruna Maria Netto

Atuar na Amazônia enfrentando adversidades

pouco recorrentes nas demais regiões do

Brasil tem suas vantagens. Os engenheiros

e técnicos da Eletronorte, após anos de dedicação

na Região Norte, tornam-se aptos a

trabalhar em quaisquer ramos do Setor Elétrico,

agregando novos valores e contribuindo para o

desenvolvimento energético do País. De acordo

com a Superintendência de Gestão de Pessoas

da Empresa, há 131 empregados cedidos

a instituições que vão desde empresas de

construção ao Ministério de Minas e Energia,

além daqueles já aposentados que voltaram a

trabalhar. O que eles têm em comum de longe

se limita à competência. O currículo desses

profissionais descreve a passagem pela Eletronorte

como um aprendizado para a toda a vida,

acrescido de boas histórias, grandes amizades

e valiosa lembrança na memória.

Fora da Eletronorte, mas ainda por ela –

Quem começa narrando sua trajetória é Warfield

Ramos (abaixo). Warfield é diretor Técnico da

Águas da Pedra, sociedade de propósito específico

que tem como acionistas a Neoenergia,

a Chesf e a própria Eletronorte, e é responsável

pela construção do Aproveitamento Hidrelétrico

Dardanelos, em Mato Grosso. Logo, vê-se que

sua indicação ao cargo não foi por acaso, e de

certa forma o engenheiro continua na Empresa.

O motivo não poderia ser outro: Ramos passou

25 anos na Eletronorte, entre os anos de 1975

e 2000. Durante esse tempo, atuou na Diretoria

de Gestão Corporativa, como gerente de

divisão, de departamento, superintendente de

Suprimentos e assistente. Na extinta Diretoria

Técnica, trabalhou no gabinete. Já na Presidência,

passou pelo Escritório de Coordenação

de Empreendimentos, onde foi coordenador da

Expansão de Tucuruí.

Para o engenheiro, trabalhar na Eletronorte

foi uma experiência de vida: “Aliás, uma excelente

experiência. Nessa vida estamos em um

contínuo aprendizado, e posso afirmar que para

mim foi bastante profícuo durante o período que

estive trabalhando diretamente na Eletronorte.

Digo diretamente porque me considero ainda

como um integrante dessa Empresa, agora

representando-a em um de seus novos negócios”,

afirma.

A experiência de trabalhar na Eletronorte

rendeu bons frutos. De acordo com Warfield,

“todos os objetivos traçados foram alcançados,

e gostaria de ressaltar que eles obtiveram pleno

êxito muito em função do excelente corpo

técnico e funcional que a Eletronorte possui.

Em minha passagem pela Empresa, além de

todo o aprendizado adquirido - que é um bem

que ninguém poderá usurpar-me - fica ainda

um enorme quadro de amizades sinceras, que

também é um bem inestimável”.

O convite para trabalhar na Águas da Pedra

surgiu pela convergência de interesses. Warfield

estava retornando de Fortaleza, onde gerenciou

12 usinas termelétricas da empresa Enguia, do

Grupo Harbi. A Eletronorte estava estruturando

sua participação em Dardanelos e o engenheiro

não pensou duas vezes ao convite de voltar a

trabalhar na Região Norte. “Como diz o dito

popular, foi juntar a fome com a vontade de comer.

Para mim foi muito bom, pois assim estou

tendo novamente a oportunidade de conviver

profissionalmente com o corpo técnico da Empresa

e estar participando de um dos negócios

corrente contínua

31


corrente contínua

32

da Eletronorte, nada mais é do que continuar

colocando em prática todos os conhecimentos

até hoje adquiridos”, conta Warfield.

Pelo Sistema Eletrobrás - Esse sentimento

também é compartilhado por Luiz Henrique

Hamman (abaixo), diretor Financeiro de

Furnas Centrais Elétricas e empregado da

Eletronorte desde 1981: “O que sinto falta é

da união de todos frente aos inúmeros desafios

enfrentados, mesmo naqueles em que o

sucesso, embora não sendo total, nos propiciou

oportunidades de melhoria em nossas

atitudes, ampliando nossos conhecimentos

e habilidades”. Hamman iniciou na Empresa

na área de contabilidade, onde permaneceu

até 1985, quando passou a compor o time do

GAT-CRN, na Coordenação da Comissão de

Serviços Contábeis e Financeiros. Foi em 1988

a primeira vez que Luiz Henrique usaria seus

conhecimentos adquiridos na Eletronorte em

outras instituições, sendo cedido ao governo

do então Território de Roraima para compor a

Diretoria Econômico-Financeira das Centrais

Elétricas de Roraima - CER.

Depois, as conexões foram sendo feitas em

diversas entidades: “Com a absorção do parque

térmico da CER pela Eletronorte, continuei em

Boa Vista como gerente da Divisão Administrativa

da recém-criada Regional de Produção

e Comercialização de Roraima, até 1991. Voltando

a Brasília, agora no quadro da Diretoria

de Engenharia, trabalhei no Departamento de

Planejamento e, posteriormente, fui gerente da

Divisão de Coordenação de Projetos Eletromecânicos

de Geração até 1995, quando compus a

equipe de assistentes especiais da Presidência,

cujo titular era o atual presidente da Eletrobrás,

José Antonio Muniz Lopes. Posteriormente,

ocupei a presidência da Previnorte, depois a

Diretoria Financeira da Manaus Energia e da

Companhia Energética do Amazonas”.

Desde abril de 2008, Hamman ocupa a

Diretoria Financeira de Furnas, em consequência

do trabalho realizado anteriormente.

Do período de atuação na Eletronorte, ele

conta que adquiriu um conhecimento permanente.

“Aprendi a aprender com as oportunidades

proporcionadas, tanto nas áreas de administração

e contábil, quanto nas de geração,

operação e manutenção”. Aos colegas, deixa

o recado: “Trabalhamos em um setor vital, por

isso extremamente estratégico para a economia

de um modo geral e para a condição de vida e

a sustentabilidade ambiental, sendo, portanto,

um vetor sumamente importante no futuro da

Nação. Fazemos parte dessa importância toda.

Cada um de si e em equipe pode, e deve, se

desenvolver cada vez mais, aproveitando as

oportunidades ensejadas pela Empresa, degrau

por degrau, em prol de um País melhor”.

Da Amazônia à Esplanada dos Ministérios – É

no Ministério de Minas e Energia que o Secretário

Nacional de Energia Elétrica lembra

dos 26 anos passados na Eletronorte. Josias

Matos Araújo, engenheiro de operação, relata

que “com certeza trabalhar na Eletronorte foi

muito importante para enfrentar o desafio de

solucionar conflitos, estabelecer políticas e

diretrizes governamentais, que asseguram a

transparência, a isonomia e a continuidade

dos serviços que o Setor Elétrico proporciona

à sociedade brasileira”. O currículo de Josias

na Empresa não deixa de ser admirável: foi

contratado para a Divisão de Estudos Elétricos

do Departamento de Engenharia de Operação,

atuando nas áreas de dinâmica, transitório e

qualidade de energia elétrica. Também teve a

oportunidade de assumir a gerência do Setor

de Ensaios Elétricos do Laboratório Central da

Empresa, em Belém (PA).

“A seguir fui conduzido à Superintendência

de Operação e Manutenção da Transmissão,

sendo que, em 2005, passei a assistente do

Presidente, sendo novamente reconduzido

àquela Superintendência”, cargo em que ficou

até 2008, quando foi convidado para assumir

a Secretaria Nacional de Energia Elétrica. “Assim

como a ascensão na Eletronorte, o convite

para integrar a equipe do Ministério de Minas e

Energia foi um acontecimento natural na minha

carreira profissional. Após um período para

avaliar o convite, decidi aceitá-lo encarando

como uma missão de forma a contribuir para

o desenvolvimento do Setor Elétrico do meu

País, e usando todos os

conhecimentos técnicos

e gerenciais que a

Eletronorte me proporcionou”,

afirma.

