polemica religiosa - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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polemica religiosa - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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Página 2 MAIORIA FALANTE Junho/Julho

POPULISMO

Como a Ave Fênix, o populismo ressurge na Améri-

ca Latina; cono aquele pássaro mitológico porque re-

nasce das suas cinzas. Argentina dá o exemplo. O últi-

mo governo peronista, para os trabalhadores, resultou

num desastre. Entretanto quem venceu as últimas

eleições foi Carlos Menem, o referente populista.

Duas explicações: quem governou, antes e depois de-

les, foram muito piores; e por outro lado, o estado de

consciência da massa, é esse mesmo. Sabe de sua fo-

me, mas ainda não intue como acabar com ela, pois

desconhece o seu próprio potencial transformador, e

a ausência de uma vanguarda que expresse claramente

os seus interesses, se constitue no maior freio para

que essa consciência em si, se transforme em para si.

Bons burgueses, os populistas fazem governos para

sua ciasse. Prometem qualquer coisa e disfarçam suas

intenções. Berram contra o capitalismo selvagem; na-

da falam do capitalismo. Hipócritas, afirmam ser an-

timperialista' mas não romperam com as transnacio-

nais antes, e tampouco o farão agora. Apenas perse-

guem algumas restrições ao capital estrangeiro, pois

na realidade procuram uma fatia maior na distribui-

ção do produto da exploração dos trabalhadores.

Querem é renegociar a dependência, e não eliminá-la.

Propiciam condições ao aumento dos lucros capitalis-

tas.

Cínicos, porque gritam que seus governos estão ao

serviço do povo, do lado dos mais fracos, e suas admi-

nistrações jamais passam de tímidas tentativas refor-

mistas. E, quando encurralados pelas massas, que lhes

cobram o prometido, o couro come solto nas costas

dos trabalhadores. Expropiação de terras improduti-

vas? Terra para quem trabalha a terra? Isso é coisa'de

comunistas.

Populismo e reformismo, dois cancros que se infil-

tram no campo popular. O populismo é uma concep-

ção burguesa que pretende desconhecer a existência

das classes sociais. Sob o rótulo úepovo costuma me-

ter no mesmo saco os operários, camponeses pobres e

pequenos proprietários rurais ou urbanos, a pequena

burguesia e a denominada burguesia nacional. Ao não

diferenciar o papel e as possibilidades dessas classes,

prioritariamente se relaciona com a burguesia nacio-

nal, e alenta ilusões nos seus representantes econômi-

cos, políticos e militares.

0 reformismo descarta a transformação radical da

sociedade, não tem fé e desconfia da capacidade

transformadora dos trabalhadores e sempre anda à

procura de algum burguês progressista que dê miga-

lhas às massas e garante, no melhor dos casos, o efeti-

vo exercício das liberdades democráticas.

Maioria Falante

Tel.: (021) 252-2302.

Diretor Responsável — Bebei Nepomuceno

Conselho Editorial — Júlia Theodoro, Ele Semog e^Togo loruba

CoordenaçSo de Textos e Edição — Togo loruba, Ele Semog, Beth Silva

Santos, Tupac.

Colaboradores — Uelinton Farias Alves, Valdete Lima, Lígia Dabul, Luiz

Carlos Vieira - Luiz Carlos de Almeida (RJ) Abílio Ferreira,

Arnaldo Xavier, Lilia Ladislau e Miriam Braz (SP) Dora Bertulio de

Lima (MT), Sônia Aparecida P. Pereira e Agostinho Benedito (PR),

Vera Dayse Barcellos, Paulo Ricardo Bahiano, Jones Lopes e Júlio

César Camlsolâo (RS), Walmír Trindade (PB).

Correspondentes — Mônica Russo e Miki Willis (EUA), Adriano Botelho

de Vasconcelos (Portugal)

Administração — Júlia Theodoro

Secretaria — Márcia Amancio

Composição — Tribuna da Imprensa

Circulação - J. Ayrton Martins

Impressão — Tribuna da Imprensa

Arte Final — Tribuna da Imprensa

Diagramação — Euclides Amaral

Foto — João Morais

Ilustração - Togo loruba, Max, Zé Roberto e Manei

Revisão - Valdete Lima, Beth Silva Santos

Apoio — Centro de Serviços Ecumênico (CESE)

Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP)

Núcleos de Estudos do Negro (NEN) e

Comitê Contra a Discriminação Racial e Social (RACISO)

Maioria Educação: Eli Gomes, Janete Santos, Azoildo Louretto da Trindade,

Wanda Maria Souza Ferreira, tyaria José da Silva Lopes, Eliane Souza,

At matérias assinadas são de inteira responsabilidade dos autores.

Endereço: Rua da Lapa, 200/jl 808 - Lapa R J-CEP: 20021

ACONTECEU ACONTECENDO

A menina Luciana Correia

Santos Lima, de 9 anos, Teimo

Batista de Souza, de 11 e José

Vasconcelos de Melo, de 15, fo-

ram os vencedores da 1 . a Corrida

Rústica Comunitária do Renas-

cença Clube, com o patrocínio

do CIEC — Centro de Integração

Esporte Comunidade e apoio de

Fundação Rio-Esportes, nas pro-

vas de 500, 1000 e 1500m, res-

pectivamente. Este evento faz

parte da Campanha Vamos Tirar

as Crianças da Rua, Correndo.

O grupo político que atuava

na ASSEAF fundou o Centro de

Articulação de Populações Mar-

ginalizadas — CEAP, que engloba

a Comissão Herzer de Defesa dos

Direitos das crianças e adolescen-

tes. Centro de Documentação,

Jornal Maioria Falante, Articula-

ção de negros do Sul e Sudeste,

Projeto Tradição dos Orixás,

SOS-Favelas (para as vítimas das

enchentes de fevereiro de 88)e

Mariti mais Mulher, entre outros.

A sede do CEAP está funcio-

nando provisoriamente no Jornal

Maioria Falante — Rua da Lapa,

200/808, CEP 20021, Tel. (021)

252-2302.

"Recebi, há algum tempo um

exemplar do JMF do qual passei

a ser mais um admirador. E por

isso, gostaria de levar a aprecia-

ção este" Pela Bandeira do Ban-

deira" que escrevi em protesto a

idéia de batizar a capital do novo

Estado Tocantins como "Lasai-

gada".

Heleno Alves Resende/Goiânia/

Goiás.

Arrancada no Renascença/CIEC

O Centro de Cultura Afro-

Brasileira e a Coordenação do

I. 0 Encontro Estadual da Tradi-

ção dos Orixás, convidam para o

evento que se realizará nos dias

04, 05 e 06 de agosto, no audi-

tório do Teatro Guararapes do

Centro de Convenções de Per-

nambuco, situado no Complexo

de Salgadinho, em Olinda/PE.

O objetivo é promover a tro-

ca de experiências entre as Casas

e Terreiros de Pernambuco e de

alguns outros estados.

O Núcleo de Estudos Pedagó-

gicos Caxiense, promoverá um

Ciclo de Debates, nos dias 5, 6 e

7 de Julho próximo, no Centro

Comercial de Duque de Caxias,

Rio de Janeiro, sobre o tema:

"EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE

DA AMÉRICA LATINA". Apoio

e realização IDEC.

ANT1-RACISMO

A Coordenação da Plenária

Anti-racista, um desdobramen-

to do III Encontro estadual do

Negro do RJ, está realizando

toda 6. a feira no Sindicato dos

Metroviários, Av. Rio Branco

277/401-tel: 021-262-0331 -

MF: Agradecemos sua correspon-

dência e o material que nos foi

enviado, estamos encaminhan-

do-o para apreciação do Conse-

lho Editorial.

"Temos muito interesse em

renovar a nossa assinatura... apro-

veitamos para enviar o último

n. 0 da nossa revista Reforma

Agrária".

Solange Rigolo/Campimas/SP

Assoc. Brasil da Reforma Agrária

(ABRA).

"Anexo à presente segue com-

provante do pagamento da assi-

natura do JMF no período de

Abril/89 à abrit/90".

Hiroaki Idaka/RJ

MF: Breve estaremos enviarão o

jornal.

"Através de um colega, che-

gou as minhas mãos um exem-

plar do JMF... solicito que me

enviem formulário de assinatura

e exemplares para a divulgação."

Toninho Ribeiro/Belém/Pará

MF: Já enviamos conforme soli-

citado formulário de assinatura e

material para divulgação.

reuniões acerca da questão'ra-

cial. _

LIVRO PARA CRIANÇAS

NEGRAS

Alzira Rufino, escritora e

coordenadora do Coletivo de

Mulheres Negras da baixada san-

tista, lançará no mês de julho

"Muriquinho", seu primeiro li-

vro para crianças negras. Alzira

é a autora de "Eu, Mulher Negra,

resisto" e das cartilhas "Mulher

Negra, uma Perspectiva Histó-

rica", "Articulando" e em co-au-

toria, "Mulher Negra tem Histó-

ria".


TAMBÉM ACONTECE -

ERRATA

Na edição de Abril/Maio o

Jornal Maioria Falante publicou

na página 11 a noticia sobre a in-

terdição do livro Versos Satâni-

cos, em Zanzibar, com base nu-

ma informação da Agência de

Notícia Angop, acrescentando

ainda em juízo de valor sobre o

livro em causa.

Queremos esclarecer que o

comentário acima é de total res-

ponsabilidade do jornal.

"Comunicamos a V.Sas., o re-

cebimento do JMF n.o lie agra-

decemos sua atenção".

Prof. Zezito de Araújo/Universi-

dade Federal de Alagoas/Maceió.

"De alguns anos para cá to-

mamos conhecimento do cresci-

mento da consciência negra no

Brasil. O nosso Centro é o único

da Itália que tem interesse em

documentar e publicar artigos de

interesse das classes dominadas."

Marlene Bertoldi/Cedoe/Verona/

Itália.

MF: Estamos enviando o Jornal

Maioria Falante para seus arqui-

vos.

"Agradecemos o envio do

JMF. Informe quais as possibili-

dades de implantação de uma su-

cursal em nossa cidade, pois te-

mos ótimos jornalistas".

Atalito/Salvador/Bahia

MF: Aguardamos o envio das

matérias, bem como a confirma-

ção do nosso intercâmbio.


Junho/Julho

MAIORIA FALANTE

POVOS INDíGENAS YANOMANI RESISTEM

E PEDEM DEMARCAÇÃO DE TERRAS

Opovo Yanomani, cerca

de 10 mil índios, ocupa

parte do território e

Roraima e Amazonas,

na fronteira do Brasil com a Ve-

nezuela. A partir de setenta, a

construção de estradas, ativida-

des agropecuárias e de minera-

ção daquela região intensifica-

ram o contato dos mdios com o

homem branco. O resultado:

inúmeros conflitos e a dissemi-

nação de doenças entre os silvi'-

colas.

Rm 1985, a situação se agra-

vou com a implantação do Pro-

jeto Calha Norte que abrange

os afluentes da margem esquer-

da do rio Amazonas.

Violentado de várias formas,

o povo Yanomani, criou formas

de resistência. Nessa tarefa, tem

sido grande o empenho do mdio

Davi Kopenawa Yanomani, Prê-

mio Global 500 da ONU.

A maior parte das terras Ya-

nomani é rica em minérios. O

garimpo gera conflitos e polui-

ção dos rios. É o inicio da des-

truição do ecossistema de uma

área vital. A convivência entre

mdios e garimpeiros é difícil e

desigual, como declara Davi: "O

branco não dá remédio nem cui-

da quando o índio está doente.

Acha bom morrer de uma vez."

Desde 1968, o governo vem

sendo alertado, para a necessida-

de "de demarcação das terras

Yanomani, sob a forma de um

parque indígena em área conti-

nua". Em setembro de 1988,

criou-se a "Terra Indígena Ya-

nomani" com mais de 8 mi-

lhões de hectares. Destes, 6 mi-

lhões se destinavam a um Parque

e duas florestas Nacionais que

continuariam como "área de

posse permanente dos Yanoma-

ni". Em novembro do mesmo

ano, a Portaria Interminesterial

250 tornou passíveis de uso e

exploração o Parque e as Flo-

restas. Para uso exclusivo dos

índios restou um "arquipéla-

go" de 19 áreas.

Fundada em 1978 a CCPY-

Comissão Para Criação do Par-

que Yanomani — é uma das en-

tidades que lutam pela demar-

cação das terras "tradicional-

mente ocupadas pelos Yanoma-

ni". Outras reinvindicações são:

respeito ao "modus vivendi"

dos índios, revogação de 19 de-

cretos presidenciais, de 19 de

fevereiro de 1989, que resultam

em agressões físicas e culturais

aos Yanomani; retirada dos ga-

rimpeiros da região e punição

a todos que contribuem para o

genocídio deste povo.

