14 - Universidade Estadual do Centro-Oeste
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Editor-chefe<br />
Samilo Takara<br />
Diagrama<strong>do</strong>res<br />
Camila Coelho<br />
Samilo Takara<br />
Revisores<br />
Débora Fuzimoto<br />
Rogério Camargo<br />
Expediente<br />
Repórteres dessa edição:<br />
Aline Fop; Camila Coelho;<br />
CamilaTsubauchi; Carla Abe<br />
Vicente; Débora Fuzimoto;<br />
Douglas Belan; Glarin Bif;<br />
Jéssica de Souza; Marcos<br />
Przygocki; Morgani Guzzo;<br />
Rogério Camargo e<br />
Samilo Takara.<br />
Tiragem: 200 exemplares<br />
Impressão: Gráfica Unicentro<br />
To<strong>do</strong>s os textos são de responsabilidade<br />
de seus autores<br />
e não refletem a opinião da<br />
Unicentro.<br />
O Jornal Laboratório Ágora é<br />
desenvolvi<strong>do</strong> pelos estudantes<br />
<strong>do</strong> 4º ano de Jornalismo da<br />
<strong>Universidade</strong> <strong>Estadual</strong> <strong>do</strong><br />
<strong>Centro</strong>-<strong>Oeste</strong>, sob a supervisão<br />
<strong>do</strong> professor Francismar<br />
Formentão. Para entrar em<br />
contato com a redação: (42)<br />
3621-1325 ou mande um<br />
e-mail para jornal_agora@<br />
hotmail.com.<br />
02<br />
Éramos 20...<br />
Editorial<br />
Quan<strong>do</strong> aconteceu parecia um acidente. De repente alguém, por descui<strong>do</strong><br />
ou com toda intenção, bateu em uma caixa de tintas e derramou vinte cores<br />
em um momento pós-moderno. Contrastantes, iluminadas e cheias de vida, as<br />
cores eram totalmente desconexas para qualquer admira<strong>do</strong>r de arte, até para<br />
os mais afina<strong>do</strong>s. Essas cores não batiam em nada. Eram simplesmente 19 cores<br />
primárias. Uma delas, nunca foi vista entre as outras, mas por conveniência<br />
sempre esteve lá. E então, o tempo foi passan<strong>do</strong>.<br />
Algumas cores foram desbotan<strong>do</strong> como as lembranças de um velho amor<br />
ou de um amigo queri<strong>do</strong> que viajou para longe. Outras foram ganhan<strong>do</strong> destaque.<br />
Esse alguém, apenas olhava a dinâmica de tempo e espaço que não foi estabelecida<br />
para que essas cores se compreendessem ou decidissem se combinavam<br />
ou não. E não combinavam. Compunham. Dançavam a chamada valsa-vida. Uma<br />
fase que para to<strong>do</strong>s pode ser experimentada de uma maneira particular, mas que<br />
vai apertar o coração de to<strong>do</strong>s que a deixam. Essas cores-pessoas tiveram bons,<br />
maus, horríveis, perfeitos, amigáveis, fortes e intensos momentos juntas. Foram<br />
quatro anos. E o que parecia tão distante chegou à galope. E em 2010, a sexta<br />
turma de Comunicação Social – Jornalismo já enfrentava tarefas de compor projetos,<br />
acompanhar disciplinas, desenvolver o temi<strong>do</strong> TCC – Trabalho de Conclusão de<br />
Curso. Foram quatro anos, que vivemos os meses de formas aleatórias, as semanas<br />
vencen<strong>do</strong> prazos, os dias perden<strong>do</strong>-se na função de noticiar. As horas sempre foram<br />
deadlines e os minutos sempre foram conta<strong>do</strong>s em alguma locução daquele alguém<br />
que conta nossa história.<br />
Não será possível esquecer algumas cores, que ficam frescas na retina<br />
quan<strong>do</strong> pensarmos em graduação. Será sempre possível ter o peito acalma<strong>do</strong><br />
ao pensar que lutamos, que lutamos, que crescemos e decompomos um quadro<br />
que foi acidental. Essa obra de arte que está nas mãos <strong>do</strong> leitor é toda feita<br />
em cores. E a cada imagem em preto e branco, temos muito rosa, azul, verde,<br />
branco, roxo, vermelho, amarelo, laranja e tantas outras que essas escalas de<br />
cinza não podem contar.<br />
Alguns que ficam nesta instituição sentirão saudades, outros lembrarão<br />
com carinho e no ano que começa daqui a pouco, alguns só ouvirão histórias<br />
de cores-pessoas que queriam mudar o mun<strong>do</strong>. E não tem como dizer que não<br />
queríamos. A cada pauta, a cada entrevista, a cada trabalho, a cada discussão<br />
acalorada sobre teorias em sala, a cada bom ou mau gesto entre graduan<strong>do</strong>s,<br />
nós sempre quisemos salvar o mun<strong>do</strong>.<br />
E nossa marca ficou no que disse sabiamente Regina de Oliveira, professora<br />
da disciplina de Redação Jornalística, no primeiro ano. “Endureçam, mas não<br />
percam a ternura”. Outras frases dela ficaram, mas não seria de bom tom citá-las.<br />
Ficaram outros grandes mestres e professores dedica<strong>do</strong>s que nos instruíram na arte<br />
de contar histórias da vida real.<br />
Eram 19 cores e em quatro anos, apenas 12 delas ficaram. E talvez,<br />
menos delas amanhã se deparem com o desespera<strong>do</strong>r merca<strong>do</strong> de trabalho. O<br />
futuro que parecia tão distante enquanto nossas pautas caiam no primeiro ano.<br />
E nessa hora, cabe citar a frase <strong>do</strong> professor Ro<strong>do</strong>lfo Londero. “Neste momento,<br />
já não me cabe falar mais nada”. Agora nos resta seguir. Cada um a sua<br />
estrada, mas to<strong>do</strong>s com um potencial que não será em momento algum questiona<strong>do</strong>.<br />
Jornalistas. Cores-pessoas.<br />
Esta é nossa última edição. A sexta turma de Comunicação Social – Jornalismo<br />
– Elisa Roseira Ferreira Leonardi se despede da <strong>Universidade</strong> <strong>Estadual</strong> <strong>do</strong><br />
<strong>Centro</strong>-<strong>Oeste</strong> com muita coragem para seguir, com algumas manchas coloridas<br />
pelo corpo e pela alma, pelas pessoas que conhecemos e pelo que elas nos tornaram.<br />
Nessa edição você encontrará as últimas matérias feitas por graduan<strong>do</strong>s.<br />
E um dia, ainda lerá, ouvirá ou assistirá outras que foram feitas por estes jornalistas.<br />
Samilo Takara
por Rogério Camargo<br />
TOCA UM PARABÉNS AÍ!<br />
Banda Jovem completa 32 anos e tem<br />
muita história para contar<br />
Seguin<strong>do</strong> os olhares e gestos <strong>do</strong> maestro, cada músico se posiciona<br />
em seu devi<strong>do</strong> lugar, de onde só sairá quan<strong>do</strong> a apresentação<br />
houver termina<strong>do</strong>. Uma última conferida no uniforme e no instrumento.<br />
Basta um sinal <strong>do</strong> regente e to<strong>do</strong>s os músicos se preparam:<br />
“Atenção, banda, senti<strong>do</strong>!”, é a ordem. Quan<strong>do</strong> a batuta desce,<br />
o primeiro acorde ecoa. Forte ou fraco, depende <strong>do</strong> ambiente e da<br />
ocasião. Terminada a música, to<strong>do</strong>s voltam à posição de senti<strong>do</strong> até<br />
que nova ordem seja proferida: “Atenção, banda, descansar!”.<br />
Essa é uma cena que se repete há mais de três décadas no cotidiano<br />
da banda que leva o nome <strong>do</strong> seu primeiro maestro e também<br />
funda<strong>do</strong>r, Leonel Rossetim. Músico profissional, Rossetim<br />
deu início às atividades em 1978, na época com a então chamada<br />
Banda Pérola <strong>do</strong> <strong>Oeste</strong>. Esse nome foi herda<strong>do</strong> <strong>do</strong>s primeiros<br />
músicos que formavam a banda, um grupo de senhores que<br />
trabalhavam de dia e dedicavam-se à música durante a noite.<br />
A ideia de criar um grupo musical surgiu em parceria com a prefeitura,<br />
na época <strong>do</strong> então prefeito Cândi<strong>do</strong> Pacheco Bastos, o “Candinho”,<br />
com o objetivo de incentivar e envolver os jovens no contato<br />
com a música. Como uma entidade que dava seus primeiros passos,<br />
a banda não deixou de enfrentar as dificuldades comuns a toda atividade<br />
ainda em fase inicial. Problemas com instrumentos e sede foram<br />
alguns <strong>do</strong>s muitos obstáculos que precisaram de muita paciência e perseverança<br />
para serem venci<strong>do</strong>s. No entanto, Leonel nunca desanimou, pelo<br />
contrário, sempre procurou incentivar os seus músicos mesmo em meio às<br />
adversidades. “Era um misto de maestro e pai”, assim o define o atual maestro,<br />
Celso Luiz Pinheiro, que está junto à banda desde o seu surgimento.<br />
A regência oficial da banda passou para as mãos de Celso em 1990,<br />
ano de falecimento de Leonel. “Foi um choque para to<strong>do</strong>s nós. Uma grande<br />
perda, principalmente porque era muito queri<strong>do</strong> por to<strong>do</strong>s, não só como músico<br />
mas também como pessoa”, declara Celso, emociona<strong>do</strong> pela lembrança.<br />
A primeira sede da banda foi na rua Capitão Virmond, em frente à antiga<br />
churrascaria Costelão. Naquela época, Leonel era também regente da<br />
Banda Lira <strong>do</strong>s Campos, de Ponta Grossa, cidade onde morava. De lá, vinha<br />
ao menos três vezes por semana a Guarapuava para ministrar suas aulas.<br />
Depois disso, aconteceram outras mudanças de endereço. Da Capitão Virmond, para<br />
as salas da catedral Nossa Senhora de Belém, de lá, em 1993, para uma casa no parque de ex-<br />
03
04<br />
Rogério Camargo<br />
posições Lacerda Werneck e então, finalmente, no início<br />
deste ano, para a sede definitiva no Parque das Crianças.<br />
A primeira apresentação aconteceu no mesmo<br />
ano de sua fundação, 1978, no desfile cívico de 7 de setembro.<br />
Desde então, vem manten<strong>do</strong> a tradição de tocar<br />
antes, durante e depois <strong>do</strong> evento. Contu<strong>do</strong>, a arte da<br />
“banda jovem”, como é mais conhecida, não se limita<br />
apenas à cidade. O primeiro concurso foi em 1982, na cidade<br />
de Antonina, onde representou o município de Guarapuava<br />
em uma competição estadual. Depois disso, vem<br />
participan<strong>do</strong> de inúmeros eventos dessa natureza e coleciona<br />
vários títulos, medalhas e troféus. Entre eles estão<br />
os de bicampeã paranaense, e vice- campeã nacional,<br />
em 1994, na categoria juvenil na cidade de Socorro, SP.<br />
“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou pra<br />
ver a banda passar tocan<strong>do</strong> coisas de amor”<br />
Com o passar <strong>do</strong> tempo, muitas mudanças<br />
foram acontecen<strong>do</strong> na formação da banda. Alguns<br />
<strong>do</strong>s músicos saem para trabalhar em outras áreas,<br />
ou mesmo na música, mas em outros locais. Há casos,<br />
inclusive de alguns que foram embora para outras<br />
cidades e lá montaram as suas próprias bandas.<br />
Para compensar as saídas, novos aprendizes<br />
são admiti<strong>do</strong>s para fazer parte <strong>do</strong> grupo. Em geral,<br />
isso acontece a cada <strong>do</strong>is ou três anos, dependen<strong>do</strong><br />
da necessidade. E é nesse senti<strong>do</strong> que a banda desempenha<br />
um <strong>do</strong>s seus papéis mais importantes. Além <strong>do</strong><br />
cunho cultural, ela também exerce uma função social,<br />
já que trabalha com jovens em idade entre 10 e<br />
<strong>14</strong> anos. Dessa forma, eles ocupam o tempo que fica<br />
livre depois da escola em uma atividade artística e<br />
ainda têm a oportunidade de aprender uma profissão.<br />
O tom de disciplina herda<strong>do</strong> da herança militar<br />
<strong>do</strong> funda<strong>do</strong>r, o Sub-Tenente reforma<strong>do</strong> Leonel Rossetim<br />
não assusta os jovens. Pelo contrário, a disciplina<br />
aprendida é uma das coisas que eles mais prezam. Rodrigo<br />
Lima Pires, 20, integrante da banda há nove anos,<br />
reconhece o valor de tu<strong>do</strong> o quanto tem aprendi<strong>do</strong>. “No<br />
começo, para mim, a banda era como uma distração.<br />
Mas com o tempo, eu fui perceben<strong>do</strong> a seriedade da coisa<br />
e hoje eu não me vejo sem a banda. É uma questão de<br />
amor.”, diz o músico, cuja especialidade é o trombone.<br />
Allan, dedicação e amor pela<br />
música fazem parte <strong>do</strong> cotidiano<br />
<strong>do</strong>s integrantes
Até o ano 2000 a banda admitia apenas meninos<br />
em sua formação. Mas desde então devi<strong>do</strong> à grande<br />
insistência, passou também a abrir espaço para a participação<br />
das meninas. Segun<strong>do</strong> o maestro Celso, a ideia<br />
foi recebida com grande entusiasmo pelas jovens interessadas<br />
na arte musical. “A cobrança era muito grande<br />
por parte delas, logo, nada mais justo que pudessem<br />
também ter a oportunidade de participar”, confirma.<br />
Foi assim que Mirella de Lima, 12, aprendiz<br />
desde 2009, pode entrar no grupo. Para ela, a banda<br />
sempre causou muita admiração, o que foi um<br />
grande estímulo para que quisesse aprender música.<br />
“Eu sempre achei muito bonito. E também queria<br />
seguir o mesmo caminho <strong>do</strong> meu pai, que já participou<br />
da banda”, afirma a aprendiz de saxofone.<br />
Junto com os aprendizes estão também aqueles<br />
que, de um jeito ou de outro, ainda conseguem conciliar<br />
as atividades da banda com empregos em outras<br />
áreas. Geferson Pereira, 37, músico há 24 anos, é<br />
um desses exemplos. Trabalhan<strong>do</strong> em uma empresa<br />
da cidade, diz que mesmo com o corre-corre não consegue<br />
se imaginar sem a banda. “Ela já faz parte da<br />
minha vida, né? Se um dia eu tiver que sair vai ser<br />
muito triste. Eu não vivo sem a banda”, diz o trompetista,<br />
que hoje é o mais antigo músico da formação.<br />
Sabe aquela?<br />
Rogério Camargo<br />
Ensaios diários<br />
garantem a afinação<br />
há mais de 30 anos<br />
A banda sempre tocou nos lugares mais diversifica<strong>do</strong>s,<br />
in<strong>do</strong> desde apresentações em eventos promovi<strong>do</strong>s<br />
pela prefeitura, eventos particulares, até recepções a governa<strong>do</strong>res,<br />
ministros de Esta<strong>do</strong>, candidatos à presidência e<br />
generais. Dentre as apresentações mais marcantes, o maestro<br />
Celso ressalta a que aconteceu no Teatro Guaíra em Curitiba,<br />
em comemoração ao seu centenário, onde a banda<br />
fez uma das apresentações mais significativas de toda a sua<br />
história, dada a importância <strong>do</strong> lugar e da circunstância.<br />
O repertório também sempre variou muito,<br />
procuran<strong>do</strong> atender a to<strong>do</strong>s os gostos e situações,<br />
desde a música clássica, passan<strong>do</strong> pela música popular<br />
brasileira e in<strong>do</strong> até as músicas que estão na boca<br />
<strong>do</strong> povo, de acor<strong>do</strong> com o sucesso <strong>do</strong> momento. “A<br />
gente tem sempre que estar estudan<strong>do</strong>, se atualizan<strong>do</strong>,<br />
aprenden<strong>do</strong>. Temos sempre que ter músicas novas.<br />
A banda não sobrevive tocan<strong>do</strong> apenas músicas<br />
<strong>do</strong>s anos 40. Esses dias mesmo fomos a um colégio e<br />
quan<strong>do</strong> tocamos a música Thriller, de Michael Jackson,<br />
a criançada foi à loucura.”, confirma o maestro.<br />
ALGUMAS CURIOSIDADES<br />
- A banda já chegou a fazer em média 120 apresentações<br />
por ano, o que dá quase 4000 desde a sua<br />
fundação, há 32 anos.<br />
- A banda já tocou até em um velório. Segun<strong>do</strong> os familiares<br />
esse era o grande sonho <strong>do</strong> faleci<strong>do</strong>.<br />
- Certa vez no município de Goioxim, um músico, depois<br />
das apresentações, se retirou a um canto para<br />
cochilar, e quan<strong>do</strong> acor<strong>do</strong>u percebeu que o haviam esqueci<strong>do</strong>.<br />
Quan<strong>do</strong> a banda já estava na metade <strong>do</strong> caminho<br />
de volta, alguém lembrou-se que, dentre to<strong>do</strong>s,<br />
faltava um. Quan<strong>do</strong> o maestro deu ordem para que<br />
