Volume 2 Negócios sociais e inclusivos: o papel ... - Instituto Walmart

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Volume 2 Negócios sociais e inclusivos: o papel ... - Instituto Walmart

Volume 2

Negócios sociais e inclusivos: o papel das mulheres


Sumário

Os realizadores

Instituto Walmart

Ashoka

Mapa de Soluções Inovadoras

Entendendo os direitos, a independência econômica

e a emancipação das mulheres

Professora Dra. Amalia E. Fischer

Das complexidades da independência econômica das

mulheres

Independência econômica, direitos das mulheres e

empoderamento

Estudo de caso: Fundo Elas - independência econômica

através de doações e capacitações técnicas e em direitos

humanos das mulheres

Mulheres empreendedoras: desafios e possibilidades

Quadros de geração de valor e mudança social do Fundo Elas

1. Fuxicarte

2. Cooperativa Bordadeiras da Coroa

3. Sabor e Arte

4. Bolhas Coloridas

Referências bibliográficas

Sobre a autora

Negócios sociais e inclusivos: como garantir direitos

sociais e econômicos para mulheres?

Por Alessandra Gonçalves de França

A história do microcrédito

Microcrédito no Brasil

O desafio de nascer mulher

Microcrédito produditvo orientado como alternativa

Conclusões

Referências bibliográficas

Sobre a autora

Expediente


4

Os realizadores

Instituto Walmart

Criado em 2005, o Instituto Walmart é uma organização

sem fins lucrativos, responsável pela orientação

estratégica e gestão do investimento social

privado do Walmart Brasil e também pelo apoio a iniciativas

de responsabilidade social da empresa.

O Instituto atua com foco em três causas: Juventude

e Trabalho, Desenvolvimento Local e Geração

de Renda, apoiando programas e projetos, sempre

em parceria com organizações da sociedade civil. A

missão do Instituto Walmart é “promover o autodesenvolvimento

para as pessoas viverem melhor”, e é

sustentada pela crença de que o indivíduo é o agente

da mudança de sua própria vida e da sociedade, razão

pela qual os investimentos realizados buscam incentivar

pessoas e projetos a encontrarem caminhos

para sua autonomia e sustentabilidade.

Na frente de Geração de Renda, ao longo dos cinco

anos de existência, o Instituto Walmart já apoiou

25 instituições em 32 projetos, beneficiando mais de

2.900 pessoas. Os projetos buscam criar subsídios,

orientar e fortalecer grupos produtivos para sua viabilidade,

sustentabilidade e autonomia, criando condições

favoráveis para o desenvolvimento econômico das comunidades

em situação de vulnerabilidade social.

Ashoka

A Ashoka é uma organização mundial, sem fins

lucrativos, pioneira na criação do conceito de empreendedorismo

social. Criada em 1980, pelo norte-

-americano Bill Drayton, e presente no Brasil desde

1986, a Ashoka começou a atuar na Índia e está, hoje,

presente em mais de 65 países. Ao longo dos últimos

30 anos, transformou-se em uma plataforma de

inovações em empreendedorismo e sustentabilidade

social e ambiental.

A Ashoka acredita num setor social global, capaz

de reagir rápida e eficazmente a mudanças sociais

em qualquer parte do mundo, em que cada membro

da sociedade seja um agente capaz de promover

mudanças e contribuir para as necessidades sociais

existentes. Sua visão é de que “Todo mundo pode

mudar o mundo”.

Para atingir seu objetivo, a Ashoka atua como uma

aceleradora de inovação a partir de três pilares: identificação

de empreendedores sociais; fortalecimento

do trabalho colaborativo entre empreendedores sociais;

e investimento na disseminação de iniciativas

e conhecimento em áreas ou temas emergentes e

essenciais para a construção de um setor social eficiente

e sustentável.


Mapa de Soluções Inovadoras:

Tendências de empreendedores

na construção de negócios

sociais e inclusivos

O Instituto Walmart, em parceria com a Ashoka, dá início

ao Mapa de Soluções Inovadoras – Tendências de Empreendedores

na Construção de Negócios Sociais e Inclusivos.

O projeto em questão busca sistematizar e disseminar conhecimentos

sobre a prática de empreendedores que, de

forma inovadora, têm construído no Brasil negócios sociais

e/ou inclusivos. A iniciativa prevê a realização de uma série

de quatro encontros sobre os temas: Panorama Conceitual;

Negócios Sociais e Mulheres; Negócios Sociais, Juventude,

Área Urbana e Rural; e Gestão de Negócios Sociais e Negócios

Inclusivos, reunindo atores estratégicos da academia e

da prática nesta discussão. Além disso, o projeto visa a construir

e disseminar uma publicação que sistematize as trocas,

as experiências e os aprendizados dos quatro encontros realizados,

fortalecendo esses novos campos de atuação.

O contexto

Em países em desenvolvimento tem sido frequente o

surgimento de alternativas para combater a pobreza. Os

negócios sociais e os negócios inclusivos assumiram papel

importante nessa nova economia. Novos modelos econômicos

têm sido pensados para solucionar problemas sociais

com eficiência e sustentabilidade financeira por meio

de mecanismos de mercado, e o cenário atual é muito favorável

para se pensar em novas estratégias de inserção no

mundo do trabalho.

Em 2009, segundo os dados de empreendedorismo

no Brasil, divulgados pelo GEM (Global Entrepreneurship

Monitor), a porcentagem de pessoas empreendendo seus

próprios negócios no país pulou de 13% para 15% da

população economicamente ativa. Esta mesma pesquisa

ressalta o papel da mulher no mercado empreendedor brasileiro,

uma vez que, de cada cem novas empresas, 53 são

lideradas por mulheres. Além disto, elas empreendem mais

por oportunidade do que os homens.

No caso dos jovens empreendedores, estes já são parte

importante da economia e do processo de desenvolvimento

do país, uma vez que 31% do total dos empreendedores

brasileiros têm idade entre 25 e 34 anos.

Na mesma direção está o movimento de formalização

do trabalho. Programas como o MEI (Microempreendedor

Individual) aceleram, facilitam e trazem benefícios na formalização

de milhares de empreendedores individuais. De

acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios

(Pnad), em fevereiro de 2011, 75.973 trabalhadores por

conta própria fizeram o registro e, no acumulado do ano, já

são 157.593 empreendedores individuais.

Considerando que uma economia de colaboração é a

única capaz de enfrentar os desafios de uma nova economia,

mais verde e inclusiva, a Ashoka e o Walmart convidam

você a refletir sobre os desafios reais, as barreiras

e as oportunidades para empreendedores, que podem se

transformar em uma ferramenta ótima de gestão de novos

sistemas integrados de atuação social.

5


Entendendo os direitos, a

independência econômica

e a emancipação das mulheres

Por Amalia E. Fischer

Todas as relações, interações e ações que se estabelecem

em qualquer sistema ou subsistema, tanto para as

moléculas e átomos como para os seres humanos, são

complexas. Isto porque estas relações, interações e ações

estão em constante movimento, são dinâmicas, sofrem mutações

e estão submetidas a turbulências.

A ciência da complexidade exige que se desconstrua a

lógica do pensamento simples, do pensamento dicotômico

de verdadeiro ou falso, do ser ou não ser, em outras palavras,

da lógica binária, e entra no mundo dos paradoxos.

A teoria da complexidade não terá respostas ou soluções

para tudo, mas ajuda a entender o que acontece no “entre

das conjunções, dos paradoxos”. E é com esse olhar da

complexidade que temos que pensar, conceituar e avaliar a

independência econômica das mulheres. As consequências

da independência econômica das mulheres vão além do

imediato, têm interconexões mais profundas com as possibilidades

de empoderamento das mulheres, mas nem por

isso todas as mulheres são emancipadas automaticamente.

Das complexidades da

independência econômica

das mulheres

A independência econômica das mulheres pertence aos

campos do pensamento complexo, da interrelação entre o

âmbito do público e do privado, dos direitos humanos e

do empoderamento, da segurança, e da integridade física,

mental, psicológica e sexual.