A experiência na

Empresa foi fundamental

para o novo

posto: “A Eletronorte

é e continuará sendo

uma grande escola,

pois sempre ofereceu todas as oportunidades

para o meu crescimento profissional e aperfeiçoamento

técnico e gerencial, além de abrir

caminho para a ampliação de meu relacionamento

interno e externo. Foram momentos

de grandes desafios, que me impulsionaram

a fazer o melhor pela organização, além de

incentivar aqueles que trabalharam sob minha

orientação a buscar permanentemente o caminho

dos melhores resultados. Tudo para que a

nossa Eletronorte se mantenha à frente das demais

empresas do Setor Elétrico, conquistando

a credibilidade, disseminando conhecimentos e

tornando a sua marca um símbolo de respeito.

Aprendi que vale a pena acreditar no potencial

das pessoas e com elas fazer acontecer, conquistar

resultados e abrir oportunidades para

o crescimento”.

Do que o Secretário (acima) sente mais falta

da época de Eletronorte são as pessoas com

quem conviveu durante anos e que compartilharam

os seus conhecimentos e experiências,

fundamentais para o seu crescimento profissional.

“Vale ressaltar que, do mais humilde

ao mais letrado, todos, sem exceção, foram

importantes nas conquistas alcançadas durante

minha permanência na Eletronorte”. Com

clima de saudosismo, Josias deixa um recado

aos colegas: “Sintam orgulho de trabalhar na

Eletronorte. É uma Empresa que se preocupa

com o bem-estar dos empregados, que busca o

crescimento de todos, abre oportunidades para

a conquista de novos espaços, está ao seu lado

nos momentos mais difíceis de sua vida e de

seus familiares. Tornem-se guardiões e unamse

por inteiro para manter a Empresa viva e forte

para as futuras gerações. Vocês representam

na essência o maior tesouro, os líderes mais

importantes que com certeza estarão sempre

lutando por uma organização melhor, respeitada

e referencial de excelência”.

O futuro é de volta para casa - Um companheiro

de Josias é Robésio Maciel de Sena,

diretor do Departamento de Monitoramento do

Sistema Elétrico do Ministério de Minas Energia,

cuja carreira na Eletronorte começou em dezembro

de 1980. Robésio conta que, 24 anos depois,

alguns fatos ocorridos no Setor Elétrico salientaram

a necessidade de melhorar a estrutura do

Ministério. “Com esse objetivo, a ministra Dilma

Roussef, à época, solicitou que a Eletrobrás cedesse

empregados das empresas federais, para

compor o quadro ministerial. Na oportunidade

recebi o convite para fazer parte dessa equipe e

desde então estou prestando serviço aqui”.

Na Eletronorte, Robésio (abaixo) iniciou carreira

na Regional de Operação de Mato Grosso.

Ele lembra que depois de quatro anos trabalhando

na Cemig, em Belo Horizonte, aceitou

o desafio na Eletronorte. “O objetivo era desenvolver

profissionalmente, crescer na carreira de

engenheiro, conhecer outros locais e contribuir

para o desenvolvimento do Norte do País. Passados

29 anos, considero que obtive quase tudo

que planejei, aprendi muito no lado profissional

e pessoal. Consegui um patrimônio de forma

honesta, que dá segurança à minha família. Sou

muito grato por tudo que pude obter

nesses anos de trabalho”.

Depois de Mato Grosso, trabalhou

no Maranhão e em Brasília,

onde atuou na Divisão de Treinamento

e Desenvolvimento, foi

assistente do Diretor de Operação,

passou pela Divisão de Operação e

Manutenção da Geração Hidráulica,

encerrando - por enquanto

- a carreira na Eletronorte na

Superintendência de Operação e

Manutenção da Transmissão, em

2005. Para ele, toda a experiência

adquirida na Empresa está sendo

útil no trabalho desenvolvido hoje em dia. “As

atividades daqui têm uma variedade muito

grande e a habilidade, capacitação e experiência

adquiridas na Eletronorte estão sendo

fundamentais para a execução delas. Ainda

não conheci nenhum outro local melhor para

trabalhar, aprender, crescer profissionalmente

e ser valorizado e com tantos benefícios”.

Dos tempos de Empresa, Robésio fala do

que mais sente falta, e dá um conselho aos

que continuam na Eletronorte: “O que mais

sinto falta são as relações profissionais, que

são mais informais, a objetividade das ações e

a obtenção de resultados, o trabalho de campo

nas regionais. Quando saímos e conhecemos

outras realidades passamos a reconhecer ainda

mais a grandeza da nossa Empresa, por isso

façam valer esse privilégio de trabalhar na nossa

corrente contínua

33


corrente contínua

34

Eletronorte”. Talvez por isso, o futuro profissional

de Robésio é de volta para a sua ‘segunda

casa’: “Não penso em parar de trabalhar tão

cedo. Enquanto estiver sendo útil no Ministério

vou ficando por aqui. Penso sim em voltar à

Eletronorte, pois acredito que ainda posso contribuir

muito. Trabalhar na Eletronorte sempre

me orgulhou e quando você faz o que gosta não

existe diferença entre lazer e trabalho”.

De Minas para o Norte. Do Norte para

Minas - Jorge Ivanovitch de Sousa (abaixo) é

gerente de Manutenção de Infraestrutura de

Telecomunicações da Cemig. Mas não foi sempre

que ficou em terras mineiras. Ele saiu da

sua terra natal rumo a Tucuruí (PA), em 1986.

Na Eletronorte, Ivanovitch atuou na área de

Suprimentos, a começar pelo Departamento de

Contratos Especiais, no Grupamento Industrial

Tucuruí-Extensão, cuidando da coordenação

de contratos das máquinas 9 a 12. “Depois

gerenciei a Divisão de Obras e Licitações e o

Departamento de Atendimento de Suprimento

à Geração e Instalação. Quando fui cedido,

estava como assistente do Diretor de Gestão

Corporativa”, conta.

A vida pessoal de Jorge evolui juntamente

com a experiência adquirida na Eletronorte.

“Quando fui do sul de Minas Gerais para a

Eletronorte era casado há pouco tempo e o meu

primeiro filho era bebê. Hoje ele tem 23 anos e

já está formado em engenharia elétrica, como

eu. Minha filha fez o caminho inverso, nasceu

em Brasília e hoje tem 20 anos, cursa nutrição

na Universidade Federal de Minas Gerais. Fui

cheio de planos e sonhos e muitos deles se

transformaram em realidade. Muito do que

sou hoje devo à Eletronorte: tive a felicidade

de trabalhar com grandes mestres – Warfield,

Neiron, Brasil, Xavier, Ronaldo Alves, Almendra,

José Antônio Coimbra, Zenon, Benjamin, Tião

Otaviano, entre tantos outros e procurei aprender

muito com eles”, recorda.

Porém, o coração desse mineiro apertou e ele

voltou à sua terra: “Eu busquei a cessão para a

Cemig por motivos particulares, uma vez que

minha família reside em Belo Horizonte desde

2001, quando vim cedido para a Agência Nacional

de Telecomunicações – Anatel”. Jorge está

na Companhia há um ano e meio, após oito anos

de trabalho na Agência. Da Eletronorte, obteve

uma ótima experiência em lidar com pessoas e

em gerenciar conflitos. “Desde o início exercitei

esses pontos. Eu me formei profissionalmente

com grandes mestres e aprendi bastante também

com as viagens para a Região Norte, que

não conhecia e que me mostraram um País

bem diferente do que já havia vivenciado. Nós

trabalhamos numa das melhores empresas do

Brasil, e apenas quando estamos cedidos é

que verificamos isto mais fortemente. Espero

retornar em breve!”

Filho da Eletronorte - A história de outro mineiro,

Zenon Pereira Leitão, também se confunde

com a da Eletronorte. Zenon está na Empresa

desde seus 19 anos de idade. O aprendizado

lhe rendeu o cargo de assessor de Relações

Institucionais e Parlamentares da Eletrobrás,

onde está há um ano e meio. “A Eletrobrás

não dispunha de uma assessoria parlamentar

e entendíamos que era uma lacuna. Com a

chegada do presidente José Antonio, em abril

de 2008, e a aprovação da lei que transformou

a holding em uma empresa internacional – somadas

ao conhecimento do Presidente acerca

do trabalho realizado na Eletronorte -, foi sugerida

a criação da área e ele acatou a sugestão,

entendendo que eu poderia contribuir, o que

muito me honrou”.

Na Eletronorte, o que não faltaram foram possibilidades

de crescimento a Zenon, e talvez por

isso sua experiência em outro lugar tenha vindo

apenas depois de 33 anos na Eletronorte: “Eu

nunca havia sido cedido a um órgão externo.