Outra questão debatida é o

desrespeito à Nova Constituição

que determina: "O aproveita-

mento dos recursos hídricos,

incluídos os potenciais energéti-

cos, a pesquisa e lavra das rique-

zas minerais em terras indígenas,

só podem ser efetivadas, ficando-

Ihes assegurada a participação no

resultado das lavras, na forma da

lei.

Davi Yanomani afirma ser im-

portante divulgar o que está

acontecendo. "Outro país está

pensando que o governo está

tratando muito bem os brasi-

leiros. Mas não está tratando

bem não. Está maltratando ín-

dio..., maltratando branco..."

Reafirmando esta denúncia

surgem algumas iniciativas. O ví-

deo-documento, "Povo da Lua,

Povo de sangue. Ouro da terra,

Sangue do Povo Yanomani" foi

dirigido por Marcello lassara,

baseado na pesquisa fotográfica

de Cláudia Andujar, entre 1972

e 1982. Outro exemplo foi a re-

cente exposição, do Masp, do au-

diovisual "Genocídio do Yano-

mani: Morte no Brasil".

Davi também deixa claro que

os Yanomani não sobrevivem

sem a preservação da sua cultura,

assim como esta não existe sem a

floresta. Essa cultura, até então

transmitida de forma oral, hoje

precisa ser defendida da extin-

ção. Uma das preocupação de

Davi é com a falta de informação

da maioria do seu povo: "Nós so-

mos poucos que falam portu-

guês. Muitos estão enganados pe-

lo branco que promete muita

coisa". Porém o maior desafio

dos Yanomani é o seu isolamen-

to. Além da Funai, não há pre-

sença física de outra entidade na

terr? ^cs Ynr DIWMÚ.

AGEH

LIVRO SOBRE CHICO MENDES

"QUAL O FUTURO PA-

RA A AMAZÔNIA?"é o tí-

tulo de um livro recém-pu-

blicado na França, pela or-

ganização não-governamen-

tal AGIR ICI "Pour monde

solidaire". O texto, com

prefácio de Alain Ruellan e

René Dumont (um dos prin-

cipais ecologistas franceses),

retrata a situação da Ama-

zônia diante do atual con-

texto econômico mundial,

destacando a responsabilida-

de dos países do Norte na

destruição ambiental do Ter-

ceiro Mundo.

Um capítulo da publica-

QUELAVNRPOUR

ção é dedicado à vida e luta

de Chico Mendes, cuja foto-

grafia, aliás, está na capa do

livro.

O livro da AGIR ICI é

mais uma das várias iniciati-

vas de organizações ecológi-

cas e direitos humanos eu-

ropéias, em torno da ques-

tão da Amazônia. O interes-

se na Europa pelo futuro da

região cresceu com a morte

de Chico Mendes, a realiza-

ção do 1.° Encontro dos

Povos Indígenas no Xingu e

a recente viagem do Cacique

RAONI por vários países

europeus, a convite do can-

tor Sting. (AGEN).

Página 3

O candidato Osmarino

sofre novo atentado

0 secretário do Conse-

lho Nacional dos Se-

ringueiros (CNS), Os-

marino Amâncio Ro-

drigues, sofreu o quinto

atentado no último dia 19,

quando um caminhão foi jo-

gado contra o Toyota que o

levava a Brasiléia. O carro

do sindicato dos Trabalha-

dores Rurais só não foi es-

magado porque desviou o

tempo.

O delegado de polícia de

Brasiléia, Francisco Josemar

da Silva, em telex enviado

ao secretário de Segurança,

Lourival Marques de Olivei-

ra, disse que o motorista de

caminhão, que havia sido

roubado pouco antes, era

Manuel Cardoso Sales, 17,

com antecedentes por furto

e drogas. Após o incidente,

que o delegado disse ter 1%

contra 99% de possibilida-

de de ser atentado, o moto-

rista se evadiu. Sem êxito, o

PM Leitão, um dos quatro

seguranças de Osmarino, dis-

parou tiros para que o ca-

minhão parasse. Segundo

Josemar, no momento em

que o caminhão quase bateu

no Toyota. Osmarino diri-

gia-se a boite "Sol de Ve-

rão", para assistir a peça

"Tributo a Chico Mendes",

de João das Neves. O cami-

nhão avançava pela avenida

Santos Dumont, na direção

do carro do Sindicato que

foi desviado "graças a habi-

lidade do motorista".

Candidato: No último dia

28, o delegado de Brasiléia

enviara outro telex ao secre-

tário de segurança, que di-

vulgou seu conteúdo como

"desmentido de mais uma

tentativa de ameaça ou aten-

tado a Osmarino". Na vés

pera, o sindicalista denun-

ciara á delegacia que quatro

homens com cartucheiras

desceram de um furgão ver

de claro, próximo à sua ca-

sa, e foram vistos por José

da Silva Pereira, que mora

com Osmarino. Declarou o

delegado que os homens

portavam ferramentas, e'

não armas de fogo, e que o

carro pertencia ao vice-pre-

feito de Brasiléia.

AGEN

Maioria Falante

Assine

252-2302


Página 4 MAIORIA FALANTE Junho/Julho

A hora e a vez do cinema Pan-Africano

0 filme ORI, de Raquel

Gerber, representante

brasileiro no 11 o FES-

PAÇO - Festival Pan-

Afrlcano do Cinema e da Televi-

são de Ouagadougou — março —

1989, ganhou o Prêmio "PAUL

ROBESON", da Diáspora, l.o

lugar para filmes produzidos fo-

ra da África, por unanimidade

do Júri internacional.

O filme conta a história de

uma mulher. Beatriz Nascimen-

to, historiadora e militante, que

0 Festival Pan Africano de

Cinema e Televisão de Ouaga-

dougou (25 fev - 04 março de

1989 - Burkina Paso) no seu

20.° aniversário, pôs em cheque

a imagem cativa do negro no ci-

nema.

O tema da identidade cultural

correu como uma filigrama na

maior parte dos filmes africanos

vistos no último Festival — O

FESPAÇO de Ouagadougou. É

um cinema artesanal que ignora

as obras puramente comerciais,

cada filme trazendo a afirmação

impl feita de uma identidade cul-

tural africana.

Poderiamos citar a obra prima

Yellen, prêmio de Cannes em 87

num cinema moderno ao ar livre

contra o céu crespuscular; O Tes-

tamento (Ghana), Mortu Nega

de Flora Gomes de Cabo Verde

que ganhou 05 prêmios espe-

ciais, Camp de Thiaroye de Faty

Sow e Ousmane Sembene do Se-

negal, Yaba e Zan Boko de Gas-

ton Kaboré de Burkina, Citadelle

da Argélia prêmio de imagem_ e

os curtas O Gesto de Segou e Ar-

vore da Vida. Patrick llboudo fa-

la em seu livro lançado durante o

FESPAÇO; "Les Cineastes Afri-

cains et leurs Oeuvres" — Edi-

tion La Maute:

"O cinema africano é a mani-

festação individual e coletiva de

um conjunto de sentidos e cor-

rentes de pensamento para o res-

tabelecimento da imagem de um

povo. É um cinema de vanguarda

na medida que a vanguarda nasce

da ruptura com o passado e da

pressa do futuro".

Mas um cineasta africano leva

5 ou 7 anos para fazer um filme

e outros tantos para rentabilizá-

lo. Não passa um filme africano

por mês nas telsa das salas africa-

nas diz Med Hondo (cineasta da

Mauritânia em 1983).

Na Tunísia desde 1966 come-

çam as jornadas cinematográficas

de Carthago e no Haute Volta

em 1969 emergia o Signo da Se-

mana do Cinema Africano que se

tornaria o Festival Pan Africain

de Ouagadougou no já indepen-

dente pai's Burkina Faso.

Foi criado outro evento em

1981 o Mogpafis pela Somali

Film Agency e organizado em

Mogadiscio para atingir a África

Ocidental e Central.

Hoje o F ESPAÇO é uma festa

popular inter africana e interna-

cional e congregou 37 pai'ses

africanos. 0 FESPAÇO em sua

20. a edição fez uma homenagem

ao Cinema Latino Americano e

premiou o filme ORI do Brasil

com o Prêmio Paul Robeson da

Diáspora no valor de 500.000

francos CFA.

Paul Robeson foi cantor/ator

e militante negro americano que

foi um suporte para a indepen-

dência de muitos países africa-

nos.

A questão da Imagem do Ne-

gro no Cinema e a Libertação da

África e dos Afro Americanos

foram grandes metas em sua vi-

da.

Desde os textos jurídicos do

Código Negro de 1685, o negro

era categorizado como escravo

e sem história.

A caricatura e a paródia ser-

viram à dominação desde 8 de

janeiro de 1454 sob a autoriza-

ção do papa Nicolau V quando

se praticava o Tratado dos Ne-

gros entre África e Portugal.

Mais tarde, o negro aparecia

em reclames de sabonete como

exemplo de pele suja e era con-

siderado como diz Patrick llbou-

do em sua obra recém publica-

busca sua identidade através da

pesquisa histórica dos "Quilom-

bos"

ORI tem a direção de Raquel

Gerber; a produção da Angra

Filmes, textos e narração de Bea-

triz Nascimento, música de Naná

Vasconcelos, produção executiva

de Ignácio Gerber, direção de fo-

tografia de Hermano Penna.

O lançamento do filme ORI,

no Brasil, será divulgado assim

que confirmada.

da. "O negro é um ser selva-

gem de nariz e bocas despropor-

cionais e dentes e olhos bran-

cos de vacu idade".

Nos anos 60 o grande cineas-

ta senegalês ("Ceddo") Ousmane

Sembene falava sobre os filmes

de Jean Rouch: "ele nos vê co-

mo insetos". Jean Rouch confes-

sa mesmo que a etnografia é a

filha mais velha do .colinialismo.

O CINEMA NEGRO

AMERICANO

O Cinema Negro Americano

nasce com Emmet J. Scott que

realiza Naissance d'une race que

é a réplica de Naissance d'une

Nation de David W. Griffitth.

Em 1917 foi fundada a pri-

meira Cia. do cinema negro nos

Estados Unidos (Los Angeles,

Califórnia).

Warrington Hudlin criou uma

sociedade "The Black Filmma-

ker Foundation" para distribuir

filmes negros.

Oscar Micheaux fez Body and

Seul 1929) com Paul Robeson

no início de sua carreira. Fez co-

mo cantor um filme colonialis-

ta como Vozambo de Zoltan

Korda em 1935 mas se dirigiu

depois em direção à imagem do

negro combatente.

Nas Antilhas surge nos anos

70 um filme que busca falar e

lhe restituir uma imagem falan-

do da imigração e do desenrai-

zamento do africano na Antilha.

É preciso citar Sarah Maldoror

um Home, une Terre e Zambi

Zanga sobre Aimé Cesaire.

Nos anos 60 os trabalhos de

Caca D legues, Glauber Rocha e

Nelson Pereira dos Santos sur-

gem no cinema com temas ne-

gros.

QUE

LOMBO

por Éla Samog

Foi não foi nos deparamos com a vida tomando outros

rumos, outros sentidos. É nestes momentos que o meu ser

toma outras dimensões machista e a poesia se revela como

um álibi. Atendendo a pedidos, um poema.

LIGA DE SEDA E PAPEL BÍBLIA

Quando você põe as esporas de prazer

sobre os meus ombros

e mistura teorias marxistas

com o orgasmo do proletariado

confesso que fico meio abismado

...e também rola no meu peito

uma tola confusão entre Sartre e Melchior

que me faz pensentir baixinho:

quem me dera ter um Piaget

para entender esta zona

feita em prol da humanidade/

Mas entre o povo que não goza (?)

e o lucro que não dá para dividir

em momento algum em penso em reagir

dentro dessa intimidade:

quatro paredes, nosso quarto.

Daí, quando você tira a calcinha,

peitinhos arrebitados,

hálito quente no meu hálito,

te destrói aquele hiato de ser sem sermos,

e somos muito mais que um ato de amor

no amor que a gente faz sem teorias.

Somos mais que pele à pele à poesia

ternura, suor, cio das cores, alegria.

Depois... que o mundo

está feito em nós mesmos,

com a tua intimidade

mergulho no meu silêncio

e você com a minha magia

eterniza todos os sonhos.

Respirando no mesmo compasso,

nus, cansados, cheirosos

percebemos que a paixão

não passa de uma mera eternidade

na efêmera loucura dos homens...

e. outra vez o toque, o jogo

o fruto completo de sussuros

se faz nova teoria e nos deixa

exaustos de tanta prática.

REMASCENTES

COLONIALISTAS

Cobra Verde de Werner Her-

zog (1988) e V'a Bon les Blancs

(Marco Ferreri) são citados psHos

que refletem a questão da ima-

gem atual do negro no cinema.

Muitos cineastas brancos nos

anos 80 e 90 se lançam em dire-

ção à imagem do negro herói

histórico contando a vida de

grandes líderes negros.