Para as mulheres adultas e jovens, ter independência

econômica significa muito mais do que ter renda, salário,

comida, comprar um vestido ou pagar o aluguel. Para elas,

independência econômica significa compreender e exercitar

seus direitos, como o direito de ir e vir e o direito a

saúde integral e de qualidade, assim como ampliar o seu

espaço na comunidade e participar mais ativamente da cultura

e da política.

7


8

Não existe, atualmente, na maioria das nações, nenhuma

dúvida de que o meio mais eficaz e eficiente para erradicar

a pobreza, alcançar a paz nas comunidades, melhorar índices

educacionais, econômicos, conservar o meio ambiente,

é o investimento privado e público na educação 1 , saúde 2 ,

profissionalização e aumento dos recursos financeiros disponíveis

para as mulheres. Porém, é um grande erro acreditar

que a erradicação da pobreza promoverá a emancipação

das mulheres, porque, além de fatores econômicos que

impedem a cidadania plena das mulheres, existem fatores

de ordem psicológica, como a internalização das sequelas

da discriminação e a reprodução nas mulheres dos valores

da ordem e do poder patriarcal, que são obstáculos para

essa emancipação.

Nos últimos oito anos, as mulheres têm sido categorizadas

pela Organização das Nações Unidas (ONU), Banco

Mundial, Fórum Econômico Mundial, Fundação Gates,

Nike 3 , Care, Grameen Bank e outros, como agentes principais

de transformação social nas suas comunidades,

principalmente quando se tratam de mulheres pobres ou

que vivem abaixo da linha da pobreza. Essas instituições

afirmam que pelo fato de as mulheres serem aquelas que

alimentam e educam os filhos, quando elas chegam a ter

renda ou são apoiadas para melhorar a qualidade de suas

vidas, elas investem primeiro na família, o que significa que

as crianças terão melhor alimentação, educação, higiene

e saúde, e isso contribuirá para que o círculo vicioso da

miséria se rompa. É indubitável que as mulheres são o que

se chama de “motor do desenvolvimento”, contudo, mesmo

que isso seja uma realidade, algumas dessas instituições

não levam em consideração que, em determinados lugares,

esse papel da reprodução designado a elas pela sociedade

patriarcal tem custo alto com relação a sua própria

emancipação e saúde 4 . Isto porque nas mãos das mulheres

continua 5 o papel do cuidado dos outros, que é do âmbito

do privado, e na mão dos homens continua o da produção

e acumulação, do âmbito do público 6 . A função do cuidado

deveria ser solucionada coletivamente, indo além de dividir

as tarefas domésticas, desconstruindo e entendendo a falsa

dicotomia entre público e privado. O que aconteceria a um

país se as mulheres deixassem um ou dois dias, ou até uma

semana, de desempenhar seu papel de cuidadoras? Sejam

estas mulheres pobres, de classe média, com emprego

assalariado, donas de casa, chefes de família ou não? Se

instalaria um caos na produção capitalista?

As mulheres sempre têm contribuído, direta ou indiretamente,

com a produção por meio de um trabalho que não

é remunerado e, quando reconhecido, as coloca como salvadoras

do mundo, desresponsabilizando os homens como

pais e habitantes do planeta. As mulheres sempre foram e

são produtivas e, por esta e outras razões, é difícil entrar

na lógica sob outra dicotomia, a da inclusão-exclusão. Na

produção, as mulheres já estão incluídas como produto-

ras, não como detentoras de direitos econômicos, mas sim

como aquelas que só recebem pelo seu trabalho se são

assalariadas ou geram renda. O certo seria então falar de

injustiça social, falta de reconhecimento do protagonismo

das mulheres na sociedade.

Segundo as Nações Unidas, em 2008, as mulheres

eram 70% da população mundial, possuíam 10% da renda

mundial, e 1% dos meios de produção, ainda que contribuíssem

com dois terços das horas trabalhadas.

A independência econômica das mulheres apresenta

um dilema ligado à ética da responsabilidade 7 , porque,

se por um lado, a função que as mulheres desenvolvem

de cuidadoras faz delas o “motor do desenvolvimento”, as

construtoras de culturas de paz, defensoras do meio ambiente

e o meio para acabar com a fome, desnutrição e ignorância,

por outro, se não se transformar, essencialmente,

a divisão sexual do trabalho, as mulheres continuarão sendo

injustiçadas.

A ética da responsabilidade exige a todas as pessoas

e instituições de uma sociedade, que ser socioeconomico

e ambientalmente responsáveis é um dever de todos e todas,

e nada tem a ver com caridade ou piedade, marketing

social ou melhorar a imagem de uma pessoa ou empresa.

Na ética da responsabilidade existem atribuição de tarefas e

apresentação de contas frente a uma instância ou alguém.

O sujeito de direito deve assumir seus atos e as consequências,

podendo ser objeto de punições, recompensa,

censura e respeito, dependendo do ato, da ação que tenha

se realizado.

No caso das mulheres, elas cumprem suas funções, im–

postas pela sociedade patriarcal, mas não são respeitadas

plenamente como produtoras indiretas, nem obtêm plena

recompensa ou reconhecimento pela sua função. A ética da

responsabilidade está ligada a relação consigo mesmo(a)

e com outras pessoas. A responsabilidade está na maneira

como meus atos afetam também aos outros (as) e se

consolida quando esse outro tem valor e direito para mim.

Em palavras de Jonas, o outro: “representa em princípio e

geralmente uma exigência com relação a minha percepção,

depois minha atenção (meu respeito)”, mas esse outro implica

também uma responsabilidade com o futuro - de si,

de outras pessoas, animais, meio ambiente e do planeta.

Como diz Edgar Morin retomando a Jonas, na “A Ética do

Sujeito Responsável”[8] : “Uma outra responsabilidade, que

é oriunda de nossa comunidade de destino planetário. E ela

sempre relembra nossa parcela de responsabilidade nesse

destino comum, e não só o que diz respeito ao presente,

mas também ao futuro”.


Independência econômica,

direitos das mulheres

e empoderamento

Se as mulheres são aquelas que têm a capacidade de

transformar a sociedade, se são o motor do desenvolvimento,

se são o presente, mas também o futuro, ser responsável

com elas implicaria ir além de lhes outorgar recursos

financeiros, capacitação técnica, oportunidade de ter

uma renda, salário ou um negócio. Significa proporcionar

informação, acesso a seus direitos, apoiar sua liberdade

de escolha, fortalecer as possibilidades de acreditar em si

mesmas, de sentirem-se autoconfiantes. A independência

econômica das mulheres está ligada também aos direitos

econômicos e trabalhistas das mulheres, seja pelo emprego

ou pela criação de empreendimentos 9 .

As mulheres, a partir do Século 20, têm entrado maciçamente

no mundo do trabalho, têm tido acesso a seus

próprios recursos com seu salário, contudo ganham aproximadamente

30% menos que os homens realizando as mesmas

tarefas, têm menos oportunidades que os homens 10 de

ascender e de receber capacitações dentro do seu local

de trabalho. O fato de terem independência econômica em

muitos dos casos proporciona automaticamente às mulheres

liberdade de mobilidade, segurança pessoal 11 , privacidade,

maior participação na comunidade e na política, acesso

a cultura, informação e educação.

A independência econômica das mulheres está intimamente

relacionada com os direitos humanos 12 das mulheres,

e também ao empoderamento das mesmas. Dito de

outra forma, ainda que a independência econômica das

mulheres proporcione acesso quase automaticamente a alguns

direitos econômicos e sociais, não garante, em todos

os casos, a emancipação e equidade de gênero. Em outras

palavras, não se deve pensar que, porque as mulheres têm

independência econômica, automaticamente estarão livres

de uma relação violenta.

Se, de um lado, temos casos de mulheres que conseguem

sua independência econômica, separam-se do companheiro

violento ou passam a ser mais respeitadas pelos

companheiros e pela comunidade, ter mais poder dentro

da família e na comunidade, por outro, há casos em que as

mulheres não saem de relações violentas e isso, muitas vezes,

se deve às sequelas da discriminação e da internalização

dos valores patriarcais e por desconhecer seus direitos.