Sempre relutei muito, pois sou muito apegado

à Empresa e às pessoas, mas a experiência

está sendo boa e estou fazendo tudo para bem

representar a Empresa”, afirma Zenon.

Ele lista as áreas por onde passou: “Iniciei

no Departamento de Operação e Manutenção

e depois trabalhei na assessoria da Diretoria de

Operação. Em seguida passei pela Gerência da

Divisão Administrativa da Regional de Transmissão

de Mato Grosso e exerci a mesma função na

Regional de Transmissão do Maranhão. De volta

a Brasília, fui gerente da Divisão de Benefícios,

assistente do Diretor de Produção e Comercialização,

e diretor de Benefícios da Previnorte”.

Zenon (acima) ainda voltou a ser assistente

da diretoria, quando, em junho de 2004, foi

designado assessor Parlamentar da Eletronorte.

“Com o apoio de alguns colegas, montamos a

Assessoria Parlamentar onde, em semelhança a

outras grandes instituições, foi possível realizar

um trabalho muito importante, quando passamos

a acompanhar a tramitação de projetos de

lei no Congresso Nacional, de interesse do Setor

Elétrico, receber as autoridades, dispensando a

elas um atendimento profissional, o que acabou

contribuindo para o fortalecimento da imagem

da Eletronorte”.

Com a fusão da Assessoria Parlamentar com

a Superintendência de Comunicação Empresarial,

Zenon ainda foi coordenador de Comunicação

até 2008. O conhecimento da Eletronorte

inspirou a holding: “Estamos aplicando na

Eletrobrás os conhecimentos adquiridos na

Eletronorte, para a estruturação da Assessoria

de Relações Institucionais e Parlamentares,

que atenderá também às demais empresas do

Sistema Eletrobrás”, afirma.

Zenon não se esquece dos personagens

de sua história na Eletronorte: “Tudo que sei

e tenho, devo à Eletronorte, e embora tenha

começado a trabalhar aos 15 anos de idade, a

minha grande experiência foi nessa extraordinária

Empresa. Ingressei como nível médio, cursei

administração de empresas e aproveitei todas

as oportunidades, sempre me aperfeiçoando e

trabalhando em várias áreas, inclusive no chão

de fábrica, o que me deu uma experiência muito

importante. A Eletronorte é parte da minha vida.

Deixei muitos amigos, afinal foram 33 anos de

convívio. Sinto muita falta. Por isso, sempre que

possível, procuro almoçar na praça da alimentação

onde está instalada a Empresa, para matar a

saudade de amigos que encontro pelo caminho.

Alguns dizem que no trajeto entre o Edifício Varig

e o prédio da Eletronorte eu pareço político,

cumprimentando a todos. Digo que sempre fui

assim, não mudarei nunca e fico muito feliz ao

reencontrar os colegas. Me faz muito bem”.

Levando precisão para a holding – Ainda na

Eletrobrás, um dos colegas de Zenon é Moisés

Aben-Athar, que trabalhou exatamente 29 anos

e dois meses como empregado da Eletronorte,

“acrescidos de dois anos como empregado da

Celpa, cedido, até chegar na Eletrobrás, onde

estou há um ano e cinco meses”. Tanta exatidão

não teria outra justificativa senão a profissão

de Moisés, economista. Na Eletronorte, levou

a precisão com números às áreas de logística

e financeira. “Eu tive a felicidade de chegar à

Eletronorte quando tudo ainda era novidade,

desafios e permanente crescimento profissional,

superando, em muito, as minhas melhores expectativas

relativas a uma grande empresa, pois

ao mesmo tempo em que aprendia, tinha a oportunidade

de repassar os meus conhecimentos

e experiências a tantos outros companheiros, o

que nos fez crescer juntos com a Empresa”.

Moisés conta que a Eletronorte continua

sendo a força motora da sua vida. “O presidente

José Antonio, conhecendo o meu trabalho, fez

o honroso convite para integrar o quadro de

colaboradores da Eletrobrás, e levei todos os ensinamentos

e experiências vivenciadas nas mais

diversas áreas de trabalho da Eletronorte. Sem

dúvida alguma, o trabalho e desafios enfrentados

durante todo o meu tempo de Eletronorte

estão sendo de enorme valia nas minhas atuais

atribuições, que requerem um conhecimento

profundo do Setor Elétrico brasileiro.

Da Eletronorte, Moisés (abaixo) sente falta

dos desafios típicos de uma grande Empresa.

“Tive a oportunidade de participar de todos os

seus momentos, a partir praticamente da sua

criação e que marcou indelevelmente a minha

vida”. Aos colegas que aqui deixou fica a mensagem:

“A Eletronorte marca para sempre a

vida de todos aqueles que têm a felicidade de

integrar o seu quadro de colaboradores, e têm

a oportunidade de desenvolvimento profissional

e social, aliada a uma política de benefícios e

proteção aos trabalhadores, sem precedentes

em qualquer outra empresa”.

corrente contínua

35


EnERgIA AtIVA

corrente contínua

36

Para transformar processos, mudar atitudes,

vencer desafios e gerar resultados, duas palavras:

eficiência e crescimento

A competição em leilões de empreendimentos de geração

e de transmissão, a questão da renovação das concessões,

a transformação do Sistema Eletrobrás e a resolução de

problemas estruturais colocam a Eletronorte diante de novos

desafios empresariais. Para alcançar novo patamar de eficiência

operacional e de crescimento, alinhado às iniciativas do

planejamento estratégico, a Empresa está desenvolvendo o

projeto Eficiência e Crescimento, que prevê, entre outras coisas,

a implantação de 111 iniciativas num período de três anos, que

possibilitarão ganhos superiores a R$ 150 milhões por ano.

Confira nesta entrevista com o diretor-presidente da Eletronorte,

Jorge Nassar Palmeira, as informações sobre o andamento do

projeto, os benefícios esperados e como ajudar a alavancar o

desempenho empresarial.

O que vem a ser o projeto

Eletronorte Eficiência e Crescimento?

O projeto surgiu a partir do desdobramento do

Plano Estratégico 2009/2011. Além das medidas

estruturantes do objetivo 3, ficou clara a necessidade

de se promover a eficiência dos processos

empresariais, a redução de perdas e custos e o

aperfeiçoamento da gestão, preconizados nos

objetivos 6, 7 e 8. Esse conjunto de medidas é

que possibilitará a obtenção do lucro.

Quais são essas medidas estruturais?

Entre elas, podemos citar a Medida Provisória

nº 466, recentemente aprovada, que vai

regularizar a questão dos sistemas isolados, que

vêm causando grandes prejuízos à Eletronorte

ao longo dos anos. Há também a federalização

da Companhia Energética do Amapá – CEA, que

tem uma dívida de cerca de R$ 600 milhões com

a Eletronorte. Uma vez federalizada, passando

para o controle da Eletrobrás, poderemos fazer

um encontro de contas e saldar parte da nossa

dívida com a holding. Depois, o repasse para as

concessionárias estaduais dos ativos de transmissão

abaixo de 230 kV. Já fechamos o laudo

do Acre e Rondônia e somente nesses estados

vamos ter uma receita de R$ 300 milhões que

também nos levarão a outro encontro de contas

com a Eletrobrás. Tem ainda a reversão da provisão

de Balbina, de R$ 275 milhões. Por sua

vez, a Eletrobrás está fazendo a reavaliação dos

ativos de todas as empresas do Sistema, com

vistas à capitalização, e a Eletronorte poderá

saldar mais uma parte de sua dívida deixando de

pagar juros e correção monetária para começar

a pagar dividendos. Mas temos outras ações

importantes em andamento, que também vão

nos ajudar a conseguir o máximo de eficiência

e crescimento.

O projeto está alinhado ao plano de

transformação do Sistema Eletrobrás?

Qual a importância dele para

todos os atores envolvidos?

Sim, o projeto Eletronorte Eficiência e Crescimento

está perfeitamente alinhado ao plano de

transformação da Eletrobrás, seguindo a diretriz

emanada pelo Presidente da República de fazer

da holding uma megaempresa que conquiste o

mundo com a mesma respeitabilidade da Petrobras.

