INTERTEXTUALIDADE
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<strong>INTERTEXTUALIDADE</strong><br />
(no ENEM)<br />
Prof. Vinicius Rodrigues
Intertextualidade – esse palavrão...<br />
“(...) todo o texto é absorção e transformação de outro texto. (...) a linguagem<br />
poética se lê, pelo menos como dupla.” (KRISTEVA in CARVALHAL, 1992, p. 50.)<br />
“(...) não é possível ler senão comparativamente (ou seja, racionalmente) (...)<br />
não se trata tanto da opção entre comprar e não comparar... Não há de fato<br />
como não comparar. Toda leitura é ativação, partilha e ‘cooperação<br />
interpretativa’(...).” (BUESCU, 2001, p. 23.)<br />
“A noção de intertextualidade abre um campo novo e sugere modos de atuação<br />
diferentes ao comparativista (...). Principalmente, as novas noções sobre a<br />
produtividade dos textos literários comprometem a também ‘velha’ concepção<br />
de originalidade.” (CARVALHAL, 1992, p. 53.)
Intertextualidade – esse palavrão...<br />
<strong>INTERTEXTUALIDADE</strong> nada mais é do que o conceito mais importante<br />
nos dias de hoje quando falamos sobre criação artística – colocando,<br />
então, nesse “caldo” de arte, a literatura. É muito difícil nos depararmos<br />
com algo realmente original atualmente no meio da cultura e do<br />
entretenimento. E isso se deve ao exercício constante da comparação,<br />
onde estabelecemos, quase sempre, aproximações entre uma criação e<br />
outra. Quando percebemos que um texto usa outro texto em sua<br />
construção, mesmo que sem a intenção do autor, o que estamos fazendo é<br />
comprovar a ocorrência de <strong>INTERTEXTUALIDADE</strong>.
Intertextualidade – esse palavrão...<br />
Sendo assim, <strong>INTERTEXTUALIDADE</strong> nada mais é do que o<br />
cruzamento de um texto com outro (ou outros), muitas vezes<br />
utilizado conscientemente, sendo parte fundamental da criação do<br />
autor; comporta-se não como plágio involuntário, mas,<br />
frequentemente, é um dos objetivos de determinada obra a<br />
CITAÇÃO explícita para fins de REFERÊNCIA, HOMENAGEM ou,<br />
ainda, PARÓDIA.
Intertextualidade – esse palavrão...<br />
Na prova do ENEM, na maneira como são explicitados seus conteúdos e<br />
habilidades, fala-se muito sobre questões como “DIVERSIDADE DE GÊNEROS<br />
TEXTUAIS”, “O TEXTO EM INTERAÇÃO COM DIVERSOS CONTEXTOS” e<br />
“COMPREENSÃO DE DIVERSAS LINGUAGENS TEXTUAIS E ARTÍSTICAS”<br />
(onde devemos, portanto, compreender que um texto pode expressar-se como<br />
imagem, propaganda, palavra escrita ou símbolo). Logo, compreender a forma<br />
como um texto (artístico ou não) comporta-se na sua composição é uma habilidade<br />
importante, pois perceber a <strong>INTERTEXTUALIDADE</strong> denota CONHECIMENTO DA<br />
CULTURA e de como o SENSO COMUM influencia nossa LEITURA DE MUNDO.
<strong>INTERTEXTUALIDADE</strong><br />
Há, basicamente, duas maneiras de se perceber a intertextualidade...<br />
• Uma explícita, facilmente notada e parte do corpo do texto (geralmente apoiando-se justamente<br />
no conhecimento do senso comum por parte do leitor/espectador).<br />
Na série cinematográfica Shrek, por exemplo...<br />
...É fundamental a<br />
presença de diversas<br />
referências dos<br />
contos de fadas (ou<br />
contos infantis)...<br />
...Sobra espaço até para outras<br />
citações, como o filme Matrix,<br />
lendas medievais, etc, até<br />
mesmo em cenas “soltas”...<br />
...Temos o Gato de Botas...<br />
... Há personagens importantes na<br />
trama, como Rapunzel, Branca de<br />
Neve, Cinderela e muitos outros,<br />
todos misturados...