Por isso, proporcionar oportunidades para que as mulheres

tenham independência econômica significa capacitar,

informar e educar as mulheres sobre a importância de

conhecer e exercer seus direitos, fortalecendo ainda mais

as mulheres e provocando mudanças profundas nos relacionamentos

entre homens e mulheres e na forma de educar

os(as) filhos(as) e a sociedade.

Uma possibilidade de promover o desenvolvimento das

mulheres pode ser também investir socialmente numa organização

da sociedade civil que busque garantir os direitos

gerais e específicos de coletivos de mulheres e não necessariamente

com geração de renda, empreendedorismo,

capacitação profissional ou pequenos negócios.

Como exemplo disso, o Fundo ELAS, em parceria com o

Consórcio de Fundos de Mulheres da América Latina (Astraea),

Fundação Ford, Global Fund for Women e Mamacash,

mobilizaram, entre 2008 e 2010, US$ 2 milhões para apoiar

com recursos financeiros e capacitações mais de 60 grupos

informais e organizações da sociedade civil que trabalham

com os direitos das mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais

(LBT). O recurso deveria ser gasto no suporte institucional

como telefone, renda, salários, comunicações, etc.

1 Com equidade de gênero, cor/raça/etnia. A relação entre essas categorias é também complexa e se influenciam mutuamente, algumas delas não são fixas, um homem pode adquirir

a identidade ou o sexo feminino através de cirurgia ou performaticamente, uma mulher pode passar de uma classe social a outra.

Como afirma Tina Chanter em seu livro: Gênero: Conceitos-Chave em Filosofia”: “Construir a raça, o gênero e a classe como categorias, termos, fatores ou vetores ‘entrelaçados’ (ou sobrepostos,

ou intersseccionados ou híbridos) é evitar tratar esses termos como se tivessem integridade em se mesmos”, como se eles pudessem ser acrescentados uns aos outros”. Pag.31

2 A partir de uma conceitualização holística e integral

3 Ver vídeo chamado Girl Effect, Fundação Nike.

4 Quem cuida delas e quando elas cuidam de si? Uma vez que além de cuidar dos filhos, marido, do pequeno negócio, elas tem a preocupação de pagar a dívida, estas mulheres estão

tendo uma dupla ou tripla jornada de trabalho.

5 Depende do contexto, situação, classe social e educação de cada mulher, pois com a automatização do trabalho e como as novas tecnologias de informação e em tempos de crise

econômica, há homens trabalhando em casa e cuidando do lar. Mas não é o caso de todas as famílias e, sobretudo, nos países em desenvolvimento.

6 Jacquelien Marie Brown, no seu artigo: Microcredit, Feminism and Empowerment: a Discoursive Analisys of Subject-Approches to Development, afirma que a Organização Internacional

do Trabalho (OIT) argumenta: que as estratégias de microfinanças são especialmente benéficas para as mulheres já que farão parte do “ impulso” para elas terem maior renda, as

ajudando a interpretar seu papel, status reprodutivo como agente da saúde, nutrição, educação dos outros membros da família, melhorando as atividades de produtividade da renda

das mulheres, ampliando sua auto-confiança e seu lugar dentro da família como produtoras e provedoras de valioso recurso para a economia doméstica” Nesta afirmação podemos ver

claramente que se esta colocando a responsabilidade do cuidado das pessoas da família, unicamente nas mulheres e deixando como seu destino o âmbito do privado.7 Jonas Hans.

“Pour une Ethique du Futur”. Editions Payot & Rivages, Paris, 1998.

8 Morin, Edgar. “Ética do Sujeito Responsável”. Ética, Solidaridade e Complexidade”. Palas Athenea, São Paulo, 1988

9 O fato de ter um empreendimento ou um pequeno negócio não deve descartar responsabilidades e direitos, legalização do negócio, pagamento de impostos, encargos, INSS,

aposentadoria, etc. As mulheres que criam empreendimentos devem ser capacitadas para serem sustentáveis e sair das condições terríveis que implica a informalidade onde

não existem garantia de direitos.

10 Não podemos esquecer que no Brasil as mulheres brancas ganham duas vezes mais que as mulheres negras e os homens brancos três vezes mais que estas.

11 Muitas vezes no relativo a questão econômica, mas não necessariamente com relação integridade física, mental e psicológica.

12 Os direitos das mulheres passaram a ser considerados direitos humanos a partir da Conferência de Vienna, em 1993.

9


10

Uma das organizações apoiadas foi o Grupo Afirmativo

de Mulheres Independentes, cuja missão está relacionada

com a defesa dos direitos das mulheres negras, lésbicas

e bissexuais da periferia de Natal, no Rio Grande do Norte.

Com apoio do Fundo ELAS, a organização se fortaleceu,

teve maior reconhecimento local e nacional e as mulheres,

que elas capacitavam em direitos e em geração de renda,

aumentaram em mais de 100% sua renda quando passaram

a costurar como profissionais. Estas mesmas mulheres,

a partir de uma parceria com uma grande empresa de

roupas chamada Riachuelo 13 , passaram a costurar para a

empresa. Este exemplo indica que existe também a possibilidade

de que, apoiando a institucionalização de grupos

defensores dos direitos das mulheres, também se possibilite

a independência econômica das mulheres.

Como sabemos que se provocam mudanças nas mulheres

quando essas adquirem independência econômica?

Como sabemos que elas estão se empoderando? A que

chamamos empoderamento?

O empoderamento das mulheres também tem que ser

relacionado ao contexto e às condições em que se encontram

as mulheres que estão recebendo recursos financeiros

e estão à procura da sua independência econômica.

13 Riachuelo é uma empresa de moda com 131 lojas no Brasil e mais de 40.000 funcionários/

14 Idem referência 6.

As mulheres sempre tem contribuído indireta ou

diretamente para a produção com trabalho não

remunerado, que, quando reconhecido, as coloca

como salvadoras do mundo, desresponsabilizando

aos homens como pais e habitantes do planeta.

O empoderamento não pode ser medido da mesma

maneira, nem com os mesmos indicadores, nas diferentes

comunidades onde se encontram os empreendimentos ou

negócios. Algumas das mulheres que recebem um financiamento,

seja por microcrédito ou por doação, podem ter

micropoderes dentro da família ou da comunidade. Como já

se viu anteriormente, o fato de elas terem em suas mãos as

decisões sobre a educação e a nutrição das crianças, o que

inclui de alguma maneira as compras domésticas, e também

participarem nas atividades da igreja da comunidade,

significa que as mulheres têm micropoderes, não podem

ser vistas como as coitadinhas, nem se deve fazer delas

vítimas, ao contrário, deve-se potenciar seus poderes para

que estes estejam além da esfera do privado.

O empoderamento das mulheres por meio da independência

econômica pode proporcionar às mulheres a possibilidade

de se liberar de uma relação violenta, de poder

ir e vir sozinha, exercitar sua capacidade de fazer compras

pequenas e grandes, abrir conta no banco, manejar seu

próprio dinheiro, ter segurança econômica, tomar pequenas

e grandes decisões, participar politicamente fora e dentro

da comunidade.


Mas, como fala Brown 14 , deve-se ter claro que o empoderamento

“não é um ideal fixo”, ele vai depender de

cada mulher e de cada contexto, porque as mulheres, assim

como os homens, estão atravessadas por diferenças como

raça, etnia e orientação sexual, e por desigualdades provocadas

por discriminações ou por classes sociais, pelo que

o empoderamento deve ser contextualizado a partir de uma

ótica complexa.

O empoderamento também deve estar interconectado

com processos de mudanças na subjetividade das mulheres.

Um processo de empoderamento deve fortalecer psicologicamente

as mulheres e desenvolver sua autoconfiança,

criar vínculos de solidariedade entre elas, desconstruindo

assim os valores patriarcais de rivalidade e competição que

as mulheres têm aprendido e reproduzido.

Tudo isto significa que, quando forem construídos indicadores

para avaliar o índice de equidade de gênero, deve

ser levado em consideração também raça, etnia, classe social,

orientação sexual, mudança de mentalidade, valores e

a subjetividade, reconhecendo os poderes que as mulheres

já possuem dentro da comunidade, assim como aqueles

que elas devem alcançar.