Nós já apresentamos o nosso projeto no

âmbito do Conselho Superior do Sistema Eletrobrás-

Consise, onde foi bem acatado pelos dirigentes

de todas as empresas do Sistema, inclusive

algumas já estão se movimentando no sentido

de programar algo semelhante. O importante é

que vamos produzir resultados financeiros que

sustentarão o nosso crescimento empresarial. A

Eletronorte será um grande ator na expansão do

sistema elétrico brasileiro, notadamente na região

onde vem atuando, a Amazônia, como um consolidador

de parcerias para a realização de grandes

empreendimentos de geração e transmissão de

energia elétrica. É fundamental que a Empresa

tenha capacidade financeira para participar de

novos negócios.

Como estão sendo desenvolvidas

as etapas do projeto?

Como disse, tudo começou com o planejamento

estratégico. Vamos obter o lucro e aumentar o

resultado empresarial equacionando os problemas

estruturais e aperfeiçoando a gestão dos processos.

No desenvolvimento do projeto, tivemos uma

primeira etapa, quando comparamos a Eletronorte

com as outras empresas do Sistema Eletrobrás. Por

que umas dão lucro e nós damos prejuízo? Numa

segunda etapa comparamos o negócio de geração

e de transmissão, e a parte corporativa que suporta

o negócio. Verificamos como estamos de produtividade

em comparação com as empresas do

Sistema e outras concessionárias de capital aberto.

Numa terceira etapa identificamos as iniciativas e

estamos implementando os planos de ação. Diria

que primeiro fizemos uma fotografia, depois uma

radiografia e agora uma ressonância magnética

para identificar oportunidades de reduzir custos

e aumentar a produtividade.

Houve envolvimento do

corpo funcional da Empresa?

Para quando estão previstos resultados?

Mais de 100 técnicos e 80 gerentes da Empresa

têm participado desse processo. Na realidade,

todas as iniciativas vislumbradas como possibilidades

de melhoria de gestão e processos foram

formuladas pelo nosso corpo técnico. A consultoria

contratada entra apenas com o apoio metodológico

para que consigamos maior velocidade e capacidade

de gerar soluções. A Diretoria Executiva

já definiu uma meta de redução de custos e as

13 equipes de melhorias já trabalham iniciativas

para mudar o patamar de produtividade. A meta,

quando todas as iniciativas estiverem implementadas,

é de, até 2013, conseguir uma redução de

custos superior a R$ 150 milhões por ano, que

serão destinados ao crescimento da Empresa,

nos investimentos em novos negócios. Na terceira

etapa do projeto estamos detalhando os planos

de ação das 111 iniciativas identificadas pelos

grupos, de modo a colher resultados a partir de

setembro de 2009. Em novembro próximo termina

o trabalho da consultoria e a partir de dezembro

a Empresa toca o projeto sozinha até 2013. Cada

gestor de empreendimento, cada gerente envolvido

será responsável pelo compromisso junto

à Diretoria, inclusive com a assinatura de um

contrato de gestão.

Certamente, os resultados dos

planos e do próprio projeto levarão

ao fortalecimento da Empresa

em sua participação em leilões

de geração e transmissão.

Sem dúvida. É importante entender por que a

Eletronorte participa de sociedades de propósito

específico em novos negócios. Não é apenas pelo

desenho do modelo atual do Setor Elétrico. Primei-

ro, ao fazer um empreendimento de grande vulto,

precisamos dos valores de investimento definidos

no Orçamento Geral da União. Sem saber se vamos

ganhar ou não um leilão, como orçar valores

vultosos que terão impacto nas contas públicas

via superávit primário? Depois, precisamos de

agilidade. Como Empresa estatal, estamos presos

à legislação e a processos burocráticos com os

quais não conseguimos enfrentar as verdadeiras

batalhas que são os leilões. Em parceria com a

iniciativa privada ganhamos a agilidade necessária.

Finalmente, graças ao trabalho das equipes

envolvidas, conseguimos aperfeiçoar o processo

econômico-financeiro. Na verdade, quem ganha

o leilão não é a parte técnica, mas a engenharia

financeira.

O que podem esperar

empregados e gerentes do projeto

Eficiência e Crescimento?

Lançamos o projeto durante as comemorações

dos 36 anos da Eletronorte, no último dia 13 de

agosto, e reforçamos a mensagem: ninguém dê

ouvidos aos mensageiros do apocalipse! Não

haverá demissões, nem punições. Queremos

pedir tranquilidade e trabalho em prol de uma

Empresa melhor. Acabamos de reformular o quadro

de pessoal e certamente haverá um plano de

desligamento voluntário, o que já vem ocorrendo

em outras empresas do Sistema Eletrobrás. Mas

tudo para melhorar a eficiência empresarial, sem

nenhuma outra conotação política ou técnica.

Uma novidade criada diretamente pela Diretoria

é a figura do gerente de empreendimentos, que

vai acompanhar a obra do começo até o final,

para garantir a taxa de retorno e principalmente

acompanhar os prazos e não deixar nenhum furo.

Agora, os gerentes são os gestores de todos os processos

e precisam ter uma postura diferenciada,

não somente para acompanhar procedimentos,

mas acompanhar custos e prazos essencialmente.

Não dá, por exemplo, para uma obra nossa atrasar

45 meses; ou a Empresa gastar R$ 2,4 mil para

comprar R$ 400. O comprometimento com prazos

e custos deve ser de todos.

Uma mensagem final.

Eu entendo que o projeto Eletronorte, Eficiência

e Crescimento é positivo para todas as partes

interessadas. Para a Eletrobrás, que terá uma

controlada dando resultados em vez de prejuízos.

Para os empregados uma Empresa forte,

focada na sustentabilidade. Para a sociedade

brasileira, a garantia de um suprimento de energia

elétrica com mais qualidade. Não é um projeto

desta Diretoria, mas de todos nós, que teremos

uma Empresa blindada contra ações externas,

fortalecida no que tem de melhor. Isto é extremamente

importante: entender que esse projeto é

fundamental para garantir o nosso futuro, a nossa

empregabilidade.

corrente contínua

37


mEIo AmBIEntE

corrente contínua

38

um corredor para

a biodiversidade

Avaliação e monitoramento das comunidades de

vertebrados em Tucuruí aponta caminhos promissores

Michele Silveira

Imagine um corredor com paredes de floresta.

Enquanto seus passos amassam as folhas

que cobrem o chão, um rápido macaco cuxiú

pula de uma árvore para outra com a mesma

agilidade com que um jacu se equilibra entre os

galhos das árvores ao seu lado. Apesar da ideia

de um corredor ser muito familiar a qualquer

um de nós, pensar num espaço assim dá uma

sensação de dever cumprido. Pelo menos é o

que devem sentir alguns dos pesquisadores

que, desde 2004, dedicam-se ao projeto “Avaliação

e Monitoramento das Comunidades de

Vertebrados na Área de Influência do Reservatório

da Usina Hidrelétrica Tucuruí”. O corredor

é uma das propostas indicadas pelo grupo de

pesquisadores e ligaria a Terra Indígena Parakanã

à Base 3, uma das áreas onde a pesquisa foi

realizada. “O ideal é que tivéssemos essa conectividade,

para que se mantenham as áreas

de preservação efetivamente, constituindo um

corredor para que as espécies se desloquem e

garantam a biodiversidade. É uma ação difícil,

mas possível. É preciso uma articulação com

moradores do entorno do lago de Tucuruí, órgãos

ambientais, prefeituras, enfim, uma ação

integrada”, explica o analista

ambiental da Eletronorte,

Rubens Ghilardi Junior.

Um dos compromissos da

Eletronorte com o processo de licenciamento

ambiental da Hidrelétrica junto à

Secretaria de Meio Ambiente do Estado do

Pará, o projeto foi viabilizado entre a Empresa

e o Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG; por

meio da Sociedade Zeladora do MPEG e com a

participação de pesquisadores da Universidade

Federal do Pará - UFPA e do Instituto Nacional

de Pesquisas da Amazônia – Inpa. O projeto

representa a consolidação do Subprograma

de Monitoramento, Manejo e Conservação da

Fauna, proposto no processo de licenciamento

ambiental da Usina, e tem permitido o desenvolvimento

de pesquisas relevantes sobre a

diversidade, ecologia e conservação da fauna

de vertebrados no sistema formado pelo reservatório,

incluindo suas margens e ilhas, estabelecidos,

desde 2002, como Área de Proteção

Ambiental – APA do Lago de Tucuruí.