Cry Freedon a True Story of

Friendship de Sir Richard Al-

thenborough (sobre a vida de

Steve Biko) o líder da consciên-

cia negra na África do Sul mor-

to por tortura em 1977 não é

um filme sobre Steve Biko mas

sim sobre um jornalista branco.

Shaka Zulu série para TV foi

também boicotado.

Mandela de Philip Saville é

considerado insípido.

Alguns cineastas negros saem

ao combate como através do

Cercle Menês, em Paris para dis-

tribuir filmes negros.

Quando poderemos mostrar

um ao outro as nossas imagens?

São graves as conseqüências de

um isolamento.

Artigo de Raquel Gerber

Angra Filmes


Junho/Julho MAIORIA FALANTE Página 5

UM POR TODOS, TODOS POR UM

Todos os dias quase um mi-

lhão de pessoas viajam pelos

trens da Central do Brasil. São

operários, donas de casa, came-

lôs e, por que não, ferroviários e

seus familiares. Para esta catego-

ria profissional o trem não é ape-

nas meio de sustento, mas tam-

bém veiculo de transporte. Seus

locais de trabalho, bem como

suas residências, se espalham ao

longo da via férrea. São portanto

parte do mesmo povo suburba-

no, com seus problemas e an-

seios de uma vida melhor.

Irmãos de sangue e trabalho,

ferroviários e usuários deveriam

ter uma relação de solidariedade.

Afinal de contas compartilham o

mesmo cotidiano e sofrem com

as péssimas condições em que se

encontra a ferrovia. Tem uma lu-

ta comum — a melhoria do trans-

porte ferroviário. Ainda se lê nas

páginas dos jornais que em que-

bra-quebras os parsageiros procu-

raram linchar o maquinista, o-

mo se este tivesse alguma culpa

pelo fato de um pingente ter se

chocado com a rede elétrica ou a

locomotiva ter enguiçado. Em

contrapartida alguns maquinistas

se referem aos usuários como

"suínos", materializando uma

divisão que só interessa aos po-

derosos.

Dividir para reinar sempre foi

uma consigna das classes domi-

nantes. Ela está sendo aplicada

novamente agora, quando o go-

verno lança uma multimilionária

campanha de mídia visando in-

dispor a população contra as gre-

ves nos serviços públicos.

Basta um pouco de consciên-

cia para perceber isso. Quando

os ferroviários se recusam a con-

duzir trens sem condições ou

quando realizam uma greve por

melhores salários estão apenas

defendendo o direito à vida para

si e todos que usam diariamente

o trem. Não é difícil perceber

que com um salário miserável

não há quem possa realizar com

tranqüilidade um serviço de ta-

manha responsabilidade. É claro,

que uma paralisação ferroviária

sempre implica em sacrifícios.

Trata-se porém de uma dificul-

dade passageira que tem como

objetivo acabar com as origens

da dificuldade maior. Parodian-

do o dramaturgo alemão Bertolt

Brecht, poderíamos dizer que se

trata de um mal destinado a aca-

bar com a fonte dos males.

RETRATO FALADO por

Que os vivos se preparem,

porque a morte está che-

gando. Enche a boca de

paz, e assassina Chico

Mendes, operários de Volta Re-

donda ou boias-frias no Lema

paulista; os miseráveis que habi-

tam as ruas morrem de frio e fo-

me, sem que a gente conheça

seus nomes.

Em nome do progresso fabri-

ca modernissimos computadores

e aperfeiçoa a lipoaspiração que

tira a gordura de burguesas barri-

gas, e para os pobres - e por fa-

lar em progresso — hospitais

imundos, sem gaze nem álcool.

Querermos controlar esta si-

tuação exige continência e or-

dem,. Com a mesma facilidade

inventa anticonstitucionais medi-

das provisórias restringindo o di-

reito de greve, e cerca os quartéis

com arames farpados.

Apesar de onipotente, ora

bolas/ também a morte precisa

se defender. Ela sabe que apesar

das prateadas estrelas, o imenso

céu azul, as verdes matas e o bri-

lho amarelo do ouro enfeitaram

nossas terras, seus fanáticos se-

guidores estão navegando num

enorme e perigoso "Bateau Mou-

c/7" de 8.511.965 km2.

Treinando para ações futuras,

camuflada de param 11 itar, e na

calada da noite, poucos dias

atrás, em dois de maio, nova-

Com este tipo de compreen-

são e solidariedade não seria fá-

cil à Companhia Brasileira de

Trens Urbanos manipular a opi-

nião pública, como fez nos dias

4 e 5 de abril, quando aprovei-

tou a recusa dos maquinistas em

conduzirem composições sem as

mínimas condições de segurança

para suspender todo tráfego fer-

roviário e jogar a culpa nos mes-

mos. Quando os ferroviários fa-

zem uma greve, avisam com an-

tecedência e explicam à popula-

ção os seus motivos. Trata-se de

um procedimento que visa à con-

quistar a unidade de que já nos

referimos. Um esforço conscien-

te para unir o povo na luta con-

tra seus inimigos.

Este artigo também faz parte

dessa mobilização. Esperamos

que renda frutos. Há mais de um

século se descobriu que na luta

contra os donos da vida e do tra-

balho o ditado "Um por todos,

todos por um" deve valer plena-

mente.

Luiz Arnaldo Campos

Assessor de Imprensa do

Sindicato dos Ferroviários da

Central do Brasil.

Tupac

mente em Volta Redonda fez

uma reaparição histérica: explo-

diu o monumento que horas an-

tes fora inaugurado em memória

dos três Metalúrgicos assassina-

dos durante a invasão da Compa-

nhia Siderúrgica Nacional (CSN),

em novembro do ano passado.

Teimosamente ela não quer lem-

brar que tudo é parte da "Lei de

Causa e Efeito". A uma ação

corresponde uma reação, nor-

malmente maior que a anterior.

É um jogo perigoso tendo em

conta, principalmente, que cada

vez há menos gente querendo

morrer estupidamente de fome.

Quem viver, verá.

Ondas de greve

Desde o ano 2100 antes de

Cristo ocorre o abandono do tra-

balho por trabalhadores, fenô-

meno hoje conhecido pela pala-

vra greve.

A partir de 1805 o termo foi

utilizado para representar a ces-

sação voluntária, coletiva e tem-

porária do trabalho, pelos traba-

lhadores.

Em 1863, na França, o termo

era usado mais para representar

o ato de permanência de desem-

pregados, protestando, na Place

de Greve, à procura de trabalho.

Nessa época o termo abrangia a

união dos operários que se nega-

vam a trabalhar, enquanto não

lhes fossem atendidas certas exi-

gências.

Na maioria dos países, as gre-

ves ocorriam isoladamente. Ex-

pressavam protestos mais diretos

contra atos específicos ou por

reivindicações imediatas.

No Brasil há quem considere

como primeiras greves de sua.his-

tória os atos praticados pelos es-

cravos ao abandonarem as fazen-

das e campos para formarem os

conhecidos "quilombos". Outros

registros falam de uma greve dos

operários da Casa das Armas, no

Rio de Janeiro, em 1791.

Para aqui vieram tanto o es-

cravo, portador de cultura basea-

da na propriedade comunal,

quanto o colono experimentado

em assalariamento e nas refregas

da luta sindical.

Estudiosos do passado das

"epidemias" de greves falam de

ciclos de calmaria, recuperação,

prosperidade e superprodução,

crise e estagnação, na origem do

sistema de produção capitalista

no mundo. Por ocasião da baixa

dos preços nos mercados e du-

rante os ciclos de crise e estagna-

ção, o operário tinha sempre re-

baixado o seu salário; quando na

elevação dos preços ou nos ciclos

de prosperidade geral, sequer re-

cebia o salário médio que seria

equivalente ao valor de sua força

de trabalho. Daí em qualquer

dessas circunstâncias o operário

ser compelido a lutar. Na primei-

ra para discutir em que propor-

ção reduzir o seu salário, na se-

gunda para discutir como ser re-

compensado, pela prosperidade

geral. Aí estaria a gênese da con-

tradição de interesses que opõe,

desde o advento do capitalismo,

o capital — defensor de maiores

taxas de lucro — e a força de tra-

balho — defensora de maiores ou

reduzidos salários.

Com o passar do tempo o sis-

tema capitalista de produção so-

freu algumas transformações no

movimento geral dos preços, no

Pedro Castro - Sociólogo e Professor da UFF

funcionamento das leis do mer-

cado, na interferência do Estado

sobre este, e no regime de gover-

no. Daquelas ações iniciais, a gre-

ve foi assumindo uma variedade

de formas e tipos. De uma luta

direta e exclusiva contra o pa-

trão capitalista passou também a

se dirigir contra o patrão Estado

ou contra outras entidades inter-

mediárias entre o capital e o tra-

balho. Na história do Brasil po-

de-se apontar pelo menos cinco

grandes "ciclos", "ondas" ou

"epidemias" de greves, a saber:

1917/19, 1946/53, 1959/63,

1978/84 e 1985/1989. Em qua-

tro desses ciclos tentou-se tam-

bém levar a cabo a greve geral,

embora só algumas delas tenham

sido consideradas de caráter es-

tritamente político. No pre-

sente estamos vivendo uma das

mais contundentes ondas de gre-

ve da história do país, inclusive a

atual, têm a ver com a conjuntu-

ra, ascendente ou descendente,

do sistema produtivo predomi-

nante. Atualmente a conjugação

das ações através de certos me-

canismo — relações de intercâm-

bio, monopolização e oligopoli-

zação, administração de preços,

intervenção do Estado e regime

de governo — emprestam novas

particularidades à relação entre o

capital e/ou o Estado e a força

de trabalho, de modo que, inde-

pendente da tendência geral do

ciclo econômico, busca-se man-

ter as taxas de lucratividade ou

os montantes e destinos dos re-

cursos públicos, cujos níveis só

são possíveis à custa da incondi-

cional compressão dos padrões

salariais vigentes.

Assim os ciclos econômicos

que estão por trás das "ondas"

de greves em países como o Bra-

sil, apresentam a constante de

garantirem certos patamares de

realização do processo de acu-

mulação de capital e rumos de

desempenho dos governos. Nes-

se sentido, tais "ondas" ou

"epidemias" de greves, têm re-

presentado muito mais o papel

de equilibradoras entre os pa-

trões privados, públicos ou semi

públicos e os trabalhadores. Com

isso essas "ondas" de greves no

país, têm sido o principal amor-

tecedor que tem evitado a agu-

dização explosiva da luta de clas-

ses. É como se os trabalhadores

em geral fossem premidos a man-

ter o mesmo nível de luta, seja

na ascensão ou no declínio do

capitalismo brasileiro, para não

levarem mais prejuízos. E entre

os meios possíveis dessa luta, na

conjuntura, a "onda" de greves,

por paradoxal que pareça, é o

substitutivo da convulsão social.


Página 6 MAIORIA FALANTE Junho/Julho

PROSTITUTAS

Uma questão de direito

Reportagem de Togo loruba

e Eliane Souza » Edição de

Texto Uelinton Frarías Alves

Não muito distante do centro da cidade, localizada entre o velho Mangue e a

Praça Onze, antiga Zona do Baixo Meretrício está a Associação das Prostitu-

tas do Estado do Rio de Janeiro, fundada a 29 de setembro de 1988, em Vi-

la Mimosa, cuja presidência vem sendo exercida por Euridice Francisco Coe-

lho, 42 anos, mais conhecida como Eunice, que, embora hoje se mantenha afastada

profissionalmente da prostituição, lidera inúmeras mulheres do ramo, independente

da raça, cor, ideologia e credo religioso, implementando um trabalho cercado de uma

luta que teríta ser reconhecida por garantir uma melhor proposta de relacionamento

entre elas e o estado, como um todo, a sociedade e as entidades progressistas do país,

como é o caso da CUT. Da sede da entidade, na já famosa Vila Mimosa, onde se loca-

liza a TV RIO, Eunice é convincente no seu ponto de vista a respeito da legalização e

organização da classe a qual está representando.

Eunice é dessas mulheres

que não abandonam facil-

mente a briga. Já na funda-

ção da Associação, ela diz:

"Nós (ela e outras compa-

nheiras, como a Gabriela

Leite, hoje representante da

categoria à nível nacional)

reunimos a Comunidade e

pessoas de fora, e fundamos

uma diretoria que foi apro-

vada por unanimidade, re-

corda. Segundo ainda Euni-

ce, a entidade vem existin-

do de "fato" mas não juri-

dicamente porque há uma

Eunice (assinalada) e sua diretoria

barreira legalista "dificul-

tando o registro." Tudo isso

faz parte de um grande pre-

conceito" embutido na so-

ciedade com relação ao tipo

de atividade que exercem.