<strong>INTERTEXTUALIDADE</strong><br />
• O outro caso de ocorrência de INTERTEXTO é quando este está implícito, mais subjetivo, portanto,<br />
dependendo muito do olhar do leitor/espectador para ser encontrado e, muitas vezes, colocado de<br />
forma inconsciente pelo autor, justamente pelo fato de certas INFLUÊNCIAS ou REFERÊNCIAS de<br />
senso comum estarem tão dispersas no mundo que essas acabam surgindo naturalmente.<br />
A história da saga Crepúsculo, por exemplo, tenta renovar os mitos vampíricos tão presentes na<br />
cultura de massa...<br />
...Ainda que não<br />
se consigam<br />
evitar outras<br />
referências<br />
clássicas do<br />
gênero, como<br />
Drácula.<br />
...Abrindo espaço para a<br />
velha história do “amor<br />
proibido”, que remete a<br />
Romeu e Julieta, Tristão e<br />
Isolda...<br />
...Com<br />
direito a<br />
referências<br />
como A Bela<br />
e a Fera...
Semana que vem<br />
Pitty<br />
Amanhã eu vou revelar<br />
Depois eu penso em aprender<br />
Daqui a uns dias eu vou dizer<br />
O que me faz querer gritar<br />
No mês que vem tudo vai melhorar<br />
Só mais alguns anos e o mundo vai mudar<br />
Ainda temos tempo até tudo explodir<br />
Quem sabe quanto vai durar<br />
Não deixe nada pra depois<br />
Não deixe o tempo passar<br />
Não deixe nada pra semana que vem<br />
Porque semana que vem pode nem chegar<br />
A partir de amanhã eu vou discutir<br />
Da próxima vez eu vou questionar<br />
Na segunda eu começo a agir<br />
Só mais duas horas pra eu decidir (...)<br />
Carpe Diem<br />
Horácio<br />
Não indagues muito: é cruel querer saber<br />
Que fim nos reservaram os deuses; nem<br />
Fiques consultando os números babilônios.<br />
Pode ser que Júpiter te conceda muitos<br />
[invernos,<br />
Ou somente este último, como expressa<br />
[agora<br />
o mar tirreno ao bater nas rochas.<br />
Sê sensato, bebe teu vinho e abrevia as<br />
[longas esperanças,<br />
Pois o tempo foge enquanto aqui parlamos.<br />
Curte o dia de hoje – não te fies no futuro!
<strong>INTERTEXTUALIDADE</strong> não demonstra falta de originalidade, necessariamente, mas, muitas<br />
vezes, uma nova noção sobre o que é originalidade. Inferir que um texto utiliza outro texto na<br />
sua construção é um exercício comparativo comum do ser humano; está muito evidente na<br />
propaganda (no uso de símbolos de marcas, por exemplo) e, no texto artístico, apóia-se no<br />
conhecimento dos clássicos.<br />
Canção do Exílio<br />
Gonçalves Dias<br />
Minha terra tem palmeiras,<br />
Onde canta o Sabiá;<br />
As aves, que aqui gorjeiam,<br />
Não gorjeiam como lá.<br />
Nosso céu tem mais estrelas,<br />
Nossas várzeas têm mais flores,<br />
Nossos bosques têm mais vida,<br />
Nossa vida mais amores.<br />
Em cismar, sozinho, à noite,<br />
Mais prazer eu encontro lá;<br />
Minha terra tem palmeiras,<br />
Onde canta o Sabiá.<br />
HINO<br />
NACIONAL<br />
BRASILEIRO<br />
Minha terra tem primores,<br />
Que tais não encontro eu cá;<br />
Em cismar –sozinho, à noite–<br />
Mais prazer eu encontro lá;<br />
Minha terra tem palmeiras,<br />
Onde canta o Sabiá.<br />
Não permita Deus que eu morra,<br />
Sem que eu volte para lá;<br />
Sem que disfrute os primores<br />
Que não encontro por cá;<br />
Sem qu'inda aviste as<br />
palmeiras,<br />
Onde canta o Sabiá.
Canção do Exílio Facilitada<br />
José Paulo Paes<br />
lá?<br />
ah!<br />
sabiá...<br />
papá...<br />
maná...<br />
sofá...<br />
sinhá...<br />
cá?<br />
bah!<br />
Nova Canção do Exílio<br />
Carlos Drummond de Andrade<br />
Um sabiá na<br />
palmeira, longe.<br />
Estas aves cantam<br />
um outro canto.<br />
O céu cintila<br />
sobre flores úmidas.<br />
Vozes na mata, e o maior amor.<br />
Só, na noite,<br />
seria feliz:<br />
um sabiá,<br />
na palmeira, longe.<br />
Onde tudo é belo<br />
e fantástico,<br />
só, na noite,<br />
seria feliz.<br />
(Um sabiá,<br />
na palmeira, longe.)<br />
Ainda um grito de vida<br />
e voltar<br />
para onde tudo é belo<br />
e fantástico:<br />
a palmeira, o sabiá,<br />
o longe.