Estudo de caso: Fundo ELAS -

independência econômica por

meio de doações e capacitações

técnicas e em direitos humanos

das mulheres

A missão do Fundo ELAS é promover e fortalecer o

protagonismo das mulheres, mobilizando e investindo recursos

em suas iniciativas. O Fundo focaliza seu programa

de apoio a organizações e grupos de mulheres em:

• autonomia econômica e fim da pobreza de mulheres

adultas, jovens e meninas;

• meio ambiente, desenvolvimento justo e sustentável;

• mudança climática e seus impactos;

• combate à violência contra mulheres adultas, jovens

e meninas;

• cultura, comunicação, arte e esportes;

• direitos sexuais e reprodutivos.

A filosofia do Fundo ELAS se baseia em cinco princípios,

dos quais serão tratados neste artigo somente aqueles

relacionados à independência econômica das mulheres,

descritos a seguir.

Paixão pela causa das mulheres

O Fundo tem a plena convicção de que todas as mulheres

adultas, jovens e meninas, independentemente da sua

cor/raça/etnia, orientação sexual ou classe social, devem

ter autonomia para decidir sobre suas vidas e sexualidade,

e acesso a direitos, equidade e igualdade em todos os âmbitos

da sociedade. ELAS são protagonistas na construção

cotidiana do país.

Respeito à singularidade, à subjetividade

e à multiplicidade

Para o Fundo ELAS, cada mulher e menina é singular.

Sua subjetividade é produzida por sua própria história, que

é diferente e similar à de outras, dependendo do entorno,

contexto, cor/raça/etnia, classe social e sexualidade. Isso

faz com que ELAS sejam, ao mesmo tempo, singularidade

e multiplicidade. Reconhecemos que existem diferentes

mulheres e diferenças entre ELAS.

Laços de confiança

A construção de relacionamentos do Fundo com as

organizações de mulheres se baseia na confiança e na

horizontalidade, e um componente fundamental da cultura

institucional é o respeito às decisões das mulheres adultas,

jovens e meninas apoiadas.

O Fundo ELAS não investe em mulheres individualmente

porque acredita na importância da solidariedade e

parceria entre mulheres. Também não está dentro da sua

filosofia trabalhar com microcrédito, porque acredita que

existe uma dívida histórica que o patriarcado tem com as

mulheres adultas, jovens e meninas, e que a divisão sexual

do trabalho é injusta com as elas. Além dos dados sobre

desigualdades econômicas anteriormente mencionados,

segundo dados da Associação para os Direitos da Mulher

e o Desenvolvimentos (Awid), a Ajuda Oficial para o Desenvolvimento

(AOD), que em 2005 era de US$ 79 bilhões,

dedica somente 6% do total mediante marcadores de gênero

(US$ 4 bilhões), 3,6% para a igualdade de gênero

como objetivo significativo principal (US$ 2,4 bilhões) e

0,1% da ajuda vai para “as mulheres no desenvolvimento”.

Portanto, com base nesses dados, o Fundo desenvolve

duas formas de apoio às organizações de mulheres dentro

da área de independência econômica e fim da pobreza das

mulheres adultas, jovens e meninas, descritas a seguir.

11


12

Uma maneira é por meio de concurso de projetos, para

o qual as organizações e grupos de mulheres preenchem

um questionário apresentando suas propostas de geração

de renda. Enviam a proposta com pseudônimo, sem identificar

na proposta a organização, cujo nome é enviado num

envelope lacrado, para evitar favoritismos e romper com a

cultura patrimonialista. A equipe faz a primeira triagem de

acordo com os requisitos solicitados. Os projetos são aprovados

única e exclusivamente pelo Comitê de Seleção do

Conselho Deliberativo, às vezes junto com consultoras especialistas

e parceiros. Os recursos recebidos por cada organização

dependem do montante arrecadado pelo Fundo

naquele período, e usualmente tem sido entre R$ 2,5 mil

e R$ 7 mil. Posteriormente, as organizações passam por

uma capacitação de 32 horas sobre direitos humanos das

mulheres, como elaborar propostas e parcerias, relacionamento

com o dinheiro, prestação de contas e comunicação.

Por último, entregam relatórios narrativos e financeiros semestrais

e finais.

No outro modo, o Fundo, em parceria com a empresa

Rebouças & Associados, realiza nas comunidades os Diálogos

para a Melhoria das Condições de Vida, utilizando a

metodologia desenvolvida por eles, para estimular a reflexão

sobre ideias inovadoras por parte das participantes. Para

participar dos Diálogos, as mulheres da comunidade devem

se inscrever e é realizada uma pesquisa com elas. Elas preenchem

um questionário com dados pessoais, estado civil,

cor/raça/etnia, orientação sexual, religião, número de filhos,

ocupação, formação, renda familiar, horários disponíveis. Os

Diálogos são realizados com 30 mulheres. As interessadas

em tentar realizar seus sonhos se comprometem a passar

por cem horas de capacitação em direitos humanos das

mulheres, resolução de conflitos, plano de negócio e estudo

de factibilidade na comunidade, como lidar com o dinheiro,

banco, abrir uma conta, legalizar o negócio, dividir o lucro e

reinvestir, administrar o negócio, comunicação e marketing.

Ou seja, apreendem algumas técnicas e elaboram sua própria

marca, serviço ao cliente e, dependendo do negócio,

se capacitam no que for relacionado a ele. Entretanto, como

nem toda mulher é uma empreendedora, muitas desistem e

só ficam até o final aquelas que realmente vão empreender

um negócio. Para empreender o negócio, elas fazem um

estudo de factibilidade da ideia inovadora que tiveram para

empreender na comunidade e, se a pesquisa é favorável à

ideia, o Fundo doa um recurso de R$ 50 mil, dividido em

várias parcelas.

Mulheres empreendedoras:

desafios e possibilidades

A seguir serão desenvolvidos como estudos de casos,

quatro exemplos de apoios que o Fundo tem outorgado.

Os dois primeiros casos a serem apresentados, Fuxicarte

e Cooperativa Bordadeiras da Coroa, receberam subsídios

do Fundo ELAS por meio de concurso. Os outros dois receberam

apoio por meio dos Diálogos nas comunidades que

fazem parte do projeto Elas em Movimento, desenvolvido

como prestação de serviço para a empresa Chevron-Brasil.

1. Fuxicarte

O grupo Fuxicarte, com o apoio, durante três anos, do

Fundo ELAS, ampliou suas parcerias e atividade em costura,

bordado e fuxico que já tinha começado a desenvolver.

Além de moda, elas investiram na produção de acessórios

para casa, cozinha e banheiro, que têm sido comercializados

em lojas dos principais aeroportos. Atualmente, vendem

seus produtos na Rede Asta 15 , que se refere da seguinte

maneira sobre o trabalho do Fuxicarte, em especial de Ana

Lucia Freitas: “ela costumava trazer seus produtos em sacolinhas

de mão, de ônibus ou de táxi. Esse mês, vejam a

Kombi que chegou na Asta, com o pedido de centenas de

produtos do grupo. Ela está conseguindo tirar até RS 2 mil

por mês com as nossas vendas no catálogo!”

Para compensar ainda mais, o Fuxicarte foi o grupo

vencedor do sistema de pontuação anual da Rede Asta em

2010, e, como prêmio, elas fizeram sua primeira viagem de

avião, para conhecer o grupo produtivo Toca do Tapete, em

Florianópolis, Santa Catarina.

Ana Lucia Freitas, antes de fazer parte do Fuxicarte, se

achava uma simples dona de casa. “Eu cuidava dos meus

três filhos e das tarefas domésticas, e não conhecia outra

vida a não ser esta. Quando comecei a participar do Fuxicarte,

foram se abrindo novos horizontes”, comenta.