A idéia de criação da entida-

de foi incrementada quando

da realização do 1.° Encon-

tro Nacional de Prostitutas,

Centro do Rio de Janeiro,

1987, embora ela esclareça

que tudo teve início a partir

da ameaça da evacuação so-

frida pela classe, durante a

implantação da TV Rio,

atual canal 13, na área do

Estácio. Daí em diante o

movimento de prostitutas

cresceu.

Quanto à força do movi-

mento no tocante a integra-

ção com outros segmentos

sociais, como os "gays", os

ecologistas, as entidades que

atuam na área da reivindica-

ção dos direitos humanos e

na esfera política no comba-

te à discriminação de toda a

espécie, Eunice revela que a

maior resistência tem surgi-

do quando se reúnem, para

discutir interesse comum

com os grupos "feministas"

e com o movimento de mu-

lheres negras: para Eunice

falta "maturidade política"

para esses grupos que "as

discriminam pelo modo de

ganharem a vida.

QUESTÃO

EDUCACIONAL

Com projetos para desen-

volver também na área de

educação, a presidente da

Associação de Vila Mimoso,

garante que vai retomar as

antigas propostas de alfabe-

tização realizada em 87 da

área de psicologia da UERJ,

que foram levadas junta-

mente com Ricardo Vieira

Alves de Castro, Cirsa Na-

varro Vital Brasil e outros

professores da Fundação

Getúlio Vargas, com aulas

Não ao racismo e ao sexismo

A UNESCO realizou

pesquisas sobre desi-

gualdades sexuais e

o papel dos livros e

manuais escolares na manu-

tenção de estereótipos se-

xuais em sete nações de

Continentes, raças e costu-

mes diferentes. O livro, re-

sultado deste trabalho está

sendo lançado em São Pau-

lo/SP, pela Socióloga fran-

cesa Andrée Michel.

A questão do racismo e

sexismo aqui no Brasil, tem

que ser trabalhado de forma

intensa, pois observa-se nos

manuais escolares atitudes

descriminatórias e precon-

ceituosas. A nossa criança

negra, por exemplo, não se

identifica com os persona-

gens das Cartilhas escolares

e nas propagandas, pois o

modelo é sempre criança

loira de olhos azuis. Tam-

bém encontramos livros on-

de mostra o pai sentado, as-

sistindo TV, a mãe cuidan-

do da criança ou costuran-

do e a empregada, sempre

uma negra, na cozinha.

A mulher é sistematica-

mente enquadrada em pa-

péis de servidão e em segun-

do plano. É importante que

o estado atente para a ques-

tão e que promovam a mo-

dificação dos livros escola-

res e que não só a UNES-

CO, intelectuais ou poetas,

mas que todos nós, lutemos

por uma Sociedade mais

igualitária.

Suely Mathias Alves

— Agente da Pastoral dos

Negros - MG

dadas na época, na quadra

da Escola de Samba Está-

cio de Sá.

0 Projeto que teve cur-

ta duração, atingiu certo

êxito ao conseguir alfabe-

tizar pessoas da comunida-

de ligada à Vila Mimosa,

que nunca freqüentaram

uma sala de aula. A Associa-

ção já vem debatendo a re-

tomada do curso, extinto

em decorrência da polêmica

criada e da necessidade de

garantir o espaço e a sede da

entidade, cobiçada pelos

proprietários da TV-RI O,

que queriam tomá-lo para

uso daquele Canal.

Outro fator que determi-

nou a parada das aulas foi as

dificuldades dos professores

em chegar ao espaço para le-

cionar. Na opinião de Euni-

ce, "os professores têm mui-

tas barreiras para entender o

código da comunidade",

ela afirma que "por mora-

rem na sua maioria, na zona

sul têm estilo de vida dife-

rente dos nossos morado-

res", define.

Neste momento está sen-

do feita a restauração da se-

de da entidade, para que se

possa, dar início às aulas pa-

ra a comunidade na Vila Mi-

mosa.

Eunice procura encami-

nhar a legalização da prosti-

tuição como profissão para

que as mulheres possam ter

garantidos todos os direitos

trabalhistas, defendidos na

nova Constituição. Nesse as-

pecto, diversas discussões

têm sido desenvolvidas, no

sentido de por em prática,

o maior anseio da categoria.

A Associação congrega

hoje, mulheres de 18 a 45

anos, as quais trabalham na

área da entidade e são como

qualquer outras mulheres

que mantém família, filhos

e outras encargos sociais.

As dificuldades, como de

praxe, tem sido muitas, en-

tretanto Eunice demonstra

convicção de que ao con-

quistar a legalização pode

trazer à sua luta uma série

de benefícios.

Segundo ela, "importan-

te de tudo isso é a união

que hoje tem sido maior e o

respeito conquistado em to-

do o Brasil e no exterior."

O crescimento do interes-

se da organização e da sindi-

cal ização desta categoria é a

obstinação de uma classe no

sentido de competir em pé

de igualdade com os demais

segmentos e entidades, na

luta pelo direito à sua cida-

dania plena.


Participantes do Encontro: Mais Consciência

Movimento de mulheres

negras, revendo a

organização

Bevelando um alto ní-

vel de trabalho e or-

ganização, fruto dos

anos de luta do Mo-

vimento de Mulheres Ne-

gras, as participantes da co-

missão da mulher negra na

sociedade, do III Encontro

Estadual de Negros, do Rio

de Janeiro, marcaram forte

sua presença. Por ocasião do

encontro receberam o infor-

me de que o texto para dis-

cussão da comissão trabalho

e sub-emprego discriminava

abertamente a mulher, re-

forçando literalmente toda

uma ideologia machista.

"A dominação que uma

classe ou um determinado

grupo social exerce sobre

os demais segmentos sociais

numa sociedade como a que

vivemos, se materializa atra-

vés da força e da ideologia.

Uma é facilmente perceptí-

vel, pois nos atinge de for-

ma direta contra nossos cor-

pos. A outra não é tão per-

ceptível assim na medida

em que é direcionada para

um aspecto subjetivo do ser

humano: sua consciência.

Na primeira, o inimigo se

apresenta na nossa frente tal

como ele é, mesmo que par-

cialmente. Na segunda, ^co-

mo uma bela mulher porta-

dora de uma doença vené-

rea, que se reveste de toda a

sua sensualidade, com o úni-

co objetivo de transmitir

sua doença para todos os

homens. A verdade passa a

ser mentira e o inimigo se

apresenta de forma mascara-

da e invertida."

Diante desta constatação,

não houve dúvidas quanto

ao posicionamento, e a co-

missão denunciou nas plená-

rias, levando-as à reflexão e

avaliação do fato, exigindo

explicações da secretaria or-

ganizadora do tll Encontro,

enquanto responsável pela

seleção dos textos e docu-

mentos distribuídos para

trabalho das comissões e a

retratação do autor do tex-

to, Aderaldo Pereira dos

Santos (Gil, no MN).

Na plenária final. Helena

Maria de Souza, do Nzinga-

Coletivo de Mulheres Ne-

gras leu em nome da comis-

são a moção de repúdio:

"Exigimos respeito ao

Movimento de Mulheres Ne-

gras que ele não seja visto

como um movimento de

lésbicas, prostitutas, vicia-

das e mal-amadas, como

vem sendo difamado por al-

guns homens do Movimento

Negro e por algumas compa-

nheiras de sexo que ainda

não descobriram que são

mulheres. No Movimento de

Mulheres negras tem tudo

isto sim, como tem entre os

homens, porque fazemos

parte da sociedade, mas ele

é um movimento de defesa

de todas as mulheres, inde-

pendente de suas opções

MAIORIA FALANTE Página 7

Mulheres

morrem de parto

pessoais. Para concluir que-

remos deixar registrada a de-

núncia do pensamento atra-

sado que permanece ainda

em alguns de nossos compa-

nheiros que, infelizmente;

colocam-se na direção dos

trabalhos e promovem uma

visão da mulher como sendo

o ser de mal, o inimigo, o

pecado.

Não podemos admitir

que dentro do movimento

negro sejam reproduzidos

valores bárbaros de discri-

minação e coisificação do

sexo feminino como em

comparações como esta. é

necessário abrir nossas men-

tes em todos os ângulos não

só no que nos atinge direta-

mente.

Através desta crítica cons-

trutiva pretendemos acertar

a comunidade negra para

que ela cresça sem ranços de

qualquer espécie a fim de

que possamos transformar,

alterando-a em todos os

seus aspectos negativos. A

união do Movimento Negro;

portanto, é imprescindível,

homens e mulheres juntos

para a derrubada do sistema

que persiste em nos margi-

nalizar, oprimir e esmagar.

Juntos na conquista maior

da abolição do preconceito

racial, da valorização do ne-

gro como sujeito da Histó-

ria".

Comissão da Mulher Negra

na Sociedade

III Encontro Estadual

de Negros do RJ.

A partir do V Encontro

Internacional de Mulher

e Saúde, realizado em

Costa Rica, em 1987,

levai itou-se o véu de mais uma

dramática realidade vivida pelas

mulheres do terceiro mundo: um

milhão de mulheres morrem em

decorrência de mau atendimento

à gestante, aborto, parto e puer-

pério.

A situação é de calamidade

pública e se agrava com a cons-

tatação de que essas mulheres es-

tão morrendo em plena juventu-

de e por causas evitáveis. "Estu-

dos de nove países apresentados

na reunião da OMS-Organizaçao

Mundial de Saúde, sobre a pre-

venção da mortalidade materna,

indicaram que 88 a 98% das mor-

tes teriam provavelmente sido

evitadas por cuidados apropria-

dos... é por esse motivo que a

OMS está recomendando que os

índices de mortalidade materna

sejam incluídos entre os indica-

dores mundiais de saúde. Assim

como o índice de mortalidade

infantil, o de mortalidade mater-

na é altamente revelador das

condições gerais de vida da po-

pulação e da qualidade dos servi-

ços de saúde, e aponta enormes

disparidades entre países, entre

classes sociais e provavelmente

etnias". (*)

As estimativas da OMS são

alarmantes e sabemos que não

inferiores à realidade, já que é

significativo o sub-registro de

morte materna. Aqui no Brasil,

o movimento feminista e os con-

selhos populares de saúde têm

denunciado, com freqüência,

mortes decorrentes de parto que

não são registradas. Para citar

apenas um exemplo, em março

de 1987, em Duque de Caxias -

RJ, três mulheres morreram por

ocasião do parto e nos atestados

de óbito a "Causa Mortis" apare-

ce como "Insuficiência Cardíaca,

Insuficiência Respiratório Aguda

e Edema do Pulmão".

Além disso, deve-se levar em

conta que é ainda maior o núme-

ro de mulheres que em conse-

qüência de problemas na gravi-

dez, parto ou aborto, adquirem

seqüelas graves para o resto de

suas vidas: são fístulas vaginais,

infecções pélvicas crônicas, este-

rilidade, etc... Estima-se que, pa-

ra cada mulher que morre, em

conseqüência do mau atendi-

mento, quinze ficam com pro-

blemas graves de saúde.

Enquanto nos países indus-

trializados a taxa de mortalidade

materna, no Brasil tem sido dras-

ticamente reduzida nos últimos

vinte anos, mesmo com as precá-

rias estatísticas disponíveis, veri-

fica-se que, entre 1962 a 1986,

só no Município de São Paulo —

SP a mortalidade materna au-

mentou em 13% (treze por cen-

to).

Ao se tratar sobre a mortali-

dade materna, não poderíamos

deixar á margem a questão da

contracepção e da esterilização.

A contracepção tal como é vivi-

da no Brasil, é hoje um fator de

risco de vida ou de danos crôni-

cos à saúde da mulher. 0 não

atendimento à mulher em todas

as fases da sua vida pela Rede

Pública de Saúde, tem como re-

sultado uma utilização indevida,

e quiçá criminosa de anticoncep-

cionais.

A esterilização que atinge

hoje 44,4% da população femi-

nina em idade fértil, compõe o

quadro calamitoso da saúde da

mulher em nosso país. Tem sido

constantes as tentativas de im-

plantação de programas de con-

trole da natalidade através de di-

ferentes meios e métodos. A Re-

de Pública e instituições priva-

das, financiadas por capital es-

trangeiro, vem promovendo ir-

responsavelmente ligadura de

trompas através de iniciativas

não oficiais. Muitas mulheres

desconhecem inclusive o caráter

irreversível desta cirurgia.

A onda controlista e esterili-

zadora é tão grande que mesmo

com estas cifras alarmantes, ain-

da há quem queira, como o Ve-

reador da Cidade do Rio de Ja-

neiro-RJ, Jorge Pereira, promo-

ver programas de esterilização.

Em Projeto de Lei, recentemente

apresentado à Câmara Municipal,

Jorge Pereira (PASSART-RJ),

pretende promover a "Laquea-

dura Tubária" de mulher de "bai-

xo poder aquisitivo".