voltassem, o mesmo músico que ficara para trás passou<br />
por eles na estrada, de carona com um deputa<strong>do</strong><br />
que estava passan<strong>do</strong> pela cidade.<br />
- Em uma das viagens, de volta de Curitiba, quan<strong>do</strong> o<br />
ônibus fazia uma curva, o bagageiro <strong>do</strong> ônibus se abriu<br />
ocorren<strong>do</strong> a perda de vários instrumentos<br />
- Muitos <strong>do</strong>s músicos que começaram na banda como<br />
aprendizes, hoje atuam como músicos profissionais em<br />
bandas militares em várias partes <strong>do</strong> país, e outros são<br />
maestros de bandas em outros municípios paranaenses.<br />
05
Para as situações mais formais a banda também<br />
garante um repertório varia<strong>do</strong>, que inclui desde<br />
os clássicos como Mozart e Strauss, assim como tangos<br />
e boleros. Em sua maioria, esses arranjos vêm de<br />
amigos de outras bandas e também <strong>do</strong>s próprios músicos,<br />
que constantemente estão de olho nas estantes<br />
de partituras para que estejam sempre atualizadas.<br />
Aliás, esse é um <strong>do</strong>s motivos da popularidade da<br />
banda municipal, que consegue atingir os mais varia<strong>do</strong>s<br />
públicos. Luana Borchardt, 20, é estudante de pedagogia<br />
e admira o trabalho cultural realiza<strong>do</strong> pelo grupo. “São<br />
músicas muito boas e variadas. Além <strong>do</strong> mais, acredito<br />
que ela exerça uma importante função cultural na sociedade,<br />
já que suas apresentações são um meio de levar<br />
cultura para a população”, complementa a jovem, para<br />
quem a música é também uma bela forma de educação.<br />
Maria Iolanda Brasil, 57, funcionária pública,<br />
é outra fã da banda. Iolanda acompanha o trabalho há<br />
muitos anos e destaca a importância para os aprendizes.<br />
“Eu acho muito bonitas as apresentações deles. Eu assisto<br />
desde quan<strong>do</strong> ainda se chamavam Pérola <strong>do</strong> <strong>Oeste</strong>.<br />
Acho muito importante o incentivo. Não adianta apenas<br />
a pessoa ter o talento, se não tiver incentivo”, destaca.<br />
Para os jovens inicia<strong>do</strong>s na música, o maestro<br />
Celso arremata: “A música é a arte de expressar<br />
um sentimento através <strong>do</strong> som. E é preciso acima de<br />
tu<strong>do</strong> gostar. Depois, com muito esforço e dedicação,<br />
com certeza, a seu tempo, os frutos virão”, conclui.<br />
Rogério Camargo<br />
06<br />
Meninas também garantem<br />
seu lugar num espaço que<br />
era só de meninos
por Douglas Belan<br />
Jogo de mente<br />
que rende dinheiro<br />
Apesar <strong>do</strong> preconceito quanto à pratica <strong>do</strong> Poker, a modalidade<br />
tem federações, campeonatos oficiais e joga<strong>do</strong>res profissionais<br />
A<br />
legislação brasileira é clara quanto à proibição da prática<br />
de qualquer jogo de azar no país. Aos joga<strong>do</strong>res de poker,<br />
um alento: a modalidade foi reconhecida como esporte<br />
de inteligência pela Associação Internacional de Esportes<br />
da Mente, em março deste ano. Agora, o esporte pode ser compara<strong>do</strong><br />
a modalidades como xadrez, dama e bridge. Com a falta<br />
de regulamentação para apostas, entretanto, o jogo on-line tem<br />
ganha<strong>do</strong> adeptos em todas as partes <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, incluin<strong>do</strong> Guarapuava.<br />
De apenas passatempo, o game virtual virou sinônimo de<br />
profissão para vários internautas.<br />
João Carlos Marcon é um desses que dedicam boa<br />
parte de seu tempo ao Texas Hold’em. Empresário e professor,<br />
ele joga no site Full Tilt Poker, e também ministra<br />
aulas para iniciantes. Já chegou a ganhar US$ 1.780,00<br />
em um único torneio pelo computa<strong>do</strong>r. Apesar de não se<br />
considerar profissional, admite que o esporte pode render<br />
uma boa quantia financeira. “O poker é rentável na<br />
medida em que o praticante se especialize em um segmento,<br />
e jogue limites de valores nos quais a inscrição<br />
não afete sua forma de jogar. Conheço várias pessoas que<br />
já se profissionalizaram, como o Léo Bello, por exemplo,<br />
que é médico e hoje se dedica exclusivamente ao Texas<br />
Hold’em”, contou.<br />
Forma<strong>do</strong> em Engenharia Ambiental pela Unicentro,<br />
Lessa encontrou no Poker o seu sustento financeiro.<br />
Ele conheceu o jogo ainda na época da faculdade e, pouco<br />
depois de conhecer as regras, já lucrava pela Internet.<br />
“No mesmo dia em que aprendi, comentei com os meus<br />
amigos que era possível ganhar sem precisar de sorte,<br />
usan<strong>do</strong> apenas técnica. Eles riram de mim e eu fui imediatamente<br />
pesquisar sobre [o jogo] na Internet. Nesse<br />
momento, já percebi que poderia ser um vence<strong>do</strong>r”.<br />
No meio deste ano, um terceiro lugar em uma<br />
série mundial de poker on-line lhe rendeu o valor de<br />
US$ <strong>14</strong>0 mil. Com vários títulos e boas colocações em<br />
grandes torneios, ele conseguiu patrocínios, e agora<br />
pensa em investir em novos talentos. “Investir em jovens<br />
valores é uma maneira muito interessante de se<br />
obter um rendimento maior. Outra forma é dan<strong>do</strong> os<br />
chama<strong>do</strong>s ‘coach’, que são aulas ministradas para joga<strong>do</strong>res<br />
que desejam melhorar seu desempenho. Os valores<br />
cobra<strong>do</strong>s por essas aulas são consideravelmente<br />
altos, ten<strong>do</strong> em vista o bom retorno que o investi<strong>do</strong>r<br />
terá em curto e médio prazo”.<br />
Além das plataformas que oferecem o jogo virtual,<br />
há também os clubes de recreação, onde os joga<strong>do</strong>res<br />
pagam determinada quantia para inscrição e recebem<br />
premiação de acor<strong>do</strong> com a posição no torneio. Sócio de<br />
um clube de Guarapuava, Anderson aju<strong>do</strong>u a organizar<br />
o Campeonato Paranaense de Texas Hold’em, em julho<br />
deste ano. Pouco antes disso, os torneios que realizava<br />
eram apenas entre amigos. “Começamos com um grupo<br />
de poucas pessoas, jogan<strong>do</strong> apenas por prazer. Montamos<br />
um clube pequeno e, com o dinheiro que arrecadamos,<br />
07
pudemos nos mudar para um lugar maior, depois para<br />
outro, maior ainda. Atualmente, recebemos cerca de 30<br />
pessoas por dia, isso quan<strong>do</strong> não há torneios grandes”.<br />
Entre os amigos que jogavam com Anderson de<br />
Lima estava Marcos Paulo Vieira, que hoje também é sócio<br />
<strong>do</strong> clube. “Eu era vende<strong>do</strong>r de uma loja, e decidi<br />
aban<strong>do</strong>nar a profissão para me dedicar ao jogo, algo que<br />
gosto de fazer. Depois disso, ganhei alguns campeonatos<br />
e hoje tenho uma renda maior <strong>do</strong> que tinha antes”, falou.<br />
08<br />
Jogo exige disciplina e equilíbrio emocional<br />
Para alcançar uma renda “bem maior que a de<br />
engenheiro ambiental bem emprega<strong>do</strong>”, Lessa teve de<br />
se dedicar integralmente ao jogo. Atualmente, pratica<br />
de oito a 12 horas por dia, cinco dias por semana. “Para<br />
ser um joga<strong>do</strong>r vence<strong>do</strong>r é necessário que esteja apoia<strong>do</strong><br />
em <strong>do</strong>is pilares principais: dedicação e equilíbrio emocional.<br />
Quan<strong>do</strong> se tem essas duas características principais,<br />
facilmente pode-se suprir todas as outras que são<br />
necessárias para ser um profissional”, opinou ele.<br />
Marcon também considera as duas características<br />
fundamentais, e confessa que perde um pouco seu “tino”<br />
para o esporte quan<strong>do</strong> está abala<strong>do</strong> emocionalmente. “O<br />
poker é um esporte mental, e como tal o praticante deve<br />
estar prepara<strong>do</strong> para ter equilíbrio emocional nos altos e<br />
baixos de um torneio, que pode durar de dez a 12 horas.<br />
Deve ter frieza para perceber as informações corporais<br />
<strong>do</strong>s adversários. Sempre digo que a vida é um jogo de<br />
poker: no cotidiano, você se depara com situações em<br />
que precisa olhar para o vende<strong>do</strong>r na loja e ver o que<br />
está por tras daquela fala. De uma forma ou de outra,<br />
sempre tem alguém blefan<strong>do</strong>”, brincou.<br />
Joga<strong>do</strong>res sentem falta de regulamentação<br />
Apesar da popularização <strong>do</strong> poker em nível mundial,<br />
os joga<strong>do</strong>res profissionais ainda enfrentam preconceito<br />
da sociedade. Relaciona<strong>do</strong> constantemente aos<br />
jogos de azar, a modalidade é praticada, muitas vezes,<br />
de forma escondida. Lessa, que hoje diz estar mais à vontade<br />
quanto à profissão, relatou que, antes, era repugna<strong>do</strong>.<br />
“Só deixou de haver preconceito quan<strong>do</strong> mostrei<br />
meu verdadeiro ‘valor’”, brincou.<br />
De acor<strong>do</strong> com o delega<strong>do</strong> adjunto da <strong>14</strong>ª SDP<br />
(Subdivisão Policial) de Guarapuava, Augusto Quincas <strong>do</strong>s<br />
Santos, não existe uma regulamentação clara quanto ao<br />
jogo. “Não sabemos ao certo se é proibi<strong>do</strong> ou não, e isso<br />
pode ficar a cargo até da Polícia Federal”, confessou Santos.<br />
Segun<strong>do</strong> o delega<strong>do</strong>, só há fiscalização quan<strong>do</strong> há<br />
algum tipo de denúncia e quan<strong>do</strong> o jogo está atrela<strong>do</strong> a<br />
outros crimes. “Geralmente, prendemos quan<strong>do</strong> há caçaníqueis<br />
ou quan<strong>do</strong> o proprietário utiliza o local para lavagem<br />
de dinheiro, tráfico de drogas, etc”, falou.<br />
Algumas ocasiões em outros Esta<strong>do</strong>s podem servir<br />
de indício de que o jogo é legal. Numa liminar concedida<br />
no dia 30 de julho, a desembarga<strong>do</strong>ra Sônia Maria<br />
Schmitz, <strong>do</strong> Tribunal de Justiça de Santa Catarina, reconheceu<br />
o poker como jogo de habilidade.<br />
A decisão foi a favor da Overbet Eventos, empresa<br />
responsável pela organização <strong>do</strong> LAPT Florianópolis.<br />
A princípio, a Overbet Eventos tinha autorização para<br />
realizar o evento, mas essa foi subitamente negada pelo<br />
Secretário de Esta<strong>do</strong> da Segurança Pública e Defesa <strong>do</strong><br />
Cidadão, que considerou o poker ilegal, dizen<strong>do</strong> ser um<br />
jogo de azar.<br />
Com isso, a empresa recorreu ao Tribunal de<br />
Justiça, munida de lau<strong>do</strong>s técnicos, decisões judiciais<br />
anteriores, e até mesmo uma carta <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>,<br />
expressan<strong>do</strong> sua vontade, enquanto representante<br />
<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> de Santa Catarina, em receber o evento. Após<br />
analisar a <strong>do</strong>cumentação, a desembarga<strong>do</strong>ra Sônia Maria<br />
Schmitz concedeu então um mandato de segurança para<br />
a realização <strong>do</strong> evento, consideran<strong>do</strong> o poker como jogo<br />
de habilidade.
REGRAS DO POKER<br />
Assim como em muitos outros jogos, o objetivo <strong>do</strong> joga<strong>do</strong>r de poker é vencer. Quer você jogue para se divertir ou para ganhar dinheiro,<br />
o poker vai testar o seu talento para táticas e a sua capacidade estratégica.<br />
Existem muitas variedades de poker, mas todas seguem o mesmo formato básico:<br />
- Os joga<strong>do</strong>res contribuem para a mesa (o prêmio) que contém fichas de brinque<strong>do</strong> ou fichas que representam dinheiro de verdade.<br />
- São dadas cartas (mãos) a cada joga<strong>do</strong>r, sen<strong>do</strong> que algumas dessas cartas ou todas elas são ocultadas <strong>do</strong>s outros joga<strong>do</strong>res.<br />
- São feitas rodadas de apostas, com base na qualidade das mãos.<br />
- Quan<strong>do</strong> as rodadas de apostas acabam, o joga<strong>do</strong>r com a melhor mão – ou o único a continuar no jogo depois <strong>do</strong>s adversários terem<br />
desisti<strong>do</strong> – vence!<br />
Seja qual for o tipo de poker que você pretenda jogar, é fundamental que você conheça o baralho e que você compreenda bem o ranking de mãos.<br />
Em resumo, uma mão de poker consiste em cinco cartas. As mãos são classificadas em várias categorias, como flush, sequências ou <strong>do</strong>is<br />
pares. O joga<strong>do</strong>r com a melhor mão ganha o jogo. Veja quais são os jogos possíveis, em ordem decrescente de valor.<br />
Royal Flush: Sequência de 10 ao ás <strong>do</strong> mesmo<br />
naipe: 10, J, Q, K, A.<br />
Straight Flush: Sequência de cinco cartas, todas<br />
<strong>do</strong> mesmo naipe.<br />
Quadra (Four of a Kind): Quatro cartas iguais,<br />
independente <strong>do</strong> naipe.<br />
Full House: Mão formada por uma trinca e um<br />
par, independente <strong>do</strong> naipe.<br />
Flush: Conjunto de cinco cartas, todas <strong>do</strong><br />
mesmo naipe.<br />
Sequência (Straight): Cinco cartas de valor<br />
consecutivo, independente <strong>do</strong> naipe.<br />
Trinca (Three of a Kind) Mão que contém três<br />
cartas iguais, independente <strong>do</strong> naipe.<br />
Dois Pares: Mão com <strong>do</strong>is pares de cartas,<br />
independente <strong>do</strong> naipe.<br />
Um Par: Mão conten<strong>do</strong> um par de<br />
cartas independente <strong>do</strong> naipe.<br />
Carta Mais Alta (High Card):Cinco cartas completamente<br />
não-relacionadas. Em caso de empate,<br />
quem tiver a carta mais alta ganha.<br />
FONTE: http://www.dicasdepoker.com.br<br />
09
10<br />
por Camila Coelho<br />
Venenos para emagrecer?<br />
O uso indiscrimina<strong>do</strong> e irresponsável de medicamentos emagrece<strong>do</strong>res causa<br />
inúmeros efeitos colaterais, e as “pílulas da felicidade” que poderiam ser a<br />
solução de um problema tornam-se a fonte para muitos outros<br />
A<br />
primeira vez que tomei um “remédio”<br />
para emagrecer tinha 10 anos<br />
de idade. Hoje tenho 22, e desde a<br />
primeira vez, eu nunca parei. Já perdi<br />
a conta de quantas vezes eu busquei essas<br />
soluções rápidas. Muitas vezes, acho que a<br />
pressa e a preguiça, me levaram a procurar<br />
soluções momentâneas. Na última busca<br />
desses resulta<strong>do</strong>s, fiz uso de medicamentos<br />
deriva<strong>do</strong>s de anfetaminas, e ainda estou<br />
sentin<strong>do</strong> o prejuízo em minha saúde.<br />
As anfetaminas são drogas sintéticas produzidas em<br />
laboratório, possuem efeito estimulante na atividade mental. O<br />
grupo mais comum <strong>do</strong>s medicamentos comercializa<strong>do</strong>s compostos<br />
por seus deriva<strong>do</strong>s são: fenproporex, metanfetamina e dietilpropiona.<br />
Um outro tipo de anfetamina, porém não encontra<strong>do</strong><br />
em farmácias e de uso ilícito, é a metilenodioximetanfetamina,<br />
conhecida popularmente como êxtase.<br />
O farmacêutico, pesquisa<strong>do</strong>r <strong>do</strong>s deriva<strong>do</strong>s anfetamínicos e<br />
professor da UEPG (<strong>Universidade</strong> <strong>Estadual</strong> de Ponta Grossa), Edmar<br />
Miyoshi, explica que os medicamentos para emagrecer possuem<br />
vários tipos de ações, “alguns inibem o apetite, outros diminuem<br />
a absorção <strong>do</strong>s nutrientes <strong>do</strong> alimento pelo organismo,<br />
e outros, ainda, atuam na queima de caloria, sen<strong>do</strong> que os<br />
mais usa<strong>do</strong>s são os deriva<strong>do</strong>s anfetamínicos, e esses atuam<br />
na diminuição <strong>do</strong> apetite da pessoa” diz Edmar.