Ana Lucia participou de duas capacitações no Fundo

ELAS, representando o Fuxicarte. No começo da primeira, expressou

pouca confiança em si mesma, não queria apresentar

seu empreendimento, não se sentia capaz de falar em público,

nem bonita. Quando acabou a capacitação, comentou que ela

havia mudado, que não tinha mais medo, se sentia fortalecida

e bonita, mas falaria rapidamente. Ana Lucia se apresentou

com soltura, explicou muito bem em que consistia seu empreendimento,

e falou muito mais que as outras mulheres.

15 A Rede Asta, segundo sua própria definição, é uma “organização sem fins lucrativos, criada com o objetivo de gerar renda para comunidades populares do Estado do Rio de

Janeiro. A Rede Asta contribui para o escoamento dessa produção e para a geração de renda desses artesãos ao uni-los a grupos de revendedores autônomos que, munidos de

um catálogo, chegam aos consumidores finais”. www.asta.org.br


Quadros de geração de valor e mudança social do Fundo Elas

O Fundo ELAS, quando investe recursos financeiros e capacita as mulheres, adultas ou jovens, gera novos valores

que transformam mental, pessoal, social, política e economicamente a vida das mulheres, aumentando a participação

das mulheres na comunidade, ocupando novos espaços tanto na família como socioeconomicamente. A seguir,

veremos os sistemas produzidos pelo Fundo ELAS que explicam como acontece essa transformação.

Gerador de Valor 1

(ELAS - Grupos de Mulheres)

Como a transformação micro

e macro-política das mulheres

transforma o País.

Depoimentos de sucesso

Respeito /

Imagem

Investimento

Resultados

e Valor

Captura de Valor

• Mentalidade

• Social

• Econômica

e financeira

Transformação:

• Política

• Pessoal

Benefícios indiretos

no entorno

Acompanhamento

Fortalecimento social

Geração

de renda

CICLO DA TRANSFORMAÇÃO

Mulheres

Transformação

Social

Estratégias, ações

e políticas

Idoneidade

Ineditismo

Visibilidade

Protagonismo

Transformação

pessoal

Força

de Rede

Dinheiro

Proposta de Valor

OPORTUNIDADES

Força de Rede

Capacitação

Projeção política

Status

Projeção na mídia

Imagem,

estética

e cultura

Criação de Valor

Brasil

Sociedade Civil

Empresas públicas

e privadas, cidades

Escola - Trabalho

Comunidades - Bairros

Mulheres e

meninas

Encorajamento

Construção

de movimento

Quando se investe no protagonismo e nos direitos humanos das mulheres

jovens, adultas e meninas, se está investindo também no desenvolvimento

do País, na democracia e na justiça social.

13


14

A vida das 8 mulheres do Grupo Fuxicarte mudou

quando, em 2006, o seu projeto foi selecionado

para receber apoio do ELAS.

Com o apoio da Federação das Indústrias do Rio de

Janeiro (Firjan) e da estilista Luiza Marcier, elas costuraram

vários modelos apresentados na Fashion Business,

uma feira de moda internacional que acontece na cidade

do Rio de Janeiro. O grupo também saltou para a venda

de seus produtos em lojas situadas em famosos pontos do

Rio de Janeiro, como o bairro de Ipanema. E viu ainda suas

peças serem despachadas diretamente para o exterior. O

Fuxicarte tem hoje um espaço no Jardim América, Zona da

Leopoldina. “Eu não quero fazer outra coisa para melhorar

a minha situação de vida”, comemora Ana Lucia.

2. Cooperativa Bordadeiras da Coroa

Quem dá trabalho a uma mulher negra, sem profissão e

com mais de 40 anos? A essa pergunta Elza Santiago responde:

por isso decidimos unir esforços para nos sustentar. A

vida das oito mulheres desta cooperativa mudou quando, em

2006, o seu projeto foi selecionado para receber apoio do

Fundo ELAS. O recurso recebido foi de R$ 4,3 mil para capital

inicial, montagem do ateliê, compra de duas máquinas de

costura e matéria-prima. Elza, como representante do grupo,

recebeu capacitação em direitos humanos, comunicação,

marketing, administração de recursos e elaboração de projetos,

e se comprometeu a replicar para suas companheiras.

Foi uma mudança radical na vida delas e seus produtos

estiveram, em 2007, na edição de inverno da Fashion Rio,

a semana internacional de moda do Rio de Janeiro, quando

a artista plástica Rute Casoy expôs um varal de aproximadamente

50 metros, com poemas de sua autoria, bordados

por elas em retângulos de linho branco, intercalados com

bonecas de pano, colchas e peças de vestuário 16 ”.

A Cooperativa é parte da Articulação de Mulheres Brasileiras,

rede feminista que defende os direitos das mulheres.

Marinalva Alves, participante, sempre comenta que, do

trabalho delas, o mais importante é transformar a realidade

das mulheres.

Quase todas donas de casa e mães de família, algumas

sabiam costurar, outras bordar, umas ensinaram às outras,

se encontravam na igreja, nas suas casas, na associação

de moradores, e a renda mensal era de R$ 75, que hoje

passou a ser de aproximadamente R$ 1 mil. As bordadeiras

também capacitam outras mulheres e lhes dão possibilidades

de gerar renda.

Em outubro de 2009, a vida das bordadeiras mudou

ainda mais, como disse Flavia Pinho : “o modelo em quatro

cores, que elas costuraram e enfeitaram com aplicações

douradas e prateadas, foi arrematado em leilão beneficente”,

e o comprador foi Eike Batista.


3. Sabor e Arte

O primeiro projeto implementado pelo programa Elas

em Movimento começou na comunidade pacificada Jardim

Batam, no Rio de Janeiro, com um diálogo entre as

mulheres da localidade. Na ocasião, elas falaram sobre os

seus sonhos pessoais, seus sonhos para a comunidade e

quais negócios gostariam de criar para gerar renda para si

e suas famílias.

A segunda etapa compreendeu mais de cem horas de

capacitações em direitos humanos das mulheres, empreendedorismo,

resolução de conflitos, comunicação, marketing

e como lidar com o dinheiro.

O grupo recebe até agora permanentemente coaching

de uma especialista em empreendedorismo e negócios

para esclarecer dúvidas, suporte em tudo o que está relacionado

com a legalização do negócio, auxílio nas adversidades

do dia a dia.

Por ser um empreendimento relacionado a gastronomia,

o grupo recebeu pro bono de uma chef de cozinha,

treinamento em como montar o menu, nutrição e higiene,

além de um estágio em um restaurante na Barra da Tijuca.

Em diferentes momentos, receberam recursos para montar

o empreendimento de refeições e delivery Sabor e Arte, até

completar um total de R$ 50 mil.

O grupo Sabor e Arte recebe permanentemente

a atenção de uma especialista em

empreendedorismo e negócios

Seis meses após a inauguração, que foi em novembro

de 2010, Jacqueline Tiago, uma das integrantes do empreendimento,

disse: “com o lançamento deste negócio, eu me

sinto outra mulher, mais forte e muito mais conhecedora do

meu papel como transformadora da minha realidade e da

vida de todos os que estão ao meu redor”.

O restaurante está fornecendo “quentinhas” para a Petrobras,

além de abrir de segunda a sábado.

4. Bolhas Coloridas

Seis moradoras da Cidade de Deus passaram também

por todo o processo que as integrantes do Sabor e Arte

no Jardim Batam. A ideia inovadora delas, que a pesquisa

concluiu que podia ser executada, foi a de reciclar óleo de

cozinha, coletando-o na comunidade para que não fosse

parar nos rios, e produzir sabonetes. Bolhas Coloridas é o

nome que elas deram a seu empreendimento. Uma vez que

passaram pelas capacitações e tiveram pronto o resultado

de sua pesquisa e plano de negócio, se dedicaram a divulgar

sua ideia na comunidade por meio de carro de som,

panfletos e do jornal da comunidade, para que as pessoas

do local doassem o óleo de cozinha usado, evitando assim

causar danos ao meio ambiente.