Quando falamos sobre ENEM, há um termo<br />
importantíssimo que é sempre lembrado:<br />
INTERDISCIPLINARIDADE. A possibilidade de, por<br />
exemplo, poder ler um texto a partir de perspectivas<br />
diversas pode vir a ser um indício de<br />
<strong>INTERTEXTUALIDADE</strong>.
QUESTÕES – ENEM<br />
1) Quem não passou pela experiência de estar lendo um texto e defrontar-se com passagens já<br />
lidas em outros? Os textos conversam entre si em um diálogo constante. Esse fenômeno tem a<br />
denominação de intertextualidade. Leia os seguintes textos:<br />
I. Quando nasci, um anjo torto<br />
Desses que vivem na sombra<br />
Disse: Vai Carlos! Ser “gauche” na vida<br />
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1964)<br />
II. Quando nasci veio um anjo safado<br />
O chato dum querubim<br />
E decretou que eu tava predestinado<br />
A ser errado assim<br />
Já de saída a minha estrada entortou<br />
Mas vou até o fim.<br />
(BUARQUE, Chico. Letra e Música. São Paulo: Cia das Letras, 1989)
III. Quando nasci um anjo esbelto<br />
Desses que tocam trombeta, anunciou:<br />
Vai carregar bandeira.<br />
Carga muito pesada pra mulher<br />
Esta espécie ainda envergonhada.<br />
(PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986)<br />
Adélia Prado e Chico Buarque estabelecem intertextualidade, em relação a Carlos<br />
Drummond de Andrade, por<br />
(A) reiteração de imagens.<br />
(B) oposição de idéias.<br />
(C) falta de criatividade.<br />
(D) negação dos versos.<br />
(E) ausência de recursos
Deve ser observado que a questão relaciona os dois textos,<br />
concomitantemente, ao original, de Drummond – não apenas<br />
um deles. As imagens repetidas (reiteradas) não<br />
necessariamente concordam com o poema de Carlos<br />
Drummond de Andrade, mas convém ressaltar que os versos<br />
de “Até o Fim”, de Chico Buarque, utilizam plenamente o<br />
sentido do primeiro texto; diferentemente de Adélia Prado que,<br />
isoladamente, e só dessa forma, traz sentidos opostos à<br />
imagens de Drummond. Somados (unidos), os dois textos são<br />
apenas reiterações.
1.<br />
2.<br />
2) Cândido Portinari (1903-1962), um dos mais importantes artistas brasileiros do século XX,<br />
tratou de diferentes aspectos da nossa realidade em seus quadros.<br />
3.<br />
4.
Sobre a temática dos retirantes, Portinari também escreveu o seguinte poema:<br />
(….)<br />
Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos<br />
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos<br />
Doloridos como fagulhas de carvão aceso<br />
Corpos disformes, uns panos sujos,<br />
Rasgados e sem cor, dependurados<br />
Homens de enorme ventre bojudo<br />
Mulheres com trouxas caídas para o lado<br />
Pançudas, carregando ao colo um garoto<br />
Choramingando, remelento<br />
(….)<br />
(PORTINARI, Cândido. Poemas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.)<br />
Das quatro obras reproduzidas, assinale aquelas que abordam a problemática que é tema do<br />
poema.<br />
(A) 1 e 2 (B) 1 e 3 (C) 2 e 3 (D) 3 e 4 (E) 2 e 4
Para esta questão, um breve conhecimento da obra de Portinari<br />
seria interessante. A obra “Retirantes” (imagem 2) é um de<br />
seus clássicos e traz, povoado pela referência expressionista,<br />
dramaticidade, tristeza e terror à imagem da seca e desses<br />
indivíduos que migram pelos espaços miseráveis do interior<br />
nordestino. A imagem 1 faz referência aos salões de baile<br />
aristocráticos do início do século, enquanto a imagem 4 traz a<br />
figura de um cangaceiro, um habitante típico da “mitologia”<br />
nordestina, mas que foge à temática do retirante, sempre<br />
associada à miséria e ao sofrimento. A imagem 3 é uma outra<br />
versão da mesma obra, sem a presença tão marcante do horror<br />
que está expresso na imagem 2, influenciado por certas<br />
marcas cubistas, mas, ainda assim, com a presença dos<br />
mesmos temas.