O Brasil é o terceiro maior<br />
consumi<strong>do</strong>r <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> de medicamentos<br />
anorexígenos (inibi<strong>do</strong>res<br />
de apetite) a base de anfetaminas.<br />
Sen<strong>do</strong> que a maioria <strong>do</strong>s usuários<br />
são mulheres que os utilizam para<br />
o emagrecimento. Uma pesquisa,<br />
realizada no sul <strong>do</strong> país, pelo Observatório<br />
Brasileiro de Informações<br />
sobre Drogas, revelou que cerca de<br />
4,1% da população dessa região fez<br />
uso dessas drogas.<br />
Segun<strong>do</strong> o médico en<strong>do</strong>crinologista<br />
Osmário Edson Góes, a<br />
anfetamina é um medicamento que<br />
deveria ser usa<strong>do</strong> com muita cautela, porque tem uma<br />
capacidade muito alta para gerar dependência química e<br />
seu uso possui muitos efeitos colaterais. “Os remédios são<br />
um grande problema, porque o Brasil não é um país sério<br />
quanto à fiscalização” enfatiza o médico. Ele explica que<br />
alguns desses medicamentos que eram comercializa<strong>do</strong>s e<br />
causavam danos a saúde das pessoas foram retira<strong>do</strong>s <strong>do</strong><br />
merca<strong>do</strong>, “O Rimonabanto ajudava a emagrecer mas em<br />
compensação começou a provocar <strong>do</strong>enças psiquiátricas<br />
em quem fazia seu uso, também havia um medicamento<br />
chama<strong>do</strong> Dexfluramina, que começou a provocar problema<br />
na válvula cardíaca”.<br />
Miyoshi afirma que um outro medicamento emagrece<strong>do</strong>r<br />
que também tem efeitos colaterais é a sibutramina.<br />
“Já esta sen<strong>do</strong> retirada <strong>do</strong><br />
merca<strong>do</strong> na Europa e nos Esta<strong>do</strong>s<br />
Uni<strong>do</strong>s”, completa. Ele relata que<br />
alguns <strong>do</strong>s efeitos colaterais mais<br />
comuns <strong>do</strong> uso indiscrimina<strong>do</strong> e irresponsável<br />
<strong>do</strong>s emagrece<strong>do</strong>res são<br />
problemas cardíacos, alteração na<br />
visão, aumento da pressão arterial<br />
e alucinações.<br />
Para o psicólogo Angelo<br />
Bonateli Neto, esses medicamentos<br />
são importantes, mas é essencial<br />
que haja orientação em seu uso.<br />
“Tenho percebi<strong>do</strong> na prática profissional,<br />
que a medicação para emag-<br />
recer é útil se usada de maneira<br />
correta. Pois tem efeitos muito rápi<strong>do</strong>s,<br />
que muita gente gostaria, o<br />
problema é que tem muita gente<br />
esta compran<strong>do</strong> por conta própria<br />
ou em médicos de não confiáveis”<br />
diz o psicólogo. Segun<strong>do</strong> ele a dependência<br />
química, sintomas de<br />
delírios desagradáveis e principalmente<br />
a depressão são as piores<br />
consequências de uma utilização<br />
inadequada. Ele ainda alerta que<br />
quan<strong>do</strong> o usuário para de usar a<br />
medicação, muitas vezes, volta a<br />
engordar, causan<strong>do</strong> o efeito sanfona,<br />
e para tentar resolver o problema, as pessoas voltam<br />
a tomar os medicamentos para tentar emagrecer de<br />
novo, causan<strong>do</strong> dependência.<br />
O poder destrutivo dessas drogas é grande, pois<br />
possuem potencial de gerar dependência química semelhante<br />
ao da cocaína. Seu uso indevi<strong>do</strong> e prolonga<strong>do</strong><br />
pode provocar alterações psíquicas e lesões cerebrais,<br />
aumentan<strong>do</strong> o risco de convulsões e over<strong>do</strong>se, “os deriva<strong>do</strong>s<br />
anfetamínicos causam dependência”, alerta o<br />
farmacêutico.<br />
As anfetaminas são estimulantes capazes de atuar<br />
desde como anorexígenos, gerar quadros de euforia, e<br />
até mesmo provocar vigília. Sua ação provoca aceleração<br />
<strong>do</strong> funcionamento mental, aumentan<strong>do</strong> a liberação e o<br />
tempo de atuação <strong>do</strong>s neurotransmissores<br />
<strong>do</strong>pamina e noradrenalina<br />
no cérebro. Causa ainda uma alteração<br />
nas funções de raciocínio,<br />
“Os remédios são um grande<br />
problema, e isso porque o Brasil<br />
não é um país sério quanto à<br />
fiscalização”, Osmário<br />
Edson Góes - médico<br />
en<strong>do</strong>crinologista.<br />
“Os medicamentos além de<br />
fazerem mal para saúde, ainda<br />
podem causar danos irreversíveis,<br />
portanto o adequa<strong>do</strong> é<br />
uma reeducação alimentar”,<br />
Marcela Brecailo - Nutricionista<br />
emoções, visão e audição, o que<br />
provoca sensação de satisfação<br />
e euforia. O usuário dessa droga<br />
tem insônia, perde o apetite, fica<br />
eufórico e com uma fala acelerada,<br />
sen<strong>do</strong> que os piores efeitos são irritabilidade,<br />
prejuízo <strong>do</strong> julgamento,<br />
suor, calafrios, dilatação das<br />
pupilas e convulsões.<br />
No Brasil, hoje, segun<strong>do</strong><br />
o IBGE, quase 50% da população<br />
11
esta acima <strong>do</strong> peso e na maioria das vezes são essas pessoas<br />
que fazem o uso de tais medicamentos, porém antes<br />
de utilizar essas drogas é necessário conhecer o funcionamento<br />
<strong>do</strong> organismo humano e também compreender<br />
como e porque existe um acumulo de gordura. O médico<br />
en<strong>do</strong>crinologista Osmário Edson Góes explica porque as<br />
pessoas engordam, e segun<strong>do</strong> ele, isso é uma coisa bem<br />
complexa, “às vezes você vem de<br />
uma família que já é mais gordinha,<br />
então seria a parte mais genética.<br />
Aí também tem o meio ambiente<br />
em que a pessoa vive, e atualmente<br />
temos tendência a comer alimentos<br />
mais gordurosos e que engordam<br />
mais, por exemplo: lanches rápi<strong>do</strong>s”,<br />
fala o en<strong>do</strong>crinologista.<br />
Segun<strong>do</strong> ele, ainda existe<br />
outra causa de acúmulo de gordura<br />
que seria o fato de que nos<br />
exercitamos menos, hoje em dia,<br />
devi<strong>do</strong> a modernidade, “antes você<br />
tinha que levantar para mudar o<br />
canal da sua TV, hoje você só aperta o botãozinho” diz<br />
o médico. Góes ainda explica que também existem as<br />
<strong>do</strong>enças que fazem com que as pessoas engordem, “como<br />
problema de tireóide ou nas glândulas supra-renais, ou<br />
até mesmo <strong>do</strong>enças psiquiátricas em que a ansiedade au-<br />
12<br />
“O problema é que tem muita<br />
gente compran<strong>do</strong> por conta<br />
própria ou em médicos não<br />
confiáveis”, Angelo Bonateli<br />
Neto - Psicólogo<br />
Rebites<br />
As anfetaminas também são usadas, ilicitamente,<br />
por alguns caminhoneiros, pois alguns desses<br />
profissionais precisam dirigir horas sem descansar,<br />
utilizadas, nesses casos, para inibição <strong>do</strong> sono. São<br />
conhecidas pelos motoristas como “Rebite”.<br />
menta e as pessoas começam a comer mais” finaliza o<br />
en<strong>do</strong>crinologista.<br />
Por isso, é importante que os hábitos se tornem<br />
saudáveis e o emagrecimento ocorra de uma maneira<br />
saudável como explica a nutricionista Marcela Brecailo.<br />
“Os medicamentos além de fazerem mal para saúde, ainda<br />
podem causar danos irreversíveis. Portanto o adequa<strong>do</strong> é<br />
uma reeducação alimentar e que o<br />
peso não seja perdi<strong>do</strong> rapidamente<br />
de uma vez só, mas sim de maneira<br />
gradativa por meio de uma mu-<br />
dança de hábitos”. Ainda, segun<strong>do</strong><br />
a nutricionista, o emagrecimento<br />
não acontece de maneira igual para<br />
to<strong>do</strong>s, mas na maioria das vezes é<br />
preciso aumentar o consumo de frutas<br />
e verduras e diminuir açúcares e<br />
gorduras, “quanto mais colori<strong>do</strong> for<br />
o prato melhor e o ideal é que se<br />
consumam 3 porções de frutas por<br />
dia”, completa Marcela.<br />
Que esse processo não é fácil e<br />
nem simples to<strong>do</strong>s sabemos, mas o importante é realizar<br />
escolhas que façam bem para nossa saúde física e mental.<br />
Sempre com apoio de vários profissionais responsáveis da<br />
área, que façam as melhores indicações para cada tipo de<br />
organismo.
por Jéssica de Souza<br />
Em inglês: TO WORK<br />
Cada vez mais jovens trocam as férias da universidade pelo trabalho<br />
nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s ofereci<strong>do</strong> por agências de intercâmbio<br />
O que era para ser um intercâmbio<br />
de três meses virou uma<br />
experiência de um ano para o publicitário<br />
Carlos Marochi, 23 anos.<br />
Em 2007, ele decidiu que iria para<br />
os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s trabalhar durante<br />
as férias da universidade. Por vários<br />
motivos ele trocou o Natal com a<br />
família e a virada de ano na praia<br />
com os amigos, para trabalhar como<br />
“pedcab” em San Diego, no esta<strong>do</strong> da<br />
Califórnia. “Pedcabs” são muito comuns<br />
por lá, são bicicletas que fazem<br />
o papel de um táxi e o “motorista”<br />
ganha por corrida.<br />
“Foram três motivos que me<br />
levaram a fazer o intercâmbio: melhorar<br />
meu inglês, que não era muito<br />
bom, ganhar dinheiro e me divertir”<br />
,conta Carlos, que depois de três<br />
meses, quan<strong>do</strong> já era hora de voltar<br />
para o último ano da faculdade, decidiu<br />
ficar. “Eu já estava lá mesmo e<br />
o mais difícil eu já tinha feito, que<br />
era pagar a viagem, encontrar um<br />
emprego e um lugar pra morar, então<br />
Carlos trabalhou como pedcab em San Diego,<br />
esta<strong>do</strong> da Califórnia, por um ano<br />
Arquivo pessoal<br />
“por que não ficar mais?”. Depois de<br />
muita burocracia, ele conseguiu mudar<br />
o visto de trabalha<strong>do</strong>r temporário<br />
para estudante, se matriculou em<br />
uma escola de inglês e só voltou para<br />
casa em dezembro de 2008, um ano<br />
depois de ter pousa<strong>do</strong> em uma das<br />
cidades mais agitadas da costa oeste<br />
norte-americana.<br />
A modalidade de intercâmbio<br />
que Carlos escolheu foi aquela em<br />
que um universitário, obrigatoriamente,<br />
trabalha nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s<br />
13
Arquivo pessoal<br />
durante as férias da faculdade. No<br />
entanto, essa é apenas uma das diversas<br />
opções que as agências de intercâmbio<br />
oferecem, mas é de longe<br />
uma das mais procuradas. Em 2007,<br />
foram 1.700 estudantes, de uma<br />
única agência, que optaram por essa<br />
modalidade.<br />
“Nosso programa para universitários<br />
trabalharem nos Esta<strong>do</strong>s<br />
Uni<strong>do</strong>s é o trabalho de férias, onde<br />
o estudante universitário pode trabalhar<br />
nas férias aqui <strong>do</strong> Brasil,<br />
in<strong>do</strong> para os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s e acaba<br />
voltan<strong>do</strong> com dinheiro no bolso, além<br />
da experiência adquirida”, explica<br />
Mônica Oliveira, diretora educacional<br />
de uma das maiores agências de<br />
intercâmbio <strong>do</strong> Brasil.<br />
<strong>14</strong><br />
Nos dias de folga, Sttenio<br />
praticava snowboard na<br />
estação em que trabalhava<br />
Cursos de Idiomas<br />
Sttenio Costa, 21 anos, também<br />
decidiu ficar longe de casa e fez<br />
o mesmo programa que Carlos. Ele<br />
partiu para o esta<strong>do</strong> americano de<br />
Connecticut em novembro de 2008 e<br />
voltou em abril de 2009. “O Work Experience<br />
se apresentou como melhor<br />
opção pelo prazo <strong>do</strong> programa e pelo<br />
fato <strong>do</strong> trabalho ser uma boa forma<br />
de eu me manter em um país diferente”,<br />
ressalta Sttenio.<br />
Durante o tempo longe <strong>do</strong><br />
Brasil, o intercambista tem que se<br />
acostumar com a cultura diferente,<br />
comida e aguentar a saudade de casa<br />
e <strong>do</strong>s amigos, mas, segun<strong>do</strong> Sttenio,<br />
vale à pena. “Eu aprendi a conviver<br />
com pessoas muito diferentes de<br />
mim e respeitar a opinião <strong>do</strong>s outros.<br />
Um <strong>do</strong>s programas mais flexíveis, e mais procura<strong>do</strong>s, que as agências<br />
de intercâmbio ofertam. Nele o participante viaja para outro<br />
país para aprender ou aprimorar um idioma e tem a opção de ficar<br />
em casa de família, hotel ou até mesmo residências estudantis.<br />
Os idiomas mais procura<strong>do</strong>s são: alemão, espanhol, francês, inglês e italiano.<br />
Além disso, os destinos são varia<strong>do</strong>s também: Austrália, Nova Zelândia, França,<br />
Itália, Espanha, Inglaterra, Bélgica, Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, Canadá, entre outros.<br />
Um curso de francês, em Paris, com duração de 4 semanas e acomodações<br />
em casa de família - em quarto duplo e com café da manhã - sai<br />
por, aproximadamente, 4 mil reais, sem contar as passagens de ida e volta.<br />
Au Pair<br />
Programa de trabalho remunera<strong>do</strong> que une estu<strong>do</strong>, trabalho e turismo. A forma<br />
de intercâmbio mais barata oferecida pelas agências leva os participantes<br />
para países como Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, França, Holanda, Áustria e Alemanha para<br />
cuidarem de crianças e morarem na casa dessas famílias. Mas as “babás”<br />
precisam estudar e, além de receberem para isso, sempre sobra tempo para<br />
conhecer o país em que estão. Em geral, o programa tem duração de um ano.<br />
Como trabalhava próximo<br />
a Nova York, Sttenio ia sempre<br />
passear na cidade<br />
O contato com a cultura americana<br />
também aju<strong>do</strong>u a ampliar minha<br />
visão de mun<strong>do</strong> e conhecer o Brasil<br />
de um ponto de vista inédito”.<br />
Mas nem só de bons momentos<br />
é feito um intercâmbio. Muitos<br />
estudantes enfrentam diversos problemas<br />
antes, durante ou depois da<br />
viagem. A estudante de terapia ocupacional,<br />
Taiuani Marquine, ao chegar na<br />
estação de ski em que iria trabalhar,<br />
não se acostumou com o clima frio e<br />
nem com o trabalho. “O emprega<strong>do</strong>r<br />
tinha contrata<strong>do</strong> muitas pessoas para<br />
trabalhar lá, então quan<strong>do</strong> eu cheguei<br />
não tinha muito o que fazer e como<br />
lá se ganha por hora, quanto menos<br />
horas eu trabalhasse, menos dinheiro<br />
iria ter para me sustentar” diz Taiuani.<br />
Arquivo pessoal
Arquivo pessoal<br />
Ela conta que chegou a entrar<br />
em contato com a agência de<br />
intercâmbio no Brasil, mas que não<br />
