Jornal Negócios

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Weekend

05­04­2013

Periodicidade: Diário

Classe:

Âmbito:

Tiragem:

Economia/Negócios

Nacional

18239

Clarice não inventadaComo se expõem palavras Escrevendo palavras falando palavras Como se expõe Cla

rice Lispector Por exemplo assim Escrevendo palavras falando palavras em Clarice

as palavras são a própria sensorialidade Asua a nossa Sabe ri se a curadouraJúlia Pe

regrino tem muita gente que vê a exposição e diz assim ela escreveu isso p ra mim E

depois saicorrendocomprarseus livros

A Hora da Estrela título do último livro de Clarice Lispector 1920 1977 é o nome

daexposição que hoje abre em Lisboa na Fundação Gulbenkian sobre a escritora brasi

leira que nasceu na Ucrânia e queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo pelas

suas mãos É a primeira coisa que se lê ainda na antecâmara Esta é uma confissão de

amon amo a língua portuguesa Ela não é fácil Não é maleável E como não foi profun

damente trabalhada pelo pensamento a sua tendência é a de não ter subtilezas e de rea

gir às vezes com um verdadeiro pontapécontra os que temerariamente ousam transfor

má la numa linguagem de sentimento e de alerteza E de amor A língua Foi no Museu

da Língua Portuguesa de São Paulo que a exposição estreou museu de língua viva esta

línguaportuguesa Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado Àsve

zes se assusta com o imprevisível de uma frase Eu gosto demanejá la como gostava de

estar montada num cavalo e guiá lo pelas rédeas àsvezeslentamente às vezes a galope

JúliaPeregrinodeclara o objectivo édar a conhecerClarice Lispectorao público por

tuguês o que pressupõe que ela é ainda uma desconhecida para muitos dos seus futuros

Temática:

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Sociedade

1474

S/Cor

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leitores No Brasil a cada nova geração cresce onúmerodeleitores de seguidores deuma

escritora mítica estatuto que não lhe agradava mesmo nas entrevistas que não gostava

dedar As entrevistas que eudousão para explicarque não sou um mito afirmou aojor

nal Pasquim em 1974 Se não era ejá era ficou Os visitantes virgens poderão sentir o

reconhecimentoanunciadoporJúliaPeregrino como Lóriem UmaAprendizagemou

o Livro dos Prazeres Você é a mesma de sempre Só que desabrochouem rosa verme

lho sangue Mas também leitoresjá treinados como o autor da sua aclamada biografia

Benjamim Moser que nunca conheceu Clarice confessaque nãoteria muitavontade de

conversar com ela porque não a imagina exterior a si mesmo Ler Clarice é mais que

nada uma conversa com o mais íntimo de nós mesmos Trata se para muitos de um

verdadeiro amor Era onde íamos na declaração de amor Entremos na exposição Vol

temos às palavras

Ela acreditava em anjo e porque acreditava eles existiam

Fotografias à esquerda e à direita de uma mulher muito bonita sobre frases frases suas

Ver é apura loucurado corpo É a primeirasala das seis e um anexo daexposição Uma

imersão súbita E a primeira sensação ou mesmo medo de que a exposição seja afinal

best of de citações de uma autora de grande citabilidade como se lhe referiu Macha

do de Assis Mentira meus senhores a exposição não é isso masjá lávamos Até porque


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05­04­2013

éimpossívelfazerum bestof decitaçõesde

Clarice Abre se um livro em páginas ao ca

lhas e não se sai de lá Qualquer livro Quais

querpáginas Aexposição não é biográfica

explica a curadora queremos mostrar fla

shes da obra dela Frases que fazem sentido

mesmo fora da obra em que se inserem

Flash é um bom termo E as frases aqui es

critas como borboletas incapturáveis pu

xam nos para o extraordinário universo de

Clarice Lispector Ouniverso eu Semviver

coisas eu não encontrarei a vida pois Mas

mesmo assim na solitude branca e limitada

onde caio ainda estou presa em entre mon

tanhas fechadas Presa presa Onde está a

imaginação Ando sobre trilhos invisíveis

Prisão liberdade São essas as palavras que

meocorrem No entanto não são as verda

deiras únicas e insubstituíveis sinto o Li

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berdade é pouco O que eu desejo ainda não

tem nome Assim pensa Joana em Perto

do Coração Selvagem o romance inaugural

de uma escritora então com 19 anos que ar

rebatou a crítica O seutrabalho quintessen

cial Que nada Quintessenciais são todos

Clarice é quintessencial

Eu sou mais forte do que eu

Não é a exposição em si mesma queé maravi

lhosa maravilhosa obviamenteé Clarice a ex

posição tem a elegância de o conceder Clari

ce é maiorque a exposição da mesma manei

ra que o livro Uma Aprendizagem está

muito acima de mim escreveu Clarice Eu

sou mais forte do que eu Aexposiçãoé então

o quê Uma evocação Uma apresentação

Umacasa acasa de Clarice Sim é isso éuma

visitaaumacasacom Clarice ládentro Éuma

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construção de pecinhasdetexto frases livros