Fauna ameaçada - A macrorregião de Tucuruí

é considerada como área prioritária para

conservação. Lá estão espécies que constam

na lista oficial do

Ibama, como o cuxiús

(Chiropotes sp), macaco-caiarara

(Cebus kaapori), onça-pintada (Panthera

onça), ariranha (Pteronura brasiliensis),

tatu-canastra (Priodontes maximus) e as aves

jacamim-de-costas-verdes (Psophia viridis) e

ararajuba (Guaruba guarouba). Até o final da

pesquisa foram identificadas 481 aves, 36 mamíferos

de médio e grande porte, 36 anfíbios,

39 répteis terrestres, três jacarés e quatro tartarugas.

Inclusive, a margem direita se destaca

por abrigar uma população de Cebus kaapori,

considerada a espécie de mamífero mais

ameaçada da Amazônia. Além disso, a área de

soltura conhecida como Base 4 é considerada

importante refúgio para a fauna de mamíferos.

E os botos? O estudo revelou a presença da

espécie Inia geoffrensis,

o chamado

boto-cor-de-rosa. Entretanto,

não há um consenso sobre a presença

do boto-tucuxi, de cor cinza. Mas os moradores

a jusante da barragem garantem que ele

aparece por lá.

Durante três anos o projeto investigou e

avaliou o atual estado de conservação de anfíbios,

répteis, aves e mamíferos, levando em

consideração as modificações resultantes da

formação do lago de Tucuruí. De acordo com

Ghilardi, os estudos sobre a fauna terrestre se

concentraram nas duas zonas de Preservação

de Vida Silvestre (ZPVS) da APA, localizadas nas

bases de soltura 3 e 4. Já as espécies aquáticas

e semiaquáticas, compostas principalmente

por jacarés, quelônios, botos e aves, foram

estudadas em várias regiões do lago. Também

foram feitas análises das atividades de caça

nas áreas das reservas de Desenvolvimento

Sustentável (RDS) Pucuruí, Ararão e Alcobaça,

além da ocorrência de agentes infecciosos em

carnívoros silvestres, bem como em animais

domésticos, potencial fonte de risco de transmissão

de doenças à fauna silvestre.

corrente contínua

39


corrente contínua

40

Ainda em 2006, um seminário avaliou os

resultados preliminares do estudo. Reunidos no

Núcleo de Altos Estudos Amazônicos - NAEA,

em Belém, pesquisadores explicaram que o

inventário de diferentes grupos de fauna resultou

na geração de diversos dados que podem

ajudar no estudo dos efeitos causados pela

fragmentação de florestas sobre a diversidade

das espécies. Praticamente todas as equipes do

projeto observaram a presença de atividade de

caça nas áreas estudadas, o que indica a necessidade

de maior esforço de conscientização

das comunidades locais.

Ilhas - Segundo Rubens Ghillardi, uma das

linhas de pesquisa foi avaliar quais das cerca de

1.700 ilhas do lago seriam mais significativas.

“As ilhas maiores e mais próximas ao continente

são as mais importantes para a manutenção da

biodiversidade e, de posse dessa informação,

sabemos como atuar de forma mais efetiva.

Outra constatação importante foi confirmarmos

que nas duas margens temos espécies diferentes,

e por isso é fundamental a manutenção das

duas áreas para a biodiversidade”

O responsável pelo convênio, o biólogo e

coordenador da equipe de Zoologia do Museu

Goeldi, professor Ulisses Galatti, lista os principais

objetivos do projeto: indicar o estado de

conservação de anfíbios, répteis, aves e mamíferos

em relação às modificações no ambiente

causadas pela formação do lago de Tucuruí;

avaliar a importância das Zonas de Preservação

da Vida Silvestre (ZPVS) para a conservação da

fauna local; e estabelecer as bases para um

programa de monitoramento, conservação e

manejo da fauna. Mas do início das pesquisas

até a entrega do relatório final – que hoje tramita

na Secretaria de Meio Ambiente do Pará – foram

anos de pesquisas de campo que renderam

muitas histórias em busca da observação de

uma fauna que, na maioria das vezes, é que

parece observar.

É ainda escuro quando acorda a equipe que

acompanha as aves e mamíferos. E é também

escuro quando o pessoal que trabalha com

anfíbios e répteis sai para campo. Há quem

acorde ainda de madrugada e quem não

durma durante a madrugada. De acordo com

Ulisses, a maior parte dos pesquisadores ficou

alojada na Base 4, a cerca de uma hora de

barco da Usina. “Lá há refeitório, cozinheiro e

alguns quartos. O excedente do pessoal ficava

em barracas montadas na parte externa dos

alojamentos e dormia em redes”. Nas chamadas

voadeiras, as equipes fizeram os percursos

até às bases 4 e 3, esta última uma viagem de

três horas. Para as equipes que trabalharam

com tartarugas, jacarés, botos e aves aquáticas,

as voadeiras também eram instrumento

diário de trabalho.

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41


corrente contínua

42

Já no primeiro ano do projeto foram realizadas

mais de 40 expedições de campo para

coleta de dados. “Nesse trabalho enfrentamos

dificuldades técnicas, algumas delas relacionadas

à identificação das áreas mais apropriadas

para o estabelecimento de pontos de amostragem

e instalação de armadilhas”, relata o

pesquisador.

Aprendizado - Para Ulisses é preciso destacar

o apoio do Centro de Proteção Ambiental

– CPA, de Tucuruí e da Superintendência de

Meio Ambiente da Eletronorte. Cerca de R$ 1,6

milhão foi investido na condução das atividades.

O projeto tem atraído o interesse de especialistas

para a condução de estudos de ecologia e

conservação na área do reservatório de Tucuruí.

O primeiro passo na preservação

Antes da formação do lago de Tucuruí, a chamada

Operação Curupira suscitou discussão sobre seu principal

objetivo: procurar garantir a vida dos animais ilhados no

reservatório, além de colaborar com a consciência de um

espírito conservacionista na região, bem como na implantação

de áreas de proteção da fauna. Houve quem criticasse

os custos e a metodologia, e quem afirmasse que os animais

resgatados não sobreviveriam em outras áreas.

Numa época em que ainda não havia legislação ou

compensação ambiental, a Operação Curupira promoveu

a discussão sobre estratégias de conservação; estimulou

estudos numa região pouco conhecida em termos biológi-

Cinco dissertações de mestrado e uma tese de

doutorado, viabilizadas pelo projeto, já foram

concluídas e uma dissertação e uma tese devem

ser terminadas nos próximos anos.

O curso de campo ‘Conservação e Ecologia

de Populações em Áreas Fragmentadas’,

destinado a alunos de mestrado e doutorado,

foi realizado em 2006 e 2007 como disciplina

regular do programa de pós-graduação

em zoologia da UFPA e do MPEG. Esforços

também têm sido direcionados ao repasse

de informações para as comunidades do entorno

do reservatório, por meio de palestras e

cartilhas. “A experiência do curso de campo

foi única, principalmente para os alunos, que

tiveram a oportunidade de treinar a pesquisa

científica, desde a formulação de hipóteses,

cos e propiciou um campo de estudo aos pesquisadores

que dela participaram.

Foram resgatados cerca de 300 mil animais. Além

das dificuldades logísticas, as equipes enfrentam os

desafios da inexistência de experiência prévia do Setor

Elétrico na Amazônia, um cronograma exíguo para o

planejamento, as grandes dimensões do reservatório e

o pequeno conhecimento da fauna local.

Hoje, 25 anos depois, o projeto Avaliação e Monitoramento

das Comunidades de Vertebrados na Área de

Influência do Reservatório de Tucuruí priorizou as áreas

de soltura dos animais resgatados durante a Operação

passando pela metodologia e desenho experimental

adequados, até a apresentação final

dos resultados. Tudo isso em uma área que

engloba florestas conservadas e fragmentadas

na mesma região”, afirma Galatti.

