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A injustiça venceu mais uma vez

Os posseiros de Chaparral foram rendidos

Prefiro perder tudo. Num quero é

perder um filho. 0 Henrique me disse:

posso perder na lei, mas não perco no 45.

Agora vou-me embora do Pará. Que aqui"

num fico mais". Assim declarou-se venci-

do, ao nosso repórter, José Marciano, pa-

triarca das 23 famílias expulsas das ter-

ras que o Sr. Henrique Meinberg diz

serem suas, em Conceição do Araguaia.

Incríveis lances mirabolantes mar-

caram o conflito entre os posseiros da fa-

mília de José Marciano e os proprietários,

da Fazenda Chaparral. Tudo entrou na

questão: dinheiro, muito dinheiro, (a

fazenda está sendo vendida por 23 mi-

lhões desde que limpa, sem posseiros), vio-

lências de pistoleiros, arbitrariedadedes

policiais, possíveis corrupções no apare-

lho judiciário, pressões políticas, e até

mesmo a grave suspeita de sabotagem no

avião em que morreu o advogado dos pos-

seirosiDr. João Custódio.

A luta dos posseiros começou a ser

derrotada quando ilegalmente, posto que

RESISTÊNCIA

juridicamente incompetente, o advogado

José M. Noronha (dizem que a peso de

muito dinheiro), assumiu o juizado da

Comarca de Araguaia. Baseado num le-

vantamento topográfico inconsistente,

sem julgar o interdito proibitório dos

posseiros impetrado preliminarmente, o

Dr. Maurer Noronha deu a ordem de

reintegração de posse aos fazendeiros.

A reintegração foi feita violenta e

criminosamente. Sabendo que aos do-

mingos os homens iam a cidade, acober-

tados pela polícia, os pistoleiros de

Meinberg invadiram as terras dos possei-

ros e devastaram tudo. Mataram cerca

de dois mil bicos, seiscentos porcos,

queimaram casas e roubaram reses. Não

contentes pegaram as mulheres e crian-

ças, juntamente com seus pertences,

meteram em cima de dois caminhões e

despejaram tudo em Redenção.

A maioria dos posseiro^, entretanto,

estava disposta a lutar e voltar para as

terras, reconstruindo suas casas. A lei

PROTESTAMOS CONTRA AS

ACUSAÇÕES FEITAS AO BISPO,

AGENTES DE PASTORAL E POSSEIROS.

DEFENDEMOS A PASTORAL DA IGREJA

DE CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA

• Respeito pelos direitos

humanos

• Liberdade de falar

• L i berdade de se reu n i r

e organizar

• Sindicatos livres

9 A terra para quem

nela trabalha

• Anistia ampla e irrestrita

"O Espírito do Senhor ertá sobre mim, porque Ele me ungiu

para evangelízar os pobres

para prodamar remissão aos presos

e aos cegos a recuperação da vista

para restituir a liberdade aos oprimidos, e

para proclamar um ano de graça do Senhor".

(Le. 4,18 e 191.

O "CASO RESISTÊNCIA

PERDIDOS 5J

ainda não tinha dado sua última palavra.

Foi quando no dia de uma audiência

entre posseiros e fazendeiros marcada na

Comarca de Marabá, o avião que levava

o advogado dos posseiros misteriosamente

caiu, morrendo no desastre, além do pilo-

to, o próprio advogado.

Na cidade de Redenção o fato

gerou suspeitas: circulava publicamente

que a cabeça do Dr. João Antônio, valia

Cr$ 1000.000,00. O jornal O Estado do

Pará, inclusive, já denunciara o fato em

sua edição de 13/12. Apurou-se poste-

riormente, que há uma testemunha (em-

bora já silenciada) que presenciou uma

discurssão entre o Sr. Meinberg e o dono

do avião, horas antes do fatídico vôo,

na qual o fazendeiro procurava impedir

que o proprietário do avião levantasse

vôo. E depois, para audiência marcada

para eis 09:00 horas da manhã, o fazen-

deiro só chegou às 16:00 horas, como se

soubesse que não haveria a audiência.

Tudo isso amedrontrou fortemente

todos os posseiros, tenha sido ou não

acidental o desastre. As pressões contra

José Marciana estão se intensificando.

O prefeito de Conceição organizou uma

reunião, na qual, violentamente pressio-

nado, por fim, descrente da justiça e

impotente, José Marciano acedeu ao

acordo proposto pelos fazendeiros, pelo

qual as 23 famílias receberiam cerca de

Cr$1.370.000,00 de indenização cabendo

a cada uma delas pouco mais de

Cr$50.000,00, quando os posseiros

avaliaram suas posses em pelo menos

Cr$ 3.000.000,00.

Assim, terminou mais um conflito

de terras no Pará pelo emprego sistemáti-

co da fraude, da violência e do terror

por parte dos poderosos. Assim, mais uma

vez os posseiros são expulsos de suas

terras, amansadas pelo suor de seus ros-

tos, fortalecendo-se a descrença na lei.

Assim, mais uma vez os posseiros foram

rendidos e a injustiça triunfou.

Até quando, só o futuro nós dirá.

Milhares de cartazes distribuídos nas es-

colas, nas igrejas e nas universidades, vigílias

cristãs, assembléias gerais, cartas abertas de

protesto - estas, algumas das manifestações

e mobilizações populares realizadas em desagra-

vo às acusações que pesam contra os bispos D.

Estevão e D. Alano, vários religiosos leigos e

32 posseiros, todos envolvidos no chamado

"caso Perdidos", ocorrido em 1976 na região

do Araguaia, sul do Fará, quando dois solda-

dos da Polícia Militar foram mortos.

Como se sabe, os religiosos e os posseiros

foram indiciados em inquérito, acusados da

morte dos dois militares. Inicialmente tentou-se

fazer prevalecer o enquadramento na Lei de

Segurança Naiconal, mas a Justiça Militar não

aceitou essa qualificação, remetendo o proces-

so para a justiça comum. Então, para surpresa

de todos, o promotor Carlos Ailson Peixoro,

numa das atitudes mais vergonhosas e rastei-

ras já tomadas pela magistratura paraense, volta-

ria a enquadm os acusados em "crime de sub-

versão"

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