15


16

Como o empreendimento Sabor e Arte, esta iniciativa

está recebendo em parcelas o valor de R$ 50 mil, com o

qual já compraram uma máquina para fazer sabonetes, e

alugaram um espaço na comunidade para instalar a fábrica

e a loja. As empreendedoras tiveram assessoria gratuita

de um técnico do Senai em gestão de qualidade, que fez

uma capacitação pelo sistema 5S (ferramenta de controle

de qualidade desenvolvido no Japão nos anos 50 e 60,

que incorpora 5 sensos – utilização, arrumação, limpeza,

saúde/higierne e auto-disciplina, palavras que em japonês

começam com a letra “s”) deu dicas sobre organização do

processo produtivo, layout da loja, estoque e armazenamento,

além de ajudar a montar os cronogramas de produção

e ciclo produtivo. Amostras dos sabonetes produzidos

foram levadas para a FioCruz para análise e certificação

das mesmas.

As mulheres da comunidade estão doando óleo, como

afirmam Viviane de Sales e Ricardo Andrade do jornal O

Globo G1 - Parceiros do RJ, na sua entrevista com moradoras

do bairro de Cidade de Deus. Geneci Machado Felix

aprova a iniciativa. “Acho bom, eu junto muito óleo. Agora já

sei e trago, ou eu ligo e elas vem buscar”, conta. A também

dona de casa Ana Cláudia Santos coa o óleo e põe em uma

garrafa pet antes de levá-lo para ser reciclado. Ela acredita

que, fazendo isso, contribui com o meio ambiente. “Despoluição

dos rios, tudo fica sujo, dá rato, barata, mau cheiro.

Quando chove, entope os rios, e só quem sai no prejuízo

mesmo é a comunidade”, conta.

Atualmente, ambos empreendimentos estão em fase de

adaptação ao próprio negócio e às ferramentas financeiras

e continuam tendo coaching. No mês de setembro de

2011, serão reavaliados.

As mulheres de ambos empreendimentos estão mostrando

interesse em fazer cursos de gestão administrativa e

financeira. Em Cidade de Deus, uma delas quer entrar na universidade

e fazer o curso de gestão financeira e de negócios.

16 Pinho Flávia. “Lucro bordado à mão”. Artigo na revista : Pequenas Empresas Grandes Ideias Projeto Generosidade http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI160905-

17153,00-LUCRO+BORDADO+A+MAO.html acessado em 31 de julho de 2011.

17 ibidem


Referências Bibliográficas

AMORÓS, Celia (org.). 10 Palabras Claves sobre Mujer. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1995. 371p

ASIAN DEVELOPMENT BANK. Operations Evaluation Departmen. Effect of Microfinance Operations on Poor Rural Households and the Status of Women.

[S.I.] set. 2007. 96p. Disponível em:

GESKE, Dijkstra; SNIJDERS, Anna-Larisa. Microcredit and women’s empowerment in South India. Trabalho apresentado na Segunda Conferência Europeia

de Pesquisa em Microfinanças. Groningen, jun. 2011.

GARGALLO, Francesca. Tan Derechas y Tan Humanas. In: Academia Mexicana de Derechos Humanos. Manual ético de los derechos humanos de las

mujeres. México, 2000.

MEADE, Jason. An Examination of the Microcredit Movement. 2001. Disponível em:

AUSAID. Microfinance, Gender and Aid Effectiveness. 2008. Disponível em:

Sobre a autora

Amalia E. Fisher P., subjetividade nômade, mexicana-nicaraguense, radicada no Brasil faz 16 anos. Estudou

sociologia em Paris VIII, Mestrado em Comunicação na faculdade de Ciências Políticas y Sociales – Universidad

nacional Autônoma de México e Doutorado em Comunicação e Cultura ma Escola de Comunicação da Universidade

Federal do Rio de Janeiro.

Foi professora universitária durante 20 anos na faculdade de Ciências Políticas y Sociales, ministrando o curso

sobre Teoria de los Medios de Comunicación e participou na mudança curricular da área de comunicação e

sociologia. Escreveu artigos sobre Produção de Tecnologia de Gênero, Intersexualidade, Movimento Feminista

Latinoamericano, Mulheres e AIDS, em diferentes livros, revistas acadêmicas e jornais como “La Jornada”, “El

Universal”, “Uno más Uno”.

Idealizou o Fundo Angela Borba de Recursos para Mulheres conhecido hoje como ELAS - Fundo de Investimento

Social, é co-fundadora do mesmo junto com outras 4 mulheres. É empreendedora Ashoka e Synergos. Foi co-

-fundadora do Centro de Estudios de la Mujer – Facultad de Psicologia-UNAM, do Centro de Investigaciones y Capacitaciones

de la Mujer (organização da sociedade civil, no Mexico), da International Network of Womens Funds.

Tem participado dos Conselhos da International Network of Women´s Funds, Grantmakers without Funds, Rede

do Esporte pela Mudança Social e atualmente participa no do Urgent Action Fund-USA e é a presidenta do Fundo

de Ação Urgente - America Latina.


Negócios sociais e inclusivos:

como garantir direitos sociais

e econômicos para mulheres?

Por Alessandra Gonçalves de França

A história do Microcrédito

O conceito de microcrédito nasce em Bangladesh 1

(pequeno país do subcontinente indiano) quando um economista

chamado Muhammad Yunus – Prêmio Nobel da

Paz em 2006 – se encontra com uma camponesa chamada

Sufia.

Podemos destacar neste fragmento

a presença de dois elementos:

a exclusão social e econômica

da mulher e o acesso ao crédito.

Microcrédito Produtivo Orientado é uma modalidade

de crédito que tem como objetivo facilitar o

acesso a recursos financeiros por parte de pequenos

empreendedores. Utiliza-se de metodologia de

acompanhamento e orientação voltada à necessidade

dos empreendedores.

Santander Microcrédito, 2008.

Negócios Sociais são iniciativas economicamente

rentáveis que, por meio da sua atividade principal

(core business), buscam soluções para problemas

sociais, utilizando mecanismos de mercado. Estes

empreendimentos integram a lógica dos diferentes

setores e oferecem produtos e serviços de qualidade

a uma população excluída do mercado tradicional,

ajudando a combater a pobreza e diminuir a

desigualdade socioeconômica.

Artemisia Negócios Sociais, 2011.

1 Yunus, Muhammad; com JOLIS, Alan. O Banqueiro dos Pobres. São Paulo Ática 2000

ÍNDIA

Bangladesh

Sufia emprestava dinheiro de um agiota de sua comunidade,

que lhe cobrava juros de 10% (dez por cento)

por semana. Com o dinheiro comprava bambus para fazer

tamboretes, mas era obrigada a vender seus produtos ao

agiota, que obtinha lucros com o empréstimo do dinheiro e

com a compra subvalorizada dos tamboretes.

Assim como Sufia, Yunus encontrou mais 42 mulheres

na mesma situação de exploração econômica e, diante da

situação mencionada, resolveu emprestar-lhes US$ 27 de

seu próprio dinheiro a taxas normais de um banco. Naquele

momento não existia a expectativa de que o dinheiro retornasse,

no entanto, o economista recebeu pontualmente as

parcelas do recurso com os juros.

Desta forma, percebeu-se que era possível incluir economicamente

mulheres por meio dos microcréditos. E com

este conceito criou o Grameen Bank, que, até o final do

Século 20, possibilitou que mais de 12 milhões de pessoas

saíssem da extrema pobreza somente em Bangladesh, e

vale ressaltar: por meio do microcrédito para mulheres.

19


Microcrédito no Brasil

No Brasil, a desigualdade de renda é um dos grandes entraves

sociais: os 10% mais ricos ganham 15,8 vezes mais

do que os 40% mais pobres 2 . No entanto, o país também

é considerado um celeiro de empreendedores, cerca de 19

milhões, que, no entanto, vivem na informalidade.

Para esses empreendedores existem ofertas de crédito

(agiotagem, cartões de créditos, financeiras), contudo, sem

a orientação adequada, o que leva ao endividamento.

As organizações de microcrédito, sejam Oscip (Organização

da Sociedade Civil de Interesse Público) Creditícias

(mais de 200 em todo o Brasil), SCMs, Cooperativas

ou Bancos tradicionais, atuam com Microcrédito Produtivo

Orientado para que tais empreendedores tenham acesso a

crédito consciente, com o objetivo de alcançar a independência

social e financeira.