obteve resposta, por isso teve que<br />
procurar outro emprego sozinha.<br />
“Por sorte eu tinha um amigo na<br />
Flórida, que trabalhava em um posto<br />
de gasolina na cidade de Orlan<strong>do</strong>, falei<br />
com ele e ele disse que eu poderia<br />
ir trabalhar lá”. Ela viajou mais<br />
de mil quilômetros entre Nova York<br />
e Flórida em busca de um novo emprego.<br />
Já a estudante de o<strong>do</strong>ntologia,<br />
Thais Manhães, enfrentou outro<br />
tipo de problema. To<strong>do</strong>s os trabalha<strong>do</strong>res<br />
temporários ao chegarem<br />
nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s precisam tirar o<br />
“Social Security Card”, uma espécie<br />
de CPF norte-americano, que lhe<br />
Colegial/High School<br />
Nesta opção o participante deve<br />
estar cursan<strong>do</strong> o ensino médio no<br />
Brasil e viaja para outro país para<br />
continuar lá seus estu<strong>do</strong>s, durante<br />
6 meses ou um ano. São mais de<br />
dez destinos, entre eles Holanda,<br />
Suíça e Irlanda e os alunos ficam<br />
em casa de família.<br />
permite trabalhar lá. Quem não tem<br />
esse <strong>do</strong>cumento é considera<strong>do</strong> um<br />
trabalha<strong>do</strong>r ilegal.<br />
Mas, mesmo Thais ten<strong>do</strong> i<strong>do</strong><br />
viajar por meio de uma agência de<br />
intercâmbio, ter tira<strong>do</strong> o visto de<br />
trabalha<strong>do</strong>r temporário, ou seja, ter<br />
feito tu<strong>do</strong> certo, por algum motivo a<br />
imigração não concedeu o seu “Social<br />
Security Card” e ela não pode trabalhar.<br />
“Foi bem difícil, já que eu tinha<br />
i<strong>do</strong> pra lá pensan<strong>do</strong> em me manter<br />
com dinheiro que receberia em meu<br />
emprego, por sorte uma amiga estava<br />
em Reno, no esta<strong>do</strong> de Nevada e eu<br />
fui pra lá passar um tempo com ela,<br />
mas nunca consegui um emprego”.<br />
Thais assim, como Taiuani,<br />
também entrou em contato com a<br />
Trabalho Voluntário<br />
Neste programa o participante<br />
trabalha voluntariamente em projetos<br />
sociais ajudan<strong>do</strong> pessoas ou<br />
animais e nas taxas <strong>do</strong> programa<br />
já estão incluídas alimentação e<br />
acomodação. O programa pode<br />
ser feito na África, na Índia ou no<br />
Peru.<br />
Taiuni teve que viajar mais<br />
mil km para encontrar<br />
um novo emprego<br />
agência de intercâmbio aqui no<br />
Brasil, mas também não obteve nenhuma<br />
resposta. Segun<strong>do</strong> Mônica<br />
Oliveira, é importante que as agências<br />
deixem claro no pré-embarque<br />
que o intercâmbio é um programa<br />
de relacionamento e de aprendiza<strong>do</strong><br />
e não um pacote turístico. “Portanto,<br />
quem for fazer intercâmbio<br />
deve ser uma pessoa com uma mentalidade<br />
mais aberta para aceitar<br />
diferenças culturais e uma certa<br />
maturidade para conseguir enfrentar<br />
dificuldade relacionadas à cultura”.<br />
Além disso, ela ainda fala<br />
que a empresa utiliza ferramentas<br />
como skype, telefones e e-mails,<br />
que ficam à disposição <strong>do</strong> cliente<br />
em caso de necessidade.<br />
Trabalho nos EUA<br />
Mesmo programa feito por Carlos,<br />
Sttenio, Taiuani e Thais. Um universitário<br />
vai aos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s<br />
para trabalhar durante as férias<br />
da faculdade e recebe por isso.<br />
O programa custa cerca de 7 mil<br />
reais, sem alimentação e acomodação,<br />
mas já com as passagens<br />
áreas inclusas.<br />
15
16<br />
Atuação sindical ainda existe<br />
Quan<strong>do</strong> se pensa em sindicalismo no Brasil logo vem à cabeça a palavra<br />
greve. Foi assim que as principais classes de trabalha<strong>do</strong>res, como os metalúrgicos,<br />
petroleiros e bancários, conquistaram seus direitos e contribuíram<br />
para a consolidação das leis trabalhistas no país. Hoje, a situação mu<strong>do</strong>u e a<br />
atuação sindical perdeu ritmo.<br />
Segun<strong>do</strong> Arman<strong>do</strong> Boito, autor <strong>do</strong> livro Política neoliberal<br />
e sindicalismo no Brasil (Editora Xamã), essa queda está ligada à<br />
expansão industrial. As centrais sindicais foram instaladas em áreas<br />
de grande produção, como o ABC paulista, e limitavam sua atuação<br />
àquela região. Depois que as empresas começaram a ocupar o país,<br />
buscan<strong>do</strong> cidades nas quais impostos e mão-de-obra fossem mais<br />
favoráveis, essa centralização foi negativa. “Veja-se o caso <strong>do</strong> Brasil,<br />
onde as monta<strong>do</strong>ras estão abrin<strong>do</strong> ou amplian<strong>do</strong> instalações em<br />
regiões de pouca ou nenhuma tradição sindical. No curto prazo, isso<br />
debilita o sindicalismo. Atemoriza os metalúrgicos organiza<strong>do</strong>s <strong>do</strong><br />
ABC e não cria focos novos de sindicalismo operário no Brasil”, afirmou<br />
Boito.<br />
Existe também um comodismo por parte <strong>do</strong>s trabalha<strong>do</strong>res.<br />
Parece que a garantia de alguns direitos básicos conquista<strong>do</strong>s lá<br />
atrás, ainda na Era Vargas, já são suficientes para a manutenção da<br />
rotina. No entanto, aqueles que não se contentam com pouco e querem<br />
negociar salários, participar <strong>do</strong>s lucros e serem valoriza<strong>do</strong>s pelo<br />
serviço que prestam ainda lutam. Os bancários são os mais ativos<br />
hoje em dia. Em 2009, a greve durou quase um mês e complicou a<br />
vida de milhões de pessoas. Este ano, foram duas semanas de portas<br />
fechadas geran<strong>do</strong> a conquista de 7,5% de reajuste salarial.<br />
Mas alguns perderam credibilidade ao longo <strong>do</strong> tempo ou<br />
foram repreendi<strong>do</strong>s pelo governo federal. Os funcionários públicos, por exemplo,<br />
foram pinta<strong>do</strong>s como ‘marajás’ devi<strong>do</strong> à estabilidade de seus empregos<br />
e salários, sen<strong>do</strong> vistos com maus olhos pela população que depende<br />
de seus serviços. Mesmo assim, são os que causam maior impacto na sociedade<br />
quan<strong>do</strong> decidem entrar em greve.<br />
Mesmo desacredita<strong>do</strong>, o sindicalismo brasileiro ainda está entre os<br />
mais participativos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong> Eduar<strong>do</strong> Nogueira, autor <strong>do</strong> livro Entre<br />
a lei e a arbitrariedade: Merca<strong>do</strong> e relações de trabalho (Editora LPR),<br />
hoje os sindicatos estão em seu grau de atividade normal. “O sindicalismo<br />
fica frágil se compara<strong>do</strong> ao perío<strong>do</strong> de seu intenso crescimento, que é uma<br />
lente que distorce sua compreensão e que produz a concepção de que a perda<br />
por Camila Tsubauchi<br />
O sindicalismo brasileiro está entre os mais ativos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> e o Sindijor-PR é<br />
um <strong>do</strong>s exemplos no Esta<strong>do</strong><br />
Divulgação
de ação sindical parece ser muito maior <strong>do</strong> que realmente é”, completou<br />
Nogueira. Na verdade, segun<strong>do</strong> sua pesquisa, essa perda está ligada à diminuição<br />
de greves ocorrida nas últimas décadas. É preciso entender que as greves<br />
eram a maneira encontrada pelos sindicatos para entrar em negociação. Atualmente,<br />
ela é o último recurso a<strong>do</strong>ta<strong>do</strong> após as negociações.<br />
Um sindicato não tão tradicional<br />
Fugin<strong>do</strong> um pouco <strong>do</strong> comum, deixan<strong>do</strong> de la<strong>do</strong> bancários, metalúrgicos,<br />
professores, surge o Sindijor-Paraná (Sindicato <strong>do</strong>s Jornalistas Profissionais<br />
<strong>do</strong> Paraná). Apesar de pouco conheci<strong>do</strong> entre a população, ele existe<br />
há mais de 50 anos e representa cerca de 4 mil sindicaliza<strong>do</strong>s no Esta<strong>do</strong>.<br />
Cria<strong>do</strong> durante a instalação <strong>do</strong> primeiro curso superior de jornalismo<br />
no país, sempre se mostrou atuante. Já em 1957, poucos anos depois de sua<br />
consolidação, o primeiro acor<strong>do</strong> coletivo foi assina<strong>do</strong> delimitan<strong>do</strong> o piso salarial<br />
da categoria. Alguns anos depois, em 1963, uma greve geral foi liderada<br />
pelo Sindijor, paran<strong>do</strong> grande parte <strong>do</strong>s profissionais da capital.<br />
Em Curitiba, o Sindijor não faz vista grossa às ações <strong>do</strong>s patrões,<br />
garantin<strong>do</strong> o piso salarial e to<strong>do</strong>s os direitos garanti<strong>do</strong>s pela convenção coletiva.<br />
No interior <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, a história é outra e a vida de jornalistas não é tão<br />
fácil de se levar.<br />
Paula de Assis Fernandes terminou sua graduação há três anos, e,<br />
como to<strong>do</strong> bom jornalista, deu a cara a tapa no merca<strong>do</strong>. Depois de um ano<br />
trabalhan<strong>do</strong> na Bahia voltou ao Paraná com proposta de emprego em Campo<br />
Mourão, região Noroeste <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. Há um ano e seis meses, ela contribui<br />
com a cobertura jornalística da cidade sem ganhar o piso salarial, hora extra<br />
ou anuênio e cumprin<strong>do</strong> uma jornada de trabalho maior <strong>do</strong> que a prevista.<br />
“Eu trabalho em um jornal bi-semanal que em janeiro vai virar diário e mesmo<br />
assim não existe proposta de aumento de salário”, disse Paula.<br />
“Isso é coisa de emprega<strong>do</strong>r<br />
picareta, porque o acor<strong>do</strong> deve<br />
ser respeita<strong>do</strong>”, Márcio de<br />
Oliveira Rodrigues, presidente<br />
<strong>do</strong> Sindijor-PR.<br />
Jornalistas <strong>do</strong> Jornal <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong><br />
mobiliza<strong>do</strong>s contra a redução<br />
<strong>do</strong> piso salarial<br />
17<br />
Divulgação
Arquivo pessoal<br />
“Eu e uma colega entramos em<br />
contato pra trazer o Sindicato<br />
pra cá, mas parece que não existe<br />
interesse”, Paula de Assis<br />
Fernandes, jornalista.<br />
18<br />
Em Campo Mourão, os únicos que possuem seus direitos garanti<strong>do</strong>s<br />
são os repórteres de TV, cuja a emissora tem Curitiba como sede. Para Márcio<br />
de Oliveira Rodrigues, presidente <strong>do</strong> Sindijor-PR, isso é um desrespeito ao<br />
profissional e à convenção coletiva entre patrões e sindicato. “Isso é coisa de<br />
emprega<strong>do</strong>r picareta, porque o acor<strong>do</strong> deve ser respeita<strong>do</strong>”, completou.<br />
Mas os responsáveis por cobrar esse respeito não possuem representatividade<br />
no interior <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. O problema é que o sindicato mais próximo<br />
fica em Londrina, há 200km de distância, e representa apenas a microrregião<br />
da cidade. Nesse caso é preciso ir até a capital, há 450km, para ser ouvi<strong>do</strong>.<br />
Segun<strong>do</strong> Paula, e-mails e telefonemas não surtem efeito. “Em um ano e meio<br />
eu já liguei, pelo menos, três vezes e mandei zilhões de e-mails, mas até<br />
agora nada (sic.)”.<br />
Para que o Sindicato realmente funcione é preciso uma contrapartida.<br />
Dos 4 mil membros, apenas 2500 mil estão em dia com o Sindijor e<br />
participam ativamente <strong>do</strong>s eventos e manifestações promovi<strong>do</strong>s. Paula ainda<br />
não é sindicalizada e acredita que seja esse o motivo da falta de atenção às<br />
suas reclamações. Segun<strong>do</strong> Márcio, não é esse o discurso da organização. “O<br />
Sindijor não existe pra defender somente os sindicaliza<strong>do</strong>s, e sim a categoria<br />
profissional. Nós representamos 25% da força de trabalho jornalística <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>,<br />
mas lutamos pelos direitos coletivos”, defendeu.<br />
Christian Miguel da Silva é forma<strong>do</strong> pela <strong>Universidade</strong> <strong>Estadual</strong> de<br />
Ponta Grossa, mas atualmente trabalha no Esta<strong>do</strong> de São Paulo. Ele admite<br />
que falta engajamento por parte <strong>do</strong>s trabalha<strong>do</strong>res, mas acredita ser resulta<strong>do</strong><br />
da dissonância entre os patrões e os sindicatos. Segun<strong>do</strong> ele, é preciso<br />
atuar de forma mais prática e não tão ideológica. “Não adianta se prender a<br />
discussões corparativistas, se exige diploma ou não, se precisa de uma agência<br />
regula<strong>do</strong>ra ou não. O que os jornalistas precisam é de uma pauta concreta<br />
na mesa. Vamos lutar pra caçar o registro <strong>do</strong>s jornais que contratam abaixo<br />
<strong>do</strong> piso ou lançar uma diretriz a ser seguida pelas ementas de todas as universidades”,<br />
argumentou.<br />
O jornalista admite a importância da organização, mas desconfia das<br />
intenções políticas <strong>do</strong>s sindicatos. “O problema é a utilização política <strong>do</strong>s sindicatos,<br />
quan<strong>do</strong> os dirigentes acabam legislan<strong>do</strong> em causa própria em vez de<br />
defender os interesses da classe. Eu sou sindicaliza<strong>do</strong>, mas não por interesse,<br />
e sim, porque é obrigatório no veículo onde eu trabalho”, finalizou Christian.<br />
Paula compõe o grupo que ainda acredita nas intenções sindicais.<br />
Em busca de um pouco de atenção, a jornalista vai até Curitiba durante essa<br />
semana para tratar de sua sindicalização. “Eu acho importante e é muito<br />
barato, só 1% <strong>do</strong> piso pra ter seus direitos garanti<strong>do</strong>s e nunca mais ter <strong>do</strong>r de<br />
cabeça com patrão por causa de salário. Mas, pra isso, eu preciso viajar até a<br />
capital”, diz. E realmente é impossível efetuar o registro sem se deslocar até<br />
a sede, o que acaba contribuin<strong>do</strong> para o baixo número de membros atuantes.<br />
“É longe, demanda tempo e dinheiro”, finalizou Paula.<br />
Segun<strong>do</strong> Márcio, existe uma alternativa que pode agilizar o processo,<br />
mas ainda assim é indispensável o comparecimento na sede. “Se to<strong>do</strong>s<br />
os <strong>do</strong>cumentos forem envia<strong>do</strong>s antes nós damos entrada na sindicalização.<br />
Depois é só passar aqui rapidinho e assinar”, argumentou. Para Paula, se o<br />
Sindijor estivesse mais presente no interior e descentralizasse o processo de<br />
registro mais pessoas participariam. “Eu e uma colega entramos em contato<br />