folhas farrapos um cubo mágico que está

sempre solucionado porque a sua combina

çãoestásempre certa todas as peças são Cla

rice é uma geometria quietapara a impossi

velmente geométricaClarice queé só núcleo

viajante no espaçoaté ao seupróprio BigBang

o universo numacascade noz Quandoeume

comunico com criança é fácil porque sou

muito maternal Quando eu me comunico

com o adulto na verdade estou me comuni

cando com o mais secreto de mim mesma aí

é difícil né A cenografia é aliás muito res

peitadora dessa força de Clarice despojada e

íntima muita luz epouca luz queapresenta

mais doque revela traz mais do quetranspor

ta emboranão resista quemresistiria àen

cenação do quarto de criada de A Paixão Se

gundo G H o seu mais popular romance É

na segunda sala depois de um corredor falso

e antes de um anexo que representao armá

rio deonde no livro sai umabarata mortaen

talada naportanum momento quedura qua

se todo o romance até ao apogeu que é uma

mulher G H comê la Nesse momento a

mulhervai até aos rincões da loucura o que

os encenadores mostram pelas frases que

agora estão escavadas na parede como se ti

vessem sido esgravatadas com as unhas de

G H No meio o colchão velho da criada A

única salvação doserhumano é a alegria

A palavra é o meu domínio sobre o mundo

Sala seguinte mais citações agora encaixi

lhadas em vidro sobre polaroids incluindo

de cães cães como Ulisses o cão de Clarice

que ficou só sendo Naparede frente a um

sofá e a uma máquina de escrever a projec

ção da ultima entrevista de Clarice Lispector

única concedida a uma televisão com a con

diçãodeserdifundidaapenas apósasua mor

te Aentrevista muito conhecida é aqui su

primida da vozdoentrevistador Clarice fala

connosco Bem agoraeu morri Vamos ver

se eu renasçode novo Porenquanto eu estou

morta Estou falando do meu túmulo Cla

rice acredita em Deus Aresposta seria lon

ga demais dissera ao Jornal do Brasil em

1963 Em 1974 ao Pasquim conta Outro

dia eu anoteiuma frase assim Deus é tão iló

gico que eu acreditonele

Passando um cubo caleidoscópico de luz

chega se àúltimasala Umachado Mil acha

dos Umasala revestida com 1089 gavetas das

quais 35 abrem revelando espólio da escri

tora manuscritos fotografias anotaçõesem

qualquerpedaçodepapel cartas a Lúcio Car

doso Lúcio é esquisito escreverumacarta

de tão longe parece que se fica com aobriga

ção de dizer coisas formidáveis a Fernan

do Sabino a solidão de que sempre precisei

é ao mesmo tempo inteiramente insuportá

vel umaentrevista incrível que Clarice faz

a Nelson Rodrigues Nelson como conse

quência de meu incêndio passei quase três

meses no hospital E recebia visitas até de es

tranhos Eu não sou simpática Mas o que é

que eu dei aosoutrosparaque viessem me fa

zer companhia Não acredito que não se te

nha amigos É que são raros

Oúltimo terminarácomum bangou com

um soluço Segundo minha experiência

com um silêncio respondera ao Jornal do

Brasil em 1963 Há poucasentrevistasde Cla

rice mesmo emjornais Elas foram compila

das no Brasil em 2011 num livro daAzougue

Editorial organizado por Evelyn Rocha de

onde sãoretiradas várias frases usadas neste

texto E que inclui uma entrevista de 1941re

cém descoberta em que se refere a Macha

do de Assis seria mais fácil superá lo do que

igualá lo Como Clarice né

Sai se poronde se entra regressando à sala

das citações borboleta Uma delas é famosa

e muitasvezes adulterada num equívoco em

que dois pontos invertem totalmente osen

tido A citação é aliás glosada naversão ver

dadeira como nacontrária Não quero ter a

terrível limitação de quem vive apenas doque

épassível de fazer sentido Eu nãoquero uma

verdade inventada É isso que Clarice escre

ve Ou antes Eu não queroumaverdade in

ventada O equívoco é divertido até pelauso

heterodoxo que Clarice faz da pontuação

Uma Aprendizagem por exemplo co

meça com uma vírgula e termina com dois

pontos pressupondo continuidade Então

caro leitor sequer saberqual é a frase correc

ta leia Um Sopro deVida ou leia a naexpo

sição está logo àesquerda dequementra Ou

então aceite que Clarice escreveu para si

mergulhe noseu núcleoepergunte se qual a

frase em que se revê se se revê quer umaver

dade inventada Não quer uma verdade in

ventada O que estádisposto a sofrerporuma

alegria Saiaporventura assim Passe de novo

peladeclaração deamor E lembre se que da

qui a um ano ninguém se lembra de Miguel

Relvas caso dodia JáClarice olhoseternos

Qual é maispreciosa a pérolaou a concha

que a protegeu A exposição na Gulbenkian

é como a concha abrimo la observamos o

seu interior e descartamo la trazendo a pé

rola que é Clarice connosco Foi para isso que

houve a concha E foi exactamente assim que

a concha se cumpriu

Clarice Nelson qual é a coisa mais impor

tante do mundo

Nelson É o amor

Clarice Qual a coisa mais importante para

uma pessoa como indivíduo

Nelson É a solidão

Clarice O que é o amor Nelson

Nelson Eu sou um romântico num sentido

quase caricatural Acho que todoamor éeter

no e se acaba não era amor Para mim o

amorcontinuaalémdavidaealémda morte

Digo isso e sinto que se insinua nas minhas

palavras um ridículo irresistível mas Vivo a

confessarque o ridículo é umadas minhasdi

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