A expectativa agora é que o relatório seja avaliado

e as novas etapas estabelecidas. “Estamos

aguardando o encaminhamento da Secretaria

para então definirmos se haverá um novo convênio,

ou de que forma vamos dar continuidade

a cada uma das ações. As próximas etapas

devem contemplar ações de monitoramento,

com muitas atividades de pesquisa e formação”,

explica o biólogo Ralph Kronemberger

Lippi, analista ambiental da Eletronorte. Com

foco também na educação ambiental, o projeto

oferece dados que podem ser aproveitados por

Curupira. Nos relatórios da Operação, os primeiros

esboços das ideias que, anos depois, seriam pautadas

pela legislação ambiental e consideradas no

relatório final do projeto atual: “Vale salientar ainda,

que os reservatórios, assim que se formam, tendem

a atrair ocupação humana para suas margens, o

que acabará por acarretar devastações na fauna e

flora. Portanto, a simples colocação dos animais nas

margens não lhes garantirá a sobrevivência, a não

ser que as áreas de relocação sejam preservadas.

Essa preservação só será possível pelo manejo das

áreas”. Era o embrião dos corredores.

quem tiver interesse na área ou informações

sobre a biologia das espécies.

Chegar até a proposta de consolidação

daquele corredor ecológico não foi uma tarefa

fácil, menos ainda uma teoria individual. Na

opinião do coordenador, o projeto possibilitou

o desenvolvimento de pesquisas relevantes

sobre a diversidade, ecologia e conservação

da fauna de vertebrados presentes no sistema

formado pelo lago de Tucuruí. As bases 3 e 4,

segundo Galatti, são importantes para estudos

de ecologia aplicada como sobre os efeitos da

fragmentação florestal por implementação de

grandes barragens e ecologia de paisagem, entre

outros temas que fornecem subsídios para o

estabelecimento de estratégias de conservação

biológica no bioma amazônico.

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43


AmAZÔnIA E nÓs

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44

Foto: Isac Pinheiro

Terezinha Félix de Brito

Entre banzeiros e cachoeiras de inúmeros

rios, ou pelos trilhos da lendária Estrada de

Ferro Madeira-Mamoré, ou ainda pelas belezas

tropicais do Vale do Guaporé, do Forte Príncipe

da Beira, e de muitas outras riquezas culturais

e históricas, Rondônia tornou-se conhecida de

brasileiros e estrangeiros. É preciso se aventurar

para entender sobre essa terra tão rica e de muitos

mistérios, de mitos, folclores, lendas, fases,

lutas, superação. Hoje, o Estado de Rondônia

é visto como referencial de desenvolvimento,

Rondônia:

diversidade,

superação e

desenvolvimento

principalmente pela construção das usinas

do Complexo do Rio Madeira (Jirau e Santo

Antônio), obras grandiosas do Setor Elétrico

brasileiro.

A história de Rondônia é marcada pela

construção da Estrada de Ferro Madeira-

Mamoré, que nasceu da necessidade de

permitir o escoamento de produtos ao país

vizinho, a Bolívia, até o Pacífico. Ao longo

de 400 km de distância entre Porto Velho e

Guajará-Mirim, a obra foi construída por meio

do ‘Tratado de Petrópolis’, que colocou fim à

questão do Acre (1899-1902), anexando-o

ao território brasileiro. Com a construção da

ferrovia, em apenas dois anos, a capital Porto

Velho foi considerada uma cidade cosmopolita

no meio da selva e em pleno início do século

XX era comparada com cidades europeias.

Por lá já havia serviço de esgoto e telefone.

Geradores de eletricidade eram responsáveis

pela iluminação pública e, no cais, lâmpadas

de arco voltaico permitiam o trabalho

noturno. Foram montadas também fábricas

de biscoitos, de gelo, padarias, lanchonetes,

lavanderias, cinemas, hospitais, banda de

música e tipografia. Eram poucos os estados

da Federação que possuíam empreendimentos

semelhantes.

Mesmo com toda tecnologia e conforto, a cidade

que foi o berço da ‘Ferrovia do Diabo’, como foi

intitulada pelo jornalista Manoel Rodrigues Ferreira,

fascinou muita gente e, ao mesmo tempo,

tornou-se motivo de decepção para aqueles que

se aventuraram num lugar até então desconhecido.

Há um mito de que cada dormente da obra

equivale à morte de um trabalhador. Atualmente,

o complexo ferroviário é um dos pontos turísticos

mais visitados, atraindo a curiosidade de pesquisadores,

estudantes e turistas.

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Fotos: Isac Pinheiro

Porto

Velho, a

capital

está

rodeada

de rios e

florestas

Miscigenação – Entre as décadas de 1960

e 1990, Rondônia recebe um grande número

de migrantes, em decorrência da euforia

econômica estimulada por grandes investimentos

do Governo Federal para povoar

a Região Norte. O estado é um verdadeiro

mosaico de diferentes culturas, de muitas

identidades, de miscigenação face à chegada

de brasileiros de todas as regiões, principalmente

de São Paulo, Minas Gerais, Rio

Grande do Sul, Paraná e parte do Nordeste,

além da forte descendência indígena. Entre

1960 e 1980, a população cresce quase

oito vezes, passando de 70 mil para 500 mil

habitantes. E somente em 1981, Rondônia

ganha a condição de estado.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia

e Estatística – IBGE, em 2008 a população

foi estimada em 1.493.566 habitantes, o que

representa um crescimento de 2,738% em

relação à contagem de 2007. Pelos números,

Rondônia aparece como o terceiro estado

mais populoso e o mais denso da Região

Norte, possuindo o terceiro melhor Índice de

Desenvolvimento Humano - IDH, o quarto

melhor de educação e a melhor renda de

toda a região.

Os números reforçam também a diversidade

natural. Rondônia tem o privilégio de situar-se

na divisa com Amazonas, Mato Grosso, Acre

e Bolívia. Dos mais de 238 mil quilômetros

quadrados, dois terços estão cobertos pela

floresta amazônica. Para quem tem paixão

pela natureza em seu estado mais original, vai

encontrar ali as melhores áreas protegidas da

Amazônia brasileira, por meio de uma rede

de conservação de terras indígenas, florestas

tropicais inundáveis, além de savanas, campos

naturais e pantanais.

Nas reservas extrativistas é possível vivenciar

e conhecer os costumes e sabedorias

dos povos da floresta. Nos parques nacionais,

estaduais e municipais são realizados passeios

em trilhas, safáris fotográficos e cruzeiros

fluviais. No total, são dois parques nacionais,

três parques estaduais, três municipais, quatro

reservas biológicas, três estações ecológicas,

24 reservas extrativistas, duas florestas nacionais,

11 reservas estaduais e 21 reservas

indígenas.

A fauna e a flora formam o mais exótico espetáculo

natural. Várias espécies de animais,

vegetação multicolorida e frutos saborosos

fazem parte do ‘cenário’ rondoniense. Ao

todo são 52 municípios, e em todos eles há

sempre algo interessante para ser apreciado

e emoção para quem gosta de aventura. Mas

também há lugares para quem prefere a tranquilidade,

como hotéis-fazenda e pousadas

ecológicas.

História - “Azul, nosso céu é sempre azul.

Que Deus o mantenha sem rival; cristalino,

muito puro. E o conserve sempre assim. Aqui

toda a vida se engalana. De beleza tropical;

nossos lagos, nossos rios; nossas matas, tudo

enfim”. A letra do Hino do Estado de Rondônia,

de composição de Joaquim de Araújo Lima, um

dos ex-governadores, quando ainda se chamava

Território do Guaporé, mostra a fascinação

de quem tem amor pela natureza.

Agora, se o viajante preferir e tiver curiosidade

sobre os monumentos históricos de

Rondônia, tem que dar uma passadinha na

capital, pois quase todos estão concentrados

Rio Madeira,

onde navegam

homens

e vive uma

rica fauna

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Monumentos

e a estrada

de ferro

Madeira

Mamoré:

registros

históricos

em Porto Velho. Como, por exemplo, o Prédio

do Relógio, construído no início do século XX.

Seus belos vitrais mostram os ciclos econômicos

da região. Hoje é sede da Fundação

Cultural e do Museu Estadual. A arquitetura

lembra uma locomotiva estilizada. Já a Praça

das Três Caixas D’Água, vindas embaladas

dos Estados Unidos no começo do século

para servir à Estrada de Ferro Madeira-

Mamoré, é o símbolo oficial da cidade. Ainda

em Porto Velho pode-se conhecer a catedral

do Sagrado Coração de Jesus, construída

em 1927 por padres salesianos, o maior e

mais belo santuário rondoniense. Suas obras

internas e o estilo colonial dão um contraste

interessante à paisagem amazônica. Está

localizada no extremo do bairro Caiari.