pra trazer o Sindicato pra cá, mas parece que não existe interesse”. O presidente<br />
afirma que fundar a sub-seção regional de Campo Mourão é uma das<br />
metas <strong>do</strong> Sindicato, mas para isso são necessários pelo menos 20 membros.<br />
“Não adianta querer fazer a revolução sozinho”, concluiu Márcio.<br />
Paula trabalha há um ano e meio<br />
e não recebe o piso salarial,<br />
anuênio ou horas-extra
“Não adianta se prender a discussões<br />
corparativistas, se exige<br />
diploma ou não, se precisa de<br />
uma agência regula<strong>do</strong>ra ou não.<br />
O que os jornalistas precisam<br />
é de uma pauta concreta na<br />
mesa. Vamos lutar pra caçar o<br />
registro <strong>do</strong>s jornais que contratam<br />
abaixo <strong>do</strong> piso ou lançar<br />
uma diretriz a ser seguida pelas<br />
ementas de todas as universidades”<br />
Christian Miguel da<br />
Silva, jornalista.<br />
A Pauta Sindical <strong>do</strong>s Jornalistas<br />
Uma tradição de censura<br />
A nova pauta discutida pelo Sindijor-PR e os sindicatos patronais inclui:<br />
- Reposição integral de 4,68%;<br />
- Aumento real de 5,58%;<br />
- Plano de saúde de 90%;<br />
- Vale alimentação 25 dias por mês, com valor diário de R$9,50;<br />
- Aumento da licença maternidade para 180 dias;<br />
- Pré-aposenta<strong>do</strong>ria de 5 anos;<br />
- Adicional noturno de 50%<br />
- Adicional de 55% para editores;<br />
- Adicional de 75% para cargos de chefia;<br />
- Registro obrigatório de cartão-ponto;<br />
- No mínimo 70% de produção jornalística local;<br />
- Obrigatoriedade de autoria das reportagens;<br />
- E um jornalista responsável em to<strong>do</strong> e qualquer veículo de comunicação;<br />
Em agosto deste ano os jornalistas paranaenses aprovaram uma nova<br />
pauta, com reajustes e melhorias trabalhistas, para compor a nova convenção<br />
coletiva entre Sindicato e patrões. O ponto principal era o aumento real<br />
de 5,58% sobre o piso de R$2049,11, alia<strong>do</strong> à outras propostas de avanço. A<br />
pauta foi recusada pelos sindicatos patronais. Segun<strong>do</strong> o presidente <strong>do</strong> Sindijor-PR<br />
isso já era espera<strong>do</strong>. “Há 10 ou 12 anos que os patrões desconsideram<br />
nossas propostas e vem com perda de direitos. O sindicato acaba negocian<strong>do</strong><br />
e conseguin<strong>do</strong> a renovação <strong>do</strong> acor<strong>do</strong>, reposição e abono. Agora queremos um<br />
aumento real”, completou Márcio.<br />
Mas esse ano as negociações foram mais longe e os patrões apresentaram<br />
uma contraproposta absurda, na visão sindical. O piso salarial seria<br />
manti<strong>do</strong> apenas na capital e reduzi<strong>do</strong> para R$1200 no interior <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. Para<br />
Márcio isso é um retrocesso. “Nós temos que lutar por melhorias e não voltar<br />
atrás <strong>do</strong> que já foi conquista<strong>do</strong>”. Para que os patrões percebessem o descontentamento<br />
<strong>do</strong>s jornalistas paranaenses, o sindicato entrou em assembléia<br />
permanente e aprovou o indicativo de greve. Caso os <strong>do</strong>nos de veículos de<br />
comunicação não recuassem os jornalistas <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> parariam de trabalhar.<br />
A adesão ao movimento foi grande, agregan<strong>do</strong> não só sindicaliza<strong>do</strong>s,<br />
mas profissionais como Paula também. “Eu ainda não faço parte <strong>do</strong> sindicato,<br />
mas acho importante defender os interesses da nossa classe”, diz. Na quintafeira,<br />
dia 11 de novembro, os jornalistas <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> se vestiram de preto e<br />
roxo em forma de protesto pelos <strong>14</strong> anos sem aumento real de salários.<br />
As cores tomaram as redações de Curitiba tingin<strong>do</strong> grandes veículos<br />
de comunicação, como o Jornal <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. Franklin de Freitas é repórter<br />
fotográfico <strong>do</strong> JE e confirma a participação. “Algumas pessoas ainda têm<br />
me<strong>do</strong> de perder seus empregos, mas aqui no jornal até a chefe de redação<br />
participa da mobilização”, completou.<br />
O apoio popular é indispensável para que uma manifestação tenha<br />
sucesso. Foi o que aconteceu com os bancários. Mas para se ter apoio da população<br />
é preciso visibilidade e a maneira mais eficiente de alcançá-la é pela mídia.<br />
Então se a eficiência de uma greve depende da atuação da mídia o que fazer<br />
19
“Se um jornalista noticia<br />
alguma coisa sobre greve da<br />
classe ou que diga respeito aos<br />
patrões é possível que no outro<br />
dia alguém peça a cabeça<br />
dele”, afirmou Márcio.<br />
Um exemplo de sindicalismo<br />
quan<strong>do</strong> a greve envolve a própria mídia? Essa é a realidade <strong>do</strong>s jornalistas<br />
brasileiros. Desde setembro um indicativo de greve está em negociação e, no<br />
entanto, a população não tem conhecimento. Segun<strong>do</strong> Márcio, isso ainda é<br />
comum no Brasil. “Se um jornalista noticia alguma coisa sobre greve da classe<br />
ou que diga respeito aos patrões é possível que no outro dia alguém peça a<br />
cabeça dele”, afirmou Márcio.<br />
A solução é apelar para as mídias alternativas e para a confrontação<br />
direta com os patrões. A Internet tem si<strong>do</strong> uma grande aliada. “Os barões<br />
da comunicação estão se deparan<strong>do</strong> facilmente com a mobilização, principalmente<br />
pela Internet, nas reuniões de negociações e até mesmo nas redações.<br />
O mais importante é mostrar que os jornalistas estão descontentes”,<br />
diz Franklin.<br />
Apesar <strong>do</strong> receio em serem repreendi<strong>do</strong>s alguns jornalistas, como<br />
Franklin, foram mais longe e participaram de protestos durante as reuniões<br />
<strong>do</strong>s sindicatos patronais. “Éramos cerca de 30 pessoas, mas fizemos diferença.<br />
Não digo que conseguimos pressioná-los, mas eles nunca passaram por<br />
algo pareci<strong>do</strong>. Surtiu algum efeito”, defendeu.<br />
As reivindicações <strong>do</strong> Sindicato <strong>do</strong>s Jornalistas são baseadas em pesquisas<br />
de merca<strong>do</strong> realizadas pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas<br />
e Estu<strong>do</strong>s Socioeconômicos) que comprovam o crescimento de 40%<br />
acima da inflação nos lucros <strong>do</strong>s veículos de comunicação <strong>do</strong> país. “Nós só<br />
queremos um reajuste equivalente ao crescimento conquista<strong>do</strong> com o nosso<br />
trabalho. E o que pedimos é totalmente viável no momento econômico vivi<strong>do</strong>”,<br />
finalizou Márcio.<br />
Falta engajamento <strong>do</strong>s trabalha<strong>do</strong>res na luta por seus direitos. O comodismo ou até mesmo um certo egoísmo<br />
(se eu estou emprega<strong>do</strong> e tenho meus direitos não me importo com o resto) contribuem com a perda de força <strong>do</strong>s<br />
sindicatos brasileiros. É preciso incentivar essa mobilização política e social desde o início da vida acadêmica, fortalecen<strong>do</strong><br />
a formação de CAs (<strong>Centro</strong> Acadêmico) e DCEs (Diretório Central de Estudantes) nas universidades.<br />
O próprio presidente <strong>do</strong> Sindijor-PR é um exemplo. Márcio participou de movimentos estudantis desde que<br />
entrou na faculdade, em 1986. No ano seguinte já fazia parte <strong>do</strong> CA e <strong>do</strong> DCE, e só deixou de participar quan<strong>do</strong> se<br />
formou. “Você precisa tomar a iniciativa, fazer sem ser convida<strong>do</strong>, só assim consegue espaço para reivindicar seus<br />
direitos”, diz Márcio.<br />
Seguin<strong>do</strong> o mesmo caminho está Cleber Moletta, calouro de jornalismo da Unicentro. No finalzinho de seu<br />
primeiro ano de faculdade ele foi eleito assessor de comunicação <strong>do</strong> DCE da universidade. “Acho importante participar<br />
de movimentos estudantis porque você se torna responsável pelo que acontece e não fica julgan<strong>do</strong> ou culpan<strong>do</strong><br />
os outros pela falta de estrutura”, argumentou. A pretensão é continuar contribuin<strong>do</strong> com o desenvolvimento da<br />
instituição, mas dar espaço para outros. “Eu preten<strong>do</strong> ficar apenas uma gestão no DCE porque eu acho importante a<br />
rotatividade de cargos. Só assim você faz com que outras pessoas se mexam”, completou Cleber.<br />
O problema é que muitos profissionais que participavam de movimentos estudantis saem decepciona<strong>do</strong>s da<br />
faculdade. Eles acabam entran<strong>do</strong> no merca<strong>do</strong> de trabalho sem aderir efetivamente à busca por direitos trabalhistas<br />
com base em suas experiências anteriores. É o caso de Renata Caleffi, jornalista formada e ex-integrante <strong>do</strong> <strong>Centro</strong><br />
Acadêmico de Comunicação Social da Unicentro. “As pessoas não davam muita bola pro que a gente encarava como<br />
problema e muito menos para as nossas soluções. Nem os alunos demonstravam interesse”.<br />
Essa falta de incentivo e de valorização <strong>do</strong>s movimentos estudantis pode ser a raiz <strong>do</strong> problema sindical. Se<br />
a mão-de-obra não for qualificada desde o início, não haverá profissionais motiva<strong>do</strong>s no merca<strong>do</strong> de trabalho. “Eu<br />
perdi a crença no movimento estudantil e acabei trazen<strong>do</strong> isso comigo. Me conformei que as coisas são assim e não<br />
vão mudar”, diz Renata.<br />
20
por Aline Fop<br />
Lembranças de uma torcida<br />
Batel, time de história na cidade, vive apenas na memória<br />
Futebol é a paixão nacional, essa frase to<strong>do</strong> mun<strong>do</strong> já ouviu. Mesmo<br />
que nem to<strong>do</strong>s os brasileiros sejam fanáticos, to<strong>do</strong> mun<strong>do</strong> gosta pelo menos<br />
um pouquinho. Para representar e expressar essa paixão existem os times<br />
de futebol. Além <strong>do</strong>s grandes <strong>do</strong> cenário nacional, as cidades <strong>do</strong> interior<br />
também possuem seus clubes, que mesmo com orçamento aperta<strong>do</strong> e sem<br />
grandes estrelas, levam os torce<strong>do</strong>res às arquibancadas. Atualmente a cidade<br />
de Guarapuava não tem um clube de futebol de campo que represente<br />
essa paixão, mas isso não foi sempre assim. Na década passada<br />
a Associação Atlética Batel, que hoje não disputa mais<br />
campeonatos, já foi sinônimo de grandes partidas<br />
e estádio lota<strong>do</strong>.<br />
Segun<strong>do</strong> Alfre<strong>do</strong> Gelinski, presidente<br />
<strong>do</strong> conselho deliberativo da associação,<br />
o Batel teve duas etapas: a primeira na<br />
década de 50, com a formação <strong>do</strong> clube<br />
por um grupo de empresários, que durou<br />
até os anos 70; e a segunda que foi<br />
quan<strong>do</strong> o time foi reativa<strong>do</strong>, alguns<br />
anos depois pelo Alfre<strong>do</strong> Gelinski,<br />
e começou a disputar campeonatos<br />
ama<strong>do</strong>res na cidade e região.<br />
No início, o clube que não tinha<br />
estádio dependia de campos<br />
empresta<strong>do</strong>s para jogar, mas<br />
isso acabou em 1975, quan<strong>do</strong><br />
o Estádio Wal<strong>do</strong>miro Gelinski<br />
foi construí<strong>do</strong> e cedi<strong>do</strong> para o<br />
Batel por comodato, conta Alfre<strong>do</strong>.<br />
A partir disso, o clube<br />
ganhou independência, cresceu<br />
e permaneceu no futebol<br />
ama<strong>do</strong>r até o final <strong>do</strong>s anos 70,<br />
quan<strong>do</strong> o time vira profissional<br />
“o batel veio preencher um vazio<br />
que a cidade de Guarapuava tinha<br />
no esporte” completa Alfre<strong>do</strong>.<br />
No futebol profissional a<br />
equipe começou nas categorias meno<br />
res, como a série B <strong>do</strong> campeonato es<br />
21
22<br />
tadual, chegan<strong>do</strong> à elite <strong>do</strong> futebol paranaense<br />
nos anos 90, época de ouro <strong>do</strong> clube guarapuavano.<br />
“Foi de 90 a 96 a melhor época, disputamos<br />
até série C <strong>do</strong> campeonato brasileiro<br />
em 1994. O público nos estádios chegava<br />
a cinco, seis mil pessoas” afirma o presidente<br />
<strong>do</strong> conselho.<br />
Mas a fase de glórias <strong>do</strong> batel<br />
não durou até os anos 2000. Em 1996<br />
teve início a decadência <strong>do</strong> time e a escassez<br />
de patrocínio colaborou para isso. Assim,<br />
o clube entra em recesso e não participa mais<br />
<strong>do</strong>s campeonatos patrocina<strong>do</strong>s pela Federação<br />
Paranaense de Futebol – FPF.<br />
A volta<br />
Alfre<strong>do</strong> Gelinski fala que desde a queda <strong>do</strong> Batel surgem movimentos<br />
tentan<strong>do</strong> reativar o time que atualmente, já está rebaixa<strong>do</strong> para a série C <strong>do</strong><br />
campeonato paranaense. Mas em meio a idas e vindas a equipe não conseguiu<br />
se consolidar. Em 2009, o clube foi inscrito na 3ª divisão <strong>do</strong> estadual, mas não<br />
foi nada bem. Para Alfre<strong>do</strong> Gelinski faltou apoio para o Batel se manter, pois<br />
isso custa dinheiro. “Temos a torcida cativa, mas só eles não basta. Muitos<br />
vão pra ver o time ganhar, e para isso é preciso de colabora<strong>do</strong>res para investir<br />
no time.” Afirma Alfre<strong>do</strong>. Devi<strong>do</strong> a isso, em 2010 não houve disputa de<br />
campeonatos para o Batel.<br />
O futuro<br />
Apesar <strong>do</strong> fracasso em 2009, o time ainda pensa em voltar à elite <strong>do</strong><br />
futebol paranaense. De acor<strong>do</strong> com o presidente <strong>do</strong> conselho, o Batel tem<br />
planos para 2011 e está em fase de conversa com futuros colabora<strong>do</strong>res<br />
para viabilizar a participação da equipe na série C <strong>do</strong> paranaense no<br />
próximo ano.<br />
Hoje, o time que já foi grande e é o único da cidade<br />
com registro na Confederação Brasileira de<br />
Futebol – CBF e Federação Paranaense de Futebol<br />
– FPF, se resume a uma escola de futebol<br />
para aproximadamente 150 a<strong>do</strong>lescentes<br />
de 10 a 18 anos, mas deixa saudades<br />
e boas lembranças aos muitos torce<strong>do</strong>res<br />
que freqüentavam o estádio<br />
Wal<strong>do</strong>miro Gelinski.