É com indignação que mais

uma vez denunciamos os que

pretendem reduzir o contingente

de pobres, através do Controle

da Natalidade. Esta medida, além

de promover a discriminação ao

direito de maternidade das mu-

lheres pobres e negras, em nada

altera o mdice de pobreza das

populações. Sabemos que as ta-

xas de fecundidade e natalidade

vêm declinando nos últimos vin-

te anos, mesmo periodo em que

aumenta assustadoramente a po-

breza.

Portanto, o que necessitamos

não é de esterilização e sim de

melhores condições de vida e

atendimento adequado à mulher

em todas as fases de sua vida.

Somente garantindo direitos

básicos de cidadania estaremos

no caminho da redução das taxas

da mortalidade materna e infan-

til e de uma vida digna para as

mulheres brasileiras.

ClCarmen Barroso in Morte e

Gênero: "Em que diferem as

mortes de mulheres e homens?".

Angela Borba — Prof. a militante

do Grupo Nós Mulheres


por Maria José

Lopes da Silva

A função que vão desempe-

nhar na idade adulta não depen-

derá mais da sua origem de classe

mais do seu mérito individual.

Este juízo negativo que o pro-

fessor forma do aluno manifesta-

se de duas maneiras: objetiva e

subjetivamente. No primeiro ca-

so, através de notas, conceitos e

comentários, mfmicas de desa-

grado, irritação, intolerância,

através do desprezo que passa,

etc... Por isso é muito comum

adultos atribuirem-se a si mes-

mos por não terem conseguido

estudar: "Não aprendi nada na

escola porque era burro, não ti-

nha cabeça para estudo". Quan-

do se sabe que o insucesso da

aprendizagem tem dois lados: o

de quem recebe e o de quem

transmite. Não queremos com

isso crucificar os professores,

mas isentar o sistema educacio-

nal como um todo da responsa-

bilidade pelo fracasso da maio-

ria das nossas crianças, é um

equívoco. Então, o que estamos

vendo é que o critério do mérito

pessoal desencadeia reações de

MAIORIA FALANTE

Junho/Julho

O critério do mérito individual - II

automatismos que podem ser

para mais ou para menos no primeiro

caso, quando o aluno, estimulado,

vai rendendo cada vez

mais porque se adapta mais facilmente

ao estilo de trabalho do

professor e à sua pessoa, e, o segundo

caso, o contrário. Portanto,

o que queremos mostrar é

que a autovalorização e a auto-

"maus" alunos e "inadaptados".

O que queremos mostrar é que a

escola efetivamente não tem

cumprido a sua dupla função.

Ela tem funcionado muito mais

como reprodutora da ideologia

do grupo dominante do que como

difusora do saber. Na verdade,

ela cumpre conhecimentos

apenas para uma minoria que

pedagógico quanto ideológico,

aliás, o próprio conteúdo transmitido

não seja desligado da prática,

mas que parta da realidade,

da vivência, da experiência do

educando. Que seja uma escola

que ensine, sobretudo, a pensar,

raciocinar, desenvolver o juízo

crítico, conhecer a realidade em

não poderá ser oficializada porque

entrará em contradição com

o projeto da sociedade em que

vivemos.

0 Professor é levado sempre

a fazer uma escolha: contra ou a

favor do aluno. E esta escolha

não implica apenas também, e

sobretudo, uma visão ideológica

diferente. Por último, importandesvalorização

têm como função pode "fazer carreira" através da

te frisar que a ideologia da auideológica,

através do critério do escolaridade que recebe, porque

todesvalorização é uma faca de

mérito pessoal, preparar os alu- para a maioria, nossa escola é

dois gumes: pode levar à possinos

ou para serem dominados ou uma fábrica de obstáculos, ao in-

bilidade mas também à revolta.

para serem dominantes neste ti- vés de funcionar como uma linha

A revolta individual, nós, profespo

de sociedade em que vivemos. auxiliar de superação de dificul-

sores, conhecemos bem. E aque-

Pois numa sociedade competi- dades. Urge, portanto, uma mu-

le aluno que depreda a escola, é

tiva como a nossa, a escola tam- dança de atitude, que eu diria,

antisocial, agressivo... Freqüentebém

é competitiva porque nela primeiramente, de caráter ideo-

mente a raiz desse comportasó

se dão bem os "melhores", e é lógica, e depois, de caráter peda-

mento está na maneira como a

neste tipo de escola que os filhos gógico. Esta mudança implica

escola trata este aluno. Sabemos

da burguesia descobrem, muito numa série de posturas que pos-

que esta revolta pode ser canalicedo,

a sua "superioridade" e o sam, efetivamente, encarar o fi-

zada de uma forma coletiva, desfilho

do trabalhador, a sua "infe- lho do trabalhador para o nosso

de que o indivíduo tenha uma

rioridade". Portanto, o critério

do mérito individual tendo como

conseqüência a autodesvalorização

e autovalorização, tem como

objetivo perpetuar a origem de

classe dos alunos, eliminando,

sobretudo, daquele contexto escolar

o "mau" aluno. Sim, porque

se formos consultar as estatísticas

mais recentes, aqueles

que reincidem na mesma série,

que se evadem da escola, são

principalmente, os rotulados de

desenvolvimento. É necessário

que se reconheça o seu direito

em adquirir conhecimentos. É

preciso que o professor se despreconceitue

em relação a este

fundamental importância para

o processo de transformação

desta sociedade, que o filho do

trabalhador tenha acesso ao saber

elaborado da escola. É necessário

também que haja mudança

quanto à forma de se transmitir

o conhecimento, tanto a nfvel

que se vive e suas contradições.

Não se trata de uma pedagogia

de compensação, quer dizer,

transformar o filho do trabalhador

em burguês. Aceitando que

diferença não é inferioridade,

pensamos que uma nova pedagogia

terá que ser formulada.

Ela não sairá de gabinetes nem

de cabeças iluminadas, mas do

confronto. Confronto de idéias,

saberes e experiências. E ela

consciência crítica dos seus problemas.

"Por que a escola funciona

assim? A que interesses

serve? Qual o papel do trabalhador

do contexto da escola e da

sociedade? Que sociedade temos?

Que sociedade queremos?

"Respondendo com os nossos

alunos a estas e outras indagações

será possível, então, transformar

a escola, e, transformando-a,

estaremos também transformando

a sociedade.

O que vale um livro didático

As despesas com material es-

colar têm sido para grande parte

das famílias brasileiras um verda-

deiro rombo no orçamento.

Quem tem três filhos cursan-

do o primeiro grau e possui ren-

da entre três a dez salários míni-

mos teve de se endividar no iní-

cio do ano para comprar o mate-

rial pedido pelas escolas.

Uma lista de material conside-

rada simples tirou pelo menos

NCz$ 300,00, da família, sendo

que os gastos com os livros didá-

ticos foram somados à parte.

Na opinião de vários pais é

um absurdo que os livros didáti-

cos usados por um filho não pos-

sam ser reaproveitados por outro

no ano seguinte. Reclamam que

os livros ficam imprestáveis pois

a criança escreve diretamente ne-

les, obrigando-os a comprar os

mesmos livros por vários anos

seguidos. É um verdadeiro pe^

no orçamento familiar e a única

utilidade, que por sinal traz o

péssimo hábito de destruir livros,

é usá-los em trabalhos escolares

recortando suas figuras para ilus-

trar cartazes e cadernos.

Em relação aos livros de lite-

ratura solicitados pelos professo-

res, não existe queixa, muito pe-

lo contrário, revelou-se interesse

e esforço para a aquisição dos

mesmos, ainda que isto signifi-

que gastos extras. Um único

questionamento é quanto ao real

aproveitamento deles na sala de

aula.

Concluindo, aluno filho de

pais com salário mínimo não

tem como adquirir um livro pa-

ra acompanhar as aulas, uma vez

que o dinheiro estará certamente

destinado à comida da família e

também não poderá recorrer a

uma doação de livros usados por

outros porque estes são descartá-

veis e ficam inutilizados.

Podemos afirmar que o livro

didático na maioria das vezes va-

le a reprovação de milhões de

crianças brasileiras já no momen-

to em que a escola permite que

o professor entregue'a lista de

material escolar e de livros didá-

ticos^

(Matéria elaborada a partir da

pesquisa feita pela professora

Marilena Anésia Abrahão).

ALFABETIZAÇÃO: TODOS SÃO IGUAIS

PE RANTE A LEI?

Constituição da República Federativa do Brasil — 5/10/1988

Art. 3° Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do

Brasil.

IV Promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo,

cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Confrontando as afirmações

encontradas na nova constitui-

ção brasileira com a realidade de

escola que conhecemos e acom-

panhamos através da história,

pensamos que há ainda um cami-

nho grande a construir. Estamos

certos de que o que vai determi-

nar uma mudança substancial

será a vontade pública e política

de nossa sociedade.

De total de crianças matricu-

ladas em nossas escolas, uma

média de 40% é descartada pela

evasão e repetência na passagem

da l.a para a 2. a série. Esse per-

centual é constituído basica-

mente pelas camadas de baixa

(e/ou baixíssima renda) de nossa

população, faixa onde estão con-

centrados negros, mestiços, nor-

destinos, pessoas que historica-

mente têm sido colocadas à mar-

gem da vida, vida aqui no senti-

do definido, minimamente, em

relação à qualidade: falta de con-

dições decentes de habitação, de

saúde, sem vez na escola, sem di-

reito à cidadania.

Art. 5.° "Todos são iguais pe-

te a lei, sem distinção de qual-

quer natureza" (?)

A partir dos anos 70, as ciên-

cias mais estreitamente ligadas à

questão da educação têm apro-

fundado as pesquisas e o estudo,

favorecendo uma melhor com-

preensão desse distanciamento

escola-sociedade.

Lingüisticamente, nfo existe

língua "boa" ou "ruim", "culta"

ou "inferior" logo as variantes

de língua falada pelos nossos

alunos (principalmente aqueles

provenientes das classes sociais

mais baixas) são variantes legíti-

mas e que, portanto, devem ser

consideradas pela escola. Ao dis-

criminarmos o modo de falar dos

alunos, estamos discriminando

não só essas pessoas, mas toda

uma comunidade falante dessa

variante lingüística e muito mais:

todos os conteúdos, os anseios e

a vida de um grupo que através

dela são veiculados, representan-

do a cultura e a identidade do

grupo que a utiliza. A variante

padrão da língua deve ser traba-

lhada pela escola como mais uma

forma de expressão pelo que re-

presenta na nossa sociedade: ins-

trumento utilizado pela classe

dominante, impregnado de con-

teúdos valorizados e legitimados

há anos por essa classe, principal-

mente como forma de domina-

ção, valendo como reflexo do

poder e da autoridade que a mi-

noria dominante têm nas rela-

ções econômicas e sociais. Toda

a sociedade precisa "dominá-lo"

como uma ferramente de sobre-

vivência e de reversão da domi-

nação que é reproduzida na es-

cola quando ela se fecha, man-

tendo e refletindo as desigualda-

des sociais.

Art. 210 "Serfo fixados conteú-

dos mínimos para o ensino fun-

damental de maneira a assegurar

formação básica comum e res-

peito aos valores culturais e ar-

tísticos, nacionais e regionais."

(?)

É na discussão dos usos so-

ciais das variantes lingüísticas

na/pela escola que contribuímos

para criar uma escola mais verda-

deira, mais honesta, mais ligada

á realidade, no sentido de que es-

ta é uma das heterogeneidades

que a escola mais pode trabalhar.

Art. 5.°

XIV - "É assegurado a todos

o acesso à informação." (?)

No campo da aquisição da es-

crita, as conclusões das pesquisas

da psicóloga argentina Dra. Emí-

lia Ferreiro desmascaram a tradi-

cional "incapacidade" de apren-

der a ler e a escrever. Ao partir

de como a criança aprende (e

não de como se ensina). Ferreiro

comprova que a língua escrita,

enquanto objeto cultural do co-

nhecimento, não requer uma

aprendizagem mecânica, mas

sim, conceituai e que a criança

inicia esse processo antes mesmo

de entrar para a escola, formu-

lando hipóteses sobre a escrita.

Resgata-se então o aluno pensan-

te e esse resgate força um outro:

o do professor pensante.

Cecília Maria Goulart Pacheco


JMF - O Estado é incompeten-

te?

MIGUEL - É ilusório pensar

que o Estado esteja se tornando

incompetente. A Educação co-

mo instrumento de manutenção

do poder é historicamente regis-

trada no Brasil. Ela continua na

mão de quem comanda o jogo e

o Estado sempre se prestou a is-

to.

ELY - Num país onde as verbas

para a educação são distribuídas,

em seu destino e quantidade e

não se investe na Escola, a quem

interessa alfabetizar? Que cida-

dão desinformar?

ELIANE - Não existe incompe-

tência. A Escola reproduz o Es-

tado. Ao aluno da classe popular

é negada a informação que pode-

ria favorece-lo socialmente.