3)<br />
Texto 1: "Mulher, Irmã, escuta-me: não ames,<br />
Quando a teus pés um homem terno e curvo<br />
jurar amor, chorar pranto de sangue,<br />
Não creias, não, mulher: ele te engana!<br />
As lágrimas são gotas da mentira<br />
E o juramento manto da perfídia."<br />
Joaquim Manoel de Macedo<br />
Texto 2: "Teresa, se algum sujeito bancar o<br />
sentimental em cima de você<br />
E te jurar uma paixão do tamanho de um<br />
bonde<br />
Se ele chorar<br />
Se ele ajoelhar<br />
Se ele se rasgar todo<br />
Não acredite não Teresa<br />
É lágrima de cinema<br />
É tapeação<br />
Mentira<br />
CAI FORA"<br />
Manuel Bandeira
Os autores, ao fazerem alusão às imagens da lágrima sugerem que:<br />
(A) há um tratamento idealizado da relação homem/mulher.<br />
(B) há um tratamento realista da relação homem/mulher.<br />
(C) a relação familiar é idealizada.<br />
(D) a mulher é superior ao homem.<br />
(E) a mulher é igual ao homem.
A questão guarda a particularidade da referência à lágrima<br />
indicada no enunciado. Fora isso, poderia ser dito, de fato, que<br />
há um tratamento realista e até irônico, por parte dos autores,<br />
sobre as relações amorosas; mas é a imagem da lágrima que<br />
nos importa e, nesse sentido, há uma negação da mesma,<br />
mostrando o quanto o exagero está expresso no ato de chorar<br />
em frente à pessoa amada quando o homem o faz (“lágrima de<br />
cinema”, como dito por Manuel Bandeira). A sutileza está no<br />
fato de que tanto Bandeira quanto Joaquim Manuel de Macedo<br />
indicam que há, no senso comum, idealização nas relações,<br />
não realismo, veracidade. É a idealização que é, portanto,<br />
negada por eles.
(A)<br />
(B)<br />
(C)<br />
4) Os transgênicos vêm ocupando parte da imprensa com opiniões ora favoráveis ora desfavoráveis. Um<br />
organismo, ao receber material genético de outra espécie, ou modificado da mesma espécie, passa a<br />
apresentar novas características. Assim, por exemplo, já temos bactérias fabricando hormônios humanos,<br />
algodão colorido e cabras que produzem fatores de coagulação sangüínea humana. O belga René Magritte<br />
(1896 – 1967), um dos pintores surrealistas mais importantes, deixou obras enigmáticas.<br />
Caso você fosse escolher uma ilustração para um artigo sobre os transgênicos, qual das obras de Magritte,<br />
abaixo, estaria mais de acordo com esse tema tão polêmico?<br />
(D)<br />
(E)
A questão da transgenia apontada nesta questão está<br />
particularmente associada ao trecho que afirma que “Um<br />
organismo, ao receber material genético de outra espécie, ou<br />
modificado da mesma espécie, passa a apresentar novas<br />
características”. Logo, devemos estar atentos a ideia da<br />
mistura, da fusão de elementos diferentes que forma algo<br />
novo, talvez até híbrido – visivelmente percebido na imagem do<br />
“homem-peixe” da opção B
5) Cândido Portinari (1903-1962), em seu livro Retalhos de Minha Vida de Infância,<br />
descreve os pés dos trabalhadores.<br />
Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os<br />
espinhos. Pés semelhantes aos mapas: com montes e vales, vincos como rios. (...) Pés<br />
sofridos com muitos e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a<br />
terra, difícil era distingui-los. Agarrados ao solo, eram como alicerces, muitas vezes<br />
suportavam apenas um corpo franzino e doente.<br />
(PORTINARI, Cândido. Retrospectiva. Catálogo MASP)<br />
As fantasias sobre o Novo Mundo, a diversidade da natureza e do homem americano e a<br />
crítica social foram temas que inspiraram muitos artistas ao longo de nossa História. Dentre<br />
estas imagens, a que melhor caracteriza a crítica social contida no texto de Portinari é
(A)<br />
(B)<br />
(C)<br />
(D)<br />
(E)
Uma questão simples, que exige um nível de leitura bastante<br />
superficial. Como é comum no ENEM, a relação entre texto e<br />
imagem, em nível intertextual, é solicitada, principalmente<br />
quanto à sensibilidade do leitor – poder observar uma imagem<br />
sem estar isento de emoção. São apenas as opções D e E que<br />
causam alguma dúvida, pelo uso da fotografia, o que dá<br />
alguma percepção de verossimilhança; mas é na opção E que<br />
encontra-se a relação com trechos como “Pés disformes. Pés<br />
que podem contar uma história”, “Pés sofridos com muitos e<br />
muitos quilômetros de marcha”, que “Confundiam-se com as<br />
pedras”, uma provocação que a imagem indica, pois, pela<br />
deformidade e visíveis marcas da idade, do trabalho, etc,<br />
“difícil era distingui-los”.