“Ir aos jogos <strong>do</strong> Batel era a diversão de pai e filho no <strong>do</strong>mingo, mesmo com<br />
meus 8-9 anos eu já entendia de futebol, apesar de ir mais para comer<br />
aquele pastel e devorar alguns amen<strong>do</strong>ins. Lembro que meu pai chegava e<br />
cumprimentava os seus companheiros, que sempre estavam lá. Eles nunca<br />
faltavam aos jogos <strong>do</strong> Batel, não importava se o jogo era contra Coritiba ou<br />
Francisco Beltrão.<br />
Um jogo histórico e marcante para mim foi quan<strong>do</strong> o time principal <strong>do</strong> Atlético-PR<br />
veio jogar contra o Batel. Foi a primeira vez em que vi um técnico<br />
que era, e é até hoje, conheci<strong>do</strong> nacionalmente. Vieram alguns joga<strong>do</strong>res<br />
<strong>do</strong> Atlético também. O técnico era um tal de Geninho, que <strong>do</strong>is ou três anos<br />
depois veio a ser campeão Brasileiro com o mesmo clube. E neste jogo também<br />
apitava um árbitro que era conheci<strong>do</strong> nacionalmente, o tal <strong>do</strong> Go<strong>do</strong>y.<br />
Eu nunca vi meu pai xingar tanto um árbitro como naquele dia, parecia que<br />
dava gosto de xingar ele. No final <strong>do</strong> jogo não lembro o placar, sei que o<br />
Atlético venceu, e o Geninho tomou uma chuva de amen<strong>do</strong>ins.”<br />
Ewerton Mores, 20 anos.<br />
“Era uma tarde ensolarada de <strong>do</strong>mingo, o Estádio Wal<strong>do</strong>miro Gelinski estava<br />
aos poucos se enchen<strong>do</strong>, e não era para menos 16 horas a equipe <strong>do</strong> Batel<br />
enfrentaria o Coritiba Football Club, até então invicto no campeonato<br />
paranaense daquela temporada. O time da capital veio badala<strong>do</strong>, vinha de<br />
quatro vitórias seguidas, uma delas inclusive sobre o Atlético PR no estádio<br />
Joaquim Américo, a euforia era sentida no ar.<br />
Eu estava ali, organizan<strong>do</strong> a papelada da partida, cargo que me foi incumbi<strong>do</strong><br />
pelo presidente da Federação Paranaense. Eu era o responsável pelo<br />
<strong>do</strong>cumento <strong>do</strong> jogo. Começa o jogo, a equipe curitibana abre o placar logo<br />
no início e as esperanças batelinas quase se acabam, porém, ainda havia<br />
tempo de jogo. Com a torcida a seu favor, a equipe guarapuavana consegue<br />
arrancar o empate, e ainda mais longe, vira a partida. Para aumentar a<br />
emoção, pênalti para o Coritiba, o joga<strong>do</strong>r bate, o goleiro defende, o árbitro<br />
apita, final de jogo, a invencibilidade havia caí<strong>do</strong> diante da modesta<br />
equipe <strong>do</strong> Batel. A torcida gritava, os atletas comemoravam, de fato, foi um<br />
momento marcante na história <strong>do</strong> futebol da cidade.”<br />
José Antonio de Assis, delega<strong>do</strong> da Federação Paranaense de Futebol.<br />
Relatos...<br />
23
24<br />
por Camila Coelho<br />
Jogo, arte e ciência<br />
Apesar de colaborar para o desenvolvimento <strong>do</strong> raciocínio lógico, o<br />
Xadrez está perden<strong>do</strong> espaço nas escolas de Guarapuava<br />
Um esporte intelectual acontece<br />
sobre um tabuleiro quadra<strong>do</strong><br />
de 64 casas, alternadamente claras<br />
e escuras, onde <strong>do</strong>is joga<strong>do</strong>res tem<br />
como seu objetivo princiapal dar<br />
cheque mate no rei adversário. Cada<br />
enxadrista possui 16 peças, brancas<br />
para um, e pretas para o outro.<br />
É uma arte, pois o xadrez<br />
pode criar emoção estética no<br />
enxadrista e beleza, tanto nas partidas<br />
quanto nos problemas que essas<br />
produzem. E, como a pesquisa<br />
e o estu<strong>do</strong> fazem-se essenciais para<br />
a evolução <strong>do</strong>s atletas, é, também,<br />
uma ciência.<br />
Segun<strong>do</strong> o manual de Xadrez<br />
de Idel Becker, o jogo como um esporte<br />
é competição, expectativa,<br />
desafio cria<strong>do</strong>r, divertimento, higiene<br />
mental, repouso. Como ciência, é estratégia<br />
(tática e técnica), estu<strong>do</strong>,<br />
pesquisa, imaginação, descobrimento<br />
(e descoberta), ideal de perfeição.<br />
Como arte, é harmonia, mensagem<br />
de beleza, encanto espiritual,<br />
emoção, prazer cultural, felicidade.<br />
O jogo requer habilidade,<br />
imaginação e cálculo. A prática, o estu<strong>do</strong><br />
e o raciocínio são os fatores de<br />
progresso no xadrez. O problema de<br />
xadrez é uma posição de peças que<br />
expõe, no tabuleiro, determinada<br />
idéia ou combinação de idéias.<br />
Alguns críticos apontam sua<br />
origem na misteriosa Índia, cerca de<br />
3000 anos antes da Era Cristã. Outros<br />
pesquisa<strong>do</strong>res têm atribuí<strong>do</strong> o invento<br />
<strong>do</strong> jogo aos egípcios, e outros,<br />
ainda, ao grego Palamedes, durante<br />
o sítio de Tróia.<br />
Aqui, na terra <strong>do</strong> futebol, o<br />
xadrez começou a ser pratica<strong>do</strong> por<br />
Artur Napoleão, no Rio de Janeiro,<br />
em 1876. Logo, ele juntamente<br />
com Macha<strong>do</strong> de Assis, fundaram o<br />
primeiro clube de xadrez <strong>do</strong> Brasil,<br />
e a partir disso o jogo começou a ser<br />
difundi<strong>do</strong> no país.<br />
Segun<strong>do</strong> uma pesquisa realizada<br />
pela Uneb (<strong>Universidade</strong> <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong><br />
da Bahia), o xadrez é utiliza<strong>do</strong><br />
na educação como instrumento multidisciplinar,<br />
pois auxilia no desenvolvimento<br />
de algumas características<br />
<strong>do</strong> pensamento cognitivo, como<br />
abstração, memorização, raciocínio<br />
lógico, dedução, indução e seu vínculo<br />
com a informática e as novas<br />
tecnologias de informação que permitem<br />
aumentar o espectro de sua<br />
utilização.<br />
O professor de educação física<br />
<strong>do</strong> Colégio <strong>Estadual</strong> Visconde de<br />
Guarapuava, Marcelo Antônio Walter,<br />
incluiu o xadrez em suas aulas há 12<br />
anos. Para ele, o jogo é importante<br />
para aumentar a concentração e trabalhar<br />
o raciocínio lógico <strong>do</strong>s alunos.<br />
“Nota-se uma melhora automática<br />
em todas as disciplinas, naqueles que<br />
praticam a modalidade”, completa o<br />
professor. Porém, segun<strong>do</strong> ele, a recepção<br />
em sala de aula ainda não é<br />
boa quan<strong>do</strong> ele chega com os tabuleiros,<br />
pois muitos ainda não gostam<br />
<strong>do</strong> esporte.<br />
Segun<strong>do</strong> Alexandre Danziato,<br />
responsável pelas escolinhas<br />
da Secretária de Esportes de Guarapuava,<br />
está ocorren<strong>do</strong> uma diminuição<br />
na procura das modalidades em<br />
geral, exceto <strong>do</strong> futebol e <strong>do</strong> futsal.<br />
“Não só o xadrez, mas to<strong>do</strong>s esportes<br />
estão ten<strong>do</strong> uma procura menor<br />
que nos anos anteriores devi<strong>do</strong> ao<br />
aumento <strong>do</strong>s jogo virtuais”, diz Alexandre.<br />
Guarapuava já foi palco de<br />
campeonatos Mundiais e Panamericanos<br />
de Xadrez na década de 90.<br />
Sen<strong>do</strong> que chegou até mesmo a ser<br />
desenvolvi<strong>do</strong> um curso sobre o jogo<br />
para os professores da rede pública<br />
de ensino pelo, na época, Secretário<br />
de Esportes Silvio Fraguas,<br />
que acabou logo após sua saída <strong>do</strong><br />
<strong>do</strong> cargo.<br />
O professor <strong>do</strong> Departamento<br />
de Educação Física da Unicentro,<br />
Luiz Carlos Lemos, já organizou vários<br />
campeonatos, e também prática<br />
o esporte. Para ele, o xadrez é uma<br />
modalidade difícil de trabalhar com<br />
a iniciação. “Se nesse processo pedagógico<br />
os alunos não assimilam, eles<br />
vão acabar não gostan<strong>do</strong>, pois é preciso<br />
didática para ensinar” completa<br />
Luiz. Segun<strong>do</strong> o professor, assim<br />
como o joga<strong>do</strong>r de futebol conhece o<br />
campo, o joga<strong>do</strong>r de xadrez conhece<br />
o tabuleiro.<br />
Luiz ressalta que uma das<br />
vantagens <strong>do</strong> xadrez é que pode ser<br />
pratica<strong>do</strong>, profissionalmente ou<br />
não, em qualquer idade. E como to<strong>do</strong>s<br />
os esportes, tem suas peculiaridades<br />
e benefícios para o atleta, e<br />
é justamente por esse motivo, que,<br />
segun<strong>do</strong> o professor é importante<br />
que haja uma política diferenciada<br />
para diversificação das modalidades.
Arte em toda parte<br />
Há dez anos Guarapuava tinha um estilo de produção cultural respalda<strong>do</strong><br />
em um grupo de teatro e algumas escolas e cursos de danças,<br />
além de uma produção vasta em artes plásticas que vinha de artistas como<br />
Iracema Trinco Ribeiro. No ano de 2001, a cena artística <strong>do</strong> município<br />
recebe um <strong>do</strong>s expoentes da arte contemporânea em Guarapuava atualmente.<br />
Márcio Ramos, 29 anos, veio para a cidade na época trabalhar com<br />
oficinas no CEEBJA (<strong>Centro</strong> <strong>Estadual</strong> de Educação para Jovens e Adultos).<br />
Márcio chegou a essa cidade com o intuito de mudar o mun<strong>do</strong> com arte.<br />
Ambição, que ainda não mu<strong>do</strong>u, apenas transformou-se na busca por mudar<br />
o mun<strong>do</strong> de pessoas que estão abertas a isso.<br />
O artista contou que na época a produção teatral, era outra. “Ná<br />
época que cheguei aqui, tínhamos o Arte e Manha que produzia para escolas<br />
e outros eventos. O grupo da Unicentro que produzia para os cursos<br />
e nós, que éramos desgarra<strong>do</strong>s. O grupo da época se chamava Acrópole<br />
e eram artistas undergrounds”, contou Márcio. Com a tentativa <strong>do</strong> grupo<br />
de montar a peça Salomé, de Oscar Wilde, eles caíram na boca <strong>do</strong> povo e<br />
começaram a chamar a atenção, mesmo sem ter consegui<strong>do</strong> levar a peça<br />
para o palco.<br />
Na época, Márcio trabalhava com performances em diversos eventos<br />
o que lhe atribuiu muitos olhares e também começou a mudar os conceitos<br />
<strong>do</strong> guarapuavano para a arte. “Guarapuava precisava de alguém que<br />
fizesse mudanças. Eu me incumbi de fazê-las e comecei a produzir. Meus<br />
trabalhos solos sempre seguiram ao la<strong>do</strong> das produções que fazíamos em<br />
grupo. Nunca deixei de produzir e sempre trabalhei com a busca da minha<br />
identidade enquanto artista”, ressaltou o artista.<br />
“ Nessa época, Guarapuava<br />
precisava de alguém que<br />
fizesse mudanças. Eu me incumbi<br />
de fazê-las e comecei<br />
a produzir.<br />
”<br />
Arquivo pessoal<br />
por Samilo Takara<br />
25
Em 2003 com a abertura <strong>do</strong> curso de Arte-Educação na Unicentro,<br />
as relações começaram a mudar. Márcio contou que os artistas<br />
começaram a se interagir mais e ganhar espaço. “Eu gostei<br />
porque venho com a coisa <strong>do</strong> oficineiro. Então eu trabalho com a<br />
formação de consumi<strong>do</strong>res de arte nas minhas aulas”. Márcio também<br />
explicaque os artistas foram deixa<strong>do</strong>s à margem conforme o<br />
curso foi envelhecen<strong>do</strong>. E ainda ressaltou que um <strong>do</strong>s problemas da<br />
arte contemporânea é que ela é feita para um público de artistas e<br />
intelectuais. “Então, em minhas aulas eu sempre cito meus amigos<br />
que são artistas daqui e que produzem arte contemporânea, porque<br />
temos que tirar a ideia de que as coisas são produzidas na Europa, em<br />
outros países, mas aqui em Guarapuava temos artistas produzin<strong>do</strong>”,<br />
explicou.<br />
Sobre a falta de estruturas e apoio as produções artísticas,<br />
Márcio é enfático ao salientar que é importante ter apoio das estruturas<br />
governamentais. “Nós batemos muito em Políticas Públicas. Se<br />
existem os governantes não sabem como usá-las. Mas agora eles nos<br />
conhecem. Somos daqui. O trabalho está sen<strong>do</strong> reconheci<strong>do</strong> e ganhamos<br />
um capital simbólico”. Márcio ainda explicitou que as coisas<br />
estão mudan<strong>do</strong> no terreno das artes em Guarapuava. “Além da visibilidade,<br />
nós artistas estamos mostran<strong>do</strong> nosso trabalho e tiran<strong>do</strong> nossos<br />
projetos da gaveta. Quebrei a ideia de que vou guardar. Minhas<br />
ideias e peças eu vou produzin<strong>do</strong>. Alguns trabalhos levam anos, mas<br />
vão se desenvolven<strong>do</strong>. Eu sou movi<strong>do</strong> a isso”, completou Márcio.<br />
Sobre seus dez anos em Guarapuava, o artista acredita que<br />
houve evolução por parte da cidade, assim como houve uma evolução<br />
sua. “Eu percebi que tenho público e que posso mostrar meu trabalho.<br />
Depois que pensei em Grotowski*, eu me tornei mais visível. A<br />
arte é uma necessidade. A arte nada mais é <strong>do</strong> que uma ação transforma<strong>do</strong>ra,<br />
de um vomitar a arte”, argumentou.<br />
26<br />
*Jerzy Grotowski (Rzeszów, 11 de<br />
agosto de 1933 — Pontedera, <strong>14</strong><br />
de janeiro de 1999) foi um diretor<br />
de teatro polonês e figura central<br />
no teatro <strong>do</strong> século XX, principalmente<br />
no teatro experimental ou<br />
de vanguarda. Seu trabalho mais<br />
conheci<strong>do</strong> em português é “Em<br />
Busca de um Teatro Pobre”, onde<br />
postula um teatro praticamente<br />
sem vestimentas, basea<strong>do</strong> no trabalho<br />
psico-físico <strong>do</strong> ator.<br />
“ ...nós artistas estamos<br />
mostran<strong>do</strong> nosso trabalho<br />
e tiran<strong>do</strong> nossos projetos<br />
da gaveta<br />
”
“ A gente tem<br />
que olhar<br />
para uma<br />
educação<br />
renova<strong>do</strong>ra<br />
”<br />
Sobre sua proximidade com as diversas produções artísticas, Márcio<br />
explicou que sua atuação visual está em suas direções. “Nas minhas<br />
peças busco plasticidade. Às vezes vejo minhas peças como instalações,<br />
eu trabalho com o visual”. Já a música se tornou mais presente em suas<br />
produções depois <strong>do</strong> trabalho que integrou em “Os caboclos” e sua poesia<br />
está na desconstrução <strong>do</strong> texto. “Eu desverbalizo o texto. O não desligamento<br />
entre as artes é uma característica da arte contemporânea. O<br />
teatro é uma celebração e é um ritual. Todas as artes já estão ligadas.<br />
Elas são híbridas. A arte teatral vai beber em tu<strong>do</strong>”, complementou.<br />
Sobre o tempo que passou em Guarapuava, Márcio contou que viu<br />
muitas mudanças que foram interessantes. “É legal perceber que tenho<br />
alunos que fazem arte-educação, que produzem arte, que leem coisas.<br />
O capital simbólico que eu tenho construí<strong>do</strong> há 9 anos. Eu percebo que<br />
nos <strong>do</strong>is últimos anos tenho recebi<strong>do</strong> os frutos que plantei”. E sobre suas<br />
conquistas, Márcio rememora o que tinha e ainda tem como ideia hoje.<br />
“Seria bonito salvar o mun<strong>do</strong> com arte. Mas, o mun<strong>do</strong> de algumas pessoas<br />
eu posso mudar. O que eu sinto é no meu grupo de amigos artistas.<br />
São pessoas que eram das plásticas e agora tocam. Pessoas que tocavam<br />
e agora subiram no palco”, contou.<br />
“Com relação aos grupos daqui que já existiam eles buscaram se<br />
renovar. Como Clarice disse ‘Viver ultrapassa o entendimento’. A tecla<br />
que eu bato sempre quan<strong>do</strong> dizem para eu sair daqui. Temos que fazer<br />
uma produção daqui”, explicou o artista. Sobre compreender a arte,<br />
Márcio explicou que devemos abrir a gaveta das experiências. “Deixe sua<br />
experiência traduzir. A gente tem que olhar para uma educação renova<strong>do</strong>ra.<br />
O que você ensina para os seus alunos é que a arte tem movimento.<br />
A educação tem que perceber que a arte é uma necessidade não é<br />
uma futilidade. A arte como uma área de conhecimento tem que crescer.<br />
E tem que haver uma descentralização <strong>do</strong>s apoios. Depende de Políticas<br />
Públicas. Existe dinheiro para investir em cultura. Como os grupos<br />
podem sobreviver fazen<strong>do</strong> o nome da cidade. Guarapuava vai virar um<br />
polo, mas precisamos de apoio para desenvolver. Precisamos<br />
de apoio. Eu acho que o bolo é muito grande”, explicou Márcio<br />
sobre a necessidade de incentivos culturais e desenvolvimento<br />
dessa área para a cidade.<br />
27
28<br />
por Debora Fuzimoto<br />
Crescer exige<br />
sacrifícios<br />
Sair da casa <strong>do</strong>s pais para morar e estudar em outra cidade trata-se<br />
de um aprendiza<strong>do</strong> que vai além das carteiras<br />
Acordar ce<strong>do</strong> sozinho, ser responsável pelo preparo de seu café<br />
da manhã, almoço e jantar. Dividir a casa e conviver com pessoas<br />
diferentes. Cuidar da limpeza e arrumação da moradia.<br />
Controlar as contas e prevenir que elas não atrasem. Avaliar<br />
necessidades <strong>do</strong>mésticas e fazer compras em supermerca<strong>do</strong>s. Essas<br />
são algumas das tarefas atribuídas aos estudantes que optam por fazer<br />
uma faculdade longe de casa.<br />
Escolher o curso, uma universidade<br />
e ser aprova<strong>do</strong> no vestibular<br />
representam uma tarefa<br />
árdua para muitos a<strong>do</strong>lescentes.<br />
Quan<strong>do</strong> tu<strong>do</strong> dá certo, vem<br />
o banho de lama e a chuva de<br />
farinha, em seguida, uma tarefa<br />
ainda mais difícil: deixar a casa<br />
<strong>do</strong>s pais. Além de ser uma fase inerente<br />
ao crescimento pessoal, essa é<br />
uma atitude que requer, entre muitas<br />
exigências, responsabilidade,<br />
aptidão para relações pessoais e<br />
condições financeiras.