Destaque-se que as iniciativas de microcrédito brasileiras

foram inspiradas no Grameen Bank, assim como diversas

no mundo.

a) Microcrédito e Mulheres:

Casos Nacionais e Internacionais

Várias são as iniciativas que oferecem Microcrédito Produtivo

Orientado no Brasil e no mundo. Apesar da cultura e

do público serem diferentes, existe uma característica comum:

a forte presença de mulheres empreendedoras. Vejamos

alguns exemplos em que tal característica está presente:

2 Instituto de Pesquisa Aplicada; IPEA e Fundação Getúlio Vargas FGV

O microcrédito pode ajudar a erradicar a pobreza

e combater diretamente a miséria que atinge

16,2 milhões de brasileiros

I. Santander Microcrédito

O Santander Microcrédito nasce como um programa de

sustentabilidade do então adquirido Banco Real. É uma das

poucas iniciativas de operação direta de um banco tradicional

com microcrédito no Brasil.

O programa está em segundo lugar no Brasil em termos

de volume de operação e alcance: R$ 220 milhões

em 2009, com um estoque de financiamentos de R$ 125

milhões e 120 mil clientes microempresários, e, deste total,

65% são mulheres.

II. Acreditar

A Acreditar é uma Oscip Creditícia sediada em Glória do

Goitá, interior de Pernambuco. A ideia surgiu a partir dos

sonhos de muitos jovens de construir um banco ideal, que

permitisse sonhar. O projeto enxerga esse novo mundo, que

trabalha unindo novas ideias, empreendedorismo, microcrédito,

educação financeira e juventude. O Brasil tomou como

plano de governo erradicar a pobreza e combater diretamente

a miséria, que hoje castiga 16,2 milhões de brasileiros,

dos quais 9,61 milhões moram no Nordeste do Brasil e

são jovens, negros e mulheres. Hoje o público da Acreditar

conta com 65% de mulheres empreendedoras.

21


22

III. Banco Pérola

O Banco Pérola é uma Oscip Creditícia que atende jovens

das classes C, D e E da cidade de Sorocaba, interior

de São Paulo. O público-alvo é o jovem de 18 a 35 anos,

no entanto, uma característica comum reaparece, já que

74% dos atendidos são jovens mulheres.

IV. Compartamos Banco

O Compartamos Banco nasce em 1990, no México,

com o objetivo de oferecer crédito para as microempresas.

A missão é financiar pequenos empreendedores, em

especial as mulheres das zonas rural e urbana. Em 2008,

90,1% do crédito foi concedido para mulheres.

V. Accion

Fundada em 1961 nos Estados Unidos, a Accion Internacional

é uma ONG (Organização Não Governamental)

que, em parceria com instituições financeiras, trabalha para

erradicar a pobreza por meio da oferta de serviços financeiros

para populações que não têm acesso a crédito. As

operações beneficiam 2,46 milhões de clientes ativos, dos

quais 65% são mulheres.

O microcrédito tem beneficiado majoritáriamente

mulheres empreendedoras

Tabela 1

Presença de Mulheres Empreendedoras

em Organizações Operadoras

de Microcrédito no Brasil e no Mundo

Organização Percentual de

clientes mulheres

Santander Microcrédito 65%

Acreditar 65%

Banco Pérola 74%

Compartamos Banco 90,1%

Accion 65%

Fonte: Baseada nos números divulgados por cada organização em

suas páginas eletrônicas.

Os casos mencionados são ilustrativos e mostram claramente

a forte presença de mulheres como tomadoras de

microcrédito. Entender o motivo desta situação nos remete ao

fato de que a maior parte da população pobre do mundo é

formada por mulheres. Sendo assim, podemos supor que esta

forte presença nos programas de microcrédito é resultado da

vulnerabilidade econômica e social do gênero feminino.


No Brasil, um dos impactados pela proposta de Yunus

e seu banco foi Alessandra França, em 2002, quando

tinha apenas 16 anos. Filha de um caminhoneiro com

uma costureira, Alessandra estava há um ano no Projeto

Pérola – ONG de Sorocaba que trabalha o protagonismo

juvenil por meio da formação. Alessandra morava no

bairro mais violento de sua cidade,

o escolhido para atuação inicial do

Projeto Pérola.

Nos sete anos em que esteve

envolvida com o Pérola, Alessandra

deixa de ser jovem atendida

pela instituição e passa a fazer

parte da coordenação geral. Nessa

trajetória, seu desempenho na instituição lhe rendeu

bolsa de estudos em colégio particular e convite para

ser educadora da ONG antes de assumir a coordenadoria.

Vivendo esse processo em sua adolescência,

ela percebe a importância da capacitação para jovens,

quando direcionada a estimular a autonomia e o protagonismo

desse público.

Ainda como coordenadora geral, Alessandra começa

a pensar numa escola de talentos para jovens. A ideia

era complementar o processo de desenvolvimento oferecido

pelo Pérola, com base em dois

desafios permanentes desse público

que ela percebia: (1) estabilidade financeira

e (2) formação do jovem como

agente de mudança da comunidade.

Por conta dessa possibilidade de uma

escola, Alessandra passa a buscar ambientes

que lhe deem ferramentas para

poder tirar essa ideia do papel e colocá-

-la em prática. É então que ela conhece a

Artemisia e, em 2008, decide aplicar os

processos de formação da organização.

Banco Pérola: aqui seus sonhos têm crédito

A Artemisia é uma organização pioneira em negócios

sociais no Brasil, que tem o objetivo de formar pessoas

para atuar nesse campo. Apesar da ideia de escola da

Alessandra não ser um modelo de negócio rentável, a

organização decide selecioná-la por conta de seu perfil

empreendedor.

“Onde os meus

talentos e minhas

paixões cruzam

com os desafios do

mundo, é aí que está

minha vocação”.

Aristóteles

Nos primeiros meses de formação na Artemisia,

Alessandra passa por um processo intenso de autoconhecimento

e resgate de sua história de vida. A partir

desse olhar minucioso para os seus talentos e paixões,

Alessandra e os demais participantes são convidados

a desconstruir o projeto de cada um dos inscritos na

formação. E, depois, reconstruí-lo

como um negócio social a partir

das competências identificadas

nos meses anteriores.

É também nesse período inicial

que os participantes entram em

contato com o campo dos negócios

sociais no Brasil e no mundo,

e conhecem empreendedores dessas empresas com

alto impacto social. Assim, Alessandra ouve uma história

que a havia inspirado já sete anos antes: professor

Yunus e o Grameen Bank.

Na década de 1970, Yunus quebrou o paradigma de

que pobres não pagam dívidas ou empréstimos. Quando

começou a operar o Grameen Bank, o economista ouviu

de muitas pessoas que seu negócio quebraria rapidamente

por conta da falta de garantias que esse público

apresentava. Ao contrário, a taxa de inadimplência do

Grameen, não chega a 4%, muito inferior

à dos bancos tradicionais. E, desde

então, observam-se indicadores parecidos

com as microfinanciadoras pelo

mundo, inspiradas pelo banqueiro dos

pobres. Outro grande diferencial desse

modelo de banco são as taxas de juros,

que variam de 0% a, no máximo, 4% ao

mês. Comparadas às taxas das microfinanciadoras

tradicionais (cerca de 20%

ao mês), são muito mais acessíveis às

pessoas baixa renda.

Alessandra vai além e se propõe a quebrar um novo

paradigma: o de que jovens não têm comprometimento

e, portanto, seriam um público de alto risco para um

banco de microcrédito. O Projeto Pérola havia lhe mostrado

que apostar em jovens como ela valia a pena.

Durante o processo de desconstrução da escola de talentos,

ela teve o insight de direcionar sua proposta de

solução social para algo que a encantara em 2002 e

que é a expertise da Artemisia: negócio social. Decide,

então, montar uma microfinanciadora que teria jovens

pobres como clientes!

23


O desafio de nascer mulher

Segundo dados da Organização das Nações Unidas

(ONU), 70% das pessoas que vivem em situação

de pobreza são mulheres.