TOGO — A incompetência pode

ser em nossa visão, enquanto

oprimidos, o Estado é competen-

te quando oferece uma escola

que atende aos interesses de uma

oligarquia e usa a educação co-

mo instrumento de coerção, co-

mo componente do controle so-

cial.

MIGUEL - A burguesia é o Es-

tado. A Escola privada sempre

deu conta da Educação de acor-

do com os interesses desta classe.

Em relação ao público, o Estado

centraliza os recursos técnicos-

financeiros, aposta na fragilidade

dos municípios em todos os ní-

veis, na saúde e na educação.

JMF — O modelo de Educação

brasileira em seu processo de ai-

fabetização teve alguma evolu-

ção?

ELIANE - O processo de Alfa-

betização de alunos com até sete

anos de repetência, proposto pe-

lo programa especial de educa-

ção no CIEP - Presidente Agos-

tinho Neto, no bairro do Humai-

tá-RJ, foi sofrendo um desgaste

por causa do abandono do Go-

verno Estadual e Municipal.

MIGUEL - Isto bate com a ques-

tão da incompetência do Estado.

Você tem espaço para trabalhar,

mas não tem os recursos. 0 pro-

jeto que trabalho na Baixada

Flumlnense-RJ tem o respaldo

da Igreja e do Movimento Popu-

lar.

Os Técnicos da Fundação da-

rão assistência ao pessoal, mas

não existe verba para material,

transporte, treinamento e capaci-

tação.

Logo, a nossa atitude é arcar

com os custos...

ELIANE — Um prédio escolar

com problemas com instalações

MAIORIA FALANTE Página 9

EDUCAÇÃO: GOLPE

MESTRE DAS ELITES

elétricas, falta de água, etc, po-

de interferir na alfabetização

da turma...

MIGUEL - Mesmo o aluno con-

siderado renitente, intratável, no

momento de aprender, se dentro

de sua comunidade, ele vai parti-

cipar e constrói junto. O sistema

está montado para boicotar a

cultura subterrânea, as formas

próprias de aquisição de conheci-

mento que a população tem. Os

cursos específicos, as faculdades

de educação, os pós-graduações,

as pesquisas educacionais, não

estão voltadas para a realidade

da relação Escola-Aluno-Comu-

nidade.

JMF — Qual a distância entre a

criança da escola pública que

não se alfabetiza e o adulto que

se matricula no curso de alfabe-

tização supletivo?

MIGUEL — Não existe distância,

os dois são submetidos a um mo-

delo de escola que os ignora, são

fadados a passar por ela e sair

frustrados. Os dois são condena-

dos pela escola.

ELY - A formação do professor

é desvinculada da realidade que

o espera na escola pública. Os

clientes são diferentes do ideal

construído e o professor não en-

tende suas necessidades e nem se

dá tempo para isto.

Alguns utilizam a escola nor-

mal como trampolim para outros

cursos e atividades. Eles passam

pela escola, e mesmo os mais es-

clarecidos vêem a escola como

um poder, acreditando que ela é

demoaática e cumpridora de seu

papel.

"A formação do profes-

sor é desvinculada da reali-

dade que o espera na escola."

ELIANE — Um professor de

Educação Física dos alunos do

Projeto Juvenil do CIEP em Hu-

maitá-RJ, levou a turma para as-

sistir à um Vídeo sobre o Chile.

Neste vídeo apareciam vários

agricultores mostrando seu tra-

balho na terra.

Um dos alunos estabeleceu

um elo com as palavras e letras

que o professor aproveitou do

deo, porque elas retratavam

sua vivência com a terra lá no

Nordeste. Iniciou-se então seu

processo de alfabetização. Se

não houver esta ponte com a rea-

lidade do aluno, a escola vai mas-

sacrar tanto aos sete anos quanto

aos 15 anos, 20 anos, 30 anos.

JMF — Qual a responsabilidade

civil do Professor diante desta

problemática?

MIGUEL

0 Professor é um inocente útil,

vítima do sistema que ajuda a

perpetuar. 0 professor não des-

cobriu que está a serviço de uma

população diferente da que idea-

lizou.

por Togo loruba

Êle Semog

Slians Souza

0 Sistema montado pelas elites brasileiras, no sentido de garantir o acúmulo de

renda e saber, produzido pelas classes dominadas, se faz sentir em todos os

setores da atividade nacional. A Educação tem sido um instrumento de com-

petência maquiavélica por parte do Estado — aparelho ideológico de domina-

ção da oligarquia etnocéntrica — onde de forma perversa e discriminatória, atende á

interesses antipopulares. O não acesso da maioria, á formação e á informação tem

contribuído cientificamente para a alienação dos direitos de cidadania do povo.

Por isso, ficamos diante de uma Escola caracterizada pelo pressuposto de igualda-

de para todos, cujo professor se conflitua com a realidade social dos alunos e a retóri-

ca ideológica do Estado.

Acreditar em medidas capazes de resgatar a qualidade do ensino e o atendimento

da valorização do educador, significa incrementar uma política de Educação alterna-

tiva mediante um suporte ideológico transformador.

O MAIORIA FALANTE, neste número apresenta um debate onde os professores

Ely Gomes, Eliane de Souza, Miguel Farah e Togo loruba, põem em cheque questões

que afligem aos educadores, pais e alunos. Vamos conferir.

"O Sistema é perverso,

está montado para boicotar

a cultura subterrânea que a

população tem." •

TOGO — Podemos ver de duas

formas: A primeira é o seu en-

quadramento através das pro-

postas dos aparelhos ideológicos

do Estado brasileiro, que não

atendem ao povo ou, então sua

insubordinação civil, rejeitando

este enquadramento e partindo

para propostas alternativas de

educação e de Escola brasileira.

ELY — é difícil o professor sa-

ber o que o povo quer... Ele des-

conhece no geral esse povo...

"A autogestão possibilita-

ria um maior poder de pres-

são, maior controle, maior

exigência da população."

JMF — E a produtividade da Es-

cola?

ELY — A escola não se respon-

sabiliza pelo que acontece. Ela

é aberta e o professor democra-

ticamente distribui conhecimen-

to. Aqueles que infelizmente não

aproveitarem não é de sua res-

ponsabilidade, a incapacidade é

do aluno. Ela tem um pressupos-

to de igualdade para todos...

ELIANE - Aí está a grande com-

petência do Estado e o grande

papel da Escola reforçando e re-

produzindo o Sistema e produ-

zindo mão-de-obra para ser ex-

plorada.

MIGUEL — Contribuindo para

que o povo fique prejudicado na

origem, que se considera de se-

gunda categoria. Que acredite

nisto. O filho de classe popular

que repete o ano, é imediata-

mente tirado da Escola e vai pa-

ra o trabalho. O da burguesia, o

pai muda de escola ou questiona

a educação oferecida.

MIGUEL — A concentração do

modelo brasileiro não é só na

Economia, não se deu somente

y s-

em relação aos recursos finan-

ceiros, se deu com a produção,

com a tecnologia e também com

a educação.

São quatro mil municípios

que necessitam de reestrutura-

ção, de repasse de verbas.

Em recursos humanos temos

muita gente boa, com visão geral

em Educação, mas estão disper-

sos. Existe um excelente quadro

formado através de Projetos de-

senvolvidos pelo MOBRAL,

Rondon, L.B.A., EDUCAR e

que foi desmontado. A falta de

visão geral da realidade das dife-

rentes áreas do Brasil, tem con-

tribuído para a irresponsabilida-

de civil do professor.

"O pai não se sente á von-

tade para questionar a esco-

la, para interferir nos pro-

cessos da Educação."

ELY — O aluno pobre introjeta

que a escola fez tudo por ele, ele

é que é incompetente, e a famí-

lia se conforma. O pai não se

sente à vontade para questionar

a escola, para inferferir nos pro-

cessos dela.

JMF — Quem lucra com o Anal-

fabetismo?

TOGO — Todos lucram e tam-

bém seus cúmplices. Como po-

demos resolver a questão? Dian-

te desta cumplicidade geral, só

criando alternativa para mudan-

ças...

MIGUEL — O nível de consciên-

cia é pequeno. A mobilização da

população é lenta. O analfabeto

é ingênuo, falta-lhe informação,

sentido coletivo na maioria das

vezes, isto diminue a força de

pressão. Cultiva-se o analfabetis-

mo para que não se mude as re-

gras do jogo. A autogestão pos-

sibilitaria um maior poder de

pressão, maior controle, maior

exigência da população.

ELY — É possível autogestão

sem modificação da estrutura do

poder?

MIGUEL — Não, e esta modifi-

cação depende da organização

da população. O fenômeno edu-

cativo não fará revolução, mas

despertará nas pessoas uma asso-

ciação de idéias a coisas relativas

à sua comunidade.

JMF - E a descentralização? Sig-

nifica transferência da responsa-

bilidade, um mecanismo de ma-

nutenção do poder ou enfraque-

ceria quem tira lucro do analfa-

betismo.

ELY — A descentralização pio-

rana a situação do povo nos Mu-

nicípios que já estão falidos,

sem recursos em situação caóti-

ca. Não há verbas, não há mate-

riais, há falta de professor. Quem

lucra com o analfabetismo não

ficaria enfraquecido.


Página 10

L igia — Christiano — Madalena — Tânia e João

Equipe do Programa "Chegando no Pedaço"

CHEGANDO NO PEDA-

ÇO: Antropólogo Mis-

cênio Santos, o 13 de

maio é um dia de festa

ou de luto?

Miscênio Santos - Para alguns

grupos religiosos é o símbolo de

uma identidade sagrada, logo dia

de festa. E para o movimento ne-

gro é uma data que não se presta

à construção de uma identidade

positiva, portanto seria o luto.

CP: Religiosidade, como assim?

MS: No campo religioso, é o dia

em que N. Senhora de Fátima

apareceu na cova de Iria, em Por-

tugal, isto para os católicos, no

século XIX. Para a umbanda se-

ria o cuito dos pretos velhos. A

escrava Anastácia também vem

sendo venerada neste dia,

CP: Você falou em escrava Anas-

tácia. Vamos ver com Maria Au-

xiliadora, que é devota de Anas-

tácia, o que ela pensa sobre o fe-

chamento do Museu do Negro,

na véspera do 13 de maio.

DENUNCIA

por Odilon Bernardes- Pres.AMAPAM

Em Itaboraí, o bairro Planal-

to Marambaia, vem sofrendo dis-

criminação: a água

No governo passado, as Secre-

tarias do Estado estavam abertas

para as Associações de Morado-

res.

Com a mudança do governo

em 87, o abastecimento de água

no bairro, foi interrompido, com

a alegação da CEDAE que o abas-

tecimento voltaria ao normal,

quando inaugurado o Sistema

Paraíso de Abastecimento. Em

janeiro 89 a água voltou ao con-

junto residencial de Marambaia,

abastecido duas vezes por sema-

na, através de pipas-d'água, en-

viadas pela CEDAE. 0 restante

da com jmdade, aguarda com

preocupação, sem saber quando

poderá receber o precioso líqui-

do.

Hoje, a água que abastece o

Conjunto, não passa de um "ca-

la-boca", por parte da CEDAE,

pois o Sistema Paraíso, que se-

gundo o governo estadual abas-

MA: O único lugar para se agra-

decer às graças de Anastácia foi

fechado. É um absurdo.

FUNCIONÁRIA DO MUSEU

QUE NÃO QUIS SE IDENTIFI-

CAR: Os padres não aceitam a

imagem da escrava Anastácia na

igreja porque ela não foi canoni-

zada. Os fiéis acham que a Anas-

tácia é uma santa e como conse-

guiram muitas graças, a devoção

aumentou. Acho que por isso é

que a Cúria Metropolitana fe-

chou o museu. Dizem que a Cú-

ria quer tirar todos os santos ne-

gros.

CP: Por falar em religião. Frei

Marcos, como é a atuação da

Pastoral Negra?

Frei Marcos: (Coordenador da

Paróquia de Pilar — Caxias): Na

Igreja é a retomada da revaloriza-

ção do negro, nós como cristãos

e católicos queremos resgatar

nossa cultura negra dentro da

teceria os bairros Marambaia,

Apollo III e Mancha, foi desvia-

da para Paquetá.

Os moradores daqueles bair-

ros são obrigados a comprar água

nos diversos carros-pipas, cuja

água é fornecida' pela CEDAE

gratuitamente; no chafariz de Al-

cântara.

A Associação dos Moradores

Amigos do Planalto Marambaia —

MAIORIA FALANTE Junho/Julho

RE VISITANDO O ^IS'' por

Togo

Entre na onda. Ligue rádio Tamoio-AM e terá a possibilidade de participar do

"Chegando no Pedaço", um programa moderno e interessante que o colocará

na trilha dos movimentos populares. Foi graças a Tânia Coelho e Christiano

Menezes, coordenadora e apresentador respectivamente, que juntos com um

grupo de sociólogos, ativistas e intelectuais, discutiu o significado do "13 de maio".