´Débora Fuzimoto<br />
Para Lidiane, “é conversan<strong>do</strong><br />
que a gente se entende”<br />
É preciso estar consciente<br />
Para a psicóloga Egleide Montarroyos de<br />
Melo, sem o devi<strong>do</strong> preparo o sonho de liberdade tão<br />
deseja<strong>do</strong> por muitos a<strong>do</strong>lescentes pode se tornar um<br />
verdadeiro pesadelo. “Na passagem da a<strong>do</strong>lescência<br />
para a fase adulta, que culmina entre os 18 e 19<br />
anos, uma das características é a responsabilidade.<br />
Essa transição, muitas vezes, não é feita no lar. Os<br />
pais têm que preparar os filhos. Se já existe a previsão<br />
de que o filho vai estudar e morar fora os pais<br />
devem ensiná-lo a fazer comida, lavar roupa, lidar<br />
com dinheiro, mesmo que naquele momento não<br />
precise. É necessário organizar a estrutura, oferecer<br />
to<strong>do</strong> um suporte, se não o jovem não dá conta”.<br />
Aline Antunes da Costa é recém graduada<br />
em Biologia e após cinco anos moran<strong>do</strong> fora da casa<br />
<strong>do</strong>s pais, avalia que o aprendiza<strong>do</strong> foi além da faculdade.<br />
“No começo eu não tinha noção de nada,<br />
como por exemplo, quanto tempo dura um botijão<br />
de gás, como lavar banheiro e cozinhar então, só sabia<br />
fazer miojo. Nunca tive que me preocupar com<br />
esse tipo de coisa em casa”. Filha única, Aline também<br />
teve lições sobre a convivência. “Nos primeiros<br />
Após uma má experiência<br />
Lidiane de Lima Manzani<br />
aprendeu que a comunicação<br />
é fundamental. “Não conseguiamos<br />
nos entender, chegou<br />
o momento em que tu<strong>do</strong><br />
era separa<strong>do</strong> e individual”.<br />
meses eu reclamava demais, até cogitei me mudar,<br />
quatro mulheres fazem muita bagunça e eu não concordava<br />
com a divisão das tarefas de limpeza, achava<br />
um horror, não queria fazer. Meu sonho era contratar<br />
uma diarista. Hoje, reconheço o quanto aprendi e o<br />
quanto elas foram pacientes comigo”.<br />
Já para Ana Paula Medronha, 18 anos, a<br />
história é bem diferente. Ela deixou a casa <strong>do</strong>s pais<br />
em Porto Belo, Santa Catarina, para cursar Publicidade<br />
e Propaganda em Guarapuava. Primogênita de<br />
três irmãs e já habituada a alguns afazeres <strong>do</strong>mésticos,<br />
Ana afirma se virar numa boa em seu primeiro<br />
ano fora de casa. “Quanto às tarefas de casa não tive<br />
dificuldades de adaptação. As tarefas que eu faço<br />
aqui eu já fazia em casa, não teve muita novidade,<br />
a diferença é que aqui eu estou sozinha, posso fazer<br />
meus horários e quan<strong>do</strong> tiver vontade e lá estava com<br />
a família”.<br />
A velha diferença<br />
As meninas são criadas para terem mais responsabilidade,<br />
afirma Egleide. “Mesmo ten<strong>do</strong> os<br />
mesmos pais, a mesma família, menino e menina,<br />
29
´Débora Fuzimoto<br />
recebem educação diferente. As próprias brincadeiras<br />
da infância como os meninos brincam de carrinho,<br />
o que os estimula a gostarem de carro, a quererem<br />
dirigir, adquirir carteira de motorista. Já as<br />
meninas têm bonecas, mini vassourinha, panelinhas<br />
e conforme crescem começam a ajudar a mãe, lavan<strong>do</strong><br />
louça, forran<strong>do</strong> cama. Quan<strong>do</strong> chegam aos<br />
17, 18 anos, a menina está muito mais preparada<br />
para sair de casa <strong>do</strong> que o menino”. São as antigas<br />
e polêmicas diferenças de gênero que também<br />
se apresentam quan<strong>do</strong> o assunto é sair da casa <strong>do</strong>s<br />
pais.<br />
Para a psicóloga, repúblicas femininas apresentam<br />
mais atritos <strong>do</strong> que as masculinas pelo fato<br />
de que as meninas são mais exigentes e não toleram<br />
muita bagunça já os meninos não se incomodam<br />
tanto com a limpeza e organização. “As meninas<br />
saem de casa levan<strong>do</strong> o que aprenderam com<br />
a mãe, ou seja, fazem o arroz, guardam a comida,<br />
limpam a casa <strong>do</strong> jeito da mãe e quan<strong>do</strong> vão morar<br />
juntas, cada uma com sua maneira de fazer as coisas,<br />
com o seu entendimento <strong>do</strong> que é e como é a<br />
organização de uma casa, elas têm mais chances de<br />
terem desavenças entre si <strong>do</strong> que os meninos. Para<br />
eles a manutenção de uma casa é uma descoberta,<br />
eles vão aprenden<strong>do</strong> juntos, pois geralmente cada<br />
um sabe uma coisa e assim vão se entenden<strong>do</strong>”.<br />
Lidiane de Lima Manzani deixou a casa <strong>do</strong>s<br />
pais em 2005 quan<strong>do</strong> foi fazer cursinho e durante<br />
nove meses morou com cinco meninas em um apartamento<br />
de <strong>do</strong>is quartos. Segun<strong>do</strong> ela, a primeira<br />
tentativa de morar sem os pais em outra cidade não<br />
foi das melhores. “Todas nós tínhamos acaba<strong>do</strong> de<br />
deixar a casa <strong>do</strong>s pais, ninguém tinha experiência<br />
de como era morar em uma república e, além disso,<br />
30<br />
Almoço na república: Alisson,<br />
Fábio, Felipe e Renan<br />
“As relações humanas e as<br />
responsabilidades estão a<br />
nossa volta o tempo inteiro,<br />
mas não são todas as pessoas<br />
que sabem lidar com elas”,<br />
Egleide Montarroyos de Melo.<br />
tínhamos muitos problemas de convivência, não conseguíamos<br />
nos entender, chegou um momento em que<br />
tu<strong>do</strong> era separa<strong>do</strong> e individual, até mesmo os produtos<br />
de limpeza para o apartamento. Nós não fazíamos<br />
nada juntas, nenhuma refeição. Acabou que a república<br />
se desfez”.<br />
Felipe Donatti reside em uma casa com<br />
mais três estudantes – Fábio, Renan e Alisson - to<strong>do</strong>s<br />
acadêmicos <strong>do</strong> curso de Ciência da Computação. Há<br />
<strong>do</strong>is anos na casa, Felipe acredita que possuem um<br />
bom relacionamento. “A gente se entende bem, às<br />
vezes acontece uma discussão ou outra, mas nunca alguém<br />
deixou a república por causa de briga. Para nós<br />
[homens] as coisas são mais simples, não tem frescura,<br />
por exemplo, minha prima morou em um apartamento<br />
com mais três amigas e elas tinham partes separadas<br />
na geladeira, acho que não precisava disso tu<strong>do</strong>, aqui<br />
em casa não tem dessas coisas”.<br />
“No começo <strong>do</strong> ano nós conversamos,<br />
vimos os compromissos<br />
de cada um e fizemos<br />
um acor<strong>do</strong>, a ordem foi<br />
decidida na sinuca”, Felipe<br />
Donatti.
Conversar é prevenir conflitos<br />
Na república de Felipe, apesar de contarem<br />
com os serviços de uma diarista, existe uma escala<br />
para as tarefas de fazer almoço e lavar a louça. “No<br />
começo <strong>do</strong> ano nós conversamos, vimos os compromissos<br />
de cada um e fizemos um acor<strong>do</strong>, a ordem foi<br />
decidida na sinuca, cada dia é a vez de um fazer o almoço<br />
e de outro lavar a louça, na sexta não tem escala<br />
porque to<strong>do</strong>s têm aula às 13 horas”.<br />
Para a psicóloga Egleide, a escala feita pela<br />
república de Felipe é um bom recurso para evitar futuros<br />
conflitos. “Muitas vezes os próprios jovens não<br />
se reúnem para fazerem acor<strong>do</strong>s. Ter uma boa conversa<br />
é muito importante, principalmente no início,<br />
para que to<strong>do</strong>s se interem a respeito <strong>do</strong> contrato de<br />
locação, organização, limpeza e custos financeiros. A<br />
falta de comunicação pode desencadear desavenças<br />
desnecessárias”.<br />
Após a experiência sem sucesso de morar com<br />
quatro meninas, Lidiane foi aprovada em Química<br />
e hoje, durante a universidade mora com duas. Ela<br />
garante que a vivência durante o cursinho a aju<strong>do</strong>u<br />
a não cometer os mesmo erros durante a faculdade.<br />
“Aprendi que se a pessoa faz alguma coisa que não te<br />
agrada, você deve contar a ela, muitas vezes a pessoa<br />
faz sem perceber, se a gente não fala nada e fica<br />
guardan<strong>do</strong> raiva, isso vai viran<strong>do</strong> uma bola de neve e<br />
chega uma hora que não tem mais conserto”. As três<br />
meninas, juntas há quase quatro anos, garantem que<br />
possuem um bom relacionamento por conta das inúmeras<br />
conversas. “No início nos conversamos muito<br />
sobre nossas personalidades e gostos, acho que isso<br />
aju<strong>do</strong>u a evitar que uma chateasse a outra. Sobre a<br />
limpeza, dividimos de acor<strong>do</strong> com o que temos mais<br />
Conseguir passar por essa fase, ultrapassar<br />
to<strong>do</strong>s esses problemas e até<br />
outros que não foram cita<strong>do</strong>s, não se<br />
resume apenas à questão de adquirir<br />
um diploma. Trata-se de algo muito<br />
maior. “Além <strong>do</strong> crescimento pessoal,<br />
também é a realização profissional, a<br />
vontade de trabalhar naquilo que se<br />
gosta e ser um grande profissional”,<br />
afirma Egleide.<br />
conformidade em fazer. Como dizem, é conversan<strong>do</strong> que<br />
a gente se entende”, garante Lidiane.<br />
Como passar por tu<strong>do</strong> isso?<br />
Abrir mão <strong>do</strong> conforto da casa <strong>do</strong>s pais, aprender<br />
a se virar sozinho e a se relacionar com diferentes pessoas<br />
fazem parte <strong>do</strong> processo de crescimento pessoal. Para Egleide,<br />
crescer exige sacrifícios. “Crescimento é vivência,<br />
aprendiza<strong>do</strong>, é passar por experiências boas e ruins, é desenvolver<br />
autonomia, maturidade. Morar sozinho significa<br />
se desprender <strong>do</strong>s pais, renunciar o aconchego, o cômo<strong>do</strong><br />
da casa deles, como superar tu<strong>do</strong> isso depende da capacidade<br />
de se relacionar, dividir espaços, fazer amigos e lidar<br />
com o dinheiro”. Segun<strong>do</strong> a psicóloga, essas capacidades<br />
podem e devem ser treinadas. “As relações humanas e<br />
as responsabilidades estão a nossa volta o tempo inteiro,<br />
mas não são todas as pessoas que sabem lidar com elas. O<br />
jovem que não está prepara<strong>do</strong> pode aprender, começan<strong>do</strong><br />
a treinar a tolerância, por exemplo”.<br />
João Paulo Baliscei<br />
31
diagramação e texto<br />
por Glarin Bif<br />
Resistentes ao longo <strong>do</strong> tempo<br />
Celular, mp3, ipod, computa<strong>do</strong>r e câmera digital. Quem não tem pelo<br />
menos um desses aparelhos digitais? Em pleno século XXI as pessoas<br />
estão rodeadas por aparelhos tecnológicos e às vezes parece<br />
que é impossível viver sem eles, apesar de que alguns esquecem que pessoas<br />
como nossos avôs, pais, e muitos jovens da geração da década de 80,<br />
quan<strong>do</strong> eram pequenos, conseguiam sim, viver sem toda essa tecnologia.<br />
Mas hoje, qualquer um sente-se excluí<strong>do</strong> de uma simples roda de conversa<br />
se não saber o que está acontecen<strong>do</strong> no Twitter, por exemplo.<br />
Em meio aos avanços, muitos<br />
hábitos, costumes e até profissões,<br />
que pareciam essenciais no século<br />
passa<strong>do</strong>, foram se perden<strong>do</strong> ao longo<br />
<strong>do</strong> tempo, porém, isso não quer<br />
dizer que elas deixaram de existir.<br />
Perdi<strong>do</strong>s em meio à confusão diária<br />
<strong>do</strong> espaço urbano, é possível encontrar<br />
aqui e ali, ferreiros, vende<strong>do</strong>res<br />
de jornais pelas ruas, alfaiates,<br />
afia<strong>do</strong>res de piano, sapateiros etc.<br />
Essas profissões não são mais comuns<br />
por vários motivos, mas no<br />
caso <strong>do</strong> sapateiro e <strong>do</strong> alfaiate, a<br />
industrialização foi um fator decisivo<br />
na quase extinção da profissão,<br />
“o grande impedimento para essas<br />
32<br />
Em meio a tanta tecnologia, profissões artesanais e certos hábitos ainda<br />
permanecem no cotidiano de muitas pessoas<br />
duas profissões é que se tornou<br />
mais barato, com o processo de<br />
industrialização, você comprar um<br />
produto industrializa<strong>do</strong>, feito de<br />
forma diferente, em escala e cada<br />
vez mais mecaniza<strong>do</strong>, no caso o<br />
sapato, ou caso realmente têxtil e<br />
isso baixou o custo desse produto,<br />
a primeira coisa para a diminuição<br />
dessas profissões é que elas sofreram<br />
um certo atropelo tecnológico,<br />
sem retorno”, comenta o professor<br />
de história contemporânea da<br />
Unicentro, André Ulysses de Sales.<br />
No entanto, essas profissões,<br />
instrumentos, artefatos e<br />
utensílios que ficam esqueci<strong>do</strong>s na<br />
memória, ainda estão presentes<br />
no cotidiano de muitas pessoas,<br />
como o coa<strong>do</strong>r de pano, a máquina<br />
de escrever e até o hábito de<br />
escrever cartas. O difícil é explicar<br />
como essas profissões, apesar<br />
de to<strong>do</strong>s os fatores contra, ainda<br />
conseguem sobreviver? A resposta<br />
pode estar nos clientes fideliza<strong>do</strong>s<br />
e na qualidade <strong>do</strong> serviço<br />
manual “essas profissões se mantem,<br />
com uma clientela diminuta<br />
por isso que restaram poucos,<br />
mas é uma diminuta bastante fiel,<br />
primeiro, ha uma manutenção de<br />
qualidade de alguns desses profissionais,<br />
que fazem sapatos ou<br />
ternos com uma qualidade acima<br />
de produtos industrializa<strong>do</strong>s, no<br />
caso <strong>do</strong>s alfaiates e sapateiros,<br />
além da ter a questão de ser feito<br />
sob medida”, completa de Sales.<br />
A seguir, por meio de depoimentos<br />
e histórias, veja algumas<br />
profissões e costumes que ainda<br />
são preserva<strong>do</strong>s em Guarapuava.
