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Baião: mais de 60 famílias

ameaçadas de expulsão

— "Sai dessa rede, nego safado"

O negro não saiu, o suor do medo escorrendo pelo

rosto. Os homens, bufando ódio, começaram a violên-

cia: cortaram os dois punhos da rede, o negro caiu; co-

locaram-no num Jeep e o tortu/aram num lugar ermo

coln requintes de perversidade. Até as marcas ainda es-

tão no seu corpo para quem quiser ver.

Contada com muita cautela pelos moradores de

Baião (13 mil habitantes, às margens do Tocantins) a

história revela um dos muitos aspectos de uma grave

questão de terras que há alguns meses vem tirando o

sossego da pacata Vila de Joana Peres, prolongamento

do município. Ali, mais de 60 famílias estão ameaça-

das de perderem o que tem — benfeitorias, plantações,

etc. — e serem expulsas do lugar.

O responsável direto pela situação é o fazendeiro)

de Minas Gerais, Lázaro Gonçalves Barbosa, cujos ca-

pangas seriam os torturadores do negro, em Joana Pe-

res. Além desse fato, um outro merece registro: o advo-

gado do fazendeiro Lázaro está processando na justiça

duas das pessoas mais queridas e influentes do muni-

cípio de Baião — o padre Tiago Poels e o presidente do

Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Adão Paixão e Sil-

va. Os dois são acusados de "agitação" porque toma-

ram a defesa das 60 famílias ameaçadas.

A questão iniciou há alguns anos, quando o fa-

zendeiro Lázaro Gonçalves Barbosa comprou áreas se-

paradas de terra em Joana Pereí, cuja soma chegaria

aos quatro mil hectares. Quando mandou medir os ter-

renos, um bastante longe do outro, o fazendeiro sim-

plesmente englobou tudo o que separava suas terras,

açambarcando toda a vila de Joana Peres, num total

absurdo de 14 mil hectares.

Os posseiros começaram a protestar, dispostos a

defender sua vila e sua terra. Desde então a questão vem

rolando nos corredores da administração local, onde o

prefeito Francisco' Ramos tem se esforçado para chegar

a um acordo favorável às famílias. Há pouco tempo,

numa negociação que envolveu o governador do Esta-

do, o presidente do Sindicato de Baião, o Instituto Na-

cional de Colonização e Reforma Agrária, e ojnstituto

de Terras do Pará (onde seu presidente íris de Oli.veira

teria oportunidade de ver pessoalmente o negro tortu-

rado, sem nenhuma conseqüência ter advindo daí), o

fazendeiro teria concordado em abrir mão de dois mil

hectares, respeitando a área originária de Joana Peres.

Mesmo sendo o acordo inteiramente prejudicial

ao município e às famílias envolvidas — que por um

tempo pareciam aceitá-lo — o fato mais novo da ques-

tão é que o fazendeiro Lázaro não pretende cumpri-

lo. Há duas semanas seu advogado, o goiano Higino Fer-

feira da Silva, esteve em Baião, ao que parece toman-

do providências neste sentido.

0 descontentamento é patente na grande maioria

de habitantes da sede do município — e praticamente

ninguém se conforma em perder as terras de Joana Pe-

res para "um estranho", principalmente porque é para

aqueles lados que Baião poderá crescer. A invasão, co-

mo eles chamam, é um prolongamento natural da ocupa-

ção de terras que vem desde Tucuruf, um dos limites do

município. É unânime a posição de que alguma providência

urgente deve ser tomada, antes que a área acabe de ser

demarcada. Entre a população começa a ficar mais cla-

ra a idéia de criação de uma colônia agrícola, que de-

fenderia a área, expulsando o fazendeiro invasor. (Luiz

Maklouf Carvalho).

RESISTÊNCIA

tf? t/M

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