1) (FUVEST)<br />
Chega!<br />
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.<br />
Minha boca procura a Canção do Exílio..<br />
Como era mesmo a Canção do Exílio.?<br />
Eu tão esquecido de minha terra ...<br />
Ai terra que tem palmeiras<br />
onde canta o sabiá!<br />
OUTRAS QUESTÕES<br />
(ANDRADE, Carlos Drummond de. “Europa, França e Bahia”. In:<br />
Alguma Poesia. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1964)<br />
Neste excerto, a citação e a presença de trechos ........ constituem um caso de ........ .
Os espaços pontilhados da frase acima deverão ser preenchidos, respectivamente, com o<br />
que está em:<br />
a) do famoso poema de Álvares de Azevedo / discurso indireto.<br />
b) da conhecida canção de Noel Rosa / paródia.<br />
c) do célebre poema de Gonçalves Dias / intertextualidade.<br />
d) da célebre composição de Villa-Lobos / ironia.<br />
e) do famoso poema de Mário de Andrade / metalinguagem.
Mais uma vez, Drummond retoma o clássico de Gonçalves<br />
Dias, citado nominalmente nos versos. Tal como no ENEM, a<br />
Fuvest aposta, aqui, no conhecimento do senso comum, obtido<br />
através de um texto fundamental para a construção da própria<br />
brasilidade. A intextualidade é um conceito genérico que, aqui,<br />
seria o mais bem aplicado, pois, ainda que abarque questões<br />
como metalinguagem, paródia, entre outros, não aplica<br />
nenhum desses nesta questão.
2) (UNICAMP-SP)<br />
Leia com atenção esse poema de Carlos de Oliveira e responda às questões que seguem.<br />
Lavoisier<br />
Na poesia,<br />
natureza variável<br />
das palavras,<br />
nada se perde<br />
ou cria,<br />
tudo se transforma:<br />
cada poema,<br />
no seu perfil<br />
incerto<br />
e calígrafo,<br />
já sonha<br />
outra forma.<br />
O princípio enunciado por Lavoisier, na Química, diz que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se<br />
transforma”.<br />
a) O que teria levado Carlos de Oliveira a dar a esse poema o título de “Lavoisier”?<br />
b) Como podem ser interpretados seus versos finais (“cada poema / no seu perfil / incerto / e calígrafo, / já<br />
sonha / outra forma.”)?
Um exemplo de uma típica questão interdisciplinar que aposta<br />
na interdisciplinaridade. Sem os conhecimentos obtidos nas<br />
áreas de Química e Biologia, ficaria bem mais difícil interpretar<br />
o poema e o sentido brincalhão do seu título.
A REDAÇÃO DO ENEM
Caracterizada por sempre abordar temáticas de cunho políticosocial,<br />
uma das particularidades da prova de Redação do ENEM é<br />
embasar a proposta em algo que flutue em torno de políticas<br />
públicas relacionadas ao tema – um caso bastante visível em<br />
algumas questões dentro das outras provas também.<br />
Na proposta de 2009, solicitou-se que o candidato refletisse sobre a<br />
seguinte questão: O INDIVÍDUO FRENTE À ÉTICA NACIONAL.<br />
Trata-se de uma oportunidade de questionar – “sem ferir os direitos<br />
humanos”, como sempre lembra a prova – aspectos cruciais da<br />
própria brasilidade. O que salta aos olhos é a presença constante,<br />
nas redações do Exame Nacional do Ensino Médio, de discutir os<br />
efeitos e consequências que certas práticas sociais têm na vida do<br />
cidadão brasileiro, preservando o caráter de unidade nacional<br />
que a prova, como um todo, guarda.