Mais à frente fica a sede da Prefeitura Municipal,

à direita o Colégio Barão do Solimões,

um dos institutos educacionais públicos mais

tradicionais da cidade. Nas proximidades também

se encontra o Palácio Presidente Vargas,

sede do Governo do Estado. O prédio, construído

em 1949, foi tombado pelo Patrimônio

Histórico. Foi lá que aconteceu a sessão

pública de instalação do Estado de Rondônia.

Já o Mercado Cultural, construído em 1915,

e que funcionava como Mercado Público,

acabou sendo destruído por um incêndio

em 1966, mas recentemente foi reconstruído

com os boxes originais, únicas estruturas que

resistiram ao fogo criminoso. Atualmente, o

prédio é destinado a eventos culturais e venda

de produtos regionais, além de ser o ponto de

encontro de artistas locais.

A 700 quilômetros da capital, um monumento

histórico é roteiro certo para turistas

interessados no passado da segurança da fronteira

nacional: o Real Forte Príncipe da Beira, à

margem direita do Rio Guaporé, fronteira natural

entre Brasil e Bolívia, que chama a atenção

pela arquitetura rústica do século XVIII.

Artesanato e festas - Sob forte influência

indígena, o artesanato local é geralmente

produzido de forma colorida, alegre e bonita,

Foto: Beth Farias

aproveitando todos os detalhes que a natureza

oferece: sementes, penas de pássaros, dentes

de animais, castanhas, galhos, palhas e madeiras.

São peças simples, mas que surpreendem

por sua beleza. Atualmente, a ‘biojóia’ rondoniense

está sendo amplamente exportada para

diversos países.

Para muitos ribeirinhos, os elementos da

natureza não são apenas cenários, e sim

o modo de se viver de uma comunidade

inteira. À margem de rios, lagos e igarapés,

centenas de famílias mantêm o costume

religioso popularmente conhecido como

festejos. As manifestações de fé têm força

devido às crenças em superstições e mitos,

bem como as lendas da cobra grande, da

mãe da mata, do mapinguari, do curupira e

do boto-cor-de-rosa.

As festas mais expressivas ocorrem ao

longo dos principais rios - Madeira, Mamoré e

A ‘biojóia’ rodoniense

Festa do

Divino: nos

rios e igarapés

se juntam

famílias

brasileiras

e bolivianas

Fotos: Regineth Tavernard

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Guaporé. A religiosidade e a devoção

aos santos padroeiros movimentam

os pequenos distritos, entre eles

Nazaré, Demarcação, São Carlos,

Calama, Prosperidade, Ilha

Grande e Nova Esperança. Ao

contrário das grandes cidades

brasileiras, as procissões

nesses lugares

são realizadas

à beira dos ‘barrancos’.

Judith

dos Santos, de

86 anos (foto

abaixo), participa

até hoje dos festejos

do distrito de São

Carlos. Ela fala com

entusiasmo sobre a

devoção que os

moradores desses

pequenos

lugarejos têm pelos santos

padroeiros: “Desde que me

entendo por gente estou envolvida

nessas festas, que são

extremamente sagradas para

nós ribeirinhos.

Tive dez filhos, e todos

de parto normal, e tenho certeza

que todos eles tiveram a proteção

divina desde o nascimento”.

Já no Vale do Guaporé, a Festa

do Divino Espírito Santo é uma

das maiores e mais importantes,

pois aproxima famílias ribeirinhas

bolivianas e brasileiras. A peregrinação

das comunidades que

moram às margens dos rios Mamoré

e Guaporé - que fazem divisa

com o Brasil e a Bolívia - mobiliza

principalmente as cidades de Costa Marques,

Pedras Negras, Rolim de Moura do Guaporé,

Pimenteiras, Versalhes, Remanso e Piso Firme,

sendo as três últimas na Bolívia.

Jerico – Já ouviu falar da Fórmula 1 da

Amazônia? Não? Então imagine um cenário

com arquibancadas, camarotes, bandeirolas

e, na pista, muita lama, pilotos cheios

de adrenalina fazendo diversas curvas em

‘supermáquinas’. Jericódromo, esse é o lugar

onde se pratica a Corrida de Jericos Motorizados.

Os ‘jericos’ são montados a partir de

peças de modelos diversos. Cada jerico chega

a até 60 km/h e possui força para puxar um

Folharal, personagem exclusivo

do boi-bumbá estadual Corrida maluca: jericos motorizados chegam a 60 km/h

caminhão. O esporte inventado por produtores

rurais tem público certo, já que a corrida

é realizada todos os anos em comemoração

ao aniversário da cidade de Alto Paraíso. Este

ano a pequena cidade recebeu mais de 30

mil pessoas.

Na capital, a peça o ‘Homem de Nazaré’,

com mais de 300 integrantes, é encenada na

cidade cenográfica Jerusalém da Amazônia, o

segundo maior teatro a céu aberto do mundo.

A peça foi criação do Grupo Êxodo, formado por

jovens religiosos que disseminam a arte e a fé

num espaço no meio da floresta. Agora entre todas

as manifestações culturais, a que não pode

deixar de ser citada é o Flor do Maracujá.

O mundo fascinante das lendas e mitos

tradicionais da Amazônia são revelados em

dez noites no maior arraial do Norte do Brasil,

que acontece há 28 anos em Porto Velho.

Botos que dançam e emprenham donzelas,

iaras que seduzem os homens e os levam

para seus reinos encantados, e o Folharal,

personagem exclusivo do boi-bumbá estadual.

Além de contar com personagens tradicionais

de quadrilha como os doutores da vida e da

cachaça, seringueiro, caçador, personagens

que traduzem a cultura local.

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De acordo com a professora e historiadora

Yêdda Pinheiro Borzacov, a festa foi batizada

como Flor do Maracujá porque as moças, em

meados da década de 1950, embelezavam

seus cabelos com as exuberantes flores da

fruta, que ali existiam, no terreiro onde a

comunidade dança. “Os moradores nomearam

a quadrilha em homenagem às flores

do maracujá, que durante o mês de junho

apareciam em abundância naquela região.

Os rondonienses têm orgulho de realizar uma

das maiores e mais expressivas festas com

manifestações da cultura indígena e nordestina”,

afirma Yedda, que foi também uma das

idealizadoras do evento.

Culinária - A cozinha rondoniense é farta

em aromas e sabores, devido à multiplicidade

de pratos que acrescentaram peculiaridades

de cada região brasileira e receitas de outros

países. De acordo com Débora Cavalcante,

que trabalhou durante 24 anos na área de

turismo, Rondônia adotou vários pratos de

diferentes lugares. “Nossa gastronomia tem

forte influência do Brasil inteiro, pois aqui foi

um dos lugares que mais recebeu migrantes de

todo o território nacional”, afirma. Os cardápios

dos restaurantes locais acrescentam aos pratos

migrados, ingredientes que a floresta oferece.

Portanto, não tenha medo de se deliciar com

pratos como churrasco, feijoada, caruru, pato

no tucupi, baião de dois, arroz carreteiro, maniçoba,

vatapá, tacacá, entre outros.

Mas o forte da culinária rondoniense são os

peixes amazônicos, que têm como traço cultural

característico a técnica de preparo indígena.

Seja de couro ou de escama, de pequeno

ou grande porte, frito, assado, ou cozido, são

inúmeras as receitas, e entre as espécies mais

consumidas estão tucunaré, tambaqui, jatuarana,

piranha, dourado, cachara, pacu, sardinha,

pirarara, pirapitinga e o pirarucu. Conhecido

como bacalhau da Amazônia, o pirarucu pode

ser consumido com farinha d’água, temperado

com limão e pimenta de cheiro, pode ser preparado

seco, salgado ou fresco, com os mais

variados condimentos nativos.

Já uma das marcas deixadas pelo país

vizinho foi a Salteña. De influência boliviana, a

Salteña é recheada com batata, carne bovina

ou frango, e é o pedido certo em qualquer

barzinho, padaria, lanchonete de escolas e

praças ou feiras das cidades que ligam Porto

Velho a Guajará-Mirim, município que fica na

fronteira com a Bolívia. Saltenã com suco de

cajá é uma delícia!