O que segue é a síntese daquele encontro de afirmação anti-etnocentrista e antico-

lonialista. O "Maioria Falante" na luta pela sistematização da mídia alternativa, che-

ga junto.

Igreja junto com o movimento

J negro.

Membros da Diretoria da AMAPÁM

CP: Você tem tido problemas

por estas atitudes?

FM: Existe na Igreja esta divisão,

a gente sabe que a Igreja do po-

der não aceita toda esta cami-

nhada. Mas, existe uma outra

Igreja que emerge, que é a afro-

latino-americana, a Igreja dos po-

bres, a Teologia da Libertação.

CP: Januário, como você vê isso?

Januário Garcia ( presidente

do Instituto das Pesquisas das

Culturas Negras - IPCN): O Cris-

tianismo só chegou na Europa

400 anos depois dele existir na

África. Havia um tratado secreto

entre o Vaticano e Portugal, on-

de o Vaticano recebia 5% dos lu-

cros obtidos com o tráfico. A

Igreja no Brasil tem uma divida

muito grande com a comunidade

negra.

CP: Frei Marcos, a Igreja que vo-

cê participa tem esta reflexão

que Januário falou. Até que pon-

to esta Igreja poderá prevalecer?

FM: A caminhada hoje na Amé-

rica Latina é uma caminhada ir-

reversível, pode vir o poder de

Roma e Cia Ltda, mas a Igreja de

Jesus Cristo quer ser fiel ao Evan-

gelho.

AMAPAM - espera que o Dr.

Newton Pereira dos Santos, Pre-

sidente da CEDAE, faça cumprir

a promessa de Abastecimento

d'água em 6 meses.

Cinco meses se passaram.

"Cadê"a água?

É importante que essa discri-

minação seja interrompida o mais

breve possível, para que o bem-

estar geral, volte a reinar, no seio

desta população.

CP: Januário, a esquerda já ab-

sorveu a luta do movimento ne-

gro?

JG: Ela é parte formadora desse

racismo como ideologia de domi-

nação, a medida que os partidos

reproduziram os moldes euro-

peus. Ela nunca fez uma reflexão

porque para ela o negro é massa

de manobra, eu não estou em

partido poICtico nenhum, entre a

esquerda e a direita, eu sou ne-

gro. No PDT há a Secretaria do

Negro, no PT tem a Comissão do

Negro, o Negro sabe o seu lugar

nos partidos...

CP: Carlos Moura (Assessor do

Ministério da Cultura p/Assuntos

Afros): Como o Estado viu o

incidente da marcha contra a far-

sa da Abolição no ano passado, e

como vê a Democracia Racial?

CARLOS M.: O fato do Ministé-

rio de Cultura, ter constituído

uma Assessoria Afro-Brasileira,

ter instituTdo um Programa Na-

cional do Centenário da Aboli-

ção da Escravatura (PROCEN),

o fato do poder executivo ter en-

caminhado ao Congresso um

projeto de lei, propondo a cria-

ção da Fundação Palmares, mos-

tra que o Estado Brasileiro não

aceita a falácia da Democracia

Racial.

loruba

CP: Comparam a Fundação Pal-

mares à FUNAI, no sentido de

fiscalizar e controlar o carro, o

que você nos diz sobre isto?

CARLOS M: Não pode existir

nenhuma relação de FUNAI com

a Fundação Palmares, porque se

vai tratar da questão Afro-Brasi-

leira e a FUNAI cuida do índio...

CP: Quanto o PROCEN gastou

no Centenário da Abolição?

CARLOS M: Exatamente NCz$

481.000,00 (Quatrocentos e oi-

tenta e um mil cruzados novos),

transferindo recursos a órgãos

públicos e muito mais a particu-

lares.

CP: E qual foi a participação do

governo no Centenário da Aboli-

ção no ano passado?

CARLOS M: O MINC elaborou

pesquisa com os setores da socie-

dade civil, órgãos públicos e mo-

vimento negro, para saber o que

faríamos. Editamos o livro "A

mão afro-brasileira", "A história

geral e o negro no Brasil", de

Joel Rufino, Décio Freitas e Cló-

vis Moura. Editamos "As nascen-

tes negras da música brasileira",

com a participação da pesquisa-

dora Maria da Glória Veiga e as-

sistência musical do Maestro

Paulo Moura.

ITAPERUNA:

O NEGRO

HOMENAGEADO

Em primeiro de maio, a

Câmara Municipal de

Itaperuna, norte flumi-

nense, a primeira eleita

com a maioria republicana em

pleno regime monárquico, com-

pletou seu Centenário homena-

geando o Movimento Afro-Brasi-

leiroda cidade (MOABI).

Surgido há quatro anos e filia-

do ao CENIERJ (Conselho de

Entidades Negras do Interior do

RJ) o MOABI tem como objeti-

vo conscientizar, resgat&r a cul-

tura negra e combater todo tipo

de discriminação.

O trabalho é realizado através

do grupo de Dança e Banda-A fro:

Axé de Zambi, que já se apre-

sentaram em diversas cidades

deste estado.

O MOABI que é presidido

por Raul de Oliveira, organiza

anualmente um bloco afro por

ocasião do Carnaval, onde con-

grega negros e brancos. Uma

por João

Morais

outra atividade é o grupo de

pagode "Liberdade", também

vinculado ao movimento que

visa ressaltar as raízes e desco-

brir novos talentos, provando

que lá o samba também resiste.

Além do trabalho cultural, o

MOABI realiza trabalhos sociais

nas comunidades do Morro Hor-

to Florestal, Castelo e Marca

Tempo, através de um convênio

com a SEAC (Secretaria Espe-

cial de Ação Comunitária) do

Governo Federal.

Um outro Projeto do grupo,

o "Lima Barreto", foi colocado

em prática esse ano, apoiado

pela Fundação Bradesco, e se

resume na distribuição de mate-

riais escolares.

Contatos: Caixa Postal 121.426-

CEP28.300 - ITAPERUNA/RJ

Participantes: Umberto Mala-

faia — Presidente — Raul de Oli-

veira — Vice-Presidente e José

Luiz — Diretor Cultural.


Junho/Julho MAIORIA FALANTE Página 11

por Tupac

"Todos os comunistas

têm que compreender esta

verdade: "O poder nasce do

fuzil". Nosso princípio é: O

Partido manda no fuzil, e

jamais permitiremos que o

fuzil mande no Partido".

(Mao Tse-tung,

ex-presidente da

República Popular da China)

ou revolucionário. Mas

S

acredito que entre homens

de pensamento

firme e posição definida

é fácil se entender e se apreciar,

ainda que combatendo entre

si. Com o setor político que

não me entenderei jamais é o

outro: o do reformismo medíocre,

o do socialismo domesticado,

o da democracia fariséia".

(José Carlos Mariátegui,

fundador do Partido

Comunista do Peru)

18 de junho de 1986. Há um

ano que Alan Garcia ocupa a pre-

sidência da República do Peru.

Em Lima, sua capital, reúne-se o

.XVII Congresso da Internacional

Socialista. Nos cárceres de El

Frontón, Lurigancho e Callao,

prisioneiros de guerra se amoti-

nam para denunciar mais uma

vez, que está em marcha um pla-

no de extermínio para eliminar

centenas deles.

Um dia mais tarde, 19, o go-

verno da socialdemocrata Alian-

ça Popular Revolucionária Ame-

ricana (APRA), mobilizando o

Exército, a Marinha da Guerra, a

Força Aérea e as forças policiais,

sob o Comando Conjunto, inva-

dem os presídios: "mais de cem

pessoas assassinadas depois de

rendidas, com as mãos em alto e

uma por uma à vista e paciência

de chefes superiores que haviam

sido encarregados de restabelecer

a normalidade nos presídios -

não de os converter em campos

de extermínio..." (Que Hacer,

junho-julho de 1986). Outras

fontes indicam que os mortos

foram quatrocentos, e entre eles

124 eram senderistas.

QUEM SÃO?

Os senderistas são oriundos

do Partido Comunista do Peru,

que fundara Mariátegui em 7 de

SENDERO LUMINOSO

A REVOLTA JUSTIFICADA

outubro de 1928. Com a morte

desse brilhante intelectual dois

anos depois, o partido, que nas-

cera sob bases marxistas-leninis-

tas, caiu em mãos dos setores re-

formistas. Até que no começo

dos anos sessenta, no Comitê Re-

gional de Ayacucho, se iniciou o

racha do grupo orientado por

Abimael Guzmán, o máximo di-

rigente senderista e mais conhe-

cido como Presidente Gonzalo.

A explicação dada pelo Sen-

dero Luminoso é que esse grupo

surgiu como produto da luta de

classes a nível mundial, "espe-

cialmente da grande luta entre

marxismo e revisionismo" que

serviu à divulgação do pensamen-

to do outrora dirigente chinês

Mao Tse-tung; a organização de-

fine-se como marxista-leninista-

maoista. Paralelamente, o pró-

prio processo da sociedade pe-

ruana com o seu desenvolvimen-

to "de capitalismo burocrático,

a agudização da luta de classes

das massas, a intensificação da

atividade política com sua cres-

cente propaganda sobre a luta ar-

mada e, além do mais, a região

na qual se realizava, aonde o se-

mi feudalismo mostrava sua ca-

duquice e o campesinato desper-

tava combatente, expressão de

idêntico processo em todo o

país".

Depois da V Conferência Na-

cional partidária, a facção come-

çou a trabalhar para a constru-

ção dos "três instrumentos da re-

volução: partido, força armada e

frente única". Em fevereiro de

70 se dá a ruptura com os "revi-

sionistas", e triunfando na luta

contra o "liquidacionismo de

esquerda" (em 1975) e a "linha

oportunista de direita", no IX

Plenário do Comitê Central Am-

pliado de maio de 1979, sob a

palavra de ordem "Definir e De-

cidir", aprovou "Incitar a Luta

Armada".

A GUERRA SENDERISTA

"O Esquema da Luta Arma-

da", documento aprovado no

VIII Plenário do Comitê Central,

propõe que "a guerra popular no

Peru deve desenvolver a guerra

revolucionária como unidade

tanto no campo quanto na cida-

de, sendo o campo o teatro prin-

cipal das ações armadas, seguin-

do o caminho de cercar as cida-

des desde o campo". Esse mes-

mo trabalho inclue o "Peru den-

tro do condomínio da América

Latina, na América do Sul parti-

cularmente, e dentro do contex-

to internacional e a revolução

mundial". É importante dizer

que Sendero, faz parte junto

com outros grupos maoistas, do

Movimento Revolucionário In-

ternacionalista.

Em 17 de maio de 1980, atra-

vés de uma imaginativa ação de

propaganda, os senderistas inicia-

ram a "Guerra Popular", des-

f raudando bandeiras vermelhas e

içando foices e martelos procla-

mando "Ia rebelión se justifica"

e que o "poder nasce do fuzil".

Em 81 e 82 extenderam a guerri-

lha a várias regiões e começaram

a criar os "Comitês Populares",

organização da frente única que

"concrefiza a ditadura conjunta

de operários, camponeses e pe-

quena burguesia... se conformam

como uma ditadura de Nova De-

mocracia enquanto sistema de

Estado e em assembléias popu-

lares enquanto sistema de gover-

no". Apesar de que a "burguesia

nacional não participa agora na

revolução, seus interesses são res-

peitados. O Comitê é seleciona-

do pela Assembléia de Delegados

seguindo a norma dos três ter-

ços: um terço de comunista re-

presentando o proletariado, um

segundo terço de camponeses

continua na "defesa, desenvolvi-

mento e construção para a ma-

nutenção das bases de apoio e

expansão da guerra popular a to-

do o âmbito de nossas serras do

Norte a Sul".

A região de Ayacucho, Huan-

cavelica e Apurimac serviu de

berço a este movimento, e nele

começaram suas ações militares.

Entre 84 e 86, 75% dos ataques

guerrilheiros foram realizados

naquela área, assim, como 43%

da propaganda e agitação arma-

da. E obviamente, também nessa

região a repressão começou a fa-

zer estragos na população. Em

83, no departamento de Ayacu-

cho, o governo iniciou o "aniqui-

lamento do campesinado e a des-

truição de comunidades e peque-

nos povoados; em Espite, pro-

llustração fonte: "La Rebelión Justificada"/ECO

pobres em representação do

campesinado e um terceiro terço

de camponeses médios e elemen-

tos progressistas em representa-

ção da pequena burguesia". As

funções desses comitês são as

de "organizar a vida sqcial das

massas em todos os seus pla-

nos; a organização da produção,

principalmente da agricultura,

do comércio, orientando a ativi-

dade para o trabalho coletivo;

além de isso exerce justiça, orga-

niza a educação e o lazer, assim

como controla a marcha das or-

ganizações populares e garante a

segurança coletiva e individual..."