A discriminação é o principal motivo para este dado,

já que em alguns países ela acontece por meio de leis de

cunho religioso e em outros, pela falta de acesso a terra,

trabalho e crédito.

A pobreza, por sua vez, deixa a mulher mais exposta

à violência física, sexual, psicológica, o que diminui sua

capacidade produtiva, empobrece sua família e comunidade.

Segundo dados da ONU, em escala mundial, as

mulheres recebem 10% menos do que o salário

dos homens pelo mesmo trabalho e, além disto,

75% das pessoas adultas analfabetas do mundo

são mulheres.

Microcrédito produtivo

orientado como alternativa

Ao considerarmos o Microcrédito Produtivo Orientado

como uma ferramenta de erradicação da pobreza, chega-

-se à conclusão de que tal programa beneficia naturalmente

as mulheres, já que a maior parte da população pobre do

mundo é composta pelo gênero feminino.

Sendo assim, podem ser listados vários motivos para a

presença maciça do empreendedorismo feminino na base

da pirâmide.

Nos depoimentos colhidos com empreendedoras beneficiadas

por programas de microcrédito do Banco Pérola,

pode-se notar alguns elementos que se repetem, como a

maternidade, o cuidado com a família, o abandono do lar

por parte do gênero masculino, a dedicação e o compromisso

com o trabalho, e, em muitos casos, a opção por

empreender por necessidade.


As mulheres beneficiadas por programas de microcrédito

veem no empreendimento uma forma de gerar renda e

poder cuidar dos filhos e da casa, já que, em muitos casos,

não têm formação educacional, o que as coloca em condições

de subemprego.

“Era eu e mais dois filhos pra criar. Tinha o programa

Bolsa Família. Até comecei a trabalhar

como doméstica, mas com o salário que ganhava

dava só para pagar o transporte e a pessoa

que cuidava das crianças... Com o negócio, ganho

mais, fico em casa e posso cuidar da educação

dos meninos.’’

Empreendedora Banco Pérola, 2011.

Depoimentos colhidos com

empreendedoras do Banco Pérola,

junho de 2011

“As mulheres têm mais espírito empreendedor

e menos medo de arriscar.”

“Meu marido ficou desempregado,

precisava de dinheiro.”

“Sou mãe de dois filhos e quero cuidar

deles, daí montei meu negócio.”

“Fui para São Paulo, pois me separei

do marido e estava com filho.”

“Quero trabalhar junto com meu filho.”

“Comecei com uma barraquinha e hoje

tenho uma loja de verdade. O importante

é começar e persistir.”

“Quando nosso pai foi embora, montamos

um carrinho de lanche. Nossa mãe foi quem

sustentou a casa. Hoje temos uma máquina

de assar frango, um açougue, e nosso irmão

mais novo vai reabrir o carrinho.”

“Começo a me sentir uma verdadeira

empresária.”

“Trabalho de domingo a domingo.”

25


Conclusões

O Brasil, assim como outros países em desenvolvimento,

não acabará com a pobreza apenas se desenvolvendo economicamente.

É preciso investir na camada mais pobre da

sociedade, e, por conseguinte, mais afetada pela discriminação

e desigualdade: as mulheres.

Dar acesso a educação, saúde, terra e crédito

gerará independência e, por consequência,

autoestima, poder de decisão e “voz” para as

mulheres.

A presença maciça de mulheres em programas

de Microcrédito Produtivo Orientado é um

indicador de que elas estão buscando se libertar

de amarras sociais e culturais que impedem a

independência social, financeira e psicológica.

“Investir em

mulheres

erradicará

a pobreza.”

Equipe gestora

do Banco Pérola

O acesso a crédito precisa estar aliado a programas de

educação, para que o recurso seja utilizado da melhor maneira

possível e, assim, gere subsídios adicionais para a erradicação

da pobreza e, por assim dizer, igualdade de gêneros.

Além disso, oferecer acesso a educação e criar políticas

públicas efetivas de igualdade fará com que as

mulheres empreendam por escolha e vocação e

não por necessidade.

Em suma: o Microcrédito Produtivo Orientado

é uma ferramenta de erradicação da pobreza e

encontra nas mulheres seu principal público. No

entanto, somente uma ferramenta não fará com

que essas mulheres sejam incluídas de fato. É

preciso dar oportunidades de escolha com o fim

de adquirir independência.

Microcrédito Produtivo Orientado, uma das ferramentas de independência. “Aumentar sua capacidade de realizar

decisões efetivas. Uma mulher que é economicamente dependente de seu parceiro ou família pode não ver uma

maneira viável de se manter e de manter seus filhos e filhas”.

La Trampa Del Género, 2009


Referências Bibliográficas

ARTEMISIA: Negócios Sociais [Internet]. Disponível em: www.artemisia.org.br.

Acesso em: mar. 2011

TRAVAGLINI, Fernando. Santander eleva em 28% operações de microcrédito.

Valor Econômico. Disponível em: http://oglobo.globo.com/economia/

mat/2010/01/04/santander-eleva-em-28-operacoes-de-microcredito-915452113.asp.

Acesso em: jan. 2010

ACREDITAR: Microcrédito [Internet]. Disponível em: http://acreditar.ning.com/.

Acesso em: mar. 2011

COMPARTAMOS BANCO. Anual Report [Internet]. Disponível em: www.

compartamos.com. Acesso em: maio. 2009. 122p.

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fundação Getúlio Vargas

(FGV).

YUNUS, Muhammad; JOLIS, Alan. O Banqueiro dos Pobres. São Paulo: Ática.

2000. 344 p.

BARONE, Francisco Marcelo; SADER, Emir. Acesso ao crédito no Brasil:

evolução e perspectivas. Revista Adm. Pública, Rio de Janeiro, v.42, n.6, nov./

dez. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/. Acesso em: dez. 2011.

AMNISTÍA Internacional. La Trampa Del Género, Mujeres, Violencia y Pobreza.

Noviembre de 2009. Disponível em: http://www.portalodm.com.br/la-trampa-

-del-genero-mujeres-violencia-y-pobreza-em-espanhol--bp--278--np--14.

html. Acesso em mar.2011. 20p.

Expediente

Este estudo foi publicado em agosto de 2011 pelo Instituto Walmart como

parte do projeto “Mapa de Soluções Inovadoras – Tendências de empreendedores

na construção de negócios sociais e inclusivos”, realizado em

parceria com a Ashoka. A série inclui também estudos sobre “Um panorama

da diversidade conceitual”, “Negócios sociais, juventude, área urbana

e rural” e “Gestão de negócios sociais e negócios inclusivos”.

Conselho Editorial: Paulo Mindlin, Adriana Mariano e Silvana Gusmão, do

Instituto Walmart; Mônica Roure e Mafoane Odara, da Ashoka

SOBRE A AUTORA

Alessandra Gonçalves de França é graduada

em Marketing, com MBA em Gestão de Pessoas

e é estudante de MBA em Banking na

Fundação Getúlio Vargas (FGV). Durante 07

anos trabalhou no Projeto Pérola, OSCIP com

11 anos de trabalhos realizados com o jovem.

Em 2009 fundou o Banco Pérola, OSCIP creditícia

dirigida por jovens e para jovens de

18-35 anos, tem como missão contribuir

para a erradicação da pobreza através de

jovens empreendedores menos favorecidos.

Seu principal produto é o Microcrédito Produtivo

Orientado.

E-mail: alessandra@bancoperola.org.br.

Produção editorial: Instituto Walmart e Ashoka

Criação e edição gráfica: Ruschel & Associados Marketing Ecológico

Editor: Rogerio Ruschel

Textos: Alessandra Gonçalves de França e Amalia E. Fischer

Revisão: Nanci Vieira

Criação e diagramação: Rafael Boni Ruschel

Imagens: Banco de imagens do Instituto Walmart e Ashoka; Sunil Lal e

Heriberto Herrera (www.sxc.hu)

Fotógrafo: Érico Hiller


Rua Alves Guimarães, 715 - CEP 05410-001 – São Paulo - SP

Fone (011) 3085-9190 - www.ashoka.org.br

Av. Tucunaré, 125 – Tamboré – CEP 06460-020 – Barueri (SP)

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