Apesar da impressão generalista que o tema nos impõe, é<br />
importante perceber que a exigência da habilidade de leitura do<br />
ENEM é solicitada, inclusive, na prova de Redação (que, em princípio,<br />
é apenas uma avaliação de produção textual). Isso é notável na<br />
organização da proposta de redação, que pede para que se inspire<br />
nos textos de apoio<br />
TEXTO 1:<br />
Millôr Fernandes
TEXTO 2:<br />
TEXTO 3:<br />
Lya Luft (adaptado)<br />
Contardo Calligaris (adaptado)
Os textos de apoio indicam, por sua vez, uma redução do<br />
tema ao sub-tema “honestidade” que, teoricamente,<br />
deveria nortear a questão da “ética nacional” apontada no<br />
enunciado da proposta.<br />
A seguir, veremos um texto modelar quanto à abordagem<br />
da proposta. Bastante consciente de seu posicionamento,<br />
o autor manipula muito bem as informações, produzindo<br />
um texto crítico, porém equilibrado.
Uma redação modelo*:<br />
Na década de 80, foi veiculado, em canais abertos da TV, uma propaganda de cigarros<br />
que usava como ícone um jogador da seleção brasileira: o Gerson. Versava essa propaganda sobre o<br />
certo e errado. O certo seria o sujeito sempre tirar vantagem, em qualquer situação em que estivesse.<br />
Essa ideia, a de que é correto sempre “se dar bem”, tem muito a ver com o caráter do<br />
político brasileiro e vai de encontro a questões elementares de ética. Se a tendência é sempre tirar<br />
proveito da situação para benefício próprio, como pode o indivíduo representar alguma parcela da<br />
população, por exemplo? A grande questão é que por mais que condenemos esse tipo de atitude,<br />
quando ela acaba sendo personificada através de alguma pessoa pública, temos uma forte tendência<br />
a fazer vista grossa em situações em que os dilemas morais corriqueiros se apresentam – o troco do<br />
pão que foi dado a mais e não o devolvemos; o “gato” na luz, na TV, na água; da fila “furada” nos<br />
bancos.<br />
Talvez a nossa indignação frente às atitudes não éticas exercidas por toda a classe política<br />
seja velada, porque sabemos que, no fundo, o político é, antes de sua função, um cidadão com os<br />
mesmos princípios que a maioria de nós. A grande diferença é que ele está mais exposto. Muito antes<br />
de pôr milhões de dólares na cueca, ele afanava algumas inocentes balinhas na fila do caixa do<br />
supermercado.<br />
Com certeza, a máquina pública facilita a vida do malandro. Mas o malandro só se torna<br />
um político corrupto porque, quando jovem, os preceitos éticos jamais lhe foram suficientes para<br />
moldar o seu caráter.<br />
*Texto de autoria de um vestibulando. Escrito em 2010.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES:<br />
Na década de 80, foi veiculado, em canais abertos da TV, uma propaganda de<br />
cigarros que usava como ícone um jogador da seleção brasileira: o Gerson. Versava essa<br />
propaganda sobre o certo e errado. O certo seria o sujeito sempre tirar vantagem, em qualquer<br />
situação em que estivesse.<br />
DEVE-SE TOMAR CUIDADO<br />
COM GENERALIZAÇÕES!<br />
(NESTE CASO, POSTERIORMENTE,<br />
O TEXTO CONSEGUE ARGUMENTAR<br />
DE FORMA COERENTE)<br />
EXEMPLOS INTEGRADOS<br />
COM O CONTEXTO NACIONAL<br />
DETERMINADOS TERMOS<br />
SUAVIZAM A POSTURA DO<br />
ESCRITOR, TORNANDO O<br />
TEXTO MENOS REDUCIONISTA.<br />
Essa ideia, a de que é correto sempre “se dar bem”, tem muito a ver com o caráter do<br />
político brasileiro e vai de encontro a questões elementares de ética. Se a tendência é sempre<br />
tirar proveito da situação para benefício próprio, como pode o indivíduo representar alguma<br />
parcela da população, por exemplo? A grande questão é que por mais que condenemos esse<br />
tipo de atitude, quando ela acaba sendo personificada através de alguma pessoa pública, temos<br />
uma forte tendência a fazer vista grossa em situações em que os dilemas morais corriqueiros se<br />
apresentam – o troco do pão que foi dado a mais e não o devolvemos; o “gato” na luz, na TV,<br />
na água; da fila “furada” nos bancos. (...)<br />
“DA” NO LUGAR DE “A”:<br />
FALTA DE<br />
COESÃO/PARALELISMO<br />
USO REDUNDANTE DO<br />
PRONOME OBLÍQUO