Aprenda a saborosa

receita do ‘pirarucu

metido a besta’

Ingredientes

(para duas pessoas)

· 500g de pirarucu em lascas (seco)

· 2 batatas

· 1 pimentão

· 2 tomates

· 3 cebolas

· 2 ovos

· Azeitonas verdes

· Ervas de cheiro e urucum

Preparo:

· Deixe o pirarucu de molho durante 12

horas em água fria, trocando de tempo em

tempo. Escorrer.

· Corte a metade da cebola em rodelas e

despeje no fundo da panela de barro.

· Coloque as lascas de pirarucu e distribua,

por igual, as rodelas de batata, o

restante da cebola, tomate, pimentão, os

ovos e as azeitonas.

· Regue com tintura de urucum e as

ervas de cheiro.

· Deixe cozinhar com a panela tampada,

por 20 minutos.

· Se necessário, acrescente sal a

gosto.

· Sirva com arroz branco e pirão.

Receita preparada pela chef

Débora Cavalcante, do restaurante

Beiradão, Porto Velho (RO)

O ipê-amarelo

que virou poste,

ou o poste que

virou ipê-amarelo

Na década de 1980, um poste de

madeira foi fincado na esquina da

Avenida Jatuarana com a Rua Cravo

da Índia, no bairro Cohab Floresta,

em Porto Velho. Até aí tudo bem.

Durante alguns anos era apenas

um entre tantos na cidade. Num ato

silencioso e inusitado, após algum

tempo o ‘poste’ se rebela exigindo

seu espaço, na luta contra fios e

ferragens colocados pelo homem a

serviço do abastecimento da rede de

energia elétrica. Dele surgem galhos

e flores, e sua verdadeira identidade

é descoberta: um ipê-amarelo. Foi

uma surpresa para os moradores

do local, que sensibilizados com

a ousadia da natureza, passaram

a ser verdadeiros guardiões e contempladores

do ‘poste-ipê’.

Com o objetivo de preservá-lo,

a Secretaria do Meio Ambiente

solicitou à empresa distribuidora

de energia elétrica estadual que

fosse transferida a fiação para um

poste de concreto, instalado ao

lado da árvore. Hoje, o ipê não é

mais poste, mas ainda é possível

ver no tronco dele a ferragem onde

passava a fiação. Curiosos de vários

lugares já passaram pelo local para

conferir a história do ipê teimoso,

que floresce sempre no final do mês

de julho ou início de agosto, e que

virou uma doce atração na cidade.

“É uma obra da natureza que não

tem explicação”, diz o comerciante

Diocleciano Nogueira, morador do

bairro desde 1985. “Plantei quatro

mudas dele em frente à minha casa

e já enviei também algumas para

fazendas do interior”, conta Diocleciano,

que acompanhou a trajetória

da árvore e o seu desejo de viver,

numa grande demonstração de que

a natureza pode até demorar, mas

não falha.

Fotos: Priscila Leite Costa

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CoRREIo ContÍnuo

corrente contínua

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“Meu nome é Willian de Oliveira Marques, sou o atual presidente do Centro Acadêmico de Engenharia Elétrica da

Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT. Venho buscar informações sobre o recebimento da revista Corrente

Contínua, como me cadastro, o que é necessário para receber. É importante ser dito que esta revista irá circular entre os

acadêmicos da instituição, e seria muito importante que os estudantes tivessem acesso a revistas do setor para ficarem

antenados com as novidades que são frequentes em nossa área. Desde já agradeço”.

Willian de Oliveira Marques - Cuiabá - MT

“Prezado senhor Jorge Palmeira, diretor-presidente da Eletronorte, cumprimentamos vossa senhoria e agradecemos o envio

da revista Corrente Contínua da Eletronorte. Na oportunidade, informamos o nome do novo secretário de Estado da Agricultura,

Pecuária e Abastecimento, Sr Gilberto Uemura. No ensejo, colocamo-nos à disposição para futuras parcerias”.

Francisca Jane Rios Gonçalves

- Chefe de Gabinete da Seapa

“Cara Érica, somente hoje tive condições de fazer a leitura da matéria referente ao GIT. É gratificante esse contato com

uma história cheia de particularidades que, no dia a dia, parece irrelevante, mas depois de algum tempo tem um significado

todo especial. E tudo isso só é possível pela forma organizada como vocês jornalistas relatam tais fatos. É como fazer uma

viagem ao passado e conseguir enxergar cada momento, com suas paisagens e diálogos específicos. Só há duas coisas

a serem ditas no momento: parabéns pelo trabalho e, acima de tudo, muito obrigado pela oportunidade que me deu, de

passear por uma história gratificante de transformação na minha vida”.

Carlos Olimpio Casseb Quebra

- Regional de Transmissão do Pará - Belém - PA

“Prezada Bruna, recebemos a revista Corrente Contínua referente a maio/junho, que contém a entrevista com o

engenheiro Airton Silveira, da Eletrosul. Apenas uma ressalva, já que o nome saiu grafado errado (Airton Araújo Silveira),

quando o correto é Airton Argemiro Silveira”.

Lucimar Mondini Polli

- Assessoria de Comunicação Social e Marketing da Eletrosul - Florianópolis - SC

“Caro Alexandre, acabo de receber o nº 226 da Corrente Contínua e aproveito para parabenizar a todos vocês da

redação e, em especial Byron de Quevedo, pelo belo trabalho da reportagem sobre as eclusas de Tucuruí. Aqui no sudeste

do Pará essa obra é vista como uma urgência, e o tema suscita muito interesse. A reportagem de vocês, inclusive,

fornece dados importantes de pauta para uma abordagem atualizada no nosso jornal Correio do Tocantins sobre o assunto.

Sempre temos colhido boas pautas baseadas no ótimo trabalho desempenhado por vocês. Parabéns e sucesso a todos,

desde a equipe de jornalismo até à de fotografia”.

Patrick Roberto Carvalho

- Editoria do Correio do Tocantins - Marabá - Pará

“Agradeço a doação e o recebimento da revista Corrente Continua, Ano 31, numero 226, maio/junho de 2009. Sua

doação vem ajudando as pesquisas de nossos usuários. Solicito a continuação da doação desta publicação para a Secretaria

de Estado de Meio Ambiente – Sema – Núcleo de Documentação e Arquivo”.

Rosa Elena Leão Miranda

- Bibliotecária da Sema - Belém - PA

“ Senhor diretor-presidente Jorge Palmeira, agradecemos o envio da revista Corrente Contínua, da Eletronorte. Na

oportunidade vimos parabenizá-lo, bem como os demais colaboradores dessa revista”.

Maria Lúcia Cavallari Neder

- Reitora da Universidade Federal de Mato Grosso - Cuiabá - MT

“Gostei muito da reportagem Saudades do Guamá, da revista Corrente Contínua número 226 - maio/junho-2009.

Curiosidade: na página 65 consta a receita do biscoito amor-perfeito da D. Naninha. Nos ingredientes fala em um prato

de tapioca. Fiz uma consulta a diversos colegas aqui do Tocantins, perguntei qual é o prato da tapioca e ninguém

soube explicar. Poderiam nos esclarecer?”.

Demerval Ferreira da Silva

- Regional de Transmissão do Tocantins

- Palmas – TO

N.R.: trata-se de um prato raso de tapioca, também conhecida como araruta ou polvilho. Equivale a mais ou menos 200g.

FotolEgEnDA

Mundo emprestado aos

bravos tá sofrendo!

Estão indo embora

os astronautas

Pássaros estranhos

luas ultrapassam

Nós não, nós ficaremos

A cuidar dos rios,

lagos e cascatas

Cidade estica garganta

presa respira ar escuro

Casa sobre outras

arranha céu

Ferreiro vai pro alto com

a mão a nuvem cata

Não nós, nós ficaremos

A cuidar do chão, dos

bichos e da mata

Lanças lançadas ao fundo

são facas, facão, estacas

Ouro, diamantes

dos pés se afastam

Maquineiros mergulham

nas terras: ponta de metal

igual redemoinho

Mas não nós, nós ficaremos

A cuidar das pedras e caminhos

Texto: Byron de Quevedo

Foto: Rony Ramos

corrente contínua

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