Sendero cresce, parece cada

vez mais duro, tenta criar um

Poder paralelo. A reação do sis-

tema também começa a ser cada

vez mais violenta; 83 e 84 são

anos de luta em torno da tenta-

tiva do governo para acabar com

os projetos subversivos por um

lado, e a defesa do "Poder Popu-

lar" comunista recém surgido,

pelo outro. De 85 a hoje, SL

víncia de Cangallo, em junho de

83, de helicópteros metralharam

as massas e lançaram granadas na

população que procurava fugir

pelos morros. No mês de julho,

em Ogopoeya e Uchugaray, po-

vos da província de Huanta, tam-

bém de helicópteros as massas

foram metralhadas e aniquiladas

com granadas; e em Paccha, po-

vo de Vinchos, província de

Huamanga, a maioria foi assassi-

nada e o restante da população

transladada para Lima. Em ju-

lho, na cidade de Ayacucho, apa-

recem os primeiros cadáveres

monstruosamente torturados jo-

gados nas ruas. Em setembro e

outubro mais de 800 pessoas

morreram em idênticas condi-

ções.

De acordo com versões extra-

oficiais, até maio de 86 haviam

morto 11.300 pessoas do povo,

1668 membros das forças arma-

das, policiais e alcaguetes e 1738

combatentes do Exército Guerri-

lheiro Popular, ou seja, Sendero

Luminoso.

RAÍZES DA GUERRA

Segundo E. Anaya no seu

"Imperialismo, industrialização e

transferência de tecnologia no

Peru", a dinâmica do cresci-

mento industrial neste país foi

impulsionada, nas duas últimas

décadas, pelas empresas e cartéis

transnacionais de origem norte-

americano, europeu e japonês,

os mesmos que, ao penetrar nes-

sa sociedade, tenderam a estabe-

lecer suas formas monopólicas

ou ologopólicas, tanto no que

se refere à produção quanto à

distribuição do produto que ela-

boram. Sendo assim, a penetra-

ção dessas transnacionais na in-

dústria manufatureira contribuiu

de forma direta para a marginali-

zação dos novos e velhos setores

da burguesia peruana. O que

atualmente se desenvolve é uma

burguesia intermediária surgida

de certos grupos que, em base a

seu prestígio e vínculos sociais e

econômicos foram integrados às

transnacionais, formando parte

do cada vez mais crescente setor

intermediário.

Outro aspecto não menos im-

portante é a monopolização do

poder do Estado pelas forças ar-

madas que são como afirmam os

senderistas —, sua coluna verte-

bral e da burocracia que, precisa-

mente, concentram seus meios

na capital para suster a ditadura

da classe latifundiária burocráti-

ca que é o Estado peruano, e

desde ali controla todo o país.

E a tão falada "reforma agrá-

ria" ficou em que?; a entrega de

terras a camponeses individuais,

de acordo com dados oficiais

(1963 a 1979), teria sido apenas

de 7.7% da terra adjudicada; e se

faz estimativa do número de

camponeses "beneficiários" seria

ao redor de um milhão oitocen-

tos mil, mas no censo do ano 81

diz que há seis milhões duzentos

e quarenta e cinco mil campone-

ses; as propaladas "reformas

agrárias" não teriam chegado

nem a um terço do campesinado.

Vejamos outras cifras. O de-

semprego se elevou do 7% em 80

ao 11.8% em 85; no setor não-

agropecuário, nas cidades, pulou

de 10.9% a 18.4%, nos mesmos

anos. O sub-emprego passou de

51.2% em 80, a 54.1% em 85;

mas se dá tanto no campo como

na cidade, com a particularidade

de que enquanto no campo dimi-

nuiu de 68.2% a 60.4% na mes-

ma época, na cidade se elevou de

41.4% até 50.5%. O ingresso per

capita dos trabalhadores, é mais

ou menos o mesmo que o de

1965.

Em 1980, no setor agropecuá-

rio, 41.8% da mão-de-obra ativa

tinha emprego fixo, e em 1985,

apenas 34.1%; na área urbana,

também em 80, trabalhavam

47.7% dos assalariados do setor,

e em 85 só 31.1% dos mesmos

recebia regularmente. Hoje, a

maioria dos peruanos vive na mi-

séria absoluta. E diante desse

quadro, cabe em último interro-

gante: a revolta e a guerra estão

justificadas?


A fé de um povo oprimido

é maior que qualquer poder.

Anastácia continuará Santa

apesar da Inquisição.

.Escrava

Anastácia Confio em "Deus" com todas

as minhas forças e peço a

k 'Deus" que ilumine o meu

caminho e a minha vida.


Pt0ifMl2 MAIORIA FALANTE Junho/Julho

11.° Encontro de Mu-

lheres Negras da Bai-

xada Santista surgiu

da necessidade de se

organizarem enquanto tal.

Sob o financiamento da

LBA — Legião Brasileira de

Assistência; e também de

Associações estrangeiras co-

mo o NOVIB, Instituição

Holandesa, ligada ao IBASE

— Instituto Brasileiro de

Análise Social e Econômica,

e da ACDI — Association

Canadienn pour le Develop-

ment Internationale; o even-

to aconteceu no CEFAS,

em Santos, no período de

11 a 14 de maio. Este en-

contro conta ainda com a

promoção do coletivo de

Mulheres Negras da Baixada

Santista e com o apoio de

Secretaria de Cultura de

Santos, Conselho de Desen-

volvimento e Participação

de Comunidade Negra (SP)

e Conselho Nacional dos Di-

reitos da Mulher (Brasília).

O objetivo do encontro

foi denunciar as discrimina-

ções existentes, elaborar pro-

postas para as Constituintes

Municipais e Estaduais e dis-

cutir as formas de organiza-

ção da mulher negra, que,

de acordo com pesquisas,

mostram-se deficientes. Se-

gundo dados estatísticos do

Censo de 1980 do IBGE,

metade das mulheres negras

são analfabetas, 90% apenas

consegue terminar o curso

primário e 1% chega à uni-

versidade. Esta falta de es-

colaridade vai afetar o seu

desempenho no mercado de

trabalho, onde fica relegada

às funções sem qualificação

profissional, mal remunera-

das. A maioria trabalha co-

mo empregada doméstica e

faxineira, sem registro em

carteira, não desfrutando

dos direitos adquiridos pe-

los outros trabalhadores;

62,7% das trabalhadoras ne-

gras recebem menos que 1

salário mínimo. A mulher

negra também é considerada

um objeto sexual no nível

das prostitutas, sem valor

para a maternidade e para o

casamento.

Com base nestes dados o

Encontro ofereceu às mu-

lheres negras da baixada

Santista, de outros estados e

de outros países um espaço

de vivência e reflexão, visan-

do criar mais grupos de mu-

lheres negras comprometi-

dos não apenas com a ques-

tão racial, mas com as quês

toes da comunidade. A idéia

foi dar início a um processo

de reeducação da mulher

SANTOS

DEBATE MULHERES NEGRAS

negra, conscientizando-a so-

bre as discriminações que a

limitam, sobre a necessidade

de lutar por seus direitos,

pela sua cultura, sua estéti-

ca, pelos direitos da raça en-

quanto povo brasileiro.

Durante 4 dias as partici-

pantes fizeram alojadas no

CEFAS, no bairro Jabaqua-

ra, local que há um século

abrigou o maior quilombo

do país depois de Palmares,

e discutiram todas essas

questões relativas à mulher

negra onde as atividades

eram variadas: haviam pai-

néis de discussão com expo-

sitores convidadas entre as

lideranças negras do país,

oficinas culturais resgatando

a estética negra e grupos de

discussão que fizeram um

diagnóstico sobre a situação

da mulher negra e elabora-

ram estratégias para in-

fluenciaram a nova legisla-

ção estadual e municipal e

conseguirem um sistema

educacional e meios de co-

municação mais engajados

no combate à discriminação

racial e sexual. Os homens

puderam participar das ati-

vidades de sábado, das 14 AO

em diante. Toda a progra-

mação esteve restrita às mu-

O Coletivo se impõe: Edna Rolan — Vllme Terezinhe — Prof. Vltellne

lheres diretamente ligadas

ao Encontro e às inscritas

de todo o país, apenas fo-

ram abertas à população a

programação de abertura no

dia 11/05, o cortejo de ma-

racatu e o show da cantora

Leci Brandão, no dia 13/05,

no Teatro Municipal Brás

Cubas.

Este l.o Encontro da

Baixada Santista resumiu-se

num foro consultivo com a

participação de cerca de

200 mulheres negras e bran-

cas do próprio local e convi-

dadas de outros Estados e

Países — Caribe, Canadá e

Alemanha.

As propostas do l.o En-

contro de Mulheres Negras

da bajxada santista, já fo-

ram entregues à prefeita

Telma de Souza, ao presi-

dente da Câmara de Santos,

vereador Dr. Roberto Bona-

vides, ao bispo diocesano D.

Davi Picão, ao superitenden-

te do jornal "A Tribuna" e

a OAB-Mulher, de Santos.

Na seqüência, serão en-

viadas também para os par-

tidos políticos, sindicatos,

entidades negras e do movi-

mento de mulheres, movi-

mento populares, associa-

ções de bairros, além dos

constituintes estaduais.

O PROGRAMA

Durante os quatro dias de

agrupamento do 1 o Encon-

tro de Mulheres negras da

Baixada Santista as ativida-

des foram as mais variadas:

painéis, grupos de discussão,

oficinas, organizados da se-

guinte forma: Dia 11/05 —

Neste primeiro dia de ativi-

dades o encontro contou

com a presença da Prefeita

Telma de Souza, que na

condição de Chefe do Poder

Executivo, saudou as parti-

cipantes. Houve ainda a

apresentação da Comissão

Organizadora, o coral infan-

til Omó Oya, coquetel desfi-

le de roupas afro; Dia 12/05

— Painel, com os temas Mu-

lher negra e Trabalho (Maria

Aparecida Teixeira), Mulher

negra e feminismo (Sueli

Carneiro-SP), Mulher negra

e as Constituintes Munici-

pais e Estaduais (Nadir de

Souza—Santos), Empregada

Doméstica (Representante

do Sindicato das domésti-

cas), Aids (Nanei Alonso-

G AP A/Santos); Grupos de

discussão sobre os temas

apresentados; Oficinas de

torsos, amarrações/Trança/

Dança afro moderna/Capoei-

ra/Música e canto/Estética

negra; Debate sobre Mulher

negra e Religião Afro-brasi-

leira; Dia 13/05 - Painel

com os temas: Cultura (Te-

resa Santos-SP); Educação

(Prof. Maria Lúcia Fernan-

des); Quilombo da Baixada

Santista (Prof. Wilma There-

zinha); Saúde (Edna Roland-

SP); e depois grupos de dis-

cussão sobre o assunto. E

ainda oficinas de Auto exa-

me/ Dança afro Primitiva,/

Teatro/ Modelagem/Litera-

tura/Sexualidade e Prazer e

Reflexo no espelho. Por úl-

timo, show do Grupo Mo-

nas de Oyá e da cantora Le-

ci Brandão no teatro Muni-

cipal Brás Cubas, gratuito às

participantes. No último dia,

14/05, houve um painel

com experiência de mulhe-

res negras Internacionais,

com Rhoda Reddock, do

Caribe; Carol Allain, do Ca-

nadá e Nadu Normann, da

Alemanha; e mais a Deputa-

da Benedita da Silva falan-

do um pouco das leis que

regem e passarão a reger

nosso país.

Este encontro da baixada

Santista mostrou-se extre-

mamente cultural em toda a

sua programação e enrique-

ceu-se ainda mais com a tro-

ca de informações com as

representantes do Caribe,

Canadá e Alemanha. - Rho-

da Reddock, Carol Allain e

Nadu Normaon, respectiva-

mente. A primeira pertence

ao CAFRA — Caríbbean As-

sociation for Feminist Re-

search and Action, a segun-

da ao Jornal Our Lives —

Canada's first black womerís

newspaper. A representante

alemã apenas falou de sua

experiência pessoal como ci-

dadã, emocionando muita

gente com seu discurso.

Os temas que centraliza-

ram maiores atenções foram

os relativos à saúde, ao fe-

minismo e ao trabalho, que

enfatizou a falta de profis-

sionalização da mulher ne-

gra e os direitos das empre-

gadas domésticas.

Segundo a assessora de

Imprensa do Encontro, Nil-

za Iraci, o Encontro foi ava-

liado de forma positiva pe-

las participantes, cerca de

200 pessoas, que em sua

grande maioria não integra

e nem milita nos movimen-

tos sociais tradicionais e

nem no movimento negro,

mas estava apenas interessa-

da em debater todas essas

questões.

por Beth Silva Santot

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