Sapateiro<br />
Hoje é bem<br />
fácil comprar um<br />
sapato, basta ter<br />
dinheiro. Mas antigamente<br />
não existia<br />
uma loja de calça<strong>do</strong>s<br />
em cada esquina.<br />
Por isso, a profissão<br />
de sapateiro fazia<br />
sucesso fabrican<strong>do</strong>,<br />
consertan<strong>do</strong> ou venden<strong>do</strong><br />
sapatos, botas<br />
e botinas sob medida,<br />
para qualquer<br />
idade. No passa<strong>do</strong>,<br />
só se comprava um<br />
calça<strong>do</strong> quan<strong>do</strong> não<br />
desse mais para consertar<br />
o velho. E<br />
bastava um sapato<br />
para ir à escola e<br />
outro para passear.<br />
Com o passar<br />
<strong>do</strong>s anos, a figura essencial <strong>do</strong> sapateiro,<br />
foi fican<strong>do</strong> rara. A profissão sofreu<br />
diversas crises provocadas pela<br />
produção industrial em série, a popularização<br />
<strong>do</strong> tênis e a qualidade <strong>do</strong><br />
material emprega<strong>do</strong>. Com a concorrência<br />
das lojas de calça<strong>do</strong>s, que ofereciam<br />
produtos diversifica<strong>do</strong>s e com<br />
preços atraentes, o sapateiro passou<br />
apenas a consertar os calça<strong>do</strong>s estraga<strong>do</strong>s.<br />
E nos dias atuais, é uma<br />
pequena parcela da população que<br />
conserva o costume de mandar consertar,<br />
reformar ou ajustar seus calça<strong>do</strong>s,<br />
roupas, bolsas e malas, geralmente,<br />
opta-se por comprar um novo.<br />
Mas, ainda é possível encontrar<br />
um sapateiro. A profissão resiste<br />
ao tempo. João Luis Martins de Souza,<br />
51, e o pai Alcides Martins de Souza,<br />
80, ambos naturais <strong>do</strong> Rio Grande<br />
<strong>do</strong> Sul, há 23 anos têm uma pequena<br />
loja, que pode passar despercebida<br />
aos olhos de muitas pessoas, na<br />
Rua Sena<strong>do</strong>r Pinheiro Macha<strong>do</strong>, no<br />
centro de Guarapuava. Na pequena<br />
sala onde trabalham há duas lâmpa-<br />
Sapateiro: profissão que permanece há gerações na<br />
familia <strong>do</strong>s Martins de Souza<br />
das, diversos instrumentos típicos<br />
da profissão e uma estante repleta<br />
de calça<strong>do</strong>s atrás <strong>do</strong> antigo balcão.<br />
A profissão de sapateiro<br />
está na família há gerações. O irmão<br />
de João assim como seu tio,<br />
ambos faleci<strong>do</strong>s, eram “modelistas”<br />
de calça<strong>do</strong>s, ou seja, criavam<br />
e fabricavam modelos novos<br />
para as pessoas. Segun<strong>do</strong> João, o<br />
forte <strong>do</strong> irmão era fazer calça<strong>do</strong>s<br />
femininos “ele era um modelista<br />
de mão cheia, as mulheres chegavam<br />
com uma revista e mostravam<br />
a figura <strong>do</strong> sapato que desejavam,<br />
como se fosse um vesti<strong>do</strong><br />
de revista para um costureira fazer<br />
igual, mas, nesse caso era sapato,<br />
e meu irmão fazia igualzinho”.<br />
Na loja, as funções estão bem divididas,<br />
João trabalha com cintos<br />
e sapatos e o pai cuida da parte<br />
de bolsas, ambos trabalham atualmente<br />
só na parte <strong>do</strong> conserto, já<br />
chegaram a trabalhar com a fabricação,<br />
mas, como explica João, a<br />
fabricação de sapatos é algo que<br />
tem pouco ou quase<br />
nenhum retorno atualmente<br />
“as pessoas<br />
preferem comprar um<br />
sapato novo, as lojas<br />
oferecem muitas facilidades<br />
para isso,<br />
como o crediário, e<br />
para o sapateiro o<br />
preço geralmente<br />
é pago a vista”.<br />
Com quase trinta<br />
anos de profissão,<br />
João já tem uma clientela<br />
fiel que se<br />
mantém ao longo <strong>do</strong>s<br />
anos, formada por<br />
pessoas das cidades<br />
vizinhas e também<br />
de grandes centros<br />
como Ponta Grossa e<br />
até Curitiba, que vem<br />
até o sapateiro atraí<strong>do</strong>s<br />
pela qualidade<br />
<strong>do</strong> serviço e o preço.<br />
Questiona<strong>do</strong> se não teme que sua<br />
profissão seja extinta, João declara<br />
“a profissão de sapateiro, que só<br />
fabrica sapatos novos, essa sim, é<br />
muito difícil se manter, mas o sapateiro<br />
que trabalha só com os consertos,<br />
esse é algo que nunca irá acabar,<br />
enquanto tiver gente no mun<strong>do</strong><br />
usan<strong>do</strong> sapatos, vai precisar de alguém<br />
pra consertar esses sapatos”.<br />
Cinco Marias, roda, pular corda...<br />
Amarelinha, passa-anel, pular<br />
corda, pião e bolinha de gude...<br />
Antigamente não existiam tantos<br />
brinque<strong>do</strong>s como os que existem<br />
hoje e para a diversão as crianças<br />
tinham que ter muita criatividade.<br />
Hoje, dificilmente vemos<br />
uma criança brincan<strong>do</strong> dessas<br />
brincadeiras. Além disso, diante<br />
das tantas opções atuais,<br />
brincadeiras com os colegas,<br />
em grupo, são deixadas de la<strong>do</strong>.<br />
Porém, parece que nem tu<strong>do</strong> se perdeu<br />
com os avanços no setor de fab<br />
33
icantes de brinque<strong>do</strong>s e não só de<br />
videogames, jogos de computa<strong>do</strong>r e<br />
músicas <strong>do</strong> Restart, vivem as crianças<br />
e a<strong>do</strong>lescentes de hoje. Lembra<br />
da velha brincadeira das Cinco Marias?<br />
Sim, ela ainda está presente<br />
na infância de algumas crianças.<br />
O jogo é assim: pega-se cinco<br />
pedrinhas de mesmo tamanho, ou<br />
saquinhos feitos com arroz ou areia.<br />
Joga todas as pedrinhas no chão e tira<br />
uma delas, depois com a mesma mão<br />
joga-se para o alto para pegar uma<br />
das que ficaram no chão. Isso até ter<br />
pega<strong>do</strong> todas. Na segunda rodada ao<br />
invés de pegar uma por vez, pega-se<br />
duas. Na terceira rodada você pega<br />
três ao mesmo tempo e na última rodada<br />
você pega todas de uma vez só.<br />
A brincadeira não é só de<br />
crianças, adultos também costumam<br />
jogar. Bruna Kriks, 20, aprendeu<br />
a jogar com a mãe e as tias, afinal<br />
essa brincadeira era bem mais comum<br />
na época delas. “Pra gente<br />
era uma brincadeira normal, eu<br />
digo, era da minha época também,<br />
mas, sabíamos que já era mais velha,<br />
já que minha mãe também jogava<br />
quan<strong>do</strong> criança. Hoje, eu ainda<br />
costumo jogar. Nas férias passadas<br />
eu, meu namora<strong>do</strong>, a mãe dele e a<br />
irmã dele, brincamos bastante disso”<br />
A irmã e a prima de Bruna, Mônica e<br />
Thalyta, ambas de nove anos, até alguns<br />
dias atrás nem sabiam o que significava<br />
Cinco Marias, “ela (Mônica)<br />
quan<strong>do</strong> ganhou os saquinhos de arroz<br />
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da minha mãe, veio me chamar para<br />
jogar, então jogamos e mostrei como<br />
era cada fase. Eu tive que sair <strong>do</strong> jogo<br />
porque tinha outras coisas pra fazer,<br />
e ela ficou lá empolgada tentan<strong>do</strong><br />
jogar” diz Bruna sobre a irmã que<br />
além <strong>do</strong> jogo das pedrinhas, também<br />
costuma brincar de pular corda.<br />
Alimentos na medida certa<br />
Hoje praticamente todas as<br />
pessoas costumam comprar produtos<br />
no supermerca<strong>do</strong>, tu<strong>do</strong> já enlata<strong>do</strong>,<br />
empacota<strong>do</strong> e geralmente congela<strong>do</strong>,<br />
só esquentar e comer. Mas, sabese<br />
que durante muito tempo não foi<br />
assim. Antigamente os produtos eram<br />
vendi<strong>do</strong>s a granel. Cada pessoa pedia<br />
a quantidade de alimento que desejava,<br />
escolhia e pesava, 500 gramas<br />
de feijão, 250 de arroz, por exemplo.<br />
Desde então, os produtos industrializa<strong>do</strong>s<br />
vem toman<strong>do</strong> to<strong>do</strong> o espaço<br />
<strong>do</strong>s supermerca<strong>do</strong>s, com embalagens<br />
criativas que atraem os clientes.<br />
Porém, a venda a granel,<br />
apesar de não ser muito usual, ainda<br />
é comum em algumas cidades,<br />
como nas tradicionais feiras livres<br />
ou em merca<strong>do</strong>s municipais, como<br />
em Curitiba. Em Guarapuava na<br />
décadas de 1960 e 1970 acontecia<br />
também uma feira municipal,<br />
perto da sede da atual prefeitura.<br />
Com o tempo, as pessoas que trabalhavam<br />
nessas feiras foram se aposentan<strong>do</strong><br />
e deixan<strong>do</strong> de la<strong>do</strong> essa<br />
prática, que não estava incluída nos<br />
novos hábitos da sociedade. Hoje<br />
é difícil, mas ainda há lugares que<br />
vendem a granel na cidade, como<br />
na “casa das especiarias” no bairro<br />
Santana, <strong>do</strong> senhor Luiz Romil<strong>do</strong> Chicoski.<br />
Seu pai participava da feira<br />
municipal que acabou na década de<br />
1980. E desde 1995, Luiz tem a loja<br />
que vende arroz, feijão, lentilha,<br />
castanhas, cereais, e temperos em<br />
geral. Ele conta que foi o primeiro<br />
a vender cereais a granel na cidade.<br />
Para ele, sem dúvida, os diferenciais<br />
que a venda a granel oferecem<br />
é a qualidade <strong>do</strong>s produtos<br />
“além disso, tem o bom atendimento<br />
e a comodidade, pois, a pessoa<br />
pode ver e escolher o produto<br />
que está levan<strong>do</strong> pra casa a vontade.<br />
E preço compensa mais”.<br />
A venda a granel atualmente<br />
é vista em muitos países e por especialistas<br />
como uma alternativa para<br />
solucionar alguns problemas ambientais.<br />
Já que as embalagens <strong>do</strong>s produtos<br />
industrializa<strong>do</strong>s geram muitos resíduos<br />
no meio ambiente. Por isso, o<br />
consumo a granel pode vir a ser uma<br />
alternativa para quem se preocupa<br />
em consumir de forma sustentável.<br />
Coa<strong>do</strong>r de pano<br />
Ele ainda não foi aposenta<strong>do</strong>!<br />
Por questões de costumes,<br />
principalmente no interior, esse<br />
utensílio ainda é comum. Marilda
Ribeiro, <strong>do</strong>na de casa com 60 anos,<br />
nunca deixou de utilizar o coa<strong>do</strong>r<br />
de pano, embora os filhos tenham<br />
tentan<strong>do</strong> “modernizar” esse costume,<br />
compran<strong>do</strong> filtro de papel,<br />
ela defende o uso <strong>do</strong> pano “o café<br />
com coa<strong>do</strong>r fica muito mais gostoso,<br />
sempre fiz assim e nunca ninguém<br />
reclamou <strong>do</strong> meu cafezinho”.<br />
A velha Olivetti ainda funciona<br />
Rabello – Conserto de máquinas<br />
de escrever. Por incrível<br />
que pareça, muita gente ainda<br />
usa máquina de escrever, tanto<br />
que ainda há lugares especializa<strong>do</strong>s<br />
no conserto das mesmas.<br />
Só em Guarapuava, há pelo menos<br />
<strong>do</strong>is estabelecimentos.<br />
“Pernambuco” como é<br />
chama<strong>do</strong> Luiz Rabello de Vasconcelos,<br />
80, começou a trabalhar com<br />
consertos elétricos em geral em<br />
1954. Natural de Pernambuco, ponto<br />
que deu origem ao apeli<strong>do</strong>, viajava<br />
por to<strong>do</strong> o Brasil trabalhan<strong>do</strong>.<br />
Na década de 1960, já moran<strong>do</strong> em<br />
Guarapuava, tinha muitos fregueses,<br />
dan<strong>do</strong> assistência técnica para<br />
escritórios, Banco <strong>do</strong> Brasil, Caixa<br />
Econômica e farmácias, consertan<strong>do</strong><br />
principalmente máquinas de escrever,<br />
calcula<strong>do</strong>ras e relógios ponto.<br />
Prestava assistência principalmente<br />
a marca de preferência<br />
entre a população, a Olivetti.<br />
Acabou fican<strong>do</strong> como representante<br />
oficial da marca em Guarapuava até<br />
1975, atuan<strong>do</strong> em uma loja com sócios.<br />
Vendeu sua parte na sociedade<br />
e resolveu montar o próprio negócio.<br />
Comprou um carro, montou numa<br />
sala alugada uma pequena loja e<br />
com o restante <strong>do</strong> dinheiro, resultante<br />
da venda da sociedade, comprou<br />
os materiais necessários parao<br />
estabelecimento comercial, fazen<strong>do</strong><br />
um estoque grande de máquinas de<br />
escrever, principalmente. Passa<strong>do</strong>s<br />
41 dias <strong>do</strong> funcionamento da loja,<br />
ocorreu um incêndio, no dia 10 de<br />
junho de 1975 no qual Seu Pernam-<br />
buco, perdeu tu<strong>do</strong> o que havia compra<strong>do</strong><br />
e que estava dentro da loja.<br />
Esse incêndio aconteceu no dia em<br />
que ele iria pagar a primeira parcela<br />
das compras que havia feito, tanto<br />
que fiou saben<strong>do</strong> <strong>do</strong> incêndio na fila<br />
<strong>do</strong> caixa <strong>do</strong> banco. Quan<strong>do</strong> chegou<br />
ao local o fogo estava consumin<strong>do</strong><br />
tu<strong>do</strong> e inclusive <strong>do</strong>is funcionários<br />
saíram feri<strong>do</strong>s. Quinze dias antes<br />
<strong>do</strong> incêndio, ele havia feito um seguro,<br />
mas, o mesmo só conseguiu<br />
receber depois de muito tempo e<br />
apenas a metade <strong>do</strong> valor total.<br />
Com muito esforço e trabalho<br />
pagou tu<strong>do</strong> o que devia, porém<br />
não teve condições de continuar com<br />
a loja. A Rabello Consertos continua<br />
até hoje, mas na garagem de casa,<br />
onde ensinou o ofício a três <strong>do</strong>s cinco<br />
filhos. Atualmente, tem uma clientela<br />
fixa, atenden<strong>do</strong> a cidade e municípios<br />
da região. “Por incrível que<br />
pareça razoavelmente ainda tem<br />
pessoas que utilizam a máquina. Tem<br />
semana que não entra nenhuma, mas<br />
às vezes entra quatro de uma vez, e<br />
às vezes, ainda, ven<strong>do</strong> alguma. Hoje<br />
só há duas fábricas de máquinas de<br />
escrever em funcionamento, a da<br />
Olivetti, no México, e a da Facit em<br />
Juíz de Fora. Porém, compensa mais<br />
mandar arrumar, pois, uma nova,<br />
pode sair em torno de R$700,00”.<br />
Seu Luiz acredita que ainda exitirá<br />
comércio, principalmente<br />
para conserto de máquinas, por<br />
pelo menos uns dez anos. “Quan<strong>do</strong><br />
começaram a chegar os computa<strong>do</strong>res,<br />
meus amigos ficavam bravos e<br />
diziam ‘essa máquina <strong>do</strong> diabo vai<br />
acabar conosco, com nosso negócio’,<br />
mas até agora não acabou”.<br />
Além da máquina de escrever, <strong>do</strong> sapateiro,<br />
das velhas brincadeiras e <strong>do</strong><br />
coa<strong>do</strong>r de pano, existem mais profissões,<br />
utensílios e hábitos que ainda<br />
estão presentes na vida de muitas<br />
pessoas. Certos hábitos são usuais<br />
principalmente no interior, como escrever<br />
cartas para parentes e amigos<br />
que moram longe. E até o fotógrafo<br />
lambe-lambe que viaja de um lugar<br />
para o outro tiran<strong>do</strong> fotos das pessoas,<br />
ainda é possível de se encontrar na<br />
Rua XV de Novembro em alguns dias.<br />
A dúvida reside em por<br />
quantos anos esses hábitos quase<br />
esqueci<strong>do</strong>s ainda vão resistir? “A<br />
maioria <strong>do</strong>s clientes que mantém<br />
essas profissões não são as pessoas<br />
jovens. Essas profissões se mantém,<br />
mas não sei até quan<strong>do</strong>, porque<br />
realmente é mais difícil as novas gerações<br />
continuarem com esse hábito<br />
que o pessoal mais velho tinha,<br />
então eu acho que é uma manutenção<br />
mas ainda sim provisória eu não<br />
consigo ver muito futuro. Talvez<br />
o segre<strong>do</strong> para eles sobreviverem<br />
seria se modernizar e se adaptar,<br />
como no caso <strong>do</strong> sapateiro, se não<br />
dá mais para confeccionar às vezes<br />
da para arrumar” completa André.<br />
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